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SEGURANÇA PÚBLICA, O MAIOR NÓ A DESATAR SECRETÁRIO DE DIREITOS HUMANOS PAULO VANUCCHI DIZ NA ABI QUE ESSE É O GRANDE DESAFIO NO CAMPO DO RESPEITO ÀS PESSOAS. Páginas 34 e 35

Órgão oficial da Associação Brasileira de Imprensa

Jornal da ABI

329 MAIO 2008

UMA FESTA DA DEMOCRACIA Centenário da ABI é comemorado em grande estilo com recital da Orquestra Petrobras Sinfônica, sob a regência do Maestro Isaac Karabtchevsky, e show de Paulinho da Viola. Comissão de Honra do Centenário posou para foto histórica no palco do Teatro Municipal do Rio. Páginas 3, 4, 5 e 6

ADEUS A CANTALICE, ARTUR DA TÁVOLA, SÉRGIO DE SOUZA, HAROLDO DE ANDRADE

COMISSÃO DE ANISTIA FAZ SESSÃO HISTÓRICA NA ABI E DECIDE 20 PROCESSOS

REVELAÇÃO DE SANDRONI:

QUE ROLAVAM HÁ ANOS

EU SÓ ME METI EM JORNAL PORQUE PRECISAVA DEMAIS DO SALÁRIO

A INDESEJADA DAS GENTES DE QUE FALAVA MANUEL BANDEIRA PRIVOU-NOS DESSES COMPANHEIROS. PÁGINAS 39, 40, 41, 42 E 43

ENTRE ESSES, OS DAS VIÚVAS DE OCTÁVIO MALTA, GEORGE DE BARROS CABRAL E FÉLIX DE A THAYDE. P ÁGINAS 29, 30, 31 E 32

TAMBÉM ESCRITOR, ELE PRETENDE VOLTAR ÀS REDAÇÕES ASSIM QUE DEIXAR A PRESIDÊNCIA DA ACADEMIA DE LETRAS. PÁGINAS 24, 25 E 26


Editorial

100 ANOS, E JOVEM NESTE ABRIL DE 2008 a Associação Brasileira de Imprensa está completando 100 anos de existência, e exibe o justificado orgulho de ser não apenas a mais antiga instituição de imprensa do País, mas também o de se ter transformado, ao lado de outras instituições da sociedade, como a Ordem dos Advogados do Brasil, numa das cidadelas, num dos bastiões de defesa dos direitos civis e das liberdades públicas. Entre estas, especialmente a liberdade de imprensa, com os direitos que a integram: o direito de informação, o direito de acesso às fontes de informação, o direito de opinião e, no âmbito deste, o direito de divergir, de dizer não. Com propriedade, um dos mais eminentes sócios da ABI, o jornalista Edmar Morel, definiu a Casa como a trincheira da liberdade, reduto dos que não se conformam com qualquer forma de submissão. ESTE PERFIL FOI ESCULPIDO pela adesão à causa da liberdade de quatro gerações de jornalistas e de trabalhadores da área de comunicação, já que ao longo do século decorrido a Casa acolheu não apenas repórteres, redatores, revisores, editores e diretores de publicações, mas a quantos emprestaram seu esforço e sua qualificação, no âmbito e no

Jornal da ABI Número 329 - Maio de 2008

Editores: Maurício Azêdo e Francisco Ucha Projeto gráfico, diagramação e editoração eletrônica: Francisco Ucha Edição de textos: José Ubiratan Solino e Marcos Stefano Fotos e ilustrações: Acervo Biblioteca da ABI (Biblioteca Bastos Tigre), Arquivo Jornal do Commercio, Arquivo Tribuna da Imprensa, Folhapress, Agência O Globo, Folha Dirigida Apoio à produção editorial: Alice Barbosa Diniz, Ana Paula Aguiar, André Lima de Alvarenga, Guilherme Povill Vianna, Maria Ilka Azêdo, Mário de Freitas Borges. Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas (Coordenador), Queli Cristina Delgado da Silva, Paulo Roberto de Paula Freitas. Diretor Responsável: Maurício Azêdo Associação Brasileira de Imprensa Rua Araújo Porto Alegre, 71 Rio de Janeiro, RJ - Cep 20.030-012 Telefone (21) 2240-8669/2282-1292 jornal@abi.org.br Impressão: Taiga Gráfica Editora Ltda. Avenida Dr. Alberto Jackson Byington, 1.808 Osasco, SP

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Jornal da ABI 329 Maio de 2008

quadro de empresas ou empreendimentos individuais, para a construção do nível de informação que o País ostenta. Também para a modelação desse padrão foi imensurável a contribuição da ABI, que já na primeira década de sua existência sustentou a idéia de que o exercício da atividade profissional na imprensa exigia exigia formação de nível superior, capaz de dotar os agentes do processo de informação da qualificação técnica, cultural e ética indispensável ao desempenho de tão relevante missão social. SERÁ POR ESTAS RAZÕES, a defesa das liberdades e a defesa da alta qualificação dos profissionais da informação, que a Casa recolhe neste seu centenário as homenagens das mais diversificadas representações da sociedade, como demonstra o amplo noticiário a esse respeito publicado nesta edição do Jornal da ABI. São manifestações partidas das diferentes representações da sociedade, seja no campo político-administrativo, seja no campo socioeconômico e cultural. Este é outro motivo de orgulho para a Casa: receber, merecidamente e por ter trabalhado e trabalhar para isso, o reconhecimento por quanto fez pelo País nestes seus 100 anos de existência.

DIRETORIA – MANDATO 2007/2010 Presidente: Maurício Azêdo Vice-Presidente: Audálio Dantas Diretor Administrativo: Estanislau Alves de Oliveira Diretor Econômico-Financeiro: Domingos Meirelles Diretor de Cultura e Lazer: Jesus Chediak Diretor de Assistência Social: Paulo Jerônimo de Sousa (Pajê) Diretor de Jornalismo: Benício Medeiros CONSELHO CONSULTIVO Chico Caruso, Ferreira Gullar, José Aparecido de Oliveira (in memoriam), Miro Teixeira, Teixeira Heizer, Ziraldo e Zuenir Ventura. CONSELHO FISCAL Luiz Carlos de Oliveira Chesther, Presidente; Argemiro Lopes do Nascimento, Secretário; Adail José de Paula, Adriano Barbosa do Nascimento, Geraldo Pereira dos Santos, Jorge Saldanha de Araújo e Manolo Epelbaum. CONSELHO DELIBERATIVO (MESA 2008-2009) Presidente: Fernando Barbosa Lima 1º Secretário: Lênin Novaes de Araújo 2º Secretário: Zilmar Borges Basílio Conselheiros efetivos (2008-2011) Alberto Dines, Antônio Carlos Austregesylo de Athayde, Arthur José Poerner, Carlos Arthur Pitombeira, Dácio Malta, Ely Moreira, Fernando Barbosa Lima, Leda Acquarone, Maurício Azêdo, Mílton Coelho da Graça, Pinheiro Júnior, Ricardo Kotscho, Rodolfo Konder, Tarcísio Holanda e Villas-Bôas Corrêa. Conselheiros efetivos (2007-2010) Artur da Távola (in memoriam), Carlos Rodrigues, Estanislau Alves de Oliveiora, Fernando Foch, Flávio Tavares, Fritz Utzeri, Jesus Chediak, José Gomes Talarico, José Rezende Neto, Marcelo Tognozzi, Mário Augusto Jakobskind, Orpheu Santos Salles, Paulo Jerônimo de Sousa (Pagê), Sérgio Cabral e Terezinha Santos.

EM ATO REALIZADO NA ABI há cerca de uma década e meia, outro destacado intelectual, o jornalista, professor e escritor Edmundo Moniz, assinalou que a idade das pessoas não é a decorrente da consulta ao seu registro civil, e sim a de suas idéias, da modernidade e contemporaneidade de suas idéias. Assim é também com as instituições. Por seu devotamento à idéia da liberdade, bem de valor perene, a ABI pode proclamar que chega aos 100 anos com o sentimento de que permanece extremamente jovem e assim se manterá.

Um agradecimento especial aos patrocinadores do Show do Centenário A ABI trabalhou durante meses para fazer do SHOW DO CENTENÁRIO, principal celebração dos seus 100 anos, o espetáculo considerado irretocável por quantos o viram. Esse êxito foi possibilitado pela colaboração que a Casa obteve da REDE GLOBO DE TELEVISÃO, de FURNAS CENTRAIS ELÉTRICAS S. A., da PETRÓLEO BRASILEIRO S. A.-PETROBRAS, patrocinadoras do evento, e da ODEBRECHT S. A. e do BANCO BRADESCO, que concederam apoio à realização. Reconhecida e sensibilizada, a ABI faz a todas um agradecimento especial.

Conselheiros efetivos (2006-2009) Antônio Roberto Salgado da Cunha, Arnaldo César Ricci Jacob, Arthur Cantalice (in memoriam), Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Augusto Xisto da Cunha, Domingos Meirelles, Fernando Segismundo, Glória Suely Alvarez Campos, Heloneida Studart (in memoriam), Jorge Miranda Jordão, Lênin Novaes de Araújo, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho e Pery de Araújo Cotta. Conselheiros suplentes (2008-2011) Alcyr Cavalcânti, Edgar Catoira, Francisco Paula Freitas, Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Pereira da Silva (Pererinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Ruy Bello, Salete Liusboa, Sidney Rezende,Sílvia Moretzsohn, Sílvio Paixão e Wilson S. J. de Magalhães. Conselheiros suplentes (2007-2010) Adalberto Diniz, André Moreau Louzeiro, Arcírio Gouvêa Neto, Benício Medeiros, Germando de Oliveira Gonçalves, Ilma Martins da Silva, José Silvestre Gorgulho, Luarlindo Ernesto, Luiz Sérgio Caldieri, Marceu Vieira, Maurílio Cândido Ferreira, Yacy Nunes e Zilmar Borges Basílio. Conselheiros suplentes (2006-2009) Antônio Avellar, Antônio Calegari, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Antônio Henrique Lago, Carlos Eduard Rzezak Ulup, Estanislau Alves de Oliveira, Hildeberto Lopes Aleluia, Jorge Freitas, Luiz Carlos Bittencourt, Marco Aurélio Barrandon Guimarães (in memoriam), Marcus Miranda, Mauro dos Santos Viana, Oséas de Carvalho, Rogério Marques Gomes e Yeda Octaviano de Souza. COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Ely Moreira, Presidente; Carlos di Paola, Jarbas Domingos Vaz, Maria Ignez Duque Estrada Bastos e Maurílio Cândido Ferreira. COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti. COMISSÃO DE LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Audálio Dantas, Presidente; Arcírio Gouvêa Neto, Daniel de Castro, Germando de Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, Lucy Mary Carneiro, Maria Cecília Ribas Carneiro, Mário Augusto Jakobskind, Martha Arruda de Paiva, Orpheu Santos Salles, Wilson de Carvalho, Wilson S. J. Magalhães e Yacy Nunes.


ALCYR CAVALCANTI

No palco, a Comissão de Honra do Centenário. Ao fundo, a logomarca criada por Ziraldo.

ANO DO CENTENÁRIO

UMA FESTA IMPECÁVEL POR JOSÉ REINALDO MARQUES E CLAUDIA SOUZA

O Show do Centenário deu aos 100 anos da ABI notável dimensão de gala, com exibições primorosas da Orquestra Petrobras Sinfônica, sob a regência do Maestro Isaac Karabtchevsky, e de Paulinho da Viola e sua banda, que encantaram numerosa platéia no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O centenário da ABI foi celebrado em noite de gala no dia 7 de abril, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com a apresentação de um espetáculo impecável, descrito pelas quase 2 mil pessoas presentes com uma série de adjetivos: maravilhoso, sensacional, lindo!, lindo!. O Vice-Presidente da República, José de Alencar, representando o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Governador do Estado do Rio,

Sérgio Cabral Filho, os Ministros Franklin Martins e Edson Santos encontravam-se entre as autoridades ilustres da platéia da festa, que reuniu jornalistas, acadêmicos, políticos e representantes de diferentes segmentos da sociedade civil. Vários deles vieram de distantes pontos do País para assistir ao Show do Centenário: São Luís, Brasília, Belo Horizonte, São Paulo A classe artística — que se fez repre-

sentar por cineastas, escritores, cantores e compositores — prestigiou o evento, que teve como ponto alto os concertos da Orquestra Petrobras Sinfônica, sob a regência do Maestro Isaac Karabtchevsky, e do cantor e compositor Paulinho da Viola. No palco, os atores Cristiane Torloni e Lázaro Ramos fizeram a apresentação cerimonial da festa. A comemoração do 100º aniversário da ABI não podia ter sido diferen-

te. Desde a escolha do Municipal como cenário à lista de convidados, a grande homenageada da noite soube reunir, para celebrar a data da sua fundação, dois dos elementos mais significativos de sua histórica trajetória: a imprensa e a cultura. No início do programa, a platéia foi convidada a ficar de pé para ouvir a execução do Hino Nacional pela Petrobras Sinfônica. Em seguida, na abertura das Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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ANO DO CENTENÁRIO

Sócio da ABI desde 1936, ex-Presidente da Casa, Fernando Segismundo mereceu carinhosa menção especial no discurso do Vice-Presidente José Alencar.

saudações da noite, coube ao Presidente da ABI, Maurício Azêdo, dirigir-se aos convidados e às autoridades presentes em nome da Diretoria da entidade: — É com emoção e alegria que a Associação Brasileira de Imprensa recebe a todos nesta memorável noite, em que se realiza a mais destacada celebração do seu centenário. A instituição fundada por Gustavo de Lacerda no alvorecer do século XX recebe platéia tão representativa do conjunto da sociedade como reconhecimento de que não foi vã, nem inútil, a caminhada empreendida pela geração de jornalistas que edificaram a densa história da ABI desde aquele 7 de abril de 1908. O anfitrião Maurício Azêdo fez uma citação do jornalista Cícero Sandroni — Presidente da Academia Brasileira de Letras e sócio da ABI — para se referir às lutas empreendidas pela Casa do Jornalista na defesa da democracia e das liberdades públicas: — Na mensagem em que aceitou o convite para participar da Comissão de Honra do Centenário, Cícero diz que a ABI combateu um bom combate ao longo deste século que hoje se completa. Foi com perseverança, destemor e altruísmo que ela se devotou às idéias que marcam sua trajetória e aos valores que a inspiram no culto às liberdades, à ética e à busca do progresso material e espiritual do País e do nosso povo. No fim do seu discurso, o Presidente da ABI agradeceu ao cartunista Ziraldo, pela criação da logomarca do centenário, e ao publicitário Nizan Guana4

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es, cuja agência foi responsável pela criação de todas as peças promocionais de divulgação do aniversário da Casa. Foram feitos agradecimentos também ao Governador Sérgio Cabral, que é jornalista e sócio da ABI, pelo apoio do Governo do Estado do Rio à realização do evento; à Petrobras; à Rede Globo de Televisão e seus Diretores José Roberto Marinho e Luiz Erlanger; a Luiz Paulo Conde, Presidente de Furnas; a Roberto Dias, Diretor da Odebrecht, e a Rose Santiago, do setor de Relações Institucionais do Bradesco. Ele exaltou também o trabalho dos publicitários Fábio Seidl, Bruno Brasil e Luiz Gonzaga, que, sob a liderança de Luiz Roberto Pires Ferreira, Diretor do Grupo ABC de Nizan Guanaes e da agência África, projetaram as peças da campanha de promoção do centenário, entre as quais uma aplaudida reflexão sobre a importância da virgula nos textos impressos ou falados. Maurício Azêdo fez ainda uma calorosa saudação ao Maestro Isaac Karabtchevsky, aos músicos da Orquestra Petrobras Sinfônica e ao compositor Paulinho da Viola. Foram saudadas também todas as personalidades que aceitaram integrar a Comissão do Centenário da ABI, cujo Presidente de Honra é o arquiteto Oscar Niemeyer, a quem o Presidente da ABI se referiu como “um brasileiro luminoso e humanista”. A programação prosseguiu com a exibição de um vídeo sobre a trajetória da ABI desde a sua fundação, exaltando a figura do fundador, Gustavo de Lacerda, e de ex-Presidentes como Herbert Moses, Prudente de Moraes, neto, Danton Jobim, Dunshee de Abranches, Fernando Segismundo e Barbosa Lima Sobrinho. O documentário reúne vts, fotografias e documentos que registram a participação da ABI em questões de importância nacional, como as campanhas O petróleo é nosso e Diretas Já, a da Assembléia Nacional Constituinte de 1987-1988 e a do impeachment do Presidente Fernando Collor. Em seguida, o Governador do Estado do Rio, Sérgio Cabral Filho, se disse orgulhoso de participar da festa como jornalista e citou seu pai, o pesquisador, Conselheiro da ABI e também jornalista Sérgio Cabral Santos: — É uma honra participar da Comissão do Centenário, é uma honra o Governo do Estado estar presente na celebração dos cem anos da Associação Brasileira de Imprensa e que o nosso Teatro Municipal abrigue este evento. Devo muito ao jornalismo, até a minha existência. Por isso, nestes cem anos da ABI, quero homenagear todos os jornalistas exatamente na figura dessa pessoa que me ensinou em casa a amar a democracia, a liberdade e o povo brasileiro, que é o Sérgio Cabral pai. A ele eu dedico este discurso e a minha sensibilidade para a causa pública. E quero dizer que com ele aprendi que não há nada mais importante na vida do que a liberdade.

O Vice-Presidente Alencar (ao lado de Sérgio Cabral) encantou a platéia, que tinha na primeira fila os Ministros Edson Santos e Franklin Martins (foto abaixo), pela espontaneidade de suas manifestações: bem humorado, intercalou tiradas no texto impresso que leu.

Os atores Lázaro Ramos e Cristiane Torloni – que ficou visivelmente emocionada durante sua elegante apresentação – fizeram o cerimonial da festa da democracia.


Em seu discurso, o Vice-Presidente José Alencar destacou que, apesar de os jornalistas não gostarem de virar notícia, muitos acabam como legítimos protagonistas da História: — Alguns, de maneira brilhante e grandiosa — como o Professor Fernando Segismundo, único ex-Presidente da ABI vivo, em quem damos um abraço de calorosa homenagem. Ou como o Presidente Maurício Azêdo, a quem cabe o privilégio de estar à frente das comemorações do centenário e de dar curso à obra de Gustavo de Lacerda, Herbert Moses e Barbosa Lima Sobrinho, que deixaram marcas profundas na construção e na consolidação deste patrimônio nacional. José Alencar ressaltou que parte da História do Brasil e da imprensa também vem sendo escrita por um contingente de jornalistas quase anonimamente, “a exemplo de tantos e tão valorosos repórteres, fotógrafos e redatores de cada pequena redação das pequenas cidades brasileiras”. E completou: — É em homenagem a todos esses “proletários intelectuais”, na palavra do pai da ABI, o jornalista e libertário Gustavo de Lacerda, que nós estamos aqui reunidos. Cumprimento o ilustre Presidente da instituição, jornalista

Em vez de um discurso solene, o Governador fez a exaltação afetiva de seu mestre: o jornalista Sérgio Cabral, seu pai.

“Uma Casa que ostenta um passado como a ABI enaltece os países democráticos em todo o mundo”, disse Karabtchevsky (ao lado). Também Paulinho da Viola (acima) fez o elogio da ABI.

Maurício Azêdo, e levo a todos os que militam no jornalismo minhas congratulações e minha homenagem pelo admirável trabalho que realizam em favor do Brasil e dos brasileiros. Disse o Vice-Presidente da República que a democracia é um valor universal e a liberdade de informação não pode ser um valor relativo, “pois ela foi uma das maiores conquistas históricas da humanidade”, além de um dos bens mais preciosos da vida social: — Sem ela, não seríamos o que somos, e talvez não pudéssemos almejar algo melhor do que temos. E nenhuma iniciativa da ABI foi mais duradoura, em cem anos, do que a defesa da liberdade de imprensa. Essa luta atravessa os tempos e é permanente,

porque, sabemos todos, sem liberdade não há imprensa; sem imprensa não há informação; e sem informação não existe exercício de cidadania. Toda a luta histórica da Associação Brasileira de Imprensa não é de interesse apenas da própria imprensa: é a defesa de tudo o que interessa à sociedade. Após a fase solene do ato, o público que lotou o Teatro Municipal foi brindado com shows de Paulinho da Viola e da Orquestra Petrobras Sinfônica. A direção artística do espetáculo foi de Túlio Feliciano. Coube ao jornalista Sérgio Cabral chamar ao palco o sambista Paulinho da Viola, que encantou a platéia com alguns de seus maiores sucessos, como Sinal fechado, Dança da solidão e Foi um rio que passou em minha

vida, e também um samba mais recente, Talismã, feito em parceria com Arnaldo Antunes e Marisa Monte. Ao término de sua participação, Paulinho fez um elogio à ABI: — Eu me sinto muito honrado em participar desta festa em homenagem a esta instituição que fez tantas coisas importantes ao longo da sua história. E espero que ela continue, por muitos anos, dando seguimento ao que vem fazendo e que todos nós já sabemos e falamos aqui. Na seqüência, a Orquestra Petrobras Sinfônica, sob a batuta do Maestro Isaac Karabtchevsky, interpretou Sinfonia popular nº 1 — 3º movimento: Baião, de Radamés Gnattali; Bachianas Brasileiras nº 2 — Tocata (O trenzinho do caipira), de

Heitor Vila-Lobos; Maracatu do Chico Rei, de Francisco Mignone, e Mourão, de Guerra-Peixe e Clóvis Pereira. O Maestro Isaac Karabtchevsky também se pronunciou sobre a trajetória da ABI e o exemplo que a instituição vem dando ao País com sua conduta democrática: — Uma Casa que ostenta um passado glorioso como a Associação Brasileira de Imprensa enaltece não só a nós, como cidadãos brasileiros, como também ao conjunto de países democráticos em todo o mundo. É um exemplo que tem que ser seguido. Numa época conturbada, cheia de desvios, a conduta sempre justa da ABI nos enche de orgulho e alegria de sermos brasileiros. Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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ANO DO CENTENÁRIO

Sob a batuta do Maestro Isaac Karabtchevsky, a Orquestra Petrobras Sinfônica, começou a empolgar a platéia com uma execução primorosa do Hino Nacional, que abriu a récita.

A HISTÓRIA, COM PERSPECTIVA DE FUTURO Impressões de quem foi, após a festa. “Acho que foi uma festa muito bonita e à altura do que a ABI representa como simbolismo e fixação da idéia da liberdade. Esta solenidade de hoje destacou esse traço importante da trajetória da nossa Casa, que é esse apreço à liberdade e a todos os valores que ela proporciona, inclusive a criação artística, de que tivemos hoje maravilhosos exemplos, com a Orquestra Petrobras Sinfônica, Paulinho da Viola e esse maravilhoso Maestro Isaac Karabtchevsky. Foi para nós algo muito confortante e a ABI se sente engrandecida com esta noite.” MAURÍCIO AZÊDO

“Foi uma festa muito bonita de confraternização com a consolidação da democracia em nosso País. Esta solenidade refletiu a grandeza da Associação Brasileira de Imprensa.”

que é sempre atual, porque curiosamente os governos sempre tentam limitar a liberdade, mas esta não tem limites. É preciso que se tenha essa consciência de que não se regulamenta a liberdade, ela é incondicional. Então, essa foi a grande demonstração que tivemos hoje. Temos uma instituição como a ABI preparada para qualquer enfrentamento, que eu acho que não deve ocorrer. Mas quando os enfrentamentos acontecem, precisamos ter entidades preparadas a defender os direitos dos cidadãos, como é o caso da ABI.”

EDSON SANTOS Ministro da Integração Racial

“Um evento fantástico este Centenário de uma instituição consolidada com base na liberdade e que busca integrar todas as tendências. A ABI traz para nós uma renovação, um estímulo, na medida em que tantas coisas boas têm acontecido, outras talvez não, mas ela sempre registra e acompanha tudo de forma contundente e com isenção.”

MIRO TEIXEIRA Deputado Federal/PDT-RJ

BENEDITA DA SILVA Secretária de Estado de Assistência Social do

“Esta é uma festa magnífica, porque a ABI completa cem anos de grandes sacrifícios pela imprensa e pelo País. E hoje, com respeito às outras organizações, é reconhecida como a grande protagonista das lutas pela liberdade.”

Rio de Janeiro

Presidente da ABI

“Eu já estou lastimando muito não chegar aos próximos cem anos para estar feliz com os amigos e companheiros da Casa.” FERNANDO SEGISMUNDO Ex-Presidente da ABI

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“Foi um acontecimento emocionante, porque se juntou a História com a perspectiva de futuro. Tivemos a oportunidade de verificar, ao mesmo tempo, a informação sobre a História e a reafirmação do compromisso de luta pela liberdade de imprensa. Uma luta

CÍCERO SANDRONI MIRO TEIXEIRA

Presidente da Academia Brasileira de Letras


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FOTO: FOLHA DIRIGIDA/HENRIQUE HUBERT

Um dos salões do belo Palácio Itamaraty (acima) foi o palco onde o violoncelista Bruno Henri (à direita) e seus colegas exibiram mestria como intérpretes de Vila-Lobos.

Para começar, Vila-Lobos em ritmo de jazz Concorrido recital no Palácio Itamaraty abriu as comemorações do centenário da ABI. As comemorações do centenário da ABI foram abertas na tarde do dia 1 de abril com um concerto especial do conjunto Bruce & Villa’s Voz, que deu uma interpretação jazzística às obras de Heitor Vila-Lobos. O recital, realizado no Palácio Itamaraty, integrou o projeto Música no Museu, promovido pela Casa França-Brasil, cujo Presidente, Embaixador Marcos Azambuja, teve a idéia de dedicar a apresentação aos cem anos da ABI. A sessão foi muito concorrida: quem não obteve senha antes de o espetáculo começar teve de voltar da porta, porque o espaço não comportava mais assistentes. Antes do recital, o Diretor do Música no Museu, Sérgio da Costa e Silva, fez uma breve introdução, agradecendo ao público pela presença e passando a palavra ao Presidente da ABI, Maurício Azêdo, que agradeceu, anunciou os eventos seguintes das comemorações do centenário da ABI e prestou homenagem a Vila-Lobos, que teve forte presença na Casa, como sócio e colaborador, desde 1921, quando ingressou na ABI, até sua morte, em 1959. Morador num edifício fronteiro à atual sede da ABI, Vila-Lobos em momentos de folga jogava bilhar no salão que hoje tem seu nome e que exibe ao fundo um pôster dele com o taco na mão e o in8

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separável charuto nos lábios. Aplaudindo, na platéia, estavam Virgilio Moretzsohn de Andrade, Chefe do Escritório de Representação do Ministério das Relações Exteriores no Rio de Janeiro, e Acurcio Rodrigues de Oliveira, Diretor-Presidente do Monitor Mercantil, e inúmeros associados da ABI. O conjunto Bruce & Villa’s Voz deu início ao concerto de forma lenta e harmoniosa. O músico norte-americano Bruce Henri abriu o espetáculo com seu contrabaixo e momentos depois passou a ser acompanhado pelo piano de Fernando Moraes. Logo em seguida já se podiam ouvir os sons de Ricardo Costa na percussão e bateria e, por fim, o violino de Leo Ortiz. Os arranjos das músicas de Vila-Lobos, executados em tons ritmados de jazz, foram feitos por Bruce, que mora no Brasil desde a década de 1970, já tocou com artistas como Tom Jobim, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Ney Matogrosso e é um dos poucos contrabaixistas dedicados ao repertório erudito brasileiro. Obras como O canto do cisne negro, que o maestro compôs inspirado no próprio Palácio Itamaraty, que abriga cisnes em seu lago, e a Pequena suíte 1913 foram prestigiadas pelo público e jornalistas que cobriam o evento. (Rodolpho Terra)

O Chefe do Escritório do Itamaraty no Rio,Virgílio Moretzsohn, abriu o recital.

Sérgio da Costa e Silva (de frente), com Maurício e Acúrcio, foi o organizador do concerto.


Na Academia, um recorde de presenças Depois do tradicional chá das quintas-feiras, 24 acadêmicos prestigiaram a Sessão Solene em homenagem aos 100 anos da ABI. POR CLAUDIA SOUZA

Com a presença de 24 acadêmicos, reunidos no Salão Nobre do Petit Trianon logo após o tradicional chá das quintas-feiras e que constituíram um recorde em eventos do gênero, como observou seu Presidente, jornalista e escritor Cícero Sandroni, a Academia Brasileira de Letras promoveu uma Sessão Solene em homenagem ao centenário da ABI no dia 3 de abril, Cícero Sandroni recebeu os jornalistas Moacir Pereira, que falou sobre o fundador da ABI, Gustavo de Lacerda, Fernando Segismundo, que abordou aspectos da vida e da obra de Herbert Moses, Villas-Bôas Corrêa, que evocou a trajetória de Prudente de Moraes, neto, e Murilo Melo Filho, que discorreu sobre a relação da ABL com a ABI. Sandroni, por sua vez, descreveu a trajetória do jornalista e acadêmico Barbosa Lima Sobrinho, que presidiu a ABI (1926 a 1927, 1930 a 1932 e 1978 a 2000) e a ABL (1953 a 1954), onde ocupou a cadeira nº 6 de 1938 a 2000. O Presidente da ABI, Maurício Azêdo, agradeceu à Academia a distinção de tão destacada homenagem e ressaltou o discurso de Murilo Mello Filho sobre a forte identidade das duas instituições: — Fico honrado com a sessão especialmente dedicada pelos acadêmicos e jornalistas palestrantes à memória de Gustavo de Lacerda, Herbert Moses, Prudente de Moraes neto e Barbosa Lima Sobrinho, exemplos de dedicação ao bem comum e à coletividade. A ABI se sente especialmente confortada, emocionada e, com extraordinário reconhecimento, recebe comovida a homenagem da ABL, o maior templo da inteligência brasileira. Moacir Pereira, titular da cadeira nº 3 da Academia Catarinense de Letras e reconhecido pesquisador da vida e obra de Gustavo de Lacerda, destacou: — O fundador da ABI vem se agregar a nomes de projeção nacional e internacional nascidos em Santa Catarina, tais como Victor Meirelles, Cruz e Souza, Anita Garibaldi, Jerônimo Coelho, Álvaro de Carvalho, Luiz Delfino e Lucas Boiteux. Ele assinalou que, o movimento pela criação da ABI projetou Gustavo de Lacerda na vida pública brasileira em razão “da batalha pela união dos repórteres visando à melhoria das condições de salário e de trabalho,do papel que

Villas-Bôas Corrêa traçou o perfil de Prudente de Morais, neto, seu companheiro e seu mestre na cobertura política.

A partir da esquerda, diante da platéia repleta de acadêmicos: Villas-Bôas, Maurício, Sandroni, Presidente da ABL, Segismundo, Moacir Pereira e Murilo Melo Filho. Moacir, biógrafo de Gustavo de Lacerda, veio de Florianópolis para falar sobre seu conterrâneo.

vislumbrava na formação profissional e do desejo de ver os jornalistas mais protegidos e valorizados”. — O discurso de Gustavo de Lacerda completa 100 anos, mas suas bandeiras permanecem imutáveis, apesar das transformações ditadas pelos avanços da tecnologia. O extraordinário legado que nos deixou com a quase solitária campanha pela criação da ABI impõe iniciativas que mostrem às novas gerações o valor de um ideal, o significado da ação coletiva, a importância da solidariedade humana e corporativa, a visão da imprensa na valorização da cidadania.

Fernando Segismundo, que ocupou a Presidência da ABI de 1977 a 1978 e de 2000 a 2004, lembrou aspectos da vida e da obra de Herbert Moses, que esteve à frente da Casa entre 1931 e 1964: — Antes uma entidade frágil, a ABI tornou-se notável na gestão de Moses, homem de grandes ideais que lutou para fortalecer a entidade. A Polícia invadia a ABI na época em que o exercício do jornalismo era uma atividade perseguida e perigosa: o repórter não tinha idéia se voltaria para casa após o trabalho. Disse Segismundo que Moses era um homem de negócios que, entretanto, “dedicou-se à empreitada bem-sucedida

e prestigiosa em defesa do jornalismo”: — Trabalhei ao seu lado e muitas vezes o vi lacrimejar em função dos problemas políticos que atingiam o País e a imprensa. À frente da ABI, Moses se expôs, teve muitos dirigentes presos e torturados. Contudo, conseguiu agregar a classe perante as turbulências. A trajetória de Prudente de Moraes, neto, que ocupou a Presidência da ABI entre 1975 e 1977, foi realçada por Villas-Bôas Corrêa, decano do jornalismo político brasileiro, que comemora 60 anos de carreira. Companheiro de Prudente nas redações do Diário de Notícias e do Estado de S.Paulo, Villas-Bôas Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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ANO DO CENTENÁRIO

destacou “a excelência de seu texto e a extraordinária gestão à frente da ABI, especialmente no período da ditadura, quando se registravam inúmeros casos de jornalistas exilados, perseguidos, ameaçados e torturados”: — Com Prudente, notável na tarefa de defesa da categoria e dos ideais da sociedade, a ABI representou uma frente de luta em favor da classe e da liberdade de imprensa. Assim como Barbosa Lima Sobrinho, ele enfrentou com grande bravura este período. E o atual Presidente da ABI, Maurício Azêdo, também vem promovendo uma administração exemplar, que, após longos anos, consegue atrair a classe em torno de uma renovada ABI. A forte relação entre a ABI e a ABL foi destacada na palestra do jornalista e acadêmico Murilo Melo Filho. — Ambas têm caminhado juntas ao longo de um século de vida em comum. Coesas, testemunharam e sobreviveram, nos últimos cem anos, a uma perigosa escalada de agruras e sucessivas crises políticas no País. Murilo lembrou que na época da

O poeta Ivan Junqueira (de frente) foi um dos muitos acadêmicos que prestigiaram a homenagem ao centenário da ABI. Ao fundo, Villas-Bôas Corrêa, um dos quatro conferencistas.

fundação as entidades não tinham sequer onde se reunir: — A ABI hospedava-se no Quartel Militar dos Barbonos, permitindo ao jornalista Belisário de Souza reconhecer: “Pelo menos aqui estamos guardados e seguros”. Só em 1938 a ABI pôde inaugurar a primeira sede própria, no Castelo. Mas jamais silenciou sua voz de protesto e a mensagem de esperanças gravadas para sempre na gratidão e no reconhecimento dos brasileiros. Sob a

Presidência digna e correta de Maurício Azêdo e de seus bravos antecessores, a Casa representa fortaleza indômita e indormida na defesa das conquistas democráticas e da liberdade de imprensa. O Presidente da ABL, Cícero Sandroni, que ocupou os cargos de Diretor, Secretário-Geral e Presidente do Conselho da ABI, homenageou a trajetória de Barbosa Lima Sobrinho, sublinhando os momentos em que atuaram juntos na entidade: — Como havia um de-

Num selo, o bravo Gustavo de Lacerda Emissão filatélica especial põe em relevo a figura do fundador da ABI. A ABI foi homenageada na manha do dia 7 de abril – dia do seu centenário – com o lançamento de selo postal e carimbo comemorativos, realizada na Sala Belisário de Souza, no Edifício Herbert Moses. O Presidente da ABI, Maurício Azêdo, compôs a mesa de honra com o representante do Ministério das Comunicações, jornalista Francisco Câmpera, e o Diretor regional dos Correios, Marco Túlio Penzin Goulart. A cerimônia, prestigiada por jornalistas e associados, foi aberta com a execução do Hino Nacional, seguida dos discursos de Teresa Bettoni, representante do Cerimonial dos Correios, Francisco Câmpera e Marco Túlio Goulart. Teresa Bettoni ressaltou que o objetivo da homenagem é registrar o momento histórico da ABI, que “há cem anos contribui para o desenvolvimento político, econômico e social do País”. Marco Túlio, por sua vez, destacou o desafio histórico e democrático da ABI, que durante anos exerceu “incessante e corajosa defesa da liberdade de imprensa”. E estendeu a homenagem “à bravura de Gustavo Lacerda e dos nove companheiros que ousaram instituir esta voz de defesa em 1908”: — Ao receber este selo, a sociedade é chamada a rememorar o papel protagonista da imprensa em questões cruciais, desde o movimento em prol da abolição da escravatura, passando pelas 10 Jornal da ABI 329 Maio de 2008

campanhas O petróleo é nosso e Diretas Já, até importantes conquistas no campo da ética na política, na década de 90, sob o comando do missionário da democracia, jornalista Barbosa Lima Sobrinho. Com a homenagem, os Correios contribuem para fortalecer ainda mais o reconhecimento da relevância da ABI. Francisco Câmpera se disse honrado e orgulhoso em participar da solenidade de lançamento do selo e agradeceu a todos em nome do Ministro das Comunicações, Senador Hélio Costa — autor da iniciativa que resultou na homenagem —, lembrando “o papel essencial da ABI na construção e consolidação da democracia e dos direitos civis no último século”: — A ABI esteve presente nos principais momentos históricos do País. O Ministro Helio Costa faz questão de participar desta homenagem e parabeniza a ABI e o Presidente da entidade, jornalista Maurício Azêdo, cuja gestão vem promovendo o resgate e a reconstrução

da ABI em direção a mais um século em defesa da liberdade de imprensa. Maurício Azêdo agradeceu aos membros da mesa, ao Presidente da ECT, Carlos Henrique Custódio, ao Ministro, por sua intervenção junto à Comissão Filatélica Nacional, e a toda equipe do Ministério, “que revelou competência no encaminhamento das providências para a emissão do selo, que obedece a um ritual de alto teor democrático na escolha do artista responsável pela execução do selo”. Presente ao evento, o jornalista Hélio Fernandes Filho, Diretor da Tribuna da Imprensa, afirmou que os cem anos da entidade na luta pela liberdade de expressão são um marco a se comemorar: — Como Conselheiro da entidade, estou muito satisfeito em prestigiar a ABI, que sempre será a Casa do Jornalista. O jornalista Luiz Carlos de Souza, sócio da ABI desde 1970 e que exerce a profissão há 42 anos, foi um dos incentivadores da homenagem: — Eu colecionava selos quando era garoto e imaginei que caberia um selo no centenásrio da ABI. Levei a idéia ao Maurício Azêdo e hoje estou feliz em ver a homenagem concretizada. A escolha Através de um concurso, são convocados pelo menos três artistas, que apresentam suas propostas a uma comissão especializada para a escolha do projeto. Relatou Maurício Azêdo que a ABI forneceu subsídios para a elaboração dos projetos e teve acesso às ver-

sinteresse da classe, quando recebíamos pedidos de entrevista eu costumava estimular os repórteres a se associarem à Casa. Era preciso convencer os colegas da necessidade de participar e contribuir para a luta da ABI. Sandroni destacou a emoção de conviver com “a bravura cívica de Barbosa e seu espírito pacifista e conciliador, que só era abalado quando o Fluminense perdia”: — Ele é eterno pelas palavras que deixou escritas, muito melhores do que eu poderia fazer. Lembro que uma vez o questionei pela sua jornada de trabalho, por causa de sua idade, e ele me disse: “O tempo que perdemos na ABI ganhamos pelo Brasil.” O Presiente da Academia finalizou sua exposição exortando à participação dos profissionais na vida da entidade jornalística: — A ABI é e sempre será aquilo que os jornalistas fizerem dela. E será tão melhor quanto mais jornalistas participarem de suas atividades. A ABI cresce e se fortalece sempre que conta com o apoio dos profissionais de todo o Brasil.

sões que foram produzidas pelos artistas. O empenho de todos, disse, resultou “neste selo que nos enche de orgulho, já que marca a presença muito forte do Estado nacional no campo de prestígio a uma instituição representativa como a ABI, a primeira criada no País para a defesa dos jornalistas”. — Gustavo de Lacerda e seus companheiros definiram este modelo de representação, que a partir de então se alastrou às diferentes categorias profissionais em todo o País, culminando com o sistema de representação associativa gremial e sindical que temos hoje. Como é O selo traz em destaque a imagem da atual sede da ABI, sua logomarca e a face de seu fundador, Gustavo de Lacerda. Ao fundo, a imagem esmaecida de uma página do jornal publicado pela ABI, com fotos de fachadas de prédios que ela ocupou até chegar a ganhar sede própria. As cores da bandeira do Brasil na logomarca e a tarja azul com a respectiva legenda imprimem brasilidade ao conjunto. Foram utilizadas as técnicas de ilustração a guache sobre papel, fotografia e computação gráfica. O carimbo circula nas peças filatélicas e correspondências das instituições que pleiteiam sua emissão, propagando, por meio da imagem e da legenda, o tema que lhe deu origem. Para o Presidente da ABI, a ampla tiragem do selo, em torno de 600 mil unidades, “levará a imagem, a palavra e efígie do fundador Gustavo Lacerda a centenas de milhares de brasileiros, fator positivo para o processo de afirmação democrática e da liberdade defendidos pela Casa desde a sua fundação há exatos cem anos, em 7 de abril de 1908”. (Claudia Souza)


A Biblioteca Nacional dedicou à ABI, no dia 9 de abril, a abertura da programação 2008 do projeto Quarta às Quatro, concebido e dirigido pelo jornalista e professor Vítor Iório, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. . O Presidente da Associação, Maurício Azêdo, foi convidado a discorrer sobre o tema ABI: momentos de tensão e esperança, no Auditório Machado de Assis, para uma platéia que contou com a presença de jornalistas como Fichel Davit Chargel, Milton Temer, Lilian Nabuco e Nilo Braga e do Professor Emir Amed, além de estudantes, pesquisadores e professores. Vítor Iório iniciou o encontro justificando a homenagem à ABI, “uma das mais combativas entidades da sociedade civil na defesa da liberdade de imprensa e dos direitos humanos”: — Criada em 7 de abril de 1908 e idealizada por Gustavo de Lacerda como uma associação destinada a assegurar à classe jornalística seus direitos assistenciais e a funcionar como poderoso centro de ação política que abrigasse os trabalhadores da imprensa, a ABI rompeu a resistência no meio jornalístico, disperso na época, conquistou nomes representativos na vida nacional e se consolidou como uma instituição de prestígio profissional e político. A trajetória do atual Presidente da ABI foi apontada como símbolo de luta pelas liberdades democráticas: — A carreira no jornalismo e a luta política de Maurício Azêdo se confundem com a trajetória da ABI, que sempre teve compromisso com a defesa das liberdades públicas, dos direitos civis e dos direitos humanos — disse Iório. Marca da entidade Destacando que os cem anos da ABI na luta pela liberdade representam “a grande marca da entidade”, Maurício Azêdo iniciou a palestra exaltando o pioneirismo de Gustavo Lacerda na fundação da entidade, a dedicação dos primeiros dirigentes na conquista da sede própria, o esforço para a construção de uma sede para a ABI e o empenho de todos os associados para tornar a entidade referência nacional de luta pelas liberdades de imprensa e de expressão e pelos direitos civis. Maurício mencionou os períodos do Estado Novo e da ditadura miitar 1964-1985 como os mais dramáticos e tensos vividos pela Associação: — Eu me lembro de que em 31 de março de 1964 nós realizamos na ABI um ato com diversos jornalistas, visando à mobilização dos

Ao lado de Victor Iório, o Presidente da ABI abriu o ciclo 2008 de palestras da Biblioteca.

Na BN, evocação das tensões e da esperança Projeto Quarta às Quatro de 2008 começa com homenagem à ABI. profissionais para a resistência que se tornava necessária ao golpe. Entre os companheiros jornalistas estavam Orlando Bonfim Júnior e Mário Alves de Souza Vieira, membros do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro. Orlando Bonfim desapareceu em 1976 e até hoje seu corpo não foi encontrado, nem há notícias sobre as circunstâncias de sua morte. Mário Alves foi preso e torturado no Doi-Codi e teve um fim brutal: foi empalado. Em 1976, o regime militar já tinha derrotado a chamada resistência armada, contou Maurício, e decidiu liquidar o Partido Comunista Brasileiro, que pregava a união de todas as forças políticas para a derrubada da ditadura: — O Partido era eficaz nesta missão e reunia importantes lideranças, como o jornalista e professor Luís Maranhão Filho, que também desapareceu. Outros momentos de tensão foram a bomba que explodiu no sétimo andar da sede da ABI, em 19 de agosto de 1976, e o ato em memória de Vladimir Herzog, assassinado uma semana antes no Doi-Codi de São Paulo. Como a Arquidiocese do Rio não permitiu que a missa de sétimo dia fosse celebrada na Igreja de Santa Luzia, no Centro do Rio, onde a ABI realizava tradicionalmente os ofícios religiosos

Iório apontou a ABI como uma das mais combativas entidades da sociedade civil.

mais significativos para a ABI, Maurício citou a posse de Herbert Moses, o ato de assinatura pelo Prefeito Pedro Ernesto da doação do terreno para a construção da sede própria da Casa, o concurso de projetos de arquitetura para a construção do prédio, a unificação das associações de imprensa, que permitiu a doação do terreno na área recém-urbanizada do Centro do Rio resultante da demolição do Morro do Castelo. Ele destacou também a participação da ABI em lutas cívicas, como as campanhas O petróleo é nosso e Diretas Já, pela Assembléia Nacional Constituinte, pela anistia e pelo impeachment de Fernando Collor, decidido com base numa petição ao Congresso Nacional que teve como primeiro signatário Barbosa Lima Sobrinho. No fim do encontro, Iório falou de sua relação estreita com a ABI e seu Presidente: — Freqüento a Associação desde o início da minha carreira. Em 1969, Maurício Azêdo foi meu primeiro editor no Jornal dos Sports. Ele era um fantástico copidesque e não deixava passar nenhum erro. Todos nós que estávamos começando no jornalismo morríamos de medo de entregar a matéria a ele. Esta experiência foi fundamental, já que aprendi a não cometer erros logo no início da profissão. Encerrando a homenagem, Maurício Azêdo agradeceu a iniciativa da Biblioteca Nacional: — Foi muito gratificante este contato de hoje no projeto Quarta às Quatro, criado e dirigido por um membro do nosso quadro social, o jornalista Vítor Iório, que nos ofereceu a oportunidade de contar para uma platéia jovem, que muitas vezes não tem informações sobre o que nós relatamos, não apenas os fatos antigos sobre a fundação da ABI, como também os mais recentes da nossa História política, recebendo talvez as primeiras informações de fontes idôneas e de protagonistas dos acontecimentos, como os companheiros e sócios da ABI que participaram do debate, como Milton Temer e o Professor Emir Amed, eminente historiador. (Claudia Souza)

e comemorativos, a cerimônia aconteceu na sede da entidade, sob a presidência de Prudente de Morais, neto, e de Barbosa Lima Sobrinho, então Presidente do nosso Conselho Deliberativo. O Auditório Oscar Guanabarino foi então cenário de prolongado silêncio em homenagem a Herzog: nada menos que 15 minutos. Momentos de esperança Entre os momentos de esperança Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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Fernando Barbosa Lima (2º à esquerda), Maurício e Modesto (4º) representaram a ABI no encontro presidido por Lauro Schuch (3). À direita, Maria Adélia Campelo, do IAB.

Na OAB-RJ, lembrança da luta comum As duas entidades trilharam o caminho de luta e sacrifícios, assinala a Seção do Estado do Rio da Ordem dos Advogados. Os cem anos da ABI foram homenageados no dia 10 de abril pela Ordem dos Advogados do Brasil/Seção do Estado do Rio de Janeiro em sessão solene conduzida pelo Vice-Presidente da entidade, Lauro Schuch. A mesa reuniu o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, o jornalista Fernando Barbosa Lima, Presidente do Conselho Deliberativo da ABI, a Presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros, Maria Adélia Campelo, e os advogados Modesto da Silveira; Marcus Vinicius Cordeiro, Diretor de Cultura e Eventos da OABRJ; Marcelo Chalréo, Secretário-Adjunto da OAB-RJ; e Marco Luiz Oliveira de Souza, Secretário-Geral da OAB-RJ. Lauro Schuch substituiu o Presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, ausente em virtude de um compromisso forense, e iniciou a saudação ressaltando que a ABI é uma entidade co-irmã da OAB, com diversos traços históricos semelhantes: — Constituídas inicialmente para organizar e garantir a defesa dos profissionais, ambas trilharam o caminho de luta e sacrifícios para assegurar as liberdades, o desenvolvimento e o progresso da sociedade brasileira. Schuch lembrou os momentos de tensão enfrentados pelas duas entidades na busca por justiça e democracia. — Aqueles que jogaram bombas na OAB foram os mesmos que jogaram bomba na ABI e com o mesmo propósito: calar os que se insurgiam contra a ferocidade do sistema que avassalava os valores mais elementares da civilização. O Vice-Presidente da OAB destacou a vitalidade da ABI e seu compromisso com a liberdade e a democracia ao longo de um século: — Aos cem anos, a entidade se renova com a presidência de Maurício Azêdo, companheiro e combativo militante das causas humanas, que oferece o vigor à ABI, tal qual a OAB, sempre pronta a responder aos anseios do povo. 12 Jornal da ABI 329 Maio de 2008

Acentuando a identidade das associações, Schuch citou os advogados Evaristo de Morais e Evandro Lins e Silva, que tiveram passagens marcantes pela imprensa: — Compartilhamos os mesmos espaços, as mesmas trincheiras, como na década de 30 e, mais recentemente, no impeachment de Collor, quando Barbosa Lima Sobrinho e Evandro Lins e Silva lutaram juntos pelo compromisso de devolver à Nação o cumprimento da Constituição. Esta simbiose nos faz íntegros e merecedores do respeito e da credibilidade de nossa gente. Em nome da ABI e do Presidente do seu Conselho Deliberativo, Fernando Barbosa Lima, Maurício Azêdo agradeceu a homenagem de Lauro Schuch, com quem batalha “há algum tempo em favor das mesmas causas voltadas para o enaltecimento dos valores democráticos e éticos na vida da nossa cidade e estado”. Ele se disse confortado com a lembrança de momentos e princípios que a ABI tem sustentado ao longo de cem anos, em especial a relação forte com a OAB. — Entre os Presidentes da ABI, cerca de 70% eram jornalistas e também advogados. Raul Pederneiras, que dirigiu a Associação no fim dos anos 10, era advogado e também professor de Direito Internacional na antiga Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, a famosa Faculdade do Catete. O jornalista e advogado Barbosa Lima Sobrinho sucedeu a Pederneiras a convite do próprio, que precisava de um jornalista de densidade para ocupar a ABI. Na época, Barbosa Lima Sobrinho, que tinha apenas 29 anos e era redator-chefe do Jornal do Brasil, brilhava na crônica política. Ele deu à ABI o rumo fundamental para a sobrevivência da entidade e sua vitalidade aos cem anos. Lembrou o Presidente da ABI que Barbosa Lima Sobrinho propôs a uni-

Fernando e Maurício lembraram que 70% dos presidentes da ABI eram jornalistas e advogados, como Raul Pederneiras e o próprio Barbosa Lima, pai de Fernando.

ficação das entidades jornalísticas então existentes (Clube de Imprensa, ABI e Associação da Imprensa BrasileieraAIB) para que o sonho de construção da sede própria se concretizasse: — As autoridades públicas da época se comprometeram a doar um terreno no Castelo, desde que elas se unificassem. Barbosa Lima propôs a renúncia dos dirigentes das três associações e a escolha de um nome para a entidade recém-criada. O escolhido foi o jornalista e também advogado Herbert Moses, que nos anos 20 mantinha um escritório com dez advogados, indicativo de seu prestígio e responsabilidade. Também ocuparam a presidência da ABI os jornalistas e advogados Danton Jobim, um dos introdutores do ensino de Jornalismo em nível universitário no Brasil, Prudente de Morais, neto, Elmano Cruz e Fernando Segismundo. Maurício explicou que, como até a década de 60 não era exigido o diploma da categoria, “afluíam à imprensa os jovens advogados empenhados no desejo comum a jornalistas e profissionais do Direito: a sede de justiça”. — O advogado Evandro Lins e Silva, por exemplo, foi um dos fundadores do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do antigo Distrito Federal, hoje Sindi-

cato do Município do Rio de Janeiro, e um dos redatores do primeiro estatuto da instituição. Outro exemplo é o brilhante Antônio Evaristo de Morais Filho, o saudoso Evaristinho, que começou a vida profissional como repórter de polícia do jornal Última Hora na época de Samuel Wainer. O Presidente da ABI agradeceu a homenagem sublinhando a contribuição da OAB-RJ à restauração das instituições democráticas e à denúncia dos atos de violência do regime militar: — Nessa época, eu era chefe de reportagem da sucursal Rio do Estado de S. Paulo e com freqüência pautávamos entrevistas e buscávamos informações com o então Presidente da OAB-RJ, José Ribeiro de Castro Filho, um dos mais corajosos membros da advocacia brasileira na luta pela ordem democrática e a legalidade constitucional. Na esteira dessa linha de atuação, Maurício citou ainda a atuação de Francisco Costa Neto, Eugenio Roberto Haddock Lobo, Virgílio Donnici, Carlos Mauricio Martins Rodrigues, Hélio Saboya, Nilo Batista, Cândido de Oliveira Bisneto, Wadih Damous, Lauro Schuch, Bernardo Cabral, Eduardo Seabra Fagundes, Herman Baeta e Raimundo Faoro. (Claudia Souza)


ABI condecorada com a Medalha Tiradentes A Casa é uma trincheira inexpugnável, diz o Deputado André do PV. POR CLAUDIA SOUZA

Para festejar a fundação da Associação Brasileira de Imprensa, há cem anos, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro realizou no dia 11 de abril sessão solene no Plenário Barbosa Lima Sobrinho, para a entrega da Medalha Tiradentes à entidade. A iniciativa de condecorar a ABI com a maior comenda do Estado do Rio foi do Deputado André do PV, para quem a entidade é “trincheira inexpugnável da defesa da liberdade de imprensa e dos direitos humanos”. Presidida pelo parlamentar, a mesa de honra reuniu o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, o Diretor de Assistência Social da Associação, Paulo Jerônimo de Souza, e a professora Dalva Lazaroni. André iniciou a cerimônia de entrega da comenda dizendo-se feliz por homenagear o centenário da Associação no Plenário Barbosa Lima Sobrinho, “grande brasileiro que presidiu a Casa em vários mandatos e sempre em momentos de importância para a vida nacional”. Em seu discurso, ele destacou os cem anos de dedicação da ABI à causa dos jornalistas e à defesa dos direitos da cidadania, sublinhando episódios marcantes da história da entidade: — Na sede da ABI foram realizadas as reuniões patrióticas que antecederam a lei de 1953 que instituiu a Petrobras. Em 1976, um ato terrorista destruiu todo o sétimo andar de sua sede. Também durante a ditadura, a entidade foi palco de protesto e indignação contra o assassinato de Vladimir Herzog. Na mesma época, recebia numerosas famílias de jornalistas desaparecidos que a procuravam em busca de ajuda. O pioneirismo do fundador Gustavo de Lacerda e de destacados presidentes da Casa, como Herbert Moses e Barbosa Lima Sobrinho, foi lembrado pelo Deputado: — Certa vez, em entrevista a um jornal, Barbosa Lima Sobrinho disse que a imprensa desempenha um papel fundamental na história do Brasil e que tem sido guardiã das liberdades públicas e dos interesses nacionais.

Sobre o papel da Associação nos dias de hoje, André do PV afirmou que a entidade, “tão bem dirigida pelo nobre jornalista Maurício Azêdo, segue cumprindo à risca os rumos que a História lhe destinou, fazendo lembrar os esforços de Gustavo de Lacerda, de Prudente de Moraes, neto e de Barbosa Lima Sobrinho”. Incansável Maurício Azêdo agradeceu ao Deputado, “parlamentar com destacado desempenho e incansável defesa do meio ambiente e dos direitos humanos”, à professora Dalva Lazaroni — a quem elogiou pela iniciativa de escrever a biografia da maestrina e compositora Chiquinha Gonzaga — e ao Diretor da ABI Paulo Jerônimo, “dono de longa e brilhante trajetória no jornalismo brasileiro”. O Presidente da ABI enfatizou que a realização da cerimônia no Plenário Barbosa Lima Sobrinho realçou a significação da concessão da medalha à Casa do Jornalista. — Como ele mesmo dizia, de um lado temos o partido de Silvério dos Reis, que entrega as nossas riquezas e o patrimônio público, e de outro temos o partido de Tiradentes, daqueles que não aceitam qualquer forma de dominação e intervenção no interesse público. Maurício afirmou que a imprensa e o Poder Legislativo são os pilares do regime democrático que se dedicam à missão comum em favor do crescimento da cidadania e dos direitos sociais: — No Legislativo se apresentam as angústias, necessidades e os projetos para a comunidade. A imprensa transmite ao conjunto da sociedade as informações necessárias para que cada cidadão ganhe consciência e, nos momentos oportunos, possa intervir nas decisões. Segundo o Presidente da ABI, o Legislativo foi grande aliado da imprensa também no começo da República, diante da ferocidade com que o Governo Floriano Peixoto tratava seus adversários, e nos anos 20, perante a violência do Governo Arthur Bernardes: — Nesses e em

Paulo Jerônimo (Pagê) e Mauricio recebem de André do PV o diploma da Medalha.

outros momentos, os parlamentares defenderam os interesses coletivos e tiveram na imprensa o meio de divulgação de seus pronunciamentos em favor do avanço das conquistas sociais. Ele lembrou ainda que a Assembléia Legislativa foi palco de momentos históricos do País, como a cassação dos deputados após a Assembléia Constituinte de 1934 e a instalação, em 1946, da primeira Legislatura da Câmara “após um longo período de privação das liberdades e dos direitos civis pela ditadura do Estado Novo”. Os nomes de Afonso Arinos e Carlos Lacerda foram destacados como “memoráveis parlamentares e oradores” e os de Jorge Amado e Carlos Marighella, como importantes quadros da primeira bancada do Partido Comunista Brasileiro que teve assento no Palácio Tiradentes. Ao fim da solenidade, André do PV, em nome da Assembléia, estendeu as homenagens ao ex-Presidente da ABI Fernando Segismundo, “democrata convicto e valente historiador da Associ-

ação no correr de muitas décadas”; e ao atual Vice-presidente da entidade, Audálio Dantas, “mestre de muitas gerações de jornalistas, ex-Presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e defensor invulgar dos companheiros perseguidos e presos pelo regime de então”. Outro homenageado da noite foi o membro da Comissão Diretora de Assistência Social da ABI Eloy Santos, que recebeu o título de Cidadão Benemérito do Estado do Rio de Janeiro. A comenda A Medalha Tiradentes foi criada por decreto-legislativo estadual em agosto de 1989. É concedida a personalidades nacionais e estrangeiras que tenham prestado serviços ao Rio de Janeiro, ao Brasil ou à humanidade. A comenda é acompanhada de diploma e traz, no anverso, a efígie de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e a legenda Alerj; e no reverso, a inscrição Libertas Quae Sera Tamem, dentro do contorno geográfico do Brasil.

Câmara de Itapeva, SP, envia congratulações A Câmara Municipal de Itapeva, SO, consignou em ata Voto de Congratulações à ABI, na pessoa de seu Presidente e de toda a Diretoria pela passagem do centésimo aniversário da entidade. A manifestação foi aprovada em sessão ordinária pela Câmara Municipal de Itapeva e referendada por meio do Requerimento nº 229/08, sob a justificativa de que “é importante ressaltar a atuação da ABI no sentido de lutar pela defesa da liberdade de imprensa, ocupando espaços e contribuindo de forma decisiva para a consolidação da democracia em nosso País”. Além de destacar a trajetória da ABI, os vereadores mencionam o lançamento do

selo comemorativo do centenário, que tem como ilustração imagens do fundador da Casa, Gustavo de Lacerda, e do Edifício Herbert Moses, marco da arquitetura moderna brasileira. Assinam o Voto de Congratulações à ABI os Vereadores Antônio Marmo Fogaça (PSDB), Áurea Aparecida Rosa (PTB), Geraldo Tadeu dos Santos Almeida (PT), Júlio César de Araújo (Dem), Otacílio Franco de Almeida-Ataíde Almeida (Dem), Paulo de La Rua Tarancón (PDT), Paulo Roberto Tarzã dos Santos (PSDB), Sidney José S. Gonçalves (PMDB), Ulysses Mário Tassinari (PV) e Walter Daniel da Silva Júnior (PMDB).

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ANO DO CENTENÁRIO

Pedro Ernesto, uma medalha de valor afetivo A Câmara Municipal do Rio confere à ABI uma comenda de especial significação: foi ele quem doou o terreno onde se ergueu a sede própria da Casa, pela qual o corpo social lutou durante quase 30 anos. gressou aos 11 anos: — Na época da A ABI recebeu no dia 16 de abril, em ditadura, as pessoas procuravam os celebração ao seu centenário, a Medalha jornais para se defender e pedir ajuda. de Mérito Pedro Ernesto, a mais imporEu e minha família somos muito gratante comenda da cidade do Rio de Janeitos ao jornalista Batista Custódio dos ro, concedida pela Câmara Municipal a Santos, que, através de seus artigos, deentidades e personalidades que se destanunciou e ajudou a localizar minha cam no País. Para a ABI a Medalha Pedro irmã, presa pelo regime em 1965, quanErnesto tem especial valor afetivo: foi ele do seguia de Goiânia para Brasília. quem, como Prefeito do Distrito Federal, No encerramento da solenidade, assinou em 1932 o ato de doação do terMaurício Azêdo agradeceu a homenareno onde se ergueu o atual Edifício gem, afirmando que a ABI não é apeHerbert Moses, a sede própria pela qual nas a instituição fundada por Gustavo o corpo social lutava desde os primeiode Lacerda, mas sobretudo aquilo que ros anos de existência da Casa. os grandes jornalistas, enfrentando diPresidida pelo Vereador Stepan Nerficuldades, ajudaram a alcançar: “O cessian (PPS), autor dos requerimentos bem essencial que é a liberdade”. de concessão da Medalha e de convo— Como disse certa vez Prudente de cação da sessão solene em que ela foi Morais, neto, a liberdade é o nosso clientregue, a mesa de honra reuniu o ma, e a ABI é incansável nesta missão. Presidente da ABI, Maurício Azêdo, o Tudo isso só foi possível graças ao Preex-Senador Bernardo Cabra, o advogafeito Pedro Ernesto, que em 1932 assido Modesto da Silveira, ambos sócios nou o decreto de doação do terreno para da ABI, e Orpheu Salles, membro do a construção da sede da ABI. Pedro ErCoselho Deliberativo da ABI e editor nesto permitiu que naquele espaço se da revista Justiça e Cidadania. Nercessian, Maurício e Bernardo Cabral exibem o diploma da Medalha Pedro Ernesto. concentrassem décadas depois decisivas Stepan abriu a cerimônia pedindo um minuto de silêncio em memória do Conselheiro da ABI Arthur Cantalice, morto na véspera, e destacou os serviços que ele prestou à imprensa e ao País ao longo de 81 anos de vida: — Defensor fervoroso da liberdade de imprensa e de uma sociedade mais justa e humanitária, Cantalice terá o nome perpetuado também nesta Casa da Lei. Modesto da Silveira iniciou os discursos cumprimentando o Presidente da ABI pelo brilhantismo e a atuação à frente da Associação: — Ao agradecer a homenagem do Vereador Stepan Nercessian, o Presidente da ABI lembrou que foi Pedro Ernesto que assinou o ato de Conheço Maurício desdoação do terreno onde a Casa construiu sua sede. No fim, Nercessian chamou a delegação da ABI para uma foto de confraternização. de a faculdade, onde já Bernardo Cabral subiu à tribuna para tura, as prisões e todas as atrocidades cobatalhas, como as campanhas O petróse destacava. Ele enfrentou o mais pesado o que considerou uma das mais justas metidas pelo regime. Tive a honra de, leo é nosso, pela anistia ampla, geral e irperíodo da ditadura lutando para o reshomenagens ao longo de sua vida: — junto com Barbosa, empunhar as bandeirestrita, pelas Diretas Já, pela Assemtabelecimento da democracia. Tecemos Maurício, velho companheiro e queriras da ABI e da OAB contra a repressão. bléia Nacional Constituinte e ainda pelo juntos uma teia invisível para chegar a do amigo, é uma das figuras públicas A gestão de Maurício Azêdo à frenimpeachment de Collor, cujo primeiro este momento do País de horizontes deque, ao deixarem os cargos, carregam te da ABI e a renovação da entidade signatário foi Barbosa Lima Sobrinho. mocráticos, em que podemos vislumbrar consigo as orgulhosas cicatrizes do detambém foram enfatizadas: — Cem O Presidente da ABI completou seu e escolher os caminhos políticos. ver cumprido. anos antes e cem anos depois de Maudiscurso falando sobre a emoção de reEm seguida, Orpheu Salles elogiou a A luta contra a ditadura travada perício: assim a ABI será lembrada daqui ceber a homenagem em nome da Assoiniciativa de Stepan Nercessian em holos membros da mesa de honra e a atupra frente. A Associação estava perdenciação: — Este momento é, sem dúvimenagear a ABI e seu Presidente: — Mauação de Barbosa Lima Sobrinho em dedo o contato com seus companheiros, da, um dos mais marcantes dentre as rício Azêdo é um dos ícones da imprensa fesa da liberdade de imprensa e dos dimas pelas mãos dele muitos voltaram, comemorações pelo centenário da ABI. brasileira e teve atuação destacada como reitos civis foram destacadas pelo Senaassim como eu também retornei. A Medalha Pedro Ernesto representa Vereador e Presidente da Câmara Mudor: — No período em que presidi a OAB, Stepan Nercessian agradeceu a oporum patrimônio moral e cívico que a nicipal. Sua trajetória honra a todos os participei de inúmeros eventos pelo País, tunidade de homenagear a ABI e conCasa transmitirá às novas gerações, jornalistas pela luta que travou com alao lado do então Presidente da ABI Bartou que seu primeiro emprego foi no cumprindo sempre o lema “ABI — cem tanaria e pompa contra as desgraças da bosa Lima Sobrinho, denunciando a torjornal goiano Cinco de Março, onde inanos de luta pela liberdade”. ditadura e em defesa do jornalismo. 14 Jornal da ABI 329 Maio de 2008


No Conselho de Cultura, depoimentos reveladores O historiador Haroldo Costa e o Maestro Edino Krieger recompõem momentos da atuação cultural da ABI durante a homenagem prestada à Casa pelo órgão estadual. A homenagem prestada à ABI pelo Conselho Estadual de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, realizada por iniciativa da Presidente do Conselho, jornalista, professora e escritora Ana Arruda Callado, no dia 16 de abril, ofereceu subsídios importantes para a recomposição da trajetória da Casa no campo cultural, graças à memória de dois membros do Conselho, o jornalista, historiador e produtor cultural Haroldo Costa e o maestro e compositor Edino Krieger. Diante dos Presidentes da Diretoria e do Conselho Deliberativo da ABI, Maurício Azêdo e Fernando Barbosa Lima, convidados especiais da sessão, Haroldo e Edino expuseram em narrativas coloquiais, desprovidas de qualquer pretensão de sofisticação, as experiências que tiveram na Casa ainda muito jovens, nos anos 50, quando freqüentavam os espaços que a ABI de Herbert Moses franqueava para manifestações culturais. Contou Haroldo Costa que participou então na ABI de movimentos e eventos que tiveram forte influência em sua formação cultural e política: o Teatro Experimental do Negro, criado e dirigido por Abdias Nascimento, que mais tarde se notabilizaria na defesa dos direitos dos negros e se tornaria senador da República, e o Teatro Popular Brasileiro, criado e dirigido pelo poeta Solano Trindade, que, tal como Abdias, buscava formar e aperfeiçoar talentos entre jovens negros. Tanto o Teatro Experimental do Negro como o Teatro Popular Brasileiro, disse Haroldo, tiveram papel destacado na valorização da cultura negra e na formação de jovens que conquistariam espaço importante no cenário artístico do País, como a atriz Ruth de Souza. O Maestro Edino Krieger lembrou que a ABI sediava eventos importantes na área da música erudita, oferecendo o espaço de seu Auditório Oscar Guanabarino para ensaios e recitais de artistas, sobretudo iniciantes jovens ou ainda adolescentes. Além disso, recordou, a ABI abrigava outras manifestações culturais, como eventos de caráter literário. Entre esses, um ficou fortemente gravado em sua memória: numa de suas visitas ao Brasil, o poeta cubano Nicolás Guillen deu um recital na ABI, em sessão organizada pelo escritor Jorge Amado, anfitrião do poeta. A convite de Jorge Amado, Edino musicou três poemas de Guillén, o que para ele foi motivo de honra para toda a vida. Ao abrir a sessão, prestigiada pela

presença da quase totalidade dos conselheiros, Ana Arruda Callado salientou a importante presença da ABI não apenas no campo da defesa da liberdade de imprensa e das liberdades em geral, mas também no campo cultural, numa tradição iniciada por Herbert Moses e continuada por seus sucessores, notadamente Prudente de Morais, neto e Barbosa Lima Sobrinho. Ana Arruda, que presidiu o Conselho Deliberativo da ABI, manteve sempre forte ligação afetiva com Barbosa Lima Sobrinho e sua esposa, Maria José Barbosa Lima, de quem fez uma biografia. Ao agradecer a homenagem, o Presidente da ABI confessou seu encanto e de Fernando Barbosa Lima diante dos testemunhos de Haroldo Costa e Edino Krieger, com os quais, encerrado o ato, combinou a gravação posterior de depoimentos, pela importância dos relatos que fizeram. Além de destacar a atuação de Barbosa Lima Sobrinho no campo intelectual, em que se notabilizou como polígrafo capaz de escrever sobre o povoamento do Piauí ou a formação de capitais no Japão, a importância da liberdade de imprensa ou a necessidade de defesa do idioma nacional, alguns dos muitos temas de sua copiosa bibliografia, Maurício Azêdo lembrou a iniciação na vida cultural de outro Presidente da ABI, Prudente de Morais, neto, criador, ao lado de Sérgio Buarque de Holanda, de uma publicação do Movimento Modernista, a revista Estética, de que circulou apenas um número. — O refinamento cultural do Doutor Prudente, como o chamávamos com respeito e admiração — disse o Presidente da ABI —, não o impediu de cultuar grandes criadores de música popular, como Sinhô, Ismael Silva e Noel Rosa, sobre o qual fez considerações singulares, como a de que Noel fez “uma ascensão para baixo”: cresceu como criador de arte à medida que se afastou de sua origem social, a classe média, e se aprofundou no conhecimento e na convivência com as classes populares, para assim produzir uma obra extraordinária. Membro do Conselho Estadual de Cultura, o cantor, compositor e escritor Martinho da Vila chegou quase no final da sessão, mas a tempo de ouvir com extremo interesse o relato do Presidente da ABI acerca de Prudente de Morais, neto, que figura com especial relevo na sua admiração. Após o ato, o Conselho promoveu discreto vin d’honneur em homenagem à ABI.

Antes da sessão convocada pelo Senador Inácio Arruda, o Presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (à direita), recebeu o Presidente da ABI e o jornalista Joaquim Campelo.

No Senado, sete discursos de exaltação da ABI Sessão especial requerida pelo Senador Inácio Arruda foi prestigiada pelos principais partidos. O Senado celebrou o centenário da ABI na manhã do dia 24 de abril em sessão especial na qual o autor da iniciativa da homenagem, Senador Inácio Arruda (PCdoB-CE), salientou que “a Associação Brasileira de Imprensa surgiu não apenas para testemunhar a História do Brasil contemporâneo, mas da necessidade, do clamor pela existência de uma organização desse porte” O Senador Inácio Arruda disse ainda que os ideais do fundador da ABI, Gustavo de Lacerda, continuam movendo a luta democrática e libertária do povo brasileiro: — Ao completar cem anos, a ABI mostra-se cada vez mais jovem. Nunca perdeu seu viço e o vigor de seus primeiros anos de vida e jamais se afastou do caminho traçado pelos pioneiros que a constituíram e a consolidaram. É impossível desvincular a ABI de todos os momentos decisivos que se consubstanciaram no Brasil de nossos dias. Ao mesmo tempo em que dava as mãos à cidadania, na busca incessante da superação dos quadros de exceção que agrediam a consciência democrática, a entidade defendia a integridade física e moral dos jornalistas. A figura de Barbosa Lima Sobrinho foi ressaltada pelo Senador como sinônimo de liberdade de imprensa e amor ao Brasil. — Ao longo de mais de cem anos de vida, esse advogado, jornalista, ensaísta, historiador, professor, ex-Governador, político que Pernambuco ofereceu ao Brasil, não fez outra coisa senão dar lições cotidianas de coerência de princípios, de integridade pessoal e de devoção absoluta às causas populares e nacionalistas. No fim do discurso, Inácio Arruda cumprimentou Maurício Azêdo por sua gestão, reafirmando que “a luta

pela democratização da mídia e em defesa da cultura nacional representa uma bandeira estratégica, que exige a mobilização da sociedade”. Também enalteceram o centenário da ABI os Senadores Pedro Simon, Marisa Serrano, Serys Slhessarenko, Mão Santa e o Presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho, que destacou o papel da ABI na busca por uma sociedade mais democrática: — Temos consciência de que se não fosse a imprensa a nossa voz daqui não ganharia os espaços desta nação e, sobretudo, não inundaria os corações dos brasileiros que gritam que a democracia é uma conquista eterna do povo brasileiro — disse o Presidente do Senado. O Senador Pedro Simon (PMDB-RS) lembrou o papel da ABI na luta pela liberdade e em defesa da cultura nacional. O primeiro cineclube do Brasil, ressaltou, foi criado pela associação. A entidade também participou decisivamente, como recordou, em campanhas políticas como as da luta pela anistia, pelo fim da censura prévia, pelas eleições diretas e pela realização de uma Assembléia Nacional Constituinte: — Em uma hora em que o Brasil vive sem referências, nós prestamos uma homenagem cívica a nossas referências mais queridas, mais puras. A ABI é um orgulho do Brasil, um orgulho de nosso povo. A Senadora Marisa Serrano (PSDBMS) concordou com Simon e afirmou que se precisa da ABI para “dar um rumo à sociedade brasileira”. Sua colega Serys Slhessarenko (PT-MT) ressaltou a necessidade de se buscar um jornalismo com responsabilidade; a imprensa, a seu ver, “deve informar, não julgar e condenar indivíduos”. Já o Senador Mão Santa (PMDB-PI), ao lembrar a contribuição de seu Estado para Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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ANO DO CENTENÁRIO

Diante de um plenário atento, o Senador Pedro Simon (PMDB-RS) disse que a ABI é uma das referências mais queridas, mais puras, um orgulho do nosso povo.

a História da imprensa brasileira, ressaltou o exemplo do jornalista Carlos Castelo Branco, que durante muitos anos foi titular no Jornal do Brasil da mais importante coluna política já editada no País. Logo após participar de uma audiência pública da Comissão de Educação e Cultura do Senado, o Senador Eduardo Suplicy (OT-SP) dirigiu-se ao Plenário para pedir um aparte à sua colega Serys Slhessarenko, no qual se associou às homenagens à ABI. Maurício Azêdo agradeceu a homenagem e a exaltação do compromisso

da ABI com a liberdade: — Nestes cem anos, a Associação e sua militância enfrentaram desafios, perigos, ameaças e represálias para que a liberdade fosse e seja sempre um bem a cobrir e proteger o conjunto dos brasileiros. Nós da ABI ficamos muito sensibilizados com o destaque que se dá a esse empenho da Casa em torno da questão da liberdade, que foi erigida pela ABI como divisa das comemorações do seu centenário, por proposta de um membro do nosso quadro social, o jornalista Rodolfo Konder: “ABI — cem anos de luta pela liberdade”. O Presidente agradeceu ainda a men-

ção a pessoas que contribuíram para a construção da ABI e dedicaram suas vidas à defesa das liberdades no País: — Os diferentes parlamentares que se pronunciaram aqui exaltaram figuras que sobrevivem na nossa memória e na nossa admiração pela contribuição que ofereceram ao jornalismo e à vida nacional, como Barbosa Lima Sobrinho, que sempre dizia: “O meu patrão é o Brasil. Todos os brasileiros deveriam ter a disposição de servir apenas ao Brasil e ao povo brasileiro”. À mesa tiveram assento, além do Presidente da ABI, a Subprocuradora-

Geral da República, Julieta Cavalcânti de Albuquerque, o Presidente da Imprensa Nacional, jornalista Fernando Tolentino de Sousa Vieira, e o Senador Inácio Arruda, a quem o Senador Garibaldi Alves Filho passou a presidência dos trabalhos após instalar a sessão e render homenagem à ABI. Entre os presentes encontravam-se os jornalistas Domingos Xisto da Cunha e Tarcísio Holanda, membros do Conselho Deliberativo da ABI radicados em Brasília, Chico Dias e Joaquim Campelo Marques, Diretor de Publicações do Senado. (Claudia Souza)

Um ciclo em que a imprensa se questiona Com o dobro da idade da ABI, a Imprensa Nacional chama a imprensa para discutir este tema: ela própria. O centenário da ABI, veículos impressos versus eletrônicos, as contradições da mídia antiga e atual e a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista centralizaram o debate da terceira edição do ciclo de conferências A Imprensa discute a imprensa, realizado na noite do dia 28 de abril no Auditório Dom João VI da Imprensa Nacional, em Brasília. Diversos especialistas discorreram sobre o tema 200 anos de imprensa, 200 anos de jornalismo: passado, presente e futuro, em conferências promovidas pela Associação dos Servidores da Imprensa Nacional-Asdin e pelo Correio Braziliense, com o apoio da Imprensa Nacional. Como homenageada da noite, a ABI, representada por seu Presidente, Maurício Azêdo, foi reverenciada logo no início, com placas de homenagem entregues pelo editor de Suplementos do Correio Braziliense, Renato Ferraz; pelo Presidente da Asdin, Humberto Borges, 16 Jornal da ABI 329 Maio de 2008

Presidente da Imprensa Nacional, Fernando Tolentino (à direita) destacou a importância da ABI para o País pelas campanhas que desenvolveu, como a do petróleo.

e pelo Diretor-Geral da Imprensa Nacional e mediador do debate, Fernando Tolentino. Na abertura da conferência, Tolentino agradeceu a presença do Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, Romário Schettino, e Trajano Jardim, da Diretoria da Asdin, e expliou o objetivo do ciclo: — Ele homenageia a um só tempo os 200 anos do Correio Braziliense, da Imprensa Nacional e da Gazetal do Rio de Janeiro, primeiro jornal editado no País, e muito especialmente o centenário da ABI. Tolentino ressaltou a importância da ABI para o País, marcada por campanhas sérias, como a luta em favor da presença brasileira nas tropas que combateram o nazifascismo, as campanhas O petróleo é nosso e pela anistia, a convocação da Assembléia Nacional Constituinte e o impeachment de Collor, que teve o então Presidente da ABI, Barbosa Lima Sobrinho, como primeiro signa-


tário da petição submetida ao Congresso.. Citou ainda a ABI dos últimos anos, conduzida por Maurício Azêdo, “cuja trajetória é marcada pelo destaque na criação e edição de revistas como a Placar e saudosos títulos de jornais de resistência à ditadura militar, como Opinião e Movimento”. O Presidente da ABI saudou companheiros de luta presentes na platéia, como Trajano Jardim e o fotógrafo Pedro Torre, agradeceu as homenagens da Asdin, do Correio Braziliense e da Imprensa Nacional e destacou a relevância dos veículos de comunicação em acontecimentos históricos do País, como os citados por Tolentino: — Todos sublinham a importância da imprensa e dos meios de comunicação na vida nacional, que contam agora com um sistema de informação muito amplo e variado. No fim do pronunciamento, Maurício ressaltou: — Para nós, tanto quanto o centenário da ABI causa-nos muito orgulho o bicentenário da Imprensa Nacional, da Impressão Régia, da Tipographia Nacional, do Departamento da Imprensa Nacional, nomes que ela adotou através dos tempos, porque essa é a matriz do pensamento expresso em termos gráficos do País desde 1808. Na segunda parte do ciclo, a experiência dos debatedores contribuiu para intensa participação da platéia, composta de estudantes de Comunicação e profissionais. Raul Pilate, editor de Economia do Correio Braziliense, acrescentou novos dados à discussão em torno do futuro do jornalismo impresso versus eletrônico, citando estudos que apontam o ano de 2034 como o último do jornal em papel. A Diretora do curso de Comunicação Social da Universidade Católica de Brasília, Elen Geraldes Cristina, concentrou sua fala no “perfil contraditório apresentado pelos jornais ao longo de 200 anos de história” e, a partir daí, nas seguintes questões: como pensar a imprensa em um país que pouco lê, com mais escritores que leitores? Como o Brasil aparece na imprensa? Como conciliar interesses de grupos com o desafio da notícia? Professor do Instituto Superior de Brasília e repórter da revista CartaCapital, Leandro Fortes abordou a exigência do diploma para o jornalista, guiado por dados projetados em um telão. Disse ele que a “batalha” em torno do assunto apresenta um desrespeito tolerado, o desprezo pela vida acadêmica, a falácia da escola de redação, o discurso patronal, a síndrome da grande imprensa, a pobreza de argumentos contra o diploma e uma arrogância intelectual de jornalistas com mais tempo de atuação. No encerramento da terceira edição do ciclo, Fernando Tolentino e Humberto Borges entregaram aos expolsitores um exemplar dos livros Machado de Assis, servidor público, editado numa parceria da Imprensa Nacional com o Senado, e Imprensa Nacional, da linotipia à era digital, de Jalmir Freitas.

O Senador Marco Maciel (ao centro) e o Deputado Miro Teixeira (à direita) no debate mediado pelo Presidente da ABI.

A Câmara Federal põe a liberdade em discussão E a ABI é festejada por defendê-la há 100 anos. A ABI foi homenageada no dia 29 de abril durante a III Conferência Legislativa sobre Liberdade de Imprensa, realizada no auditório da TV Câmara, na Câmara dos Deputados, em Brasília, por iniciativa da Associação Nacional de Jornais-ANJ e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura-Unesco, com o objetivo de debater a liberdade de imprensa no Brasil e comemorar o centenário da ABI, os 200 anos da imprensa no Brasil e o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa e de Expressão, instituído pela Unesco e que transcorre em 3 de maio. Com o apoio da ABI, da Sociedade Interamericana de Imprensa-Sip, da Associação Nacional dos Editores de Revistas-Aner, da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TelevisãoAbert e da Escola Superior de Propaganda e Marketing, foram realizados os painéis Conquista do direito à liberdade de imprensa e A imprensa na história política do País. Na abertura do evento, o Presidente da ANJ, Nelson Sirotsky, destacou a homenagem à ABI, “um dos orgulhos nacionais, símbolo da luta pela liberdade e do combate ao autoritarismo”, e a importância do debate sobre a liberdade de imprensa dentro do Congresso Nacional: — O Poder Legislativo e a liberdade de imprensa caminham juntos. Vivemos hoje no Brasil com ampla liberdade de imprensa, mas é essencial debater o tema e propagar sua importância vital para a democracia. Há muito a ser discutido e aperfeiçoado. A ABI foi homenageada também nos discursos dos Presidentes da Câmara, Arlindo Chinaglia, e do Senado, Garibaldi Alves Filho; do Vice-presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa , Enrique Santos; e do Coordenador do Centro de Comunicação e Publicações

da Unesco no Brasil, Célio da Cunha. No primeiro painel, moderado pelo Presidente da ANJ, Nelson Sirotsky, falaram o Vice-Presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho; o representante do Conselho de Administração do Grupo Estado Júlio César Mesquita; o Presidente da Folha de S.Paulo, Luís Frias; e o Presidente do Grupo Abril, Roberto Civita. João Roberto Marinho criticou as decisões do Poder Judiciário que “significam, na prática, a censura prévia”, enquanto Luís Frias sugeriu que o Congresso vote uma nova Lei de Imprensa, sintonizada com a Constituição de 1988. Júlio César Mesquita historiou a censura sofrida pelo jornal Estado de S. Paulo ao longo da sua existência, sobretudo durante o regime militar, e Roberto

Civita sustentou que a liberdade de imprensa e a democracia são valores próprios das economias de mercado. O Presidente da ABI, Maurício Azêdo, foi o moderador do segundo painel, que teve como expositores o Senador Marco Maciel (Dem-PE), o Deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) e o Presidente Nacional da OAB, Cezar Britto. Miro Teixeira, que integra o Conselho Consultivo da ABI, fez um histórico de como as Constituições brasileiras trataram a questão da liberdade de imprensa e advogou que pela Constituição de 1988 não há necessidade de legislação para regulamentar a questão, ou seja, é totalmente desnecessária a existência de qualquer Lei de Imprensa. Maurício Azêdo agradeceu as homenagens prestadas à ABI e disse que “a conferência foi uma bela oportunidade para discutir um tema que não interessa apenas aos jornais e aos jornalistas, mas a toda a sociedade”: — Liberdade de imprensa não é um direito da imprensa, mas dos cidadãos. É importante que se debata a questão para buscar aperfeiçoamentos que garantam o pleno exercício da liberdade de informar e ser informado.

Os Presidentes do Senado, Garibaldi Alves Filho, e da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, tiveram participação destacada na III Conferência Legislativa sobre Liberdade de Imprensa e nas homenagens nesta prestadas à ABI.

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ANO DO CENTENÁRIO

No Diário do Nordeste, uma página para o centenário Homenagens à ABI reúnem o principal jornal do Ceará e destacadas instituições, incluída a Assembléia Legislativa, que fez sessão especial. Na sua edição do dia 7 de abril, o jornal Diário do Nordeste, o principal do Ceará, dedicou matéria de capa do Caderno 3 às comemorações do centenário da ABI. O texto lembra a atuação da ABI em diversos atos em defesa da democracia e dos interesses do País e constitui uma das muitas manifestações da comunidade cearense em homenagem à Casa, exaltada por destacadas instituições locais, entre as quais a Assembleia Legislativa do Estado, que realizou sessão solene em homenagem à ABI. A convite da ABI, a jornalista Adísia Sá representou a Casa na solenidade. Adísia, integrante da Comissão de Honra do Centenário da ABI, foi a primeira mulher a presidir um sindicato de jornalistas no País, o do Ceará. A seguir, a matéria do Diário do Nordeste. A luta pioneira pela organização coletiva dos profissionais de imprensa como protagonistas na sociedade. A campanha O petróleo é nosso, iniciada em 1948 e que redundaria na criação da Petrobras, hoje uma das maiores empresas do planeta. A resistência à censura e às arbitrariedades da ditadura militar em um Estado de exceção. A mobilização pela anistia no fim dos anos 70, pelas Diretas Já e pela Constituinte na década seguinte. A vexatória derrocada do primeiro presidente eleito após a longa espera pela redemocratização do País. São exemplos de capítulos da história brasileira escritos, no último século, com a participação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), entidade que nesta segunda-feira chega aos 100 anos de atividades. E recebe homenagens no Rio de Janeiro, onde desde 1938 é sediada sob a marcante arquitetura do Edifício Herbert Moses, no nº 71 da Rua Araújo Porto Alegre, no Centro da capital fluminense. No Teatro Municipal, reunindo diversas personalidades escolhidas para compor a Comissão de Honra do Centenário da ABI, a noite de hoje ganha os sons da Orquestra Petrobras Sinfônica, apresentando uma releitura jazzística para obras de Villa-Lobos, e do cantor e compositor Paulinho da Viola. Também hoje será lançado pelos Correios um selo alusivo à data, trazendo a imagem da sede da Associação, junto à de seu primeiro presidente, o catarinense Gustavo de Lacerda. As homenagens se estendem também ao jornalista Barbosa Lima Sobrinho, Presidente da ABI em quatro mandatos — o primeiro, iniciado em 1926. Ícone representativo das idéias nacionalistas e da importância do jornalismo para a democracia e a consciência política e social, Barbosa Lima Sobrinho teve papel preponderante na derrocada do Governo do Presidente Fernando Collor de Mello, como res18 Jornal da ABI 329 Maio de 2008

ponsável pelo pedido de abertura de impeachment e primeiro orador inscrito para defender o processo. Enquanto a programação da ABI promete se prolongar ao longo de todo o ano de seu centenário, com exposições, seminários e atividades em vários Estados brasileiros, as homenagens neste 7 de abril, Dia do Jornalista, se espalham pelo País, incluindo o Ceará. Em Fortaleza, às 9h, a efemeridade será marcada por uma solenidade no plenário da Assembléia Legislativa, solicitada pelo presidente da casa, Deputado Domingos Filho (PMDB), a partir de proposta feita em conjunto pela Associação Cearense de ImprensaACI, pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará- Sindijorce, pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Gráficas no Estado do Ceará-Sintgrace e pela Associação Cearense das Emissoras de Rádio e Televisão-Acert. ”Desde a sua fundação até os nossos dias, a ABI nunca se afastou do seu papel principal, que é a defesa da liberdade de expressão e dos direitos humanos. É com essa linha de atuação que ela tem estado na vanguarda de grandes acontecimentos do jornalismo e da história do Brasil como um todo”, afirma Ivonete Maia, recentemente eleita Presidente da Associação Cearense de Imprensa. Destacando que a entidade procurará trazer a Fortaleza os eventos concebidos pela ABI para marcar o centenário, Ivonete ressalta o papel desempenhado pela instituição nacional quando a ditadura militar que perdurou de 1964 a 1985 impôs intensa perseguição a jornalistas e a vigência da censura prévia. “Na ditadura, a ABI acolheu e assistiu muitos jornalistas perseguidos, fez com muita coragem o que precisava ser feito em um momento como aquele, dando apoio e proteção àqueles que estavam sendo procurados”, enfatiza a jornalista cearense. Na manhã da últi-

Barbosa Lima Sobrinho é o ícone das idéias nacionalistas, diz o Diário do Nordeste.

ma sexta-feira, o Auditório Oscar Guanabarino, no 9º andar do edifício da ABI, recebeu a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, para a primeira sessão especial de julgamento de pedidos de indenização de perseguidos políticos pelo critério de categorias específicas. Com a presença do Ministro Tarso Genro, foram julgados e deferidos 20 processos relacionados a jornalistas. Conforme destaca a ABI em seu site oficial, as maiores indenizações foram concedidas aos cartunistas Jaguar (R$ 1.027.383,29) e Ziraldo (R$ 1.253.000,24). Na ocasião, também foi lançada a Caravana da Anistia, iniciativa da Comissão para itinerar até 2010 por todos os Estados brasileiros, chamando atenção para a questão da violação dos direitos humanos. A ocasião marcou ainda uma homenagem aos jornalistas David Capistrano (desaparecido em 1974) e Vladimir Herzog, morto após ser torturado em dependências do DoiCodi, em São Paulo, em 1975. Jornalismo e conscientização Em nota oficial assinada em conjunto com a Federação Nacional de Jornalistas- Fenaj, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará destaca que o centenário da ABI marca “a luta histórica dos jornalistas brasileiros pela liberdade de expressão, pela valorização e pelo reconhecimento de uma profissão que, como diria o eterno presidente da ABI, Barbosa Lima Sobrinho, tem como principal compromisso levar à população a conscientização política e social”. O sindicato ressalta a luta por “salários dignos, condições de trabalho, qualificação permanente, respeito profissional e, sobre-

tudo, regras claras que balizem a relação da imprensa com a sociedade”. A Presidente do Sindijorce, Déborah Lima, lembra o pioneirismo da ABI na organização de uma entidade representativa dos jornalistas brasileiros: — Paralelamente ao Sindicato dos Gráficos, que era classista e precedeu a organização dos jornalistas, a ABI teve esse papel histórico, de reunir a categoria, iniciar a organização dos jornalistas como classe — sublinha.—Mais tarde, com o Barbosa Lima Sobrinho, a entidade se volta pra valorização da profissão e pra defesa da responsabilidade social do jornalismo como ferramenta de conscientização do povo brasileiro. Presidente da Associação das Emissoras de Rádio e Televisão do Ceará, o jornalista e radialista Edilmar Norões, diretor-geral de programação das TVs Diário e Verdes Mares e colunista do Diário do Nordeste, enfatiza a batalha histórica da ABI pela liberdade de expressão: — Não se faz democracia forte sem liberdade de expressão. Esse sempre foi o grande objetivo da ABI, em momentos difíceis como a ditadura. Só se fazem entidades como a ABI lutando, batalhando, como ela faz, afirma. Para Edilmar Norões as comemorações em torno dessa data são extremamente necessárias: — O papel da ABI ao longo desses 100 anos precisa ser mostrado à nação — acrescenta Edilmar. — Hoje a imprensa tem mais transparência, e o veículo que não refletir a verdade vai responder perante seu público. Por mais que se possa ter uma crítica aqui ou acolá, são os jornais que trazem as grandes denúncias. Um presidente da República foi cassado graças à repercussão dada pela imprensa. A ABI lutou por essa liberdade, cumpriu e cumpre com esse papel. E, daqui pra frente, mais é que tem condições de cumprir. Uma instituição pioneira Criada em 7 de abril de 1908, a ABI tinha como objetivo assegurar direitos assistenciais à classe jornalística e tornar-se um centro de ação. Nas palavras de seu fundador, Gustavo de Lacerda, a instituição deveria ser “um campo neutro em que se pudessem abrigar todos os trabalhadores da imprensa”. O primeiro projeto de estatuto da entidade foi elaborado por Mário Galvão e Amorim Júnior, juntamente com Lacerda. De acordo com o histórico mantido pela ABI, a Associação demandou muita luta para se consolidar, com seus fundadores muitas vezes tratados como indesejáveis, entre o descaso e a hostilidade. Quanto à estrutura física, a entidade passou por diversos espaços alugados ou cedidos pelo Poder Público, até construir sua sede, na década de 30, em um edifício que se tornaria marcante para a arquitetura moderna brasileira, sob influência do suíço Le Corbusier. O 7º andar do edifício foi palco de um atentado a bomba em 1976, quando a ABI se destacava entre as entidades de resistência ao regime militar.


Emoção na entrega do prêmio Personalidade da Comunicação Dirigentes da ABI são agraciados com prêmio no 11º Congresso de Comunicação, que reuniu em São Paulo mais de 500 profissionais de todo o País. POR WILSON B ARONCELLI

Ottoni Fernandes Jr., Subchefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, foi às lágrimas ao discursar depois de entregar à ABI o troféu Personalidade da Comunicação, recebido pelo Vice-Presidente da entidade e Presidente de sua Representação em São Paulo, Audálio Dantas, na noite de 14 de maio, no Centro de Convenções Rebouças, na capital paulista. Ele recordava o alento que sentiram, no Rio, os presos políticos do regime militar em 31 de outubro de 1975, quando souberam que, em São Paulo, mais de 8 mil pessoas haviam participado do ato ecumênico contra a tortura e em memória do jornalista Vladimir Herzog, assassinado nos porões da ditadura seis dias antes. Emocionadas lembranças daqueles tempos tenebrosos também estiveram nas falas do próprio Audálio e do jornalista e escritor Rodolfo Konder, que representou o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, impossibilitado de comparecer à solenidade em homenagem ao centenário da entidade. Afinal, ambos estiveram direta e ativamente envolvidos no episódio, o primeiro, então Presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e o segundo, companheiro de prisão de Herzog. A cerimônia fechou o primeiro dia do 11º Congresso Brasileiro de Comunicação Corporativa, que a Mega Brasil Comunicação realizou até o dia 16, com a participação de mais de 500 profissionais de todo o País. Integraram a mesa que presidiu a solenidade, além de Audálio, Konder e Ottoni — este representando o Ministro Franklin Martins —, Bruno Caetano, Secretário estadual de Comunicação de São Paulo — representando o Governador José Serra —, e Cícero Sandroni, Presidente da Academia Brasileira de Letras, além dos representantes dos patrocinadores, respectivamente,

deles o próprio Presidente da ABI, preso e barbaramente torturado). Mas também brincou: — Eu deveria agradecer aos militares, pois o meu exílio me permitiu conhecer o Canadá, um país maravilhoso. Audálio Dantas começou seu discurso de agradecimento também com uma homenagem, mas ao sempre repórter José Hamilton Ribeiro, que estava presente à cerimônia e foi o primeiro a receber o prêmio concedido agora à ABI. Depois, Rodolfo Konder, representando o Presidente da ABI, e Audálio falou sobre as lutas da Dantas recebem o troféu Personalidade da Comunicação. entidade ao longo desse século de vida: do Prêmio e do Congresso: Fernando — Estes cem anos não se restringem Freitas, assessor de Relações Institucioà retórica da liberdade de imprensa, mas nais da Telefonica no Brasil, e Nemércio a uma ativa e concreta participação na Nogueira, Diretor de Assuntos Instituconstrução dos destinos do País. cionais da Alcoa América Latina. Uma das principais, segundo ele, teve Primeiro a discursar, Sandroni chainício com Gustavo Lacerda, criador do mou a atenção para a semelhança das estatuto que daria origem à ABI, que trajetórias da ABL e da ABI, que particonseguiu aprovar no primeiro congreslharam inclusive diversos de seus memso da categoria, em 1918, a idéia da cribros (ele próprio milita em ambas), ação de uma escola de profissionais da assim como os feitos da entidade jornaimprensa, que se concretizaria apenas lística, lembrando as pressões que esta em 1948, com o surgimento da primeira sofreu dos Governos de Artur Bernarfaculdade de Jornalismo do Brasil, a des, de Getúlio Vargas e da ditadura Cásper Líbero. Por fim, Audálio agrademilitar. Fernando Freitas enfatizou a imceu o trabalho do Conselho Consultivo portância da ABI para o País, pois semda ABI em São Paulo e homenageou pre esteve na linha de frente da liberdaVladimir Herzog, afirmando que “sua de de expressão e da construção da demorte nos fez repensar e refletir sobre mocracia brasileira. a situação do País da época”. Ao receber o troféu em nome de Além de se emocionar com as lemMaurício Azêdo, Konder prestou-lhe branças daquele período, Ottoni Feruma homenagem, recordando episódios nandes enfatizou a importância do da época em que ambos trabalharam na papel da Associação e sentenciou: extinta revista Realidade, no fim dos — Feliz é o país que tem uma entidaanos 1970, e do período em que os jorde como a ABI, que sempre prezou pela nalistas foram muito perseguidos (um liberdade de expressão e de opinião.

Edição de Jornalistas & Cia. publica artigo de Lula sobre a ABI e seus 100 anos Os cem anos da ABI ganharam edição especial do informativo eletrônico Jornalistas & Cia., que assinalou em editorial que “a epopéia do jornalismo brasileiro, que completa 200 anos de vida em 2008, divide com o centenário da ABI as atenções de quem vê no exercício dessa profissão uma das portas de entrada para a cidadania, na plenitude do termo”. Em artigo escrito especialmente para essa edição, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz que “os cem anos da Associação Brasileira de Imprensa são cem anos de luta pela liberdade de expressão no País. E a luta pela liberdade de expressão é a luta pela própria democracia no Brasil”. Para ele, a democracia de um Estado só se consolida e se fortalece quando a imprensa é livre

“e a ABI, ao longo de um século, tem-se portado como a guardiã dos princípios mais altos da democracia, da liberdade de expressão e do jornalismo independente, crítico e apartidário”. A edição do Jornalistas & Cia. contém também uma entrevista com o Presidente da ABI, Maurício Azedo, na qual ele fala sobre o empenho da entidade em questões como liberdade de imprensa, direito de acesso às fontes de informação e direitos humanos. Sobre o legado da entidade para a trajetória do jornalismo brasileiro, ele diz que “a ABI introduziu um elemento novo no mundo do trabalho: uma associação de trabalhadores, uma organização de classe para defender os direitos da profissão”.

Tribunais de Contas exaltam atuação da ABI pela democracia Cortes de Contas da Bahia e de Goiás destacam a ação da Casa em defesa da cidadania, da democracia, da ética e dos direitos humanos. Ao agradecer o convite para o Show do Centenário, comemorativo dos cem anos da Casa, os Presidentes dos Tribunais de Contas do Estado da Bahia, Conselheiro Manoel Figueiredo Castro, e de Goiás, Conselheiro Edson Ferrari, exaltaram a atuação da ABI em defesa da cidadania, da democracia, da ética e dos direitos humanos. Manoel Castro lamentou não ter podido participar do “imperdível acontecimento patrocinado pela ABI, entidade que durante os seus cem anos de existência tem sido ardorosa defensora da cidadania, da democracia e da ética, não descurando, em um só momento, dos ideais e princípios lançados nos alicerces da sua fundação, posto que o convite somente foi recebido no dia 8 corrente, cujo atraso, certamente, se deu em razão da greve dos funcionários dos Correios”. Também Edson Ferrari lamentou “a oportunidade perdida de assistir à programação artística do mais alto gabarito, além da prazerosa companhia dos ilustres dirigentes dessa Associação e de seus convidados”. Disse ainda o Presidente do TCE de Goiás: “Aproveito o ensejo para manifestar a V. Sa. meu respeito e especial admiração à Associação Brasileira de Imprensa, uma vez que, antes de ser Conselheiro do Tribunal de Contas do meu Estado e de ocupar outros cargos na administração pública, fui jornalista, homem de comunicação. Daqui, do coração do País, acompanhei com interesse a prestigiada e respeitada atuação da Associação Brasileira de Imprensa, abraçando, em patamar de igualdade com a Ordem dos Advogados do Brasil e outras instituições nacionais, a defesa de bandeiras como a democracia, a do Estado de Direito e dos direitos humanos. A ponto de se constituir no que é hoje, com todo o mérito, uma das maiores instituições democráticas do País.” Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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A PLATÉIA DE JÔ APLAUDE O CENTENÁRIO Uma entrevista com o Presidente da ABI, no dia 13 de maio, ensejou aplausos ao centenário da Casa pela numerosa platéia do Programa do Jô, em que Jô Soares entrevistou Maurício Azêdo, que respondeu a perguntas tanto sobre a ABI como sobre sua trajetória pessoal e profissional. Ao iniciar a entrevista, Jô Soares indagou de Maurício se sempre pretendeu ser jornalista. Maurício revelou que seu objetivo era ser advogado, porém no terceiro ano do curso de Direito enveredou para a área de jornalismo. No fim do curso, trabalhava em quatro lugares — numa associação de assistência à agricultura, no antigo IAPI (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários), no Jornal do Commercio e no Diário Carioca – nos quais ganhava mais do que perceberia se começasse a trabalhar na advocacia, partindo do ponto zero. Jô Soares fez perguntas também sobre as transformações sofridas pelo jornalismo ao longo dos 50 anos de atividade profissional de Maurício, como o desaparecimento das edições vespertinas que os jornais mantinham. Maurício localizou o começo desse processo no início dos anos 70, quando os jornais foram retardando os horários de fechamento e acabaram ocupando com a primeira edição o espaço que seria da edição vespertina. Sobre o período da repressão, o Presidente da Casa recordou as inúmeras vezes em que foi preso, a primeira vez em 1954, antes da morte de Getúlio, durante as agitações estudantis que então ocorriam As sessões de tortura pelas quais passou, objeto de perguntas de Jô, foram comparadas a “verdadeiras cerimônias diabólicas”, como se deu com as sessões de suplício na “cadeira do dragão”, em que o preso, encapuzado, era atado a uma cadeira como as de um salão de barbeiro, com

os braços revestidos de metal, e submetido a choques elétricos, que se repetiam à medida que os torturadores consideravam insuficientes as respostas assim arrancadas. Do ritual de torturas fazia parte o recolhimento do preso a uma cela de um metro quadrado, se tanto, com ar-refrigerado ligado a toda força e a estridência de um ruído comparável ao do volume do conjunto de motores de veículos quando atravessam um túnel urbano. O chão era revestido de uma pasta pegajosa, para impedir que, apesar da fadiga de dias e dias de intermináveis interrogatórios, o preso sentisse insuperável desconforto ao tentar se deitar. “Foi uma descida ao inferno”, disse Maurício. No telão do programa, foi exibido um anúncio de 30 segundos feito pela agência África, do publicitário Nizan Guanaes, com reflexões sobre a importância da vírgula no texto impresso ou falado: o significado da mensagem pode ser radicalmente alterado dependendo da posição em que a vírgula é localizada. O texto foi aplaudido pela platéia, assim como seus criadores, publicitários Fábio Seidl e Bruno Brasil, presentes à gravação do programa. Convidados a se levantar por Jô, Fábio e Bruno foram aplaudidos inten-

Jô Soares entrevista o Presidente da ABI: na pauta as transformações da imprensa.

samente pela assistência, composta sobretudo por jovens – como eles dois. Jô Soares lembrou a atuação da ABI nos protestos contra o assassinato do jornalista Tim Lopes e destacou o papel da entidade na luta pela apuração de importantes fatos de interesse da sociedade. A trajetória de Herbert Moses foi ressaltada como sinônimo da Associação, especialmente por seus esforços na construção da sede da entidade.

Foram também projetadas no telão do programa fotos de Maurício Azêdo ao lado de destacados associados da ABI, como Austregésilo de Athayde, Ancelmo Góis, Carlos Drummond de Andrade, Barbosa Lima Sobrinho, o caricaturista Álvarus e Fernando Segismundo, entre outros. A íntegra da entrevista está no Clip na Web do Site da ABI (www.abi.org.br).

Homenagem à ABI na Plenária da OAB federal O Presidente Cézar Britto ressalta a colaboração entre as duas instituições desde os anos 30, quando a Ordem dos Advogados foi fundada. O centenário da ABI foi homenageado no dia 19 de maio em sessão plenária do Conselho Federal da OAB, em Brasília. A mesa de honra reuniu os Presidentes da ABI, Maurício Azêdo; da OAB, Cezar Britto, e do Instituto dos Advogados Brasileiros-IAB, Paulo Sabóia; os ex-Presidentes da Ordem Marcelo Lavénère, Mário Sérgio Duarte Garcia, Ernando Uchoa Lima e Reginaldo de Castro; a Secretária-Geral da OAB, Cléa Carpi da Rocha; e a ex-Presidente do IAB Maria Adélia Campello. A cerimônia contou ainda com a participação de Vladimir Rossi Lourenço, Vice-Presidente do Conselho Federal da OAB; do Diretor Ophir Cavalcante Júnior; de Márcio Thomaz 20 Jornal da ABI 329 Maio de 2008

Bastos e Roberto Busato, membros honorários vitalícios da Ordem; e Paulo Bonavides e Fábio Konder Comparato, ambos detentores da Medalha Rui Barbosa da OAB. O Presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Cezar Britto, saudou a ABI e a OAB como instituições parceiras desde a década de 30, quando a Ordem foi fundada. — Ambas partilharam lutas históricas que marcaram os últimos cem anos no País, sobretudo aquelas voltadas para o restabelecimento e o aprimoramento da democracia no Brasil após duas ditaduras — Estado Novo e regime militar de 64 —, e têm em comum a sede de justiça.

O Presidente da ABI ressaltou que as campanhas travadas pelas duas entidades pela convocação das Assembléias Constituintes de 1946 e de 1986-87 ajudaram a restaurar a ordem democrática no País. Lembrou também como símbolos de união das duas entidades as lutas pela anistia na segunda metade dos anos 70, pelas eleições diretas em 1983-1984 e pelo impeachment de Fernando Collor de Mello. O pedido de abertura do processo contra Collor foi assinado por Barbosa Lima Sobrinho e por Marcelo Lavénère, então à frente da ABI e da OAB, respectivamente. Sentimentos comuns Designado orador oficial da homena-

gem, Lavénère destacou “o conjunto de sentimentos e interesses comuns e amalgamados das duas entidades”: — Nossas profissões têm em comum o amor à independência, a língua ferina, a incapacidade de aceitar injustiças e a determinação em não se quedar perante os poderosos. Lavénère citou ainda a parceria com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, “que forma, ao lado da ABI e da OAB, um tripé em que se apoiou a sociedade civil”. Ao fim da homenagem, Cezar Britto disse esperar que a parceria entre as duas instituições “perdure eternamente, pela sua importância para a democracia e para o País”.


PROPOSTA

A cruzada do Quixote Suplicy JOSÉ CRUZ/ABR

POR ALTAMIR TOJAL

O Senador Eduardo Suplicy apresentava o documentário sobre sua viagem ao Iraque para divulgar a proposta de renda básica de cidadania. No filme, um Ministro iraquiano pergunta se o programa foi adotado no Brasil. Suplicy responde “Ainda não, vai ser implantado em etapas.” Presente à exibição, outro Senador, Heráclito Fortes, não perdeu a oportunidade da piada: “A primeira etapa foi o cartão corporativo.” A viagem de Suplicy aconteceu em janeiro e a exibição do documentário, algumas semanas depois. Estávamos no auge da chamada crise do subprime (os empréstimos imobiliários sem lastro adequado nos Estados Unidos), com as bolsas despencando no mundo todo e o Presidente Bush liberando muitos bilhões de dólares para acalmar os mercados. Aqui, a Bovespa também despencava e o escândalo da hora era o uso abusivo dos cartões corporativos por ministros e funcionários. O chiste de Fortes pode ir para a conta do sarcasmo instintivo que pode acometer qualquer um. Afinal, a bola estava quicando na frente do gol e o Senador da oposição não ia deixar passar a oportunidade de provocar o colega petista. Mas a verdade é que a cruzada de Suplicy pelo programa de renda básica não é levada a sério nem mesmo por lideranças do PT e do Governo. A imprensa, quando dá espaço ao tema, quase sempre endossa o tom de descrença e de ironia que a idéia evoca, talvez por ignorância ou porque ela ressoe generosidade, esperança e utopia. É disso mesmo que se trata. E ninguém parece a fim de dar trela a essas coisas tão fora de moda. E o Senador Suplicy, embora bem robusto, fica com ares de Dom Quixote quando defende a proposta. A renda básica de cidadania, ou renda mínima, ou salário social é um direito que muitas pessoas, em todo o mundo e há muito tempo, propõem não só como remédio para os males da injustiça social, mas também para a mórbida exuberância irracional do sistema econômico global, com sua sucessão de crises e ameaças a tudo e a todos no planeta. Consiste em assegurar a cada pessoa uma renda suficiente para atender às necessidades básicas, de forma incondicional e universal, ou seja, independentemente de idade, sexo, instrução, nível de renda ou de ela estar ou não trabalhando. Isso mesmo: um direito dos pobres e também dos ricos, dos desempregados e dos que trabalham. Esse direito existe há alguns

cados financeiros e de câmbio ou investindo em países com salários mais baixos. Em outras palavras, quanto mais aumenta a capacidade de produzir e gerar riqueza, menos o capitalismo depende do trabalho e do próprio capital. E a riqueza, representada pelo dinheiro, transforma-se cada vez mais em ameaça e não em solução para os desafios da vida. Esse drama, com vocação de tragédia, decorre da insistência em padrões de distribuição de riqueza funcionais para um sistema produtivo de base industrial e presos ao tempo de trabalho como referencial de valor, no momento em que a reprodução do capital depende mais do conhecimento do que das fábricas. A esse respeito, Gorz cita a terrível profecia do Prêmio Nobel Wassily Leontieff: “Quando a criação de riqueza não depender mais do trabalho dos homens, eles morrerão de fome às portas do Paraíso, a menos que se estabeleça uma nova política de renda correspondente à nova situação técnica.” Portanto, o Senador Suplicy talvez não seja tão quixotesco. Não só porque está na boa companhia de pensadores postos à prova em desafios de verdade, mas também porque gente tida como muito pragmática acaba se vendo forçada a endossar a sua causa, embora a contragosto e de forma furtiva e enviesada. Para amenizar o arrasador efeito econômico sobre a economia norte-americana (e do mundo) que a crise dos empréstimos subprime provocou, o remédio que o Presidente Bush arranjou para acalmar “os mercados” — essa entidade suprema da economia pós-moderna — foi exatamente mandar cheques para as casas de milhões de norte-americanos. Aliás, a mesma receita usada em 2001, na crise das Torres Gêmeas. Do jeito que as crises se tornam freqüentes (já se fala na Bolha Chinesa), pode ser que a prática de mandar cheques para as pessoas também vire rotina e se espalhe pelo mundo. E o Iraque com isso? Quando o Presidente Bush esteve em Brasília, em 2005, o incansável Suplicy não perdeu a oportunidade de vender seu peixe, citando o exemplo do Alasca. Bush respondeu: “No Alasca, eles têm muito petróleo.” E Suplicy insistiu: “Mas podemos ter a renda básica a partir de todas as formas de riqueza que são criadas.” E sugeriu que o Iraque — onde o petróleo foi transformado numa peste — seguisse o exemplo do Alasca como forma de chegar à paz. Por que não?

A verdade é que a cruzada de Suplicy pelo programa de renda básica não é levada a sério nem mesmo por lideranças do PT e do Governo. A imprensa, quando dá espaço ao tema, quase sempre endossa o tom de descrença e de ironia que a idéia evoca. anos no Estado norte-americano do Alasca. E — em formas mais restritas e condicionadas de transferências diretas de renda aos mais pobres — começa a ser posto em prática em muitos países. Aqui, o Bolsa-Família pode ser considerado um embrião de um programa de renda básica, uma etapa importante, que deve transcender interesses de partidos e governos. A proposta consta — com diferentes formulações e mesmo propósitos contraditórios — tanto de receituários de radicais comunistas como de reformistas liberais. Professor de Economia, o Senador Suplicy reúne, entre os que trouxeram fundamentos para a idéia, um time de pensadores pesospesados das mais diferentes tendências, desde Thomas More, Karl Marx, Thomas Paine e Charles Fourier, passando por Stuart Mill e Bertrand Russel, até Paul Samuelson, Milton Friedman, James Tobin e Antonio Negri.

Outro que se junta a esses é André Gorz, que, morto no ano passado, tem sido mais comentado no Brasil nas últimas semanas graças à recente edição aqui, este ano, de sua bela Carta a D. (Cosac Naify). Gorz, estudioso das mutações do capitalismo contemporâneo, aproximou os temas da renda básica e das sucessivas crises financeiras globais no livro Misérias do presente, riqueza do possível, publicado na França em 1997 e aqui em 2004 (Annablume). Graças ao fantástico desenvolvimento técnicocientífico, se produz atualmente um crescente volume de riquezas com uso decrescente de capital e trabalho. Gorz observa que, em conseqüência, a produção remunera uma quantidade cada vez menor de ativos produtivos e de trabalho. Isso, por um lado, gera mais desemprego e pobreza e, por outro, estimula o capital a se reproduzir sem a mediação do trabalho, em operações nos mer-

Altamir Tojal, jornalista especializado em Economia, é sócio da ABI.

Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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DEPOIMENTO

CÍCERO SANDRONI

A intimidade com as letras  Atual Presidente da ABL, Sandroni escolheu o jornalismo para ter um salário e discutir problemas brasileiros. O domínio do idioma o levou a repórter e colunista político e a escrever livros, inclusive sobre jornais. POR VAGNER R ICARDO

Jornal da ABI — Como tudo começou? Cícero Sandroni — Como todo foca em minha época, o início ocorreu sem salário e foi na Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda. Na época, havia lá grandes nomes, como Newton Carlos, Nilson Viana, Hermano Alves, gente que teve papel no crescimento da imprensa brasileira. Mais tarde, trabalhei com o José Guimarães, que fez o primeiro suplemento cultural da imprensa brasileira, e com profissionais como Luiz Alberto Bahia, Antônio Callado e José Condé, na minha primeira passagem pelo Correio da Manhã. No Globo, tive o prazer de trabalhar com Alves Pinheiro, grande chefe de Reportagem. Lá fiz cobertura do Itamaraty e matérias no exterior e tornei-me repórter político até 61, quando fui para Brasília. Jornal da ABI — Sua temporada em Brasília foi também dinâmica? Sandroni — Lá eu trabalhei com o Prefeito Paulo de Tarso dos Santos, que tinha também a Fundação Cultura de Brasília, onde atuava o Ferreira Gullar. Depois do Governo Jânio, fui para O Cruzeiro e em 1965, voltei ao Correio de Manhã, onde estreei a coluna Quatro cantos, de oposição ao regime militar. Quando o jornal foi vendido, eu o deixei. Depois do AI-5, acabou o jornalismo político no Brasil. Então, mudei-me para a Bloch Editores, onde fui redator24 Jornal da ABI 329 Maio de 2008

O

jornalismo e a literatura são duas paixões à prova do tempo para Cícero Sandroni, atual Presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL). Estagiário sem salário no início da carreira na Tribuna da Imprensa, dirigida pelo polêmico Carlos Lacerda em 1955, passou para o Correio da Manhã na seqüência e retornou aos dois jornais mais tarde: no primeiro, já sob a direção de Hélio Fernandes; no segundo, como titular da coluna política Quatro cantos, com a qual conquistou admiradores e adversários nos anos de chumbo, com sua posição firme contra o regime militar. A intimidade com as “pretinhas” (como se dizia nos tempos da máquina de escrever) e o curso de Ciências Sociais (além de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio, Sandroni cursou a Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas-Ebape, da Fundação Getúlio Vargas) obrigaram o jornalista a “refugiar-se” nas redações para discutir os grandes problemas nacionais: — Eu tinha a certeza de que, para compreender os problemas, não havia melhor alternativa que essa. E isso de certa forma ocorreu porque eu encontrei nos jornais as pessoas que tinham uma visão muito profunda do País — explica. O curioso é que transformar essa busca em carreira foi escolha pragmática: Sandroni abraçou o jornalismo porque precisava de um salário justo para casar – mas isso já é outra história. Hoje, enquanto se encarrega de cuidar da administração da ABL (“mais uma vez sem salário”, brinca), ele mantém os olhos voltados para o jornalismo, atividade a que pretende voltar depois do término de sua gestão na Academia, “se houver convites”. Autor de oito livros, o ex-colunista político faz planos também de escrever novas obras.

chefe da revista Tendência. Mais tarde, já no Jornal do Brasil, fui editor de um suplemento de livros e cronista, antes de assumir o Informe JB, no lugar de Elio Gaspari. Na campanha das Diretas Já, passei para a Útima Hora, para assinar a coluna Ponto de vista, em prol das eleições. Também fiz o semanário O País e muito freelance. Por fim, tive duas passagens no Jornal do Commercio. Na primeira, na gestão de Nilo Dante, em 1995 e 1996. Depois voltei em 2001, para ser Diretor-adjunto, e sai em 2003, para escrever o livro sobre o próprio jornal. Jornal da ABI — O que o fez querer ser jornalista? Sandroni — O salário. Fiz Jornalismo na Puc e cursei também a Ebape, mas queria casar e precisava de um salário. Meu primeiro emprego foi no Correio da Manhã. Eu era um leitor ávido de jornais, incluindo não só matutinos, mas também os vespertinos. E tinha um grande desejo de conhecer bem os problemas brasileiros. Era para isso que eu fazia o Ebape, um curso de Ciências Sociais voltado para os problemas brasileiros. Jornal da ABI — E como as redações se envolvem nisso? Sandroni — Eu tinha a certeza de que para compreender os problemas brasileiros não havia melhor alternativa que


 “Ditado francês diz que o jornalismo leva a tudo, mas você tem de sair dele. Isso não funciona comigo, que me sinto jornalista mesmo como Presidente da ABL.” Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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CÍCERO SANDRONI A INTIMIDADE COM AS LETRAS

“O jornalismo tornou-se mais profissional, com tempo integral. Hoje, são raros os jornalistas que têm outra profissão, como ocorria antigamente.” as redações de jornais. E isso de certa forma ocorreu porque encontrei nas redações as pessoas que tinham uma visão muito profunda do País. Não quer dizer que hoje elas não existam, mas naquela época as chamadas “enciclopédias ambulantes” eram mais numerosas, como Jayme Magrassi de Sá. O jornalismo oferece isso ao homem. Há um ditado francês que diz que o jornalismo leva a tudo, mas você tem de sair dele. Isso, na verdade, não funciona comigo, que me sinto jornalista mesmo como Presidente da ABL. E espero, assim que deixar essa cadeira, voltar ao jornalismo, se o jornalismo me quiser. Jornal da ABI — Em seu início de profissão, o senhor concorda em que conviveu com extremos na carreira, da liberdade de expressão à censura? Sandroni — Comecei no jornalismo na época de euforia de Juscelino Kubitschek. Em 1960, era repórter de fato e, naquele momento, havia completa e absoluta liberdade de imprensa no Brasil. Você tinha a percepção de desenvolvimento da imprensa muito grande. Tínhamos contato com correspondentes estrangeiros. Tanto que nessa época ocorreu a criação do Clube de Correspondentes Estrangeiros e um intenso intercâmbio de idéias emtre jornalistas brasileiros e estrangeiros, salvo aqueles do Leste Europeu. O jornalismo passava por um momento de profissionalização que não tinha nos anos anteriores. A geração que fez o Diário Carioca, o Jornal do Brasil, O Globo e o Correio da Manhã nos anos 50 e 60 era a primeira que tinha emprego público e trabalhava em jornais para ganhar um dinheiro extra. Jornal da ABI — O senhor concorda em que o jornalismo dos anos 50 era gueto de partidos políticos? Sandroni — Não concordo com a palavra “gueto”. Havia jornais com posições definidas, mas não partidárias. Eram posições políticas definidas. Jornal da ABI — O jornalismo mudou? Sandroni — Mudaram as pessoas, só isso. Quer dizer, o jornalismo, desde o começo, mudou um pouco o estilo. Como diz o Millôr Fernandez sobre sexo, desde o pecado original só mudou do original o estilo de cada um. Jornal da ABI — O senhor concorda em que aumentou o nível da profissionalização? Sandroni — Sim, o jornalismo tornou-se mais profissional. Hoje são raros os jornalistas que têm outra profissão, como ocorria antigamente. Os veículos precisam informar bem seu público e, para isso, precisam também da dedicação integral de seus profissionais. Des26 Jornal da ABI 329 Maio de 2008

sa forma, se não for uma empresa forte, não oferecerá bom jornalismo. Jornal da ABI — E sua chegada à Academia Brasileira de Letras, como ocorreu? Sandroni — Estou na Academia mais pela bondade dos acadêmicos que me elegeram. Com o tempo, fui indicado para a Tesouraria, trabalhei na Secretaria-Geral e agora estou na Presidência. Vale lembrar que esses cargos de Diretoria na ABL são funções de trabalho voluntário. Não recebemos por isso. É um trabalho fascinante, um desafio diário, e também um grande prazer e um grande júbilo, ao terminar o dia, ver que cumpri o meu dever. Sem contar que é uma honra que jamais imaginei, a de substituir personalidades tão brilhantes como os últimos presidentes da ABL, notadamente o Ministro Marcos Vinicios Vilaça, a quem servi como Secretário-Geral. Jornal da ABI — O senhor tem dito que 2008 é um ano de efemérides na ABL Sandroni — Sim, e mais importante é lembrar o centenário de morte de Machado de Assis, o primeiro Presidente da ABL e um de seus fundadores. Esse centenário será comemorado com uma série de eventos, como conferências, seminários e concertos de músicas dos tempos machadianos. Vamos repetir o Clube Beethoven, que reunia escritores e jornalistas. Além disso, estamos publicando vários livros que têm relação com o autor, como um Dicionário Machado de Assis, a cargo de Ubiratan Machado; a reunião da correspondência de Machado, sob orientação do acadêmico Sergio Paulo Rouanet; e uma obra dedicada ao léxico, o “Índice vocabular de Machado de Assis”.

máticas. Não esqueçamos os cem anos de nascimento de Otávio Faria e os 120 de Álvaro Moreira. A Academia é hoje um centro de produção de saber e cultura: realiza eventos, edita livros e está na internet, com transmissão dos eventos online. Jornal da ABI — A ABL fará* uma solenidade pelo centenário da ABI também... Sandroni — Vamos comemorar os cem anos da ABI com mesa-redonda aqui na ABL. O evento ocorrerá no Salão Nobre da Academia, dia 3 de abril, e contará com a participação de jornalistas e acadêmicos. Instituição importantíssima, a ABI é e sempre será aquilo que os jornalistas fizerem dela. Ela será tão melhor quanto mais jornalistas participarem dela. A Associação cresce e se fortalece se tem o apoio dos profissionais de todo o Brasil. Jornal da ABI — O senhor tem oito livros publicados, entre romances, como O peixe de Amarna, um perfil de Carlos Heitor Cony e a história do Jornal do Commercio, o mais recente. Há planos de escrever outros livros sobre periódicos nacionais? Sandroni — Trabalhei no Jornal do Commercio e comecei a estudar sua história por acaso — na época estava envolvido com um verbete para o Dicionário Histórico-Bibliográfico de 1930 aos dias atuais, solicitado pela Fundação Getúlio Vargas. Ao iniciar as pesquisas, apaixonei-me pela história do jornal e formei um grupo, com três auxiliares, para me aprofundar mais. O livro saiu no ano passado e, a partir dele, tenho projetos de escrever outros dois. Um é uma leitura do Jornal do Commercio sob o comando de San Tiago Dantas, ou seja, entre 1957 e 1959, quando ele vendeu o jornal. O foco da pesquisa são os editoriais que ele escreveu e a idéia é relacioná-los e perfilar o pensamento do autor, que tinha visão muito clara sobre os problemas brasileiros e suas soluções — que não teve tempo de pôr em prática devido a um câncer devastador.

“Tive no Dr. Barbosa um mestre, uma pessoa com quem a conversa era sempre proveitosa e que tinha incrível capacidade de ouvir e de convencer.”

Jornal da ABI — E os outros eventos importantes de 2008 na ABL? Sandroni — Lembramos os 400 anos de nascimento do Padre Antônio Vieira, um dos consolidadores do português escrito no Brasil e em Portugal; teremos quatro conferências sobre a chegada da Família Real ao País e também concertos de música da época do Padre José Maurício Nunes Garcia, grande compositor do século XIX. Temos o centenário de Guimarães Rosa. E vamos recordar os cem anos de morte de Artur Azevedo com algumas leituras dra-

Jornal da ABI — E o segundo livro? Sandroni — O outro projeto é uma biografia de José Carlos Rodrigues, que comprou o Jornal de Commercio em 1890, depois da Proclamação da República. O antecessor de Rodrigues era

monarquista e o jornal passava por uma fase difícil, quando Rodrigues era seu colaborador, em Londres. Em 25 anos, ele transformou radicalmente a publicação. Eu precisaria de 24 horas a mais por dia para terminar meus projetos literários. Outro, de ficção, é uma novela chamada Morrer em Casablanca, que tem como subtítulo A história do homem que nasceu no dia em que o Brasil perdeu a Copa (a de 50). E há o livro Batman não foi a Búzios. Se eu tiver tempo e saúde para terminar isso, lanço no meu tempo de vida. Jornal da ABI — A ABI é também sinônimo de Barbosa Lima Sobrinho, com quem o senhor teve um contato muito intenso. Sandroni — O primeiro foi quando ele completou 80 anos. Fui encarregado pela revista Status para fazer um perfil do Dr. Barbosa em 1977. Já o conhecia, mas pouco. A Status era da Editora Três e tentava concorrer com as revistas masculinas que, comparadas ao que se faz hoje, seriam publicações para adolescentes. Quando um neto dele o questionou sobre o fato de falar para uma revista em que apareciam mulheres em trajes sumários, Barbosa respondeu que a qualquer veículo que lhe fizesse um pedido de entrevista ele concedia, porque tinha uma mensagem a transmitir. A partir daí, ele me convidou para o Conselho da ABI, onde fiquei quase 30 anos, sempre próximo dele. Depois, integrei a Diretoria, fui Secretário-Geral e Presidente do Conselho da Associação, após sua morte. Tive no Dr. Barbosa um mestre, uma pessoa com quem a conversa era sempre proveitosa. Ele tinha uma incrível capacidade de ouvir e também de convencer os que discordavam dele sem se exaltar. Sempre dizia ser nacionalista, sem ser xenófobo. Se os capitais estrangeiros vierem para ajudar a economia nacional, ajudar os brasileiros, não tenho nada contra, dizia. Mas se for capital gafalhoto, disposto apenas a pegar juros e depois ir embora... Tenho grande honra de ocupar a cadeira que um dia foi dele na ABL. Quando ele faleceu, alguns acadêmicos sugeriram que eu me candidatasse, mas eu sempre disse que não tinha a estatura intelectual para substituílo. Tanto que, quando o Dr. Raimundo Faoro se candidatou, achei uma excelente solução. E foi de lá da ABI que surgiu o documento pedindo a cassação do Presidente Collor, processo de que participei de uma forma quase irrelevante, mas até o fim. * Matéria publicada no Site da ABI em 20 de março de 2008. No dia 3 de abril a Academia Brasileira de Letras realizou a homenagem ao centenário da ABI referida por Sandroni, conforme registramos nesta edição.


Aconteceu na ABI

NO CENTENÁRIO,

100 ELEITORES

Quórum emblemático, prejudicado pela sucessão de feriados e falta de comunicação aos sócios. A eleição para um terço do Conselho Deliberativo e para a totalidade do Conselho Fiscal da ABI, realizada no dia 25 de abril, apresentou um quórum emblemático, coincidente com a comemoração que a entidade faz desde o primeiro dia do mês: compareceram para votar exatamente cem associados. Foi esse o mais baixo quórum registrado nas eleições da Casa do Jornalista nos últimos anos: – Infelizmente – disse o Presidente da ABI, Maurício Azêdo –, a correspondência que expedimos para o quadro social chegou muito em cima do dia da eleição, o que prejudicou enormemente a freqüência dos associados. A semana da eleição teve dois feriados, um em cima do outro, nos dias 21 e 23, e um enforcamento do expediente, no dia 22, o que retardou demais o envio da comunicação aos sócios acerca tanto da data da votação como, na véspera, da sessão da Assembléia-Geral de apresentação do Relatório da Diretoria e das Contas de Gestão do Exercício Social 2007-2008. O Presidente da ABI lembrou que outro fator negativo foi o trauma cau-

sado pelo falecimento, na semana anterior, do jornalista Arthur Cantalice, que teve um infarto fulminante quando discursava na sessão do Conselho Deliberativo da ABI, no dia 15. A reunião foi suspensa para ser reiniciada somente dois dias depois, após o sepultamento de Cantalice, um dia antes: — A rotina administrativa da ABI foi muito afetada por todos esses fatores, que dificultaram a comunicação aos sócios. Isto sem contar que estava inscrita na eleição apenas uma chapa, a Prudente de Moraes, o que desestimula o comparecimento dos eleitores, que sabem que a eleição já está decidida. Na próxima vamos planejar melhor o envio da comunicação aos sócios — disse Maurício. Quando informados, os eleitores responderam à convocação para comparecer à votação. O associado Ulysses Lonzetti, de 84 anos e sócio da ABI há 61, foi o terceiro a votar, nas primeiras horas da manhã, e exibiu com orgulho sua fidelidade à Casa: salvo quando não se encontrava no Brasil, nunca deixou de comparecer às eleições na ABI. Tam-

bém o associado Kepler Alves Borges, igualmente de 84 anos e sócio da ABI há 61, atendeu à convocação eleitoral: mesmo caminhando com dificuldade e apoiando-se numa bengala, ele compareceu para votar no fim da tarde. Sócio remido, ele não se considera desobrigado da obrigação de votar nem abre mão desse direito. Entre os primeiros presentes à votação, iniciada às 10h, estava o ex-Senador Bernardo Cabral, relator-geral da Constituinte, que, atendendo a convite da atual Diretoria, se reintegrou à Casa, na qual ingressou nos anos 60, quando exercia o jornalismo. Foi esta a primeira vez em que votou após seu retorno à ABI. Encabeçada pelo Presidente da ABI, a Chapa Prudente de Moraes, neto foi integrada pelos jornalistas Alberto Dines, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Arthur José Poerner, Carlos Arthur Pitombeira, Dácio Malta, Ely Moreira, Fernando Barbosa Lima, Leda Acquarone, Mílton Coelho da Graça, Pinheiro Júnior, Ricardo Kotscho, Rodolfo Konder, Tarcísio Holanda e VillasBôas Corrêa, que concorreram a mem-

bros efetivos do Conselho Deliberativo. Para suplentes foram eleitos os associados Alcyr Cavalcanti, Edgar Catoira, Francisco Paula Freitas, Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Ruy Bello, Salete Lisboa, Sidney Rezende, Sílvia Moretzsohn, Sílvio Paixão e Wilson S. J. de Magalhães. O mandato dos eleitos é para o triênio 2008-2011. Para o Conselho Fiscal foram eleitos os jornalistas Adail de Paula, Adriano Barbosa do Nascimento, Argemiro Lopes do Nascimento, Geraldo Pereira dos Santos, Jorge Saldanha de Araújo, Luiz Carlos de Oliveira Chesther e Manolo Epelbaum, com mandato para o exercício social 2008-2009. Além de eleger os membros do Conselho Deliberativo e do Conselho Fiscal, a Assembléia-Geral Ordinária Anual aprovou o Relatório da Diretoria relativo ao Exercício Social 20072008 e as contas de gestão da Diretoria, ratificando a decisão adotada no dia 15 de abril pelo Conselho Deliberativo.

Torneio de Xadrez do Centenário reúne 40 do primeiro time Thelmo Limp (à direita) e Alexandre Campos venceram na Classe A do torneio.

Entre os participantes, Lucas Peixoto. Idade: 9 anos. Quarenta jogadores de Xadrez do primeiro time no ranking do Rio, como Arthur Cruz e os mestres na categoria Fide Ricardo Teixeira e Sadi Dumont, participaram em 12 de abril no Salão de Estar do Edifício Herbert Moses do Torneio de Xadrez do Centenário da ABI, organizado pela Federação de Xadrez do Estado do Rio de Janeiro e patrocinado pela Diretoria de Cultura e Lazer da Casa. Da primeira à terceira colocação na Classe A foram vencedores Eduardo Thelío Limp, Alexandre Campos e Wagner Peixoto. Leonardo Mano foi o primeiro colocado na Classe B. Outro destaque, na opinião da comissão organizadora, foi a participação de Lucas Peixoto, de nove anos, que foi campeão brasileiro em torneio escolar com apenas seis anos e já é considerado uma das maiores promessas do xadrez nacional. Seu pai, Wagner, não esconde o orgulho: — O xadrez entrou na vida do Lucas de forma natural. Ele me via che-

gar em casa com troféus e passou a me observar. Aos quatro anos estreou num torneio em Vassouras, com dez concorrentes, e ficou em sexto lugar. Para mim, o mais importante é que o xadrez o ajuda em outras áreas. Na escola, ele é considerado um aluno acima da média. Terceiro colocado no Torneio Centenário da ABI, Wagner elogiou o nível dos concorrentes: — Jogo xadrez há 22 anos

e acho que a minha colocação foi boa em função da qualidade dos competidores. O Diretor de Cultura e Lazer da ABI, Jesus Chediak, disse que o campeonato de xadrez é uma das ações com que pretende dinamizar a programação cultural da ABI. Ele agradecu aos membros da Diretoria de Cultura e Lazer que estiveram envolvidos na organização da competição: — O sucesso do Torneio do Centenário se deve principalmente à capacidade do Presidente da Federação, Ricardo Barata, de agregar as pessoas. Agradeço também ao José Rezende e ao Roberto Sander, meus colaboradores, que com as suas experiências no jornalismo

esportivo vêm dando uma excelente contribuição à ABI. Faço questão também de citar nosso prestativo funcionário Neilson Paes, presente em todas as nossas atividades. Ricardo Barata ressaltou que a competição atraiu jogadores de outras cidades do Estado do Rio e até uma participação internacional, a do dominicano Gustavo Hernández. A premiação de R$ 1 mil aos primeiros colocados, revelou, contribuiu para a participação de jogadores de ponta no torneio: — Quando recebi a proposta do Jesus Chediak, aceitei de imediato. Para a Federação, foi uma honra realizar uma competição na Casa da Democracia. Com seu histórico de luta contra a ditadura, a ABI demonstrou nestes cem anos porque é uma entidade histórica e combativa. No fim da solenidade, o ex-Presidente da Federação Reinaldo Veloso propôs que o órgão faça uma parceria com a ABI, para que o xadrez seja mais divulgado nos meios de comunicação: — Essa união das duas instituições foi excelente e pode dar grande contribuição à difusão da importância da prática do xadrez. (José Reinaldo Marques) Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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BIOGRAFIA

Jornalista reúne textos dispersos e inéditos de Octávio Brandão Fundador do PCB, ele traduziu Marx e Engels, criou jornais, viveu anos no exílio, brigou com Prestes e fez estudos pioneiros sobre ecologia. No ato na ABL, Maurício Azêdo, Murilo Melo Filho, Suzana Blass, Ricardo Cota, Ágata Messina, Suzana Tatagiba, Lúcio Pimentel, Aziz Filho e Janice Caetano.

PARCERIA

Um centro para levantar a memória do jornalismo Sindicato dos Jornalistas do Rio e Petrobrás criam órgão para estudar e documentar a trajetória da imprensa. Com a ambição de levantar a história de jornais e jornalistas, foi lançado no dia 9 de abril na Academia Brasileira de Letras o Centro de Cultura e Memória do Jornalismo, fruto de uma parceria do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro com a Petrobras. Sua missão será registrar a memória oral do jornalismo e fazer um levantamento das principais fontes, documentos e acervo da imprensa brasileira nos seus 200 anos, mostrando suas transformações e motivações. O lançamento contou com a presença da Presidente do Sindicato, Suzana Blass, e dos ex-Presidentes Aziz Filho e Janice Caetano; da Diretora da Federação Nacional dos Jornalistas-Fenaj e

Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Espírito Santo, Suzana Tatagiba; do representante da ABL, Murilo Melo Filho; do Gerente de Imprensa da Petrobras, Lúcio Pimentel; do Coordenador de Comunicação Social do Governo do Estado do Rio, Ricardo Cota; da Secretária de Comunicação Social do Município do Rio de Janeiro, Agatha Messina; e do Presidente da ABI, Maurício Azêdo. O Centro será instalado em um imóvel cedido pelo Governo do Rio de Janeiro. Nele serão realizados cursos, debates, exposições e seminários, com o objetivo de estimular a reflexão pública acerca do jornalismo. Uma empresa foi contratada para pesquisar e reunir o acervo. Os jornalis-

tas Marcelo Beraba, Luiz Garcia, Cícero Sandroni, Ana Arruda Callado, Evandro Teixeira e Regina Zappa serão consultores do desenvolvimento do Centro. O Gerente de Imprensa da Petrobras, Lúcio Pimentel, considera que patrocinar o Centro de Cultura e Memória do Jornalismo é a certeza de estar contribuindo para a liberdade de expressão e o acesso à informação: –Este é um projeto que contará a história de quem vem contando a história diariamente – afirmou Lúcio Pimentel. – A campanha O petróleo é nosso nasceu com o apoio da imprensa. Hoje, a empresa não poderia deixar de patrocinar um projeto relacionado com a História de quem vem contando a História do Brasil e da Petrobras. A Presidente do Sindicato dos Jornalistas, Suzana Blass, apontou o Centro de Memória como “o nosso sonho que começa a se materializar”. Para o Presidente da ABI, ”a iniciativa cobre uma histórica lacuna de falta de informação sobre a trajetória da imprensa e dos jornalistas e é essencial para se conhecer melhor a História do País”. O trabalho de constituição do acervo estará aberto à colaboração de toda a comunidade jornalística.

LITERATURA

Machado vive em ciclos da ABL A Academia mostra até dezembro as muitas faces do seu fundador. No ano do centenário da morte de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras promove de abril a dezembro o evento Machado vive. Serão 23 conferências, em quatro ciclos, incluindo exposição, lançamentos de livros, espetáculos de música erudita e popular, leituras dramatizadas, encenações teatrais e exibição de filmes. A coordenação é do acadêmico Ivan Junqueira, que recebe es28 Jornal da ABI 329 Maio de 2008

pecialistas no Teatro R. Magalhães Jr. (Avenida Presidente Wilson, 203, Centro do Rio) para abordar os principais gêneros da produção machadiana. A estréia foi no dia 15 de abril, às 17h30min, com o acadêmico Alfredo Bosi falando sobre o romance na obra do escritor. A entrada é franca. O ciclo teve prosseguimento nos dias 24 e 29 de abril e 6, 13 e 20 de maio, com os conferencistas Domício Proença Filho (o conto), Eduardo

Portella (a crônica), Cláudio Murilo Leal (a poesia), Antônio Maura (a crítica) e João Roberto de Faria (o teatro). Com exceção da quinta, 24 de abril, todas as palestras serão às terças-feiras. Machado será celebrado na ABL também com sessões de cinema organizadas por Nélson Pereira dos Santos, com a exibição de filmes ligados à obra do homenageado e o lançamento do primeiro volume das 700 cartas recebidas pelo escritor, organizado por Sergio Paulo Rouanet, Diretor do Arquivo da instituição. Mais informações no site www.academia.org.br, ou pelo telefone 3974-2500, código 21.

O jornalista J. Guedes de Oliveira lançou no dia 30 de abril na Casa da Palavra, em Maceió, o livro Octávio Brandão — Dispersos e inéditos (Editora Brascolor, Recife), que reúne artigos, ensaios, crônicas e outros escritos do intelectual e político alagoano, falecido em 1980. A trajetória de Octávio Brandão inclui, além de vasta produção intelectual, militância de destaque no antigo Partido Comunista Brasileiro. Ele traduziu em 1923 o Manifesto Comunista, de Marx e Engels, e participou da fundação de diversos jornais de esquerda, entre os quais A Classe Operária, em 1925, de que foi o primeiro editor, e de A Nação, órgão de estudos e informações sobre o PCB, de que foi redator-chefe. Perseguido por suas idéias, foi deportado em 1931, juntamente com sua mulher, a poetisa Laura Brandão, e três filhas, para a Alemanha, de onde seguiu para a União Soviética. Ele e a mulher participaram da luta de resistência às forças nazistas que invadiram o país. Laura, considerada heroína, morreu no exílio, em 1942. De volta ao Brasil, Octávio Brandão teria papel importante nas lutas internas do PCB. Seu segundo casamento, com Lígia Prestes, irmã de Luís Carlos Prestes, não o impediu de divergir abertamente das posições do líder comunista, a quem acusava de centralizador. Tornou públicas as divergências numa entrevista ao diário O Jornal, que terminaria censurada, mas circulou num panfleto que ele mandou imprimir, no qual afirmava: “Explicaremos sem cessar às massas laboriosas que elas não podem ser libertas pelos ‘heróis’, pelos ‘cavaleiros da esperança’. Só poderão ser libertas por suas próprias organizações revolucionárias.” Por essas posições Octavio Brandão seria “exilado” também do PCB. Afastado da cúpula, não abandonaria as idéias que expunha em artigos e ensaios, muitos dos quais, inéditos, foram reunidos por J. Guedes de Oliveira em seu livro. As preciosidades foram descobertas no Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, e incluem um ensaio científico, Canais e lagoas, pelo qual Octávio Brandão é considerado pioneiro dos estudos sobre ecologia no Brasil.


Direitos humanos

Comissão de Anistia faz uma sessão histórica na ABI Na pauta, 20 processos de jornalistas. Nos discursos, antes, homenagens a companheiros mortos, como David Capistrano e Vladimir Herzog, e reafirmação pelo Ministro da Justiça, Tarso Genro, de que as indenizações não são uma bolsa-ditadura, nem perdão nem reparação, porque tortura, morte, humilhação e perda de emprego são danos irrepáráveis. POR JOSÉ REINALDO MARQUES

Em ato público dominado pela emoção, no dia 4 de abril, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça realizou na ABI a primeira sessão especial de julgamento de pedidos de indenização de perseguidos políticos pelo critério de categorias específicas. A escolha da ABI para a realização dos julgamentos de 20 processos cujos requerentes são jornalistas foi uma iniciativa da Comissão para homenagear o centenário da Casa, que seria comemorado três dias depois. O evento marcou também o lançamento da Caravana da Anistia, com a qual a Comissão pretende percorrer todos os Estados até 2010, para chamar a atenção da sociedade para a política de direitos humanos que vem sendo desenvolvida pelo Ministério da Justiça. A mesa que coordenou os trabalhos foi formada pelo Presidente da ABI, Maurício Azêdo; o Ministro da Justiça, Tarso Genro, que veio especialmente ao Rio de Janeiro para participar da cerimônia; o Presidente da Comissão da de Anistia, Paulo Abrão Pires Júnior; e a Presidente da União Nacional dos Estudantes-Une, Lúcia Stumpf. Toda a programação aconteceu no Auditório Oscar Guanabarino, localizado no 9º andar do Edifício Herbert Moses, que recebeu enorme platéia, formada por jornalistas, parlamentares, parentes de vítimas da ditadura, militantes dos movimentos sociais, estudantes e representantes de entidades de defesa dos direitos humanos. Pela manhã, na solenidade de abertura, além da Caravana da Anistia ocorreu o lançamento da bandeira-símbolo das Liberdades Democráticas, que será confeccionada ao longo do percurso da Caravana da Anistia. A peça, disse o Presidente da Comissão de Anistia, será dedicada à sociedade como símbolo da luta pela democratização do País. Coube ao Presidente da ABI e à Presidente da Une unir os primeiros retalhos para a confecção da bandeira. Seguiram-se homenagens em memória dos jornalistas David Capistrano e

Tarso Genro, que assinou na ABI, diante da viúva de Capistrano, a portaria que o anistia (foto abaixo), e o Presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, aplaudem a bandeira-símbolo das Liberdades Democráticas, erguida por Maurício e Lúcia Stumpf, Presidente da Une.

Vladimir Herzog. O primeiro desapareceu em 1974, durante a ditadura militar, entre a cidade de Uruguaiana, RS, e a capital paulista, após um período de três anos de clandestinidade. Herzog morreu vítima de tortura nas dependências do Doi-Codi, na capital paulista, em 25 de outubro de 1975. A luta, desde 1945 Maria Augusta de Oliveira, viúva de David Capistrano, recebeu do Ministro Tarso Genro o documento que anistiou o jornalista (Portaria nº 722, de 4 de abril de 2008, assinada pelo Ministro), o qual lhe assegura o direito a uma pensão mensal de R$ 3.444,52, com efeitos retroativos a 4 de abril de 2001, o que equivale a R$ 283.484,00. Após cumprimentar a platéia, Dona Maria Augusta falou sobre a solenidade, que considerou uma vitória de todo o povo brasileiro: — Fico feliz por estar participando deste ato de solidariedade que, para mim, representa o pensamento do povo brasileiro e que Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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Direitos humanos

Após o lançamento da Caravana da Liberdade, Tarso Genro foi assediado para falar sobre a CPI do Dossiê, então em curso. Antes, recebeu o jornalista Moacir Pereira (à direita), que veio de Florianópolis para falar sobre Gustavo de Lacerda, fundador da ABI.

contamina os verdadeiros patriotas. Estou com 90 anos e comecei a agir politicamente desde a época em que cursava a Escola Normal, em 1945, momento de trauma e lutas pela anistia dos anos terríveis por que passava o Brasil. Concluído o processo de anistia daquela época, movimento do qual participou como estudante, Dona Maria Augusta achava que o País jamais voltaria a sofrer danos políticos, até que foi deflagrado o golpe militar de 1964: — E nós voltamos a sofrer repressões terríveis por mais de 20 anos de ditadura, mas o povo novamente levantouse e dessa segunda vez participei andando pelo Brasil, debatendo a necessidade da redemocratização. Acho que fomos vitoriosos em parte. Todos continuamos a lutar, organizando um novo movimento pela anistia, em função do trabalho exercido pelas forças democráticas do País. Disse Dona Maria Augusta que o ato em realização na ABI representa a capacidade de luta do povo brasileiro, para conseguir uma nação mais digna, onde não se tenha mais que lidar com as condições terríveis da repressão política: — Por isso a Comissão de Anistia faz mais um ato de justiça em um momento desses, trazendo a vida dos que foram torturados e mortos, mantendo viva a chama do ideal de todos os que morreram pelo Brasil — declarou Dona Maria Augusta, que foi ovacionada pela platéia. Herzog, parte da História Em seguida, Maurício Azêdo entregou a Ivo Herzog a placa em homenagem a seu pai, Vladimir. Ivo exaltou o fato de a homenagem a seu pai estar acontecendo nas dependências da ABI e lembrou a atuação do jornalista pela democracia: — A história de Vladimir Herzog é parte da História do Brasil, é de todos nós, e como tal deve ser ensinada às novas gerações, para que elas possam entender o que aconteceu e 30 Jornal da ABI 329 Maio de 2008

Presidente da Une, Lúcia Stumpf (à esquerda) reclamou a abertura dos arquivos da ditadura. Ivo Herzog (ao centro) recebeu uma placa de homenagem a seu pai, Vladimir Herzog. Paulo Abrão (à direita) prometeu decidir logo os processos de anistia de jornalistas.

acontece no nosso País. Acho que se meu pai estivesse vivo hoje estaria muito ocupado, lutando contra a impunidade, trabalhando mais do que nunca, fazendo o que cabe a toda a classe jornalística fazer. Se fosse necessário, ele morreria mais uma vez por aquilo em que acreditava. Ao se referir a David Capistrano e Vladimir Herzog, o Presidente da ABI afirmou que o ato pela anistia se caracterizava por forte emoção por causa da evocação de heróis da luta da liberdade do Brasil. Ele lembrou que no auditório da ABI, após a morte de Herzog, Prudente de Moraes, neto, então Presidente da Casa, e Barbosa Lima Sobrinho, Presidente do Conselho Administrativo, presidiram uma cerimônia em memória do jornalista. Emocionado, Maurício Azêdo afirmou que a iniciativa da Diretoria da ABI transformou um evento religioso em homenagem a Herzog, no que seria a missa de sétimo dia de seu falecimento, em um ato cívico de luta pela restauração das liberdades públicas do País: — Devo inicialmente dizer que estamos tomados de emoção pela a evo-

cação de heróis da luta pela liberdade do Brasil, como Davi Capistrano e Vladimir Herzog. E essa emoção não decorre apenas da magnitude ética e política deste ato, mas por lembranças que se agigantam na nossa memória de momentos traumáticos das nossas existências individuais e da nossa existência nacional. Contou Maurício que, por determinação do Cardeal Dom. Eugênio Sales, não pôde ser celebrada a missa de sétimo dia que havia sido encomendada pela ABI na Igreja de Santa Luzia, no Centro do Rio, onde habitualmente eram realizados os atos religiosos da entidade: — Então foi aqui neste auditório que, dias após o sacrifício, a tortura e a morte de Vladimir Herzog, Prudente de Mores, neto e Barbosa Lima Sobrinho presidiram um ato em sua memória. Nós então orientamos os companheiros para se dirigirem à ABI, onde transformaríamos o culto em ação de denúncia da violência que golpeou o nosso companheiro e de reivindicação da restauração das liberdades públicas do País. Com o auditório superlotado, permanecemos de pé e em silêncio, manifestando o nosso empenho, o nosso propósito e a nossa determinação de lutar para que aquela fase hedionda da nossa História fosse finalmente riscada do mapa.

Maurício concluiu dizendo que a ABI se sentia confortada em ser o cenário do ato de deflagração da Caravana da Anistia, “que haverá de percorrer o Brasil difundindo as idéias libertárias que desembocam na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça”. E acrescentou: — Nosso conforto em realizar este ato é ainda maior porque ele representa mais um galardão que a Casa de Gustavo de Lacerda, Herbert Moses, Prudente de Moraes, neto, Barbosa Lima Sobrinho e Fernando Segismundo acrescenta à sua densa e fecunda atuação em defesa dos direitos do povo brasileiro e do progresso material e espiritual do País. Referindo-se às comemorações do centenário da ABI, o Presidente destacou que a Casa do Jornalista completa cem anos reafirmando o seu compromisso com a luta pela liberdade. Nem perdão, nem reparação Ao se dirigir à platéia, o Ministro da Justiça, Tarso Genro, disse que qualquer referência sua à ABI poderia soar como redundância, porque a História da Casa do Jornalista se integra à da República e à da democracia do País. E falou sobre o significado da anistia: — Ela não é um perdão nem reparação, é um elemento material importante, pois tortura, morte, humilhação e perda de emprego


são danos irreparáveis. Por isso, julgo a anistia um processo de reconhecimento e pedagogia democrática para livrar o Estado dos que cometem crimes, ilegalidades e barbaridades. Disse o Ministro que apesar da ditadura ninguém no Estado estava autorizado a torturar. Por isso a anistia é a consolidação de um projeto democrático de uma República que ainda está se constituindo. Como a relação do Estado com a sociedade é opaca, observou, o ato na ABI tem como maior significado a transparência, a valorização da fiscalização da cidadania, o respeito aos direitos humanos e a valores da República democrática que combate a desigualdade: — Com iniciativas como esta, queremos fazer que os jornais tenham vergonha de dizer que a anistia é bolsa-ditadura. Mas todas essas questões se resolvem com mais liberdade de imprensa e capacidade de dialogar e convencer. Por isso este é um ato de convencimento público, um projeto que faz que ditadura, censura, tortura e morte sejam irretornáveis. Dinheiro não paga O Presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão Pires Júnior, falou da existência de várias razões para que a Comissão de Anistia programasse o lançamento da Caravana na sede da ABI. E destacou que pela primeira vez o público teria a oportunidade de apreciar a realização de uma sessão da anistia fora de Brasília, com o crivo da fiscalização e crítica da sociedade brasileira e reforçando cada vez mais a transparência dos trabalhos do órgão: — Não é sempre que um tribunal administrativo brasileiro se dispõe a realizar suas sessões de forma pública e transparente. Outro ponto importante é o fato de estarmos hoje retomando os julgamentos dos processos de jornalistas dentro da Comissão de Anistia, que estiveram parados por três anos pelas razões que nós já conhecemos. Estaremos apreciando 20 requerimentos e fazendo justiça a esses cidadãos que foram perseguidos pelo regime militar. E isso tudo acontece na ABI, palco de tantas lutas pela resistência à ditadura, onde agora realizamos mais um capítulo dessa história que se iniciou em 1964, quando o regime militar ceifou as liberdades públicas no Brasil. Paulo Abrão fez questão de assinalar que a medida que a Comissão vem adotando é um ponto de partida para um diálogo mais profundo sobre o resgate de uma dívida política que o Estado brasileiro tem com inúmeros cidadãos. Sobre o valor das indenizações (R$ 3.758), disse que não é ponto central da anistia, “porque dinheiro algum paga o sofrimento de brasileiros que foram vítimas do Estado que tinha o dever de protegê-los”. Até o momento, informou, a Comissão de Anistia realizou 110 sessões de julgamento, analisando 10.228 reque-

tudes da entidade no momento é engrossar o coro das exigências para a abertura imediata dos arquivos da ditadura: — Nós temos direito a resgatar a memória deste País e fazer uma reverência a todos os lutadores e lutadoras que tombaram na defesa da construção de um Brasil melhor e mais justo para todos nós. E para isso é também indispensável que tenhamos uma imprensa liTarso: A anistia é a consolidação de um projeto democrático vre. Por isso é muito de uma república que ainda está se constituindo. simbólico que o início da nossa Caravana da rimentos, de um total de 35 mil. OuAnistia aconteça na ABI. tras duas caravanas estão previstas para A coordenadora do projeto das caraabril, a primeira no dia 15, na Associavanas, Flávia Carlet, informou que elas ção dos Anistiados de São Paulo. Nos deverão permanecer pelo menos dois dias 25 e 26 é a vez de São Domingos dias em cada local: no primeiro dia hado Araguaia, no Sul do Pará, onde severá um seminário cultural e no segunrão julgados os requerimentos de camdo, a sessão de julgamento. Ela lembrou poneses e outras pessoas acusados de que a proposta surgiu após sessão reaparticipação na chamada Guerrilha do lizada num congresso da União NacioAraguaia. nal dos Estudantes, no ano passado, durante o julgamento dos requerimenA palavra da Une tos de Aldo Arantes e Jean Marc van der A Presidente da Une, Lúcia Stumpf, Weld, ex-presidentes da entidade. Na disse que, além da consolidação do proocasião, Flávia disse que ouviu dos recesso de anistia, uma das principais atipresentantes da Une que a ação “tinha

UMA PAUTA FORMADA A FÓRCEPS Uma cordial batalha de bastidores, na antevéspera da sessão na ABI. A organização da pauta da sessão realizada na ABI pela Comissão de Anistia foi objeto de negociação entre a Presidência da Casa e o Presidente da Comissão, Paulo Abrão Pires Junior, ao qual Maurício Azêdo dirigira expediente pedindo a apreciação de 20 processos pendentes de decisão, vários deles formados há mais de cinco e até seis anos. Na antevéspera da reunião o Presidente da ABI verificou, com surpresa e frustração, que constavam da pauta apenas dois dos processos incluídos na lista, os de Rosa Gomes Malta, viúva do jornalista Octávio Malta, e Tamar de Castro Oliveira, viúva do jornalista Félix Athayde. Diante do propósito anunciado pelo Presidente da ABI de manter a Casa como sede da sessão mas dela não participar, pelo constrangimento em que ficaria pela omissão dos processos cujo exame pleiteara, o Presidente Paulo Abrão determinou a realização de buscas na Comissão para localização de alguns desses processos.Na véspera da sessão, Paulo Abrão comunicou à ABI que tinham sido acrescidos à pauta os processos de interesse de Maria Inês Duque Estrada Bastos, Jorge Saldanha de Araújo, Nilson Nobre de Almeida, Pery de Araujo Cotta e Julieta Moreira Cabral, viúva do jornalista George Moreira Cabral. Esse último processo estava desaparecido há anos e foi encontrado, esquecido, sob uma pi-

sido muito importante para a formação política e conhecimento da História”. Criada em 2003, a Comissão de Anistia é responsável por julgar os pedidos de indenização e, com base na Lei nº 10.559, de 2002, conceder reparação econômica a todos os que comprovarem terem sido privados de emprego, na iniciativa privada, ou cargo ou função, no serviço público, por razões políticas. Para tanto, os requerentes têm de comprovar não só a perseguição política, mas também os prejuízos financeiros ou físicos que sofreram, com o corte em sua vida profissional ou funcional. Informações do Ministério da Justiça repassadas à Agência Brasil dão conta de que, além das Caravanas da Anistia, a Comissão continuará realizando, em Brasília, as sessões temáticas em que não há julgamento dos processos, e sim coleta de documentos e informações dos grupos requerentes de indenização. Em 2007, a comissão realizou dez sessões temáticas. Foram ouvidos, entre outros, ex-trabalhadores do Banco do Brasil, das companhias siderúrgicas Nacional e Belgo Mineira, da Petrobras, da General Motors, da Cosipa, do Pólo Petroquímico de Camaçari e dos Correios. Os julgamentos Após o ato da Caravana, a Comissão de Anistia julgou e deferiu todos os 20 processos de jornalistas que estavam na

lha de outros num armário da Comissão. Os cinco processos citados somaram-se aos 15 incluídos originalmente na pauta da Comissão e que também foram julgados nessa sessão. Além dos processos de Jaguar e Ziraldo, foram aprovados esses cinco processos e os de Joana D’Arc Bizzotto Lopes, Maria Regina Pedrosa de Senna Figueiredo, Carlos Guilherme de Mendonça Penafiel, Ricardo de Moraes Monteiro, Sinval Itacarambi Leão, Maria José Rios Peixoto da Silveira Lindoso, Félix Augusto de Athayde-Tamar de Castro Oliveira, Orlando Maretti Sobrinho, Ari Cândido Fernandes, Amaro Alexandrino da Rocha, Josail Gabriel de Sales, Reynaldo Jardim Silveira e Rosa Gomes Malta. Dois dias antes da sessão na ABI, a Comissão de Anistia realizou em Brasília uma sessão em que apreciou 17 processos e concedeu anistia aos seus requerentes: Helena Salém, José Fernandes do Rego Filho, Antônio Correia Josué e outros, Glaucy Marise Aranha de Moraes, Germânia Felix, Marta Schonfeld do Valle, Flavy Ribeiro Phol, Virginia Lopes, José Gregório Gorender, Jorge Pinheiro dos Santos, José Seabra Neto, Roberto Ricardo Cômodo, Cláudio Maya Monteiro, João Máximo Ferreira Chaves, Luiz Eduardo Prado de Oliveira, Ricardo Frota de Albuquerque Maranhão, David Capistrano-Maria Augusta de Oliveira. Foi o relativo a esse último que o Ministro Tarso Genro assinou a portaria no ato na ABI. Helena Salém faleceu anos antes desse julgamento. Antes da sessão realizada na ABI, o Presidente da Comissão de Anistia informou que nela seriam julgados processos pendentes de apreciação em primeira instância, enquanto os processos de recursos seriam apreciados em reunião que a Comissão realizaria em maio em Brasília, a qual, porém, foi adiada para julho. Paulo Abrão informou que esperava que no primeiro semestre deste ano possam ser decididos todos os processos de anistia requeridos por jornalistas.

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Direitos humanos pauta do dia, requerendo reparação e indenização pelos traumas que sofreram como vítimas da ditadura militar. As maiores indenizações foram concedidas aos cartunistas Jaguar (R$ 1.027. 383, 29) e Ziraldo (R$ 1.253.000,24). Esses valores são resultantes do atraso com que o Estado nacional concede reparação às suas vítimas. Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o cartunista Jaguar, trabalhou no jornal Última Hora. Juntamente com Ziraldo, foi um dos fundadores do Pasquim, e figurou nos arquivos da ditadura militar como “comunista, suspeito de exercer atividades esquerdistas”. Ziraldo Alves Pinto trabalhou em

diversos veículos de imprensa que foram empastelados e fechados pelo governo militar, entre eles O Sol, editado nos anos 60 pela empresa que mantinha o Jornal dos Sports. Atuou também nas revistas O Cruzeiro e Visão, até que em julho de 1969 fundou o Pasquim, censurado a partir da sua 25ª edição. O jornal sofreu dura perseguição da ditadura, a ponto de as bancas em que era distribuído terem sido incendiadas. A jornalista Maria Inês Duque Estrada, membro do Conselho da ABI, foi militante do Partido Comunista Brasileiro, em que ingressou em 1964, ano em que os militares tomaram o poder. Em 1973, foi presa pelo Doi-Codi, onde

foi torturada. Na época, era repórter do Jornal do Brasil e trabalhava também na Enciclopédia Britânica. Em 1975, teve seu visto de saída do País negado, por causa da sua “orientação ideológica”. Sobre a Caravana da Anistia na ABI e o deferimento do seu requerimento, a jornalista comentou: — Fiquei emocionadíssima, foi um ato muito bonito. Gostei de ver a participação dos estudantes, de ver o jovem nessa luta que eu considero que não é individual, mas uma conquista coletiva que marca uma etapa de luta por uma vida mais justa. No caso da indenização, ela é apenas parcial, porque a vida que dos que se foram não pode ser resgatada.

FOTOS: FOLHAPRESS

Jaguar (à esquerda) e Ziraldo: crucificados pelo valor da indenização aprovada, que se elevou pela demora do Estado de pagá-la.

A carta do anistiado Poerner que O Globo deixou de publicar Os julgamentos de processos de anistia de jornalistas realizados no Rio ensejaram um noticiário crítico e pejorativo de O Globo, que, com chamada na primeira página, dois dias seguidos, classificou as indenizações de “bolsa-ditadura”, como se os requerentes estivessem usufruindo algo imoral e indevido. O tom do noticiário, repelido com veemência por Ziraldo, exposto à execração pública pelo jornal, motivou dezenas de cartas de leitores, todos indignados com a suposta benemerência concedida aos anistiados. O Globo publicou, porém, apenas as cartas afinadas com a linha do seu noticiário e não registrou as que contestavam a impressão que o jornal procurou incutir na opinião pública. Entre as cartas renegadas estava uma do jornalista Arthur José Poerner, transcrita a seguir. Membro do Conselho Deliberativo da ABI, Poerner teve os direitos políticos cassados quando tinha 26 anos, sofreu prisões e torturas e teve de se exilar na Alemanha, onde viveu dez anos. Disse Poerner no texto rejeitado, enviado ao jornal às 18h41min do dia 14 de abril: “Não posso deixar de me solidarizar com Ziraldo e Jaguar, valorosos companheiros da resistência cultural n’O Pasquim ao obscurantismo ditatorial, diante do linchamento moral a que vêm sendo submetidos por alguns leitores, nesta seção. Acionado pelos mesmos princípios éticos e democráticos que me fizeram repudiar o golpe militar desde que surpreendido por ele, com menos de dois anos de profissão, no Correio da Manhã. Por expressar esta rejeição, sempre e só no que escrevi, tornei-me, aos 26 anos, o caçula dos punidos com a suspensão dos direitos políticos por 10 anos; respondi a IPM; fui

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processado pelo Ministro Suplicy de Lacerda; tive que fugir pela janela - com Edmundo Muniz e o exímio editorialista Franklin de Oliveira - na noite em que forças policiais-militares invadiram o jornal, enquanto o Alberto Cury lia, em cadeia nacional, o AI-5; acabei preso na Redação, em 1970, demitido, após mais de três meses de prisão no inferno do DoiCodi da Barão de Mesquita, e, ante a impossibilidade de sobreviver aqui, exilado, por quase 10 anos, na Alemanha. Como contabilizar perdas e ganhos (que os houve, embora não bafejados pela ditadura, na qual alguns vêem, equivocadamente, a grande musa dos cartunistas)? Incluir na conta os infartos, o romance inspirado na tortura, o conhecimento de outros povos e idiomas? Recebo, mensalmente, R$ 1.549,57 de aposentadoria de anistiado, ora rebatizada de “bolsa-ditadura” (certamente, por quem não vivenciou os anos de chumbo ou optou por vivê-los por caminhos menos perigosos do que os da resistência). Agora, o massacre do Jaguar e do Ziraldo levanta a questão: sou um “bolsista da ditadura”? Sei que agi movido pela minha consciência, sem visar a ganhos financeiros, que não foi “investimento”, mas, também, que, em todos os países regidos pelo Direito, o Estado deve reparações pelos danos que ocasiona. A esses malefícios, que podem ser erros médicos ou balas perdidas em tempos democráticos, se agregam, nas ditaduras, desde prejuízos profissionais e materiais causados pela censura e pela repressão cultural a mortes e seqüelas físicas e mentais resultantes de tortura. Calcular o custo de uma carreira interrompida (a não ser nos casos de militares, diplomatas e outros funcionários públicos) é quase tão difícil quanto avaliar o preço de uma vida. Mais uma razão para que o nosso Estado jamais volte a ceder a tentações ditatoriais. Gera custos de reparação. Que os leitores zelosos com o erário e com a destinação dos seus impostos também pensem nisso. ARTHUR POERNER (por e-mail, 14/4), Rio.”

Bolsa-Ditadura, não. É Bolsa-Sofrimento POR MAURÍCIO AZÊDO A pedido de O Dia do Rio de Janeiro, o Presidente da ABI elaborou o artigo a seguir, publicado pelo jornal na edição de 11 de abril, sob o título Bolsa-Sofrimento. HÁ UMA EXPLORAÇÃO INDEVIDA em torno da anistia concedida aos jornalistas Jaguar e Ziraldo, que estão sendo execrados por uma campanha jornalística de teor moralóide, mas que no fundo retrata o inconformismo de setores saudosos da ditadura diante das conquistas que a luta do povo brasileiro obteve, à custa de muitos sacrifícios, na busca de justiça para as vítimas das perseguições e dos crimes da ditadura. Entre os inspiradores da campanha encontram-se áulicos que privaram da intimidade de um dos cérebros da ditadura, o General Golbery do Couto e Silva, que só poderia doar seus arquivos, como doou, a quem coonestasse suas ações antidemocráticas e o incensasse. O móvel da campanha é o valor mensal fixado para a indenização de reparação moral devida a esses dois combatentes das resistência democrática, assim como a outros vítimas da ditadura, que só agora, após mais de 40, 30 e 20 anos de sofrimento, recebem do Estado nacional o reconhecimento de que seus direitos de cidadãos e de pessoas foram barbaramente violados e sonegados. Jaguar e Ziraldo vão receber como indenização uma prestação mensal de R$ 4.357,88, valor muito distante daquele que perceberiam se os órgãos de imprensa em que trabalharam não tivessem sido riscados do mapa pela fúria liberticida do regime militar. Como o Estado nacional demorou mais de 20 anos para fazer justiça, ambos devem receber as prestações atrasadas em montante em torno de R$ 1 milhão e 52 mil, caso de Jaguar, que encontra essa reparação depois de longa vida de trabalho e num momento em que vive problemas de saúde. Os inimigos desse ato de justiça procuram apresentar essa confissão de culpa do Estado nacional, como dizem na primeira página de noticiário altamente manipulado, sob a denominação ofensiva de Bolsa-Ditadura, numa paráfrase indevida com o programa Bolsa-Família. Nós dizemos que essa é a Bolsa-Sofrimento, a Bolsa-Angústia dos que sofreram horrores enquanto muitos se regalavam com os favores da ditadura militar.


WILSON DIAS-ABR

Um memorial para a anistia no terreno que foi da Une O espaço abrigará o acervo de documentos da repressão entre 1946 e 1988, anuncia o Ministro Tarso Genro. A ABI fez-se presente no lançamento do Memorial da Anistia Política, em ato sob a presidência do Ministro da Justiça, Tarso Genro, no dia 15 de maio, na antiga sede da União Nacional dos Estudantes, no Rio de Janeiro. Com inauguração prevista para 2010, o local abrigará o acervo de documentos do período de repressão no País, abrangendo quase meio século de perseguições políticas. A solenidade, durante a qual Tarso Genro assinou a portaria que cria o Memorial da Anistia Política no Brasil, teve como cenário o terreno que abrigou a Une, na Praia do Flamengo, 132, onde funcionava a sede destruída pela ditadura militar. Participaram da mesa do evento o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, o Presidente do Conselho Federal da OAB, Cézar Britto, e a Presidente da União Nacional dos Estudantes, Lúcia Stump. Durante a cerimônia, foi prestada homenagem post-mortem ao líder estudantil Honestino Guimarães, dirigente assassinado pela repressão cujo corpo jamais foi encontrado, e à militante política Elza Monnerat, membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil-PCdoB e participante da fase inicial da guerrilha do Araguaia. Após o ato, o grupo de teatro Tá Na Rua, criado por Amir Haddad, apresentou esquetes relacionadas à anistia e aos direitos humanos . “Anistia não é esquecimento” O Memorial vai abrigar um centro de divulgação e de documentação, com acervos históricos dos períodos de repressão entre 1946 e 1988 e todos os arquivos da Comissão de Anistia: — A anistia não é um esquecimento, nem contribuição financeira, porque o Estado nunca vai pagar todos os tipos de prejuízo que as pessoas que se opuseram ao regime militar tiveram. É um processo integrante da constituição do Estado Democrático de Direito e o momento pelo qual o País está passando é importante para a consolidação da democracia e da república — disse o Ministro Tarso Genro. O Presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, disse que a iniciativa de criação desse Memorial vai entrar para a História: — A sede da UNE no Flamengo foi um dos lugares onde a repressão atuou de forma veemente. A anistia é o reconhecimento da dívida

política que o País ainda tem e é um direito constitucional. Estudantes punidos À tarde, integrando a terceira programação do projeto Caravanas da Anistia, foi realizado o julgamento de anistia dos seguintes requerentes, vítimas de perseguições na época em que eram estudantes: Edson Menezes da Silva - Integrou o movimento estudantil contra a ditadura quando cursava Economia na Universidade Federal da Bahia-Ufba. Militante da Ação Popular (AP), ajudou a fundar o Instituto dos Economistas da Bahia, alvo constante de repressão por parte dos militares. Dione Damasceno - Presa em 1972, acusada de praticar atividades subversivas, quando cursava Medicina na Universidade Federal de Goiás. Foi interrogada e torturada. Exilou-se na Suécia em 1975 e retornou ao Brasil em 1983. Mário Magalhães Lobo Viana - Teve sua matrícula suspensa na Universidade Federal do Rio de Janeiro por ser considerado subversivo. Foi um dos nove estudantes presos no Maracanãzinho durante show de Geraldo Vandré, por distribuir panfletos que conclamavam o público a apoiar o músico, compositor de canções que criticavam a ditadura. Solange Lourenço Gomes - Celso Pohlmann Livi requereu a declaração de anistiada política post-mortem de sua esposa. Solange teve destacada militância política nos anos 1960 e 70. Foi presa e submetida a sessões de tortura. A Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, instituída pela Lei nº. 9.140/95, reconheceu a responsabilidade do Estado brasileiro pela tortura e conseqüente morte de Solange Lourenço Gomes. Ana Maria Santos Rocha - Aluna da Psicologia na Universidade Federal da Bahia, foi militante estudantil e atuou no PCdoB a partir de 1973. Por conta das perseguições, perdeu o emprego. Exilou-se na Albânia e retornou ao Brasil em 1980. Olivia Rangel Joffily — Militante do movimento estudantil paulista, também atuou na Ação Popular (AP). Foi perseguida, abandonou o curso de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas-Unicamp e o emprego. Passou a viver na clandestinidade e partiu para o exílio. Retornou ao Brasil em 1979.

Em frente à Catedral de Brasília, manifestantes pró-descriminalização da maconha reagem à decisão judicial que proibiu a realização da Marcha.

Proibição de marcha, da maconha ou não, ofende a democracia Quaisquer segmentos da sociedade têm o direito de propor a alteração da legislação, diz Declaração de Princípios firmada pela OAB-RJ, ABI e várias entidades Reunidas no dia 12 de maio no Auditório Evandro Lins e Silva, da Ordem dos Advogados do Brasil/Seção Rio de Janeiro, entidades da sociedade civil, entre as quais a ABI, firmaram uma Declaração de Princípios em que condenam a proibição judicial da chamada Marcha da Maconha e defendem o “direito de quaisquer segmentos da sociedade propugnarem a mudança da legislação vigente”. Organizado por iniciativa da OAB-RJ, o ato contou com a participação de Ricardo Pedreira, da Associação Nacional de Jornais-ANJ; Lúcia Stumpf, Presidente da União Nacional dos Estudantes-Une; Paulo Saboya, Presidente do Instituto de Advogados do Brasil; do Deputado federal Chico Alencar (Psol-RJ); do Vereador Roberto Monteiro (PCdoB); do professor Daniel Sarmento; e do Presidente da ABI, Maurício Azêdo, que compuseram a mesa presidida pelo advogado Wadih Damous, Presidente da OAB-RJ. Entre os oradores figurou o organizador do movimento no Rio de Janeiro, sociólogo Renato Cinco, que revelou que foram programadas marchas em 11 capitais, das quais apenas a de Recife foi autorizada pela Justiça. Nos incidentes que marcaram em vários Estados os protestos contra a proibição da marcha, foram presas centenas de pessoas, das quais 16 foram autuadas e submetidas a processos por desacato à autoridade. Em Curitiba-PR, a PM local prendeu cem pessoas. O Deputado Chico Alencar anun-

ciou que proporá ao Psol, seu partido, que ingresse no Supremo Tribunal Federal (STF), com uma ação direta de constitucionalidade para interpretação do texto constitucional sobre a liberdade de reunião, conforme proposta apresentada pelo professor Daniel Sarmento. Durante o ato, o Presidente da OABRJ leu mensagem recebida da Associação Juízes pela Democracia, que condenou a proibição judicial das marchas programadas. É este o teor da Declaração de Princípios aprovada na reunião: ”Diante da proibição judicial para a realização da marcha em defesa da legalização da maconha, que estava marcada para o dia 4 de maio último, as entidades presentes ao ato público realizado no Auditório Evandro Lins e Silva, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Rio de Janeiro (OAB/RJ), afirmam: 1) seu inquebrantável compromisso com a democracia; 2) sua defesa incondicional do direito de quaisquer segmentos da sociedade propugnarem a mudança da legislação vigente; 3) seu repúdio a quaisquer atos que venham a tolher a liberdade de expressão, tão duramente conquistada. Tal posição, reafirmada pelas entidades signatárias deste documento, é consoante com nossos princípios democráticos e não entra no mérito das bandeiras encampadas pela caminhada que teve sua realização impedida por força da decisão do Poder Judiciário. Rio de Janeiro, 12 de maio de 2008.”

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Direitos humanos

Segurança pública é o maior nó a ser desatado, diz o Secretário de Direitos Humanos Vanucchi Seminário na ABI coloca em discussão questões tormentosas: direito à vida, direitos das minorias, índices de mortes nos centros urbanos, como a imprensa cobre as comunidades populares.

Em palestra realizada em 5 de maio na sede da ABI, no encerramento do seminário Mídia, segurança e direitos humanos, o Ministro Paulo Vannuchi, Secretário Especial de Direitos Humanos da Presidência da República,, disse considerar que direito humano é o mesmo que direito à vida e que, por isso, é fundamental que o Estado e sociedade lutem articulados para garantir que não haja ataques à liberdade de imprensa e ao direito de ir-e-vir de todo cidadão. Declarou também que a segurança pública é talvez o maior nó a ser desatado pelo Brasil na busca da consolidação e afirmação da sociedade civil na luta pelos direitos humanos: — O tema está em processo de reformulação, passamos a construir uma nova mentalidade sobre direitos humanos. Antes de 1964, eles não eram tão difundidos no Brasil, como acontece hoje. Isso se deu a partir da ditadura militar, em função da prisão e repressão a presos políticos. Por isso, acho que esse tema deva ser incluído na estrutura do ensino fundamental, para implantar a semente dos direitos humanos nas crianças. Ao falar sobre a agenda da Secretaria Especial de Direitos Humanos em 2008, Vannuchi anunciou a realização da I Conferência Nacional de GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros), que deverá acontecer no início de junho, o lançamento do Programa Nacional de Defesa dos Direitos Humanos dos Policiais e um encontro do Presidente Lula com empresários, em julho, para discutir responsabilidade social nas empresas. As políticas públicas de direitos humanos, disse, devem interpretar todas as lutas, como as das minorias e contra a exploração sexual. Ao discorrer sobre a importância da total integração do Estado com a sociedade de maneira geral para dialogar sobre os direitos humanos, o Ministro declarou que a SEDH trabalha com base no tripé Poder Executivo-mídiaPoder Judiciário, que “se encontra defasado”: — Entendo o debate sobre direitos humanos como uma coligação entre diferentes setores, para construir um Brasil que começa a consolidar a convivência pacífica. 34 Jornal da ABI 329 Maio de 2008

ELZAFIÚZA/ABR

POR JOSÉ REINALDO M ARQUES

Vanucchi defende a inclusão do tema direitos humanos na estrutura do ensino fundamental, para implantar a semente da noção desse bem na mente das gerações mais novas.

Também participaram da mesa de debates Maurício Azêdo, Presidente da ABI; Giancarlo Summa, Diretor do Centro de Informação das Nações Unidas-Unic para o Brasil, instituição que propôs a realização do encontro ; Silvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes; André Luiz Azevedo, repórter da Rede Globo de Televisão; Angelina Nunes, Presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo-Abraji e Editora-Assistente de O Globo; Adauto Soares, Coordenador interino do Programa de Comunicação

e Informação da Unesco; Evandro Vieira Ouriques, professor da Escola de Comunicação-Eco da UFRJ; e Ana Miguez, Editora-Executiva do jornal O Dia. O encontro aconteceu na Sala Belisário de Souza, no 7º andar da ABI, e reuniu grande platéia de jornalistas, representantes de organizações não-governamentais, estudantes e comunicadores de veículos alternativos do interior do Estado do Rio. O evento foi realizado em comemoração do 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos e do centenário da ABI, festejado em 7 de abril.

No início da reunião, dizendo-se satisfeito com a escolha da Casa para sediar o ato, o Presidente da ABI lembrou a importância da Declaração Universal dos Direitos Humanos e citou o jornalista Vladimir Herzog, para lembrar a relevância da participação da imprensa no caso, durante a ditadura: — O assassinato do Herzog foi um episódio traumático que marcou de forma vigorosa o País. E a ABI desde então tem levantado a bandeira dos direitos humanos, de maneira abrangente que se manifesta amplamente e não apenas para garantir a vida de jornalistas. Giancarlo Summa, por sua vez, contou que começou a vida profissional como jornalista e falou sobre a influência da mídia na postura adotada pelos Governos em relação aos direitos humanos: — As políticas de segurança são desencadeadas de acordo com a cobertura que a mídia faz. As prioridades são eleitas segundo o tratamento que a mídia dá. Esse é um poder que a mídia tem no Brasil e no mundo. Os números da violência Coube à psicóloga Silvia Ramos, doutora em Saúde Pública e pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, fazer a palestra introdutória do seminário, em que apresentou resultados da pesquisa Mídia e violência, do CESeC. A partir de entrevistas com 90 especialistas das duas áreas, o trabalho levou três anos para ser concluído (de 2004 a 2007) e faz um diagnóstico sobre segurança e o tratamento dado ao tema pela imprensa: — A idéia de realizar a pesquisa partiu do princípio de que a mídia cumpre um papel decisivo para que os brasileiros dêem uma resposta às demandas na área de segurança pública. Chegou-se à conclusão de que o ideal seria fazer um diagnóstico sobre a cobertura que a imprensa dá atualmente a assuntos como violência, segurança e direitos humanos. O principal objetivo, disse Sílvia Ramos, era abrir um canal de diálogo entre a universidade, os centros de pesquisa e os profissionais e órgãos que produzem a notícia. Para que fosse estabelecido um padrão, inicialmente foram ouvidos os nove maiores jornais


COMO FOI A NOITE DA DITADURA NO URUGUAI Pesquisador uruguaio vai falar sobre direitos humanos no país vizinho. Será em setembro, na ABI. Na mesa do debate: Evandro Ouriques, Ana Miguez, Giancarlo Summa, Paulo Vanucchi, Maurício, Sílvia Ramos (encoberta) e Angelina Nunes.

do Brasil: três do Rio de Janeiro, três de São Paulo e três de Minas Gerais. De acordo com a pesquisa, 50 mil pessoas são assassinadas no Brasil a cada ano. Em 1984, o índice de homicídios era de 15,2 por 100 mil habitantes. Em 2004, o número aumentou para 26,9 homicídios por 100 mil habitantes, colocando o País entre os mais violentos do mundo. Na maioria dos países europeus, por exemplo, essa taxa é de dois homicídios por 100 mil habitantes. Outro dado relevante, na opinião da pesquisadora, é analisar esses crimes item a item. Por exemplo: por faixa etária, no Rio a taxa de homicídios de jovens com idade entre 22 e 23 anos é a maior do Brasil; por etnia, anualmente são assassinados 88 jovens brancos por 100 mil e 200 jovens negros por 100 mil. — São números impactantes e essa distribuição acontece há muitos anos. A pesquisa mostra que há um padrão local de violência. Em Ipanema, a taxa é de 7 por 100 mil habitantes; na periferia, é de 100 por 100 mil habitantes. Esse quadro também se repete em São Paulo e Minas Gerais. A cobertura sobre o assunto vem melhorando, mas ainda é muito frágil. Veículos que tratam a violência com sensacionalismo são fadados ao fracasso. Isso aconteceu com jornais como O Povo, no Rio, e o Diário Popular, em São Paulo. Há uma tendência positiva na mudança de postura da mídia no tratamento de temas como direitos humanos. E essa transformação se deve também ao processo de qualificação do jornalista. Apesar de considerar que houve uma grande melhora na produção das notícias policiais, Silvia Ramos diz que há um paradoxo nessa cobertura: — Recentemente, em conversa com um editor de Cidade do Globo, ele me disse que, por ser morador da Zona Norte, observa coisas no trajeto para o trabalho que outros editores, da Barra ou da Zona Sul, não vêem. Aquele repórter que cobria polícia e se confundia com policial está em extinção nas redações, dando lugar a outros mais bem-formados, de classe média, que vivem em áreas onde a violência tem que ser silenciada, porque não é o foco principal. Além disso, mesmo nos melhores veículos, 29% do noticiário policial têm como fonte única a polícia. Outro dado que preocupa, aponta-

do pela pesquisa, é que muitos jornalistas não sabem ler dados estatísticos. O repórter, esse inimigo Para o repórter André Luiz Azevedo, acostumado a fazer coberturas em áreas de risco, houve uma mudança considerável na relação das comunidades com a mídia: — Há 35 anos, quando eu trabalhava na Rádio JB, as comunidades não sabiam falar. Houve uma mudança nesse processo, pois os indivíduos aprenderam a se comunicar, mas a imprensa abandonou essas pessoas. André Azevedo considera que a cobertura atual está, ao mesmo tempo, “mais honesta, perigosa e frágil”. No passado, segundo ele, a imprensa tinha que fazer acordos com o tráfico para entrar em qualquer comunidade. Hoje, é mais difícil: — Atualmente, os bandidos nos vêem como inimigos e isso torna o nosso trabalho muito mais perigoso. Temos que ter consciência de que os criminosos atiram para nos atingir e a Polícia não nos protege, porque também nos enxerga como opositores. Carros blindados, colete à prova de bala, tudo isso não tem valor absoluto na hora do conflito. Há também o caso da censura imposta pelo tráfico, que é o grande dilema que a imprensa vive nesse momento, por causa da negociação que as equipes têm que fazer para trabalhar em áreas de risco. Fim ao egoísmo Angelina Nunes, Presidente da Abraji e Editora-Assistente de O Globo, expôs a proposta da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo de incentivar o investimento na formação do profissional de imprensa: — Uma das prioridades da entidade é lutar pela melhoria da qualificação jornalística, incentivar as melhores técnicas de reportagem, trocar informações, disseminar conhecimentos e pôr fim ao antigo comportamento do jornalista que não gosta de partilhar sua agenda. Esta prática tende a acabar. Nesse contexto, a Abraji tem realizado congressos, palestras e cursos que ensinam os jornalistas a lidar com estatísticas e transformá-las em pauta. Isso contribui para que os repórteres apurem índices de criminalidade que as autoridades não gostam de divulgar. É preciso aprender a compreender o que

está por trás dos dados e não aceitar apenas o que a fonte diz: — Não é o objetivo do jornalista ser um reprodutor do que a autoridade está divulgando. O jornalista precisa diversificar seu trabalho para estar muito mais qualificado. Quando o repórter estiver cara a cara com uma fonte oficial, vai entender exatamente o que ela quer dizer com as suas palavrinhas mágicas. Angelina disse que a Abraji também se preocupa com o jornalismo em área de risco e investe na capacitação do profissional em situação de conflito: — Essa é uma prática diária da profissão no Rio de Janeiro, que não é tão diferente do que acontece em São Paulo ou em Minas. Na rede de comunicação em que os repórteres estão sempre se falando, só mudam os nomes dos bandidos, mas os relatos são os mesmos. “Bandidos têm que morrer” Ana Miguez, de O Dia, relatou um episódio, ocorrido em 2004, em que um fotógrafo do jornal acompanhava uma equipe da Coordenadoria de Recursos Especiais-Core da Polícia Civil, numa favela no subúrbio, quando o helicóptero do grupo quase foi atingido por disparos de fuzis e metralhadoras vindos do Morro da Providência: — Mesmo com medo de ser atingido, o fotógrafo pôs o braço pra fora e disparou a máquina, fazendo as fotos sem olhar no visor. Quando voltou à Redação é que foi ver a seqüência, em que dois moradores do morro, desarmados, estavam sendo intimidados por policiais, que depois apareciam descendo a favela com um corpo sendo carregado num tapete. Com a publicação das imagens, o delegado que comandava a operação e mais seis policiais foram afastados de suas funções. Esse fato gerou uma crise entre a Polícia e o jornal e entre o jornal e os leitores, que enviaram uma enxurrada de cartas e emails para a Redação, protestando contra a decisão de publicar as fotos e alegando que “ bandidos têm que morrer”. Além disso, o fotógrafo passou a sofrer ameaças e foi obrigado a sair de férias. Para Ana Miguez, em casos assim a imprensa exerce um papel fundamental e acaba mudando o rumo da história: — Se não fosse a intervenção dos jornalistas, episódios como esse teriam tido outro desfecho.

O Consulado-Geral do Uruguai no Rio de Janeiro, o Instituto Cultural Brasil-Uruguai e a ABI vão promover em 10 de setembro próximo uma conferência com o cientista político uruguaio Gerardo Caetano, que fará uma exposição sobre a evolução dos direitos humanos em seu país durante a ditadura militar. O conferencista é professor da Faculdade de Humanidades da Universidade da República do Uruguai e foi incumbido pelo Presidente Tabaré Vázquez de pesquisar as ocorrências que marcaram o período. De acordo com a programação, em elaboração, o evento será aberto com uma exposição de Gerardo Caetano e terá seqüência com intervenções de convidados especiais: Frei Betto e os professores Jesse Jane, Diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de O Cônsul do Uruguai no Rio, Alberto Guani: A integração sul-americana exige mais informações sobre nossos países.

Janeiro, e Henrique Rodríguez Larreta, da Universidade Candido Mendes. A realização do evento foi discutida na tarde do dia 25 de abril na sede da ABI pelo Cônsul-Geral do Uruguai no Rio de Janeiro, Alberto Guani, e pela Presidente de Honra e a PresidenteExecutiva do Instituto Cultural Brasil-Uruguai, Nenê Rodrigues e Beatriz Bissio, respectivamente. Em encontro com o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, o Cônsul salientou a importância do conhecimento da vida em seu país durante o regime ditatorial, como parte dos esforços para a integração sul-americana. Guani, que está no Brasil há mais de três anos, é diplomata de carreira desde 1986, mas estreou profissionalmente como jornalista, no jornal El Día, que foi fundado por José Batlle y Ordoñez e deixou de circular em 1987. Além de jornalista, Batlle (1856-1929) foi Presidente do Uruguai por dois mandatos (1903-1907 e 1911-1915) e teve papel destacado na estruturação do Estado nacional de seu país. Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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Liberdade de imprensa

Juízes vêem litigância de má-fé nas ações de seguidores da Universal Judiciário condena requerentes pela forma ardilosa como os processos contra imprensa foram orquestrados Já se vão mais de seis meses desde que o jornal Folha de S. Paulo publicou a reportagem Universal chega aos 30 anos com império empresarial, de autoria da jornalista Elvira Lobato, mas o calvário a que o veículo e a profissional estão sendo submetidos continua. Isso porque, desde então, pastores e fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus, orquestrados por uma espécie de centro de coordenação, começaram a entrar na Justiça pleiteando indenizações por danos morais. Segundo dados publicados pelo próprio jornal, até agora foram movidas 97 ações nos mais distantes pontos do País em nome de seguidores da Iurd que se dizem ofendidos pela matéria. Todas as 37 decisões já proferidas são favoráveis ao jornal. A truculência, que tentou ser disfarçada como “guerra santa”, atingiu além da Folha e de Elvira, outros três jornais: O Globo e Extra, do Rio, e A Tarde, de Salvador. No capítulo mais recente do embate, foi a vez do editor do Caderno Brasil, da própria Folha de S. Paulo, Fernando de Barros Silva, ser acionado por ofensa à honra em nova ação movida pela Igreja por causa do artigo Fé do bilhão, publicado também em dezembro e que comentava a reportagem de Elvira. Apesar de a grande maioria dos processos movidos pelos seguidores da Iurd contra Elvira e a Folha serem independentes, os textos são muito parecidos, com citações e expressões idênticas. Além disso, a possibilidade de ampla defesa é praticamente impossível de ser praticado. Um levantamento feito pela ABI indicava que as ações estão espalhadas nas mais distantes cidades de 20 Estados brasileiros, de Xapuri (AC) a Jaguarão (RS). Impetradas em Juizados de Pequenas Causas, a ausência dos réus na audiência de conciliação dá como procedentes as alegações do autor. O problema é que em diversas oportunidades houve audiências marcadas para os mesmos dias e horas próximas em localidades extremamente distantes. Em Santo Ângelo (RS), houve um caso emblemático nessa disputa. Alegando difamação, Jadson Tiago Roballo, pastor da Igreja na cidade, processou o jornal e Elvira. Ao julgar a questão, o juiz Giancarlo Caminati Baretta considerou 36 Jornal da ABI 329 Maio de 2008

Juiz Giancarlo Caminati Baretta acredita que os processos movidos por seguidores da igreja Universal têm uma orientação superior devido à grande semelhança entre os textos. Que interesse teria o bispo Macedo (acima, de branco) em calar a imprensa?

a ação improcedente e disse que na reportagem não há qualquer tipo de discriminação religiosa. – Se queria se defender, a Igreja deveria vir a público esclarecer os fatos. Vejo nas ações com alegações iguais, em diversas comarcas, uma orientação superior para obter vantagem financeira e impossibilitar a defesa – declarou Baretta em sua decisão. A reportagem Universal chega aos 30 anos como império empresarial, publicada em 15 de dezembro de 2007, trazia informações sobre sua receita e mostrou que a Igreja é atualmente a detentora do maior número de emissoras e retransmissoras de televisão no Brasil. Repórter especial da Sucursal da Folha no Rio, na qual trabalha há 22 anos, Elvira Lobato reclama de perseguição e diz que continua sendo praticamente impedida de realizar seu trabalho por conta dos processos. Em entrevista exclusiva ao Jornal da ABI, a jornalista disse que já não pode mais executar sua especialidade: a reportagem investigativa. – Sou obrigada a fazer as pautas do dia-a-dia, porque as viagens para as audiências ocupam grande parte do meu tempo e da minha emoção. Como fazer reportagens especiais em situações assim? Para exemplificar: num dia acordei às 4h30. Precisava estar no Aeroporto Internacional Tom Jobim às 5h30 para ir a Porto Alegre (RS), no Sul

do País. Ao chegar lá, ainda viajei outras cinco horas e meia de carro até Jaguarão, na divisa do Brasil com o Uruguai para uma audiência. Depois, viajei por outras duas horas e pernotei em Pelotas. Na manhã seguinte, por mais três horas, fui de carro até Porto Alegre. Passo dias na estrada e de aeroporto em aeroporto – conta ela. Mais do que o prejuízo financeiro e o desrespeito profissional, as ações evidenciam um ataque à liberdade de imprensa. Isso se torna ainda mais evidente quando se observa o valor pífio das indenizações pleiteadas. Na maioria dos casos não passa de R$ 1.000 e só em um ou outro chega a R$ 10.000 e R$ 12.000. Com isso, a Universal diminui o valor que terá de gastar caso seja negado o pedido de benefício da justiça gratuita. Percebendo os ardis, alguns juízes estão indeferindo as ações, condenando os requerentes a pagar custas judiciais como despesas processuais e multas por litigância de má-fé e uso do Poder Judiciário de forma indevida. No meio de toda essa trama, a ABI externou em nota divulgada ainda em fevereiro sua preocupação por considerar a tática uma grave ameaça à liberdade de informação e de expressão. Também luta junto à Anistia Internacional por um movimento mundial em defesa dos jornalistas e dos veículos. – O que foi desencadeado contra esses profissionais e órgãos é uma campa-

nha de intimidação e coerção sem precedentes na história da comunicação no Brasil. Já enfrentamos a fúria repressiva do Estado e de regimes ditatoriais, mas nunca uma investida partida da própria sociedade civil com a abrangência e o conteúdo mostrados por meio dessas ações. É ainda mais grave e preocupante que tudo isso se faça sob o pálio de uma confissão religiosa, que se põe acima do olhar dissonante dos que não a professam e não admite que a encarem com visão crítica – diz a nota, assinada pelo jornalista Maurício Azêdo, presidente da ABI. As decisões tomadas até agora são elucidativas e mostram que a Justiça está no caminho certo. Ainda assim é preciso atenção. O pedido da Folha de S. Paulo para que todas as ações fossem juntadas em um único processo foi indeferido, o que continua a dificultar a defesa. Apesar de respeitar a posição da Universal, que se diz ofendida por frases das reportagens citando o uso dos recursos que arrecada, a ABI considera inaceitável que o assunto seja tratado na base da pressão e da engenhosidade e não dos argumentos. Deferir esse tipo de ação pode causar danos irreparáveis à democracia brasileira, ainda em construção. Esse processo deixou na recente História do Brasil não poucas vítimas e mártires. O perigo hoje é confundir quem é quem nessa trama.


Em tempo recorde, decisão judicial impõe censura a blog de jornalista

Sob as vistas de Angelina Nunes e da Reitora Suely Maria Dias, o Presidente da ABI recebeu de Josemar Gimenez (à direita) a placa de homenagem do Estado de Minas.

No Congresso da Abraji, um clamor em defesa da liberdade de imprensa Encontro em Belo Horizomte presta homenagem ao centenário da ABI e manifesta solidariedade aos jornalistas processados. O 3º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo foi aberto no dia 8 de maio, em Belo Horizonte, com uma cerimônia comemorativa do centenário da ABI, que recebeu homenagens do jornal Estado de Minas, que festeja seus 80 anos, e dos organizadores do conclave, que convidaram o Presidente da Casa para proferir a palestra de abertura do encontro, promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo-Abraji e pelo Centro Universitário de Belo HorizonteUNI-BH, com o apoio do Knight Center for Journalism in the Americas, da BBC, do Centro Cultural da Espanha, do Instituto Ayrton Senna, da Fundação Avina e dos jornais Estado de Minas e Correio Braziliense. Na abertura do Congresso, o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, agradeceu a homenagem e destacou a importância da troca de experiências entre jornalistas promovida pelo evento: — A ABI funciona para a troca de experiências entre os jovens e os mais velhos. A prática de conversas entre profissionais de diferentes idades se tornou rara no ambiente de trabalho. O barulho e o falatório das redações de antigamente deu lugar hoje à troca silenciosa de mensagens instantâneas e ao pouco contato entre os jornalistas. A Abraji surgiu em um momento espinhoso e favorece o povoamento de uma humanidade profissional nas redações. Maurício destacou a importância da qualificação e a necessidade de formação superior para o exercício do jornalismo: — Não defendemos a exigência do diploma, que, tal como no poema de Drummond, pode ser apenas um quadro na parede, e sim que o jornalista tenha capacitação de alto nível técni-

co, ético e cultural, correspondente à dimensão do ofício que tem que exercer, já que o jornalismo é de fundamental importância na vida social do País. Durante a cerimônia, realizaram-se ainda um ato em solidariedade aos jornais Folha de S.Paulo, Extra e A Tarde e aos jornalistas Elvira Lobato, Bruno Thys e Valmar Hupesel Filho, recentemente processados por danos morais, e uma homenagem aos 80 anos do jornal Estado de Minas, representado pelo Diretor de Redação Josemar Gimenez. Josemar sentou-se à mesa do Congresso ao lado de Angelina Nunes, Presidente da Abraji, Suely Maria Dias, Reitora do UNI-BH e Aloísio Lopes, Presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais. Em relação à tempestade de processos que se abateu sobre alguns jornalistas e veículos de comunicação, a Abraji reagiu e deixou clara a sua posição, nas palavras do Diretor Plinio Bortolotti: “A Abraji não é contra o acionamento da Justiça quando alguém se sente ofendido, mas não aceita que essa instituição seja usada como instrumento persecutório para constranger jornalistas.” Ranulfo Bocaíuva, do jornal A Tarde, ressaltou o papel da imprensa para o avanço da democracia: — É preciso reconhecer a importância do nosso trabalho para a manutenção da liberdade conquistada após anos de obscurantismo. A Justiça está conseguindo reconhecer a má-fé nas ações contra a imprensa. Elvira Lobato, repórter da Folha de S.Paulo, foi representada na cerimônia por seu irmão, Geraldo Francisco de Araújo, que afirmou que “a intimidação de alguns órgãos não atinge apenas Elvira, mas todos os jornalistas que investigam desvios de conduta”.

Numa decisão proferida em apenas 15 dias após a petição inicial — um verdadeiro recorde para os padrões cronológicos da Justiça do Estado — o Juiz Airton Luís Corrêa Gentil, da 10ª Vara Cível e de Acidentes de Trabalho do Amazonas, proibiu o Blog do Holanda, editado pelo jornalista Raimundo Holanda, de publicar “quaisquer notícias” sobre o empresário Otávio Raman Neves, criticado naquele espaço. Raimundo de Holanda denunciou em seu blog que o empresário do setor de Comunicações seria o dono da Construtora Pampulha e teria recebido pagamento por obras não realizadas no Amazonas. Otávio Raman Neves entrou com ação indenizatória por dano moral e exigiu direito de resposta. A empresa Locaweb também foi acionada, “por permitir que em seu site sejam hospedados blogs utilizados unicamente para denegrir a imagem das pessoas”. Duas semanas após o ingresso da ação, o Juiz concedeu liminar que foi mais além do que o pedido pelo queixoso, proibindo que o blog divulgue qualquer notícia envolvendo seu nome. Diante da decisão, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (SJPAM) e a Federação Nacional dos Jornalistas-Fenaj assinaram documento considerando a liminar “um ataque frontal à liberdade de expressão e à democratização dos meios de comunicação, objetos de luta dos jornalistas e de toda a sociedade”. Raimundo Holanda, por sua vez, divulgou nota, informando que pretende “dar o exemplo de respeito às instituições, especialmente o Judiciário”, porém vai recorrer da decisão, a qual considerou “um retorno à censura e às práticas de cerceamento da liberdade”. Eis a íntegra da nota: “Este blog tem defendido ao longo da sua existência o respeito à legalidade. Não seria coerente, nem democrático, a desobediência a uma ordem judicial, mesmo que a entenda como o restabelecimento da censura. Assim, por compreender que mesmo equivocada, a decisão de um juiz expressa, em tese, o desejo da sociedade, e é um dos instrumentos da de-

mocracia, está substituindo por símbolos qualquer citação ao megaempresário de comunicação e do setor de construção civil, autor de ação, com pedido de tutela antecipada, concedida pelo juiz Airton Luís Corrêa Gentil, da 10ª Vara Cível e de Acidentes de Trabalho, que determinou sejam retiradas quaisquer notícias constantes no blog que envolvam o nome da parte autora da ação. A medida judicial impede que o blog faça citação ao nome do empresário. O blog já retirou os pôsteres que relacionam o empresário à empresa Pampulha, conforme determinação judicial. O blog está interpondo recurso para reverter a medida, que considera um excesso, mas como veículo que compartilha informações com a sociedade também quer dar exemplo de respeito às instituições, especialmente ao Judiciário. Para não ficar numa mera nota melancólica, queremos lembrar aos leitores que o jornalista que edita este blog sentiu na pele os efeitos da censura nos anos de chumbo. Trabalhou em jornais nos quais tinha que submeter seus textos a um agente federal. Foram tempos de exclusão e de negação da inteligência e da liberdade. Reviver esses tempos num momento em que parte substantiva da Lei de Imprensa é revogada é doloroso, pois vai na contramão de reformas importantes pelas quais passa a sociedade brasileira. O País não pode continuar convivendo com o atraso, nem com a mão poderosa dos que se julgam donos do capital e da liberdade alheia. O blog acredita no Judiciário amazonense, mas também está ciente de que a justiça não se esgota no Palácio da Avenida André Araújo. Irá às últimas instâncias para ver restabelecido o direito de informar, denunciar, nominar os autores de delitos, de apontar enriquecimento ilícito, de dizer quem fez o bem e quem fez o mal. Não será a condição a social do indivíduo, nem o poder que ele tem, que vai impedir que a informação chegue aos leitores com nome, lugar e os fatos que fazem a notícia.”

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Vidas GABRIEL DE PAIVA / AGÊNCIA O GLOBO

HAROLDO DE ANDRADE

Haroldo de Andrade e seu farto sorriso em julho de 2002, época em que deixava o Sistema Globo de Rádio: para ele, o rádio deveria manter a missão de prestar serviços à comunidade.

Um grande intérprete da vida

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e o rádio brasileiro tivesse uma cara, qual seria? Difícil dizer, já que nesse universo multifacetado há tantos rostos – e vozes – inconfundíveis. Mas e a alma? Ah, essa certamente tem um muito de Haroldo de Andrade. A notícia da morte do empresário e radialista, em 1º de março deste ano, aos 73 anos, caiu como uma bomba no universo do rádio. Com mais de 50 anos de carreira, Haroldo dominou imbatível o dial das 9 às 12 horas da manhã durante muito tempo no Rio de Janeiro. Inovador, conseguia fazer um programa popular com interatividade e conteúdo. Mas também foi um lutador em defesa da liberdade de opinião e da idéia de que o veículo deve ter ligação e servir à comunidade. Seu Programa Haroldo de Andrade, criado no começo dos anos 60, foi uma das atrações mais tradicionais e bemsucedidas do rádio brasileiro. Foi pioneiro na participação dos ouvintes por telefone. As pessoas ligavam e participavam ao vivo, sem cortes. Pediam músicas, faziam perguntas aos convidados e concorriam a prêmios. Algo novo para uma época em que as atrações seguiam um formato bem mais fechado. Com vários quadros de utilidade pública e prestação de serviços, o programa unia dicas caseiras, previsão meteorológica, notícias e entrevistas. Mas nem o sucesso de público e de crítica o impediram de defender aquilo em que acreditava. Os Debates Populares, quadro criado no auge de sua carreira, durante a fase mais repressiva da ditadura militar, se tornou rapidamente o ponto alto de seu programa, reunindo personalidades da sociedade

como médicos, juristas, artistas e políticos para tratar de assuntos que eram destaque em jornais e revistas. “Tem muita gente por aí que não gosta de rádio. Não entendem dele. Estão aí apenas esperando uma vaga na televisão”, costumava dizer Haroldo, com a experiência de quem já trabalhou em diversas mídias, mas viveu e respirou sempre o rádio. Nascido em Curitiba (PR), ele começou cedo a trabalhar. Com 13 anos, fez amizade com um locutor da cidade que trabalhava em serviços de alto-falantes, anunciando produtos do comércio local. Logo, também ele estava nos microfones fazendo anúncios para o comércio curitibano. O tom de voz firme e a dicção clara chamaram a atenção e abriram-lhe as portas das rádios locais. O reconhecimento só viria nos anos 50, quando deixou sua cidade natal para tentar a sorte na então capital federal. A ligação com o Rio de Janeiro foi imediata. Nascia ali um caso de amor que duraria até o final de sua vida, assim como a paixão pelo Flamengo e pelos filhos. Em 1954, ingressou na Rádio Mauá (1060 AM). Eram tempos em que o rádio ainda era o veículo mais popular do País e por causa disso as grandes emissoras mantinham auditórios para que os ouvintes pudessem acompanhar os programas ao vivo. Como sua emissora era pequena e não tinha platéia, Haroldo buscou alternativas. Nascia ali o Musifone , com ouvintes pedindo músicas por telefone e concorrendo a prêmios. O primeiro lugar na audiência atraiu a atenção das emissoras maiores e em 1961 tinha início o Programa Haroldo de Andrade, na Rádio Globo, em que a

interação com os ouvintes foi estendida. Donas de casa, aposentados, motoristas de táxi e estudantes formavam a maioria da audiência. Todos os dias, na entrada da emissora, formavam-se filas de fãs e aspirantes a artistas que queriam conversar com ele, pedir autógrafos ou uma chance para divulgar seu trabalho.

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lém de se tornar responsável pelo surgimento de vários artistas hoje consagrados, Haroldo também colecionou experiências curiosas. Além de ouvir tragédias pessoais e sonhos contados por gente que via nele sua única esperança, costumava ajudar sempre que podia. Perdeu a conta de quantas cadeiras de rodas e vestidos de noiva ganhou para seus ouvintes. De tão inusitados, certos pedidos eram impossíveis de atender. Foi o caso de uma moça que durante cinco anos esteve diariamente à porta da rádio, sempre vestida de noiva, para tentar casar com o radialista. Numa ocasião, chegou até a agarrá-lo. Toda essa atenção e cuidado com as pessoas também o levaram para outras mídias. Haroldo comandou programas nas TVs Excelsior, Tupi e Globo. Também colaborava regularmente com jornais. Ainda assim, a antiga paixão pelo rádio sempre o reconquistava e ele não conseguia ficar longe dos microfones. Passou ainda por emissoras como Jornal do Brasil, Tupi e Bandeirantes. Já no final da década de 1990, uma crise de outro tipo teve início. Com queda de audiência, a direção da Rádio Globo AM decidiu nacionalizar a programação da rede. Completamente identificado com o público fluminense e carioca, Haroldo

comprou briga com a emissora. Para ele, esse tipo de programação causaria muitas demissões e impediria o rádio de cumprir uma de suas principais missões: prestar serviço à população local. Sua demissão em 2002 foi um duro golpe, até porque não pôde se despedir desses mesmos ouvintes a quem servia na ocasião. Há três anos, o comunicador conseguira voltar novamente à ativa. Dessa vez em sua própria emissora, a Rádio Haroldo de Andrade, que funcionava no mesmo dial de sua primeira emissora no Rio, o 1060 AM. Ao reunir outros comunicadores de sua geração afastados das grandes emissoras, Haroldo mostrou que era possível fazer programação local de qualidade e ter boa audiência. A rádio chegou a ser a terceira mais ouvida na região metropolitana da cidade. Porém, debilitado pela diabetes, ele passou a ter problemas cardíacos e renais que o afastaram novamente dos microfones em 2007. Internado por mais de um mês no Hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo, ele não resistiu e morreu em decorrência de falência múltipla dos órgãos. Durante o tempo de seu afastamento, a rádio foi comandada pelos filhos, até que neste mês de maio ela foi vendida para a rede católica Canção Nova. “Um grande intérprete da vida como ela é que ensinou muita coisa”, foram as palavras usadas pelo governador Sérgio Cabral para definir Haroldo de Andrade durante o enterro. Sintético, mas preciso. Afinal, o rádio brasileiro não perdeu apenas parte de sua história e um grande comunicador. Perdeu também um homem que ajudou a construir parte de sua alma. (MS) Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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Independente! Amante de bons textos, criador de publicações, entre as quais Caros Amigos, ele era um expoente da imprensa independente, do respeito ao profissional e da alta qualidade da redação jornalística, da qual foi um grande artesão. POR MARCOS STEFANO

“Você sabe qual é a última do Serjão?” Durante mais de uma década, sempre que essa frase era ouvida na Redação da revista Caros Amigos, em São Paulo, podia-se saber: algo novo e irreverente estava para começar no jornalismo brasileiro. Uma das últimas vezes que foi dita, em meados do ano passado, resultou, no mês de outubro, no 1º Anticurso Caros Amigos de Jornalismo. “Anticurso”? Isso mesmo. Por três sábados, gente vinda de todos os cantos do País se reuniu com alguns dos principais jornalistas brasileiros da atualidade não para assistir a aulas ou palestras, mas para trocar idéias e experiências sobre os mais variados temas, da ética à grande reportagem e, claro, para aprender “como não enriquecer na profissão”. Esta última frase – que serviu de subtítulo para o curso – também saiu da cabeça do jornalista Sérgio de Souza. Era uma espécie de lema na vida de um homem de talento, mas que preferiu os ideais ao dinheiro e à fama. “Inventor” por natureza, Serjão é considerado um criador de novos projetos, de publicações, um expoente da imprensa independente, do respeito ao profissional e ao bom texto. Sem exagerar, não dá para falar sobre jornalismo por aqui nas quatro últimas décadas sem citar o seu nome. Assim como não é possível deixar de lamentar sua morte no último dia 25 de março, aos 73 anos. Amante de bons textos, antes de mais nada, Sérgio de Souza escreveu seu nome na história do jornalismo 40 Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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brasileiro criando publicações. Bondinho, Grilo, Fotochoq, Ex-, Domingão, Mais Um, Canja, Idéia Nova, Carametade, Revista de Fotografia, Jornalivro são apenas algumas das revistas que ele editou ou de que participou na pequena imprensa. No final dos anos 60 e começo de 70, a pressão da ditadura militar fez com que as grandes empresas se livrassem daqueles jornalistas mais combativos. Os “exilados das Redações” se reuniram e fizeram sua própria imprensa, precursora das atuais publicações segmentadas. Vários desses jornalistas estiveram sob a batuta de Sérgio, um tipo de papa dessa prática, para fazerem não uma imprensa alternativa, muito menos nanica – “palavrões” detestados por ele – mas a imprensa independente. Romântico? Idealista? Ou um pragmático que prezava pela manutenção de uma equipe e buscava sempre novos caminhos como forma de fazer seu trabalho? É difícil explicar esse lado um tanto quanto quixotesco desse fazedor de textos que começou sua carreira em 1958 na Folha de S. Paulo. Nessa época, Sérgio dava expediente pela manhã no Banco do Brasil e aceitou trabalhar como revisor à noite. A desculpa oficial para o novo emprego era o casamento com Martha, que se avizinhava; para saldar as dívidas, uma graninha a mais iria muito bem. Mas para o amigo e advogado Marco Túlio Bottino confidenciou: “Estou mesmo é feliz. Sempre quis ser jornalista”. Depois de ser promovido a repórter, ele ainda passou por Manchete, Fatos & Fotos, Notícias Populares e Quatro Rodas. Até 1966, quando foi chamado por Paulo Patarra para fazer parte da equipe que marcou época no jornalismo brasileiro, responsável pela qualidade editorial da revista Realidade. Entre seus novos colegas figuravam Narciso Kalili, Hamilton de Almeida Filho, Mylton Severiano, Roberto Freire e José Hamilton Ribeiro. Mas a demissão coletiva de 14 jornalistas do grupo, dois anos mais tarde, não apenas acabou com o projeto de Realidade, como também levou Sérgio de Souza a buscar o caminho das publicações independentes. Mas em 1974 nem isso era mais possível. “Não senti mais ânimo de fazer nem grande nem pequena imprensa em São Paulo. A cidade parecia – ou estava


mesmo? - coberta de censores. A carreira estava acabando”, disse Sérgio em 1977 ao Jornal da ABI. A saída para não parar foi se mudar para Ribeirão Preto, no interior paulista, e assumir ao lado do amigo José Hamilton Ribeiro a direção de O Diário. “A princípio não parecia muito empolgante, mas nos nove meses seguintes conseguimos estabelecer uma competição entre os quatro jornais da cidade, os salários dos jornalistas deixariam de ser tão aviltantes, a informação ganharia maior respeitabilidade e camadas mais ativas da população e a política local receberiam uma injeção de oxigênio”, completou ele. Foi novamente o idealismo que o levou a tentar implantar sua visão fora da mídia impressa. No final daquela década, Sérgio foi para emissoras de rádio, como Globo e Excelsior, e de televisão, como a Tupi e a Bandeirantes. Nesta comandou o 90 Minutos, programa ao vivo, ancorado pelos atores Paulo César Pereio e por Ana Maria Nascimento e Silva. Em um dos primeiros programas, logo exibiram uma entrevista de Fidel Castro, que Ruth Escobar havia trazido de Cuba. Sem perdoar, Pereio logo foi dizendo no ar: “Agora, vamos ouvir o nosso comandante”. Era uma visão muito avançada para a televisão daquela época. Antes, porém, de fundar a Caros Amigos, em 1997, com Roberto Freire, João Noro e Francisco Vasconcellos, ainda foi Diretor de Redação do Jornal da Bahia, em Salvador, no ano de 1978, e em 1986 criou outra revista, a Globo Rural. Apesar das andanças, Sérgio de Souza se definia como um antigo “copidesque”. Nada mais injusto. Diz José Hamilton Ribeiro que , por causa do estilo e técnica apurada, ele foi “o inventor do editor de texto”. “Com justiça, era

considerado o melhor texto da imprensa brasileira”, concorda o repórter Percival de Souza. Realmente, não havia nada que lhe desse mais prazer. Disse certa vez: “Se pudesse, ficaria trancado numa salinha com uma bic ou um lápis preto e textos, muitos textos. Meus sentidos se aguçam quando ‘pego’ um texto, quando tenho que ‘trabalhar’ uma reportagem. E vibro, intimamente esmurro o ar como o jogador que acabou de marcar o gol, quando ‘acerto’ um título, uma abertura, uma chamada, uma legenda, uma manchete. Melhor que isso, só ser caseiro de casa de praia”. Mylton Severiano, o Myltainho, agora encarregado de levar seu bastão em Caros Amigos, é uma testemunha disso. Conheceu o amigo na Folha em 1960, mas só descobriu de fato quem era em Realidade. Myltainho fez uma matéria sobre Claudia Cardinale com o título A hora e a vez de Claudia, parafraseando o conto A hora e a vez de Augusto Matraga, de João Guimarães Rosa. Quando Sérgio olhou o título disse: “Não vamos usar essas facilidades. Deixa isso para a Man-

chete”. Manteve a idéia original, mas buscou algo mais simples: Agora é a vez de Claudia Cardinale. Era apenas o começo. “Serjão era dono de uma ética e de um senso estético fantástico. Ao tratar o texto, ele também tratava seu autor. Com isso, provava que editar não é somente pôr vírgulas nos lugares certos, acentuar, saber a gramática”, conta Myltainho. Enquanto um copidesque passava a caneta no texto alheio e normalmente reescrevia tudo, sem se importar com o traço autoral, Sérgio de Souza era um artesão das letras. “Ele não desconsiderava o autor. Primeiro lia o texto e com seu lápis número 1, aquele mais leve e fácil de apagar, fazia anotações. Depois chamava o repórter e dava as sugestões e orientações. Quando a pessoa lia o trabalho final, tinha certeza de que era obra sua, mas com um resultado muito melhor”. Muito econômicos, os dois costumavam passar horas juntos sem falar nada. Mas no silêncio os amigos diziam tudo. A grande lição do mestre para o jovem Myltainho aconteceu em 1970. “Naquele tempo, eu tinha um Opel alemão. Uma jóia. Um dia, o Narciso Kalili, truculento como só ele, foi querer mexer no carro e saiu com o câmbio na mão. Imediatamente, fui reclamar para o Serjão. ‘Eu ganho pouco, estou com o salário atrasado e ainda vou ficar sem carro’, protestei. Mas ele respondeu: ‘Myltainho, é verdade, mas você está com medo de ficar pobre. Você sabe que pode enriquecer. É só ir trabalhar numa grande emissora de televisão. Mas é esse jornalismo que deseja fazer em sua vida?’. Aquelas palavras me quebraram. Ali estava o sujeito mais velho lapidanIdealista, criador da revista Caros Amigos (acima, edição em sua homenagem) e de diversas publicações, Sérgio de Souza se via como “um antigo copidesque” e sabia “como não enriquecer” sendo jornalista.

do o caráter do mais novo. Tive sorte de ter uma figura como ele em minha vida”, diz o hoje veterano jornalista. Poucas pessoas desfrutraram tanto da intimidade de Sérgio quanto Lana Nowikow, sua segunda esposa e mãe de três de seus sete filhos. “Não se tratava apenas de um ganha-pão para ele. Sérgio punha o coração naquilo que fazia e se dedicava com tesão. Era um otimista inveterado, um cara de esquerda, que sempre acreditou até o fim. Depois que o Lula assumiu em 2003, todo mundo pensou que tudo iria mudar repentinamente, inclusive na imprensa. Como não mudou, muita gente na revista queria uma oposição drástica. Conciliador como só ele, Sérgio não deixou e comprou briga com todos. Ele podia até fazer críticas e desgostar em muitos pontos, mas não perdia a esperança”, diz ela. Talvez muitos pensem que seu trabalho na revista Realidade tenha sido o mais importante de sua carreira, mas Lana acha que não. “Realidade foi um marco no jornalismo do Brasil, mas penso que aquilo que ele estava fazendo no momento era o melhor”, afirmou. “Família, turma da Redação, publicação que estivesse fazendo... Todos eram importantes e mereciam sua atenção. Algumas vezes, nos finais de semana, ele se sentava ali no canto e ficava respondendo a entrevistas dos alunos de faculdades com o mesmo esmero com o qual trabalhava os textos”, disse, apontando o sofá no canto da sala. Nos últimos tempos, no entanto, ele estava muito angustiado. As dificuldades financeiras crescentes da revista e as dívidas que se acumulavam até o pescoço foram minando sua saúde. Há três anos, ele já não havia participado de uma festa de aniversário de Caros Amigos. Foi internado por conta de uma crise causada por úlcera hemorrágica. Conseguiu se recuperar na época e ninguém falou mais disso. Mas agora, próximo de outra festa da publicação, a sorte não foi a mesma. Estressado, foi levado às pressas para o hospital por causa de outra úlcera que estourou, desta vez no duodeno. Debilitado por uma cirurgia, não conseguiu resistir. Este ano não houve festa, não houve palestras para comemorar mais um aniversário, os 11 anos de Caros Amigos. Mas houve um arrepiante “viva” em seu enterrro, a pedido da filha mais nova, Júlia. Afinal de contas, o homem se vai, mas seu exemplo e trabalho permanecem. Permanecem por tudo que fez nestas quase cinco décadas de jornalismo e nas novas gerações de profissionais que ajudou a formar e que estão ainda em formação na Redação de Caros Amigos. Também não serão esquecidos quando se pedir para definir Sérgio de Souza em apenas uma frase – ou título, como provavelmente ele preferiria: “Pegando gancho no que disse o Jornal da ABI tempos atrás: ‘Semeador de Revistas’. Esse foi o Sérgio”, completa Lana, sem conseguir esconder as lágrimas e o sorriso. Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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Artur da Távola, a vocação de ensinar Estreante da política em 1962 com seu nome civil, Paulo Alberto Monteiro de Barros tornou-se conhecido nacionalmente como Artur da Távola, pseudônimo dado por Samuel Wainer para que ele pudesse exercer a profissão de jornalista depois que retornou do exílio a que o empurrara o golpe militar de lº de abril de l964. Como jornalista e político ele se impôs à admiração pública pela cultura, pela retidão no desempenho de mandatos parlamentares e pela vocação de ensinar. O jornalismo, a cultura, os amantes da música popular e da música erudita perderam em 9 de maio uma das grandes expressões brasileiras nesses campos: Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros, o Artur da Távola, que deixou sua passagem pela imprensa, pela criação de programas musicais e pela vida parlamentar – ele foi deputado estadual no antigo Estado da Guanabara, deputado federal e senador, membro da Assembléia Nacional Constituinte de 1987-1988 – marcada por sua sólida e abrangente cultura, pela retidão no exercício de encargos públicos e pela vocação de ensinar, pela ânsia e preocupação de promover a difusão de conhecimentos. Paulo Alberto, que tinha 72 anos, sofria de problemas cardíacos e chegou a comunicar em seu blog que estava doente e não continuaria a escrever. Ele morreu em casa e deixa viúva — Mírian Ripper Nogueira Lobo, sua segunda mulher — e três filhos. Sócio da ABI

desde setembro de 1973. ao longo desses 34 anos ocupou vários cargos na Casa, entre os quais o de Vice-Presidente numa das gestões de Barbosa Lima Sobrinho. Integrante do Conselho Deliberativo, para o qual fora reeleito em abril de 2007 para um mandato de três anos, Paulo Alberto deixara de participar das sessões do Coinselho há vários meses, em decorrência de problemas de saúde que o obrigaram a repetidas internações nos últimos anos. Logo que soube de sua morte, o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, declarou que a Casa recebera a notícia com profundo pesar. — Além de grande intelectual e jornalista notável – disse —, Paulo Alberto era uma criatura humana excepcional. Como membro do nosso Conselho Deliberativo, enquanto teve saúde ele participava de tudo. Seu desaparecimento nos causa forte dor, seja por seus atributos intelectuais, que deixam um vácuo na inteligência brasileira, seja por ser uma pessoa extremamente afetiva. Nascido no Rio de Janeiro, em 3 de janeiro de 1936, filho de Paulo de Deus Moretzsohn Monteiro de Barros e de Magdalena Koff Monteiro de Barros, Artur da Távola formou-se em Direito pela Puc-Rio em 1959, tendo participado do movimento estudantil durante a vida acadêmica. Eleito deputado estadual em 1962 pelo antigo Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB de João Goulart, Leonel Brizola e Doutel de Andrade, Paulo Alberto iniciou uma trajetória que o conduziria â Câmara

Paulo Alberto teve uma iniciação política precoce: elegeu-se jovem (à esquerda) deputado à Assembléia Constituinte do nascente Estado da Guanabara e foi deputado estadual, deputado federal (embaixo, à esquerda) e senador (à direita). Era um orador admirado pela lógica e o rigor da análise.

dos Deputados, ao Senado Federal, ao exílio e, de volta, ao jornalismo com caráter profissional, atividade que passou a desenvolver porque, com os direitos políticos cassados por dez anos pelo primeiro Ato Institucional baixado pela ditadura, em 1964, estava privado de exercer a advocacia, como bacharel formado pela Puc-Rio. O jornalista Entre 1957 e 1960, Paulo Alberto trabalhou como produtor de programas educativos da Rádio Mec. Em 1960, ainda usando seu nome de batismo, foi eleito deputado constituinte no recém-criado Estado da Guanabara, pelo PTN. Em 62, foi reeleito e ingressou no PTB. Sua atuação parlamentar foi marcada pela oposição ao então Governador JOSÉ CRUZ-AGÊNCIA SENADO

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Carlos Lacerda, da União Democrática Nacional-UDN. Cassado após o golpe militar de 1º de abril de 1964, Paulo Alberto asilou-se na Bolívia e no Chile. Na volta ao Brasil, em 1968, passou a usar o pseudônimo de Artur da Távola, por sugestão do então dono da Ultima Hora, Samuel Wainer, que o contratou como crítico de televisão do jornal. Jornalista e escritor respeitado, lançou 23 livros e foi colunista de várias publicações, como O Globo, O Dia e Jornal do Commercio. Também dirigiu revistas da Bloch Editores, assinou crônicas diárias no programa Plantão da madrugada, da Rádio CBN, e era Diretor da Roquette-Pinto. Desde 1957 na Rádio Mec, de que era o mais antigo funcionário em atividade, apresentava na emissora o programa Quem tem medo de música clás-


sica?, que depois levou também para a TV Senado. O político Um dos fundadores do PSDB, Artur da Távola liderou a bancada tucana na Assembléia Constituinte, em 1988, e presidiu a Subcomissão de Educação e Esporte na Câmara Federal, através da qual apresentou proposições sobre atividades esportivas que foram incorporadas ao texto constitucional. Deputado federal de 1987 a 1995 e senador de 1995 a 2003, presidiu o

Ele honrou o pseudônimo que Samuel sugeriu Declaração da ABI exalta a retidão com que Paulo Alberto exerceu o ofício de seu heterônimo Artur da Távola. “A Diretoria e o Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa receberam com forte sentimento de pesar o falecimento do jornalista, produtor musical, escritor e professor Paulo Alberto Monteiro de Barros, membro do seu Conselho Deliberativo, eleito em abril de 2007 e com mandato que se estenderia até abril de 2010, o qual granjeou merecido renome como jornalista e homem público sob o pseudônimo de Artur da Távola, por ele adotado inicialmente no exercício da atividade jornalística e depois na vida pública, graças à notoriedade que justamente alcançou assinando seus trabalhos na imprensa sob esse heterônimo. Paulo Alberto, como ainda o chamavam os amigos mais antigos, tinha como natural destinação a advocacia e a vida pública, que iniciou em 1960, pouco após concluir o curso de Direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e viu sua trajetória modificada pela eleição para deputado constituinte no antigo Estado da Guanabara. Eleito pelo antigo Partido Trabalhista Nacional (PTN), Paulo Alberto elegeu-se depois, em 1962, deputado estadual à Assembleia Legislativa da Guanabara, agora pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Assim se integrou ao conjunto de forças que apoiavam o Governo João Goulart e seu programa de reformas e teve seu mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por dez anos após o golpe militar de 1° de abril de 1964, que o incluiu na primeira lista de punidos pelo regime discricionário que então se instalava. Por sua forte oposição ao Governo Carlos Lacerda e diante do risco de

PSDB de 1995 a 1997. Em 1996, lançouse pré-candidato a prefeito do Rio, mas o partido optou pelo nome de Sergio Cabral Filho. Em 1998, perdeu para Luiz Paulo Corrêa da Rocha a candidatura para a sucessão do Governador Marcelo Alencar. Em 1999, anunciou seu desligamento da legenda, que estaria, segundo ele, se distanciando dos ideais da social-democracia. Não chegou, porém, a deixar os tucanos, já que a divergência foi contornada por outros líderes do PSDB, que o convenceram a permanecer.

Em janeiro de 2001, deixou a liderança do Senado para assumir a Secretaria de Cultura do Município do Rio, cuja denominação propôs que fosse mudada para Secretaria Municipal das Culturas, a fim de refletir a diversidade cultural da cidade, proposta aprovada pelo Prefeito César Maia. Em 2002 não foi reeleito para o Senado. No ano seguinte, a convite do Governador Sérgio Cabral, assumiu a direção da Rádio Roquette-Pinto, para a qual concebeu projetos que a morte o impediu de executar.

prisão e violência por parte da Polícia Política a serviço deste, Paulo Alberto exilou-se na Bolívia e no Chile, onde viveu alguns anos. Após seu retorno ao Brasil, no fim dos anos 60, e impedido de exercer atividades de repercussão pública com seu nome de batismo, Paulo Alberto foi acolhido em 1968 pelo jornalista Samuel Wainer, proprietário do jornal Última Hora, que também regressara do exílio, inicialmente no Uruguai e depois na França. Wainer idealizou duas formas de proteger Paulo Alberto contra eventuais perseguições: ele escreveria sobre televisão e com um pseudônimo que o próprio Wainer sugeriu, o de Artur da Távola, o que poderia colocá-lo a salvo de perseguições dos inimigos políticos, o que se confirmou. Paulo Alberto iniciou então uma notável carreira como jornalista. Com o restabelecimento do Estado de Direito, elegeu-se deputado federal e participou da Constituinte de 1987-1988, na qual teve destacada atuação como membro da comissão de sistematização, que elaborou o Anteprojeto da Constituição. Foi Presidente da comissão temática encarregada de definir as disposições relacionadas com comunicação, cultura, família, educação, esporte,

ciência e tecnologia. Em 1994 elegeuse senador, cargo em que teve grande relevo e em que exerceu a liderança do Governo Fernando Henrique Cardoso. Como jornalista, escritor e produtor musical, destacou-se na Rádio Ministério da Educação e Cultura, de que era um dos mais antigos redatores, na qual ingressou em 1957; na Rádio Senado, com a qual colaborava há 11 anos, desde que deixou o mandato de senador, e na Rádio Roquette-Pinto, do Governo do Estado do Rio de Janeiro, cuja direção assumiu a convite do Governador Sérgio Cabral e para a qual concebera uma série de projetos, visando a revitalizála e a lhe devolver o antigo prestígio, parte dos quais não pôde implantar, em razão das repetidas internações que sofreu ao longo do último ano. Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros, seu nome civil, deixou densa obra em livros, ensaios e estudos assinados com o pseudônimo que Samuel Wainer concebeu e que ele honrou ao longo de sua exemplar vida de intelectual e homem público. É a esse companheiro que a ABI rende homenagens neste dia de grande tristeza. Rio de Janeiro, 9 de maio de 2008. (a) Maurício Azêdo, Presidente.”

CANTALICE SAI DO AR EM CENA ABERTA Ele discursava na reunião do Conselho Deliberativo quando um infarto fulminante interrompeu sua fala para sempre. O jornalista Arthur Cantalice, de 81 anos, passou mal às 16h30 min do dia 15 de abril quando discursava na reunião do Conselho Deliberativo da ABI. Socorrido pelos companheiros, entre os quais o jornalista Fritz Utzeri, que é médico, ele não resistiu a um fulminante ataque cardíaco. Cantalice era sócio da ABI desde 1973, foi Diretor da Casa na gestão de Prudente de Morais, neto (1975-1977) e era membro do Conselho Deliberativo desde 2006. Articulista do semanário Correio da Lavoura, de Nova Iguaçu, no qual mantinha a coluna política O negócio é o seguinte”, ele começou no jornalismo em 1957 como crítico de programas de rádio do jornal comunista Imprensa Popular, que deixou de circular um ano depois. Após essa iniciação no jornalismo, Cantalice passou a trabalhar no porto do Rio de Janeiro, onde teve posições de liderança que o levaram à direção da antiga União dos Portuários do Brasil. Por essa militância, foi preso, processado e demitido da extinta Administração do Porto do Rio de Janeiro. Com a promulgação da Constituição de 1988, foi anistiado, reintegrado e aposentado compulsoriamente por motivo de idade. Torcedor do América Futebol Clube, que lhe deu nos últimos dias a tristeza do rebaixamento para a segunda divisão do futebol carioca, ele editava numa dependência do Salão de Estar da ABI, no 11° andar do Edifício Herbert Moses, um jornal mural que comentava com atualizações diárias assuntos variados, da política ao esporte, da economia à moda, do meio ambiente à política internacional. Os Presidentes da ABI, Maurício Azêdo, e do Conselho Deliberativo, Fernando Barbosa Lima, emitiram declaração lamentando o seu falecimento. “Cantalice era devotado ao interesse público e ao progresso social, muito seguro na exposição de suas idéias e coerente em seus opinamentos, com freqüência revestidos de extremada franqueza”, diz a declaração. Jornal da ABI 329 Maio de 2008

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