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O repórter TINTIM de Hergé, por Spielberg

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Órgão oficial da Associação Brasileira de Imprensa

PÁGINA 38

J ANEIRO 2012

PÁGINA 8 E EDITORIAL NA PÁGINA 2

CENSURA

Congresso dos EUA quer pôr uma rolha na internet PÁGINA 42

PERFIL

Gazzaneo, jornalista e militante político PÁGINA 31

DIREITOS HUMANOS

O acervo de Prestes agora é um bem público PÁGINA 29

CINEMA

Nelson Pereira fala do Tom Jobim que recriou FOTO MARTIN CARONE

PÁGINA 36

Datas: o centenário de Apolônio de Carvalho; os 90 anos de Leonel Brizola PÁGINAS 5 E 18

VIDAS ZÉ GRANDE • DANIEL PIZA • JOÃO BITTAR • BEATRIZ BANDEIRA • JERRY ROBINSON • RONALD SEARLE


EDITORIAL

DESTAQUES 03 E SPECIAL - Em 2012 há muito o que celebrar ○

PALMAS PARA O MESTRE O JORNAL DA ABI ENGALANA-SE nesta edição inaugural de 2012 com a antecipação das homenagens que considera devidas a uma das maiores expressões da comunicação no País em toda a sua História, o jornalista Alberto Dines, que em fevereiro próximo completa 80 anos de idade e 60 de atividade profissional. Nesse longo tempo, para honra nossa, manteve-se filiado à ABI, na qual ingressou quase imberbe, após satisfazer as rígidas exigências que a Casa impunha aos postulantes à vinculação ao seu quadro social, como ele relata em longa e minuciosa entrevista que concedeu aos nossos companheiros Francisco Ucha e Marcos Stefano. O JOVEM DINES PARECIA predestinado à atuação no cinema, pelo qual tinha fascínio, com este se familizaria, como precoce crítico, e por esta senda seguiria se apelos não surgissem para que se aprofundasse e profissionalizasse como jornalista. Foi este o umbral de uma trajetória apaixonante, que o fez íntimo e senhor dos diferentes aspectos da comunicação: o jornalismo impresso, em revistas e jornais; a editoração de publicações, como os pioneiros Cadernos de Jornalismo e Comunicação, criados e editados por ele quando dirigia o Jornal do Brasil; a crítica pela televisão, como faz atualmente em seu Observatório da Imprensa; o magistério especializado, que o levou a produzir estudos essenciais, como o justificadamente celebrado O Papel do Jornal. MAIS DO QUE O ARROLAMENTO do que ele fez e por onde passou, o vinco singular produ-

Jornal da ABI ÓRGÃO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA Editores: Maurício Azêdo e Francisco Ucha presidencia@abi.org.br / franciscoucha@gmail.com

Projeto gráfico e diagramação: Francisco Ucha Edição de textos: Maurício Azêdo Apoio à produção editorial: Alice Barbosa Diniz, Conceição Ferreira, Guilherme Povill Vianna, Maria Ilka Azêdo, Ivan Vinhieri, Mário Luiz de Freitas Borges.

CONSELHO FISCAL 2011-2012 Adail José de Paula, Geraldo Pereira dos Santos, Jarbas Domingos Vaz, Jorge Saldanha de Araújo, Lóris Baena Cunha, Luiz Carlos Chesther de Oliveira e Manolo Epelbaum.

Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas (Coordenador), Queli Cristina Delgado da Silva.

MESA DO CONSELHO DELIBERATIVO 2011-2012 Presidente: Pery Cotta Primeiro Secretário: Sérgio Caldieri Segundo Secretário: Marcus Antônio Mendes de Miranda

Diretor Responsável: Maurício Azêdo

COMO DINES EVOCA de forma serena, esta sua atuação se deu num período sombrio da nossa vida nacional, em que os militares usurpadores do poder e seus sócios e áulicos civis mergulharam o País em violências sem precedentes, com a censura, as prisões arbitrárias, as torturas infamantes, a privação dos direitos civis da grande massa do povo, através da escalação dos Presidentes da República pelo voto de meia dúzia de generais de quatro estrelas. Alberto Dines foi um grande protagonista e testemunha desses tempos de torpezas e iniqüidades. É esse grande brasileiro que recebe agora as manifestações de nosso respeito e nossa homenagem.

CONSELHO CONSULTIVO 2010-2013 Ancelmo Goes, Aziz Ahmed, Chico Caruso, Ferreira Gullar, Miro Teixeira, Nilson Lage e Teixeira Heizer.

Associação Brasileira de Imprensa Rua Araújo Porto Alegre, 71 Rio de Janeiro, RJ - Cep 20.030-012 Telefone (21) 2240-8669/2282-1292 e-mail: presidencia@abi.org.br

Conselheiros Efetivos 2011-2014 Alberto Dines, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Arthur José Poerner, Dácio Malta, Ely Moreira, Hélio Alonso, Leda Acquarone, Maurício Azêdo, Milton Coelho da Graça, Modesto da Silveira, Pinheiro Júnior, Rodolfo Konder, Sylvia Moretzsohn, Tarcísio Holanda e Villas-Bôas Corrêa.

REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Diretor: Rodolfo Konder Rua Dr. Franco da Rocha, 137, conjunto 51 Perdizes - Cep 05015-040 Telefones (11) 3869.2324 e 3675.0960 e-mail: abi.sp@abi.org.br

Conselheiros Efetivos 2010-2013 André Moreau Louzeiro, Benício Medeiros, Bernardo Cabral, Carlos Alberto Marques Rodrigues, Fernando Foch, Flávio Tavares, Fritz Utzeri, Jesus Chediak, José Gomes Talarico (in memoriam), Marcelo Tognozzi, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Mário Augusto Jakobskind, Orpheu Santos Salles, Paulo Jerônimo de Sousa e Sérgio Cabral.

REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS Diretor: José Eustáquio de Oliveira

Conselheiros Efetivos 2009-2012 Adolfo Martins, Afonso Faria, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Meirelles, Fernando Segismundo, Glória Suely Álvarez Campos, Jorge Miranda Jordão, José Ângelo da Silva Fernandes, Lênin Novaes de Araújo, Luís Erlanger, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho, Pery de Araújo Cotta e Wilson Fadul Filho.

Impressão: Gráfica Lance! Rua Santa Maria, 47 - Cidade Nova - Rio de Janeiro, RJ

Conselheiros Suplentes 2011-2014 Alcyr Cavalcânti, Carlos Felipe Meiga Santiago, Edgar Catoira, Francisco Paula Freitas,

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18 H ISTÓRIA - Meus encontros com o caudilho ○

19 MEMÓRIA - O primeiro regresso, por Rodolfo Konder ○

23 PERFIL - Um retrato ampliado de Edmundo Moniz, por Murilo Melo Filho ○

30 IMPRENSA - Vestígios de um passado criativo ○

31 PERFIL - Gazzaneo: Mais que jornalista, um homem de ação ○

34 CINEMA - Um festival de Festivais ○

36 C INEMA - Nelson Pereira dos Santos: “O cinema brasileiro nunca mais foi o mesmo depois de Rio 40 Graus” ○

38 QUADRINHOS - O repórter que não pára de crescer ○

39 LIVROS - Antes que nada mais exista ○

40 LIVROS - Sabino e Clarice e suas confidências da criação ○

40 HOMENAGEM - Adail, puro talento ○

42 INTERNET - Uma Sopa indigesta ○

SEÇÕES 0 A CONTECEU NA ABI 20 Um ano para homenagens a Marighella 22 Entidades resistem à ganância do Grupo Galileo ○

26 L IBERDADE DE I MPRENSA ○

29 D IREITOS H UMANOS Arquivo Nacional recebe acervo de Prestes ○

V IDAS 43 Zé Grande, Ronald Searle ○

44 Jerry Robinson ○

45 Daniel Piza ○

46 João Bittar ○

47 Beatriz Bandeira ○

Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Salete Lisboa, Sidney Rezende, Sílvio Paixão e Wilson S. J. Magalhães.

Conselheiros Suplentes 2010-2013 Adalberto Diniz, Alfredo Ênio Duarte, Aluízio Maranhão, Arcírio Gouvêa Neto, Daniel Mazola Froes de Castro, Germando de Oliveira Gonçalves, Ilma Martins da Silva, José Silvestre Gorgulho, Luarlindo Ernesto, Marceu Vieira, Maurílio Cândido Ferreira, Sérgio Caldieri, Wilson de Carvalho, Yacy Nunes e Zilmar Borges Basílio. Conselheiros Suplentes 2009-2012 Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Argemiro Lopes do Nascimento (Miro Lopes), Arnaldo César Ricci Jacob, Ernesto Vianna, Hildeberto Lopes Aleluia, Jordan Amora, Jorge Nunes de Freitas (in memoriam), Luiz Carlos Bittencourt, Marcus Antônio Mendes de Miranda, Mário Jorge Guimarães, Múcio Aguiar Neto, Raimundo Coelho Neto (in memoriam) e Rogério Marques Gomes. COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Carlos Felipe Meiga Santiago, Carlos João Di Paola, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria Ignez Duque Estrada Bastos e Marcus Antônio Mendes de Miranda. COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti. COMISSÃO DE DEFESA DA LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Presidente, Lênin Novaes; Secretário, Wilson de Carvalho; Alcyr Cavalcânti, Antônio Carlos Rumba Gabriel, Arcírio Gouvêa Neto, Daniel de Castro, Ernesto Vianna, Geraldo Pereira dos Santos,Germando de Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, José Ângelo da Silva Fernandes, Lucy Mary Carneiro, Luiz Carlos Azêdo, Maria Cecília Ribas Carneiro, Mário Augusto Jakobskind, Martha Arruda de Paiva, Orpheu Santos Salles, Sérgio Caldieri e Yacy Nunes. COMISSÃO DIRETORA DA DIRETORIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL Ilma Martins da Silva, Presidente; Manoel Pacheco dos Santos, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Mirson Murad e Moacyr Lacerda. REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Conselho Consultivo: Rodolfo Konder (Diretor), Fausto Camunha, George Benigno Jatahy Duque Estrada, James Akel, Luthero Maynard e Reginaldo Dutra. REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS José Mendonça (Presidente de Honra), José Eustáquio de Oliveira (Diretor),Carla Kreefft, Dídimo Paiva, Durval Guimarães, Eduardo Kattah, Gustavo Abreu, José Bento Teixeira de Salles, Lauro Diniz, Leida Reis, Luiz Carlos Bernardes, Márcia Cruz e Rogério Faria Tavares.

O JORNAL DA ABI NÃO ADOTA AS REGRAS DO A CORDO O RTOGRÁFICO DOS P AÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA , COMO ADMITE O DECRETO N º 6.586, DE 29 DE SETEMBRO DE 2008.

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08 DEPOIMENTO - Dines extraordinário!

zido por Dines está presente, como fruto de seu talento, de sua competência técnica e de sua concepção do alto sentido ético que a comunicação deve observar, no caráter inovador de inúmeras de suas criações, sobretudo no Jornal do Brasil, como a institucionalização da pauta diária de cobertura; a criação do departamento de pesquisa; o tratamento dos trabalhos fotográficos como um segmento e parte essencial da produção jornalística; a visão de que os assuntos devem ser apresentados com as suas diferentes conexões, e não como manifestações isoladas, desligadas de outros vínculos com a vida social; a valorização salarial dos profissionais. Foi esse conjunto de criações que deu ao saudoso Jornal do Brasil nos anos 1970 e parte dos anos 1980, sob a batuta de Dines, a merecida preeminência que o austero veículo da Condessa Pereira Carneiro alcançou em todo o País.

DIRETORIA – MANDATO 2010-2013 Presidente: Maurício Azêdo Vice-Presidente: Tarcísio Holanda Diretor Administrativo: Orpheu Santos Salles Diretor Econômico-Financeiro: Domingos Meirelles Diretor de Cultura e Lazer: Jesus Chediak Diretora de Assistência Social: Ilma Martins da Silva Diretora de Jornalismo: Sylvia Moretzsohn

05 CENTENÁRIO - Apolônio, herói de três pátrias


ESPECIAL

J

ornalistas têm verdadeira fixação por números. A grande imprensa não resiste ao poder de sedução das chamadas “datas redondas”. Elas se fazem presentes em todas as editorias. São corriqueiras as celebrações dos 80 anos de um escritor, as recordações de tantas décadas do término de determinada guerra, as lembranças póstumas de personalidades que completariam um século de vida. Pois o Jornal da ABI não foge à regra. Adere a ela e, especificamente neste 2012 que se inicia, o faz com entusiasmo. Afinal, trata-se de um ano fértil em termos de datas a serem celebradas. Logo de início, os destaques vão para o universo mágico dos traços. Nascido em 29 de fevereiro de 1932, o cartunista Jaguar completa 80 anos no próximo mês. Outro mestre do desenho que celebra oito décadas de vida este ano é Ziraldo Alves Pinto, nascido em Caratinga, Minas Gerais, em 24 de outubro. Em Mendoza, na Argentina, no mesmo ano de 1932, nasceu Joaquín Salvador Lavado, artista mais conhecido como Quino, humorista gráfico e criador de quadrinhos. Sua primeira e mais famosa personagem, Mafalda, nasceu em 1964. No Brasil, Mafalda desembarcaria em 1973, em plena ditadura militar, na revista Patota, da Editora Artenova. Mais recente na linha do tempo, uma vez que foi lançada em 1972, a revista O Balão teve curta duração – foram apenas oito números, e sempre com baixas tiragens. Mas marcou forte presença entre as publicações de quadrinhos underground. Na linha da crítica política e social, a revista, fundada por Laerte e Luiz Gê e publicada por alunos da Usp, revelou vários autores como os irmãos Paulo e Chico Caruso, Angeli, Gus e Xalberto. A temática de cada edição era variada, abordando desde o apoio à prática solidária de caronas no campus da universidade até discussões sobre a política nacional. Com essa receita, O Balão, há 40 anos, entrava para a história das revistas sobre hqs no Brasil.

Em 2012 há muito o que celebrar Uns dizem que este é o Ano Nelson Rodrigues. Outros afirmam que é o de Jorge Amado. Não importa: neste ano há muitas datas importantes para lembrar.

DESTAQUES TAMBÉM NO UNIVERSO LITERÁRIO

Ao menos quatro escritores, com atuações distintas, merecem ser especialmente lembrados este ano. Para muitos, 2012 será mesmo o ano de Nelson Rodrigues. No dia

POR PAULO CHICO

23 de agosto, o dramaturgo, jornalista e escritor recifense, morto em 1980, completaria 100 anos. Repórter policial durante longos anos, acumulou vasta experiência para escrever suas peças a respeito da sociedade – seus crimes sexuais, hipocrisia de valores e crises familiares. Sua primeira peça foi A Mulher sem Pecado, que lhe deu os primeiros sinais de prestígio dentro do cenário teatral. Outros sucessos vieram, como Os Sete Gatinhos, O Beijo no Alfalto, Boca de Ouro, Bonitinha, mas Ordinária, Toda Nudez Será Castigada e A Falecida, além do maior deles, Vestido de Noiva. Apaixonado por futebol, era torcedor fanático do Fluminense. Outro dos mais populares escritores brasileiros completaria um século de vida em 2012. Jorge Leal Amado de Faria nasceu em Itabuna, na Bahia, no dia 10 de agosto

de 1912. Tornou-se um dos mais queridos autores nacionais, com sucessos como Tieta do Agreste, Gabriela, Cravo e Canela e Teresa Batista Cansada de Guerra, além do clássico Dona Flor e Seus Dois Maridos. Seus livros foram traduzidos em 55 países, em 49 idiomas. Há exemplares em braille e fitas gravadas para cegos. Em 1994, Jorge Amado, que era membro da Academia Brasileira de Letras, viu a sua obra ser reconhecida com o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa. No ano seguinte, o mesmo prêmio foi entregue ao polêmico escritor português José Saramago, que em 16 de novembro completaria 90 anos. Saramago também recebeu o Nobel de Literatura em 1998 e seu livro Ensaio Sobre a Cegueira foi adaptado para o cinema por Fernando Meirelles em 2008. Em 31 de outubro de 1902 - portanto, há 110 anos -, nascia na cidade mineira de Itabira aquele que é apontado por muitos como o maior poeta brasileiro de todos os tempos. Carlos Drummond de Andrade estudou em Belo Horizonte e Nova Friburgo com os Jesuítas no Colégio Anchieta. Publicou sua primeira obra poética, Alguma Poesia, em 1930. É autor de José, cujos versos estão entre os mais populares, com a indagação ‘E agora, José?’.

NO CAMPO POLÍTICO, DUAS REFERÊNCIAS

2012 marca os 110 anos de nascimento de Juscelino Kubitschek de Oliveira, ocorrido em 12 de setembro, em Diamantina, Minas Gerais. Médico, militar e político, JK, como era popularmente conhecido, foi Prefeito de Belo Horizonte (1940-1945), Governador de Minas (1951-1955), e Presidente da República, entre 1956 e 1961. Foi o responsável pela construção da nova capital federal, Brasília. Durante todo o seu mandato como Presidente, o País viveu um período de notável desenvolvimento econômico e relativa estabilidade política. Com um estilo de governo inovador na política brasileira, Juscelino construiu em torno de si uma aura de simpatia e confiança entre os brasileiros. Impossível não destacar a figura de Evandro Lins e Silva – que também teria completado 100 anos de vida em 18 de janeiro de 2012. Nascido em Parnaíba, no Piauí, graduou-se na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1932. Ainda estudante já trabalhava como jornalista, ofício que manteve mesmo após formado advogado. Em

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FOTOMONTAGEM FRANCISCO UCHA

sua carreira jurídica, ocupou o cargo de Procurador-Geral da República e foi Ministro do Supremo Tribunal Federal, de setembro de 1963 a janeiro de 1969, quando foi aposentado por força do AI-6. Político, foi um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro, em 1947. Autor de diversas obras, foi membro da Academia Brasileira de Letras. Como jurista, utilizou seu talento de comunicador para defender com veemência, nos tribunais e na mídia, os direitos dos brasileiros. Sobretudo nos períodos de exceção democrática. Além das duas personalidades políticas citadas, 2012 marca os 80 anos de um importante movimento brasileiro – a Revolução Constitucionalista de 1932. Ela foi uma ação armada ocorrida no Estado de São Paulo, entre os meses de julho e outubro daquele ano, que tinha por objetivo a derrubada do Governo Provisório de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova Constituição para o Brasil. Foi, na verdade, uma resposta paulista à Revolução de 1930, a qual acabou com a autonomia de que os Estados gozavam durante a vigência da Constituição de 1891. O dia 9 de julho, que marca o início da Revolução de 1932, é considerado a data cívica mais importante do Estado de São Paulo e feriado estadual.

NA ÁREA CULTURAL, DIVERSOS NOMES. E UM EVENTO HISTÓRICO

Amácio Mazzaropi completaria 100 anos em 2012. Nascido em São Paulo, no dia 9 de abril de 1912, foi um ator e cineasta brasileiro responsável por levar milhares de pessoas às salas de projeção em todo o País, especialmente nas décadas de 1950 e 1960. Na infância, as seguidas férias na casa do avô materno, o português João José Ferreira, em Tremembé, o inspiraram na construção do personagem caipira que encantaria o público ao longo de sua carreira. É impossível também esquecer os 50 anos da única Palma de Ouro que o cinema brasileiro ganhou em Cannes. O ano foi 1962 e O Pagador de Promessas, filme de Anselmo Duarte estrelado por Leonardo Villar, Dionísio Azevedo e Glória Menezes, saiu consagrado da Riviera Francesa. Paulo Autran, que completaria 90 anos no dia 7 de setembro, teve atuações esporádicas no cinema e na televisão, com destaque para Terra em Transe (1967), filme de Glauber Rocha, e Guerra dos Sexos (1983), novela exibida pela TV Globo. Foi sobretudo um homem de teatro. Advogado por formação, era respeitado pelos colegas pelo seu talento e destacada atuação política. Ganhou os principais prêmios do teatro brasileiro, como o APCA, Shell e Molière. A temporada de sua 90ª peça – O Avarento, em 2006 – foi suspensa, pois o ator já apresentava problemas de saúde. Grande amiga de Paulo Autran e um dos ícones de beleza do País, a atriz Tônia Carrero fará 90 anos em 23 de agosto, festejando importante trajetória de papéis marcantes no cinema, teatro e televisão. Filha do ator 4

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Procópio Ferreira e da bailarina espanhola Aída Izquierdo, Bibi Ferreira também completará 90 anos, no dia 10 de junho. Atriz, cantora e diretora, é reconhecidamente uma das maiores artistas brasileiras, com espetáculos teatrais memoráveis como Gota D’Água, Bibi in Concert e Piaf, a Vida de uma Estrela da Canção. Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, festejaria um século de vida em 13 de dezembro deste ano. O artista, morto em 1989, foi músico, cantor e compositor – e uma das mais completas, criativas e originais figuras da música popular brasileira. Cantando acompanhado de sua sanfona, zabumba e triângulo, levou a alegria das festas juninas e dos forrós pé-de-serra, bem como a pobreza, as tristezas e as injustiças do sertão nordestino, para o resto do País, numa época em que a maioria das pessoas desconhecia o baião, o xote e o xaxado. No cenário internacional, 1962 marcou o boom dos Beatles em sua formação clássica, com John Lennon, George Harrison, Ringo Star e Paul McCartney – este último, aliás, completará 70 anos em 18 de junho. 2012 registra ainda os 90 anos da Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, que ocorreu em São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro daquele ano, no Teatro Municipal. O evento representou uma renovação de linguagem e ousada aposta na experimentação, marcando a passagem da arte para o modernismo. Apresentou novas idéias e conceitos, como a poesia através da declamação, que antes era só escrita; e a arte plástica exibida em telas, esculturas e maquetes de arquitetura, com desenhos arrojados. Participaram da Semana expoentes do modernismo brasileiro, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Heitor Villa-Lobos, Tarsila do Amaral, Tácito de Almeida e Di Cavalcânti entre outros.

REFERÊNCIAS NA ÁREA DA COMUNICAÇÃO

Pernambucano de Belo Jardim, Ademar Casé nasceu há 110 anos. Pioneiro do rádio, criou o Programa Casé, primeira atração de rádio comercial do Brasil, iniciando suas transmissões em 14 de fevereiro de 1932 – ou seja, há 80 anos. Nas décadas de 1930 e 1940, ajudou a revolucionar o rádio brasileiro, sendo o primeiro a pagar cachê aos artistas e a fechar um contrato de exclusividade – em 1933, com Silvio Caldas. Fez o primeiro jingle, a primeira novela radiofônica e lançou diversos artistas, como Custódio Mesquita e Noel Rosa. Em 1951, associou-se a Assis Chateaubriand em uma nova aventura que se iniciava: a televisão. No novo veículo, emprestou sua criatividade a programas como Noite de Gala e a comerciais produzidos pela agência de propaganda Midas. A publicidade também foi a paixão e o setor de criação em que Bastos Tigre obteve seu maior sucesso profissional. Nascido em Recife em 12 de março de 1882 – feitas as contas, há 130 anos -, era também bibliotecário, com-

positor, humorista, jornalista e poeta, com inúmeras obras publicadas. Contudo, foi mesmo no setor de propaganda o seu maior êxito. É dele, por exemplo, o slogan da Bayer que correu o mundo, garantindo a qualidade dos produtos da empresa: ‘Se é Bayer é bom’, afirmava. Prestou concurso para Bibliotecário do Museu Nacional (1915) com tese sobre a Classificação Decimal. Mais tarde, transferiu-se para a Biblioteca Central da Universidade do Brasil, onde serviu por mais de 20 anos. Em 12 de março é comemorado o Dia do Bibliotecário, data instituída em sua homenagem.

AS TRÊS PRIMEIRAS HOMENAGENS DESTA EDIÇÃO

A publicação, as personalidades e os eventos citados até este ponto serão, merecidamente, alvo de homenagens na imprensa ao longo deste ano. Séries especiais de reportagens e entrevistas certamente serão pautadas pelos principais jornais. Nesta sua primeira edição do ano, o Jornal da ABI faz referências a três importantes nomes brasileiros. O primeiro deles, considerado um mestre do jornalismo, está em plena atividade profissional. Alberto Dines, nascido no Rio de Janeiro em 1932, completará 80 anos no dia 19 de fevereiro. A partir da página 8, os leitores do Jornal da ABI poderão conferir uma extensa entrevista com Dines sobre sua carreira. O outro homenageado desta edição, por meio de um perfil com depoimentos de sua esposa, filhos e amigos, é Apolônio de Carvalho, nascido em Corumbá, em 9 de fevereiro de 1912. Engajado na luta pelos ideais socialistas e contra os regimes de opressão, foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e da ANL (Aliança Nacional Libertadora). Atuou clandestinamente contra a ditadura militar no Brasil e sua história pode ser conferida a partir da página 5. O ano de 2012 também servirá para lembrar a trajetória do gaúcho Leonel de Moura Brizola, nascido em Carazinho, em 22 de janeiro de 1922. Lançado na vida pública por Getúlio Vargas – seu padrinho de casamento – foi o único político eleito pelo povo para governar dois Estados diferentes, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Esteve por dois mandatos à frente do Governo fluminense. Sua trajetória inclui a histórica resistência ao golpe militar de 1964, o período de exílio no Uruguai e o projeto dos Centros Integrados de Educação Pública, os Cieps, escolas idealizadas pelo professor Darcy Ribeiro, com prédios projetados por Oscar Niemeyer, construídos, em sua maioria, em regiões carentes da capital e do Estado. Brizola, que teria completado 90 anos este ano, faleceu no Rio de Janeiro em 2004. Nesta edição, Paulo Ramos Derengoski é autor de artigo sobre Leonel Brizola, publicado na página 18. Claro que não citamos todas as datas passíveis de comemoração neste texto, mas aqui há um bom panorama deste que poderá ser um ano repleto de surpresas.


AVANIR NIKO

CENTENÁRIO

Renée e seu filho mais velho, RenéLouis, seguram o retrato de Apolônio: amor pela justiça e pelas causas sociais.

APOLÔNIO D

as lutas contra as ditaduras no Brasil à participação na Guerra Civil Espanhola e na Resistência Francesa contra o fascismo, Apolônio de Carvalho tem uma história intensa de luta por um ideal inquebrantável de justiça social. Filho de um soldado sergipano e mãe gaúcha, ele completaria seu centenário no dia 9 de fevereiro, com uma vida digna de ser contada em livros, filmes e salas de aula. Sul-mato-grossense de Corumbá, foi militante da Aliança Nacional Libertadora-ANL, do Partido Comunista Brasileiro-PCB, fundou o Partido Comunista Brasileiro RevolucionárioPCBR e foi o primeiro membro oficial do Partido dos Trabalhadores-PT. A mente que sonhava com a medicina – sempre com o propósito de ajudar o próximo – percorreu caminhos diferentes que o levaram para longe, em todos os sentidos. “Independentemente da posição política, Apolônio sempre teve um interesse, uma preocupação mais forte com os outros. Esse amor pela justiça e pelas causas sociais já vem da pessoa dele”, conta a esposa e companheira de lutas, Renée. Apolônio começou sua trajetória de lutas libertárias em 1933 ao ingressar na Escola Militar de Realengo – convencido pela mãe – e se tornar tenente do Exército. Foi servir em Bagé, no Rio Grande do Sul, e dois anos depois entrou para a Aliança Nacional Libertadora, que

HERÓI DE TRÊS PÁTRIAS A imagem do escritor Jorge Amado celebra o combatente da Aliança Nacional Libertadora, da Guerra Civil da Espanha e da Resistência Francesa. POR PRISCILA MAROTTI reunia liberais, socialistas e comunistas. Em junho de 1935 a ANL foi declarada ilegal e Apolônio foi preso pela primeira vez e expulso do Exército pelo Governo de Getúlio Vargas. Na prisão encontrou outros grandes nomes da História da luta contra as ditaduras, como Olga Benário, Luís Carlos Prestes e o escritor Graciliano Ramos, que descreveu as histórias das centenas de presos políticos em seu livro Memórias do Cárcere. Pessoas que compartilhavam dos mesmos propósitos e sentimentos em relação à sociedade e aos direitos humanos.

ENGAJAMENTO NA EUROPA

Ali, em meio à efervescência de ideais aprisionados, tomou conhecimento do PCB, ao qual se filiou ao ser solto, em 1937. Sua saga fora do Brasil começa em

seguida, quando é designado para embarcar para a Espanha, junto com outros vinte brasileiros, e combater nas Brigadas Internacionais contra o golpe fascista do General Francisco Franco. Por ter sido voluntário da causa até 1939, ganhou a cidadania espanhola, em 1996, e participou, como convidado, das homenagens que o Governo da Espanha prestou aos brigadistas, na passagem dos 60 anos da Guerra Civil. Ao deixar a Espanha, em fevereiro de 1939, Apolônio segue para a França, onde fica em campos de refugiados até maio de 1940, quando consegue fugir, dirigindose para Marselha. É lá que ingressa na Resistência Francesa, em 1942, da qual se torna comandante da guerrilha dos partisans para a região Sul, e conhece Renée, a jovem militante que se tornaria sua companheira para o resto da vida.

“Ele era bonito e tinha um bigode sulamericano lindo. O jeito cordato, gentil, preocupado em se relacionar e ouvir o que as pessoas tinham a dizer chamou minha atenção. Posso dizer que do primeiro dia em que nos conhecemos até o última dia de sua vida o Apolônio sempre foi a mesma pessoa justa, otimista e muito certa de seus propósitos”, lembra a esposa, francesa de nascimento. Na França, foi coronel da Resistência na luta contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial e recebeu a Cruz de Guerra e o grau de Cavaleiro da Legião de Honra. Em janeiro de 1944, o casal chegou a libertar 23 militantes, após organizarem um ataque à prisão da cidade de Nîmes. As lutas contra a repressão de um dos maiores regimes ditatoriais do mundo continuam, perseveram, e Apolônio seJORNAL DA ABI 374 • JANEIRO DE 2012

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MARCO ANTÔNIO REZENDE

CENTENÁRIO APOLÔNIO, HERÓI DE TRÊS PÁTRIAS

gue em frente, comandando a liberação das cidades de Carmaux, Albi e Toulouse, que, hoje, comemoram seu aniversário no mesmo dia, 16 de agosto. “A biografia de Apolônio é linda. Ele tem uma história de lutas incansáveis, de resistência e persistência em meio a tantas batalhas, a tanto sofrimento, mas, principalmente, a tantas vitórias. Eu destacaria três características principais do nosso herói de três pátrias: a coragem, o destemor e a coerência. Essas, sem dúvida, marcaram a vida do Apolônio e de quem conviveu com ele”, opina o cineasta Silvio Tendler, diretor do documentário Utopia e Barbárie, que mostra alguns dos mais polêmicos episódios dos últimos séculos, como o Holocausto, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, a Revolução de Outubro e o ano de 1968 no mundo. Retratos de quem sonhou e lutou pela liberdade, como Apolônio. Em meio a todas as adversidades, nasce, em novembro de 1944, o primeiro filho do casal, René-Louis. Quando é declarado o fim da guerra, a família está em Paris, de onde embarca, no ano seguinte, para o Rio de Janeiro. Em 1947 nasce o segundo filho, Raul. Apolônio, Renée e os filhos passam a viver na clandestinidade, militando entre Rio e São Paulo até 1953, quando ele parte para um curso na União Soviética que dura cerca de quatro anos. Em 1955, a esposa o encontra em Moscou e a família volta ao Brasil em 1957, vivendo na semilegalidade até o golpe militar de 1964.

OS PASSOS DO PAI

Após essa data, Apolônio passa a viver em profunda clandestinidade no Estado do Rio de Janeiro, longe da família. Os filhos seguem os passos do pai. René-Louis se engaja na luta armada contra a ditadura militar instalada em 1964; é preso e exilado no Chile, onde ficou detido no Estádio Nacional, e, posteriormente, é exilado na França. Raul também fez parte da resistência armada em 1968. Ficou preso três anos no presídio de Ilha Grande.

“Ele deixou muitos ensinamentos. A coragem e a integridade com que enfrentava as adversidades marcaram tanto quanto a luta pela independência e pela igualdade social. Ele, pessoalmente, não tinha vontade de ser um dirigente. Só queria ensinar as pessoas e vê-las crescer. Acho que o principal legado que ele me deixou é a consciência de que não deve haver diferença alguma entre o que se fala e o que se faz”, conta o filho mais velho, René-Louis. Seu irmão Raul conta que um dos principais ensinamentos que seu pai deixou foi a capacidade de ouvir. “Em uma época em que as pessoas queriam expressar ou até impor opiniões, cheias de verdades, ele se abria a prestar atenção no que o outro tinha a dizer, avaliava, apresentava uma visão crítica, sempre aberta às novidades. Meu pai nunca deixou seus ideais de lado, mas apreciava o diferente, o novo, e tudo isso com um bom humor que o acompanhava aonde fosse.” Em 1967, após divergências com o Comitê Central do Partido Comunista, Apolônio deixa o PCB e, em abril de 1968, juntamente com Mário Alves, Jacob Gorender e outros dissidentes do partidão, funda o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. Em janeiro de 1970, em meio ao caos e à repressão que atingiram cruelmente militantes do PCBR, Apolônio e Mário Alves são presos no Rio e Jacob Gorender, em São Paulo. “Eu conheci Apolônio na prisão. Foi uma figura extremamente marcante, que conseguiu resistir à tortura e levar para dentro do cárcere seus ideais intactos. Lá, fazíamos exercícios físicos, realizávamos discussões e conversávamos sobre os mais diversos temas. Foi o Apolônio que despertou isso dentro da prisão. E, acima de tudo, percebíamos que era uma pessoa extremamente educada, do tipo que abre a porta e manda flores”, lembra o jornalista Álvaro Caldas, que teve seu primeiro contato com a trajetória de Apolônio quando trabalhava no Jornal do Brasil, na década de 1960, e veio a se tornar militante do PCBR.

Apolônio e Renée conheceram-se na resistência à ocupação da França pelos nazistas. Ela estava com 15 anos. Nasceu ali um amor que se estendeu por mais de 60 anos.

DE VOLTA A PARIS

ACERVO ABI

Foi na ABI, numa homenagem póstuma ao jornalista português Paulo de Castro, seu companheiro nas lutas libertárias na Europa, que Apolônio fez sua última intervenção pública.

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A década de 1970 continua intensa e caótica. Em fevereiro, Raul e RenéLouis também são presos. Em junho, Apolônio e outros 39 presos políticos brasileiros são libertados, trocados pelo embaixador alemão que havia sido seqüestrado por um comando revolucionário no Rio de Janeiro. Em 1971, René-Louis é trocado, junto com 69 outros presos políticos, pelo embaixador da Suíça e, em 1972, Raul sai da prisão. Após a libertação de Raul, a família se encontra em Paris, mas durante os anos fora do Brasil Apolônio mantém contato e se articula com os exilados no exterior. A volta às terras brasileiras acontece em outubro de 1979, depois da Anistia de agosto. É quando se aproxima de grupos que trabalhavam para criar o PT, tornando-se um de seus fundadores. Permanece na direção do novo partido até 1987, quando se afasta por orientação médica. “É certo que, entre nós, o companheirismo estará sempre associado ao sentido humanista inscrito na luta política que abraçamos. Mas nesse caso, a memória transcende a afinidade pessoal e a amizade se torna um dever, de reiterar valores e caminhos que ele defendeu e seguiu muitas vezes com o risco da própria vida. Hoje, as referências de Apolônio ainda guiam os passos e encorajam as decisões daqueles que compartilham dos mesmos compromissos diante da nossa História”, disse o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante uma home-

nagem a Apolônio e Renée, realizada em junho de 2009, ano da França no Brasil. Apesar das limitações da saúde e da idade, Apolônio prosseguiu um militante convicto. Foi transformado no personagem Apolinário por Jorge Amado, escritor que o chamava de “herói de três pátrias”. Conhecido pelo otimismo, a fala mansa e a polidez, dedicou-se a escrever seu livro de memórias, Vale a Pena Sonhar, lançado em 1997 pela Editora Rocco e que inspirou um documentário de mesmo nome, produzido em 2003 e dirigido por Stella Grisotti e Rudi Böhm. Seu último discurso em público foi feito na ABI, no dia 6 de abril de 2005, durante uma homenagem a Paulo de Castro, escritor português acolhido no Brasil como exilado político e companheiro de Apolônio em uma de suas passagens por um campo de concentração na Europa. Pouco mais de cinco meses depois, Apolônio morre aos 93 anos de insuficiência respiratória, em 23 de setembro. A família de Apolônio acertou a doação de seu acervo ao Arquivo Nacional, a exemplo do que fez a de Luiz Carlos Prestes. A entrega será em fevereiro, no aniversário de Apolônio, pelas mãos da viúva, Renée, e de seus filhos, Raul e RenéLouis, que relembrou emocionado para o Jornal da ABI: “Este é o centenário de uma geração que lutou e não desistiu de batalhar por seus ideais, onde quer que fosse. Uma geração que se manteve firme dentro de seu propósito e, até hoje, é exemplo de dignidade e perseverança.”


FOTOS ACERVO FAMILIAR

Com a bola de futebol, o menino Apolônio faz pose em 1916. Oito anos depois, numa foto com a irmã, Maria. Acima, Apolônio em 1927, e à direita, nas ruas de Marselha com Joaquim Silveira dos Santos, em 1941.

Acima, Apolônio (terceiro da esquerda para a direita)com membros da Resistência que participaram da libertação de Toulouse. Abaixo, em 1946, na Associação Nacional Francesa dos Partisans e Ex-atiradores (segundo em pé, da esquerda para a direita).

No alto, Apolônio (primeiro à direita, em pé)com a delegação dos sindicalistas brasileiros, na China, em 1962. Abaixo, na inauguração do Monumento às Brigadas em Madri, em 1996.

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DEPOIMENTO

Dines

!

extraordinário

O rapaz que sonhava ser cineasta se tornou um dos maiores jornalistas do País. Um exemplo a ser seguido. POR FRANCISCO UCHA COM MARCOS STEFANO FOTOS MARTIN C ARONE DOS SANTOS

m 1950, com 18 anos, Dines tinha uma certeza: queria ser cineasta. O mundo tentava esquecer a tragédia da Segunda Grande Guerra. O cinema vivia um período dourado, com roteiros densos nos Estados Unidos e o surgimento do neo-realismo na Europa. A Vera Cruz acabara de ser fundada com a promessa de criar uma Hollywood brasileira. E o garoto, filho de imigrantes, tinha parado os estudos para se lançar na vida. Seu sonho começou a se concretizar de outra maneira: passou a escrever sobre cinema numa revista da comunidade judaica. Daí para se tornar repórter na revista Visão foi um pulo. Era crítico de cinema e logo estaria cobrindo a área de cultura. Mais tarde, chegaria à política, cobrindo também o Itamarati. Assim, descobriu seu verdadeiro ofício: ser jornalista. E a partir daí não parou mais. Teve uma trajetória profissional de fazer inveja, sempre com intervenções decisivas nas publicações por onde passou: repórter na revista Manchete; editor na Última Hora; fez uma revolução no Diário da Noite; deu corpo ao projeto da revista Fatos & Fotos, e depois, chegou ao Jornal do Brasil, onde criou uma máquina de produzir notícias com extremada qualidade. Como se não bastasse, aceitou um desafio: ensinar jornalismo na Puc-Rio. A cadeira? Jornalismo Comparado, claro. Uma de suas criações. No JB enfrentou como pôde as agruras impostas pela ditadura militar, sobrevivendo ao jogo político do dono do jornal. “Eu incomodava. Acho que não incomodei o suficiente, reconheço, por isso tive que começar a fazer análise para agüentar esse horror, essa divisão interna!”, desabafou Dines nesta entrevista exclusiva que será publicada em duas partes a partir desta edição do Jornal da ABI. Sim, porque são 80 anos vividos intensamente e 60 anos de profissão que contam uma boa parte da História da imprensa brasileira. E nós não podíamos perder essa oportunidade. E o sonho de trabalhar em cinema? Realizado, claro. Escreveu roteiros e dirigiu um documentário. Pouca coisa não é. Leia.

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Jornal da ABI – O Senhor está completando 80 anos de idade e 60 de profissão. Como foi o início de sua carreira?

Alberto Dines – Na verdade, são 60 anos na carteira assinada, mas comecei a trabalhar antes. Minha carteira foi assinada no dia 25 de agosto de 1952, Dia do Soldado e data de aniversário de casamento de meus pais. Mas antes eu fui freelancer, trabalhei na Cena Muda, fazendo crítica de cinema por um ou dois anos. Fui crítico de cinema, quer dizer a revista era semanal, era uma revista popular, mas eu tinha lá quatro páginas de crítica séria, radical. Até hoje guardo uma coleção. Aqueles tempos foram marcantes, assim como minha entrada na ABI, logo depois. Naquela época era mais difícil entrar na ABI do que no Sindicato. E isso é muito importante, porque a ABI tinha Comissão de Sindicância para evitar a picaretagem, cada novo sócio era submetido à reunião de diretoria. Já o Sindicato era literalmente uma agência de turismo. Ao entrar, você garantia 50% no preço da passagem de avião e outras vantagens, como a isenção do imposto imobiliário. Por outro lado, o jornalista tinha que trabalhar em vários empregos para se manter,

ainda que ficasse muito tempo neles e pudesse fazer carreira. Jornal da ABI – Ser jornalista foi a realização de um sonho ou puro acidente?

Alberto Dines – Definitivamente, meu sonho não era ser jornalista. Quando eu comecei, aos 18 anos, tinha acabado de sair da adolescência e começava a descobrir o mundo. Havia parado os estudos. Então, resolvi entrar no cinema, queria ser cineasta. Eram os anos dourados do cinema, com o cinema europeu do pós-guerra, o neorealismo italiano e francês. O cinema americano de conteúdo estava surgindo, apesar de logo depois ter começado o macartismo. Surgiu uma oportunidade de escrever sobre cinema no jornal da comunidade israelita. Não pagava nada, quando eu tinha um assunto, escrevia. Mas o secretário de Redação era um rapaz, jornalista profissional ligado ao esporte, muito competente, chamado Levi Cleiman. Além da revista, na época, ele era também secretário de Redação da Editora Americana, que ficava na Rua Visconde de Maranguape, na Lapa. A Editora Americana publicava a Revista da Semana, a Cena Muda e mais alguma coisa infantil. Um dia, Clei-


“Eu não conhecia nenhum jornalista, mesmo entre os mais velhos, que tivesse carteira assinada e um bom salário.” man chegou dizendo que precisava de um crítico e me chamou para escrever lá. Receberia alguma coisa, não um salário, mas um pró-labore, ou melhor, um vale. Comecei a colaborar toda semana, religiosamente. Jornal da ABI – O senhor assistia aos filmes antes de eles serem lançados?

Alberto Dines – Era raro. Havia muitos filmes, e eles ficavam pouco tempo em cartaz. O circuito de cinemas era enorme, então praticamente toda noite havia um filme novo para ver. Era muito intenso! E existia uma associação de críticos cinematográficos no Rio da qual eu fazia parte, e ela participava de algumas atividades, digamos, políticas, inclusive do Cinema Novo, que estava surgindo, e também havia um movimento para exigir a exibição obrigatória de filmes nacionais, na proporção de 8 por 1. Havia um movimento reivindicatório muito interessante. Algumas vezes, quando nos reuníamos, exibiam algum filme de forma inédita. Mas o negócio era ver no cinema, o que inclusive era mais interessante, pois dava para sentir o público. Jornal da ABI – Seus pais apoiaram sua decisão de se iniciar no jornalismo?

Alberto Dines – A decisão mais complicada foi parar de estudar. E aí eu tenho que explicar uma coisa: desde cedo eu fazia parte de um movimento socialista sionista. Meu pai, na Rússia, tinha sido desse movimento. Era social-democrata, não burguês, a favor do trabalhador. Esse movimento foi um dos principais responsáveis pela construção do Estado de Israel. Quando foi fundado no Brasil, ganhou contornos mais revolucionários. Exigia que a pessoa tivesse uma profissão manual, que não fosse de uma profissão liberal, pois era muito comum judeu ser médico, engenheiro, advogado, e o movimento causou traumas nas famílias pequeno-burguesas judaicas que faziam sacrifícios para seus filhos estudarem e se formarem como médicos, engenheiros, advogados. De repente, os filhos paravam de estudar para se tornar lavradores, operários, motoristas. Foi traumático pra muita gente. Para mim, não. Tomei essa decisão com muita tranqüilidade. Eu estava no segundo científico, no Colégio Andrews, o melhor do Rio de Janeiro, e mesmo com meu pai sendo parte importante desse movimento, houve resistência. Minha mãe não concordava, mas acabou aceitando. Jornal da ABI – O senhor não terminou o curso científico?

Alberto Dines – Não terminei. Tinha sido reprovado no segundo ano científico e tive que fazer segunda época, que era a recuperação. Passei nas duas matérias, Matemática e Geometria, mas fui ao colégio falar com o diretor Flexa Ribeiro e disse que não ia mais me matricular. Ele ficou surpreso e falou para eu terminar o científico, mas eu não quis continuar. Jornal da ABI – Como seu pai chegou ao Brasil?

Alberto Dines – Meu pai chegou ao Brasil em 1926 ou 27. Veio sozinho, explorar a terra. Minha mãe, com quem já estava casado, chegou três anos depois. Ele nasceu na região da Ucrânia que se tornaria, após a Primeira Guerra, a Polônia. Além do ucraniano, que era uma língua mais grosseira e menos literária, falava bem russo e polonês. Fez três anos de serviço militar na artilharia, comandando um canhão de 75, o mais móvel daqueles tempos. Ainda guardo fotos dele de uniforme, elegantíssimo. Depois, fez curso de secretariado, aprendendo rudimentos de organização, contabilidade, datilografia. Como a guerra deixou uma imensa população de refugiados, ele se ligou a comunidades humanitárias e foi trabalhar em uma organização judaica internacional de ajuda a imigrantes. Só que havia ainda uma grave crise econômica. Em 1923 houve uma das maiores inflações da Alemanha e que arrastou toda a Europa para o buraco. Para piorar, a Polônia era uma ditadura. A Constituição brasileira do Estado Novo, de 1937, chamada Polaca, era uma Constituição autoritária copiada da Constituição polonesa desses anos. Em meio a uma situação dramática, meu pai precisa sair. Conseguir o visto para os Estados Unidos era difícil. Ele conseguiu um para a Palestina, que estava sob domínio inglês, mas não foi. Imagino que o motivo tenha sido justamente o casamento, pois o visto era para uma pessoa solteira. Primeiro foi para Curitiba, mas como a instituição para a qual trabalhou era ligada a uma organização que funcionava no Rio e que precisava de um secretário administrativo, foi para a então capital federal. Foi perseguido pelo pendor integralista do Governo Vargas, mas perseverou. Ele era um ativista social típico e eu herdei isso dele. Talvez por isso ele nunca chegou a mim e me pediu para mudar minha decisão de largar a escola; via que eu estava seguindo um caminho que era igual ao dele, só que em outro tempo. Como eu tinha parado os estudos e queria trabalhar em cinema, tive dificuldade para entrar num mercado que es-

tava começando. A Vera Cruz estava iniciando, mas eu morava no Rio. Tive que me virar e fui fazer documentários com um cinegrafista chamado Isaac Rozemberg, tio do premiado cineasta baiano Leon Rozemberg. Isaac trabalhava para o Governo, corria o País inteiro. Eu e um amigo fizemos a edição desse trabalho. Meu negócio era cinema, mas surgiu a oportunidade de ganhar um dinheirinho fazendo crítica de cinema, que era “cinema”. Eu só não me dei conta na época de que o jornalismo ia acabar sendo mais forte, ainda mais forte. O jornalismo estava mais organizado; o cinema ainda estava começando... Não que não tivesse tentado. O Nelson Pereira dos Santos é um pouquinho mais velho do que eu; na época em que eu pretendi fazer o curso de cinema em Paris, ele já estava lá, cursando. Não sei como ele tinha conseguido, mas eu não consegui, já que tudo era na base do pistolão. Tinha que ter carta de recomendação, e eu não tinha. Se eu tivesse feito o curso, aí talvez... Jornal da ABI – O Brasil correu um sério risco de ter mais um excelente cineasta...

Alberto Dines – Era um risco (risos), mas eu ainda não desisti com relação ao cinema. Já fiz algumas coisinhas. No início, realizei documentários e ganhei até prêmio no Festival da Juventude, promovido pelo Partido Comunista, que na época estava semilegalizado; ele tinha sido proibido em 1947, mas funcionava atrás do diário comunista Imprensa Popular. O filme se chamava Secas e tinha como narrador Cid Moreira, que estava começando sua carreira; a sonoplastia ficava por conta de um rapaz chamado Tommy Olenewa, filho de uma bailarina russa do Teatro Municipal; era um grande sonoplasta. Quer dizer, não era algo amador. Trabalhamos noites a fio para fazer a montagem. Depois, já atuando no jornalismo e morando em São Paulo, fiz dois roteiros. Jornal da ABI – Quando aconteceu isso?

Alberto Dines – Logo que me profissionalizei, em 1952. Um grupo dos Estados Unidos estava lançando no Brasil a Visão, uma nova revista em formato americano, estilo Veja. Não era a primeira, pois Rubem Braga e Joel Silveira já haviam lançado Sete Dias, mas essa publicação não durou muito. A imprensa brasileira passava por um grande momento. O Diário Carioca passou por reforma nas mãos do Pompeu de Souza, mudando a estrutura da Redação; antes, haviam lançado a Última Hora e a Tribuna da Im-

prensa. A Manchete também estava começando. O Juscelino ainda não tinha aparecido no grande cenário, mas havia aquela efervescência cultural, artística, muito interessante. No Clube do Cinema, do qual eu era sócio, os diretores eram o Vinícius de Moraes, então um diplomata que passava grande parte do tempo em Los Angeles, e o jornalista Alex Viany, que lançou o Nelson e foi um grande teórico, autor de Introdução ao Cinema Brasileiro, considerada a primeira obra sobre a filmografia nacional. Vivíamos nesse ambiente, na Cinelândia, no Vermelhinho. Ali também ficavam a ABI, o Ministério da Educação, o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, a Escola de Belas-Artes. Das 17 às 20 horas, o Rio de Janeiro estava ali, e o resto estava trabalhando nas Redações, que também não ficavam longe. Quinzenal, a Visão era uma revista de análise e não de notícias quentes. O diretor precisava de alguém que cobrisse cultura e pediu ao chefe de Reportagem Nahum Sirotsky para arrumar essa pessoa. Nahum tinha trabalhado como repórter no Diário da Noite e era um aventureiro, uma verdadeira estrela, capaz de pular de pára-quedas na selva para fazer uma cobertura. Como me conhecia daquele ambiente, ele me telefonou e fez a proposta; teria salário e carteira assinada. Eu não conhecia nenhum jornalista, mesmo entre os mais velhos, que tivesse carteira assinada e um bom salário. Aceitei e tive que me profissionalizar. Comecei a fazer matérias todas as semanas. Aprendi muito com alguns chefes que, mesmo sendo norte-americanos, liam o português muito bem. Uma das coisas que ensinaram foi escrever no padrão de lá, usando a pirâmide invertida, com lide e sublide. Por aqui, isso não era comum. O pessoal ainda preferia o “nariz-de-cera”. Poucos meses depois, eles decidiram deixar o Rio e ir para São Paulo, onde estavam o capital e os grandes negócios. A Redação e o departamento comercial passaram a funcionar na capital paulista e eu recebi uma oferta de ir junto. Era solteiro e ia ganhar 30% a mais por ir para longe da minha base, além de ajuda com passagens. Por conta daquele movimento político, já conhecia a cidade, que então estava em ebulição por conta das comemorações do Quarto Centenário, um processo cultural espetacular. Tinha ballet, teatro, música. A cidade estava vivendo um clima de renovação, havia a Bienal, o TBC sendo lançado. No Rio havia teatro com grandes figuras, como o Procópio, mas não tinha a mesma importância. A Editora

Abril já existia e a Visão era impressa lá. Como ia sempre para o Rio para ver meus pais, de 15 em 15 dias, trazia os fotolitos, que ainda eram filmados lá, para São Paulo e ganhava mais uns trocados. O negócio do fotolito foi um avanço extraordinário. Trazia tudo numa grande pasta. Tudo isso me deu uma certa tranqüilidade. Cheguei com 21 anos e fiquei uns três ou quatro anos. Jornal da ABI – Como era o trabalho na Visão?

Alberto Dines – Eu cobria empresas como a Aquino Filmes, do Alberto Cavalcante, a Multifilmes, do Mário Civelli, a Vera Cruz. Fiz amizade com o Civelli, que estava montando o departamento de argumentos. Esse departamento fazia a seleção de histórias, começando a trabalhar o filme pelo roteiro. Ele me convidou e, como não tinha contrato de exclusividade, aceitei e fui trabalhar lá também. Fiz os roteiros de duas comédias ligeiras. Uma foi O Craque, primeiro filme brasileiro sobre futebol e com tomadas ao vivo. Esse eu fiz só o roteiro com mais duas pessoas; não escrevi a história. O outro foi A Sogra. Recentemente, a obra foi recuperada pela filha dele, Patrícia Civelli, que atualmente está trabalhando para restaurar o material filmado com o Marechal Rondon em suas expedições pelo interior brasileiro. Depois, comecei a cobrir também outras áreas e acabei ficando mais tempo, de 1952 a 1956 ou 1957. Viajei muito. Também fotografava, coisa que havia aprendido por causa do envolvimento com cinema e que gostava de fazer. Fiz até algumas fotos de capa. Numa certa altura, porém, cansei de ficar longe da casa dos meus pais. Estava morando numa pensão da Rua Nestor Pestana, no Centro de São Paulo, em frente ao Teatro Cultura Artística. Era um lugar bom, com vários casarões e mansões na vizinhança, que alugavam quartos para jovens, principalmente estudantes. Voltei para o Rio, continuei na Visão, mas cobrindo o Itamarati, política externa. A equipe era pequena, e pude crescer muito, especialmente na convivência com grandes jornalistas, mais velhos e experientes que eu. Naquela época, numa Redação como a da Visão havia o universo etário da sociedade brasileira. Eu comecei com 20 anos, o meu chefe, Nahum, tinha seis ou sete anos a mais do que eu e o chefe do Nahum tinha sete ou oito anos a mais do que ele, até chegar ao Redator-Chefe, que estava com mais de 50. No Rio, era o Luís Jardim, um grande contista pernambucano, um cara for-

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midável. Então, existia um universo etário muito amplo e não havia como não aprender. Hoje isso não existe. Nas Redações, chefe, subchefe e os chefiados têm idades muito próximas. Ou, segundo o interesse da empresa, jovens já entram em posição de liderança. JornaldaABI–Foinaquelemomento que você percebeu que o jornalismo seria mesmo seu caminho?

Alberto Dines – Isso ficou claro muito cedo, na medida em que eu gostava muito de cinema mas também me realizava no jornalismo. Eu percebi que tinha um caminho paralelo. Não era uma bifurcação: já pensava muito jovem que uma coisa não tem que anular outra, porque no fundo elas vão se enriquecer mutuamente. Acho que enriqueceram. Cresci dentro do jornalismo, embora o jornalismo não tivesse sido minha primeira escolha.

Samuel Wainer, uma referência JornaldaABI–Nessecomeço,quem eram os jornalistas que o senhor admirava?

Alberto Dines – Havia alguns que eu acompanhava de perto. Um deles era o Samuel Wainer, de quem meu pai era amigo. No livro de memórias do Samuel, Minha Razão de Viver, há uma referência a meu pai. Outra coisa que nos aproximava dele era a identidade judaica. Em 1937, por exemplo, Azevedo Amaral e Samuel Wainer lançaram um anuário chamado Almanack Israelita, pago com ajuda de toda a comunidade. O integralismo estava muito forte na época e havia propaganda antisemita escancarada. Até o começo da década de 1940 funcionavam no Rio pelo menos três diários nazistas e pagos pela Embaixada alemã. Os integralistas andavam uniformizados na rua. Eu me lembro deles passando em nossa rua, todos uniformizados, com talabarte de couro, fazendo o anauê, a saudação em tupi-guarani, que no fundo era o Heil Hitler. Isso assustou e uniu a comunidade judaica, que tentou criar um mecanismo de resistência. E os integralistas estavam na grande imprensa! O livro do Fernando Morais não conta – o que é lamentável – que o Chateaubriand no início era pró-fascista. O Manifesto Integralista foi publicado em O Jornal. A presença do fascismo na grande imprensa era notória. Jornal da ABI – O fascismo seduziu muita gente pelo mundo. Nos Estados Unidos, Brasil...

Alberto Dines – Sim! Muito. E muitos fascistas fizeram um ca10

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minho de reabilitação extraordinário! A história mais bonita, acho, foi a do Dr. Alceu Amoroso Lima, que tinha sido integralista. Era um homem conservador, muito católico – até porque o Integralismo está sempre junto com a Igreja Católica, sempre. E o Dr. Alceu evoluiu para a esquerda; virou um guru.

“Havia propaganda anti-semita escancarada. Isso assustou e uniu a comunidade judaica, que tentou criar um mecanismo de resistência. E os integralistas estavam na grande imprensa! O Chateaubriand no início era prófascista. O Manifesto Integralista foi publicado em O Jornal.”

Jornal da ABI – Seu pai ajudou nessa publicação?

Alberto Dines – Quem pagou esse anuário foi a comunidade judaica, mas precisava de um jornalista judeu para dirigir. E foi o meu pai que indicou o Samuel para dirigir essa publicação. A figura do Samuel Wainer povoou a minha infância porque tudo que ele fazia repercutia em casa. Lançou Diretrizes e meu pai assinava essa publicação. Foi uma revista muito importante, que teve várias fases: a fase de revista mensal, a de jornal e a de semanário. Mas ele não era o único. Meu pai era muito ligado a vários jornalistas judeus. Todos eram do mesmo partido, socialistas, trabalhistas. Com essa convivência, entrei numa tipografia pela primeira vez com uns cinco ou seis anos. Fiquei impressionado com aquelas correias de transmissão, que eram máquinas muito primitivas, mas impulsionadas já a energia elétrica. Vários desses jornalistas judeus freqüentavam minha casa e acabei me interessando pelo jornalismo. Tanto que, com onze anos, no ginásio, fiz meu primeiro jornal. Era uma escola judaica e a maioria dos professores era do Partidão. O Brasil estava na guerra e o País sofreu muito com ela: teve desabastecimento, racionamento, os carros não podiam andar por falta de gasolina, para comprar leite tinha que ter atestado médico. Jornal da ABI – Como foi esse primeiro jornal?

Alberto Dines – Vargas começou a namorar o fascismo, mas teve a sabedoria de entrar na guerra do lado certo. A Legião Brasileira de Assistência-LBA, então presidida pela mulher do Getúlio, Dona Darci Vargas, lançou uma campanha chamada “Horta da Vitória”. Cada cantinho de terra, especialmente em praças públicas, deveria ser usado para fazer hortas e plantar comida. Recomendava-se que os núcleos da “Horta da Vitória” tivessem atividades sociais, patrióticas – inclusive com jornais e boletins. Minha turma da escola topou o desafio. A idéia de publicar um jornalzinho veio do Moisés Weltman, futuro homem de rádio e televisão, importantíssimo, e já na época um líder. A LBA mandou enxadas, adubo e todos os materiais necessários

para que a horta fosse feita no colégio, mas minha turma ficou encarregada de fazer o jornal mimeografado. Escrevíamos à máquina num estêncil, depois passávamos uma tinta, rodávamos várias cópias e grampeávamos as folhas. Além de ser repórter, eu era redator e tesoureiro. Arrecadávamos o dinheiro para comprar tinta, papel e álcool. Foi espetacular! Fizemos esse jornalzinho durante bastante tempo e para mim foi formidável mesmo! Deu uma vibração que uma criança dessa idade não tem. Embora, é preciso ser dito, que muito dessa vibração acontece por causa das circunstâncias. A Segunda Guerra Mundial é o fato que marcou minha vida. Posso dizer que sou filho da Segunda Guerra Mundial. Não lutei porque não podia, mas minha avó, mãe do meu pai, morreu durante o Holocausto. Eu lembro perfeitamente das primeiras cartas que vieram dela, uma comoção, porque aquele pedaço da Polônia foi primeiro invadido pelos russos. A Alemanha invadiu a Polônia, e logo em seguida os russos invadiram o lado Leste. As cartas vinham para cá, e depois pararam de vir porque logo entraram os alemães. Temos descrições da morte, mas sem detalhes; afinal, era muita gente. Tudo isso marcou a garotada, os vizinhos de rua também judeus – naquela época eu morava em Vila Isabel. Recebíamos O Jornal, do Chateaubriand, talvez por influência do Samuel Wainer, que era repórter de O Jornal. Meu irmão, que é cinco anos mais velho do que eu, lia e nos explicava a situação dos Aliados e do Eixo. Eu sei a Guerra de cor. Mas não é de estudar em livros de História. Sei porque a vivi. Onde meu pai trabalhava chegavam muitas revistas da Embaixada inglesa, em português e dos franceses livres. A França tinha sido ocupada, mas um território da França ainda estava livre e editava publicações. Eu lia tudo. A ponto de fazer um jornalzinho, apenas com recortes de publicações. A guerra chamava a atenção, mas por conta da cobertura da imprensa. Nós tínhamos um rádio Philips, daquele tipo tradicional, em que ouvía-

mos religiosamente o noticiário. Teve início o Repórter Esso e toda a família se reunia em três horários, de forma quase religiosa, para ouvir. Tinha que parar para ouvir, já que eram raras as pessoas que tinham carro e raríssimas as que tinham rádio no carro. O Repórter Esso era básico, nacional, fundamental, pois estava comprometido com a causa aliada. Jornal da ABI – O momento em que o Brasil se posicionou a favor dos Aliados deve ter sido de alívio...

Alberto Dines – Foi. Embora eu tenha que contar também que lembro de ter visto, na minha rua, uma garotada sem nenhuma cultura política dar uma surra num ambulante judeu e chamar ele de italiano. Anos mais tarde, já jornalista, fiz um conto sobre esse episódio. O Brasil estava muito atrasado sob o ponto de vista civilizatório e a paranóia tomou conta de muita gente. Quando os torpedeamentos se tornaram freqüentes, a partir de 1942, houve muito quebra-quebra de empresas italianas e alemãs. O famoso Bar Luis, o melhor chope do Rio de Janeiro e que tem uma cadeia de estabelecimentos hoje, chamava-se Bar Adolfo. O espaço, que ficava na Rua da Carioca, foi todo quebrado por estudantes por causa de seu nome. Uma maldade, porque o cara estava no Brasil desde o Império. Houve também linchamentos de alemães em praça pública, inclusive, na Praça Mauá. Sem falar nas prisões. Os japoneses, que estavam em São Paulo, foram levados a campos, não de extermínio, mas de concentração, internamento, digamos. Predominava no País uma certa violência política causada pela ignorância. Jornal da ABI – Além do Samuel Wainer, que outros jornalistas o influenciaram?

Alberto Dines – Na adolescência, com 14 anos, eu gostava muito do Gondin da Fonseca, uma figura importante do jornalismo brasileiro. Ele era carioca, de esquerda, mas mais para anarquista do que comunista, e foi o único jornalista que teve a ousadia de dizer, durante a ditadura

do Estado Novo, que o Santos Dumont não morreu do coração, mas havia se suicidado. Isso foi uma ousadia, já que a tese oficial diz que ele morreu do coração, vendo os brasileiros lutarem entre si. Ele se suicidou por várias razões, inclusive porque aviões eram usados para bombardear populações civis. O Gondin, descobri depois, era muito combatido e foi o primeiro crítico da imprensa. Na coluna que mantinha, ele fazia muita crítica ao que chamava “imprensa sadia”, que é o que conhecemos hoje por imprensa burguesa ou reacionária. Não é à toa que outros jornalistas, como o repórter Edmar Morel, tinham grande admiração por ele. Não se fala muito em seu nome hoje, porque não dirigiu jornais. Os jornalistas que entraram para a História foram os que se converteram em donos de jornais, como Samuel Wainer, Carlos Lacerda e outros. Ele sempre foi repórter, colunista. Suas matérias eram publicadas no Rio, mas também eram reproduzidas em São Paulo. Mas a imprensa do Rio – e aí não vai nenhum bairrismo – era a mais importante porque era a imprensa da capital. Se você pegar O Estado de S.Paulo, por exemplo, antes da censura, havia na primeira página uma retranca chamada Notícias da Capital, com a cobertura do Senado, Câmara, Governo, Ministérios. Isso é muito importante: os jornais cobriam o Plenário. Então, se lia no dia seguinte quem falou e o que falou. Jornal da ABI – Era uma época muito mais politizada...

Alberto Dines – Muito mais! Por isso existiam grandes figuras no Parlamento, coisa que hoje quase não temos. Nos anos 1940 e 1950, o jornalismo político era feito na base da reportagem. O repórter ia ao Plenário, falava pessoalmente – não por telefone – com parlamentares. Mas não só os jornais do Rio e São Paulo. O Correio do Povo, de Porto Alegre, tinha uma cobertura espetacular do Parlamento Federal, porque era muito importante que as elites regionais soubessem o que estava ocorrendo na capital. Hoje o jornalismo está muito esgarçado, há muito jornalista político que está no Rio ou São Paulo e não pisa em Brasília há séculos. Isso não acontecia antigamente.

Jornal da ABI – Hoje também há certa arrogância de muitos jornalistas da grande imprensa...

Alberto Dines – Sim, pois são menos pessoas; antigamente era mais gente e um trabalho mais diversificado. Quantos grandes jornais circulavam no Rio de Ja-


neiro? O Jornal, Correio da Manhã, Diário de Notícias eram matutinos. Depois vinham os vespertinos Jornal do Brasil, O Dia, A Noite, fundada pelo pai do Roberto Marinho, que depois saiu e foi fundar outro grande vespertino, O Globo. O jornal tinha que ser muito objetivo, não como hoje, que as matérias são estatísticas. Afirmar que 30% fazem isso, 40%, aquilo não diz nada. Naquela época, a manchete tinha que trazer alguma coisa forte, para ser gritada. Era assim que o jornaleiro vendia o jornal. Existia no Rio, inclusive, um programa muito importante chamado “O Pequeno Jornaleiro”, criado também por Dona Darci Vargas. Era um orfanato que pegava crianças abandonadas e dava uma educação até o secundário, mas muito rigorosa. E parte do tempo eles trabalhavam vendendo jornal, uniformizados, carregando os exemplares, mas nada pesado. O sujeito descia do bonde e ouvia: “Olha, olha” ou “Extra, extra” e uma chamada forte, uma manchete. Um outro jornalismo, e eu não diria sensacionalista, mas mais factual.

para dentro das casas. Por causa das rádios e dos jornais. Por causa da Força Expedicionária. Havia aviões Catalina afundando navios alemães – não todo dia, claro –, mas isso era noticiado. Havia blecaute em Copacabana, em Santos. A mídia levou a Guerra para dentro de casa. Jornal da ABI – O senhor acompanhou o jornal A Noite em sua grande fase? Nelson Rodrigues falava que esse jornal era um caso de amor do carioca, mas não explica isso...

Alberto Dines – Os grandes vespertinos do Rio de Janeiro eram A Noite e O Globo. A Noite foi fundado pelo pai do Roberto Marinho, Irineu, que depois brigou, saiu e fundou O Globo. Mas A Noite era um grande vespertino, muito emocional. Depois, era uma empresa muito bem organizada, porque era européia, belga, tanto que foi nacionalizada porque a Bélgica foi invadida pela Alemanha. Eram as histórias das “Empresas Incorporadas ao Patrimônio Nacional”. No mesmo prédio funcionavam A Noite, a Rádio Nacional, A Noite Ilustrada, um semanário, a Vamos Ler, que não sei se era semanal ou quinzenal, e vários infantis.

Jornal da ABI – O Nelson Rodrigues concedeu uma entrevista ao Geneton Moraes Neto em 1978 e disse que não lia mais jornal porque não gostava de ler notícias de ontem. Também reclamava que tinham tirado a exclamação!

Alberto Dines – Trabalhei com o Nelson na Última Hora e na Manchete. Ele era de uma escola diferente. O jornalismo ficou muito impessoal, generalista e distante. Naquela época era mais fácil, a cobertura local era mais abrangente, o jornal chegava no bairro e falava com a comunidade. Tanto que havia edições matutinas e vespertinas, pois eram a principal fonte de informação. Isso é praticamente impossível hoje. Mas não é impossível fazer jornais que estejam mais próximos da população. Tanto que esses jornais gratuitos e os jornais de bairro mostram isso. Pegue a Folha de S.Paulo, o Estadão ou O Globo: eles não são mais jornais da cidade ou do Estado. Também não são nacionais, eles são um pouquinho de cada coisa. Estamos precisando de uma cobertura mais localizada, e hoje, principalmente nos Estados Unidos, isso está sendo revisto e implementado. Jornal da ABI – A globalização e as novas tecnologias mudaram o jeito de fazer jornal. Pensar mais no local e buscar novamente a grande reportagem podem ser boas saídas para o jornalismo?

Alberto Dines – O jornal tem que voltar a ser um produto indis-

Jornal da ABI – A Noite não privilegiava o noticiário policial?

pensável, porque ele se tornou ou está se tornando descartável. E para isso tem que ser bem escrito, oferecer percepções, porque o cidadão moderno recebe tanta informação ao mesmo tempo que não dá tempo de pensar, de analisar. Então o jornal tem que dar a ele juízos que favoreçam a formação de seu próprio juízo. Eu leio todo dia cinco jornais – os três grandes brasileiros, mais o econômico Valor e o El País. E eu vejo que não há nada capaz de juntar todo esse conteúdo. Jornal da ABI – As notícias estão superficiais...

Alberto Dines – Muito fragmentadas, e você não consegue juntar uma coisa com a outra. Eu desisti, porque você tinha que ficar o dia inteiro lendo o jornal, coisa que eu faço, pegando uma coisa que saiu aqui e outra que saiu ali, em outro jornal, até no dia anterior, que precisava estar conectado e não está porque o redator não leu o jornal, e nem o chefe dele. Antigamente, você tinha que ir à Redação e era obrigatório ler o jornal, e hoje o cara vai para a rua e nem lê o jornal do dia.

Jornal da ABI – Por que a qualidade do texto caiu tanto? O jornalista não lê mais?

Alberto Dines – Ele não lê, não é exigido. Outra coisa é a forma como se trabalha hoje. Como disse, a Visão foi uma escola para mim. Lá, os redatores norte-americanos eram como supervisores. Eles não editavam o texto, mas sabiam sugerir como construir a matéria. Mas havia também os chefes, que eram grandes redatores. As matérias eram datilografadas por uma secretária, que passava para o chefe revisar. Depois eram novamente datilografadas. Eram várias etapas para que a coisa ficasse clara, antes de ir para a composição. Eu me lembro perfeitamente da minha primeira matéria para a Visão, datilografada em papel amarelo com cópia, na mesa do Luís Jardim, o Redator-Chefe. Ele leu meu texto e corrigiu palavra por palavra. Eu pensei: “Estou ferrado!”. Ele corrigiu tudo. Mas depois me chamou e disse: “Dines, está muito bom, hein!”. Levei um susto. O cara corrigiu tudo, como podia estar bom? Mas o que valia era a qualidade da informação. Quan-

to a escrever, eu precisava aprender. Achava que sabia mas não sabia. Na segunda matéria, já errei menos, evidentemente. Isso é pertinente, você vai aprendendo. Então, esse processo de comando tem que ser muito bem estratificado, porque você aprende fazendo. E se você não tem um chefe que saiba fazer e ensinar a fazer, você está ferrado. Isso não tem mais no Brasil. Jornal da ABI – Nem nas universidades?

Alberto Dines – Nem nas universidades, porque o professor nem chegou a ser profissional. Essa geração à qual eu pertenço sabia escrever e teve chefes que exigiam isso. Acho que isso é muito importante. Eram obrigados a ter uma cultura geral, e a educação era muito melhor, você tinha mais referências. Não estou sendo saudosista ou dizendo que tudo que é retrô, que o que vem do passado é melhor. Não é. Há coisas boas e ruins. Quem viveu a mídia desse período da Segunda Guerra e do pós-Guerra, seja como leitor ou jornalista, é um privilegiado. A Segunda Guerra trouxe o mundo

Alberto Dines – Todo vespertino era necessariamente policial, porque quando acontecia um desastre ou assassinato na madrugada para você se diferenciar do matutino abria com isso. A Última Hora renovou a linguagem vespertina, e esse foi o seu sucesso, porque contava com apelo intelectual que os outros não tinham. Vinícius de Moraes, Antônio Maria, Nelson Rodrigues. Foi a grande sacada do Samuel, influenciado por um vespertino francês chamado France Soir, que acabou há pouco tempo. Agora está só na internet. Era de um jornalista muito interessante, Pierre Lazareff, que o Samuel conheceu e de quem gostava muito. A fórmula era fazer um vespertino vibrante, com todas as características de vespertino, mas com substrato de cultura, de show business. O France Soir foi muito ligado ao cinema, à vida musical francesa, a Edith Piaf, antes da Guerra e depois da Guerra. Embora Samuel Wainer conhecesse bem a imprensa dos Estados Unidos, a cabeça dele era um pouco mais européia, compreensivelmente. Jornal da ABI – O Senhor já citou pelo menos uns dois ou três gruposdejornaiscujosdonosnãoeram brasileiros. Como você vê essa lei que proíbe estrangeiros de ter meios de comunicação no Brasil?

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“Adolpho entrou na Redação, fez um escândalo e me humilhou. Ele era muito grosso” Alberto Dines – Acho que no mundo de hoje complica muito você estabelecer esse tipo de lei. Não pode ter dono estrangeiro, mas o noticiário é estrangeiro. Como filtrar isso? O Observatório da Imprensa debateu muito a questão, defendeu a revisão e conseguiu abrir a participação em 30%. Jornalistas, patrões, todos queriam. Essa ficção não começou hoje. O Bloch não era nascido no Brasil, mas era naturalizado brasileiro. Certa vez, a Folha me processou, disse que eu era mentiroso por dizer que sua gráfica não era brasileira. É bom esclarecer que são empresas diferentes, a gráfica e o jornal. Mas a gráfica é norte-americana. Mas minha informação era segura, recebida de dono de jornal, mas eu não quis revelar a fonte. É muito fácil construir uma empresa em que tudo é estrangeiro, e só o título e o jornal são nacionais. Eu ganhei a ação e não exigi indenização, mas é complicado porque o acionista pode ser brasileiro, mas o material publicado, não.

Manchete, uma loucura Jornal da ABI – Como foi sua saída da Visão e chegada na Manchete?

Alberto Dines – Eu estava na Visão do Rio cobrindo o Itamarati, a área cultural, política, e já freqüentava os meios jornalísticos, o Castelinho (Carlos Castelo Branco) e fiz muitas matérias sobre imprensa. Quando começou o colunismo social no Brasil, eu os juntei todos e fiz uma matéria de capa. Depois, houve outra sobre o humorismo na imprensa, com o Millôr Fernandes, o Péricles, do Amigo da Onça, e outras estrelas do humor. Estava bem, mas o Nahum, que era o meu chefe, foi convidado para dirigir a revista Manchete. O Juscelino Kubitscheck deu para o Otto Lara Resende, que era o diretor da Manchete, uma sinecura na Bélgica em meados da década de 1950. Isso está contado num livro que saiu recentemente, com as cartas do Otto Lara para o Fernando Sabino, fascinante, que estou lendo e está me tirando o sono. Depois, o Otto se encheu dos Bloch – pois aquilo era uma loucura – e se mandou para a Bélgica. Para o seu lugar, o Adolpho convidou o Nahum. Ele é um grande jornalista, mas um chefe desorganizado. Eu fui para lá como repórter, eu queria fazer matéria fotográfica, já que a revista era ilustrada. Mas logo depois o Nahum teve problemas pessoais e teve que se licenciar e eu assumi como assistente da direção. E foi uma 12

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experiência fantástica, porque o chefe da Reportagem era o Darwin Brandão, uma extraordinária figura. Era um jornalista baiano mais velho do que eu, muito conhecido, grande amigo do Zuenir Ventura. Era um chefe de Reportagem clássico, que sabia para onde mandar o repórter buscar a matéria. Mais novo, eu ficava encarregado de editar o material e supervisionava a diagramação. Fizemos uma tabelinha extraordinária e o que aprendi com ele é inesquecível! E foram grandes momentos também. A primeira capa que a Manchete deu para o Juscelino foi o Darwin que produziu, num fim de semana. Ele morreu muito cedo, mas a convivência no trabalho foi extraordinária. Acho que morreu do coração; um jornalista de mão cheia. Conhecia o Rio de Janeiro inteiro, sabia tudo de todo mundo. E isso é a função do chefe de Reportagem, mas hoje isso é impossível. Hoje não existe mais o chefe de Reportagem. Naquela época a figura central de uma Redação era o chefe de Reportagem. O Redator-Chefe decidia o que saía, mas o chefe de Reportagem era quem botava a matéria na mesa dele. Quem levantou O Globo foi um chefe de Reportagem chamado Alves Pinheiro, sujeito muito reacionário que dormia no jornal para colocá-lo mais cedo na rua, porque era vespertino. Conta-se que ele passava tanto tempo no jornal que não sabia o que estava se passando na cidade. Um dia, ele chegou na Rua do Ouvidor e descobriu que não podia mais entrar de carro, que era rua de pedestres. (risos) Folclore das histórias dele. Foi o Roberto Marinho que o botou lá, e o Alves Pinheiro foi a alma do jornal. Depois, no meu tempo no Jornal do Brasil, a função tornou-se mais ampla; era chamada de Editor de Notícias. Além de ser chefe de Reportagem, também chefiava o internacional. Foi uma mudança que fizemos na “cozinha”. Superamos o chefe de Reportagem, e deu boas discussões por lá. Jornal da ABI – E a sua experiência na Manchete, uma revista que trabalhava muito com fotografia? O senhor acompanhava até a diagramação!

Alberto Dines – Pois é. Aí entra o cinema: embora eu pessoalmente fosse ruim de desenho, desenvolvi a habilidade de contar uma história visualmente. O Darwin me entregava um texto e as fotos, e eu tinha que conversar com um dos redatores, gente como o Wilson Figueiredo, que acabou de lançar um livro, e o romancista Macedo Miranda, um ótimo redator, texto enxuto. Então, foi uma escola muito boa a Redação da

Manchete. Fora o fato de a revista ser uma loucura. O Adolpho Bloch era maluco, absolutamente louco. Jornal da ABI – Pois é. Esse lado do Adolpho Bloch é conhecido mas pouco se fala sobre isso. Como era sua relação com ele?

Alberto Dines – Ele implicava comigo sob o ponto de vista jornalístico... primeiro porque ele era burro, não era um cara sofisticado, era um camponês russo. Os russos lançaram o Sputnik em 1957, num fim de semana, e a Manchete fechava na segunda-feira. Quer dizer, só podíamos dar uma radiofoto. Não havia boas fotos do satélite. O que a gente tinha para publicar eram radiofotos distribuídas por agências. Eu comprei duas delas, ainda que a qualidade fosse ruim, e sapequei. Era muito melhor colocar uma imagem ruim, mas que mostrasse a Terra vista do espaço, do que não dar nada ou só usar texto. Só que o Adolpho era um gráfico e ele não pensava assim. Entrou na Redação, fez um escândalo e me humilhou. Ele era muito grosso e tivemos vários problemas de ordem pessoal. Mas nesse período conheci o Samuel Wainer pessoalmente. Ele me descobriu num Carnaval desses em que toda a equipe da Manchete saía para fotografar, especialmente quando havia os grandes bailes. Na Quarta-Feira de Cinzas a festa era de publicações como Manchete e O Cruzeiro, que vendiam mais de 300 mil exemplares. Eu tinha uma Laika e fui para o Teatro Municipal. Ele me viu lá e dois dias depois ligou com o convite para trabalhar com ele. O homem tinha um faro extraordinário! Samuel foi um grande lançador de jornalistas. Com o Nelson Motta foi a mesma coisa, de que sou testemunha. Ele o pegou no JB e o transformou no grande repórter de música popular da imprensa. Mas eu não pude aceitar seu convite naquele momento. O Nahum estava licenciado e eu não podia deixar a Redação assim; afinal, tinha uma função importante no fechamento. A Última Hora estava vivendo um período melhor, porque era época do Juscelino, mas também não nadava em dinheiro. Já não pagava tanto quanto pagou antes, na guerra com o Lacerda. Mas eu fui depois. Jornal da ABI – Quanto tempo o senhor permaneceu na Manchete?

Alberto Dines – Fiquei apenas dois anos se não me engano, mas vivi outros momentos muito importantes. Por exemplo: logo que eu e o Darwin pegamos a direção tivemos um problema seriíssimo. O Borjalo, que era o cartu-

nista da última página, pediu demissão. Ele era muito amigo do Otto Lara e, depois que ele foi para a Bélgica, o Borjalo saiu também. Saiu para trabalhar na televisão; gostava muito de cinema. E a última página ficou vazia. Não era uma coisa qualquer! Então, lancei a idéia de um concurso aberto. Quem mandasse o melhor material seria publicado. E sempre havia muita gente querendo publicar na Manchete, mas alguns “importunavam” mais. Quem eram esses? Jaguar, o Marius Bern, o Claudius Ceccon e, depois o Ziraldo, que passou a colaborar mais tarde. Conseguimos lançar novos nomes e, depois, tentei fazer uma revista. Depois que saí da Bloch, tentei fazer uma revista inspirada na minha experiência de Visão, mas não consegui. Jornal da ABI – Qual era essa revista que o senhor tentou fazer e não conseguiu?

Alberto Dines – Chamava-se HM – Homem & Mundo. Tinha um sujeito que era um economista e tinha muitos contatos. Ele achava que ia conseguir os recursos e ficou com a parte financeira; eu fiquei com a jornalística. Eu fiz a minha parte, mas a dele não deu certo. Como eu tinha acabado de me casar e o Samuel havia me chamado novamente, aceitei. Jornal da ABI – Saiu brigado da Manchete?

Alberto Dines – Não saí brigado; saí porque pedi demissão. Foi um problema pessoal. Eu namorava a sobrinha do Adolpho há algum tempo. Mas eu brigava tanto com ele que tive que sair da revista para o casamento não virar um inferno. Casei com ela, mas já fora da Manchete. Vivemos juntos 17 anos e tivemos filhos. Só voltei numa única ocasião e porque era uma emergência, bem mais tarde. Aí fui trabalhar com o Samuel. Jornal da ABI – E como foi o início de seu trabalho no jornal de Samuel Wainer?

Alberto Dines – Ele gostou de um projeto que apresentei, revolucionário do ponto de vista profissional, que era o seguinte: produzir o segundo caderno da Última Hora com uma cooperativa de jornalistas. Nós fazíamos lá na Redação, ele pagava pelo produto e a gente dividia. Fizemos isso para a edição matutina e ele gostou muito. Depois de um mês, ele passou a publicar esse caderno nas duas edições, a matutina e a vespertina. Logo depois... ele era muito intranqüilo... e me falou: “Olha, o segundo caderno está melhor do que o primeiro. Você vai dirigir a edição matutina!”. Eu argumentei que não tinha experiência

de jornal. Falei: “Sei fazer revista, nunca trabalhei em jornal”. E ele: “Não, não! Isso se aprende!”. Ele era impressionante! Mas quebrei a cara. Me lembro que na primeira edição fiz uma revista. Havia umas manobras navais brasileiras, no Rio de Janeiro, da Marinha americana com a Marinha brasileira, e o fotógrafo conseguiu uma foto espetacular, em Copacabana, de um destróier com uma onda do mar batendo, uma foto linda! Peguei a foto e abri o jornal com ela, como uma revista. (risos) Ficou um pouco discrepante do resto do jornal e muito das edições anteriores. O Samuel vinha das boates toda noite, para ver o jornal rodar. Quando ele viu, eu falei que estava muito ruim. E ele disse: “Você vai aprender!”. Naquela noite ele foi muito generoso, coisa que ele não era. Jornal da ABI – Samuel Wainer não era generoso?

Alberto Dines – Um dos maiores esporros que eu já recebi na vida foi o Samuel que deu.

Jornal da ABI – Pior do que o do Bloch?

Alberto Dines – O Bloch não dava esporro, ele humilhava. Já o Samuel te arrasava, dava bronca porque tinha convicções, ele acreditava no negócio da manchete, no verbo forte contra o verbo fraco. Mas eu aprendi também. Foi como aconteceu na Visão: na primeira vez o editor-chefe corrigiu tudo, na segunda não corrigiu nada. Uma vez ele me deu um esporro, eu não me lembro o porquê. O jornal do Samuel era todo rígido, a manchete tinha que ser popular, a submanchete podia ser política, lá embaixo podia ser internacional. Era tudo muito mix, rígido. Hoje virou moda com os marqueteiros.

Jornal da ABI – Pois é... isso virou padrão hoje!

Alberto Dines – Mas o Samuel fazia isso intuitivamente. O fato é que, certa vez, eu fiz algo que contrariou os interesses dele... não lembro bem o que foi. Mas ele me deu um esporro brutal! Eu tinha 25 ou 26 anos e fiquei arrasado! Quando o Samuel viu como fiquei, ele disse assim: “Porra, Alberto, me dá essa liberdade de dar um esporro”. Eu nunca me esqueci essa frase! (risos) Quer dizer, ele precisava dar um esporro. E depois ele dizia sempre: “Um esporro sempre é útil, um esporro não se perde”. É uma frase que eu uso até hoje, porque numa Redação o negócio da bronca, desde que não seja uma coisa ofensiva, é muito educativo, vibrante.

Jornal da ABI – Revigorante!

Alberto Dines – É! Revigorante, ela empurra...


“O homem tinha um faro extraordinário! Samuel foi um grande lançador de jornalistas” O renascimento do Diário da Noite Jornal da ABI – Como era trabalhar na Última Hora?

Alberto Dines – Trabalhar lá era muito complicado porque havia um grupo de velhos companheiros do Samuel, muito reacionários, stalinistas antigos. Entre eles, o Paulo Silveira, irmão do Joel, um sujeito frustrado, ressentido. E eu podia fazer pouco ali, porque com aquele esquemão antigo a que o Samuel era muito leal e que vinha com ele desde Diretrizes eu via que a coisa não estava indo. Nessa época, veio uma proposta do João Calmon, braço direito do Chateaubriand, para eu pegar o Diário da Noite, que tinha sido outro grande vespertino, em que trabalhou o Nelson Rodrigues, com suas novelas assinadas com o pseudônimo de Suzana Frag. O Diário da Noite nunca foi tão bom quanto A Noite ou O Globo, mas teve seu momento de fama. Então, estava decadente. Tanto que o Calmon me disse que estavam tirando 8 mil exemplares e queriam fechar: “Faz o que você quiser, porque se der errado a gente fecha... então, vamos tentar dar uma sobrevida”. E aceitei o desafio. Naquela época eu era tarado por tablóides, os da inglaterra eram como revistas muito bem diagramadas. Eu comprava na Rua do Ouvidor, no Rio, nu-ma loja chamada Casa Crashley, onde se vendiam diversas publicações em inglês. Eu comprava partituras de músicas clássicas, outra paixão, e a edição semanal do Daily Mirror, na verdade, a coleção do jornal na semana, grampeada e com uma capa amarela. Adorava a paginação, o jornalismo muito informal, títulos brincalhões. Não tinha essa coisa que impera hoje de fofocas e chantagens. Eram ligados aos sindicatos ingleses. A massa de trabalhadores comprava os tablóides, então, eles tinham uma embocadura popular que era boa. Eu falei para o Calmon que ia fazer um tablóide e manter o nome. Chamei um diagramador que trabalhou comigo na Manchete e depois na Última Hora, o Orlando Caramuru, que era formidável! Era autodidata, um brilhante artista gráfico. Fizemos o projeto e escolhemos como data o dia 21 de abril de 1960. O Distrito Federal passaria para Brasília e o Rio de Janeiro seria o Estado da Guanabara. Tenho uma foto segurando justamente essa edição, que trazia a chamada: “JK ao DN: Adeus Rio”. E saiu muito bem! Mas não tínhamos estrutura. Para levar o jornal para o subúrbio, eles muitas vezes pediam meu carro emprestado! Eu tinha uma DKW, uma caminhonetezinha, que foi

o meu primeiro carro. Eu comprei uma, amarela, e o Stanislaw Ponte Preta comprou outra, azul. O Samuel ajudava nesses negócios. Não pagava bem, mas tínhamos descontos em lojas por conta das permutas que o jornal fazia. Passamos a fazer o jornal no formato tablóide e vespertino, numa época que não havia mais vespertino no Rio! Todos os jornais rodavam cada vez mais cedo e decidimos ir contra a corrente, rodando às 11 horas; depois, ao meiodia. Mas não adiantou. Nesse aspecto, tivemos que recuar. Jornal da ABI – Mas como era o esquema de fechamento de um jornal vespertino?

Alberto Dines – O jornal precisava ser feito todo de madrugada. Tinha um jipe de madrugada que pegava os chefes de Redação, morávamos todos perto, em Copacabana. Às cinco da manhã já estávamos todos na Redação para fazer um jornal zero. O esporte era feito de noite, a página do turfe já vinha pronta, alguma coisa de cinema também. O resto era zerinho: internacional, editorial, tudo. Inclusive o colunista social, o João Resende, saía das boates e vi-

nha para a Redação escrever a coluna. O jornal era muito criativo! O Chateaubriand gostou tanto das primeiras edições que me mandou visitar o Daily Mirror, em Londres, porque ele tinha sido Embaixador lá e era bem relacionado com a imprensa britânica. Nós fazíamos um jornal igual aos de lá, e feito precariamente e com baixo custo. Como não tínhamos letras garrafais para escancarar na primeira página, pois as máquinas linotipo só tinham fontes pequenas, no máximo corpo 32, tivemos que improvisar. Providenciamos um alfabeto de zinco com várias versões e nosso redator e chargista, Rafael Vasserman, que chamávamos de Ludlow, por causa da marca da linotipo, colava as letras na folha de papel e descia para inserir o flan em cima do chumbo. Era uma coisa muito, mas muito primitiva, tanto que a gente tinha que escolher manchetes com poucas letras porque não havia estoque de letras suficiente, e mesmo porque você tinha que fazer uma coisa muito impactante. Como, por exemplo, numa madrugada em que estávamos sem assunto e soubemos que acontecera o suicídio de um jo-

vem que trabalhava numa produtora de cinema. As reportagens de polícia naquela época eram muito ágeis; havia setoristas que cobriam e mandavam as informações. E uma delas foi a desse jovem. Segundo se supunha, ele fora chantageado por uma revista de escândalo, ligada à banda podre da Polícia. Então demos a notícia na primeira página e fizemos uma manchete bastante influenciada pelo jornalismo norte-americano: “Imprensa amarela mata cineasta”. Promovia o rapaz a cineasta e traduzimos a expressão “yellow press”, que em inglês e espanhol é sinônimo da imprensa sensacionalista, por “imprensa amarela”. Eu tinha um chefe de Reportagem, mais ou menos da minha idade, Calazans Fernandes, do Rio Grande do Norte, que fumava charuto e imitava um pouco o Alves Pinheiro. E quando viu a manchete, falou: “Pô, Dines, na minha terra, amarelo é cor alegre. Põe marrom nela, cor de merda”. (risos) Eu falei: “Boa idéia”. Surgiu aí a expressão “imprensa marrom”. E aí fizemos uma campanha contra a imprensa marrom. O Lacerda era Governador, e sempre foi um bom jornalista – o caráter e a escolha

política dele não se discutem –, e resolveu nos dar uma proteção porque fomos ameaçados! Colocou lá um guarda-costas e mandou fechar a revista e prender os caras. A gente agüentou esse caso por alguns meses, o que nos deu uma boa circulação, uma boa exposição e credibilidade. A “imprensa amarela” ou “marrom” realmente deu ao Diário da Noite uma vibração. Foi muito intenso lá. Criamos muita coisa nova. Fizemos uma página feminina, algo novo na época, assinada pela Ilka Soares, uma mulher maravilhosa, uma morena de olhos verdes, atriz da Tupi, outra empresa dos Associados. Ela era a Maria Fernanda Cândido de hoje! Ela emprestava o nome como autora da coluna. Jornal da ABI – Mas quem escrevia na verdade?

Alberto Dines – Quem escrevia era a Clarice Lispector! Eu botei a Clarice lá porque o Otto me pediu: “Olha, se você puder arranjar um trabalho para a Clarice porque ela se separou e está em dificuldade...” Ela recortava fotos de revistas francesas, pois tinha vivido na Europa muito tempo, e fazia uns textos muito bonitinhos... mas as fotos eram “roubadas” das revistas. (risos) Isso era coisa muito comum na época. Havia também outra página, da Maysa Matarazzo, que foi a grande cantora antes da Bossa Nova, música de cotovelo, das boates, também uma vedete da Tupi. Usando o nome dela, fizemos uma com crônicas femininas, meio poética, mas quem escrevia era um dos nossos colegas: o Raul Giudicelli, um cara muito culto. Tínhamos um jornal com a fórmula do Samuel, sensacionalista, popular, e ao mesmo tempo com qualidade, inclusive para atrair a mulher, porque naquele momento estava começando a revolução feminista. Mas eu fiquei pouco tempo lá, porque em janeiro seguinte, em 1961, eu saí. Jornal da ABI – E como aconteceu sua saída do Diário da Noite?

Alberto Dines – No Diário da Noite o motivo foi outro e acrescenta mais uma coisa sobre o Chateaubriand que o Fernando Morais não contou em seu livro, e é uma pena. Em janeiro de 1961, aconteceu o primeiro seqüestro político, sem vítimas, que foi o do navio Santa Maria. Um grupo de anarquistas espanhóis e portugueses seqüestrou o transatlântico português Santa Maria para chamar a atenção do mundo para a ditadura salazarista que persistia – Salazar e Franco eram sobras do fascismo. Os seqüestradores não eram da esquerda tradicional, eram anarquistas. Seqüestram o navio perto da costa brasileira, a

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cerca de 200 quilômetros do Recife, e veio uma ordem do Chateaubriand para não dar uma linha em nenhum jornal dos Diários Associados. Eu não aceitei isso! Além do mais, o Calazans, que tinha relações com a imprensa nordestina, já tinha colocado um fotógrafo no navio, porque os revolucionários queriam publicidade. Vinha um barquinho com fotógrafo, e eles o deixavam subir a bordo para fotografar. Eles queriam a primeira página dos jornais do mundo. Foi um golpe jornalístico e pacífico extraordinário. Eu fiquei revoltado com a ordem porque nunca tinha vivido essa situação. Achei o fato muito agressivo, um desrespeito. Nos tempos de Última Hora, eu sabia que o Samuel não gostava de fulano, então eu evitava... eu não ia dar uma manchete a favor do Lacerda, por exemplo. Mas nunca tinha recebido uma ordem assim: “Não pode dar o fato!”. Chamava-se na Redação “brigar com a notícia”. A notícia está aí, você briga com ela e diz que não está. Fiquei muito chocado. E eu tinha boas fotos, que tinham vindo junto com um passageiro, de avião. Então resolvi fazer isso: publiquei na capa, na última página e na página central, em que abri bem as fotos. Demos um show. O Jornal, dirigido pelo Wilson Figueiredo, que era meu amigo e estava um andar acima, não deu. Mas arrisquei. E fui demitido. Ainda escrevi, na pré-edição seguinte, um artigo que não foi publicado. O Calmon me chamou e disse: “Dines, olha... não dá. O ‘Velho’ tem compromisso com o Salazar e não dá para você continuar”. Eu me dava muito bem com o Calmon; ele foi muito gentil. Mas o Chateaubriand tinha mesmo esquema com o Salazar.

pediu socorro. O Justino era um grande jornalista, gaúcho, mas não tinha como fazer a revista. Eu ainda estava no Diário da Noite, e só fui ajudar. Mas com algumas idéias e recursos gráficos extraordinários que a Bloch tinha fizemos aquilo que não podíamos fazer no jornal: fotos abertas, recortadas, títulos em grisê. Tudo em preto e branco, mas a revista ficou linda! Quando me demitiu, o Calmon também me falou: “Eu soube que você fez uma revista para a Bloch e ficou muito bonita. Então, tenho certeza de que você não terá dificuldade em arranjar um novo emprego” e me deu um abraço e ficamos amigos. O Calmon era uma figura muito decente. Aí fui fazer a Fatos & Fotos com as sobras da Manchete. Era difícil, porque a Manchete, muitas vezes... não o Justino, que era um homem decente, mas o Arnaldo Niskier, que é um babaca e hoje é acadêmico... ele guardava as melhores fotos na gaveta, não me dava, porque tinha ciúmes. Na Manchete, a sujeira que corria em cima corria embaixo também... era uma coisa! Mas fiquei lá pouco tempo. Cheguei em 1961 e já no final desse ano o Nascimento Brito me chamou para dirigir o JB. O Jânio Freitas tinha saído e quem dirigia o jornal era um economista, nem era jornalista, o Omer Monte Alegre. E o Brito me fez uma proposta. Pensei: “Agora meu problema fica resolvido. O Adolpho não me paga muito, mas somando ao que vou receber do JB, fica certo”. Todo jornalista trabalhava em pelo menos dois lugares. Era comum. Pagava-se mal, por isso se faziam dois expedientes. Só que eu queria fazer algo diferente. Aceitei a pro-

“Veio uma ordem do Chateaubriand para não dar uma linha em nenhum jornal dos Diários Associados. Não aceitei isso! Achei o fato muito agressivo, um desrespeito” posta do Brito e levei junto apenas uma pessoa para me ajudar e que eu sabia que conhecia bem o JB, o Wilson Figueiredo, que já tinha trabalhado lá antes, na reforma de 1956. A partir de janeiro de 1962, passei a fazer a Fatos & Fotos de manhã e depois ia para o jornal. Era um tempo em que os jornais fechavam tarde e começavam tarde. Então eu comecei a fazer a reunião de pauta, que não existia naquela época. Pelo menos no Rio. Implantei isso no JB e nos reuníamos logo que eu chegava ao jornal, às 14 horas. O jornal passou a ser fechado até meia-noite. Duas mudanças que viraram tendências.

JB: criando uma equipe afinada Jornal da ABI – Como surgiram as idéias para as experiências no JB? Quais foram as inspirações?

Alberto Dines – Àquela altura, eu já tinha ido duas vezes aos Estados Unidos. E conhecia melhor o funcionamento da imprensa de lá, inclusive, algumas inovações como as reuniões de pauta. O jornalismo se inova com criações e adaptações daqui e dali. Mas logo de cara mudei muitas coisas no Jornal do Brasil. Não podia ser diferente. Quando me recebeu, no dia 8 de janeiro de 1962, o Brito já veio dizendo: “Dines! Amanhã eu quero um jornal diferente! Você vai botar os fios de volta”. Quando fizeram a reforma, em 1956, uma par-

Jornal da ABI – E como aconteceu a tal volta emergencial para a Bloch?

Alberto Dines – Adolpho Bloch, naquela altura, já era muito ligado com o Juscelino. Na transmissão do cargo para o Jânio Quadros, resolveu fazer uma revista chamada Fatos & Fotos. Ele fez a número 1 com a posse do Jânio Quadros, o Juscelino passando a faixa, uma cobertura espetacular. Havia um material fotográfico lindo. Embora fosse um boçal – e eu uso essa palavra sem medo –, ele foi inteligente ao fazer uma revista barata, popular, em preto e branco. E como já tinha o nome registrado, Fatos & Fotos, ele pegou esse material fotográfico e deu para o Justino Martins, que dirigia a Manchete, editar o primeiro número da revista, que se insinuava brasiliense, pois foi publicada como se tivesse sido feita em Brasília, e não no Rio. Lançou o número 1 mas não sabia o que fazer na segunda edição. E me 14

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Dines segura o DN em nova fase: o seu jornal-revista começa em 21 de abril de 1960 com a inauguração de Brasília. Ao seu lado, o jornalista Carlos Eiras.

te importante daquela revolução promovida pelo grupo liderado pelo Amilcar de Castro, Jânio Freitas e Ferreira Gullar foi estética. Ao tirar os fios de paginação, fizeram um jornal claro e leve. Muitos não sabem o que são esses fios, porque hoje não se usam mais, mas o jornal era todo riscado, dividido, todo escuro, sem brancos. Dono do jornal, o Brito deveria apoiar o que houve de bom, mas não. Ele era contra, sentia-se agredido, achava que sem os fios virava uma bagunça. Aquela reforma foi contra sua vontade e ele só a manteve porque deu certo. Eu disse: “Brito, não te garanto isso. Mas te garanto que daqui a algum tempo você terá um jornal diferente, mas nenhum leitor vai notar”. Não dava para fazer um jornal totalmente novo para o dia seguinte. Seria suicídio. Até contei esse episódio em um artigo que escrevi para o centenário do jornal, Os Fios do Tempo. Realmente, não voltaram. Apenas posteriormente, com outra função, mais discreta e de ornamento. Esses primeiros dias não foram fáceis. Todo mundo dizia que eu não duraria 15 dias no jornal, que o Brito era louco, que os grupos internos disputavam um com o outro. Mas fui fazendo as coisas devagarinho e fui montando uma máquina que a imprensa diária não tinha no Brasil, uma estrutura administrativa. Criei as editorias, dividi a Redação em editorias, especializei, criei o departamento de pesquisa, que não havia. O departamento fotográfico existia porque era onde estavam os fotógrafos, mas cada um fazia o que queria, do jeito que queria e guardava os negativos para si. Quando criei o departamento de pesquisa, era obrigatório que o negativo fosse imediatamente para lá, com sua devida folha de contato. Foi uma série de medidas de caráter interno que tornou o JB uma máquina que funcionou muito bem. Saí de lá onze anos depois e alguém me substituiu com naturalidade. Foi uma máquina para o que eu chamava de “obter a qualidade média”. Ou seja, não precisa fazer um jornal brilhante todo o dia, mas precisava fazer a coisa andar com um padrão de qualidade. Era uma equipe afinada e foi uma experiência extraordinária! Para mim e para todos os profissionais envolvidos. Era uma escola. Fui fazer um curso nos Estados Unidos, na Universidade de Columbia, bancado pelo Brito em 1964. Era para editores de jornais latino-americanos. Foram uns cinco meses, uma

coisa espetacular, tanto que guardo até hoje as apostilas e anotações que fiz. Enquanto o professor falava, anotava o que faria na volta. Visitamos vários jornais. Passei uma semana inteira em Redações, acompanhando a feitura de jornais. Um deles foi o New York Herald Tribune, que hoje é editado em Paris com o nome International Herald Tribune. Jornal da ABI – Mas por que o senhor queria conhecer especificamente esse?

Alberto Dines – Porque era um jornal-revista, do tipo que eu queria fazer há tempos. Eu sempre persegui o jornal-revista! Enquanto o tablóide era um jornal-revista, a Fatos & Fotos, uma revista com influência de jornal. Mas no JB criamos logo de saída o Comitê do Futuro, para discutir como seria o jornal depois de algum tempo. As pessoas que trabalhavam se reuniam para discutir isso. Faziam parte desse grupo, o Fernando Gabeira, que era um jornalista apaixonado, e o Murilo Felisberto, da pesquisa. E a gente elegeu o Herald Tribune como um modelo. Era muito bem feito, paginado e programado, fechado com cuidado e não de qualquer jeito, para fechar rápido. Então, o JB começou a fazer as matérias coordenadas ou referências: havia uma matéria no internacional, mas ela remetia para o esporte, por exemplo. E no esporte, havia a remissão para o internacional.

Jornal da ABI – Semelhante ao que se chama na internet de hiperlink.

Alberto Dines – Exatamente. O jornal era todo coordenadinho, todo costurado. Isso foi uma novidade e nós fizemos isso e ninguém vai dizer que tinha feito isso antes! Agora, foi um trabalho coletivo, da Redação.

Jornal da ABI – Além daqueles que o senhor já citou, quem mais fazia parte dessa equipe?

Alberto Dines – Não levei ninguém novo para lá, a não ser o Wilson Figueiredo. Queria o Carlos Lemos, que tinha sido o editor de Esportes e trabalhou comigo na Manchete, como chefe de Reportagem. Mas ele estava entrando de férias e disse que iria pensar. Mas quando voltou viu o que estávamos fazendo e aceitou. Foi um excelente chefe de Reportagem, depois eu o promovi a Secretário de Redação, e por fim a meu segundo, Chefe de Redação. Havia possibilidade de fazer carreira, mas também havia o espírito coletivo. O que eu brigava com o Lemos não dá para acreditar. Guardei bem aquela lição do Samuel, de que esporro nunca se perde.


dar Teoria da Comunicação, influenciado por Marshall McLuhan. Pelo mesmo motivo: precisava ganhar base teórica.

Jornal da ABI – Como o senhor conseguiu reverter esse quadro de conflitos inetrnos no JB?

Alberto Dines – Consegui reverter com trabalho, com empenho. Os caras viam que, apesar dos meus defeitos, eu acreditava naquilo. Havia poucos recursos, mas pudemos criar o departamento de pesquisa e chamar gente boa. A pesquisa foi uma escola de elite, ali havia um grupo de redatores importantíssimos: o Gabeira, o Murilo Felisberto, que depois foi fazer o Jornal da Tarde, e outros. Virou um estilo de fazer jornalismo e não podia ser diferente. Em 1965, começou a parceria da Globo com o grupo Time-Life. Eu escrevi um memorando para a Redação, explicando o que aquilo significava para nós. Tratava-se de uma empresa organizada, com padrão de qualidade, não era a bagunça dos Diários Associados, que eu conhecia, e da TV Tupi, em que todos sabotavam todos. E eles estavam vindo com os norte-americanos e botariam para quebrar, com profissionalismo. Nossa única chance era continuar o processo de reformas no JB. Eu disse: “A partir de agora nós temos um concorrente mesmo! Porque eles vão dar à noite aquilo que nós só vamos dar no dia seguinte. E aí nós temos que dar melhor”. O departamento de pesquisas passou a ter uma função importantíssima, porque não só abastecia o repórter mas também produzia matérias especiais de análise, matérias redondas que a televisão não daria à noite. Foi uma virada, e o Jornal do Brasil passou a ser capaz de enfrentar a televisão. Jornal da ABI – O JB tornou-se uma referência também na estética. Considerado por muitos uma bíblia gráfica...

Alberto Dines – Eu conservei tudo o que a reforma de 1956 implantou, principalmente as chamadas da capa. O único fio que entrou foi lá em cima, porque o logotipo estava muito solto. Mas foi o mais fino possível. O jornal não tinha manchete e comecei a exigir que tivesse uma manchete diária, para dar noção de hierarquia ao leitor. Olhando para trás, reconheço que exagerei ao dar praticamente todo dia o mesmo formato de manchete. Hoje, teria feito diferente. Foi uma repetição quase dogmática que não se mostrou boa. Apesar de, em certos dias, termos manchetes de duas linhas. De qualquer maneira, foi um período extremamente importante, e com isso a gente segurou a competição com a Globo. Prova disso é que, em 1966, o próprio Roberto Marinho me convidou para dirigir O Globo e recusei porque eu havia começado um trabalho, estava no meio dele e precisava terminar.

Jornal da ABI – Nos quase 12 anos de JB, O senhor teve uma certa tranqüilidade da direção para trabalhar, não?

Alberto Dines – Em termos. Politicamente não, pois os jornais naquela época eram feitos pelos donos de jornais.

decendo às autoridades. No dia seguinte o Armando Nogueira, que estava na TV Globo, me telefonou logo cedo: “Porra! Isto é uma revolução!”. A direção não criticou nem elogiou. Quem elogiou foram os bons jornalistas. A capa está reproduzida em um livro que organizei, Cem Páginas Que Fizeram História, com a reprodução de outras páginas importantes de vários jornais. Mas a verdade é que três meses depois eu fui demitido por “indisciplina”.

Jornal da ABI – Hoje também são...

Jornal da ABI – Como era o Roberto Marinho?

Alberto Dines – Ele era um grande jornalista! Não era só um dono de jornal ou político, mas um homem de Redação. Também, como o Samuel, cheio de preconceitos, mas no jornalismo diário você tem que ter certos paradigmas rígidos, porque senão vira um caos. Com tantas mudanças é preciso ter âncoras. Ele tinha essas âncoras e exigia o mesmo de seus empregados. Certo dia, conversando com o Evandro Carlos de Andrade, que dirigiu O Globo nessa última fase e morreu prematuramente, ele me contou como era complicado trabalhar com o Roberto Marinho na Redação de O Globo. Como o Samuel, Roberto Marinho também dava seus esporros. Mas por outros motivos. Um deles era quando não havia foto de gol na primeira página da segunda-feira. Tinha que ter, pois a televisão não cobria os esportes com tantos recursos. Hoje, com jogos ao vivo e teleobjetivas tipo tambor, todos vêem muitas vezes todos os gols antes de o jornal chegar às bancas. Por isso, algum lance ganha mais espaço nas fotos dos jornais. Naquele tempo, não. Retratar o gol, o momento culminante de uma partida de futebol, era tão importante que alguns veículos, como o Diário da Noite, descreviam com desenhos, quadro a quadro, toda a jogada. Era obrigatório e fazíamos isso também no JB. Jornal da ABI – Nessa época, o senhor já era professor também?

Alberto Dines – Comecei a lecionar em 1963, quando recebi um convite da Puc do Rio, que esta-

va começando um curso de Jornalismo. Eles me convidaram e o professor José Henrique, o então Coordenador, perguntou se eu queria dar uma aula. Era para substituir o Evaldo Simas Pereira, chefe de relações públicas de Volta Redonda, e precisava ser um jornalista de Redação. Eu tinha mais de dez anos de profissão e topei. Fiz isso não para formar outras pessoas, mas porque queria organizar a minha experiência como jornalista de revista, de jornal, um pouco de rádio, pois já tinha feito um programa de cinema para a Rádio Mec quando comecei na profissão... e a Rádio Mec foi outra escola para mim. Havia feito um pouco de televisão, um programa com o Ibrahim Sued. Eu precisava sistematizar isso. Nunca tinha entrado numa universidade, mas senti necessidade não para ensinar, mas para aprender. E escolhi uma cadeira que foi providencialíssima. Ele me perguntou: “Em que cadeira você quer dar aula?” Eu respondi “Jornalismo Comparado”! Inventei essa cadeira. Inventei o nome para estudar as diversas maneiras de fazer do jornalismo, assim como se compara o Direito Canônico, o Direito Penal, o Direito anglo-saxão e todas as formas de Direito. Foi decisivo para mim, porque tudo que fiz desde então está ligado a essa tentativa de teorizar um pouco. Todos temos nossas intuições diárias, mas um dia é preciso teorizar em cima daquilo que você fez, senão não há seqüência. Fiquei nove anos por lá. Ganhava pouco e gastava para comprar livros e outros materiais. Mas aprendi muito. Depois do Jornalismo Comparado, passei a

Alberto Dines – Penso que hoje são mais permeáveis. O próprio Octávio Frias, o velho Frias, passou a ser mais permeável do que antes, quando impôs uma linha reacionária na Folha na época do golpe. Ele foi, digamos, evoluindo. Os Mesquitas também foram se abrindo. Naquele tempo, o dono de jornal primeiro escolhia o editorial, a posição do editorial. No JB, por exemplo, tínhamos o culto do editorial, uma reunião diária, às seis horas da tarde, à qual eu assistia somente para saber o que eles decidiam. Eles decidiam a posição do jornal, a linha editorial. Não adiantava fazer diferente, porque não havia nenhum modelo diferente. O próprio Samuel, que era de um jornal de esquerda, também fazia isso, seguindo os mesmos cânones autoritários. Essa pequena “democratização” das Redações atuais era impossível naquela época. Uma das causas da minha saída do JB, em 1973, foi porque eu forcei isso. Quando houve o golpe militar no Chile, veio a ordem da Censura para não dar manchete sobre a derrubada do Salvador Allende. Mas a ordem chegou tarde da noite e o Allende estava na manchete! A essa altura, eu já não fechava o jornal. Nós decidíamos a primeira página e eu ia para casa. Já me dava esse direito. O Lemos também já tinha saído e quem ligou foi o Maneco Bezerra [da Silva], excelente jornalista que trabalhava na oficina. Ele alertou da ordem e fui imediatamente para lá. Morava em Ipanema, pegava o Aterro [do Flamengo] e era fácil chegar ao prédio novo do JB naquela hora, quase 11 horas. Quando cheguei um dos superintendentes do jornal já estava lá, mas ele não se meteu. E aí eu falei: “Vamos obedecer. Não vamos dar na manchete. Vamos fazer um jornal sem manchete! Vamos contar a história com o maior corpo possível da Ludlow...” esse era corpo 24, se não me engano... Contamos a história toda e ficou, digamos, um pôster sem manchete. O superintendente do jornal me perguntou: “Dines, você tem certeza mesmo que quer fazer isso?”. E eu respondi que nós estávamos obe-

Jornal da ABI – Certamente não foi o primeiro conflito com os militares, que tomaram o poder dois anos depois que você ingressou no jornal. Como lidou tanto tempo com a situação?

Alberto Dines – Como eu disse, não houve nenhum trauma porque o jornal sempre teve a linha de pouca simpatia com o Jango. Só conseguiu ser um pouco mais simpático quando o Jango já era Presidente e procurou a imprensa para fazer o plebiscito para acabar com o parlamentarismo. Foi o único momento em que a grande imprensa apoiou o Jango. Em relação ao golpe de 1964, tomamos a decisão de fazer um livro pelo JB, e essa tarefa mostrou o quanto a máquina estava azeitada. Queríamos fazer um livro sobre o golpe e o jornal estava com um material de análise maravilhoso e assim publicamos Os Idos de Março. Vendeu três edições. A primeira edição saiu em abril. Eu organizei o livro de tal forma que os textos foram feitos simultaneamente. O Antônio Callado escreveu sobre o Jango; o Araújo Neto, sobre as esquerdas; o Eurilo Duarte, Diretor da sucursal de São Paulo, cobriu o Segundo Exército, o Claudio Mello e Souza cobriu o Palácio Guanabara, com o Lacerda. Em suma, cada um cobriu uma área. Mas aqueles dias foram muito intensos. Houve a invasão dos fuzileiros navais comandados por aquele almirante maluco, o Cândido Aragão. Entraram na Redação do JB atirando. Foi uma loucura. Os fuzileiros tomaram a Redação. Estavam ensandecidos, dando tiros para intimidar e gritando que o Governo existe, uma reação às tropas que vinham de Minas e uma ficção, já que logo depois o Governo caiu. Isso não mudou nada, o jornal já estava participando de uma conspiração civil, talvez eles não soubessem como seria a operação militar, mas eles sabiam que aconteceria. O Correio da Manhã deixou isso claro com três editoriais e as expressões: “Basta! Fora!”. A grande surpresa foi que o Correio da Manhã mudou sua posição, quinze dias ou um mês depois, quando

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Proibido pelo regime de dar manchete sobre a derrubada de Salvador Allende, Dines criou esta primeira página: contou toda a história do golpe apesar da censura. Abaixo, recorte do The Times, de Londres, com a notícia da prisão de Dines.

percebeu que aquele golpe tinha virado uma ditadura militar. Jornal da ABI – E a censura e os militares na Redação?

Alberto Dines – Isso só aconteceu bem depois. O jornal seguia a linha dita revolucionária. Ele fez muitas restrições ao Costa e Silva, porque era uma besta fardada, mas não ousava contrariar muito os militares. Até que chegou 1968. Mesmo assim, antes do AI-5, quando o JB ficava na Avenida Rio Branco, as manifestações populares contra o regime militar passavam por ali, paravam na porta e saudavam o jornal. A passeata dos Cem Mil parou na porta do JB. Depois houve a confusão da cassação do Marcito, o Deputado Márcio Moreira Alves. No dia do golpe, ele entrou na minha sala e disse: “Ganhamos”. Só depois reconheceu que o golpe não era cirúrgico e acabava com a democracia. Arrependeu-se e se opôs ao regime.

Enfrentando a ditadura militar Jornal da ABI – A promessa de entregar o poder aos civis...

Alberto Dines – Exatamente, não houve isso. Mas o JB tinha a sua linha e eu tinha que obedecer, porque não tinha como mudar. E toda vez que eu conversava com amigos mais velhos, como o Castelinho, eles diziam que se eu saísse seria pior. Viria outro e até o que conquistamos seria jogado fora. A esperança era de que a democracia fosse restaurada logo, mas o AI-5, em 1968, acabou com essa ilusão do modo mais trágico. Quando eu ouvi pelo rádio, no programa A Voz do Brasil, a leitura daquele catatau, disse: “Estamos ferrados. Vem aí a censura”. Estava no terceiro andar, subi para falar com o Nascimento Brito e o adverti que teríamos que nos manifestar caso a censura se concretizasse. Não demorou, e uns militares fardados, aparentemente desarmados e bem educados, chegaram dizendo que queriam ver o material do jornal. Estava um calor terrível e pedi que se dirigissem à sala de reuniões, onde havia ar- condicionado. Se eles ficassem na Redação seria um caos. Sairiam provocações e briga. O Brito já tinha me instruído, dizendo que eu podia fazer minha reação em relação à censura, mas tinha que ser eu. Ele não queria que fosse uma guerrilha da Redação. O leitor tinha que saber que haviam censores na Redação. Fizemos, então, aquela edição histórica, cheia de detalhes, como a previsão do tempo e as fotos provocativas. Os 16

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militares ficaram muito irritados, chegaram no jornal no dia seguinte, um sábado, e quase fui às vias de fato com um major gaúcho. Quase partimos para a briga física. Aí mandaram um grupo maior de censores, uns sete, contra os quatro ou cinco primeiros, que foram enganados. A gente mostrava uma página e fazia outra lá embaixo, na oficina, a verdadeira. Eles aprovavam a prova de página, que não era a última versão. Como não conheciam a mecânica da coisa, não sabiam que podíamos fazer isso e foram acusando: “Você nos fez de palhaços!”. E respondi: “Não me chama de você, porque você aqui é meu hóspede. Está aqui porque deixei você ficar no arcondicionado”. Coube a um tenente-coronel, que estava acima dele, acalmar os ânimos. O jornal acabou não saindo no domingo, dia 15, mas por outros motivos. Os milicos loucos queriam prender um dos diretores do jornal, o Sette Câmara, amigo íntimo do Juscelino Kubitschek, porque parte do AI-5 foi contra a Frente Ampla. A motivação política do AI-5 foi a força da Frente Ampla – a reunião de Lacerda, Juscelino e Jango – o Brizola, não. Do ponto de vista político foi extraordinário: ex-inimigos juntos, inclusive o artífice do golpe militar, que foi o Lacerda, mas que percebeu que aquilo tinha ultrapassado todos os limites. Os militares estavam atrás do Sette Câmara porque o consideravam o homem do Juscelino. Ele era diretor do jornal, da diretoria, era diplomata, embaixador. Achando

que o jornal estava sob ameaça, o Brito tomou a decisão correta de não circular, mesmo sendo domingo, quase véspera do Natal, e com prejuízo enorme. Jornal da ABI – E isso deve ter causado um impacto enorme na população...

Alberto Dines – Muito grande. No dia seguinte, na segunda-feira, as agências de propaganda foram legais e mantiveram os anúncios que não tinham saído, e o jornal saiu bem forte, mas sob censura. Na sexta-feira seguinte ao AI-5, eu já tinha sido escolhido paraninfo de uma turma da Puc, no Rio. Com o AI-5, eu fiquei mortificado. Uma reação muito parecida com a que tive com o Chateaubriand, por causa dessa interferência brutal. Mas se o dono interfere, você tem que aceitar porque é regra do jogo, o jornal é dele. Mas se entra uma força alheia e diz “isso não pode, aquilo pode”, isso mexeu realmente comigo! Aí fiz um discurso bem contundente e li esse discurso na cerimônia de formatura da Puc. Marotamente, passei o texto para a Redação e eles escreveram a notícia de que eu era paraninfo na Puc e reproduziram alguns trechos de meu discurso. Os milicos viram a notícia, avisaram o secretário da Marinha, e dois dias depois fui preso. Praticamente na véspera do Natal. Jornal da ABI – Houve outros desdobramentos dessas manifestações do JB e da grande imprensa?

Alberto Dines – Aí é que está. Não houve, nem antes nem de-

pois. Faltou continuidade. O jornal teve a devida coragem para dizer que não circularia porque seu diretor estava preso. Mas, por outro lado, não tomou a mesma decisão com o editor-chefe preso. Eu fiquei puto da vida, claro. Eu não era “diretor ” da empresa. Era apenas um jornalista. Quando discursei sobre liberdade de imprensa na formatura da Puc eu vi gente deles gravando o que eu dizia. No sábado, eles foram à minha casa, mas eu estava em Petrópolis, tinha uma residência naquela região. Quando voltei no domingo, fui surpreendido. Eles subiram pelo elevador de serviço e pelo elevador social. Tudo para eu não poder fugir. Chegaram intimidando, dizendo que eram da Polícia Federal e que eu tinha que acompanhá-los. Não houve brutalidade física. A brutalidade é a prisão em si, mas física não. Perambulamos horas antes que me levassem para uma delegacia e depois para a Polícia Central e mais outro lugar, não sei onde, até que, de madrugada, fui parar na Vila Militar, no quartel da Artilharia Antiaérea, um lugar quentíssimo, infecto, evidentemente eles não estavam preparados e eu fiquei num vão de escada fechado. Jornal da ABI – O que a direção do jornal fez?

Alberto Dines – O Jornal do Brasil não tomou nenhuma das medidas que deveriam ser sua obrigação tomar. Quem fez foi a imprensa internacional. Saiu um editorial no The Times, de Londres, e no The New York Times. Houve repercussão e a situação mudou. Minha então esposa pôde me visitar e me colocaram num lugar um pouquinho mais decente. Permitiram que ela trouxesse um lençol, porque a coisa ali era feia. Depois me deixaram até comer com os oficiais, porque nem havia comida. Foi uma coisa chatíssima do ponto de vista moral. A retaliação contra o JB foi muito forte. Na véspera de Natal, eles me liberaram para ir para casa, desde que eu me apresentasse novamente no dia 25, à tarde. Claro que cumpri o combinado. Mas meu ex-cunhado, que tinha uma

Mercedes, fez questão de me levar de volta. Ele disse: “Eu vou te levar de Mercedes para humilhar esses milicos”. (risos) Então eu cheguei lá naquele carrão e todos ficaram olhando. “Mas quem é esse cara?”, deviam estar se perguntando. Com todo mundo da família preocupado, meu irmão ligou para um amigo, um militar combatente da Feb ligado ao grupo castelista não linha dura, chamado Otavio Costa, homem muito culto, professor do Colégio Militar e depois assessor do Presidente Garrastazu Médici. Ele era ligado à minha família e na época era comandante do Forte do Leme, no Rio. Na realidade era uma escola, com cursos de preparação para oficiais. Ele tinha o status de comandante de quartel. E foi me visitar, fardado e em carro oficial. Houve continência, porque se tratava de uma autoridade! E isso foi muito importante. Agora, todos tinham certeza de que eu podia ser tudo, menos bandido. Resultado: um ou dois dias depois do Natal eles me liberaram. Voltei para casa e para o trabalho. Acontece que uma semana depois, no início de janeiro, eu recebi no Jornal do Brasil uma convocação para me apresentar ao Primeiro Exército, na Central do Brasil. Tantas horas, dia tal, andar tal. Era a Segunda Sessão, que cuidava de inteligência. Fui lá e me apresentei, não estava sendo preso; estava sendo intimado. Como deu tempo, tomei o devido cuidado de avisar a direção do jornal. No Exército, fui recebido por uma conhecida figura militar, o Coronel, depois General, Cesar Montaña, o mesmo que havia tomado o Forte de Copacabana em 1964, um sujeito bastante bruto. Ele me interrogou umas sete horas. Aliás, não chamaria aquilo de interrogatório, mas de questionário. Eram as perguntas mais estúpidas possíveis! Jornal da ABI – Pode dar um exemplo?

Alberto Dines – Foram perguntas como: “Como é que um judeu é diretor de um jornal católico?” (risos) Tudo bem, o Jornal do Brasil era uma publicação ostensivamente católica. O Conde Pereira Carneiro tinha um título do Va-


“A gente tinha que tomar decisões de extrema gravidade, de risco de vida no fazer jornalístico.” ticano, o de Conde. Além disso, escreviam no jornal várias autoridades eclesiásticas. A Rádio Jornal do Brasil tinha um programa diário, às 18 horas, e tocava a Ave Maria, o sacerdote lia o sermão. Os donos do jornal eram católicos e eu judeu. E daí? Eram perguntas assim, capciosas, cheias de preconceito. Perguntas sobre política também. “Por que eu escrevi aquelas matérias elogiosas ao regime soviético?”. Disseram que foram elogiosas demais. Ora, escrevi o que estava vendo. Em Moscou eu fui a escolas, museus, teatros, livrarias, comprei livros espetaculares subsidiados, por apenas um rublo. Mas também escrevi sobre o sistema precário de saúde e da falta de liberdade no regime fechado. Reconheço que fui audacioso, porque pouco tempo antes, em artigo no próprio jornal, o Brito disse que não havia nada de positivo em Moscou. Essa não foi a minha avaliação e não podia desprezar meu senso jornalístico. Também porque, logo depois que saiu a minha matéria, em novembro de 1967, houve a habitual cerimônia da Intentona Comunista, no Cemitério São João Batista, e um general fez um discurso de grande repercussão sobre “o ouro de Moscou na imprensa”. Evidentemente, estava se referindo a mim, pois só eu tinha ido para lá naquele tempo. Então, fiquei respondendo a coisas estúpidas. “Por que que eu reagia à censura, afinal eram servidores da Pátria”, e eu respondi que era um servidor de minha profissão. Mas respondi sempre com altivez. Apesar disso, não aconteceu choque mais forte. No fim, ele disse que tinha uma má e uma boa notícia para mim. Era um cara cínico. A boa era que não haviam encontrado nada de grave contra mim, que eu era um tipo de democrata liberal. A má era que teria de passar aquela noite com eles. Questionei o porquê. Eles queriam “continuar a conversa”, saber mais. Isso tomaria tempo, mas como já era fim de expediente, não seria possível continuar. Para facilitar no dia seguinte, deveria “pernoitar” ali. Eram cerca de 18 horas e, para me humilhar, levaram-me pelos corredores do enorme e luxuoso lugar. Os funcionários saindo e eu conduzido por uma escolta de seis catarinas, aqueles polícias-especiais com metralhadoras na mão. Pegamos o elevador cheio de gente, percorremos o saguão inteiro. De repente, abriram uma portinha lateral e me tiraram dali. Nos fundos, pegamos uma viatura e eles disseram que eu iria para um batalhão, na verdade, a Polícia do Exército, que ficava em São Cristóvão. Me enfiaram num lugar cheio de jornal velho no chão e mais tarde

descobri que o Joel Silveira e outros jornalistas estiveram presos antes de mim lá. Havia apenas uma cama velha, mas me recostei e dormi. No dia seguinte, voltei ao interrogatório e fui liberado por volta de umas 13 horas. Jornal da ABI – Como o jornal lidou com essa nova detenção?

Alberto Dines – Fui direto ao jornal e à direção contar tudo. Eles me receberam muito bem, mas depois me disseram que tinham uma novidade: “Dines, os censores foram embora”. Rapaz... aí eu entendi tudo! Eles não queriam que eu ficasse no primeiro dia em que o jornal não estivesse debaixo da censura, em “liberdade”. Então, eles me tiraram da Redação com esse artifício “inteligente e sutil” para que eu não estivesse presente e nem fizesse qualquer manifestação! Foi tramado com o conhecimento da direção do jornal. E isto eu não perdôo e faço questão de dizer: o Brito não podia ter aceitado isso. Jornal da ABI – Sua prisão foi tramada com o conhecimento da direção do JB? O Brito sabia?

Alberto Dines – Claro que sabia! Por isso o jornal não fez nenhum protesto. Os censores saíram – podiam ter saído de surpresa –, mas houve uma relação de causa e efeito ali. Jornal da ABI – Não era mais fácil oBritolhedizerqueoscensoresiam sair e que não queria que você fizesse nada?

Alberto Dines – Isso é o que gente decente faz; o Brito não era transparente. Eles estavam com uma mágoa muito grande de mim, porque todos os censores sabiam que eu fazia o jornal. Apenas não escrevia os editoriais, mas comandava toda a operação de resistência. Tudo com autorização do Brito. É possível que eu esteja imaginando uma teoria conspiratória, mas são impressões que depois foram reforçadas por uma série de evidências de que o jornal realmente abriu as pernas. Nem brincadeirinha podia ser feita, mais nada. O que não significa que a proposta de resistir tenha acabado. Nós, da Redação, continuamos com algumas “perversidades”, mas de forma muito sutil. Éramos proibidos de dizer algo, porém falávamos a mesma coisa de modo diferente. Essa técnica culminou, tempos depois, em 1973, na capa sobre o Allende, só com o texto, sem manchete. E aí também há uma história muito interessante, pois o JB foi o único jornal que resolveu fazer um registro das ordens de censura. Tardiamente, reconheço. Tomei essa iniciativa dois anos de-

pois do AI-5. As ordens eram tantas e tão desencontradas e nós tínhamos uma estrutura interna de produção complexa. Então, recebíamos a ordem de um inspetor e eu tinha que correr para distribuí-la entre todos os editores. Uma secretária já era encarregada de receber as ordens, passá-las para mim e depois fazer cópias para todos. Três dias depois chegava outra ordem, não necessariamente contraditória, mas complementar. Como o negócio ficou bagunçado, decidimos criar um registro dentro da Redação. Assim, cada redator passou a ter um “livro negro” com essas ordens. Foi o registro do antijornalismo. Hoje em dia, esse rico material de registro mereceria um estudo. Seria interessante fazer até uma estatística, porque há as ordens mais desbaratadas. Coisas como: é proibido dar notícia sobre meningite. O País enfrentava um surto de meningite e os milicos não queriam que a população ficasse assustada ou contra eles. Creio que cabe aí um belo estudo acadêmico. Cada uma das ordens de censura merecia ser comparada com o noticiário e ser estudada. Então, nós procurávamos driblar a censura e a Polícia Federal com essas sutilezas. Hoje, a Polícia Federal é um grupo de elite, mas

naquele tempo não passava de escória, capaz de muito serviço sujo. Jornal da ABI – Você chegou a ser preso novamente?

Alberto Dines – Prisão não, mas perdi a conta de quantas vezes fui chamado à Polícia Central, ali na Rua da Relação. Eles me deixavam até de madrugada, para depois um inspetor me receber, lembrar que houve ordem tal e que nós tínhamos publicado algo que ia contra a ordem. Em seguida, dava um belo esporro em mim e me liberava. A realidade é que no fim dos anos 1960 ainda não havia tantos presos e torturados. Lembro-me da prisão do Álvaro Caldas, que trabalhou no JB e esteve ligado à luta armada. Ele já havia saído do jornal e estava na clandestinidade. Não pudemos dar nada, porque veio uma ordem específica sobre ele.

Jornal da ABI – Você não tinha receio?

Alberto Dines – Mas claro! Todo esse clima me deixava muito ansioso. Eu não estava mais agüentando. Não agüentava mais! Não propriamente pela censura, mas pela adesão do jornal ao esquema. Em 1972, cheguei à Redação num sábado e encontrei uma matéria pronta escrita na lauda

do jornal, com o título e tudo, seguindo todas as normas da Redação; uma matéria que veio pronta dos órgãos de segurança, com as instruções que o Brito deixou por escrito, pois ele não quis me enfrentar. Era para colocar na edição de domingo, com a ordem de que devia ser dada com destaque na primeira página. A matéria falava sobre a defecção de um líder comunista, que teria aberto a boca e delatado muita gente, foi um caso grande. Eu dei, mas no dia seguinte procurei o Brito e disse que não queria mais ficar no jornal. Não estava mais fazendo jornal. Quem botou panos quentes foi o Castelinho, que estava no Rio de Janeiro. Ele me disse para que não saísse, que seria pior para o jornal. Eu maneirei um pouco e fiquei. Eu sabia que isso ia acontecer, como de fato aconteceu. As pessoas que entraram depois que eu saí não tiveram nenhum espírito de resistência, embora fosse na época do Geisel, que foi um pouquinho melhor. E eu incomodava. Acho que não incomodei o suficiente, reconheço, por isso tive que começar a fazer análise para agüentar esse horror, essa divisão interna que eu tinha. Foi o melhor investimento que poderia ter feito em mim. Era a forma que eu tinha para me aliviar. Por exemplo: nós não pudemos falar sobre a prisão do Luiz Edgard de Andrade, que tinha sido do JB. Jornalista cearense da minha geração, ele foi correspondente em Paris, profissional de mão cheia. Ele foi preso por engano! Ficou três dias na solitária, não apanhou, mas sofreu uma tortura psicológica terrível, pelado, ar-condicionado ligado, barulho, todas aquelas técnicas horríveis; ele foi martirizado psicologicamente e depois o liberaram. Tinha havido um engano! E nós não pudemos dar! Era muito difícil! Difícil para quem tinha que entrar na clandestinidade, ficar na oposição e para aqueles que estavam ali esperando a primeira oportunidade para fazer coisas. Foi extremamente tenso! Isso se prolongou por muitos anos! Quando eu estava na Folha, em meados da década de 1970, o Maurício Azêdo foi preso e eu dei notícias na minha coluna Jornal dos Jornais sobre a prisão dele. Eu acompanhei a prisão dele, dando notícias na coluna, e ninguém deu. Ele era redator da Editora Abril na época. Então foi muito, muito difícil ser jornalista. A gente tinha que tomar decisões de extrema gravidade, de risco de vida no fazer jornalístico. Esse período foi marcante na minha vida e marcante em toda uma geração! (Continua na próxima edição)

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HISTÓRIA

Meus encontros com o caudilho Leonel Brizola empolgava corações e mentes sobretudo pela resistência à tentativa de golpe de 1961. POR PAULO RAMOS DERENGOSKI

MUNIR AHMED

Na iluminada década de 1960, Leonel Brizola, Governador do Rio Grande do Sul, empolgava corações e mentes da juventude estudantil, não só pelas posições nacionalistas, então em moda, mas principalmente por ter chefiado a luta de Resistência à tentativa de golpe militar de 1961 que se seguiu à renúncia do doidivanas Jânio da Silva Quadros. Brizola dividiu os adversários – e venceu-os com grande apoio popular na campanha de defesa da legalidade. Vi-o pela primeira vez naquelas jornadas inesquecíveis de Porto Alegre, quando todos queriam participar dos batalhões constitucionais. No Governo João Goulart, do qual foi um crítico de vacilações e compromissos, criou um jornal, dirigido por José Silveira e Tarso de Castro, no qual muitos de nós colaborávamos. Nos idos de março de 1964 voltei a vê-lo, tentando inutilmente resistir a um golpe que, este sim, viria para durar duas décadas. Ao lado de alguns generais, como Ladário Pereira Teles, Oromar Osório, Crisanto Figueiredo, Almirante Cândido Aragão e Brigadeiro Francisco Teixeira, líderes sindicais e estudantes, tentou repetir a Resistência. Mas falhou. Pois João Goulart se negava a derramar o sangue dos brasileiros. Foi para o exílio. Era odiado pela extrema direita. Como repórter da revista Manchete fui entrevistá-lo em Montevidéu. Jamais esquecerei o que vi. Ele

estava num pequeno apartamento do arrabalde. A barba grande, um revólver na cintura. Ofereceu-nos um café. Achei que algum empregado iria trazer. Ele foi à cozinha, ferveu a água e nos serviu. Estava sozinho. Ameaçado de morte, mandara a família para outro lugar e aguardava o pior. Mas no Rio a entrevista foi censurada. Anos depois encontrei-o numa visita que fez a Lages, quando o entrevistei para a TV Planalto e ele me lembrou aquele episódio. Em 1982 fui vê-lo no Rio, na Avenida Atlântica. Disse-me que seria candidato a Governador do Rio. Fui franco e dei-lhe a opinião de que nunca deveria sair do Rio Grande do Sul, onde era um ídolo e que o Rio de Janeiro era um pantanal político onde poderia se atolar, mas ele ainda achava que a antiga capital federal era “um tambor nacional”. Só se fosse um tambor furado, argumentei. Naqueles dias ele tinha 5% de intenções de votos. Mas acabou vencendo. E ainda se reelegeu Governador. Mas nunca chegou à Presidência. Era seu grande sonho. Que agora se transforma em memória. Em breve estará coberto pela pátina do tempo. Dissolvendo-se como lágrimas na chuva no vasto mar do futuro... O último caudilho a nadar contra a corrente avassaladora da recolonização.

Vagas lembranças de 1964 ACERVO ABI

Na eleição de 1989 para Presidente da República, Brizola arrebatou multidões, mas não foi vitorioso: ficou em terceiro lugar, após Fernando Collor, vencedor, e Lula.

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Na noite estrelada de 25 de março de 1964 eu estava no Cine São Luiz, no Rio, assistindo à pré-estréia do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, quando um alto figurão do Governo Goulart me disse: “Dentro de mais alguns dias haverá uma tentativa de golpe, mas a resistência virá de Porto Alegre e nós vamos cortar a cabeça dos golpistas... (sic)” Na época eu era repórter do Metropolitano e no outro dia já estava num avião para a capital gaúcha. Em Porto Alegre nada de anormal era observado. Lá pelo dia 30 de março, estava no Cinema Cacique, quando percebi muita gente com o ouvido colado nos radinhos de pilha. Fui direto para a sede da Última Hora, na Rua Sete de Setembro, e ali soube que Minas Gerais estava se levantando. No outro dia fomos num jipe do jornal – eu, o Marcão Faerman e o Tarso de Castro – para o aeroporto, pois anunciava-se a chegada do Presidente João Goulart. Mas quem desceu foi um avião militar com o General Ladário Teles e vários homens armados. Eles se dirigiam – e nós atrás – para a 6ª Divisão de Infan-

taria, onde logo assumiram o comando, então vago, do III Exército. Dali fomos para uma casa, creio que de Jango, onde a alta cúpula da chamada “Resistência” se reunia. Jango já estava lá. Foi-lhe sugerido que nomeasse ministro o General Ladário e também Brizola. Mas ele estava nervoso, chorava, e repetia que “não derramaria sangue do povo brasileiro”. O General resolveu voltar ao Rio, onde se apresentou. Porto Alegre ainda ficou como “terra de ninguém” durante algum tempo, enquanto grupos estudantis prometiam continuar a resistência nos arredores da Prefeitura Municipal, onde funcionava uma rádio transmitindo boletins entusiásticos. Lá pelo dia 10 de abril a reação chegou. Para-militares, civis a cavalo, saíam às ruas para reprimir os últimos e isolados protestos dos estudantes. Surravam o povo com longos relhos (arreiadores de surrar gado nas tropeadas) de couro. A chamada “revolução” havia vencido. Os primeiros exilados começaram a ir para o Uruguai. A longa jornada noite adentro não ia durar dois meses, como pensavam alguns. Mas vinte anos! Quarenta anos depois, tudo isso são lembranças vagas, enevoadas pela pátina do tempo. Como lágrimas perdidas na chuva em meio ao mar revolto. Mas se nas nuvens brilha o sol, também ali se formam novas tempestades. Paulo Ramos Derengoski, sócio da ABI, é jornalista e escritor. Radicado em Lages, é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.


MEMÓRIA

ELIANE SOARES

O primeiro regresso POR RODOLFO KONDER

A

s gaivotas gritavam, mas não podíamos vêlas, porque a neblina cobria as areias de Carrasco, uma praia da zona nobre de Montevidéu. Naquela hora de maré baixa, as águas doces do Rio da Prata – que chegavam de Buenos Aires e se preparavam para mergulhar no Atlântico Sul – acariciavam a cidade. Mais tarde, com a maré alta, elas seriam deslocadas pelas águas salgadas do oceano. Ali, naquela esquina batida pelo vento, conversei com o ex-Deputado Demistóclides Batista, o Batistinha, um negro valente e generoso que seria assassinado em Niterói, quase trinta anos depois, com cinco tiros no peito. Estávamos ambos exilados, em razão do golpe militar de abril daquele ano de 1964. Andamos pelas ruas arborizadas, até à Avenida 18 de Julio, passamos em frente ao prédio “de la Municipalidad” (sede da prefeitura) e chegamos à Plaza de la Independencia, sempre empurrados pelo minuano naquele “país sem crianças” (dizia o jornalista Paulo Ramos Derengoski), mas cheio de “jubilados” (aposentados). Buscávamos inutilmente atalhos para o futuro, que nos reservara surpresas devastadoras. Nossos amigos uruguaios, por exemplo, viveriam em seguida os tormentos de uma grave crise econômica e os pesadelos de uma prolongada ditadura militar.

Dias depois, Batistinha me levou de carro até uma pequena cidade do interior do Uruguai – Tucuarembó. A rua empoeirada lembrava os velhos filmes de Gary Cooper, com umas poucas casas antigas de madeira, que incluíam uma agência bancária, um hotel de segunda e uma livraria quase imperceptível. Fui até o homem de testa ampla e cabelos lisos que se escondia atrás da caixa registradora. “Quiero comprar el libro EI Hambre, de Knut Hansen”. Ele sorriu, levantou-se e me abraçou. A frase era uma senha. O livreiro Zili me abrigou, durante dois dias, na casa de um pequeno fazendeiro. Eu dormia no celeiro, onde tomávamos chimarrão e prevíamos a chegada do socialismo e a derrota dos militares. Então, fui levado de automóvel até uma padaria, em Rivera, onde trabalhava um jornalista de Porto Alegre, Edmur Ferreira, também foragido. Ficamos os três – Edmur, eu e um dirigente estudantil gaúcho – num imenso depósito de objetos velhos – móveis usados, manequins rasgados, placas de madeira. E ratos. Parecia o cenário de A Morte Passou por Perto, um dos primeiros filmes de Stanley Kubrick. Certa noite, recebi do estudante uma passagem de trem até Porto Alegre. Atravessei Rivera, entrei em Santana do Livramento e fui para a estação ferroviária. Cassiqui, Santa Maria, cheguei a Porto Alegre bem cedo.

No endereço indicado, toquei a campainha. Um homem idoso, olhar cansado e bronquite crônica, abriu a porta da casa. “Vim aqui negociar os couros de Santa Maria”, disse-lhe. Ele me abraçou comovido. A frase era outra senha. A etapa seguinte foi uma viagem de ônibus até São Paulo, onde me receberam meus tios Sulamita e Antônio Comparato, num casarão da Rua Artur Prado, no Paraíso. Artur Prado, 523. Logo o editor Ênio Silveira me buscou, numa Kombi, e me levou de volta ao Rio de Janeiro, onde vivi uma fase arrastada de novas agonias. Durante meses, os bares de Copacabana e Ipanema foram novamente os pontos de encontro de amigos igualmente desorientados, que percorriam comigo os labirintos da melancolia, da causticidade, da tristeza e da desesperança. Bebíamos o chope preto do Bar Alpino, enquanto três homens grisalhos tocavam no piano, no violino e no contrabaixo músicas que ninguém ouvia. Desempregado – e sem profissão definida – tomei-me jornalista e fui traduzir telegramas na Agência Reuters. A política deixara de ser uma aventura, para se transformar num drama. E não havia mais heróis, na minha história – apenas seres amargurados. RODOLFO KONDER, jornalista e escritor, é Diretor da Representação da ABI em São Paulo e membro do Conselho Municipal de Educação da Cidade de São Paulo.

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ACONTECEU NA ABI

Um ano para homenagens a Marighella Em ato com casa cheia, foi lançado na ABI o Ano Marighella, durante o qual serão realizadas em todo o País celebrações em memória do criador da Ação Libertadora Nacional-ALN.

A ABI sediou no dia 15 de dezembro, o lançamento do Ano Marighella, em comemoração ao centenário de nascimento de Carlos Marighella, líder revolucionário, ícone da luta contra a ditadura militar no Brasil. Para resgatar a memória do guerrilheiro serão realizados em todo o País ao longo do ano seminários, debates, palestras e exposições. O evento na ABI foi realizado no Auditório Oscar Guanabarino, com a presença de mais de 500 pessoas. Formaram a mesa de honra o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, o Presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, Cecília Coimbra, do Grupo Tortura Nunca Mais, Carlos Eugênio Clemente, da Rede Democrática, Ivan Pinheiro, da Fundação Dinarco Reis, Secretário-Geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Iara Xavier Ferreira, representando Zilda de Paula Xavier, Rafael Martinelli, Amanda Matheus, do MST, e Luiz Rodolfo Ribeiro de Castro, o Gaiola, Coordenador da Comissão Organizadora do “Ano Mariguella”. A solenidade teve início com a exibição do documentário Carlos Marighella Quem Samba Fica, Quem Não Samba Vai Embora, do cineasta Carlos Pronzato, que reúne depoimentos sobre a trajetória do líder revolucionário. Estão presentes no filme dezenas de militantes políticos históricos que atuaram junto a Marighella, além de jornalistas, pesquisadores e historiadores, entre os quais Rubem Aquino, Rômulo Noronha, Edileuza Pimenta, Alípio Freire, Fernando Santana, Carlos Augusto Marighella, Clara Charf, viúva de Marighella, Muniz Ferreira, Aton Fon, Takao Amano, Sílvio Tendler. Pronzato apresenta uma narrativa linear sobre o filho do operário Augusto Marighella, imigrante italiano, e da baiana Maria Rita do Nascimento, descendente de escravos haussás africanos do Sudão, mostrando o estudante de Engenharia; sua luta no PCB; o enfrentamento à ditadura Vargas; a eleição para deputado constituinte em 1945; a dissidência no Partido Comunista; a fundação da ALN e a adoção da luta armada; a resistência, perseguição, tortura e morte. Após a projeção do filme e a execução do Hino da Independência do Brasil e de A Internacional, Luiz Rodolfo Ribeiro de Castro conduziu a formação da mesa. O Presidente da ABI proferiu o discurso de abertura: “Companheiros e companheiras, membros da mesa, em especial o Presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, representante da instituição que tem papel relevante na luta pela abertura dos arquivos da ditadura, pelo aprofundamento das conquistas de um verdadeiro Estado Democrático de Direito como aquele pelo qual lutamos durante mais de duas décadas, e Cecília Coimbra, do Grupo Tortura Nunca Mais, que teve uma ação de extremo desvelo em

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REPRODUÇÃO

POR CLÁUDIA SOUZA

O jovem Marighella cultivava um bigode que não se incorporou à sua imagem.

defesa das vítimas da ditadura militar. A Associação Brasileira de Imprensa sentese muito confortada e à vontade para dividir com a Fundação Dinarco Reis. que celebra com seu nome um dos grandes combatentes pelo progresso social do Brasil, a honra deste ato que homenageia o centenário do admirável líder revolucionário que foi Carlos Marighella, diante do qual nós assumimos aqui o compromisso de manter a luta indormida, corajosa e desprendida que ele teve até ser vítima de uma armadilha da ditadura em 4 de novembro de 1969, na Alameda Casa Branca, em São Paulo. Enaltecendo Carlos Marighella vamos ouvir agora o depoimento radiofônico no qual ele expôs suas idéias, que ainda hoje mantêm o viço de atualidade.”

OAB RECLAMA A VERDADE

Em seguida, Wadih Damous falou sobre a importância de Marighella para a História nacional: “Estou honrado em participar deste ato histórico que valoriza a História do Brasil e sublinha a atividade de um líder revolucionário brasileiro. Durante a ditadura militar, membros da OAB desceram aos porões para defender aqueles que estavam sendo perseguidos e torturados. Alguns dos nossos jamais saíram de lá. Uma bomba foi explodida em nossa sede em 1980, vitimando uma funcionária, o que justifica a nossa presença em uma solenidade como esta.” Damous sublinhou a luta da OAB pela abertura dos arquivos da ditadura: “Ao longo dos últimos quatro anos empregamos esforços, ainda que modestos, ainda que isolados do âmbito do sistema interno da OAB. Por incrível que pareça, os advogados estão longe de formar uma classe revolucionária. Aliás, Lênin já dizia

o seguinte: ‘Olha, cuidado com esse negócio de advogado...’ (risos). Posso até mesmo ser criticado por estar aqui em um ato no qual se cultua a imagem de um terrorista, pois é esta a imagem que se quer passar para as gerações vindouras. Estou aqui honrando Sobral Pinto, Evandro Lins e Silva, Fernando Fragoso, Modesto da Silveira, Eny Moreira e todos os homens e mulheres que em uma determinada fase de sua vida foram chamados a prestar seu depoimento perante a História e não desonraram o povo brasileiro.” O Presidente da OAB assinalou a relevância da campanha pela Memória e pela Verdade: “Nosso objetivo é que as novas gerações saibam o que aconteceu no Brasil e que aqueles fatos jamais se repitam. Logo depois do lançamento da campanha tivemos um revés com a decisão do Supremo Tribunal Federal que considerou anistiados os torturadores brasileiros. Hoje, os torturados são os negros, pobres, favelados. Precisamos afirmar o cumprimento da decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, da OEA, contra esta realidade. Queremos os torturadores e assassinos no banco dos réus. A juventude brasileira precisa saber pelos livros escolares quem foram Carlos Marighella, Sérgio Fleury, Cabo Anselmo.” “Queremos dar sequência à Comissão pela Memória e pela Verdade a partir, inclusive, da composição de seus membros para evitarmos que nomes que deveriam estar sendo convocados a depor estejam, na verdade, integrando a comissão. No âmbito do Rio de Janeiro, vamos analisar a participação de juízes e promotores nos processos da ditadura. Uma história que ainda não foi contada neste País. Juízes e promotores que deixaram de cumprir com seu ofício para mandar para as masmorras e para a morte diversos combatentes e perseguidos políticos.” Na sequência, Cecília Coimbra reforçou a relevância dos trabalhos da Comissão da Verdade: “Hoje reli o Rondó da Liberdade, de Marighella. Há nele uma frase muito atual: ‘É preciso não ter medo. É preciso ter a coragem de dizer’. Precisamos ter coragem de dizer e acabar com o medo. Para isso queremos uma Comissão autônoma, independente, que não mantenha o sigilo, que se responsabilize e, efetivamente, promova no Brasil um processo de reparação, de acordo com o conceito da Onu, que é investigar, averiguar e responsabilizar pelos crimes cometidos em nome da segurança nacional. Queremos que todos os assassinatos sejam investigados, esclarecidos e responsabilizados. Para isso não podemos ter medo. Há um ano a Comissão Interamericana deu uma sentença ao Estado brasileiro que até hoje não foi cumprida. Vou repetir uma frase dita por Carlos Eugênio no livro Carlos – A Face Oculta de Marighella, de Edson Teixeira da Silva Júnior, que é a seguinte: ‘Tenho orgu-

lho de pertencer ao lado que não se calou’. O Grupo Tortura Nunca Mais também tem orgulho de pertencer ao lado que não se cala.”

A PALAVRA DO MST

A jovem Amanda Matheus, representante do MST, destacou a participação dos movimentos sociais nas homenagens ao líder revolucionário: “Queremos agradecer a nossa presença aqui. É muito significativo para o Movimento Sem Terra. O MST fez uma homenagem ao líder Marighella há algum tempo. Nosso companheiro Ademar Bogo escreveu um texto que eu gostaria de ler. Diz o seguinte: “Carlos Marighella mesmo depois de assassinado ainda amedronta os inimigos. Comanda, mesmo no silêncio, através das idéias e dos exemplos, um exército de gerações que acreditam nas mudanças revolucionárias. Aprendera nos combates que para cada ofensiva do inimigo devia abrir outra frente política. Procurar caminhos alternativos e diversificados, pois é na ação que se faz a orquestração para acompanhar o movimento das mudanças. A geração de Marighella foi de rupturas e é universal porque o imperialismo também o era. Golpeava em todos os lugares do mundo: naqueles já vendidos e nos que ainda haveria de vencer. A geração de Marighella se recolheu e guardou os fuzis. As massas foram ensinadas a empunhar bandeiras. Encheram as alamedas e avenidas ouvindo o próprio grito dos aflitos; e o barulho permitiu que o algoz se juntasse a nós. Carlos Marighella nunca deixará de ser uma lembrança combativa. Sua imagem continuará viva em nossa memória e em nossos corações. Seus exemplos renascem da consciência das novas gerações.” “Marighella – prosseguiu a jovem Amanda – é um exemplo para o MST porque ele veio do povo e permaneceu junto à classe trabalhadora. Ele faz parte da história da luta de classes no Brasil. Mesmo na clandestinidade, resistiu e lutou. Nós do MST trazemos viva a memória de Marighella.” Rafael Martinelli, que foi dirigente ferroviário e integrante da ALN, recordou a onda de violência que marcou o golpe de 1964: “Milhares e milhares de camponeses foram torturados, não apenas pelo Exército, mas pela Polícia e pelos latifundiários. Tive muitos companheiros que morreram na cadeia em 1964. A ditadura também odiava a categoria dos jornalistas. As crianças e os jovens estudantes precisam aprender o que foi a ditadura e o que representa a luta pela democracia. Estou falando aqui para mais de 500 pessoas. Não tem tanque de guerra, não tem pau-dearara, não tem cadeira de dragão. Precisamos aproveitar a democracia para realizarmos atos como este. Quero deixar aqui a minha solidariedade e dizer, com os meus cabelos brancos, que cheguei a ter 150 companheiros da ALN presos, que nunca


disseram que eu era dirigente, e é por isso que eu estou aqui vivo.” Após o depoimento de Martinelli, Luiz Rodolfo Ribeiro de Castro leu uma nota sobre a instalação na Câmara dos Deputados da Comissão Parlamentar de Acompanhamento dos Trabalhos da Comissão da Verdade, sob a coordenação da Deputada Luíza Erundina. Em seguida, passou a palavra a Iara Xavier Ferreira, irmã de Iuri e Alex Xavier Pereira, assassinados pela ditadura. O depoimento de Iara é destacado adiante.

ENTERRO PROIBIDO

Filho de Marighella, Carlos Augusto revelou que quando o pai morreu foi chamado à Redação de um jornal na Bahia para reconhecê-lo em uma fotografia enviada por telex, registrada no momento em que ele foi assassinado. A família foi advertida que não receberia autorização para promover o enterro de Marighella. Carlos Augusto lembra que ficou chocado também com as manchetes sensacionalistas sobre o crime: “Tenho participado de vários encontros como este e percebo que aos poucos está se dissipando a imagem de bandido e criminoso que sempre foi feita de meu pai. Recentemente ele recebeu o título de Cidadão de São Paulo. A Comissão Nacional de Anistia, em 5 de dezembro, reconheceu a condição dele de anistiado. Nesse ato estavam presentes várias autoridades importantes do País, que apontaram meu pai como um herói nacional. Todos os brasileiros podem se orgulhar, como aqui na ABI, uma instituição importante, simbólica, da qual foi Presidente Barbosa Lima Sobrinho, que dedicou a vida a denunciar a opressão e a tirania no Brasil, a cujo trabalho Maurício Azêdo está dando continuidade. Este ato na ABI resgata a memória de Marighella e o apresenta como o homem que lutou a favor do povo brasileiro, pelo qual ele nutria grande paixão, aceitando aqui ficar para lutar. Quero compartilhar este momento com todos vocês e com Zilda, que simboliza toda esta emoção. Precisamos continuar a luta de Marighella. Estamos tendo aqui uma prévia da Comissão pela Memória e pela Verdade, que necessita do nosso apoio para apontarmos os criminosos que sufocaram o nosso País e saudarmos os nossos heróis.” Falando em nome da Fundação Dinarco Reis, Ivan Pinheiro também frisou a dimensão nacional do papel de Marighella na construção do Brasil: “A juventude precisa ser educada com este exemplo de luta. Ele louvou a História do nosso Partido. Não é correto dizer que a luta armada atrapalhou o processo de abertura política e não é correto dizer que só aqueles que pegaram em armas lutaram pela ditadura. As formas de luta foram muitas, com os sindicatos, os movimentos estudantis, os intelectuais, artistas, a advocacia de Modesto da Silveira em nossas vidas. Rubens Paiva foi assassinado, Manoel Fiel Filho foi assassinado, Vladimir Herzog foi assassinado, dezenas de companheiros do Comitê Central do PCB que não aderiram à luta armada foram assassinados. Então, vamos celebrar a unidade que tivemos na luta contra a ditadura. Marighella usou todas as formas de luta que um revolucionário usa. Digo isto com muita emoção. Tenho orgulho em dizer que sou da geração de 1968, fiz parte do MR 8 e do PCB. Somos comu-

nistas como Marighella porque a nossa luta não acabou. Vamos comemorar a nossa pequena vitória contra o capitalismo, que hoje promove uma ditadura ainda mais cruel, mais violenta. Se Marighella estivesse aqui não ficaria contando história, ele nos convocaria para a guerra contra o imperialismo. Estou muito emocionado e quero dizer que aqui há duas presenças na platéia que me fazem balançar e quase chorar: Zilda Xavier e o companheiro Eliseu, que também está comemorando aqui o seu aniversário de cem anos. Ele foi vereador do Rio na maior bancada comunista nos anos 1940, e líder sindicalista.Vamos aplaudi-lo.”

DINARCO: LUTA EM TRÊS FRENTES

Em seguida, Ivan Pinheiro convidou Dinarco Reis Filho para subir ao palco e fazer a entrega da Medalha Dinarco Reis ao filho de Marighella. “Anualmente entregamos esta condecoração aos cidadãos que honraram o PCB. Este ano estamos homenageando Marighella, que morou um período na casa de

Dinarco Reis Filho, no Catete. Dinarco Reis, como Marighella, usou todas as formas de luta. Colocamos o nome dele em nossa fundação pela sua combatividade. Ele pegou em armas em 1935, no Levante Comunista, na Resistência na Guerra Civil Espanhola e na Resistência Francesa. Concedemos esta Medalha, independente das armas e das formas de luta, aos revolucionários brasileiros que honraram o nosso Partido e ajudaram a construir o socialismo. No ano passado, concedemos a Medalha a Gregório Bezerra e a Ana Montenegro, dois brasileiros que usaram a arma mais poderosa contra a opressão que é a arma da palavra”, disse Dinarco Reis Filho. Após a homenagem, Carlos Eugênio, que foi dirigente da ALN, iniciou seu discurso revelando a satisfação em fazer parte da cerimônia: “Como o samba diz que quem samba fica e quem não samba vai embora, lembrei de outro samba que diz que é hoje o dia da alegria. Estamos aqui não para falar de morte, mas para falar de vida, exemplo de vida. Estou alegre em pertencer a um povo que ori-

A atuação das mulheres na organização da ALN Durante o ato, Iara Xavier Pereira leu este relato: “Falo aqui em nome de minha mãe, Zilda Xavier, de meu pai e meus irmãos. Uma família que desde o início esteve engajada na luta e na organização proposta por Marighella contra a ditadura militar. Falo em nome de companheiros e companheiras da ALN que não podem falar, mas que estão aqui presentes na nossa lembrança hoje e sempre. Poderia falar dos companheiros e companheiros que resistiram às campanhas de cerco e aniquilamento promovidas pelo regime militar contra a ALN e morreram lutando. Alex, Iuri, Arnaldo Cardoso, Élcio Pereira, Gélson Reis, Luis José da Cunha, Luis Afonso Miranda, entre outros. Peço licença para falar sobre o início da Ação Libertadora Nacional na Guanabara. É uma história até hoje pouco conhecida e divulgada. Ao contrário do que aconteceu em São Paulo, onde Marighella contou com o apoio de vários companheiros homens, como Joaquim Câmara Ferreira, nosso comandante Toledo, para estruturar a ALN, na nossa Guanabara. Marighella contou com o apoio de um grupo de mulheres guerreiras que foram fundamentais na formação e sustentação da ALN no Rio. Maria Antonieta Gomes, Maria Cerqueira, Maria do Carmo, Ednéa Vieira, Zilda Paula Xavier Pereira, que organizava e liderava este grupo. Algumas eram militantes desde a década de 1940. Lutaram contra a ditadura de Vargas e mais tarde contra a ditadura militar de 1964 a 1985. Participaram do Socorro Vermelho em solidariedade aos presos políticos da ditadura de Vargas. Foram

importantes nas eleições de 1946, participaram da campanha pela paz, da campanha O petróleo é nosso, e da Liga Feminina, da eleição de JK e de João Goulart, do Comício da Central, que antecedeu o golpe. Quando Marighella resistiu à prisão, após o golpe, sinalizando que rompera com a postura pacifista do PCB, e levantou a bandeira da guerrilha contra a ditadura militar, as mulheres foram as primeiras a se alistar, recorda Iara, que citou também a grande mobilização dos militantes Domingos Fernandes, Carlos Eugênio, Carlos Fayal, Ronaldo Dutra, Paulo Henrique, Jorge Raimundo, Rômulo Noronha. Essas companheiras que, nós na época chamávamos de velhas, tinham entre 40 e 60 anos. Elas estavam na retaguarda montando os aparelhos de apoio, na segurança, no transporte de armas e dinheiro. Elas também participaram e fizeram a guerrilha urbana e por esta participação foram presas, torturadas e resistiram, sobreviveram e continuaram na luta pela anistia ampla, geral e irrestrita e pela democracia no País. Zilda Xavier Ferreira foi responsável pela estrutura e montagem do aparelho onde Marighella ficava no Rio. Fazia o contato entre os diversos grupos da ALN, no Rio e em São Paulo, e organizava a ida e a volta dos militantes que se deslocavam para treinamento no exterior. Uma função estratégica dentro da ALN, segundo Iara, que falou também sobre a sua convivência pessoal com Marighella: Nossa relação foi ao mesmo tempo afetiva e política. Conheci-o quando criança. Ele era um dos dirigentes do PCB que se reuniam em nosso

ginou Carlos Marighella, Joaquim Câmara Ferreira, Rafael Martinelli, Carlos Fayal, Jonas, Wilson Silva. O Alto-Comando das Forças Armadas, em conluio com o Governo norte-americano, condenou muitos companheiros à morte. Em 1964 eu tinha 13 anos de idade e vi nas ruas apenas um time, o time da direita, das Forças Armadas. Nós na ALN começamos a luta cercados, em situação de cerco tático e estratégico. Eles tiveram 21 anos para criar um modelo e tirar da cabeça das nossas crianças a solidariedade e colocar no lugar a competitividade. Imaginem a força criativa de Marighella sendo usada para construir uma sociedade no lugar de ser usada para destruir uma ditadura.”

NA ASSEMBLÉIA

Antes do encerramento do encontro, os Deputados Paulo Ramos e Geraldo Moreira anunciaram futura homenagem da Assembléia Legislativa do Estado do Rio a Carlos Marighella e a outros militantes políticos, que serão condecorados com a Medalha Tiradentes.

apartamento no Flamengo. Nasci, cresci e me eduquei entre comunistas. Quando Marighella passou da palavra à ação, segui seus passos, ou melhor, seu comando. Meus primeiros tempos de militância foram sob as ordens do comandante Marighella. Cumpri várias tarefas. Marighella sempre dizia que não há uma tarefa menor ou maior. Uma delas foi o projeto da Rádio Libertadora, a rádio clandestina da revolução. Com a censura e o cerco a Marighella, ele começou a pensar em formas para se comunicar e fazer chegar ao povo sua proposta de luta. Fui para o exterior fazer treinamento militar, onde já estavam meus irmãos Iuri e Alex. Retornaram também minha mãe e Câmara Ferreira, que quando Marighella foi morto estavam cumprindo missão no exterior. Retornaram para reestruturar a guerrilha urbana e desencadear a guerrilha rural tão sonhada por Marighella. Com emoção, Iara citou a participação da mãe neste contexto: “Minha mãe não vacilou e retornou ao País para servir à ALN. Presa e barbaramente torturada, não entregou ninguém. Buscando uma forma de fugir, simulou uma crise de loucura e foi internada no Hospital Pinel. O PCB, através de David Capistrano Filho, conseguiu chegar ao hospital e ofereceu apoio para a fuga de Zilda. Ela agradeceu, mas recusou e, altiva, informou que tinha uma organização, a Ação Libertadora Nacional, que a iria resgatar. E assim, no dia 1º de maio, conseguiu fugir e foi enviada ao exterior, onde ficou responsável por organizar a volta dos companheiros que tinham terminado o treinamento, inclusive seus filhos. Os tempos atuais são tempos de memória que devem ser fiéis aos tempos das idéias, da luta, da vida e da morte de Marighella. Devemos lembrar daqueles que deram suas vidas à luta pela revolução e o socialismo.”

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ACONTECEU NA ABI

Entidades resistem à ganância do Grupo Galileo Professores, médicos, estudantes e funcionários da Universidade Gama Filho e da UniverCidade organizam movimento contra as arbitrariedades de empresários que tratam a educação e a saúde como uma fonte de negócios e de lucros. POR CLÁUDIA SOUZA Entidades sindicais de professores e funcionários de universidades e estudantes de vários cursos decidiram organizar a resistência à ganância e insensibilidade do Grupo Galileo Educacional, que demitiu centenas de professores e servidores da Universidade Gama Filho e da UniverCidade e aumentou em 25% as mensalidades dos cursos de ambas as instituições, cuja gestão foi por ele assumida. A decisão foi adotada em vibrante assembléia realizada no dia 18 de janeiro no Auditório Oscar Guanabarino, no 9º andar do edifício-sede da ABI, onde foi lançado o “Manifesto em Defesa da Educação e da Saúde Brasileira” subscrito pelas entidades, entre as quais a ABI. Formaram a mesa o jornalista Lenin Novaes, Presidente da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI; o médico Jorge Luiz do Amaral, Diretor do Sindicato dos Médicos-SinMed-RJ; o Professor Wanderley Quêdo, Presidente do Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região- Sinpro-Rio; os dirigentes sindicais Elles Carneiro Pereira, Presidente do Sindicato dos Auxiliares da Administração Escolar do Rio de Janeiro-SAAE-RJ, Darby de Lemos Igayara, Presidente da Central Única dos Trabalhadores-Cut-RJ, e Luiz Alberto Wiechers Grossi, do Sinpro Petrópolis e Região e da Federação dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino no Estado do Rio de Janeiro-Feteerj; os líderes estudantis Leonardo César, do DCE da Universidade Federal Fluminense-Uff, e Igor Mayworm, Presidente da União Estadual dos Estudantes do Estado do Rio de Janeiro, e a jornalista Carmem Pereira, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. Lênin Novaes abriu o encontro agradecendo a presença de todos e destacando a solidariedade da ABI ao movimento. “É uma satisfação para a Associação Brasileira de Imprensa estar inserida nesta luta contra esse abuso no âmbito da educação e da saúde que nós estamos vivenciando”, disse. Em seguida, Wanderley Quêdo, do Sinpro-Rio, falou sobre o crescimento da vertente mercantilista no setor educacional brasileiro: “Estamos nos mobilizando desde o dia em que recebemos as primeiras denúncias de professores demitidos pelo Grupo Galileo, que se apresenta como educacional apesar de não ter autorização do Mec. O processo de mercantilização da educação e da saúde não é novidade. Temos a cronologia deste crescimento 22

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nos últimos dois anos em todo o mundo, envolvendo Unesco, Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio, entre outras entidades. A lógica do capitalismo internacional objetiva o lucro nesses setores. Precisamos lutar por um Sistema Nacional de Educação para romper com este modelo gigantesco de financeirização da educação. A Estácio de Sá obteve lucro de R$ 1 bilhão. O Grupo Galileo registrou capital inicial de R$ 10 mil, que em pouco tempo, através de debêntures, se transformou em R$ 100 milhões. É contra este monstro que estamos lutando e a luta não é apenas judicial e pontual. Ela deve ser permanente em benefício do desenvolvimento da nação e do povo brasileiro”. Elles Carneiro Pereira, do Saae-RJ, denunciou o cenário antidemocrático imposto aos professores, alunos e funcionários vinculados ao Grupo Galileo: “Todo

este problema terminou por nos unir por uma causa maior, que é a luta pela democracia que custosamente conquistamos. Quem tem o controle da educação tem, na verdade, o controle de toda a nação. Estamos cansados de ver estes exemplos muitas vezes com o apoio do Judiciário contra os nossos sindicatos. Muitos companheiros e companheiras nossos não estão aqui presentes porque não têm dinheiro para pagar a passagem do ônibus. Estão sem receber desde dezembro. Isto é gravíssimo”. Discursaram ainda no ato o Presidente da União Estadual dos Estudantes do Estado do Rio de Janeiro, Igor Mayworm, que criticou o comportamento do Grupo Galileo frente aos estudantes desde o início da mobilização; Luiz Alberto Wiechers Grossi, da Federação dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino no Estado do Rio de Janeiro, que sustentou

que o empenho por um ensino público de qualidade deve ser o mote de discussão dos problemas do setor educacional no País; Carmem Pereira, do Sindicato dos Jornalistas, que lembrou que a categoria foi duramente atingida pelas demissões do Grupo Galileo. “O fim das exigência do diploma imposto pelo Supremo Tribunal Federal – disse Carmem – foi um duro golpe para nós e para a sociedade, já que a luta pelo diploma é a luta pela qualidade de ensino. O jornalista precisa ter uma formação humanística, técnica e ética para informar com qualidade, um direito da sociedade. Este é o momento para fortalecermos este movimento. Vamos lutar contra as irregularidades do Grupo Galileo e de tantas outras universidades que promovem demissões arbitrárias de tantos colegas e desrespeitam nossos direitos trabalhistas.”

Manifesto denuncia: O lucro é a regra Antes do encerramento do ato foi aprovado por unanimidade e sob aclamação o “Manifesto em Defesa da Educação e da Saúde Brasileira”, do seguinte teor: “As entidades, alunos, professores e funcionários abaixo reunidos vêm denunciar à sociedade brasileira os desmando praticados pelo Grupo Galileo Educacional após a nebulosa operação de fusão da Universidade Gama Filho e da UniverCidade, que resultou na demissão de um alarmante número de professores e funcionários administrativos no apagar das luzes de 2011. Observamos, com preocupação, a reestruturação da educação brasileira, que permite, há alguns anos, seu controle por grupos financeiros nacionais ou estrangeiros, bancos e fundos múltiplos de investimentos. Uma lógica perversa de submissão da Educação aos ditames empresariais, que tenta transformar educação em mercadoria. Como negócio, esse modelo de educação, dotado de cunho empresarial, tem apenas um objetivo: o lucro. Tendo este como princípio, a preparação intelectual e cultural, bem como a qualidade da formação profissional de gerações, se encontra comprometida. Quando o lucro dita a regra, deixa-se de se debater projetos de sociedade para se discutir mercado; deixa-se de se orientar pelo prin-

cípio da solidariedade para ser regido pela competição. Observamos que estas corporações educacionais, contraditoriamente, são de caráter filantrópico, o que lhes permite ser agraciadas pelo Estado brasileiro com isenção de impostos, o que significa financiamento público indireto. Entretanto, o princípio da orientação da educação pelo lucro, em uma inversão clara do conceitos de filantropia, tem penalizado os professores e funcionários com o reiterado descumprimento da legislação educacional e trabalhista. Mais grave, a instituição de um ambiente de terror acadêmico provocado pela demissão do Presidente da ADGF (Associação Docente Gama Filho), cerceando o direito dos professores à livre organização por local de trabalho. A política de demissões em massa praticada pelo Grupo Galileo que afetou os diferentes cursos – Medicina, Direito, Administração, Enfermagem, Comunicação – evidencia a selvageria e ausência de responsabilidade social dos gestores das “empresas” educacionais que compõem o Grupo Galileo, a saber: Galileo Administração de Recursos Educacionais S.A e Galileo Gestora de Recebíveis SPE. O curso de Medicina, especificamente, foi afetado pela ferocidade deste grupo em face das demissões de 178

médicos docentes que prestavam serviços na Santa Casa da Misericórdia, provocando o desmantelamento dos serviços médicos prestados à população por esta instituição centenária do Rio de Janeiro. Em face de todas as denúncias apresentadas junto ao Ministério Público, obtivemos uma grande vitória na última semana. Foi concedida liminar pela reintegração dos docentes da UGF. Pelo exposto, reivindicamos a atenção urgente do Estado brasileiros na interposição de limites às liberdades absolutas das corporações financeiras atuantes no setor da educação brasileira, que se constituem a partir de transações negociais milionárias e obscuras, vilipendiando interesses da sociedade e do Estado. Educação e saúde não são mercadorias, aluno não é estoque! (a) Sindicato dos Médicos-RJ, Sinpro-Rio, Sindicatos dos JornalistasRJ, Sindicato dos Enfermeiros-RJ, Sindicato dos Advogados-RJ, Sindicato dos Auxiliares de Administração Escolar-RJ, Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, Associação Brasileira de Imprensa, União Nacional dos Estudantes, União Estadual dos Estudantes do Estado do Rio de Janeiro, Federação dos Trabalhadores dos Estabelecimentos de Ensino do Estado do Rio de Janeiro.”


PERFIL

ARQUIVO ABI

ARQUIVO ABI

Edmundo Moniz com o escritor Antônio Houaiss e o Governador Leonel Brizola; ao lado, com o ator e Senador Abdias do Nascimento.

Um retrato ampliado de Edmundo Moniz, por Murilo Melo Filho A saudação feita por Murilo na solenidade em que a ABI celebrou o centenário do criador do Serviço Nacional de Teatro. PAOLA BONELLI

Peço-lhes alguns minutos para falar um pouco sobre este admirável intelectual baiano chamado Edmundo Moniz, aqui reverenciado, que nasceu em Salvador justamente há cem anos, no dia 2 de novembro de 1911, e que morreu no Rio em 1997. Trata-se de um poeta, um novelista, um ensaísta, um biógrafo, um teatrólogo e intelectual, que naquele tempo se chamava de esquerda, pertencente à família de Hélio, de Heitor e de Niomar Moniz Sodré, proprietária do Correio da Manhã. Seu pai, Antônio Muniz Sodré de Aragão, foi Governador da Bahia em 1916. Muito jovem, aos 19 anos, Edmundo já participava de movimentos estudantis organizando o I Congresso Operário, uma espécie de precursor da Aliança Nacional Libertadora-ANL, de Luís Carlos Prestes, de Jorge Amado e Carlos Lacerda, lançada em 1935, no Teatro Carlos Gomes. Participou das revistas Carioca e Vamos Ler,e foi um dos diretores do jornal Vanguarda Socialista. Entre vários ensaios e peças teatrais, Edmundo escreveu um alentado estudo sobre a Guerra de Canudos, no qual apresenta Antônio Conselheiro, senhor de um pensamento teológico, ortodoxo e conservador, positivo, tranqüilizador e amoroso, como um reformador político, leitor de Thomas Morus e adepto do socialismo utópico com projeto consciente de reforma da estrutura feudal do Nordeste. Edmundo investiu contra o livro A Guerra do Fim do Mundo sobre Canudos, escrito por Mario Vargas Llosa, considerando-o uma das maiores falsificações de todos os tempos. Edmundo tinha antigas e tradicionais ligações com a IV Internacional Socialista e com o escritor brasileiro Mário Pedrosa, sendo seu discípulo e transformandose em um dos poucos trotskistas brasileiros, inimigo rancoroso da União Soviética e seu stalinismo. Pagou o devido preço por esta leal e intransigente fidelidade a Trotsky e foi um dos muitos exilados pelos militares brasileiros, aos quais respondia aos interrogatórios dizendo o seguinte: “Podem acusar-me de comunista e de subversivo, mas jamais me acusarão de corrupto.”

Tive a honra e a felicidade de pessoalmente conhecer Edmundo Moniz e de ser seu amigo e como jornalista nos tempos gloriosos do seu Correio da Manhã, quando foi um bravo lutador contra os militares ditatoriais do golpe de 1964, ao lado de Paulo Bittencourt, Barbosa Lima Sobrinho, Costa Rego, Álvaro Lins, Márcio Moreira Alves, Antônio Callado, Carlos Heitor Cony, além de outros companheiros, entre os quais Cícero Sandroni e Ana Maria Machado. Eles eram tão unidos entre si que ainda hoje restam versões e dúvidas sobre quem foi o autor, ou os autores, daqueles famosos editoriais do Correio da Manhã sob os títulos Fora e Basta” estampados na primeira página do jornal. Em 1968, mesmo antes do AI-5, Edmundo foi envolvido em um processo na Justiça Militar acusado de ser membro da organização Resistência Armada Socialista. O processo lhe custaria um período no exílio no México, na França, na Argélia, no Uruguai e na Argentina, durante sete anos, de 1969 a 1976, quando retornou ao Brasil e encontrou sua casa revolvida pela Polícia Política, com o desaparecimento de várias cartas por ele recebidas de Brizola, Darcy Ribeiro, Jango e Juscelino. No Governo de JK Edmundo havia criado o Serviço Nacional do Teatro, onde trabalhou, entre outros, com o acadêmico Sábato Magaldi, e criou também o Teatro Brasileiro de Comédia-TBC, com os grandes atores Rodolfo Mayer, Jaime Costa, Ziembinski, Sérgio Cardoso, Procópio Ferreira, Paulo Autran, além das inesquecíveis atrizes Henriette Morineau, Maria Della Costa, Cacilda Becker, Tônia Carrero e Fernanda Montenegro na representação de brilhantes teatrólogos, como os acadêmicos Viriato Correia, Joracy Camargo, Antônio Callado, Dias Gomes, Raquel de Queiroz e Raimundo Magalhães Júnior, além de Paschoal Carlos Magno, Nélson Rodrigues, Ernani Fornari e Oduvaldo Viana. Edmundo foi Conselheiro desta Associação Brasileira de Imprensa e pertenceu ao Instituto Histórico. Foi professor de História e Filosofia e Secretário de Cultura do Governador Leonel Brizola. Em 1992, se candidatou à cadeira número 11 da Academia Brasileira de LetrasABL, da qual hoje sou membro, em eleições das quais saiu eleito o acadêmico Darcy Ribeiro. Escreveu para a Coleção Francisco Alves um livro sobre o editor Francisco Alves de Oliveira, grande benemérito e grande mecenas da nossa Academia. Edmundo morou em Ipanema, mas teve de alugar um apartamento em Copacabana para abrigar sua biblioteca de 30 mil volumes com obras de Lênin, Marx, Engels. Esses livros estão reunidos há algum tempo na biblioteca que tomou o nome de Edmundo Moniz, localizada nos segundo e terceiro andares da Rua São José, 50, junto com o acervo da Funarte. Segundo Sérgio Caldieri, aqui presente, esses livros valem hoje uma pequena fortuna. Concluo dizendo que Edmundo Moniz era um homem limpo, coerente, honesto, correto e fiel às suas convicções ideológicas, pelas quais pagou um preço caríssimo, e que deixou grandes e imorredouras saudades.” JORNAL DA ABI 374 • JANEIRO DE 2012

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LIBERDADE DE IMPRENSA

Mortos 106 jornalistas no mundo em 2011 A MAIORIA COBRIA CONFLITOS E GUERRAS. A Federação Internacional de Jornalistas informou que o número de profissionais mortos aumentou de 94 em 2010 para 106 em 2011. O estudo feito com mais de 600 mil jornalistas, em 131 países, avalia que a maioria desses profissionais trabalhava na cobertura de conflitos e guerras. Além disso, 20 comunicadores e outros funcionários do setor morreram em desastres naturais ou acidentes. A violência contra a mídia foi “mais grave” no Paquistão, Iraque e México, onde foram registradas, em cada um desses países, 11 mortes. As revoltas – e a conseqüente repressão dos regimes – no norte da África e no Oriente Médio fizeram do mundo árabe

a região mais perigosa para jornalistas em 2011. Quase metade das 64 mortes de profissionais no exercício de sua atividade aconteceu no Paquistão, no Iraque, na Líbia e no Iêmen, segundo a Associação Mundial de Jornais. Apenas no Paquistão, 10 jornalistas foram mortos, mantendo o país no topo dos lugares mais arriscados para repórteres. Pelo menos 16 perderam a vida durante a repressão às revoltas populares em Bahrein, Egito, Líbia, Síria, Tunísia e Iêmen. A Sociedade Interamericana de Imprensa -Sip apontou 2011 como um dos mais “desafiadores e trágicos” anos para a liberdade de imprensa nas Américas. Informou a Sip que 24 jornalistas foram

mortos na região: sete jornalistas no México, cinco em Honduras, quatro no Brasil, três no Peru e um em cada dos seguintes países: Colômbia, República Dominicana, El Salvador, Guatemala e Paraguai. Ataques de Governos contra a imprensa, por meio de leis, regulamentos e ações judiciais, também estão impedindo a liberdade de imprensa em todo o Hemisfério, diz o relatório da entidade. Como exemplos, diz a Sip, a Argentina está pressionando para declarar o papeljornal um bem público, e o presidente equatoriano Rafael Correa tem processado executivos de jornais e jornalistas por difamação, com pedidos de indenização exageradamente onerosos.

MORTO POR ENGANO

declaração lida ao vivo, o grupo solidarizou-se com os oito supostos militantes de Luta Revolucionária e criticou a pequena repercussão do caso na mídia grega. Após lerem o texto, os anarquistas deixaram o estúdio de gravação e negociaram sua saída com a polícia local.

como de grupos armados dos locais em que atua, especialmente na América Latina. A região registrou 33% das mortes de jornalistas no ano passado. A revista Semana advertiu que uma proposta apoiada pelos governos venezuelano e equatoriano busca enfraquecer a Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da Organização dos Estados Americanos-OEA. Os Governos do equatoriano Rafael Correa e do venezuelano Hugo Chávez criaram um Grupo de Trabalho que propõe que a Relatoria não publique um informe anual específico sobre os dois países. A publicação colombiana explica que este fato debilitaria o impacto e a visibilidade do informe. Além disso, o grupo também propõe proibir o financiamento externo da Relatoria e

O repórter Raúl Régulo Garza Quirino, colaborador do semanário La Última Palabra, foi assassinado por engano no Estado de Nuevo León. “Ele foi morto por engano, porque os homens armados estavam à procura de uma pessoa que tinha um Jetta preto, como o que Raúl havia acabado de comprar”, disse Miguel Óscar Pérez, Diretor Editorial do semanário.

ANARQUISTAS EM AÇÃO Os estúdios da rádio Flash 96, em Atenas, foram ocupados em 10 de janeiro por um grupo de anarquistas para ler uma manifestação de apoio ao grupo terrorista Luta Revolucionária. A rádio foi tomada por cerca de 30 pessoas sem uso de violência. Na

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“INIMIGO INTERNO” A organização não-governamental Campanha Emblema de Imprensa (Pec) denuncia que inúmeros governantes da América Latina “tentam instrumentalizar o jornalismo independente para apresentá-lo como seu novo inimigo interno”. Relatório da Pec mostra a difícil situação da imprensa em 2011, vítima de violência tanto de forças de segurança do Estado

exigir que ela receba o mesmo valor que as outras; finalmente, exigem um código de conduta que limitaria sua capacidade de ação, inclusive para emitir comunicados.

SPORTING DISCRIMINA Uma equipe de jornal Público foi impedida pelo Sporting Clube de entrar no Estádio José Alvalade para cobertura de um jogo. Segundo o clube, faltava o credenciamento do veículo, mas a direção do jornal afirmava tê-la solicitado no início da semana anterior. Em razão do impedimento, a direção de Público afirmou que acionará os meios legais para que a conduta “discriminatória” do clube seja punida e revista. O Sindicato dos Jornalistas local afirma que solicitará a intervenção da Entidade Reguladora para a Comunicação Social e da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

PRESO POR DENÚNCIA O jornalista Mamadou Jallow, do The Daily News de Gâmbia, foi preso por denunciar a má administração de um líder local. Jallow publicou matéria com camponeses como fontes para descrever a má gestão de Mamadou Lamin Baldeh na região do Fleuve e por isso foi detido.

VIOLÊNCIAS NO PERU As condenações de jornalistas à prisão estão aumentando no território peruano, denuncia a Organização nãogovernamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Diante dos mais de 25 processos contra jornalistas em 2011, a Associação Nacional de Jornalistas afirmou, em comunicado, que a perseguição judicial se transformou em uma forma de intimidar e silenciar os jornalistas independentes. Por conta disso, a RSF se uniu à ANP para exigir a despenalização dos crimes de imprensa no Peru. Em 2011, três jornalistas


ARQUIVO PESSOAL

condenado por chamar de “desertora” uma parlamentar local – expressão usada em referência a quem recebeu dinheiro para trocar seu partido pelo Peru 2000.

PREFEITO RACISTA

CERCO EM HONDURAS A jornalista Itsmania Pineda Platero (foto), Diretora da Organização nãogovernamental de direitos humanos Xibalba, afirma estar sendo ameaçada de morte. Ela organizou protesto, em dezembro de 2011, para que investigações sobre assassinatos de 17 colegas nos últimos dois anos fossem realizadas. Após a repressão da manifestação por militares na época, 15 outras jornalistas levaram o caso à Promotoria Especial de Direitos Humanos para que os agentes fossem punidos. Entretanto, nada aconteceu. Itsmania disse não ter recebido proteção do Governo pelas ameaças sofridas até o momento. A organização não-governamental C-Libre denunciou que um escritório regional do Comissário Nacional para os Direitos Humanos restringe o trabalho da imprensa ao impedir os profissionais de fotografar, filmar ou entrevistar imigrantes detidos em um Centro para Migrantes na cidade de Choluteca, no Sul do país. Repórteres do jornal digital Conexion.info, pertencente à C-Libre, tentaram entrevistar os presos para conhecer o estado de saúde deles, mas não puderam realizar seu trabalho porque o diretor regional impediu o acesso ao Centro, alegando estar cumprindo uma política para proteger os direitos dos imigrantes. Diversos jornalistas protestaram em 9 de janeiro contra intervenções do Governo na imprensa local, o que os manifestantes chamam de “práticas retrógradas”. A administração do país nomeou profissionais controvertidos para os principais cargos de mídia, como a direção dos dois canais com maior audiência na região e da agência de notícias estatal TAP. Ainda de acordo com os profissionais, a administração do país estaria reproduzindo hábitos do antigo regime, que era totalitário.

foram assassinados e um locutor de rádio ficou preso durante seis meses por suposta difamação. O blog Jornalismo nas Américas do Centro Knight também divulgou a condenação à prisão do colunista Luis Torres Montero, do blogueiro José Alejandro Godoy, dos jornalistas Fritz Du Bois e Gressler Ojeda e de Hans Francisco Andrade Chávez. Atualmente, o jornalista Gastón Darío Medina Sotomayor, repórter da Cadena Sur TVCanal 15 e da Rádio Nova FM, da cidade de Ica, aguarda a decisão sobre uma sentença de três anos de prisão e pagamento de multa. O jornalista foi

O jornalista Milton Montero, do Canal 11, entrou com um processo por discriminação e racismo contra o prefeito de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, por ter sido comparado a um burro durante uma coletiva de imprensa. O prefeito Percy Fernández reagiu assim depois de o jornalista lhe perguntar sobre as críticas de um político de oposição. O prefeito já havia ameaçado atirar em jornalistas e insultado outros profissionais após ser questionado sobre a ocorrência de dengue na região.

Reinoso “Crist”, que desde 1973 publica na capa do Clarín.

HACKERS EM AÇÃO O site Charter 97, de oposição ao Governo da Bielo-Rússia sofreu um ataque on-line quando hackers excluíram arquivos e criaram uma notícia falsa sobre o candidato da oposição, Andrei Sannikov. Antes de um segundo ataque, ocorrido dias depois, o Charter 97 conseguiu restaurar a maioria dos seus arquivos, mas seus editores não tinham certeza se alguns dos artigos de dezembro de 2011 poderiam ser recuperados.

SEGURANÇAS AGRIDEM Jornalistas agredidos no México por seguranças durante a cobertura de assalto a uma joalheria na cidade de

Saltillo cobram reparação. A indenização refere-se à agressão praticada pelos profissionais da empresa de segurança privada Serviprose, que roubaram equipamentos dos repórteres em 16 de dezembro. A violência foi denunciada pelos jornais El Diário, de Coahuila, e El Heraldo, de Saltillo. Como resultado, três seguranças foram presos e, em seguida, um acordo foi firmado junto com o Ministério Público. A empresa de segurança se comprometeu a pagar US$ 3.600 em reparação. Entretanto, o acordo ainda não foi cumprido. A Serviprose pode enfrentar novas sanções e perder a licença para trabalhar. Fonte das matérias publicadas nesta seção: Tambor da Aldeia, Ano VII, nº 3, 16 de janeiro de 2012. Editor: Vilson Romero (vilsonromero@yahoo.com.br)

AMEAÇAS NO PAQUISTÃO Najam Sethi, editor-chefe do semanário The Friday Times e comentarista de tv, um dos jornalistas mais famosos do Paquistão, denunciou que nos últimos seis meses recebeu “ameaças graves” de agentes de inteligência e membros de organizações militares. Sethi revelou as ameaças sofridas depois de passar três meses em exílio no exterior, como medida de segurança.

ESCRAVIDÃO NA ARGENTINA Os jornalistas Julián Chabert e Raúl Zalazar, do Canal 7, de Mendoza, foram agredidos, ameaçados de morte e obrigados a tirar suas roupas quando tentavam cobrir uma suposta denúncia de tráfico humano de famílias bolivianas em uma fazenda da região. Eles relataram que realizavam um trabalho de investigação sobre a exploração do trabalho de 15 imigrantes bolivianos, a maioria crianças, quando o dono da fazenda, Horacio Isgró, os prendeu na cozinha com uma arma e os ameaçou de morte.

DESENHO PROVOCADOR A comunidade árabe repudiou uma caricatura publicada em 31 de dezembro no jornal Clarín em que é retratado um homem com sandálias, turbante e um cinto de dinamite em uma banca para vender fogos de artifício importados. “É uma clara alusão a associar o árabe e/ou o muçulmano às bombas, o que implica terror, violência e insensatez, e disso estamos fartos, exaustos e com raiva” expressou a Federação de Entidades Árabeargentinas de Buenos Aires sobre o desenho do caricaturista Cristóbal

Repórter da TV France 2 morre com granada na Síria O repórter francês Gilles Jacquier, correspondente especial do programa de documentários Envoyé Spécial, do canal estatal France 2, morreu em Homs, na Síria, em 11 de janeiro, atingido por uma granada arremessada perto de um grupo de jornalistas durante um protesto. No acidente, seis sírios morreram e um fotógrafo holandês ficou ferido. Jacquier passou duas décadas cobrindo inúmeros conflitos – da Argélia, nos anos 1990, ao Iraque, Afeganistão, Congo, Bálcãs e os movimentos da Primavera Árabe. Dois jornalistas estrangeiros e um tradutor foram detidos e tiveram suas câmeras apreendidas em Duma, cidade próxima à capital da Síria, Damasco, em 13 de janeiro. A nacionalidade dos repórteres não foi divulgada. O Observatório Sírio de Direitos Humanos, organização de oposição ao regime do Presidente Bashar al Assad, afirmou que o jornalista e blogueiro sírio Mohammed Ghazi Kenas,

desaparecido desde 3 de janeiro, também foi preso. A Federação Internacional de Imprensa denunciou ao Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, os níveis de violência contra mulheres jornalistas no exercício de suas funções. Em correspondência, a instituição aponta agressões, ameaças, pressões políticas, violência, violações e abusos contra mulheres jornalistas, seja pelo preconceito contra o gênero ou pelo exercício jornalístico. Um dos países que ganhou destaque com relação à violência contra mulheres jornalistas foi o México. A Secretária de Direitos Humanos da Federação de Jornalistas da América Latina e Caribe-Fepalc, Zuliana Lainez, destaca que “mais de 90% dos crimes contra jornalistas no país, incluídas mulheres, estão impunes. As maiores ameaças provêm do narcotráfico, do crime organizado e dos próprios poderes públicos”.

Polícia invade canal de tv na Argentina Novo lance da disputa entre o Governo Christina Kirchner e o Grupo Clarín. Cerca de 50 policiais das forças de segurança da Argentina ocuparam no dia 20 de dezembro a sede da tv a cabo Cablevisión, conforme informação publicada no site do jornal Clarín, que pertence ao mesmo grupo empresarial da emissora. Agências internacionais informaram que a operação durou quase três horas e os agentes deixaram o prédio do canal levando uma série de documentos. Foi esse o episódio mais rumoroso da disputa que a Presidente Christina Kirchner trava com o Grupo Clarín. O jornal acusa o Governo de estar por trás da operação, como parte de uma campanha de perseguição ao Grupo Clarín. A acusação foi contestada pelo Ministro do Interior da Argentina, Florêncio Randazzo,

que a classificou de “um disparate”. O motivo da ação dos agentes da chamada Gendarmería (polícia militar) teria sido uma denúncia de “concorrência desleal” plantada pelo Grupo Uno, proprietário do Supercanal, popularmente conhecido na Argentina como Vila-Manzano, e que disputa audiência com a Cablevisión. A ordem judicial de ocupação da Cablevisión partiu da Justiça de Mendoza, expedida pelo Juiz Walter Bento, que designou um interventor para conduzir o processo de ocupação da emissora de tv a cabo. De acordo com a agência de notícias Reuters, a invasão da Cablevisión, que é líder do mercado de tv a cabo no país, provocou uma queda brusca nas ações do Grupo Clarín. (José Reinaldo Marques) JORNAL DA ABI 374 • JANEIRO DE 2012

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LIBERDADE DE IMPRENSA (PDT/MT), insatisfeitos com os artigos de opinião publicados por Marcondes na imprensa mato-grossense. Locatelli e Taques são apontados pelo jornalista como participantes de um esquema conhecido como “Máfia dos Combustíveis”. Marcondes compara o empresário a um “poderoso chefão”, que teria um patrimônio milionário não declarado. O empresário pede indenização de R$ 21 mil por danos morais, além do pagamento das despesas judiciais da ação. Marcondes já recebeu ameaças e chegou a ser afastado da rádio na qual era comentarista político após iniciar as denúncias sobre a suposta rede de corrupção no Estado.

BAHIA: CONSELHO

Na foto de Daniel Kfouri, M., de 33 anos, tem um filho de 10 anos, está grávida de 8 meses e é usuária de crack na cracolândia de São Paulo.

Fotógrafos agredidos na cracolândia de SP Os fotógrafos Eduardo Anizelli, da Folha de S.Paulo, Maurício Lima, que estava a serviço do New York Times, e Daniel Kfouri foram agredidos por um grupo de usuários de crack na noite de 15 de janeiro na Rua dos Gusmões, quando faziam uma reportagem na região da cracolândia, na capital paulista. Eles estavam infiltrados e tentavam registrar em imagens a ação truculenta da polícia no local, mas foram descobertos pelos agressores. “Devem ter achado que nós estávamos a serviço da polícia. De repente fomos cercados por um grupo armado com facas e agredidos violentamente com muitos chutes e socos”, informou Daniel que fazia um ensaio fotográfico pessoal. “Foi assustador. Nós tentamos escapar mas eles roubaram a minha câmera e a do

Maurício Lima, além de celulares e outros equipamentos.” Eduardo Anizelli, que fugiu dos agressores, conseguiu avisar uma patrulha da Polícia Militar a três quarteirões do local. No entanto, segundo Kfouri, os policiais se recusaram a ir em socorro dos fotógrafos, informando que “só com ordens superiores poderiam deixar o seu posto”. “Fiquei muito mal. Só faltou os policiais rirem da gente quando pedimos para tentar localizar os vândalos que haviam roubado nossos equipamentos”. Em mensagem enviada ao jornalista Juca Kfouri, pai de Daniel, e publicada em seu blog no dia 20 (goo.gl/zHojc), Maurício Lima relata os momentos dramáticos vividos naquela noite e a sua decepção com as forças de segurança públi-

ca de que deveriam proteger o cidadão: “Da primeira viatura, a três quarteirões do local, surpresa: para não desengomar a farda nem perder o lustre dos sapatos no meio do temporal, uma viatura da PM nega pronto atendimento, desdém do caso e se proteje num toldo. Nosso colega Eduardo Anizelli, da Folha, que só apanhou, mas não perdeu a câmera, reforça a ajuda. Em vão, como muitos cidadãos de São Paulo, quando necessitam de segurança pública. Ao insistirmos por uma simples ronda na região, meia hora depois, a preocupação máxima da PM era não danificar a viatura, como se o maior patrimônio do Estado fosse um pára-brisa, e não cidadãos do bem que reivindicam por seus direitos e pertences.” (Francisco Ucha)

AGRESSÃO

e registrado todos os atos administrativos do Prefeito. O jornalista Cícero George Portela, do site Portalodia.com, sofreu censura, humilhação e ainda teve sua máquina fotográfica apreendida por supostos policiais à paisana, durante cobertura de manifestações de estudantes na capital Teresina, em 10 de janeiro. O Sindicato dos Jornalistas do Piauí classificou o episódio como agressivo e um atentado à liberdade de imprensa,

realçando que “o jornalista apenas efetuava a cobertura jornalística da manifestação, fazendo anotações e registro fotográfico das ações executadas tanto por manifestantes quanto por policiais na repressão aos excessos na Avenida Frei Serafim”.

O repórter Artêmio Sousa, da Rádio Iracema, denunciou ter sido agredido pelo Prefeito do Município de Ipu, Sávio Pontes, cidade do norte cearense, durante a cobertura de um evento na Câmara Municipal, em 6 de janeiro. O jornalista aproximou-se do Prefeito para fotografá-lo e foi surpreendido por Sávio, que lhe tomou a câmera da mão e a atirou no chão, danificando o equipamento. Sousa tem acompanhado

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PROCESSO O jornalista José Marcondes está sendo processado pelo empresário Aldo Locatelli e pelo Senador Pedro Taques

Os 27 membros titulares do Conselho de Comunicação Social do Estado da Bahia e seus suplentes foram empossados pelo Governador Jaques Wagner em 10 de janeiro. O órgão, de “caráter consultivo e deliberativo”, tem como principal objetivo montar políticas públicas para a área, com a elaboração de um Plano Estadual de Comunicação. A entidade é integrada por representantes do Governo, de empresas e entidades de classe do setor no Estado. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TelevisãoAbert criticou a medida e a considerou inconstitucional por caber apenas ao Governo federal decidir sobre temas relacionados à comunicação. A Associação Nacional dos Jornais-ANJ também se opõe ao conselho.

MATADOR CONFESSA Um adolescente de 16 anos confessou ter assassinado a tiros o radialista Laércio de Souza, da Rádio Sucesso, de Camaçari (BA), em 3 de dezembro. Ele contou que planejou matar Souza depois que o jornalista o denunciou à Polícia Militar por delitos na região onde morava. O adolescente também indicou o coautor do crime, que continuava a ser procurado pela Polícia, e o lugar onde estava a arma utilizada. Ele disse que a atirou em um rio e uma equipe foi ao local tentar resgatá-la. Amigos e familiares do radialista, que era pré-candidato a vereador no município de Simões Filho, contam que ele vinha sofrendo ameaças de traficantes por causa de suas ações sociais, como distribuição de cestas básicas aos carentes.

JORNAL AMEAÇADO O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo repudiou a tentativa de intimidação aos profissionais do Diário do Litoral em razão de uma reportagem sobre a suspeita de que seguranças de condomínios da Praia do Perequê estariam atuando como “milícias”. Segundo a publicação, uma equipe de seguranças, “de forma truculenta, abordou o carro da reportagem, nas imediações da Praia do Perequê, cobrando explicações da reportagem intitulada Esquema ilegal restringe acesso à praias de Guarujá. A nota ainda relata que, momentos depois da abordagem, uma pessoa, que se identificou apenas como miliciano, ligou duas vezes para a Redação, alertando que iria “tomar providências cabíveis” diante dos fatos noticiados pelo jornal.


DIREITOS HUMANOS ACERVO UH/FOLHAPRESS

Arquivo Nacional recebe acervo de Prestes Documentação reúne peças da atuação política do líder comunista no Brasil e no exterior entre 1970 e 1990. POR CLÁUDIA SOUZA A viúva do líder comunista Luís Carlos Prestes, Maria Prestes, doou no dia 3 de janeiro ao Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, o acervo pessoal do “Cavaleiro da Esperança”. A cerimônia foi realizada na data em que Prestes, falecido em 1990, completaria 114 anos. O acervo é composto por sete pastas contendo documentos escritos e iconográficos produzidos e/ou acumulados pelo casal Maria e Luís Carlos Prestes principalmente entre as décadas de 1970 e 1990. A documentação reúne fotografias, cartas, telegramas, correspondência trocada com parentes e com lideranças comunistas de diferentes países, e textos históricos como uma lista com 233 nomes de torturadores relacionados por 35 presos políticos em 1975, que cumpriam pena no presídio da Justiça Militar Federal. O acervo inclui ainda relatórios de reuniões políticas, anotações, comentários e transcrições feitas por ele a partir da leitura de livros e jornais; aulas e textos referentes ao Partido Comunista Brasileiro; discursos, artigos, entrevistas, diplomas, moções de congratulação, homenagens recebidas por ele de diversas entidades, recortes de jornais e revistas referentes à sua trajetória e registros produzidos após a sua morte, como a inauguração do Memorial Coluna Prestes, em 1997. Esses documentos juntam-se às cópias de três manuscritos de Prestes doados ao Arquivo Nacional em 2010, cujos originais encontram-se no Arquivo do Estado Russo de História Política e Social, em Moscou. “Em termos políticos, entre os documentos de destaque estão os depoimentos que revelam o empenho de meu pai durante o exílio em Moscou, na década de 1970, em denunciar à comunidade internacional a prática da tortura e os assassinatos praticados pelo regime militar no Brasil”, assinalou Luís Carlos Prestes Filho. Abertura ao público

O Diretor-geral do Arquivo Nacional, Jaime Antunes da Silva, iniciou a solenidade convocando a mesa de honra formada por Maria Prestes e pelo marchand e colecionador Cláudio Valensi. Informou Antunes que o material doado será catalogado e digitalizado para posterior disponibilização na internet: “Representantes do Arquivo Nacional e da família de Luís Carlos Prestes realizaram vários encontros para que esse patrimônio pudesse ser preservado e disponibilizado ao público. O dia 3 de janeiro, data especial da biografia de Prestes, foi escolhido para a realização da cerimônia oficial de doação. Este gesto de Maria

Prestes valoriza a preservação dos registros que vão iluminar a história contemporânea. O Arquivo Nacional agradece a doação e a honra de ser o destinatário de valiosa massa de documentos. O caminho está aberto para que outros cidadãos possam recorrer ao Arquivo Nacional, que também abriga o projeto Memórias Reveladas, contribuindo para estimular a produção de conhecimento e a rede de parceiros em benefício de estudantes, pesquisadores e do público em geral. A documentação de Luís Carlos Prestes está nas mãos de técnicos que saberão potencializar a História do Brasil em assuntos nem sempre conhecidos”, disse Antunes. O termo de doação do acervo foi assinado por Maria Prestes, tendo como testemunhas Eduardo Prestes Massena e Rodrigo Lima Prestes, netos do homenageado, e Carmem Moreno, Coordenadora de Processamento e Preservação de Acervo, do Arquivo Nacional. “O dia de hoje é importante para a memória de Prestes, que completaria 114 anos de nascimento, para o Arquivo Nacional, para o povo brasileiro e para Beatriz Bandeira Ryff, cujo enterro está sendo realizado neste momento. Gostaria de pedir a todos um minuto de silêncio em homenagem a essa mulher. Neste ato estamos firmando o acordo de doação dos documentos de Luís Carlos Prestes, o legendário brasileiro e vamos aplaudir também Beatriz, esta lutadora que participou ativamente da luta pela democracia no Brasil. Todos nós devemos homenagear estas pessoas, pois sem elas nós não estaríamos aqui hoje”, destacou a viúva de Prestes. Uma réplica da estátua

Dando seqüência à cerimônia, o colecionador Cláudio Valensi doou ao acervo do Arquivo Nacional a réplica da estátua em bronze Cavaleiro da Luz, do escultor Maurício Bentes: “Agradeço a doação desta obra, cuja escultura original encontra-se no Memorial Coluna Prestes, em Palmas, no Tocantins, e enaltece a figura deste grande brasileiro”, disse o Diretor do Arquivo Nacional. Além dos fatos históricos, os documentos vão possibilitar o acesso ao mundo privado e familiar de Prestes, frisou seu filho Luís Carlos: “Meu pai sempre fez questão de preservar a vida familiar e nela se realizou. O acervo mostra a face dele como pai e avô dedicado, sempre trocando cartas com parentes e amigos. São tocantes as cartas que ele trocou com Pedro, filho do primeiro casamento de Maria Prestes, mas que ele adotou como seu filho. Papai confiava plenamente em Pedro. Nos textos percebemos o valor da amizade.

Torturados e torturadores

A lista com 233 nomes de torturadores relacionados por 35 presos políticos em 1975 é parte integrante do Relatório da 4ª União Anual do Comitê de Solidariedade aos Revolucionários do Brasil, datado de fevereiro de 1976, dividido em seis capítulos, entre os quais a “Identificação dos Torturadores”. Na época, o documento foi enviado ao Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil-OAB, Caio Mário da Silva Pereira, mas só foi noticiado em junho de 1978, no semanário Em Tempo. Segundo o periódico, “na época em que foi escrito, o documento não teve grandes repercussões, apenas alguns jornais resumiram a descrição dos métodos de tortura”. O Major do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra encabeça a lista de torturadores. A divulgação da lista provocou forte reação da ditadura com ataques de bombas a bancas de jornal, à sede da OAB e ameaças à sede da ABI: “Eu e o Velho freqüentamos muito a ABI. Além disso ele concedeu diversas entrevistas para a Associação. No acervo certamente há documentos relacionados a este período. Na ABI, assim como em todos os lugares por onde ele passava, as pessoas reconheciam o seu heroísmo. Fico muito emocio-

nada em recordar estes momentos, mas também me sinto triste ao lembrar o quanto ele foi injustiçado ao longo de sua vida”, lamentou Maria Prestes. A Revista de História da Biblioteca Nacional informa que depois da divulgação dessa lista o jornal Em Tempo publicou mais duas relações de militares acusados de tortura. A tiragem de 20 mil exemplares esgotou-se rapidamente e o jornal sofreu dois atentados. Entre os 35 autores da lista estão Alberto Henrique Becker, Altino Souza Dantas Júnior, André Ota, Antônio André Camargo Guerra, Antônio Neto Barbosa, Antônio Pinheiro Sales, Artur Machado Scavone, Ariston Oliveira Lucena, Aton Fon Filho, Carlos Victor Alves Delamonica, Celso Antunes Horta, César Augusto Teles, Diógenes Sobrosa, Elio Cabral de Souza, Fabio Oascar Marenco dos Santos, Francisco Carlos de Andrade, Francisco Gomes da Silva, Gilberto Berloque, Gilney Amorim Viana,Gregório Mendonça, Hamilton Pereira da Silva, Jair Borin, Jesus Paredes Soto, José Carlos Giannini, José Genoíno, Luiz Vergatti, Manoel Cyrillo de Oliveira Netto, Manoel Porfírio de Souza, Nei Jansen Ferreira Jr., Osvaldo Rocha, Ozéas Duarte de Oliveira, Paulo Radke, Paulo Vannuchi, Pedro Rocha Filho, Reinaldo Moreno Filho e Roberto Ribeiro Martins.

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IMPRENSA

Vestígios de um passado criativo Edição fac-similar do letras e/& artes, publicado no final da década de 1950 pelo Diário do Paraná, resgata um ótimo momento da imprensa no Brasil. ALFREDO STERNHEIM Na segunda metade dos anos de 1950, a cultura tinha um bom espaço na imprensa escrita do Brasil. Críticas de filmes, espetáculos teatrais ou musicais, de livros e exposições eram publicadas com freqüência nos principais diários. Mesmo assim, o anseio por mais análises e ensaios fez com que muitos jornais criassem suplementos específicos voltados a um público mais exigente. Caso de O Diário, de Belo Horizonte; de O Estado de S. Paulo, onde, uma vez por semana, brilhavam articulistas como Otto Maria Carpeaux, Paulo Emilio Salles Gomes, Lucia Miguel Pereira, Cyro dos Anjos, Anatol Rosenfeld e muitos outros. Foi nessa fase que surgiu letras e/& artes. Publicada aos domingos pelo Diário do Paraná, jornal que pertencia aos Diários Associados, a seção ocupava duas páginas e nasceu sob a deliberada influência do inovador Suplemento Dominical do Jornal do Brasil-SDJB. Agora, sob o patrocínio da Itaipu Binacional e com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado do Paraná, letras e/& artes foi relançado numa cuidadosa edição fac-similar com 84 páginas no tamanho do jornal na época (94x64 cm) acondicionadas em uma caixa de papelão. A organização da obra ficou a cargo do jornalista e cineasta Sylvio Back, editor dessas páginas semanais. “Há mais de três anos, desde que pensei em resgatar a coleção de MAURO VIEIRA

Sylvio Back: inspirado no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil ele criou letras e/& artes, em 1959, que teve colaboradores como Aldemir Martins (O Galo, no alto).

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letras e/& artes, constituída de 94 edições, imaginei que ela seria em formato fac-similar e lançada fora do comércio. Tanto para uma fruição ativa dos seus colaboradores primevos, como para uma distribuição gratuita dos seus 500 exemplares, em âmbito nacional, a bibliotecas, universidades e academias literárias públicas e privadas, e junto à mídia especializada, a bibliófilos e colecionadores”, explicou Sylvio Back. Nascido em Blumenau (SC), Sylvio Back é mais conhecido como cineasta, autor de muitos filmes polêmicos que costumam realçar contextos marcantes e aspectos políticos da História do Brasil, tanto na ficção como no documentário. Assim fez, por exemplo, em A Guerra dos Pelados, Aleluia Gretchen, Rádio Auriverde (sobre as tropas brasileiras na Itália, durante a Segunda Guerra) e em Lost Zweig, adaptado em 2009 do livro de Alberto Dines a respeito do escritor austríaco Stephan Zweig no Brasil, que culminou com o suicídio do autor de Carta de uma Desconhecida, e o de sua mulher Lotte na cidade de Petrópolis, em 1942. Mas Back é também escritor, autor de 21 livros entre poesia, contos, ensaios e roteiros cinematográficos. Ele trabalhou como jornalista e crítico de cinema em Curitiba. E foi lá, na Redação do Diário do Paraná, onde trabalhava desde 1956, que fez surgir a seção letras e/& artes. No texto da introdução da edição fac-similar intitulado Cinquenta Anos, Sylvio Back esclarece que o projeto das páginas semanais surgiu a partir da admiração provocada pelo SDJB. “Diariamente líamos o Jornal do Brasil, que havia virado uma espécie de “bíblia gráfica”, escreveu. “Propus que se transformasse o conteúdo e o aspecto gráfico da página literária dos domingos do Diário do Paraná. Para nossa surpresa, a idéia emplacou. O que se editava sobre teatro, música, literatura e cinema, via de regra, era desconectado da cultura curitibana e brasileira, mas de olho viciado na Europa. E quando a direção do jornal deu sinal verde a que se pensasse numa nova página, incluindo a diagramação, fui indicado para, além de produzir um texto semanal, assumir a direção. Eu tinha acabado de completar vinte e dois anos.” Assim, com a cumplicidade do colega diagramador Emilio Zola Florenzano

– que chegou a trabalhar nos anos 1960 como assistente de Alberto Dines, Diretor de Redação do JB na época – nasceu em 23 de agosto de 1959 o novo letras e/ & artes. Liberdade editorial Destoando em seu aspecto gráfico-visual de toda a imprensa paranaense, inclusive do próprio Diário do Paraná, as duas páginas semanais, que eram tratadas como um suplemento à parte, usufruiu em toda a sua curta existência de total liberdade de expressão, tanto entre os colaboradores como na chefia. “Jamais a editoria foi admoestada ou censurada, nem constrangida a publicar algo que não queria. Esse reconhecimento póstumo é, sem favor, um tributo à memória de Adherbal Stresser, Diretor do jornal. O Doutor Adherbal, como era conhecido, fazia questão, muitas vezes, de ler o suplemento saindo da boca das rotativas nas madrugadas de sábado para domingo”, recorda Sylvio Back.

Havia a preocupação editorial de sua produção ser de e para Curitiba, de priorizar a emergente criatividade local, sem se deixar balizar exclusivamente pelo que se publicava no eixo Rio-São Paulo. Assim, nas primeiras edições, é possível constatar que, entre os colaboradores mais freqüentes, estavam o renomado jurista René Dotti, o escritor e roteirista Oscar Milton Volpini, o poeta e jornalista marxista Walmor Marcelino, Celina Silveira Luz, a artista plástica Helena Wong e Manoel Furtado, o responsável pelo desenho que ilustra a capa da edição fac-similar (ao lado). Mesmo assim, alguns de nossos autores consagrados, como Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira e Cassiano Ricardo, bem como os estrangeiros Albert Camus, Jean Genet, Lotte Eisner (uma especialista sobre o cinema expressionista), tinham criações reproduzidas. Zen e a Arte de Escrever, de Ray Bradbury, que atualmente volta a ganhar evidência, foi traduzido na edição de 25 de outubro de 1959. Perguntado pelo Jornal da ABI sobre os critérios para a escolha do material, Back disse que “a editoria não se guiava por nenhuma orientação literária, filosófica, poética, teatral, cinematográfica, ou por alguma escola de artes plásticas. Muito menos por algum viés político-ideológico, ainda que aquele final da década de 1950 e a cúspide dos sessenta já prenunciassem os perrengues a vir. Só pela qualidade das colaborações, que eram espontâneas tanto quanto eram intocáveis e pétreas as opiniões nelas expressas. Pela intuição e consultando a quem eu creditava maior conhecimento no tema, a excelência artístico-cultural dos textos, das gravuras e desenhos, também, inquestionável.” Sylvio lembra que, às vezes, “as ousadas opiniões dos articulistas provocavam furibundas reações da micro-intelectualidade curitibana, quase toda com alma autofágica, incapaz de acreditar nos criadores à sua volta. Muitas, chegavam a pregar a extinção do suplemento. Para contrabalançar, tinha o retorno entusiástico dos leitores expresso em cartas, telefonemas e colaborações remetidas à Redação.” Mesmo assim, o letras e/& artes encerrou sua carreira de maneira surpreendente apenas um ano e sete meses depois de seu lançamento. No início de 1961, Sylvio Back e o falecido escritor Valêncio Xavier foram líderes de uma greve por melhores salários na TV Paraná, onde o futuro cineasta dava seus primeiros passos no audio-visual. E isso foi a gota d’água para o fim da seção. Feliz, Sylvio acredita que a edição fac-similar “tanto celebra a trajetória autoral de um punhado de idealistas, todos então bela e irremediavelmente jovens, como atualiza este momento único do jornalismo cultural de Curitiba e do Paraná. Havia uma ‘fúria do bem’, nada de acertar as contas com o passado ou com o pretérito de intelectuais, artistas, acadêmicos ou instituições culturais. A meta consistia em motivar, incendiar e fazer valer a produção e a criatividade do presente.”


PERFIL

ALEXANDRE HORTA

Mais que jornalista, um homem de ação POR BERNARDO C OSTA E ROGÉRIO GOMES

O político que ocupou a vice-presidência da República durante o mandato de um dos generais da ditadura tinha um irmão operário que, além de militante comunista, era colaborador de um jornal clandestino. Um capítulo pouquíssimo conhecido da crônica dos chamados “anos de chumbo”. Preso, o irmão do vice-presidente manteve o parentesco em segredo. Quem testemunhou esta e outras histórias da militância política e do jornalismo nas últimas décadas foi um jornalista que hoje, aos 83 anos de idade, ainda exibe na parede da sala a imagem da foice e do martelo. Luiz Mario Gazzaneo recebeu os repórteres do Jornal da ABI em seu apartamento na Tijuca, Zona Norte do Rio, queixando-se de problemas de saúde. Certamente isso pesou na sua aposentadoria, no ano passado. Mas a memória e a conhecida eloquência continuam afiadas, felizmente, porque Gazza tem muito o que contar. Nascido em Alagoas, esse filho de imigrantes italianos ainda criança se mudou com

a família para São Paulo, onde ingressou no Partido Comunista Brasileiro. Como tantos de sua geração, entrou para o jornalismo através das publicações do Partido. Após o golpe de 1964 passou quase 10 anos na clandestinidade. Viveu da ajuda dos amigos, entre eles o editor Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, que nunca lhe negou trabalho. Nessa época traduziu Maquiavel e Gramsci para o português. Mais tarde trabalhou no Jornal do Brasil, em O Globo e no IBGE. Casou duas vezes, tem cinco filhos e sete netos. Em duas horas e meia de conversa, interrompida apenas para acender alguns cigarros, apesar da tosse, Gazza recordou com entusiasmo da jovem equipe de repórteres que chefiou no Jornal do Brasil; revelou os bastidores da histórica primeira página do jornal, que driblou a censura com a notícia do golpe militar no Chile, em 1973; e se emocionou ao lembrar dos amigos assassinados pela ditadura, entre eles três jornalistas. JORNAL DA ABI 374 • JANEIRO DE 2012

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PERFIL GAZZANEO

Jornalismo dentro e fora do partido “Hoje não pode ter aula! Vamos fechar a escola e ir para as ruas protestar!”. Levada a efeito no Colégio Alfredo Pucca, em São Paulo, foi a primeira atitude de engajamento do então jovem de 15 anos. Era agosto de 1942. Com o bombardeio de cinco navios na costa brasileira entre Sergipe e Alagoas por submarinos alemães, após o Brasil ter rompido relações diplomáticas com o Eixo, o adolescente decidiu reunir colegas de classe para repudiar o ato terrorista. Dois anos depois, influenciado por um professor de História do mesmo colégio, ingressou no Partido Comunista Brasileiro. “Ele já estava de olho em mim, e me recrutou. Era tempo de organização do Partido”, lembra Gazzaneo. O clima era de Segunda Guerra Mundial e de Estado Novo. E o perfil do militante e jornalista Luiz Mário Gazzaneo começava a ser talhado. Descendente de italianos, ele viveu na cidade natal de Maceió até os 10 anos de idade, quando foi para São Paulo. Lá ingressou no jornalismo em meados da década de 50. Na chamada grande imprensa só trabalhou duas décadas mais tarde, no Jornal do Brasil e em O Globo, após um longo período de clandestinidade. Os primeiros contatos com a profissão ocorreram em publicações do Partido como a revista Fundamentos, editada pelo Comitê Cultural do PCB em São Paulo, a cujo departamento de cinema Gazzaneo era vinculado. Foi colaborador e editorassistente, primeiras funções ocupadas numa Redação. Quando os irmãos Santos Pereira deixaram a função de críticos de cinema no Notícias de Hoje, diário do partido em São Paulo, a direção do jornal foi buscar substituto no Comitê Cultural. Gazzaneo foi procurado e aceitou o convite, mesmo com o ordenado sendo baixo. O documentário em que havia trabalhado pouco antes – um episódio do filme Quatro Estações, com texto de Jorge Amado e direção de Alex Viany – havia gerado uma renda que poderia mantê-lo por um tempo. No Notícias de Hoje, decidiu-se efetivamente pelo jornalismo. “Como não tinha nada o que fazer ia todos os dias para a Redação circular. E deuse o casamento. Pensei: ‘É aqui que vou aportar meu barco’. Dali, saí jornalista.” E Gazzaneo circulou. Foi crítico de cinema, repórter, redator, editor de Internacional e chefe de Redação do jornal em que fez “o curso fundamental”, como costuma dizer. No Notícias de Hoje, permaneceu até 1959 – período em que viveu pelo menos um acontecimento marcante. Em 1956, recorda, o relatório lido por Nikita Kruschev durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética – que revelou crimes cometidos pelo Governo de Josef Stalin – caiu como uma bomba na Redação. 32

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“Quando o Estadão e o Diário de Notícias publicaram o relatório foi uma tragédia. O jornal implodiu. Um grupo abandonou o trabalho de imediato, nem quis discutir. Eu, particularmente, não fiquei surpreso. Acreditei que iria acontecer algo de bom. O Kruschev, apesar de ser um homem aparentemente ambíguo, me pareceu que tinha um objetivo: o de arejar a União Soviética. Ele tentou até 1964, quando foi derrubado por Leonid Brejnev, o grande responsável pelo fim da União Soviética. Ele burocratizou o partido e o cinismo tomou conta da população.” Um chamado do Rio

Quando o Notícias de Hoje fechou, Gazzaneo teve uma passagem pelo jornal Última Hora, em São Paulo, onde foi repórter especial por um ano. Até que recebeu um chamado do Rio de Janeiro: o jornalista Mário Alves convidou-o a participar do semanário Novos Rumos, do qual era diretor, e da comissão de planejamento de um jornal diário do PCB – projetos em que a política de imprensa do Partido estava concentrada naquele momento. “Era um salário bom, de mercado. Tanto que fui morar num apartamento no Leblon, onde nasceu minha primeira filha, Ana Maria, em 1960. São todos cariocas”, – diz Gazzaneo, em referência aos cinco filhos e sete netos. “Dividia meu tempo entre a Redação de Novos Rumos e as reuniões para preparo do jornal diário.” Novos Rumos, explica Gazzaneo, era um jornal híbrido: semanário, era publicado diariamente em determinados momentos, como durante a Crise dos Mísseis de Cuba, episódio de maior tensão da Guerra Fria, e a Revolta dos Marinheiros de março de 1964, um dos pretextos para o golpe militar. Nesse caso, o jornal circulou diariamente até ter a Redação destruída, na Rua Santa Luzia, Centro do Rio. Quanto ao jornal diário, Gazzaneo diz ter sido uma história melancólica. Com o título Hoje, tinha João Saldanha como tesoureiro e circulou por apenas 44 dias. Mas rendeu uma história curiosa: sua logomarca foi criada por uma empresa de Boni, um dos diretores da Rede Globo de Televisão, que a aproveitou mais tarde no telejornal homônimo da emissora, no ar até hoje. A morte de Allende

Após o golpe militar, Gazzaneo permaneceu longo período na clandestinidade. A convite dos jornalistas Milton Temer e Carlos Lemos – “aos quais devo minha volta à imprensa já na casa dos 50”, diz – ingressou no Jornal do Brasil em agosto de 1973, com a recomendação de não aparecer muito. Exerceu inicialmente o cargo de redator na Editoria de Internacional, onde vivenciou o momento que considera de maior emoção na carreira.

Para a edição do dia 12 de setembro daquele ano, a equipe tinha preparado uma vinheta com a imagem de Salvador Allende na corda bamba. À medida que as primeiras notícias de morte do então Presidente chileno chegavam, a perplexidade foi tomando conta da editoria. Gazzaneo chorou. “Não me contive. Levantei e disse para a Clecy Ribeiro, que era a editora: ‘Vai lá dentro e tire aquela vinheta. O Allende morreu!’. As pessoas ficaram chocadas. Mesmo os que não simpatizavam com aquele Chile, que eram poucos, ficaram chocados com a brutalidade.” A edição do dia seguinte saiu com oito páginas dedicadas ao assunto, mais um caderno especial intitulado Allende – Uma vida difícil pelos caminhos legais. Além da histórica capa noticiando em página inteira a queda do Presidente chileno. Sem manchete ou foto, como recomendou a censura (veja reprodução na página 16). Porém, com o alarde necessário ao fato e à consciência dos jornalistas Alberto Dines, Carlos Lemos e José Silveira – aos quais Gazzaneo atribui a iniciativa. Dos bastidores do episódio, se recorda bem. Foi ele que escreveu a chamada de primeira página para as matérias que noticiavam o golpe. “Eram 30 linhas. Logo depois veio alguém e disse: “É pouco, precisamos do dobro, no mínimo”. Aí o subeditor pegou o texto e ajeitou. Nós não sabíamos por quê. Só ficamos sabendo no dia seguinte. Tinha ocupado a primeira página inteira, sem título, em corpo 18. Aquela capa é de encher o coração de orgulho.”

Outro orgulho que Gazzaneo guarda dos tempos de JB – que considera um dos grandes momentos da carreira, ao lado da atuação no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE – foi na época em que era editor de Cidade e chefiou uma equipe de promissores repórteres. Dos cerca de 30, 80% eram estagiários. Entre eles Alexandre Medeiros, Oscar Valporto, Paulo Mota, Jorge Antônio Barros, Samuel Wainer Filho e Fritz Utzeri. “Nós pintamos e bordamos. O Paulo Henrique Amorim, Editor-Chefe do jornal, babava com eles. Lembro de duas coberturas: a do atentado do Riocentro, em 1981, que rendeu o Prêmio Esso à equipe, com destaque para Fritz Utzeri; e o Caso Baumgarten, tocado pelo jornal após a divulgação do caso pela Veja.” A saída do JB, diz Gazzaneo, foi motivada por uma história “nebulosa”. “Falava-se num acordo da direção do jornal com o Maluf para apoiá-lo à Presidência nas eleições de 1985. Era necessário que escolhessem editores que atendessem aos interesses. Eu acho que era verdade mesmo, porque já tinha um pessoal vindo de São Paulo e as chefias foram substituídas. Do Jornal do Brasil Gazzaneo foi para o Globo. Durante cinco anos foi editor da Agência Globo e subeditor de Nacional. Ao completar 60 anos, em 1987, pediu demissão e aceitou convite para assumir a Secretaria de Comunicação do então Governador do Rio de Janeiro Moreira Franco, cargo em que permaneceu por três meses. “Foi um péssimo convite. Mandei-me de lá rapidinho.”

Na sombra: tempos de clandestinidade Com o golpe de 1964, que o surpreendeu na Redação de Novos Rumos, Gazzaneo passou a atuar na sombra até 1973, período em que trabalhou para publicações clandestinas sob o pseudônimo de Mário Patti. Manter a subsistência foi difícil, principalmente após a decretação do AI-5 em novembro de 1968, quando passou um mês com o dramaturgo Dias Gomes num apartamento no número 200 da Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, esperando “a poeira baixar”. Conseguir emprego era difícil. Ficou estigmatizado. “Naquela época eu era o comunista.” Manteve-se com a ajuda do Partido e de amigos, entre os quais Ênio Silveira, proprietário da Editora Civilização Brasileira, que lhe solicitava trabalhos de revisão e tradução. Foi quando Gazzaneo verteu para o português obras de Maquiavel e Gramsci durante os tempos de ditadura mais ferrenha. “O Ênio peitava. Era uma figura maravilhosa. Prestou um grande serviço à intelectualidade brasileira da época, que deveria homenageá-lo hoje e sempre.”

Logo após o empastelamento de Novos Rumos, Gazzaneo passou a integrar o setor de Agitação e Propaganda do Partido Comunista Brasileiro. Sua principal função era organizar a distribuição de Voz Operária nos Estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia. Mesmo clandestino, o jornal circulou nacionalmente. Para Gazzaneo, representou uma das grandes histórias do PCB. “A gráfica em Campo Grande, Zona Oeste do Rio, era genial. Foi construída no subterrâneo, sob uma caixa d’água vazia, por onde era a entrada. Havia três funcionários trabalhando permanentemente lá. Funcionou por 10 anos sem a repressão ter a mínima noção. Só caiu porque alguém entregou.” Um dos funcionários de Voz Operária com quem Gazzaneo conviveu foi o linotipista Alberto Aleixo, figura pouco conhecida do período ditatorial. Considerado pelo jornalista “um militante fiel”, conciliava o engajamento com o importante grau de parentesco na cúpula do Governo: era irmão do Vice-Presidente do General Costa e Silva, o jurista Pedro Aleixo.


“Ninguém no partido sabia da relação familiar do companheiro Aleixo. Ele nunca revelou nada para ninguém, nem quando foi preso. Era um cidadão humilde e cumpridor de suas obrigações.” Durante a clandestinidade, Gazzaneo também colaborou com outro jornal do PCB – o semanário Folha da Semana, que circulou legalmente nas bancas entre 1965 e 1966. Participou do grupo de criação do informativo ao lado dos jornalistas Maurício Azêdo, Sérgio Cabral, Orlando Bonfim Júnior e Joaquim Câmara Ferreira, que mais tarde, até ser assassinado pela repressão, liderou a ação Libertadora Nacional, ao lado de Carlos Marighella. A proposta era ter um jornal de cobertura ampla que apoiasse os candidatos da oposição e as iniciativas de contestação da ditadura. “O Azêdo era, na prática, o editor do jornal. Os editorialistas eram Ferreira Gullar e João Antônio Mesplé. E tínhamos como colaboradores Paulo Francis Octavio Malta, Leandro Konder e Otto Maria Carpeaux. Foi o primeiro jornal da História do Brasil fechado a partir de portaria do Ministério da Justiça.”

“A Folha da Semana foi o primeiro jornal da História do Brasil fechado a partir de portaria do Ministério da Justiça.”

escreveu o folheto intitulado Tortura e Morte no Brasil, primeiro documento a denunciar no exterior os crimes praticados pelos militares – não foi preso. Atribui o fato à discrição do apartamento em que morava, no Leblon. “Eles nunca souberam onde era minha casa. O apartamento, que não estava em meu nome, ficava num prédio pequeno, que nem porteiro tinha. Também tomei alguns cuidados, como não ter telefone.” Outros companheiros não tiveram o mesmo destino. Só em Novos Rumos foram três desaparecidos: Mário Alves, Orlando Bonfim e Joaquim Câmara Ferreira, a quem Gazzaneo chamava de “o doce revolucionário”. A última vez que o viu foi no apartamento do Leblon, pouco antes de o amigo ingressar na luta armada. “Um dia ele me disse que a esposa vinha ao Rio. Pediu para passar três dias com ela em minha casa. Numa das noites ele me comunicou que iria deixar o partido. Eu balancei a cabeça e disse: ‘Reflita, Câmara. A tal correlação de forças não nos ajuda. Além do mais, precisamos preservar o que temos de mais importante, que são nossos quadros’. Mas não adiantou, ele já estava decidido e tinha o aval da esposa, Dona Leonor. Nunca mais o vi.”

Os companheiros mortos

Durante a ditadura, Gazzaneo – que

A decepção com os soviéticos Um ano após ingressar no Partido Comunista Brasileiro Gazzaneo participou do comício de Luiz Carlos Prestes em 1945, que reuniu cerca de 100 mil pessoas no Estádio do Pacaembu, em São Paulo. Sua função era recepcionar as delegações que vinham do interior. A que veio de Santos, ocupando um trem inteiro, emocionou o jovem militante de 18 anos, que na época integrava uma organização estudantil do Colégio Alfredo Pucca. Após o evento – que contou com a presença no palanque do poeta chileno Pablo Neruda – a orientação do partido era que a militância estudantil se organizasse nos bairros. Coube a Gazzaneo e a outros jovens companheiros a criação no Bom Retiro, em São Paulo, da célula Kalinin – uma referência ao então Presidente da União Soviética – “Tínhamos até um retrato dele na nossa sede”, recorda. Nos fins de semana, alugavam o único salão do bairro para bailes. “Ficava lotado. Chegamos a ter 14 mil eleitores no Bom Retiro.” De acordo com Gazzaneo, entre 1945 e 1947 o PCB era mesmo um “Partidão” – muito devido à figura de Prestes. Ainda hoje declarando-se comunista, o militante decepcionou-se com os rumos tomados pela União Soviética. Os crimes cometidos por Stalin, a influência sobre a população de Leonid Brejnev, e a invasão da TchecoEslováquia em 1968, para conter a libera-

lização política empreendida pelo líder comunista Alexander Dubcek durante a Primavera de Praga, o fizeram buscar uma posição política cada vez mais independente. Gazzaneo estava em Moscou quando houve a intervenção militar na TchecoEslováquia. Viajou para a capital russa chefiando a delegação brasileira que chegava para o Festival Mundial da Juventude, promovido pelo Partido Comunista da União Soviética. E presenciou as arbitrariedades cometidas contra a delegação tcheca. “Quando soubemos da invasão, fizemos uma manifestação de repúdio no hotel. Naqueles dias eu descobri que aquele projeto não era o meu. Aquilo era uma ditadura mesmo. Foi a maior decepção da minha vida. Não deixei de ser comunista, apenas risquei a União Soviética do meu mapa. Passei a integrar um grupo do PCB que queria o distanciamento do Partido Comunista da União Soviética.” Para Gazzaneo, a idéia de comunismo hoje seria de uma sociedade democrática, com respeito ao ser humano e estímulo à criatividade. “Foi o que não ocorreu na União Soviética, contribuindo para seu fim. Num país sufocado, não havia como encontrar apoio para sustentar aquele regime. A Revolução de Outubro de 1917 foi, para mim, o maior acontecimento do século XX. Foi uma revolução libertária e humanista, que deu no que deu. Isso é que é terrível.”

Desburocratizando o IBGE Os 10 anos em que Gazzaneo coordenou o setor de comunicação social do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE lhe mostraram que “é possível haver uma instituição de serviço público séria, patriótica, competente e honesta”. Trabalhando em duas gestões presidenciais, as de Fernando Henrique e Lula, de 2000 até 2010, ele diz que sempre se pautou por dois princípios: a clareza da informação e a não manipulação dos dados. Contribuiu para que a imprensa percebesse o real valor das informações produzidas pelo IBGE e o que elas representavam. A parceria, diz Gazzaneo, foi fundamental para que o Instituto não ficasse parado no tempo. O IBGE passou a ter maior visibilidade e alcançou uma projeção nacional inédita. Já Gazzaneo tornou-se “o maior pauteiro da imprensa brasileira”, como gosta de dizer em tom de brincadeira. Quando assumiu a CoordenaçãoGeral de Comunicação Social do IBGE, ele tomou uma iniciativa que explica o epíteto: passou a ceder as informações de pesquisas estruturais, como o Censo, com antecedência para todos os veículos diários das capitais do País. A intenção era que os jornalistas tivessem tempo para analisar o material e apreender os aspectos mais importantes – que conduziriam a boas pautas. O compromisso era que todos divulgassem as pesqui-

sas no dia combinado, já com todas as possíveis dúvidas tiradas com os técnicos do IBGE. “A imprensa já estava acostumada a lidar com as pesquisas conjunturais: inflação, produção industrial etc. O problema era com as pesquisas especiais, de grande porte e ricas em informação. Decidi realizar o embargo às Redações: passar os dados antes da divulgação oficial da pesquisa, abrindo a possibilidade de que os repórteres entrevistassem os técnicos para publicarem no dia combinado. Para tanto, Gazzaneo teve que convencer os técnicos do IBGE e os jornalistas quanto à importância do que estava propondo e da necessidade de o embargo ser respeitado. Logo depois, avançou ainda mais: no dia de divulgação dos dados à imprensa era organizada uma entrevista coletiva na sede do IBGE, no Centro do Rio. Com sua atuação Gazzaneo promoveu a desburocratização da instituição. “O IBGE tem um slogan: fornecer informações necessárias ao conhecimento da realidade e ao exercício da cidadania. Quem é que pode fazer isso? O IBGE produz o material. Mas quem é que coloca esse material nas mãos do cidadão? O jornalista. Fizemos o acordo. Ninguém divulgou nada antes do combinado. Ninguém passou a perna em ninguém até hoje. Essa parceria é valiosíssima. Fiquei fã da imprensa.”

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CINEMA

ALINE ARRUDA JUNIOR ARAGÃO

Um festival de Festivais Brasília, Gramado, Taquaritinga do Norte, Alta Floresta. O Brasil já tem mais de 200 festivais anuais de cinema: os vícios e entraves do circuito tradicional explicam esta explosão de eventos que arregimenta três milhões de pessoas todos os anos. POR CELSO SABADIN Produzir mais e melhores filmes, em quantidades razoáveis, sempre foi uma dificuldade histórica do cinema brasileiro. Matéria-prima cara, falta de incentivo governamental e indústria incipiente eram algumas das principais reclamações dos cineastas que não conseguiam implantar por aqui um sistema produtivo satisfatório. A partir da metade dos anos 1990, porém, esta situação começou a mudar. Não só as câmeras digitais vieram para baratear os custos de produção, como também várias leis de incentivo cultural foram criadas e implantadas de maneiras discutíveis, mas de certa forma, eficientes. O cinema brasileiro, cuja produção anual de longas podia ser contabilizada nos dedos de uma mão, renasceu. Foram conquistados vários prêmios internacionais, indicações ao Oscar e, o mais importante, o público apareceu para ver. Filmes de qualidade como Carlota Joaquina e Central do Brasil, por exemplo, bateram a casa do milhão de espectadores, feito, na época, só obtido por comédias infanto-juvenis na linha Trapalhões e/ou Xuxa. É o que se convencionou chamar de “Retomada”. E uma retomada de impressionante velocidade. Dados da Agência Nacional de Cinema-Ancine informam que, em 1995, foram lançados no nosso circuito comercial 14 longas-metragens brasileiros, que venderam 3,3 milhões de ingres-

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sos. Em 2009, os números saltaram para 84 longas nacionais, e mais de 17 milhões de ingressos vendidos. Não faltariam motivos para comemorar, não fosse por um marcante erro estratégico. Em toda atividade industrial, o aumento de produção deve, necessariamente, vir acompanhado de novos e mais eficientes mecanismos de distribuição. Ou, trocando em miúdos, de nada adianta produzir milhões de latas de goiabada se elas não chegam ao consumidor. E o cinema brasileiro incorreu gravemente neste erro. Enquanto comemoravam-se mais e melhores filmes, o nosso parque exibidor (leia-se número de salas de cinema) permaneceu tímido. A mesma Ancine registra 2.206 salas de exibição espalhadas pelo Brasil no ano de 2010, número quase igual ao de 1971. Com o agravante que os nossos “90 milhões em ação” dos anos 1970 hoje são mais de 190 milhões.

NA PROPORÇÃO DE HABITANTES POR NÚMERO DE CINEMAS, PERDEMOS ATÉ DA ARGENTINA Glauber Piva, diretor da Ancine, informa que “atualmente o Brasil tem uma sala de cinema para cada 85 mil habitantes, proporção bem desfavorável na comparação com outros países. A França, por exemplo, tem uma sala para 11 mil habitantes; o México, para 40 mil, e a Argentina, para 45 mil”. E ninguém gosta de perder para Argentina.

Obviamente seria irreal pensar numa relação sala/habitantes igual à dos EUA, que é de invejáveis 8 mil, mas o fato é que o problema do incipiente circuito exibidor brasileiro extrapola a própria questão numérica e invade o terreno da má distribuição: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE informa que apenas 8% dos municípios brasileiros são contemplados com pelo menos uma sala de cinema. O que equivale dizer que 92% das nossas cidades não possuem sequer um único cineminha para alegrar seus habitantes. Como resultado desta distorção, os filmes brasileiros estão hoje sendo produzidos em boa quantidade, com boa qualidade, mas não conseguem ser vistos pelo seu público. Neste século, apenas 41 filmes brasileiros conseguiram superar a simbólica marca do milhão de espectadores, incluindo os sete de 2011 que obtiveram o feito: Bruna Surfistinha, Qualquer Gato Vira Lata, Assalto ao Banco Central, Cilada.Com, O Homem do Futuro, De Pernas pro Ar e O Palhaço. E vale dizer que, num país de 190 milhões de habitantes, “comemorar” um

Cenas dos festivais: acima à esquerda, Patrícia Pillar em frente ao cartaz do 20° Cine Ceará, de 2010. À direita, um panorama do público que prestigia o Cine PE - Festival do Audiovisual. Ao lado, Vladimir Carvalho recebe o Prêmio Saruê no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2011 pelo filme Rock Brasília - Era de Ouro, conferido pela editoria de cultura do jornal Correio Braziliense.

milhão de ingressos vendidos não seria, ou não deveria ser, tão significante assim. E quantos filmes foram lançados comercialmente no mesmo período? Quase 700. Não são poucos os longas que não vendem sequer mil ingressos. E quantos foram produzidos, não foram lançados, e correm o risco de morrer empoeirados nas prateleiras, sem jamais serem vistos? Difícil dizer, não há dados oficiais. Se a produção não escoa, se os consumidores sequer ficam sabendo da imensa maioria dos filmes brasileiros que chegam ao mercado, se não há salas disponíveis para que esta produção seja dignamente exibida, como fortalecer toda uma indústria? Não existe uma resposta simples e única, mas pelo menos uma delas começou a se desenhar nos últimos anos: os Festivais de Cinema que nos últimos anos têm se proliferado pelo País.

QUEM ESTÁ CANSADO DA MESMICE DOS CINEMAS ACABA PROCURANDO OS FESTIVAIS Com mais de 20 anos de carreira, 45 curtas e cinco longas na bagagem, o cineasta Pedro Paulo Carneiro considera os festivais de cinema de importância fundamental, principalmente para as produtoras independentes que não possuem articulação nem verba para distribuir seus filmes. “Os festivais proporcionam uma janela importante para a divulgação destes produtos, que em muitos casos conseguem muita visibilidade tanto dentro como fora do Brasil, além de criar interesse nos profissionais, distribuidoras e no público”. Jorge Oliveira, diretor do premiado Perdão, Mister Fiel e de mais outros dez docu-


BETO FIGUEIROA

vos), os Festivais de Cinema funcionam como tempo e espaço de discussão, análise, reflexão e troca de informações a respeito de tudo o que se relaciona com o setor audiovisual. Oferecem gratuitamente palestras, debates, oficinas práticas, seminários, encontros de cineastas com a platéia, catalisam a imprensa, difundem a atividade por todos os cantos do país e promovem o encontro do público com filmes que ele jamais teria oportunidade de ver, não fosse por este tipo de evento. É como se de repente chegasse um circo numa cidade onde nada acontece. Com um diferencial importante: foi comprovado que os festivais de cinema, mesmo depois de encerrados, deixam uma semente, um gosto de “quero mais” na população local, que passa a se unir em grupos, escolas e oficinas para aprender a fazer cinema. Nesta era digital, a viabilização de pólos regionais de produção audiovisual é muito mais viável que na cara época da película. “Os festivais são entretenimento, festa e cultura para os cidadãos, agitam e promovem a auto-estima das cidades que os organizam, e servem também como um aporte a mais para o turismo”, afirma o cineasta paulista Augusto Sevá. mentários, concorda, embora admita que isso não seja suficiente para eliminar os vícios do mercado. “Acredito que os festivais de cinema servem para que produtores e diretores apresentem seus filmes que não passam pela indústria da distribuição, que privilegia os filmes americanos, a maioria deles água com açúcar, mas com um extraordinário trabalho de marketing e divulgação”, afirma. E cita seu próprio exemplo: “Os festivais ainda são os meios pelos quais o espectador pode assistir a filmes que jamais chegarão ao circuito comercial, por serem mais autorais. Porém, muitos, por mais premiados que sejam, jamais chegarão ao público. Perdão, Mister Fiel, por exemplo, já recebeu onze prêmios em várias categorias, mas os distribuidores não se interessam em colocá-lo no circuito alegando que ele não é comercial, mesmo contando uma das histórias mais importantes do nosso País, que foi a ditadura militar”. O público, de uma forma geral, tem uma vaga idéia sobre o que possam ser os Festivais de Cinema, mas não tem a exata dimensão do que eles significam. Quem acompanha o noticiário e ouve falar de Gramado, de Brasília, das Mostras do Rio e de São Paulo, sequer imagina que já são mais de duas centenas os eventos audiovisuais que acontecem no Brasil. “São desde pequenas iniciativas regulares e consistentes, até os grandes eventos tradicionais plenamente consolidados”, informa Antonio Leal, vice-presidente do Fórum dos Festivais, entidade que reúne as principais iniciativas do setor. Atibaia, Paranapiacaba, Canoa Quebrada, Manaus, Belém, Bagé, Goiás Velho, Varginha, Tiradentes, Picos, Floriano, Teresina, São Luís, Taquaritinga do Norte, Alta Floresta, Triunfo... são dezenas as cidades que sediam anualmente seus festivais. Fora os lugares que fazem mais de um. E enganase quem pensa que um Festival de Cinema se restringe a exibir meia dúzia de filmes e a entregar um troféu bonito aos melhores no final. Nada disso. Além de exibir filmes e distribuir prêmios (nem todos, diga-se, são competiti-

HÁ EVENTOS PARA TODOS OS TIPOS DE FILMES: LONGAS, CURTAS, DIGITAIS, DE ANIMAÇÃO, HORROR... Com a multiplicação razoavelmente recente (vamos falar em 15 anos) destes festivais por todo o País, rapidamente também eles passaram a se segmentar e a se especializar. Há festivais só de filmes ambientais, só de futebol, de animação, de terror, infantis... o cardápio é grande. Aos poucos, cada um deles assume uma feição própria. O de Gramado, por exemplo, prioriza o impacto turístico que o evento possa causa na cidade, e para isso convida atores e atrizes famosos (às vezes, nem tanto) para desfilar por suas ruas. O de Brasília dá preferência a filmes de cunho político, e investe nos debates e na discussão de idéias. Em Manaus, a organização do evento sempre se empenha em, além do cinema, proporcionar aos convidados atividades paralelas turísticas. O de Tiradentes (MG) abre sua tela para a exibição de filmes de caráter mais autoral e menos comercial, enquanto o de Paulínia (SP) busca o caminho contrário, preferindo filmes de grande diálogo com o público. Público. Esta é a palavra-chave. O Festival de Recife se orgulha, com razão, de ser o que mais leva cinéfilios às suas projeções, contabilizando cerca de 5 mil pessoas por dia de evento. Todas mobilizadas para ver filmes brasileiros. Em 2000, ao apresentar seu documentário Fé diante da platéia lotada do Festival de Recife, o diretor Ricardo Dias afirmou: “Acho que o filme vai ser mais visto esta noite do que em toda a carreira comercial dele”. Antonio Leal diz que “já está em torno de 3 milhões anuais o número de pessoas que freqüentam os festivais de cinema pelo Brasil”. A cifra é significativa, pois estima-se que não chega a 15 milhões o número de brasileiros que têm o hábito de ir aos cinemas de circuito comercial. O público dos festivais, desta forma, já se constituiria numa importante massa crítica dentro do mercado audiovisual. Infelizmente, porém, por questões técnicas e burocráticas, o fre-

qüentador de festivais ainda não entra nas estatísticas oficiais.

FESTIVAIS SÃO ESPAÇOS PARA DIVERSIDADE CINEMATOGRÁFICA, NOVOS NEGÓCIOS... E AMIGOS Mais que uma questão numérica, estes 3 milhões anuais de pessoas que marcam presença nos festivais buscam algo que o mercado exibidor tradicional está longe de oferecer: cultura brasileira e diversidade cinematográfica. As 2.206 salas que o País tem hoje são, em sua maioria, destinadas apenas ao produto meramente comercial, isto é, o blockbuster norte-americano. Causou indignação na comunidade cinematográfica brasileira o fato do filme Amanhecer – Parte 1 ter sido lançado simultaneamente, no último mês de novembro, em nada menos do que metade do circuito disponível. Ou seja, 1.100 salas exibiam exclusivamente a saga dos vampiros adolescentes, e as outras 1.100 se dividiam para o “resto do mundo”, incluindo outros blockbusters dos Estados Unidos. O cinema brasileiro é estrangeiro dentro de seu próprio País. Premiado com quatro Kikitos (nome do troféu de Gramado) pelo longa Em Teu Nome, o diretor gaúcho Paulo Nascimento vê nos

festivais espalhados principalmente pelo interior do País uma forma importante de difusão: “Meus filmes foram vistos em lugares que eu jamais conseguiria exibi-los, mesmo porque nestes lugares nem tem cinema, e se isso ajuda ou não, tudo depende da mobilização de cada cineasta”. E explica: “Se eu me limitasse a colocar os prêmios que ganhei na prateleira, eles só pegariam poeira, mas dois dias após a premiação visitei o presidente da empresa que me patrocinou, levei os troféus, e saí de lá com novos apoiadores. Graças aos Kikitos, consegui também lançar meu filme em Londres e exibi-lo no Festival de Chicago”. Concluindo, Nascimento ensina: “Quem tem que fazer este trabalho é o cineasta, não o Festival”. Conterrâneo de Paulo Nascimento, o diretor Gustavo Spolidoro é taxativamente a favor dos festivais. E por questões que superam até o lado profissional: “Se eu acho importante os festivais? Eu sobrevivo deles, o cinema brasileiro sobrevive dos festivais, eles abrem os caminhos para uma carreira, para exibição em tv, em cinema, internet. Minha carreira começou depois de ser premiado no meu primeiro festival, com meu primeiro curta. E além de tudo, foi nos festivais que conheci meus melhores amigos do cinema”.

A opinião de quem faz O Jornal da ABI entrou em contato com 83 diretores e produtores de cinema em todo o Brasil. De estreantes curta-metragistas, a experientes e premiados cineastas. De produtores estabelecidos nas maiores capitais, a pequenos realizadores de interiores distantes. A maioria esmagadora, 78, enfatiza a importância dos festivais para o mercado brasileiro, classificandoos como “imprescindíveis” e “fundamentais”, entre outros adjetivos. O realizador Werinton Kermes, que também é curador do Festival de Votorantim (SP), já participou de mais de uma centena deles, e chega a dizer que “cada cidade brasileira deveria desenvolver o seu festival”. Há cineastas, contudo, que não gostam da idéia. Para o produtor Ray Evans, por exemplo, “a coisa cheira mal”. Ele reclama que os festivais “são organizações que ninguém pode criticar, fiscalizar, ou ter acesso para uma exposição de idéias. Eles têm muito poder nas mãos para julgar seu trabalho e a decisão deles é irrevogável”. A ira de Evans talvez se explique pelo fato de seus dois longas jamais terem sido selecionados para nenhum festival, nem terem entrado em cartaz em circuitos comercial. Por outro lado, o diretor Marcio Curi assina diversos filmes já premiados em festivais (entre eles, Louco Por Cinema, Filhas do Vento e Simples Mortais, por exemplo), mas tampouco vê a experiência positivamente: “Para a carreira comercial do filme, o impacto da participação nos festivais nacionais e dos eventuais prêmios recebidos é quase nenhum. Se o filme

é premiado, em nada impulsiona na distribuição, e se não é, o fato é citado como motivo para não colocá-lo no mercado. Entretanto, como diretor que também sou, devo reconhecer que o que vale para a carreira comercial do filme não vale da mesma forma para a carreira profissional do diretor ”. Ele sugere ainda que os festivais deveriam “pagar aluguéis ou participação em bilheteria para os filmes selecionados”. A documentarista Paola Prestes também não é muito fã de festivais: “Muitos que aparecem por aí me dão a sensação de serem apenas uma estrutura para gerar renda para os organizadores do dito evento”. Paola já teve seus documentários (Flávio Rangel – O Teatro na Palma da Mão, Diário de Bordo – 9 Dias em Novembro e Na Cama com King) exibidos em vários festivais. “O resultado? Lustrou meu ego por uma semana, mas em termos práticos, não ajudou muito em nada. Continuo, como a maioria dos realizadores brasileiros, ou pagando para fazer o que eu quero, ou fazendo o que não quero para ser paga” conclui. Diogo de Andrade, curta-metragista, faz coro com as vozes contrárias: “Acho que a maioria dos festivais é desorganizada e não leva a produção audiovisual para os seus habitantes. A maioria é sem repercussão, servindo apenas para gastar dinheiro com correio para meia-dúzia de gatos pingados assistir. Acredito mais em festivais online onde os filmes fiquem à disposição de todos”. Ralf Tambke questiona se o Brasil precisa de tantos festivais de cinema: “Parece

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CINEMA UM FESTIVAL DE FESTIVAIS

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NELSON PEREIRA DOS SANTOS

“O cinema brasileiro nunca mais foi o mesmo depois de Rio 40 Graus” Aos 83 anos e em plena atividade, o pioneiro do Cinema Novo lança documentário sobre Tom Jobim. ZANONE FRAISSAT/FOLHAPRESS

que a indústria de festivais está mais desenvolvida que a indústria cinematográfica. Acredito que isto seja fruto de uma falta de política pública para os festivais, onde o Estado, conhecendo as demandas, estabeleça metas para o desenvolvimento regional da atividade cinematográfica”. Já a curta-metragista Julia Mariano acredita na importância dos festivais, mas pondera: “Talvez haja um número exagerado deles. Me preocupa que os festivais de fato tenham público, para que eles façam sentido, já que praticamente tudo é incentivado com dinheiro público”. E admite que ter exibido seus filmes em festivais “foi sim de muita importância, já que prêmios e exibições funcionam como selo de qualidade”. Contudo, a grande maioria dos realizadores consultados defende vigorosamente a realização de festivais. “Principalmente para o curta-metragista, que depende destes eventos para ter visibilidade. E como grande parte dos filmes ainda é feita através de mecanismos de renúncia fiscal, o que a meu ver transforma qualquer cidadão que paga imposto em produtor dos filmes, muitas vezes é só nos festivais que ele vê para onde foi o seu dinheiro”, argumenta o realizador Piu Gomes. Também curta-metragista, Renato Cunha já participou de mais de 60 festivais, exibindo seus quatro curtas. E avalia a experiência como única: “Esta pretensa democratização do cinema pelo digital é apenas uma falácia, pois levará o audiovisual para a hermetização da internet. Cinema, convenhamos, tem de ser exibido em sala de cinema, mesmo que essa sala seja uma tela no meio de uma praça com cadeiras de plástico, como acontece em muitos festivais”. Além de fundamentais para exibir o que já foi produzido, os festivais também influenciam no que ainda será feito, conforme lembra a cineasta Beatriz Seigner: “Meu filme Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano, primeira co-produção entre Brasil e Índia, só se tornou possível por termos encontrado, justamente em um festival (a 1º Mostra de Bollywood de Cinema Indiano, na Cinemateca Brasileira), um produtor indiano que topou ler nosso roteiro e embarcar na aventura. Depois de realizado, o filme foi exibido em 17 festivais pelos cinco continentes, e conseguiu distribuição comercial no Brasil por ter sido um dos mais votados durante a 32ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo”. Estreando no longa-metragem com Meu País, o diretor André Ristum diz que teve todos os seus filmes exibidos em festivais, e “em todos os casos, além de ter sido uma experiência sempre positiva na cidade em que aconteceu, essas participações quase sempre originaram mais participações e circulação do filme, levando assim o tema e o trabalho a serem conhecidos cada vez mais”. Ter a produção reconhecida é, na verdade, uma das principais metas dos cineastas. Se não a principal, como testemunha Alexandre Bersot: “Os festivais ajudam muito, primeiro pela receptividade do público, que varia de festival para festival, o que é extremamente enriquecedor. As pessoas mandam e-mails falando o que acharam do filme, de como ele mudou ou não as suas vidas, e isso não há bilheteria ou prêmio que pague”.

POR CELSO SABADIN Quando se fala em Cinema Novo, logo se pensa na figura inquieta, falante e revolucionária de Gláuber Rocha. Nem todos se lembram, porém, que o cineasta que de fato foi o pai e inaugurou esse movimento, era um paulistano bem mais aquietado que Gláuber: Nelson Pereira dos Santos, um homem de fala calma e voz suave. Quem gritou foi o seu cinema. Foi Nelson que, logo com o seu filme de estréia, Rio 40 Graus, de 1955, misturou a ginga brasileira com elementos do neorealismo italiano e inaugurou aquele que viria a ser o movimento estético mais importante da História do nosso cinema. Nelson costuma brincar dizendo que “ia ao cinema ainda na barriga da mãe”. Desde muito pequeno acostumou-se a, todos os domingos, freqüentar o Cine Colombo, no bairro do Brás, levado pelo pai. O menino cresceu, estudou para ser advogado, e era apenas um bacharel de Direito recém-formado nas tradicionais arcadas da Faculdade São Francisco, da Universidade de São Paulo, quando trocou as já movimentadas ruas da São Paulo do final dos anos 1940 pela exuberante paisagem do Rio de Janeiro. Lá chegando, foi seduzido não somente pela beleza das praias cariocas, mas também pela complexidade social dos morros e das favelas, até então desconhecidas do jovem bacharel. Com o cinema nas veias e cada vez mais desinteressado pelo Direito, consegue um emprego de assistente de direção de Alex Viany no filme Agulha no Palheiro, e passa a freqüentar a favela do Jacarezinho, perto do estúdio em que foi morar. Foi ali que teve a inspiração de roteirizar e dirigir Rio 40 Graus, certamente sem ter a menor idéia da revolução que iria provocar. A imagem dos garotos vendedores de amendoins permeando e interligando várias situações tipicamente cariocas e brasileiras se fixaria definitivamente como a pedra fundamental do Cinema Novo. Porém, ver tanta verdade e tanta brasilidade na tela do cinema foi forte demais para o Coronel Geraldo de Menezes Cortes, então Chefe de Polícia do antigo Distrito Federal. Alegando que o filme não reproduzia a realidade do Rio de Janeiro, o militar proibiu sua exibição, causando indignação e risos na sociedade civil. Risos? Era a reação cabível à argumentação

da Censura, que afirmava que temperatura média da cidade “nunca passou dos 39,6 graus”. Portanto, era um filme mentiroso. A proibição gerou protestos e mobilizações de artistas, intelectuais e jornalistas, com decisiva participação da ABI. O jornalista Pompeu de Souza, na época diretor do jornal Diário Carioca, foi um dos mais atuantes, e o filme finalmente foi liberado em 23 de setembro de 1955. O cinema brasileiro nunca mais seria o mesmo. Segundo o próprio Nelson, “os filmes que eram feitos antes do Cinema Novo, com raríssimas exceções, eram totalmente colonizados. Era um cinema sem nenhuma intenção de refletir a nossa realidade.”

Em seguida vieram Rio Zona Norte (1957), Mandacaru Vermelho (1961) e Boca de Ouro (1962), primeira peça de Nelson Rodrigues a ser adaptada para as telas. O Nelson da literatura encontrava luz, corpo e alma no Nelson do cinema. “Xará, você puritanizou a minha obra”, disse, na época, o escritor para o cineasta. Em 1963, uma nova revolução: Vidas Secas. A narrativa árida e a fotografia estourada em grãos marcadamente brancos ou pretos, com pouco ou nada de meio tom, ditaria um novo patamar estético para a arte cinematográfica do País. Além de Nelson Rodrigues e Graciliano Ramos, outros grandes autores foram adaptados por Nelson Pereira, como


FERNANDO DUARTE DIVULGAÇÃO

Machado de Assis (Azyllo Muito Louco, de 1969), Jorge Amado (Tenda dos Milagres, de 1977, e Jubiabá, de 1986), novamente Graciliano (Memórias do Cárcere, 1983), além do quase inadaptável Guimarães Rosa (A Terceira Margem do Rio, de 1993). Tendo o pioneirismo como uma de suas principais bandeiras, Nelson chocou os intelectuais e encantou o público quando decidiu dar uma guinada em sua carreira e fazer um filme com a dupla sertaneja Milionário e José Rico, ícone maior do que poderia existir de mais brega e menos intelectualizado para a suposta “inteligentzia” nacional. Assim, em 1980 lançou o surpreendente A Estrada da Vida, estilizando com classe e categoria o universo breganejo. Nelson entra no século 21 com mais de 70 anos de idade. Hora de parar? Nem pensar. Logo no ano 2000 demonstra fôlego de menino ao realizar uma série para a televisão adaptando Casa Grande e Senzala. No ano seguinte, do alto de sua experiência, mostra humildade e jovialidade para retornar ao curta-metragem e realizar Meu Cumpadre Zé Keti. Sempre sintonizado com a cultura brasileira, dirige o documentário Raízes do Brasil - Uma Cinebiografia de Sergio Buarque de Hollanda em 2004 e a ficção Brasília 18% em 2006. O título do filme, além de se referir à baixa umidade da capital federal, também é uma homenagem ao seu 18° longa. “Desejei parafrasear Fellini que batizou seu filme de 8 1/2 por ter feito oito longas e um curta”, explicou Nelson. 2006 também é o ano que marca sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 7, cujo patrono é Castro Alves. Torna-se assim o primeiro cineasta brasileiro imortal. A honraria é significativa, mas os fãs de cinema já conheciam há muito tempo a imortalidade de Nelson, cineasta que teve seus filmes participando das mostras competitivas dos mais importantes festivais de cinema do mundo, como Cannes (O Amuleto de Ogum, Azyllo Muito Louco, Memórias do Cárcere e Vidas Secas) e Berlim (A Terceira Margem do Rio, Tenda dos Milagres, Como Era Gostoso Meu Francês e Fome de Amor). O diretor teve seu trabalho reconhecido em mostras e retrospectivas organizadas na França, Itália, Canadá, Estados Unidos e Japão, entre outros. Além de ter

fundado o curso de graduação em Cinema da Universidade Federal Fluminense. Em janeiro deste ano, entrou em cartaz o mais recente longa de Nelson Pereira dos Santos: A Música Segundo Tom Jobim, co-dirigido por Dora Jobim, neta do compositor. Esqueça os documentários tradicionais, com depoimentos e narrações, com datas, fatos e números. Nelson jamais faria isso. A Música Segundo Tom

Jobim é um documentário poético musical que mostra a trajetória profissional do famoso compositor de Garota de Ipanema única e exclusivamente através da sua música. Seja através de sua própria voz, ou em marcantes interpretações de Gal Costa, Elizeth Cardoso, Jean Sablon, Agostinho dos Santos, Ella Fitzgerald, Sammy Davis Jr, Judy Garland, Vinicius de Moraes, Elis Regina, Sarah Vaughan e tantos outros.

Nelson já havia dirigido, em 1985, um documentário sobre Tom Jobim para a televisão, com quatro horas de duração. mas desta vez optou por construir a espinha dorsal do filme com base na música. A frase que fecha o filme, de autoria do próprio Jobim, é auto-explicativa: “A linguagem da música diz tudo”. Aos 83 anos, Nelson Pereira dos Santos inova outra vez.

“Jobim é universal, e ponto.” JORNAL DA ABI – POR QUE A OPÇÃO POR NÃO USAR DEPOIMENTOS NEM ENTREVISTAS NO DOCUMENTÁRIO?

Nelson Pereira dos Santos - A idéia original era fazer dois filmes, sendo um deles registrando as mulheres da vida de Tom falando sobre ele como criador e artista. Este filme está em processo de produção e será lançado mais adiante. Depois, veio a idéia de fazer o filme só com músicas, dividido em três atos de acordo com a temática das canções de Tom: Rio de Janeiro, Mulheres e Natureza. Mas durante o processo de trabalho esta proposta não vingou. Percebemos também que tínhamos em mãos um material de arquivo tão extenso, que as próprias imagens já existentes eram mais do que suficientes para contar a história de Tom. A partir daí a cronologia da criação da obra de Tom Jobim passou a nortear o filme. A partir do momento em que foi decidido só usar material pronto, de arquivo, seja de tv ou de filmes, a escolha das músicas era condicionada à qualidade do material encontrado. JORNAL DA ABI – O RESULTADO É, NO MÍNIMO, DIFERENTE.

Nelson Pereira dos Santos - Desde o começo eu insisti muito para não repetir num filme para cinema o mesmo que se faz na televisão Geralmente na tv tem que escrever embaixo o nome da pessoa que está cantando, não é? Achei melhor não escrever nada, deixar o pessoal ficar curtindo a música, sem interferência de

nenhum texto, nada. Nem todo mundo gosta. Teve uma sessão do filme na Academia Brasileira de Letras onde algumas pessoas ficavam falando, perguntando quem estava cantando nesta ou naquela cena. Aí alguém gritou: “Cala a boca, me deixa ouvir a música!” [risos]. Eu sugiro que se espere até o finalzinho do filme, onde todos os intérpretes são identificados. JORNAL DA ABI – A INFLUÊNCIA DA LINGUAGEM DA TELEVISÃO É GIGANTESCA...

Nelson Pereira dos Santos - Hoje em dia o sujeito levanta da cama, e pra ver se está chovendo ou se faz sol ele não abre a janela: ele liga a televisão [risos]. O filme provoca em cada pessoa um sentimento, uma emoção, um pensamento, uma memória diferente no plano emocional. As respostas escritas estão no final, se você tem a necessidade de saber. Primeiro é importante curtir o filme, saboreá-lo, depois, se houver necessidade, é só esperar mais um pouquinho que está tudo escrito nos créditos finais. Isso sem falar que vai ter um monte de gente durante a projeção que vai querer exibir conhecimento, desfilando os nomes de todo mundo que aparece na tela [risos]. JORNAL DA ABI – VOCÊ É UM PIONEIRO DO CINOVO E QUE AGORA FAZ ESTE FILME SOBRE UM DOS PIONEIROS DA BOSSA NOVA. COMO VOCÊ VÊ A RELAÇÃO ENTRE ESTES DOIS MOVIMENTOS? NEMA

Nelson Pereira dos Santos - Bom, quando terminou a Segunda Guerra, eu era paulista mesmo, depois praticamente

virei carioca [risos]. Mas o fato é que naquele tempo, quando terminou a Guerra, havia uma esperança muito grande de que tudo iria melhorar, que o Brasil inteiro deveria ser refeito, deveria ser reconstruído em quase todos os seus setores. Depois daquela guerra terrível, daquela hecatombe, essa era a proposta, o motivo enraizado na nossa sociedade que provocou tanta coisa nova no nosso cinema, na nossa música. Uma música, aliás, que independente ou não da Bossa Nova, sempre foi muito rica. JORNAL DA ABI – E QUE PROVAVELMENTE VIVEU TOM J OBIM ?

SEU MOMENTO MAIS INTERNACIONAL COM

Nelson Pereira dos Santos - Olha, nos anos 1970, eu estava em Nova York, tomo um táxi, e no rádio do carro está tocando Tom Jobim. E eu, orgulhoso e exibicionista, disse para o taxista: “Essa música é brasileira!”. E ele me respondeu, meio irritado: “Que música brasileira, nada! Isso é Bossa Nova!” [risos]. Depois eu percebi: ninguém está querendo saber onde nasceu o Chopin. É isso mesmo! A música que os grandes mestres produziram, seja Chopin, Mozart ou Tom Jobim, chegou à categoria de universalidade. Tanto que eu estou chegando à conclusão de que este filme sobre o Jobim sequer precisará ser legendado, quando for exibido no exterior. O que importa é a sonoridade. Jobim é universal, e ponto. Não é à toa que no final do filme eu uso praticamente juntas imagens do Carnegie Hall e de escola de samba.

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QUADRINHOS

O repórter que não pára de crescer Criado há 83 anos, Tintim, a obra-prima de Hergé transposta para o cinema por Spielberg, chega ao século 21 com vigor renovado. POR CESAR SILVA Assim como todas as artes, os quadrinhos também têm o seu cânone, um conjunto das obras que melhor representam a sua história e o estado da arte conforme a avaliação de críticos e estudiosos. Quando um especialista precisa evocar o cânone dos quadrinhos, alguns trabalhos emergem de imediato: Flash Gordon, de Alex Raymond; Príncipe Valente, de Harold Foster; Asterix, de Urdezo e Goscinny; Tio Patinhas, de Carl Barks; Peanuts, de Charles Schulz, e Tintim, de Hergé. Tintim é um caso especial dentro das histórias em quadrinhos canônicas, porque entre elas é aquela que suscita o maior número de polêmicas. Isso advêm de muitos componentes mas, principalmente, do estranhamento em relação aos conceitos, idéias e cultura de uma época, registradas por seu autor, Georges Prosper Remi, ou Hergé (que é como se pronuncia, em francês, “RG”, as iniciais de seu nome). Nascido em 1907, em Bruxelas, Bélgica, Hergé trabalhava no jornal católico Le Vingtième Siècle como editor do suplemento infantil Le Petit Vingtième. Em 1929, o diretor do jornal, abade Norbert Wallez, encomendou uma história em quadrinhos em que houvesse um menino e um cachorro. Hergé criou Tintim, um jovem jornalista investigativo que vive grandes aventuras acompanhado de um fox terrier branco chamado Milu. Não por acaso, em sua primeira aventura Tintim visita a então União Soviética na série Tintim no País do Sovietes (Tintin au pays des Soviets). Também encomendada pelo religioso, que era um homem extremamente conservador e anti-comunista, ele queria fazer uma campanha em seu jornal contra a ideologia comunista, tida como propagadora do ateísmo. A aventura foi desenhada em preto e branco ainda sem o detalhamento e a sofisticação características de Hergé, e publicada em capítulos, causando furor entre os jovens leitores. Tanto que no dia em que seria publicado o último episódio, o jornal promoveu, com atores reais, a dramatização da chegada de Tintim a Bruxelas, e milhares de jovens correram ao porto para ver o personagem desembarcar. Hergé não conhecia a União Soviética e baseou toda a narrativa no livro Moscou

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Sans Voile, do excônsul belga na Rússia, Joseph Douillet, cuja visão da política soviética não era nada favorável. Esses conceitos foram repetidos por Hergé na história, o que lhe rendeu algumas polêmicas. África colonizada Em 1931, dando continuidade ao talento viajante de seu personagem, Hergé produziu outra aventura desenhada em preto e branco, Tintim no Congo (Tintin au Congo), país que era então uma colônia belga na África. Hergé nunca havia visitado o Congo e acabou produzindo uma trabalho repleto dos conceitos estereotipados correntes na época, com um retrato dos africanos nada realista e um conceito geral a favor do colonialismo. Mais tarde, Hergé reconheceu os erros da obra e a redesenhou, desta vez a cores, melhorando a arte e amenizando alguns aspectos. Mas ainda hoje o trabalho colhe críticas e processos legais em algumas partes do mundo. A seu favor, contudo, cabe dizer que Tintim no Congo é o álbum mais popular do personagem na África. Nos anos seguintes, Hergé produziria histórias com cada vez mais qualidade, como Tintim na América (Tintin en Amérique, 1932) e Os Charutos do Faraó (Les Cigares du Pharaon, 1934). Em O Lótus Azul (Le Lotus Bleu, 1936), uma história que se passa

na China ocupada pelos japoneses, Hergé contou com a assessoria de Tchang Tchong -Jen, chinês que demonstrou ao artista o valor de uma boa pesquisa. Daí em diante, o trabalho de Hergé ganhou contornos mais realistas, como se pode ver em O Ídolo Roubado (L’Oreille Cassée, 1937), A Ilha Negra (L’Ile Noire, 1938) e O Cetro de Ottokar (Le Sceptre d’Ottokar, 1939). Com a ocupação da Bélgica pela Alemanha em 1940, o jornal Le Vingtième Siècle foi fechado, interrompendo pela metade a publicação de Tintim no País do Ouro Negro (Tintin au Pays de l’Or Noir), aventura que seria completada somente dez anos depois. Mas Hergé não ficou sem produzir, e passou a publicar novas histórias de Tintim no jornal Le Soir, controlado pelo governo nazista. As histórias desse período são menos políticas, como O Caranguejo das Pinças de Ouro (Le Crabe aux Pinces d’Or, 1941), com a estréia do irascível Capitão Haddock, A Estrela Misteriosa (L’Étoile Mysterieuse, 1942), O Segre-

Em sua primeira aparição no suplemento Le Petit Vingtième (ao lado uma edição de junho de 1931), Tintim era muito diferente e seu esperto cãozinho Milu até falava.

do do Licorne (Le Secret de la Licorne, 1943) e O Tesouro de Rackham o Terrível (Le Trésor de Rackham le Rouge, 1944), no qual surge o Professor Girassol, um genial cientista meio surdo. Com a retirada das tropas nazistas em 1944, Tintim parou de ser publicado no Le Soir. Em 1942, a Editora Casterman comprou os direitos de publicação de Tintim e implantou o formato de álbum em cores que hoje caracteriza as edições franco-belgas. Todas as histórias antigas foram adaptadas para o novo padrão, exceto Tintim no País do Sovietes, que nunca foi retrabalhado, sendo continuamente republicado exatamente como na primeira vez, em preto e branco. Em 1946, foi lançado na Bélgica o semanário Le Journal de Tintin, que aproveitava o prestígio e a popularidade de Tintim para publicar também outros personagens que se tornaram referências dos quadrinhos belgas, como Blake & Mortimer, Michel Vaillant, Ric Hochet e Bruno Brazil. O periódico foi continuamente publicado até 1993. Dois anos depois, Hergé retomou o ritmo de publicação com As Sete Bolas de Cristal (Les Sept Boules de Cristal), seguido por O Templo do Sol (Le Temple du Soleil, 1949) e Tintim no País do Ouro Negro (Tintin au Pays de l’Or Noir, 1950). Em absoluto clima de Guerra Fria, Hergé levou seus personagens a uma alunissagem bem sucedida quinze anos antes do Projeto Apolo, em Rumo à Lua (Objectif Lune, 1953) e Explorando a Lua (On a Marché Sur la Lune, 1954). É curioso notar que a história apresentou idéias que, mais tarde, os cientistas da Nasa aproveitariam na viagem real. Completam a obra de Hergé, O Caso Girassol (L’Affaire Tournesol, 1956), Perdidos no Mar (Coke en Stock, 1958), Tintim no Tibete (Tintin au Tibet, 1960) – sua história mais dramática –, As Jóias da Castafiore (Les Bijoux de la Castafiore, 1963), Vôo 714 para Sydney (Vol 714 Pour Sydney, 1968) e, o último deles, Tintim e os Pícaros (Tintin et les Picaros, 1976). Aventura incompleta Pouco antes de sua morte, em 3 de março de 1983, Hergé iniciou a produção de uma nova aventura, Tintim e a Alfa-Arte


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LIVROS

Antes que nada mais exista POR MARCOS STEFANO

Tintim lê a notícia no Le Petit Vingtième, o jornal para o qual trabalha.

Conhecido por dirigir grandes sucessos do cinema como Tubarão, ET - O Extraterrestre, a série Indiana Jones, A Lista de Schindler e o recente Cavalo de Guerra, entre outros, o cineasta Steven Spielberg sonhava em fazer um filme com Tintim desde 1981. Ele já havia demonstrado seu interesse diretamente a Hergé, mas o licenciamento final só foi resolvido em 2007. A partir daí e com o apoio do diretor neo-zelandês Peter Jackson, realizador da saga cinematográfica de O Senhor dos Anéis, Spielberg começou a preparar os roteiros para uma trilogia com o personagem e passou a produzir o primeiro longa-metragem, o que gerou grande expectativa do público. Finalmente, em outubro de 2011, foi lançado na Europa As Aventuras de Tintim (The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn). Bélgica, lar de Tintim, e França, tiveram a primazia de lançar o filme antes de todos os países. O longa estreou no Brasil, oficialmente, em 20 de janeiro de 2012, e inaugura um novo conceito em animação que eleva a arte a um patamar inédito de realismo e deve indicar um novo rumo para o cinema de animação. A animação foi produzida através de uma tecnologia de captação de movimentos reais, conhecida como “motion capture”, a mesma usada em O Senhor dos Anéis: As Duas Torres para o personagem Gollum. Mas o resultado é superior em acabamento e texturas e torna o espetáculo visual tão empolgante quanto os filmes de Indiana Jones, com o qual guarda um parentesco bastante próximo.

Baseado na articulação de trechos de três aventuras de Tintim, o filme consolida uma dinâmica própria, ainda que em tudo respeitosa ao legado do artista belga Hergé. Em sua primeira metade – a parte belga da história – a produção obedece a cadência original que Hergé impunha aos seus roteiros, com o mesmo tipo de humor que caracteriza seus personagens. Mas a parte central tem o ritmo de montanha-russa que nos costumamos a reconhecer como característica do diretor em filmes de aventura. A história começa seguindo o roteiro do álbum O Segredo do Licorne. Logo na primeira cena, Spielberg presta uma homenagem a Hergé, que aparece fazendo uma ponta como um desenhista que faz a caricatura de Tintim numa feira de antiguidades ao ar livre no centro de Bruxelas. Passeando na romântica praça, Tintim compra a bela miniatura de uma caravela – o Licorne –, que imediatamente passa a ser disputada por mais dois homens. O interesse deles não é ocasional, pois sem que o jovem repórter saiba, a miniatura esconde a pista para a localização de um tesouro histórico. Seu faro jornalístico é aguçado e a partir daí ele e seu cão Milu enfrentam inúmeros perigos. Mesmo quem nunca ouviu falar de Tintim não terá dificuldade para aproveitar o filme, que se sustenta por si. Mas aqueles que já conhecem o personagem vão encontrar inúmeras referências espalhadas pelas cenas, o que torna a experiência cinematográfica ainda mais divertida. As Aventuras de Tintim é mais que um delicioso filme de ação. É também uma homenagem emocionante ao gênio de Hergé que recupera para as novas gerações uma das obras-primas da arte dos quadrinhos. (CS)

(Tintin et l’Alph-Art), que ficou incompleta. Em 1986, os esboços e várias anotações de Hergé sobre como a história seria desenvolvida foram reunidos num álbum especial publicado como uma homenagem póstuma. No Brasil Tintim e a Alfa-Arte só foi lançado 22 anos depois, em dezembro de 2008, juntamente com o álbum Tintim no País do Sovietes, única aventura do jovem repórter que permanecia inédita no País. A Companhia das Letras, que havia adquirido os direitos de todos os álbuns de Tintim e começou a republicá-los a partir de 2005, comemorava assim os 80 anos do personagem, completados em 10 de janeiro de 2009. Além dos álbuns regulares, Tintim contou com três títulos que adaptaram as histórias levadas ao cinema com atores reais: Tintim e o Mistério do Tosão de Ouro (Tintin et le Mystère de la Toison d’Or, 1961), Tintim

e as Laranjas Azuis (Tintin et les Oranges Bleues, 1964) e Tintim e o Lago dos Tubarões (Tintin et le Lac aux Requins) 1972. As histórias também chegaram à televisão com as séries de desenhos animados Les aventures de Tintin, d’après Hergé (1961), produzida pela companhia belga Belvision, e As Aventuras de Tintim (The Adventures of Tintin, 1991), da canadense Nelvana. Traduzido para mais de cinqüenta línguas, com duzentos milhões de exemplares vendidos e uma coleção de prêmios internacionais, Tintim chegou ao século 21 sem perder o vigor narrativo, a qualidade gráfica e sem esgotar as polêmicas, sinal da grande profundidade artística, histórica e sociológica do trabalho e das idéias de Hergé, que deixou um legado importantíssimo na história da arte dos quadrinhos e da cultura pop, que influencia artistas em todo o mundo. (com Francisco Ucha)

O Tintim de Spielberg

O ano de 2012 está começando e vem acompanhado por profecias, prognósticos e previsões, as mais variadas e também mais terríveis. Não faltam dilúvios, incêndios, terremotos, tsunamis, morte e destruição para todo lado. Puxado ou não pelo calendário maia, o assunto do momento é o fim do mundo. Mas e se esse “apocalipse” da civilização já tiver acontecido, ainda que muita gente ainda não tenha se dado conta? A princípio, a idéia parece estranha, até fantasiosa. Porém, passa a ser uma reflexão oportuna e bastante original quando feita pelo jornalista Rodolfo Konder no livro 2012 – O Fim do Mundo, recémlançado pela RG Editores. Antes que aqueles que acompanham o autor há mais tempo se assustem, é bom dizer que a única coisa um pouco mais esotérica, mística ou religiosa na obra é a foto de Konder junto às ruínas da cidade inca de Machu Picchu, no Peru, que estampa a capa. Todo o demais é uma coletânea de artigos, alguns inéditos, mas a maioria publicada nas três últimas décadas em importantes jornais como O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Folha de S. Paulo. Publicados juntos, ganham novo sentido e, mais do que retratar uma época, mostram um mundo que já não existe ou que está por um fio. “É um conjunto de manifestações e de reflexões que faço há tempos sobre o mundo em que tenho vivido nessas décadas. Do fim da Guerra Fria, passando pelo socialismo e chegando a um tempo em que os sonhos parecem ter desaparecido, muita coisa mudou. Não precisamos de uma hecatombe nuclear ou um supervulcão; esse mundo acabou”, explica Konder. Longe do inusitado, trata-se de uma verdadeira releitura da vida moderna. E, em tempos nos quais toda hora se arruma um desastre diferente para ser profetizado, um alerta feito com sensibilidade e competência. Bagagem para tanto não falta a Rodolfo Konder. Jornalista tarimbado, passou por alguns dos principais veículos da imprensa brasileira. Escreveu para revistas como Realidade e IstoÉ, os jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo, os alternativos

Movimento, Pasquim e Opinião. Também trabalhou em rádio e televisão, dirigindo e apresentando jornalísticos, no Brasil e no exterior. Com a pena em mãos, enfrentou a ditadura militar; esteve exilado em duas oportunidades, primeiro no México e Uruguai, depois nos Estados Unidos e Canadá; e ainda ocupou cargos públicos na maior e mais problemática metrópole brasileira. A junção entre experiência de vida e conhecimento teórico fazem que cada artigo funcione como uma breve crônica do moderno. E mesmo com algumas datas marcadas, as reflexões permanecem atuais. A utopia foi trocada pelas drogas, pela virtualidade e pelo imediatismo. Em várias trajetórias e quedas políticas relatadas percebe-se o fim de impérios e a ascensão do individualismo e do pragmatismo, o mundo desprovido de sonhos, como diz o próprio autor. Tudo isso, no entanto, não é um chororô cercado do pessimismo da fase de desencanto de um escritor. O tom é outro. “Estou com 73 anos e não tenho a pretensão de ser filosófico ou saudosista. Os tempos realmente mudam e o mundo que conhecemos não existe mais. Mas desejo trazer uma simples advertência e chamar a atenção para o fato de que podemos estar às portas da destruição da sociedade, sem precisar de qualquer alinhamento planetário para isso”, garante Konder. Essa talvez seja a grande virtude de 2012 – O Fim do Mundo: falar de forma simples sobre temas intrincados, relembrando o passado para não ignorar o futuro. Uma linha que deve se repetir também no próximo livro do autor, Os Sobreviventes, uma coleção de contos que, embora ficcionais, trará na capa uma foto dele preso nas dependências do Dops. JORNAL DA ABI 374 • JANEIRO DE 2012

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LIVROS

REPRODUÇÃO

Sabino e Clarice e suas confidências da criação Na correspondência que os dois trocaram durante 20 anos, a revelação de que um submetia seu trabalho ao outro. POR MARCOS STEFANO Fernando Sabino (1923 – 2004) e Clarice Lispector (1925 – 1977) foram dois dos mais importantes escritores brasileiros do século 20 e também amigos e confidentes nas letras. É a soma de todos esses predicativos que confere caráter especial à correspondência que ambos trocaram por mais de 20 anos, entre 1946 e 1969, e que foi reunida no livro Cartas Perto do Coração, que acaba de ser relançado pela Editora Record. Embora errática, a comunicação entre os dois, que eram jornalistas e escritores, revela uma constante troca de elogios e comentários a livros, contos e textos de um e de outro, traz detalhes dos gostos e da vida cotidiana, apresenta reflexões casuais a respeito da cultura brasileira e estrangeira e mostra as nuances do misterioso universo da criação literária. Ler a correspondência íntima de dois mestres da escrita não é uma invasão de privacidade. É descobrir a essência da literatura da realidade, falar de memórias com arte e ser colocado diante de um repertório que em alguns momentos aspira a exibir tons de ensaio. “Você avançou na frente de todos nós... Apenas desejo intensamente que não avance demais, para não cair do outro lado. Tem de ser equilibrista até o final... Apertando o cabo da sombrinha aberta, com medo de cair, olhando a distância do arame ainda a percorrer – sempre exibindo para o público um falso sorriso de serenidade”, escreveu Sabino, em julho de 1946. Em outra oportunidade, no começo de 1957, Lispector respondeu: “É curioso como seu livro e o meu têm a mesma raiz. Só que o seu termina com uma luz mais aberta – o encontro marcado se realiza. O fato de você ter escrito este livro e eu ter escrito o meu não é o começo da maturidade?... Fiquei com a certeza de um encontro marcado, 40

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e a esperança. Depois desse livro, ainda sou mais sua amiga. Mas a verdade também é que, se não tivesse gostado tanto, também seria”. O primeiro contato de Fernando Sabino com Clarice Lispector ocorreu no ano de 1944. Ele recebeu o primeiro livro dela, Perto do Coração Selvagem, com uma dedicatória, ficou entusiasmado e publicou uma resenha. Sabino tinha 20 anos de idade, morava em Belo Horizonte e não sabia quem Clarice era. Eram tempos de guerra, ela morava em Nápoles; quando voltou, foram finalmente apresentados por Rubem Braga, começando uma amizade intensa e que não seria quebrada nem pela distância. As cartas dele foram enviadas do Rio de Janeiro e de Nova York; as dela, de Berna, na Suíça, e Washington, nos Estados Unidos, onde morou acompanhando o marido diplomata, Maury Gurgel Valente. No começo, dominam as inquietações e as angústias vagas. Mas o decorrer da leitura mostra como a preocupação passa a ser a produção literária, sempre cercada pelo tom intimista e cheio de complexidade. “Trocávamos idéias sobre tudo. Submetíamos nossos trabalhos um ao outro. Juntos reformulávamos nossos valores e descobríamos o mundo. Era mais do que a paixão pela literatura, ou de um pelo outro, não formulada, que unia dois jovens ‘perto do coração selvagem da vida’: o que transparece em nossas cartas é uma espécie de pacto secreto entre nós dois, solidários ante o enigma que o futuro reservava para o nosso destino de escritores”, admite Sabino na apresentação da obra. Enigma que também foi a razão da vida e obra de ambos, como recordou Clarice após visitar o Egito. “Vi a esfinge. Não a decifrei. Mas ela também não me decifrou. Encaramo-nos de igual para igual. Ela me aceitou e eu a aceitei. Cada um com seu mistério”.

DESENHO DE ADAIL QUE FEZ PARTE DO LIVRO E DA EXPOSIÇÃO NOEL É 100.

POR PRISCILA MAROTTI Traços precisos em uma arte feita a lápis, borracha, aquarela e tinta. Humor leve, boas idéias e uma forte marca na história do humor na imprensa brasileira. Adail José de Paula tem 81 anos de idade e mais de 60 na estrada dos grandes nomes que sedimentaram o cenário humorístico dos impressos. Nascido na cidade de Registro, SP, Adail fez cursos de desenho e pintura em São Paulo. Tinha pouco mais de 17 anos quando começou a publicar, no final da década de 1940, no semanário A Bexiga do jornal de circulação nacional O Governador e em A Marmita, ambos paulistas. Seus trabalhos, na época, marcavam uma liberdade de expressão que começava a surgir junto com os talentos de uma geração que hoje é referência do humor inteligente. Para ele, situações do cotidiano se tornavam matéria-prima para seus desenhos: uma conversa entre amigos, a beldade “bem distribuída” que passa pela rua, a conversa sobre futebol. Traços que fizeram de Adail um artista consagrado e atemporal. O artista não se contentava em desenhar apenas nas Redações. Na casa dos amigos, com os colegas de quarto, por onde passava deixava tudo cheio de desenhos. O trabalho profissional começou cedo, mas o talento e o interesse de Adail pela arte foi percebido antes mesmo que ele tivesse consciência do que podia fazer, quando ainda tinha sete anos. “Minha irmã contava que meu primeiro desenho tinha sido de uma lavadeira com uma bacia na cabeça e uma fumacinha saindo da cabeça dela, como se estivesse irritada. Eu era bem garotinho, mas já tinha essa tendência nítida para o humor ”, conta.

E se o talento já existia, foi a ligação dos pais com movimentos culturais que impulsionou a transformação da arte em trabalho. “Ninguém entendia como aquele pessoal do cafundó poderia estar naquele estágio cultural. As pessoas se admiravam com as poesias de mamãe, que era professora, e os escritos do meu pai, que era da Força Pública – uma espécie de policial militar ”, lembra. O Pinduca

Até quando serviu à Força Aérea Brasileira, entre 1948 e 1954, Adail fez dos traços coloridos ferramenta de trabalho. Além de criar caricaturas dos colegas, também era responsável pelos gráficos estatísticos de sua unidade militar. Chegou a ganhar um apelido, no quartel: Pinduca, personagem também lembrado como Carequinha, da história em quadrinhos de Carl Thomas Anderson – uma alusão aos desenhos e à cabeça raspada na época. Pinduca, mais tarde, veio a se tornar pseudônimo utilizado em muitos de seus trabalhos. Adail chegou ao Rio em 1955 e conseguiu um trabalho no Diário de Notícias em 1957, onde trabalhou por quase 20 anos. “Percebi uma mudança de estilo nos desenhos do Adail quando ele veio para o Rio, mas conseguiu manter uma linha de trabalho constante ao longo dos anos. Eu diria que geralmente os desenhistas vão crescendo conforme o tempo, mas ele já tinha um desenho extremamente maduro quando começou”, diz o desenhista e amigo José Roberto Graúna. Quem conhece o trabalho de Adail cita sempre a característica apolítica de seus desenhos em histórias simples e engraçadas. Diferente de muitos chargistas e jor-


HOMENAGEM

Adail, puro talento Desenhista e sócio da ABI, o paulista Adail foi lembrado pelos colegas de profissão do Rio de Janeiro. DIVULGAÇÃO

nalistas que passaram pelo turbilhão da ditadura militar em busca de provocar a repressão vivida na época, Adail manteve uma linha de trabalho leve e a vontade de fazer humor pelo humor. “Raramente alguém vai ver um trabalho do Adail que seja agressivo. É um humor tranqüilo, até por conta do temperamento dele, que é um camarada muito humano e fácil de lidar ”, explica Graúna. Curiosamente foram seus desenhos que o salvaram de uma eventual prisão em 1972, durante a ditadura militar. Ao ser levado para um quartel durante revista dentro de um bar na Praça da Bandeira, Adail foi identificado por um dos oficiais que era desenhista amador. “Ele me reconheceu porque já havia levado alguns desenhos para me mostrar e disse aos outros que eu era jornalista. Então perguntei a ele: ‘Como é que eu te tratei quando você me mostrou seus desenhos? Ele sabia que eu o tinha recebido bem’. E foi liberado em seguida, acompanhado pelo oficial. A história marca uma característica marcante em sua carreira e na personalidade de Adail: a receptividade com os jovens cartunistas em busca de um lugar ao sol. “Ele tem esse lado muito legal, típico da geração, que é o carinho pelo jovem. Recebe desenhistas novos, conversa, incentiva o artista que está começando agora”, lembra Graúna. Durante o tempo em que trabalhou no Diário de Notícias, Adail colaborou em outras publicações. Em 1967, foi chamado – junto com outros grandes cartunistas da época – para publicar na sessão dominicial humorística do Jornal do Sports criada por Ziraldo: o Cartum JS. Foi a partir deste trabalho que Adail ficou reconhecido no cenário dos esportes e até hoje é chamado para ilustrar histórias e capas de livro sobre o tema. “Esse semanário fez tanto sucesso que acabamos sendo convidados para colaborar em O Cruzeiro. Ainda tenho essa circular, na qual o Ziraldo fala: ‘cartunistas do Brasil, dinheirinho à vista! Vamos nos

Adail com Guidacci na homenagem que aconteceu no 7° Encontro Anual dos Cartunistas Cariocas.

encontrar. Todo mundo de terno preto’”, conta, rindo e lembrando das inúmeras reuniões entre eles. Paralelo ao trabalho no Diário de Notícias, Jornal dos Sports e O Cruzeiro, Adail colaborou em outras publicações, como o Manequinho, do Correio da Manhã, Pasquim, O Dia, O Globo e o Jornal do Brasil. Aposentou-se na Última Hora, em 1991. Piadas leves

“Ele está há muito tempo na imprensa. Seus desenhos sempre tiveram certa elegância. Por isso, é consagrado até hoje e seu trabalho continua atual. Ele tem um desenho rápido, com piadas leves, populares, que o povo gosta de ver e ouvir. É um tipo de humor que alcança a todos”, diz o amigo cartunista Chico Caruso. Mesmo sem se render à era digital – já que é um dos raros cartunistas que ainda desenham com lápis, borracha e tinta –, seu trabalho sempre é lembrado. Em 1994, participou da exposição Imenso Cordão, mostra de caricaturas e ilustrações que

comemorou os 50 anos de Chico Buarque no Museu Nacional de Belas-Artes, no Rio de Janeiro. Junto com ele, outros grandes nomes do humor gráfico brasileiro tiveram suas obras expostas: Mendez, Nássara, Ziraldo, Guidacci, Claudius e muitos outros. Em outubro do ano passado, um de seus desenhos também entrou no livro e na exposição Noel é 100, que comemorou o centenário de Noel Rosa na Sala Leila Diniz, em Niterói. Recentemente começou a participar do grupo Caricatura Solidária e chegou a trabalhar em uma campanha em prol das vítimas das enchentes que varreram a Região Serrana do Rio em 2011. Adail, que é membro da ABI desde 1992, não pára. Desenha para capas de livros, faz caricaturas ao vivo e colabora no Jornal Espírita desde 1980. Currículo vasto que, se depender do desenhista, vai continuar crescendo. “Adail tem um talento incrível para desenhar e o faz com qualidade e rapidez impressionantes. Ele deve ser o único cartunista conhecido que se aventurou a

colaborar com uma publicação espírita. Ele tem esse perfil de descobrir, estar sempre levantando coisas novas”, conta o pedagogo e cartunista André Brown. Não só a qualidade do trabalho, mas também o seu caráter afável, fazem com que Adail seja sempre lembrado. No fim de 2011, ele e o cartunista Guidacci foram homenageados num evento que tem a cara da cidade do Rio de Janeiro. Foi durante o 7° Encontro Anual dos Cartunistas Cariocas, organizado pelo cartunista Ferreth em uma parceria com os amigos do bloco carnavalesco da Confraria do Peru Sadio, criado no Leme. No encontro, realizado no dia 10 de dezembro no bar Sindicato do Chopp de Ipanema, cada um recebeu uma placa comemorativa das mãos do Presidente da Confraria. Responsável pela homenagem, o cartunista Ferreth lembra como conheceu, e nunca mais esqueceu Adail. “Eu já conhecia o trabalho dele bem antes de conhecêlo. Chegou a me mandar uns ótimos trabalhos, assinados por um tal de Pinduca. Só depois fui saber que os dois eram a mesma pessoa”, conta, rindo. O amigo Guidacci que também foi homenageado, disse que teve contato com Adail no Pasquim e na Última Hora. “É uma pessoa muito carismática, muito fácil de lidar. Todos gostavam dele. Sempre teve a tônica do humor leve, que é de sua própria personalidade. Nunca foi de fazer ataques frontais, sempre apresentou um humor engraçado e traços leves. Essa característica de desenhos inteligentes, mas lights, percorreu a imprensa toda e ele manteve isso em todas as publicações”. Adail também tem uma outra paixão que passou a dedicar parte de seu tempo há alguns anos: a música. Compositor letrista, descreve em suas letras a lembrança de jornalistas e dos tempos de nostalgia. Mas também compõe músicas infantis, educativas, sobre dengue ou contra a corrupção. Adail nem pensa em se aposentar. Com seu desenho e sua música, ele somou as artes e completou seu talento, muito bem descrito pelo grande Nássara em um de seus trabalhos: “Casamento perfeito letra e música Além da arte plástica emoldurando: é o Adail”

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FRANCISCO UCHA

INTERNET

Uma Sopa indigesta Protestos de amplitude universal conseguem frear tentativa de censura à rede mundial de computadores por parte do Congresso dos Estados Unidos. POR P AULO CHICO A tramitação de dois projetos de lei no Congresso norte-americano teve grande repercussão no universo online. Estimase que, em todo o mundo, cerca de 10 mil sites tenham aderido à onda de protestos contra o Sopa e o Pipa e, no dia marcado pela rede de computadores, 18 de janeiro, tenham tirado suas páginas do ar ou, em atos de repúdio menos radicais, apenas estampado mensagens de críticas a ambos os projetos. As manifestações, é claro, fizeram-se presentes também em importantes sites brasileiros. O da Turma da Mônica, que abriga todo o material digital dos personagens criados por Mauricio de Sousa, ficou fora do ar durante todo o dia 18, divulgando a seguinte mensagem: “O site ficará 24 horas fora do ar por não concordar com as limitações que os projetos de lei Sopa e Pipa, que serão votados em fevereiro no Congresso dos Estados Unidos, imporão à internet mundial”. A nota, assinada pelo próprio Mauricio, prosseguia: “Originalmente, os dois projetos têm por objetivo coibir a pirataria na grande rede, mas suas medidas afetarão sites que todos, no mundo inteiro, utilizam diariamente (como Google, Yahoo, Wikipedia, Twitter, Facebook, etc), podendo, inclusive, bloqueá-los sem qualquer aviso prévio. Há outras formas de coibir a pirataria sem que se crie um ambiente de censura na internet. Por aqui, a única ‘Sopa’ que apreciamos é a que a Magali

Mauricio de Sousa, intransigentemente contra: “Passaram acima da preocupação com a pirataria e projetaram ferramentas legais que permitirão a censura.”

toma. E ‘Pipa’, só a amiga da Tina ou aquela que voa livre pelos céus”, conclui a nota.

APÓS PROTESTOS, RECUO NA TRAMITAÇÃO

A pedido do Jornal da ABI, Mauricio de Sousa falou um pouco mais de sua percepção sobre os projetos. “Sopa de letrinhas misturadas no meio de uma Pipa esquisita. Foi o que (des)entendi dessa história toda. Mas pelo resultado já evidente em diversas partes do mundo, com sopa ou sem sopa as providências contra as repetidoras já estavam armadas ou em andamento. Muitas emudeceram. Outras estão se preparando para fechar. E voltaremos a pagar preços abusivos no acesso ou nas compras de cds, dvds ou por downloads, agora oficiais. Sou mais do que interessado na proteção dos direitos autorais. Nosso estúdio vive disso. Mas sinto que neste caso os relatores das futu-

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online e protegem a propriedade intelectual americana”, disse o Deputado à Reuters. No mesmo dia, o líder no Senado, Harry Reid, já havia adiado indefinidamente a votação do Pipa. Embora seja positivo, esse cenário de recuo das propostas de lei ainda exige atenção da sociedade e inspira preocupações. É o que pensa Mauricio de Sousa. “Pode ser que tenham colocado um bode na sala (a censura) para depois tirarem-no deixando somente o resto do projeto. Pode ser que a reação democrática contra o controle autoritário, ditatorial, não vingue. As forças envolvidas do outro lado são poderosas política e financeiramente. Mas já deu para as grandes gestoras sentirem que começa a se iluminar um caminho necessário de diálogo para com o consumidor. Ou outros organismos vão

A quem servem os projetos restritivos

O site da Turma da Mônica, a Wikipedia e o WordPress, além de milhares de blogs que se hospedam nele, foram alguns dos sites que se destacaram na luta contra a tentativa de censura na internet.

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ras leis de proteção foram longe demais. Passaram acima da preocupação com a pirataria e projetaram ferramentas legais que permitirão a censura. Aí, eu, como artista, sou contra. Intransigentemente”, afirmou. O resultado imediato da manifestação mundial foi que já no dia 20 de janeiro ambos os projetos foram “engavetados”, ao menos temporariamente. O autor do Sopa, o Deputado republicano Lamar Smith, comunicou a retirada da proposta da pauta de discussões. “Está claro que precisamos rever nossa abordagem para chegar à melhor maneira de lidar com o problema de ladrões estrangeiros roubando e vendendo produtos e invenções americanos. O comitê continuará a trabalhar com donos de direitos autorais, empresas de internet e instituições financeiras para desenvolver propostas que combatem a pirataria

O Sopa – na verdade, Stop Online Piracy Act, ou ‘pare com a pirataria online’, em tradução livre – previa até cinco anos de prisão para os condenados por compartilhar conteúdo pirata por dez ou mais vezes ao longo de seis meses. Sites poderiam ser punidos pela acusação de permitir ou facilitar a pirataria. A pena seria o encerramento dos serviços e banimento de provedores de internet, sistemas de pagamento e anunciantes em nível internacional. Ferramentas de busca como o Google, por exemplo, teriam que remover dos resultados das pesquisas endereços ou links que compartilhem conteúdo pirata, correndo o risco de punição. Já o Pipa (Protect IP – Act) pode ser interpretado como um ato de prevenção a ameaças online à criatividade econômica e ao roubo de propriedade intelectual. Ambos os projetos estabelecem que detentores de direitos autorais podem bloquear a transmissão pela internet não apenas do conteúdo que infrinja esses direitos, mas de todo o conteúdo do site

infrator. Também permitem ao advogadogeral dos Estados Unidos bloquear conteúdo ou sites que o Departamento de Justiça do país considere estar em conflito com a lei de direitos autorais. Isso já é permitido pela legislação americana, mas governos estrangeiros não reconhecem as leis dos Estados Unidos. A proposta embutida no Sopa é exatamente abranger os sites não-americanos. Obviamente, as propostas de lei por enquanto suspensas contam desde o início com o apoio maciço de emissoras de tv, gravadoras de músicas, estúdios de cinema e editoras de livros, que se sentem lesadas com a livre distribuição de filmes, artigos e músicas na web, principalmente em servidores internacionais. Diante da recepção negativa na sociedade em geral, os projetos seguem engavetados. Eles serviram, ao menos, para um fim positivo: abrir a discussão em torno de uma legislação que proteja a propriedade intelectual sem, contudo, ferir o direito de livre acesso à informação e ao conhecimento.


VIDAS surgir, utilizando novas brechas na tecnologia e na legislação, para chegar de forma menos agressiva aos amantes das artes. Pressinto que vai ser uma nova Guerra dos Cem Anos.”

PELO MUNDO AFORA, DEFESA DA INFORMAÇÃO

No Brasil, inúmeros blogs e sites importantes, como os do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) e do cantor, compositor e ex-Ministro da Cultura Gilberto Gil, engrossaram o coro de manifestações contrárias aos projetos de lei. No exterior, eles provocaram manifestações ou interrupções de serviços de sites. A onda de protestos começou quando a versão norte-americana da enciclopédia online Wikipedia publicou no lugar do seu conteúdo um comunicado em uma tela preta pedindo que os usuários ‘imaginassem um mundo sem conhecimento livre’. “Por mais de uma década, gastamos milhões de horas construindo a maior enciclopédia da História humana. Neste momento, o Congresso dos Estados Unidos está considerando uma lei que pode causar danos fatais à internet livre e aberta”, dizia o texto de protesto. Nos Estados Unidos, outros sites, como o Google, também publicaram mensagens de ataque às propostas ou simplesmente ficaram fora do ar durante todo o dia 18. Uma das mais severas críticas ao Sopa e ao Pipa partiu do criador da World Wide Web (www), Tim Berners-Lee. “Se você está nos Estados Unidos, deveria se mover, ligar para alguém ou mandar um e-mail para protestar contra esses projetos, porque eles não foram elaborados para respeitar os direitos humanos, como seria apropriado em um país democrático”, afirmou, destacando o perigo de se permitir a governos a prática da censura na web. A própria Casa Branca seguiu linha de argumentação semelhante ao se manifestar contrariamente aos projetos, por meio de seu blog, afirmando que eles podem atentar contra a liberdade de expressão. “Projetos de lei como esses reduzem a liberdade de expressão, ampliam os riscos de segurança na computação e solapam o dinamismo e a inovação da internet global”, apontou a nota oficial. Sites como o Google e a revista Wired usaram tarjas pretas para protestar contra as propostas antipirataria online que tramitavam em Washington, acusandoas de censura uma vez que prevêem medidas como o bloqueio de sites estrangeiros supostamente ‘dedicados a roubar patrimônio americano’. Conselheiro do Comitê Gestor da Internet no Brasil, o sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira chegou a divulgar texto com críticas aos projetos. “Querem transformar a internet em uma grande rede de tv a cabo. Quem está feliz com o projeto Sopa? Todos os que querem controlar a inovação e a criatividade para manter os fluxos de lucratividade, principalmente, erguidos no mundo industrial, no cenário de broadcasting e de monopólios culturais. Outro perigo é o desequilíbrio que o projeto gera na rede. Os Estados Unidos se colocam na posição de justiceiros do copyright do planeta, Rambo das patentes, e passam a atuar desrespeitando as legislações nacionais, uma vez que o procurador estadunidense poderá decidir o que deve e o que não deve ter o acesso bloqueado.”

Zé Grande, no nome e no trabalho – O senhor é que é do jornal do Zé Grande? Em suas andanças em campanha eleitoral pelas comunidades populares do Rio, o Deputado Chagas Freitas não se surpreendia nem ficava zangado com a freqüência com que lhe faziam esta pergunta. Afinal, fora ele que dera o apelido ao repórter de O Dia de cerca de dois metros de altura cujo nome, José Cortes dos Santos, nem ele nem a maioria dos colegas de profissão sabiam. Lembrado pelo jornal O Dia – onde trabalhou por mais de 50 anos – como uma lenda da reportagem de polícia, Zé Grande se destacava pela quantidade de fontes de qualidade que tinha, em uma época em que não existiam computado-

Ronald Searle, o do traço livre

res, celulares, tablets e iPhones. A tecnologia era precária e o repórter muitas vezes era obrigado a improvisar para não perder uma boa reportagem. Como era muito conhecido, tanto no meio de policiais quanto no de bandidos, Zé Grande tinha sempre um bom assunto para contar, após as suas rondas nas ruas do Rio. Com Zé Grande, a notícia muitas vezes era passada para a Redação em ligações a cobrar de um orelhão na Avenida Gomes Freire (Centro), perto da Secretaria de Segurança, com informações que geralmente eram destacadas na primeira página do jornal. “Nos 30 anos em que trabalhei com o Zé na madrugada, sempre tinha dele uma palavra amiga, um grande incentivador.

Ele deixa grandes lições e muitas saudades”, disse a O Dia Online o repórter-fotográfico Osvaldo Prado. Zé Grande ganhou vários prêmios pelas matérias que publicou com exclusividade, entre os quais o Prêmio Esso de Reportagem pela cobertura das violências contra os participantes da greve na Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, em 1987. Suas melhores reportagens policiais também lhe renderam prêmios da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros. Zé Grande faleceu no dia 23 de janeiro e foi sepultado no dia seguinte no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, Sócio da ABI desde 29 de julho de 1975, estava com 80 anos.

Ilustração publicada na década de 1960 em Paris e duas capas de revistas. A sua paixão pelos gatos é tema de uma delas.

Versátil, ele ilustrou jornais, revistas e livros, produziu desenhos animados e mostrou seu fascínio pelos gatos. Ronald William Fordham Searle nasceu em Cambridge em 3 de março de 1920. Começou a desenhar com apenas cinco anos e, mais tarde, cursou a famosa Escola de Arte de sua cidade. Foi um período intenso de desenvolvimento de sua arte. Certa vez declarou: “Estava profundamente tão influenciado na Escola de Arte de Cambridge que eu não andava, comia, bebia ou dormia sem um caderno de desenho na mão. Conseqüentemente, o hábito de observar e de desenhar tornou-se tão natural para mim quanto respirar”. Após receber o diploma, com apenas 19 anos ele se alista para servir nas Forças Armadas durante a Segunda Guerra Mundial. Mas ele não pára de desenhar e em 1941 começa a publicar na revista Lilliput a série St Trinian’s School, uma de suas criações mais conhecidas na Inglaterra e que chegou a ser adaptada para o cinema anos mais tarde. Ainda durante a guerra, Searle foi enviado para Singapura, onde foi capturado pelos japoneses. Ali, passa a registrar os horrores da prisão durante três anos e meio, até o final da guerra. De volta à Inglaterra, destaca-se também pelos desenhos que fez na década de 1950 em parceria com Geoffrey Williams na série Molesworth, que satirizava o ensino privado britânico. Searle ilustrou para algumas das mais importantes publicações da Europa e Estados Unidos, como a satírica Punch, os jornais Tribune, Sunday Express e News Chronicle, além da The New Yorker e Life. Após decidir fixar residência na França em 1961, produziu também para o jornal Le Monde. Seu trabalho também ganhou destaque em diversas edições da conceituada revista Graphis, sobre artes gráficas.

Ao longo de sua versátil carreira, Searle também ilustrou livros e criou desenhos animados para algumas produções cinematográficas. Alguns de seus trabalhos mais conhecidos em todo o mundo são seus desenhos sobre gatos, um de seus temas favoritos. “Ronald é genial, um dos mestres dos meus mestres Jaguar, Ziraldo e Claudius. Começamos imitando e depois se apropriando desses trabalhos como se nos pertencessem e, de fato, pertencem”, comentou o chargista brasileiro Paulo Caruso sobre o trabalho de Searle. O cartunista inglês faz parte da geração de artistas que tem como característica pensar por meio do traço para realizar as ilustrações. “As composições são absolutamente cuidadas e dirigidas para a melhor leitura de primeiro, segundo ou demais planos”, completou Caruso.

“Adoro o traço dele. Ele e Ralph Steadman são os dois britânicos dementes que me mostraram as possibilidades incríveis do traço, em seu modo experimentador e livre”, afirma o cartunista brasileiro Laerte. Searle faleceu aos 91 anos, no Sul da França, em 30 de dezembro, num hospital de Draguignan, cidade onde vivia. “Morreu tranquilamente, dormindo, com seus filhos e netos ao lado”, disse sua filha Kate Searle à agência de notícias Reuters. Desde o último verão, com a morte de sua esposa Mônica, o estado de saúde de Searle vinha se deteriorando. O ilustrador foi casado em duas ocasiões e era pai de gêmeos. Durante sua vida, recebeu diversos prêmios e condecorações internacionais, incluída a prestigiada Legião de Honra da França. (Desirèe Luíse)

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ACERVO MARISA FURTADO DE OLIVEIRA

VIDAS

Robinson era um ativista incansável: Ele desenhou o logotipo Human Rights (acima) para a capa de um livro sobre o seu trabalho pelos direitos dos cartunistas perseguidos ao redor do mundo. À direita, durante visita à Rocinha, quando participou da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco 92, no Rio de Janeiro. Abaixo, o primeiro esboço do Coringa que ele fez e, acima, o desenho do personagem numa das primeiras histórias.

Robinson, o quadrinista que lutou pelos direitos de todos Além de mestre do desenho, ele foi um militante da causa dos direitos humanos e da defesa dos direitos dos profissionais do desenho nos Estados Unidos e no mundo POR M ARISA FURTADO DE OLIVEIRA Antes de se tornar o “Menino Prodígio” da Era de Ouro dos quadrinhos norte-americanos, Jerry Robinson já demonstrava várias habilidades e um engajamento político que iria nortear toda sua vida. Nascido em 1° de janeiro de 1922, Sherrill David Robinson foi o filho temporão de uma família de cinco irmãos. Bastante inteligente e muito versátil, ele podia ser encontrado na escola tanto nos times de tênis e de atletismo, quanto no clube de ciências, na sociedade filatélica ou atuando como editor do Spectator, o jornal do colégio. Sua história como desenhista profissional começa quando Jerry era estudante de Jornalismo na Universidade de Columbia. Aos 17 anos ele trabalhava vendendo sorvetes e freqüentemente usava uma jaqueta que era decorada com seus desenhos. Certo dia foi surpreendido por Bob Kane, que queria saber quem tinha feito aqueles desenhos. Kane tinha acabado de criar o Batman e de lançar a primeira história com o personagem. Foi dessa forma totalmente casual que Jerry entra para o mundo dos quadrinhos. O roteirista de Batman, Bill Finger, bem mais velho e culto, se torna mentor do garoto e o leva a museus e apresenta filmes e escritores a Jerry. Logo Batman faz tanto sucesso que ganha sua própria revista e a produção no estúdio de Bob Kane aumenta e nesse mesmo ano Jerry participa da criação de dois personagens que marcariam a mitologia dos quadrinhos para sempre: Robin e Coringa. Bill Finger acreditava que seria uma boa idéia incluir nas histórias do homemmorcego, um personagem que tivesse uma identificação maior com os garotos, leitores das histórias, e ainda criasse um contraponto com o Batman. Jerry sugeriu, então, o nome de Robin, porque era fã do mitológico Robin Hood. Com a semelhança de seu nome com o do personagem e o fato de ser tão jovem e talentoso, Jerry ganha imediatamente um apelido que detestava na época: “Boy

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Wonder ” (no Brasil, “Menino Prodígio”). Sua participação no desenvolvimento do Coringa foi ainda mais importante, pois ele fora autorizado por Bob Kane a escrever a primeira história do vilão. Passou a noite em claro imaginando um que tivesse senso de humor e, como o jogo de cartas era corriqueiro em sua casa, Jerry encontra numa carta de baralho a inspiração final. Fez o esboço do desenho e o apresentou no dia seguinte para Bob Kane e Bill Finger. Encantados com a idéia, a dupla convence o rapaz, a duras penas e com lágrimas nos olhos, a deixar Bill escrever a primeira história do Coringa. Com a ascensão do nazismo e o início da Segunda Guerra Mundial, a população dos Estados Unidos ansiava por heróis e os quadrinhos tornam-se um fenômeno editorial tão grande que as revistas eram enviadas junto com os pacotes de ajuda aos soldados do front. Nessa época, além de trabalhar em Batman, Jerry cria seus próprios personagens. Seu trabalho mais contundente é London, um herói que lutava para que a cidade de Londres pudesse sobreviver à invasão alemã. Dois anos depois do final da guerra, Jerry deixa a DC e, mesmo sem nunca ter estudado desenho em uma escola formal, é convidado a dar aulas na Escola de Artes Visuais de Nova York. Lá ele conhece Stan Lee, que o chama para trabalhar na Atlas, editora que posteriormente se tornaria a Marvel Comics, e onde passa dez anos desenhando histórias em quadrinhos de todos os gêneros. A guinada para o cartum político Com a política sempre em mente, sua vida profissional daria uma guinada nos anos 1960. Os movimentos pelos direitos civis e estudantis fervilham. A Guerra do Vietnam e Martin Luther King faziam Jerry

ansiar em se tornar um cartunista político. Mas os grandes jornais só contratavam desenhistas conhecidos na área. A oportunidade surge em 1961 durante uma grande greve, quando todos os jornais sumiram de circulação. Para manter os leitores informados os editores distribuíam pequenos tablóides clandestinos. Num desses, Jerry se apresenta como cartunista e começa, então, uma carreira que duraria 30 anos e daria aos leitores mais de 13 mil cartuns publicados diariamente. Nesse filão profissional, o artista conquista prêmios e capas de jornais, suplementos dominicais em páginas coloridas e tudo o que um cartunista de muito sucesso pudesse almejar. Em 1967, torna-se Presidente da National Cartoonist Society. À frente da entidade, Jerry cria um prêmio especial que será dado ao melhor cartunista estrangeiro, com o objetivo de chamar a atenção para a prisão do cartunista uruguaio Lorenzo Pons durante a ditadura em seu país. Para dar visibilidade à sua campanha, Jerry vai à Casa Branca e faz uma mobilização tão grande que consegue o apoio da mídia, com a publicação de diversos artigos em jornais e revistas. Sua campanha dá resultado e Lorenzon Pons é libertado seis meses depois de criado o prêmio. Mais tarde ajuda a fundar o Sindicato de Cartunistas e Escritores dos Estados Unidos e acaba ganhando prêmios pela atuação em defesa de sua categoria e também na luta que sempre travou pelos direitos humanos. Jerry também esteve presente na luta para resgatar os direitos de seus colegas Jerry Siegel e Joe Shuster, criadores do Super-Homem. O personagem, que chegou a vender um milhão de exemplares e encheu os bolsos de seus editores, deveria ter tornado seus autores milionários, porém eles foram obrigados a vender sua criação em um contrato escrito atrás de

um cheque de 120 dólares. “Se quisessem assinar o cheque tinham que assinar o contrato”, contava Jerry. Em uma batalha judicial de grandes proporções, Jerry consegue que os nomes de Jerry Siegel e Joe Shuster fossem novamente reconhecidos como os verdadeiros criadores do personagem – até este reconhecimento eles tinham perdido – e que os autores, a esta altura muito pobres, recebessem uma pensão pelo resto de suas vidas. Na época Joe Shuster estava quase cego. Em sua luta pelo reconhecimento dos quadrinhos como uma forma de arte, Jerry trabalha como curador da primeira exposição feita nos Estados Unidos sobre o gênero. Homem do mundo A esta altura Jerry Robinson já era um homem viajado; como conhece grandes artistas pelo mundo, cria a página Views of the World, onde passa a reunir cartunistas estrangeiros. Com essa visibilidade, vários conseguem penetrar no restrito mercado editorial dos jornais dos Estados Unidos. A partir daí cria a Cartoonist & Writers Syndicate-CWS, que hoje é a maior distribuidora de conteúdo internacional nessa área. Seu diferencial não é apenas o fato de distribuir charges políticas pelo mundo todo, mas o de ter um conteúdo desenvolvido internacionalmente. A CWS foi pioneira na distribuição internacional de artistas russos e Jerry o primeiro cartunista americano a publicar nos jornais russos. Autor de diversos livros sobre a história dos quadrinhos, Jerry faria 90 anos no primeiro dia de 2012. Faleceu 25 dias antes. Um amigo querido, um espírito incansável que deixou para sempre impresso seu humor inteligente e seu grande sorriso maroto, como o do personagem que criou, o Coringa. Marisa Furtado de Oliveira é graduada em Comunicação Visual e co-diretora do documentário Jerry Robinson - A Vida Após Batman da série Profissão Cartunista, da qual fazem parte os documentários sobre Will Eisner, Henfil e Ziraldo. Em 2011, fez a curadoria, produção e design da primeira exposição de originais de Will Eisner na América Latina. (www.professioncartoonist.com)


PAULO GIANDALIA/AE

Polêmica, a vocação de Piza A marcante trajetória de um profissional que aliava reportagem e análise e que desapareceu precocemente. POR MARCOS STEFANO Quando chegou no Caderno 2 do Estadão, ainda no começo dos anos 1990, o jovem Daniel Luiz de Toledo Piza veio referendado por dois pesos-pesados do jornalismo brasileiro: Paulo Francis e Ruy Castro. “Um rapaz de 20 anos que lê Mencken é algo muito raro hoje em dia”, admirou-se Castro. Mas a avidez pela leitura era apenas uma das qualidades de Piza, falecido aos 41 anos, no dia 30 de dezembro. A outra era a vocação que tinha para a polêmica. A ponto de conseguir de Harold Bloom, em uma entrevista, pedido de desculpas pela ausência de Machado de Assis no seu cânone literário. Na verdade, Piza tinha muita coisa em comum com Bloom. Escritor prolífico e controverso, ele representava um momento de transição no jornalismo cultural do País, sucedendo a uma geração de intelectuais e precedendo a dos ensaístas e críticos formados nas escolas de Comunicação. Com o talento de fazer dramaturgia com as idéias, tal qual Nelson Rodrigues, e a sensibilidade de atrair o mais improvável leitor, talvez a luta mais contemporânea de jornais, revistas e sites. Pouca gente tem a coragem de comparar o toque de calcanhar do jogador Sócrates à pincelada do pintor Volpi. Mas Piza fazia isso com a mesma naturalidade com que escrevia sua coluna cultural, repleta de opiniões sobre esporte, referências eruditas, alfinetadas políticas e críticas à cidade em que morava, São Paulo. “Os Sertões é antes de mais nada uma obra de um jornalista, o maior feito jornalístico das letras brasileiras ou, o que dá na mesma, o maior feito literário do jornalismo brasileiro. Como tal, deveria ser estudado nas escolas de jornalismo, se os jovens não fugissem de suas dificuldades retóricas como quem foge de um tiroteio”, escreveu certa vez. Em outra oportunidade, disparou: “Uma coisa cada vez mais comum em São Paulo é esse tal insulfilm, uma película que escurece os vidros do carro. Não vou entrar na questão da necessidade. Mas que é uma boa metáfora do ponto que a situação chegou, é. O brasileiro não consegue enxergar seu País a não ser por meio de um filtro protetor, através do qual só se vê o necessário”. Daniel Piza nasceu em São Paulo no ano de 1970. Formou-se em Direito na Faculdade do Largo de São Francisco-Usp e ingressou em O Estado de S. Paulo como repórter do Caderno 2 e depois editor-assistente do Cultura. Logo de cara, começou a escrever aquilo que era reservado para os mais experientes. “Lembro que um dos seus primeiros textos foi uma resenha da

coletânea Onze Ensaios, de Edmund Wilson, tarefa complicada, mas na qual se saiu muito bem. Embora concentrado em literatura e artes plásticas, já exercia o ecletismo que deu o tom de toda a sua carreira”, recorda o editor do Estadão Luiz Zanin. Após dois anos, Piza se transferiu para a Folha de S. Paulo, onde daria continuidade à carreira como repórter e editor-assistente da Ilustrada. Foi, porém, na Gazeta Mercantil, jornal em que trabalhou de 1995 a 2000, que experimentou um de seus melhores momentos. Como editor, transformou o caderno Fim de Semana numa referência no jornalismo cultural brasileiro. “Cheguei angustiado e temendo o cerceamento da opinião e a pressão comercial em cima do jornalismo cultural. Fazer o Fim de Semana foi um remédio para esses males. De seis, o caderno passou a 24 páginas, com uma equipe qualificada e que chegou a contar com mais de 20 pessoas. Quebramos aquela idéia de que executivo não se interessa por cultura. Pesquisas mostraram que muita gente comprava o jornal por causa da primeira página e do caderno. Tudo isso mais a combinação de gêneros, temas e a ‘carta branca’ que recebemos, fizeram que o Fim de Semana formasse uma nova geração de apreciadores e profissionais do jornalismo cultural”, contou Piza em seu livro Jornalismo Cultural (Editora Contexto). Em Sinopse cabia tudo A crise que atingiu a imprensa e particularmente a Gazeta também vitimou o Fim de Semana. Mas Piza voltou ao Estado e levou junto a coluna Sinopse, em que falava de assuntos diversos e refletia sobre tudo o que lia, ouvia e via. “Ali cabia de tudo, pois havia uma convicção de que tudo se comunicava e que uma disciplina ilumina a outra, como não percebem os que têm apego à especialização”, diz Zanin. Essa combinação entre crítica e reflexão, junto com alguns de seus 17 livros, talvez seja a sua melhor contribuição ao jornalismo. Sobretudo obras sobre personalidades como Euclides da Cunha – Um Paraíso Perdido: Amazônia de Euclides (Leya); Machado de Assis – Um Gênio Brasileiro (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo) –, e Bernard Shaw – Teatro de Idéias (Companhia das Letras). Avesso a superlativos, Piza era fã das listas de melhores do ano, ainda que procurasse remar contra os cânones, tantas vezes acrescentados por críticos apenas para exibir a musculatura de seus compêndios. Nem sempre escapava do deslumbramento, mas também não considerava o estrangeiro acima do nacional. “Os ensaístas e críticos formados em cursos de Co-

Daniel Piza com os filhos Bernardo e Maria Clara na noite de autógrafos do lançamento de seu livro 10 Anos Que Encolheram o Mundo, na Fnac da Avenida Paulista, em São Paulo.

municação são herdeiros de Daniel Piza e da ciência do papel da imprensa numa sociedade democrática e de seu custo para a empresa. Com ele, aprenderam a usar um linguajar menos especializado e menos pomposo, mas também a expressarem sua opinião com contundência. Piza é de uma geração polêmica por natureza e não por estratégia. No melhor exemplo de Nelson Rodrigues e Paulo Francis”, escreveu em artigo no Estadão o crítico literário Silviano Santiago. Não dá para elogiar muito, como nem Piza faria. Mas é necessário refletir sobre o papel do moderno profissional da imprensa. Aí, o refinado crítico, biógrafo e ficcionista dava exemplo. Tanto que subiu o Rio Purus, onde Euclides ajudou a demarcar os limites entre Brasil e Peru, em 1905, produzindo uma série de reportagens em 2009, depois um documentário e por fim colaborando no roteiro de uma minissérie. “Essa é a cara da nova geração do jornalismo cultural brasileiro, que conjuga reportagem com análise. Daniel era assim: um intelectual com alma de repórter”, explica o amigo Roberto Gazzi, Diretor de Desenvolvimento Editorial do Estadão. Segundo Gazzi, Daniel, sua mulher, a também jornalista Renata Piza, e seus três filhos, Letícia, de 14 anos, Maria Clara, de 10, e Bernardo, de 6, estavam se preparando para uma nova etapa em 2012. A família ia se mudar para Nova York, de onde Daniel passaria a realizar seu trabalho para o jornal. Para garantir, ele passou por um check up completo recentemente e com-

provou que estava com a saúde ótima. Todo esse cuidado foi insuficiente para evitar o acidente vascular cerebral sofrido na noite de 30 de dezembro. Piza passava as festas de fim de ano com a família, em Gonçalves, Minas Gerais. Sentiu-se mal e foi socorrido pelo pai, que é médico, mas não resistiu. “Conhecedor, competente, visionário, profissional até a alma”, disse o jornalista e colega dos tempos da Gazeta Sérgio Vilas-Boas em mensagem divulgada nas redes sociais. “O que mais me choca, no entanto, é o fato de sua partida ter sido tão precoce quanto ele próprio”, completou, referindo-se à idade de Piza: 41 anos. No árido panorama cultural do jornalismo nacional, ele fará falta. Ainda que garantisse que o auge do jornalismo cultural por aqui tenha sido a década de 1960, com vários e inovadores suplementos literários e artísticos que tomaram conta dos jornais, profissionais que combatam a preguiça mental e a ditadura do release continuam essenciais para trazer chuva à terra seca. Da mesma maneira que as palavras de Daniel Piza: “O que esses chatos que vivem dizendo que os livros e os jornais vão desaparecer não conseguem abolir é o poder transformador da leitura. Meu primeiro texto em jornal foi uma resenha de livro e espero que meu último venha a ser também. Não que os livros sejam mais importantes que a música, as exposições e os filmes, mas o fato é que toda semana há um livro para ler e, acima disso, a leitura perpassa tudo, a começar pela absorção das outras artes”.

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VIDAS

Adeus a um bamba da fotografia Um infarto fulminante privou o Brasil de uma de suas referências na fotografia: Mestre Bittar nos deixou aos 51 anos. POR MARCOS STEFANO Quando se diz que João Bittar Neto ajudou a formar gerações de fotógrafos, emprega-se muito bem um verbo que tantas vezes é mal utilizado na imprensa brasileira. Além de profissional tarimbado, com passagens destacadas por alguns dos principais jornais e revistas nacionais, ele também foi um professor por excelência, capaz de moldar a visão de seus alunos. Tanto que até os mais destacados costumam dizer que, quando clicam, sempre pensam: “O que João teria feito nessa situação?”. Assim, a morte de “Mestre Bittar”, como era chamado, na madrugada do dia 18 de dezembro de 2011, deixou o fotojornalismo brasileiro sem uma de suas referências nestas últimas décadas. Apesar de ter se tornado referência por causa da liderança, do senso de moral e da sensibilidade apurada, Bittar dizia que se deu bem porque era um homem de sorte. Paulistano da Mooca, nasceu em 14 de março de 1951, mesmo dia, segundo ele mesmo contava, em que foi feita a famosa foto de Einstein com a língua de fora. Com apenas dez anos, começou a se interessar pelo jornalismo e passou a ler jornais. Tanto que, aos 15, foi à Editora Abril para pedir emprego. Conseguiu apenas o de office boy, mas o trabalho o levou ao laboratório de fotografia da empresa. “Faço parte de uma das últimas gerações de profissionais que começou no laboratório. O mercado carecia de gente e pude começar a produzir numa editora estruturada. Hoje, alguém com o mesmo preparo terá sérias dificuldades”, lembrou ele em uma de suas últimas entrevistas, para o site da Imã Foto Galeria, de São Paulo, que realiza exposição das fotos de Bittar sobre o compositor Cartola, algumas inéditas. Na fotografia da Editora Abril, Bittar passou por diversas funções. Foi assistente, contateiro, fez acabamento, carimbava e identificava as fotos que passavam por ali. Com isso, teve contato com fotografias do mundo todo, principalmente de renomados profissionais norte-americanos e europeus. Em menos de dois anos, o rapaz já tinha sua própria câmera. E começou a clicar para valer graças a um amigo, fotógra46

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fo de Veja, que lhe abriu as portas do mercado. “Quando ele estava de saco cheio de fotografar, acabava me mandando em seu lugar. Naquela época, havia uma grande carência de profissionais e, em 1969, com o trabalho reconhecido, fui chamado para fotografar regularmente. Não era genial, mas essa experiência no laboratório me ajudou a assimilar o que havia de mais moderno no estilo dos profissionais estrangeiros que trabalhavam para publicações como Newsweek e Time. Apesar de ser novo, sabia que tinha que mostrar o homem e seu trabalho em pouco espaço, colocar todas as informações no contexto da pauta. Fui um dos primeiros a executar bem isso.” Romântico, mas digital

A partir daí, João Bittar passaria a emprestar seu olhar aguçado para uma série de revistas, como Exame, Placar, Quatro Rodas e Veja. Nos anos 1970, rodou boa parte do mundo para estudar e chegou a viver um período em Olinda, Pernambuco. Também fez algumas de suas fotos mais memoráveis. Em 1979, por exemplo, convenceu o então metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva a tirar um retrato, de camisa levantada e apontando para o próprio umbigo. Querido por todos, consagrou em seu trabalho a máxima de que “é impossível fazer bom fotojornalismo sem caráter”. Para ele, o exemplo do profissional era capaz de falar ainda mais do que uma imagem. Bittar ainda passou pela imprensa alternativa e fotografou ao longo da carreira para vários outros veículos, como Isto É, Jornal da República, Diário de S. Paulo, Quem, Época, Contigo e Gazeta Mercantil. Mas o maior destaque veio na Folha de S. Paulo, em que mostrou ser um entusiasta da tecnologia e ao mesmo tempo um velho romântico. A história começou em 1984, quando entrou no jornal como fotógrafo. Dez anos depois, em 1994, tornou-se editor. Era o começo do processo de digitalização do jornal, pelo qual ele seria um dos principais responsáveis. “A Folha se tornou o primeiro jornal digital do País. Comprou equipamento muito antes que os concorrentes. Nossa equipe tomou a frente nesse processo. Trouxemos profissionais dos Estados Unidos para dar cursos e palestras e, durante

cinco anos viajávamos todo ano para lá, para participar das reuniões e eventos da National Press Photographers Association, em que debatíamos a questão digital, arquivamento, transmissão e tudo o que envolvesse novas tecnologias e fotografia”, recordou Bittar na entrevista à Imã Foto Galeria. O processo valorizou toda a equipe. Em 1998, no auge das novas mídias, os fotógrafos da Folha foram desafiados a fazer experiências, com bons aumentos de salário. A preocupação foi tanta que Bittar convenceu a direção do jornal a ter um editor de fotografia só para tecnologia. Desde o começo desse processo, suas obras soavam quase proféticas: “O digital vai dominar completamente o mundo da fotografia, não adianta. O filme colorido e os cromos não vão acabar, mas serão relegados a uma sofisticação estética, quase obras de arte, como já acontece com o preto e branco”. Apesar disso, não era saudosista e via a tecnologia como aliada do velho romantismo. “O romantismo não vai acabar. Quando a câmera de 35 milímetros, com filme de rolo de 36 poses, foi criada, as pessoas disseram o mesmo. Desde que comecei, há 40 anos, a tecnologia tem evoluído. Sempre me preocupei mais com o conteúdo do que com o contexto. E isto permite ao profissional se preocupar mais

“É impossível fazer bom fotojornalismo sem caráter.” com a qualidade do seu trabalho. Não há uma desvalorização da estética. Pelo contrário, as digitais permitem que os fotógrafos produzam muito mais e ajudam a apurar e melhorar esteticamente a imagem. Basta aplicar o conhecimento do analógico ao formato digital, produzindo melhor jornalisticamente”. Ainda em 1985, Bittar se tornou pioneiro com a criação da agência Angular Fotojornalismo, à qual dedicou seus últimos anos, inclusive promovendo cursos de fotografia. Dominava muito bem todas as etapas do processo: clicava, editava, tratava, arquivava e transmitia esse conhecimento com propriedade. Vítima de um infarto fulminante e conseqüente parada cardio-respiratória, ele deixa a esposa Heloísa Ballarini, 42, também fotógrafa, e três filhos, Thays, 21, André, 23, e Marina, 30. Mas sua obra permanecerá. Como ele mesmo gostava de dizer, o bom fotojornalista não sucumbirá à popularização das máquinas digitais. Afinal, tecnologia se vende. Conhecimento, visão e sabedoria, não.


Beatriz Bandeira, poeta e militante POR CLÁUDIA SOUZA Um dos símbolos da luta pelo progresso social desde os anos 1930, quando foi presa e recolhida à Casa de Detenção pela ditadura do Estado Novo, a poeta e militante social Beatriz Bandeira Ryff, de 102 anos, morreu no dia 2 de janeiro na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul do Rio, onde estava internada. Viúva do jornalista Raul Ryff, Secretário de Imprensa do Presidente João Goulart, Beatriz Bandeira era mãe do jornalista Vítor Sérgio Ryff, que morreu na década de 1990, do economista Tito Ryff e do físico Luiz Carlos Ryff. “Com pesar comunicamos o falecimento da querida brasileira, amiga e incansável lutadora pelas causas dos direitos humanos, do pleno exercício da democracia, em nosso País, e em qualquer lugar onde houvesse a opressão política , econômica e social”, disse a nora da poetisa, Maysa Machado, que organizou em 8 de dezembro de 2009 na ABI uma homenagem ao centenário de Beatriz Bandeira. Beatriz Vicência Bandeira Ryff nasceu no bairro carioca do Méier, em 8 de novembro de 1909, filha dos abolicionistas Alípio Abdulino Pinto Bandeira e Rosalia Nansi Bagueira Bandeira. Alfabetizada pelo avô materno, herdou dele a paixão pelas letras, e da mãe, o gosto pela música. Escreveu os primeiros versos aos nove anos e se formou em piano pela Escola Nacional de Música. Nas fileiras do Partido Comunista, na década de 1930, Beatriz conheceu o futuro marido, o jornalista Raul Ryff, com quem foi casada por mais de cinco décadas. O casal exerceu a militância política ao lado de líderes como o revolucionário Carlos Marighela, os jornalistas e escritores Eneida de Moraes e Álvaro Moreyra, sua mulher Eugênia, e Graciliano Ramos, que retratou a amizade com Beatriz e Raul Ryff no livro Memórias do Cárcere

A última exposição Na noite de 14 de dezembro de 1978, o fotógrafo João Bittar foi a uma casa de espetáculos na região central de São Paulo para cobrir a apresentação de Angenor de Oliveira, o Cartola, um dos mais geniais compositores que o samba brasileiro já teve. Não contente com as já comuns fotos no palco, ele arriscou ir aos camarins. Ali, numa pequena e mal iluminada sala, conseguiu fotografar com exclusividade o artista, mostrando sua face

pouco conhecida. Há pouco tempo, quando vasculhava suas gavetas, Bittar encontrou os negativos que registram o encontro. Essas fotos inéditas e outras mais de Cartola dentro e fora de cena estão em exposição na Imã Foto Galeria, na capital paulista. Servem como tributo ao grande sambista da Mangueira, mas também ao incansável fotojornalista, morto no último mês de dezembro. Aliás, sobre essas imagens,

contou Bittar: “Não pedi permissão para estar ali. Certamente, ele deve ter notado meu indisfarçável e reverencial respeito por sua figura e, educado, deixou-me à vontade. Naqueles instantes, estabeleceu-se uma cumplicidade incondicional entre o personagem e o fotógrafo. Foi um momento grandioso, em desses momentos grandiosos que o destino pode oferecer a um fotojornalista.” (MS)

Exílios Em 1936, Beatriz foi presa, depois de libertada, exilou-se no Uruguai. “Sobrevivente do cárcere da ditadura Vargas, Beatriz compartilhou a “Sala 4”, na Casa de Detenção, no Rio de Janeiro, com Nise da Silveira, Maria Werneck e outras corajosas companheiras”, relata Maysa Machado. Ao retornar ao Brasil, ingressou na Federação de Mulheres do Brasil e colaborou com diversos jornais e com a revista Momento Feminino, editada pelo PCB. Em 1964, foi demitida do cargo de professora de Técnica Vocal do Conservatório Nacional de Teatro, por ordens do regime militar. Asilada com o marido na Embaixada da Iugoslávia, três meses depois seguiu para o exílio na Iugoslávia e, posteriormente, para a França. Beatriz detalhou esta experiência no livro A Resistência – Anotações do Exílio em Belgrado. Em 1967, de volta ao Brasil, participou ativamente do processo de organização da luta pela Anistia, tendo sido uma das fundadoras do Movimento Feminino pela Anistia e Liberdades Democráticas. Obras

Ao longo da carreira, Beatriz Bandeira publicou as obras poéticas Roteiro e Profissão de Fé; Antes Que SejaTarde – que reúne as memórias do pai, escrita em parceria com sua irmã, Dulcina –, e o citado A Resistência – Anotações do Exílio em Belgrado.

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