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Moacir Japiassu “Há estudantes de Jornalismo que nunca abriram um livro!” O irreverente criador do Jornal da ImprenÇA faz uma avaliação da qualidade atual da formação profissional. Páginas 7, 8, 9 e 10 Órgão oficial da Associação Brasileira de Imprensa

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Jornal da ABI

A ABI retorna a São Paulo Depois de realizar no Theatro São Pedro um ato festivo de reabertura formal da sua Representação em São Paulo, a ABI promoveu a instalação do Conselho Consultivo de seu núcleo paulista, integrado por figuras da mais alta expressão na área de comunicação do Estado. Para a presidência do Conselho foi eleito o jornalista Carlos Marchi. Páginas 20 a 22

A AVENTURA DE UMA REPÓRTER NO CASAQUISTÃO A jornalista Vitória Vélez viveu uma grande aventura: foi a única repórter a entrevistar, no longínquo Casaquistão (à direita), o primeiro cosmonauta brasileiro, Major Marcos César Pontes. Página 11

JUÍZES IGNORAM A CONSTITUIÇÃO A freqüência com que juízes de primeira instância, em diferentes pontos do País, impõem a censura prévia a veículos de comunicação põe em evidência uma realidade lamentável: eles ignoram o texto da Constituição,cujo artigo 220 veda expressamente qualquer forma de censura. A ABI tem sido chamada a intervir em defesa da liberdade golpeada por despachos e sentenças de claro teor inconstitucional. Editorial, na página 2, e páginas 25 a 29

O CASO DO SEQÜESTRO E AS LIÇÕES QUE FICARAM ERA JUSTO SACRIFICAR A VIDA DO REPÓRTER GUILHERME PORTANOVA? PÁGINAS 23 E 24

A FACE DESCONHECIDA DE FLORIANO, A ESFINGE DOCUMENTÁRIO DE JORGE OLIVEIRA VAI ENFRENTAR ESSE ENIGMA . P ÁGINA 14

AS RAZÕES DO VETO AO PLC DO PASTOR AMARILDO ÍNTEGRA DO NOSSO APELO AO P RESIDENTE L ULA. P ÁGINA 32

ADEUS A APPE, DECANO DA CHARGE NO BRASIL PÁGINA 35

“A charge não derruba governos, mas serve para mostrar o quanto eles são ridículos” Uma contundente observação do chargista Aroeira no depoimento com que inaugurou a série A ABI pensa o humor. Página 15


Editorial

Respeitem a Lei Maior A PRÁTIC A DA VID A SOCIAL dos últimos tempos PRÁTICA VIDA vem demonstrando que, embora promulgada há mais de 18 anos, o que já lhe assegura uma eexistênxistência mais prolongada do que a da Constituição de 18 de setembro de l946, estuprada por um golpe militar em 1º de abril de 1964, a Constituição de 1988 ainda não é suficientemente conhecida e respeitada por setores, autoridades e agentes públicos que têm obrigação de conhecê-la e de cumprila ou de impor o seu cumprimento. É inegável que há disposições da Constituição que demandam esclarecimento para a sua aplicação, o que é compreensível, sabendo -se que a mais sabendo-se antiga Carta Magna for mal do mundo, a dos Esformal tados Unidos da América, mais de dois séculos após a sua instituição ainda carece de pronunciamentos da Suprema Corte quanto ao teor de seus mandamentos. T al ocor re em razão da fle xibiliTal ocorre flexibilidade do sistema federativo da nação americana, que concede larga autonomia aos entes que a integram, e da crescente reivindicação de alargamento de direitos, sobretudo no campo das liber liber-dades civis, por cidadãos comuns e por instituições representativas da sociedade. Entre as disposições da nossa Carta Constitucional que dispensam interpretações, cabíveis, admissíveis ou necessárias quando há dúvidas quanto à clareza do que estabelecem, figuram

Associação Brasileira de Imprensa

precisamente as que integram o conjunto de nor mas relacionadas com a liberdade de imprennormas sa enunciadas no artigo 220, que é peremptório, tanto no seu caput como nos parágrafos e incisos em que se desdobra a regulação constitucional, em relação à integridade desse bem imaterial da sociedade. O pórtico desse artigo, ou sua cabeça, é um modelo de definição política e de redação legislativa, tal a precisão com que foi concebido e estr uturado: estruturado: "A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a infor mação, sob qualquer for ma, informação, forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, obser vado o disposto nesta Constituição". observado E o parágrafo 2º dessa disposição constitucional é de eextremada xtremada eexação xação numa proibição que estabelece: "É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística". A frequência com que magistrados, principalmente na primeira instância, vêm ultimamente decretando censura prévia a veículos de comunicação indica que ou eles desconhecem o te xto texto constitucional ou o conhecem mas não o respeitam. Os mecanismos inter nos de controle do internos Judiciário precisam colocá-los ao lado da Constituição, e não à sua margem ou na sua contramão, para a qual os ar rastam suas sentenças destituíarrastam das de embasamento na L ei Maior Lei Maior..

Nesta Edição Como o mundo, vasto mundo, chega aos nossos olhos O pintor mais caro do mundo, de Paulo Ramos Derengoski

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As cotas diante da muralha, de Ilma Martins da Silva Moacir Japiassu - A ditadura não pode ser esquecida por ninguém

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CONSELHO CONSULTIVO Chico Caruso, Ferreira Gullar, José Aparecido de Oliveira, Miro Teixeira, Teixeira Heizer, Ziraldo e Zuenir Ventura CONSELHO FISCAL Jesus Antunes, Presidente; Argemiro Lopes do Nascimento, Secretário; Adriano do Nascimento Barbosa, Arthur Auto Nery Cabral, Geraldo Pereira dos Santos, Jorge Saldanha e Luiz Carlos de Oliveira Chester. CONSELHO DELIBERATIVO (2006-2007) Presidente: Fernando Segismundo 1º Secretário: Estanislau Alves de Oliveira 2º Secretário: Maurílio Cândido Ferreira Conselheiros efetivos (2006-2009) Antônio Roberto Salgado da Cunha, Arnaldo César Ricci Jacob, Arthur Cantalice, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Augusto Xisto da Cunha, Domingos Meirelles, Fernando Segismundo, Glória Suely Alvarez Campos, Heloneida Studart, Jorge Miranda Jordão, Lênin Novaes de Araújo, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho e Pery de Araújo Cotta. Conselheiros efetivos (2005-2008) Alberto Dines, Amicucci Gallo, Ana Maria Costábile, Araquém Moura Rouliex, Arthur José Poerner, Audálio Dantas, Carlos Arthur Pitombeira, Conrado Pereira (in memoriam), Ely Moreira, Fernando Barbosa Lima, Joseti Marques, Mário Barata, Maurício Azêdo, Milton Coelho da Graça e Ricardo Kotscho Conselheiros efetivos (2004-2007) Antonieta Vieira dos Santos, Arthur da Távola, Cid Benjamin, Flávio Tavares, Fritz Utzeri, Héris Arnt, Irene Cristina Gurgel do Amaral, Ivan Cavalcanti Proença, José Gomes Talarico, José Rezende, Marceu Vieira, Paulo Jerônimo, Roberto M. Moura (in memoriam), Sérgio Cabral e Teresinha Santos Conselheiros suplentes (2006-2009) Antônio Avellar, Antônio Calegari, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Antônio Henrique Lago, Carlos Eduard Rzezak Ulup, Estanislau Alves de Oliveira, Hildeberto Lopes Aleluia, Jorge Freitas, Luiz Carlos Bittencourt, Marco Aurélio Barrandon Guimarães, Marcus Miranda, Mauro dos Santos Viana, Oséas de Carvalho, Rogério Marques Gomes e Yeda Octaviano de Souza. Conselheiros suplentes (2005-2008) Anísio Félix dos Santos, Edgard Catoira, Francisco de Paula Freitas, Geraldo Lopes, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Amaral Argolo, José Pereira da Silva, Lêda Acquarone, Manolo Epelbaum, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Pedro do Coutto, Sidney Rezende, Sílvio Paixão e Wilson S. J. Magalhães

A missão sem igual de Vitória Vélez O bicentenário de Jerônimo Coelho, um consolidador da Independência

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Conselheiros suplentes (2004-2007) Adalberto Diniz, Aluísio Maranhão, Ancelmo Gois, André Louzeiro, Jesus Chediak, José Silvestre Gorgulho, José Louzeiro, Lílian Nabuco, Luarlindo Ernesto, Marcos de Castro, Mário Augusto Jakobskind, Marlene Custódio, Maurílio Cândido Ferreira e Yaci Nunes

A ABI volta a São Paulo O caso do seqüestro - A vida do repórter na berlinda

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COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Ely Moreira, Presidente, Jarbas Domingos Vaz, José Ernesto Vianna, Maria Ignez Duque Estrada Bastos e Maurílio Cândido Ferreira

Conversor da tv digital é com Manaus, diz Furlan A crise da Varig em debate

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COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Artur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti

Domingos ganha o Jabuti 2006 de ciências humanas A revista Boa Vontade faz 50 anos de cara nova

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As razões para o veto ao projeto de regulamentação da profissão de jornalista Justiça para Barbosa e Vilas no Fórum Oscar Niemeyer

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Uma comunidade para a ABI no Orkut UH Online, um título à venda

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Um apelo pela paz no Oriente Médio

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SEÇÕES

TRIBUNA

Barbosa Lima Sobrinho, página 33

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DIRETORIA – MANDATO 2004/2007 Presidente: Maurício Azêdo Vice-Presidente: Audálio Dantas Diretor Administrativo: – Diretor Econômico-Financeiro: Domingos Meirelles Diretor de Cultura e Lazer: Jesus Chediak Diretor de Assistência Social: Paulo Jerônimo de Souza (Pajê) Diretora de Jornalismo: Joseti Marques

Aconteceu na ABI Liberdade de imprensa

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Direitos humanos Vidas

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Jornal da AB ABII 311 Agosto de 2006

COMISSÃO DE LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Audálio Dantas, Presidente; Arthur Cantalice, Secretário; Arthur Nery Cabral, Daniel de Castro, Germando Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, Lucy Mary Carneiro, Maria Cecília Ribas Carneiro, Mário Augusto Jakobskind, Martha Arruda de Paiva, Orpheu Santos Salles, Wilson de Carvalho, Wilson S. J. Magalhães e Yaci Nunes

Jornal da ABI Rua Araújo Porto Alegre, 71, 7º andar Telefone: (21) 2220-3222/2282-1292 Cep: 22.030-012 Rio de Janeiro - RJ (jornal@abi.org.br) Editores: Francisco Ucha, Joseti Marques e Maurício Azêdo Projeto gráfico, diagramação e editoração eletrônica: Francisco Ucha Apoio à produção editorial: Ana Paula Aguiar, Fernando Luiz Baptista Martins, Guilherme Povill Vianna, Maria Ilka Azêdo e Solange Noronha. Diretor responsável: Maurício Azêdo Impressão: Gráfica Lance Rua Santa Maria, 47 - Cidade Nova - Rio de Janeiro, RJ. As reportagens e artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do Jornal da ABI. Esta edição número 311 do Jornal da ABI foi finalizada em 21 de novembro de 2006.


COBERTURA

COMO O MUNDO, VASTO MUNDO, CHEGA AOS NOSSOS OLHOS IG O CAIXE TA POR R ODR ODRIG IGO AIXET

O trabalho no dia-a-dia da editoria Internacional, os requisitos para um bom desempenho, a rotina antes e depois do advento da internet. UCHA, SOBRE FOTOS DE JUPITERIMAGE

A

editoria Internacional é uma das que mais recebe notícias por dia dentro de uma redação. Devido ao grande volume de informações, os critérios de publicação não seguem lógica científica: o editor precisa apenas fazer um bom trabalho de hierarquização das notícias. Eduardo Salgado, editor das páginas de Mundo no Estadão, diz que suas pautas vêm de correspondentes, agências internacionais de notícias e jornais estrangeiros. Além disso, todos na equipe ficam atentos ao que a TV e os sites de outros países noticiam. — Basicamente, nosso noticiário vem das agências AP, AFP, Reuters e Efe e dos jornais New York Times, Los Angeles Times, Washington Post, Boston Globe, Guardian, Sunday Times, International Herald Tribune e outros com os quais o Estadão tem parceria. Diz Eduardo Salgado que normalmente o que se faz é uma compilação entre as informações que chegam das várias agências e jornais. — Quando o fato ocorre em um dos lugares onde temos correspondentes — Washington, Buenos Aires, Paris e Genebra —, eles ficam responsáveis por apurar e escrever a matéria. Em situações importantes mas não previstas, quando não é possível enviar ninguém, usamos o trabalho de freelancers. Nas edições de domingo, entram mais matérias feitas a partir de entrevistas dos nossos repórteres. Eduardo diz que, quando há eventos relevantes onde o jornal não tem correspondentes, enviados especiais vão ao local: — Não há uma freqüência certa. Recentemente, tivemos eleições parlamentares na Venezuela e presidenciais

na Bolívia com uns 20 dias de diferença e mandamos pessoas nossas nas duas ocasiões. Normalmente, o enviado é um redator especializado na região, que faz a cobertura diária sobre aquele país. Assim como no Estadão, Marcelo Ambrósio, editor de Internacional do Jornal do Brasil, diz que a pauta de sua editoria se baseia na ronda do noticiário, capturado tanto pela internet quanto pelas redes a cabo CNN e BBC. O conteúdo é produzido com base nas agências de notícias, além de conter material garimpado em sites. — A exceção fica por conta da edição dominical, que tem um perfil diferenciado. Nesse caso, todas as pautas são pensadas e produzidas pela equipe, com entrevistas feitas por telefone ou por email em qualquer parte do mundo. Além disso, o domingo sempre traz um artigo sobre política internacional, assinado por especialistas estrangeiros e nacionais. Os recursos usados para a produção diária de conteúdo, diz Marcelo, são os mesmos da editoria Geral, embora a equipe não vá para a rua cobrir as pautas. Sobre a rotina, ele diz: — Na primeira parte do dia, que começa por volta das 14h, a equipe se dedica a apurar as dominicais especiais, enquanto, geralmente, um repórter é escalado para fazer a abertura da edição do dia seguinte. Nesse caso, ele fica por conta do aprofundamento da pauta. Há uma alternância diária nesta função. Marcelo conta que procura captar conteúdo acadêmico qualificado dentro e fora do Brasil: — Graças a esse trabalho, temos como colunistas na Internacional o ex-Secretário de Defesa dos EUA Joseph Nye e vários especialistas em Relações Internacionais. Também manteJornal da AB ABII 311 Agosto de 2006

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COBERTURA

mos uma parceria com o Observatório Político Sul-Americano do Iuperj, que nos provém de excelente conteúdo sobre a América Latina, nosso foco mais estratégico. Por questões operacionais e de custo, Marcelo diz que o JB não costuma enviar repórteres ao exterior para coberturas especiais. Quanto ao factual, procura fugir da simples tradução do material que chega, pois considera “uma tática de guerrilha para ser possível enfrentar concorrentes que são maiores em equipe e estrutura fora do País”. Com tudo isso, afirma que ainda consegue “fazer gaveta”: — Sempre existem boas histórias para contar e que não estão necessariamente sob os holofotes. Com isso, é possível guardar certos textos que podem ser turbinados mais adiante com apuração extra. Chuva de notícias

Além dos serviços das agências Reuters, AP e Efe, O Globo, segundo Trajano de Moraes, editor-adjunto de O Mundo, integra o Grupo de Diários América, que reúne diversos jornais da América do Sul que podem fazer intercâmbio de notícias. — Usamos pouco as reportagens desses outros periódicos, mas elas ficam disponíveis para o grupo. Nossos redatores fazem textos com o material que chega das agências, acrescentando informações de uma ou outra fonte. Eventualmente, acionamos os correspondentes para conversarem com especialistas do assunto em questão. O Globo tem correspondentes em Washington, Nova York, Londres, Paris, Berlim, Buenos Aires e Pequim e colaboradores em Bruxelas, Madri e Tel Aviv.

material chega ao longo do dia, através de despachos das agências. As fotografias chegam diretamente no computador e as escolhemos. O editor chega por volta das 13h e começa a selecionar o material. Às 16h30, entra em uma reunião de pauta, na qual são definidas as matérias do dia, o espaço aproximado para elas e sua ordem de importância. O subeditor — “que sempre percorre, em casa, cerca de dez sites dos principais veículos estrangeiros” — chega às 17h e fica responsável pelo fechamento de uma página. — Isso é feito até 20h30min, horário do fechamento da primeira edição. Para a segunda edição, que fecha à meia-noite, o subeditor ainda fica mais meia hora de plantão, para o caso de acontecer algo muito importante. Na segunda edição, acertam-se os possíveis erros, atualizase o material publicado se chegarem novos fatos e até trocam-se matérias ou notas inteiras, se necessário. O editor é responsável pela página principal. Pablo observa que o material em português que chega das agências muitas vezes vem mal escrito, exigindo copidesque. Trata-se o texto mesclando as informações das agências e enfocando determinado aspecto relevante: — Buscamos dar um tom mais analítico e con-

Luciano Peres, editor de Mundo, do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, cuja característica é ter testemunhos de gaúchos que estiverem presentes nos grandes eventos

Na época de fim de ano, Trajano diz que recebe em média 500 notícias — “num dia tranqüilo”. Fora da temporada de festas, o número salta para 700. — Alguém chega mais cedo para começar a selecionar os assuntos de interesse, cuja escolha varia de acordo com a repercussão do fato. Fazemos uma prépauta com as notícias mais quentes, mas ao longo do dia tudo pode mudar, principalmente devido ao fuso horário dos países. No Estado de Minas, como não há correspondentes, Pablo Pires, subeditor de Exterior, diz que depende do material enviado pelas agências de notícias: — O 4

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textualizado, em vez de apenas o fato puro. Muitas vezes, checamos informações em sites de notícias. Não só pelos fatos, mas para saber qual o peso e o enfoque que cada um está dando a eles. Marcelo Torres, editor de Mundo de O Dia, diz que as pautas do noticiário do jornal chegam pelas agências de notícias, pela internet e pela TV, em que a equipe está sempre ligada: — Somos três redatores e uma repórter. Primeiramente, fazemos a busca das principais notícias. Parte-se então para a edição e a hierarquização de matérias e notas. Há menos de dois anos à frente da editoria, Marcelo diz que o conteúdo varia

O Dia, Zero Hora e Estado de Minas: dependendo da natureza do acontecimento, sua apresentação pode ganhar programação visual requintada, como a que fazem as revistas.

de acordo com o perfil do leitor das diversas seções do jornal: — Quando é alguma notícia de artista internacional, por exemplo, sai da seção Vipt-Vupt e vem para o Mundo. Nosso público-alvo é de baixa renda. O julgamento de Michael Jackson mereceu cobertura especial porque o povo quer saber o que acontece com o ídolo. Já o Zero Hora, de Porto Alegre, que manteve correspondentes em Nova York, Paris e Buenos Aires, agora tem apenas um, em Jerusalém. Segundo Luciano Peres, editor de Mundo, é costume mandar enviados especiais para coberturas de eventos como o furacão Katrina e a guerra do Iraque: — Também fazemos muita apuração por telefone e e-mail, sempre buscando o lado gaúcho do jornal. Esta é uma característica do Zero Hora: entrevistar personagens gaúchos que são testemunhas dos fatos ou estão envolvidos nos assuntos de alguma forma. Luciano diz que o material recebido da AP vem em português e o da Efe, em português e espanhol, mas a equipe ainda busca complementação na informação original: — Somos uma equipe polivalente, que reporta, redige e edita. Nossa edição de domingo, por exemplo, é toda feita de matérias especiais, como a de um ano da Tsunami, feita a partir de entrevistas com gaúchos que estiveram ou estão na Tailândia. Marcos Guterman, editor de Mundo da Folha de S. Paulo, diz que até 1989 as notícias chegavam por telegrama. Com a implantação de um sistema próprio do jornal, em 1994, houve uma revolução, com as informações chegando direto à Redação quando ainda não havia a internet: — A base do nosso noticiário vem das agências de notícias — que são mais rápidas—, além dos nossos correspondentes no exterior. A internet é usada para acompanhar o geral ou fazer pesquisas. Ele explica a rotina: — Como primeira atividade, olhamos os jornais, fazemos uma reunião de passagem com a ajuda do pauteiro e pensamos na edição do dia seguinte. Além disso, tentamos fazer gaveta com material mais analítico. “Todos são repórteres”

Para trabalhar na Internacional, é fundamental ter conhecimentos de ou-

tros idiomas. As agências de notícias reduziram a necessidade de enviar correspondentes mundo afora; no entanto, cada vez mais é preciso haver profissionais qualificados nas Redações para cuidar do material que chega ao País. No Estadão, Eduardo Salgado diz que, além dele como editor, há dois subeditores, quatro redatores e quatro correspondentes. A equipe dos serviços internacionais tem quatro pessoas e conta também com quatro tradutores: — Temos tradutores e repórteres na equipe. Cada vez mais os repórteres fazem entrevistas por telefone e e-mail com analistas e protagonistas dos fatos. Os redatores e editores são exclusivos da editoria Mundo; já os correspondentes, os tradutores e a equipe que separa o material recebido das agências e jornais trabalham para toda a redação. Conta Eduardo que o horário depende da função: quem faz a pauta entra cedo; os redatores chegam no início da tarde e ficam mais ou menos até 21h; há quem entre mais tarde e permaneça de plantão até o último fechamento, à meianoite, para eventuais atualizações; e todos participam do “pescoção” de sexta, quando são adiantadas as edições de domingo (ou, em alguns casos, de segundafeira): — Para os correspondentes, o expediente varia de acordo com o fuso horário, mas eles precisam conciliar a hora dos acontecimentos locais com o nosso fechamento. No Globo, nove pessoas formam a equipe de O Mundo, a maioria redatores porque, diz o editor-adjunto Trajano de Moraes, a editoria precisa de profissionais com texto final: — Buscamos profissionais que tenham bom texto, interesse pelos assuntos e afinidade com o noticiário internacional. É fundamental saber inglês e espanhol, até mesmo devido à constância de matérias especiais, que requerem, além do esforço dos correspondentes, o reforço de nossa equipe para fazer entrevistas em outros idiomas. O editor Marcelo Ambrósio, do Jornal do Brasil, diz que “redator que apenas compila textos das agências está em extinção em qualquer veículo”. — No JB, todos na editoria são repórteres no sentido lato da palavra. Temos liberdade, por exemplo, para acrescentar informações ou apurações às maté-


cano e ao traduzir “he raised the arms” (ele ergueu os braços), escreveu “ele levantou as armas”. Isto sem contar as inesquecíveis “viúva do falecido Pablo Neruda” e “o furacão aproxima-se do continente japonês”. Para coroar a “inteligência” dos colegas, a jornalista conta que chegou a ser instituído o troféu “Asno de Ouro”: — Claro que ninguém sabia quando ganhava, mas havia uma correspondente que era quase imbatível. A equipe, então, era constituída por um editor, três subeditores e entre dez e 12 redatores, além da secretária, que geralmente era uma estudante de Jornalismo. — Nós nos dedicávamos especialmente à Internacional. Raramente fazíamos trabalhos para outras editoJornal do Brasil e Folha de S. Paulo: um ano após o tsunami que matou centenas de milhares de rias, à exceção de eventos pessoas na Ásia, a tragédia é relembrada em matérias como as Copas do Mundo. Também não participávamos do pescoção, mas fazíanos, o material chegava das agências e amos plantões aos sábados e estávamos começam como auxiliares de Redação, acumulava-se em pilhas de papel sobre disponíveis para qualquer emergência que passam pelo arquivo fotográfico e teras mesas dos redatores. No entanto, desde exigisse do jornal uma força-tarefa. minam no copy. Fazem reportagens, esque a editoria Internacional conquistou cuta, compra de fotos etc. É um camimais destaque nos periódicos, os jornaImprevisível nho freqüente no jornal. listas enfrentam a árdua tarefa diária de Tilde de Oliveira praticamente comeNa Folha de S. Paulo, Marcos Guterbuscar relevância em meio à oferta de çou carreira como jornalista de Internaman diz que em Mundo “tradicionalmenconteúdo. cional, editoria na qual se aposentou com te não há repórteres, apenas redatores”. Com 12 de anos de experiência como 32 anos de trabalho, depois de passar pelo E estes, quando pautados para coberturedatora de O Mundo, no Globo, Vanda Globo, a agência UPI e o Jornal do Brasil. ras específicas, são mandados ao exteVasconcellos lembra que, ao final da Quando estava no segundo ano de Jorrior como enviados especiais: — Nosso década de 70, quando entrou no jornal, nalismo na Puc, foi convidada para ser candidato deve ter experiência em notihavia uma secretária responsável pela repórter-redatora de uma coluna de cluciário internacional e ser bom jornalisseleção das notícias que chegavam via bes e, em seguida, fez estágio na coluna ta, porque trabalhamos com uma linguatelegrama: — Nós nos afogávamos em de Carlos Swan: — O que eu queria gem muito específica e com assuntos papéis. Batíamos tudo em máquinas memesmo era me aprofundar na Internaaparentemente distantes da realidade cânicas, posteriormente substituídas por cional. Quando acabava meu expedienbrasileira. É muito importante falar ouelétricas. te na coluna, produzia pequenas notas tras línguas e, se possível, ter tido vivênDessa época Vanda recorda uma paspara lá. cia no exterior. sagem curiosa da transição para o comEla lembra que foi uma das primeiras putador: — A mudança não ocorreu mulheres a serem contratadas como Um troféu: “Asno de ouro” muito tempo depois da chegada das redatora da editoria no Globo: — O ediA internet configura-se hoje como uma máquinas elétricas, que nem chegamos tor havia me dito que tinha passado por importante ferramenta em termos de a aprender a operar direito. Quando uma experiência não muito agradável produção e difusão da notícia. Há alguns chegou o computador, o com uma mulher na Redação. Além disso, sistema era muito instáhavia o preconceito em relação à Puc e vel e, certa vez, pifou comao meu trabalho em coluna social. E ainda pletamente na hora do feme chamavam do que hoje seria “patrichamento. De repente, cinha”, por estudar em universidade vimos dezenas de contíparticular e sempre usar jóias e salto alto. nuos entrando na RedaNo entanto, texto é texto, independenção, carregando de volta temente do sexo do autor. as máquinas elétricas e Sua trajetória no Globo começou na sendo aplaudidos por Guerra do Vietnã e terminou em meio à todos. Guerra do Golfo. Tilde fez ainda coberVanda conta que o turas memoráveis, como a morte do Papa editor distribuía os textos Paulo VI e a eleição de João Paulo I, morto entre os redatores e dava três meses depois. — Essa época foi uma as coordenadas de tamaloucura. Mal acabamos de produzir um nho da matéria e seu poespecial de Paulo VI, tivemos outro, de sicionamento na página. João Paulo I. Era preciso também saber Além de bom texto e conhecimentos pelo menos três idiomas em outros idiomas, diz Tilde, o jornalispara trabalhar na editota da Internacional devia ser ágil, embora ria, pois o material semmuitas vezes o fuso horário compromepre chegava em inglês, estesse o trabalho da editoria. — A Interpanhol ou francês. nacional é imprevisível. Mas também — Ainda assim havia contávamos com um Departamento de muitos erros de tradução. Pesquisa, que, a qualquer pedido, nos Uma história engraçada fornecia material pronto para enriquefoi quando alguém fez cer as notícias e ampliá-las para o leitor. Marcelo Torres, de O Dia: O jornalista de Internacional precisa ter bom texto e domínio do idioma inglês; uma matéria sobre um Havia mais profissionais para ajudar na No Rio, seu mercado de trabalho é muito restrito. sindicalista norte-ameriprodução editorial naquele tempo.

rias, bem como de sugerir e substituir pautas, desde que o editor concorde. Além disso, esse espírito é essencial em um veículo como o JB, no qual a estratégia a longo prazo, na Internacional, é fazer que o noticiário seja mais aprofundado. Marcelo explica que a formação acadêmica é suficiente, mas um candidato à sua editoria jamais pode achar que só ela basta: — Procuro aproveitar repórteres que gostam de cavar histórias, que não tenham medo de telefonar para qualquer país do mundo e, principalmente, que tenham a noção de que barreiras são impostas por nós mesmos, e justamente por isso devemos buscar rompêlas a cada dia. Também considero imprescindível que os repórteres tenham interesse em estudar, ler freqüentemente, ampliar sua base de análise e raciocínio. Esse ganho é que agrega valor ao conteúdo que, mais tarde, será posto no jornal. Diz Pablo Pires que no Estado de Minas apenas editor e subeditor compõem a equipe de Exterior. Para ele, “a formação acadêmica nunca é suficiente para encarar uma redação com traquejo”: — Isso requer tempo e experiência no diaa-dia, sobretudo para o trabalho de edição e redação. No caso de Internacional, é necessário falar outras línguas e, de preferência, ter tido alguma experiência no exterior — morado, estudado, trabalhado... Já trabalhei com uma pessoa que tinha formação em Relações Internacionais, o que é interessante, pois ela dominava bem a história dos conflitos e sabia avaliar mais a importância dos fatos e seus possíveis desdobramentos políticos. Isso ajuda muito no caso desta editoria. Marcelo Torres, do Dia, é criterioso na hora de avaliar o perfil de um candidato: — Ele deve ter vontade de trabalhar, fazer uma boa apuração e ter bom texto, além de saber inglês para ter domínio da leitura do material que chega no idioma. No Rio, o mercado é muito restrito para os jornalistas de Internacional. Também Luciano Peres, do Zero Hora, diz que falar bem inglês é essencial, além de gostar da área e demonstrar interesse especial: — Costumamos formar os nossos profissionais. Os estudantes

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ARTIGOS DEBATE

As cotas diante da muralha POR ILMA MARTINS DA S ILVA

Na esteira da atual discussão sobre o sistema de cotas para os alunos negros, pardos e indígenas das escolas públicas, rola há muito uma gama interminável de opiniões contra e a favor, digressões vagas e estéreis, conceitos e, como era de se esperar, preconceitos explícitos e bem arraigados no seio dos mais diversos segmentos da nossa sociedade. Como prova disso, vide as incompreensões e os desrespeitos sofridos pelos cotistas, primeiro na UnB e mais recentemente na Uerj, segundo informações divulgadas pela imprensa a respeito desse assunto. Infelizmente ainda existe uma muralha barrando os sagrados direitos do cidadão que necessita do sistema de cotas. Passam-se décadas e mais décadas, mas a questão da miscigenação da população brasileira continua a incomodar; em pleno século XXI, chega a causar um mal-estar enorme a muita

gente dos variados extratos da nossa sociedade burguesa. Se os grupos étnicos, movimentos negros, ongs e outras entidades afins, nos seus encontros, seminários e congressos acalorados, teimam em repisar o problema da situação do negro no Brasil, além de provocarem um grande frisson, alimentam também, mesmo sem querer, as controvérsias costumeiras, as histerias e os radicalismos tradicionais. Exemplo disso foi o que se pôde constatar durante a recente 2ª Conferência de Intelectuais da África e da

Diáspora, realizada na cidade de Salvador. Apesar de o evento ter sido cercado de pompa e circunstância, a impressão que ficou, a meu ver, após a leitura dos jornais e do acompanhamento pelos telejornais locais, foi a de um resultado pouco producente e ambíguo. Os antropólogos e as personalidades nacionais e internacionais ali representadas se esforçaram muito, usaram de veemência nos seus debates, mas a abordagem da questão em si não teve

a profundidade e a transparência desejadas. Como é de praxe, sofismaram, filosofaram, tudo artificialmente, como se todos em uníssono tivessem receio de ferir brios, preferindo tratar o espinhoso problema racial com luvas de pelica. O próprio Governo, presente ao evento, esquivou-se diplomaticamente para evitar chegar ao cerne da questão principal. Resolveu-se, mais uma vez, adiar a solução definitiva do problema. Ao que parece, de imediato ninguém tem muita pressa em pôr os pingos nos “is” da questão do negro na sociedade. Isso não é prioritário nem para os nossos legisladores, nem para os governos que se sucedem. Lavam-se as mãos, e a hipocrisia, como de costume, reinará absoluta por mais algum tempo. Mesmo levando-se em consideração que o projeto do Estatuto da Igualdade Racial e das Cotas Sociais já tramita no Congresso de forma lenta e gradual. Contudo, acho que todos nós devemos pressionar os governantes para conseguir da parte deles mais empenho, exigindo que se debrucem sobre a questão do negro no País para termos um final feliz, visando a beneficiar as futuras gerações. Ilma Martins da Silva, jornalista, é sócia da ABI e membro da Comissão Diretora da Diretoria de Assistência Social da Casa.

REPRODUÇÃO

DEBATE

O pintor mais caro do mundo O quadro mais caro até hoje vendido no mundo foi de Gustav Klimt: mais de 300 milhões de reais! PAULO R AMOS D ERENGOSKI DE S ANTA CATARINA

Realismo e exuberância ornamental: eis o que poderia definir a pintura do austríaco Gustav Klimt (1862-1918). Mais que isso: o exotismo, redemoinhos insondáveis, motivos florais, sensualidade, labirintos do espírito. O erotismo onipotente na roda do mundo que gira, gira. Na primeira década do século ele consolidou sua obra e obteve sucesso financeiro. O movimento Art Nouveau vai se basear nas estilizações, nos mosaicos, nas folhas de ouro e prata de Klimt, sempre inspirados nas valsas de Strauss. Foi um pintor que exaltou a mulher, os rostos fotográficos e realistas contrastando com corpos diáfanos, envolto em véus de mistério. Figuras mitológicas, fatais, de olhos semicerrados. Sendo por isso acusado de “perverter” a juventude vienense. Os corpos femininos que Klimt imortalizou em seus quadros parecem flutuar num hino à beleza, na busca do esplendor decorativo. Trabalhando 6

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numa Viena ainda conservadora, foi um precursor de Freud, ao realizar obras que são poderosas representações da união carnal, no entanto apenas insinuada, sugerida — e por isso mesmo altamente sensual. Viena de sua época era o “laboratório do fim do mundo”. Ele foi o elo de transição entre a tradição e o modernismo. Realçando o tema principal de sua obra: a beleza das mulheres. Em seus quadros, o realismo fotográfico dos rostos parece isolado dos vestidos, das cabeleiras, dos mosaicos. Consciente de que toda arte é erótica, ele carregou nas ornamentações, valorizando personagens femininas. Sabia que a mulher domina o homem, até por buscar seus símbolos no imaginário freudiano dos sonhos, das imaginações, do ouro, das ametistas, dos florões, das pratas. Dona do segredo da vida e objeto central da curiosidade de todo grande artista, matéria original de mutação perpétua, sem fim. Que se enrola em espirais, serpenteia, enrosca em línguas vibrantes, em diáfanos véus que revelam... Em seus quadros, mulheres e flores estão sempre ligadas, onde a anatomia

Os corpos femininos que Klimt imortalizou em seus quadros parecem flutuar num hino à beleza, como em Danaë, de 1907.

da modelo se transforma em ornamentações — e a ornamentação em anatomia: carnes e flores animando o caleidoscópio mágico da vida. Seus quadros são o auge da volúpia, além do classicismo de Ingres, do cinismo de Picasso ou da truculência de

Toulouse-Lautrec. Recriou o esplendor do paraíso perdido da humanidade. Antes de desaparecermos no turbilhão do ciclo eterno da natureza. Sonhos, luxúria e decadência: eis o que foi Gustav Klimt, o pintor mais caro do mundo.


DEPOIMENTO MOACIR JAPIASSU

P

ai, marido e ir mão de jor nalisirmão jornalistas, Moacir Japiassu não perde o humor e a piada. É assim que leva a vida, a car reira, a coluna carreira, “Jor nal da ImprenÇa” — que vai comJornal pletar 20 anos, apontando er ros e aberros surdos publicados pelos colegas — e os livros que escreve — mesmo quando o tema é mais que sério, como no recém-lançado Quando alegr alegree partiste partiste.. Já são oito os livros de Japiassu, que não esconde um carinho especial pelos romances. Estes, segundo o crítico literário Rogério P ereira, do jor nal esPereira, jornal pecializado Rascunho Rascunho,, de Curitiba, desenvolvem-se em vários núcleos de tensão, com as histórias se afunilando ao final — ou seja, não dá para definir suas tramas em poucas palavras. Uma coisa, po po-rém, é certa: não lhes falta boa dose de humor mor,, ingrediente básico da receita de vida desse jor nalista que já criou jornalista prêmios para celebrar os colegas, mas também aponta os er ros que cometem, erros sempre, faz questão de frisar frisar,, com o objetivo de criticar e divertir divertir.. Jornal da ABI — Você é paraibano de João Pessoa. Saiu de lá com quantos anos? Moacir Japiassu — Minha identificação com o Nordeste é tão grande, as raízes são tão profundas que costumo me apresentar como “sertanejo de João Pessoa”. Saí de lá em dezembro de 1956, com 14 anos de idade.

Fala o irreverente criador do Jornal da ImprenÇA

de todo tipo: Galego, Cabelo de Fogo... Certa vez, ao descer do trem numa estação sertaneja, vi uma mendiga agarrar-se a uma criança e gritar: “Ai, minha Nossa Senhora... é o cão!” Eu tinha uns 10 anos e fiquei furioso. Jornal da ABI — Você morou e trabalhou em Minas, Rio e São Paulo. A opção de viajar foi da família ou sua? Moacir Japiassu — No meu recémlançado Quando alegre partiste, que tem por cenário o Rio de Janeiro e Belo Horizonte naqueles dias do golpe de 1964, o personagem Maurício tem trajetória parecida com a minha. O pai foi transferido para trabalhar em Montes Claros, Norte de Minas (ele era funcionário do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), e carregou a família. O velho, meio acomodado, nem queria a transferência, porém a mãe, esta sim, uma sertaneja de fibra, gritou: “O quê?!?!? A gente tem uma oportunidade de ouro pra mudar de vida e você fica aí bestando?!?!” Em março de 1957 eu já estava em Belo Horizonte, morando numa pensão e estudando no Colégio Marconi.

ENTREVISTA A SOLANGE NORONHA

Japiassu e a representação alegórica de Janistraquis, seu impiedoso personagem. No alto a credencial de repórter esportivo, em 1972

Jornal da ABI — A estréia em jornal aconteceu lá. Moacir Japiassu — Foi, em 1962, no Correio de Minas. Depois estive na Última Hora de São Paulo por alguns meses, odiei a cidade e fui me aventurar no Rio, onde vivi sete dos melhores anos de minha vida. Depois, já casado, voltei a SP para trabalhar no Jornal da Tarde, IstoÉ, Veja, e em emissoras de rádio e TV. FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

Jornal da ABI — Conte um pouquinho da sua história pessoal, da sua família. Moacir Japiassu — Sou filho do funcionário público Severino Lins Falcão, a quem dediquei meu romance Concerto para paixão e desatino, e da dona de casa Neusa Japiassu Lins Falcão. Tenho dois irmãos, o jornalista, poeta e publicitário Celso Japiassu, três anos mais velho, e Bill Falcão, jornalista em Belo Horizonte. Alguns anos depois, a família ganhou mais três jornalistas: minha mulher, Márcia Lobo, nosso filho, Daniel Japiassu, e a nora, Larissa Purvinis. Eu era ruivíssimo e você não imagina o que era ter cabelos bem vermelhos na Paraíba dos anos 1940. A molecada não me deixava em paz e ganhei apelidos

“A ditadura não pode ser esquecida por ninguém”

Jornal da ABI — Tem alguma história marcante do período de redação? Moacir Japiassu — Não tenho histórias muito relevantes porque nunca fui repórter por largos períodos e somente repórteres vivem grandes aventuras. Como sempre me dediquei ao texto, logo virei redator, copidesque, essas coisas. O, digamos, grande sufoco ocorreu quando fui entrevistar o professor Celso Kelly num hotel em BH. Ele era jornalista (foi Presidente da ABI), conhecia os “companheiros” e, por Jornal da AB ABII 311 Agosto de 2006

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DEPOIMENTO MOACIR JAPIASSU

Japiassu com o premiado repórter Vital Bataglia, em 1974; à esquerda, com Alberto Helena Jr, em 1976, ambos no Jornal da Tarde. Abaixo, entrevistando o amigo Caio Mourão para o Jornal do Brasil.

precaução, ficou a ditar a entrevista, mas eu apenas anotava os dados. Quando terminamos, ele pediu: “Agora, leia tudo para eu ver se está certo...” Gelei na hora, fiquei mais branco do que sou, depois meio esverdeado, e gaguejei: “O senhor... tá... desconfiando de mim?” Ele, sorridente: “Não, quero apenas saber se você fez tudo direitinho; afinal, é muito jovem.” Eu fazia cara de indignado enquanto o fotógrafo, que ignorava a situação, insistia: “Vai, Japi, lê a entrevista pro homem! Não custa nada, pô!” Então eu me levantei e encenei a primeira grande bravata da vida: “O que o senhor está pedindo é um absurdo, não posso aceitar uma coisa dessas! Além do mais, preciso ir correndo pro jornal, pra redigir a entrevista que fecha daqui a pouco! Se sair alguma coisa errada, o senhor reclame depois com Guy de Almeida, o Diretor da Redação!” E fui saindo às pressas, com o fotógrafo atrás: “Japi, essa entrevista é pra edição de domingo; lê o texto pro professor...” A correr escada abaixo, porque o mestre poderia me pegar na porta do elevador, gritei para aquela inocência: “Cala a boca, Zé Pinto! Eu não anotei porcaria nenhuma!” A matéria saiu no domingo e o professor Celso Kelly não reclamou de nada. Jornal da ABI — Sente falta desse período? Acha que as redações mudaram muito com a mudança da máquina de escrever para o computador? Moacir Japiassu — Quando as máquinas de escrever deram lugar ao computador eu não estava mais nas redações. A última foi a da revista Elle, da Editora Abril, onde trabalhei de 1988 a 1992. Depois, Márcia e eu criamos uma empresinha de assessoria de imprensa, com a esperança de ganhar algum dinheiro com nossa experiência; todavia o que ganhamos mesmo foi dor de cabeça nesta que, para mim, é a mais 8

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Enfrentando o frio em Paranapiacaba, em 1983, em reportagem para o Jornal da Tarde.

dentarismo que pessoas normais iriam considerar preocupante.

sacrificada e injustiçada opção profissional que um jornalista pode fazer neste País. Jornal da ABI — Hoje você vive num sítio no interior de São Paulo. A motivação foi algo no gênero “eu quero uma casa no campo, com meus amigos, meus livros e nada mais”? Moacir Japiassu — No final de 1975, o Sítio Maravalha, homenagem a um engenho paraibano do mesmo nome onde vivi um pouco da infância, era apenas um pedaço de terra nua, no Município de Cunha, cidadezinha que fica a meio caminho entre Guaratinguetá e Paraty, no alto da Serra do Quebra-Cangalha. Construímos uma casa de madeira, plantamos algumas árvores e aqui passávamos os fins de semana. Em 2002, já exaustos de morar em São Paulo, nos mudamos para cá por aquele motivo, somado a outro, este muito mais importante: na “roça”, como dizem, as coisas são mais baratas e a gente ainda pode cuidar de horta e galinheiro. Fica mais difícil morrer de fome... Não pense que estou a brincar. Márcia e eu ainda não nos aposentamos, porque tivemos o azar de perder a primeira carteira profissional, e hoje vivemos da intermitente renda de freelancer. Também não temos plano de saúde. Existe, todavia, um bom lugar onde se pode cair morto, pois o cemitério de Cunha, duas vezes centenário, é bem ajeitadinho. Jornal da ABI — Você me parece muito bem adaptado às conveniências (que mui-

tos consideram inconveniências) da internet; tem até um blog. Moacir Japiassu — Uso tanto o computador que penso até em dedicar o próximo romance à internet. Já pensou escrever um livro que exige pesquisa histórica sem o computador? Não seria possível, pelo menos para mim, que não poderia viajar continuamente a Rio e São Paulo para consultar velhos jornais e outros tantos alfarrábios. O computador é fundamental. Em 2002, assim que nos instalamos no sítio, retomei o romance A santa do cabaré, cujos primeiros capítulos tinham saído de uma mais que obsoleta máquina Hermes dos anos 30. Completei, em poucos meses e com as facilidades da internet, um trabalho que levaria anos na velha Hermes. Jornal da ABI — Ela também facilita seu contato com a dita “civilização”? Moacir Japiassu — Aqui no meio do mato não se pode contar com o telefone. As linhas rurais são muito frágeis, qualquer ventania forte emudece o aparelho. Por meio de uma antena, acessamos a internet, que também permitiu o reencontro com velhos e queridos amigos. Acho que estou viciado em computador. E esclareço que detesto jogos, brincadeiras, sites pornográficos e outras “atrações”. Meu vício é a pesquisa, que, como já disse, facilita meu trabalho como jornalista e escritor. Antes, quando vínhamos para cá nos fins de semana, andávamos muito pelas redondezas, plantávamos e colhíamos; hoje, andamos num se-

Jornal da ABI — Sai muito do sítio? Viaja muito, ao menos em época de lançamento de livro? Moacir Japiassu — Nunca fui de viajar muito. A viagem em si, arrumação de mala, espera em aeroportos etc., isso me exaspera. Márcia adora uma viagem, porém aquietou-se; afinal, já conhece meio mundo e falta-lhe um mínimo de incentivo por parte do marido. Além do mais, não há dinheiro para isso, eis a grande verdade. Lancei livro em João Pessoa, Rio e São Paulo, porém ainda não pude lançar oficialmente Quando alegre partiste. Andei com alguns problemas de saúde no início do ano, um médico amigo meu recomendou repouso, nada de vagabundear por aí afora... Creio que, se for possível, teremos em breve umas sessões de autógrafos. Vamos ver se dá. Jornal da ABI — São oito livros até agora. Já há outro em ebulição na cabeça? Moacir Japiassu — Atualmente, trabalho noutro romance, cujo personagem principal é um velho jornalista carioca que vive na favela em companhia de uma faxineira do Hospital Sousa Aguiar. Para mim, é inconcebível a “literatura pela literatura”, essa vertente do chamado vanguardismo. Estou convencido de que o leitor gosta de uma história bem contada, bem tramada. Esse negócio de tentar imitar Joyce não me atrai. Se você tem um enredo interessante e capacidade para desenvolvê-lo numa linguagem, digamos, castiça, você estará a fazer boa literatura e isso me basta. Jornal da ABI — Você já passeou por diversos temas e gêneros literários: nove-


Falsificações grosseiras da idade, para entrar no cinema e assistir aos filmes imprópios. A carteira amarela era de um amigo mais velho de Moacir; a de baixo era de seu irmão, Celso.

Primeira entrevista de Osmar Santos quando trocou a Jovem Pan pela Globo.

la juvenil, contos, gastronomia, romances, biografia. Tem alguma preferência? Algum momento ou sentimento particular marcou cada uma dessas escolhas? Moacir Japiassu — Prefiro chamar de “causos” e não contos as historietas bastante adultas de O sapo que engolia ilusões. Unidos pelo vexame, que escrevi por encomenda, é novela juvenil, mas pelos conceitos pós-modernos pode ser chamada de romance. Gosto muito do livrinho, que teve seu momento de bestseller, o único da carreira do autor: está na 15ª edição. Agora, paixão mesmo é pelos três últimos romances. Verifiquei, com imensa alegria, que me dou bem com obras de maior fôlego e a criação de personagens se dá com relativa facilidade. Tal “descoberta” foi um verdadeiro refrigério d’alma, porque passei a maior parte de minha vida a ler e me preparar para ser escritor, ou seja, romancista. Sabe que, na juventude, o jornalismo nunca passou pela minha cabeça? Eu queria viver de direitos autorais, talvez miserável como um personagem de Gorki, todavia escritor e somente escritor. Ainda bem que o jornalismo pintou em minha vida, porque se fosse viver de direitos autorais estaria morto há muito tempo! Jornal da ABI — Há temas sérios em seus livros. Mas o de receitas, pelo menos,

parece ter sido escrito com o mesmo bom humor da sua coluna. Moacir Japiassu — Considero o bom humor a grande virtude presente em todos os meus livros. Sou uma pessoa bem-humorada, com a dose necessária de descrença e razoável cinismo. Se há uma coisa que a vida me ensinou foi que não se deve levar a vida muito a sério. Outro grande ensinamento da experiência foi este: não se deve lavar demais o arroz da canja. Jornal da ABI — Até sua coluna Jornal da ImprenÇa virou livro. Há quantos anos ela existe? Moacir Japiassu — O Jornal da ImprenÇa, que no início se intitulava Perdão, Leitores, estreou junto com a revista Imprensa. Na época (1987), eu trabalhava na Denison Propaganda e os dois sócios de uma pequena editora, meus amigos Paulo Markun e Dante Mattiussi, visitaram-me para pedir apoio (leia-se anúncios) para um jornal que pretendiam criar. Achei o projeto interessante, envolvi todo mundo lá na agência e os anúncios transbordaram, tanto que o jornal virou revista. Aí, Markun e Dante, talvez para me agradecer, pediram que fizesse uma coluna de crítica (bem-humorada) à imprensa. E a coisa começou. Em 98, deixei a Imprensa porque a revista, na ocasião com

Japiassu, com Ari Schneider, entrevista Mino Carta, com quem trabalhou no Jornal da República.

JAPIASSU GARANTE QUE somente hoje, ao esquadrinhar velhos baús, descobriu a insuspeitada vocação jornalística (ele queria ser escritor); é que, para assistir aos filmes proibidos a menores de 18 anos, mudou a data de nascimento em carteiras escolares, com grosseiras falsificações; trocou as fotos em documentos do irmão mais velho, Celso Japiassu, e também dos amigos, na tentativa de enganar o porteiro do cinema. Deu certo. Anos mais tarde, então escolado pelas espertezas da profissão, pediu (e obteve) a segunda via de um documento militar que jamais existiu. “Nunca houve bom repórter sem um mínimo de sem-vergonhice”, assegura ele, que no início da carreira chegou a pular a janela do gabinete de um deputado para furtar documentos “de interesse público”, diz, com uma ponta de cinismo.

outro dono, insistia em não me pagar. Em 99, a coluna abrigou-se nas páginas de uma revista criada por mim, intitulada Jornal dos Jornais, título que não pertencia a ninguém e que fora utilizado pelo Alberto Dines durante muito tempo na Folha de S. Paulo. Fizlhe convite para participar, mas Dines já estava envolvido com a excelente idéia do Observatório da Imprensa. Ele foi meu chefe no Jornal do Brasil, entre 1964 e 67, gosto muito dele e o respeito como um dos mais completos jornalistas do Brasil. Jornal dos Jornais não durou nem dois anos, mas recebeu o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa de 1999. A revista faliu porque ninguém ali tinha a menor competência para vender uma página de publicidade. Mas não a recordo amortalhada em fracasso e sim como uma excelente experiência. A coluna, já agora intitulada Jornal da ImprenÇa, renasceu e, infelizmente, entrou em recesso com o passamento de Jornal dos Jornais. Então, no final de 2002 recebi convite de Anna Catharina Siqueira, do site Comunique-se, para ali agasalhar a coluna. Isso significa que, com duas interrupções, a dita cuja prepara-se para completar 20 anos

em 2007. E eu, mesmo sem plano de saúde e aposentadoria, espero estar vivo para festejar o aniversário. Jornal da ABI — Algum colega já reagiu mal a seus comentários na coluna? Moacir Japiassu — Ah, alguns reagem muito mal, porém algo me diz que há uma boa dose de politicagem nessa história. Como o colunista é independente, apartidário, incomoda. Bons militantes não admitem que um nãocorreligionário escreva o que quiser, com ironia e, às vezes, algum deboche. Prefeririam, certamente, que outra pessoa assinasse a coluna e que esta mantivesse compromisso com um partido de todos, por exemplo. Outros são leitores que ainda não foram apresentados ao bom humor. Talvez seja pelas dificuldades da vida, porém eu também carreguei minha cruz e ainda hoje, aos 63 anos de idade, não perco uma boa piada. O diabo é que a proposta da coluna sempre foi criticar e divertir, mas alguns insistem em esquecer essa obviedade. Às vezes, enchem o Blogstraquis de injúrias e calúnias; a inocente e falecida mãe do colunista padece naquele espaço democrático. A verdade é que não se pode mais brincar no Jornal da AB ABII 311 Agosto de 2006

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DEPOIMENTO

país do mensalão, embora o colunista, que é brasileiro, não desista nunca! Jornal da ABI — Como e quando surgiu o Janistraquis, divertidíssimo personagem? Ele foi mudando com o tempo? Moacir Japiassu — Janistraquis nasceu no Jornal da República, aquela experiência do Mino Carta em 1979. Eu trabalhava na IstoÉ e Mino me transferiu para o jornal, para que ali eu escrevesse uma coluna “de leitura”; uma coluna sobre futebol, que sempre foi uma de minhas paixões. O jornal apresentava-se muito pesado e Mino queria criar algumas “ilhas” de lazer. Então, criei a tal coluna e também o personagem. Este, chamado Janistraquis de Azevedo Varejão, era um carregador das ruas de São Paulo, daqueles conhecidos como “burros-sem-rabo”. Apesar da existência desvalida, torcia pelo São Paulo, clube da elite. Com uma diferença: Janistraquis não torcia propriamente pelo time e sim pelo Presidente do clube, o ex-Governador Laudo Natel, cuja foto, em tamanho natural, enfeitava sua carroça. O Jornal da República estava nos estertores, mas a coluna pegou, todos gostavam das brincadeiras e do nonsense das histórias. Janistraquis (uma corruptela de janistroques, que quer dizer joão-ninguém) entrou em recesso, andou mais tarde a escrever alguns textos sobre teatro na revista Palco & Platéia, mas ressuscitou pra valer na revista Imprensa. Jornal da ABI — Quando alegre partiste — Melodrama de um delirante golpe militar acaba de sair. É ainda mais importante não esquecer os tristes tempos da ditadura quando se completam 30 anos da morte de Vladimir Herzog? Moacir Japiassu — Claro que sim. Conheci Herzog em 1974, quando fazia uns frilas para algumas revistas técnicas do Grupo Visão e ele comandava uma editoria da revista Visão. Era homem reservado, sério, muito respeitado pelos pares. É necessário que, todos os anos, o reverenciemos na data de sua morte; a ditadura não pode ser esquecida por ninguém, principalmente pelos jornalistas. Jornal da ABI — Você criou alguns prêmios de jornalismo. Acha que eles são importantes para os profissionais? Existem em número suficiente no País — quer dizer, aqui o trabalho do jornalista é valorizado? Moacir Japiassu — Criei dois prêmios jornalísticos, o Líbero Badaró para a revista Imprensa, e o Cláudio Abramo para Jornal dos Jornais. É muito importante que um repórter se lembre de que pode ganhar troféus e dinheiro com uma boa reportagem. Assim, acaba-se a história de que o jornal de hoje só serve para embrulhar peixe na feira de amanhã. O repórter, sempre desvalorizado dentro da própria empresa, precisa de estímulos desse tipo. Hoje em dia, se você perguntar às pessoas quem são os grandes repórteres do Brasil, só 10

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Festa na Denison Propaganda, que apoiou a revista Imprensa em seu começo.

aparecem as estrelas da Rede Globo. É provável que alguns nem saibam escrever, como testemunhei nos meus tempos de editor-chefe do Fantástico, em que se faziam grandes reportagens sob a direção do José-Itamar de Freitas. O público acha que jornalistas de verdade são os colunistas dos grandes jornais. É por essas e outras que quando aparece um repórter e produz “aquela” matéria merece toda distinção. Jornal da ABI — E o jornalismo online? Só agora começam a existir prêmios voltados também para essa modalidade. Acha que um dos receios dos organizadores das premiações é a facilidade de plágio no veículo? Moacir Japiassu — O fantasma do plágio sempre esteve presente, até muito antes dos computadores nas redações. Não é uma questão tecnológica, mas de caráter. Não posso contar detalhes aqui, porém sabe-se que, ainda nos anos 70, uma reportagem de jornal foi desclassificada de um famoso prêmio jornalístico porque um dos julgadores conhecia o livro do qual o repórter copiou grande parte. Não chegou a ser um escândalo, porque acharam melhor manter a coisa em silêncio. Fiquei sabendo porque um amigo meu fazia parte da Comissão Julgadora e me contou. Eu até conhecia o repórter. Portanto, a internet apenas emprestou a gazua eletrônica

que hoje facilita o assalto ao talento alheio. Porém, se o júri de qualquer prêmio desconfiar do texto, basta recorrer a um buscador e digitar as palavras que o “original” deverá aparecer, não é mesmo? Se é fácil fraudar, também não é tão difícil descobrir a fraude. Jornal da ABI — Como você vê a velha polêmica da exigência ou não do diploma? Moacir Japiassu — Eu mesmo não sou diplomado. Em nada. Em 1962, pensei em fazer cursinho, ocorreu-me ser um cientista político como Fernando Henrique, mas apareceu a oportunidade de emprego no Correio de Minas e virei repórter. Acho, todavia, que um curso de Jornalismo seja importante para os jovens candidatos a um emprego. Afinal, o estudo é vital num país de analfabetos como o nosso. Agora, daí a transformar o curso em algo obrigatório para o exercício da profissão vai uma distância enorme. As empresas não vão contratar uma pessoa despreparada só porque se formou em Jornalismo; se não puderem contar com o talento puro e simples, por que fariam concessão à incompetência diplomada? Jornal da ABI — E o ensino nas faculdades de Jornalismo? Como analisa sua

Reclamando de excesso de trabalho, na Denison Propaganda, em 1987

situação atual? Não é na faculdade que alguém vai aprender a escrever bem, mas será que é só isso? Moacir Japiassu — Em síntese, é isso; o candidato a jornalista faz o curso, adquire noções básicas da profissão e o resto é por conta dele. Ora, como escrever bem, como desenvolver a técnica sem ter lido coisa alguma? Poucos, pouquíssimos, lêem neste País, a começar pelo Presidente da República. Nos últimos 20 anos, em minhas palestras pelo Brasil afora, tenho encontrado platéias enormes de estudantes de Jornalismo que não leram coisa alguma. Nunca abriram um livro! Não ouviram falar de Eça nem de Machado. Como alguém pode ser bom jornalista, como escrever bem com esse nível de ignorância? Jornal da ABI — Você tem tido mais material para a sua coluna com a queda do nível do ensino em geral no País e a extinção de alguns profissionais na cadeia entre a criação e a impressão da matéria (redatores, revisores...)? Moacir Japiassu — Os colaboradores da coluna triplicaram, em relação aos tempos da mídia impressa. Mas acontece que meu trabalho, de crítica e divertimento, acentuo e repito, não fica atento apenas ao erro de cada um; às vezes, recebo dezenas de mensagens das quais não é possível aproveitar nenhuma. Muitos colaboradores não pegaram o “espírito” da coluna, que não existe só para vigiar o texto dos outros. Certa vez, ainda no tempo de Imprensa, recebi carta do dono de um jornal do interior; dentro do envelope havia recortes do jornal dele, com muitas bobagens assinaladas. O cidadão, que ficou meu amigo, escreveu: “Por favor, meta o pau na gente; é para a meninada ficar esperta e parar de escrever besteira...”. O colunista também admite que comete erros, alguns até graves, mas sempre luta para evitá-los. Lembro que o título da coluna é Jornal da ImprenÇa e refere-se, principalmente, ao analfabetismo do próprio colunista... Jornal da ABI — Qual a sua relação com a ABI? Moacir Japiassu — Sou grande admirador da entidade. Quando Maurício Azêdo assumiu, tive vontade de me associar. Nós nos conhecemos lá da tribuna da imprensa do Maracanã; nunca trabalhamos juntos, infelizmente. Azêdo é um torcedor singular, apaixonado, disposto a tudo pelo Flamengo. Às vezes, sentávamos juntos, ele, o botafoguense Cláudio Mello e Souza e este humilde vascaíno. Ali perto, ao lado de Armando Nogueira, Nélson Rodrigues recolhia material para suas colunas, pois um campo de futebol fornece inspiração não apenas às matérias esportivas, porém à própria vida como ela é. Conheço a biografia de Maurício Azêdo, sou seu admirador. E se você nunca escutou o homem num discurso inflamado, não sabe o que está perdendo. Orador brilhante!


HISTÓRIA

O bicentenário de Jerônimo Coelho, um consolidador da Independência Fundador da imprensa de Santa Catarina, ele se destacou nas lutas pela abdicação de Pedro I POR M ÁRIO BARATA

A Associação Brasileira de Imprensa — que serviu de exemplo às associações congêneres de várias regiões do País — se interessa pela presente comemoração, em Florianópolis, do bicentenário do patrono da Associação Catarinense de ImprensaACI, Jerônimo Francisco Coelho, que ela considera com razão figura de magna importância pelas características de sua existência e pela singularidade que a revestiu. Jerônimo Coelho nasceu em Laguna, em 30 de setembro de 1806, e faleceu em 1860. Moacir Pereira, atual Presidente da ACI, destacou recentemente o fato de ele ser “patrono da imprensa e da Maçonaria em Santa Catarina”, e o importante historiador catarinense Carlos Humberto Corrêa publicou nova e mais completa biografia de Jerônimo Coelho, editada este ano e lançada pela editora Insular, com sede em Florianópolis, em conjunto com a citada Associação Catarinense de Imprensa. O fato fundamental fixado pelo livro é a participação de Jerônimo, já militar, nos acontecimentos revolucionários de 1831 que conduziram à abdicação de Pedro I e à Regência, que consolidariam a Independência do Brasil com apoio notável da Maçonaria, que envolveria figuras como as dos Andradas, Gonçalves Ledo e Evaristo da Veiga. Este último foi amigo e colega de trabalho jornalístico de Jerônimo. A Maçonaria, no Rio de Janeiro, forneceu ajuda financeira a Jerônimo para compra do pequeno prelo que ele levou para a cidade do Desterro, onde publicou O Catharinense, cujo primeiro número é de 28 de julho de 1831, encimado pelo dístico União e Liberdade, Independência ou Morte. Fazia parte da confirmação da independência nacional, que necessitaria de expansão em todas as regiões do território brasileiro. A denominação de liberal na década seguinte à independência era muito mais próxima do republicanismo e isto caracterizou bastante o regime regencial. A implantação da maioridade de Pedro II não alteraria mais as possibilidades da independência, já consolidada. A carreira posterior de Jerônimo Coelho como estadista militar foi importante pelas características democráticas, no sentido atual da palavra, e o acerto de suas decisões nos cargos que assumiu. A sua vida foi cortada pela febre amarela adquirida no Sul do País. Um monumento a Jerônimo Coelho foi erguido na Praça XV de Novembro, em Florianópolis, cidade em que existe rua com o seu nome. A Maçonaria catarinense reverenciou-o com designação em duas lojas simbólicas. Professor, historiador e jornalista, Mário Barata é membro do Conselho Deliberativo da ABI.

Vitória Vélez com o cosmonauta Marcos César: persistência, jogo de cintura e sorte.

AVENTURA

A MISSÃO SEM IGUAL DE VITÓRIA VÉLEZ Acostumada ao trabalho tranqüilo na Redação Rio da Agência France Presse, Maria Vitória Vélez viveu no fim de junho e princípio de julho o maior momento de sua vida, como gente e como profissional: ela foi a única repórter a entrevistar, na aeronave que o resgatou, no longínquo Cazaquistão, o primeiro astronauta brasileiro, Major Marcos César Pontes. Com Vitória trabalhou outro privilegiado: o cinegrafista Marco Aurélio, da Radiobrás, escolhido com ela para cobrir essa missão sem igual. Vitória Vélez graduou-se em Jornalismo pela Universidade Gama Filho e seu primeiro contato com a carreira foi como estagiária no escritório da Agência France Presse, no Rio, onde trabalha há 11 anos.Tarimbada e com domínio das tecnologias modernas da área de comunicação, Vitória trabalhou também como secretária-executiva do ABI Online, função que deixou porque era extenuante demais trabalhar em duas redações. Filha de uma brasileira e um colombiano — o filósofo Ricardo Vélez Rodríguez, autor de livros como Patrimonialismo e a realidade latino-americana, lançado em abril —, Maria Vitória é fluente em português, espanhol e inglês — “também me defendo bem no francês e no alemão”, diz. Tímida, não gosta muito de falar de si mesma, mas diz que ama o que faz e que se sente privilegiada por ser jornalista. — Tive dúvidas no início. Minha família queria que eu fosse diplomata e cheguei a cursar três períodos de Direito, mas não me encontrei ali. A certeza de ter escolhido a profissão certa veio quando realizou sua primeira reportagem, numa cobertura sobre trabalho social no Morro Dona Marta, na Zona Sul do Rio — “quando terminei, estava exausta, mas me senti plena“,conta. E a certeza se confirmou ainda mais na recente viagem ao Cazaquistão, uma das repúblicas que integraram a antiga União Soviética,onde cobriu a missão do astronauta brasileiro Marcos César Pontes. Maria Vitória cumpre uma jornada de oito horas na France Presse, onde a sua função é editar o material de

ciência, cultura e sociedade que chega à agência, além de redigir a pauta e fazer coberturas especiais. Para cumprir bem esse papel, escrevendo sobre assuntos tão diversos, o principal, diz ela, é ter jogo de cintura: — Numa agência de notícias, dificilmente o jornalista escreve exclusivamente sobre um assunto. É preciso ter versatilidade e disponibilidade para executar missões diferentes. O trabalho de edição, diz, é um aprendizado diário. Apesar de gostar do que faz, não esconde a preferência pelo trabalho de campo, a reportagem — como a da viagem à Rússia e ao Cazaquistão, que apresentou desafios significativos, “pois às vezes a burocracia russa torna o trabalho do jornalista quase impossível”, já que é preciso ter autorização para tudo e, mais uma vez, contar com jogo de cintura, para insistir sem ser inconveniente: — Além disso, há a barreira do idioma. Poucas pessoas na Rússia — e menos ainda no Cazaquistão — falam outra língua que não o russo ou o cazaque. Em alguns momentos, foi preciso recorrer à ajuda de colegas russos para entender o que estava acontecendo. Mas foi uma experiência fantástica, que demandou muita pesquisa, em vista da natureza científica da missão. A persistência e o tal jogo de cintura — além de senso de oportunidade e certa dose de sorte, “de que todo jornalista precisa” — renderam bons frutos: ela foi a única repórter a entrar, juntamente com um cinegrafista, na aeronave que resgatou o astronauta brasileiro e entrevistá-lo. — Tive um contato bastante positivo com os militares russos encarregados de escolher quem seguiria nos 17 helicópteros que participaram da missão de resgate da cápsula Soyuz. Felizmente, eu e o Marco Aurélio, da Radiobrás, fomos escalados para acompanhar o Marcos César Pontes e seu médico, Dr. Luiz Cláudio Lutiis, de Arkalyk para Koustanay, no Cazaquistão. Na viagem, apesar do cansaço, Pontes se dispôs a responder a algumas perguntas. A entrevista acabou sendo publicada em diversos jornais. Jornal da AB ABII 311 Agosto de 2006

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Aconteceu na ABI CULTURA

Saraceni, cineasta sem-tela:

“Nunca tive apoio no Brasil para produzir meus filmes” O diretor de O Desafio e Capitu presta depoimento no ciclo ABI pensa o cinema O cineasta Paulo Cesar Saraceni foi o convidado do Projeto Estação ABI que encerrou no dia lº de agosto o ciclo ABI pensa o cinema, no qual ele falou sobre os seus estudos no exterior, comentou a situação do cinema nacional e ainda relembrou os tempos em que foi jogador de futebol. Disse Saraceni que o cinema faz parte de sua vida desde a infância. Na juventude, freqüentava assiduamente as salas de cinema do Méier e ainda encontrava tempo para se dedicar ao time do América e, posteriormente, ao juvenil do Fluminense, em que jogava no meiode-campo. Anos depois, mudou-se para uma ilha de pescadores em Arraial do Cabo, que também dá nome ao seu primeiro curta-metragem: — Graças a este curta, ganhei uma bolsa para estudar no Centro Experimental de Cinematografia, em Roma, onde fiquei por dois anos e passei a admirar o trabalho de (Roberto) Rosselini. Recebi muitas influências do neo-realismo italiano. Na Itália, Saraceni tornou-se amigo de Bernardo Bertolucci, entre outros

cineastas. Acostumado com a vida no exterior, não pretendia voltar ao Brasil, mas o convite para dirigir A Casa Assassinada, baseado no romance de Lúcio Cardoso, o fez mudar de idéia: — No entanto, somente dez anos depois do meu retorno a Embrafilme financiou o longa, filmado em 22 dias. Antes dele, filmei Porto das Caixas, que marca a minha entrada firme no Cinema Novo. Baseado na célebre frase de Gláuber Rocha “uma câmera na mão, uma idéia na cabeça”, Saraceni dirigiu O Desafio, que, inspirado na Nouvelle Vague, foi filmado em 13 dias e se tornou sucesso na Europa: — Em O Desafio, os personagens são jornalistas requintados, que têm ligação com o cinema. O filme foi muito premiado internacionalmente e era um manifesto político. Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe fizeram sucesso depois. O Cinema Novo foi muito visto e querido no Velho Continente. Saraceni aplaude a descentralização da produção de filmes do eixo Rio-SP

Saraceni revela: uma de suas obras preferidas é Natal da Portela, co-produção francesa jamais exibida comercialmente no Brasil.

e diz que o Cinema Novo já tinha obras de diferentes regiões do País. — Antigamente, viam-se poucos filmes brasileiros, porque o mercado sempre foi dominado por Hollywood. Walter Sales e Fernando Meireles são provas atuais de que o cinema agora é de qualquer lugar. De sua filmografia, uma das obras preferidas do cineasta é Natal da Portela, co-produção francesa baseada na vida do bicheiro que nunca foi exibida comercialmente no Brasil, mas fez sucesso na Europa: — É um filme belíssimo esteticamente, mas aqui as pessoas o conhecem apenas da telinha, pois a TVE o exibe em sua grade. O mercado brasileiro de cinema é uma ironia. Ele também se orgulha de ter dirigido Capitu, inspirado no livro Dom Casmurro, de Machado de Assis: — Pensei em como faria para adaptar para o cinema um romance contado na primeira

pessoa. E acabei aumentando o mistério sobre a possível traição da protagonista. Atualmente, Saraceni se dedica ao projeto de adaptação para o cinema da biografia de seu avô, um ex-seminarista italiano que se radicou no Brasil e tinha idéias socialistas. No entanto, ainda sofre com a ausência de patrocínio: — Há alguns anos, produzi um documentário para a RAI, emissora italiana, sobre o movimento dos sem-terra. Quando conheci os militantes do grupo, disse-lhes que eu fazia parte do movimento dos semtela. O filme foi todo custeado com recursos estrangeiros. Nunca tive apoio no Brasil para produzir meus filmes. (Rodrigo Caixeta) Antes do depoimento de Saraceni falaram no Estação ABI, ao longo de julho, os cineastas Sandra Werneck, Antônio Molina, Neville de Almeida e Cacá Diegues. O registro jornalístico de suas intervenções está no site da ABI (www.abi.org.br)

DOCUMENTÁRIO

Jorge Oliveira filma Floriano Depois do premiado O Poeta e o Capitão, que mostrou célebre encontro entre Prestes e o poeta Pablo Neruda, o documentarista alagoano quer revelar a face oculta de Floriano, A Esfinge, que consolidou a República. O jornalista e cineasta alagoano Jorge Oliveira fez na ABI tomadas para o documentário A Esfinge — A História de Floriano Peixoto, produzido para a TV Senado e com estréia prevista para 15 de novembro, dia da proclamação da República. Posteriormente, o filme será distribuído para a TVE e escolas públicas do País. A filmagem incluiu uma entrevista do Presidente da ABI, Maurício Azêdo, que falou sobre o comportamento da imprensa na época do Marechal. Pesquisador, roteirista e diretor do filme, Jorge Oliveira diz que sua intenção não é apenas falar de Floriano Peixoto, mas também da transição da Monarquia para a República: — As 14

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filmagens começaram em Alagoas e nos próximos dias faremos tomadas no Rio. Estamos entrevistando pesquisadores e historiadores para contar a história sob a ótica desses estudiosos. O cineasta diz que o documentário será imparcial, mostrando as divergências e contradições da História, a partir das obras de escritores que falam sobre o início da República no Brasil: — Faremos reconstituições, usando livros como referenciais. Pretendo mostrar o perfil de Floriano, explicar se ele foi valente, golpista ou violento, como afirmam alguns historiadores, e falar também sobre os revoltosos da época. Jorge Oliveira diz que sua iniciativa de fazer o documentário é parte de um

projeto em que pretende resgatar a História do Brasil por meio de personagens históricos alagoanos: — Decidi falar de Floriano porque ele foi o primeiro Presidente do Congresso Nacional após a instauração da República. Já fiz um filme sobre Graciliano Ramos e o próximo será sobre Jorge de Lima. Diz o cineasta que o seu documentário é o primeiro que vai mostrar o processo de transição da Monarquia para a República, pontuando também a história do Marechal Deodoro: — As filmagens têm surpreendido até os historiadores. Quando explico o enredo do filme, eles dizem que ninguém conseguiu compilar tantas informações e ainda fazer um documentário educativo.

Jorge Oliveira foi Diretor da ABI na década de 80. No cinema, roteirizou e dirigiu O Poeta e o Capitão, filme premiado no Festival de Brasília e que fala da poesia de Pablo Neruda para Luís Carlos Prestes, depois que ele foi libertado, após passar nove anos na prisão, por liderar a Aliança Nacional Libertadora. No Rio, a equipe de filmagem do novo documentário de Oliveira contou com a participação de seu filho Pedro Zoca, como assistente de direção; Gilson Prandine, diretor de fotografia; Léo Prandine, câmera; André Pires, áudio; e Leilanie Silva, Gian Carlo di Tomazo e Daniel Lion, produtores. (Rodrigo Caixeta)


RELANÇAMENTO

Música e poesia celebram O Poeta e o Violão Jornal cultural alternativo rompe cinco anos de silêncio. O relançamento do jornal O Poeta e o Violão foi festejado com música e poesia no dia 14 de agosto na Sala Belisário de Souza, no sétimo andar da ABI, num evento que reuniu cerca de 40 poetas e cantores e teve a participação do coral do Movimento Cultural da Praia Vermelha. Na platéia estava a atriz de cinema e cantora Vanja Orico, que explicou a razão de sua presença: — Vim prestigiar este evento porque gosto muito de poesia e música, tanto que pretendo voltar aos estúdios e gravar um cd até o final do ano. A jornalista Marlene da Silva, que juntamente com Maurício Piauí edita O Poeta e o Violão, revelou que uma das propostas do jornal é abrir espaço para poetas e cantores que não estão na mídia convencional. Ela fez questão de destacar o apoio da ABI: — A Casa sempre nos abriu as portas com grande simpatia desde o tempo de Barbosa Lima Sobrinho e agora com o Presidente Maurício Azêdo. Estamos muito animados, porque muitas pessoas, entre jornalistas e empresários, têm apoiado O Poeta e o Violão. Ficamos cinco anos sem circular, mas agora voltamos com esse produto editorial e cultural, que consegue reunir cantores, seresteiros, poetas e boêmios. A poetisa Flora Pereira comentou: — Colaboro com o jornal desde seu nascimento, porque ele é formado por uma equipe de pessoas que tem muita sensibilidade e encara a vida de maneira positiva. O Poeta e o Violão é um oásis de cultura, cujo incentivo está ausente em nossa sociedade, que também sente falta de ética e de lirismo. O produtor cultural Manoel Dionísio, antigo mestre-sala e criador do projeto Dançando com um Pé no Futuro, que ensina gente de todas as idades a sambar, acha que o relançamento da publicação é um ato de coragem: — Vivemos um momento em que está difícil fazer qualquer coisa em relação à cultura. Então, é preciso destacar a coragem do Maurício e da Marlene e das pessoas que acreditam neles, como eu. São dois lutadores. Enquanto houver indivíduos como eles incentivando a criação cultural, esse processo caminha.

CULTURA

AROEIRA ABRE O CICLO DE HUMOR – Impedir alguém de dizer alguma coisa é um crime hediondo, diz o chargista em depoimento na nova série da Diretoria Cultural da ABI. POR CLÁUDIO CARNEIRO

Irineu Marinho partiu de um telefonema que recebi do próprio Dr. Roberto (Marinho). Isso me deixou muito orgulho"A charge não derruba governos, mas so. Lá conheci grandes jornalistas, como serve para mostrar o quanto eles são o Evandro Carlos de Andrade e o Luís Erridículos." "Minha melhor militância langer. Aliás, o Erlanger, com a sua senpolítica é a charge, não a panfletagem." sibilidade, foi quem me ensinou como o Estas afirmações foram feitas pelo leitor reage a uma charge. cartunista e chargista Aroeira reconhece que Aroeira durante o depoifoi no Globo que aprenmento inaugural da série deu como funciona uma ABI pensa o humor. O empresa jornalística, com ciclo integra o Projeto seus interesses e idiossinEstação ABI, que reúne crasias: – Amadureci muidepoimentos de jornalisto ali. Reconheço na figura tas e intelectuais, sempre de Roberto Marinho o abordando as diversas caráter de um grande jormanifestações artísticas, nalista. Lá dentro, sempre como o cinema, o teatro me senti seguro. Mas O e a literatura. Entre ser eterno reserva Globo tinha o Chico CaEm depoimento ao Diem O Globo e titular em ruso, meu grande amigo, retor de Cultura e Lazer da O Dia, Aroeira não vacilou. como eterno titular; eu seABI, Jesus Chediak, o miria um eterno reserva. neiro Renato Luiz Campos Quando O Dia me chamou para ser o Aroeira falou de sua vinda ao Rio de titular, topei na hora. Janeiro e contou as passagens que teve Como militante político, Aroeira na grande imprensa fluminense: – Chechegou a ser preso, mas não guarda guei ao Rio nos anos 80. Passei pelo Glorancor: bo e depois pelo JB. Meu retorno à Rua

– O fato de ter senso de humor me faz conviver melhor com as pessoas. O humor não ensina nada, mas mantém as pessoas vivas. Esta é a sua importância. Quero mudar o mundo, mas não guardo rancor de ninguém. Quem defende a liberdade de opinião tem de respeitar as diferenças de idéias. Sinto-me grato de ter participado de tempos interessantes, de grande importância para a História do País. Filho, neto e bisneto de jornalistas, ele avalia que a idéia de revolução está mais ligada à dinâmica social do que às armas ou à violência. E se vangloria de ter driblado – algumas vezes – a censura durante a ditadura militar, embora sua irreverência tenha custado alguns processos na Justiça: – O ex-Governador Nilo Baptista me processou por causa de uma charge publicada no JB. E os filhos de outro ex-Governador, o Marcelo Alencar, moveram quatro ações contra mim. Mesmo assim, Aroeira afirma que nada pode apagar o sorriso provocado pela exposição de um político ao ridículo extremo: – O humor tem poder de catarse. Não acredito mais nos políticos como seres humanos, nem na honestidade deles. Mas nem tudo está perdido. Na dinâmica social, o povo é o grande inimigo da ditadura. Por fim, Aroeira confessou o orgulho de dar um depoimento à Casa do Jornalista: – Estou muito honrado em participar da imprensa e da História de nosso País. Na ABI, eu me sinto em casa. Acho que impedir alguém de dizer alguma coisa é um crime hediondo. A liberdade de imprensa é o bem mais importante para garantir as outras liberdades. Jornal da AB ABII 311 Agosto de 2006

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Aconteceu na ABI CAPACITAÇÃO

Cobertura de campanha, um tema que dá ibope Curso promovido pela ABI e instituições da Justiça Eleitoral gera interesse dos profissionais designados para acompanhar a disputa. Alunos inscritos previamente e convidados lotaram o Auditório Oscar Guanabarino, principal espaço de reunião da ABI, para assistir à palestra inaugural do I Curso de Preparação de Jornalistas para Cobertura da Campanha Eleitoral de 2006, proferida pelo advogado Ivan Nunes Ferreira, que discorreu sobre o tema Financiamento de campanha e prestação de contas. Além do palestrante, que integrou como julgador o plenário do Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio durante 14 anos, compuseram a mesa da cerimônia Joseti Marques, Diretora de Jornalismo da ABI; Rogério de Paiva Navarro, Procurador Regional Eleitoral; Desembargador Marlan de Moraes Marinho, Presidente do TRERJ; Maurício Azêdo, Presidente da ABI; Juiz Cláudio dell’Orto, Presidente da Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro; Juíza Jacqueline Lima Montenegro, Diretora da Escola Judiciária Eleitoral do TRE-RJ; advogado Rodrigo Cândido de Oliveira; Desembargador Antônio Jaime Boente, Corregedor do TRE-RJ; e Glória Alvarez, Conselheira da ABI e idealizadora do curso.

A abertura da cerimônia foi feita por Maurício Azêdo, que se disse satisfeito pela realização na ABI do primeiro curso voltado para jornalistas que querem saber mais sobre o processo eleitoral. Em seguida, ele passou a palavra para o Desembargador Marlan de Moraes Marinho, que falou sobre a importância de o curso ser oferecido na ABI: — A ABI é uma instituição gloriosa no País, um esteio da democracia brasileira. As aulas que vão acontecer aqui servirão como espaço de debate sobre o sustento legal da Justiça Eleitoral e sua finalidade, temas importantes para se entender a reforma política no Brasil. Antes da palestra, houve apresentação do coral do TRE-RJ, que cantou as músicas Samba do Avião, Carimbó e Sina. Em seguida, Ivan Nunes Ferreira brincou com o público, pedindo perdão por ter que interromper a apresentação do grupo para dar início à aula. Emocionado, ele disse se sentir honrado por estar no palco onde aconteceram grandes eventos em defesa da democracia brasileira. Depois, afirmou que “muito se fala sobre a reforma política, mas pouco se faz”:

DESCOBERTA

Uma manhã de choro, o gênero O concerto de encerramento do semestre letivo da Escola Portátil de Música, sediado pela ABI, teve um sentido altamente revelador: há muita garotada se iniciando e aperfeiçoando no ritmo-matriz da música popular brasileira e gente de todas as idades e classes sociais curtindo esse aprendizado. POR JOSÉ REINALDO M ARQUES

A ABI franqueou o espaço do seu Auditório Oscar Guanabarino, no nono andar do Edifício Herbert Moses, para o concerto de encerramento do primeiro semestre da Escola Portátil de Música, que apresentou o grupo instrumental Furiosa Portátil. O repertório constou de coisas finas: obras do compositor, arranjador e maestro Radamés Gnatalli. A Escola Portátil de Música — que tem como Conselheiro o poeta, escritor, compositor e produtor cultural Hermínio Belo de Carvalho — foi criada na Sala Funarte, há seis anos, por iniciativa dos músicos Maurício Carrilho, Pedro Aragão e Luciana Rabelo, irmã do falecido violonista Rafael Rabelo, e se transformou num dos mais importantes núcleos de formação de 16

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músicos de choro da Cidade do Rio de Janeiro. Rapidamente a Escola de Música Portátil se tornou um grande acontecimento. O músico e regente Pedro Aragão revelou que, para poder atender à demanda crescente, a Escola teve de deixar a Sala Funarte e se transferir para uma casa na Glória. Logo esse local também ficou pequeno e atualmente a Escola está instalada na UniRio, na Urca, Zona Sul do Rio. — Na Funarte – conta Aragão —, éramos cinco professores para 30 alunos. Só que o número de interessados foi crescendo e a procura se tornou maior a cada ano. Isso nos obrigou a aumentar também o corpo de professores. De 2001 a 2003, funcionamos na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. No ano seguinte, quando fomos para a Glória, tínhamos 400 alunos. Atualmente, estamos chegando aos 550.

— O difícil é ela ser implementada. Há três formas de se fazer: pelo jurisdicional; por uma grave crise política — como a do mensalão, que pensei que fosse redundar no início de um reforma urgente — ou pela renovação, no Congresso, de membros que não tenham sido reeleitos pelo sistema vigente. A reforma precisa ser feita a fim de resgatar a cidadania no País. Nunes Ferreira falou sobre a diferença entre a prestação de contas de financiamentos públicos e privados de campanhas eleitorais: — No sistema privado, uma pessoa física pode doar até 10% de seu rendimento do ano anterior e a jurídica, 2% de seu faturamento bruto — se ultrapassar este teto, ela está sujeita a penalizações, e é proibida, por exemplo, de concorrer em licitações públicas. No sistema público, os partidos recebem doações provenientes do arrecadamento de multas outorgadas pelos tribunais e dispõem ainda do horário gratuito nas emissoras de rádio e tv. Disse Nunes Ferreira que os candidatos devem abrir uma conta específica para receber doações, através de cheques nominativos ou transferências

eletrônicas, e prestar contas aos Tribunais Eleitorais: — No entanto, apesar de o TRE receber centenas de documentos de prestação de contas, ainda assim é um sistema ineficaz de combater o caixa dois. Examinamos apenas o que nos é apresentado; e o que não é? Ele lembrou que há uma proposta de financiamento público exclusivo para as campanhas, em que só pode haver uma única fonte pagadora — que seria a União — e a responsabilidade de prestação de contas deixaria de ser do candidato e passaria a ser do partido, que centralizaria e distribuiria o controle das verbas. Na opinião dele, alguma mudança tem que ser feita a fim de acabar com o desprestígio da classe política na sociedade: O Congresso Nacional não representa o povo brasileiro. A Região Nordeste tem 10% do PIB brasileiro, 30% da população do País e 60% de participação no Parlamento. Isto é desproporcional. É preciso renovar para reformar, condicionar os novos membros do Congresso a mudar o sistema atual.

A Escola Portátil de Música ganhou esse nome porque, além de ter um núcleo fixo, se desloca para outras localidades. Ela já promoveu eventos em cidades fluminenses como Nova Friburgo, Cordeiro e Mendes. — A Escola também já foi ao Japão, numa experiência fantástica da Luciana Rabelo em Tóquio, em 2004. A gente aqui no Brasil não tem idéia do número de jovens e até mesmo músicos profissionais do Japão interessados em conhecer as harmonias e aprender as técnicas dos instrumentos do chorinho – diz Pedro Aragão. A idéia do concerto na ABI foi de Hermínio Belo de Carvalho: — Sou muito comprometido com esse projeto. Na verdade, tenho uma paixão visceral pela Escola Portátil de Música . O jornalista Francisco Paula Freitas, que é Conselheiro suplente da ABI, esteve presente ao concerto e se confessou impressionado: — Gostaria de ver mais shows desse nível na ABI. O show da banda Furiosa Portátil me fez lembrar da Orquestra Tabajara nos bons tempos, de Pixinguinha e das big bands norte-americanas. Foi uma apresentação deslumbrante, me emocionei ao ver jovens e adultos tocando maravilhosamente o nosso chorinho. Na Escola Portátil, os alunos têm à

disposição três oficinas: de instrumentos (violão, cavaquinho, saxofone, clarinete, flauta, piano, acordeão, pandeiro e percussão), teóricas (harmonia e percepção musical) e de aulas práticas, nas quais aprendem o repertório de choro e se apresentam orientados pelos professores. As aulas das oficinas acontecem aos sábados em dois horários: 10h e 14h. Para se inscrever, é preciso apenas ter no mínimo 12 anos de idade. O custo, por semestre, é de R$ 150, mas os alunos que conseguem provar condição de carência ganham bolsas de estudo. Diz Pedro Aragão que o importante para a Escola é ser “um ambiente plural, que respeita a diversidade”: —Temos alunos com todos os perfis sociais: de físico nuclear a trocador de ônibus. O principal para nós é fazê-los aprender a linguagem do chorinho, que, de certa forma, estava se acabando. Ele acrescenta que a Escola Portátil se tornou uma referência no ensino do choro na Cidade. Exatamente porque, além de ser superestruturada, tem excelentes professores, como Jaime Vignoli (cavaquinho), Cristóvão Bastos (piano) e Oscar Bolão (percussão): — O aluno não precisa chegar à escola sabendo música. A musicalidade nós orientamos. Só exigimos dom e aptidão.

O registro das demais aulas do Curso está no site da ABI: www.abi.org.br


CAMPANHA

Na pauta, a segurança Candidatos ao Governo do Estado do Rio apresentaram em encontros na ABI suas propostas sobre essa questão vital. POR C LÁUDIO C ARNEIRO E J OSÉ R EINALDO MARQUES

ridade número 1 no nosso Governo. Ele firmou um termo de compromisso com o Sindicato dos Funcionários da Polícia Civil-Sinpol, comprometendo-se a analisar reivindicações dos policiais, pagamento de horas extras, vale-transporte, auxílio-moradia, adicional noturno e reajuste do vale-refeição.

Servidores públicos da área de segurança do Estado do Rio lotaram o Auditório Oscar Guanabarino, na sede da ABI, nos dias 7 e 8 de agosto, para discutir as propostas dos candidatos ao Governo do Estado sobre essa questão vital para eles Baixas absurdas próprios e para o conjunto da cidadania. No segundo dia de debates promoviDiante do Chefe de Polícia Ricardo Halack e Maurício Azêdo, o candidato Sérgio Cabral O evento foi promovido pela Associados pela Adepol, o candidato do PDT, Carexpõe suas propostas para a área de segurança pública. ção dos Delegados de Polícia do Estado los Lupi, defendeu uma mudança radido Rio de Janeiro-Adepol, visando a escal no modelo de seclarecer as categorias funcionais da área gurança pública adode seguirança acerca das políticas públicas tado nos últimos oito de segurança e especialmente sobre os anos: — Essa polítiplanos de carreira dos policiais. ca de confronto — Participaram do debate os candidatos marca registrada do Sérgio Cabral Filho, do PMDB; Carlos atual Governo — geLupi, do PDT; Eduardo Paes, do PSDB, ra uma violência sem e Vladimir Palmeira, PT. Marcelo Crivelimites. As baixas nas lla, do PL, avisou por meio de sua assescomunidades pobres soria de imprensa que não podia com— e dentro da própria parecer, porque tinha compromisso de Polícia — são absurcampanha em outro Município. Denidas. A política de sese Frossard, do PPS, em nota oficial, jusgurança tem que vatificou sua ausência dizendo que fora lorizar o ser humano, avisada por um grupo de delegados de tanto o irmão negro que o encontro seria uma armação para da favela quanto o beneficiar Sérgio Cabral. policial. O Senador Sérgio Cabral Filho foi o Carlos Lupi maniprimeiro a ser sabatinado e participou de festou o propósito de uma Mesa formada pelos Delegados criar um Conselho Wladimir Sérgio Reale, Presidente da AdeExecutivo de SeguEduardo Paes (lº à esq.) imagina um Secretário de Segurança com mandato fixo de três anos. Vladimir pol, e Ricardo Halack, Chefe de Polícia rança Pública, intePalmeira quer um Secretário escolhido na Polícia e honesto. Civil, Deputado Sivuca e ex-Prefeito de grado por profissioPiraí, Luiz Fernando Pezão, candidato a nais preparados tanVice-Governador na chapa do PMDB. Cacisaria de um contingente mínimo de 23 confronto; investir recursos na polícia to das forças policiais quanto da sociebral disse reconhecer que existe uma camil homens. Ele também criticou a potécnica e construir três presídios, um deles dade civil. O candidato reconhece que rência de efetivo de inslítica de segurança em vigor e destacou com regime disciplinar diferenciado, para as reivindicações salapetores da Polícia Civil, que a impunidade é a maior responsável criminosos de altíssima periculosidade. riais da categoria são que conta com 10 mil pelo estado de violência que gera impacto, justas — o policial flupoliciais, quando deveContra a discriminação dia-a-dia, com a marginalidade. minense, disse, recebe ria haver 23 mil: — GaO candidato do PT, Vladimir Palmei— O crime é um negócio lucrativo. O o pior salário do País — ranto que de início vara, destacou que a segurança é o tema Estado precisa ficar mais eficaz em suas e acha que a droga e a mos chegar a 15 mil, e o central de sua campanha. Ele considera forças policiais. Segurança pública não violência são os inimiprimeiro passo será a que o Estado perdeu o monopólio das aré uma tarefa de Governo, mas uma tagos a serem combaticonvocação dos 1.774 inmas, que passou a ser um privilégio da refa de Estado. Vou estabelecer que meu dos: — A população vestigadores concursacriminalidade, mas o policial também Secretário de Segurança tenha um manolha para a Polícia com dos que estão aguardanprecisa mudar seus hábitos: — É precidato inicial de três anos. Ele terá esse medo, o que comprova do nomeação. so cobrar um tratamento mais humano tempo para cumprir metas que levem em que a política de seguCabral garantiu tampara as minorias. As mulheres, os negros, conta a gestão e a competência. Cumrança pública está errabém que, se eleito, auos pobres e os homossexuais sofrem muipridas as metas, ele fica. Não cumprinda. O policial tem de ser mentará para 166 o núta discriminação. Quero uma Polícia de do, cai. A política de segurança deve ser um emissário da vida, mero de Delegacias Lequalidade. “despartidarizada” e perpassar governos: e não da morte. Precigais em todo o Estado Vladimir enfatizou que a vida humanão pode acabar a cada novo mandato. samos promover a ação (hoje são 89); reformuna vale muito pouco num Estado que Eduardo Paes disse que a corrupção integrada entre a PolíCarlos Lupi: O policial do lará o Instituto Médico privilegia a violência. E se revelou favoexiste, de forma tão intensa, tanto na cia Civil e a Polícia MiEstado do Rio percebe o pior Legal-IML; aparelhará a rável à unificação das Polícias, priorizanPolícia quanto na política. E dá como litar.. É fundamental salário do País. Polícia Técnica e trabado o caráter investigativo da Polícia Civil receita para esse mal o pagamento de metambém a captação de lhará pela integração e o comportamento preventivo da Polílhores salários e a motivação das forças verba federal. O Goverdas Polícias Civil e Militar: — Acho que cia Militar. O candidato pretende nomepoliciais: — Não vou tolerar a conivênno Federal tem uma dívida muito grana função policial deve ser exercida de maar um Secretário de Segurança que seja cia policial com o tráfico de drogas. Vade com este Estado. neira integrada, mas considero que as do ramo e honesto. E disse que não premos blindar as forças de segurança púPolícias Civil e Militar têm que ter indetende aumentar os efetivos das forças blica. Vamos ser cruéis e rápidos com os Secretário com mandato pendência, pois seus papéis são nítidos policiais antes de ouvir a categoria. maus policiais. É inadmissível que um Logo em seguida, foi a vez de Eduare claros. Cada um desses órgãos tem sua — Vocês sabem mais de segurança do agente público seja um delinqüente. do Paes discutir o tema. O candidato do função explícita na Constituição na gaque eu, mas, antes de tudo, quero uma O candidato prometeu ainda rever a PSDB lembrou que o efetivo da Polícia rantia da segurança pública, que é priopolícia de qualidade, e não de quantidade. atuação da Polícia Militar em ações de Civil é de 10.540 policiais, quando preJornal da AB ABII 311 Agosto de 2006

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A mesa da solenidade de posse: Hubert Alquéres, Paulo Skaf, Presidente da Fiesp, Maurício Azêdo, Audálio Dantas e Marcus Sinval, Secretário de Comunicação da Prefeitura de São Paulo, e Domingos Meirelles.

O O Presidente da ABI é cumprimentado pelo Prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Domingos Meirelles com Hubert Alquéres, Presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, que representou o Governador Cláudio Lembo, e Ana Maria Cerqueira Leite.

Em cerimônia realizada no Theatro São Pedro, com a presença de mais de 300 pessoas, o Presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azêdo, deu posse ao Conselho Consultivo da representação da entidade em São Paulo, o qual começou a atuar no dia 20 de agosto. ACONTECIMENTO

A ABI

Presidente da ABI, Maurício Azêdo, deu posse ao Conselho Consultivo da Representação da entidade em São Paulo, durante solenidade realizada no Theatro São Pedro, na noite do dia 20 de junho, com a presença de mais de 300 pessoas. O Conselho tem como Presidente de Honra o Arcebispo Emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. A Representação é dirigida pelo VicePresidente da ABI, Audálio Dantas, ex-Presidente do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo e da Federação Nacional dos JornalistasFenaj. A cerimônia foi conduzida por Paulo Markun, apresentador do programa Roda Viva, da TV Cultura, e a mesa, além de Maurício Azêdo e Audálio Dantas, contou com a presença de Paulo Skaf, Presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo-Fiesp; Marcus Sinval, Secretário de Comunicação da Prefeitura de São Paulo; Hubert Alquéres, Presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, representando o Governador Cláudio Lembo; Domingos Meirelles, Diretor Econômico-Financeiro da ABI; e José Augusto Camargo, o Guto, Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. O Prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, compareceu ao início da cerimônia e indicou seu Secretário de Comunicação para representá-lo. Após a abertura, com a execução do Hino Nacional pelo pianista Arthur Moreira Lima, Audálio Dantas agradeceu a presença de muitos companheiros da imprensa, grande parte dos quais associados à ABI em 1975, quando buscavam apoio para defender a profissão e como forma de ampliar a resistência às arbitrariedades da ditadura. Audálio revelou que, ao aceitar o convite para o cargo de Vice-Presidente da ABI, uma das primeiras propostas postas em discussão foi que a entidade deveria voltar a ter uma Representação em São Paulo: — Não é porque agora vivemos em plena liberdade de imprensa que vamos esquecer os crimes praticados contra a nossa categoria e contra toda a sociedade. A violência, hoje, atinge aqueles que não têm voz e vivem em situação de miséria. Defender os direitos desta população é uma das preocupações da ABI — destacou. Lembrando a histórica luta da ABI em prol da liberdade de imprensa e contra os regimes ditatoriais, Audálio salientou que a entidade reúne jornalistas, mas está com os olhos volta-

dos para todos os problemas da sociedade: — Agora, que vivemos sob um regime democrático, devemos voltar nosso olhar para conquistas inerentes aos direitos humanos e melhoria da qualidade de vida dos brasileiros. Formalizando a Representação paulista, com a posse de seus integrantes, Maurício Azêdo disse em seu discurso que “com este sopro de estímulo, a entidade recebe mais uma força para continuar suas lutas”. Ele acrescentou que a ABI empreende um grande esforço de renovação e, além de cumprir seus objetivos fundamentais, que são os de defesa da liberdade de imprensa e dos direitos humanos, promove cursos que abrangem os diversos setores da atividade jornalística e tem como uma de suas principais preocupações contribuir para o aperfeiçoamento do ensino do Jornalismo no País. Em nome dos Conselheiros empossados, o Professor José Marques de Melo, titular da Cátedra Unesco/Umesp de Comunicação, disse que uma das propostas que serão consideradas pela ABI-SP em sua linha de ação deverá ser a de repensar o ensino do Jornalismo em São Paulo e no Brasil: — Vivemos um período de crise no ensino da profissão. São mais de 300 instituições no País, mas a qualidade vem caindo muito. A ABI deve pensar em como influir positivamente nesse cenário. O Conselho Consultivo da Representação da ABI em São Paulo é constituído por profissionais que representam os diversos setores do jornalismo do Estado, além de representantes de universidades e dos estudantes de Comunicação. Dom Paulo Evaristo Arns, seu Presidente de Honra, gravou mensagem apresentada num vídeo que resume a história da ABI. Em sua mensagem ele diz: “Considero a volta da ABI a São Paulo um ato de justiça. Nós vamos participar de toda a demanda de comunicação do País, através desta Representação.” A festa — encerrada com apresentações musicais do jornalista Luís Nassif e do grupo Choro Rasgado, do pianista Arthur Moreira Lima e do cantor e compositor Renato Teixeira — contou com o patrocínio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, do Theatro São Pedro, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, da Ricardo Viveiros Oficina de Comunicação e do portal Jornalistas & Companhia.

VOLTA A SÃO PAULO FOTOS DE C ACALO KFOURI

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“A virada começou aqui, em 1975” A saudação do Presidente da ABI no ato do Theatro São Pedro.

A noite de festa da reabertura da ABI-SP No alto: Paulo Markun apresenta a solenidade, na qual o Professor José Marques de Mello (ao centro) discursou em nome do Conselho Consultivo da Representação, dirigida por Audálio Dantas , Vice-Presidente da ABI (à direita). Ao lado, Arthur Moreira Lima, que executou peças de, entre outros, Chopin, Beethoven e Radamés Gnatalli, além da Fantasia do Hino Nacional Brasileiro, de Gottschalk.

Renato Teixeira (acima) e Luis Nacif e seu conjunto Choro Rasgado (abaixo) deram recital na cerimônia. O jornalista Frederico Pessoa da Silva cumprimenta Audálio Dantas.

“É com grande alegria e justificada emoção que a Associação Brasileira de Imprensa participa deste ato de restabelecimento da sua Representação em São Paulo, porque ele proporciona à nossa Casa o reencontro com um dos maiores momentos da História da ABI, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e da comunidade jornalística de todo o País. Foi aqui em São Paulo que, sob a liderança firme e serena de nosso querido Audálio Dantas, os jornalistas brasileiros opuseram o não mais vigoroso à ditadura militar, ao expressar em palavras e atos, em outubro de 1975, o seu repúdio àquela ignomínia que foi o assassinato do nosso companheiro Vladimir Herzog nas masmorras do DOI-Codi. A ABI e o Sindicato dos Jornalistas cresceram na expressão do sentimento nacional de repúdio à ditadura, que a partir de então sofreu reveses continuados, que culminaram com a anistia, a eleição de um civil para a Presidência da República, pondo termo ao rodízio no poder dos generais de quatro estrelas, e, por fim, a convocação e a instalação da Assembléia Nacional Constituinte, que instituiu o Estado Democrático de Direito no País. Tal como o Sindicato de São Paulo, a ABI evoca com emoção e orgulho aqueles dias. Longe de intimidar os jornalistas, a brutalidade e o terror da ditadura nos impeliram a uma arregimentação e mobilização sem precedentes, para a resistência afinal vitoriosa. Entre a imolação de Vlado, no fim de 1975, e o fim de 1976, a ABI obteve somente na capital paulista a adesão ao seu quadro social de cerca de 600 jornalistas, num trabalho a que se dedicaram com eficaz esforço, entre outros, nossos companheiros José Eduardo de Faro Freire e Lia Ribeiro Dias, aos quais não cansamos de prestar reverência e homenagens. Não se desconhece que ao longo desta caminhada tivemos também demorado período com a apagada e vil tristeza de que falara o poeta Luís de Camões, com a Representação da ABI empalmada por aventureiros, por gente sem escrúpulo de que agora nos libertamos, mais uma vez sob a liderança do nosso Audálio Dantas, Vice-Presidente da ABI e Presidente da Representação que este ato magnífico celebra. Ao saudar os companheiros de São Paulo, as instituições e autoridades desta terra generosa, a Diretoria da ABI sente-se confortada em verificar que a nossa Casa, a Casa de Prudente de Moraes neto e de Barbosa Lima

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Presidente de Honra: Dom Paulo Evaristo Arns Cardeal Emérito de São Paulo

Membros: Alberto Dines Diretor do Observatório da Imprensa

Carlos Marchi Redator de O Estado de S.Paulo

Eduardo Ribeiro Diretor de Jornalistas & Cia.

Egydio Coelho da Silva Presidente da Associação dos Jornais de Bairro de São Paulo

Gioconda Bordon Apresentadora da Rádio Cultura de São Paulo

José Marques de Melo Diretor Titular da Cátedra Unesco/Umesp de Comunicação

Laurindo Leal Filho Professor da Escola de Comunicações e Artes da USP Apresentador do programa Ver TV, da TV Câmara

Leandro Buarque Estudante de Jornalismo/ Faculdade Cásper Libero

Manoel Carlos Chaparro Professor de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes – USP

Ricardo Viveiros

Eduardo Ribeiro, Egydio, Sérgio Gomes, Marchi, Viveiros, Gioconda, Maurício, Laurindo, Audálio, Marques de Melo e Leandro Buarque.

Jornalista e escritor Especialista em comunicação empresarial

Um Conselho de notável expressão

Diretor da Oboré Projetos Especiais em Comunicações e Artes

Sérgio Gomes da Silva

Após a instalação solene de sua Representação no Estado, numa noite de gala no Theatro São Pedro, a Casa promoveu a primeira reunião de seu Conselho Consultivo constituído por profissionais da maior expressão no jornalismo, no magistério de Comunicação e em comunicação empresarial. Carlos Marchi foi eleito Presidente do Conselho Consultivo da Representação, liderada por Audálio Dantas. O jornalista Carlos Marchi, redator do Estadão, foi eleito no dia 8 de agosto Presidente do Conselho Consultivo da Representação da ABI em São Paulo. Como Vice-Presidente foi empossado Ricardo Viveiros, Diretor da Ricardo Viveiros Oficina de Comunicação. Gio-

conda Bordon, apresentadora da Rádio Cultura de São Paulo, assumiu a Secretaria-Geral. O ato contou com a presença do Presidente da ABI, Maurício Azêdo — que destacou a representatividade do Conselho e a importância do restabelecimento da Representação paulista da Casa —, do Vice-Presidente, Audálio Dantas, e de todos os integrantes do Conselho. Entre os assuntos tratados, destacamse a deliberação de que as reuniões do Conselho acontecerão sempre na primeira quarta-feira de cada mês; a instalação de uma agenda de gravação de depoimentos de jornalistas do Estado de São Paulo; a representação da ABI em conselhos públicos e de organizações da sociedade

As mensagens de cumprimentos e aplausos Muitas congratulações foram enviadas à ABI pela reabertura da Representação em São Paulo. Seguem-se trechos de algumas das mensagens recebidas. “A TV Cidade Taubaté parabeniza os novos Diretores da Representação da ABI em São Paulo e deseja pleno sucesso em sua gestão.”(Jefferson Mello, Diretor-Presidente da TV Cidade Taubaté) “Um grande abraço e sucesso para a nossa ABI. Estarei à disposição para qualquer evento que precisar da minha ajuda. Força!”(Marcelo Beraba, Presidente da Abraji-Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) “Um abraço meu em todo mundo. Boa sorte a todos, contem comigo!” (Ricardo Kotscho, jornalista e escritor) “Quero consignar a enorme satisfação em saber que o nosso Estado de São Paulo poderá contar com Representação tão honrosa como a da ABI, conduzida por você, meu amigo Audálio (Dantas), que representa e sempre representará tudo de mais ético e digno no jornalismo brasileiro. Desejo muitas felicidades e sucesso nessa empreitada.” (Professor Anderson Fazoli, da Universidade São Judas Tadeu) “Colegas jornalistas da ABI, cordiais saudações. Ao ensejo da inauguração da Representação da ABI em São Paulo, aproveito o ensejo para desejar sucesso à solenidade e êxito no desempenho da sua nobre finalidade em nossa capital. Em nome da minha assessoria e da Associação Paulista de Imprensa, da qual sou Secretário, apresento nossas sinceras felicitações.” (Eduardo Monteiro, Diretor-Secretário da Associação Paulista de Imprensa-API)

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“Gostei muito, muitíssimo, da solenidade de instalação da ABI em São Paulo. Tenho certeza de que, com Audálio na ABI-SP, uma nova frente de lutas ressurgirá, revivendo aquelas encetadas contra a ditadura, agora contra a corrupção e pela moralização no exercício da vida pública. Haveremos de estancar tamanha depravação desses que chegaram ao poder e dele estão se locupletando. Moralizaremos sim, ainda que seja preciso exterminar corruptos.” (Oswaldo Catan, advogado) “É um privilégio tê-lo (Audálio Dantas) conhecido e quero parabenizar pelo esforço desta nova empreitada. E me pôr à disposição para colaborar no que me for possível.” (Cildo Oliveira, artista plástico) “Fizeram muito bem em confiar ao colega da UBE este alto encargo, pois todos os que o conhecem participam da certeza de que a ABI estará muitíssimo bem representada e terá vida de real interesse intelectual e prático sob seu comando.” (Yara Stein, Diretora da UBE-União Brasileira de Escritores) “Salve mais essa jornada que o grande batalhador e amigo empreende: a de presidir e de reinaugurar a ABI paulista, da qual já fiz parte em período em que ela esteve pouco inspirada e pouco recomendada... infelizmente! Agora, com esse time de Conselheiros, certamente o renascer será para valer, para a boa luta e para muitas glórias.” (Marco Antonio Rocha, editorialista do jornal Estado de S. Paulo) “Em nome do Excelentíssimo Senhor Secretário de Estado da Cultura de São Paulo, Doutor João Batista de Andrade, agradecemos o convite para a solenidade que marcará a abertura de sua Representação em São Paulo (...). Impossibilitado de comparecer e não

civil; a campanha para filiação de novos associados; e a participação na Comissão Organizadora do Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos 2006. Para Audálio Dantas, um dos principais objetivos da Representação da ABI em São Paulo é trabalhar pela garantia da liberdade de imprensa e formular propostas que atendam aos anseios do setor de comunicação social do Estado de maneira geral e ampliação das ações da ABI: — Também pretendemos que a ABI tenha representação em diversos setores da sociedade civil, como os conselhos locais de Justiça e Paz, de direitos humanos e de formação profissional.

Sobre a idéia de registrar depoimentos de jornalistas paulistas, ele diz: — A partir da gravação de entrevistas com importantes profissionais da imprensa paulista, vamos criar um banco de dados que será a memória do jornalismo no Estado. Informou Audálio que a ABI já faz parte do Comitê Organizador do Prêmio Vladimir Herzog, mas deseja estender sua participação no evento, atuando em todas as etapas da sua organização. E já tem uma proposta para as faculdades de Jornalismo: — Vamos propor que no dia 25 de outubro sejam suspensas as atividades no campus e os alunos sejam levados à entrega do prêmio, que nesse caso seria uma espécie de aula magna.

podendo deixar de responder a tão honroso convite, indica para representá-lo o Senhor Dirceu Rodrigues, Coordenador de Imprensa desta Pasta. Na oportunidade, formulamos votos de pleno êxito na realização do evento e reiteramos nossas expressões da mais elevada estima e consideração.” (Marialice Cerello, da Chefia do Cerimonial e Relações Públicas)

em São Paulo, (...) na impossibilidade de comparecer, aproveito o ensejo para cumprimentá—lo e parabenizar seu novo Conselho Consultivo, que ora será empossado.” (Alberto José Macedo Filho, Secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo)

“Impossibilitado de comparecer devido a compromissos anteriormente assumidos, espero que o evento tenha sido coroado de pleno êxito.” (Ricardo Trípoli, Deputado estadual) “Impossibilitado de comparecer à abertura da Representação da ABI em São Paulo, agradeço a lembrança de meu nome, parabenizando-o pela iniciativa, augurando sucesso ao evento.” (Marquinho Tortorello, Deputado estadual) “Com meus cumprimentos, (...) agradeço a gentileza, porém compromissos profissionais assumidos anteriormente impediram o meu comparecimento.” (Vanderlei Macris, Deputado estadual) “Venho agradecer imensamente o convite para participar da solenidade no dia 20 de junho. Mas, devido a compromissos anteriormente agendados, não foi possível a participação.” (Maria Almeida, Deputada estadual) “Cumprimento a iniciativa honrosa da abertura de Representação da prestigiosa entidade em São Paulo.” (Pedro Tobias, Deputado estadual) “Atendendo à determinação do Senhor Secretário de Estado da Saúde de São Paulo, Doutor Luiz Roberto Barradas Barata, agradeço, em nome de Sua Excelência, o envio do convite para participar da cerimônia de inauguração da Associação Brasileira de Imprensa em São Paulo.” (Vanessa Silva Pinto, Assessora de Relações Públicas) “Honrado em receber seu convite para participar da abertura da Representação da ABI

“Em nome do Senhor Governador Cláudio Lembo, agradeço o honroso convite para a abertura da Representação da Associação Brasileira de Imprensa em São Paulo, às 19h30 do dia 20 de junho, e comunico que o Dr. Hubert Alquéres, Presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, o representará no referido evento.” (Hélcio Dallari Júnior, Secretário particular do Governador) “Foi com satisfação que recebemos o convite para participar da abertura da Representação da ABI em São Paulo. (...) Queremos registrar nossos sinceros cumprimentos, estando certos de que o evento será revestido de pleno êxito.” (José Caldini Crespo, Deputado estadual) “Em nome do Senhor Presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Vereador Roberto Tripoli, agradecemos o recebimento do honroso convite para a abertura da Representação da Associação Brasileira de Imprensa em São Paulo. (...) Impossibilitado de comparecer em razão de compromissos agendados anteriormente, o Presidente da Câmara deseja pleno êxito ao evento.” (Lucia de Souza Rego, Chefe do Cerimonial) “Sirvo-me do presente para congratular-me com Vossa Senhoria pela abertura de Representação da ABI em São Paulo e pela posse do Conselho Consultivo. (...) Infelizmente compromissos assumidos anteriormente impediram minha presença.” (Ricardo Montoro, Vereador) “Agradeço o convite e aproveitando o ensejo desejo muito sucesso ao evento e sorte nesta nova caminhada.” (Wadih Mutran, Vereador)


VIOLÊNCIA

O CASO DO SEQÜESTRO A VIDA DO REPÓRTER NA BERLINDA O seqüestro do jornalista Guilherme Portanova e do auxiliar técnico Alexandre Coelho Calado, quando lanchavam num bar nas proximidades da emissora, na cidade de São Paulo, na pacata manhã de um sábado, dia 12 de agosto, agravou a continuada crise nos altos escalões da segurança pública do Estado, gerou desconforto e intranqüilidade nos núcleos de direção da emissora, que para saber como agir consultou até empresas do exterior especializadas em segurança, e provocou debate em torno de uma questão que, como neste episódio, tem de ser decidida em poucas horas: exigências de seqüestradores do gênero da que foi feita devem ser atendidas, para “não abrir precedente”, ou se deve pagar o preço da negativa, à custa do sacrifício de uma vida – uma vida alheia, a da pessoa aprisionada? A Rede Globo preferiu o primeiro caminho e pôs no ar um vídeo produzido pelos seqüestradores, que tinham o objetivo político da chamar a atenção para as condições dos presídios do Estado de São Paulo, que aliás não diferem, em termos de precariedade e de indignidade, da dos demais Estados do País. Essa tomada de posição da emissora não foi acatada por todos os setores, e até

DIVULGAÇÃO

Divulgação do vídeo exigida pelos criminosos salvou a vida do jornalista Guilherme Portanova, repórter da Rede Globo de Televisão, seqüestrado com o auxiliar técnico Alexandre Coelho Calado, que, libertado antes, transmitiu a exigência dos seqüestradores. A decisão da Globo, porém, encontrou opositores: houve quem entendesse que a exigência não deveria ser atendida, para “não criar precedente”. A ABI apoiou o comportamento que preservou a vida de Portanova.

mesmo na imprensa. Em editorial na primeira página, sob o título A vez dos jornalistas, dois dias após o seqüestro, o Jornal do Brasil censurou a decisão da Rede Globo. “Lastimavelmente – disse o editorial – a Globo curvou-se à imposição. O JB não negocia com delinqüentes. Prefere exigir que as autoridades cumpram seu dever, até porque a vez do Executivo não vai demorar”.” Em extensa declaração que emitiu na segunda-feira 14 e que ganhou grande relevo na edição da terçafeira 15 de agosto da Folha de S. Paulo, a ABI salientou que a Rede Globo “procedeu de forma adequada” ao atender à exigência dos seqüestradores, pois optou “por preservar o bem mais importante, qual seja a vida do jovem Guilherme Portanova”. A nota detém-se na análise de questões suscitadas pelo episódio e que têm claro conteúdo político. E frisa: “Questões políticas se resolvem com decisões e ações políticas, e não com a gendarmeria”. O seqüestro provocou também a mobilização de entidades da área de comunicação, que o analisaram do ponto de vista do interesse do conjunto da sociedade, e não sob uma angulação meramente corporativa dos jornalistas e dos veículos de comunicação.

“Enquanto eles disputam, o crime ferve” Declaração da ABI denuncia a falta de integração das autoridades de diferentes níveis da Federação em relação à segurança pública e ao combate à criminalidade. “1. A Associação Brasileira de Imprensa manifesta sua extrema preocupação com o episódio do seqüestro em São Paulo, no sábado 12 de agosto, de dois funcionários da Rede Globo de Televisão, o repórter Guilherme Portanova e o auxiliar técnico Alexandre Calado, o qual constitui grave ofensa ao livre exercício da atividade profissional de jornalista, submete um órgão de comunicação a exigências indevidas e gera intranqüilidade entre os integrantes da comunidade jornalística em todo o País. A ABI recebeu com alívio a notícia

da libertação de Calado, na noite de sábado, e de Portanova, na primeira hora desta segunda-feira, dia 14, e se sentiu confortada em saber que, afora o pesado trauma por ambos sofrido, esses dois profissionais não tiveram seqüelas físicas de monta. 2. A ABI considera que a Rede Globo de Televisão procedeu de forma adequada ao atender à exigência de divulgação de um dvd com uma gravação de um autodeclarado integrante do chamado Primeiro Comando da Capital-PCC, a qual constituiria con-

dição essencial para a libertação de Guilherme Portanova, após a liberação de Calado, portador da peça. Diante do dilema em que foi posta, o de proteger a incolumidade física e a vida de seu repórter ou recusar a divulgação exigida e expor a risco o jornalista, por considerar ilegítima tal exigência, a emissora preferiu a primeira hipótese, optando por preservar o bem mais importante, qual seja a vida do jovem Guilherme Portanova. Antes de decidir pela transmissão da gravação, no âmbito do Estado de São Paulo, a Rede Glo-

bo de Televisão cercou-se de precauções e buscou aconselhamentos, como a exibição do dvd às autoridades policiais de São Paulo e consulta a organismo especializado do exterior a que é filiada. 3. Considera igualmente a ABI que, embora reprovável e lesiva ao Estado Democrático de Direito do País, que assegura a plenitude da liberdade de imprensa, a exigência dos seqüestradores de Portanova e Calado põe em relevo questões que estão a demandar a Continua na próxima página

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VIOLÊNCIA

atenção das autoridades dos três Poderes da República e dos Estados, especialmente o de São Paulo, já que são insuficientes as medidas adotadas desde o começo do ano, quando se instaurou a atual crise, para o restabelecimento dos níveis de segurança e de tranqüilidade públicas no Estado de São Paulo. Em vez de medidas efetivas que conduzam a esses objetivos de interesse social, a sociedade assiste a torneios verbais e disputas políticas entre autoridades federais, nomeadamente o Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, e representantes do Governo do Estado de São Paulo, especialmente o Secretário de Segurança Pública Saulo de Abreu, que não promovem a integração necessária para a superação da crise. Enquanto eles disputam, o crime ferve. 4. Sem que este entendimento represente uma atribuição de legitimidade aos autores do seqüestro e responsáveis pela gravação divulgada, a ABI considera que as autoridades da União e do Estado de São Paulo têm que oferecer respostas a pontos referidos naquele comunicado, como a falta de assistência médica e jurídica a milhares de presos que não contam com trabalho nem escola, a necessidade de um mutirão judicial que reconheça a situação processual favorável de inúmeros sentenciados, a humanização das prisões. Merece igual reflexão o Regime Disciplinar Diferenciado, instituído pela Lei nº 10.792/ 2003, um estatuto jurídico de promoção da loucura. 5. Todas essas questões foram objeto de exame e discussão pela ABI na reunião de seu Conselho Deliberativo de maio passado, na qual, por proposta dos Conselheiros Audálio Dantas, seu Vice-Presidente, e Mário Augusto Jakobskind, a Casa decidiu concentrar suas atenções na denúncia das condições do sistema penitenciário, por reconhecer que este reproduz em escala dez vezes maior, em relação aos presos comuns, as agressões aos direitos humanos dos presos políticos que marcaram os anos 60 e 70 no País. 6. A ABI considera necessário e inadiável proclamar alto e bom som que a situação do sistema penitenciário no País não é uma questão policial, que possa ser enfrentada da forma como entendem algumas autoridades do Estado de São Paulo. Como advertiram naquele mês de maio juristas de São Paulo e do Rio de Janeiro em histórica declaração a que a ABI deu a sua adesão, não é com truculência que se resolverá a crise de barbárie com que nos defrontamos. Esta é uma questão política, uma questão de direitos humanos, uma questão de íntima vinculação com o Estado Democrático de Direito instituído pela Constituição de 5 de outubro de 1988. Questões políticas se resolvem com decisões e ações políticas, e não com a gendarmeria. Rio de Janeiro, 14 de agosto de 2006. (a) Maurício Azêdo, Presidente.” 24

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O abraço de solidariedade do PSB e da Deputada

A ABI recebeu mensagens de solidariedade diante do sequestro de Portanova e Calado, entre as quais uma do Presidente do Partido Socialista Brasileiro, Roberto Amaral, e outra da Deputada Telma de Souza (PT-SP). Dizem as mensagens: Do PSB “Receba meu abraço pessoal e a solidariedade do Partido Socialista Brasileiro diante do crime hediondo e covarde de que foram vítimas o jornalista Guilherme Portanova e o assistente Alexandre Calado. Vítimas são todos os jornalistas brasileiros e atingida frontalmente foi a democracia, que não

sobrevive sem imprensa livre. Cordialmente (a) Roberto Amaral, Presidente nacional do PSB em exercício.” Da Deputada Telma “Quero manifestar minha profunda solidariedade aos jornalistas e demais profissionais e às suas empresas de comunicação, em relação aos fatos que se desenrolaram desde a manhã de sábado, dia 12, quando do seqüestro de dois profissionais da Rede Globo de Televisão, em São Paulo, até sua libertação do cativeiro nesta segunda, dia 14. Entendo que preservar a vida do repórter Guilherme Portanova era a

atitude mais sensata a ser tomada e, nesse sentido, me solidarizo com a decisão da emissora em transmitir o vídeo dos seqüestradores. Reconheço a gravidade do precedente aberto, que amplia o risco ao livre exercício do direito de informar e ser informado. O episódio atingiu a todos os brasileiros. Me coloco à disposição dos senhores para as ações e medidas que possamos encaminhar no sentido de pôr fim ao quadro agudo de insegurança. Atenciosamente, Telma de Souza, Deputada Federal PT/SP.”

É preciso garantir a segurança de todos os cidadãos Entidades sediadas ou com atuação em São Paulo reúnem-se após o seqüestro e reclamam segurança para todos os segmentos da sociedade, e não apenas para os jornalistas. Preocupadas com a gravidade da violência de que foram vítimas Portanova e Calado, entidades da área de comunicação com sede ou atuação em São Paulo realizaram uma reunião para discutir a questão e examinar que providências devem ser reclamadas do Poder Público para garantir o livre exercício da atividade jornalística e a integridade dos profissionais. A ABI foi representada no encontro pelo seu Vice-Presidente Audálio Dantas, que é também Presidente da Representação da Casa em São Paulo. As entidades firmaram então a seguinte declaração, na qual reclamam segurança não apenas para os jornalistas, mas para todos os cidadãos: “Entidades representativas de diversos setores da comunicação social reuniram-se nesta quinta-feira, 15, no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, para debater a questão da insegurança social que atingiu gravemente a liberdade do exercício profissional dos jornalistas, com o seqüestro do repórter Guilherme Portanova e do radialista Alexandre Calado, da TV Globo–SP, no último dia 12. Ao condenar o ato de violência cometido por organização criminosa que há meses, em repetidas ações, vem afrontando o poder público, as entidades afirmam que o Estado se mostra incapaz de cumprir suas funções de garantir a segurança dos cidadãos e chamam a aten-

ção para a situação de insegurança que atinge de modo indiscriminado a todos os cidadãos — e não apenas aos jornalistas. As entidades presentes, assim como outros segmentos representativos da comunicação social, exigem a completa apuração do fato e a condenação dos culpados. Conclamam também a sociedade a se organizar no sentido de exigir do Poder Público medidas efetivas para o estabelecimento de uma política nacional de segurança, unindo esforços para superar este quadro de intranqüilidade, preservando-se os direitos de cidadania, ou seja, atuando no estrito campo democrático. Esta postura não se deve ao fato, certamente muito grave, de que profissionais de imprensa tenham sido alvo de uma ação criminosa, mas sim de reconhecer que é necessária uma mudança de postura do Governo e da sociedade diante da escalada da violência. Uma política de segurança não pode ser implementada sem a adoção de medidas que impliquem em profundas mudanças no sistema carcerário do País, a começar pelas condições vergonhosas em que são mantidas centenas de milhares de presos, em estabelecimentos superlotados. Essa situação, sem dúvida, atenta contra os direitos humanos, constitui um verdadeiro caldo de cultura para o crescimento das organizações criminosas que operam dentro dos presídios, aproveitando a revolta de presos primá-

OS SIGNATÁRIOS Assinaram a declaração as seguintes entidades: Associação Brasileira de Imprensa-ABI Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo-Abraji Associação dos Cartunistas do Brasil-ACB Associação dos Correspondentes Estrangeiros em São Paulo-ACE Associação dos Jornalistas Profissionais Aposentados no Estado de São Paulo-Ajaesp Associação Paulista de Imprensa-API Associação de Propriedade Intelectual do Jornalista-Apijor Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos-SP-Arfoc Associação da Imprensa Italiana no Brasil-Asib Federação Nacional dos Jornalistas-Fenaj Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo-Sisp

rios que, sem outras perspectivas, terminam engrossando as fileiras do crime organizado. Uma verdadeira política de segurança não pode desconhecer as raízes históricas da violência e da exclusão no Brasil. Visando à superação deste quadro, é condição necessária para a construção de uma política pública o entendimento de que o combate ao crime não se resume à simples repressão policial, que muitas vezes atinge cidadãos inocentes, principalmente dos setores mais pobres da população. Tampouco a situação será resolvida apenas com a construção de mais presídios ou o aumento do contingente policial. Tornam-se necessárias medidas de longo prazo, visando à busca do pleno emprego e um forte investimento em educação e cultura, assim como o estabelecimento de condições dignas de vida. Às camadas oprimidas devem ser assegurados os direitos sociais e criados canais para sua expressão, sob pena de excluirmos grande contingente da população do pleno acesso à cidadania. Neste aspecto, as empresas e os profissionais da mídia têm um papel estratégico. O direito à informação deve ser preservado, uma vez que ele é fundamental para a superação da insegurança social. Mas a ausência ou a omissão de informação podem ser tão nefastas quanto a veiculação de informações sensacionalistas e distorcidas. É preciso que se atente às distorções da programação policial de televisão e de rádio, que, em nome do combate ao crime, não faz mais do que promover a violência. Os meios de comunicação, assim como os profissionais que neles atuam, têm o dever de informar ao cidadão com ética e responsabilidade social. Cabe ao Poder Público, e também às empresas do setor, garantir o livre exercício da profissão aos jornalistas e aos comunicadores em geral e oferecer condições adequadas para que estes possam executar seu trabalho em segurança”.


Liberdade de imprensa

U MA V I R O S E ANTI I M P R E N S A A aproximação da campanha eleitoral e, depois, o começo desta aguçaram os conflitos entre candidatos e partidos e os meios de comunicação, que nunca enfrentaram tantas restrições como as que marcam os confrontos políticos deste ano. Para agravar essas limitações à liberdade de imprensa, juízes de primeira instância de diferentes Estados firmaram decisões impondo censura prévia a vários veículos, numa demonstração de que desconhecem a Constituição da República e seu artigo 220, que veda expressamente “toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. Entre julho e agosto a ABI foi chamada a intervir numa série de ocorrências relacionadas com a liberdade de imprensa, que passou a enfrentar graves restrições em diferentes pontos do País, em razão do aghuçamento dos conflitos entre candidatos e partidos políticos, de um lado, e os meios de comunicação, de outro. Em grande parte dos casos as restrições foram impostas pelo Poder Judiciário, povoado por juízes, principalmente na primeira instância, que desconhecem as disposições da Constituição da República relacionadas com a liberdade de manifestação do pensamento, de criação, de expressão e de informação, assegurada pelo artigo 220 da Carta Magna. Mesmo em altas instâncias do Poder Judiciário, como o Tribunal Superior Eleitoral, a compreensão dessa liberdade foi anuviada por paixões políticas, como se deu no caso da Revista do Brasil, publicação lançada pela Central Única dos Trabalhadores-Cut e numeroso grupo de sindicatos de trabalhadores de São Paulo, a qual foi impugnada pela coligação partidária da candidatura Geraldo Alckmin, que considerou o veículo instrumento de propaganda eleitoral da candidatura Lula. Felizmente para os editores da publicação, a proibição de sua circulação pelo TSE ocorreu quando se esgotara a edição inaugural da publicação, mas seu efeito se prolongou no tempo por inibir a produção de outras edições. As tropelias contra o direito de informação e de opinião encontraram um capítulo denso em Mato Grosso do Sul, onde o principal veículo impresso do Estado, o Correio do Estado, foi proibido de publicar informações sobre processos relacionados com irregularidades de um administrador municipal alçado à condição de candidato a Governador. Numa prova de submissão da Justiça a interesses políticos determinados, esse mesmo candidato obteve aval judicial para fazer uma diligência nesse jornal em busca de documentos por este levantados que pudessem

ser utilizados em textos jornalísticos que afetassem o seu capital eleitoral. No novel Estado do Tocantins, o instrumento de limitação à liberdade de imprensa estava sediado no próprio Ministério Público, onde um promotor denunciado pelo jornal Primeira Página requereu diligência para saber se o jornal é legal ou clandestino, informação que justificaria a suspensão de sua edição e circulação, como pretendia o ilustre demandante. Caracterizada a hipótese que alvitrou, queria o promotor a “imediata apreensão de toda e qualquer edição que vier a circular”. Os fastos deste momento de adversidaades da imprensa mo País registram protagonistas e motivações de variada natureza. Em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, um juiz veda a publicação de qualquer fato relacionado com um processo em tramitação em sua Vara. No Rio, é a Comissão de Valores Mobiliários-CVM, órgão do Governo da União, que pretende impedir a publicação de orientações sobre as ações oferecidas na bolsa respectiva. Ainda no Rio, são elementos não identificados que tentam silenciar à custa de ameaças uma repórter, Maria Mazzei, que denunciou na série de reportagens Máfia dos Corpos os negócios escusos que se fazem com cadáveres. Também no Rio ocorre uma tentativa singular de rolha: as vítimas são remadores de clubes desportivos locais, ameaçados de processo por divulgarem numa publicação modesta e de circulação reduzida que há nepotismo na Confederação Brasileira de Remo. Para culminar, o Presidente da Confederação Brasileira de Futebol-CBF, Ricardo Teixeira, obteve na Justiça, à guisa de indenização moral, uma reparação pecuniária de R$ 9 mil do jornalista Walter Mattos Júnior por um artigo publicado em 2005 em O Globo e republicado no diário esportivo Lance!, de propriedade de Mattos Júnior. Teixeira processou apenas Mattos Júnior e seu jornal e poupou O Globo das inconveniências de uma demanda judicial. São essas trepidantes questões que veremos a seguir.

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Liberdade de Imprensa

Promotor queria fechar jornal no Tocantins Com o apoio do colega do Ministério Público, ele queria declarar a publicação clandestina, para assim justificar sua interdição. O Promotor Público Marco Antônio Alves Bezerra, do Estado do Tocantins, moveu ação criminal por calúnia contra Sandra Miranda de Oliveira Silva, dona e Diretora do jornal Primeira Página, de Palmas, e o Ministério Público local ameaçou suspender todas as suas edições caso o veículo continuasse a ser publicado. O motivo da ação foi uma matéria que, supostamente, relatava que Marco Bezerra teria sido promovido a Promotor de Justiça por apadrinhamento do pai do Governador do Estado, Marcelo Miranda. A medida judicial foi acolhida pelo Promotor Adriano César Pereira das Neves, que, entre outras diligências, requereu a verificação do registro do Primeira Página no Cartório de Registro de Títulos e Documentos, alegando que, se for “reconhecida a clandestinidade do referido jornal”, será requerida a “imediata apreensão de toda e qualquer edição que vier a circular”. A declaração de Marco Bezerra de que o Primeira Página é um jornal clandestino foi considerada por Sandra Miranda como um ato que demonstra “especial apreço pelos tempos em que a imprensa era censurada e torturas e mortes, inclusive de jornalistas, ocorriam nos porões da ditadura militar”.

Sandra diz que o Primeira Página tem cadastro na Junta Comercial e inscrição no CNPJ e que a Associação Nacional de Jornais-ANJ informou que um periódico pode ser uma sociedade comercial ou civil (como está previsto na Lei de Imprensa, art. 3º, inciso 3). Sendo assim, como sociedade comercial, para ser considerado legalizado o veículo só precisa estar registrado na Junta Comercial; como sociedade civil, denominada sociedade simples, basta que esteja registrado no Cartório de Registro de Pessoas Jurídicas. Não são necessários os dois registros. Fundado em 10 de novembro de 1985, o Primeira Página circula em cerca de 70 Municípios tocantinenses e é distribuído no Senado e na Câmara dos Deputados, em Brasília. De acordo com sua proprietária, nos últimos anos o diário adotou uma linha independente e vem “publicando matérias de denúncias”. Em resposta a e-mail enviado por Sandra, dando conta da ação judicial movida pelo Procurador Marco Bezerra, a ABI enviou mensagemà Direção do jornal afirmando que a “intenção do Senhor Marco Antônio Alves Bezerra constitui grave violação da liberdade de imprensa”.

Mensagem A mensagem enviada pela ABI à Diretora do Primeira Página tem o seguinte teor: “Estimada Sandra Miranda de Oliveira Silva, A ABI recebeu com grande preocupação seu e-mail de 18 de agosto corrente, no qual Você dá conta da ação judicial movida pelo Promotor Público Marco Antônio Alves Bezerra, o qual, além de querer condená-la por crime de calúnia, pretende suspender a publicação do jornal Primeira Página ou, se este continuar sendo editado, apreender todas as suas edições. Considera a ABI que essa intenção do Senhor Marco Antônio Alves Bezerra constitui grave violação da liberdade de imprensa. Por esse motivo, estamos noticiando a pretensão dele no site da ABI, por se tratar de ameaça que atinge toda a imprensa do País e o conjunto da comunidade jornalística. Entende a ABI que Você deve contratar imediatamente um advogado que promova a sua defesa e barre no nascedouro essa tentativa de silenciar um jornal que circula há mais de 20 anos. Peço-lhe a gentileza de nos manter informados sobre a evolução do processo na 1ª. Vara Criminal do Estado do Tocantins e sobre todas as iniciativas que forem adotadas em sua defesa e em defesa do jornal. Peço-lhe também que nos remeta pelo Correio exemplar da edição de hoje, dia 21, do Primeira Página, com o noticiário acerca dessa pretensão do Promotor Marco Antônio. Cordialmente (a) Maurício Azêdo, Presidente da ABI.”

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Máfia dos Corpos ameaça jornalista A ABI pede proteção para a repórter Maria Mazzei, de O Dia, alvo de represálias de criminosos por ela denunciados. A ABI enviou ofícios à Governadora Rosinha Garotinho e ao Secretário de Segurança Pública do Estado do Rio, Delegado Roberto Precioso, pedindo proteção para a jornalista Maria Mazzei, repórter de O Dia., que passou a receber ameaças de criminosos denunciados em reportagens em que ela mostrou as entranhas de um negócio sinistro: a comercialização de cadáveres. Logo após a publicação das matérias e durante meses, Maria Mazzei recebeu ameaças dos envolvidos na Máfia dos Corpos, título de sua série de reportagens. Tanto a Governadora como o Secretário garantiram à ABI que foram adotadas medidas para a proteção do jornalista. Os autores das ameaças, porém, não foram identificados. Precioso informou que também o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro pediu proteção para a repórter, em audiência concedida ao Presidente do Sindicato, jornalista Aziz Filho. A seguir, as intervenções da ABI: 1. O apelo à Gover nadora Governadora “Senhora Governadora, Encarecemos a intervenção direta de Vossa Excelência junto às autoridades da Secretaria de Segurança Pública do Estado visando à proteção da jornalista Maria Mazzei, de O Dia, e de sua família, em face das ameaças que ela vem recebendo há meses por ter denunciado em reportagens publicadas por esse jornal a chamada Máfia dos Corpos, integrada por pessoas que comercializam com cadáveres recolhidos ao Instituto MédicoLegal. Em comunicado divulgado em 22 de agosto corrente, a Direção de O Dia revelou que a jornalista Maria Mazzei e um dos seus parentes continuam a receber ameaças mais de três meses após a divulgação da primeira das reportagens, porque se mostraram ineficazes as investigações realizadas pela Secretaria de Segurança do Estado para identificação dos autores das ameaças e sua responsabilização penal. O jornal adotou medidas para a proteção da repórter Maria Mazzei e sua família, mas as autoridades da segurança não revelaram a mesma eficiência nas diligências e investigações que realizaram ou deveriam ter realizado para neutralização e punição desse grupo criminoso. Daí a razão, Senhora Governadora, de nos dirigirmos diretamente a Vossa Excelência para postular sua intervenção junto à Secretaria de Estado de Segurança Pública para que atue no caso com uma eficácia até agora não obtida. No ensejo, apresento-lhe as expressões do nosso renovado apreço. Cordialmente residente” (a) Maurício Azêdo, P Presidente”

2. O pedido ao Secretário “Senhor Secretário, Encareço o empenho pessoal de Vossa Excelência com o objetivo de dar eficácia às investigações para identificação dos autores das ameaças à jornalista Maria Mazzei, de O Dia, e sua responsabilização penal, em face de não terem cessado as ameaças por ela recebidas pela publicação da série de reportagens sobre a Máfia dos Corpos. A esse respeito dirigimos à Senhora Governadora Rosinha Garotinho o ofício de que estamos anexando cópia, no qual solicitamos que Sua Excelência manifeste à Secretaria de Segurança Pública seu interesse em que cessem as ameaças a essa jornalista e sejam identificados os autores dos atos que a mantêm intranqüila, juntamente com sua família, e a impedem de exercer com segurança sua atividade profissional. No ensejo, apresento-lhe as expressões do nosso elevado apreço. Cordialmente residente” (a) Maurício Azêdo, P Presidente”

Secretário providencia proteção Informado por ofício do Presidente da ABI acerca das intimidações sofridas pela repórter Maria Mazzei, do jornal O Dia, o Secretário de Estado de Segurança Pública, Roberto Precioso, encaminhou ofício à Associação, afirmando ter providenciado a “imediata segurança pessoal da jornalista e de sua família, além da instauração de inquérito policial com o objetivo de identificar — com rigor e rapidez nas investigações — a autoria do crime de ameaça”. Roberto Precioso afirmou ainda ter recebido em audiência no dia 30 de agosto o Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro, Aziz Filho, e a jornalista Suzana Tavares Blass, do Conselho Fiscal da entidade, e também profissionais do jornal O Dia. O Secretário revelou que o Sindicato será o canal entre a Polícia e a imprensa para o envio de informações sobre o andamento das investigações.


Justiça de Mato Grosso do Sul decide:

É PROIBIDO NOTICIAR CORRUPÇÃO Principal jornal do Estado só pode falar bem de um dos candidatos a Governador; se falar mal, o jornal é multado e seus jornalistas se expõem ao risco de prisão. A jornalista Ester Figueiredo Gameiro, Diretora do Correio do Estado, diário de Campo Grande, MS, encaminhou à ABI e-mail em que denuncia a violação à liberdade de imprensa no Estado. Revelou Ester que um juiz proibiu o jornal de publicar matérias sobre investigações de corrupção na administração do ex-Prefeito André Puccinelli, pré-candidato do PMDB a Governador. André Puccinelli, diz a mensagem, tem conseguido freqüentemente direito de resposta a todas as matérias publicadas no jornal, mesmo aquelas baseadas em pareceres do Ministério Público Federal e da Controladoria-Geral da União. Ester explica que o jornal não consegue efeito suspensivo da concessão do direito de resposta, o que “constitui uma violação ao dispositivo constitucional que assegura o amplo direito de defesa e do contraditório”. Diz a jornalista que, por se tratar de André Puccinelli, a Justiça preferiu calar o jornal e todas as decisões ameaçam o uso da força policial e de prisão para quem ousar protelar a publicação do direito de resposta. Ester denuncia também que o ex-Prefeito pediu autorização judicial para invadir a Redação e buscar documentos que possam incriEm sua edição de 1º de agosto (à esq.), o Correio criticou em editorial (Pancadaria Verbal) a declaração de Puccinelli a empresários de que tratará com rigor famílias acampadas, não titubeando em deixá-las sem ajuda alimentar.

miná-lo. Ela informa que o ex-Prefeito afirma que as matérias são resultado de campanha difamatória promovida pelo jornalista Antonio João Hugo Rodrigues, acionista do Grupo Correio do Estado e Presidente do PTB-MS.

DIVULGAÇÃO

A DENÚNCIA bunal de Justiça. Como André é Esta é a íntegra da mensagem amigo do Presidente do TJ/MS, dirigida por Ester Gameiro à ABI: Desembargador Claudionor Mi“Caro colega, guel Abss Duarte, o jornal não Sou jornalista e Diretora do consegue efeito suspensivo da Correio do Estado, jornal sediado concessão do direito de resposta. em Campo Grande, que compleÉ uma violação ao dispositivo constou 52 anos, líder da preferência titucional que assegura o amplo do leitor e o único que circula em direito de defesa e do contraditótodos os Municípios de Mato rio. Aliás, a decisão está contrariGrosso do Sul. Queremos pedir ando os seus próprios julgados ano seu apoio para combater a flateriores que garantiam o efeito susgrante violação à liberdade de impensivo de todos os pedidos de diprensa que vem acontecendo em reito de resposta. Mas por se traMato Grosso do Sul. Aqui, o Juiz tar de André Puccinelli, a Justiça José Ale Ahmad Netto, da 6ª Vara preferiu calar o jornal. E em todas Criminal da Comarca de Campo as decisões, falam do uso da força Grande, proibiu o jornal de pupolicial e de prisão para quem oublicar matérias sobre investigasar protelar a publicação do direições de corrupção na administrato de resposta. ção do ex-Prefeito André PucciAndré pediu também autorinelli, hoje pré-candidato do zação da Justiça para ‘invadir ’ a PMDB a Governador. Só é permiDiretora do Correio do Estado, a jornalista Ester Redação. Isto mesmo! Invadir a tido falar bem. Se falar mal, o jorGameiro diz que ocorrem em Mato Grosso do Sul nal será multado e os jornalistas atos de fazer inveja aos do tempo do regime militar. Redação para buscar documentos que possam incriminá-lo. Veja e seus diretores correm o sério só que situação estamos vivenrisco de serem presos. do aqui! Não é de fazer inveja aos atos que a ditadura André Puccinelli tem conseguido freqüentemente o direito militar produziu?... de resposta a todas as matérias publicadas no jornal. E são O Correio do Estado é o único jornal independente aqui matérias baseadas em pareceres do Ministério Público Feem Mato Grosso do Sul, que não precisa de verbas do deral, da Controladoria-Geral da União e inclusive de puPoder Público para sobreviver. Por isto, tem a liberdade blicações reproduzidas por nós de outros jornais. Mas os para mostrar as mazelas do Governo do Estado, das auseus ‘direitos de respostas’, em vez de responder às denúntoridades legislativas e municipais. O preço desta indecias, atacam o jornal, seus diretores e jornalistas. pendência tem sido inúmeros processos daqueles que se A Juíza Cíntia Letteriello, da 4ª Vara Criminal de Camjulgam donos do poder, inclusive do atual Governador, po Grande, determinou que o jornal publicasse num só José Orcírio Miranda dos Santos, mais conhecido como dia, terça-feira, 23, quatro ‘direitos de resposta, inclusive Zeca do PT. no espaço destinado ao editorial’. O absurdo é que até para Vale ressaltar que o ex-Prefeito André insiste em afirmatéria sobre adiamento de julgamento de processo por mar que as matérias são frutos de campanha difamatória abuso de poder econômico no Tribunal Superior Eleitoarmada pelo jornalista Antônio João Hugo Rodrigues, ral-TSE foi dado o direito de resposta, por ser considerada acionista do Grupo Correio do Estado, Presidente do PTBofensiva. De ofensiva não tinha nada, apenas informava MS, e que recentemente, como suplente, assumiu a vaga o adiamento de um julgamento. Caso queira, confira no deixada por Delcídio do Amaral, que vai concorrer ao site www.correiodoestado.com.br. Governo de MS. No entanto, Antônio João se afastou das Outro absurdo é o direito de resposta, também conceempresas e está licenciado do cargo de Diretor-Presidente dido pela Dra. Cíntia Letteriello, sobre matéria que abordo Grupo desde o final de 2005, para atuar na política. dava manobras do advogado de André Puccinelli para adiar Podemos garantir que todas as matérias têm sido elao julgamento do processo no TSE. Em vez de explicar, André boradas dentro dos critérios éticos que regem o trabalho usou o espaço concedido pela digníssima Juíza para atado bom jornalista. Diante do exposto, contamos com o car o jornal. seu precioso apoio e antecipamos agradecimentos pela atenPelo fato de hoje estar bem nas pesquisas para futuro ção, colocando-nos à disposição para qualquer informaGovernador do MS, André tem conseguido ‘convencer ’ ção que se fizer necessária.” a Justiça. Todos os recursos feitos por nós param no Tri-

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Liberdade de imprensa

Revista de Tribunal Federal põe em debate a relação com a mídia As relações do Poder Judiciário com a imprensa foram o tema da principal reportagem da edição nº 60 (julho a setembro de 2006) da revista Habeas Data, publicação do Tribunal Regional Federal da 2ª Região. Chamado a opinar sobre o assunto, o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, disse que há um avanço no diálogo do Poder Judiciário com os meios de comunicação, “embora algumas decisões judiciais ainda colidam com a liberdade de imprensa, assegurada pela Constituição Federal de 1988”. Outros pontos importantes foram apontados pelo Presidente da ABI, como o esforço do Poder Judiciário, em todas as instâncias, de tornar a Justiça mais transparente em suas decisões: — O Poder Judiciário tem sido muito questionado nos últimos anos, e até por uma questão de autodefesa tem procurado reduzir, em suas sentenças, o uso de linguagem de difícil compreensão, o chamado “juridiquês”. Maurício Azêdo lembrou também que em algumas situações a decisão dos magistrados fere o princípio da liberdade de imprensa:

— Temos assistido à atuação de alguns juízes, principalmente na primeira instância, em que há decisões que determinam proibição de publicação de matérias, o que corresponde à censura prévia, expressamente vedada pela Constituição, em seu artigo 220. O recente caso da prisão do jornalista José Arimatéia de Azevedo — cujo portal que mantinha na internet foi interditado pela Justiça — foi citado pelo Presidente da ABI: — Ele só foi libertado porque o então Presidente do Superior Tribunal de Justiça, Ministro Edson Vidigal, proferiu no caso uma decisão (classsificada pela ABI de histórica) em que ele diz que no regime democrático o jornalista não pode ser preso pelo que fala ou escreve; jornal não pode ser proibido de denunciar nada, não pode também ser fechado, interditado ou apreendido, porque quem quer que tenha queixas ou reclamações a fazer em relação à imprensa

Revista do Brasil é censurada peloTSE no primeiro número O Tribunal confunde texto jornalístico com propaganda eleitoral, sustenta a ABI ao protestar contra a decisão. Em declaração emitida em 9 de agosto, a ABI manifestou seu “grande desconforto” e “extrema preocupação” com a decisão do Tribunal Superior Eleitoral que proibiu a distribuição da Revista do Brasil, editada pela Direção Regional de São Paulo da Central Única dos Trabalhadores-Cut e 21 sindicatos de trabalhadores do Estado. A publicação, ano 1, número 1, maio de 2006, foi punida sob a alegação de que fez propaganda eleitoral negativa de um dos candidatos à Presidência da República, Geraldo Alckmin. A declaração da ABI diz que a decisão do TSE é inconstitucional e anti-histórica. A intervenção da ABI foi solicitada a seu Presidente, Maurício Azêdo, pelos diretores da Revista do Brasil, José Lopes Feijó e Luiz Cláudio Marcolino, em 28

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reunião realizada na sede da Representação da ABI em São Paulo. Maurício comparecera à sede paulista da ABI para participar da reunião de instalação do Conselho Consultivo da Representação, instalada oficialmente em 20 de junho passado. O texto da declaração foi lido pelo Vice-Presidente da ABI e Presidente da Representação de São Paulo, Audálio Dantas, em ato público de protesto contra a decisão do TSE realizado no começo da tarde daquele dia em frente à Câmara Municipal de São Paulo. Intitulada Decisão do TSE preocupa a ABI, a declaração tem o seguinte teor: ‘“A Associação Brasileira de Imprensa recebeu com grande desconforto e extrema preocupação a decisão do Tribunal Superior Eleitoral que proibiu a dis-

tem a legislação a que pode recorrer e ir ao tribunais do País. De acordo com a Habeas Data, durante um seminário no TRF, em 2005, o Ministro Vidigal se disse favorável ao estreitamento de relações entre a imprensa e o Poder Judiciário e comentou que “há uma resistência recíproca entre juízes e jornalistas”: — Os primeiros são resistentes por temerem distorções, más interpretações e superexposições. Já os jornalistas que cobrem o Judiciário receiam não ter a suficiente base técnico-teórica para escrever sobre o assunto e acabar tendo de se retratar publicamente. Na matéria da revista, a apresentadora da TV Tribuna de Pernambuco Jaqueline Araújo ressalta que acha “imprescindível que se aprimore a troca de informações entre o Poder Judiciário e a imprensa”. Segundo ela, deve haver mais discussão sobre a obrigatoriedade que o Judiciário tem, como Poder Público, de dar publicidade de seus atos,

tribuição da Revista do Brasil, ano 1, número 1, maio de 2006, publicação editada pela Regional de São Paulo da Central Única dos Trabalhadores-Cut e por 21 sindicatos de trabalhadores do Estado. Além de vedar a distribuição da publicação por meios tradicionais, o TSE proibiu sua reprodução na internet. No entender do TSE, a publicação promoveu propaganda eleitoral negativa em prejuízo de um dos candidatos à Presidência da República, Geraldo Alckmin. A decisão foi adotada em 26 de julho passado com base em sustentação firmada pelo Ministro Carlos Alberto Menezes Direito, relator da representação formulada pela Coligação Por um Brasil Decente, que apóia a candidatura Alckmin. Considera a ABI que essa decisão constitui uma grave restrição à liberdade de manifestação do pensamento assegurada pela Constituição em seu artigo 220 e parágrafos e subordina as disposições constitucionais relacionadas com a liberdade de imprensa à legislação eleitoral, que não pode sobrepor-se ao estabelecido na Carta Maior da República. A decisão peca também por confundir texto jornalístico com propaganda eleitoral e, ainda, por estender além do estabelecido na própria legislação eleitoral o prazo em que se

JORGE CAMPOS/ACS-STJ

Chamada a opinar, a ABI diz que muitos juízes de primeira instância ignoram as disposições da Constituição

O Ministro Edson Vidigal ganhou a capa da revista Habeas Data por sua sentença histórica: Jornalista não pode ser preso pelo que escreve ou fala.

“a fim de não ferir a necessidade de resguardar o segredo de Justiça e a privacidade de terceiros”. E concluiu: — Temos que questionar até que ponto a supremacia do interesse público deve se sobrepor ao direito à intimidade.

veda a propaganda eleitoral positiva ou negativa. Como os partidos definem seus candidatos muito antes da realização de suas convenções, escolhendoos sob o eufemismo de pré-candidatos, a decisão do TSE prorroga por tempo muito anterior às convenções eleitorais o prazo de propaganda eleitoral. Entende a ABI, igualmente, que a decisão do TSE está na contramão da História da Imprensa no Brasil, que é pródiga em exemplos de periódicos criados especialmente para participação em campanhas políticas que precedem às campanhas eleitorais propriamente ditas. Não pode ser ignorado pela Justiça Eleitoral que dois dos mais prestigiosos e influentes periódicos criados no Brasil, o Diário de Notícias e o Diário Carioca, foram editados para participar das lutas políticas da sucessão presidencial de 1930, nas quais se engajaram todos os jornais importantes do País, fato que também não pode ser desconhecido pelo TSE. A decisão do TSE é, pois, anti-histórica e contribui para a despolitização da campanha eleitoral, que constitui, ao lado da violação da liberdade da imprensa, o maior dano ao regime democrático no País. Rio de Janeiro, 9 de agosto de 2006. (a) Maurício Azêdo, Presidente”


Juiz impõe censura prévia a jornal paulista ABI discorda da constitucionalidade da medida judicial e acha que veículo deve recorrer da decisão. Paulo Sérgio Romero Vicente Rodrigues, Juiz da 4ª Vara Cível de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, impôs censura prévia ao jornal local Bom Dia, proibindo-o de publicar qualquer fato relativo aos autores de uma ação cautelar impetrada naquele juízo, bem como “qualquer fato alusivo à investigação criminal” enquanto os demandantes forem apenas suspeitos. Em ofício à Direção do Bom Dia (transcrito abaixo), a ABI sugeriu que o jornal recorra da decisão do Juiz Vicente Rodrigues, pois a censura prévia por ele determinada colide com o artigo 220 da Constituição da República e seus parágrafos. Em despacho, Romero Vicente Rodrigues sustenta que “não se justifica divulgar investigações” antes do reconhecimento da denúncia em processo crime. A decisão foi comunicada ao jornal Bom Dia em ofício do seguinte teor: “Atendendo ao que foi requerido nos autos da Ação Cautelar requerida por Mauro Fileto e Maria Aparecida Tartaglia Fileto, em face de jornal Bom Dia Rio Preto e Edmilson Zanetti (Processo nº 1495/2006 – 4º Ofício Cível), com o presente determino a Vossa Senhoria que abstenham-se de publicar qualquer fato referente a Mauro Fileto a Maria Aparecida Tartaglia Fileto, porque não são suspeitos de nenhum crime, bem como se abstenham de publicar qualquer fato alusivo a investigação criminal, enquanto Mauro César Fileto ou Mauro Fileto Filho for meramente suspeito, ou seja, enquanto não houver processo crime, tudo de conformidade com o que foi deliberado nos autos pelo r. despacho de fls. 20, cuja cópia segue anexo.” (sic) ABI questiona Inteirada da decisão judicial, a ABI encaminhou à Redação do Bom Dia o seguinte ofício, assinado pelo Presidente da entidade, Maurício Azêdo: “Recebemos o texto do ofício encaminhado à direção do jornal Bom Dia pelo Juiz de Direito Paulo Sérgio Romero Vicente Rodrigues, titular da 4ª. Vara Cível da Comarca de São José do Rio Preto, bem com a íntegra do despacho exarado por esse eminente magistrado no Processo nº 1.495/ 2006, relativo à Ação Cautelar ajuizada por Mauro Fileto e Maria Aparecida Tartaglia Fileto. Em nosso entendimento, a direção de Bom Dia deve recorrer dessa decisão, que se nos afigura de discutível constitucionalidade, porquanto impõe a esse jornal uma censura prévia, ao proibi-lo de divulgar ‘qualquer fato’ referente aos autores da Ação e à investigação criminal em curso, colidindo assim com o art. 220 da Constituição da República e seus parágrafos. Peço-lhes a gentileza de nos manter informados sobre a evolução do caso e especialmente sobre eventual recurso que Bom Dia venha a ajuizar.”

NEM O REMO ESCAPA DA AMEAÇA DE ROLHA A ABI recebeu denúncia do remador Lucas Assis. atleta do Clube de Regatas Vasco da Gama, de que foi ameaçado de processo e de medidas disciplinares por tornar públicas práticas irregulares na Confederação Brasileira de RemoCBR. Disse o remador que o Presidente da CBR, Rodney Bernardes de Araújo, há dez anos à frente da entidade, preocupa-se apenas com a manutenção de seu cargo, “em detrimento de políticas que beneficiem aqueles que representa: os remadores de todo o País”. Com o remador do Botafogo de Futebol e Regatas Vítor Vieira, Lucas criou o boletim Remando,

distribuído a cada etapa do Campeonato Estadual, no qual denunciou a prática de nepotismo na CBR, pois “um dos auxiliares técnicos é filho do Presidente da Confederação (...) e não é formado em Educação Física”. Revelou Lucas que após a denúncia a CBR “ventilou que entrará em breve na Justiça comum e no Tribunal Desportivo” contra os autores do jornal. O Presidente da ABI respondeu à mensagem de Lucas Assis orientando-o a contratar um advogado ou recorrer à Defensoria Pública, caso a CBR adote qualquer procedimento contra o jornal. No e-mail de resposta, Maurício Azêdo pede também que a ABI seja informada sobre a evolução do caso, “por envolver o exercício da liberdade de imprensa”.

UM ARTIGO DE JUCA KFOURI

Entre o Direito e a Justiça Indignado com a decisão da Justiça, que condenou o Presidente de Lance!, Walter de Mattos Júnior, a pagar R$ 9 mil de indenização por dano moral a Ricardo Teixeira, Presidente da Confederação Brasileira de Futebol-CBF, em virtude de um artigo publicado naquele jornal, o jornalista Juca Kfouri enviou mensagem à ABI, pedindo solidariedade a Mattos Júnior. Com o e-mail, ele mandou o texto que escreveu para a Folha de S. Paulo sobre o que classifica de “infame condenação”. Revelou Kfouri que o Diretor de Lance! “está constrangido em se movimentar em ‘causa própria’ — o que, evidentemente, não é o caso” e “a brava ABI precisa gritar”. É o que a ABI faz agora, publicando o texto do artigo de Kfouri, divulgado pela Folha em 14 de agosto. ”O Brasil justo não será construído se o Judiciário suscitar tantas desconfianças em seus julgamentos ’TEU DEVER é lutar pelo Direito. Mas no dia em que encontrares o Direito em conflito com a Justiça, luta pela Justiça.’* A frase é do professor de Direito do Largo de São Francisco, o saudoso André Franco Montoro, combatente dos mais ardorosos pela redemocratização do Brasil e dos mais limpos e eficazes governadores de São Paulo. É uma frase irretocável, que cai como luva para abrir o raciocínio que segue abaixo, com o correspondente pedido de desculpas ao leitor que esperava ler aqui o comentário sobre a rodada que manteve o São Paulo na liderança. Mas não dá. Não dá diante da condenação do editor e presidente do diário Lance!, Walter de Mattos Jr., em primeira instância, pelo Juiz da 45ª Vara Civil do Rio Janeiro. Ele foi condenado a pagar indenização de R$ 9.000 a Ricardo Teixeira por causa de um artigo que escreveu, em 31 de julho de 2005, para o jornal O Globo e republicado pelo diário Lance!. No artigo, com absoluto equilíbrio, lamenta-se a impunidade da cartolagem do futebol diante de tudo que foi denunciado por duas CPIs no Congresso Nacional. O punido, embora ainda caiba recurso, foi, mais uma vez, quem exerceu o sagrado direito da crítica e não quem descumpre as leis vigentes no País. Curiosamente, aliás, Teixeira não processou O Globo, que publicou originalmente o artigo, mas, apenas, Mattos e o Lance!. Fosse a condenação uma exceção e já seria gravíssimo. Infelizmente, porém, tem sido a norma, muito porque o Judiciário parece querer se vingar da imprensa que, ainda bem, vem há tempos revelando como andam mal as coisas no chamado Terceiro Poder. E não é preciso ir ao Estado de Rondônia, onde o Presidente do Tribunal de Justiça está preso por envolvimen-

to com venda de sentenças, para fazer a constatação. São raros os Estados, na verdade, em que não há casos semelhantes, e, particularmente no Rio, a promiscuidade é tamanha que não são poucos os membros do Judiciário que viajam à custa de entidades privadas, por exemplo, como a CBF, principalmente nas Copas do Mundo, fato fartamente noticiado desde a Copa de 1990. Nem por isso os que se deliciam em hotéis cinco estrelas se dão por impedidos de julgar casos da CBF ou de seu presidente, o grande promotor das mordomias. Se alguém com o espaço que Mattos tem para espernear é vítima de tamanha injustiça, imagine-se o cidadão comum, que não pode se queixar nem para o bispo. A Associação Brasileira de Imprensa-ABI e a Associação Nacional de Jornais-ANJ não podem ficar silentes diante de tais atentados à liberdade de imprensa. Porque tudo faz parte da desconstrução do Brasil que os homens de bem querem edificar. Filho de promotor público, este colunista jamais se esquecerá do que ouviu de seu pai pouco antes de este se aposentar, desiludido com a aplicação da Justiça no País e com o sistema penitenciário. ‘Meu filho, fique o mais longe que puder dos Fóruns e delegacias. Procure evitá-los até como testemunha. Porque eu sei como é feito o direito no Brasil.’ A história já fez justiça a Franco Montoro e tem dado razão ao procurador de Justiça Carlos Alberto Gouvêa Kfouri, meu pai. Sem dúvida, fará justiça também à luta que travam homens como Walter de Mattos Jr. Mas, neste caso, a que preço? Ao preço da intimidação, do sentimento de impotência e da pior das sensações que é a que sente a vítima de uma injustiça?”

* Na verdade a frase é do do jurista uruguaio Eduardo Couture e foi citada por André Franco Montoro em sua obra jurídica. A correção foi feita pelo próprio Juca Kfouri em seu blog.

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Direitos humanos

A ABI aderiu à campanha desencadeada pelo Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos-Cebraspo pela libertação do camponês Wenderson Francisco dos Santos, o Russo, que foi preso em Rondônia em 2003, em regime fechado. O manifesto do Cebraspo conta com o apoio da Liga Operária de Rondônia, do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção de Belo Horizonte e Região Metropolitana, do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário de Belo Horizonte e de mais 88 organizações de diversos setores. Wenderson Francisco dos Santos foi preso juntamente com os colegas Edilberto “Caco” Resende da Silva e Joel “Garimpeiro” Gomes da Silva, membros da Liga dos Camponeses Pobres. Os três foram acusados pela morte de um pistoleiro, que supostamente trabalhava para o latifundiário Antônio Martins Santos. Antônio, conhecido como Galo Velho, é proprietário da Leme Empreendimentos, cujo envolvimento em grilagem de terras foi denunciado com a publicação do Livro Branco da Grilagem de Terra (Ministério do Desenvolvimento Agrário, 1999-2002). Em 4 de fevereiro do ano passado, a Juíza Fabíola Cristina Inocêncio, da 1ª Vara Criminal da Comarca de Jaru (RO), indeferiu requerimento do Ministério Público, que pedia a libertação de Russo. Como ele já cumpriu um terço da pena, o MP entendeu que ele já conquistou o direito à liberdade. Após intensa campanha de denúncias e mobilizações promovidas pela Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia, Caco e Joel foram libertados. Russo, no entanto, continua cumprindo pena na Penitenciária de Urso Branco, em Porto Velho, e, de acordo com o Cebraspo, “tem sido alvo de diversos atentados na cadeia”. A entidade divulgou também uma nota em que afirma que ele “teve que enfrentar as manobras do latifúndio, que, utilizando-se dos serviços da OAB de Rondônia, tentou confundi-lo a respeito da seriedade e lisura de seu defensor, o advogado Ermógenes Jacinto de Souza”. Este também foi alvo de sentença da Juíza, conforme noticiado no ABI Online.

Advogado de sem-teto pede solidariedade Durante a última reunião da Comissão de Defesa da Liberdade de Expressão e Direitos Humanos, em 31 de julho, na ABI, o advogado do Movimento dos Sem-Teto, André Luiz de Paula, encaminhou documento informando que são pacíficas as recentes atividades do grupo, incluindo a ocupação de um prédio localizado no Largo do Boticário. No documento, posteriormente enviado à Diretoria da ABI, o advogado pede solidariedade ao que classificou de ilegalidades cometidas contra o movimento. O jornalista Wilson de Carvalho, que integra a Comissão, propôs o apoio da ABI à Associação dos Auditores Fiscais do Trabalho, relatando que ainda não foram julgados os responsáveis pelas mortes dos auditores fiscais do Trabalho Erastóstenes Gonçalves, Nelson da Silva e João Batista Lage e do motorista Ailton de Oliveira, vítimas de uma emboscada, em 2004, quando investigavam denúncia de trabalho escravo em fazendas de Unaí, em Minas Gerais.

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POLÊMICA

ANTONIO CRUZ/ABR

Clamor pela libertação do líder camponês Wenderson

Conversor da tv digital é com Manaus, diz Furlan O Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, disse em 30 de agosto que, ao contrário do que vem anunciando publicamente o Ministro das Comunicações, Senador HélioCosta, os conversores para tv digital não serão considerados bens de informática. A informação foi divulgada pela Agência Brasil, que reproduziu a fala do Ministro Furlan, em Manaus, durante a 10ª Conferência Latino-Americana de Zonas Francas: — O setup box (aparelho que permitirá que os televisores atuais recebam o sinal digital) é um conversor para tv aberta. Portanto, faz parte da política de incentivos fiscais que abrange a Zona Franca de Manaus. A divergência entre os Ministros teve início pouco antes, no dia 15, quando Costa disse em Minas Gerais que os aparelhos conversores seriam considerados bens de informática. De acordo com a Agência Brasil, caso isso venha a acontecer, “qualquer Estado do País poderá produzir o setup box com incentivos fiscais garantidos pela Lei de Informática, em detrimento do Pólo Industrial de Manaus, que desfruta de vantagens comparativas exclusivas para a produção de televisores digitais”. O Ministro Furlan disse que é favorável à manutenção da situação atual, em que Manaus “tem direitos adquiridos e será protagonista nesse trabalho de

O Ministro Furlan contesta seu colega Hélio Costa: Nem sempre quem fala mais alto tem razão.

implantação da tv digital, com a produção de televisores e também com a produção dos conversores”. Ele adiantou que as outras regiões do País poderão produzir os conversores, “mas não terão igualdade dos benefícios válidos aqui (em Manaus)”: — Nem sempre quem fala mais alto tem razão. A responsabilidade por desenvolvimento, indústria e comércio é do nosso Ministério. Nestes quatro anos, nunca faltou apoio do Governo Federal ao Pólo Industrial de Manaus, e não faltará — disse o Ministro à Agência Brasil.

TRABALHO

A CRISE DA VARIG EM DEBATE Solidária com os trabalhadores da empresa, a ABI sedia assembléia em que eles discutem o futuro e as difículdades presentes: no dia da reunião os salários estavam atrasados há quatro meses. Aeronautas e aeroviários ligados ao Sindicato Nacional dos Aeroviários e ao grupo Trabalhadores do Grupo Varig-TGV — que reúne a Associação dos Comissários da Varig-Acvar, a Associação dos Pilotos da Varig-Apvar e a Associação dos Mecânicos da Varig-Amvar — realizaram em 26 de julho na ABI uma assembléiageral extraordinária para debater seu futuro na empresa, que fora comprada em leilão pela VarigLog, no dia 20, por US$ 24 milhões (R$ 52,3 milhões). A assembléia teve o apoio da ABI, que expressou sua solidariedade aos trabalhadores da Varig desde o agravamento da crise que o leilão ainda não solucionou de todo, foi presidida por Élnio Borges, representante do Sindicato dos Aeronautas, e aconteceu no Auditório Oscar Guanabarino. A Mesa que dirigiu os trabalhos teve também a participação de Reinaldo Filho, Presidente da Acvar, do jornalista e ex-Vereador Pedro Porfírio. do Deputado Babá (Psol-PA) e dos advogados Jorge Lobo e Sebastião Mota. Antes do início da reunião, Rodrigo Marocco, Presidente da Apvar, falou aos jornalistas: — Nós, aeroviários e aeronautas, viemos participar desta assembléia tendo em vista os procedimentos da compra da Varig através de um leilão, pela ameaça de desemprego que pode atingir cerca 8 mil funcionários. Viemos discutir também a nossa preocupação sobre de onde virão os recursos para pagar os salários atrasados e as obrigações trabalhistas e outras questões que não foram acatadas, como os critérios de demissões e contratações. O Deputado Babá fez duras críticas ao Governo, dizendo que este se omitiu na hora de achar uma solução que pudesse trazer benefícios aos trabalhadores: — Ele poderia ter mudado essa situação concedendo um

empréstimo à Varig, através do BNDES. Mas, ao invés disso, dificultou. Dizer que não poderia se comprometer na concessão do empréstimo para salvar a empresa é não ter coragem de enfrentar o grande capital. Élnio Borges disse que o novo ato da assembléiageral extraordinária do Sindicato Nacional dos Aeronautas, instalada nos dias 11 e 15 de outubro de 2005, foi convocado por determinação do Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro, com a finalidade de definir a instituição de uma Comissão Especial de apoio ao Sindicato. — A Comissão foi criada para tornar aquela assembléia permanente e representar os interesses dos trabalhadores aeronautas nos assuntos relativos à recuperação das empresas Varig, Rio-Sul e Nordeste. Para o comissário da Varig Cláudio Cardoso, o ponto crucial para os trabalhadores é a não contemplação das questões trabalhistas a que os funcionários têm direito: — Continuamos com vínculo empregatício com a empresa, mas há quatro meses não recebemos salário. Este nosso debate também é importante porque estamos abordando a sucessão, visto que a empresa tem agora um novo proprietário e queremos saber quem vai cumprir com as obrigações trabalhistas devidas aos funcionários. Durante a assembléia foi feito um balanço das conseqüências jurídicas ocorridas nas áreas trabalhista, previdenciária e empresarial e uma exposição das perspectivas, inclusive políticas, em relação à crise que atingiu a companhia. No final, a avaliação política dos aeronautas foi de que os trabalhadores vão tomar todas as medidas judiciais necessárias para garantir seus direitos e que atos como o realizado na ABI devem ser ampliados.


PRÊMIO

Domingos ganha o Jabuti 2006 de Ciências Humanas A 48ª edição do Prêmio Jabuti elegeu 1930: Os Órfãos da Revolução, de Domingos Meirelles, como o melhor livro de 2006 na categoria Ciências Humanas. Publicada pela Editora Record, a obra é um registro da trajetória dos tenentes da Coluna Prestes desde o exílio, em 1927, até o retorno clandestino ao Brasil para deflagrar o movimento que depôs Washington Luís. Meirelles, que é o apresentador do programa Linha Direta da Rede Globo de Televisão e é Diretor EconômicoFinanceiro da ABI, esclarece que a obra é uma continuação da história da Coluna Prestes, que ele começou a contar em As Noites das Grandes Fogueiras. 1930: Os Órfãos da Revolução é narrado com base em relatórios confidenciais do Itamarati, dos informes da Polícia Política do Rio de Janeiro e de correspondência diplomática do então Embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Edwin Morgan. Foi em Alegrete, Rio Grande do Sul, onde fora fazer palestras para estudantes de Jornalismo, que Domingos Meirelles recebeu a notícia da premi-

ação. Ele falou de sua satisfação com a obtenção do prêmio. — É muito chato falar sobre mim mesmo, até porque não me considero um escritor, mas recebi a notícia da premiação com muita alegria. O prêmio é um reconhecimento de todo o esforço e trabalho de pesquisa, que durou dez anos. Eu sempre digo que escrever é um ato de doação; ter sido agraciado com o Prêmio Jabuti compensa as noites maldormidas, as viagens ao exterior e a quantidade de documentos e jornais que tive que ler para realizar esse trabalho. Nascido no Rio de Janeiro, Domingos Meirelles ingressou no jornalismo em 1965, no jornal Última Hora, de Samuel Wainer. Passou pelas Redações de Veja, Realidade, Jornal da Tarde, O Globo e O Estado de S. Paulo e há dez anos é repórter especial da TV Globo. Em 1972, recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo pela edição especial da revist a Realidade sobre a Amazônia; em 1982 e 1992, ganhou o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos; em 1993, foi agraciado com o Prêmio Rei de Espanha de Televisão.

Domingos é cumprimentado por Osvaldo Siciliano, Presidente da Câmara Brasileira do Livro, que promove o conjunto de Prêmios Jabuti.

COMEMORAÇÃO

A revista Boa Vontade faz 50 anos de cara nova Criada pelo jornalista Alziro Zarur em julho de 1956, para falar das realizações da Legião da Boa Vontade, a publicação ganha edição especial de aniversário e novo visual. Lançada há 50 anos pela LeA revista tem uma tiragem gião da Boa Vontade-LBV, a rede 50 mil exemplares — metavista Boa Vontade está festejande distribuída por mala-direta; do seu jubileu de ouro com a outra vendida nos postos da novo visual. A edição de aniLBV em todo o País. Seu editorversário da publicação comeresponsável, Francisco Periotçou a circular no dia 14 de to, que é sócio da ABI, revela julho, com uma retrospectique a revista passou de 64 para va dos seus 50 anos de existên100 páginas em seu novo procia, que coincidem com o mesjeto gráfico. mo período de tempo que o PreEssa é terceira reformulação sidente da LBV, jornalista José gráfica implementada em Boa de Paiva Netto, faz parte da Vontade, que já foi Jornal da LBV instituição. e Revista da LBV: — Retornamos Boa Vontade foi fundada em ao título original — diz Francisco julho de 1956 pelo jornalista, Periotto — e mantivemos o escritor e poeta Alziro Zarur Boa Vontade: além de ganhar um visual mais atraente, a publicação padrão editorial de quando ela (l914-1979), com a proposta perdeu o tom religioso e se tornou um veículo para o grande público. foi lançada, bem como os temas de apresentar a prestação de de relevância do prisma do ecucontas das ações socioeducativas da LBV menismo irrestrito. Isso, juntamente com conceitos pioneiros da LBV, privilegiana seus colaboradores. Falava também de assuntos relacionados a arte, cultura, edudo a informação de qualidade, desafio que assuntos relacionados à infância — na cação e meio ambiente. se estabelece à pauta de cada edição”. seção Soldadinho de chumbo — e ao púPeriotto revelou que a edição comeAtualmente, Boa Vontade, que tem cirblico adulto, divulgando orações ecumêmorativa teve a preocupação de recapiculação nacional, sai pela Editora Elevanicas e notícias de interesse geral. tular importantes fases da história da LBV, ção, da Fundação José de Paiva Netto, com A primeira capa da revista foi ilustracomo a primeira reunião da entidade, que 15 seções fixas e aborda temas como eduda com uma imagem do Cristo Ecumêocorreu na sede da ABI: — A Associação cação, cultura, meio ambiente, esportes nico, anunciando a linha editorial da puBrasileira de Imprensa foi a primeira casa e espiritualidade, em matérias voltadas blicação, que pretendia oferecer uma leia abrir as portas para reuniões públicas para todas as idades, além de trazer sertura “bem diferenciada e inovadora”. A da Legião da Boa Vontade, criada por viços de utilidade pública, entrevistas, proposta editorial era “unir jornalismo aos Alziro Zarur em 1º de março de 1950. atualidades e notícias da LBV.

Os encontros começaram acontecendo na salão de reuniões do Conselho Administrativo da ABI, como o órgão então se chamava. Com o aumento da frequência de público, as reuniões foram transferidas para o Auditório Oscar Guanabarino, no nono andar do edifício-sede da instituição. Herbert Moses, então Presidente da Casa, ficou tão surpreso com o número de pessoas que passou a freqüentar as reuniões. Ele fez então o seguinte comentário: Zarur fez um verdadeiro milagre, juntando tantos inimigos cordiais na LBV. Produzida por uma equipe de 25 profissionais e colaboradores — entre eles Mário de Moraes, José Carlos Araújo e Carlos Arthur Pitombeira, Conselheiro da ABI —, Boa Vontade atende às necessidades de propagação dos ideais da LBV, buscando falar de valores, personalidades e organizações de destaque no cenário nacional: — Noticiamos tudo de relevante de organizações como a ABI e a Academia Brasileira de Letras e de personalidades que atuam no campo da pesquisa, mas o carro-chefe da revista são as palavras do Presidente Paiva Netto, sobre os acontecimentos de interesse e relevância para a sociedade de maneira geral — diz Periotto. Jornal da AB ABII 311 Agosto de 2006

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DOCUMENTO

As razões para o veto ao projeto de regulamentação da profissão de jornalista O texto da petição encaminhada pela ABI ao Presidente Lula pedindo-lhe que vetasse o PLC nº 79/2004, que introduzia modificações na legislação que regula o exercício da profissão.

E

m longo e minucioso expediente, com cerca de 80 linhas, a ABI pediu ao Presidente Lula que vetasse o Projeto de Lei Complementar n° 79/2004, de autoria do Deputado Pastor Amarildo (PSC-TO), em face daquilo que a entidade classifica de incoerências e incongruências do projeto. Diz a ABI que a proposta contém disposições absurdas, como a de criação da figura do Comentarista, que teria de sair de uma faculdade de Comunicação com saber enciclopédico. Além de encaminhar ao Presidente as conclusões de um estudo que fez a respeito do PLC, cujo prazo para sanção ou veto expirava no dia 28 de julho, a ABI firmou com outras entidades de profissionais e de empresas da área de comunicação um documento que pedia ao Presidente o veto total à proposição. Entre as instituições signatárias do memorial figuram a Associação Nacional de Jornais-ANJ, a Associação Nacional de Editores de Revistas-Aner e o Conselho Federal de Relações Públicas-Conferp. O expediente encaminhado pela ABI, datado de 17 de julho, tem o seguinte teor: “A Associação Brasileira de Imprensa dirige-se a Vossa Excelência para ponderar sobre as inconveniências da sanção do Projeto de Lei Complementar n° 79/2004, de autoria do Senhor Deputado Pastor Amarildo, o qual contém disposições que não podem encontrar abrigo na vontade presidencial. Entre essas inconveniências não são desprezíveis os erros de linguagem, como os que anotamos no inciso VI do art. 2° da nova redação que se pretende dar a essa disposição do Decreto-Lei n° 972, de 17 de outubro de 1969, assim como nos incisos V, a, e X do art. 4º desse diploma legal. Há na proposição erros decorrentes até de desatenção na elaboração legislativa, como visível na nova redação cogitada para o art. 6° do citado Decreto-Lei n° 972/69, que fala em “Coordenação de Revisão” (grifo nosso), quando o certo seria Coordenador. 2. COMO SE REDIGIDO POR pessoas sem qualquer conhecimento, mesmo que superficial, da realidade e do dia-a-dia das redações dos veículos de comunicação, o PLC 79/2004 intenta

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promover a invasão da organização interna dos núcleos de produção jornalística, ao delegar ou atribuir responsabilidades a figuras profissionais hoje inexistentes e cuja criação é instituída pelo texto pendente de sanção. É este o caso, na redação que se propõe para o art. 6° do Decreto-Lei n° 972/69, do Editor Responsável (inciso I), do Editor de Jornalismo (inciso II), do Subdiretor de Jornalismo (inciso III), do Coordenador de Reportagem (inciso IV), do Pauteiro (inciso V), da Coordenação de Revisão (sic; inciso VI), do Coordenador de Imagens (inciso VII), do Coordenador de Pesquisa (inciso IX), do Processador de Texto (inciso XIX), do Produtor Jornalístico (inciso XXIII). 3. ORA, É EVIDENTE QUE a atribuição de encargos aos profissionais referidos não pode decorrer de disposição legal, já que o exercício da função de Editor Responsável, por exemplo, deve corresponder, tanto quanto ao nível de qualificação do jornalista, ao grau de confiança que nele deposita a empresa para a qual trabalha. Tal se aplica também a outras figuras profissionais referidas no texto em exame, como Editor de Jornalismo, Coordenador de Reportagem, Coordenação de Revisão, Coordenador de Imagens, que serão definidos pela empresa considerandose tanto a competência dos jornalistas para exercerem tão relevantes encargos como a confiança que merecem da direção do veículo. 4. LONGE DE FAVORECER a categoria profissional dos jornalistas, que se presume seja um dos objetivos do projeto, a proposição cria dificuldades e embaraços à admissão de profissionais pelas empresas, até mesmo porque será reduzido o número de funções no âmbito destas que careçam de ocupação, como a de Editor Responsável. São conhecidos no meio jornalístico casos de profissionais desempregados que não conseguiram ou não conseguem realocação no mercado de trabalho por excederem em qualificação as exigências para admissão em funções de menor importância. “Eu não quero ser secretário do jornal, quero ser um redator comum”, disse certa feita um profissional a que se recusava vaga em

importante diário do Rio de Janeiro porque não havia vaga de secretário, função em cujo desempenho ele se tornara conhecido.

cação, especialmente o rádio e a televisão, recorrerem a especialistas para análise de questões que o veículo considere relevantes.

5. AS INCOERÊNCIAS e incongruências do PLC 79/2004 alcançam dimensão que se aproximam do ridículo, como ao prever, na nova redação proposta para o art. 6° do Decreto-Lei n° 972/69, a criação da figura do Subdiretor de Jornalismo, função que, como já referido, caberia a um profissional designado pela empresa. Pela proposta do ilustre Deputado Pastor Amarildo, a pessoa ingressaria numa faculdade de Comunicação Social para se qualificar não para o exercício da função de Diretor de Jornalismo, mas de Sub – Subdiretor, sub-raça, subprofissional. Seria cômico, se não fosse trágico, como é.

8. ALÉM DE IMPEDIR QUE, afora os profissionais já em atividade, cujos direitos adquiridos terão de ser respeitados, pessoas com notório saber em seus campos de atividade, como ex-jogadores, ex-treinadores e ex-árbitros de futebol, sejam chamadas a fazer comentários sobre suas especialidades, o PLC n° 79/2004 ignora a impossibilidade de formação universitária de profissionais sob a denominação genérica de Comentarista. Para se capacitar para o exercício de atividade de tão largo espectro num veículo de comunicação, o profissional teria de contar com uma formação de saber enciclopédico, o que demonstra a inconsistência e o despropósito da disposição proposta.

6. AO PONTIFICAR SOBRE SEARA que lhe é estranha, o autor da proposição deixa entrever que desconhece não apenas o cotidiano da vida interna dos órgãos de comunicação, mas igualmente a realidade das faculdades de Comunicação Social, que se pretende sobrecarregar com a obrigação de formar profissionais que prescindem de formação de nível superior, como é o caso, por exemplo, do Arquivista-Pesquisador, do Diagramador, do Assessor de Imprensa ou do Ilustrador. No caso do Arquivista, seja pesquisador ou não, já existe regulamentação legal específica, como lembrou o Presidente do Conselho Nacional de Arquivos, Jaime Antunes. E é passível de questionamento, igualmente, a atribuição do encargo de Assessor de Imprensa apenas a jornalistas profissionais, como advertiu o Conselho Federal de Profissionais de Relações Públicas. 7. A TODAS ESSAS INADEQUAÇÕES se junta a proposta da inclusão nos textos normativos da profissão de jornalista da figura do Professor de Jornalismo (inciso XXI do art. 6º), atividade que deve ser definida e regulada pela legislação pertinente à organização do ensino superior. Mais que inadequada, é absurda a instituição da figura do Comentarista (inciso XIII do citado art. 6º), novidade que desde logo afasta a possibilidade de os meios de comuni-

9. É CERTO, SENHOR PRESIDENTE, que o PLC n° 79/2004 promove uma alteração legislativa que há muito carecia de adoção, como a eliminação de figuras profissionais que desapareceram no universo da produção jornalística desde a edição do Decreto-Lei n° 972, em 1969. Neste caso situa-se a figura do Repórter de Setor, que não mais existe e que o texto em comento suprime da enunciação originária do Decreto-Lei n° 972/69. Entretanto, o mesmo cuidado não se teve em relação à figura do Noticiarista, que também há muito desapareceu das redações e é mantida no texto legal. 10. É COM BASE EM ESTUDO que conduziu a estas observações que a Associação Brasileira de Imprensa postula de Vossa Excelência, Senhor Presidente, a impugnação, através de veto, do malsinado PLC n° 79/2004, que não atende aos interesses dos profissionais e das empresas de comunicação nem ao aperfeiçoamento do exercício da liberdade de informação e opinião consagrada na Constituição da República. No ensejo, Senhor Presidente, renovamos as expressões do nosso elevado apreço. Cordialmente (a) Maurício Azêdo, Presidente.”


HOMENAGEM

Justiça para Barbosa e Vilas no Fórum Oscar Niemeyer Encontro promovido pela Associação dos Magistrados festeja a contribuição de ambos à causa pública.

SA

teto uma grande escultura de Don Quixote, oferecida pela revista Justiça & Cidadania. Niemeyer recebeu também um quadro pintado por Menelau Sete, que veio especialmente de Salvador para a cerimônia e, comovido, contou alguns detalhes de sua vida, como a infância pobre e o estúdio no Pelourinho onde dá aulas para filhos de prostitutas. O artista baiano terminou seu discurso dizendo que a homenagem a Niemeyer é um reconhecimento de sua luta contra a desigualdade social e lhe

do evento, o Desembargador José Joaquim da Fonseca Passos e o advogado Evandro Lins e Silva, representado pelo sobrinho, Desembargador Raul Celso Lins e Silva, e pelo neto, Ranieri Mazzilli Neto. O sociólogo Herbert de Souza recebeu homenagem post mortem e foi representado pelo filho, Daniel de Souza.

EN DA IMPR

Vilas-Bôas: Posse de corruptos reeleitos deve ser sustada.

pediu que aceitasse o quadro como “uma deferência da gente miserável do gueto do Maciel”. A declaração impressionou Niemeyer, que, a pedido de Menelau, apôs na folha de um caderno uma dedicatória em que reproduziu as expressões deste sobre a população carente da Bahia. Na exposição final ao plenário, Niemeyer disse que “o povo precisa acabar com a miséria, com a desigualdade”. E encerrou dizendo que é preciso mudar, pois “a miséria e a violência estão grandes demais”. O arquiteto foi aplaudido de pé pela assistência, repleta de desembargadores, juízes, advogados, juristas, alunos da Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro e lideranças comunitárias nos dois dias do encontro, organizado pela Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro-Amaerj. Além de Barbosa Lima Sobrinho e VilasBôas Corrêa, foram homenageados o Ministro Marco Aurélio de Mello, Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, que fez o discurso de abertura

TRIBUNA

Os jornalistas Barbosa Lima Sobrinho e Vilas-Bôas Corrêa figuraram entre os grandes homenageados do Fórum Oscar Niemeyer: Reforma Política, A Emergência do Cidadão, na sessão de encerramento do encontro, no dia 15 de agosto, em concorrido ato no auditório da Escola da Magistratura do Estado dol Rio de Janeiro. Em seu discurso de agradecimento, Vilas-Bôas Corrêa deixou clara sua indignação com o comportamento antiético do Congresso Nacional, defendendo até “a sustação da posse” se os políticos envolvidos com o escândalo dos sanguessugas conseguirem se eleger no dia 1º de outubro. Vilas lembrou que é um dos mais antigos repórteres políticos do País, com um ou dois anos menos que Hélio Fernandes,. o único sobrevivente da cobertura da Assembléia Nacional Constituinte de 1946. Hélio Fernandes, que estava na primeira fila da platéia, foi incumbido de entregar a homenagem do Fórum a Oscar Niemeyer — antes saudado pelo advogado Carlos Roberto Siqueira Castro em um discurso de 22 minutos, de acordo com a cronometragem do jornalista.Em sua fala, Niemeyer disse que “sonha com uma vida melhor”, que “é necessário mais modéstia na vida humana” e que “as pessoas deveriam cuidar mais umas das outras”. Hélio Fernandes entregou ao arqui-

COMUNICAÇÃO

OFERTA

Uma comunidade para a ABI no Orkut

UH Online, um título à venda

O jornalista Arcírio Gouveia criou no Orkut uma comunidade chamada Amigos da ABI, em que pretende “divulgar a entidade junto aos coleguinhas e admiradores de todo o Brasil”. Arcírio, que é sócio da ABI, diz que o espaço serve também como fórum de debates, sugestões, idéias, notícias e eventos da comunidade jornalística e tem como comunidades relacionadas a Jornalistas de todo o Brasil, a Comunique-se e a Observatório da Imprensa, entre outras. Na descrição da comunidade, criada em 14 de junho, Arcírio convida a participar todos os que possam contribuir para o engrandecimento da ABI e diz que qualquer assunto publicado na página que fuja ao objetivo fundamental da comunidade será apagado. Os membros – jornalistas de Pernambuco, São Paulo, Rio e Bahia, entre outros Estados – exaltam nos tópicos de discussão a importância da ABI na História do País.

Por R$ 3 mil, o argentino Cesar Acciarressi, o Maradona, passa os direitos da versão eletrônica do antigo jornal da Samuel Wainer. O marchand, artista gráfico, diagramador e diretor de arte Cesar Acciarressi, o Maradona, argentino que vive no Brasil desde 1979, está pondo à venda, por R$ 3 mil, o título da versão online do extinto jornal Última Hora, que ele registrou há dois anos. Entre outros trabalhos, ele foi secretário- gráfico do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro — onde conheceu o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, então redator — e, juntamente com o jornalista Cavalheiro de Macedo, criou o Departamento de Imprensa do Sindicato dos Telefônicos, em 1986. A idéia de adquirir o título do antigo jornal surgiu há dois anos, num papo saudosista com o amigo Jorge Félix, também jornalista, colega de UH nos anos 80: — Bateu uma tremenda saudade do jornal, em que fui editor de um dos principais cadernos, o UH Revista. Fiz um levantamento e vi que não havia registro do domínio do nome Última Hora. Então, vislumbrei a oportunidade de lançar uma versão online de UH. Acciarressi, no entanto, decepcionou-se: — Foi-se o

romantismo. Imaginava que outras pessoas teriam o mesmo interesse em levar o projeto adiante, com seriedade. Mas isso não aconteceu. O projeto só sairia do papel se eu conseguisse sócios para tocá-lo honrando o título Última Hora. E agora não tem mais jeito, porque estou retornando definitivamente à Argentina. Embora seja casado com uma brasileira, Maradona diz ter encontrado dificuldades para trabalhar na imprensa do País, pois a legislação só permite que estrangeiros tenham registro profissional de jornalista se se naturalizarem. Sobre o título UH Online, ele pensou em dar ao comprador como bônus o número 1 da versão impressa do jornal, publicada em 12 de junho de 1951, que ele adquirira de um colecionador. Quanto ao fato de não ter procurado a família de Ari Carvalho, que foi um dos últimos donos do jornal, explica: — Ia parecer oportunismo comercial. Procurei a ABI para pedir uma orientação e acabei doando o número 1 à sua Biblioteca. Jornal da AB ABII 311 Agosto de 2006

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MANIFESTO

Um apelo pela paz no Oriente Médio Intelectuais, artistas, profissionais liberais e pessoas comuns do povo firmaram em agosto uma exortação pela paz no Oriente Médio. É o documento Em nome da vida, que tem entre seus primeiros signatários Chico Buarque de Holanda e Leonardo Boff. MARCELLO CASAL JR/ABR

O texto de Em nome da vida foi elaborado por brasileiros de origem árabe e judaica, numa demonstração de que é possível um convívio pacífico entre os povos, desde que não haja ingerência das grandes potências — o Brasil é um exemplo nesse aspecto. O documento defende o fim imediato das hostilidades no Oriente Médio e todos os tipos de fanatismos ou terrorismo, incluído o institucional, tão em voga atualmente no mundo. Entre os signatários há dezenas de jornalistas, grande parte associados da ABI. Em nome da vida

”O fim da Guerra Fria deu ao neoliberalismo a hegemonia, econômica, política, ideológica e militar do Planeta. O Século XXI começou com o mundo economicamente globalizado e dividido por muros que separam as economias dos mais pobres das dos países mais ricos. O conflito Norte X Sul ocupou o espaço antes ocupado pela visão ideológica do mundo. Dois fundamentalismos ocuparam o espaço global: o religioso e o de mercado. Esse confronto se torna difícil de ser resolvido no plano da negociação porque cada lado vê o outro de forma absolutista, invertida e antagônica, ambos aferrados aos conceitos de bem e de mal, reeditando, em plena revolução tecnológica, a visão de um mundo maniqueísta dividido entre bem e mal, certo e errado. No Oriente Médio, há mais de meio século, este ovo da serpente vem sendo gestado num confronto, que desafia a modernidade e a luta pela paz, a luta entre israelenses e palestinos. De um lado, Israel, que nasceu de um sonho socialista do povo judeu, foi aos poucos se tornando um aliado incondicional dos Estados Unidos e de quem hoje depende para a sua sobrevivência; do outro, os países árabes, seus amigos e simpatizantes. Na verdade, ocorre uma disputa nos meios de comunicação ocidental para mobilizar a opinião pública internacional, com o objetivo de se consolidar no mundo um novo alinhamento ideológico, pró-israelenses ou pró-palestinos. A destruição das torres gêmeas em Nova York e o ataque dos Estados Unidos e da Inglaterra ao Iraque mostraram a irracionalidade absurda dos dois lados do conflito. O choque antagônico desses fundamentalismos está geograficamente distante do Brasil, entretanto, para nós, descendentes de judeus e árabes, e demais companheiros solidários com a paz, torna-se impossível ficar alheios aos interesses do capitalismo que patrocina a escalada desta guerra absurda e fratricida entre nossos povos, que têm a mesma raiz étnica, histórica e religiosa. O petróleo vale tantas vidas humanas? Que estratégia geopolítica de poder justifica a morte sistemática e permanente de tantos seres inocentes? Que os Estados Unidos e seus interesses econômicos cessem sua ingerência na região. Unidos fraternalmente em nossos propósitos pela paz, condenamos todos os fanatismos que disseminam o ódio e a violência. E sonhamos com a coexistência dos dois Estados, socialistas e independentes, respeitando-se a ancestralidade cultural recíproca num território que é o berço de três religiões.” 34

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Escombros de Haret Hreik, bairro de muçulmanos xiitas no lado oeste da Beirute, Líbano, após o bombardeio de Israel.

Os primeiros signatários

Chico Buarque de Holanda (compositor, escritor e cantor) Leonardo Boff (teólogo da Comissão Internacional da Carta da Terra). Jesus Chediak (jornalista e produtor cultural) Mário Augusto Jakobskind (jornalista e escritor) Silvio Tendler (cineasta) João Batista de Andrade) (Secretário de Cultura do Estado de São Paulo e cineasta) Hildegard Angel (jornalista) Ziraldo (cartunista e jornalista) Milton Temer (jornalista e ex-deputado) Fausto Wolff (jornalista e escritor) Bete Mendes (atriz) Norma Bengell (atriz e cineasta) Arthur Poerner (jornalista e escritor) Gustavo Petta (Presidente da Une) José Aparecido de Oliveira (ex-Ministro) Thiago Franco (Presidente da Ubes) Edson Khair (ex-Deputado) Moises Ajhemblat (produtor cultural) Elza Neves Moraes (professora) José Fernando Aparecido de Oliveira (ex-Prefeito de Conceição do Mato Dentro,MG) Sérgio Sencier (professor e advogado) Regina Zappa (jornalista) Beto Almeida (diretor da Telesur) Maria Luiza Franco (jornalista) Hilário Stanislaw (ator) Marceu Vieira (jornalista) Ricardo Rabelo (jornalista) Antonio Castigliola (jornalista) Clemente de Almeida Campos (jornalista) Fichel Davit Chargel (jornalista) Tamar de Castro (jornalista) Renato Gianuca (jornalista) Nacif Elias Sobrinho (jornalista) Eliana Madeira (professora) Beatriz Bissio (jornalista) Ivan Cavalcanti Proença (professor e jornalista) Alfredinho Alfredo Melo (proprietário do Bip-bip) Regina Celi F. e Silva (professora) Mauro Viana (jornalista) Jesus Antunes (jornalista) Oséas de Carvalho (jornalista) José Alves Pinheiro Júnior (jornalista) Dalva Moraes (professora) Débora Queiroz (estudante) Joana Carvalho (jornalista) Zelito Viana (cineasta) Carlos Klachquin (cineasta) Arlindo Jorge Tufi (cineasta) Márcio Curi (cineasta) Henri Gervaiseau (cineasta) José Araripe(cineasta) Aurélio Michiles Mallui Moraes (cineasta ) Andre Siqueira (cineasta) Roman Stulbach (cineasta) Claudia Schuch (cineasta) Rosemberg Cariri (cineasta) André Alvarenga (cineasta) Rubens Xavier (cineasta) Amilcar Claro (cineasta) Jom Tob Azulay (cineasta) Carlos Gerbase (cineasta) Paulo Rufino (cineasta) Jorge Alfredo (cineasta) Luiz Carlos Lacerda (cineasta) André Kotzel (cineasta) Emiliano Ribeiro (cineasta) Sergio Bloch (cineasta) Roberto Berliner (cineasta) Assunção Hernandez (cineasta) Argemiro Ferreira (jornalista) Martha Arruda Dias de Paiva (jornalista) Gilberto Magalhães (jornalista) Leda Acquarone (artista plástica e jornalista) José Olyntho Contente (jornalista) Cecília Contente (jornalista) Alcyr Cavalcanti (professor e jornalista) Pery Cotta (professor e jornalista) Roberto Amaral (ex-Ministro da Ciência e Tecnologia) Abrahão Rumschinsky (professor) Patrícia Maurício (jornalista e professora) Roy Frenkiel (estudante de jornalismo) José Edi Nunes da Silva (jornalista) João Carlos Polezel Júnior (estudante) Helder Xavier Simões (jornalista e professor) Ricardo Sabóia de Cerqueira Lima (piloto de aeronaves) Wolney Jardim da Silva Junior (estudante) Luís Aparecido da Silva (jornalista) Verginia Dirami Berriel (jornalista e atriz) Daniel Tendler (dramaturgo) Samir Badoui (advogado) Daniel Jaymovich (ator) Tiago Chediak (fotógrafo) Raquel Boechat (jornalista) Hélio D’Andréa (radialista) Vitor Paranhos (jornalista, empresário) Solange Bastos (jornalista, editora) Betty Trisuzzi (pesquisadora de teledramaturgia) Sheila Zaguri (pianista) Aída Carla de Araújo (jornalista) Ana Maria Macedo (funcionária pública) André de Oliveira (produtor cultural) Flávia Figueiredo Machado (analista de sistema) Rômulo Augusto (ator) A. Ponce de Leon (jornalista) Jane Duarte (jornalista) Andréa Franco Lopes (jornalista) Eduardo Graça (jornalista) Carla Delorenci de Pinho (jornalista) Sérgio Neves Moraes (gestor de empresa) Walter Alves da Costa (advogado) Alexei Bueno (poeta) Jair Ferreira dos Santos (escritor) João Baptista de Medeiros Vargens (professor, escritor e editor) Diógenes de Lima (analista de sistema) Michel Misse (professor) Luis Bernardo Pericás (professor) Maria das Graças Ribeiro (professora) Edilton S. Barcellos (professor) Erica Ribeiro (jornalista e designer grafico) Carlos Pinho (médico) Flávio Lúcio Kneipp (técnico de suprimento) Carlos Henrique Ferreira (contador) Angela Góes (advogada) Francisco Manuel Pereira (militar) Ernesto Parés (assessor sindical)


Vidas REPRODUÇÃO

MATARAM AJURICABA A SOCOS Jornalista de 73 anos é morto numa briga de rua no Município de Guapimirim, RJ, por um vereador muito mais novo do que ele. O jornalista Ajuricaba Monassa de Paula foi assassinado entre 17h e 18h do dia 24 de julho, no Município de Guapimirim, interior do Estado do Rio, num incidente com o Vereador Osvaldo Vivas, a quem ele vinha acusando de práticas irregulares. Monassa discutia com um irmão ou primo do vereador, Alfredo Vivas, na praça onde fica o Clube Central, o principal da cidade, quando Osvaldo Vivas interveio na discussão e passou a espancá-lo com extrema brutalidade. Faixa-preta de luta marcial, Osvaldo Vivas só cessou a violência quando Ajuricaba Monassa, de 73 nos, tombou exangue na praça, onde foi submetido a técnicas de ressuscitação. Removido para o Hospital de Parada Modelo, distrito do Município vizinho de Duque de Caxias, Monassa não resistiu aos ferimentos. Ajuricaba Monassa, que faria 74 anos no dia 5 de novembro, foi técnico de Comunicação Social do Ministério do Trabalho, no qual passou depois, por concurso público, a inspetor do Trabalho. Ele iniciou a vida profissional muito jovem, no começo dos anos 50, no jornal Imprensa Popular, diário mantido no Rio pelo Partido Comunista Brasileiro-PCB. Depois, trabalhou em diferentes publicações. No começo dos anos 80, a convite de Leonel Brizola, participou dos atos de fundação e estruturação do Partido Democrático Trabalhista-PDT, cujo Diretório Nacional integrou. Há cerca de dez anos, radicou-se em Guapimirim, onde se dedicava ao comércio, mas sem abandonar a antiga militância e a preocupação com a coisa pública. Ele deixou viúva e dois

Ajuricaba Monassa: Militante de campanhas cívicas, como a do O petróleo é nosso.

A ABI enviou mensagem à Governadora Rosinha Garotinho pedindo a sua intervenção pessoal para apuração das circunstâncias da morte de Monassa e a responsabilização penal do Vereador Osvaldo Vivas e seus parentes, em face dos riscos de, por influência política, o caso ser abafado e os matadores ficarem impunes. “Aqui em Guapimirim a barra é muito pesada”, disse um amigo de Ajuricaba Monassa, ao pedir que a ABI reclame a apuração do incidente. Ajuricaba Monassa ingressou na ABI em 28 de julho de 1981, tendo como proponente Henrique Miranda, de quem fora companheiro no jornal Emancipação, criado pelo PCB para a campanha “O petróleo é nosso”.

filhos adolescentes do segundo casamento e dois filhos adultos, também um casal, do primeiro casamento. Seu corpo foi sepultado no dia 25, no Cemitério Bananal, em Guapimirim. Embora há muito radicado no Rio, Ajuricaba nunca perdeu o contato com seu Estado natal, o Amazonas, onde tinha muitos amigos e companheiros, entre os quais o Deputado e Senador Artur Virgílio Filho, pai do Senador Artur Virgílio Neto (AM), Líder do PSDB no Senado Federal. Com Virgílio Filho, participou no Amazonas de inúmeras campanhas cívicas, entre as quais a luta pela instituição do monopólio estatal do petróleo. Com o visgo da terra amazonense, com freqüência se deslocava para o seu Estado, atendendo a chamados de com panheiros, entre os quais Virgílio Filho, de quem se tornara grande amigo.

O apelo à Governadora O apelo da ABI à Governadora Rosinha Garotinho foi feito em telegrama do seguinte teor: “Encareço o interesse pessoal de Vossa Excelência junto à Secretaria de Estado de Segurança Pública para apuração do assassinato do jornalista Ajuricaba Monassa de Paula, vítima de brutal espancamento por parte do Vereador Osvaldo Vivas numa praça pública do Município de Guapimirim, na tarde desta segunda-feira, dia 24. Teme a ABI que o crime seja abafado e os matadores de Ajuricaba Monassa fiquem impunes, porque, como disse um companheiro de Monassa ao pedir a intervenção da ABI junto a Vossa Excelência, ‘a barra em Guapimirim é muito pesada’. Cordialmente, Maurício Azêdo, Presidente da ABI.”

Enzo Baldoni: vídeo em árabe mostra sua trajetória profissional.

Em memória de Baldoni O Vice-Presidente da ABI, Audálio Dantas, participou em 22 de agosto da cerimônia em homenagem ao jornalista italiano Enzo Baldoni, morto na Guerra do Iraque no ano passado. O espetáculo de música — realizado no foyer do Auditório Simón Bolívar, no Memorial da América Latina, na capital paulista — transformou-se num Concerto pela Paz que contou com a participação da viúva de Baldoni, Giuze Bonsignore, cantando no Coro Cantosospeso, de Milão, e da Orquestra de Câmara do Teatro Municipal de São Paulo. Com direção artística de Martinho Lutero, maestro ítalo-brasileiro radicado em Milão, o evento teve patrocínio do Assessorato alla Cultura della Provincia di Milano e da Comunidade Coral Luther King e apoio da ABI, da Oboré Projetos Especiais em Comunicação e Artes, da Secretaria Municipal de Cultura, do Teatro Municipal e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo.

Appe, o decano sem ideologia O artista plástico e cartunista Anilde Pedrosa, o Appe, foi um dos mais consagrados cartunistas da imprensa brasileira. Mestre também dos quadrinhos, ilustrou as páginas de O Cruzeiro de 1953 a 1970. Appe, que era casado com Neusa Pedrosa, morreu de problemas cardíacos e pulmonares, aos 86 anos de idade, no Município fluminense de São Pedro da Aldeia. Seu corpo foi cremado no Rio de Janeiro. O cartunista nasceu em Sena Madureira, no Acre, em 1920. Começou a trabalhar como repórter colaborador e, mais tarde, como ilustrador em jornais de Manaus. Publicou sua primeira charge em 1940 e realizou a sua primeira exposição individual de caricaturas em 46. Um ano depois, transferiu-se para o Rio, onde criou suas

primeiras charges políticas no Diário da Noite, no jornal integralista A Vanguarda e em O Jornal: — O pessoal caía de pau porque eu fazia charges anticomunistas — disse numa entrevista. — Mas sou um profissional, nunca tive cor ideológica. Appe também trabalhou em A Cigarra e, em 1953, transferiu-se para a revista O Cruzeiro, onde foi um dos principais chargistas — ao lado de Borjalo, Ziraldo e Péricles, entre outros — até ganhar sua própria coluna, na página dupla “Blow-Appe”. Algumas charges de Appe foram censuradas durante a ditadura militar, como a que mostrava Papai Noel levando ao Congresso Nacional um saco onde se lia a inscrição “Cassações”. Seu passamento foi noticiado em 29 de agosto no site da ABI (www.abi.org.br) sob o título Morre o mais antigo chargista do Brasil.

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