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A Palavra do Presidente

Futuro promissor

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É com grande entusiasmo e satisfação que vemos a nossa ABCGIL crescendo e sendo referenciada pela conduta e trabalhos que estão sendo realizados. Observamos a visualização do Gir Leiteiro no cenário pecuário com grande interesse. Tivemos um crescimento de 26% no número de sócios no último ano. Realizamos exposições memoráveis para a raça com participação ativa dos criadores e estará acontecendo agora no final de outubro a nossa 6ª Exposição Nacional durante a Expomilk com um número recorde de criadores e com expressivo número de animais. Durante o evento, estaremos divulgando a potencialidade da raça na produção de produtos orgânicos, com degustação dos mesmos. Ministraremos um curso de julgamento para difundirmos ainda mais a morfologia adequada de uma vaca Gir Leiteiro que consideramos ideal. Todos os caminhos apontam para o crescimento de mercado. A potencialidade de aumento de produção e de consumo nas regiões tropicais em detrimento da estagnação das mesmas em regiões de climas temperados. A sustentabilidade e competitividade da produção leiteira baseada em volumosos. A busca de melhoramento genético em rebanhos com baixa produtividade através da utilização de touros provados.

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Estamos falando do Gir Leiteiro e do trabalho desenvolvido pelos seus criadores associados da ABCGIL. Portanto, companheiros, nossas metas estão sendo cumpridas e podemos nos orgulhar disso, sem contudo deixarmos de evoluir com ações que nos levem à frente. Nosso Programa de Melhoramento Genético está com novos desafios. Nossos parceiros estão mais entusiasmados. Nossos relacionamentos com a ABCZ estão cada vez mais afinados, pois lutamos por ideais comuns, que é a melhoria da qualidade do nosso rebanho zebuíno, através de provas zootécnicas. A ABCGIL associou-se ao Brazilian Cattle Genetics que visa divulgar e exportar o zebu brasileiro para o mundo. Conseguimos concretizar convênios com aporte financeiro para o nosso Teste de Progênie com os Ministérios da Ciência e Tecnologia e Agricultura, Pecuária e Abastecimento, ou seja, as coisas estão acontecendo! O mercado está cada vez mais exigente e com certeza isso só tende a aumentar. Nesses momentos vejo que o sonho e o trabalho de outrora, de um grupo de poucos criadores pioneiros, deu um grande resultado para todos nós, pois hoje é rentável e dá orgulho se falar em Gir Leiteiro. Todavia, muitos desafios e contestações tiveram que ser vencidos ao longo dos anos e transformaram a pecuária leiteira zebuína.

Eduardo Falcão de Carvalho Presidente da ABCGIL 2004 / 2007


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Revista Gir Leiteiro ISSN 1679-6659

ABCGIL

Associação Brasileira dos Criadores de Gir Leiteiro Av. Edílson Lamartine Mendes, 215 Parque das Américas. CEP 38045-000 • Uberaba MG • Fone (34) 33369659 girleiteiro@girleiteiro.org.br • www.girleiteiro.org.br.

DIRETORIA Presidente

Eduardo Falcão de Carvalho Vice Presidente

Flávio Lisboa Peres Diretor Tesoureiro

José de Castro Rodrigues Netto Diretor Secretário

José Joaquim da Costa Noronha Diretor Técnico

Ivan Luz Ledic Conselho Deliberativo Silvio Queiroz Pinheiro Presidente

Alberto Pereira Nunes Filho Ângelus Cruz Figueira Celso Augusto Ribeiro de Carvalho Flávio Lisboa Peres Gabriel Donato de Andrade José Afonso Bicalho Beltrão José de Castro Rodrigues Netto José João Salgado Rodrigues dos Reis Suplentes Lúcio Rodrigues Gomes Joe Carlo Viana Valle Pedro Nelson Lemos Conselho Fiscal Arthur Souto Maior Filizolla Carlos Roberto Caldeira Brant Onofre Eustáquio Ribeiro

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Suplentes Fábio André Hélio Dias Santos Duarte José Francisco Junqueira Reis

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Conselho Editorial Eduardo Falcão de Carvalho Ivan Luz Ledic Editora e Jornalista Responsável Larissa Vieira Departamento Comercial Miriam Borges Fotos (exceto as mencionadas em crédito) Divulgação e Ivan Luz Ledic Diagramação Victor (34) 3332 2029 Impressão Publi Editora e Gráfica

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Fotolitos Registro Fotolito Digital *As opiniões expressas nos artigos são de inteira responsabilidade de seus autores

Editorial O ano de 2004 marca a virada da pecuária leiteira no cenário nacional e internacional. Hoje, o Brasil já se prepara para registrar superávit em um futuro muito breve. Cada vez mais ampliamos o número de países para os quais exportamos lácteos. Tudo isso não está acontecendo por acaso. É cada vez maior o número de criadores que investem em iniciativas como o Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro (PNMGL), que irá completar 20 anos de existência, o Teste de Progênie e o Certificado de Produção. Nesta edição da revista ABCGil, você vai conhecer o que pesquisadores de várias entidades, como a Embrapa Gado de Leite e a Epamig, estão desenvolvendo para garantir maior produtividade do rebanho brasileiro. Além disso, vamos mostrar como explorar o potencial de produção de leite em condições de pastagem. A exigência da rastreabilidade bovina para o gado registrado, que começa a valer em fevereiro de 2005, é outro tema da revista. Seguindo a trilha do crescimento do Gir Leiteiro, você vai conhecer as tendências dos mercados interno e externo em relação à comercialização de sêmen e à exportação de animais para outros países. Os convênios assinados com os Ministérios de Ciência e Tecnologia e da Agricultura Pecuária e Abastecimento vão apoiar o Programa de Melhoramento do Gir Leiteiro e permitir, assim, que a genética de touros provados possa chegar até os pequenos rebanhos. Uma forma de promover a inclusão social. Para mostrar na prática o potencial do Gir Leiteiro, esta edição traz vários exemplos de criadores que estão conseguindo se destacar no cenário nacional graças a um trabalho sério, baseado no melhoramento genético e inovador, como, por exemplo, a produção de leite orgânico. Hoje, esse tipo de sistema movimenta 25 bilhões de dólares no mundo e no Brasil já são mais de 300 milhões por ano.


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Índice Índice

A palavra do Presidente: Futuro promissor

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Certificado de Produção

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De olho na altaqualidade genética

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Editorial

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Genética de touros provados garante lucratividade

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II Prova Nacional de Ganhode Peso do Gir Leiteiro

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Mercado internacional aquecido

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O Gir Leiteiro e sua função social

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O Gir Leiteiro no mercado de I.A.

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Pesos econômicos para seleção em gado de leite

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PNMGL ganha apoiodo Governo Federal

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Produção de leite com gado Gir em condições de pastagem

42

Produtividade e pureza racial: pilares de uma boa seleção

48

Rastreabilidade chega ao gado registrado

22

Sistema orgânico de produção de leite

50

Sucesso nas pistas de julgamento

60

Um testemunho de entusiasmo e expectativapara o pequeno produtor de leite

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Novidades no Sistema de Avaliação para Conformaçãoe Manejo na Raça Gir

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Novas avaliações do Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro

Gir Leiteiro Cetificado A nova embalagem da ABCGIL para exportação 10


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O Gir Leiteiro no mercado de I.A.

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Mercado

O Brasil, um país de imenso território, apresenta os mais diversos climas e topografias, possibilitando a expansão e exploração de diversos tipos de atividades pecuárias e a criação e seleção de diversas raças bovinas. A atividade leiteira é largamente explorada e as raças européias de alta produtividade vêm apresentando excelente desempenho em grande parte do país. Porém, em algumas regiões onde o clima, e as condições de manejo, são mais árduos, o pecuarista vem buscando opções de cruzamentos e raças mais rústicas que permitam a exploração da produção de maneira eficiente e economicamente viável nestas áreas. O Interesse pela raça Gir Leiteiro vem crescendo de maneira acelerada. Por ser uma raça rústica e resistente, permite a exploração da atividade leiteira em sistema de produção à pasto em regiões de clima tropical, reduzindo os custos e viabilizando economicamente a atividade para o produtor. Os selecionadores da raça vêm desenvolvendo um ótimo trabalho de melhoramento em cima de seus rebanhos, baseando seus acasalamentos na utilização de reprodutores provados e matrizes com produção conhecida. A parceria EMBRAPA/ABCGIL divulga todos os anos os resultados dos testes de progênie, permitindo ao criador optar entre os reprodutores que se destacam como melhoradores nas características necessárias aos objetivos de seus rebanhos. A utilização de reprodutores provados em acasalamentos conscientes, resulta em ganho genético que por sua vez traz um aumento na produtividade. Reflexo disto, é que hoje a raça apresenta uma média de produção de 3.233 Kg de leite sob regime de duas ordenhas. (segundo dados de controle oficial). Podemos avaliar o crescimento do interesse na raça, pelo seu desempenho no mercado de inseminação artificial. Nos últimos cinco anos (1999 – 2003), o número de doses vendidas de Gir Leiteiro (segundo relatório da ASBIA), teve um aumento percentual acima de 225%, sendo que no mesmo período, o total de doses vendidas (todas as raças leite e corte), aumentou cerca de 34%. Entre 2002 e 2003, a raça teve um aumento no número de doses de aproximadamente 32%, enquanto o mercado total cresceu por volta de 6%.

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Heverado Rezende de Carvalho Presidente da Associação Brasileira de Inseminação Artificial

Mercado

Veja no exemplo a seguir o comparativo da evolução entre as vendas, (em nº de doses) da raça Gir Leiteiro, do sêmen de leite e do mercado geral (leite e corte), nos últimos cinco anos. Podemos visualizar, nos gráficos, que a participação do Gir Leiteiro no mercado de I.A., vem crescendo a passos largos, além do expressivo trabalho de seleção dentro da raça. Esse crescimento também se deve ao fato de sua utilização em cruzamentos, principalmente na obtenção da fêmea F1 para o sistema de formação da raça Girolando (que também vem ganhando destaque no mercado), onde aproveita-se a produtividade da raça holandesa aliada a rústicidade e adaptabilidade do Gir Leiteiro. Existe ainda a possibilidade de se explorar a recria e engorda dos machos Gir e cruzados (em Prova de Ganho de Peso que está sendo realizada pela EPAMIG/ABCGIL/ABCZ/EMBRAPA/FINEP, machos Gir Leiteiro estão com ganho médio diário de 1,237kg/dia), o que enfatiza a viabilidade econômica da raça, principalmente em regiões de clima tropical.

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Mercado

Mercado internacional aquecido

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Os países em desenvolvimento estão todos passando por uma fase de transição na pecuária, pelo menos no questionamento dos atuais modelos de produção de carne e leite. Como será o leite do futuro? Que aspectos serão valorizados pelo consumidor moderno ao adquirir este alimento? Vários pontos compõem o valor percebido pelo consumidor e o quanto estará disposto a pagar por determinado produto. Entre eles, a segurança alimentar, a rastreabilidade, normas e padrões de qualidade de acordo com as exigências de cada mercado, cumprimento dos Padrões Zoosanitários Internacionais, respeito ao meio ambiente e remuneração do produtor e da cadeia de abastecimento. O Gir Leiteiro permite a produção de leite respeitando estes fatores fundamentais. A cada dia que passa mais e mais visitantes internacionais vêm a Uberaba (MG) com o intuito exclusivo de conhecer mais sobre o rebanho. O Gir Leiteiro é a raça com maior potencial exportador de produtos da genética dentre todas as raças zebuínas criadas no Brasil. Lidera o ranking de exportação de sêmen, com cerca de 50% do total exportado. Em 2003, foram vendidas para o exterior um total de 53.889 doses gerando uma receita de US$ 219.456,00. A meta do Brazilian Cattle Genetics para 2004 é de 100 mil doses. A facilidade do manejo, a docilidade e adaptabilidade são os maiores atrativos do Gir leiteiro. Aliado a isto está a possibilidade do criador optar por níveis de produção para sistemas de manejo mais simples e pelas explorações mais intensificadas com vacas produzindo acima de 10 mil quilos por lactação. Outro trunfo da raça é a versatilidade através da facilidade de introdução dos genes do Gir para formação do Girolando em países de predominância de rebanhos da raça holandesa. Não nos surpreendeu haver encontrado animais meio-sangue Gir em países de condições extremas como Colômbia e África do Sul. No início do mês de setembro, o Brazilian Cattle Genetics participou de feiras na Colômbia, em Barranquilla, e em Pequim, na China.


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Mercado

A Colômbia é hoje o maior importador de genética Gir, tendo rebanhos formados com animais de altíssima qualidade genética e com uma base muito boa em termos de produção e aspectos raciais. Os colombianos representaram quase 25% de todos os visitantes estrangeiros da Expozebu, totalizando mais de 150 pessoas durante o ano de 2004.

Gerson (a esq.) rescepcionou a diretoria da ABCGIL no Salão Internacional da ExpoZebu 2004

Gerson Simão Gerente do Brazilian Cattle Genetics

Divulgação

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Naquele país, o Gir encontra condições semelhantes à do Brasil, onde o gado caminha em pastagens naturais, em contato direto com o ambiente. Nossos vizinhos de continente devem se consolidar como maiores compradores de genética da raça para os próximos anos. Já a China representa um imenso celeiro de oportunidades, entretanto as raças zebuínas são completamente desconhecidas para os chineses. Não apenas o Gir, mas também as demais raças zebuínas deverão intensificar as atividades de divulgação nos próximos anos para familiarizar o chinês com o zebu brasileiro e, assim, explorar as diversas oportunidades de expansão dos produtos.

Com um consumo de leite baixíssimo, de menos de 10 litros por habitante/ano, e com um rebanho de 135 milhões de cabeças, das quais 20 milhões de vacas leiteiras, a China tem uma demanda de 20 mil embriões por mês. Esse número não resolve o déficit chinês de produção. Se multiplicarmos o rebanho por cinco, não se chegaria nem à metade do consumo médio mundial de lácteos que está por volta de 89 litros/hab/ano . A África representa também um potencial enorme de expansão para a raça, que já tem sido exportada para países como Senegal e Burkina Faso, devendo dar um salto bastante importante com as vendas que estão sendo negociadas com Angola ainda para 2004. A Ìndia também desponta como um mercado a ser explorado, pois não resta dúvida de que o Gir brasileiro supera em qualidade o rebanho indiano. Levando em conta que são inseminadas por ano naquele país 38 milhões de vacas, pode-se vislumbrar um horizonte promissor para a raça em nível global. Tudo isso acaba resultando em mais divisas para os produtores e abrindo a possibilidade de valorizar o Gir leiteiro através do marketing internacional de seus produtos. A divulgação internacional da raça é uma das prioridades da ABCGIL, tendo sido esta a primeira associação de criadores a se juntar ao Brazilian Cattle Genetics, demonstrando a visão estratégica da entidade e acenando para seus criadores com novas possibilidades de negócios e mercados.

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A 57ª Exposição Nacional de Zebu de Barranquilla, na Colômbia, foi um dos eventos que contou com a participação do Brazilian Cattle Genetics em 2004

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PNMGL ganha apoio do Governo Federal

O sucesso da pecuária brasileira lá fora não se restringe à carne bovina. É cada vez maior a procura de criadores estrangeiros pela genética zebuína, em especial por sêmen de Gir Leiteiro. O zebu “made in Brazil” já provou nesses últimos anos ser um produto de alta cotação no cenário internacional e deve continuar em ascensão pelos próximos anos. Países como México, Colômbia, África do Sul renderam-se à rusticidade e à elevada produtividade dos animais da raça, mesmo em condições adversas de clima. De olho no potencial produtivo do rebanho brasileiro, os Ministérios da Ciência e Tecnologia (MCT) e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), decidiram apoiar pesquisas na área de melhoramento genético com o intuito de levar aos pequenos produtores a genética de touros provados. O país tem hoje um rebanho leiteiro de mais de 33 milhões de cabeças e uma produção que superou os 21 milhões de litros em 2003, segundo dados do Anuário da Pecuária Brasileira (Anualpec). A pecuária leiteira, junto

com outros segmentos do agronegócio, é o terceiro setor da economia nacional com maior potencial de geração de empregos. A possibilidade de melhorar a qualidade dos animais criados em pequenas propriedades levou o MCT a firmar, durante a ExpoZebu 2004, um convênio com a ABCGIL de apoio ao Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro (PNMGL). O objetivo é identificar e selecionar os melhores touros para serem utilizados como reprodutores, especialmente por meio de inseminação artificial. “Queremos promover o melhoramento genético e o aumento da produção de leite nos rebanhos, fixando o homem no campo. Além disso, vamos gerar impacto econômico positivo para o Brasil e entrada de divisas por meio da exportação de material genético”, informa o secretário de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social, Rodrigo Rollemberg, que representou o ministro Eduardo Campos durante assinatura do convênio, na sede da ABCGIL, em Uberaba (MG).

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Notícia

Área Técnica

Convênios firmados entre ABCGIL, MAPA e MCT vão garantir promoção do melhoramento genético e aumento da produção de leite nos rebanhos gir de pequenas propriedades

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A assinatura do convênio entre a ABCGIL e o Ministério de Ciência e Tecnologia aconteceu durante a ExpoZebu 2004


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Com o convênio, o PNMGL será ainda mais difundido entre os pequenos produtores

Área Técnica

O PNMGL, que completará 20 anos, é desenvolvido pela ABCGIL em parceria com Embrapa Gado de Leite. Com o apoio do MCT, a perspectiva da associação é de aumentar o alcance do programa. “A atividade leiteira é muito importante para a inclusão social, pois, o leite é um alimento fundamental para a nutrição da população mais carente e por ser uma atividade geradora de empregos. Por outro lado, o Teste de Progênie é primordial para promover o mercado de exportação de sêmen, touros provados”, completa Rollemberg. A criação de gado leiteiro também terá apoio do Ministério da Agricultura, que irá assinar ainda este ano um convênio com a associação para promover novas pesquisas dentro do PNMGL. “O intuito dos dois convênios é democratizar a genética de qualidade e fazer com que ela chegue nas pequenas propriedades. O número de produtores que utilizam touros Gir Leiteiro testados será muito maior. Com isso, eles poderão ter um ganho de produtividade do rebanho mais rápido”, explica o presidente da ABCGIL, Eduardo Falcão.

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Rastreabilidade chega ao gado registrado

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Notícia

Área Técnica

A partir de 1º de fevereiro de 2005, todos os animais que participarem de feiras e leilões terão de estar cadastrados no banco de dados do Sisbov

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Depois do gado de corte, agora é a vez dos animais comercializados em leilões ou inscritos em feiras interestaduais, nacionais e internacionais terem seus dados cadastrados obrigatoriamente no Sisbov (Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina). E quem ainda não rastreou o rebanho terá de correr contra o tempo, afinal o Brasil tem uma média de quatro leilões por dia e dezenas de feiras a cada mês e o processo não é rápido. O prazo estipulado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para inclusão de bovinos no sistema é a partir de 1º de fevereiro de 2005. Depois disso, só poderão participar de exposições ou ir a leilão aqueles animais inscritos no Sisbov. Com modelo importado da França, a rastreabilidade brasileira entra em seu quarto ano em 2004 com mais de 25 milhões de bovinos cadastrados. Desde sua implantação em 2000, o sistema é alvo de críticas por parte do setor pecuário. O governo alega que o rastreamento é uma exigência do mercado internacional para o comércio de carnes. “A rastreabilidade é importante, já que nos possibilita ter todas as informações de origem e situação dos animais, que vai desde seu nascimento até o bife na mesa do consumidor”, diz a coordenadora nacional do Sisbov, Denise Euclydes Mariano. Na tentativa de aprimorar o programa e deixá-lo mais próximo da realidade do produtor, o Mapa criou um grupo de trabalho para ouvir toda a cadeia produtiva da carne e do leite, colher críticas e sugestões, discutir diretrizes. Desde a implantação da rastreabilidade no país os produtores rurais reivindicavam o direito das entidades de classe, responsáveis pelo registro genealógico dos bovinos, também certificarem o gado. Até abril de 2004, só empresas privadas podiam atuar no ramo. Durante a Expozebu, o governo assinou portaria autorizando o credenciamento da ABCZ Certificadora, empresa que faz parte da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu. Para realizar o serviço, a empresa contará com o apoio técnico dos 22 escritórios da associação espalhados pelo Brasil. Atualmente, existem 35 certificadoras credenciadas pelo Mapa, sendo que a ABCZ é a única oriunda de uma entidade de classe.


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Procedimentos para Certificação

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Área Técnica REVISTA GIR LEITEIRO

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Inscrição no Sisbov - Como os animais de elite já contam com número de registro, a identificação desses exemplares será associada ao código do SISBOV e armazenada na base de dados da certificadora. Depois, o número é exportado para o Banco Nacional de Dados do Mapa e irá constar no brinco auricular do bovino que terá 15 dígitos. Os três dígitos iniciais caracterizam o país de nascimento do bovino; os dois dígitos subseqüentes representam a Unidade da Federação de origem do bovino; nove dígitos seguintes identificam o animal; o último é um dígito final verificador. Além do brinco, o produtor pode utilizar o botton, chip eletrônico ou a tatuagem na orelha direita. No caso do gado de elite, o criador tem a opção de não colocar o brinco, chip ou o botton no bovino, mas terá que entregá-lo ao frigorífico no momento do abate. Para os animais registrados antes da conclusão do processo de rastreamento na fazenda, a ABCZ vai imprimir um selo contendo o número de Registro Genealógico e do Sisbov. Depois, ele deverá ser colado no Certificado de Registro Genealógico. No caso dos registros efetuados após o rastreamento, o número já sairá impresso no Certificado. Rastrear o rebanho significa também monitorar periodicamente cada atividade da fazenda, como vacinação do gado, medicamentos aplicados e alimentos fornecidos. O produtor precisa preencher uma série de formulários para tipos diferentes de procedimentos: manejo, reprodução, entrada de insumos. Eles devem ser enviados a certificadora, que depois manda os dados para o banco de dados do Sisbov. O objetivo, segundo o Ministério, é facilitar futuramente, caso necessário, a detecção de algum problema ocorrido na produção dos animais certificados.

Fonte: ABCZ Certificadora

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Primeiros passos - Para dar início ao rastreamento do rebanho, o pecuarista precisa assinar um contrato de adesão de prestação de serviço com a certificadora escolhida. Além disso, será preciso preencher uma série de planilhas (Cadastro de Produtor, Pré-Cadastro de Propriedade Rural, Solicitação de Identificadores) e levar até a empresa os seguintes documentos: - Pessoa física - RG e CPF (cópia); - Pessoa jurídica - CNPJ e contrato social (cópia); - Cópia do ITR (Imposto Territorial Rural);

- Cópia do Cartão de Produtor; - Caso a propriedade seja alugada (cópia do contrato de locação);

O produtor terá de informar quantos animais irá rastrear. A certificadora envia o pedido ao Mapa. Caso o criador opte pelo botton ou brinco, o Ministério irá mandar a numeração de cada animal para o fabricante desses produtos. A empresa, então, entrega o material pronto na fazenda. Quem optar pela tatuagem receberá o produto do próprio Mapa. Com o material em mãos, o pecuarista terá de aplicar os brincos ou tatuagem em cada bovino e relacioná-los em uma planilha com os números do RG. Terminada esta etapa, um supervisor da certificadora vai à propriedade conferir se o processo foi feito corretamente. O processo termina com a emissão do Documento de Identificação Animal (DIA) pela certificadora. Vale lembrar que a partir de fevereiro de 2005 o pecuarista terá de apresentar o DIA para retirar a Guia de Trânsito Animal (GTA) no órgão de inspeção do seu estado.


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Área Técnica

Novas avaliações do Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro

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O grande desafio de qualquer programa de melhoramento de espécies domésticas com longo intervalo de gerações é definir quais características serão selecionadas. No caso de gado de leite, isto significa dizer que temos que prever o que será importante economicamente em um futuro de 8 a 10 anos. Ao se iniciar o programa de seleção, devemos ter percepção sobre a tendência futura do mercado. Assim, o planejamento do programa deve ser muito cuidadoso, pois na maioria das vezes não temos como predizer o que o mercado vai demandar com tal antecedência. Para minimizar este problema procurou-se definir, na implantação do Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro (PNMGL), quais as características que poderiam ser medidas a curto, médio e longo prazo. Dessa forma, ao mesmo tempo em que iniciamos, em 1985, o Teste de Progênie para as características de produção de leite e gordura procuramos estabelecer as condições necessárias para a obtenção de medidas de outras características, tais como teor de proteína, lactose, sólidos totais, contagem de células somáticas; medidas de conformação, de manejo e de temperamento. A meta do programa, na sua implantação, era de se ter o máximo de informações sobre os animais, de modo a atender o mercado no momento em que o mesmo demandasse. Assim, as medidas de conformação e de manejo foram iniciadas a partir de 1992 e os teores de proteína, lactose e sólidos totais, no inicio de 1999. A obtenção das estimativas de mérito genético (PTAs) para essas características oferece ao criador maiores opções para a tomada de decisão no momento da escolha da característica a ser selecionada. Se a opção no futuro for para o aumento de sólidos totais, por exemplo, eles poderão usufruir os benefícios do pagamento diferencial quando implementados pela indústria de laticínios. É importante mencionar que a seleção para sólidos já ocorre de modo generalizado na maioria dos países de pecuária leiteira desenvolvida e que, em algumas regiões do país, o pagamento para esta característica já é uma realidade. Embora não possamos estimar ainda o retorno econômico da aplicação do pagamento diferenciado pelo leite com maiores teores de seus constituintes (gordura, proteínas, lactose ou sólidos totais), certamente eles serão positivos dentro dos sistemas produtivos que utilizarem reprodutores que apresentem PTAs positivas

para estes constituintes. Assim, a partir de 1993, começamos a disponibilizar as PTAs para leite e gordura; a partir de 1998, as PTAs para algumas características de conformação e de manejo e em 2004, iniciamos a publicação da PTA para produção de proteína. Dessa forma, demos mais um passo no sentido de prover aos criadores informações valiosas para serem utilizadas quando da escolha dos reprodutores. Para 2005, deveremos disponibilizar também as PTAs para lactose, sólidos totais e contagem de células somáticas. Essa última é um indicativo da mastite subclínica ou saúde da glândula mamária e está relacionada à queda na produção de leite e, conseqüentemente, ao aumento do custo de produção.Em um futuro não muito distante (3 a 4 anos), deveremos estar disponibilizando informações sobre marcadores genéticos que estejam associados às características de importância econômica. Essas informações serão de grande importância para que os selecionadores possam tomar decisões sobre o descarte ou

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Neste caso o que aconteceria? Haveria prejuízo? Para exemplificar, vamos considerar que um criador use sêmen dos touros A e B em seu rebanho. Assim, como há uma diferença de PTAs entre elas, esperar-se que, em média, as filhas do touro A venham a produzir 733 quilos (397 + 336) de leite a mais, por lactação, do que as filhas do touro B. Considerando-se que, em média, uma vaca permanece no rebanho por três lactações, teríamos então uma diferença de 733 x 3 = 2.199 quilos de leite. Isto significa dizer que o criador estará deixando de produzir, ou seja, estará perdendo 2.199 quilos de leite em cada vaca que seja filha do touro B em vez do Touro A, resultando em um prejuízo (considerando o litro de leite vendido a R$ 0,50 ) de R$ 0,50 x 2199 quilos = R$ 1.099,50. Além disso, dificilmente um criador compra sêmen para obter apenas uma vaca. Assim, se ele tiver 30 vacas, filhas do touro B, o seu prejuízo pode ser de 30 x R$ 1.099,50 = R$ 32.985,00. Percebese, assim, que a escolha do touro a ser utilizado no rebanho pode trazer grande prejuízo ao criador se ele não escolher os reprodutores com base em informações técnicas, como as PTAs, que possam ajudá-lo a reduzir significativamente o seu risco. É por isso que o Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro vem a cada ano procurando trazer mais e novas informações para auxiliar os criadores nas tomadas de decisões. Continuaremos trabalhando sempre com a mesma seriedade, persistência e determinação, e esperamos continuar merecedores do apoio e do aval dos criadores, dos produtores e da sociedade que muito valorizam nossas atividades, adquirindo sêmen, embriões ou animais cada vez mais valorizados por serem produto tecnológico do programa.

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não de um animal, mesmo antes que ele venha a produzir, além de possibilitar o aumento da precisão dos resultados das avaliações. Com relação às características de conformação, estaremos promovendo, a partir de 2005, algumas alterações na obtenção das mesmas, visando a aumentar a precisão das estimativas. Este assunto está sendo, discutido com mais detalhes, em um outro artigo desta revista por nossos colegas, liderados pelo Dr. Roberto Teodoro. Todavia, o aumento no número de características medidas nas filhas e a disponibilização de resultados das mesmas na forma de PTAs dos touros poderá levar o criador a ter dúvidas no momento de escolher qual reprodutor utilizar em seu rebanho. Para que isto possa ser minimizado, a equipe do programa já está trabalhando em uma outra linha de pesquisa, dentro do PNMGL, visando a estabelecer um índice agregado que inclua as características de maior importância econômica para maximizar o lucro nos sistemas produtivos de leite. Este trabalho é liderado por Dr. Rui Verneque e está sendo apresentado também nessa revista com o título de “Pesos econômicos para seleção em gado de leite”. Outras medidas, tais como fertilidade dos touros e das filhas, também estão sendo estudadas por serem consideradas de grande importância econômica para o desempenho dos sistemas produtivos. Estamos, dessa forma, procurando nos antecipar às tendências de mercado quanto o que o mesmo possa desejar no futuro. Para ilustrar o quanto é importante se conhecer o mérito genético (PTA) dos reprodutores, usaremos um pequeno exemplo com informações das PTAs publicadas no sumário de 2004. Neste sumário, o touro classificado em 1º lugar teve PTA para leite de + 397 quilos, e aquele classificado em último lugar, - 336 quilos. Se não houvesse o conhecimento das PTAs dos dois touros, os quais passaremos a chamar de A e B, muitos criadores poderiam fazer a opção errada do touro, por considerar outros atributos e características que não as PTAs para leite.

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Novidades no Sistema de Avaliação para Conformação e Manejo na Raça Gir

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O conhecimento das características de conformação e de manejo tem importante papel no processo de melhoria genética das raças leiteiras, principalmente nas raças zebuínas; todavia poucos trabalhos foram publicados sobre o assunto. Os programas de Melhoramento Genético, impulsionados pelos Testes de Progênie, enfatizam prioritariamente o aumento na produção de leite e de seus constituintes, que constituem o principal objetivo dos programas. Entretanto, para que o animal tenha sua produção otimizada, não só por lactação mas, principalmente, ao longo de sua vida útil, é indispensável que ele apresente estrutura morfológica e condição corporal capazes de manter a produção e a permanência no rebanho. Para tanto, é necessário que suas características de conformação e de manejo, estejam adequadas ao propósito a que ele se destina. No Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro, executado pela Associação Brasileira de Criadores de Gir leiteiro – ABCGIL e pela Embrapa Gado de Leite, essas características vêm sendo mensuradas desde 1992 nas filhas Gir puras dos touros em teste. Desde o ano de 1998 vêm sendo liberados os resultados das avaliações genéticas para algumas destas características, e que vêm sendo utilizados como auxílio à seleção de animais mais produtivos. Tamanho tem sido o sucesso dessa iniciativa que, recentemente, foram incluídas novas características consideradas de grande importância pelos criadores, destacando-se aquelas relacionadas com o úbere do animal. Essas novas características são, na sua maioria, medidas objetivamente, ou seja, a mensuração é realizada por meio de réguas e/ou anguladores diretamente nos animais, sendo, desta forma, mais precisas. Portanto, além das características que já vêm sendo medidas, serão mensuradas também o ângulo da garupa, a altura e largura da inserção do úbere posterior, a profundidade do úbere, medida em relação ao jarrete, além das mensurações visuais, como posição de curvatura das pernas, vistas lateralmente e por trás e firmeza do ligamento de úbere anterior.


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As estimativas de herdabilidade para as características de conformação e manejo que vêm sendo mensuradas são apresentadas na Tabela 1. Maiores progressos genéticos podem ser obtidos para as características de maior herdabilidade. É muito difícil de se obter progresso genético pela seleção e planejamento de acasalamentos para características com herdabilidade menor que 0,10. Na Tabela 1 é mostrado que as características de conformação diferem substancialmente nos valores de herdabilidade. Por exemplo, a altura de garupa (h2 = 0,55) tem uma herdabilidade muito maior do que o ângulo de garupa (h2 = 0,06). Conseqüentemente, para uma mesma intensidade de seleção, espera-

se um progresso genético muito maior em acasalamentos envolvendo a característica altura do que com ângulo de garupa. As médias das STA dos touros, obtidas para as vacas de primeiro e segundo partos, ajustadas para o efeito da idade, das características lineares medidas atualmente são apresentadas na Tabela 2. Muitas características, inclusive as de produção, podem ser representadas na forma de STA. À medida que o valor da STA se afasta da média (STA=0), seja para a direita ou esquerda, encontram-se progressivamente menos touros. Nos extremos (-3,0 e +3,0) encontram-se apenas 1% dos touros. O conhecimento da STA de um touro permite prever o quão afastada da média deverá ser a sua progênie. É importante salientar que a avaliação das características de conformação e manejo tem como objetivo identificar aquelas de maior importância para a criação de animais mais produtivos, resistentes e de maior longevidade, permitindo-se o estabelecimento de meta genética realística para cada uma delas, pela seleção de um melhor grupo de touros a serem utilizados em acasalamentos corretivos ou complementares com cada uma das vacas do rebanho, acumulando-se os ganhos genéticos nas futuras gerações.

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Pesos econômicos para seleção em gado de leite

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No Brasil, a atividade leiteira tem passado por grandes transformações. A cada dia são maiores as exigências do consumidor por leite e produtos lácteos de melhor qualidade, leite embalado de forma a facilitar o transporte e o armazenamento, produtos com maior vida de prateleira etc. A indústria, visando a atender as exigências dos clientes e procurando obter maior rendimento dos produtos lácteos, para ter melhores condições de competir no mercado, tem procurado pagar por itens que implicam, de algum modo, em estímulo a melhorias na qualidade. Esses pagamentos contemplam leite gelado, leite com maiores teores de gordura, de proteína ou sólidos totais, leite com baixa contagem de células somáticas ou leite com baixa contaminação por bactérias indesejáveis. Por vezes, também, a indústria tem

criado mecanismos de punição ao produtor que fornece leite fraudado (adição de água, por exemplo) ou com resíduos de antibióticos ou outras substâncias químicas proibidas. O produtor, ponto de partida do processo, tem que se adequar às regras do mercado, porque de algum modo, se não o fizer, pode ser excluído do processo. Por outro lado, produzindo produtos de qualidade, por certo, será beneficiado. O pagamento do leite por qualidade é realidade nos países desenvolvidos. No Brasil, embora de forma bastante modesta, já é praticado em algumas regiões, especialmente na Região Sul e parte da Sudeste. Essa tendência deverá se ampliar nos próximos anos e o produtor, para se manter no mercado, precisa adotar mecanismos para atender a estas exigências. Por certo, as medidas a serem adotadas reque-


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Dados de produção de leite acumulados na Embrapa Gado de Leite, no Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro, mostram que em 96.130 controles leiteiros válidos, de rebanhos Gir Leiteiro, a média diária de produção de leite ao longo da lactação é de 10,12 kg, com duração média da lactação próxima a 300 dias, produção média de 12,70 kg, no pico da lactação e 7,5kg no final da lactação. As médias dos teores de gordura, proteína, lactose e sólidos totais são de 4,56, 3,46, 4,66 e 13,38%, respectivamente (Tabela 1 e Figuras 1 a 3). A média da contagem de células somáticas (CCS) foi de 542.000, crescente com o estádio da lactação, resultado consistente em comparação aos observados para a maioria das raças leiteiras. Todavia, como tem sido divulgado na literatura, animais da raça Gir produzem leite com altos teores de sólidos, especialmente gordura. Portanto, trata-se de uma raça recomendada para ser utilizada em sistemas de produção onde se paga por sólidos no leite, tendência da indústria brasileira.

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Produção de Leite e seus constituintes no Gir Leiteiro

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rem investimentos relativamente altos, como por exemplo, aquisição de tanques de resfriamento do leite, que, de acordo com a capacidade, pode significar a aplicação de 13.000 a 90.000 litros de leite na compra, para tanques de resfriamento de 250 a 8.000 litros de leite (informação de fabricante). Outra decisão importante que demanda aumento de despesas seria a adoção de processos de prevenção a doenças da glândula mamária, como a desinfecção dos tetos antes e após a ordenha. Em resumo, pode-se observar que o agronegócio do leite, no Brasil, tem experimentado transformações substanciais, muitas das quais extremamente benéficas, que têm possibilitado o aumento de produtividade e melhorias na qualidade dos produtos lácteos, fazendo com que o Brasil passe de importador para exportador de lácteos. A adoção destas medidas modificará, por certo, os critérios de seleção dos animais, devido ao pagamento diferenciado por leite com maior conteúdo de sólidos, especialmente gordura, proteína e sólidos totais e menores contagens de células somáticas e unidades formadoras de colônias.

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Visando a auxiliar ao produtor de leite no aumento da rentabilidade de sua atividade e acompanhando a tendência da indústria em pagar por leite de melhor qualidade, especialmente leite com maiores conteúdos de nutrientes, como sólidos totais que é a soma dos conteúdos de gordura, proteína, lactose e minerais do leite, a Embrapa Gado de Leite, CNPq, FAPEMIG, EV-UFMG, EMATER e Cooperativas Agropecuárias, estão executando um projeto de pesquisa com vistas a obter pesos e valores econômicos para seleção de gado de leite (SMITH et al., 1988). É realizado o acompanhamento mensal dos índices zootécnicos e da contabilidade dos rebanhos leiteiros, constituindo-se uma amostra representativa da atividade no país. Neste trabalho, pretende-se estimar valores e pesos econômicos para as principais características de importância econômica na atividade leiteira. Uma vez obtidos os resultados, ou seja, estimados os pesos econômicos para as principais características, pretende-se criar índices para seleção de touros. Espera-se que em alguns anos o produtor possa escolher o sêmen ou o touro a ser usado em seu rebanho, não apenas pela PTA para leite, para gordura, para proteína, ou por alguma característica do sistema linear etc., mas, principalmente, por um índice que combine as PTAs para diversas características de importância econômica, ponderadas pelo peso econômico das mesmas. Desta forma, o índice de um touro representará o retorno econômico esperado pela sua genética e servirá para comparar, em termos genéticos, diferentes touros por meio do sêmen comercializado dos mesmos. A implicação do processo será o uso de um touro que traga maior retorno econômico para o produtor, ou seja, o produtor poderá adquirir o sêmen de um touro que deverá lhe propiciar maior lucro. Esse trabalho não é inédito no mundo. Observando-se catálogos de avaliação genética de touros provados em países desenvolvidos, é fácil observar diversos índices orientadores que expressam o que se espera de retorno econômico

Figura 1. Produção de leite média de leite segundo o estádio de lactação de vacas Gir Leiteiro (Fonte: Embrapa Gado de Leite).

Figura 2. Médias do percentual de sólidos totais (escala a esquerda) e dos teores de gordura, proteína e lactose do leite, segundo o estádio de lactação de vacas Gir Leiteiro (Fonte: Embrapa Gado de Leite)

Figura 3. Médias da contagem de células somáticas do leite, segundo o estádio de lactação de vacas Gir Leiteiro (Fonte: Embrapa Gado de Leite)


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pelo uso do touro. Um exemplo é o mérito líquido do touro, publicado no Sire Summaries ou no livro vermelho editado pela Associação de Criadores de Gado Holandês dos Estados Unidos. O mérito líquido significa uma medida do lucro esperado na vida produtiva de uma filha do touro. Para estimar o mérito líquido são considerados dados de produção, saúde do úbere, longevidade e tamanho corporal. É importante enfatizar que trabalhos dessa natureza são de execução complexa, de grande importância para os produtores de leite, e somente com a participação dos mesmos é possível a obtenção de resultados consistentes. O produtor de leite não deve se furtar a colaborar com trabalhos de melhoramento, especialmente em gado de leite porque os mesmos requerem grande volume de dados e demandam longos anos para serem concluídos, exigindo-se muita persistência e perseverança. Sem os resultados desses trabalhos os produtores continuariam a trabalhar usando métodos empíricos, baseando-se em “achismos”, correndo-se sérios riscos de insucessos na atividade.

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Seleção para características de importância econômica

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A seleção para características de importância econômica é parte do processo de melhoria de qualidade dos produtos lácteos, como também, visa a auxiliar ao produtor no aumento da rentabilidade da atividade. Resultados preliminares de pesquisa realizada no âmbito do projeto pesos econômicos para seleção em gado de leite (VERNEQUE et. al., 2004), avaliando-se dados de 13 rebanhos de produtores de leite com gado mestiço, acompanhados por dois anos consecutivos, mostraram custo total para produzir um litro de leite foi de R$ 0,47. O custo variável foi de R$ 0,31. Do custo total da atividade leiteira, cerca de 38% foram Referências bibliográficas - MADALENA, F.E. Valores econômicos para seleção de gordura e proteína do leite. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 29, n. 3, p. 678-684, 2000. MARTINS, G.A., MADALENA, F.E., BRUSCHI, J.H., LADEIRA, J.C., MONTEIRO, J.B.N. Objetivos econômicos de seleção de bovinos de leite para fazenda demonstrativa na zona da mata de Minas Gerais. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 32, n. 2, p. 304-314, 2003. SMITH, C.; JAMES, J.W.; BRASCAMP, E.W. On the derivation of economic weights in livestock improvement. Animal Production, v. 43, p. 545-551, 1988. VERCESI FILHO, A.E., MADALENA, F.E., FERREIRA, J.J. et al. Pesos econômicos para seleção de gado de leite. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 29, n. 1, p. 145-152, 2000. VERNEQUE, R.S., TAKAMURA, A.E., MARTINEZ, M.L., TEODORO, R.L., STOCK, L.A., MADALENA, F.E., YAMAGUCHI, L.C.T., FREITAS DE PAULA, R., REIS, G.L. Custos e componentes do custo para produção de leite e valores econômicos para constituintes do leite em rebanhos leiteiros do estado de Minas Gerais. In: Anais da 41ª. Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, 41, 2004, Campo Grande, MS. Anais... Campo Grande, 2004 (CD).

despesas com concentrado, 27% com despesas de ordenha (mão-de-obra), 8% gastos com energia e 6% com sanidade do rebanho. As principais despesas com cuidados sanitários foram produtos para controle de parasitas. No mesmo trabalho publicado, foram observados os dados apresentados na Tabela 2. Verificou-se que os rebanhos acompanhados têm vacas mestiças de tamanho médio (cerca de 14 a 15 arrobas), e o leite produzido apresenta percentagem de gordura, proteína, lactose e sólidos totais muito próximo aos limites mínimos estabelecidos pela indústria, valores a partir do qual o produtor poderia receber abono. Segundo levantamentos realizados no mesmo estudo, a maioria dos laticínios nos quais os produtores contemplados na pesquisa fornecem o leite, pagaram por teores de gordura, de 2002 a 2003, um abono máximo de R$ 2,80/kg acima de 3,4%. No caso presente, na média, os produtores receberam um abono máximo de R$ 0,50 por cada 100 litros de leite entregue aos laticínios, decorrente de teores de gordura. Apenas um laticínio pagou por teores de proteína no leite acima de 3,2%, mas o adicional foi insignificante, redundando em valor econômico negativo para o constituinte, ou seja, o valor pago ainda não incentiva ao produtor procurar mecanismos para aumentar teores de proteína no leite. De qualquer forma, acredita-se que nos próximos anos a tendência é a indústria premiar maiores teores de sólidos do leite. Os resultados obtidos no estudo demonstram que os teores dos principais nutrientes do leite dos rebanhos mestiços acompanhados podem ser aumentados. Uma opção seria o uso de raças leiteiras que produzem leite com maior conteúdo de sólidos ou o uso de sêmen de animais melhoradores para essas características, ou seja, touros que apresentam PTA ou valor genético positivo para sólidos. O uso de animais da raça Gir seria uma ótima opção. Rui da Silva Verneque; Mario Luiz Martinez; Roberto Luiz Teodoro; Marcos Vinicius G. B. da Silva; Ângela Emi Takamura; * Fernando Enrique Madalena, Ivan Luz Ledic Pesquisadores da EMBRAPA Gado de Leite * Professor UFMG


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Certificado de Produção A ABCGIL e EMBRAPA Gado de Leite, ao criarem o Certificado de Produção visaram a produzir um documento de atestado de desempenho dos animais, contendo dados sobre todas informações constantes sobre o animal, seus pais e avós. É um diferencial do mercado, pois só poderá ser emitido para animais com produções de leite obtida por Controle Oficial. Esse documento, contém, além do desempenho da produção de leite, resultados de outras provas zootécnicas efetuadas por Entidades de Classe e pelas Empresas de Pesquisa e Ensino em parceria com a ABCGIL, premiações em julgamentos e de torneios leiteiros de exposições homologadas pela ABCGIL, além de resultados de avaliações genéticas efetuadas pela EMBRAPA Gado de Leite. Com esta iniciativa, a ABCGIL, colocou no mercado um documento que oferece garantia de qualificações de que o produto é mesmo um Gir Leiteiro,, confirmando a origem dos animais em comercialização. Tanto, que em 2003, nos Leilões homologados pela ABCGIL, foram expedidos Certificados a todos animais vendidos, garantindo ao comprador que o produto adquirido tem informações detalhadas em seu pedigree. Quanto aos animais Gir Leiteiro exportados, os compradores têm exigido também a confecção desse documento. Ivan Luz Ledic - Pesquisador da EMBRAPA Gado de Leite

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André Rabelo Fernandes - Técnico da ABCGIL

Dados sobre animais Gir registrados e em controle leiteiro Em 2003 foram feitos 6.276 Registros Genealógicos de Nascimento (RGN) de bezerros(as) Gir na ABCZ. Considerando que esses RGN representam 75% de natalidade e as fêmeas em reprodução 31% do total de animais do rebanho, então haveria um rebanho de 26.993 animais Gir registrados pela ABCZ. Desse total de RGN, 2.526 são de criadores associados da ABCGIL, representando 40,2%. O total de criadores de Gir, que fazem registro na ABCZ, são de 332 filiados. Desses, 91 produtores (27%) são sócios da ABCGIL. Em 2003 houve, na ABCZ, 1.116 lactações inscritas no Controle Leiteiro. Apenas 26 criadores sócios da ABCGIL (dos 91) fazem o Controle Leiteiro por essa Entidade, constando 899 lactações (80,6%) desses associados. Os outros 65 sócios da ABCGIL fazem Controle Leiteiro Oficial através de outros órgãos, num total de 1.192 lactações inscritas em 2003. Ocorreu então, 2.308 lactações controladas em 2003, representando 36,8% das vacas Gir paridas dos rebanhos que efetuaram RGN na ABCZ. Ivan Luz Ledic - Pesquisador da EMBRAPA Gado de Leite / Diretor Técnico da ABCGIL; Carlos Henrique Cavallari Machado - Superintendência ABCZ;

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Produção de leite com gado Gir em condições de pastagem

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Animais do rebanho Gir Leiteiro da Epamig participam do estudo sobre produção de leite em condições de pastagem e com baixo custo

O potencial de produção de leite em condições de pastagem não tem sido explorado na prática, pois em muitas situações elas são manejadas de forma inadequada, ou seja, deixam de ser vistas como uma cultura que necessita de adubação. Além disso, não são observados período de descanso e ocupação das pastagens, além da manutenção de oferta de forragem ser mantida abaixo da necessidade da vaca leiteira. Em função desta situação, observa-se no Brasil produções bem abaixo do potencial, como: produtividade de 350 quilos de leite/ha/ano, taxa

de lotação de 0,5 vaca/ha e 4 litros de leite/vaca/dia. A atividade leiteira passa a não ser rentável nesta situação de produção, perdendo a competitividade e espaço para outras atividades (soja, milho e cana) como tem acontecido em várias regiões. Pode-se perceber que os sistemas de produção de leite devem se especializar, aumentando a renda/área, fato que pode ser conseguido através de manejo eficiente, utilizando técnicas de pastejo rotacionado, adubação e produção de forragem para o período seco do ano.

Em função das excelentes condições climáticas verificadas em boa parte do Brasil tropical (temperatura, luminosidade e precipitação pluviométrica), é possível se conseguir alta produção de forragem a baixo custo, ficando claro que os sistemas mais adequados para a produção econômica de leite são os que utilizam pastagem como base da alimentação volumosa de vacas leiteiras. O raciocínio lógico para explorar eficientemente sistemas de produção de leite é aproveitar a grande produção de forragem com boa composição quí-


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da planta, dentro da meta de aumentar a quantidade de nutrientes digestíveis na dieta para bovinos e garantir produção de leite compatível com o valor nutritivo de gramíneas tropicais. Ao se considerar a estrutura do relvado, o manejo tem por finalidade a remoção das porções senescentes, e assim melhorar a acessibilidade aos perfilhos imaturos, tenros e suculentos de maior valor nutritivo. Sob o ponto de vista morfológico, almeja-se uma alta relação folha/colmo, ensejando uma maior quantidade de tecidos, com células contendo paredes celulares menos lignificadas. Assim, o manejo para qualidade de forragem procura substituir colmos e folhas senescentes ou em início de senescência por caules jovens e folhas recém-expandidas, ricas em tecidos meristemáticos. Percebe-se então que o manejo em condições de pastejo rotacionado poderia proporcionar uma melhor qualidade de forragem, em função de propiciar for-

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o consumo dos minerais deficientes, promovendo o atendimento da exigência nutricional. Outro fato para que se atinja essa produção é a necessidade de animais adaptados, que não sofram estresse calórico. Animais europeus têm grande exigência nutricional para atingir seu potencial produtivo, com índice elevado de ingestão de alimentos para atender suas necessidades. Em dias e horas quentes do ano, tem dificuldade para reduzir o alto calor metabólico produzido, não o dissipando eficientemente e, tendem a diminuir o pastejo, reduzindo assim a ingestão de alimentos, com reflexo direto na produtividade. Os zebus e seus mestiços, estando em conforto fisiológico, expressam seu potencial produtivo (têm mecanismo mais eficientes de dissipação do calor metabólico), pois o nível de ingestão de alimentos não é afetado e conseguem satisfazer suas exigências nutricionais e índice de metabolismo

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para seus níveis de produção nas nossas condições climáticas. Além disso, quando se busca a exploração do potencial de produção de leite em sistemas baseados em pastagem é preciso ter em mente que cada gramínea forrageira apresenta características de manejo próprias como: idade da planta no momento de pastejo; resíduo e área foliar remanescente após o pastejo. O manejo para se obter forragem de qualidade envolve um conjunto de práticas/atividades destinadas a alterar a morfologia ou retardar a maturidade

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mica durante o período das águas (intervalo entre os meses de novembro e abril). Desta forma se poderia trabalhar com altas taxas de lotação por área (5 vacas/ha) desde que utilizadas técnicas de adubação e manejo de pastagens, explorando produções próximas a 10 litros de leite sem a utilização de alimentação concentrada. Esta situação de produção poderia possibilitar produções próximas a 15.000 quilos de leite/ha/ano. Quando se afirma que a pastagem é capaz de suprir nutrientes para a produção de 10 quilos de leite/vaca/dia,

deve-se interpretar esta afirmação com reservas, já que a concentração de alguns minerais na forragem poderá não atender à exigência nutricional para esta produção, como é o caso do fósforo (P) e do cálcio (Ca). É importante monitorar o conteúdo de Ca e P da forragem e utilizar fórmulas de sal mineral comerciais que promovam o atendimento da exigência nutricional em função da produção de leite do rebanho. Em algumas situações pode-se, fazer na própria fazenda, mistura de minerais com farelos ou grãos de baixo custo, com o intuito de induzir

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ragem de alto valor nutritivo no momento de pastejo. Com o objetivo de promover pesquisas e difundir tecnologias, a EPAMIG, através da Fazenda Experimental Getúlio Vargas, a partir de 1997, vem desenvolvendo trabalho de produção de leite com bovinos da raça Gir em condições de pastagem, buscando a produção de leite a baixos custos. Nesse sistema, que utiliza uma área de 190 ha - sendo 150 ha para a produção de pastagem, 40 ha destinados para a produção de volumoso e 5 ha destinados para a estrutura

física do sistema (sede) - são manejadas 600 cabeças, aproximadamente 370 UA (1 UA = 1 animal de 450 quilos), o que possibilita uma taxa de lotação de 1,9 UA/ha (3,0 cabeças/ha em média). Todas as categorias animais são manejadas em sistema de pastejo rotacionado com adubações de manutenção periódicas para manter a taxa de lotação planejada. O manejo de pastagem realizado para as diferentes categorias animais pode ser observado abaixo:

Vacas em lactação - pastagem de capim Pennisetum purpureum (capim elefante), manejada em condições de pastejo rotacionado, observando 45 dias de período de descanso e 1 dia de período de ocupação. Bezerros em aleitamento - pastagem de capim Panicum maximum cv. Tanzânia, manejada em condições de pastejo rotacionado, observando 30 dias de período de descanso e 5 dias de período de ocupação. Vacas secas - pastagem de capim Brachiaria decumbens, manejada em condições de pastejo rotacionado, observando 32 dias de período de descanso e 8 dias de período de ocupação. Recria de fêmeas - pastagem de capim Brachiaria decumbens, manejada em condições de pastejo rotacionado, observando 33 dias de período de descanso e 11 dias de período de ocupação. Novilhas em reprodução - pastagem de capim Brachiaria brizantha cv. Marandu, manejada em condições de pastejo rotacionado, observando 32 dias de período de descanso e 4 dias de período de ocupação. Recria de machos - pastagem de capim Panicum maximun cv. Tanzânia, manejada em condições de pastejo rotacionado, observando 33 dias de período de descanso e 3 dias de período de ocupação. O manejo descrito é utilizado durante o período das águas. Durante o período da seca, em todos os sistemas, o período de descanso é aumentado (45 a 55 dias) para proporcionar uma melhor recuperação da pastagem. Neste período da seca, para algumas categorias, como vacas, bezerros em aleitamento e bezerros em recria, é fornecida uma suplementação volumosa. Com este manejo o rebanho Gir Leiteiro da Fazenda Experimental Getúlio Vargas tem apresentado os seguintes índices zootécnicos:

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Idade ao primeiro parto - 39 meses. Intervalo de partos - 13,6 meses. 3.300 kg de leite em 280 dias de lactação - média de 11,8 kg de leite/dia. Peso vivo de vacas adultas - 450 kg Conjuntamente com este trabalho são desenvolvidas pesquisas nas áreas de melhoramento genético, nutrição animal, forragicultura e sanidade animal, procurando gerar informações para o aproveitamento do potencial produtivo da raça Gir em condições de pastagem, associada a sua reconhecida rusticidade e resistência aos ectoparasitos. A Epamig, através da Fazenda Experimental Getúlio Vargas, desenvolve trabalhos de pesquisa em parceria com instituições ligadas ao setor agropecuário como ABCGIL, ABCZ, Embrapa, Unesp, UFLA e Fundação Triângulo, com suporte financiamento do CNPq, Finep e Fapemig. Assim, a Fazenda Experimental Getúlio Vargas, Empresa Pública pioneira na criação do Gir para produção de leite, procura, através de experimentos e pesquisas, gerar informações e técnicas de criação para auxiliarem os produtores, mantendo estreito relacionamento com a ABCGIL, visando a promover o Gir Leiteiro dentro da pecuária leiteira tropical. Leonardo de Oliveira Fernandes - Pesquisador da Epamig e professor da Fazu Ivan Luz Ledic - Pesquisador da EMBRAPA Gado de Leite

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II Prova Nacional de Ganho de Peso do Gir Leiteiro

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Os fundamentos genéticos de possível inexistência de incompatibilidade biológica entre as características de produção de carne e leite tem sido confirmados pela literatura científica. As correlações entre carne e leite, positivas e negativas, são comumentemente baixas, conforme reportado por MASON (1962 e 1964), MASON et al (1972) e NICHOLS & WHITE (1964). No Gir Leiteiro, LEDIC (1992) encontrou correlação genética de 0,03 entre produção de leite na lactação e peso da vaca ao parto, concluindo que os genes que afetam a produção de leite não são os mesmos que atuam para definição do peso adulto. Assim, a seleção para produção de leite não interfere no ganho de peso e no tamanho dos animais. LEDIC (1997), conclui que a seleção para maior produtividade leiteira conduz à obtenção de animais de melhor conversão alimentar, portanto maior ganho em peso com base em resultado obtido na I Prova Nacional de Ganho de Peso do Gir Leiteiro, efetuada, de forma inédita, em 1996, no ‘Núcleo João Barisson Vilares’, na Fazenda Experimental Getúlio Vargas, da Epamig, em Uberaba, MG. Nessa I Prova de Ganho de Peso do Gir Leiteiro, oficializada pela ABCZ, utilizando 19 tourinhos de seis rebanhos Gir Leiteiro, obteve-se ganhos médios diários de 1,008 kg, havendo ganho em peso de até 1,214 kg/dia, sendo maior que os já obtidos em provas idênticas com Gir procedentes de plantéis que praticam seleção para corte. Grande fatia do mercado do Gir Leiteiro é a dos produtores de leite que utilizam animais mestiços e que têm interesse em aproveitamento dos machos para engorda. A Prova de Ganho de Peso é um processo de seleção individual de bovinos, com base no desempenho em características econômicas de alta herdabilidade. Essas características permitem que os indivíduos, tidos como superiores nas provas, possam transmitir com

alta probabilidade essas qualidades aos seus descendentes, sem a necessidade de testar sua progênie. Mesmo assim, a Prova de Ganho de Peso, pode ser utilizada, também, como um Teste de Progênie de Touros, podendo-se estimar o valor genético de cada reprodutor através de seus filhos. A realização de Provas Zootécnicas de Ganho de Peso, como informação complementar à produção leiteira, conduzirá à identificação de touros duplos provados superiores para melhorar o desempenho nos rebanhos, tanto de Gir como de mestiços. Finalidade • Identificar os melhores genótipos, dentre as diferentes populações de Gir, quanto à capacidade em ganho de peso e desempenho no peso final padronizado, complementando as avaliações obtidas no Teste de Progênie para leite. • Obter informações complementares de características morfológicas, fisiológicas, reprodutivas e de comportamento de interesse zootécnico. Resultado das Pesagens A II Prova Nacional de Ganho de Peso do Gir Leiteiro teve início em 25/05/2004, numa parceria entre EPAMIG/ FINEP/ABCGIL/EMBRAPA Gado de Leite/ABCZ, no ‘Núcleo João Barisson Vilares’, na Fazenda Experimental Getúlio Vargas/EPAMIG, Uberaba, MG. Conforme previsto, o encerramento será em 09/11/2004, após 56 dias de adaptação e 112 dias de prova efetiva.


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Ivan Luz Ledic, * Leonardo de Oliveira Fernandes, Rui da Silva Verneque,** André Rabelo Fernandes, Mário Luiz Martinez, Roberto Luiz Teodoro Pesquisadores da EMBRAPA Gado de Leite * Pesquisador da Epamig e Professor da Fazu ** Técnico da ABCGIL

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peso, vindo demonstrar a capacidade do Gir Leiteiro em converter o alimento ingerido em rendimento de carcaça. Os custos de execução da PNGP-GL estão sendo cobertos pelos criadores e EPAMIG.

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A ração fornecida aos animais, à vontade, é constituída de uma mistura de volumoso e concentrado, com composição de 12% de PB e 65-70% de NDT, equivalente a uma pastagem de boa qualidade. Estão participando 14 tourinhos, com Registro Genealógico de Nascimento (RGN), provenientes de oito rebanhos de Gir, filhos de touros provados ou em avaliação no Teste de Progênie e de vacas com produção mínima de 3.000 kg de leite. Na Tabela 1 apresentamos dados referentes aos pesos e ganhos de peso dos animais, auferidos até o momento, por técnicos da ABCZ, EPAMIG e ABCGIL. Podemos verificar ganhos médios diários bastante elevados após o início efetivo da prova, com média de 1,181 kg nos primeiros 28 dias, de 1,237 kg no segundo período de 28 dias e de 1,209 kg desde o início da prova efetiva (em 20/07/04). Houve ganho de até 1,643 kg, extremamente elevado para qualquer tipo de animal submetido à prova de ganho de

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Estância São José

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Produtividade e pureza racial: pilares de uma boa seleção

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A Estância São José, localizada no município de Trindade (GO), acumula 36 anos de trabalho na área de seleção de Gir. O rebanho, composto por aproximadamente 1.700 animais PO, participa do controle leiteiro oficial da ABCZ há 25 anos para que sejam identificados exemplares e famílias de vacas melhoradoras. Tanta dedicação produziu alguns animais recordistas do Controle Leiteiro Oficial da ABCZ. Os bovinos do plantel da Estância São José, de propriedade do pecuarista Alberto Pereira Nunes, são criados a pasto e recebem suplementação alimentar durante o período de seca. A seleção da raça tem como enfoque a produtividade, mas sem deixar de lado a caracterização e a pureza racial. Por opção, e em atendimento às exigências do mercado, o rebanho é selecionado explorando a aptidão leiteira. Alberto Pereira Nunes é considerado um dos grandes precursores da produção de leite no país e um dos pioneiros na inseminação artificial no Estado de Goiás, além da transferência de embriões de raças zebuínas.

Hoje, a raça gir destaca-se pelo crescimento no número de criadores que registram seus animais na ABCZ. Cada vez mais, jovens pecuaristas têm aderido à criação e ex-criadores estão voltando à atividade. A valorização que a raça está alcançando é graças ao aumento das exportações de lácteos e às ações de marketing. Segundo Alberto Pereira Nunes, um bom trabalho é necessário divulgar os resultados da pecuária leiteira. O marketing é hoje uma ferramenta de trabalho fundamental para o produtor. Não basta produzir bem, é preciso que as pessoas e o mercado saibam de todo o potencial do setor. “O mercado começou a perceber que para aumentar os lucros é necessário diminuir os custos e é nessa otimização que entra o Gir – um gado rústico, resistente e adaptado ao clima brasileiro. Precisamos de todas as pessoas bem intencionadas e inteligentes que criam Gir para continuarmos crescendo”, diz. Na presidência da AGCG, Alberto desenvolve um trabalho de valorização da raça e de seus criadores, além de buscar a articulação entre os giristas.


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Manejo


Sistema orgânico de produção de leite

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Fazenda Malunga

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De volta para o futuro

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A Fazenda Malunga, propriedade de Joe Carlo Viana Valle, existe há aproximadamente 22 anos. No começo trabalhávamos com hortaliças e a produção era convencional. Na primeira safra tudo foi muito bem. Produzimos muito, mas na hora de comercializar não conseguimos vender quase nada. Na segunda safra, os preços estavam bons, mas não conseguimos produzir e ainda tivemos uma ligeira intoxicação por agrotóxicos, pois nós mesmos pulverizávamos a plantação. Foi aí que decidimos que aquela não era a maneira correta de produzir alimentos, pois produzíamos o que não tinha valor, degradando o meio ambiente e de quebra acabando com nossa saúde. Começamos a procurar maneira diferente de produzir, que fosse economicamente viável , mas também ambientalmente correto e socialmente justo. Buscamos informação e pessoal qualificado. Iniciamos a nova fase da produção na fazenda Malunga, em 1986. O sistema de produção orgânica é aquele que exclui amplamente os agroquímicos, valorizando o homem e o meio ambiente. Hoje, esse tipo de sistema movimenta 25 bilhões de dólares no mundo e no Brasil já são mais de 300 milhões por ano, sendo que mais ou menos 0,3% disso é a Malunga que movimenta - é só fazer as contas.

Mas e o gado onde é que entra nisso? O sistema orgânico “ideal” prevê a integração vegetal – animal na unidade de produção e foi nessa que embarcamos. Como já tínhamos uma tendência familiar para a pecuária, logo colocamos umas vaquinhas para produzir esterco. Isso mesmo. O nosso gado era inicialmente para produzir esterco. Felizmente as vacas também produziam leite (ou era infelizmente?). Como não tínhamos muito conhecimento sobre o tipo de raça a utilizar, pensamos: vamos aumentar a produção de leite, logo vamos utilizar uma raça especializada. E fomos aumentando o grau de sangue europeu das nossas pé duras. Muito, muito leite era uma beleza! fabricávamos iogurte, queijo frescal e leite integral pasteurizado. Entretanto, um belo dia o nosso leite começou a apresentar acidez, o iogurte não virava e começamos a perder clientes. Fazíamos o “pré-dipping” o “pós-dipping” e todas as limpezas alcalinas, ácidas e sanitizantes. A mastite tomou conta do nosso rebanho. Começamos a ter sérios problemas com carrapatos e não sabíamos mais o que fazer, pois não podíamos utilizar carrapaticida convencional. Chegamos a ter 75% do rebanho com mastite sub-clínica. Nesse ponto resolvemos vender todo o rebanho e comecei a vender aquelas minhas vacas maravilhosas, quase


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Fazenda Malunga

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da família, foi um choro só.. Mas um belo dia chegou um senhor na fazenda e me perguntou se eu não queria trocar umas novilhas que ainda me restavam em algumas vacas Gir. Eu demorei um pouco, mas fui ver as tais vacas Gir, uma era filha de Oásis Hábil, outra de um tal de Radar dos Poções e Outra do Oriente Morcego. Achei aquilo tudo engraçado, mas gostei dos animais e troquei. Pronto não tinha mais nenhuma vaca preta na minha casa e as vaquinhas (vaquinhas não vaconas) estavam lá para a alegria de todos, menos da minha esposa que não queria mais saber de vaca de leite de jeito nenhum. Mas achávamos que o Gir não dava leite e ela achou bom. O Gir entrou no sistema. O carrapato diminuiu muito, a homeopatia funciona que é uma beleza. As vacas sentiam-se bem, mesmo naquele calor e secura de setembro (em Brasília chegamos a ter apenas 13% de umidade do ar). Elas resolveram parir e começaram a dar leite e não é que para o desespero da minha esposa o GIR dá leite, mais de 10 litros cada uma e eu animei sô. Desde então nosso rebanho aumentou para 50 matrizes registradas com controle leiteiro oficial. Continuamos trabalhando com sistema de produção orgânico, mas de forma tranqüila graças à raça que atualmente criamos. Isso não quer dizer que criando Gir todos os problemas acabam, mas é um gado adaptado às nossas condições climáticas e fica mais fácil fazer a pecuária orgânica. Todo tipo de criação, seja a raça que for, deve sempre ser conduzida de maneira profissional. Os sistemas de pro-

dução devem privilegiar a dimensão econômica sem deixar de lado a dimensão social e nem a ecológica e a busca da qualidade de vida de todos aqueles envolvidos no processo deve sempre ser privilegiado. O sistema de produção em uso na Malunga é baseado em rotação de piquetes e leva em consideração o sistema de produção adotado pelo Dr. Juscelino Kubtchek, criador de Goiânia. Utiliza dois setores distintos de pastoreio (setor das águas e setor da seca), além de pastos reserva para os dois períodos de transição entre verão e inverno. Os piquetes das águas/verão são formados de gramíneas e leguminosas de verão além de árvores e arbustos forrageiros (guandu, leucena, gliricídea, flor do melangicos e outros). Esses pastos foram formados levando-se em consideração as necessidades de nutrientes das plantas que foram introduzidas e o resultado da análise de solo. Para se fazer as correções necessárias e as adubações levou-se em conta as normas técnicas para produção de orgânicos (Instrução normativa 007, Ministério da Agricultura, 1999), ou seja, fósforo através de termofosfatos ou fosfatos reativos, calcáreo, tortas vegetais e estercos além de cinzas e eventualmente sulfato de potássio; os micronutrientes entraram na forma de quelatos nos biofertilizantes. Levou-se sempre em conta que em solos férteis e bem equilibrados, normalmente crescem plantas equilibradas e nutritivas. No setor das águas/verão o período de pastoreio dos piquetes é de um a dois dias, dependendo do número de piquetes e do número de animais.


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Crotalária, utilizada como plantio inicial para incorporar nitrogênio na pastagem

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Certificação Orgânica

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O produtor para se tornar orgânico deve obedecer a certas regras de produção que atendem às exigências da Lei e das Certificadoras. O processo de mudança do manejo convencional para o ecológico tem sido chamado de “conversão”. Devido ao boom no mercado dos orgânicos, muitos produtores têm tentado converter suas produções devido aos bons preços alcançados pelos produtos orgânicos. Vários aspectos devem ser focalizados. Além dos biológicos, normativos e econômicos, é preciso observar aspectos educativos que dizem respeito ao aprendizado dos agricultores e técnicos dos conceitos e técnicas de manejo que viabilizam a agricultura orgânica. A assimilação desses conceitos e a reorganização dos conhecimentos também requer um tempo de maturação. É um reaprendizado da agronomia enquanto ecologia aplicada à produção agrícola, que exige a reorganização dos fatos agronômicos sob um marco conceitual diferente. A conversão normalmente exige um a dois anos de ativa re-situação dos agricultores e do seu ambiente biológico.(KHATOUNIAN, 2001). No caso de criação de bovinos esse tempo pode ser de até 5 anos pois arbustos e árvores devem ser plantados e servem entrar em produção.

O intervalo de pastejo é de 30 a 45 dias, ou seja, os animais só voltam ao mesmo piquete para pastejo após 30 a 45 dias dependendo se choveu bem ou se deu veranico e do desenvolvimento do capim. Nesse período (verão) alterna-se pastoreios altos e baixos - um pastejo deixa-se rapar bem o outro deixa-se mais alto procurando-se dessa forma dar tempo para o capim se recuperar sem no entanto formar “macega”. O setor das águas/verão é menor que o setor da seca/inverno, pois nesse período a produção é bem mais abundante. Procura-se um sistema que possibilite um equilíbrio entre o que sai de leite e/ou carne e o que entra de insumos. Antes da seca propriamente dita entra-se em um período de transição, normalmente o mês de maio. O capim perde rapidamente proteína e baixa de qualidade. Para esse período, o gado, quando necessário, tem a sua disposição um pasto especial que normalmente é diferido em janeiro. Nesse período já existe complementação com sal proteinado sem uréia.(600g cab/dia). A partir de junho o gado entra no setor da seca/inverno. É um setor que tem um número de piquetes suficiente para que o retorno a um local pastejado seja feito em 60 a 90 dias. Existe na Malunga 62 piquetes nesse setor. As forragens usadas são leguminosas que ficam verde toda a estação seca (Cratilha e Estilosantes mineirão), são utilizadas árvores como barú, jatobá e angico. Deve-se monitorar a fertilidade através de análises de solo e verificação da abundancia de produção de biomassa. As matrizes da Malunga apresentam lactação média de 2.178 kg em 289 dias, sendo que a produção está por volta de 2.000 quilos de leite ha/ano. A produção é de aproximadamente 300 litros de leite por dia e é toda industrializada na própria fazenda. São fabricados queijos e leite pasteurizado integral e desnatado e o preço de venda é de R$ 2,00 por litro. A fazenda é certificada pela AAO-SP. Sem dúvida, o sistema orgânico de produção é um caminho que tem bastante viabilidade, mas aqueles que entraram pensando apenas nos melhores preços, nas primeiras dificuldades sucumbiram e, ou retornaram para a atividade convencional ou saíram da atividade. O importante, seja na atividade convencional ou na orgânica, é a dedicação com profissionalismo aliado a uma boa dose de paixão.


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A história da formação do rebanho Campo Alegre (C.A.) praticamente se confunde com a do Gir Leiteiro no Brasil. É uma das mais antigas seleções de gado Gir voltadas para a produção leiteira, seleção esta feita sempre a partir do ani mal registrado e de origem das importações da Índia, onde a raça é utilizada para este fim. O plantel C.A. foi fundado pelo pecuarista, João Batista Figueiredo Costa. Na década de 30, ele comprou no estado do Rio de Janeiro o touro Gaiolão e 20 fêmeas, oriundas da importação feita em 1930 por Ravísio Lemos. Já na cidade paulista de Franca, o criador adquiriu um garrote, filho da campeã do torneio leiteiro de 1949, com sangue de origem importada do touro Maxixe. Em 1962, ano da última importação da Índia, João Batista conseguiu trazer para a fazenda Campo Alegre o touro Naidu. Com a chegada do reprodutor indiano e melhor aproveitamento de sua genética, foi adquirido também em Franca os animais do plantel de Continentino Jacinto da Silva. Continuando a busca pelo sangue indiano, o produtor mandou algumas filhas de Naidu para o Paraná com o intuito de promover o acasalamento com o touro Vijaya, importado pelo criador Celso Garcia Cid. Desde o início, a Campo Alegre realizou o controle leiteiro mensal das fêmeas. A princípio o trabalho era

particular. Com a implantação do programa em março de 1962 pela antiga Associação Brasileira de Criadores Bovinos, hoje Associação Brasileira dos Criadores, a propriedade passou a realizar o controle leiteiro oficial. Este método foi um parâmetro fundamental para a identificação das vacas realmente eficientes e para a formação das principais linhagens dentro do rebanho. A partir de 1965 começou a aparecer vacas com lactações acima de 5 mil quilos. No início da década de 70, surgiram vacas de 6 mil quilos. Com essa evolução surgiram touros que se destacaram no plantel C.A. No final da década de 80, o plantel foi dividido e hoje encontra-se na Fazenda Terra Vermelha, de propriedade do pecuarista Joaquim José da Costa Noronha (Kinkão) e na Fazenda Tabarana, de Antônio José Lúcio de Oliveira Costa. A partir de 1985 teve início o Teste de Progênie, em parceria com a Embrapa e ABCGil. Sempre procurando aprimorar o rebanho, atualmente encontra-se no plantel vacas com lactação de 7 mil a 11 mil quilos de leite. Participamos regularmente de exposições, leilões e torneio leiteiro com resultados expressivos. A presença de touros Campo Alegre é constante nas principais centrais de coleta de sêmen do país. O comércio está voltado para novilhas, garrotes, vacas e sêmen, tanto para o mercado interno quanto para o externo.

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Fazenda Campo Alegre

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De olho na alta qualidade genética

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O criador Joaquim José da Costa Noronha comemora com a família o sucesso do seu plantel em centrais e pistas de julgamento


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Manejo


Conseguir uma alta produtividade de leite no rebanho, seja em uma pequena, média ou grande propriedade, tornou-se atualmente sinônimo de qualidade genética. A competitividade do mercado e os custos elevados de produção levaram os pecuaristas a selecionar cada vez mais os animais de seus plantéis. Segundo a Embrapa Gado de Leite, a maior parte do progresso genético observado no gado de leite vem da seleção de reprodutores, como acontece nos Testes de Progênie. O uso de touros geneticamente superiores cresceu, o que acabou popularizando os sumários. “Em 1997, decidi me tornar colaborador do Teste de Progênie do Gir Leiteiro. Usando os touros do Teste, comecei a acasalar animais da raça com vacas ¾ holandês, obtendo exemplares 5/8 Gir Leiteiro que deram excelentes resultados”, conta o pecuarista, David Gouveia Filho, proprietário da Fazenda Campo Verde, localizada na cidade mineira de Capinópolis. Antes de se tornar um colaborador do Teste de Progênie, desenvolvido pela

Embrapa Gado de Leite em parceria com a ABCGIL, David acasalava touros holandês com vacas gir, mas sem sucesso. “Vieram as girolando ½ sangue, vacas vigorosas, boas de produção e reprodução, mas que na seqüência do acasalamento com touros holandeses, mestiços e outros, não repetiram nem de perto o desempenho de produção de leite economicamente”, conta. Os resultados positivos alcançados depois que a Campo Verde passou a ser uma fazenda colaboradora do Teste de Progênie levaram o criador a utilizar cada vez mais sêmen de touros provados. “Meu entusiasmo foi tanto que comecei a pensar em raça pura. E a partir de animais descendentes de duas gerações de touros provados, implantei na fazenda em 2002 a Transferência de Embriões. Esta técnica nos permite multiplicar o rebanho rapidamente, e com maior pressão de seleção, ganhamos também em qualidade”, anima-se o criador. Hoje, a Campo Verde tem 170 produtos nascidos de TE em seu plantel e mais 40 prenhezes confirmadas.

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Fazenda Colaboradora

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Genética de touros provados garante lucratividade

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O pecuarista David Gouveia Filho é dos colaboradores do Teste de Progênie


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ABCGIL


O Gir Leiteiro mostrou seu potencial em exposições realizadas por todo o Brasil. A disputa foi acirrada na maioria deles. A novidade ficou por conta da ExpoZebu que julgou os animais de aptidão leiteira separadamente dos de dupla aptidão. O número de bovinos inscritos para o julgamento específico de Gir Leiteiro chegou a 116

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M. Farias/ABCZ

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ABCGIL

Sucesso nas pistas de julgamento


Confira o resultado das exposições ocorridas entre outubro de 2003 e julho de 2004. 5ª Nacional do Gir Leiteiro Expomilk (28 de outubro a 01 de novembro de 2003)

1ª Exposição Especializada do Gir Leiteiro de Mococa (junho de 2004)

Grande Campeão: Tributo de Brasília Criador / Expositor: Fazenda Brasília Agropecuária Ltda.

Grande Campeã: C.A Zaíra Reservada Grande Campeã: Toada TE da Silvânia Grande Campeão: Energético Reservada Grande Campeão: C.A Universo TE ABCGIL

Grande Campeã: Garbha dos Poções Criador: Agropast. dos Poções e Part. Ltda. Expositor: Eduardo Falcão de Carvalho Reservada Grande CAMPEÃ: Unção da Silvânia Criador: Eduardo Falcão de Carvalho Expositor: Bom Jardim da Serra Agropecuária Ltda.

Grande Campeã: Unção da Silvânia Reservada Grande Campeã: Amêndoa TE Silvânia Grande Campeão: Master TE Reservado Grande Campeão: Krishna Kanarana 2M 3ª Exposição Estadual Mineira do Gir Leiteiro Megaleite (28 de junho a 4 de julho de 2004) Grande Campeã: MAAB Benção Benfeitor Reservada Grande Campeã: Rara Alto da Estiva Grande Campeão: Nizarazu DP Reservado Grande Campeão: Quixote do Fundão 4ª Exposição Estadual Paulista do Gir Leiteiro - Fapija (09 A 18 De Julho de 2004) Grande Campeã: Vareta Sto Humberto Reservada Grande Campeã: Escada da Âncora Grande Campeão: Vindouro da Silvânia Reservado Grande Campeão: Coronel TE da Silvânia 2ª Exposição Especializada do Gir Leiteiro de BH (03 a 13 de julho de 2004) Grande Campeã: Peteca TE da Cal Reservada Grande Campeã: Otimista da Cal Grande Campeão: Pinho TE do Fundão Reservado Grande Campeão: Dakar TE Pati Cal

O mercado do Gir Leiteiro manteve-se aquecido a partir do segundo semestre de 2003 e continuou na mesma toada em 2004. Em alguns pregões, a média por cabeça ultrapassou a marca dos R$20 mil. Os três leilões oficializados pela ABCGIL durante a ExpoZebu 2004 bateram todos os recordes dos anos anteriores. Bom desempenho também no remate da raça ocorrido durante a Expomilk. 2º Leilão Garota Gir Leiteiro (5ª Nacional do Gir Leiteiro de 2003) Lotes: 37 Faturamento: R$ 202.176,00 Média por cabeça: R$ 5.464,21 13º leilão Tradição do Gir Leiteiro (ExpoZebu 2004) Lotes: 31 Faturamento: R$ 467.600,00 Média por cabeça: R$ 15.586,67 47º leilão Gir Leiteiro Epamig (ExpoZebu 2004) Lotes: 47 Faturamento: R$ 269.940,00 Média por cabeça: R$ 6.317,87

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70ª Expozebu (01 a 10 de maio de 2004)

Boas médias nos leilões

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Melhor Úbere da Raça: Unção da Silvânia Grande Campeã: Unção da Silvânia Reservada Grande Campeã: C.A Vaqueta Grande Campeão: Paiol TE Cal Reservado Grande Campeão: Cifrão Rib. Grande TE

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3ª Exposição Especializada do Gir Leiteiro de Passos (12 a 21 de março de 2004)

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Reservado Grande Campeão: Paranã AE Criador / Expositor: Silvio Queiroz Pinheiro

3º leilão Gir Leiteiro Terras de Kubera (ExpoZebu 2004) Lotes: 28 Faturamento: R$ 550.200,00 Média por cabeça: R$ 20.377,78 61


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Funcionรกrios

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Opinião

O Gir Leiteiro e sua função social

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Já de muito tempo se sabe e se comenta que o êxodo rural é causa de graves problemas sociais que atormentam a população brasileira. São pais, filhos, filhas, famílias inteiras que se lançam de seu pequeno mundo para o desconhecido urbano na busca de trabalho e renda, com a expectativa de alcançarem uma melhor qualidade de vida. As esperanças quase sempre se frustram. Viúvas e órfãos se multiplicam nos sertões e as favelas se alastram pelos morros, alagadiços suburbanos e mesmo por debaixo das pontes e dos viadutos. As conseqüências são as piores possíveis, decorrentes da degradação social e moral em que se encontra a grande maioria dessas pessoas, sejam as que ficaram ou as que se foram e se multiplicaram, desordenadamente. Muito se fala, e se aproveita, desta situação. Pouco se tem conseguido resolver pelo despreparo e descaracterização social e cultural dessa nossa gente, bem como pelo equívoco na formulação das soluções, pois se busca resolver os efeitos do problema e não a sua causa. Enquanto que, nos países desenvolvidos, os subsídios aos produtores rurais existem para evitá-lo, no Brasil, políticas públicas clientelistas aplicam enormes fortunas provenientes dos impostos para possibilitar sobrevivência a essa multidão carente de tudo, que cresce assustadoramente. Na urbanização das periferias das cidades, os gastos são infindáveis e vultosos. São mais e mais terrenos e toda a infraestrutura urbana necessária: abertura de ruas; captação, tratamento e distribuição de água; energia elétrica; iluminação pública; asfalto; escolas; hospitais... Depois de tudo pronto nas localidades assistidas, depara-se com a falta de trabalho e emprego. Vem o martírio da violência e mais despesas com a segurança pública, para aumento de policiamento, construção de delegacias etc, mas que, por não impedir a evolução da quantidade de delitos, deságua, por fim, na necessidade da construção de presídios. A necessidade de recursos é sempre crescente. Muito já foi gasto, pouco foi melhorado e quase nada foi resolvido para dar a essas pessoas aquilo que foram buscar nas cidades: qualidade de vida. Alguns até conseguiram renda. Todos nós que vivenciamos esta situação, contribuintes com os altos impostos que são impiedosamente aplicados sobre a atividade produtiva, somos chamados a participar de ações para dar soluções para o desenvolvimento equilibrado e sustentável da Nação Brasileira, retribuindo as bênçãos que recebemos por termos nascido neste território cheio de riquezas naturais.

Silvio Queiroz Pinheiro Presidente do Conselho Deliberativo da ABCGIL


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É preciso ter coragem e determinação para promover profundas alterações nas políticas relacionadas com a aplicação de verbas públicas. Acredito que a solução do grave problema social causado pelo êxodo rural, passa pelo maciço investimento no desenvolvimento da qualidade de vida da população rural e do seu conhecimento, através da aplicação correta de recursos públicos que proporcionem a geração de renda pela melhoria do desfrute da produção agropecuária. Não creio que com isso possamos inverter o fluxo migratório, haja vista os resultados pouco satisfatórios conseguidos com os assentamentos rurais de pessoas com costumes urbanos. Entretanto, poderíamos paralisar o êxodo através de incentivos para fixação das famílias ainda sobreviventes na área rural. Talvez não seja necessário aplicar o equivalente a todos os recursos que se tem gastado na urbanização das grandes cidades, para levar a essas populações rurais o saber, o conhecimento de tecnologias apropriadas, a assistência técnica, a infra-estrutura necessária ao desenvolvimento sustentável. Parte desses recursos, bem aplicada e direcionada à melhoria da renda e qualidade de vida na área rural, já seria o suficiente, e certamente geraria, também, muita economia no futuro.


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Considerando todo esse contexto, temos observado o total despreparo de grande parte da nossa gente na lida com o gado de leite. É a falta do saber, do conhecimento. A produtividade e o desfrute são baixíssimos. Há uma total falta de qualidade dos animais que são encontrados na maioria dos currais. Predominam os chamados “gabirus”, provenientes de cruzamentos intensivos sem nenhuma aplicação de tecnologia adequada às condições locais de clima, ambiente e manejo. Não existe geração de renda nem para a sobrevivência humana, quanto mais para aplicar corretamente na atividade. O desânimo é natural e o abandono da atividade rural é uma conseqüência imediata. É neste aspecto que o Gir Leiteiro tem enorme contribuição a prestar. Está provada a sua capacidade. O melhoramento genético da raça para produção de leite, com certificação dos produtos através do controle sistemático e oficial da produção, é uma inestimável colaboração para o desenvolvimento sustentável da pecuária leiteira em nosso país. É preciso ter noção da importância social desse trabalho e utilizá-lo para desenvolver projetos com sustentação tecnológica. O Programa Nacional de Melhoramento Genético do Gir Leiteiro – PNMGL, Teste de Progênie de Touros,

projeto desenvolvido em parceria entre os criadores de Gir Leiteiro, representados pela ABCGIL e a EMBRAPA, prestes a completar 20 anos de existência, é exemplo vitorioso de Parceria Público-Privada, com resultados que contribuem decisivamente para a melhoria da qualidade de vida das populações rurais, através da geração de renda pelo aumento da produtividade na pecuária leiteira e, também, de corte. Como exemplo de perfeito entendimento de suas atribuições como gestores de políticas públicas para o desenvolvimento da pecuária leiteira em nosso país, posso citar o apoio que está sendo dispensado ao PNMGL pela Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia, por intermédio do Secretário Rodrigo Rollemberg e pela Secretaria de Apoio Rural e Cooperativismo do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, por intermédio do Secretário Valdemiro Rocha e de suas respectivas equipes, representadas pelos seus Diretores Francisco Hercílio da Costa Matos e Ézio Gomes da Mota que contribuíram decisivamente para que o Programa recebesse os recursos necessários à sua continuidade. Exemplos como estes podem ser seguidos por outros setores da Administração Pública na correta


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destinação de esforços para a solução do desequilíbrio social em nosso país, causado pelo êxodo rural. A capacidade do Gir Leiteiro de produzir leite a baixo custo, estando perfeitamente adaptado às condições de clima e ambiente, o credencia a estar presente em qualquer projeto que venha a ser desenvolvido visando ao melhoramento do desfrute da pecuária brasileira, seja em cruzamentos dirigidos ou puro, pois viabiliza a geração de renda na atividade. E como se não bastasse, a qualidade de vida de quem se utiliza desta raça também é evidenciada, pois ela proporciona enorme fascínio sobre o ser hu-

mano pela sua beleza e docilidade. Ninguém a abandona com facilidade. É o Gir Leiteiro exercendo importante função social. Ficam aqui apenas algumas idéias e sugestões para que outros formuladores e gestores de políticas publicas, possam avaliar e agir. Os números, os gestores do orçamento da União conhecem. A violência urbana, todos nós vivenciamos. E que os criadores de Gir participem desse movimento, oficializando os controles de produção de seus rebanhos, conscientes da importância social de seu trabalho. Silvio Queiroz Pinheiro Presidente do Conselho Deliberativo da ABCGIL


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Um testemunho de entusiasmo e expectativa para o pequeno produtor de leite

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De maneira geral, as propriedade brasileiras envolviDe maneira geral, as propriedade brasileiras envolvidas com a pecuária leiteira apresentam índices de produção de uma atividade extrativista. Inexplicavelmente, mesmo hoje, alguns criadores ainda estão municiados de argumentos pseudo-científicos e possuem conceitos errôneos e ultrapassados. Muitos estão propensos a resistir aos progressos tecnológicos e negligenciam a incorporação de resultados de pesquisa, continuando na rotina dos pais, avós, bisavós e vícios próprios. Um dos fatores disso tudo é a falta de estímulo e de uma política séria e adequada para o setor. O principal problema do pequeno produtor rural é a dificuldade de auferir renda suficiente para o seu sustento e progresso. O último censo agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou no País 1,8 milhão de propriedades leiteiras. A pecuária de leite está presente em aproximadamente 40% das propriedades rurais do Brasil. Apesar de 80% dos produtores de leite no país produzirem apenas até 50 kg/dia, esses contribuem somente com 20% da produção total de leite. Admitindo-se que a produção primária ocupa mãode-obra de, pelo menos, duas pessoas por propriedade, pode-se afirmar que somente esse segmento da atividade leiteira gera 3,6 milhões de postos de trabalho permanentes. Todavia, considerando o poder de absorção de mão de obra não especializada pela pequena propriedade, daí a sua importância social, pois dificilmente essa força de trabalho seria absorvida pelo mercado. Salientamos que para maioria desses pequenos pecuaristas, a mão-de-obra está em casa; são unidades familiares necessitando de apoio. Devemos considerar, também, a qualidade superior dos alimentos produzidos dessa maneira e o menor impacto ambiental deste modelo de atividade. Por sua vez, a população rural está diminuindo e envelhecendo. A ameaça é real e os desafios são imensos: inflação populacional urbana, agravando os problemas de pobreza e de emprego. A menos que sejam tomadas medidas eficazes para manter os jovens nas áreas rurais o processo de desenvolvimento agrícola dos pequenos produtores sofrerá grande revés. Parece patético prosseguir por tanto tempo ‘brincando’ pacifica e silenciosamente com 4/5 das pessoas que

Ledic conversando com Presidente Lula sobre política pecuária


Isso seria possível com a implantação de cooperativas nas comunidades rurais, promoção de eventos técnicos socializantes, bem como a criação de Fundos de Aval municipais, além de atender às necessidades descritas para incrementar a lucratividade do pequeno produtor, através do envolvimento dos governos e entidades de classe, ensino, pesquisa e bancárias. Para romper todos esses desafios, o governo do Partido dos Trabalhadores, sob a liderança do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, colocou como prioridade administrativa, à todos os Ministros que compõem sua equipe de trabalho, priorizar a agricultura familiar e dos pequenos produtores, para inclusão social e redução da fome e miséria.

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� capacitação deste produtor, � disponibilização a equipamentos adequados, � garantia da qualidade de vida com acesso aos bens de consumo, � ingresso a educação no seu local de trabalho, � facilidade ao crédito para investimentos, � estímulo a sua organização e � otimização da comercialização da sua produção.

� Produção de soja permite lucro de 15 sacas/ha/ano*. (*R$ 35,00 a saca) � Bovino de corte permite lucro equivalente de 5,4 sacas de soja/ha/ano. � Bovino de leite, considerando apenas a comercialização do leite: 1. Renda equivalente a 2,29 sacas de soja/ha/ano*. (*com média nacional de 800 litros/ha/ano e lucro de R$ 0,10/litro vendido) 2. Renda ‘equipotente’ a 21,43 sacas de soja/ha/ano*. (*com produção de 5.000 litro/ha/ano e lucro de R$ 0,15/ litro vendido).

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vivem na escassez, abduzidas dos progressos maiores, asfixiadas, embotadas, órfãs, insensíveis e atrasadas, por passividade voluntária ou adquirida por ‘opressão silenciosa’, na luta contra a carapaça estabelecida por apenas 20% da população que aproveitam das benesses que o desenvolvimento pode trazer. Assim, faz-se necessário:

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José Graziano da Silva, Assessor Especial do Presidente Lula, durante campanha de 2002, falando com Ivan sobre ações do PT para o Agronegócio

A EMBRAPA, através do seu presidente, Clayton Campanhola, foi provavelmente, a primeira a se engajar nesse grandioso projeto. O leite é um produto da maior importância social, ocupando lugar de destaque na oferta do consumo interno, como fonte básica de nutriente de origem animal. Particularmente, é uma fonte boa de proteínas, cálcio, fósforo e vitaminas A, B1 e B2. Ao mesmo tempo, a gordura e a lactose fornecem energia prontamente disponível. Apesar do aumento do consumo de leite pelas pessoas, o governo tem tentado suprir o abastecimento à população carente através do Programa Bolsa Família, via Ministro Especial do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias. Fazer a transição do subdesenvolvimento desse Brasil emergente no mundo globalizado, não é tarefa fácil. As mudanças já estão ocorrendo, pois a nova diretriz é de levar e transformar o arcaico ao progresso, o apático ao dinamismo, o conservador em revolucionário..... Arrematando, o pequeno produtor de leite pode transformar sua atividade em uma opção competitiva com qualquer outra atividade, dentro de uma visão empresarial do retorno do capital investido. Senão vejamos alguns exemplos:

Ivan Ledic recebeu informações sobre o Programa Bolsa Família, em recente encontro com o Ministro Patrus Ananias

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Assim, um produtor tradicional, no exemplo 1, teria de ter 10 vacas para produzir cerca de 43 litros/dia, com rebanho total de 15 unidades animais (UA), manejados em 30 ha de pastagem (lotação de 0,5 UA/ha), auferindo lucro mensal de R$ 200,37. No exemplo 2, necessitaria de 2,5 ha de pastagem no sistema intensivo rotacionado para vacas em lactação (lotação de 4 UA/ha) e de 8,3 ha para manejo do rebanho total de 15 UA (média 1,8 UA/ha), aumentando a produção para 111 litros/dia e obtendo lucro mensal de R$ 508,38. Na mesma área que possuía (de 30 ha), poderia aumentar o rebanho de vacas em lactação para 36, produzindo, assim, 400 litros/dia e, auferindo lucro mensal de R$ 1.837,50 (equivalente a 630 sacas de soja/ano). Nesse sistema do exemplo 2, o uso da pastagem como fonte primária de alimentação consumida diretamente pelo herbívoro, permite, como reflexo da interatividade desse manejo, aumento da produtividade e consequente sustentabilidade. Inclusive, a recuperação das áreas de pastagem degradada pode ser feita utilizando o plantio de soja para incorporação de nitrogênio ou via plantio consorciado de arroz (Sistema Barreirão), ocorrendo aproveitamento residual da adubação, com obtenção de renda com a venda dos grãos (sistema integrado de lavoura-pecuária). Por sua vez, há necessidade de contarmos com gado adaptado à nossas condições climáticas. O Gir Leiteiro tem sido uma das grandes alternativas para os pequenos produtores de leite (adicional de renda com a comercialização de reprodutores e matrizes, muito valorizados no mercado) e demonstração potencial de mudança de paradigma de auto-convencimento nesse momento histórico da política nacional, como raça naturalizada brasileira para colaborar decisivamente com a pecuária leiteira de todos os países tropicais. A adoção destas estruturas em agrovilas permitiria manejo adaptado ao cenário ambiental, valorizando os corredores da fauna e flora, umidade do solo, recarga aquíferas e qualidade dos cursos d’água, se for planejado em sistemas de bacias hidrográficas, podendo ainda ser adotado o sistema de produção orgânica, agregando mais valor ao produto comercializado. Ivan Luz Ledic - Atuante membro do PT Pesquisador da Embrapa Gado de Leite Diretor Técnico da ABCGIL


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Heverado Rezende de Carvalho

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