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Páginas Azuis Texto: Celso Arnaldo fotos: divulgação

Dr. Mauro Atra

Alzheimer

Um mal, um enigma

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omeça com esquecimentos banais – o nome de um filho ou neto, por exemplo. Então, as falhas de memórias se tornam mais constantes e evoluem para desorientação espacial e temporal. No fim, a perda da individualidade e a completa dependência para os atos mais simples do dia a dia. A Doença de Alzheimer parece ser um dos males de nosso tempo, à medida que a população vive mais. Hoje a mais comum forma de demência senil conhecida pela neurologia, afeta cerca de 1 milhão de pessoas no Brasil – mas ainda se sabe pouco sobre ela. As causas são desconhecidas. Os sintomas, a gravidade e a velocidade da doença variam de caso a caso, mas, de modo geral, o Alzheimer é progressivo e inexorável, afetando idosos de todas as classes sociais – o ex-presidente norte-americano Ronald Reagan e o ator Charlton Heston estão entre as vítimas da doença. Tudo o que os médicos podem fazer, no momento, uma vez diagnosticada a moléstia, é tentar retardá-la, através de medicamentos específicos. Mas são os chamados cuidadores – quase sempre familiares – que desempenham o papel mais importante na terapia. O Dr. Mauro Atra, neurologista do Hospital do Coração, em São Paulo, que lida todos os dias com pacientes de Alzheimer, explica o que até hoje se sabe sobre esse verdadeiro mistério do cérebro humano

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Dr. Mauro Atra, neurologista do HCor

Antigamente, quando uma pessoa idosa começava a apresentar lapsos de memória e confusão mental, dizia-se que ela estava “esclerosada”. Essas pessoas, à luz dos conhecimentos de hoje, teriam Alzheimer? Com certeza. O termo esclerosado não se usa mais. O avanço da terceira idade é uma realidade em todo o mundo e por isso a doença é muito estudada. Exames anatomopatológicos de cérebros com diagnóstico de Alzheimer são perfeitamente compatíveis com exames similares em nossos avós “esclerosados”. A maioria dos pacientes com demência, sabe-se hoje, tem Doença de Alzheimer senil.


Mas ela não é sempre senil? Quando o Dr. Alois Alzheimer (médico alemão que identificou essa doença neurológica degenerativa) descreveu o mal, este tinha características pré-senis, pois seu trabalho inicial foi um estudo sobre sete pacientes com menos de 60 anos – o que chamou a atenção de toda a comunidade médica da época. O que antes acontecia numa fase pré-senil hoje ocorre na senilidade. Casos precoces de Alzheimer são raros. O risco da doença aumenta com a idade.

Os cientistas já têm alguma pista sobre a causa e a origem do Alzheimer?

Há muito interesse em descobrir isso, mas ainda sabemos pouco. É uma doença degenerativa de algumas substâncias cerebrais, mas a causa dessa degeneração ainda é desconhecida. Ela possivelmente se desenvolve como resultado de uma série de eventos complexos que ocorrem no interior do cérebro. Pode ser de origem cromossômica, mas ainda estamos muito longe de uma resposta. Por isso, costumo dizer que, por enquanto, a doença é degenerativa

Novos testes bioquímicos podem apontar marcadores da doença antes que ela se manifeste

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– um termo que se usa normalmente quando não se conhece o mecanismo de uma moléstia.

Um paciente com suspeita de Alzheimer nunca vem sozinho ao consultório do neurologista, é trazido por parentes. O que leva a família a desconfiar de Alzheimer? Há sintomas inconfundíveis?

No âmbito social, é difícil diagnosticar o Alzheimer na fase inicial, em que falhas de memória passam despercebidas ou parecem naturais para a idade e portanto não são valorizadas. São situações, por exemplo, em que o idoso esquece o nome de familiares, eventualmente se perde ou não sabe voltar para a casa, mas são confundidas com o processo de envelhecimento.

Todos nós temos lapsos de memória. Há pessoas relativamente jovens, por exemplo, que esquecem onde deixaram o carro. Pode ser um lapso sugestivo de uma fase precoce de Alzheimer?

Não, isso geralmente é um déficit de atenção, por causa da quebra da rotina. Para que se caracterize um lapso de memória como indício de Alzheimer é preciso associar a queixa pessoal com sintomas clínicos. E esses sintomas são levantados através de uma avaliação neuropsicológica, composta por uma série de testes. Na consulta inicial, com o neurologista, podemos fazer um teste rápido, que chamamos de “mini-mental”, ou “mini-exame do estado mental”, que consiste de perguntas e exercícios básicos: que dia é hoje, em que ano estamos, nomes de filhos, etc. Pedimos também para o paciente desenhar um relógio, por exemplo. Mesmo no início da doença, um paciente com Alzheimer terá dificuldade de responder a perguntas simples ou atender ao que é pedido. Essa já é uma pista. Mas o diagnóstico deve ser confirmado com um teste mais extensivo, feito por uma psicóloga, e desdobrado em pelo menos duas sessões, em que se avaliam

Exercícios constantes para a mente talvez não previnam o Alzheimer, mas são essenciais para uma terceira idade com qualidade todas as funções cognitivas do paciente: memória tardia, memória recente, memória de evocação, noção de espaço e cálculo, entre outras. Nessa bateria de testes são conferidos pontos a cada item. E, com esses números, a psicóloga nos transmite parâmetros sobre o estado neuronal de cada paciente. Um déficit cognitivo leve – que num passado recente era tido como um quadro isolado – já pode ser sugestivo da doença. Observou-se, com o tempo, que muitos pacientes que apresentavam esse déficit leve evoluíram para Alzheimer. Esse pode ser, portanto, um sinal precoce da doença. Sintomas iniciais devem ser valorizados, na tentativa de se estabelecer um diagnóstico de probabilidade o mais precocemente possível. Teoricamente, essa fase inicial dura de 2 a 4 anos. O começo das alterações é lento e alguns pacientes conseguem se adaptar a determinadas deficiências na primeira fase da doença.

A família, que convive diariamente com o idoso, geralmente nota mudanças de padrão de comportamento sugestivos de Alzheimer?

A maior parte dos pacientes que a família suspeita estar com Alzheimer efetivamente já tem a doença. Os


O papel dos cuidadores familiares se torna mais importante à medida que a doença avança e o paciente se torna mais dependente demais podem ser quadros de demência por problemas circulatórios.

Com o diagnóstico confirmado, o que se pode fazer?

Lamentavelmente, muito pouco para se interromper o curso da doença. O diagnóstico, na maioria dos casos, é o ato médico mais eficiente de todo o processo. Existem alguns medicamentos para tentar retardar o ritmo de evolução, mas que não alteram a história natural da doença. Não são como os antibióticos, que debelam uma infecção. Mas vale a tentativa, sobretudo porque esses medicamentos funcionam como uma espécie de placebo para a família, que fica mais tranquila com a existência dessa possibilidade terapêutica. São, basicamente, os chamados inibidores da acetilcolinesterase (donepesila, rivastimina, galantamina, rivastigmina, etc), fármacos que atuam inibindo a enzima responsável pela degradação da acetilcolina – um neurotransmissor que atua na área da memória – no sentido de tentar preservar as funções cognitivas. A deficiência de acetilcolina é considerada um dos fatores bioquímicos da doença.

Com o tempo, o paciente sai do âmbito do médico e passa à responsabilidade dos cuidadores?

Infelizmente. Mas os neurologistas continuam acompanhando o paciente, no sentido de tentar minimizar as intercorrências médicas da evolução da doença em suas várias etapas – os distúrbios de humor, como a depressão e a ansiedade, por exemplo, ou infecções, dificuldade de deglutição, etc. No final, o 8 | Revista ABCFARMA | AGOSTO/2011

paciente com Mal de Alzheimer se torna um paciente muito complexo. E o papel dos cuidadores no Brasil tem sido fundamental. Os brasileiros parecem não aceitar a institucionalização da doença – ou seja, deixá-la a cargo de pessoas ou instituições externas à família. Temos uma afetividade familiar exacerbada que acaba resultando na indicação de um cuidador d entro da própria família. Esse cuidador, muitas vezes, acaba também perdendo sua individualidade, porque o doente passa a exigir cuidados cada vez mais intensos. No Brasil, cuidadores geralmente são mulheres – grandes cuidadoras em todas as fases de sua vida

Há algo que uma pessoa possa fazer para tentar evitar ou retardar o Alzheimer, como praticar exercícios mentais com mais frequência?

A neurologia ainda não encampou essa teoria, bem como a de que pessoas com melhor formação cultural e educacional teriam menor risco de Alzheimer por eventualmente ter uma reserva neuronal maior, uma hipertrofia da memória. Essa hipótese, sugerida por algumas estatísticas, ainda não está cientificamente comprovada. De

qualquer forma, independentemente do Alzheimer, é sempre muito saudável exercitar a mente, paralelamente ao exercício do corpo. Exercícios físicos fazem muito bem à saúde e, mesmo no caso de um diagnóstico de Alzheimer, um bom estado geral conta pontos na evolução da doença.

O IBGE identificou 23 mil centenários no Brasil. Como chegar lá com a cabeça legal?

Manter permanentemente a atividade cerebral, com muita leitura e exercícios para a mente, pode ser fundamental. Um dos exercícios que a gente sugere é ler sobre determinado assunto e em seguida discutir o tema com alguém da família, o que contribui para aumentar a atenção e reter informações. Há idosos que leem o jornal inteiro e, ao final da leitura, não retiveram nada. O estímulo ao debate é um ótimo exercício. O bom humor também é essencial para uma vida longa com qualidade. Pessoas mal humoradas podem até viver muito, mas em geral vivem mal, isoladas, presas em si mesmas. O convívio saudável com outras pessoas é um dos ingredientes dessa receita. n

Apoiando quem cuida

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riada em 1991 por um grupo de médicos e familiares de pacientes de Alzheimer com o objetivo de discutir, conhecer e difundir as informações sobre a doença, a Abraz/Associação Brasileira de Alzheimer oferece meios de atualização e apoia ações voltadas ao bem estar do portador, da família, do cuidador e do profissional. A atriz Irene Ravache, que cuidou da mãe com Alzheimer, é uma das mais ativas divulgadoras da entidade.

Mais informações:

www.abrazsp.org.br

Revista ABCFARMA Alzheimer  

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