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Mônica Waldvogel “O jornalismo ao vivo é pura adrenalina” “Um entrevistado que ocupe cargo público tem que saber que será cobrado ao dar entrevista”, diz a apresentadora. Páginas 7, 8 e 9 Órgão oficial da Associação Brasileira de Imprensa

Jornal da ABI

312 SETEMBRO 2006

RENATA JOURDAN

MEDALHA DE MÉRITO PARA NOSSA ZILMAR HOMENAGEM DA CÂMARA M UNICIPAL

REÚNE AMIGOS QUE PÕEM EM RELEVO SUA CONTRIBUIÇÃO À VIDA CULTURAL . PÁGINA 12

LÚCIO FLÁVIO FINALMENTE GANHA UMA NA JUSTIÇA

JORNALISTA PARAENSE LIVRA-SE DE PROCESSO AJUIZADO POR SEU AGRESSOR. P ÁGINA 21

Wilson Figueiredo

A HISTÓRIA RECENTE DO JB POR QUEM A VIVEU Páginas 16, 17, 18 e 19

LAN CONTRÁRIO AO USO DE COMPUTADOR DECANO DA CARICATURA DIZ QUE ESSE MÉTODO IGUALA OS TALENTOS. P ÁGINA 13

VINÍCIUS DE MORAES, O SENHOR EMBAIXADOR

A ABI APLAUDIU A DECISÃO QUE, 38 ANOS DEPOIS, FEZ JUSTIÇA AO POETA. PÁGINA 26

Rádio Nacional, jovem aos 70

A NÚMERO 1! Acervo da ABI passa a contar com exemplar da primeira edição de Última Hora, o jornal que revolucionou a imprensa. Página 28

A antiga campeã de audiência, que já teve o melhor da música e do canto em seu elenco, como o conjunto Quatro ases e um curinga, chega modernizada à sua sétima década capaz de transmitir sinais digitalizados. Páginas 22 e 23


Editorial

Tempo de paradoxo EST A EDIÇÃO DO JORNAL DA ABI dá notícia da infor STA infor-aldomiro Waldomiro mação transmitida à Casa pelo Delegado W Bueno F ilho, da Secretaria de Segurança Pública do Filho, Estado de São P aulo, acerca do pedido feito em maio Paulo, passado ao Gover nador Cláudio L embo para que fosse Governador Lembo apurado com urgência o atentado cometido contra o jor nal Impr ensa Livr jornal Imprensa Livree, do Município de São Sebastião, alvo durante uma madr ugada de ação de adversários madrugada políticos que empregaram métodos ter roristas, tocando terroristas, fogo no prédio, agredindo trabalhadores da gráfica e da Redação e incendiando toda a edição que iria para as bancas. Disse o Delegado em eexpediente xpediente dirigido à ABI que as diligências deter minadas pelo Gover nador determinadas Governador estavam sendo ““fir fir me e cuidadosamente encetadas” firme pela Delegacia Distrital de São Sebastião. Passados muitos meses do episódio, é preocupante que ainda não tenham sido identificados os autores do ato ter rorista, que, como assinalou a ABI na denúnterrorista, cia que encaminhou na época ao Gover nador Cláudio Governador Lembo, têm de ser presos, processados e punidos, para desestimular a repetição de ações semelhantes por quem se sinta ofendido por infor mações e opiniões emitidas informações por órgãos de comunicação. É necessário que se aja neste caso com o zelo que per mitiu a punição eex xemplar dos permitiu criminosos que agiram com a mesma vir ulência no ano virulência passado contra o Diário de Marília Marília,, os quais foram logo identificados, presos, julgados e condenados, tudo em uns poucos meses. Ações dessa natureza, desenvolvidas com eficácia, são

Associação Brasileira de Imprensa

indispensáveis para que se rompa um dos muitos parado xos que os meios de comunicação vivem atualmente. radox OP aís vive sob o Estado Democrático de Direito insPaís tituído pela Constituição de 5 de outubro de 1988, que erigiu a liberdade de imprensa como um dos pilares do sistema adotado, mas os órgãos de comunicação e os jor nalistas que para eles trabalham são alcançados por jornalistas violências de todo tipo, como essas que golpearam o jor nal Impr ensa Livr jornal Imprensa Livree de São Sebastião e as contidas em despachos e sentenças judiciais que agridem o te xto texto constitucional. Com uma canetada, juízes de primeira instância estabelecem censura prévia, como a imposta ao periódico Atual Atual,, do Município de Itaguaí, RJ, de que também damos notícia nesta edição, num eex xemplo infelizmente não isolado de agressão à Carta Constitucional. A ABI considera inadmissível a lerdeza na apuração de crimes como esses de que foi vítima o jor nal Impr enjornal Imprensa Livr Livree, porque o caso não contém elementos que caracterizem um enigma indecifrável. Basta ouvir a equipe do jor nal, consultar suas edições e estabelecer o nújornal, cleo de interessados no silenciamento da publicação para se chegar àqueles que industriaram e contrataram os braços criminosos. No caso não é apenas a liberdade de imprensa que se encontra em x eque, mas xeque, também a honra e a competência profissional das autoridades de segurança de São P aulo. A té por brio elas Paulo. Até deveriam dar a essa investigação um empenho de que até agora não se tem notícia.

Correndo junto dos candidatos Artigo / “Angústia”, 70 anos / M. Paulo Nunes

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Artigo / Sartre, cem anos / Paulo Ramos Derengoski Mônica Waldvogel: Jornalismo ao vivo é pura adrenalina

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Wilson Figueiredo: Jornal deve ir para as bancas quando ficar pronto Rádio Nacional uma setentona bem moderninha

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Rubem Mauro Machado / Na idade da paixão, a redescoberta da vida Depoimento sobre o exílio enaltece Talarico

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Cinco obras de Cabral à disposição Galvão Peixoto e Marina no acervo

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Nova infância de Audálio: a de Ruth Rocha Livro promove a releitura do 11 de Setembro

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Vinícius, o senhor embaixador Viveiros, cidadão paulistano

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Álcalis dá calote em 2 mil A primeiríssima edição de Última Hora no acervo da ABI

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SEÇÕES Aconteceu na ABI Liberdade de imprensa

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Vidas: Geraldo Lopes / Sérgio Lopes

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CONSELHO CONSULTIVO Chico Caruso, Ferreira Gullar, José Aparecido de Oliveira, Miro Teixeira, Teixeira Heizer, Ziraldo e Zuenir Ventura CONSELHO FISCAL Jesus Antunes, Presidente; Argemiro Lopes do Nascimento, Secretário; Adriano do Nascimento Barbosa, Arthur Auto Nery Cabral, Geraldo Pereira dos Santos, Jorge Saldanha e Luiz Carlos de Oliveira Chester. CONSELHO DELIBERATIVO (2006-2007) Presidente: Fernando Segismundo 1º Secretário: Estanislau Alves de Oliveira 2º Secretário: Maurílio Cândido Ferreira Conselheiros efetivos (2006-2009) Antônio Roberto Salgado da Cunha, Arnaldo César Ricci Jacob, Arthur Cantalice, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Augusto Xisto da Cunha, Domingos Meirelles, Fernando Segismundo, Glória Suely Alvarez Campos, Heloneida Studart, Jorge Miranda Jordão, Lênin Novaes de Araújo, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho e Pery de Araújo Cotta. Conselheiros efetivos (2005-2008) Alberto Dines, Amicucci Gallo, Ana Maria Costábile, Araquém Moura Rouliex, Arthur José Poerner, Audálio Dantas, Carlos Arthur Pitombeira, Conrado Pereira (in memoriam), Ely Moreira, Fernando Barbosa Lima, Joseti Marques, Mário Barata, Maurício Azêdo, Milton Coelho da Graça e Ricardo Kotscho Conselheiros efetivos (2004-2007) Antonieta Vieira dos Santos, Arthur da Távola, Cid Benjamin, Flávio Tavares, Fritz Utzeri, Héris Arnt, Irene Cristina Gurgel do Amaral, Ivan Cavalcanti Proença, José Gomes Talarico, José Rezende, Marceu Vieira, Paulo Jerônimo, Roberto M. Moura (in memoriam), Sérgio Cabral e Teresinha Santos Conselheiros suplentes (2006-2009) Antônio Avellar, Antônio Calegari, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Antônio Henrique Lago, Carlos Eduard Rzezak Ulup, Estanislau Alves de Oliveira, Hildeberto Lopes Aleluia, Jorge Freitas, Luiz Carlos Bittencourt, Marco Aurélio Barrandon Guimarães, Marcus Miranda, Mauro dos Santos Viana, Oséas de Carvalho, Rogério Marques Gomes e Yeda Octaviano de Souza. Conselheiros suplentes (2005-2008) Anísio Félix dos Santos, Edgard Catoira, Francisco de Paula Freitas, Geraldo Lopes (in memoriam), Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Amaral Argolo, José Pereira da Silva, Lêda Acquarone, Manolo Epelbaum, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Pedro do Coutto, Sidney Rezende, Sílvio Paixão e Wilson S. J. Magalhães

Nesta Edição

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DIRETORIA – MANDATO 2004/2007 Presidente: Maurício Azêdo Vice-Presidente: Audálio Dantas Diretor Administrativo: – Diretor Econômico-Financeiro: Domingos Meirelles Diretor de Cultura e Lazer: Jesus Chediak Diretor de Assistência Social: Paulo Jerônimo de Souza (Pajê) Diretora de Jornalismo: Joseti Marques

Conselheiros suplentes (2004-2007) Adalberto Diniz, Aluísio Maranhão, Ancelmo Gois, André Louzeiro, Jesus Chediak, José Silvestre Gorgulho, José Louzeiro, Lílian Nabuco, Luarlindo Ernesto, Marcos de Castro, Mário Augusto Jakobskind, Marlene Custódio, Maurílio Cândido Ferreira e Yaci Nunes COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Ely Moreira, Presidente, Jarbas Domingos Vaz, José Ernesto Vianna, Maria Ignez Duque Estrada Bastos e Maurílio Cândido Ferreira COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Artur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti COMISSÃO DE LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Audálio Dantas, Presidente; Arthur Cantalice, Secretário; Arthur Nery Cabral, Daniel de Castro, Germando Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, Lucy Mary Carneiro, Maria Cecília Ribas Carneiro, Mário Augusto Jakobskind, Martha Arruda de Paiva, Orpheu Santos Salles, Wilson de Carvalho, Wilson S. J. Magalhães e Yaci Nunes

Jornal da ABI Rua Araújo Porto Alegre, 71, 7º andar Telefone: (21) 2220-3222/2282-1292 Cep: 22.030-012 Rio de Janeiro - RJ (jornal@abi.org.br) Editores: Francisco Ucha, Joseti Marques e Maurício Azêdo Projeto gráfico, diagramação e editoração eletrônica: Francisco Ucha Apoio à produção editorial: Ana Paula Aguiar, Fernando Luiz Baptista Martins, Guilherme Povill Vianna, Maria Ilka Azêdo e Solange Noronha. Diretor responsável: Maurício Azêdo Impressão: Gráfica Lance Rua Santa Maria, 47 - Cidade Nova - Rio de Janeiro, RJ. Esta edição número 312 do Jornal da ABI foi finalizada em 18 de dezembro de 2006. As reportagens e artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do Jornal da ABI.


MARCELLO CASAL JR/ABR

MARCELLO CASAL JR/ABR

Lula, com Olívio Dutra, no Sul, e Alckmin: no rastro dos dois, uma multidão de repórteres, repórteres-fotográficos e cinegrafistas em busca de bons flagrantes e, também, eventuais gafes.

ELEIÇÕES

CORRENDO JUNTO DOS CANDIDATOS A maratona de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas para acompanhar para jornal, rádio e televisão a infatigável busca de votos pelos candidatos. POR JOSÉ REINALDO MARQUES No domingo 1º de outubro, 125,9 milhões de eleitores brasileiros estavam habilitados para escolher os candidatos à Presidência da República, à Câmara dos Deputados, ao Senado Federal, aos Governos de Estados e às Assembléias Legislativas estaduais. Onde as eleições passassem para segundo turno, a movimentação de candidatos iria repetirse; em ambos os turnos, acompanhando todos os detalhes dessa maratona eleitoral, estariam as equipes de reportagem de jornais e emissoras de rádio e televisão.

Para executar esse trabalho, geralmente os veículos de comunicação são obrigados a mudar sua rotina, formar equipes especiais e até investir em equipamentos e transportes, como fizeram as sucursais da Folha de S. Paulo e do Estadão no Rio – além dos carros que foram providenciados para os deslocamentos dos jornalistas, ambas disponibilizaram laptops para facilitar o trabalho dos repórteres. Já no jornal Estado do Amazonas, praticamente todo o pessoal da reportagem (cerca de 45 pessoas) envolveu-se na cobertura das eleições – com

previsão do aumento do número de profissionais no dia do pleito. Em tempo de eleição, a imprensa está alerta do início da votação à apuração final dos votos – e a té a tv pública muda sua programação. PREPARAÇÃO Em junho, a preparação dos jornalistas no Rio contou com o apoio do Tribunal Regional Eleitoral do Estado e da ABI, que ofereceram um curso de legislação eleitoral para os profissionais da mídia. Fabiana Sobral, editora de Política de O

Dia, achou importante ter essas aulas. – Gostei muito do curso. Acho que foi uma boa iniciativa do TRE e da ABI, porque é muito importante para o jornalista, especialmente o repórter, ter contato direto com as autoridades da Justiça Eleitoral. Tomara que essa experiência se repita e toda a Redação de O Dia possa participar, porque em tempo de eleições a Política é reforçada com repórteres de outras editorias. O Dia não preparou um caderno especial sobre eleições, diz Fabiana: – Mas nossa cobertura vai ser amJornal da AB ABII 312 Setembro de 2006

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JOSÉ CRUZ/ABR

ELEIÇÕES

Fabiana Sobral, editora de Política de O Dia, aplaudiu o curso de preparação da cobertura eleitoral promovido pelo TRE-RJ e a ABI.

Comitê de imprensa montado no Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília: dali partiam as informações para os principais órgãos de comunicação do Brasil inteiro.

pla no jornal e no O Dia Online. Além disso, publicamos matérias sobre a disputa eleitoral no Rio e em outros Estados e demos destaque às pesquisas de intenção de voto da população fluminense para o Governo do Estado, Senado e Presidência da República. MAIS ANÁLISES Este ano, o Estado de Minas resolveu mudar o enfoque da sua cobertura eleitoral, conta o editor de Política Baptista Chagas: – Procuramos fazer um produto muito analítico, além de buscar os features interessantes. Tivemos a participação de quatro cientistas políticos da UFMG, com artigos quase diários avaliando o quadro eleitoral, em especial o nacional, e fazendo projeções. Este também será o foco da edição do domingo da eleição. Queremos sair da commodity, da notícia da internet e do telejornal da véspera e mostrar o algo mais que o leitor do impresso busca, a informação exclusiva, o caso interessante, a análise plural. O Estado de Minas não programou nenhuma edição especial de eleições no fim de semana anterior à eleição, mas na sexta-feira precedente publicou um caderno de serviços de interesse do eleitor. Durante a campanha, Baptista Chagas não pôs setoristas acompanhando a agenda diária dos candidatos, preferindo a cobertura com base em pauta diária. Na reta final, a editoria ganha o reforço de outras: – São 14 repórteres envolvidos, e vale lembrar que trabalhamos em sinergia com o Correio Braziliense, o que nos dá vasto material nacional. O jornal mineiro também tem seções 4

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Editor de Política do Estado de Minas, Baptista Chagas juntou às notícias as análises dos especialistas.

Cláudio Barboza, editor-chefe do Estado do Amazonas: Sem a internet é impossível cobrir um Estado desse tamanho.

especiais na internet, como agenda dos candidatos, perfil, filiação partidária: – O hotsite é uma grande parceria dos veículos do grupo. É trabalho conjunto entre o UAI (responsável pelo Estado de Minas) e o Correioweb (do grupo do Correio Braziliense). Eu mesmo gravo em vídeo, com a equipe da TV Alterosa, um comentário diário, para reforçar o aspecto multimídia do site. TODOS NA RUA Em Manaus, o Estado do Amazonas – que completa três anos em 24 de outubro – prepara um caderno especial de eleições para o domingo, quando o jornal tem sete cadernos – cinco de

oito páginas e dois com quatro páginas, sendo capa e contracapa coloridas: – Nosso enfoque maior é o Amazonas, como o próprio nome do veículo sugere. Mas também teremos noticiário nacional e um caderno específico de oito páginas, com algumas teses sobre as eleições, a origem do voto e da democracia e outros temas – diz o editor-chefe Cláudio Barboza. Para a cobertura, foi convocada praticamente toda a equipe de Reportagem – cerca de 45 pessoas, entre repórteres, fotógrafos e editores, com o reforço das editorias de Cidade e Polícia, Nacional e Política. Apenas Esporte e Cultura ficaram de fora; a coordenação do trabalho coube a Cláudio Barboza. – O Amazonas é muito grande e por isso foi preciso montar algumas estra-

tégias para não perder matérias no interior, onde ainda não temos correspondentes. A solução neste caso, por exemplo, foi deslocar sete repórteres para os Municípios maiores: Parintins, Manacapuru, Itacoatiara, Presidente Figueiredo, Maués e Coari. A cobertura dos outros 55, incluindo Manaus, foi dividida entre a base, na capital, e mais cinco repórteres, que monitoram informações do rádio e da internet. Num Estado em que não faltam áreas de difícil acesso, Cláudio diz que a ajuda da internet é inestimável: – Com a informatização do Tribunal Regional Eleitoral, muita coisa melhorou. De qualquer modo, além do pessoal do jornal, recrutamos mais umas 50 pessoas, de motoristas (com carros) para reforçar nossa frota a técnicos de informática e estagiários de Jornalismo.


Na tv, um núcleo especial No Rio, a TV Globo criou um núcleo especial – que funciona integrado à editoria da cidade – para acompanhar os candidatos a governador. À frente da equipe está Márcio Sternick, editorchefe do RJ-TV 2ª edição: – Somos responsáveis pela cobertura diária dos candidatos ao Governo do Estado, pela edição de séries de reportagens e pesquisas e pela produção das entrevistas de estúdio e dos debates com candidatos. Temos dois editores, dois produtores e um estagiário. Já o número de repórteres varia; quando necessário, recebemos reforço de outros colegas da Editoria Rio. É difícil traçar um perfil da equipe, mas uma característica marcante tem sido o planejamento antecipado da cobertura e uma integração muito grande durante o trabalho. Sternick acrescenta que isto é fundamental numa cobertura como a das eleições, que envolve muita gente e tem prazos de edição apertados: – Para dar uma idéia, em março já tínhamos um cronograma pronto. A formação de um núcleo especial de cobertura facilitou a produção e a edição do material, além de ajudar no cumprimento rigoroso da legislação eleitoral. Várias reuniões foram feitas com representantes de partidos políticos, para que estes tivessem conhecimento do plano editorial montado para as eleições: – Fizemos reuniões com representantes de todos os partidos com representação na Câmara dos Deputados, que serviram para apresentar nosso projeto de cobertura e para que todos conhecessem antecipadamente como trataríamos o dia-adia de campanha, as reportagens especiais, as entrevistas de estúdio e os debates. Esse procedimento, diz, é necessário porque nem sempre o formato usado numa eleição se repete na seguinte: – Mudam o Estado, o País, o telespectador... Temos a obrigação de inovar. Mesmo com um grande número de candidatos para acompanhar, conseguimos fazer diferença na cobertura usando um sistema de rodízio. Além disso, inovamos com a Caravana JN e as séries especiais que editamos para o jornais locais Bom-dia, Rio e RJ-TV.

Muitas matérias produzidas pelo Núcleo de Eleições do Rio são aproveitadas nos jornais da Rede: – Sempre que um candidato a Presidente vem ao Estado do Rio, cobrimos para os jornais de Rede. Uma equipe de produção também fica especialmente de olho nas notícias da Justiça Eleitoral do Rio que tenham interesse para todo o Brasil, como no caso do indeferimento de registros de candidaturas pelo TRE-RJ. Na cobertura dos candidatos ao Governo fluminense, o Edimilson Ávila foi o principal repórter. No dia das eleições, entra em ação a mesma equipe que produz o noticiário factual da campanha: – Todos os funcionários da Editoria Rio estarão envolvidos na cobertura e o Núcleo de Eleições se incorpora à equipe.

Caravana JN: inovação no jornalismo da Rede Globo, com acompanhamento pela internet. No comando o experiente Pedro Bial.

A ação das sucursais O Estado de S. Paulo programou para o fim de semana da eleição um caderno especial sobre a disputa, informa o editor de Política do jornal no Rio, José Luiz Alcântara: – No dia-a-dia, acompanhamos os candidatos à Presidência da República, tanto no Rio como em outros Estados. Fora do Rio de Janeiro - tirando o Espírito Santo, que é área nossa - viajamos quando a sede precisa de reforço. O material produzido no Rio, diz, é usado em todas as edições, de acordo com o grau de importância: – É claro que depende do espaço e da relevância da matéria, já que o Estado do Rio perdeu muito em qualidade política nos últimos anos. Procuramos sempre produzir coisas diferentes para ganhar espaço. Nesse período eleitoral, contamos com o apoio do Wilson Tosta, tarimbado repórter de Polícia, de profissionais que geralmente trabalham na Geral, como o Felipe Werneck, o Alexandre Rodrigues e o Rodrigo Morais, e de outros mais, eventualmente. Em relação ao acompanhamento da agenda dos candidatos a vagas de governador, no Estadão o maior espaço é mesmo dedicado a São Paulo: – Afinal, o jornal é de lá, e a eleição em São Paulo tem repercussão bem maior que a do Estado do Rio. Independentemente de qualquer coisa, no dia das eleições a sucursal do Rio estará trabalhando com força total, com um time formado por 22 pessoas. Teremos ainda repórteres em Campos (Norte fluminense) e Vitória-ES e talvez em Juiz de Fora-MG e o Wilson Tosta será enviado para a sede. Já temos uma pauta detalhada, com quem vai fazer o quê, preparada para o domingo da eleição e estamos tocando algumas matérias extras para o caderno especial. Um dos chefes de Reportagem da Folha de S. Paulo no Rio, Plínio Fraga diz que, numa sucursal de um grande jornal, não é preciso muito mais que o habitual para se fazer uma boa cobertura das eleições. Para o sábado e o domingo, véspera e dia da eleição, a Folha preparou dois cadernos especiais e a sucursal carioca contribui diariamente com matérias, repórteres, discussão de enfoques e sugestão de pautas até mesmo para outros Estados. No Rio, trabalham diretamente envolvidos nas eleições os repórteres Elvira Lobato, Mário Magalhães, Raphael Gomide e Sérgio Torres e a fotógrafa Ana Carolina Fernandes. Esta mesma equipe, informa Plínio, estará trabalhando nas ruas em 1º de outubro: - Além da cobertura factual, acompanhamos a sucessão fluminense e investimos diariamente em pautas diferenciadas, sem deixar de seguir de perto os candidatos - o que é inevitável para acompanhar o grau de animosidade e interesse na campanha, obter fontes e descobrir novos assuntos.

Editor de Política no Rio de O Estado de S. Paulo, José Luiz Alcântara comandou uma equipe de 22 pessoas na votação do primeiro turno.

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ARTIGOS

"Angústia", 70 anos POR M. PAULO N UNES

Os leitores de Graciliano Ramos se recordam da reação do romancista quando do aparecimento de Angústia, há 70 anos. O autor se encontrava na casa de detenção da polícia do Rio de Janeiro e o episódio vem relatado à sua maneira no capítulo 14 das Memórias do Cárcere. "Enfim, o romance encrencado veio a lume, brochura feia de capa azul. A tiragem, de dois milheiros, rendiame um conto e quatrocentos e esta ninharia ainda representava para mim grande vantagem. ... A leitura me revelou coisas medonhas: pontuação errada, lacunas, trocas horríveis de palavras. A datilógrafa, o linotipista e o revisor tinham feito no livro sérios estragos. Onde eu escrevera opinião pública, havia polícia, remorsos, em vez de rumores. Um desastre." (Ob. cit., p.83). Informa entretanto que alguns leitores a quem foram distribuídos alguns exemplares na prisão não levaram em conta tais defeitos e lhe condenaram firmes o pessimismo. Eneida de Morais, companheira de prisão, aproximou-se dele, os olhos

REPRODUÇÃO

PRESENÇA

Sartre, cem anos POR P AULO RAMOS D ERENGOSKI

Um das injustiças da onda avassaladora de burrice que se espalha sobre o mundo foi o esquecimento de um dos maiores intelectuais do Século XX, que se estivesse vivo teria cem anos: Jean Paul Sartre. Tive oportunidade de vê-lo de perto num debate na Mutualité, em Paris, em 1965. Discutia-se o que era literatura e ele encerrou o conclave, entre aplausos, dizendo: "La literature c'est la mort" (A literatura é a morte...). Dono de uma obra filosófica gigantesca, onde se destacam O Ser e o Nada (1943) e Crítica de Razão Dialética (1960), provou que a Existência precede a Essência da vida. O ser humano primeiramente existe para depois se definir. E se define pelo que faz, pela série de seus atos. A 6

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um dos mais apaixonantes e intensos romances de nossa literatura". Segundo o crítico Álvaro Lins, em um dos melhores estudos sobre aquele romancista, em seu livro Os Mortos de Sobrecasaca, é preciso lê-lo por inteiro, e mais de uma vez, acompanhando com emoção aquela figura angustiada de Luís da Silva, no tumulto e desordem de seus pensamentos, sentimentos, reminiscências, intenções, projetos, delírios", que o conduzem à loucura e ao crime. (Ob. cit., p.144). Graciliano Ramos segue neste denso romance a vertente romancista criada por Machado de Assis, a partir das Memórias Póstumas de Brás Cubas, a do romance psicológico ou romance-problema, contrária à outra vertente, a do romance espetáculo, criada por Alencar. Graciliano Ramos na prisão em 36: Surge o seu Angústia, que alguns críticos “romance encrencado”, cheio de erros de revisão. consideram sua obra-prima e aquele que, pela densidade psicológica, pela vida interior, pela criautor, de preso e perseguido político, ação de indivíduos que transitam pela mais trabalho lhe tenha exigido. suas páginas como duendes, é talvez A respeito dele já havíamos feito o mais completo como realização esum inventário crítico no ensaio antilística e como criação romanesca um tes referido, ao salientar que, da hisdos mais perfeitos de nossa literatutória banal de Luís da Silva, um pora. É este mais um motivo para aqui bre diabo, jornalista de província e reverenciarmos, nos setenta anos de funcionário público, que se apaixoseu aparecimento, um dos marcos de na por Marina, com que m pretende nossa literatura. casar-se, e é seduzida por Julião Tavares, gordo, rico e cretino, que a engravida e em seguida desaparece, retira M. Paulo Nunes é escritor e Presidente o autor os elementos substanciais "de do Conselho Estadual de Cultura do Piauí.

fundos, e lhe disse: "– Li o teu romance de cabo a rabo, e não dormi um instante, apanhei uma insônia dos diabos. Pavoroso!" (Ob. cit., idem). Algumas pessoas, entretanto, pela imprensa, manifestaram-se favoravelmente ao livro, ou seja, ao "caso triste", como o romancista se refere àquele episódio. Assim entre perdas e ganhos o caso foi esquecido, salvo a observação daquele jornalista que considerou o livro "um formoso romance" e que deixou o autor a estalar de raiva, suavizada com o consolo de sua amiga de prisão – a psiquiatra Nise da Silveira, que ele chama a "ótima Nise". Houve ainda, de surpresa, uma improvisada festa de lançamento do livro organizada pelos amigos do autor, na prisão. Hoje, aquele romance, a respeito do qual ele dissera ao editor José Olympio que não venderia cem exemplares, corre o mundo, publicado em várias línguas e já alcançou entre nós a 59ª edição. Edição esta que me deixou muito feliz ao recebê-la, porquanto em sua bibliografia está já incluído um pequeno ensaio de minha autoria a respeito do romancista, dos maiores de nossa literatura. É este um dos livros mais densos de Graciliano Ramos e aquele que, como construção literária, a despeito das peripécias por que teve que passar, dada a condição especial de seu

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LITERATURA

Jean Paul Sartre : a consciência moral contra o avanço da mediocridade

liberdade não se exerce nos planos abstratos, mas nas Situações. A Existência não é, pois, uma categoria abstrata, mas a Matéria das Coisas. E

ela é feita de um par indissolúvel: o Ser e o Nada. Somos responsáveis, a cada minuto, pela vida e pela morte. Somos o Ser e o Nada. Mas Sartre não foi apenas um filósofo. Jornalista, fundou a clássica revista Les Temps Modernes. Escreveu um dos maiores romances de todos os tempos: a trilogia Os Caminhos da Liberdade (A Idade da Razão, Sursis e Com a Morte na Alma). Os melhores contos estão em O Muro. Suas peças encenadas no mundo inteiro e vistas por milhões de espectadores: As Moscas, Mortos Sem Sepultura, O Diabo e o Bom Deus, As Mãos Sujas, A Prostituta Respeitosa. Ensaios magníficos, brilhantes, criativos, como As Palavras, Reflexões sobre o Racismo etc, etc, etc. Em 1944 foi preso pelos nazistas. Mas fugiu. Em 1964 ganhou (e recusou) o Prêmio Nobel, por achar que isso o cooptaria de alguma forma para o malestar das elites. No fim da vida assumiu um progressivo engajamento político. Apoiou a Revolução Cubana (Furacão Sobre Cuba) e esteve no Brasil, onde foi festejado pela tur-

minha de sempre, que sonhava ir se emborrachar no Café de Flore, em Paris. No fim da vida, por ter se engajado com os estudantes libertários de 1968, passou a ser menosprezado pela nova direita social democrata, trabalhista (ou lá o que seja) que acabou com as idéias socialistas, que bem ou mal tentavam algo novo. Agora, aos cem anos de nascimento, parece voltar a tona com dignidade. Talvez tenha se tornado uma Instituição na qual a consciência moral, o trabalho intelectual, a criatividade e a Razão ainda irão encontrar refúgio diante do avanço da mediocridade. Mas depois que jogaram no lixo 70 anos de experiências socialistas nas quais ele acreditava – os partidos políticos deixaram de ter ideologias para ter apenas interesses. O que agora vale – e cada vez mandará mais – é o Deus do Dinheiro...

Paulo Ramos Derengoski é jornalista. Vive em Lages, SC, sua terra.


DEPOIMENTO MÔNICA WALDVOGEL

Jornalismo ao vivo é pura adrenalina Apresentadora considera que a reportagem ainda é “a nobreza do jornalismo” IG O CAIXE TA ODRIG IGO AIXET ENTREVISTA A R ODR Com mais de 20 anos de profissão, Mônica Waldvogel é hoje uma das mais conhecidas jornalistas da televisão brasileira. Influenciada por uma prima, decidiu que queria seguir a carreira quando tinha apenas 11 anos. Começou no jornalismo diário em 1982, na extinta TV Manchete, onde foi repórter nas editorias de Cultura e Economia, e acumula passagens pelo SBT, Record e Rede Globo, na qual assumiu, em março deste ano, a bancada paulista do Jornal das dez, do canal Globonews. Além disso, concilia o trabalho de jornalista ao de apresentadora do Saia justa, programa que vai ao ar no GNT e do qual

é idealizadora e responsável pelo conteúdo editorial. Nesta entrevista, Mônica comenta as diferenças entre as coberturas de economia e política, a experiência de ter testemunhado fatos históricos no período em que trabalhou em Brasília e a função do jornalista, independentemente de o profissional ser homem ou mulher. Fala também da adrenalina de fazer entrevistas ao vivo, diz que a reportagem é a nobreza do jornalismo, opina sobre a exigência do diploma para a prática da profissão e comenta as diferenças de apresentar um jornalístico e um programa de entretenimento. FOTOS: DIVULGAÇÃO

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DEPOIMENTO MÔNICA WALDVOGEL

Jornal da ABI — Quando despertou em você o interesse em se tornar jornalista e o que a motivou a escolher esta profissão? Mônica Waldvogel — Comecei a me interessar pelo jornalismo aos 11 anos, conversando com uma prima que já estava prestando vestibular. Ela me disse que ser jornalista era estar onde as coisas estão acontecendo e contar para os outros. Essa definição me fascinou. Jornal da ABI — Você começou carreira como repórter de revistas especializadas em agricultura e comércio exterior e, no jornalismo diário, como repórter nas áreas de cultura e economia. Tem preferência por alguma editoria? Mônica — Trabalhei muito tempo com economia e política. Gosto das duas áreas. Enquanto economia tem regras e normas, a política tem um lado muito humano, levanta questões importantes para todo o País, dissolve conflitos; há ali muitos sentimentos envolvidos que motivam o jornalista. Jornal da ABI — Dos tempos como repórter, você saberia dizer qual foi a sua grande matéria ou aquela que tornou seu trabalho mais notório? Mônica — Fiquei em Brasília entre 1987 e 1996, um período de muitos acontecimentos na História do Brasil. Cobri a promulgação da Constituinte e todos os planos econômicos, desde o Cruzado até o Real. Durante todo esse período, tive oportunidade de acompanhar a construção da obra da estabilidade econômica. O fim de uma era de um governo com uma cultura de gastos desenfreados, emissão de moedas sem controle, sindicatos fortes, passagem de diversos ministros da Fazenda, a criação da Lei de Responsabilidade Fiscal. Passos importantes foram dados pelo País e eu tive a oportunidade de contá-los. Jornal da ABI — Como foi fazer este trabalho por tanto tempo na capital do País 8

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Mônica em três momentos: na foto maior, com os jornalistas Carlos Monforte e André Trigueiro e o Presidente Lula durante a campanha eleitoral. Acima, na bancada do Jornal Hoje; à direita, na do Jornal da Globo.

e de que forma essa experiência contribuiu para a sua carreira? Mônica — Foi um privilégio. Acompanhei o Brasil com uma inflação de 85% ao mês e também com deflação. Cobri o impeachment do Collor e outras importantes CPIs, como a do Orçamento. Jornal da ABI — Ao todo, são quantos anos dedicados ao jornalismo? Você chegou a ter outra profissão? Mônica — São 26 anos. Formei-me em 1980 e desde 1982 estou na TV. Jornal da ABI — Atualmente, você é uma das jornalistas mais conhecidas da TV brasileira. O fato de ser mulher exerceu alguma influência nessa trajetória de sucesso? Mônica — Não houve influências positivas nem negativas. O jornalista tem que gostar do que faz, se entusiasmar, ir atrás da novidade, do fato, apurá-lo

da melhor maneira possível. Não importa se é homem ou mulher. Jornal da ABI — O telejornalista adora estar ao vivo porque sempre há a possibilidade de arrancar algo inesperado do entrevistado. Mas como dosar essa autonomia para não deixar o entrevistado em situação embaraçosa ou constrangedora? Mônica — O gostoso de estar ao vivo é a adrenalina tanto do jornalista quanto do entrevistado. Há um momento mágico, em que as palavras corretas são escolhidas, os dois ficam mais espertos. Quanto à autonomia, deve ser dosada pelo limite ético. Um entrevistado que ocupe cargo público tem que saber que será cobrado ao dar entrevista. Ele deve prestar contas à sociedade. Em outras entrevistas, com artistas, por exemplo, o jornalista não tem o direito de constrangê-lo, pois está ali para apresentar seu trabalho.


ARQUIVO PESSOAL

“Acredito que ser jornalista não é simplesmente ter um diploma. As faculdades de Jornalismo têm-se preocupado muito com a técnica e esquecido o conteúdo. O jornalista vive do contemporâneo, mas ele precisa saber o que ocorreu no passado – essa é a maneira de ele ser um bom profissional.”

ARQUIVO PESSOAL

Jornal da ABI — Você se formou pela Usp e disse, numa entrevista, que, embora tenha aprendido a pensar e ler na escola, não saiu de lá jornalista. Você é contra o diploma de jornalismo? Mônica — Não sou a favor. Acredito que ser jornalista não é simplesmente ter um diploma. As faculdades de Jornalismo têm-se preocupado muito com a técnica e esquecido o conteúdo. O jornalista vive do contemporâneo, mas ele precisa saber o que ocorreu no passado essa é a maneira de ele ser um bom profissional. As ferramentas em pouco tempo você aprende a utilizar no ambiente de trabalho. Não quero dizer com isso que não existam excelentes jornalistas que saíram de faculdade de Comunicação. Acho apenas que o diploma não deve ser fator determinante. O jornalista tem que estudar, tem que saber ouvir e perguntar e saber contar o que ouviu. O jornalismo é uma prestação de serviço. Jornal da ABI — Você também já disse que a reportagem é o trabalho mais nobre do jornalismo. Hoje, no entanto, trabalha mais como apresentadora, embora tenha experiência em outros cargos no telejornalismo. Qual das funções você mais gosta de desempenhar na profissão? Por que? Mônica — Considero mesmo a reportagem a nobreza do jornalismo. Ela permite que você conheça pessoas diferentes e outras realidades e quebre paradigmas. Ajuda também a treinar a compaixão, a tolerância. A edição também tem seu brilho. Você tem todas as

Acima, Mônica num momento de descontração em casa. Ao lado, muito novinha e com roupa e ar de colegial cruzando a Praça dos Três Poderes durante uma reportagem.

notícias do dia em suas mãos, todos os fatos ali e precisa organizá-los da melhor maneira possível. Você precisa se preocupar com a linguagem em que você se comunica, tem que montar um quebra-cabeça, hierarquizar os fatos. E há bastante do trabalho de repórter também, você tem que mergulhar nas agências de notícias, apurar certos fatos com determinadas fontes. O espírito de repórter é mantido. Jornal da ABI— Recentemente, você voltou ao jornalismo diário, à frente da bancada paulista do Jornal das dez, da Globonews. Como foi? Mônica — Foi como voltar para casa. Depois de 48 horas, me sentia como se nunca tivesse saído do hard news. Jornal da ABI — Quais as diferenças entre fazer jornalismo em tv aberta e num canal fechado? Mônica — A principal diferença é a linguagem. Na tv fechada você sabe com que público está falando. No Jornal das dez, especificamente, o telespectador provavelmente já tem a notícia. O que nós precisamos apresentar é o novo: um ângulo diferente, uma análise diferenciada.

Jornal da ABI — Em que momento da vida você pensou em criar o Saia justa? Como você concebeu esta idéia? Mônica — A idéia foi de um colega da Redação. Ele acreditava que poderíamos fazer um programa como o Manhattan connection, mas só com mulheres. Gostei da idéia e pensei em trazer mulheres totalmente diferentes. O objetivo do Saia justa não era ser mais uma dessas revistas femininas e de beleza que dão todas as fórmulas para as mulheres serem felizes, mas sim mostrar que todas as mulheres estão perdidas e não concordam com nada. O programa é contrário aos de autoajuda. Jornal da ABI — E qual é a principal diferença de postura entre a apresentadora do Saia justa e a do Jornal das dez? Mônica — Enquanto no Saia justa eu discuto comportamento, valores, angústias e dores, no Jornal das dez sou jornalista. Não sei muito bem como isso se organiza na minha cabeça, mas tem dado certo. Agora que estou no Jornal das dez, percebi que tenho emitido menos opiniões políticas no Saia justa, tenho sido mais discreta.

Jornal da ABI — Como foi sua experiência como produtora independente do talk show Dois a um, que ia ao ar no SBT? Mônica — Foi excelente. Fizemos mais de 80 entrevistas e conseguíamos boa audiência. Infelizmente, como negócio o programa não se pagava e por isso foi extinto. Jornal da ABI — Como você avalia a cobertura da mídia diante da crise política que afetou o País? Mônica — Acredito que a mídia esteve muito bem. Por viverem em uma realidade extremamente competitiva, todos tentaram fazer o melhor, pois sabiam que a melhor cobertura de determinado fato seria destacada. Com essas características, quem ganha é o público, que passa a ter informação com mais qualidade. Hoje em dia, notícias manipuladas são logo percebidas. Jornal da ABI — Que tipo de relação você mantém com a ABI? Mônica — Acompanho as ações da ABI e acredito que a Associação seja muito importante, por representar a liberdade de imprensa. Ela está sempre presente quando a democracia é ameaçada. Jornal da AB ABII 312 Setembro de 2006

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Aconteceu na ABI EVENTO

Movimento mantém luta pelo monopólio estatal do petróleo e gás e denuncia a exploração indiscriminada da Amazônia, que considera um crime contra a soberania nacional. O Movimento em Defesa da Economia Nacional-Modecon – fundado pelo jornalista Barbosa Lima Sobrinho e atualmente presidido pela médica Maria Augusta Tibiriçá Miranda (foto)– comemorou 17 anos de atividades no dia 4 de setembro em ato festivo na Sala Belisário de Souza, no sétimo andar da ABI, com a participação da Banda Sinfônica da Polícia Militar, apresentação do Coral da Varig e homenagem póstuma ao economista Nogui da Matta Bacelar Mendes, falecido recentemente. Criado em 1989, o Modecon, diz sua Presidente, é "uma sociedade que se reúne na sede da ABI para defender os interesses do Brasil" e tem marcado sua atuação participando dos grandes movimentos pela soberania nacional e lutado contra as reformas que considera lesivas aos interesses do País. Ao longo de sua história, a entidade tem coordenado várias organizações da sociedade civil e conclamado os brasileiros a se manifestarem contra os leilões realizados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustível-ANP. Diz a Presidente do Modecon: – Esses leilões tinham o objetivo de entregar o nosso petróleo a interesses privados, principalmente aos grupos estrangeiros e aos blocos potencialmente produtores, em detrimento dos interesses do Brasil. Naquela ocasião, o Modecon esclareceu à opinião pública que a Constituição Federal, nos seus artigos 14 e 49, dá direito ao povo brasileiro de se manifestar, através de um plebiscito, sobre a melhor política do petróleo para o Brasil. Recentemente, Maria Augusta Tibiriçá Miranda lançou nova edição do livro O petróleo é nosso – A luta contra o entreguismo e pelo monopólio estatal. A entidade também denunciou a exploração indiscriminada da Amazônia e de seus recursos naturais, que classifica de crime contra a soberania nacional. O Modecon reúne-se toda segunda-feira na Sala Belisário de Souza, onde especialistas de diferentes áreas fazem palestras, sempre sob a angulação que é a razão da existência da entidade: a defesa do interesse nacional. 12

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Zilmar, guardiã da cultura Valores éticos e luta pela igualdade social e racial conferem Medalha Pedro Ernesto a Zilmar Basílio, que "ziguezagueia pela vida com muita competência". A jornalista Zilmar Borges Basílio foi homenageada, no dia 18 de setembro, pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, que lhe conferiu a Medalha do Mérito Pedro Ernesto, por iniciativa do Vereador Carlos Eduardo. Na platéia que lotou o Auditório Oscar Guanabarino, na sede da ABI, estavam amigos, parentes e colegas de trabalho da homenageada. – A Zilmar ziguezagueia pela vida com muita ética, garra e competência, e está sempre lutando para que a nossa gente alcance a devida igualdade sócio-racial. É dessa maneira que ela vai disseminando os seus valores éticos – disse a psicóloga Sônia Regina Oliveira, Coordenadora de Modelagem Institucional da Controladoria-Geral do Município do Rio de Janeiro. O Presidente da ABI, Maurício Azêdo, lembrou Noel Rosa: – A Zilmar é uma pessoa que merece o nosso respeito e carinho não só pela pessoa extraordinária que é, mas também pela militância em prol das causas da cultura brasileira. Ela tem oferecido contribuições muito importantes e empenho na valorização daquilo que Noel Rosa chamava de "coisas nossas, muito nossas". O cerimonial da condecoração da jornalista foi presidido pelo Presidente da ABI, que teve a seu lado o Vereador Carlos Eduardo; Alessandra do Nascimento Pinheiro, assessora parlamentar da Câmara; Sônia Regina Santos de Oliveira, funcionária municipal e prima da homenageada; e a amiga Dora de Jesus Pinheiro. Na abertura do ato, o diácono Luciano Borges Basílio, irmão de Zilmar, que veio de São Paulo especialmente para a homenagem, rezou uma Ave Maria em

os compositores Preto Rico e Nélson Sargento,ambos da Mangueira. Nelson comentou: – Essa homenagem vem em boa hora e vai coroar a simplicidade da Zilmar, a força que ela tem dado a todos nós sambistas e a maneira digna como vive. O Assessor de Imprensa da Academia Brasileira de Letras, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, invocou João Nogueira para prestar sua homenagem: – Aprendi a gostar da Zilmar por causa de Ao lado do Vereador Doutor Carlos Eduardo, Zilmar exibe uma figura que para orgulhosa o diploma da Medalha de Mérito Pedro Ernesto. nós é sagrada: o João Nogueira. Ela era apelatim e falou pela família: – Em nome da nas uma menina e já sobressaía nas reunifamília Borges Basílio, agradeço à ABI por ões que fazíamos na casa dele no Méier, nos receber nesta noite, à Câmara, repreonde fundamos o Clube do Samba. Ela me surpreendeu pela capacidade de organizasentada pelo Vereador Doutor Carlos ção e a velocidade para tomar iniciativa. Eduardo, e a todos os que auxiliaram ZilTambém discursou o Presidente do Vasmar a chegar até aqui. Para mim é uma co da Gama, ex-Deputado Eurico Miranprofunda alegria vê-la cada vez mais cresda, que declarou que votaria em Zilmar cer em sabedoria, e que Deus a ajude a para Deputada estadual, cargo a que ela continuar essa pessoa maravilhosa para a concorria. nossa família e amigos e a desenvolver Ao final da cerimônia, Zilmar Basílio grandes projetos para o Rio de Janeiro. agradeceu as considerações de amizade e Sem conter as lágrimas, o jornalista, carinho. Saudou o Vereador Doutor Carescritor e ex-Vereador Sérgio Cabral – de los Eduardo e a ABI, que considera "foro quem Zilmar foi assessora na Câmara – histórico de todos os que lutaram, lutam falou de seu carinho especial pela jornae lutarão por um País soberano, mais juslista:– A Zilmar é minha filha. Sou testo e solidário". temunha de sua grandeza e de como ela Ela destacou ainda a figura do médico é a favor das pessoas menos favorecidas e Prefeito Pedro Ernesto e arrancou aplaue dos negros. Por isso acho que a Medasos da platéia ao afirmar: – Sou uma peslha Pedro Ernesto está sendo muito bem soa que acredita nos seus sonhos. Sou alentregue a ela, que merece todas as hoguém movida pela fé. Não a fé que espera, menagens de quem ama a cidade e a a fé que aconchega e acomoda, mas aquecultura carioca. Confesso a minha prola que nos traz a indignação, que nos move, funda emoção em homenageá-la. nos faz se sentir em carne viva. Essa é a única fé capaz de realizar sonhos. O samba também esteve presente, com

Nossa sede, atração para europeus

RENATA JOURDAN

Modecon festeja seus 17 anos em defesa do Brasil

HOMENAGEM

R

eferencial para a arquitetura moderna brasileira, o prédio da ABI é uma das atrações do Rio de Janeiro para quem se interessa pelo tema. Quatro estudantes da Escola de Arquitetura de Zurique, na Suíça, visitaram no dia 18 de setembro o Edifício Herbert Moses, que desde a década de 30, época de sua construção, é reconhecido pelo conceito de funcionalidade com que foi concebido. Na avaliação do espanhol Juan Francisco Rodriguez, da inglesa Svetlana Curcic e dos alemães Silke Ebner e Franz Muller, a sede da ABI reúne influência modernista com toques de art nouveau. Durante seis dias, com um guia debaixo do braço, eles visitaram projetos arquitetônicos do Rio que despertam interesse para estudantes e profissionais da área. Juan Rodríguez diz que a visita aos prédios da Cidade é a concretização, na prática, do que aprendeu na universidade: – O Brasil é um país jovem com um sentimento de progresso. O patrimônio cultural brasileiro tem essa preocupação de experimentar. Isso é característico de um país jovem. A primeira vez que vi a sede da ABI foi dentro da sala de aula.


DOCUMENTÁRIOS

LAN

Os impasses do Oriente Médio na tela da ABI

"A MULATA É SÍNTESE DE TODA A BELEZA"

Dois filmes exibidos na 8ª Bienal dos Cinemas Árabes de Paris foram apresentados no Auditório Oscar Guanabarino da ABI nos dias 4 e 5 de setembro para uma assistência qualificada, além de interessada pelo tema: um dos filmes, Depuis que tu n'est plus lá, com 52 minutos de duração, pôde receber legendas em português, mas o outro, Route l8l, fragments d'un voyage IsraelPalestina, teve de ser apresentado na versão disponível em inglês, dada a sua longa duração: nada menos de quatro horas, o que impossibilitou a sua tradução e aposição de legendas em português. Os filmes foram trazidos de Paris pela jornalista Leneide Duarte, que é radicada há anos na capital francesa e assumira com os diretores das duas obras o compromisso de devolvê-las até o seu retorno à França, por volta do dia 15 de setembro. É que não havia outras cópias dos filmes e seus autores já tinham programado outras exibições na Europa. Para legendar em português o filme menos longo a ABI contou com o desprendimento e a dedicação da associada Maria Ignez Duque Estrada Bastos, que, além de jornalista, é tradutora profissional e virou um dia e uma noite, com a colaboração de outra profissional, Lília Coelho, para fazer a tradução a tempo de se produzirem as legendas. Foi esta a primeira vez que esses dois documentários sobre o conflito do Oriente Médio foram apresentados no Brasil e na própria América do Sul. Desde que partiste, título dado por Maria |gnez à versão em português, foi premiado na 8ª Bienal dos Cinemas Árabes e mostra a divisão e isolamento de povoados palestinos e a anexação de terras da Cisjordânia por Israel. Route 181, que, por sua longa duração, foi apresentado em duas sessões, mostra a construção do muro que seccionou o território palestino e apresenta depoimentos de moradores que justificam a anexação de terras e a expulsão dos árabes das pequenas aldeias que existiam antes de 1948, ano de criação do Estado de Israel. O documentário tem uma singularidade: seus autores são um palestino, Michel Hheleifi, e um israelense, Eyal Sivan.

Caricaturista critica uso do computador na arte porque os desenhos "ficam todos muito iguais" e "o talento acaba desaparecendo". Lan garante que o Rio não foi feito para a violência, mas para o amor. P OR C LÁUDIO C ARNEIRO

O preconceito racial é uma estupidez inominável e inadmissível. As raças foram feitas para se misturar, assim como as cores. A miscigenação resulta na mulata, síntese maior de toda a beleza. As afirmações são do caricaturista – que rejeita o título de cartunista – Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortellini Rossi Rossini, ou simplesmente Lan, como é conhecido em todo o País. Ele gravou sua participação.na série ABI pensa o humor, que integra o Projeto Estação ABI, reunindo depoimentos de jornalistas e intelectuais sobre as diversas manifestações artísticas, como o cinema, o teatro e a literatura. Em entrevista ao Diretor Cultural da ABI, Jesus Chediak, o artista, que tem a mulata como marca registrada de seus trabalhos, confessou ser este o seu primeiro depoimento gravado, atendendo à insistência de sua família de deixar suas histórias documentadas: – Nasci na Itália e vim para o Brasil ainda criança. Meu pai era músico. Ele veio tocar oboé na Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal de São Paulo; depois, na Sinfônica de Montevidéu; mais tarde, na de Buenos Aires. Em São Paulo, eu e meu irmão fomos criados por Zezé, mulata que marcou a vida da nossa família. Apesar de ser louro de olhos azuis, nunca tive preconceito. Foi no Uruguai – onde cursava Arquitetura – que o jovem desenhista impres-

sionou pelo talento. Lan trabalhou em El País, de Montevidéu, e depois em Buenos Aires, onde "era funcionário de Evita Perón". As caricaturas dos craques do futebol argentino Nestor Rossi e Angel Labruna lhe valeram o reconhecimento até mesmo no Brasil, para onde retornou pelas mãos de Samuel Wainer. Começou na Redação de São Paulo da Última Hora e mais tarde veio para a do Rio de Janeiro: – Depois daquela segunda-feira em que aqui cheguei, nunca mais saí. Eu estava no Leme. Foi amor à primeira vista. No dia seguinte, fui ao Maracanã torcer pelo Flamengo, uma promessa que fiz a meu amigo Otelo Caçador, rubro-negro ilustre. O Rio de Janeiro não foi feito para a violência, e sim para o amor. Durante quase cinco décadas Lan trabalhou no Jornal do Brasil, mas houve uma interrupção em 64. Nos primeiros dias da ditadura, partiu para o autoexílio, depois de estampar a caricatura de um general diante do espelho que refletia um gorila. Foi para a França, onde trabalhou na revista Paris Match. Inimigo da expressão "cartunista" – que considera um anglicismo adotado pelo colega Ziraldo e digerido por toda a imprensa -, Lan faz restrições ao uso do computador para fazer desenhos, método que, segundo ele, vem sendo adotado pelos mais novos: – O talento do artista acaba desaparecendo. Os trabalhos ficam todos iguais.

Lan repele o título de cartunista, “um anglicismo adotado por Ziraldo”.

Tem gente que não pega no pincel. O computador faz o trabalho do artista. Assim não vale. Eu nunca deixarei de ser caricaturista; e de ser jornalista, também. Porque tenho a dinâmica da minha profissão. Em O Globo desde 2002, Lan fez uma revelação a Chediak: ele alterou a técnica utilizada em seus desenhos. Por causa da visão, prejudicada pela idade – 82 anos – e por cirurgias, adotou o pastel como matéria-prima e o trabalho com desenhos grandes: – Os motivos das minhas obras serão sempre os mesmos, voltados para a natureza e as mulatas. Estas, por exemplo, eu começo com um grande "S" para traçar onde vão ficar a bunda e os seios. O caricaturista encerrou a entrevista dizendo-se satisfeito: – Acho que contei o suficiente. Faltava mesmo gravar um depoimento como este. Os depoimentos do Projeto Estação ABI são gravados para posterior publicação em livro. As entrevistas acontecem às terças, na Sala Belisário de Souza, no 7º andar do edifício-sede da ABI, Rua Araújo Porto Alegre, 71, Centro do Rio.

Um comitê contra a corrupção eleitoral ciais-Ideps; e Ricardo Ferreiro Em ato público na ABI, no de Melo, representante da dia 1° de setembro, no AudiAssociação Brasileira das Ortório Oscar Guanabarino, foi ganizações Não-Governainstalado o Comitê Municimentais-Abong. pal Contra a Corrupção EleiO Procurador Eleitoral Rotoral, que aprovou moção de gério Navarro explicou a imapoio à decisão do Tribunal portância do Comitê -- ConRegional Eleitoral do Estado sidero extremamente reledo Rio de Janeiro de negar revante a iniciativa de instalagistro a candidaturas que não ção do Comitê, no qual se atendam aos princípios da aglutinam organizações soprobidade administrativa e da ciais muito representativas, moralidade para o exercício que poderão colaborar muido mandato eletivo, definito com a fiscalização do prodos na Lei n° 9.840, de 1999. cesso eleitoral. Nós da JustiA cerimônia foi conduziça Eleitoral contamos com da pelo Presidente da ABI,, Maurício Azêdo, com a parDom Dimas Barbosa, ao lado do Presidente da ABI: esse apoio. Antes de assinar o maniticipação de Dom Dimas Lara a Igreja empenhada contra a corrupção eleitoral. festo de adesão ao movimenBarbosa, Bispo Auxiliar do to de combate à corrupção eleitoral, o Presidente da ABI falou Rio de Janeiro; Carlos Davis, Coordenador da Escola de Forsobre a satisfação da Casa em sediar o Comitê: mação Política da Arquidiocese do Rio de Janeiro; Padre Ma- A ABI se sente à vontade ao sediar o lançamento do Comitê nuel de Oliveira Manangão, Coordenador da Pastoral Social Contra a Corrupção, que é uma das preocupações desta entida Arquidiocese; Rogério Navarro, Procurador Regional Eleidade, que nos seus quase cem anos de existência sempre se toral do Estado do Rio de Janeiro; Maria Aparecida Fenizola, empenhou pela moralidade pública. do Instituto de Desenvolvimento de Estudos Políticos e SoJornal da AB ABII 312 Setembro de 2006

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DEPOIMENTO WILSON FIGUEIREDO

Jornal deve ir para as bancas quando ficar pronto Os fatos podem acontecer a qualquer momento e o que vier depois “não é problema da redação”, diz o mais antigo editor do centenário JB.

Jornal da ABI — Como é o comecinho desta aventura? Wilson Figueiredo — Meu primeiro emprego foi na Agência Meridional, dos Diários Assiociados, na Redação do Estado de Minas, em Belo Horizonte, no ano de 1944. Eu me preparava para o vestibular de Medicina por uma escolha tácita de família, desde que nenhum dos quatro filhos homens de meu pai quis seguir a profissão dele. Ao chegar à capital mineira, que ainda tinha em torno de 250 mil habitantes, fui morar em pensão de estudante, mudei da água para o vinho (ou do vinho para a água) e me enturmei com o pessoal da literatura. Já eram presenças nos suplementos literários o Hélio (Pellegrino), o Paulo (Mendes Campos), o Fernando Sabino, o Oto Lara Resende, além dos que já estavam federalizados, como Ciro dos Anjos, Emílio Moura, João Dornas, Guilhermino Cesar. Belô estava se civilizando, sob a administração JK, com o cassino da Pampulha e uma vontade enorme de ser grande cidade. Para encurtar o caminho, fui para a Faculdade de Filosofia fazer o curso de Língua e Literatura Neo-Latina. Carlos Castelo Branco, estudante de Direito e secretário de Redação do Estado de Minas, e que também escrevia “continhos brasileiros” e morava em pensão, apadrinhou meu deslumbramento literário de rapaz vindo do interior. Um dia me perguntou se eu era datilógrafo. Respondi que não, mas, como usava dois dedos de cada mão na máquina de escrever, concluiu que não fazia diferença e me levou assim mesmo para uma experiência na Agência Meridional. Comecei no mesmo dia. Em tempo: no final do mês, o primeiro salário veio maior do que me foi anunciado, porque a carreira de jornalista fora contemplada com o salário profissional. Era uma vez a vocação para a medicina. Comecei 16

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os 82 anos de idade, 62 no jor nalismo em tempo integral, 45 no jornalismo ilson F igueiredo é um dos mais eexperientes xperientes Brasil,, W Wilson Figueiredo Jornal do Brasil profissionais em atividade no P aís. F icou praticamente impossíPaís. Ficou vel contar a história do JB e omitir o nome desse capixaba, nascido em Castelo, batizado na Igreja de São José, em Belo Horizonte, e criado em Minas desde os oito meses de idade. Da mesma for ma, é impossível forma, dissociá-lo do longo período transcor rido na Redação do jor nal de cuja retranscorrido jornal for ma foi ator e testemunha desde os primeiros dias.T em na ponta da línforma dias.Tem gua a crônica do JB, os antecedentes e acidentes históricos transcor ridos transcorridos sob a orientação da Condessa P ereira Car neiro e de M.F Pereira Carneiro M.F.. do Nascimento Brito - transfor mações, sucessos e insucessos que marcam a história do transformações, diário que estampa o nome do P aís no seu cabeçalho. País Wilson F igueiredo fala, com prazer e certa nostalgia, dos nomes ilustres Figueiredo que dirigiram o JB e nele colaboraram, dos repórteres que se identificaram com o espírito do JB, dos colunistas, dos que tiveram seu batismo profissional na Redação onde o sol não se punha. T em a memória das duas sedes Tem — a da A venida Rio Branco e a da A venida Brasil, mas seu limite é o jor nal. Avenida Avenida jornal. Abstém-se de emitir opinião sobre questões relativas à empresa e às decisões que não dizem respeito ao jor nalismo dos seus anos de casa. Numa jornalismo longa e descontraída conversa, recolhida com a cumplicidade de um gravador vador,, ele surpreende pela memória precisa. Dá uma aula sobre o tempo que passou no JB e lembra com emoção os episódios que viveu e os amigos que fez na profissão.

como “tradutor de telegrama”, que era ordenar e reduzir às necessidades do jornal as informações das agências noticiosas internacionais. Chegavam pelo telégrafo quilômetros de telegramas. A Guerra Mundial estava entrando no última fase com o desembarque aliado na Normandia em junho de 44. As notícias da guerra tinham primazia no interesse dos leitores porque, sob o Estado Novo, a censura à imprensa reduzia ao mínimo o que pudesse merecer atenção como informação e opinião. O Congresso estava fechado desde 1937, não havia vida política, nem partidos políticos, nem eleição.Toda ditadura se nivela pela supressão da liberdade de imprensa. O Estado Novo caprichou. A censura era organizada, havia até carreira do censor no serviço público. Eu fiquei amigo do Oto Lara Resende,

que despontava como escritor e era repórter e redator do Diário (católico). Os jornais do Rio e de São Paulo eram comprados à noite, quando chegavam pelo trem da Central. Era uma janela aberta para o mundo lá fora. E se não havia notícias políticas, não faltava informação política por via oral. Boatos em profusão, cautelosamente passados adiante. Sabia-se de tudo e até do que não ocorria. Discutiam-se idéias, comentavam-se os fatos públicos, freqüentavam-se conferências de visitantes ilustres. Os estudantes, como sempre, faziam política quando os adultos se omitiam. Principalmente distribuíam panfletos contra a ditadura e o ditador Getúlio Vargas. Havia prisões quando apanhados de madrugada em panfletagem contra o Estado Novo. O Brasil começava a se mover. O brasileiro pressentia — sem ter certeza — os

últimos meses do Estado Novo. Era certo que o fim da Segunda Guerra liquidaria a ditadura. O mundo contava o tempo para a capitulação alemã. Depois de quatro anos, aceitei ser um dos secretários da Folha de Minas — fundada pelo Afonso Arinos para ser jornal da oposição e, por ironia, acabou nas mãos do Governo estadual por tabela. Para evitar a falência, fez uma operação financeira com sujeito oculto. A partir daí o jornalismo já era para mim mais que uma profissão para começar. Iria viver dele. Em 1946, no Rio, depois de encerrado o Congresso da Une, trabalhei por seis meses no jornal Democracia, folha política dirigida por Francisco de Assis Barbosa. Terminada a Constituinte, senti saudade e voltei para Belo Horizonte. Jornal da ABI — E quando veio em definitivo para o Rio? Wilson — Em 57. Troquei pernas por várias Redações, emprego andava difícil. Passei alguns meses na Última Hora, que já não era a mesma, mas continuava a ser uma referência política. Passei pela Tribuna da Imprensa, que também vivia um tempo de adversidade. Ai, mais uma vez, o Castelinho me deu a mão e me levou ao Odilo Costa, filho, que estava arrebanhando repórteres e redatores para começar a reforma do JB. Vi o nascimento de um projeto de jornalismo ambicioso: o título tradicional, de Jornal do Brasil, marginalizado na competição desde a Primeira Guerra Mundial, queria se recuperar como “um jornal de importância nacional e referência internacional”. O Brasil também se dispunha a uma arrancada histórica. O salto industrial estava preparado. Havia dificuldades, inclusive políticas, mas o País seguia adiante. O último abalo tinha sido a morte de Getúlio Vargas, seguida da campanha sucessória no vácuo políti-


co (e da tentativa de evitar a posse do eleito). Estava na medida exata para JK, que fez um bem enorme, em primeiro lugar, aos brasileiros com um Governo de resultados visíveis. Deu o toque industrial ao Brasil e acesso do brasileiro ao consumo de bens duráveis, como dizem os economistas. Sem querer, o JB e JK, embora se estranhando em diversos episódios, participaram do mesmo projeto. Cheguei a tempo no JB. Sai por dois anos e, quando voltei, foi para ficar até o fim daquela encarnação.

quando a Condessa o sucedeu à frente do JB. A iniciativa de fazer uma reforma para o JB se situar nos novos tempos foi da Condessa. Ela começou as consultas e a pensar em nomes para a reforma do JB. Dona Maurina Dunshee de Abranches era maranhense, filha de jornalista que também dirigira o JB, e se lembrou do seu conterrâneo, Odilo Costa, filho, redator político do Diário de Notícias. E Odilo veio a ser — por dois anos — o executor de uma reforma que se sabia difícil de começar num jornal já sexagenário e com tiragem de sobrevivência. Era o jornal que vivia da receita dos anúncios classificados. Odilo cuidou da Redação, convidou um grupo de jornalistas que começavam a vida profissional, a maioria da Tribuna da Imprensa e do Diário Carioca. Eram jovens ainda sem maiores compromissos de vida e, em tese, sem necessidade de remuneração alta. Os salários haviam subido com o aparecimento de Última Hora, mas, com a crise política do governo Vargas, sofreram achatamento geral. O jornalismo não chegava a ser uma profissão da qual fosse possível viver fora dos cargos de confiança (e sem emprego público, que é outra história a ser levantada). Outro efeito da reforma do JB foi o reconhecimento da necessidade de remunerar melhor. Não foi reivindicação atendida num mês, nem num ano. A revisão salarial se viabilizou pela competição ativada. Um processo longo.

Jornal da ABI — A reforma que mudou a cara do jornal... Wilson — Não foi apenas uma operação gráfica, mas uma reforma profissional e empresarial. Precisou de tempo. O JB tinha um agente financeiro no andar térreo: o guichê dos anúncios classificados que o livrava de preocupações com a subsistência. Depois de muitos desencontros, o jornal se encontrou numa confiança indispensável entre empresa e jornalismo. Apenas um exemplo: não havia cartão de ponto na Redação do Jornal do Brasil. As tentativas de manter o jornalista sob rédea curta, numa profissão com margem de erro para produzir e dissipar tempo, não pegaram. Pareciam, e eram, desconfiança. Controle de ponto é incompatível com a atividade que não tem horário para começar e acabar. O horário rígido desmobiliza o espírito do repórter e do redator “O Jornal do Brasil mantinha posição meio porque se trapetulante, meio desafiador, mas não ia para o ta de atividade de tempo iliconfronto aberto com o Governo, como o mitado. Fatos Correio da Manhã. Nunca fechava a porta. não têm hora Liberal nas convicções instigante e marcada. Acidentes aconteprovocador nas reportagens e manchetes” cem a qualquer momento. Eu atribuo a essa (digamos) liberaAinda está por ser estudado em prolidade consentida pela direção um dos fundidade o fechamento epidêmico de motivos do estado de espírito que idenjornais de credibilidade no Rio, depois tifica os que passaram pelo JB. Formam de perder o status de capital federal. uma confraria ruidosa quando se enNem tudo foi falta de visão comercial, contram. nem apenas conseqüência das posições Um caso bom para meditação: no políticas a partir de 1964. esforço para impor o fechamento dos Fui para o JB em abril de 57. Cometrabalhos da Redação mais cedo, para cei junto com Hermano Alves, Luís o jornal chegar logo às bancas, o JB conLobo, Carlos Lemos, Bandeira da Cosseguiu um dia dar por encerrada a tata, Cesário Marques, Calazans Fernanrefa dentro da hora marcada. Pois não des, Quintino de Carvalho, Mário Fausdemorou e veio a notícia de um desastino, Joaquim Campelo, Luiz Gutemtre ferroviário de proporções, com morberg, Edilberto Coutinho, Ana Arrutos e feridos em quantidade, na linha da em seu primeiro emprego. Uma gada Central. A apuração varou a maleria de vivos e mortos sempre lembradrugada e o jornal chegou tarde às bandos. Não dá para citar todos. Em seguida cas. Jornal é para chegar às bancas vieram Ferreira Gullar, Jânio de Freitas, quando ficar pronto. O resto não é com José Ramos Tinhorão, Amílcar de Casa Redação. tro, não necessariamente nessa ordem, A reforma do JB era necessidade à e mais tarde Fernando Gabeira, todos espera de oportunidade, mas também reunidos pelas circunstâncias de merfatalidade. Com a morte do Conde Pecado e apostando na contribuição dereira Carneiro, a Condessa abriu a quesmocrática da imprensa. tão com Aníbal Freire, ex-Ministro do Supremo, que tivera a confiança do Jornal da ABI — O Odilo acabou caConde e continuou a dirigir o jornal indo....

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DEPOIMENTO WILSON FIGUEIREDO

Wilson — Era inevitável. Reformas desgastam os dois lados. Odilo não era um temperamento afeito ao trabalho organizado, metódico. Além de escritor e jornalista, tinha relações políticas estreitas com a UDN. Faltava-lhe método e tinha o prazer de improvisar, mas o que o jornal precisava naquela altura era de mão firme para operar com a direção, sem injunções alheias ao trabalho profissional. A Redação nova se sentia preterida pela eterna redução de custos, e pressionada pela gerência comercial. Odilo teve o mérito de quebrar o tabu da primeira página exclusiva de anúncios classificados, com fotografias e títulos que chamavam para as páginas de dentro. Recrutou a rapaziada para animar um jornal vazio de criatividade, com uma aparência gráfica de afugentar leitor. Mas bateu de frente com a empresa, por motivos políticos e de custos. Não tinha cabeça de empresário. Desentendeu-se e saiu. Depois de um período de reavaliação do projeto, a diretoria entregou a Redação a Jânio de Freitas, que também não teve condições de promover mudanças coerentes sem a renovação de pessoal. O conflito de gerações, entre os profissionais antigos e a garotada que estava chegando, passava-se nos bastidores. Jânio saiu, mas deixou as bases da reforma cujo primeiro objetivo era exatamente estabelecer o padrão moderno de texto e o padrão gráfico que demandavam condições materiais com que não podia contar. Jornal da ABI — Aí veio o Alberto Dines? Wilson — Em janeiro de 1962, foi a vez do Dines, que entrou ciente das dificuldades, mas com a disposição de equacioná-las e resolvê-las racionalmente com a empresa. Fez a ponte entre o jornalismo e a empresa, ainda não acostumada às mudanças e novidades que estavam em curso. Dines administrou as diferenças. Pouco antes, o JB já tinha ultrapassado a etapa preparatória, quando oPresidente Jânio Quadros reabriu a crise com a renúncia. O choque cultural entre a antiga Redação, que operava na sombra, e a nova, modernizadora, estava esgotado. Dines ficou onze anos e, no edifício da Avenida Brasil, o JB chegou ao auge do projeto: atou as duas pontas da solução possível. O JB é considerado a exceção à regra segundo a qual nenhum jornal que entra em decadência nunca mais levanta a cabeça. O Caderno B já estava criado (iniciativa de Reinaldo Jardim), foi prestigiado e se tornou uma das marcas do jornal em matéria de cultura e espetáculos (que todos os jornais hoje têm). O Jornal do Brasil mantinha posição meio petulante, meio desafiadora, mas que não ia para o confronto aberto com o Governo, como o Correio da Manhã. Nunca fechava a porta. Liberal nas convicções, instigante e provocador, nas reportagens e nas manchetes e chama18

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das de primeira página. A opinião também se tornou um culto. Gosto pelo trabalho de equipe foi outra das características de Alberto Dines. Desde antes, entre 1965 e 68, o jornal se firmou pela informação política confiável e a opinião arejada, enquanto outros jornais, já em crise, apostaram apenas na resistência política cega à ditadura para o qual, por conta própria, se encaminhava o regime. Nessa altura, o JB foi perdendo (para

qüências da sua imprevidência e pagou preço elevado pelo seu posicionamento político. O Jornal do Commercio, até hoje identificado com o conceito de jornal de assuntos financeiros e econômicos, ficou restrito ao universo dos negócios. Se não me engano, é de Jânio de Freitas o mérito de ter acabado com o hábito de começar notícia na primeira página e continuar nas páginas de dentro. Fez da primeira página a vitrina do jornal. Quando Assis Chateaubriand caiu doente, no início da década de 60, os Diários Associados ficaram com dirigentes aos quais faltava o sentido da modernização dos jornais e do jornalismo na economia de mercado e no relacionamento com o governo. A cadeia dos Diários Associados naufragou, com a sobrevivência de poucos títulos. O Correio da Manhã, com o “poder de derrubar ministros”, como se dizia, não tinha com o governo militar relacionamento normal, nem fazia questão de ter prestígio oficial. O desaparecimento do Correio não restringiu o impacto ao vazio deixado pelos seus editoriais. Foi o marco histórico. Outras publicações também desapareceram. Também contou o desaparecimento de outros jornais e revistas, como o Diário de Notícias, que sucumbiu ao desgaste do envolvimento político e da negligência empresarial.

“Mais do que o jornalismo, os jornais vão ter que se reinventar, mas não com o toque de amadorismo que transparece na proposta de abrir o exercício da profissão a quem quiser.” O Globo) a receita dos classificados e consolidando prestígio junto às agências de propaganda: o jornal se tornou veículo de prestígio. A sede da Avenida Brasil foi o sinal exterior da opulência. Jornal da ABI — O JB conquistou espaço? Wilson — As mudanças no JB coincidiram com o salto de modernidade na economia e na indústria do País. A indústria e as agências de publicidade distinguiam o JB. Quando o mercado respondeu aos apelos dos produtos industriais — no rastro da euforia do Governo Kubitschek — acelerou-se a seleção natural entre os jornais. O Correio da Manhã, por exemplo, sofreu as conse-

Jornal da ABI — O jornal e o País continuaram crescendo? Wilson — A operação de transferência da Avenida Rio Branco para a Avenida Brasil foi planejada e executada ao longo de 16 anos. A reforma do jornal, iniciada em 57 em suas páginas, foi concluída em 1973, com a mudança e a modernização do equipamento gráfico para atender às novas necessidades no novo prédio. No transcurso dos 16 anos, o JB comprou o terreno da Avenida Brasil 500, preparou e executou o projeto, e provou a embriaguez do sucesso. O Brasil já era outro País. A crise política — que batia à porta nos anos 50 — não deteve o crescimento, nem a expansão industrial e a criação do mercado interno. O Brasil deixou de abrir estradas com centenas de homens de enxada na mão: há no número da Manchete sobre a inauguração de Bra-

sília uma foto que vale como documento de uma época que acabava para se iniciar outra. Critica-se ainda JK porque o seu Governo criou as grandes empreiteiras. Como, porém, abrir estradas, tocar grandes obras sem grandes empresas? Jornal da ABI — E o senhor nunca deixou o JB? Wilson — Em 60, Assis Chateaubriand queria fazer uma reforma no O Jornal e me convidou. Eu caí no conto da reforma, mas aprendi que, sem dispor dos meios, é um engano tentar mudança drástica com expectativa. É natural a resistência por parte de quem se sente ameaçado. No fim de um ano eu vi que os Associados não queriam gastar dinheiro, mas ter um milagre. Passei pelo Diário Carioca, do Arnon de Mello, mas já a caminho do JB. A|berto Dines, deixando o Diário da Noite, que fez sucesso como tablóide, me convidou para ir com ele para o JB. Jornal da ABI — Como foi o retorno? Wilson — Ia começar a fase de estruturação paciente, sob novas injunções, mas com as dificuldades equacionadas. A crise política plantada por Jânio Quadros florescia. O País vivia uma expectativa de grande incerteza. João Goulart foi um problema político não resolvido quando vice de JK. A resistência militar continuava em carne viva. O pomo da discórdia era o parlamentarismo que Jango aceitou, mas não digeriu. Jornal da ABI — E como foi mesmo a história da renúncia de Jânio antecipada em sua coluna política na revista Mundo Ilustrado? Wilson — Quando da minha passagem pelo Diário Carioca, o Joel Silveira nos convidou — a mim e ao Walter Fontoura — para mantermos duas páginas de assuntos políticos semanais no Mundo Ilustrado. Jânio Quadros, entre outros costumes, fazia uma reunião mensal, de três dias, com ministros e secretários de governos estaduais. Era uma iniciativa bem sucedida com os Governadores dos Estados para tratar de problemas que dissessem respeito ao Governo federal. A última foi no Maranhão. Castelinho e José Aparecido, aproveitando a oportunidade, vieram ao Rio e reuniram, num almoço em casa do primeiro, os jornalistas políticos para a costumeira troca de informações. Fui sem acreditar que sairia com algo de aproveitável na crônica do Mundo Ilustrado. Naquela conversa, Aparecido deu ciência de várias questões das quais pouco se sabia. Por exemplo, os bastidores do estremecimento entre Jango e Jânio, a propósito da derrubada do veto presidencial à admissão dos 10 mil empregados da Novacap como funcionários públicos. O Congresso aprovou a iniciativa de JK e derrubou o veto de Jânio, que estrilou. O pessoal do Rio quis saber como Jânio desfez o constrangimento em relação a Jango.Veio


a explicação: o Presidente chamou formalmente o Vice e o convidou para chefiar a delegação do Governo brasileiro à China. Era a paz. No curso da conversa, Jânio foi mais ele com a advertência: “Dr. João Goulart, não tem sentido a nossa divergência. O senhor é meu vice. Acha que a burguesia vai me depor para colocá-lo no meu lugar? Pode estar certo de que, se a minha cabeça for pendurada num poste, a sua vai balançar no poste ao lado”. O papo ainda rolou. Alguém lembrou que Jânio havia ameaçado renunciar quando seu veto caiu. Outro deu ciência de uma operação que envolveu figuras políticas nacionais para dissuadir o Presidente da disposição. Um dos presentes deixou no ar a questão: já imaginaram o que ocasionaria a renúncia do Presidente? A multidão na rua era uma incógnita. Mais tarde o Walter Fontoura, com as informações e opiniões que havia recolhido entre políticos, me cobrou o artigo de abertura da coluna. Não pestanejei. Contei a história que era inédita. Escrevi e o Mundo Ilustrado publicou, acho que dez dias antes da renúncia, com o título “Renúncia, a arma secreta de Jânio”. Contei que, sob pressão, Jânio apelaria para a renúncia. Era o sinal para mobilizar a opinião pública e confirmar seus poderes com respaldo do povão. A coluna foi publicada no dia 12 de agosto e ele renunciou no dia 25. Estremeci no pedestal. Um deputado da UDN — com a revista na mão — propunha uma CPI. Mas deu em nada. A crise tinha pressa contra Jânio, em razão da história pregressa de renúncias. Tentara mais de uma vez como candidato.

car. Passou por variações que fazem parte do jeitinho brasileiro. A imprensa no Rio (e no Brasil) aprendeu a valer-se do lead graças à iniciativa do Diário Carioca. Foi o Pompeu de Souza que, na volta de uma viagem aos Estados Unidos, trouxe a novidade na mala. Os jornais daquela época impressionavam mal. O parque gráfico, ainda nos moldes do século XIX, estava anacrônico. E as notícias não ordenavam as informações por ordem de importância.

Jornal da ABI — O senhor criou o Informe JB? Wilson — Alberto Dines quis que eu assumisse uma coluna no primeiro caderno. Trataria também de política, com mais liberdade do que a reportagem especializada. Passaria a fazer parte também do grupo de editorialistas. O contato diário com os diretores do jornal ajudaria a temperar o tom político da coluna, que se chamou Segunda Seção e depois passou a Informe JB. Eu montei uma rede de informantes que me abasteciam de material precioso para esse tipo de coluna. Na manhã do dia em que saiu a primeira coluna fui acordado cedo por um telefonema do Hélio Fernandes, que saudou um novo colega e me desejou boa sorte com efusão. O gesto me comoveu.

Jornal da ABI — O senhor tem um pezinho na literatura? Wilson — Eu queria ser escritor. Cheguei a fazer poesia, mas a minha estréia em livro rapidamente se converteu num recuo. Antes que me arrependesse, sai recolhendo os exemplares disponíveis. Até hoje, sempre que posso, apago impressões digitais deixadas na literatura. Nas letras, sou um leitor. No JB, aceitamos o desafio de um editor para fazer coletivamente a proeza de aprontar, em um mês, um livro em cima dos acontecimentos de 31 de março de 64. Acho “Os Idos de março e a queda em abril”, até hoje, uma iniciativa jornalística que merecia estar em atividade permanente. O livro contou com textos de Antonio Callado, Araújo Neto, Alberto Dines, Pedro Gomes, Carlos Castelo Branco, Cláudio Melo e Souza. Eu também contribuí. Fez sucesso porque levantamos todos os aspectos relativos à crise final do Governo Goulart. Com um mês de Governo militar, o livro estava na rua e vendeu muito.

Jornal da ABI — Foi no JB que nasceu o lead? Wilson — Não. O lead é norte-americano de nascimento, mas veio para fi-

Jornal da ABI — Que comparação o senhor faz do jornalismo de hoje com o praticado, por exemplo, há 50 anos? Wilson — O jornalismo é visto com

outros olhos. Está diversificado. O jornalismo da televisão é completamente diferente, mas a questão se passa ainda em termos equivocados. Não afetou apenas o público leitor de jornais. Nem os ouvintes que são atendidos pelo rádio. Mais do que o jornalismo, os jornais vão ter que se reinventar, mas não com o toque de amadorismo que transparece na proposta de abrir o exercício da profissão a quem quiser. O jornalismo de compromisso

mo da época. Nascem e morrem os jornais, mas até hoje os defeitos humanos e os privilégios sobrevivem. O livro foi escrito no começo do século passado, mas mantém atualidade. Jornal da ABI — Hoje se faz um jornalismo com mais independência? Wilson — O jornalismo ganhou mais liberdade, mais responsabilidade e mais respeitabilidade do que tinha no passado, mas perdeu também

"O jornalismo ganhou mais liberdade, mais responsabilidade e mais respeitabilidade do que tinha no passado, mas perdeu também coragem e convicção. Está perdendo o encanto do tempo da vida boêmia."

profissional pede mais do que saber escrever e alinhar frases. Ninguém pode ser jornalista hebdomadário ou duas vezes por semana. Pode ser articulista, mas jornalismo é um pouco mais. A televisão e o rádio não têm fôlego para comentários em cima de raciocínio encadeado. O assunto não cabe numa resposta de entrevista. Acho que o jornalismo tem menos injunções e se tornou indispensável às democracias. As injunções do mercado publicitário não são as de antigamente, mas aumentou também a margem de independência no espaço editorial e, mesmo no departamento comercial dos jornais, há reconhecimento do problema.O que mudou foi a ilusão de que o mercado pressupõe, como a democracia, liberdade de informação. Nos anos 50, os grandes jornais ainda mantinham “lista negra”, com nomes de políticos ou empresários que não podiam ser publicados. No Correio da Manhã, era proibido o nome do Lima Barreto, para citar apenas um. Tudo por causa das Recordações do Escrivão Isaías Caminha, que era a história de um jornal que caricaturava o Correio da Manhã e o jornalis-

coragem e convicção. Está perdendo o encanto do tempo da vida boêmia. Jornalistas eram agraciados com carteirinha para entrar em casas de espetáculos sem pagar. O JB ajudou a erradicar esse costume ao bancar as despesas dos seus repórteres e redatores. Não sei se os privilégios estão de volta. Até passagem de avião custava a metade para jornalistas, em serviço ou a passeio. Jornalista que paga se faz respeitar. Jornal da ABI — O senhor coleciona os artigos que escreveu? Wilson — Pratico o princípio de não olhar pra trás. Meu orgulho é ter participado de todas as eleições diretas desde que foram restabelecidas com a queda do Estado Novo, exceto quando foram suspensas pelos governos militares. Guardo meu primeiro título de eleitor, tirado em 1945. Nunca deixei de votar, porque voto não se joga fora. Voto até em eleição de síndico. O voto é instrumento da cidadania, e não arma. Jornal da AB ABII 312 Setembro de 2006

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Liberdade de Imprensa Assessor soca e chuta repórter Em mensagem enviada no dia 19 de setembro à Redação do jornal Bom Dia, de São José do Rio Preto, a ABI manifestou solidariedade à repórter estagiária Karla Konda, que foi agredida com um soco no rosto e um chute na perna por um assessor de campanha do candidato a deputado estadual Campos Machado (PTB). A repórter do Bom Dia acompanhava uma blitz que apurava denúncia de crime eleitoral numa festa popular que o PTB promovia em Catanduva, interior paulista, quando foi agredida por Maurício Gouveia, assessor do parlamentar petebista. De acordo com Karla, Gouveia a pegou pelo braço e lhe deu um soco no rosto e um pontapé na perna. Após ser contido pela Polícia, ainda a ameaçou.. "Pode mudar de cidade", teria dito à repórter. Após prestar depoimento à Polícia, Karla Konda fez exame de corpo de delito. Gouveia, que também depôs, alegou ter sido ofendido pela estagiária com palavras de cunho racista (o assessor é branco).

Censura prévia em Itaguaí Em mensagem ao Juiz Rafael de Oliveira Fonseca, da Vara Criminal da Comarca de Itaguaí, a ABI protestou contra a censura prévia ao jornal Atual, daquele Município fluminense. É o seguinte o teor da mensagem: “A Associação Brasileira de Imprensa encarece a atenção de Vossa Excelência para a inconstitucionalidade do despacho exarado na ação cautelar ajuizada pelo Prefeito Cado Busatto contra o jornal Atual, o qual configura censura prévia vedada pelo artigo 5°, inciso IX, e artigo 220, parágrafo 2°, da Constituição da República. Manutenção de despacho dessa natureza pode caracterizar abuso de poder desse douto Juizado, conforme prescrito na Lei federal n° 4.898/65 em seu artigo 2°, alínea j. (a) Maurício Azêdo, Presidente da ABI.”

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ENCONTRO

Fórum cobra compromisso político contra a violência Movimentos sociais promovem ato com apoio da ABI para exigir cumprimento da lei de proteção aos cidadãos contra a discriminação e a tortura do Estado, inclusive em presídios e manicômios Promovido no dia 13 de setembro na ABI pelo Fórum de Reparação do Estado do Rio de Janeiro, o Dia do Compromisso com os Direitos Humanos reuniu vítimas de violência de Estado, incluindo torturas durante a ditadura militar. Organizado pelo Grupo Tortura Nunca Mais, com apoio da ABI, o encontro reuniu candidatos a cargos públicos nas eleições de 1º de outubro, convocados a assinar um termo de compromisso com entidades de defesa dos direitos humanos e ouvir suas pautas de reivindicações. Estiveram presentes representantes de 40 entidades que têm atuação importante na questão, como Justiça Global, Comissão de Direitos Humanos da OAB, Associação dos Defensores Públicos do Rio de Janeiro, Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, Movimento Homossexual Fluminense, Centro pela Justiça e Pelo Direito Internacional- Cejil, Movimento Posso Me Identificar, Mães de Acari, Movimentos pela Reforma Psiquiátrica e Movimento Moleque. Presidida por Vera Vital Brasil, do Fórum de Reparação do Estado do Rio de Janeiro, a mesa que dirigiu o ato foi composta por Geraldo Bezerra de Menezes, da Comissão de Direitos Humanos da OAB; Mônica Lamy Freund, do Centro pela Justiça e pelo Direito InternacionalCejil; Vera Lúcia Flores, das Mães de Acari; Eduardo Vasconcelos, do Movimento Nacional pela Reforma Psiquiátrica; Edvaldo da Silva Nabuco, do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial; e Denise Alves, da Rede Movimento Contra a Violência. Vera Vital Brasil abriu o Fórum informando sobre os avanços alcançados no Estado do Rio pelas entidades de defesa dos direitos humanos, que resultaram na promulgação, em 21 de dezembro de 2001, da Lei nº 3.744, que estabelece as formas de apreciação dos processos e requerimentos de reparação moral por prisões e torturas sofridas em dependências do Governo do Estado do Rio de Janeiro entre 1º de abril de 1964, data do golpe militar, e 15 de agosto de 1979. Marcelo Freixo — ex-Coordenador da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, membro da ong Justiça Global e que concorreu a deputado estadual pelo Psol, enalteceu a iniciativa das entidades de defesa dos direitos humanos do Rio: — É fundamental que os movimentos sociais cobrem dos candidatos uma postura diante dessa questão, que tem como ponto principal a garantia dos direitos humanos pelo Estado, o principal violador desses direitos. Acho importante essas entidades estarem se aproximando.

que denunciou políticos e fazendeiros de Valença-RJ. Ele informa que há muita violação dos direitos humanos nas unidades de saúde: — Nos hospitais psiquiátricos, os direitos dos pacientes são violados quando eles perdem a voz diante dos médicos. Depois, quando são submetidos a tratamentos de choque e camisas-de-força, que nãosãoasformas mais adequadas de se tratarpessoas com sofrimentos psíquicos. Em depoimento que causou forte emoção, Vera Lúcia Flores, das Mães de Acari, cobrou das autoridades uma resposta pelo de-saparecimento da filha adolesAndréa e Cleisson: filmando e gravando para dar cente Cristiane Elite visibilidade ao debate sobre os direitos humanos Souza:—Faltaalguém na minha casa. Quero dar um enterro digno à minha filha. Nem O Deputado federal Chico Alencar, que seja só um ossinho, eu quero entertambém do Psol, defendeu o processo de rar. Há 16 anos eu procuro saber onde ela mobilização popular, “única forma de o está e tudo o que ouço das au-toridades é País encontrar soluções favoráveis para a que, se não há corpo, não houve crime. Por questão dos direitos humanos”: — Entenisso, estou muito à vontade para dizer com do que somente através de uma mobilifirmeza aos candidatos que as Mães de Acari zação popular permanente o Brasil vai poprecisam de ajuda, pois há anos estamos der avançar além das boas intenções e resolà procura de quem possa nos socorrer. ver a questão dos direitos humanos. TeO Movimento a que Vera Lúcia permos que lutar contra o obscurantismo crestence foi criado em 1990, um dia após o cente. Aquele de nós que vier a ter mandesaparecimento — e provável extermídato parlamentar vai precisar muito da nio — de 11 jovens. Eles estavam em um mobilização contínua das organizações sítio em Magé, na Baixada Fluminense, que defendem os direitos dos cidadãos pae eram quase todos da favela de Acari. ra cobrar das autoridades oficiais. AÇÃO CONJUNTA Na opinião do jornalista Edvaldo da Silva Nabuco, membro do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, um dos aspectos mais importantes em relação aos direitos humanos se refere à violência sofrida pelas pessoas que têm pouco acesso à Justiça: — Por isso é muito importante que façamos uma ação conjunta para que as políticas públicas de direitos humanos sejam cumpridas e a legislação que as instituiu seja respeitada. Edvaldo foi repórter de O Dia e em 1996 teve que abandonar a profissão para fazer tratamento psiquiátrico e curar o trauma sofrido com agressões e ameaças de morte que recebeu por causa de matérias em

UM FILME-DENÚNCIA O Fórum de Reparação do Estado do Rio de Janeiro foi filmado pelos cineastas Cleisson Vidal e Andréa Prates, que estão preparando o documentário Humano, demasiado humano: — O projeto começou quando fizemos o documentário Missionários, que mostrava o drama de uma banda musical formada por internos da Penitenciária Lemos Brito. A partir dessa experiência, percebi que havia graves problemas dentro do sistema penitenciário e que essa questão não encontra eco na sociedade civil. Com o filme, queremos dar visibilidade ao debate sobre os direitos humanos, mostrando que o assunto não pode ser tão malvisto pela sociedade — disse Andréa.


TERRORISMO

JULGAMENTO

ABI PEDE APURAÇÃO DE ATENTADO A JORNAL DO INTERIOR PAULISTA

Jornalista agredido não indenizará agressores

Ofício ao Governador de São Paulo reclama identificação e punição dos autores da depredação e incêndio de gráfica em São Sebastião. Toda a edição do jornal também foi queimada.

houve resistência do jornal à veiculação Considerado um dos melhores repórteres do País de sua versão sobre os fatos, nem ree ganhador de quatro Prêmios Esso de Jornalismo, correram à via judicial específica para o paraense Lúcio Flávio Pinto já se acostumou à exercê-lo. Sobre as tutelas requerirotina de processos — responde a 18 —, a maidas, mostrou que impedir novas oria movida pela família Maiorana, dona do jornotícias a respeito seria praticar a cennal O Liberal. Desta vez, no entanto, o jornalista sura prévia, proibida pela Constituiganhou uma batalha — e enviou nota a respeito ção Federal. à ABI. A Juíza Luzia do Socorro Silva dos Santos, da 4ª Vara Cível do Fórum de Belém, rejeitou AS AÇÕES EM CURSO ação de indenização por danos morais e Os Maiorana ajuizaram 13 materiais proposta contra ele por Roações no fórum de Belém connaldo Maiorana e Ronaldo Maiotra Lúcio Flávio Pinto após a rana Júnior. agressão, sendo nove crimiOs donos do Liberal se connais (com base na Lei de Imsideraram ofendidos por maprensa, por alegada calúnia, térias divulgadas pelo Diário injúria e difamação) e quado Pará sobre a agressão, pratro cíveis, de indenização. ticada por Ronaldo contra LúAinda estava em curso uma cio, no dia 21 de janeiro de Lúcio Flávio: Justiça derruba ação movida contra ele outra ação, de uma irmã de 2005. O jornalista alegou que pela família Maiorana, dona do jornal O Liberal. Ronaldo e Romulo, Rosânnão tinha responsabilidade gela, que é diretora da emsobre as matérias do Diário, presa. Ela pretende impedir o Jornal Pessoal, a publique noticiou e repercutiu fato testemunhado por cação quinzenal de Lúcio, que acaba de completar 19 dezenas de pessoas. A Juíza considerou também que anos de circulação, de a ela se referir para sempre. o Diário se limitou a transmitir fato público, “no exerA ação decidida pela Juíza Luzia dos Santos é uma das cício regular do direito de expressão e informação”. duas que tramitam na 4ª Vara. Há mais uma na 9ª e outra Após a agressão, os Maiorana ajuizaram 13 ações contra na 11ª Vara, ainda sem decisão. O processo instaurado Lúcio Flávio. O processo instaurado contra Ronaldo pela contra Ronaldo pela agressão, a partir de denúncia do agressão, a partir de denúncia do Ministério Público do Ministério Público do Estado, com base em inquérito Pará, com base em inquérito policial, foi arquivado. O policial, foi arquivado. O agressor pagou a multa arbiagressor pagou multa de R$ 15 mil e ficou livre. trada e escapou da prisão. A DECISÃO O jornalista Lúcio Flávio enviou a seguinte informação à ABI: A Juíza Luzia do Socorro Silva dos Santos, da 4ª Vara Cível do Fórum de Belém, rejeitou a ação de indenização por danos morais e materiais, cumulada com tutela inibitória e antecipatória, proposta por Ronaldo Maiorana, Em outra ação, movida pelo empresário Cecílio Ronaldo Maiorana Júnior e Delta Publicidade contra o Rego de Almeida, dono da construtora CR Almeijornalista Lúcio Flávio Pinto e o jornal Diário do Pará. Os da, Lúcio Flávio Pinto foi condenado, no dia 14 de donos do jornal O Liberal se consideraram ofendidos por setembro, por dano moral pela 3ª Câmara Cível do matérias divulgadas pelo Diário sobre a agressão praticaTribunal de Justiça do Pará. da por Ronaldo.Maiorana contra Lúcio, em 21 de janeiro Por dois votos a favor e um contra, os desembardo ano passado, no Parque da Residência. gadores da 3ª Câmara Cível mantiveram a decisão Além de cobrar indenização,os Maiorana pretendido Juiz em exercício da 1ª Vara Cível, Amílcar Guiam impedir que tanto o jornalista quanto o jornal volmarães, que no ano passado acolheu a ação propostassem a fazer novas publicações sobre o assunto, conta pelo empresário e condenou o jornalista a pagar siderado ofensivo. A Juíza acatou a preliminar suscitaindenização de R$ 8 mil. Lúcio Flávio vai recorrer da por Lúcio Flávio Pinto, de ilegitimidade passiva para da decisão junto ao Superior Tribunal de Justiça e figurar como réu na ação. O jornalista argumentou que ao Supremo Tribunal Federal, se necessário. não tinha responsabilidade sobre as matérias, publicaA ação movida por Cecílio Rego de Almeida dedas por iniciativa do Diário do Pará, que noticiou um veu-se a matéria publicada em 2000 no Jornal Pesfato testemunhado por dezenas de pessoas. soal, newsletter quinzenal que Lúcio Flávio edita Examinando o mérito da demanda quanto ao jornal, desde 1987, na qual fez comentário sobre repora magistrada concluiu que este se limitou a transmitir tagem de capa da revista Veja, que apontava o ao público fato de efetivo interesse social, sem se conempresário como “o maior grileiro do mundo”. figurar em abuso do direito de informação, sem a intenCecílio Rego Monteiro propôs outras ações, mas ção de lesar a imagem de terceiros, "no exercício regular a Justiça de São Paulo absolveu a Veja, o autor da redo direito de expressão e informação". portagem da revista, um procurador público do Pará Quanto ao pedido de direito de resposta dos Maioe um vereador do Município paraense de Altamira. rana, entendeu a Juíza que eles não comprovaram que FOTO PUBLICADA NO SITE AMBIENTE BRASIL

A Secretaria de Estado dos Negócios da Segurança Pública de São Paulo encaminhou ofício à ABI, em resposta à mensagem enviada pela Casa ao Governador Cláudio Lembo, pedindo empenho das autoridades paulistas na identificação dos responsáveis pelo atentado contra o jornal Diário Imprensa Livre, de São Sebastião, ocorrido na madrugada do dia 18 de maio. O jornal foi invadido por pelo menos três homens encapuzados e armados, que jogaram gasolina e queimaram uma impressora, uma guilhotina e toda a edição que iria para as bancas. Os bandidos, que fugiram a pé, agrediram quatro gráficos e um diagramador do jornal, atacando-o com chutes e empurrões. Em despacho anexo ao ofício da Secretaria de Segurança, o Delegado Waldomiro Bueno Filho informou à ABI que o inquérito policial nº 051/1/ 2006 está em tramitação e que “as investigações estão sendo firmes e cuidadosamente encetadas pela equipe da Distrital de São Sebastião”, que conta com o apoio de policiais de outra unidade policial. Na mensagem enviada por e-mail e transcrita a seguir, a ABI diz ao Governador Cláudio Lembo que o atentado tem de merecer apuração urgente e eficaz, para punição dos autores, na forma da lei, e para desestimular a repetição de ações do gênero, que agridem o sentimento democrático do povo paulista. A mensagem tem este teor: “Ilustre Governador Cláudio Lembo, Cumprimentando-o pela coragem e lucidez da entrevista hoje publicada pela Folha de S. Paulo, lamento ter de me dirigir a Vossa Excelência para solicitar empenho especial do Governo do Estado nas investigações para identificação e prisão dos autores do atentado de que foi alvo nesta madrugada o Diário Imprensa Livre, de São Sebastião, litoral Norte do Estado, onde bandidos encapuzados e armados jogaram gasolina no parque gráfico e incendiaram uma impressora, uma guilhotina e toda a edição do jornal que iria para as bancas. Além dessas violências, os bandidos agrediram quatro gráficos e um diagramador do jornal, atacando-os com empurrões e chutes. A Associação Brasileira de Imprensa considera que esse atentado deve merecer apuração urgente e eficaz, para que seus autores sejam punidos exemplarmente, na forma da legislação penal, e, também, para que fique claro que tropelias dessa natureza não serão toleradas pelo Governo do Estado de São Paulo, em respeito ao sentimento democrático do povo paulista, que repudia violências desse jaez. Aceite, Senhor Governador, as expressões do nosso elevado apreço.( a) Cordialmente, Maurício Azêdo, Presidente da ABI.”

Decisão da Justiça livra o jornalista Lúcio Flávio Pinto de pagar indenização por danos morais a seus agressores e garante liberdade de informação ao Diário do Pará.

Uma batalha perdida, por ora

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COMEMORAÇÃO

Luiz Gonzaga e Jacob do Bandolim, duas das altas expressões da música popular do elenco permanente da PRE-8.

RÁDIO NACIONAL UMA SETENTONA BEM MODERNINHA

Fundada em 1936, a emissora está em pleno processo de revitalização, que a dotou de transmissores aptos a transmitir sinais digitalizados O auditório, palco de grandes espetáculos nos anos 40 e 50, foi modernizado; o jornalismo, agora mais dinâmico, quer ter como foco o cidadão. POR JOSÉ REINALDO M ARQUES

Há 70 anos, sob o prefixo PRE-8, entrava no ar a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Inaugurada no primeiro Governo do Presidente Getúlio Vargas, em 12 de setembro de 1936, a emissora tornou-se um marco da História do Rádio no Brasil. Em 1940, foi encampada pelo Estado Novo e, mesmo sendo então empresa privada, transformou-se na emissora oficial do País. Vargas soube explorar bem a penetração do veículo junto ao público – principalmente nas camadas mais pobres, às quais dirigiu os principais programas sociais – e o usou para propaganda do Governo. Com isso, a Rádio Nacional acabou beneficiada: o que faturava com publicidade era revertido na melhoria dos estúdios e permitia a contratação de um grande elenco de radioatores, músicos e cantores. Tudo isso foi lembrado na semana de 11 a 16 de setembro com uma programação feita especialmente para as comemorações do 70º aniversário da emissora. Também ao longo do mês foram in22

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troduzidos na grade flashes de algumas das suas melhores produções, como os programas PRK 30, com Lauro Borges e Castro Barbosa, e A hora da ginástica, com o Professor Osvaldo Diniz Magalhães, e interpretações de Cauby Peixoto, Marlene, Emilinha Borba, Dolores Duran, Nélson Gonçalves, Chico Alves, Gilberto Milfont e outros astros dos antigos programas de auditório. Revitalização Empenhado no processo de revitalização da Rádio – iniciado há três anos, com o apoio da Petrobras -, Cristiano Menezes, Coordenador Artístico e Cultural da Nacional, diz, com entusiasmo: – Devemos destacar quanto a Rádio Nacional do Rio de Janeiro é significativa na história das comunicações do País e o grau de importância que tem na História da República, na consolidação da cidadania brasileira constituída a partir da cultura popular, por meio da música, do humor, da dramaturgia, da narração esportiva. A Nacional tem importância incomensurável em relação a todos esses aspectos. Cristiano conta que o novo transmissor da emissora está apto a receber a tec-

não havia nem vestígio do velho auditório da Rádio Nacional. Tivemos que reformular o projeto concebido em Brasília, para reconstruí-lo e dotálo de capacidade para atender às demandas dos programas especiais que são apresentados aqui. Entre eles estão Ponto do samba, da cantora Dorina (quartas, às 12h30 min); o especial de choro do grupo Época de Ouro (sextas, 17h) e o infanto-juvenil Rádio Maluca, que lota o Auditório Radamés Gnattali aos sábados, a partir das 11h. Edna Dantas, Coordenadora de Jornalismo da no Rio, diz que A Rádio Nacional tem importância incomensurável, diz Radiobrás Cristiano Menezes, seu Coordenador Artístico e Cultural. as mudanças ocorreram em dois momentos disnologia digital. Foi feita também obra tintos: a primeira, em 2004, com a revide reconstituição do auditório, que teve talização física da emissora; a segunda, a capacidade reduzida de 500 para 200 mais recente, com foco no jornalismo: pessoas: – Quando assumimos, em 2003, – Deixamos de lado o "jornalismo cha-


pa-branca" e passamos a focar mais no cidadão. Em relação aos recursos humanos, houve mudança de mentalidade, um processo de mudança cultural na Redação, com estímulo aos jornalistas mais antigos e a contratação de gente mais jovem por meio de concursos. Edna acrescenta que o jornalismo da Nacional deverá passar a ter mais identidade com o Estado e o Município do Rio de Janeiro, "mas sem perder a abrangência da pauta nacional": – Também vamos atuar com um formato de jornalismo que chamamos de expandido, o que significa que todas as informações veiculadas pela rádio, sejam culturais ou econômicas, serão contextualizadas. Modernidade Essa medida traz alívio para Cristiano Menezes, que acha fundamental a Rádio Nacional não interromper o processo de revitalização: – A Nacional é um patrimônio cultural da nação brasileira e, além de ressaltar o seu passado, é importante inseri-la na modernidade. Cristiano revela que se preocupa com

a idéia do Comitê de Qualidade Editorial da Rádio Nacional, em Brasília, que quer subordinar a programação da emissora ao conteúdo da Agência Brasil, órgão de notícias oficial do Governo: – Ouvintes e funcionários mais antigos têm que ter voz nessa discussão. A Nacional é um bem imaterial e se projetou entre a população brasileira – e carioca, em especial – devido ao seu caráter informativo, cultural e artístico. Pessoalmente, discordo dessa medida, porque a origem da Agência Brasil nos remete ao Dip (Departamento de Imprensa e Propaganda), criado por Getúlio no Estado Novo para divulgar sua mensagem.Naqueletempo,aRádiofoipreservada e se consolidou como emissora popular, com elenco de maestros, músicos, cantores, atores, humoristas, redatores e jornalistas, sem que o noticiário produzidopelaagênciadoGovernoocupasseagrade de programação de maneira hegemônica. Cristiano Menezes acrescenta que esse projeto do Comitê de Qualidade contraria a proposta original de revitalização da Rádio, que teve o aval do Presidente Lula: – Em 2003, o Presidente veio ao Rio e anun-

Osmar Frazão: O que havia de melhor no canto e na música instrumental estava no elenco fixo da Rádio Nacional.

ciou, do auditório da emissora para todo o Brasil, uma proposta de revitalização da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Fiquei emocionado ao ver o orgulho e a alegria no olhar dos funcionários mais antigos. José Roberto Garcez, diretor de Jornalismo da Radiobrás, informou que, apesar de a Rádio Nacional prestar um serviço público dentro da estrutura do Gover-no, em momento algum se pensou em subordinar a sua programação

à Agência Brasil: – A produção de conteúdo de todos os veículos vinculados à Radiobrás é da Direção de Jornalismo e não da Agência Brasil. O nosso projeto de revitalização para a Rádio Nacional é fazer da emissora instrumento de valorização de todos os cidadãos brasileiros. Por isso, toda a nossa luta tem sido no sentido de separar a função jornalística da ação de propaganda política governamental.

Um reduto de músicos e atores 12 de setembro de 1936. Eram 21h quando o locutor, tendo como fundo musical Luar do sertão, celebrada música do compositor Catulo da Paixão Cearense, anunciou: "Alô, alô, Brasil! Aqui fala a Rádio Nacional do Rio de Janeiro!". Surgia a PRE-8, que logo se tornou grande sucesso de audiência. O programa inaugural teve a participação da Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, conduzida pelo maestro Henrique Spedini, e de artistas como Bidu Sayão, Maria Giuseppe Danise, Bruno Landi, Aurélio Maracatu, Mário Azevedo e Dyla Josetti. A surpresa foi a apresentação da Orquestra de Concertos da Rádio Nacional, com Radamés Gnattali ao piano e regência de Romeu Ghipsman. Quatro anos depois, por força do Decreto-Lei n° 2.073, de 1940, assinado pelo então Presidente Getúlio Vargas, a Nacional foi incorporada ao Patrimônio da União. Testemunha de muitos grandes programas produzidos pela emissora e um de seus ex-diretores, o radialista, pesquisador e historiador Osmar Frazão fala com entusiasmo dos bons tempos da Rádio, que tomou impulso após ser encampada pelo Governo: – Com essa iniciativa, a Nacional, através de sua programação jornalística e musical e das radionovelas, se transformou na grande comunicadora do Brasil. Os maiores artistas brasileiros vieram para cá – músicos como Radamés e Alexandre Gnattali, Gustavo de Carvalho (maestro Guaraná), Romeu Fussati, Francisco Duarte (maestro Chiquinho), Alberto Lazzoli.. Lembra Frazão que muitos músicos do Teatro Municipal e outros mais populares se integraram à Rádio nesse período. – O que havia de melhor mo canto e na música instrumental passou a fazer parte da Rádio Nacional: Garoto, José Menezes, Luciano Perrone,

Paulo Gracindo ao lado de grandes nomes da Rádio Nacional: na foto maior, com Floriano Faissal, Olga Nobre, Isis de Oliveira e Elza Gomes; acima, com Brandão Filho no quadro Primo pobre, primo rico; ao lado, com Ronald Golias, que surgia como comediante.

César de Alencar, Éster de Abreu e Faissal: no auditório cheio.

Orlando Silva, Jorge Goulart, Francisco Alves, Carlos Galhardo, Cauby Peixoto, Francisco Carlos, Heleninha Costa, Rosita Gonzales, Lenita Bruno e Marlene e Emilinha Borba, que foram as rainhas do auditório. Ele faz questão de citar os grandes produtores: – Um deles era Henrique Foreis Domingues, o Almirante, "a mais alta patente do rádio brasileiro". Entre os grandes programas que fez estão Curiosidades musicais, Caixa de perguntas e Aquarela brasileira. E não posso deixar de fora Paulo Tapajós, que, com Harol-

do Barbosa, fez o Um milhão de melodias, oportunidade ímpar para que a música popular brasileira explodisse e pudesse ser mostrada em todo o seu esplendor. Frazão, que continua na emissora, segue relembrando A hora do pato, criado por Héber de Bôscoli, Papel carbono", de Renato Murce, e o Programa César de Alencar: – O César foi um grande animador de auditório e até hoje serve de exemplo para muita gente. Para dar uma idéia da sua audiência, as re-

servas para assistir ao programa tinham que ser feitas com uma semana de antecedência e imensas filas se formavam no corredor aos sábados, quando ele ia ao ar das 15h às 17h. Nos anos 60, diz Frazão, a televisão começou a esvaziar a Nacional: – Muita gente acha que foi o Governo militar, depois do golpe de 64, que provocou a queda da emissora, mas foi a tv que pegou o que o rádio tinha de melhor. A Nacional, por exemplo, perdeu seus músicos e toda a parte comercial para a Globo e ficou enfraquecida.

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LIVROS

NA IDADE DA PAIXÃO, A REDESCOBERTA DA VIDA UCHA

Rubem Mauro Machado diz que perseguidor de best-sellers não é propriamente escritor, mas um produtor de cultura de massa

Projetos

POR CLÁUDIO CARNEIRO

Há mais de 30 anos filiado à ABI e oom uma coluna semanal no site da Associação desde sua estréia na web, o jornalista Rubem Mauro Machado está relançando o romance A idade da paixão, que lhe valeu, em 86, o Prêmio Jabuti. Aos 64 anos, o escritor não se sente um homem maduro, até se acha muito parecido com o rapazinho que um dia foi, com suas dúvidas, inquietações e perplexidades. Rubem, porém, acredita que a experiência no exercício da escrita é bom motivo para melhorar – e não deformar – uma obra que considerava acabada. Rubem Mauro, a princípio, esquivase da pergunta se este é um livro autobiográfico. Para ele, o romance recupera uma época tumultuada da vida brasileira, há 45 anos: – Tudo se passa precisamente em 1961, em Porto Alegre. Na verdade, a ação transcorre na cabeça do protagonista, um jovem estudante de 18 anos, vindo do interior. É importante ressaltar que se trata de uma obra de ficção, não de um livro de memórias. Porto Alegre ainda me habita, do mesmo modo que o Rio é parte de mim. Porto Alegre não é simplesmente cenário, mas quase personagem de A idade da paixão. Depois de um acontecimento traumático, o rapaz, deitado sobre o gramado do Parque da Redenção, também conhecido como Parque Farroupilha, recorda tudo o que lhe aconteceu naquele ano: a vida na pensão, o colégio, a primeira namorada, os acontecimentos que convulsionaram a cidade, a perspectiva do vestibular. - Eu diria que é um livro sobre a perda da inocência, sobre a descoberta da aspereza do existir; da descoberta do amor e da dor, em suma, da descoberta da vida – explica o autor. – Na memória do personagem passam cenas como num filme, ecoam vozes, enquanto ele tenta recompor os cacos, na necessidade de entender o que lhe aconteceu. E como nasceu A idade da paixão? – Meu romance, escrito nos primeiros anos da década de 80, veio do impulso de resgatar um mundo que, do contrário, estaria perdido A memória desempenha um papel importante no livro. Nele mesclo, de forma indissociável, lembrança e invenção. Para as pessoas que insistem em 24

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to pouco tempo repórter, que, na minha opinião, é a mais realizadora atividade da nossa profissão.

saber se determinado episódio "aconteceu mesmo", sempre dou uma resposta padrão: é tudo verdade e é tudo mentira. Sobre o sentido da palavra "paixão" do título, Rubem Mauro confessa que seria amoroso mesmo: – Não se restringe a isso, vai muito além: é a paixão por viver, no sentido amplo, que todo jovem tem, ou deveria ter. A grandeza da literatura está na sua variedade, mas as obras que mais me tocam são aquelas que vêm carregadas das emoções das personagens, como O vermelho e o negro, de Stendhal, só para dar um exemplo. Acredito que comover é uma das funções fundamentais da ficção. O Prêmio, uma surpresa

Ganhar o Prêmio Jabuti em 1986 foi uma grande surpresa para o autor, que nem sabia que a editora inscrevera a obra: – Como já disse alguém, concurso literário não é como uma corrida de cem metros. O verdadeiro prêmio de um escritor é chegar aos leitores – excluídos aí os que querem agradar o público a qualquer preço. Os fabricantes de bestsellers não são escritores na verdadeira acepção do termo, são produtores da cultura de massa. O prêmio a que aspiro é, tão somente, ser lido. Rubem Mauro acredita que o jovem do século XXI – quando a inocência foi praticamente extinta – ainda pode viver a "idade da paixão": – Tenho pena dos

jovens que cada vez mais se intoxicam para fugir de uma realidade insuportável. O neoliberalismo triunfante tem o dom de cassar o futuro de grande parte da juventude. Mas sou otimista: o homem sempre acaba por encontrar soluções para seus problemas. Carreira

Rubem Mauro começou na profissão em 67, como repórter da página de variedades do Correio do Povo, então o mais influente jornal do Sul do País. - Eu havia terminado Direito, mas não queria ser advogado. O jornal publicou um conto meu, O bife, o editor da página, P. F. Gastal, gostou do meu estilo e perguntou se eu não queria trabalhar lá. Era tudo o que eu queria. Aprendi reportagem na marra, na Redação. No ano seguinte me mudei para São Paulo, onde vivi quase sete anos, na época mais braba da ditadura. Trabalhei na Folha e fui chefe de Reportagem do Diário Popular. Ele era chefe de Redação do Diário do Grande ABC quando foi preso e demitido e teve a casa saqueada. Em 1974, mudou-se para o Rio, trabalhou no Esporte e na Geral de O Globo e na Internacional do Jornal do Brasil. Depois, foi redator de Política de O Dia e da Fundação Getúlio Vargas: – Trabalhei em muitos lugares. Basicamente sempre fui um homem da "cozinha" de jornal. Lamento ter sido mui-

A coluna semanal que escreve no site da ABI marca a reaproximação do jornalista com a entidade que, na verdade, nunca abandonou: – A coluna dá mais trabalho do que imaginara, mas eu a vejo como a maneira que encontrei de dar a minha contribuição. Além disso, tenho na gaveta um livro de contos, alguns deles inéditos, outros já publicados esparsamente em jornais e revistas. E ainda um romance, uma peça de teatro e o roteiro de um filme, Batom & mamadeira, baseado numa inacreditável história verídica ocorrida há anos no interior de São Paulo, e para o qual estou à procura de um produtor. Em toda essa obra, é inegável a influência jornalística: – Hemingway dizia que é ótimo para um escritor ser jornalista, desde que ele consiga largar o jornalismo a tempo. O jornalismo me proibiu a alienação da realidade e me ensinou a trabalhar em quaisquer circunstâncias. O problema é que o registro jornalístico é um e o literário, outro, a começar pela escolha das palavras – sempre as mais simples no caso do primeiro. Isso representa um desafio muito grande, porque um adjetivo banal destrói uma frase. Não é só a história que deve surpreender; as palavras, também. O que nada tem a ver com o beletrismo, que é uma coisa horrorosa, o falso escrever bem.

PRÊMIO

MEIRELLES E RUY CASTRO NA FESTA DO JABUTI 2006 O jornalista Domingos Meirelles, Diretor Econômico-Financeiro da ABI, recebeu o Prêmio Jabuti, na categoria Ciências Humanas, pelo livro 1930 - Os órfãos da Revolução. A festa da 48ª edição da premiação da Câmara Brasileira do Livro foi realizada dia 13 de setembro, na Sala São Paulo, da Estação Júlio Prestes. Na categoria Ficção, o livro do ano foi Cinzas do Norte, de Milton Hatoum, e em Não-ficção, o escolhido foi Carmen - Uma biografia, de Ruy Castro. Os três primeiros colocados de cada uma das 19 categorias receberam um troféu e R$ 3 mil. Osvaldo Siciliano, Presidente da Câmara Brasileira do Livro, presidiu a mesa da cerimônia, na companhia do Secretário da Cultura do Estado de São Paulo, João Batista de Andrade, e do curador do Prêmio Jabuti, José Luiz Goldfarb. Além de Meirelles, Castro e Hatoum, estão na lista dos ganhadores do Jabuti 2006: Gabriel, O Pensador, vencedor da categoria Infantil, por Um Garoto Chamado Rorbeto; Affonso Romano de Sant'Anna, Poesia, por Vestígios; Marcelino Freire, Contos e Crônicas, por Contos Negreiros; e Mamede Mustafa Jarouche, Tradução, pelo Livro das Mil e Uma Noites.


LEMBRANÇAS

DOAÇÃO

PERFIL

Depoimento sobre exílio enaltece Talarico

Cinco obras de Cabral à disposição

Nova infância de Audálio: a de Ruth Rocha

Escrito pelo médico César Ronald e tendo como tema o período em que o autor esteve exilado no Uruguai, o livro Crônicas do exílio e outras crônicas, doado recentemente à Biblioteca Bastos Tigre, da ABI, traz o perfil de José Gomes Talarico, membro do Conselho Deliberativo e ex-Presidente da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Casa. César Ronald enaltece a figura de Talarico na crônica Martin Fierro (página 25), em que narra uma das viagens dele a Montevidéu e o descreve como muito preocupado com os direitos humanos, bem como “um jornalista veterano, de temperamento expansivo, solidário e generoso, que era o que se poderia denominar um padrinho dos exilados mais jovens”. De acordo com o relato, sempre que chegava o inverno Talarico pedia a João Goulart que enviasse mantas de lã e pijamas do tipo então chamado de “cuecões do Jango”. O livro, com 23 crônicas, foi lançado na 4ª Bienal do Livro de Campos dos Goytacazes, no Norte fluminense, editado pelo próprio autor e prefaciado pelo antropólogo Roberto Da Matta, para quem César Ronald “(...) mistura, como bom farmacêutico, histórias do exílio, onde recapitula com verve pedaços importantes de sua biografia e postura política, com ensaios onde, como professor e especialista, discorre sobre importantes temas médicos (...)”.

Nos livros, Sérgio Cabral descreve a vida e a obra de ícones da música popular brasileira e faz estudo, que durou 35 anos, sobre as escolas de samba do Rio de Janeiro e seus grandes compositores. A Biblioteca da ABI (Biblioteca Bastos Tigre) recebeu doação de cinco volumes de autoria do jornalista e escritor Sérgio Cabral, membro do Conselho Deliberativo da Casa, nos quais ele fala sobre a vida e a obra de grandes ícones da música popular brasileira e do ambiente cultural das escolas de samba. Brevemente estarão à disposição dos associados da Casa os livros Pixinguinha, vida e obra, Almirante, uma história do rádio e da MPB, Elisete Cardoso, uma vida, No tempo de Ari Barroso e As escolas de samba do Rio de Janeiro. Foi depois de ter sido apontado pelo editor e produtor musical Almir Chediak, já falecido, como o “principal biógrafo dos grandes personagens da música popular brasileira” que Sérgio Cabral se debruçou sobre a trajetória do autor de Carinhoso, para contar 62 dos seus quase 74 anos, em Pixinguinha, vida e obra, e relatar os aspectos da personalidade do músico, considerado um gênio do choro. Com a mesma precisão, Cabral descre-

ve, em Elisete Cardoso, uma vida, a trajetória da Divina, uma das maiores intérpretes brasileiras, de quem era amigo. No tempo de Ari Barroso é um livro rico em histórias interessantes de outro grande personagem do rádio e da música. Através dessa obra, o leitor entra em contato com curiosos detalhes da vida do jornalista, boêmio, radialista e grande polemista Ari Barroso, torcedor fervoroso do Flamengo e compositor de canções que o tornaram conhecido no mundo inteiro, como Aquarela do Brasil. A intimidade de Sérgio Cabral com a cultura carioca é ratificada no livro As escolas de samba do Rio de Janeiro, ambiente em que conviveu com boa parte dos grandes compositores das agremiações. O livro — que levou 35 anos para ser concluído — é um trabalho referencial para quem deseja conhecer as origens do samba e também suas tradições, principais personalidades e importância no cenário cultural do Rio.

Galvão Peixoto e Marina no acervo O jornalista e associado Fernando Moura Peixoto doou à Biblioteca Bastos Tigre exemplares dos volumes Perilo Galvão Peixoto e Marina Moura Peixoto, ícones que a Rádio MEC esqueceu, Marina Moura Peixoto, 30 anos de ausência e O Graciliano que eu vi. O trabalho organizado por Fernando Moura Peixoto foi considerado pelo Presidente da ABI como “uma celebração à contribuição que deram (os personagens) à vida cultural, artística e intelectual do País”. O volume sobre Graciliano Ramos mostra duas mensagens de agradecimento do escritor ao dermatologista Perilo Galvão Peixoto — fundador da Academia Brasileira de Médicos Escritores e pai de Fernando —, que escreveu artigo sobre o autor alagoano publicado na edição nº 306, de março de 2006, do Jornal da ABI.

Os outros dois volumes destacam pontos importantes da vida de Perilo Galvão Peixoto e da produtora musical e pianista Marina Moura Peixoto, com quem ele foi casado. Galvão Peixoto se notabilizou na década de 1950, com os programas de música erudita Oferenda musical e Ópera completa, que apresentava na Rádio MEC. Marina Moura Peixoto começou a conquistar triunfos ao teclado aos quatro anos de idade. Aos cinco, ganhou um piano de presente da mecenas Laurinda Santos Lobo. A pianista, cujo talento chegou a ser comparado ao da lendária Magdalena Tagliaferro, ingressou na Rádio MEC em 1942. Lá, produziu programas de sucesso, entre eles Atendendo aos ouvintes, Música de todos os tempos e Ópera completa, este juntamente com o marido.

Depois dos livros A infância de Graciliano Ramos, que recebeu Menção Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, e A infância de Mauricio de Sousa, o jornalista Audálio Dantas volta à série com mais uma personalidade presente na vida de milhões de crianças brasileiras: a escritora Ruth Rocha. O livro A infância de Ruth Rocha integra a coleção A infância de..., da Editora Callis, e tem projeto gráfico de Camila Mesquita. Pesquisador e homenageada se conheceram na Editora Abril nos anos 70. Ele lembra que trabalhava na Quatro Rodas e na Realidade e ela, na revista Recreio: — A gente se encontrava muito. As Redações, no início, eram muito próximas. Ela era e ainda é uma pessoa muito afável, uma ótima conversa. O reencontro aconteceu 28 anos depois, quando Audálio recebeu da editora a sugestão do nome de Ruth Rocha para dar continuidade à série: — Ela também gostou da idéia, mas julgava que sua infância não seria interessante a ponto de virar um livro. O resultado, no entanto, ficou excelente. A menina Ruth, nascida no bairro de Vila Clementino, na capital paulista, brincava na rua como todas as crianças. Não fazia parte de sua vida escolher os amigos a partir de suas diferenças, por serem ricos ou pobres, brancos ou negros. A discriminação nunca fez parte de sua infância e isso foi projetado em toda a sua obra. O jornalista acha curioso retratar a infância, embora não escreva para crianças: — É uma porcaria escrever para crianças no diminutivo, com um texto cheio de tatibitate. As crianças são inteligentes; são pequenas, mas não são seres menores. Minha linguagem é simples, mas não reduzida.

Livro promove a releitura do 11 de Setembro O atentado de 11 de Setembro foi uma ação estratégica — que contou com a anuência da Cia e do FBI — com o objetivo de “fabricar” uma catástrofe que mobilizasse a opinião pública e levasse o apoio de países ao projeto Reconstruindo as Defesas da América — elaborado pela Casa Branca — de assegurar ao país, nos anos seguintes, grande poderio bélico e econômico. A tese é defendida no livro Crime de Estado — A verdade sobre o 11 de Setembro, dos jornalistas Marcelo

Csettkey e Marcelo Gil, lançado pela Editora Talagarça. Durante quatro anos e meio, eles reuniram farta documentação — e até relatórios internos do FBI — que demonstram que os ataques foram consentidos. Após os atentados, segundo o livro, seria possível justificar o lançamento de um amplo projeto para promover a hegemonia e o monopólio americano em segmentos da indústria de armamentos e do entretenimento, por exemplo. Marcelo Gil

afirma que o livroreportagem é baseado em fatos: — Nós temos todas as fontes do nosso trabalho. Não existe teoria da conspiração no livro. A história dos atentados foi reescrita e distorcida a partir do relatório do Senado americano, repleto de manipulações. A partir daí a imprensa americana se calou. Marcelo Csettkey lembra que, dias antes do ataque, uma funcionária do FBI, Coleen Rowley, tentou levar a seus superiores a informação sobre um

grande atentado contra símbolos americanos: — O FBI e a Cia sabiam que haveria um ataque contra o país. O atentado foi consentido, porque interessava ao Governo dos EUA. Para engordar a indústria de armamentos é preciso alimentar o medo das pessoas. Por isso é que o Bin Laden está solto. Ele é o garotopropaganda, às avessas, desse grande projeto. Mais informações sobre o livro, de 183 páginas, estão disponíveis no seguinte endereço: www.crimedeestado.net.

Marcelo Csettkey e Marcelo Gil: Interessava ao Governo dos EUA algo que espalhasse o medo.

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JUSTIÇA

VINÍCIUS, O SENHOR EMBAIXADOR AGÊNCIA GLOBO

A ABI aplaude a decisão do Governo de conferir ao poeta, 38 anos após a sua execração pela ditadura, o cargo e o título de Embaixador a que ascenderia como diplomata de carreira, admitido por concurso. A ABI enviou em 13 de setembro telegrama de congratulações ao Chanceler Celso Amorim pela decisão do Governo de conferir a Vinícius de Moraes, post mortem, o título e o cargo de embaixador, a que ele ascenderia como diplomata de carreira, admitido por concurso, nos anos 40. A mensagem da ABI teve o seguinte teor: "A Associação Brasileira de Imprensa congratulase com Vossa Excelência e sua equipe pela iniciativa deconferirpostumamenteaViníciusdeMoraesocargo e o título de embaixador e de dar o seu honrado nome a uma ala do Palácio Itamarati, no Rio de Janeiro. Além de diplomata, poeta, compositor e teatrólogo, Vinícius atuou no jornalismo como crítico de cinema, no começo de sua fecunda aventura intelectual e artística, e como cronista do jornal Última Hora, nos anos 50, a convite de Samuel Wainer. A justiça que se faz a Vinícius, 38 anos após a sua danação com base no Ato Institucional n° 5, enche de alegria e emoção os jornalistas que acompanharam sua luminosa trajetória na vida nacional. Cordialmente (a) Maurício Azêdo, Presidente da ABI."

Após o encontro com o jovem Tom Jobim, Vinicius levou sua poesia ao grande público.

Vítima do conservadorismo e da inveja Ao ser aposentado compulsoriamente, Vinícius de Moraes era 1° Secretário do quadro diplomático, carreira que começa no posto de 3° Secretário, que ele ocupou ao se iniciar no serviço público, por concurso, nos anos 40, e culmina com a ascensão a Embaixador. Como diplomata, Vinícius foi Cônsul em Montevidéu e Secretário em Los Angeles e Paris. Festejado como poeta, exercia suas funções diplomáticas sem prejuízo da criação literária, já que não havia choque entre ambas, como ficara claro no exemplo de outros intelectuais, como o poeta João Cabral de Melo Neto, que produziu uma obra fecunda sem jamais se afastar do serviço diplomático. Ao contrário de João Cabral e outros criadores literários, Vinícius ganhou notoriedade e ressonância popular a partir do fim dos anos 50, quando foi encenada

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no Teatro Municipal doRiodeJaneiroasua peça Orfeu da Conceição, que assinalou seu encontro com o jovem compositor Antônio Carlos Jobim. Vinícius passou então a se dedicar mais apaixonadamente à música, produzindo sambas e canções com parceiros de grande envergadura, como, além de Tom Jobim, Carlos Lira, Baden Powell, Toquinho, Chico Buarque de Holanda, entre outros. A ampliação de sua popularidade musical despertou inveja e ciúmes dos círculos conservadores do Itamarati - conservadores, não; reacionários --, que não se conformavam em ter no quadro da car-

rière um boêmio, um artista que granjeava crescente prestígio, destacando-se não como diplomata, mas como compositor, cantor, showman, estrela de espetáculos artísticos. Com o advento do AI5, em 13 de dezembro de 1968, não foi difícil a esses círculos incluir Vinícius na lista dos condenados à danação, impondo-lhe a aposentadoria compulsória. A reparação a Vinícíus foi o coroamento de um esforço interno de círculos progressistas do Itamarati, liderado pelo Presidente da Fundação Alexandre Gusmão, Embaixador Gerônimo Moscardo, exMinistro da Cultura, e incluiu, além da concessão do cargo e do título de embaixador, a inauguração de uma ala com o nome dele na antiga sede do Itamarati no Rio, um prédio da Avenida Marechal Floriano, no Centro do Rio, tombado por seu valor histórico e arquitetônico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-Iphan. À cerimônia compareceram três das filhas de Vinícius, Susana, Georgiana e Luciana, seu parceiro Carlinhos Lira e colegas da atividade musical e da carreira diplomática.

Na mesma solenidade o Itamarati prestouhomenagemaocineastaNélsonPereira dos Santos, pela contribuição que oferece à divulgação do Brasil com seus filmes, em maisde50anosdecarreira.Nélsonlembrou que Vinícius era seu amigo e contou: -- No primeirofestivaldequeparticipei,em1956, na antiga Tcheco-Eslováquia, com Rio, 40 Graus, Vinícius estava lá para me ajudar. O interessante é que agora estou fazendo um filme sobre Tom Jobim, seu parceiro mais conhecido. As filhas de Vinícius informaram que já haviam solicitado a reintegração de le por via judicial. "É justo torná-lo embaixador pleno, pois ele certamente teria alcançado este cargo, não fosse a cassação", disse Luciana A cerimônia no Itamarati terminou bem ao gosto de Vinícius: passistas e ritmistas da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira apresentaram músicas da escola e o Secretário de Cultura do Estado do Rio, compositor Noca da Portela, cantou Diplomata do Samba. música que ele compôs especialmente para a cerimônia.


FÁBIO MEIRELLES

Vidas

Geraldo Lopes, repórter e editor de jornal e tv HOMENAGEM

VIVEIROS, CIDADÃO PAULISTANO Em cerimônia que contou com a presença do Prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o jornalista Ricardo Viveiros, Vice-Presidente do Conselho Consultivo da Representação da ABI em São Paulo, foi homenageado no dia 25 de setembro pela Câmara Municipal de São Paulo, que lhe conferiu o título de Cidadão Paulistano. A sessão solene foi conduzida pelo Presidente da Câmara, Vereador Roberto Trípoli, autor do projeto de lei de concessão do título, aprovado por unanimidade. Estiveram presentes à solenidade o Vice-Presidente da ABI, Audálio Dantas, e o Presidente da Abracom, José Luiz Schiavoni, além de autoridades, políticos, empresários e líderes setoriais, diretores de organizações nãogovernamentais, artistas plásticos, jornalistas, esportistas e religiosos, um universo multifacetado de amigos e admiradores de Ricardo Viveiros. Em nome da ABI, Audálio (no foto com o homenageado e Trípoli) saudou Ricardo Viveiros, que então completava 40 anos de profissão, destacando seu perfil inquieto e empreendedor. Antes de se tornar jornalista, Viveiros produziu importantes documentários cinematográficos sobre personalidades da cultura brasileira, como Carlos Drummond de Andrade, Di Cavalcânti, Burle Marx e Darci Ribeiro. Viveiros foi também membro do Conselho de Defesa da Paz-Condepaz e Diretor do Museu Histórico da Fundação Cidade (Pátio do Colégio). Em 1980, foi o coordenador-executivo da primeira visita do Papa João Paulo II a São Paulo.

TRABALHO

Álcalis dá calote em 2 mil Antes de assumir, em 2003, o Presidente eleito Lula prometera ajudar a salvar a empresa. Até agora nada foi feito para isso. Um grupo de trabalhadores da Companhia Nacional da Álcalis visitou a sede da ABI no dia 6 de setembro para pedir o apoio da entidade no apelo aos veículos de comunicação do Rio, especialmente os da Região dos Lagos, para expor os problemas que estão enfrentando desde 20 de abril deste ano, quando a empresa fechou suas portas — segundo eles, sem cumprir com os direitos trabalhistas dos cerca de 2 mil funcionários. Presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Companhia Nacional da Álcalis, Alexandre Alves dos Santos — que veio acompanhado dos sindicalistas Sérgio Simões, José Luiz de Souza, Francisco José Rosa e Carlos Cunha e do ex-Presidente da Associação Comercial, Industrial e Pesqueira de Arraial do Cabo Wagner Lima Vidal — explicou que a intenção dos trabalhadores é chamar a atenção do Governo Federal, das autoridades locais e da sociedade em geral para a importância industrial da CNA e para o drama de quem está sem salários há cinco meses. — Antes de assumir o Governo, Lula

fez duas visitas ao parque industrial da Álcalis em Arraial do Cabo e prometeu ajudar a empresa a sair da insolvência, mas até agora nada foi feito. Estamos preocupados com as famílias dos funcionários, que não foram indenizados. Wagner Vidal disse que a situação afetou o comércio local e tem levado os trabalhadores ao desespero: — O fechamento da CNA provocou tremendo caos na região. Os trabalhadores estão constrangidos e com dificuldade até para comprar comida, pois várias lojas cortaram o crédito deles. O Presidente do Sindicato disse que a Álcalis — privatizada em julho de 1992, no Governo Collor, e pertencente ao Grupo Fragoso Pires — tem importante papel na economia da Região: — A empresa responde por 99,9% do PIB industrial de Arraial do Cabo e 51,9% do PIB total da cidade, além de injetar R$ 33 milhões na economia local, através do pagamento de salários e da contratação de serviços terceirizados. Criada em 20 de julho de 1943 pelo então Presidente Getúlio Vargas, a CNA é uma indústria química de base e produz barrilha sintética (carbonato de sódio), importante insumo na fabricação de vidros, sabões e detergentes, usado também como matéria-prima de produtos químicos em outras indústrias, como as de celulose e metalurgia.

Discreto em gestos e atitudes, Geraldo da Conceição Lopes, o nosso Geraldo Lopes, não chamava a atenção para a sua competência profissional, que era grande e eclética. Como muitos outros profissionais que, por inexigência na época, não passaram por faculdade de Comunicação ou Jornalismo, Geraldo firmou-se no batente da reportagem de Polícia, fasendo a ronda telefônica que caracterizava a cobertura nos anos 60-70, quando se iniciou em jornal, e depois se lançou em campo, para a temerária aventura na reportagem policial. Foi nesse mister que ele consolidou uma visão que trouxe da vida anterior ao jornalismo: a do respeito à pessoa humana, da observância da ética e da tomada de posição em defesa dos despossuídos. Geraldo Lopes transitou por diferentes campos da comunicação: foi repórter de jornal diário, como Última Hora e O Globo, repórter e editor de programas jornalísticos na televisão, como a TV Manchete, assessor de imprensa, chefe de assessoria de comunicação social, consultor de assuntos de comunicação. Profissional inquieto, buscava sempre uma ativida-

de diferente, numa empresa diferente. No fundo, porém, talvez pelo desconforto que lhe causava uma doença no estômago que lhe arrebataria a vida, curtia a idéia e a prática da vida no campo, como produtor agrícola de um pequeno sítio que adquirira no interior do Estado do Rio. Desambicioso, estimava que poderia sobreviver com uma agricultura de subsistência, sem grandes vôos como produtor, mas também sem carências como pequeno empresário rural. Participante dos movimentos da categoria profissional e das lutas contra a ditadura que se instalou no País quando ele ainda era muito jovem, Geraldo Lopes era membro suplente do Conselho Deliberativo da ABI eleito no terço 2002-2005 e reeleito no terço 20052008. Na eleição de 2005 ele participou ativamente da Assembléia-Geral Ordinária e deu conta de sua situação de então: estava na fase agrícola, distante do jornalismo. Nascido em 10 de fevereiro de 1945, era filiado à ABI desde 26 de janeiro de 1988. Ele faleceu em 2l de junho, vencido por aquele câncer do estômago que lhe azucrinou muitos momentos da vida.

Sérgio Lopes, amante do samba e do Flamengo Vieram do berço as duas grandes paixões de Sérgio Roberto de Almeida Lopes, conhecido profissionalmente como Sérgio Lopes: o Flamengo e o samba. Seu pai, o jornalista Joel Lopes, que foi durante muitos anos chefe da Editoria de Esportes de O Dia, era flamenguista apaixonado e amante do samba e lhe transmitiu desde cedo o amor pelo clube e pelas escolas de samba. Sérgio fez opção profissional pelo jornalismo, a que se dedicou muito jovem, e construiu um currículo denso de atividade em jornais, rádio e televisão. Ele trabalhou na Luta Democrática, no Jornal dos Sports, na Gazeta Mercantil, em O Globo, na Rádio Guanabara, na Rádio Continental, na Rádio Globo, na produção do Programa do Chacrinha na Rede Globo de Televisão. Teve atuação também na vida acadêmica, como professor da disciplina Jornal-Laboratório da Faculdade da Cidade. Amante também dos bons pratos, Sérgio Lopes era gordo, um gordo ale-

gre: com ele não havia bola perdida, nada que o privasse do bom humor e do prazer de viver. Louro e com o gosto de se vestir de branco tanto quanto possível, Serjão, como era chamado pela imponência do porte, ficava à vontade com a gente do samba com que conviveu em diferentes áreas da Cidade: foi assessor de imprensa das escolas de samba Estação Primeira de Mangueira, Acadêmicos do Salgueiro, Unidos Estácio de Sá e Acadêmicos da Rocinha. Politizado e participante das lutas sociais, Sérgio Lopes estava ultimamente integralmente voltado para a área política, como assessor do Deputado Noel de Carvalho (PMDB), Líder do Governo Garotinho na Assembléia Legislativa do Estado. Em sua homenagem o Deputado Noel apresentou Moção de Pesar a que aderiram inúmeros deputados estaduais. Sérgio Lopes tinha 57 anos. Morreu de repente, de infarto, em 17 de julho.

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PRECIOSIDADE

O

número 1, ano 1, do diário Última Hora do Rio de Janeiro passou a fazer parte do acervo da Biblioteca Bastos Tigre, da ABI, que recebeu a doação do exemplar do diretor de arte argentino César Acciarresse. César foi editor da UH Revista, um dos principais cadernos do extinto diário, e detém o título da versão online do jornal. Antes, ele trabalhou como secretário-gráfico do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, onde, refletindo o grande renome do supercraque argentino, recebeu o apelido de Maradona. Grande parte dos amigos ignora o seu sobrenome: só o conhecem como César Maradona. Última Hora começou a circular no Rio há 55 anos, em 12 de junho de 1951, uma terça-feira. Criado pelo jornalista Samuel Wainer, durante 13 anos foi um dos principais veículos da imprensa fluminense, até que o golpe militar de 1964 levou seu fundador a exilar-se, deixando UH na mão de alguns de seus colaboradores. Wainer retornou ao País em 1968, mas não conseguiu manter seu projeto original e foi obrigado a vender o título do jornal. No início, UH funcionava em sede própria no prédio 1.988 da Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio, onde Samuel Wainer contava com um time de jornalistas de primeira linha, que incluía Nelson Rodrigues, Medeiros Lima, colunista político, M. Bernardes, que escrevia a coluna Na hora H), Edmar Morel, "o vibrante repórter dos assuntos sensacionais", Nássara, Marques Rebelo e Augusto Rodrigues, entre outros.

A primeiríssima edição de no acervo da ABI Criação editorial de Samuel Wainer, o jornal foi um dos principais veículos de comunicação do Estado do Rio e do Brasil e agora integra a coleção de documentos raros da nossa Biblioteca Bastos Tigre. POR J OSÉ REINALDO MARQUES

APLAUSO DE GETÚLIO

O lançamento de Última Hora foi saudado pelo então Presidente da República Getúlio Vargas, em carta (publicada na primeira página) endereçada a Samuel Wainer, com "votos pelo completo êxito desse empreendimento, que há de constituir, por certo, um novo marco de progresso da imprensa brasileira". Em outro parágrafo, referindo-se ao talento e à imparcialidade jornalística de Wainer, o Presidente ressaltava que quem quer que exerça qualquer função pública deve "apreciar a crítica da imprensa". E diz: "Gosto de ser interpretado, combatido, discutido ou louvado por espíritos isentos e desinteressados, que saibam enaltecer, nos homens públicos, os atos merecedores de elogio." O surgimento do jornal também foi saudado pela ABI, em mensagem do seu então Presidente, Herbert Moses: "A Associação Brasileira de Imprensa saúda Última Hora, que surge sob o comando de Samuel Wainer anunciada pelo entusiasmo de quantos homens de imprensa participam de sua brilhante equipe. (...) O aparecimento de um novo jornal, com as disposições de Última Hora, é para a Casa do Jornalista acontecimento que motiva a alegria de dirigentes e associados." A ABI e Moses – que já estava à frente da entidade havia 20 anos e teve enaltecida sua trajetória como jornalista – foram personagens de destaque de uma reportagem publicada na página 10 da primeira edição de UH.

Páginas internas da edição inaugural de Última Hora: notícia sobre o processo contra Prestes e entrvista com Herbert Moses

COMO AGORA

A capa da primeira edição de Última Hora mostra que em alguns aspectos o Brasil pouco mudou no que diz respeito às questões que a imprensa deve esclarecer ao público. Na primeira página, por exemplo, Orgia de dólares alerta para "barões, políticos e aventureiros que sangram a economia nacional", enviando dinheiro para o exterior como se fosse para turismo. E 150 milhões de cruzeiros arrancados do Brasil" é sobre um caso de evasão de divisas envolvendo o então Deputado Herbert Levy e funcionários da Fiscalização Bancária: "Um dos

maiores assaltos à economia nacional praticado na história do País será denunciado amanhã (quarta-feira, 13 de junho de 1951) na Câmara dos Deputados". Na página 6, há uma reportagem sobre o pedido de prisão preventiva de Luís Carlos Prestes e outros líderes comunistas – como os ex-parlamentares Maurício Grabois, João Amazonas e Amarílio de Vasconcelos -, acusados pelos advogados Barreto Pinto e Himalaia Virgulino de "infratores da Lei de Segurança". Depois de ser recusada por dois juízes da 3ª Vara Criminal (Teles Neto e Eduardo Jara), a denúncia chegou ao Supremo Tribunal

Federal, onde apenas o Ministro Orozimbo Nonato votou contra a decisão. PIONEIRISMO

Para o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, o lançamento de UH representou um grande impulso à profissionalização da categoria: – Para formar a equipe, Samuel Wainer teve que atrair jornalistas que trabalhavam em outros órgãos de imprensa, oferecendo um diferencial que rompia com o padrão salarial da época e que jamais se podia imaginar que seria adotado na imprensa do Rio de Janeiro e do Brasil. Ele cita como exemplo o diagramador Walter de Araújo Machado – conhecido profissionalmente como Xavier -. que trabalhava numa empresa, com um salário de 2 mil cruzeiros e foi contratado por 8 mil cruzeiros, o quádruplo do que ganhava. – Foi um marco do papel de vanguarda da Última Hora, que tirou da atividade jornalística o traço de boemia e bico que marcava a profissão. Maurício trabalhou no UH de 1963 a 1966 – como redator-copidesque e cronista esportivo "imparcialmente flamenguista", assinando a Crônica da Leonor – e diz que o jornal também ficou marcado pela defesa de ideais progressistas e avanços socioeconômicos, afinados com o Governo Getúlio Vargas nas propostas de caráter nacionalista. Embora apartidário e independente, Última Hora tinha tendência esquerdista, era simpático ao PTB e não se alinhava com o PCB, que, na época, mantinha no Rio o jornal Imprensa Popular. Diz Maurício que Última Hora era produzido com extrema competência técnica e sem apelo ao sensacionalismo barato das manchetes do noticiário policial, que tinha então duas importantes expressões: O Dia, do jornalista Chagas Freitas, depois Governador do Estado por duas vezes, e Luta Democrática, do Deputado e jornalista Tenório Cavalcânti. – Como jornal popular, Última Hora tinha uma receita que incluía algumas chaves especiais para grande circulação: noticiário político, voltado principalmente para questões importantes para a grande maioria da população, cobertura policial, cuja equipe funcionava 24 horas por dia; assuntos sindicais, sempre apresentados do ponto de vista do trabalhador, mas sem sectarismo, e cobertura esportiva audaciosa e pioneira em vários aspectos, como na produção de seqüências fotográficas das partidas, principalmente nos lances de gol. Samuel Wainer demonstrou visão e pioneirismo no jornalismo, criando uma edição em São Paulo e edições regionais em Niterói, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre e Recife. Ele implantou na Redação Rio uma central de informação de interesse nacional, com notícias transmitidas por telex para aquelas cidades, onde eram complementadas com notícias locais. No Rio, desde o lançamento, Última Hora tornou-se um sucesso empresarial e jornalístico e chegou a disputar o primeiro lugar em circulação com veículos estabelecidos há mais tempo, como O Globo.

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