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Justiça livra Ancelmo de ilegalidade

Páginas 22 e 23

Jornal da ABI Órgão oficial da Associação Brasileira de Imprensa

Julho/Agosto de 2005 • Número 301

O PODER SUFOCA A ABI A ABI está travando uma dura batalha contra órgãos do Governo Federal, que a estão sufocando com a imposição de uma dívida absurda e ilegal. São o Conselho Nacional de Assistência Social e o INSS, que ameaçam reduzir à impotência a mais antiga instituição de defesa da liberdade de imprensa no Brasil.

ESPECIAL: SUPLEMENTO AMAZÔNIA Texto integral da conferência A Amazônia Que os Brasileiros Desconhecem, proferida na ABI pelo General-de-Exército Cláudio Barbosa de Figueiredo, Comandante Militar da Amazônia.

Páginas 18, 19, 20, e 21 e Editorial na página 2

BASTA À CORRUPÇÃO Segismundo (com Geraldo Meneses): mais de 70 anos de dedicação à ABI.

Segismundo, um pilar de 90 anos Presidente da ABI por mais de um mandato, o jornalista Fernando Segismundo fez 90 anos e recusou qualquer homenagem pessoal. A ABI decidiu então reverenciar quatro de seus pilares: um deles, o próprio Segismundo. Páginas 27 e 28

Com capacidade para mais de 600 pessoas, o principal auditório da ABI ficou tão superlotado que a direção da Casa propôs que o ato programado fosse encerrado logo: era a manifestação contra a corrupção

convocada por partidos políticos e organizações da sociedade civil, que expressaram sua indignação diante do festival de imoralidades que assola o País. Página 13

Você sabe o que é uma linotipo? A linotipo é essa máquina ao lado, com aparência de geringonça. Foi, porém, um colosso tecnológico, ao permitir a fusão em bloco de cada linha de caracteres tipográficos, tornando a imprensa veloz. Ela pode ser vista no museu de imprensa de Niterói. Páginas 11 e 12

Infográfico dá algo mais à informação Jornais, revistas e noticiosos da televisão e online usam cada vez mais os recursos dos infográficos, uma técnica que amplia e aprofunda a informação. Páginas 3, 4, 5 e 6


Jornal da ABI EDITORIAL

Na mira dos piratas A ABI está travando uma desgastante batalha junto a órgãos da União – o Conselho Nacional de Assistência Social e o Instituto Nacional do Seguro Social – para restabelecer direitos que lhe foram subtraídos com uma fundamentação que não resiste ao crivo do mínimo de racionalidade e de bom senso, virtudes que inexistem principalmente no Conselho Nacional de Assistência Social. Por inspiração não se sabe de que demônios, na crista de uma hipócrita onda moralóide que infestou o Governo Fernando Henrique Cardoso, o Conselho Nacional de Assistência Social decidiu negar à ABI a renovação do registro e do certificado de entidade beneficente de assistência social, status que a entidade sempre manteve, sob o argumento extravagante de que para ser qualificada como tal a Casa teria que atender a todas as pessoas em “situação de vulnerabilidade” que recorressem aos seus serviços. Num país com dezenas de milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, esta pérola de irracionalidade significaria que a ABI teria de atender a uns bons milhões de carentes radicados no território fluminense, onde a entidade tem sede. Pretenderia e pretende o Conselho Nacional de Assistência Social que a ABI, em troca de uma isenção de pífio valor, promova aquilo que nem a União, nem os Estados e nem os Municípios asseguram aos desvalidos deste triste País. Além de absurdo, irracional, ilegal e inconstitucional, pois colide com jurisprudência claríssima fixada a respeito pelo Superior Tribunal de Justiça, esse entendimento do Conselho Nacional de Assistência Social ensejou uma ação voraz do INSS contra a ABI, que viu lançado em seu lombo o passivo de contribuição previdenciária patronal retroativo a cinco anos, num montante de cerca de R$ 2,5 milhões. Com essa ação conjugada, o CNAS e o INSS buscam justificar, através de penhora para liquidação dessa suposta dívida, o assalto ao patrimônio da ABI, construído e mantido a duras penas por quatro gerações de jornalistas – nesse patrimônio, uma jóia da arquitetura contemporânea brasileira, o Edifício Herbert Moses, concebido em 1936 pelos jovens irmãos Mílton e Marcelo Roberto e ainda hoje objeto de admiração em países de arquitetura avançada. Esta edição do Jornal da ABI está publicando o texto integral da petição que a Casa dirigiu ao Conselho Nacional de Assistência Social, com a esperança de barrar a ação pirata tramada contra o seu patrimônio. Espera a Casa que, com a revisão da decisão esdrúxula em que se acumpliciam o CNAS e o INSS, o Estado nacional deixe de sufocar, como vem fazendo há mais de dois anos, a mais antiga instituição de defesa da liberdade de imprensa, das liberdades públicas e dos direitos humanos no Brasil

NESTA EDIÇÃO Os infográficos sem segredos

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Tudo começou com ele: Hipólito José da Costa

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Testemunha da História: Murilo Melo Filho

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Nosso museu fica ali do outro lado da Baía

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Um basta à corrupção

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Poerner, Benemérito

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Pajê e Chediak na Diretoria

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A ABI sob cerco

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Denúncia de trabalho escravo demite jornalista

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Ancelmo livre

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A ABI protesta e apela

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Acionistas do BB fazem denúncia

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Estado paga reparação a vítimas da ditadura

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Tributo a Carlos Galhardo

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Alagoas contra a transposição das águas do São Francisco 26 Segismundo, 90 anos

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Um páreo para a ABI no Jockey

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Avelar campeão

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Livros

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Vidas/Reinaldo Santos, João Ribeiro, Léo Guanabara

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Imprensa decasségui: um negócio movido a dólares e a muita saudade

Conselheiros efetivos (2004-2007) Antonieta Vieira dos Santos, Arthur da Távola, Cid Benjamin, Flávio Tavares, Fritz Utzeri, Héris Arnt, Irene Cristina Gurgel do Amaral, Ivan Cavalcanti Proença, José Gomes Talarico, José Rezende, Marceu Vieira, Paulo Jerônimo, Roberto M. Moura, Sérgio Cabral e Teresinha Santos

Associação Brasileira de Imprensa DIRETORIA – MANDATO 2004/2007 Presidente: Maurício Azêdo Vice-Presidente: Audálio Dantas Diretora Administrativa: Ana Maria Costábile Soibelman Diretor Econômico-Financeiro: Domingos Meirelles Diretor de Cultura e Lazer: Jesus Chediak Diretor de Assistência Social: Paulo Jerônimo de Souza (Pajê) Diretora de Jornalismo: Joseti Marques CONSELHO CONSULTIVO Chico Caruso, Ferreira Gullar, José Aparecido de Oliveira, Miro Teixeira, Teixeira Heizer, Ziraldo e Zuenir Ventura CONSELHO FISCAL Jesus Antunes – Presidente, Miro Lopes – Secretário, Adriano Barbosa, Hélio Mathias, Henrique João Cordeiro Filho, Jorge Saldanha e Luiz Carlos Oliveira Chester CONSELHO DELIBERATIVO (2004-2005) Presidente: Ivan Cavalcanti Proença 1º Secretário: Carlos Arthur Pitombeira 2º Secretário: Domingos Xisto da Cunha Conselheiros efetivos (2005-2008) Alberto Dines, Amicucci Gallo, Ana Maria Costábile, Araquém Moura Rouliex, Arthur José Poerner, Audálio Dantas, Carlos Arthur Pitombeira, Conrado Pereira, Ely Moreira, Fernando Barbosa Lima, Joseti Marques, Mário Barata, Maurício Azêdo, Milton Coelho da Graça e Ricardo Kotscho

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Conselheiros efetivos (2003-2006) Antonio Roberto da Cunha, Aristélio Travassos de Andrade, Arnaldo César Ricci Jacob, Carlos Alberto Caó Oliveira dos Santos, Domingos João Meirelles, Fichel Davit Chargel, Glória Sueli Alvarez Campos, João Máximo, Jorge Roberto Martins, Lênin Novaes de Araújo, Moacir Andrade, Nilo Marques Braga, Octávio Costa, Vitor Iorio e Yolanda Stein Conselheiros suplentes (2005-2008) Anísio Félix dos Santos, Edgard Catoira, Francisco de Paula Freitas, Geraldo Lopes, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Amaral Argolo, José Pereira da Silva, Lêda Acquarone, Manolo Epelbaum, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Pedro do Coutto, Sidney Rezende, Sílvio Paixão e Wilson S. J. Magalhães Conselheiros suplentes (2004-2007) Adalberto Diniz, Aluísio Maranhão, Ancelmo Gois, André Louzeiro, Jesus Chediak, José Silvestre Gorgulho, José Louzeiro, Lílian Nabuco, Luarlindo Ernesto, Marcos de Castro, Mário Augusto Jakobskind, Marlene Custódio, Maurílio Ferreira e Yaci Nunes Conselheiros suplentes (2003-2006) Antônio Avellar C. Albuquerque, Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Antonio Roberto Salgado da Cunha, Domingos Augusto G. Xisto da Cunha, Hildeberto Lopes Aleluia, José Carlos Rego, Lorimar Macedo Ferreira, Luiz Carlos de Souza, Marco Aurélio B. Guimarães, Marcus Antônio M. de Miranda, Mauro dos Santos Vianna, Pery de Araújo Cotta, Rogério Marques Gomes, Rosângela Soares de Oliveira e Rubem Mauro Machado

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COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Ely Moreira – Presidente, Jarbas Domingos Vaz, José Ernesto Vianna, Maria Ignez Duque Estrada Bastos e Maurílio Cândido Ferreira COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Artur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti COMISSÃO DE LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Arthur Cantalice, Arthur Nery Cabral, Daniel de Castro, Germando Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, Lucy Mary Carneiro, Maria Cecília Ribas Carneiro, Mário Augusto Jakobskind, Martha Arruda de Paiva, Orpheu Santos Salles, Wilson de Carvalho, Wilson S. J. Magalhães e Yaci Nunes

Jornal da ABI Rua Araújo Porto Alegre, 71, 7º andar Telefone: (21) 2220-3222/2282-1292 Cep: 22.030-012 Rio de Janeiro - RJ (jornal@abi.org.br) Editores: Francisco Ucha, Joseti Marques e Maurício Azêdo Projeto gráfico, diagramação e editoração eletrônica: Francisco Ucha Diretor responsável: Maurício Azêdo Impressão: Gráfica Lance Rua Santa Maria, 47 - Cidade Nova - Rio de Janeiro, RJ. As reportagens e artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do Jornal da ABI.

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Jornal da ABI TÉCNICA  Rodrigo Caixeta

Com mais recursos gráficos, com que podem assumir visual de enciclopédia, as revistas produzem requintados infográficos: este assegurou um prêmio à revista Superinteressante.

OS INFOGRÁFICOS SEM SEGREDOS Especialistas nessa técnica mostram como a aplicam na rotina das Redações e sua importância como fonte de informações para os leitores.

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uem nunca se rendeu a ler uma reportagem ao ver o infográfico que a ilustra? Cada vez mais utilizada pelos veículos de comunicação para criar o aspecto visual da informação, a infografia envolve um conceito moderno, em que se aliam imagem e texto para oferecer ao leitor melhor percepção do assunto tratado. O termo infográfico vem do inglês informational graphics e o seu uso revolucionou o leiaute das páginas de jornais, revistas e sites. É uma forma de representar informações técnicas como números, mecanismos e/ou estatísticas, que devem ser sobretudo atrativos e transmitidos ao leitor em pouco tem-

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po e espaço. Normalmente utilizado em cadernos de Saúde ou Ciência e Tecnologia, em que dados técnicos estão mais presentes, o infográfico vem atender a uma nova geração de leitores, que é predominantemente visual e quer entender tudo de forma prática e rápida. Segundo pesquisas, a primeira coisa que se lê num jornal são os títulos, seguidos pelos infográficos, que, muitas vezes, são a única coisa consultada na matéria. “Decoração”, não Se o infográfico não convida o leitor para a reportagem ou se não é possível entendê-lo em poucos segundos,

sua função não se cumpre. Cláudio Prudente, chefe da Diagramação de O Globo, diz que a infografia já existe há muito tempo nos jornais brasileiros, “mas foi no fim dos anos 80 que passou a ser utilizada de uma forma mais consciente como recurso poderoso de informação”. — As redações passaram a entender que certos assuntos são mais bemaprofundados se mostrados visualmente. Há muito o que se dizer num texto sobre um acidente de avião, mas se mostrarmos em um infográfico a localização, o tipo de aparelho, o que aconteceu, comparar números etc., a informação fica muito mais precisa e clara.

Cláudio diz que a infografia já está incorporada na cultura das redações, embora algumas incompreensões ainda sobrevivam: — Não é raro alguns editores optarem por recursos de infografia quando querem “ilustrar” uma página, por não terem fotos disponíveis para o assunto. Este me parece o erro mais freqüente, resultado da idéia equivocada de “decoração” da informação visual. Mas esta é uma atitude que aos poucos está desaparecendo. Ainda que cada um trabalhe de forma diferente, o editor de texto e o de arte opinam igualmente sobre a utilização do recurso. Diz Cláudio: — Os infografistas tendem a ver melhor nos

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Jornal da ABI assuntos do dia o que mais se presta para ser trabalhado graficamente. Ter representantes da infografia nas reuniões de pauta é fundamental — e prática comum em várias redações.

AGÊNCIA O GLOBO

tos nas CPIs, que se prolonque o infográfico vai mostrar. Obsergam pelo dia inteiro, a Arte vamos como ele fica dentro da págiprecisa aguardar a chegada na, discutimos com os editores de texdo texto compilado pela to a quantidade de informações, fazeEditoria com os pontos immos um esboço da página, que passa portantes e o espaço dispopela conferência e, então, avaliamos a nível na página. sua legibilidade. Pensa-se no conjunto Na visão de Léo, o infoda página, em que o infográfico deve Desde as cavernas gráfico deve ir além do texocupar espaço coerente. Formado em Jornalismo, to. Pode ser o principal da Fábio Marra, infografista da Folha, o editor de arte do Globo, página, quando a informalembra que os primeiros Macintosh Léo Tavejnhansky, conta ção é mais visual do que texcom softwares gráficos só chegaram à que o design de jornal, a que tual, ou enriquecer a matéredação no fim dos anos 80: — Até ense dedica há mais de 20 ria com informações visuais tão, tudo era construído com habilianos, foi sua opção desde complementares, permitindade manual, nanquim e letraset. que o descobriu na faculdado três opções de leitura, “de Com os computadores, ficou mais fáde: — A infografia tem uma acordo com o interesse ou o cil fazer. Ainda há editores que acrelonga trajetória. É uma sotempo do leitor: só o texto, ditam que jornal deve ser feito com ma de disciplinas que inclui só o infográfico, ou os dois”. muito texto, mas não concordo, uma o desenho arquitetônico e o Manter o equilíbrio da pávez que as pessoas lêem cada vez mais de anatomia, os gráficos esgina e evitar que as ilustraem menos tempo. Ou seja, a informatatísticos e a cartografia. ções tenham mais destaque ção visual tornou-se uma necessidaExemplos desses grafismos que o texto é um desafio diáde. Além disso, segundo pesquisa do se perdem no tempo. Para rio da edição: — Se a foto Poynter Institute, infográficos, quaencurtar a história, podetem mais informação que o dros e artes são os primeiros a serem mos dizer que as inscrições gráfico, ela deverá ser o elepercebidos pelo leitor quando ele fonas cavernas eram infográmento dominante da págilheia o jornal. ficos, pois os desenhos conUma criação de O Globo com a descrição detalhada da queda de um avião. na. É importante também tavam histórias. que o infográfico não seja reIntegração Léo lembra que o primeiro exemplo dundante, quer dizer, não repita exaHá oito anos no Jornal do Brasil, o xou de ser artesanal, industrializou-se de infográfico usado em jornais data tamente o que a matéria está dizeneditor de Arte Renato Dalcin diz que e se espalhou pelo mundo. Hoje, ela e de 1702, no The Daily Courant, primeido. Um bom infográfico, além de ser um bom infográfico deve integrar-se suas derivações são fundamentais no ro diário inglês, e que o The bem-produzido, deve responder às traà matéria, compor um texto. — Tudo bom jornalismo, quer em Times, de Londres, estreou dicionais perguntas: o quê, quem, no jornal tende a se complementar, momentos em que apresenum infográfico na primeira quando, como, onde e por quê. então é necessário que a situação pretam a notícia de maneira página em 1806, mostrancise de uma explicação qualquer que rápida e de fácil compreenA “Folha”, pioneira do o passo a passo de um só o infográfico pode dar. O atentado são, quer elucidando aconMassimo Gentile, editor de Arte da assassinato. — Era tecnicaem Madri, em 2004, é uma situação tecimentos intrincados, ou Folha de S. Paulo, diz que o recurso do mente perfeito e faria superfeita: na foto vêem-se os destroços, ainda aprofundando a ininfográfico é tradicional na cultura do cesso mesmo nos dias de o estado dos trilhos, mas o infográfico formação com toques encijornal que foi o primeiro no País a usáhoje. Revistas, como a Time, mostra que o trem “x” estava vindo clopédicos. A verdade é que lo. Coordenador de uma equipe de usam infografias desde os do lugar “y”, explodiu às tantas hoas pessoas entendem menove infografistas, ele ressalta que “há anos 1930. O próprio Globo ras, na estação tal etc. lhor certos fatos quando uma relação dialética entre os editopublicou um infográ-fico A utilização das cores num mostrados visualmente. Tavejnhansky, de O res de arte e texto, que pode ser amina primeira página da ediinfográfico, diz Renato, não é probleNo Globo os editores enGlobo: A infografia é gável ou não”. ção número 1, em 1925, uma soma de disciplinas. tendem a infografia como ma. — Se a página virar preta e bran— As idéias de uso da infografia mostrando o aumento dos ca, depois de o infográfico ter sido traimprescindível para uma vêm de ambos, mas não existe regra, automóveis no Rio de Janeiro de um balhado todo na cor, basta que ele teboa edição e até o repórter já sabe que há a prática diária, que começa com a ano para outro. nha criado com contrastes suficientes deve trazer informações visuais para coleta de notícias. Depois, define-se o Em meados da década de 70, diz Léo, para que estes sejam mantidos na esvalorizar sua matéria. — Na maioria O Globo, como a maioria dos grandes cala de tons de cinza. O indos casos – diz Léo –, a idéia jornais, já contava com profissionais verso dá mais trabalho. da infografia nasce com a pauespecializados O infografista deve estar ta. As rotinas diárias já incluem gráficos e maantenado nos acontecimenem a infografia como opção pas e os departatos diários e entender a edijornalística, da mesma forma mentos de Arte ção do jornal. — Acompanho que a fotografia. A partir da começaram a ser o noticiário geral e procuro pauta e do espaço, os editores estruturados. No ver se há alguma coisa de fazem seus pedidos. O mais entanto, apenas muito importante acontecencomum é a Arte sugerir idéias na década seguindo que possa gerar arte – diz para ocasiões especiais, quante a infografia Renato –. Somos treinados do os trabalhos podem ser elapassou a chamar borados com mais tempo, grande atenção, mas há casos como o da queAGÊNCIA JB com o lançamenda do helicóptero no Colégio to, em 1982, do Bennet, em que, no momenUSA Today, que to em que a TV deu o flash revolucionou o com as primeiras informações, já se começava a vascuCláudio Prudente, design dos jortambém de O Globo: nais no mundo lhar a internet em busca de Infográfico não é mapas da área e do modelo da decoração, como inteiro com seu aeronave. Quando a Editoria alguns imaginam. uso da infografia e da cor. Rio fez o pedido, já tínhamos — A maior expansão da técnica, poa localização do acidente e um rém, aconteceu em 1985, com a cheprimeiro esboço da infografia. Francisco Ferreira da Silva, do Jornal do Brasil: Os recursos gráficos gada do Macintosh. A infografia deiPorém, no caso dos depoimendevem ser usados de forma criativa. AGÊNCIA O GLOBO

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Jornal da ABI para ter uma solução rápida. Muitas vezes, porém, a solução ideal demanda mais tempo. Designer e ilustradora do jornal, Fernanda Fontenelle compara a produção de um bom infográfico com o ato de cozinhar: — É necessária a utilização de ingredientes básicos, texto e ilustração, e um bom tempero. Nada em falta ou em excesso. E tem que haver um atrativo visual para “apetecer” ao leitor. Os temperos podem ser uma fonte diferente, um alinhamento não convencional, a boa combinação de cores e outras coisas mais. No JB há 15 anos, seu colega Francisco Ferreira da Silva acha que os recursos gráficos estão sendo usados de forma mais criteriosa. — No início, gastavam-se páginas inteiras com infográficos que não queriam dizer muita coisa. A primeira coisa que temos que usar é a imaginação. Produzi um infográfico sobre a dragagem que o estaleiro Brasfels deverá fazer no mar de Angra e Parati. Como a retirada de lama prevista será de 520 mil metros cúbicos, resolvi criar o fundo da página feito de lama, sobre a qual estaria escrito com o dedo “SOS Paraty”. Fiz essa arte no quintal da minha casa e fotografei para finalizar no Photoshop.

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Na morte de João Paulo II, a Folha fez uma página dupla caprichada, com fotos em seqüência e infográfico em cada extremo das páginas.

está tirando espaço da minha matéria” e vice-versa. Indo além do texto André Hippertt, editorexecutivo de Arte de O Dia, diz que hoje, numa redação, todos vêem a infografia como uma poderosa aliada no repasse da informação ao leitor: — Como O Dia é um jornal popular, com ênfase nas classes B, C e D, trabalhamos muito com infográ-ficos, pois sua linguagem mais diO ESTADO DE MINAS

Mais seletividade Ary Moraes, editor de Infografia e Ilustração de O Estado de Minas, concorda em que a utilização de infográficos está mais comedida. — Hoje, estamos mais seletivos quanto aos assuntos que realmente devem ser apresentados por meio de infográficos. Isto se deve tanto à necessidade de se economizar papel como à experiência. Aprendemos que o recurso só deve ser usado quando o assunto é complexo demais para ser entendido apenas através do texto. Ary explica que O Estado de Minas vive uma fase de reformulação nessa área: — O departamento fazia coisas que não lhe competiam e que roubavam tempo na produção do que deveria ser priorizado. Ministrei um treinamento para a Redação ao mesmo tempo em que fazia uma espécie de “intensivão” para a turma da infografia. Hoje, aumentou o número de editores de texto que entendem os critérios para a utilização dos infográficos e que passaram a ter participação mais ativa na sua criação, muitas vezes até se antecipando aos artistas. Segundo Ary, o desafio é combinar o poder da imagem com o texto: — Os dois precisam “conversar” sobre o mesmo assunto e no mesmo tom, sem que um fale mais alto que o outro. Começamos discutindo a pauta, sem esquecer que trabalhamos em equipe. Não deve existir aquela coisa de “a imagem

Ary Moraes, do Estado de Minas: Agora há mais contenção no uso de infos.

dática facilita a compreensão das matérias. Usamos, por exemplo, muitos infos na Editoria de Economia, para que todos possam ter acesso a informações que nem sempre são fáceis de assimilar. Já em caso de grandes acidentes, é comum mandarmos um infografista para o local juntamente com os repórteres e fotógrafos. Diz André que um bom infográfico deve ir além do que o texto expõe: — Ele deve fazer que o leitor realmente visualize os fatos ocorridos. Muitos infos são lindos, mas difíceis de entender e carentes de informação. Infográfico não é ilustração. Sua função é, antes de tudo, informar. Ele deve ser atraente, mas de fácil leitura. Começo, meio e fim Luiz Iria, editor de Arte da Superinteressante, diz que na revista todos pensam infograficamente: — A infografia já se tornou nossa marca registrada. Até os repórteres, muitas vezes, chegam da apuração com um esboço desenhado.

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Jornal da ABI

maior que se deve ter num infográfico é o excesso na “decoração”. Nada pode ser mais importante do que a informação, que deve vir numa seqüência contínua, com começo, meio e fim. É im-

gráficos, enquanto uma matéria de interesse menor pode propiciar excelente material. Atualmente dirigindo empresa própria, a Mabuya Design, direcionada para o mercado editorial de livros e revistas, Mário já foi infografista do JB, da Gazeta do Espírito Santo, do Jornal do Commercio e do Globo.com e diz: — Um bom gráfico deve respeitar Respeito ao lide o lide como qualquer maMário Guilherme Leite téria. O processo se inicia começou a carreira no na apuração das informaDia, onde conheceu a inções. Deve-se priorizar o fografia, mas só passou a mais relevante, o que é inatuar nessa área quando formação de suporte. É ingressou no Lance!. Semuito semelhante ao esLuiz Iria, da revista quema da pirâmide invergundo ele, o ponto chave Superinteressante, e de qualquer discussão pasMário Leite, que foi de O tida: quanto maior a imsa pelo uso ou não da téc- Dia e Lance!: Pelo respeito portância da informação, ao texto e ao lide. mais espaço ela ocupará na nica: — Muitas vezes os motivos que levam ao uso composição da área do deste recurso não são os corretos. Não gráfico. Por isso é preciso ter um bom necessariamente o assunto mais imentendimento de teoria e técnicas tanportante da pauta gera ou pede bons to artísticas quanto jornalísticas.

Os infos nos sites

DIVULGAÇÃO

Ele diz que se engana quem pensa que o texto perde sua importância dentro de um infográfico: — Quando texto e imagem se integram, geram informação imediata. O cuidado

portante destacar uma imagem principal, que mostre o ponto inicial de leitura, desperte emoção e valorize e embeleza o infográfico. Os textos nunca devem estar espremidos nos espaços ou invadir as imagens; também não devem ser longos e cansativos. Ao mesmo tempo, as imagens não podem ocupar todo o espaço da página.

EDITORA ABRIL

Info de O Dia compara seleções de futebol do Brasil e Japão.

Brasil se reflete nos infográficos, hoje não mais banalizados. — Na internet, por exemplo, o segredo é explorar a interatividade e os recursos de animação, áudio e vídeo e a maior preocupação fica por conta do peso dos arquivos. A evolução no País na última década foi muito grande. Os profissionais brasileiros se aprimoraram, abriram os olhos para o que já vinha sendo desenvolvido em países como EUA e Espanha e o aprendizado foi fundamental. Ajudamos também os editores de texto a compreender que sem conteúdo não adianta um desenho bonito. Sobre a produção dos gráficos, ele diz: — Na maioria dos casos, fazemos um rascunho da idéia, tentando alinhavar a estrutura do infográfico. Algumas vezes, vai-se a campo para recolher mais in-

Para a internet, o profissional deve criar peças adquirido através de muito estudo e trabalho. realmente interativas, que ultrapassem a imobiliLuciana lembra que, na web, o infografista deve dade dos impressos. Mas não basta se limitar aos estar atento também à questão do peso em kbytes: efeitos da computação gráfica. Luciana Faria, ge— Não adianta fazer uma imagem deslumbrante rente de Interface do Uol e responsável pela Editoria se a página ficar pesada a ponto de o internauta de Arte, diz que no portal o número de textos pudesistir de vê-la pela demora em baixá-la. blicados diariamente é muito grande: — DiferenteTrabalhando com uma equipe de seis designers mente da mídia impressa, na internet, primeiramencontratados, um estagiário e dois free lancers, te, a notícia é publicada e só depois é que as evenLuciana dá dicas aos interessados em atuar nesse tuais ilustrações são desenvolvidas pela equipe de segmento: — Fique atento às inovações tecnolóarte. Claro que isto muda em coberturas especiais, gicas, navegue muito, estude conceitos de praticicomo na Copa do Mundo, quando muito antes do começo da competição os jornalistas e designers envolvidos no projeto fazem reuniões e discutem o melhor formato para cada tipo de página e/ou informação. Ela resume as etapas de produção de um infográfico para o site: — Depois que os dados são enviados pelo editor, a equipe de arte os analisa, define a melhor imagem para representar a informação e se inicia a O infográfico nos informativos online: neste, do Globo Online, a ilustração mostra a evolução da marca dos 100 metros nado livre. pesquisa de referências. O próximo passo é criar uma formações, detalhes importantes que darão riquesegunda imagem, em que serão inseridos os dados. dade e arquitetura de informação, mas não se esza ao trabalho. Em outros casos, usam-se fotograAnimações e hiperlinks são recursos muito utilizaqueça de que a internet é uma mídia nova e em fias como referências para ajudar na representação. dos, mas o que define o nível de sofisticação do traconstante transformação — portanto, nenhum conDaí em diante, é tudo no computador, especialmenbalho é principalmente o tempo disponível para sua ceito é regra definitiva. te na hora de inserir o conteúdo em texto, editar execução. áudios, vídeos etc. A web tem linguagem própria, Dominar a linguagem de cores e formatos tamMaturidade profissional dá possibilidade ao leitor de interagir com o conbém é fundamental: — É da combinação entre esDaniel Chaves, editor de Arte do Globo Online, teúdo e experimentar sensações — e o leitor gosta ses dois elementos que surgem os mais belos e comdiz que o excelente grau de maturidade alcançado de se sentir participativo. petentes trabalhos. A criação não é um dom, é algo por artistas gráficos e designers há alguns anos no

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Jornal da ABI MEMÓRIA  José Reinaldo Marques

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m 13 de agosto foi comemorado o Dia do Patrono da Imprensa Brasileira, em homenagem a Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, que iniciou a sua carreira jornalística em Lisboa, em 1801, quando assumiu o cargo de Diretor Literário da Imprensa Régia Lusitana. Sete anos depois, em 1º de junho de 1808, ele fundava em Londres o jornal Correio Braziliense, que circulou clandestinamente no Brasil e na capital inglesa até 1822. Nascido na Colônia de Sacramento, atual República do Uruguai, em 13 de agosto de 1774, Hipólito José da Costa foi criado em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, onde fez os cursos preparatórios para sua formação em Direito e Filosofia na Universidade de Coimbra, que concluiu em 1798. PIONEIRISMO Em 2000, por projeto aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, Hipólito José da Costa foi consagrado oficialmente Patrono da Imprensa Brasileira e teve suas cinzas transportadas da Inglaterra para o Brasil. A urna foi depositada no Museu Nacional da Imprensa de Brasília, em cerimônia que contou com a presença do Vice-Presidente Marco Maciel. Na opinião de alguns pesquisadores, como o professor da Escola de Comunicação e Artes da USP José Marques de Melo, apesar da linha editorial essencialmente política do jornal, com o lançamento do Correio Braziliense Hipólito José da Costa também abriu espaço para o jornalismo científico no Brasil, por meio da divulgação dos fatos e idéias gerados no continente europeu que ele considerava relevantes para aplicação no Brasil, quando este ainda era uma colônia de Portugal. Esta vocação ele desenvolveu no século XVIII, quando foi destacado pelo Ministro português D. Rodrigo de Souza Coutinho para fazer uma viagem aos Estados Unidos, a fim de estudar as questões econômicas daquele país. Durante a missão, o jovem repórter fez um importante registro das inovações científicas e tecnológicas que a florescente nação norte-americana começava a desenvolver — o público, no entanto, só teve acesso a este estudo em 1955, quando foi publicado o Diário de Minha Viagem à Filadélfia.

CLANDESTINO Em 1801, já de volta a Portugal e pelas mãos do mesmo D. Rodrigo Coutinho, Hipólito foi nomeado Diretor da Casa Literária do Arco do Cego. Um ano depois, embarcou para Londres, em nova missão oficial, para

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que também destacavam seu ponto de vista favorável ao processo de independência da Colônia. O Correio Braziliense, de circulação mensal, é considerado por destacados estudiosos o pioneiro da imprensa brasileira, por seu caráter noticioso e independente. Era editado em Londres e transportado clandestinamente de navio para o Brasil, onde vigorava a proibição de veiculação de qualquer material impresso que não fosse oficial do Governo. Com um mínimo de 72 e máximo de 140 páginas, seu projeto gráfico, moderno para a época, compreendia seções de Política, Ciências, Comércio, Artes e Literatura e uma coluna que funcionava como espaço para o leitor.

Retrato de Hipólito José da Costa em litografia feita em 1811, em Londres, por H.R. Cook

Por lei, Hipólito José da Costa é o Patrono da Imprensa Brasileira e tem seu dia oficial: 13 de agosto

aquisição de material gráfico para a Imprensa Régia e livros para o acervo da Real Biblioteca. Suas relações com a Maçonaria portuguesa, porém, provocaram a perseguição do Santo Ofício, o que acabou resultando em dois anos e meio de prisão em Lisboa. Em agosto de 1805, ajudado por amigos maçons, Hipólito

José da Costa conseguiu fugir e refugiar-se na Inglaterra. Em Londres, Hipólito José da Costa foi beneficiado pela cidadania britânica e conseguiu imunidade contra as tentativas da Coroa portuguesa de conter suas críticas à política estabelecida no Brasil, veiculadas sem censura nas páginas do Correio Braziliense,

JUSTIÇA Apesar de a imprensa ter florescido na América hispânica no período colonial, no Brasil a atividade só pôde acontecer no início do século XIX, quando a Coroa portuguesa, fugindo da ocupação napoleônica na Península Ibérica, se transferiu para o Rio de Janeiro e aqui instalou o Reino Unido de Portugal. Nessa ocasião começaram a ser instalados no País os primeiros prelos e tipografias. Foi quando, segundo relato do Professor Marques de Melo, entrou em circulação na América o primeiro jornal de língua portuguesa, a Gazeta do Rio de Janeiro, editada pelo frei Tibúrcio José da Rocha. A edição da Gazeta, veículo oficial da Coroa portuguesa, gerou a controvérsia de quem teria sido o verdadeiro fundador do jornalismo brasileiro. A confusão aumentou quando o Presidente Getúlio Vargas oficializou a celebração do Dia da Imprensa na data de lançamento da Gazeta, que aconteceu no dia 10 de setembro de 1808. O problema só foi resolvido em 2000, quando o Congresso Nacional aprovou projeto de lei consagrando Hipólito da Costa como Patrono da Imprensa Brasileira, levando-se em consideração que o Correio Braziliense foi fundado em 1º de junho, data em que se comemora o Dia Nacional da Imprensa. Hipólito José da Costa é também o patrono da cadeira nº 17 da Academia Brasileira de Letras. Nos registros da ABL, o Correio Braziliense consta como “a mais completa tribuna de análise e crítica da situação portuguesa e brasileira, formando uma estante de 29 grossos tomos, os quais se estendem desde 1802 a 1822, ano em que a independência do Brasil estava transformada numa radiosa vitória”. Com a consumação da Independência do Brasil, Hipólito José da Costa considerou que seu dever estava cumprido e encerrou a publicação do jornal. Morreu em 1823, sem saber que tinha sido nomeado Cônsul do Império do Brasil em Londres.

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Jornal da ABI DEPOIMENTO ACERVO MURILO MELO FILHO

Repórter político por mais de 50 anos, ele acompanhou e viveu na intimidade os mais importantes fatos políticos do Brasil na segunda metade do século 20.

Repórter obstinado, Murilo Melo Filho entrevistou algumas das mais importantes personalidades do nosso tempo, como Eisenhower, Kennedy, Nixon, Reagan — quando presidentes dos Estados Unidos —, De Gaulle e Giscard d´Estaing. Também fez reportagens com Fidel Castro, Che Guevara, Perón e Evita, o cientista Albert Sabin e, em meio à cobertura da guerra do Vietnã, Ho-Chi-Min. Murilo gosta de lembrar que foi testemunha de grandes e decisivos momentos da História do País, como participante da cobertura de muitos episódios que transformaram a vida nacional, como a deposição de Getúlio Vargas, a construção de Brasília, a renúncia de Jânio Quadros e a proscrição de Juscelino Kubitschek. Nesta entrevista a José Reinaldo Marques, Murilo Melo Filho fala de sua carreira desde o início em Natal, Rio Grande do Norte, aos 12 anos de idade, até seu ingresso na Academia Brasileira de Letras, mais de meio século depois. Suas palavras são testemunho precioso de um período complexo da História do Brasil.

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Jornal da ABI — Fale sobre sua infância e sua família. Murilo Melo Filho — Nasci em Natal, Rio Grande de Norte, filho de Hermínia e Murilo Melo, telegrafista de quem herdei não apenas o nome, mas também um legado de muito trabalho e honradez. Minha infância foi pobre, ao lado de seis irmãos mais moços. Estudei no Colégio Marista de Natal, com a implantação em mim de um sentimento de dignidade e gratidão que tem norteado toda a minha vida. Jornal da ABI — Que lembranças Você tem desse período? Murilo — Lembro-me bem da revolução em Natal, em 23 de novembro de 1935, quando pela primeira vez uma república comunista se instalou na América Latina. Os revolucionários, liderados por um sargento, um músico e um sapateiro, dominaram a cidade durante quatro dias e chegaram a imprimir uma única edição do jornal A Liberdade, antes de serem sufocados pelas tropas do Exército que acorreram do Ceará e da Paraíba. Jornal da ABI — Você estreou cedo no jornalismo, aos 12 anos de idade. Como isso aconteceu? Murilo — Comecei no Diário de Natal, quando ainda usava calças curtas, com Djalma Maranhão, escrevendo um comentário esportivo e ganhando um salário de 50 mil réis por mês. Depois, fui trabalhar no jornal A Ordem, com Oto Guerra, Ulisses de Góes e José Nazareno de Aguiar, e em A República, com Luís da Câmara Cascudo. Ainda na minha cidade, trabalhei também nas Rádios Educadora e Poti. Jornal da ABI — Quando completou 18 anos, Você se mudou para o Rio de Janeiro. Por quê?

Murilo — Vim para o Rio convicto de que em Natal, onde não havia então uma só faculdade, não existiam maiores horizontes para um jovem disposto a enfrentar os perigosos desafios da vida. Jornal da ABI — Chegando ao Rio, Você foi logo trabalhar como jornalista? Murilo — Não. Comecei a trabalhar num escritório de advocacia e me inscrevi na Faculdade de Direito, que ficava na Rua do Catete. Achava que advocacia e jornalismo eram duas profissões que se completavam, porque ambas eram faladas e dependiam muito das relações humanas. Depois de formado, percebi que não seria nem um bom advogado e nem um bom jornalista se quisesse ser as duas coisas ao mesmo tempo. Jornal da ABI — E depois? Murilo — Assim que cheguei ao Rio, eu me inscrevi no Dasp (Departamento Administrativo do Serviço Público, já extinto), para fazer um concurso de datilógrafo do Ministério da Marinha; fui aprovado e em seguida passei também para um concurso do IBGE (atual Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ao mesmo tempo, comecei a me oferecer em todos os jornais cariocas para que me testassem e soubessem se eu prestava ou não. Apesar de existirem então mais de 30 periódicos, somente o Correio da Noite me deu uma oportunidade na reportagem marítima. Jornal da ABI — Você sentiu muita diferença entre o trabalho no Rio e o que havia feito em Natal? Murilo — Sim, claro, o impacto foi muito grande. Eu vinha de uma província com muitas limitações e poucos recursos para enfrentar um jornalismo moderno e adiantado no Rio, que naquela época tinha 33 jornais. Tive que fazer um esforço enorme para me

readaptar e enfrentar a rivalidade e a concorrência, que era feroz. Jornal da ABI — Do Correio da Noite Você foi parar na Tribuna da Imprensa, com Carlos Lacerda. Murilo — O Lacerda ligou para mim, dizendo que havia lido minhas reportagens e que gostaria que eu fosse trabalhar com ele. Estive na Tribuna de 1952 a 1959 e me envolvi naquelas campanhas todas dele: contra o Mendes de Morais, contra o lenocínio no Mangue, contra o jogo do bicho e até contra o jornal Última Hora e Getúlio Vargas. Jornal da ABI — Você trabalhou no Jornal do Commercio, com San Tiago Dantas e Assis Chateaubriand; e no Estadão, com Julio de Mesquita Filho e Prudente de Moraes, neto. Quais foram os seus melhores momentos nesses jornais? Murilo — Houve momentos gratificantes, mas também vivi outros traumatizantes, como o suicídio de Vargas, após longo processo de crise política e militar. Às oito da manhã daquele dia, aqueles que lutavam contra ele se consideravam vitoriosos com o seu pedido de licença. Meia hora depois, porém, passaram de vitoriosos a grandes derrotados. Jornal da ABI — Em que ano Você foi para a revista Manchete? Murilo — Trabalhei lá durante 47 anos, desde a fundação, em abril de 1952, até o seu fechamento em 1999, quando faliu. Foi uma grande escola de jornalismo e cultura. Dez membros da ABL passaram pelos quadros profissionais da Manchete: Josué Montello, Raimundo Magalhães Júnior, Antônio Houaiss, Ledo Ivo, Oto Lara Resende, Arnaldo Niskier, Carlos Heitor Cony, Afonso Arinos, filho, Cícero Sandroni e eu, além de outros quatro que não foram acadêmicos simplesmente porque não quiseram: Fernando

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Jornal da ABI Murilo fez sua iniciação na cobertura internacional muito jovem, como visível na foto, em que ele cumprimenta Nelson Rockefeller, então Governador de Nova York e figura influente do Partido Republicano.

Como repórter qualificado da revista Manchete, Murilo Melo Filho entrevistou destacadas personalidades, como o Presidente John Kennedy (à esquerda; com eles o Embaixador Roberto Campos) e Ernesto Che Guevara (a seu lado, Paulo de Tarso Santos, mais tarde Ministro da Educação).

Sabino, Rubem Braga, Henrique Pongetti e Paulo Mendes Campos. Jornal da ABI — Você também dirigiu a sucursal da revista em Brasília. Murilo — Como diretor da sucursal de Manchete, fui para Brasília no início de sua construção, em 1957, com minha mulher Norma e um filhinho de três meses. Não havia praticamente nada lá, comemos o pão que o diabo amassou, não gosto nem de me lembrar. Sou membro do Clube do Candango, que até hoje reúne os fundadores da cidade. Jornal da ABI — Mas nessa época Você ainda trabalhava na Tribuna da Imprensa. Murilo — Eu já era repórter político da Manchete e chefe da seção política da Tribuna da Imprensa quando o Juscelino foi pela segunda vez a Brasília e me convidou para ir também. Apesar da posição do jornal e do Lacerda, que lhe moviam uma guerra implacável, ele sempre me tratou com muita deferência. Jornal da ABI — Então Você acompanhou de perto o sonho de JK de instalar a capital do País no Planalto Central? Murilo — Sim. Eu via o entusiasmo dele. No dia seguinte à nossa chegada, às quatro da manhã ele já estava batendo na porta dos nossos quartos para irmos ver as obras. Apontava e dizia: “Aqui vai ser a Câmara, ali vai ser o prédio do Supremo Tribunal Federal...” Jornal da ABI — Qual foi a sua reação? Murilo — Voltei para o Rio, reuni os Bloch — o Adolfo, os sobrinhos todos — e disse: “Vamos entrar nessa, porque o homem é doido e vai construir Brasília”. Dois meses depois, comecei a ir a Brasília para acompanhar a construção da Capital e a publicar na Manchete, toda semana, uma reportagem sobre as obras. O Adolfo comprou máquinas novas e a revista começou a crescer, aumentando a tiragem. Jornal da ABI — Você era amigo pessoal do Presidente Juscelino? Murilo — Guardo desse homem ótimas recordações. Ele fez um Governo de liberdade e de respeito. Não gostava do Lacerda porque este queria derrubá-lo, mas respeitava o seu direito de escrever

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Murilo Melo Filho com um companheiro de grandes coberturas: o repórter-fotográfico Jáder Neves, fortemente equipado.

contra ele o que bem quisesse. JK dizia sempre: “Deus poupou-me o sentimento do medo. Mas poupou-me também o sentimento da vingança.”

Jornal da ABI — Falando de sua intimidade com políticos, Você escreveu no Jornal do Commercio sobre uma viagem a Cuba, acompanhando Jânio Quadros, que renunciou pouco depois. Que história foi essa? Murilo — Quando Jânio ainda era candidato, o Embaixador Vasco Leitão da Cunha ofereceu-lhe uma recepção na Embaixada Brasileira em Havana, repleta de refugiados políticos. Fidel Castro chegou de Sierra Maestra com Guevara e os dois começaram a contar para o Jânio várias histórias. Presenciei toda a conversa do princípio ao fim e ouvi o Fidel dizer o seguinte: “Imagine, Dr. Jânio, que quando nós entramos aqui na cidade, há seis meses, queríamos nacionalizar uma empresa norte-americana e o Dr. Manuel Urrútia, que nós havíamos designado para Presidente da República, era contra; queríamos encampar um banco estrangeiro, e ele se opunha. O senhor sabe o que eu fiz, Dr. Jânio? Renunciei ao meu posto de Primeiro-Ministro. No que renunciei, o povo veio para esta praça, na frente desta Embaixada, acampando aqui três dias e três noites, exigindo a minha volta”. Jornal da ABI — E qual foi a reação de Jânio? Murilo — Na viagem de volta ele era

outro Jânio. Chamou-me no último banco do avião, com um copo de uísque sem gelo entre as duas mãos, e falou: “Murilo, você viu o que o PrimeiroMinistro fez? Ele renunciou e o povo foi para a rua exigir a sua volta.” Jornal da ABI — Você acha que isso teve alguma influência no episódio da renúncia dele? Murilo — Olha, hoje eu tenho absoluta certeza de que aquilo ficou martelando na cabeça do Jânio e influenciou a sua decisão. Quando renunciou, ele vinha de Brasília e, ao chegar no aeroporto de Cumbica, indagava aos berros dentro do avião: “E o povo? Onde é que está o povo que não veio me buscar?” Jornal da ABI — Como jornalista político, Você privou da intimidade de muitos presidentes brasileiros. Como foi sua relação com os militares? Murilo — Com muito afastamento, neutralidade e alguma desconfiança. Eu os julgava com muita severidade, considerando as perseguições injustas e as cassações que eles promoveram — sobretudo Juscelino e outros tantos líderes que não mereciam ser cassados. Jornal da ABI — Mesmo estando em Brasília no primeiro ano do golpe, o se-

Jornal da ABI — Você também deu aulas de Jornalismo na Universidade de Brasília.. Murilo — Foram cinco anos muito instigantes, durante os quais, a convite de Oscar Niemeyer, lecionei Técnica de Jornalismo, com Pompeu de Souza, na minha primeira e última experiência como professor. Até recebi um manifesto dos estudantes para ficar. Jornal da ABI — Você trabalhou na extinta TV Rio, no programa “Congresso em revista”. Foi uma boa experiência trabalhar em televisão? Murilo — Comecei a trabalhar no Canal 13 uma semana depois de ele entrar no ar. Dos três blocos do programa de meia hora, um chamava-se O assunto da semana e o outro, Os ausentes da semana, com base na freqüência dos deputados publicada no Diário Oficial. Havia ainda um terceiro bloco, O parlamentar da semana, com entrevistas com deputados e senadores que tivessem se destacado.

Outro Presidente dos Estados Unidos que Murilo pôde conhecer e entrevistar: Richard Nixon, eleito (1968), reeleito (1972) e derrubado pelo escândalo do Watergate (1973).

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Jornal da ABI Murilo com dois companheiros da Manchete: Arnaldo Niskier, Diretor de Jornalismo, e Luiz Fernando Cascudo.

nhor conseguia manter distância dos governantes militares? Murilo — Eu tinha um princípio: eles passam e eu fico como jornalista. Por que é que eu vou fazer o jogo deles? Jornal da ABI — Na sua opinião, qual Presidente brasileiro soube usar melhor a mídia e foi hábil no trato com os repórteres? Murilo — Sem dúvida o Juscelino, não só pela sua obra, que fez o Brasil progredir 50 anos em cinco, mas também pela empatia pessoal. JK era um homem jovial e dinâmico, que deu ao País novos padrões de desenvolvimento.

Jornal da ABI — Que fato marcante o senhor poderia destacar daquela época? Murilo — Nós que fazíamos a cobertura da Câmara presenciamos os virulentos discursos de Vieira de Melo contra Carlos Lacerda e os ataques de Afonso Arinos contra Getúlio. Foi um período de grande talento oratório. Depois aconteceram o suicídio de Getúlio Vargas, a eleição de Juscelino e sua trepidante atuação na Presidência. Havia também a violenta oposição da UDN, que radicalizava e não perdoava falhas do Governo.

Jornal da ABI — Somente há pouco, com dois anos e meio de Governo, o Presidente Lula concedeu sua primeira coletiva. Como Você analisa a relação dele com os veículos de comunicação? Murilo — Eu nem sei por que ele adiou tanto esse primeiro contato. Por sua longa trajetória no movimento sindical, Lula sabia de sua habilidade para tratar os jornalistas. Não perdeu nada e saiu-se bem na primeira coletiva. Só espero que este êxito estimule maior freqüência.

Jornal da ABI — Qual o discurso que mais lhe chamou a atenção? Murilo — Um de Afonso Arinos, em que ele dizia: “Como homem, falo ao homem Getúlio Vargas. Falo ao cidadão para que não hesite um só momento em deixar o Governo que ele não soube honrar”. Mais tarde o Afonso Arinos fez questão de que o seu discurso nunca mais fosse lembrado. Dez dias depois o Getúlio se suicidou e ele achava que a sua fala contribuíra para o gesto desesperado do Presidente.

Jornal da ABI — Você pertence a uma geração de jornalistas — da qual também fazem parte Carlos Castelo Branco e Vilas-Bôas Corrêa, entre outros — que é considerada uma das mais importantes do jornalismo político brasileiro. Por quê? Murilo — Porque fomos testemunhas presentes e atuantes do período de 1950 a 1960, quando a Câmara dos Deputados se reunia no Palácio Tiradentes. Com a construção de Brasília, tudo se transformou.

Jornal da ABI — Você também foi correspondente de guerra, no Vietnã e no Camboja. Qual a imagem que mais o marcou nesse período? Murilo — O que vi foi a mais estúpida das situações. Homens miúdos levando pesados morteiros nas costas, caminhando grandes distâncias debaixo da terra e respirando por canudos de bambu. De repente, lançavam os seus morteiros contra os tanques norte-americanos e assim destruíram a maior má-

Numa brincadeira com o jornalista Mauritônio Meira, Murilo aventou a hipótese de um dia chegar à Academia Brasileira de Letras. Chegou: ei-lo paramentado de fardão, com a mulher e Niskier, outro ás da Manchete tornado imortal.

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Incumbido da cobertura da obra de construção de Brasília, Murilo conquistou o respeito do Presidente Juscelino Kubitschek (ao alto, com o Deputado Ranieri Mazzili entre os dois). Foto à esquerda: Murilo e Norma, sua mulher, com Drault Ernany e o jovem Tancredo Neves.

Murilo com os Presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, este num encontro social de que participaram sua mulher, Norma, e o jornalista Carlos Chagas, que então chefiava a Representação da ABI em Brasília.

quina de guerra do mundo. Jornal da ABI — Em 1999, Você se elegeu para a cadeira número 20 da Academia Brasileira de Letras. Foi o jornalismo que lhe abriu as portas da Academia? Murilo — Entre as benesses que o jornalismo me proporcionou está o ingresso na Academia Brasileira de Letras. Eu costumava freqüentar as reuniões dos acadêmicos com seus fardões, juntamente com os companheiros Deolindo Couto e Gilberto Amado. Um dia eu disse para o Mauritônio Meira, também jornalista e recém-chegado do Maranhão: “Quem sabe se algum dia eu não vou chegar aqui?” Cinqüenta anos depois, aqui estou eu. Jornal da ABI — Qual a sua relação com a ABI? Murilo — Eu pertencia ao Conselho Deliberativo, no qual tive a alegria de

conviver com muitos colegas jornalistas com os quais fiz amizade. Eram ótimas companhias. Jornal da ABI — Em que estágio se encontra o jornalismo brasileiro? Murilo — Está ingressando numa era inteiramente nova, mais investigativa. Há um material vastíssimo a explorar e as revistas estão investindo mais nessa vertente, a exemplo da IstoÉ e da Carta Capital. Jornal da ABI — Você considera que a nova geração está dando conta do recado? Murilo — Não há dúvida de que os jovens repórteres estão empenhados em se afirmar e têm pela frente ambientes propícios para isso. O fato de as próprias empresas de comunicação criarem cursos de capacitação de pessoal recém-formado mostra que elas estão se consolidando e aponta na direção do sucesso.

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Jornal da ABI PRECIOSIDADES Pereira da Silva (Pereirinha) ACERVO JOURDAN AMORA

Criado pelo idealismo do jor nalista Jo urdan Amora e jornalista Jou mantido pela sua obstinação, o Centro de P esquisa e Pesquisa Preser vação da Memória da Imprensa Brasileira, sediado reservação em Niterói, tem um acer vo invejável sobre a evolução acervo editorial e tecnológica dos veículos impressos no P aís. País.

O

único museu destinado a guardar e pesquisar a História da Imprensa no Brasil está funcionando desde 4 de abril de 2002 num salão de 600 metros quadrados no andar térreo da Imprensa Oficial do Estado do Rio, em Niterói, idealizado e dirigido por jornalistas, professores, historiadores e advogados. Lá é possível encontrar exemplares de jornais com manchetes históricas dos séculos XIX e XX; recortes dos fatos ligados ao setor e registrados durante 50 anos pelo Lux Jornal, empresa especializada em leitura e fornecimento de recortes de jornais; livros, álbuns e cadernos especiais comemorativos de datas históricas de jornais; uma réplica da “Impressora de Gutenberg”, linotipos, clichês, tipos móveis, máquinas gráficas de escrever ou fotográficas; etc. Mas também a “modernidade” dos anos 70 do século XX, marcada pela introdução do sistema ofsete de impressão e início da fase de informatização dos meios de imprensa – desde “composers” eletrônicas com computadores XT –, está lá, entre painéis ilustrados e com textos que “falam” de história das gráficas, jornais, revistas e emissoras de rádio e de tevê. O começo A idéia da criação do museu foi plantada oficialmente no dia 3 de outubro de 1989 por Jourdan Amora, veterano repórter e diretor de jornal ao se despedir da presidência da Associação Brasileira de Jornais do Interior-Abrajori. Aproveitan-

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do o encontro em Niterói de 300 diretores de empresas jornalísticas, ele mobilizou representantes de 13 Estados para criar o “Centro de Pesquisa e Preservação da Memória da Imprensa Brasileira”, como entidade destinada a encontrar espaço para implantar o museu, como “depósito de memória de veículos de comunicação social e dos jornalistas”. Após entendimentos com a Prefeitura de Niterói, o Governo do Estado e a Universidade Federal Fluminense, 13 anos depois, no fim do Governo Anthony Garotinho, Jordan Amora conseguiu um espaço com a Imprensa Oficial do Estado, que ali também

preserva os seus 74 anos de história. O órgão público dá seu apoio cedendo uma museóloga e dois estagiários, além de manter a limpeza, ceder um ramal telefônico e não cobrar os gastos com luz. À inauguração, quando presidia a Imprensa Oficial o atual Deputado Adroaldo Peixoto Garani, compareceram 300 pessoas, o que transformou o ato num acontecimento nacional, graças à cobertura dada por emissoras e jornais de audiência e circulação em vários Estados. O presidente do Museu da Imprensa do Porto, Portugal, encantou-se com a “forma didática e pedagógica” do bem montado museu, que mereceu visitas como a da diretora da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e editores de sites europeus.

Um dos tesouros do museu fluminense: uma réplica da “Impressora de Gutenberg”, que deu início à revolução do livro e do jornal.

Promoções Empenhando-se em comemorar datas como o Dia da Imprensa, do RepórterFotográfico, dos Gráficos etc. e ser palco de lançamentos de livros sobre comunicação social, o museu tem promoções destacadas como a mostra “Humor no Museu”, que reúne cartunistas de vários Estados. Voltado para servir aos pesquisadores e aos estudantes, promovendo visitas guiadas, o museu tem sido alvo de produções de equipes de cursos de Jornalismo e ponto de referência para elaboração de teses e monografias. Este ano, o Dia da Imprensa teve como palestrante o Presidente da ABI, Maurício Azêdo. Seguiram-se noite de

autógrafos do livro Alberto Cavalcanti, cineasta do mundo, de autoria do jornalista Sergio Caldieri; exposição de cartuns de Mário Carias (foto acima), que atua na imprensa niteroiense, e recepção de documentos, exemplares e peças para enriquecer seu já rico acervo. O Festival de Humor teve sua segunda edição em agosto; para setembro foi programada exposição em homenagem ao fotógrafo francês Cartier Bresson no décimo aniversário de sua morte. Apelo O presidente Jordan Amora considera que o museu ainda tem grandes deveres a cumprir, mas para o cumprimento dos seus objetivos precisa que os veículos de comunicação, os jornalistas, os professores de Jornalismo e autores de livros entendam que a entidade é destinada a eles e está aberta à participação. O museu é importante fonte de pesquisa sobre a imprensa e sobre os que a fazem – os jornalistas.. — Já temos biografias, principalmente de falecidos, de mil jornalistas e temos apelado aos coleguinhas para que nos remetam suas histórias pessoais e o que possam contar de histórias de vida de outros profissionais, a cujos dados pessoais tenham acesso – diz Jordan. Igualmente o museu gostaria de receber os primeiros números de jornais em circulação e livros editados por jornalistas ou abordando temas e fatos do setor. O museu também pretende ter um representante em cada Estado e está à disposição dos que se disponham a assumir tão relevante missão. Os sócios O Museu da Imprensa pode bater um recorde digno do Guinness Book: é o de menor custo financeiro. Sem se



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Jornal da ABI VISITA beneficiar de verbas ou patrocínios, vive de doações para o seu acervo e de colaborações para a promoção dos seus eventos. Como exemplo, em cada evento os convites são produzidos gratuitamente pelas gráficas da cidade. Os associados pagam R$ 15,00 por mês. Considerado o sétimo melhor do mundo, entre os dedicados ao jornalismo, e o segundo mais visitado entre os sete da cidade de Niterói, o museu desperta o interesse de um número muito grande de estudantes, jornalistas e professores. Entretanto, apesar de convidadas para todos os eventos, poucas autoridades públicas, nos três níveis de governo, o visitaram. O museu funciona de segunda a sexta-feira das 10 às 17 horas, com entrada franca. Visitas guiadas podem ser agendadas através do ramal 211 do telefone 2620-1122. O seu endereço: Rua Marquês de Olinda, Centro, sede da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro. Para quem chegar de barca ou catamarã, o museu está a mil metros da estação de desembarque, com acesso pela Rua Dr. Celestino. Quem chega da Ponte Rio—Niterói entra na Avenida Amaral Peixoto até à Praça da República e segue duas quadras da Rua Dr. Celestino. Placas de orientação indicam o caminho.

Governo Lula, tema da TV espanhola

O jornalista Jourdan Amora (terceiro à esquerda) e sua mulher, Eva (à direita), ciceroneiam visitantes estrangeiros que querem conhecer todas as dependências do museu.

Pereirinha é repórter político de A Tribuna, presidente do Centro Comunitário, Social e Cultural da Trindade, com sede no bairro Trindade, Município de São Gonçalo, diretor da União das Associações de Moradores de São GonçaloUnibairros, membro suplente do Conselho Deliberativo da ABI e membro dos Conselhos Municipais de Comunicação e de Segurança Pública de São Gonçalo, RJ.

O jornalista espanhol Juan Antonio Sacaluga Luengo (foto) esteve no Brasil fazendo uma matéria sobre os mil dias de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência, para exibição na Televisión Española SA em 12 de outubro. Entre os representantes de diferentes setores da vida cultural e empresarial brasileira, Luengo entrevistou o Presidente da ABI, de quem quis saber, entre outras coisas, como é o relacionamento do Governo Lula com os meios de comunicação. Sacaluga veio de Madri especialmente para este trabalho e lamentou que, devido à crise política no País, não tenha conseguido confirmar a entrevista que pretendia fazer com Lula. Apesar das dificuldades encontradas para falar com o Presidente, ele manteve as esperanças de resolver o problema, ainda que tivesse que prolongar sua permanência no Brasil. Depois que chegou à Espanha, Sacaluga, muito cavalheiresco, mandou um e-mail à ABI confirmando o dia de exibição da reportagem.

Medalha para Kepler Borges As novas gerações de jornalistas não sabem o que é uma linotipo, máquina fantástica que revolucionou a imprensa e a vida.

Por dentro do museu

Um equipamento gráfico hoje em desuso na imprensa: a produtora de fotolitos, que há 30 anos era um must, um assombro nas oficinas de jornal.

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 Um dos diretores do museu, Luís Antônio Pimentel, com 94 anos de idade, ainda está em atividade profissional e é a memória viva do jornalismo fluminense.  O museu nasceu com o acervo reunido por Jordan Amora em seus 50 anos de jornalismo e equipamentos doados pelo jornal A Tribuna e guardados pela empresa em cada fase da tradição tecnológica (da tipografia à fase inicial do ofsete e da informática).  O seu espaço é aberto para programações alusivas ao setor, com solenidades programadas por empresas, entidades e escolas de Comunicação, ou para lançamento de livros, etc.  Empresas que produzem equipamentos, peças ou insumos para jornais podem ali depositar suas histórias.  O museu tem uma biblioteca especializada em comunicação social, com mais de 400 volumes.  Seu Conselho Deliberativo é integrado, entre outros, pelos presidentes dos Sindicatos dos Jornalistas Profissionais e das Empresas Jornalísticas do Estado do Rio de Janeiro com sede em Niterói e diretores de Sindicatos dos Gráficos, da Indústria Gráfica e dos Publicitários.

A Associação dos ex-Combatentes do Brasil, Seção Rio de Janeiro, concedeu ao Presidente de Honra da Academia Luso-Brasileira de Letras, Kepler Alves Borges, a Medalha Jubileu de Ouro, pelos relevantes serviços prestados à classe — Kepler é capitão reformado do Exército e participou da 2ª Guerra Mundial como terceiro-sargento, no teatro de operações da Itália”, na 3ª Seção do Estado-Maior da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, sob a chefia do então TenenteCoronel Humberto de Alencar Castelo Branco. Autor do livro O Brasil na guerra (1947), registrado na Biblioteca do Imperial War Museum, de Londres, por solicitação de seu Diretor, advogado, jornalista e sócio da ABI há 58 anos, Kepler é atualmente assessor de imprensa da Real Sociedade Clube Ginástico Português (Grande Benemérito) e auditor do Superior Tribunal de Justiça Desportiva da Confederação Brasileira de Remo (Benemérito).

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Jornal da ABI CLAMOR

UM BASTA À CORRUPÇÃO A sociedade civil expressa em ato na ABI sua exigência de honestidade na vida pública

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EDIMILSON S. FERREIRA

A

ABI foi cenário no dia 28 de julho de vigoroso ato público de repúdio à corrupção, convocado por um conjunto de partidos políticos – PDT, PPS, P-Sol, PSTU, PCB – e apoiado por dezenas de entidades representativas da sociedade civil. A adesão à manifestação adquiriu tanta dimensão que, ao declarar aberto o ato, o Presidente da ABI pediu que a sessão não se prolongasse muito, porque a superlotação do Auditório Oscar Guanabarino, com capacidade para 600 pessoas, e de seu saguão de acesso, amplo hall no nono andar do Edifício Herbert Moses, impunha cuidados especiais de segurança. Na entrevista coletiva que deram antes do ato público, os presidentes do PDT, Carlos Lupi; do PPS, Roberto Freire; do P-Sol, Heloísa Helena; do PSTU, José Maria; e do PCB, Zuleide Faria de Melo, afirmaram que a mobilização que estão promovendo contra a corrupção é também um manifesto contra o atual modelo econômico. — O PDT abraçou este ato em nome da democracia brasileira, para buscar demonstrar à população que há caminhos diferentes do que os tomados pelo PT. Por isso seremos intransigentes contra a corrupção e o modelo econômico extorsivo que vem achatando os salários dos trabalhadores — disse Carlos Lupi. O Presidente do PDT disse também que o desejo do partido e de seus aliados é mostrar que há caminhos diferentes para a esquerda brasileira: — O que nos interessa neste momento é um projeto para o País e configurar uma aliança que se coloque à esquerda do PT, para não ficar essa falsa polarização, parecendo que o Brasil está entre o Valério do PT ou o Valério do PSDB. Para a Presidente do PCB, a participação do seu partido no ato representa o fortalecimento de um debate nacional sobre a ética na política. Zuleide Faria de Melo se disse decepcionada com o Governo: — Apoiamos o Lula porque ele era um candidato que representava os anseios do trabalhador brasileiro. Nós, que somos defensores da classe operária, esperávamos dele um comportamento que não aconteceu. Por isso estamos hoje aqui, para falar de ética, de justiça e de transformações que ajudem todo trabalhador a usufruir dos resultados do seu trabalho. O Presidente do PSTU, José Maria, justificou a adesão do seu partido ao ato com a crença na tese de que a atual crise política só poderá ser consertada se houver envolvimento da população: — Não acreditamos que a solução esteja no Congresso, pois o Poder Legis-

De tão grande, a assistência ocupou até o palco do ato pluripartidário pela ética.

lativo é controlado pelo poder econômico. É importante que a manifestação venha das ruas. Também vamos lutar por uma apuração rigorosa da corrupção e pela prisão de todos os envolvidos. Semana que vem, daremos entrada no Ministério Público Federal num pedido de investigação do Lula e do envolvimento dele no processo. O Deputado Roberto Freire ressaltou que os escândalos de corrupção que levaram à atual crise política provocaram uma grande frustração nos eleitores de Lula e em toda a nação. E demonstrou discordar da posição do Presidente do PSTU de que a solução da crise está fora do Congresso: — Ainda não temos unidade, mas precisamos lutar pelo Congresso Nacional, mesmo que nele haja membros envolvidos nas denúncias. Devemos acreditar no Congresso como um instrumento democrático que possa dar solução à crise. O Presidente do PPS fez dura crítica ao PT, dizendo que o partido do Governo falhou em sua proposta de construção de um novo modelo de sociedade: — Havia um pensamento de fracasso da esquerda e diziam que nós socialistas é que falhamos por não termos construído um mundo novo. O PT é que é uma grande fraude histórica, porque não tentou nada. Lamentavelmente, é uma profunda decepção. A Senadora Heloísa Helena, por sua vez, justificou a participação do P-Sol no ato contra a corrupção: — Não estamos aqui para um tributo de modismo de pequenos burgueses. Viemos aqui para dizer não ao modelo econômico que beneficia a elite, que nunca se alegrou tanto como neste momento. Heloísa Helena disse também que neste momento todos os partidos estão fazendo concessões, “não ideológicas ou éticas”, para que se possa

construir uma alternativa de mobilização popular, mas que não compartilha com esta “manobra para desviar as atenções do cerne da crise”. Sobre a possibilidade de impeachment, ela respondeu: — Se o Presidente da República responderá por infrações federais, os resultados das apurações das CPIs é que vão indicar. Devemos seguir o que manda a Constituição do País, mas o impeachment seria a última alternativa. Defendemos a penalização de quem rasga o Código Eleitoral. Não aceitamos o caixa dois. Crimes contra a administração pública devem dar cadeia. Carlos Lupi também afirmou que o PDT trabalha para preservar a Constituição: — Se as denúncias, infelizmente, atingirem o Presidente Lula, que se cumpra o que está previsto na Constituição, sem medo. A proposta de acordo entre os partidos políticos feita pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Nelson Jobim, para evitar que o País corra riscos de chegar a uma crise institucional, foi muito criticada pelos presidentes dos partidos presentes à coletiva. — O Ministro Nelson Jobim atuou como um líder do Governo no Congresso. Não compete a ele julgar os recursos. Sua intervenção foi inoportuna, indevida, e ele deveria se resguardar, pois poderá ser convocado para tomar algumas decisões importantes para o País — disse Roberto Freire. Para a Presidente do PCB, Zuleide Faria de Melo, o Ministro Nelson Jobim não deveria dar opiniões pessoais sobre a crise política: — Esse não é o seu papel como representante do Judiciário. Primeiro orador do ato, o Governador de Alagoas, Ronaldo Lessa, alertou que a luta contra a corrupção deve ser feita com prudência e responsabilida-

de. Segundo ele, é possível promover transformações sem criar uma crise institucional: — É preciso a apuração de todos esses escândalos. O País não agüenta mais tanto sofrimento. Zuleide Faria de Melo, Presidente do PCB, discursou sobre o quadro de degeneração do Governo: — É preciso denunciar e pedir a punição dos que traíram o povo brasileiro. Mas também é preciso reforçar que o Congresso não tem legitimidade para aprovar o impeachment de Lula. Martiniano Cavalcante, membro da Executiva Nacional Provisória do P-Sol, representou a Senadora Heloísa Helena — que teve que se ausentar após a coletiva concedida antes do ato por problemas pessoais, da mesma forma que a Deputada federal Denise Frossard (PPS–RJ) — e falou sobre o apodrecimento de um regime político: — Governabilidade para quem e para quê? Para atender às classes dominantes? O Governo se aliou às elites. A esquerda do PT tem que assumir uma postura de combate à corrupção. O Presidente da ABI leu um texto enviado pelo Deputado federal Chico Alencar e pelo Deputado estadual Alessandro Molon, em que eles declararam seu apoio à voz coletiva dos manifestantes na luta contra a corrupção e afirmando que o Brasil não está à venda. A mensagem não agradou aos participantes, que a vaiaram durante a leitura, pela vinculação partidária de ambos. O Senador Juvêncio Fonseca (PDTMS) afirmou que é necessário promover manifestações de rua antes que o Brasil entre numa crise moral irreversível. A Deputada federal Luciana Genro (P-Sol – RS) também falou da importância de mobilizar a sociedade: — Nós do P-Sol nos recusamos a concordar com a prática do sindicalismo dentro de qualquer governo. Não temos medo de uma crise institucional. É fundamental confiar na luta dos pobres e trabalhadores. Estiveram presentes ao ato, entre outros, os Deputados federais Babá (PSol) e Severiano Alves (PDT); os exdeputados Clemir Ramos (PDT) e João Sampaio (PDT), ex-prefeito de Niterói; os Deputados estaduais José Bonifácio (PDT), Paulo Ramos (PDT) e André Correia (PPS); o ex-Vereador Américo Camargo, representando o Vereador Sami Jorge (PDT); os Vereadores Eliomar Coelho (PT) e Brizola Neto (PDT); Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, presidente da Força Sindical; militantes de vários partidos e representantes dos diretórios acadêmicos das principais universidades do Rio de Janeiro.

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Jornal da ABI HOMENAGEM EDIMILSON S. FERREIRA

Poerner, Benemérito Assembléia Legislativa do Estado do Rio confere honraria ao autor de O Poder Jovem.

mo ele, uma chance de poder renovar esperanças e valores tão necessários nos tempos sombrios que estamos vivendo. A homenagem, revelou o Deputado, era pensada há algum tempo.— Um grupo de jovens que lançou a Cartilha do Movimento Estudantil reforçou essa idéia.

Momentos de Poerner: com Brizola, a quem ele conheceu também no exílio; na Ala dos Compositores da Portela, sua escola, e com a camisa de sua paixão, o Flamengo.

“EMBAIXADOR” O Presidente da ABI abriu a cerimônia chamando para compor a mesa, com Minc e o homenageado, Walter Oaquim e Leonardo Giordano, Subsecretário de Meio Ambiente de Niterói. Em seguida, convidou para discursar um antigo companheiro de Redação de Poerner, Sérgio Cabral, que apontou como justa a homenagem ao jornalista. Poerner, disse, tem importante papel intelectual ao ajudar a humanidade com seu talento.— Eu me orgulho duplamente pela entrega desta medalha. Primeiro, pelo nascimento; segundo, pela consagração pelo Estado. Em seu discurso, Cabral, bemhumorado, lembrou ainda dos tempos em que ele e Poerner atuaram juntos na sala de imprensa do Itamarati.— Ele era do Correio da Manhã e eu, da Folha de S. Paulo. Naquela época, Poerner já era um dos mais brilhantes. Depois trabalhamos juntos na Folha da Semana, onde ele assumiu a direção. Azêdo, que foi nosso colega nessa época, costumava chamá-lo de “Embaixador”. Com o livro O Poder Jovem, Poerner explodiu como intelectual. É uma pessoa que preserva sua integridade e seu talento e é bom ter entre nós essa figura. O compositor Dalmo Castelo emocionou-se ao falar do amigo. – Ele é grande parceiro, grande confrade. Uma pessoa com quem convivi durante muito tempo e que sempre me deu alento nos piores momentos. O ex-Deputado federal Vladimir Palmeira disse que o livro de Poerner decretou uma mudança sociológica ao instituir a categorização da juventude. — Ele trata da História do movimento estudantil. Na nossa época, éramos chamados para mudar o mundo. Hoje, há uma mudança de valoACERVO ARTHUR POERNER

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Ao lado do Deputado Carlos Minc, que o conheceu no exílio, em Lisboa, no final dos anos 70, Poerner exibe com orgulho o diploma de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro.

EDIMILSON S. FERREIRA

COM CANDEIA No saguão do auditório foi montada uma exposição de fotos do jornalista em momentos importantes da História, com personalidades como o Governador Leonel Brizola, ao lado de registros de sua conhecida paixão pelo futebol e o samba.— Minha antiga paixão pela Portela nasceu da minha amizade com Candeia, um dos maiores nomes do samba do Brasil, com quem fiz duas músicas. Inclusive, quando estava exilado em Londres, acertamos um samba por telefone. Já o Flamengo está representado nesta festa, agora, na presença de Walter Oaquim, membro do Conselho Deliberativo do clube e meu companheiro de faculdade. Sobre o livro O Poder Jovem: História da Participação Política dos Estudantes Brasileiros, proibido pela ditadura, Poerner orgulha-se de estar esgotada a quinta edição, lançada no ano passado na ABI. — É um dos meus 12 livros publicados e me trouxe grandes alegrias

depois de ter sido lançado em julho de 1968 e em dezembro do mesmo ano ter ficado entre os 20 títulos proibidos pelo AI-5. O Deputado Carlos Minc disse que a homenagem foi, na verdade, à nossa História, porque Poerner, ao escrever sobre a juventude e suas grandes lutas, as imortalizou.— Ele faz com que a gente reflita. Quando homenageamos um jornalista importante como ele, num momento de crise como o que vivemos, serve de alento, é uma coisa necessária para o País. Amigo de longa data do jornalista, Minc recorda que o conheceu em Lisboa, quando Poerner ainda estava exilado na Europa.— É um orgulho poder conviver com uma pessoa co-

ACERVO ARTHUR POERNER

O jornalista Arthur José Poerner recebeu em 12 de agosto do Deputado Carlos Minc o tttulo de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro. O evento aconteceu no Auditório Oscar Guanabarino, no 9º andar do Edifício Herbert Moses, sede da ABI, instituição a que Poerner é filiado desde 1964 e da qual é membro efetivo do Conselho Deliberativo. Antes da cerimônia, Poerner se disse satisfeito com a homenagem, por ser um reconhecimento pelo trabalho que realizou — no seu caso, no jornalismo, na literatura e na música, como letrista.— Quando recebemos esses títulos, pensamos em toda a gente que conhecemos e que lutou para tornar este País mais democrático. Quando tive meus direitos políticos suspensos por uma década, tinha apenas 26 anos; fui a pessoa mais jovem do Brasil a ter seus direitos cassados. Fiquei quase 14 anos exilado e vejo que não passei pela vida sem deixar alguma coisa. Lisonjeado, agradeceu a iniciativa da Carlos Minc: — Já tenho a maior homenagem do Município, a Medalha Pedro Ernesto e agora recebo o maior título do Estado.

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Jornal da ABI CONSELHO EDIMILSON S. FERREIRA

res, a participação política dos jovens é menor. Quando é necessário, porém, a juventude do Brasil se levanta e participa.

EDIMILSON S. FERREIRA

ATO DE CORAGEM Walter Oaquim lembrou que Poerner lhe disse uma vez que quando perdia uma utopia logo criava outra. — Nossa luta não termina nunca. Quando não consigo alcançar uma coisa, recompensa-me olhar para trás e ver que construí uma estrada de justiça social, como sempre defendemos. Antes de entregar o título a Poerner, Minc disse que fez uma Poerner com Walter Oaquim, Diretor do Flamengo: viagem no tempo ao ver as fotos Utopia não se perde, troca-se. da exposição, em que muitas vezes aparecia ao lado do amigo em momentos importantes, como num se aliar àqueles que tiveram participaencontro em Lisboa. — Esta não é uma ção ativa nas lutas nacionais. A juvenhomenagem ao jornalista e escritor, tude não está ausente, mas é preciso amante da música e do futebol. É uma continuar se organizando e lutando homenagem especial que nos orgulha para se ter dignidade. de sermos cariocas e brasileiros. Ao agradecer, Poerner disse não ter Leonardo Giordano falou sobre a o talento de oradores como Brizola ou importância de prestar uma homenaFidel Castro, mas que queria expressar gem a alguém que escreveu uma obra sua felicidade com a iniciativa de Carlos para a juventude.— Os jovens devem Minc: — Sempre me preocupei com a democracia. É muito bom receber esta homenagem nesta Casa, da qual sou associado desde 1964 e que é atualmente presidida pelo meu amigo Maurício Azêdo, que preserva desde os tempos da Folha da Semana a mesma tenacidade na luta por justiça. Ao fim do evento, encerrado com o hino Cidade Maravilhosa, Maurício disse que se sensibilizou ao relembrar os tempos em que compartilhava a redação da Folha da Semana com Poerner, o que era considerado um ato de ousadia naqueles idos de setembro de 1965-dezembro de 1966, quando o jornal foi proibido por uma portaria do então Ministro da Justiça Carlos Medeiros e Silva.— Era um ato extremado de coragem produzir um jornal do Partido Comunista Brasileiro naquele momenEllen de Lima, uma das Cantoras do Rádio, to difícil que o Brasil vivia. levou seu abraço a Poerner.

Trabalho, exílio, prisão Escritor, jornalista, professor e compositor de música popular, Arthur José Poerner começou a carreira jornalística como repórter do Jornal do Commercio, em 1962. Mais tarde, foi redator da Standard Propaganda e do Correio da Manhã; diretor da Folha da Semana e articulista da Revista Civilização Brasileira. Após a suspensão dos seus direitos políticos, em 1966, e a prisão, em 1970, exilou-se na Alemanha, onde foi redator e locutor da rádio Voz da Alemanha e correspondente da Tribuna da Imprensa, do semanário Pasquim e da revista IstoÉ.

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Depois da volta ao Brasil, em 1984, foi editor de Cultura da TV Globo e escreveu para a revista Cadernos do Terceiro Mundo e para os jornais O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. De 1987 a 1990, presidiu o Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro e, de 1991 a 1994, a Fundação Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Entre outros livros, publicou Argélia, o caminho da independência, Nas profundas do inferno, Identidade cultural na era da globalização e Nossa paixão era inventar um novo tempo.

Pajê e Chediak na Diretoria Aprovada por unanimidade a indicação dos dois, que completaram a Diretoria. Em sua reunião de agosto, o Conselho Deliberativo da ABI promoveu o preenchimento de cargos da Diretoria que estavam vagos desde abril, em conseqüência da renúncia de diretores. Para a Diretoria Econômico-Financeira foi designado o Conselheiro Domingos Meirelles, que já vinha exercendo o cargo interinamente e, para assumi-lo em caráter efetivo, renunciou à Diretoria de Assistência Social. Para esta foi indicado e aprovado o Conselheiro Paulo Jerônimo de Souza, conhecido no meio profissional como Pajé; para a Diretoria de Cultura e Lazer, o associado Jesus Chediak Dois caminhos, dois vencedores Chediak e Pajé cumpriram trajetórias distintas no campo da comunicação, o primeiro empenhado na criação e implantação de programas culturais, o segundo voltado para o campo estrito do jornalismo, seja em veículos de comunicação, seja em instituições de caráter público. Por mais que buscasse dedicar-se apenas a jornais e revistas, sua paixão desde moço, Pajê foi sempre atraído para a vida pública. Após participar da assessoria do candidato Francisco Negrão de Lima ao Governo do antigo Estado da Guanabara em 1965, Pajê não pôde negar-se a uma missão que Negrão cordialmente lhe impôs como vitorioso: participar de sua assessoria de imprensa. Pajê foi depois assessor de imprensa de mais dois governadores, Moreira Franco e Marcelo Alencar, que o chamou para a campanha eleitoral e, depois, vitorioso, para a assessoria de imprensa do Governo do Estado. Trabalhou também, e muito tempo, na comunicação do BNDES, no qual ingressou em 1979. Ao contrário de Pajê, paulista de Mococa que começou em 1963 na Sucursal de São Paulo do Boletim Cambial, pela mão do jornalista Aristóteles Andrade, e que se profissionalizou mesmo, nesse ano, no Jornal do Dia, de Belém do Pará, tentativa de Samuel Wainer de implantar a então florescente Rede Última Hora no Norte do País, Chediak fez sua iniciação perto de casa, na adolescência, como freqüentador habitual do Correio da Manhã, de que um dos seus tios era editorialista. Ele criou gosto pelo jornalismo, trabalhou na revista Jóia, da Bloch Editores, colaborou no Jornal de Letras dos

Jesus Chediak (ao alto) retorna ao setor de cultura da ABI. Pajé traz para a Casa densa experiência.

irmãos Conde, editou o periódico Interartes, órgão da Rioarte, instituição cultural da Prefeitura do Rio, mas queria era promover realizações na área cultural. Conseguiu e as promoveu na própria ABI, de que foi Diretor das Atividades Culturais em 1980, tendo como parceiro de iniciativas um saudoso companheiro, o jornalista e professor José Nilo Tavares. Desde então Chediak acumulou realizações marcantes, como o recorde de freqüência de 430 mil espectadores pagantes em um ano a um teatro público, o João Caetano do Rio, de que foi Diretor no segundo Governo Leonel Brizola. Embora muitos companheiros pensem que seu apelido teria surgido no jornalismo, Paulo Jerônimo de Souza traz o Pajê da atividade esportiva, em que se iniciou muito cedo, na infância. Como seu prenome era duplo e considerado muito extenso, os companheiros de piscinas e de quadras resolveram abreviar a forma de chamálo, que pegou até hoje. É com orgulho que Pajê relembra essas origens: além de jogador de basquete, modalidade em que chegou a integrar as seletas equipes do Banespa, foi tricampeão paulista de natação e ouviu muitas vezes o grito de “dá-lhe, Pajê!”

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Jornal da ABI DENÚNCIA

A ABI SOB CERCO O Conselho Nacional de Assistência Social e o INSS conluiaram-se para, em nome de suposta dívida, se apossar do patrimônio da ABI.

C

om base no esdrúxulo entendimento de que uma entidade beneficente de assistência social deve atender todas as pessoas em “situação de vulnerabilidade” – num país em que mais de 40 milhões de pessoas se encontram abaixo da linha de pobreza —, o Conselho Nacional de Assistência Social, órgão do Ministério do Desenvolvimento Social e do Combate à Fome, está sonegando à ABI a renovação do Registro e do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social, decisão que levou o Instituto Nacional do Seguro Social-INSS a lançar contra a ABI a cobrança de cinco anos de contribuição previdenciária patronal, num montante que em 3l de dezembro de 2004 superava mais de 2,6 milhões de reais. Com isso, o Conselho Nacional de Assistência Social e o INSS colocaram e mantêm a ABI sob um cerco implacável, com o qual pretendem se apossar do patrimônio da entidade e especialmente do Edifício Herbert Moses, sede da instituição desde julho de 1938, construída e mantida pelo esforço de nada menos de quatro gerações de jornalistas, à frente o próprio Moses, que dá nome ao prédio, primeiro marco da arquitetura contemporânea brasileira. Contra essa agressão a ABI ingressou no Conselho Nacional de Assistência Social com um Pedido de Reconsideração de Indeferimento, na tentativa de reverter uma seqüência de hostilidades desfechada no Governo Fernando Henrique Cardoso e continuada sob o atual Governo, que, tal como seu antecessor, ignora que a ABI foi declarada de utilidade pública por um decreto-lei editado pelo Congresso Nacional e sancionado em 1917 pelo então Presidente Venceslau Brás. Aqui, a íntegra da petição da ABI.

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O DOCUMENTO ILUSTRÍSSIMA SENHORA DOUTORA MÁRCIA MARIA BIONDI PINHEIRO, DIGNÍSSIMA PRESIDENTE DO CONSELHO NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL E COMBATE À FOME Referência: Processo nº 71010.000795/2004-17 1. A Associação Brasileira de Imprensa, já qualificada nos autos do processo em epígrafe, vem, tempestivamente, ingressar nesse Egrégio Conselho com PEDIDO DE RECONSIDERAÇÃO DO INDEFERIMENTO do pedido contido no processo citado, conforme admitido no caput do art. 39 da Resolução nº 177 do CNAS, de 8 de dezembro de 2004, e informado no Ofício MDS/CNAS/Pres/Nº 221, de 20 de maio passado, no qual Vossa Senhoria deu ciência dessa decisão denegatória, fundada no entendimento de que “a matéria de isenção de cota patronal não é competência do CNAS”. 1.1. A tempestividade do presente Pedido de Reconsideração decorre do fato de que, embora datado de 20 de maio, o expediente dessa Presidência foi postado somente no dia 12 de junho seguinte, conforme reprodução do envelope da correspondência dirigida a esta Associação (Documento 1). Ainda que a comunicação tenha sido remetida por via postal como registrado urgente, evidencia-se que ela não chegou ao destinatário antes de 13 de junho passado. Daí, pois, a comprovação da tempestividade deste Pedido de Reconsideração. 1.2. Antes da sustentação das razões que a levam a postular desse Egrégio Conselho a revisão da decisão de indeferimento de seu pleito, objetivando não a concessão de isenção da contribuição previdenciária patronal ao Instituto Nacional do Seguro Social-INSS, como referido no mencionado Ofício MDS/CNAS/Pres/Nº 221, mas sim a concessão de Recadastramento do Registro e a expedição do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social, o qual assegura o acesso à obtenção posterior da isenção da contribuição previdenciária patronal, a Requerente considera necessário formular preliminares de caráter fático e constitucional acerca do tratamento que tem merecido do Poder Público e, agora, do Conselho Nacional de Assistência Social. É o que fará a seguir. 2. PRIMEIRA PRELIMINAR, DE CARÁTER FÁTICO: O DESCONHECIMENTO DA TRAJETÓRIA E DO PAPEL DA ABI NA VIDA NACIONAL

2.1. No Ofício CNAS/MDS/PRES/Nº 3071/05, de 1º de junho de 2005, em que desenvolve mais extensamente a comunicação acerca do indeferimento do Processo nº 71010.000795/2004-17, essa ilustrada Presidência repete a informação de que o indeferimento do pleito da ABI foi motivado pelo fato de “abordar matéria de competência exclusiva do INSS (isenção de cota patronal)”. Diz ainda Vossa Senhoria que, “observando o trâmite dos processos da Associação Brasileira de Imprensa”, verificou que “há um desvirtuamento entre os objetivos da entidade e os da Lei Orgânica de Assistência Social-LOAS, motivo preponderante nos indeferimentos de pedidos anteriores de concessão de Registro e Certificado de Entidade Beneficente de Assistência SocialCEAS” (grifo nosso, ABI). 2.1.1. Há aí o reconhecimento, primeiro, de que o que a ABI tem pleiteado e ainda agora pleiteia no processo em epígrafe não é a isenção de cota patronal, mas a concessão dos documentos que lhe permitirão o acesso à isenção –– o Registro e Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social; segundo, de que há outros motivos para o desacolhimento de seu pleito, pois se o alegado desvirtuamento é o motivo preponderante do indeferimento, este é determinado também por outras razões sobre as quais este motivo prepondera. 2.1.2. Entre esses outros motivos que levam o Conselho à decisão de indeferimento figura por certo o desconhecimento acerca do que é a ABI, que é tratada com profundo desrespeito nos procedimentos contra ela adotados por esse Conselho e pelo Instituto Nacional do Seguro Social, que ignoram a natureza da entidade, sua trajetória em quase um século de existência e seu papel na vida nacional. A ABI é tratada como se postulasse benefício indevido e destituído de qualquer fundamento constitucional, legal e ético, o que já em si constitui uma ofensa à mais antiga e representativa entidade dos jornalistas e dos profissionais de comunicação do País. 2.1.3. Uma prova desse desapreço é constituída pela própria tramitação do Processo nº 71.010.000795/2004-17, que foi formado no princípio de 2004 e permaneceu cerca de um ano sem qualquer despacho, instrução, opinamento ou evento processual de qualquer natureza e só suscitou a atenção desse Egrégio Conselho porque um diligente profissional contratado pela Casa para outros fins, o Contador Sérgio Barbosa, se interessou pelo processo, foi a Brasília por conta própria e, aí na capital, buscou informar-se sobre a tramitação do pedido da ABI. Só então o processo passou a andar, mereceu parecer e foi incluído em pauta, para o julgamento que, sem qualquer diligência, culminou com o fuzilamento da pretensão da ABI.

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Jornal da ABI 2.1.4. A ABI, Senhora Presidente, foi fundada em 7 de abril de 1908 e desde então tem-se colocado na vida nacional não como entidade meramente corporativista, voltada exclusivamente para a defesa de interesses específicos dos jornalistas, mas como uma instituição destinada à defesa dos interesses maiores do País e do seu povo em inúmeros campos. Se hoje a Petróleo Brasileiro S.A.-Petrobrás pode alardear com legítimo orgulho que até o ano de 2010 procederá à aplicação de US$ 53 bilhões em investimentos no setor de petróleo, isto se deve à luta de gerações e gerações de brasileiros que sustentaram com discernimento e heroísmo a idéia da criação do monopólio estatal do petróleo, no fim dos anos 40 e começo dos anos 50, até à aprovação da Lei nº 2.004, de 3 de outubro de 1953, que instituiu esse monopólio e criou a Petrobrás. Em recinto fechado, Senhora Presidente, o cenário principal e mais freqüente dessa memorável campanha cívica foi o Auditório Oscar Guanabarino da Associação Brasileira de Imprensa, situado no nono andar do Edifício Herbert Moses, sede da ABI, o qual abrigou também outras campanhas patrióticas, como, entre outras, a luta em defesa das riquezas minerais do País. 2.1.5. Mais recentemente, em momento mais próximo da nossa História atual, a ABI teve papel destacado na regeneração dos costumes políticos do País, infelizmente ainda inconcluída, por sua participação na revolução ética que resultou no impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello. O primeiro signatário da petição apresentada à Câmara dos Deputados com esse fim foi o Presidente da ABI, jornalista, escritor, professor e acadêmico Barbosa Lima Sobrinho, símbolo de brasilidade e de limpidez na vida pública. 2.1.6. No campo político-institucional, Senhora Presidente, a Associação Brasileira de Imprensa tem papel inigualado, que só encontra símile na atuação do Egrégio Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil-OAB a partir da inesquecível gestão do advogado José Ribeiro de Castro Filho, que, no começo dos anos 70, colocou a entidade dos advogados brasileiros na primeira estacada da luta pelo respeito às liberdades civis e aos direitos humanos e pelo estabelecimento do Estado Democrático de Direito no Brasil, que inexistia entre nós mesmo sob o império da Constituição de 18 de setembro de 1946, rasgada pelo golpe militar-civil de 1° de abril de 1964. 2.1.6.1. Foi na ABI, Senhora Presidente, que o General-de-Exército Pery Constant Bevilacqua, após afastar-se do serviço ativo, como membro do Excelso Superior Tribunal Militar, lançou a Campanha Nacional pela Anistia, bandeira desfraldada pioneira e corajosamente pela ABI em abril de 1965, na primeira Assembléia-Geral Anual que realizou após a derrubada do Governo constitucional do Presidente João Goulart. Coube à ABI aglutinar nessa iniciativa, cuja presidência foi confiada ao honrado General Pery Bevilacqua, a ação dos Comitês Pró-Anistia constituídos em diferentes pontos do País pelo idealismo de desprendidos cidadãos e cidadãs, como, em São Paulo, a admirável Dra. Terezinha Zerbini. Foi graças a essa luta que ascenderam na vida pública os antigos perseguidos pelo regime militar, que agora assistem inermes e passivos à agressão que se efetiva à ABI. 2.1.6.2. Foi também a ABI, Senhora Presidente, ao lado de instituições como o já referido Conselho Federal da OAB e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, uma das instituições que mais pugnaram pela implantação do Estado Democrático de Direito consagrado pela Constituição de 5 de outubro de 1988, com o conteúdo social insculpido no seu Capítulo II e na extensa enunciação contida nos arts. 6 a 11 do texto constitucional. Entre esses direi-

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tos figuram os que integram a política de assistência social do País, de que esse Egrégio Conselho é guardião. Precisamente por essa atuação da ABI não pode esse Conselho insistir em desconhecer o papel que esta Casa do Jornalismo teve e tem na definição e instituição de políticas de amparo à gente brasileira, como aquelas em curso no campo da assistência social. 2.1.7. A ABI, Senhora Presidente, não é uma entidadezinha que possa ser continuadamente espezinhada, como está sendo, por freqüentes comunicações, intimações, notificações e outros procedimentos intimidatórios que a desviam da trilha da sua destinação principal, que é a defesa da liberdade de imprensa, para acudir a emergências ditadas por uma legislação de circustância, imprecisa e capciosa e redigida em jargão palavroso e oco que não enaltece seus autores. A ABI está cansada disso, dessa coação exercida por servidores que, embora qualificados e atendendo às obrigações legais de seu ofício, não podem ser o braço burocrático de baixa hierarquia de impulsão da ação totalitária de que a ABI agora é vítima.

ZA CONSTITUCIONAL: A VIOLAÇÃO DOS DIREITOS ADQUIRIDOS DA ABI 3.1. A Associação Brasileira de Imprensa, Senhora Presidente, foi considerada de utilidade pública há quase 90 anos –– há exatamente 88 anos, completados, coincidentemente, neste dia 11 de julho – – por um diploma legal que reuniu a vontade de dois Poderes da República, o Legislativo e o Executivo, e que apresentou a singularidade de, sendo Ato do Poder Legislativo, ter assumido a forma de decreto, forma hoje típica das atribuições do Poder Executivo, e de ter recebido a sanção do Presidente da República, então, na grafia antiga, Wenceslau Braz Pereira Gomes, com a assistência, hoje desnecessária, de seu eminente Ministro da Justiça, o celebrado jurista Carlos Maximiliano (Carlos Maximiliano Pereira dos Santos). 3.1.1. Publicado no Diário Oficial da União em 14 de julho de 1917, como já referido, o Decreto n° 3.997/17 não deixava margem, como não deixa até hoje, a qualquer névoa de dúvida sobre a determi-

“A ABI foi fundada em 7 de abril de 1908 e desde então tem-se colocado na vida nacional não como entidade meramente corporativista, voltada exclusivamente para a defesa de interesses específicos dos jornalistas, mas como uma instituição destinada à defesa dos interesses maiores do País e do seu povo.” 2.1.7.1. A Associação Brasileira de Imprensa, Senhora Presidente, é uma instituição de prestígio internacional, expresso em inúmeros episódios de sua existência longeva, como a visita que o Presidente dos Estados Unidos Harry Truman fez à sua sede no fim dos anos 40; o costume adotado pelo Itamarati, quando sediado no Rio de Janeiro, de fazer da ABI o cenário das entrevistas coletivas concedidas à imprensa brasileira por ilustres visitantes de todas as áreas, desde agentes do Estado a personalidades do mundo artístico e cultural; o desejo manifestado por líderes políticos de expressão internacional de visitá-la, como fez o Senador Robert Kennedy durante sua visita ao Brasil no fim dos anos 60, pouco antes de ser morto pelas balas da intolerância. Essa tradição, Senhora Presidente, só foi interrompida porque, com sua atuação em defesa das liberdades e dos direitos humanos, a ABI foi colocada pela ditadura no índex, no rol dos adversários do sistema repressivo instalado no País entre 1964 e 1985. 2.1.8. Desde logo, Senhora Presidente, a ABI manifesta a sua disposição de, paralelamente à formulação deste Pedido de Reconsideração, representar à Comissão Interamericana de Direitos Humanos contra o Estado e o Governo brasileiros por agirem para sufocar, com base numa legislação especiosa, a mais antiga instituição do Brasil de defesa da liberdade de imprensa. 2.1.9. Por todo o exposto anteriormente, fica claro, Senhora Presidente, que a ABI é credora do reconhecimento nacional. O Estado nacional muito lhe deve, pela contribuição por ela prestada no campo da difusão de conhecimentos, no campo do aperfeiçoamento dos costumes políticos, no campo da educação e, também, como já assinalado, no campo da assistência social. 2.1.9.1. Mais que o reconhecimento nacional, a ABI reclama respeito, que lhe tem sido sonegado pelo Poder Público e por esse Egrégio Conselho. 3. SEGUNDA PRELIMINAR, DE NATURE-

nação do Poder Público de conferir à ABI, assim como às associações brasileiras de escoteiros, onde quer que se situassem no território nacional, o status de entidade de utilidade pública. Diz o citado texto legal, jamais revogado e, portanto, plenamente em vigor:

DECRETO Nº 3.997 DE 11 DE JULHO DE 1917 Considera de utilidade pública as associações brasileiras de escoteiros, com sede no País, e de Imprensa, com sede na Capital Federal. O Presidente dos Estados Unidos do Brasil: Faço saber que o Congresso Nacional decretou e eu sanciono a resolução seguinte: Art. 1º - São consideradas de utilidade pública, para todos os efeitos, as associações brasileiras de escoteiros, com sede no País (grifo nosso, ABI). Art. 2º - É, outrossim, considerada de utilidade pública a Associação Brasileira de Imprensa, com sede na Capital da República. Art. 3º- Revogam-se as disposições em contrário. Rio de Janeiro, 11 de julho de 1917, 96º da Independência e 20º da República. WENCESLAU BRAZ P. GOMES Carlos Maximiliano Pereira dos Santos. 3.1.2. Grifamos as expressões para todos os efeitos porque têm estas a abrangência que esse Egrégio Conselho e o Instituto Nacional de Seguro Social agora pretendem negar e estão a negar. Não admitiam os Poderes da República que houvesse qualquer restrição ou condicionamento à largueza de benefícios de toda natureza que concediam às múltiplas instituições destinatárias da norma legal –– a ABI e incontáveis associações de escoteiros constituídas pelo País afora. O reconhecimento do caráter já então benemerente da ABI era visível no fato de o ato

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Jornal da ABI incluí-la num ato legal que conda sociedade civil, como, “Num país em que há mais de 40 milhões de pessoas em tantes templava também as associações para citar apenas algumas, a de escoteiros, fundadas, pela ins- situação de vulnerabilidade, como registrado nos União Social Camiliana, a Instipiração de seu criador, Baden tuição Adventista Central BrasiPowell, para servir ao próximo, levantamentos, pesquisas e relatórios oficiais, só alguém leira de Educação e Assistência para servir à comunidade, indiviSocial, a Instituição Sinodal de ou uma instituição desinformada e alienada pode supor dual e coletivamente. Assistência, Educação e Cultura, 3.1.2.1. Esse ato há de pre- que uma entidade de assistência social possa escancarar a Federação Brasileira de Entidavalecer com a amplitude com des de e para Cegos, a Obra Socique foi concebido e instituído, suas portas para o atendimento de qualquer pessoa e al Santa Isabel, dentre as muitas porquanto jamais foi revogado que compõem e dignificam o Pleda multidão de pessoas que baterem à sua soleira.” ou sequer parcialmente alterado. nário do Conselho Nacional de Se o Conselho Nacional de AsAssistência Social. sistência Social deseja ignorá-lo 4.1.3. Ao fazer tão absurda e ou descumpri-lo, fundamentando decisões do INSS descabida exigência à ABI, a Senhora Presidente do to”, este reproduzido de forma truncada e sem indinocivas à ABI, tem que propor ao Presidente da ReCNAS está cometendo contra a Casa do Jornalista cação de qual, já que a ABI tinha um estatuto que pública que encaminhe ao Congresso Nacional prouma discriminação que agride o caput do art. 5° da vigorou até à edição do novo Código Civil e passou jeto de lei com esse fim e tem que atuar junto à CâConstituição da República, já reproduzido nesta a contar com outro após a Assembléia que procedeu mara dos Deputados e ao Senado Federal para que petição e que é relevante transcrever mais uma vez: à adaptação da antiga lei interna às disposições inoaprovem a proposição, para sua submissão à sanção “Art. 5° - Todos são iguais perante a lei, sem disvadoras da Lei Civil Magna. A transcrição feita, alido Presidente da República. Enquanto isto não for tinção de qualquer natureza, garantindo-se aos braás, peca não apenas pelo truncamento, mas pela infeito, gerando novo diploma legal, cassatório dos disileiros e aos estrangeiros residentes no País a felicidade redacional da tentativa de reprodução de reitos da ABI, e se ambos persistirem no procediinviolabilidade do direito à liberdade, à igualdade, à forma sintética de disposições relacionadas com a mento que vêm adotando, o Conselho Nacional de segurança e à propriedade, nos termos seguintes:” finalidade e as atividades da ABI. Após essa transAssistência Social e o INSS estarão cometendo, como 4.1.4. A ABI reclama o cumprimento dessa discrição, diz o mesmo parágrafo do Ofício n° 3071/05: já cometem, uma grosseira violação da Constituiposição constitucional: não quer ser tratada sem “No nosso entendimento, para entidade ser conigualdade, como está sendo. ção da República em disposição de seu capítulo siderada como beneficente de assistência social hadefinidor do Estado Democrático de Direito por ela veria necessidade de adaptações nos estatutos e na 5. DO MÉRITO: O DIREITO DA ABI À instituído, o Capítulo I – Dos Direitos e Deveres Inárea de atuação, visando o acesso da população em situação de vulnerabilidade aos serviços da ABI” (griOBTENÇÃO DO REGISTRO E CERTIFICADO dividuais e Coletivos, que abre o Título II – Dos Difo nosso, ABI). DE ENTIDADE BENEFICENTE DE ASSISTÊNreitos e Garantias Fundamentais. Trata-se do art. 5°, 4.1.1. Neste ponto vemo-nos diante de uma ineCIA SOCIAL inciso XXXVI, que estatui: xatidão, para não dizer inverdade, pois a ABI atende Art. 5° - Todos são iguais perante a lei, sem dis5.1. A longa sustentação e exposição feita até em seus serviços de assistência social não apenas “a tinção de qualquer natureza, garantindo-se aos braagora dispensam a ABI de se estender por demais na classe jornalística”, como referido, mas a jornalistas, sileiros e aos estrangeiros residentes no País a defesa do mérito de sua pretensão, que se arrima publicitários e trabalhadores, qualquer que seja a sua inviolabilidade do direito à liberdade, à igualdade, à num direito, o instituído pelo Decreto n° 3.997, de atividade ou qualificação profissional, das empresas segurança e à propriedade, nos termos seguintes: 11 de julho de 1917, de que é detentora não desde de comunicação e de publicidade. A esse universo ontem ou anteontem, mas desde 1917, há precisasoma-se aquele atendido pelos serviços da instituição XXXVI – a lei não prejudicará o direito admente 88 anos. Médicos Solidários, à qual, mediante convênio, a ABI quirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada; 5.2. Decorre também o direito da ABI do cumproporciona a base para atendimento de milhares de primento que faz de disposições da Resolução n° 31 pessoas carentes de assistência médica. Se a premissa 3.1.2.2. Contra essa afirmação poder-se-á objedo CNAS, de 24 de fevereiro de 1999, como expresutilizada por Vossa Senhoria é incorreta, igualmente tar que a ABI atendeu, em diferentes momentos, a so no art. 2°, que assegura o registro no CNAS de incorreta é a conclusão nela baseada. prescrições contidas em também diferentes decreentidades que, sem fins lucrativos, promovam “a pro4.1.2. O essencial nesse passo da fundamentatos que impuseram condições para a obtenção do teção à família, à infância, à maternidade, à adolesção do Conselho para negar à ABI o Registro e o Registro e Certificação de Entidade Beneficente de cência e à velhice” (inciso I), a assistência educacioCertificado requeridos é que, como sublinhado na Assistência Social, o que indicaria uma renúncia ao nal ou de saúde (inciso V) e o desenvolvimento da transcrição que fizemos de trecho do Ofício n° 3071/ direito que lhe foi conferido pelo Decreto n° 3.997/ cultura (inciso VI). 05, o CNAS, ou sua Presidente, pretende cobrar da 17. Com isso, a entidade estaria reconhecendo a le5.3. Ainda que não entendido assim pela SenhoABI comportamento que não exige nem pode exigir gitimidade da imposição de obrigações instituídas ra Presidente do CNAS, o direito da ABI decorre das entidades de assistência social, qual seja o de pela legislação posterior, tanto decretos como leis. igualmente, ao contrário do sustentado no Ofício proporcionar “o acesso da população em situação de 3.1.2.2.1. É verdade que a ABI cumpriu exigênvulnerabilidade” aos serviços da entidade reconhe3071/05, do atendimento pela Casa do disposto no cias para se habilitar à obtenção do Registro e do cidas como de assistência social. Isto não ocorre, nem inciso I do art. 2° da Lei Orgânica da Previdência Certificado citados, como se poderá alegar, mas o pode ocorrer, pelo absurdo contido nessa exigência. Social, que inclui entre os objetivos da assistência fez não como uma renúncia ao direito que o DecreNum país em que há mais de 40 milhões de pessoas social “a proteção à família, à maternidade, à infânto n° 3.997/17 lhe assegurou, mas sim como preem situação de vulnerabilidade, como registrado nos cia, à adolescência e à velhice”. sunção de que esse atendimento poderia proporciolevantamentos, pesquisas e relatórios oficiais, só al5.3.1. Através dos programas executados por sua nar-lhe outros benefícios ou vantagens que o sisteguém ou uma instituição desinformada e alienada Diretoria de Assistência Social, a ABI cuida da proma de assistência social pudesse criar e partilhar pode supor que uma entidade de assistência social teção à família e, ao cuidar desta, da maternidade, entre as entidades com atuação no campo da assispossa escancarar suas portas para o atendimento de da infância e da adolescência e desenvolve especialtência social. Foi um mau vaticínio da ABI: em vez qualquer pessoa e da multidão de pessoas que batemente um trabalho de proteção à velhice, termo que de obter qualquer benefício, entregou-se à silenciorem à sua soleira. É extremamente infeliz e distantanto a Resolução n° 31/99 do CNAS como a Lei sa ferocidade com que esse Egrégio Conselho e o ciada da realidade a Senhora Presidente do CNAS Orgânica da Previdência Social utilizam com absoINSS tentam sugar-lhe a carótida. quando esgrime como condição para o reconheciluta inadequação, já que, por respeito a esses pamento da ABI como entidade beneficente de assistrícios, a linguagem corrente, inclusive a agora ado4. TERCEIRA PRELIMINAR, DE NATUREtência social a obrigação de atender aos milhões de tada em textos legislativos, prefere as expressões “terZA CONSTITUCIONAL: O CARÁTER DISdesvalidos da Cidade e do Estado do Rio de Janeiro, ceira idade” ou “idosos”, em vez de um termo (veCRIMINATÓRIO DO TRATAMENTO QUE O onde tem sede, pois é a milhões que montam aquelhice) que indica fragilidade, decadência, caquexia, CNAS DÁ À ABI les em “situação de vulnerabilidade” no território quando a proteção e a atenção devidas aos idosos há carioca e no território fluminense. de fazer-se sempre, independentemente de seu es4.1. No Ofício n° 3071/05, folha 2, terceiro pará4.1.2.1. Para não irmos longe, é inimaginável que tado de saúde ou de sua fragilidade. grafo, Vossa Senhoria imputa à ABI o delito ou ino Conselho Nacional de Assistência Social tenha fei5.3.1.1. Embora empenhada na atração para o suficiência de desenvolver “suas atividades para um to tal exigência, com êxito, a nobres e destacadas insquadro social dos jovens e da gente madura que tragrupo específico envolvendo a classe jornalística de tituições que integram o seu Plenário como represenbalham no mundo da comunicação em todo o País, acordo com finalidade estabelecida em seu estatu-

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Jornal da ABI ingresso que oxigenaria a instituição e asseguraria, como certamente assegurará, sua existência atuante por muitas décadas após a comemoração do seu centenário no próximo ano de 2008, a ABI não pode deixar de reconhecer que a larga maioria dos seus associados, por sua prolongada fidelidade e seu enraizado amor à instituição, se situa na faixa etária que a Resolução n°31/99 e a Lei Orgânica da Assistência Social definem como velhice. Tal tem de ser reconhecido também pelo Conselho Nacional de Assistência Social. 5.3.2. Se persistir na negativa de conceder à ABI o Registro e o Certificado que ela postula, inviabilizando a existência e atividade da Casa do Jornalista, o Conselho Nacional de Assistência Social estará assestando fulminante petardo contra o universo de cidadãos que lhe cabe proteger, contra o primeiro e abrangente objetivo da assistência social adotada no País: a proteção à família. 6. DO PEDIDO 6.1. Com fundamento no exposto e sustentado, vem a Associação Brasileira de Imprensa, Senhora Presidente, requerer o que se segue: 6.1.1. a concessão do Registro e Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social, qualidade adquirida pela ABI com a edição do Decreto n° 3.997, de 11 de julho de 1917, ato legislativo ainda em vigor e insuscetível de ser acrescido de exigências nele não contidas; 6.1.2. que o Registro e Certificado concedidos tenham vigência para o período de 1 de janeiro de

1995 a 31 de dezembro de 1997 e sejam objeto de declaração expressa de renovação para os triênios 1998-2000, 2001-2003 e 2004-2006, para o fim de assegurar à ABI, através de procedimento junto ao INSS, órgão competente para tal, a isenção da contribuição previdenciária patronal relativa a esses períodos: 6.1.3. a emissão de declaração de que o Conselho Nacional de Assistência Social reconhece que o Decreto 3.997/17 dispensa a ABI, doravante, da necessidade de renovar periodicamente Registro e Certificado referidos. 7. EXORTAÇÃO FINAL 7.1. É nosso dever acrescentar, Senhora Presidente, ainda que essa informação já possa ser conhecida pelo CNAS, que o Instituto Nacional do Seguro Social, com base na negativa da concessão à ABI do Registro e Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social, decidiu lançar retroativamente a 1 de janeiro de 1995 o montante da contribuição previdenciária patronal que considera imputável à ABI, o qual alcançava em 31 de dezembro de 2004 o valor de R$ 2.602.817,51. Em valor dolarizado, calculado pela taxa média de R$ 2,50 por dólar da cotação das últimas semanas, isto significa o lançamento sobre o lombo da ABI de uma dívida superior a 1 milhão de dólares norte-americanos. 7.2. A persistirem o entendimento e a negativa do Conselho Nacional de Assistência Social, o montante citado significará o sufocamento da Associação Brasileira de Imprensa, a inviabilização de seu

funcionamento e o cerceamento de fato de sua existência. Implicará também a apropriação pelo Estado, pela penhora para liquidação da suposta dívida, do patrimônio construído por mais de quatro gerações de jornalistas, o Edíficio Herbert Moses, espécime pioneiro da arquitetura brasileira contemporânea, concebido em 1936 pelos jovens irmãos arquitetos Marcelo e Milton Roberto, vitoriosos em concurso público nacional, e construído sob a liderança dinâmica do jornalista Herbert Moses, que o inaugurou há exatos 67 anos, em 10 de julho de 1938. 7.3. À ABI restará o consolo de poder, desde já, denunciar à Comissão Interamericana de Direitos Humanos e aos organismos internacionais de jornalistas e de órgãos de imprensa o crime que se está a cometer contra a liberdade de imprensa e a liberdade de associação no Brasil. Senhora Presidente, Que o bom senso ilumine Vossa Senhoria e seus dignos pares no Conselho Nacional de Assistência Social na hora da decisão. Termos em que pede deferimento. Rio de Janeiro, 11 de julho de 2005. Maurício Azêdo Presidente da ABI cc. Ministra Dilma Rousseff Ministro Celso Amorim Ministro Luiz Gushiken

LIBERDADE DE IMPRENSA

Denúncia de trabalho escravo demite jornalista O jornalista pernambucano Cícero Belmar, editor-executivo do Jornal do Commercio do Recife, foi demitido do emprego porque autorizou a publicação de uma matéria que noticiava uma ação do Ministério do Trabalho de que resultou a libertação de 1.200 lavradores que trabalhavam em regime de escravidão na Fazenda Gameleira, localizada no Município de Confreza e de propriedade do empresário Eduardo Queiroz Monteiro, que também é dono do jornal Folha de Pernambuco. A matéria, distribuída pela Agência Folha, foi publicada com exclusividade pelo Jornal do Commercio na edição de 18 de junho e no mesmo dia saiu em O Globo, Folha de S. Paulo e Correio Braziliense. A Rádio CBN comentou o assunto, os portais Uol e iG também publicaram a reportagem, que no dia seguinte à publicação no JC saiu na revista Época Cícero Belmar confirmou que dois dias depois foi chamado pelo diretor de Redação Ivanildo Sampaio, que lhe comunicou que a reportagem havia desagradado a direção do jornal. O motivo seria o fato de João Carlos Paes Mendonça, dono do Jornal do Commercio, ser amigo de Eduardo Queiroz Monteiro,

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que teria ficado insatisfeito com a veiculação da notícia. – O Ivanildo Sampaio disse que seria obrigado a me demitir porque a reportagem sobre a libertação dos trabalhadores escravos foi considerada uma campanha difamatória contra o jornal Folha de Pernambuco, cujo dono é amigo pessoal do proprietário do Sistema Jornal do Commercio de Pernambuco – contou Cícero Belmar. Procurado para se manifestar sobre o assunto, Ivanildo Sampaio, muito exaltado e gritando ao telefone, disse o seguinte: – Será que eu não posso tirar um cara da minha equipe de confiança? Todo mundo está me enchendo o saco com isso. Eu tirei porque tirei – berrou o diretor de Redação desligando

rispidamente o telefone sem dar chance ao repórter de lhe dirigir qualquer outra pergunta. Cícero Belmar trabalhava há 12 anos no Jornal do Commercio e há nove ocupava a editoria-executiva do jornal. Ele revelou preocupação com a sua situação, pois em Pernambuco o mercado de trabalho para jornalistas na imprensa se restringe a três veículos: o JC, de que foi demitido, a Folha de Pernambuco, que motivou a sua condenação, e o Diário de Pernambuco. A ABI denunciou a demissão de Cícero Belmar como mais um golpe contra a liberdade de imprensa e de expressão, prática que vem sendo adotada contra jornalistas em diferentes pontos do País, e manifestou seu repúdio à censura imposta ao jornalista pernambucano.

Leitora do DF denuncia autocensura  Em mensagem enviada à ABI por e-mail, a cidadã Fátima Álvares Emediato reclamou

que o Correio Braziliense e o Jornal de Brasília não publicam informações sobre a CPI da Educação na Câmara Legislativa do Distrito Federal, que investiga irregularidades na Secretaria de Educação, sob suspeita de superfaturamento em contratos para prestação de serviços de transporte escolar e de contratação ilegal de professores. Informou a leitora que “no início dos trabalhos da CPI o jornal Correio Braziliense chegou a publicar matérias; depois silenciou e só publicava alguma coisa sem muitos detalhes na sua página na Internet”. Fátima diz ainda que “no Jornal de Brasília o silêncio é total”.

Deputado do Tocantins agride jornalista Em carta enviada à ABI, o Presidente da Associação Tocantinense de Imprensa, Edivaldo de Souza Rodrigues, denunciou que o Deputado estadual Fábio Martins, em 17 de agosto, “agrediu covardemente o jornalista Edson Rodrigues na sala de reuniões da Assembléia Legislativa do Estado de Tocantins”. Edson é Diretor-presidente do jornal O Paralelo 13 e Diretor de Relações Públicas da ATI. No texto, Edivaldo de Souza pediu que a ABI tome as providências necessárias para que o deputado se submeta “às penas que a lei penal e administrativa determinar”. Em resposta, a ABI pediu mais detalhes sobre o caso e prestou voto de solidariedade ao jornalista agredido. A ABI enviou ofício ao Presidente da Assembléia Legislativa do Estado do Tocantins, Deputado César Halum, em que pediu uma apuração rigorosa do episódio, que ” viola os princípios da liberdade de imprensa e é passível de sanções penais”.

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Jornal da ABI LIBERDADE DE IMPRENSA

ANCELMO LIVRE Câmara Criminal derruba sentença que condenara o jornalista a mais de dois anos de prisão por negar a revelação de sua fonte.

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ACERVO ANCELMO GOIS

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elo voto de desempate de seu Presidente, Desembargador Moacir Pessoa, e adotando o voto do relator, Desembargador Carmine Savino Filho, a 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro determinou em 11 de agosto o trancamento da ação penal instaurada contra Ancelmo Gois. A denúncia contra o jornalista deveuse à divulgação, em sua coluna em O Globo, do resultado de um julgamento em que um desembargador foi condenado por dano moral a uma juíza de Direito a quem dera voz de prisão e acusara de crime de prevaricação. Por dois votos a um, foi vencido o Desembargador Luiz Leite de Araújo, que votou pela continuação da ação penal por entender que o mérito do processo não podia ser examinado no âmbito de um pedido de habeas corpus. A 6ª Câmara Criminal, porém, entendeu que o processo contrariava o inciso 4º do artigo 5º da Constituição da República, que assegura aos jornalistas o direito de preservar suas fontes de informação. A defesa de Ancelmo Gois foi feita pelo advogado Alcyone Vieira Pinto Barretto, que declarou na abertura de sua intervenção que, mais do que defender o jornalista, estava defendendo a liberdade de imprensa, gravemente ofendida pela denúncia contra seu cliente. Barretto ressaltou que várias anomalias marcaram a tramitação do processo, como o sumiço nos autos do texto de um dos dois depoimentos prestados pelo jornalista durante a investigação policial e o fato de ter ocorrido em segredo de Justiça, com violação das disposições legais, o que foi corrigido em segunda instância pelo Desembargador Fonseca Passos, que revogou o tratamento sigiloso. A representante do Ministério Público, Rosangela Canellas, manifestouse pela concessão de habeas corpus para trancamento da ação penal, apresentando, entre outros motivos, o fato de que o litígio entre o desembargador e a juíza, ainda que tivesse tramitado inicialmente em segredo de Justiça, era conhecido por todos os freqüentadores habituais do Tribunal. Ancelmo Gois, portanto, não havia cometido qualquer violação de sigilo funcional, uma

Ancelmo viu na denúncia contra ele grave ameaça ao acesso à informação.

vez que a informação divulgada em sua coluna era pública e notória. O Desembargador Moacir Pessoa, que proferiu o voto de desempate, discordou do colega Luiz Leite de Araújo em sua invocação da recente condenação da jornalista norte-americana que não revelou a fonte de informação. Moacir Pessoa disse não conhecer a legislação dos Estados Unidos

acerca da questão, certamente divergente do Direito brasileiro nesse ponto: “A Constituição Federal”, afirmou, “assegura aos jornalistas o direito de não revelar suas fontes.” O julgamento foi acompanhado pelo Presidente da ABI, Maurício Azêdo, e pelo Assessor-Chefe de Comunicação Social do Tribunal de Justiça, jornalista José Carlos Tedesco.

A DENÚNCIA É DESCABIDA, DIZ MARFAN Em resposta a expediente que lhe foi enviado pela ABI, o Procurador-Geral de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Marfan Martins Vieira, considerou descabida a denúncia contra o jornalista Ancelmo Gois, por divulgar o resultado de uma ação judicial em que eram partes adversas um desembargador e uma juíza de direito, e informou que o Ministério Público estadual se manifestaria nos autos do processo pelo arquivamento do feito e trancamento da ação penal proposta. Tal como sustentou a ABI, em declaração emitida em 30 de junho, e também o advogado de Ancelmo, Alcyone Vieira Pinto Barreto, o Procurador-Geral Marfan Martins Vieira considera que faltou fundamento jurídico para o enquadramento do jornalista no artigo 325, parágrafo 2º do Código Penal, que pune violação de sigilo profissional, uma vez que o jornalista não é funcionário público e, portanto, não poderia ser denunciado como se o fosse. O Procurador Marfan assinalou também que Ancelmo foi enquadrado como co-autor do delito alegado, sem que a investigação policial tivesse identificado o serventuário da Justiça que teria sido o principal agente da ação criminosa. Além da ABI, expressaram sua solidariedade a Ancelmo Gois o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo-Abraji, que denunciaram o caráter inconstitucional do processo movido contra ele.

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Jornal da ABI APELO

A ABI PROTESTA E APELA Acionada pelo próprio Ancelmo Góis e pelo advogado Alcyone Vieira Pinto Barretto, a ABI emitiu declaração de protesto denunciando a inconstitucionalidade da sentença de condenação do jornalista e apelou ao Procurador-Geral de Justiça do Estado, Marfan Martins Vieira, para que o Ministério Público, no julgamento em segunda instância, opinasse pelo trancamento da ação penal contra Ancelmo. Ofício do mesmo teor foi dirigido pela ABI ao Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio, Desembargador Sérgio Cavalieri Filho. A DECLARAÇÃO DE PROTESTO “A Associação Brasileira de Imprensa vem a público expressar vigoroso protesto contra mais uma restrição imposta por órgão do Poder Judiciário ao exercício da liberdade de informação, desta feita no Estado do Rio de Janeiro, que repete com esse episódio violações semelhantes do texto constitucional cometidas pela Justiça de outros Estados da Federação. Agora a vítima de uma decisão judicial que colide com as disposições constitucionais é o jornalista Ancelmo Gois, titular de uma das mais prestigiadas colunas da imprensa do País e profissional que exerce a sua atividade jornalística com alto sentido ético e respeito ao direito da sociedade de ser informada. Por decisão do juiz da 25ª. Vara Criminal da capital, foi acolhida denúncia do Ministério Público contra Ancelmo Gois por ter noticiado em sua coluna o desfecho desfavorável a um desembargador de uma ação indenizatória contra ele movida por uma juíza de Direito a quem dera voz de prisão e acusara de prevaricação. Ancelmo foi considerado co-autor de crime capitulado no artigo 325, parágrafo 2°, do Código Penal, que pune a violação do sigilo funcional, sem que a investigação policial efetuada tenha identificado o agente principal, o serventuário da Justiça que teria fornecido ao jornalista a informação por este divulgada. Pretende o Ministério Público que Ancelmo Góis seja condenado à pesada pena prevista para esse delito: dois a seis anos de reclusão. Embora a defesa de Ancelmo Gois esteja confiada a profissional competente, o advogado Alcyone Vieira Pinto Barretto, que ajuizou pedido de hábeas-corpus para trancamento dessa esdrúxula ação penal e certamente merecerá acolhimento na instância a que recorreu, a Associação Brasileira de Imprensa não pode deixar sem reparo nem censura um processo judicial eivado de anomalias, como a sua tramitação em segredo de justiça sem que se configurem os pressu-

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mas também pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro através de um dos seus membros, que, ao promover a denúncia contra Ancelmo Gois, ignorou que uma das mais recentes campanhas cívicas em que se empenhou o Ministério Público, tanto no âmbito regional como no plano nacional, foi exatamente em defesa do direito de seus integrantes de não se deixarem amordaçar, como faz ou pretende fazer com Ancelmo Góis essa extravagante ação penal. Dada a relevância do bem constitucional vulnerado por esse processo judicial – a liberdade de imAncelmo recebe prêmio das mãos do Senador Eduardo Suplicy: além de ético, é competente. prensa, que tem entre seus elementos essenciais a lipostos estabelecidos para tal pelo Cóberdade de informação – , a ABI dará digo de Processo Civil, apenas para ciência desta sua manifestação ao digatender a reprovável corporativismo no Presidente do Tribunal de Justiça no Poder Judiciário, a incriminação do Estado, Desembargador Sérgio Caem delito típico de funcionário públivalieri, e ao eminente Procurador-Geco de quem funcionário público não ral de Justiça do Estado, Procurador é e, mais grave, a violação da liberdaMarfan Martins Vieira, os quais têm de de informação assegurada pelo ara responsabilidade de zelar pelo restigo 220, parágrafo 1°, da Constituipeito à Constituição pelos membros ção Federal. das instituições que dirigem e desemLamenta a ABI que esses procedipenham esse múnus com extremada mentos tenham sido acolhidos não exação. apenas por órgão do Poder Judiciário, Rio de Janeiro, 30 de julho de 2005.”

O APELO AO PROCURADOR “A Associação Brasileira de Imprensa cumpre o dever de lhe dar ciência da declaração que emitiu acerca do processo criminal em curso na 25a. Vara Criminal da Comarca da Capital contra o jornalista Ancelmo Góis, ao qual se imputa o delito capitulado no art. 325, § 2º, do Código Penal, em razão de notícia por ele publicada em sua prestigiosa coluna no jornal O Globo. À parte aspectos censuráveis do processo citado, como salientado pelo patrono de Ancelmo Góis, advogado Alcyone Vieira Pinto Barretto, na petição de hábeas-corpus que ajuizou em favor desse profissional, não pode a ABI deixar de assinalar que o procedimento em causa fere tanto o jornalista como o bem maior inscrito na Constituição da República, a liberdade de imprensa, com danos que ultrapassam o profissional e alcançam todo o conjunto da sociedade. Esse aspecto causa especial preocupação à ABI, pois

repete violações de franquias constitucionais cometidas pela Justiça de outros Estados da Federação e representa grave ofensa ao Estado de Direito Democrático que a Nação instituiu após a longa e malfadada ditadura militar. Ao fazer estas considerações, digno Procurador-Geral Marfan Martins Vieira, a ABI entende que não promove nenhuma impertinência, pois elas estão sintonizadas com os princípios que Vossa Excelência expôs em seu admirável discurso de posse, há pouco meses, e reafirmou em julho passado na cerimônia de posse coletiva dos novos promotores de justiça. No ensejo, Senhor Procurador-Geral, renovo as expressões do nosso elevado apreço e da nossa justificada admiração. Cordialmente Maurício Azêdo Presidente.”

Acionistas do BB fazem denúncia A Associação dos Acionistas Minoritários das Empresas Estatais (Amest), entidade com sede em Porto Alegre, RS, está reclamando o prosseguimento do inquérito policial requisitado pelo Ministério Público Federal à Polícia Federal de Brasília, em 17 de dezembro de 2003, por meio do Procedimento Administrativo nº 1.16.000.001523/2003-17, para apurar uma denúncia de crime contra o sistema financeiro, envolvendo o Banco do Brasil e a Secretaria do Tesouro Nacional. A Amest encaminhou à ABI cópia do e-mail que enviou ao International Consortium Of Investigative Journalists (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos), no qual aponta uma série de itens que deveriam ser alvo de investigação e noticiário. De acordo com a Amest, em 1996 o BB apresentou um prejuízo contábil de quase R$12 bilhões, quando havia paridade entre a moeda brasileira e o dólar. “Foram milhares os acionistas lesados naquela oportunidade. O prejuízo sofrido pelo Banco do Brasil ainda é o maior prejuízo corporativo acontecido no mundo todo”, diz a nota. No texto do comunicado encaminhado à ABI, o Presidente da Amest, Luiz Afonso Barnewitz, questionou o fato de o inquérito policial ainda não ter sido instaurado e as pessoas envolvidas não terem sido convocadas a prestar depoimento. Também lamentou que a imprensa não tenha noticiado o caso. Barnewitz lembrou que, no ano passado, um relatório do Departamento de Estado norte-americano elogiou o Brasil no combate ao tráfico e à corrupção, em ações desenvolvidas pela Polícia Federal em convênio com o FBI, que, além de disponibilizar verbas, mantém um escritório no País. Em sua opinião, “o FBI deveria pressionar a PF para instaurar o inquérito requisitado pelo Ministério Público Federal”.

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Jornal da ABI DIREITOS HUMANOS

E STADO PAG A R E PAR AÇÃO A VÍTI MAS DA D I TAD U R A ASCOM RJ

Mais 50 vítimas de prisão e torturas físicas ou psicológicas em dependências do Governo do Estado do Rio durante o regime militar receberam em 18 de agosto, em cerimônia realizada no Palácio Guanabara, indenização a título de reparação moral instituída pela legislação estadual. Diretamente ou, no caso dos falecidos, através de seus descendentes ou herdeiros, cada uma das vítimas recebeu R$ 20 mil, valor uniforme fixado pelo Governo do Estado ao dispor sobre a aplicação da Lei da Reparação Moral. Desde o início desse programa, foram efetuados 140 pagamentos — 50 em novembro de 2004, 40 em março e 50 em agosto. O ato, presidido pela Governadora Rosinha Garotinho, contou com presença dos Secretários de Estado de Direitos Humanos, Jorge da Silva, e de Administração Penitenciária, Astério Pereira dos Santos; do Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado, Deputado Geraldo Moreira; do Defensor Público Geral do Estado, Marcelo Bustamante; da representante do

A Governadora Rosinha Garotinho entrega o cheque da reparação moral a uma das vítimas da ditadura.

Procurador-Geral de Justiça, Promotora Mônica di Piero; e do representante da ABI, Maurício Azêdo, os quais tiveram assento à mesa. Entre os presentes estava o Presidente de Honra da Comissão de Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI, José Gomes Talarico. Após a entrega de cheques simbólicos a três das vítimas da ditadura pela Governadora Rosinha Garotinho, receberam a indenização: Abdias José dos Santos Ademario Renaux Leite

Alberico Alucio de Alcantara Velho Barretto Alberto César Romeu Marchesini Almir Dutton Ferreira Amauri Augusto de Lima Antônio Jorge Xavier Antônio Leite da Silva Archimedes de Souza Vieira Ary Gomes da Cunha Berenício Ferreira Pessoa Darci Rodrigues de Souza Djalma Cosmo da Costa Efigênia Maria de Oliveira Elyseu de Oliveira Eledir Josino Silva de Araújo Eustáquio Pinto de Oliveira

Mais indenizações aprovadas Em sua reunião de agosto, a Comissão Especial de Reparação da Secretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio deferiu mais 41 processos de indenização a título de reparação moral a vítimas de prisão e tortura durante o regime militar, das quais seis já falecidas. A Comissão indeferiu oito dos processos apreciados, colocou um em diligência e adiou o exame de outro para a reunião de setembro. Entre as indenizações aprovadas está a da jornalista Antonieta Vieira dos Santos, integrante do Conselho Deliberativo da ABI. Na relação de processos apreciados ou examinados, figuraram quatro relatados pelo representante da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azêdo. Foram estes os processos examinados: Deferidos Ailton Benedito de Souza Alencar Thomaz Gonçalves (falecido)

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Amaro Correa de Andrade (falecido) Antonieta Vieira dos Santos Arno Vogel Belmiro Moraes de Aguiar Carlos Eduardo Fayal de Lyra Claudio Maya Monteiro Cleto José Praia Fiuza Degenildo da Silva Pinto (falecido) Dimas Moreira Domingos Fernandes Edwiges José Venâncio Etevaldo Justino de Oliveira Fausto Machado Freire Francisco José Medeiros Scliar Genesio Pereira dos Santos João Batista Moreira Jorge Borges José Dalmo Guimarães Lins (falecido) José Luiz de Araujo Saboya Oseas Martins de Aguiar Luiz Carlos de Oliveira Silva Luiz Carlos de Sousa Santos Maria da Glória Araújo Ferreira Maria da Glória Iung Maria Abigail Rodrigues Gonçalves Martha Mota Lima Alvarez

Nelson Nahon Nelson Quintino Paulo César Azevedo Ribeiro Paulo Cezar Farah Paulo Maurício Monteiro de Barros Perly Cipriano Primo Alfredo Brandimiller Ricardo Soares Paniago Roberto Pinto Roberto Senra Pessanha Romeu Bianchi Junior Sebastião Medeiros Filho Vanísio Bernardino de Melo Ferreira Indeferidos Aristótelis de Miranda Mello (falecido) Benedito Ferreira de Lima (falecido) Dauta Jobert Barreto (falecida) José Luiz Gonçalves Canano Manoel de Oliveira Lima Nestor Cozetti Marinho Norton de Moraes Sarmento Filho Pedro Henrique de Moura Ferreira Em diligência Carlos Ignácio de Amorim

Fernando Henriques Graça Maria Martins Câmara Guido Afonso Duque de Norie Helio da Silva Inacio Guaracy Souza de Lemos Ivan Alkmin Ivo Alves de Souza Jane de Alencar Jesu Rigueto Joacy Pereira de Magalhães João da Penha João Joaquim de Santana José Aguinaldo Marinho José Benedito de Freitas José Ferreira Lima Filho José Grigolato Sobrinho José Jorge Diaz Horta José Vieira dos Santos Léo Barbosa de Carvalho Leonardo de A. Carneiro Lincoln Gusman Maria Helena C. Azevedo Maria Lúcia Barreli da Silva Miguel Batista dos Santos Nilton Rego Oberland Silva Paulo Antônio M. Mancebo Raimundo Nonato de Abreu Roberto da Silva Vieira Saulo Gomes Telines Basilio do Nascimento Waldir Tavares Washington Vicente Ferreira

Um apelo por cubanos presos nos EUA Por proposta aprovada pela sua Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos na reunião de agosto, o Conselho Deliberativo da ABI aprovou, por unanimidade, o envio de moção ao Consulado e à Embaixada dos Estados Unidos pleiteando que se cumpra a decisão de dar novo julgamento a cinco presos políticos cubanos. Eles estão cumprindo pena nos Estados Unidos desde 1998; dois foram condenados à prisão perpétua. Recentemente, a Justiça norte-americana decidiu que outro julgamento deveria ser realizado em tribunal isento fora de Miami, onde os cinco foram condenados sob a acusação de espionagem. Após mais de um mês da decisão judicial, no entanto, a determinação não foi cumprida e os cinco presos continuam na mesma situação, inclusive impedidos de receber visitas.

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Jornal da ABI ACONTECEU NA ABI

Tributo a Carlos Galhardo

Uma noite evoca o cantor, 20 anos após o seu passamento

O evento Nós queremos uma valsa — Tributo a Carlos Galhardo, organizado pela Casa de Cultura Vicente Celestino, aconteceu no Auditório Oscar Guanabarino, no 9º andar do Edifício Herbert Moses. De acordo com os organizadores, a ABI foi o local escolhido para a homenagem, entre outros motivos, por ter demonstrado sua vocação de promotora da música popular brasileira em diversas ocasiões. Compareceram à ABI vários amigos do cantor, como Jorge Goulart e Bob Nelson, que comentou: — Sinto-me honrado com o convite,

mas ao mesmo tempo há um pouco de tristeza pela falta que ele faz. Além de termos sido colegas na Rádio Mayrink Veiga, ele gravou uma composição minha, chamada 400 primaveras. Orlando Aguiar, cantor e ator de radioteatro, também falou do amigo: — Ele era o rei da valsa, o maior cantor brasileiro do gênero. No espetáculo terei a grata missão de interpretar um de seus grandes suces-

ACERVO NORMA HAUER

Os 20 anos da morte do cantor foram lembrados na ABI, num evento organizado pela Casa de Cultura Vicente Celestino.

sos, Eu sonhei que tu estavas tão linda, mas estou longe de ser um intérprete como ele foi. A Presidente da Casa de Cultura Vicente Celestino, Vera Castro, contou que a mentora do programa do tributo prestado a Galhardo nos 20 anos da morte do cantor foi sua biógrafa, Norma Hauer. Além das apresentações musicais, foram exibidos dois vídeos sobre a vida do homenageado, que, filho de italianos, aos

oito anos, após o falecimento da mãe, foi viver no Estácio com um parente que lhe ensinou o ofício de alfaiate. Apesar de não gostar muito da profissão, Carlos Galhardo trabalhou em diversas alfaiatarias e numa delas conheceu o barítono Salvador Grimaldi, com quem passou a ensaiar duetos de ópera. O caminho para a fama como cantor, porém, só se abriu numa festa na casa de um irmão, em que estavam presentes Mário Reis, Lamartine Babo e Francisco Alves, de cujo repertório Galhardo interpretou Deusa. Incentivado a tentar carreira no rádio, ele foi levado pelo compositor Bororó à Rádio Educadora do Brasil, onde se apresentou cantando Destino. No dia seguinte, foi procurado para fazer um teste na RCA Victor e entrou para o coro da gravadora. Ao lado de Orlando Silva, Francisco Alves e Sílvio Caldas, Carlos Galhardo foi um dos grandes cantores da época áurea do rádio brasileiro, com passagens pelas emissoras Mayrink Veiga, Rádio Clube, Tupi, Nacional e Mundial. A música mais marcante de seu repertório será, para sempre, Fascinação, mas ele também gravou marchas carnavalescas. Na década de 50, recebeu os títulos de “Rei do Disco” e “Rei da Valsa” — este último dado pelo apresentador Blota Júnior, que o anunciava como “o cantor que dispensa adjetivos”. Carlos Galhardo morreu no dia 25 de julho de 1985, aos 72 anos. Sua última apresentação foi na Sala Sidney Miller, da Funarte, em 1983, num espetáculo de Ricardo Cravo Albin dedicado ao compositor Nássara.

A voz de veludo fora da barbearia Dono de uma voz aveludada, uma das mais maviosas da música popular brasileira, Carlos Galhardo seria um alfaiate ou um barbeiro se não tivesse encontrado na vida duas pessoas que o desviaram das profissões que começou a trilhar muito menino, a primeira, e muito jovem, a segunda. Nascido em 26 de abril de 1913 em Buenos Aires, onde seus pais, italianos, tentavam melhor sorte na vida após curta passagem pelo Brasil, aos 15 anos o moço Catello Carlos Guagliardi já era oficial alfaiate e seguiria nas agulhas e nas linhas se um companheiro de ofício, o alfaiate e barítono Salvador Grimaldi, não o fizesse parceiro em duetos de óperas, estimulando-o na arte do canto.

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Órfão de mãe aos oito anos, Catello foi amparado por parentes que moravam no bairro do Estácio, que o criaram e iniciaram na profissão em que logo se tornou perito. Mais tarde, já encaminhado em novo ofício, o de barbeiro, Catello seguiu o conselho de uma companheira do salão onde trabalhava, a manicura portuguesa Maria Fernanda, ela própria cantora, que, admirando sua voz e seu talento, recomendou que ele tentasse um lugar no rádio, que começava a se firmar naquele ano de 1932 e a lançar cantores, conjuntos musicais e compositores. Foi assim que começou a fecunda e prolongada carreira desse artista que a ABI homenageou no espetáculo Nós queremos uma valsa,

evocando sua trajetória no vigésimo aniversário do seu desaparecimento. Catello, celebrizado na música popular brasileira com o nome artístico de Carlos Galhar-

do, deixou criações inesquecíveis, dentre suas 570 gravações em 78 rotações por minuto, como o segundo cantor que mais fez gravações do gênero, após Francisco Alves, o Rei da Voz. Popularizado como o Rei da Valsa, Galhardo interpretou não apenas o gênero romântico, mas também a canção carnavalesca (Alálá-ô, de Haroldo Lobo e Nássara, sucesso no Carnaval de 1941, foi criação dele), a música natalina (lançou o gênero em 1933, com Boas Festas, de Assis Valente) e até pela Bossa Nova (em 1969, já na maturidade, gravou Viola enluarada, dos jovens Marcos e Paulo Sérgio Vale). Vinte anos depois, ele tinha que ser lembrado. Foi o que fez a ABI.

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Jornal da ABI PRONUNCIAMENTO

Alagoas contra a transposição das águas do São Francisco A Assembléia Legislativa de Alagoas encaminhou um manifesto à ABI em que se pronuncia como instituição contra a transposição das águas do Rio São Francisco por parte do Governo federal, “em obras que não reúnem qualquer justificativa de relação custo/benefício”. O documento teve como base uma proposta do Deputado Sergio Toledo e foi enviado à ABI pelo também Deputado Francisco Tenório, no exercí-

cio da Presidência da Assembléia Legislativa de Alagoas. No manifesto, os representantes do Poder Legislativo de Alagoas condenam “os métodos utilizados pelos Ministérios da Integração Nacional e Meio Ambiente, que redundaram no completo desrespeito à autonomia e às decisões do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco”. A seguir, a íntegra do manifesto, com seu título original.

“Alagoas não aceita a transposição! Revitalização já!” A Assembléia Legislativa de Alagoas, neste manifesto representada por seus deputados, dirige-se à opinião pública nacional para explicitar sua contrariedade em relação ao polêmico Projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco. Ao adotar esta posição, os deputados e deputadas alagoanos expressam não somente os sentimentos da maioria do povo de Alagoas, como também cumprem o dever de se posicionar claramente contra um projeto que, sob os mais diversos aspectos, mostra-se desnecessário, inoportuno e completamente dissociado das reais necessidades do povo nordestino. Embora apoiados por poderoso esquema de promoção publicitária, os idealizadores e defensores do Projeto da Transposição não conseguem convencer o País e a comunidade técnico-científica nacional de sua justeza como solução sustentável para os problemas da escassez hídrica que atinge as populações do semi-árido do Nordeste Setentrional. Aliás, o projeto já começa distorcido a partir de sua própria concepção, uma vez que pretende resolver a questão hídrica da porção do semi-árido que fica fora da Bacia Hidrográfica do São Francisco, sem levar em consideração que mais da metade do território da própria Bacia — ou seja, 53,8% de sua área, algo equivalente a 343.784 quilômetros quadrados — encontra-se incluída no Polígono das Secas, sem qualquer projeto de grande porte para a solução dos problemas de sua população, que abrange um contingente de mais de 5 milhões e 680 mil pessoas! Inspirado na cultura das obras megalômanas que custaram muito caro ao povo brasileiro em período recente, o Projeto da Transposição constitui-se, de fato, em empreendimento cujo principal objetivo é oferecer segurança hídrica para os produtores e exportadores de camarão, algodão e frutas tropicais estabelecidos principalmente nos Estados do Ceará e do Rio Grande do Norte. Afirmar, como fazem os defensores do projeto, que a Transposição será feita para matar a sede de 12 milhões de sertanejos é um escárnio contra a população do semiárido nordestino. Com uma capacidade de acumulação de águas equivalente a 32 bilhões de metros cúbicos — quase igual à do lago de Sobradinho, um dos maiores lagos artificiais do mundo —, os Estados do

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Ceará, do Rio Grande do Norte, da Paraíba e de Pernambuco têm hoje água suficiente para matar a sede dos irmãos sertanejos de sua parte semi-árida. Se não o fazem é porque falta política de distribuição democrática da água já existente em suas centenas de açudes, uma vez que, passados 60 anos da criação do Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), a destinação das águas dos grandes açudes continua a ser prioritariamente destinada à irrigação de grande e médio portes e ao uso urbano industrial, em detrimento absurdo das populações dispersas na região sertaneja. Em semelhante contexto, as obras da Transposição não reúnem qualquer justificativa do ponto de vista da equação custo/ beneficio, razão pela qual suscita tantas críticas e restrições. E de fato é totalmente estranho que o Governo federal se disponha a despender tanto dinheiro público na construção dos túneis, aquedutos e canais faraônicos da Transposição no exato momento em que nega dinheiro para a recuperação das centenas de açudes destruídos pelas enchentes do ano passado no Ceará, na Paraíba, no Rio Grande do Norte e em Pernambuco, bem como nega dinheiro para o socorro dos Municípios atingidos por recente estiagem, inclusive em Alagoas. Mais estranho ainda é constatar o empenho dos defensores da Transposição na defesa de obras que vão propiciar a irrigação de terras no Nordeste Setentrional a um custo totalmente proibitivo, tendo em vista principalmente que obras equivalentes a milhares de perímetros de irrigação encontram-se paralisadas em plena Bacia do São Francisco. Neste sentido, é importante ressaltar que pelo menos 3 milhões de hectares de terras da Bacia esperam por irrigação a um custo incomparavelmente menor do que aquele que pretendem praticar no Ceará! Não bastassem todas essas incongruências de ordem econômico-social, incluídos aqui os inconcebíveis gastos energéticos que serão demandados pelo Projeto, a Transposição das Águas do São Francisco representará impacto de grande repercussão na destinação das águas disponíveis para usos múltiplos na Bacia. Contrariamente à leviandade dos defensores do Projeto, que espalham País afora que a Transposição vai utilizar apenas 1% das águas do São Francisco, a verdade é

que, considerado o potencial efetivamente disponível de 360 metros cúbicos por segundo, a Transposição poderá absorver até 47% dessa disponibilidade, o que porá em risco os interesses estratégicos dos Estados da Bacia Hidrográfica do São Francisco, prenunciando um futuro de desordem hídrica na Bacia e de grave conflito federativo em futuro não distante. E essas são razões suficientes que deveriam levar o Governo do Presidente Lula a refletir mais sobre a conveniência ou não de um projeto que, ao invés de unir o povo nordestino, semeia tanta discórdia e pode redundar em problemas geopolíticos preocupantes para a Região Nordeste. Talvez, reconhecendo esses fatores tão negativos, tenha chegado a hora de o Presidente da República ouvir a voz dos críticos da Transposição e procurar construir com todos os Estados e populações do Nordeste uma política de integração regional que contemple soluções verdadeiramente sustentáveis, não somente para a questão hídrica, como também para a questão energética e de geração de renda no contexto do semi-árido como um todo. Dispostos como sempre ao diálogo, ao bom senso e à negociação legítima, os alagoanos não aceitam, porém, o processo impositivo que vem marcando a condução do Projeto da Transposição há vários anos e sob a tutela de vários governos. Sendo assim, condenam em termos veementes os métodos utilizados pelos Ministérios da Integração Nacional e Meio Ambiente, que redundaram no completo desrespeito à autonomia e às decisões do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco, cujo Plano Decenal de Recursos Hídricos descarta expressamente a transposição das águas para usos que não sejam estritamente destinados ao abastecimento humano e à “dessedentação” animal, em situações de reconhecida escassez hídrica. Como representantes do Poder Legislativo, fere-nos profundamente a sensibilidade democrática presenciar os atos de autoritarismo praticados por titulares e representantes dos citados Ministérios durante os infelizes procedimentos para forçar o Conselho Nacional de Recursos Hídricos e o Ibama a procederem a toque de caixa e sob pressão ilegítima à outorga e ao licenciamento ambiental das obras da Transposição. Esses caminhos utilizados pelos agentes do Governo federal certa-

mente não engrandecem o solene compromisso democrático assumido por Sua Excelência o Presidente da República. Por ainda acreditar nesse compromisso é que a Assembléia Legislativa de Alagoas reitera ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva a solicitação para que receba em audiência os governadores, os parlamentares, a sociedade civil dos Estados que compõem a Bacia Hidrográfica do São Francisco, bem como a diretoria do Comitê daquela Bacia, para que, juntos, possamos superar o impasse criado pela Transposição e abrir caminho para um outro Projeto que contemple o semi-árido nordestino, bem como retire do papel, em termos realmente efetivos, o Programa de Revitalização da Bacia do São Francisco. Vítima, juntamente com o Estado de Sergipe, dos dramáticos impactos sócioambientais causados pelos barramentos exigidos pelo sistema hidrelétrico na região do Baixo São Francisco, o Estado de Alagoas, que nada recebeu em termos compensatórios pelo assoreamento do rio, a erosão de suas margens, a decadência de suas cidades ribeirinhas, a morte de suas várzeas, a diminuição drástica de sua biodiversidade, o desaparecimento de sua pesca, a perda de navegabilidade e a retração de culturas agrícolas, não assistirá de braços cruzados a que uma nova onda de megaimpactos negativos inviabilize geopoliticamente o seu futuro, considerando-se que, literalmente, quase a metade dos seus Municípios está na área da Bacia Hidrográfica do São Francisco. Alagoas não aceita a Transposição! Não aceita que sua segurança hídrica futura seja posta em risco por um projeto cujo arranjo institucional não está claro e cujos efeitos desencadearão inevitavelmente uma enorme balbúrdia no sistema de outorgas da Bacia Hidrográfica. Alagoas quer ser respeitada e ouvida em questões que afetam profundamente o Pacto Federativo. Alagoas exige que a Lei Nacional dos Recursos Hídricos seja respeitada pelo Governo federal e que se devolvam ao Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco as amplas prerrogativas legais que lhe cabem como o grande “parlamento das águas” e como o espaço ideal para a negociação justa da gestão das águas do São Francisco. Maceió, 17 de maio de 2005 Assembléia Legislativa de Alagoas

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Jornal da ABI RECONHECIMENTO

SEGISMUNDO, 90 ANOS C

Ele recusou qualquer homenagem individualizada. Por isso, para festejá-lo, a Casa programou o ato Quatro Pilares da ABI: Moses, Barbosa Lima, Prudente e ele, Segismundo.

EDIMILSON S. FERREIRA

om a sessão comemorativa como o poeta e jornalista Orígenes Quatro Pilares da ABI, a Casa Lessa. — Moses era um homem extrahomenageou no dia 5 de julho ordinário, que sabia o que queria. seu ex-Presidente Fernando SegismunQuando o conheci na ABI, ele já sodo, que completou 90 anos, e mais três nhava com a nova sede. E tinha bom ex-Presidentes da entidade. A celebrasenso ao escolher e cultivar assessores ção aconteceu no Auditório Oscar que levaram adiante os seus projetos. Guanabarino, no 9º andar do Edifício Ele ressaltou o prestígio de que Herbert Moses, e exaltou três outros Moses desfrutava com o Presidente Presidentes da ABI: Barbosa Lima SoGetúlio Vargas — e que acabou resulbrinho, Herbert Moses e Prutando na realização de um andente de Moraes, neto. tigo sonho: a doação financeiA cerimônia foi presidida ra para a obra de construção por Domingos Meirelles, Diredo edifício-sede da Casa. tor de Assistência Social da ABI, que representou o Presidente “CORTE HISTÓRICO” Maurício Azêdo, ausente deviEm sua evocação, o acadêdo a problemas de saúde. mico Cícero Sandroni falou Convocada por Domingos, da trajetória de Barbosa Lima a mesa que conduziu a sessão Sobrinho, que considera o defoi formada por Fernando cano dos jornalistas brasileiSegismundo; o Conselheiro ros. Ele destacou sua compeJosé Gomes Talarico; a Diretência e determinação em detora de Jornalismo, Joseti fender a democracia e impeMarques; o acadêmico Cícero dir o cerceamento da imprenSandroni; a historiadora Masa, com a firme postura de ria Cecília Ribas Carneiro; a combater tudo o que considejornalista Ana Arruda Callarava errado na política. — Ele do; o poeta Geraldo Meneses; é eterno pelas palavras que a Presidente da União Brasideixou escritas, muito melholeira de Escritores, Estela res do que eu poderia fazer. Leonardos; e a pintora Maria Lembro que uma vez o quesEmília Paladino, ex-Diretora tionei pela sua jornada de trado Colégio Pedro II, onde foi balho, por causa de sua idacolega de Segismundo. de, e ele me disse: “O tempo Domingos explicou que a que perdemos na ABI ganhasugestão de homenagear oumos pelo Brasil. tros ex-Presidentes da Casa no Domingos Meirelles, por Segismundo com a mulher, filhos e netos. A bengala é seqüela de uma queda no metrô quando entoava a Traviata dia de seu aniversário partiu sua vez, recordou que em para a mulher e não percebeu que a escada-rolante terminava. do próprio Fernando Segis1978 foi pedir-lhe que aceitasmundo, que justificou assim sua decise o convite para presidir a ABI. — Visão: “Gosto de comemorar e de homevíamos um momento de tensão. Com nagear, mas fico sem graça quando eu a morte de Prudente de Moraes, neto, mesmo sou o homenageado.” a Associação se encontrava dividida e precisava de um Presidente que tivesMOMENTO DE HONRA se a capacidade de desarmar os espíriMuito festejado por amigos e três tos. O nome de Barbosa Lima Sobrigerações de parentes que o acompanhanho surgiu no calor dos debates sobre ram à ABI, Segismundo agradeceu as o futuro do País e da própria Casa. palavras de carinho que recebeu. — Ao se pronunciar sobre os ex-PresiEstou muito honrado com este modentes Prudente de Moraes, neto e mento, não somente por motivos pesFernando Segismundo, o historiador soais, mas porque encontrei confrades Mário Barata disse que, ao escolher os que admiro e acompanhei nesta Casa, quatro homenageados como seus pique considero de utilidade pública. Pois lares, a ABI estava vivendo um moeste é o ambiente da liberdade e do promento muito importante. — Estamos gresso, que agasalha o povo brasileiro fazendo um corte histórico para o conas suas aspirações democráticas. nhecimento da Associação Brasileira Segismundo falou também de sua de Imprensa pelas futuras gerações. admiração por Herbert Moses, de quem Esses Presidentes conduziram a Casa relembrou a obstinação e a capacidade com muito esforço e criatividade, a Cícero Sandroni, com Mário Barata e Domingos Meirelles: coube-lhe o perfil de de administrar e escolher assessores, serviço da comunidade brasileira. Barbosa, de quem foi companheiro na Diretoria da ABI e na Academia.

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Jornal da ABI ACERVO ABI

Quatro Pilares da ABI

Barbosa (1º à esquerda) promoveu a unificação das entidades de jornalistas, consolidada por Moses (ao lado). Prudente (3º) e Segismundo honraram a herança de ambos.

Barbosa Lima “Por muitos anos, talvez por décadas, Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho foi o decano dos jornalistas brasileiros e o jornalista mais velho do mundo em atividade. (...) Ingressou na ABI em 1922, levado por Raul Pederneiras, seu colega no Jornal do Brasil. Quatro anos depois, em 1926, aos 28 anos de idade, tornou-se o mais jovem Presidente da entidade, reeleito em 1930. Veio a ser também o mais velho, eleito pela terceira vez em 1978, e assim sucessivamente a cada dois anos até o seu falecimento. (...) Sólido, íntegro, coerente e infatigável, depois da campanha anticandidatura à Presidência, ao lado de Ulisses Guimarães em pregação cívica pelo Brasil, em 1974, quando contestou a indicação do General Ernesto Geisel como candidato da Arena, Barbosa Lima Sobrinho estava então no vigor dos seus anos, idade em que a maioria absoluta dos que lá chegam já estão aposentados há muito tempo. (...) No honroso convívio quase diário com Barbosa Lima Sobrinho na ABI, encontrei nele a personificação do ideal mens sana in corpore sano. Aos 101 anos de idade, ele já não era mais capaz de ir a pé do Recife a Goiana, numa caminhada de 40 quilômetros, como fez na juventude, na companhia de seu amigo Múcio Leão, mas até o fim dos

Segismundo

seus dias manteve a saúde centenária em boas condições: pressão de garoto, oito por doze, de causar inveja a tantos de nós, tranqüilidade perene e paz de espírito que transmitia aos companheiros de Diretoria da ABI — só se irritava quando o seu Fluminense perdia no futebol. (...) A higidez física e mental estruturava a base orgânica para o exercício diuturno da bravura cívica, da coragem moral e da capacidade de refletir com independência sobre o Brasil. (...) A ABI constitui hoje patrimônio moral indestrutível, que nos momentos cruciais da História contemporânea agiu de forma pronta e corajosa, em defesa dos interesses nacionais. E assim continua. Atingida por bombas, ameaças e ataques dos que não aceitam o nosso inconformismo responsável, a nossa Casa jamais abdicou do seu direito de protestar. E nunca será demais lembrar que foi na sua condição de Presidente da ABI que, num momento histórico recente, depois de obter aprovação unânime do Conselho Administrativo, o Dr. Barbosa brandiu a espada da justiça para, ao lado de outros homens admiráveis, Evandro Lins e Silva, Raimundo Faoro e Clóvis Ramalhete, mudar o curso da nossa História, pedindo o impeachment de um Presidente da República.”

Moses

POR SEGISMUNDO

“Herbert Moses nasceu em 1884 no Rio de Janeiro e aí faleceu em 1972, aos 88 anos. Foi advogado militante, após ter servido ao Barão do Rio Branco. Ajudou Irineu Marinho a fundar e manter O Globo, do qual foi diretortesoureiro. (...) Paralelamente aos 34 anos em que presidiu a ABI, foi diretor da Companhia de Cigarros Souza Cruz, sem nunca ter fumado. Poliglota, viajou várias vezes ao estrangeiro, sobretudo aos Estados Unidos da América, a serviço daquela e de outras empresas. Promoveu congressos de imprensa no Rio de Janeiro e nos Estados. Roberto Marinho, herdeiro de O Globo, só o chamava de Dr. Moses, tal o respeito que lhe tinha. (...) Moses logrou alcançar a possível harmonia entre patrões e empregados, cada grupo empenhado em manter e ampliar suas prerrogativas. Nem sempre foi entendido em seus propósitos, mas seu papel foi relevante. De quando em vez, jornalistas impulsivos e sem inclinações diplomáticas xingavam-no, tentando desacreditá-lo. Moses não revidava, tendo até ajudado alguns financeira e discretamente. (...) Em seu tempo, a ABI constituiu-se na ante-sala do Rio de Janeiro. Dela valia-se o Itamarati para bem recepcionar estrangeiros e autoridades em trânsito.”

POR BARATA

“O aniversário de Fernando Segismundo é o ponto de partida desta celebração da Casa. Nosso homenageado de hoje tem uma vocação de jornalista, historiador e educador extremamente forte. Ele escreveu alguns livros sobre História do Brasil e tem ainda uns seis livros fundamentais de memórias e história do Jornalismo. (...) Entre os seus trabalhos, cito os livros Imprensa brasileira, vultos e problemas, ABI — 80 anos, ABI — sempre, Jornais e jornalistas’ e Barbosa Lima Sobrinho: o dever de utilidade, em que analisa a posição básica deste outro grande nome da Casa. (...)

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POR SANDRONI

Fernando Segismundo foi um dos Presidentes da ABI que nos deu contribuição decisiva para abrir caminho para um outro tipo de concepção da entidade, que, com Herbert Moses, já tinha entrado no plano de uma grandeza especial. (...) Muitos detalhes da vida histórica da ABI foram marcados pelo Presidente Fernando Segismundo em mais de 30 anos. Ele nos deixa um material que, para os futuros pesquisadores, servirá como elemento maior de compreensão do que foi a nossa grande Associação. (...) Segismundo escreveu que a ABI teve momentos de ouro ao ser presi-

dida por dois grandes brasileiros: Herbert Moses e Barbosa Lima Sobrinho. (...) A Casa participou de grandes campanhas, como a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial; a criação da Petrobrás, com o apoio de Henrique Miranda, antigo dirigente da nossa Associação; e contra a cessão da base militar de Alcântara para os Estados Unidos. (...) Ressalto que os elementos de composição da força da ABI se situam na época das presidências de Fernando Segismundo, Prudente de Moraes, neto, Barbosa Lima Sobrinho e Herbert Moses.”

Prudente

POR BARATA

“É interessante verificar que, ao escolhermos os quatro pilares da ABI a pedido de Fernando Segismundo, que não desejava ser homenageado sozinho, estamos fazendo um corte histórico de muito interesse para a continuidade de conhecimento da ABI. (...) Para a geração da maior parte do século passado e deste início do século XXI, a ABI será lembrada pelas atividades de grandes presidentes — e Prudente de Moraes, neto está entre eles — que realmente se destacaram e a conduziram com esforço e criatividade, colocando-a a serviço da comunidade brasileira (...) A gestão de Prudente é interessante e ele está destacado nas histórias registradas por Fernando Segismundo por um aspecto fundamental que o levou a ficar na memória e na gratidão de todos nós, conselheiros, sócios e diretores. Falo do episódio da morte do jornalista Vladimir Herzog, que o levou a São Paulo. Ali ele mostrou no que a ABI pode contribuir para a sociedade. (...) As posições tomadas por ele e outros grandes nomes da Associação ficaram marcadas no tempo. (...) Prudente era neto de um Presidente da República. Nasceu em 1904 e faleceu em 1977. Formou-se pela antiga Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, da Rua do Catete, cujo prédio vai abrigar o Centro Público de Cultura e Direitos Humanos e a Biblioteca Barbosa Lima Sobrinho. (...) Foi ligado ao Diário de Notícias, fez também trabalhos para o Diário Carioca e, sobretudo, trabalhou como chefe da Sucursal Rio de O Estado de S. Paulo, conhecido como Estadão no jargão jornalístico ou popular. (...) Outro detalhe que deve ser ressaltado na trajetória de Prudente de Moraes, neto: o lançamento, com Sérgio Buarque de Hollanda, da revista Estética, em 1924. Era uma publicação de alto valor e que os vinculou ao Modernismo nascido na Semana de 22, realizada em São Paulo. (...)” A homenagem a Segismundo foi proposta e organizada pelo associado Mário Barata, membro do Conselho Deliberativo da ABI e companheiro dele no Diário de Notícias.

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Jornal da ABI CORRIDA

ACONTECEU NA ABI

Um páreo para a ABI no Jockey O cavalo Montpellier, montado pelo jóquei Dalto Duarte, ganhou na tarde do domingo, 24 de julho, o Prêmio Associação Brasileira de Imprensa, instituído pelo Jockey Club Brasileiro em homenagem à ABI, seguindo a tradição adotada pelo hipódromo nas duas semanas que antecedem ao Grande Prêmio Brasil, programado para 7 de agosto. Nos 300 metros finais, após a curva de chegada, Montpellier atropelou Union de Merit, montado por J. Ricardo, sobre o qual livrou meio corpo de vantagem. Montpellier é de propriedade do criador Raul Régis, do Rio Grande do Sul, e é treinado por Leandro Guignoni. Após o páreo, na distância de 1.900 metros, o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, cumprimentou o jóquei e o treinador vitoriosos, aos quais a ABI entregará uma placa alusiva à corrida. O Prêmio ABI abriu a programação dessa tarde do hipódromo da Gávea, constante de dez páreos, dedicados a homenagens a órgãos de comunicação, a instituições da imprensa e a um jornalista especialmente escolhido. Este ano o homenageado foi o jornalista Renato Machado, da Rede Globo de Televisão, que chegou ao hipódromo com grande antecedência — o páreo em sua homenagem estava programado para as 15h55, mas já às 14h ele se fez presente. À entrada Machado foi recepcionado pelo assessor de imprensa do Jockey, jornalista Urubatan Medeiros. Também foram agraciados com a denominação de páreos a Associação dos Cronistas de Turfe do Rio de Janeiro, a Key TV Comunicações, o Jornal dos Sports, o jornalista Arlindo Mannes, a revista Turfe Espetacular, a TV Turfe e a Rádio Mundial AM. Ao vencedor do Clássico Imprensa, sexto páreo da programação, foi oferecida a Taça Teophilo de Vasconcellos, instituída em homenagem ao famoso narrador das corridas do hipódromo da Gávea.

Dalto Duarte e Montpellier: vitória sobre J. Ricardo e Union de Merit.

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Avelar campeão dinha como vencedor do torneio na Série Craques, durou pouco mais de uma hora, tempo suficiente para que o coração de todos batesse acelerado. E não eram poucos os sócios e convidados que acompanharam o final da competição no salão do 11º andar da O associado Antônio Avelar, ABI – o conhecido Onze, glosado no colunista do ABI Online, foi o vendesenho e nos versos do cartucedor da disputa interna do I nista Adail —, onde estão insTorneio Aberto de Sinuca taladas as mesas de sinuca. Maestro Vila-Lobos, realizaBatizado em homenagem do no salão do 11º andar do ao ilustre freqüentador das Edifício Herbert Moses, que 1º Campeonato de Sinuca na ABI... mesas de bilhar da ABI – ele teve entre os seus habituês o Agitação sensacional se desenrola: jogava bilhar- francês, contou criador das Bachianas BrasileiSimbólica abertura com Paulinho da Viola Monarco, que foi contínuo da ras. Na tarde de 30 de junho, Jogando com Toquinho e esquentando ABI na juventude, em depoiAvelar venceu três partidas O ambiente, para os expoentes da atualidade mento recente —, que morou seguidas contra Augusto BanRelembrarem celebridades como Lincoln, Carne Frita em frente ao Edifício Herbert deira e se sagrou campeão da Artistas com tamanha habilidade Moses, o I Torneio Aberto de Série Jornalistas. Que pareciam subverter a lei da gravidade! Sinuca Maestro Vila-Lobos, Emocionado, Avelar, que promovido pela Casa, foi disficou em primeiro lugar nas Atenção! Silêncio... a cada jogada mais bonita A plateia se empolga, se agita... putado em duas séries: uma quatro chaves que disputou, Palmas! Vibração com sentido de realização!... para jornalistas e associados disse que não participou do Foi tanta emoção, como poucas vezes se viu: da Casa, outra para craques torneio pensando na premiaA pressão do Meireles foi às alturas! do jogo. ção. — Achei que meu adverA do sobrio Mesquita também subiu... Aos vencedores de ambas sário fosse me dar mais traE em tal agitação quem se segura? as séries foram atribuídos cobalho, pois joga muito bem. Calma! Qual anjo da guarda, detemina mo prêmios passagens aéreas Mas a sinuca não é uma ciênA preocupada enfermeira Cristina! e três diárias em hotel, com cia exata, depende do estado direito a acompanhante. O sede espírito do jogador. Palmas, então, também ao Zezé Cordeiro gundo e o terceiro colocados, A final da Série Craques, Por reviver o tempo dos “ilustres passageiros” também das duas séries, receiniciada mais tarde, foi emoQue de bonde iam ao “Vermelhinho” beram tacos de luxo. O certacionante — especialmente na Brindar idéias e esticando o burburinho me, como relatado na edição última das nove partidas disSubiam a esta sede que é número 300 do Jornal da ABI, putadas por Esquerdinha e Local de gente que agitava, por certo: foi aberto com uma partida Jairzinho. Esquerdinha comeBastos Tigre, Bororó, Barão de Itararé, tira-teima entre Toquinho e çou o jogo vencendo — o plaAgripino Grieco, Mário Lago, Paulo Roberto! Paulinho da Viola, na qual car marcou 3 a 1 —, mas JairToquinho mais uma vez levou zinho encostou e os dois chevantagem. garam a 4 a 4. Com belas ta-

Bom na sinuca, ele venceu tudo o que disputou.

cadas, as nove partidas dos craques fizeram vibrar os espectadores. A cada jogada certeira, ninguém escondia a emoção. Antônio Avelar comentou. — Está muito bom. É um jogo de alto nível. Os espectadores estavam tensos. A nona partida, que definiu Esquer-

O Onze foi a mil

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Jornal da ABI LIVROS

Capoeira em cordel, por Lacé O recém-lançado Capoeiragem no Rio de Janeiro, no Brasil e no mundo, do jornalista e capoeirista André Luiz Lacé Lopes, constitui na verdade a segunda edição — ampliada e ilustrada — do livreto em que o autor conta um pouco da trajetória da capoeira no Brasil e no mundo em versos de cordel. André Luiz, 67 anos, há 50 começou a aprender capoeira e, em seguida, criou um programa de entrevistas na Rádio Roquette-Pinto, de que participavam mestres capoeiristas do Rio de Janeiro, historiadores e folcloristas, como Edison Carneiro. Segundo o jornalista, há semelhanças entre os mestres da capoeira, com sua cantoria, e os cordelistas: — Ambos são contadores de histórias e noticiaristas. O verdadeiro cantador de capoeira, além de ritalista, é também um jornalista, cronista social, pregador, menestrel, enfim um cordelista ao som de berimbau. Nos tempos da Roquette-Pinto, cheguei a promover um torneio, o primeiro do gênero no Rio, entre o poeta repentista paraibano Zé Duda e o mestre de capoeira Zé Pedro. Para ele, Capoeiragem no Rio de Janeiro, no Brasil e no mundo é um veículo que ajuda a repensar a capoeira como um fenômeno afro-brasileiro, cuja origem musical, gestual e oral está na África, mas que no Brasil — principalmente na Bahia — ganhou forma própria de expressão, inclusive com a introdução do berimbau. André Luiz diz que começou a escrever sobre capoeira primeiramente pela vocação jornalística; depois, porque o tema é muito fascinante: — É uma pena que a capoeira ainda não garanta a sobrevivência dos seus mestres, ainda que já não sofra tanto preconceito como antigamente, quando era citada no Código Penal ao lado do termo vadiagem. Atualmente, os problemas que ela enfrenta são os mesmos que afetam outras modalidades esportivas. E o mestre de capoeira, como o professor de educação física, atua num mercado que não dá dinheiro. A segunda edição de Capoeiragem no Rio de Janeiro, no Brasil e no mundo está à venda na Toca do Vinícius (Rua Vinícius de Moraes, 61) e na loja do Museu do Folclore Edison Carneiro (Rua do Catete, 179 e 181), no Rio.

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Maurício de Souza em obra de Audálio O jornalista Audálio Dantas, VicePresidente da ABI, lançou seu novo livro, A infância de Mauricio de Sousa, texto dirigido ao público infanto-juvenil e que conta a infância de uma das maiores personalidades do mundo das histórias em quadrinhos, Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica. A publicação faz parte da coleção A infância de ...., do Instituto Callis, para a qual Audálio Dantas escreveu também A infância de Graciliano Ramos. Nas sessões de lançamento, Mônica e Cebolinha, dois dos principais personagens de Mauricio, são representa-

dos por atores caracterizados e também autografam o livro. O grupo S/Arautos, autor de músicas sobre as criações do quadrinista, apresenta canções compostas a partir da obra de Audálio. Ao contar a história do menino Mauricio, o VicePresidente da ABI reencontra um amigo da juventude. Os dois trabalhavam na Folha da Manhã (hoje Folha de S. Paulo) no final dos anos 50, quando Mauricio, que começara como repórter de Polícia, passou a dedicar-se à sua verdadeira paixão: desenhar — a publicação da primeira tira, com Bidu e Franjinha, aconteceu em 1959.

Palmar narra a morte de seis militantes da VPR O jornalista Aluízio Palmar programou para 6 de dezembro, em evento no Arquivo Nacional (Praça da República, Centro do Rio, RJ), o lançamento de seu livro Onde foi que vocês enterraram os nossos mortos?, em que conta como foram as últimas horas de vida de seis desaparecidos políticos que morreram no sudoeste do Paraná, nos anos 60. Trata-se de um trabalho de jornalismo investigativo, que durou cerca de 26 anos de apuração, sobre como foram mortos e enterrados Onofre Pinto, José Lavéchia, Victor Carlos Ramos, o argentino Enrique Ernesto Ruggia e os irmãos Daniel José de Carvalho e Joel José de Carvalho, todos ligados à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). O livro traz informações inéditas sobre as mortes dos seis guerrilheiros, que desapareceram quando vinham da Argentina para o Brasil, para promover ações armadas no Sul do País. Aluízio Palmar confirma a denúncia de que eles foram atraídos para uma emboscada armada pelos agentes dos órgãos de repressão da ditadura militar, fato que ficou evidenciado nos

documentos pesquisados, nas entrevistas com pessoas ligadas aos agentes que organizaram a caçada aos homens e no depoimento de uma testemunha ocular dos crimes. Além de contribuir para a elucidação das mortes dos militantes da VPR, Palmar — que também pertenceu à organização e ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) — traz novas informações sobre a formação da guerrilha armada na Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai) e comprova a participação da Itaipu Binacional na Operação Condor. Aluízio Palmar nasceu em São Fidélis, no Estado do Rio, estudou Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense (UFF), foi preso e exilado do País. Com a anistia, retornou ao Brasil e foi viver em Foz do Iguaçu, Paraná, onde começou a trabalhar no jornal Hoje Foz. Em 1980, criou o semanário Nosso Tempo, conhecido por sua linha editorial, considerada rebelde. Foi ainda Secretário de Comunicação e de Meio Ambiente de Foz de Iguaçu, onde atualmente é Chefe de Gabinete da Câmara Municipal.

Sarmento, por Argolo Membro suplente do Conselho Deliberativo da ABI, o jornalista José Argolo, Diretor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, informou que já se encontra em fase de impressão o livro que escreveu sobre Luiz Carlos Sarmento, que atuou na imprensa do Rio de Janeiro entre os anos 60 e 80, destacou-se como um dos maiores repórteres de sua geração e teve um fim trágico. O objetivo da obra, disse Argolo, “é fixar o perfil profissional de Sarmento, as histórias que protagonizou e os textos jornalísticos que escreveu”.

Capell, Robertão e Caê também lançam obras  MÉDICOS Bernardino Capell Ferreira lançou Abaixo de Deus, meus médicos em local especialmente escolhido pelo autor por ser o ambiente dos homenageados: o Auditório C do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, no 1º andar do edifício-sede da instituição (Rua Visconde Silva, 52, Botafogo, Rio de Janeiro,RJ). Capell, 84 anos, diz que a inspiração do livro é o bom atendimento de profissionais que o mantêm vivo e com lucidez e que acabaram virando seus grandes amigos. Lançado pela Editora do Poeta, Abaixo de Deus é o sétimo livro de Capell e levou dois anos para ser concluído. Segundo ele, trata-se de uma narrativa em que os cirurgiões dos quais foi paciente relatam pormenores das suas vidas particulares e episódios marcantes ocorridos no exercício da profissão.

 BOTAFOGO O jornalista esportivo Roberto Porto lançou em 12 de agosto, pela Editora Revan, Botafogo: 101 anos de histórias, mitos e superstições”. A noite de autógrafos foi na Dantes Livraria, no segundo andar do Cine Odeon BR (Cinelândia, Centro do Rio). No livro, Robertão, como é chamado pelos amigos, conta histórias de jogadores, técnicos, dirigentes e torcedores do Botafogo de Futebol e Regatas e também de companheiros de Redação em diversos jornais, como João Saldanha, Sandro Moreyra e Oldemário Touguinhó. Veterano na cobertura de Esportes, o jornalista assina a coluna Gol de letra no Jornal dos Sports e integra a mesa de debates do programa Loucos por futebol da ESPN Brasil.

 ESTUDANTES Na Assembléia Legislativa de Santa Catarina, em Florianópolis, o jornalista e ex-militante político Caê de Castro lançou em 11 de agosto Da cor amarela. Escrito na primeira pessoa, o livro pretende recuperar a memória do movimento estudantil catarinense, restaurando e contextualizando a vida universitária na primeira metade da década de 80 e mostrando a luta pela redemocratização do País, especialmente a campanha das Diretas Já.

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Jornal da ABI VIDAS

Manchetes sob medida, a arte de João Ribeiro

Reinaldo, o jurista Apaixonado pelo Direito, que muitas vezes o levou a sacrificar a atividade profissional de jornalista, Reinaldo Santos – Reinaldo Bastos Santos o seu nome completo – pôde prestar nesse campo uma inestimável contribuição aos seus companheiros da imprensa: com rigor de pesquisa, disciplina e preocupação permanente de atualidade, ele organizou o Vade Mecum da Comunicação, em que reuniu os principais ordenamentos legais relativos a imprensa, rádio, televisão, publicidade, propaganda, cinema, artes e espetáculos. A partir de sua primeira edição, que abriu, em 1972, uma série de muitas outras, o Vade Mecum da Comunicação contribuiu para consolidar a disciplina Legislação dos Meios de Comunicação, então de recente introdução no currículo das faculdades de Comunicação Social. Advogado, professor universitário e assistente jurídico do Ministério do Trabalho, Reinaldo Santos deixou copiosa obra no campo da organização de legislação de diferentes áreas, abrangendo não apenas a área trabalhista, mas vários outros setores do Direito, incluindo-se entre estes o Direito Comercial, o Direito Processual Civil e o Direito Previdenciário. No campo trabalhista foi fecunda a sua colaboração com o eminente advogado Benedito Calheiros Bonfim, especialista em Direito do Trabalho e criador das Edições Trabalhistas, que editou grande parte das suas obras. Reinaldo, nascido em 11 de outubro de 1918, teve intensa participação nas atividades do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro e na ABI, na qual atuou em inúmeras comissões de trabalho e colaborou como consultor jurídico. Ele obteve registro profissional em 1941 e ingressou na ABI em 1944: em 5 de junho completara 61 anos de vinculação à Casa. Enquanto pôde, marcou presença nas atividades da ABI, à qual compareceu com grande esforço na eleição de abril de 2004. Faleceu em 23 de agosto deste ano.

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Ele contestava que fosse procedente essa versão, mas seus companheiros, vendo-o trabalhar com tanta paixão, davam-na como favas contadas, verdade indiscutível. O jornalista João Ribeiro da Silva, conhecido pela forma abreviada João Ribeiro, sacrificou seu casamento porque, chamado a dar mais tempo à casa do que ao trabalho, não vacilou: entre a casa e a Redação da Última Hora de São Paulo, de Samuel Wainer, ele pensou, pensou e decidiu seu caminho – ficou com Samuel. Aliás, com Samuca, como ele se referia ao chefe e líder – pelas costas, na ausência de SW, por quem tinha veneração e respeito. – O João é vidrado no Samuel – diziam seus companheiros, arrematando a história – ou a lenda. Maranhense de São Luís, onde nasceu em 23 de junho de 1927, João Ribeiro teve uma iniciação precoce no jornalismo, pois já em 1948, com 21 anos, obteve o registro profissional em seu Estado, o de número 74. Ele começou numa Redação lá mesmo no Maranhão, mas a sua grande escola foi a Última Hora, tanto a de São Paulo, que se tornou o principal jornal popular da capital paulista na primeira metade dos anos 60, como a de Porto Alegre, pela qual teve breve passagem, e a do Rio. Nesta João Ribeiro chegou ao clímax de sua qualificação profissional, como editor das capas do segundo caderno, a chamada UH Revista, editor da principal página de Polícia, na última capa do primeiro caderno, e editor da primeira página da primeira edição, a chamada matutina, que, depois de impressa, era

atualizada na madrugada e nas primeiras horas da manhã, para adquirir uma aparência diferente, por uma equipe liderada por Flávio Brito e integrada, entre outros, por Genílson Gonzaga, Mário Curvelo e Anderson Campos. Sob o comando de Samuel, que se exilaria após o golpe militar de 1° de abril de 1964, e, depois, de Moacir Werneck de Castro e Jorge Miranda Jordão, João Ribeiro montava com o diagramador argentino Mário Parpagnoli ou, posteriormente, com o diagramador Xavier, apelido de Walter de Araújo Machado, nome que poucos conheciam, uma primeira página que era um primor de concepção gráfica, no leiaute-padrão do jornal, de harmonia na titulação e exatidão no texto das chamadas. O esquema gráfico e editorial era definido no começo da noite em reunião de João com Moacir Werneck e Miranda Jordão e até o fechamento da página, às 22 horas em ponto, João suava para conceber os títulos com a economia de letras ou toques (dígitos, diz-se agora) que o diagrama impunha. João colocava laudas e mais laudas na máquina de escrever, uma Olivetti Lexington de porte médio, amassava algumas com os dentes antes de jogá-las na cesta de lixo, mordendo de raiva o insucesso, mas acabava por encontrar o título procurado. João era capaz de achados que se incorporavam à história e ao dia-a-dia do jornal e à vida política: foi dele a idéia de apelidar o Governador Carlos Lacerda de mata-mendigos quando se descobriu, em reportagem de Amado Ribeiro, ás da reportagem policial de UH, que

o Estado pensava resolver ou diminuir o problema da mendicância na antiga Guanabara afogando os indigentes no Rio da Guarda, um dos afluentes do Rio Guandu, que abastece o Rio de água potável. Quando o regime militar, pela voz do então Comandante do IV Exército, sediado no Recife, Pernambuco, General Joaquim Justino Alves Bastos, decidiu prorrogar o mandato do ditador Humberto de Alencar Castelo Branco, nomeado Presidente da República numa votação viciada do Congresso Nacional, para assim sepultar as aspirações dos candidatos Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, Parpagnoli desenhou uma primeira página cuja manchete constituía um desafio aparentemente insuperável. – Três linhas de seis batidas – disse Parpagnoli. João matou a pau o desafio. Sem comer laudas, foi preciso: NEM JK NEM CL NEM 65. João Ribeiro era sócio da ABI desde 26 de setembro de 1972. Faleceu em princípio de julho, pouco depois de fazer 78 anos. Ele era tricolor roxo, amante de uma rodinha de pôquer, desde que com nível baixo de aposta, para se compatibilizar com o salário, e apaixonado pela Estação Primeira de Mangueira, cujo nome foi reduzido originalmente por ele, há quatro décadas, com seu poder de síntese e seu amor pela escola de samba de Cartola: – E a nossa Manga, como está?

diários do Rio, nos quais fez uma carreira marcada pelo ecletismo: foi repórter no setor sindical, redator copidesque, editor, chefe de reportagem, chefe de Redação. A extrema competência profissional lhe permitia comandar uma equipe de Geral, como chefe da sucursal do Diário de São Paulo no Rio de Janeiro, ou coordenar uma equipe especializada em economia, como secretário de Redação, nos anos 60, da sucursal carioca da Gazeta Mercantil de São Paulo. Ele podia estar presente na equipe que sob a liderança do jornalista Luís Paulistano modernizou o Jornal do Commercio do Rio depois que o Deputado San Tiago Dantas adquiriu o centenário jornal, em meados dos anos 50, ou no comando de uma agência noticiosa dotada de poucos recur-

sos mas empenhada na batalha da informação, como a sucursal da agência cubana Prensa Latina no Rio de Janeiro, no começo dos anos 60. Em todas essas funções Léo Guanabara revelouse um mestre da irreverência e da formação de quadros jornalísticos. Associado da ABI desde 20 de maio de 1969, quando ingressou na Casa por proposta do jornalista Aor Seixas Ribeiro, Léo Guanabara nasceu em 13 de agosto de 1928. Nos últimos anos, após aposentar-se, decidiu fixar residência no Município de Nova Friburgo, na região serrana fluminense, onde pôde desfrutar do carinho da esposa, a artista plástica Maria de Lourdes Araújo Guanabara. Ele faleceu lá em Nova Friburgo no dia 7 de julho, quando faltava pouco mais de um mês para completar 77 anos.

Léo Guanabara, mestre na irreverência e na formação de repórteres O cabelo ralo cortado com apuro e bem penteado, o bigode fino sempre aparado, o colarinho bem abotoado e com um laço de gravata perfeito, tudo dava a Léo Guanabara uma aparência de austeridade que ele sabia manter nos momentos necessários – por exemplo, numa entrevista com uma autoridade mais cerimoniosa. Fora desses momentos, porém, Léo não dissimulava seu temperamento. Era bem humorado, ainda que cáustico quando necessário; irreverente; irônico. Fazia a crítica mais contundente ou contava a boutade mais inspirada sem franzer a testa ou o lábio, o que desconcertava, se presente, o alvo ou destinatário de seu sarcasmo. Formado muito moço na escola de jornalismo da Imprensa Popular, o diário que o Partido Comunista BrasileiroPCB manteve no Rio por cerca de uma década, nos anos 40 e 50 do século XX, Léo trabalhou nos principais jornais

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DESBRAVADORES  Alessandro Rocha Fonseca

Q

uase um século depois de o navio Kassato Maru trazer as primeiras famílias japonesas ao Brasil, os ventos mudaram e agora os brasileiros fazem o caminho inverso rumo ao país do sol nascente. Somente uma pequena parcela desses brasileiros — estabelecidos em sua maioria em colônias — sabe ler ou escrever japonês. Mesmo entre os que conseguem falar, a dificuldade persiste devido à complexidade do idioma, que se divide em três sistemas de ideogramas: o hiragana, usado para escrever palavras nativas; o katakana, usado para palavras estrangeiras; e o kanji, mais complexo, para descrever o restante da língua. A colônia brasileira atingiu tais dimensões que tornou essencial a criação de uma imprensa em português, voltada para esses imigrantes conhecidos como decasséguis. Desde a década de 90, dois grandes grupos controlam a imprensa decasségui no Japão: International Press Corporation Group (IPC Group) e Japan Brazil Communication (JBC). Seu público básico tem leve predominância masculina, está na faixa de 20 a 45 anos e 55% deles têm rendimentos equivalentes à média da população japonesa — entre US$ 2 mil e US$ 3 mil por mês, sendo metade da quantia usada no consumo imediato e o restante poupado para a compra de bens duráveis ou para remessa ao Brasil. Aqui está justamente o outro mercado do IPC Group e da JBC: o dos parentes e amigos dos decasséguis, que recebem entre US$ 600 milhões e US$ 2 bilhões anuais por meio de remessas bancárias e anseiam por notícias sobre os familiares e o cotidiano no Japão. O IPC Group — também responsável pela representação exclusiva, no Japão, dos chocolates Garoto, dos sucos de fruta Tial e das massas e biscoitos Piraquê, através da Nambeibussan Corporation — é integrado por três empresas de comunicação: a IPC World, Inc., retransmissora dos canais Globo Internacional, Record Internacional e da Televisión Española; a Digital Bridge Communications Corporation, maior fonte de informa-

IMPRENSA DECASSÉGUI

ções em Tóquio e São Paulo, onde a Made in Japan é impressa simultaneamente, graças à internet. Masakazu Shoji, Diretor-presidente do grupo, diz que a tecnologia minimizou as barreiras impostas pela distância entre os dois países: — Passei 75 dias num navio em minha primeira viagem ao Brasil e a comunicação era só por carta. Hoje, em menos de 24 horas viaja-se entre São Paulo e Tóquio num dos muitos vôos diários que fazem essa Os rendosos jornais editados em português no rota. Além do telefone, temos informações em tempo real, em questão Japão para informar os brasileiros lá radicados de segundos, pela internet. Através da revista Made in Japan e do Jornal Tudo Bem, um nome ções via celular para estrangeiros no que conquistou a simJapão, através do site www.pokepatia dos brasileiros bras.com, e a International Press que vivem no Japão, a Japan Company, que edita livros, JBC encurtou essas guias e dois jornais semanais — um distâncias e conquisem português, outro em inglês e tatou mais que um mergalog (voltado para os filipinos) —, cado. Conquistou sua além de importar livros e revistas do razão de ser, cumprinBrasil, do Peru, da Colômbia e da Ardo a sua finalidade de gentina. informar ao leitor. A International Press Japan ComAlém de ter sido repany (IPJC) foi fundada pelo imiferência para os leitogrante japonês Yoshio Muranaga, res na Copa do Munradicado no Pará. Percebendo as dido de 2002, que aconficuldades dos decasséguis com o teceu simultaneaidioma e a ansiedade das famílias mente no Japão e na deixadas no Brasil, ele criou os jorCoréia, o Tudo Bem foi nais Nippo-Brasil (NB) e International de grande auxílio ao Press (IP). Este é vendido em lojas Itamaraty em janeiro de produtos brasileiros, quiosques de 1995, após o terrede estações de trem e livrarias, além moto na cidade de Kode ter alguns de seus textos pube, publicando diariaMuragana, um imigrante no Pará, percebeu o dilema da falta mente a lista dos soblicados diariamente no site de notícias e criou jornais para brasileiros no Japão www.nippobrasil.com e semanalbreviventes. mente no NB. Mesmo diante dos Segundo a editora Fátima Kamata, mercado, com tiragem de 60 mil inúmeros campos de atuação dos o pioneiro IP circula no Japão desde exemplares. Seus nove jornalistas — dois grupos, o mercado ainda não 15 de setembro de 1991 e é líder no oito brasileiros e um japonês — traestá saturado: 40% dos decasséguis balham entre a redação em Tóquio não são alcançados pelas publicae quatro sucursais e também utilições do IPC Group e da JBC, reprezam os serviços de várias agências sentando um vasto campo editorial de notícias. a ser conquistado não só no Japão, A Japan Brazil Communication mas junto à colônia japonesa no (JBC) é o outro grande grupo que Brasil. controla a imprensa em português Mangá é o nome dado às históno Japão, em parceria com algumas rias em quadrinhos de origem japodas principais empresas de comuninesa. Impressos em papel jornal e cação daquele país. Além de publifeitos totalmente em preto e brancar a revista Made in Japan e o Jorco, são baratos e muito populares nal Tudo Bem, a JBC é a única editono Japão. ra especializada em temas japonePara quem se interessar em aprenses (aproximadamente 30 livros) e der japonês, a Sociedade Brasileira de a maior responsável pelo lançamenBugei, fundada em 2002, ensina grato de mangás no Brasil. tuitamente o idioma na comodidaMangás produzidos pela JBC: cada edição tem pelo menos 200 páginas, com histórias Pode-se dizer que a JBC funciona de da internet (www.bugei.com.br/ completas e aprofundadas. Man significa ininterruptamente, pois tem redajapones/monji.asp). “involuntário” e gá, “imagem”

Um negócio movido a dólares e a muita saudade

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