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ANO 2 | NO 17 | FEVEREIRO • MARÇO 2012

EXEMPLAR CORT E SIA R$ 12,00

O PAÍS SE PREVINE CONTRA

desastres naturais AMAZONAS: pequenos e médios empresários investem em produtos naturais

CARLOS EDUARDO CALMANOVICI: para o presidente da Anpei ou o país inova ou perde posições no mercado internacional


ANO 2 | NO 17 | FEV•MAR | 2012

EXPEDIENTE Diretor de redação Celso Horta Editor Sérgio Pinto de Almeida Editores assistentes Cecília Zioni Denise Natale Secretaria de redação Sonia Nabarrete Repórteres Clébio Cantares Joana Horta Sucursal Rio de Janeiro Maurício Thuswohl Correspondentes Flávio Aguiar (Alemanha) João Valentino (Estados Unidos) Direção de arte Ligia Minami fotografia Amanda Perobelli Tratamento de imagens Fabiano Ibidi Colaboraram nesta edição Jane Soares Marlene Jaggi Rosana V. Souza Virgínia Silveira Fotos de capa Desastres naturais: Nilton Cardin Carlos Eduardo Calmanovici: divulgação Contato com a redação revistainova@abcdmaior.com.br

DEPARTAMENTO COMERCIAL (11) 4335-6017 publicidade Jader Reinecke

editorial

JEITINHO BRASILEIRO Enquanto a crise europeia se agrava, o Brasil e os brasileiros avançam e vêem seus desafios multiplicados. E não apenas no plano da tecnologia, de ferramentais estratégicos como os do Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais colocados em atividade neste verão, conforme a reportagem de capa desta edição. Os avanços ocorrem até mesmo no campo do simbólico, do cultural. Na seção Ponto de Vista, o professor norte-americano Orlando Kelm, da Universidade do Texas, mostra que o jeitinho brasileiro – a flexibilidade – é um novo parâmetro de comportamento muito mais apropriado ao mundo moderno. Diante dessas novas responsabilidades, os desafios também são enormes. E a inovação está no centro desse processo. O Brasil tem pressa para inovar, precisa dar maior velocidade às inovações, reforça Carlos Eduardo Calmanovici, presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras, o entrevistado desta edição. E para reforçar a capacidade brasileira de vencer esses desafios, é mais do que oportuna a participação do correspondente de INOVA na Europa, Flávio Aguiar. Seu texto demonstra como é bom dar uma rápida olhada sobre o papel de vanguarda de nossos ancestrais portugueses na Europa do século XV, para controlar nossa crise permanente de auto-estima alimentada pelos colonizadores.

Travessa Monteiro Lobato, 95 Centro | São Bernardo do Campo Fone (11) 4128-1430

Para o Brasil, hoje a sexta maior economia do mundo, que tem diante de si a oportunidade de se realizar como grande Nação, essas memórias da inovação ajudam a acreditar nos resultados de grandes projetos nacionais em execução, revelados ao longo destas 17 edições de INOVA. Que, aliás, em setembro de 2011, edição de número 13, antecipou aos seus leitores as opiniões e projetos de Maria das Graças Foster, a primeira mulher a ocupar uma cadeira na diretoria e, agora, a primeira mulher a se tornar presidente da Petrobras. Mais uma mulher na equipe da presidenta Dilma Rousseff para garantir um Brasil para todos os brasileiros.

INOVA não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos assinados.

Celso Horta

ASSINATURAs Jéssica D’Andréa Impressão Prol Editora Gráfica Tiragem 25 mil exemplares INOVA é uma publicação da MIDIA PRESS Editora Ltda.

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divulgação

Entrevista

divulgação

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Carlos Eduardo Calmanovici, presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), adverte sobre a urgência das empresas brasileiras em inovar

Mauricio Simonetti | pulsar imagens

Energia eólica, portal para cientistas, pneu verde e Embrapa na Alemanha

20 Empreendedorismo No Amazonas, financiamento oficial ajuda pequenos e médios empresários a criar e crescer

29 Medicina Saúde

Com previsão de comercialização em até quatro anos, o Instituto Butantan pesquisa a vacina oral para hepatite B

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divulgação

9 Notas

Guapeva, gabiroba e murici, as frutas do Cerrado também entram na luta contra o câncer

30 Internacional I Berlim Portugal e a tecnologia inovadora do passado

32 Internacional I Texas Tintim, o herói dos quadrinhos vira mau caráter em 3D

Energia

Aparecida do Norte, a cidade da Padroeira do Brasil, é o primeiro município do país com rede inteligente de energia

34 Ponto de Vista

Criatividade e jeitinho brasileiro, uma receita que dá certo no Brasil, na opinião do professor norte-americano Orlando R. Kelm

24 14 Capa

TECNOLOGIA CONTRA AS TRAGÉDIAS

Os investimentos do governo federal para prevenção de desastres naturais estão concentrados no recém-inaugurado Cemadem, Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres

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entrevista

Carlos Eduardo Calmanovici

Jane Soares

janesoaresfreitas@hotmail.com

O BRASIL PRECISA TER P A recomendação de Carlos Eduardo Calmanovici, presidente da Anpei, é alavancar a ino divulgação

O tema inovação faz parte da vida do engenheiro químico Carlos Eduardo Calmanovici há muitos e muitos anos. Formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) em 1984, Calmanovici fez mestrado pela Universidade Federal de São Carlos, no interior paulista, um respeitado centro de pesquisas tecnológicas. O doutorado foi feito no Instituto Nacional Politécnico de Toulouse, na França, na área de engenharia de processos. De volta ao Brasil, atuou como pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), de São Paulo. Ao se transferir para a iniciativa privada, trabalhou em empresas como a Rhodia e Oxiteno, nas quais expressões como desenvolvimento tecnológico e inovação faziam parte do cotidiano. Elas eram exceções no panorama industrial brasileiro de alguns anos atrás, quando não passava pela cabeça da maioria dos empresários investir um centavo em pesquisas. A atuação do governo na área também deixava muito a desejar. De lá para cá muita coisa mudou. Governo e iniciativa privada despertaram para a importância do tema e, a partir de 2007, como representante da Braskem, do Grupo Odebrecht, Calmanovici passou a fazer parte da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), primeiro como diretor e depois como vicepresidente. Em maio do ano passado, foi eleito presidente e tem se destacado nas discussões realizadas entre governo, universidades, centros de pesquisas e empresariado para “construir caminhos”, como diz, que levem o Brasil a se destacar também no ranking dos países inovadores e alcançar uma posição condizente com o da sexta economia mundial, título arrebatado do Reino Unido no ano passado. Em junho de 2011, o executivo integrou-se à ETH Bioenergia, também da Odebrecht, respondendo pela área de inovação e tecnologia. Como não poderia deixar de ser.

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RESSA PARA INOVAR vação nas cadeias produtivas para que o país possa ter um crescimento sustentável INOVA – No ano passado, o governo lançou o Plano Brasil Maior, a nova política industrial, na qual a inovação tem um papel fundamental. De lá para cá, o que efetivamente foi feito? Carlos Eduardo Calmanovici – As colocações e iniciativas do governo foram bastante positivas e direcionadas à inovação e isso é muito bom. Falando da perspectiva da Anpei, percebemos que as empresas responderam de forma pró-ativa às manifestações governamentais. Houve um aumento da demanda por crédito para a inovação. A procura por recursos da Financiadora de Projetos e Estudos, a Finep, vem crescendo e no ano passado atingiu cerca de R$ 9 milhões. Mais do que isso: os projetos são cada vez mais ambiciosos, mais ousados, um avanço em relação ao que vinha sendo feito até então. A expectativa é que essa dinâmica continue de forma significativa em 2012. INOVA – Em relação às iniciativas do governo, o que foi prometido efetivamente está sendo feito? CEC – Houve um enorme avanço em algumas áreas. O governo prometeu criar a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, a Embrapii, sem investir em uma nova estatal, o que demandaria recursos e seria um desperdício. Isso foi feito. O pessoal da Finep se dispôs a atuar de forma mais forte para estimular a expansão de pesquisa e desenvolvimento (P&D) nas empresas, o que está acontecendo. Há uma movimentação muito saudável. Por outro lado, alguns pontos ainda não estão equacionados. Primeiro, é preciso assegurar continuidade para essa dinâmica. Segundo: alguns aspectos precisam ser trabalhados de forma urgente. Por exemplo, a questão do financiamento para a inovação, as fontes de formação de recursos, a participação do pré-sal. Precisamos de uma mão de obra qualificada e essa demanda requer tempo e trabalho continuado. Outro aspecto muito importante também é a interface com outros atores. A gente fala muito de atores que participam diretamente do

processo de inovação. Existe um alinhamento conceitual entre academia, governo e empresas. Outros atores que participam do processo de forma mais indireta, como a Receita Federal, entraram na discussão muito tarde. No ano passado, foi grande a discussão em torno da instrução normativa elaborada pela Receita e que tem um grande impacto sobre o uso dos instrumentos de fomento para a inovação. INOVA – A instrução normativa da Receita Federal se refere especificamente ao uso da Lei do Bem? CEC– Sim. A instrução normativa indica para o auditor da Receita como ele deve considerar a utilização da Lei do Bem, porque alguns pontos dependiam de interpretação. A Receita fez uma leitura um pouco restritiva do uso dos instrumentos. Por exemplo: a empresa não pode usar os benefícios da lei para pagar o pessoal administrativo que apoia as atividades de P&D, uma restrição séria. São equipes de propriedade intelectual, de patentes, de informação, de inteligência competitiva, de inteligência tecnológica. Não estamos falando de secretárias. A realização de projetos ou de atividade de P&D nas empresas tem de ser revista na instrução normativa porque, cada vez mais, as companhias trabalham com parcerias externas. Uma parte da atividade de P&D pode ser, e frequentemente é realizada por uma empresa parceira, instituto de pesquisa ou universidade. No nosso entendimento, que difere do da Receita, quem paga, quem assume o risco, deve ser apoiado, e não necessariamente quem executa o projeto mediante um pagamento. O conceito da Lei do Bem é estimular quem tem apetite pelo risco. É preciso deixar claro que a instrução normativa explicitou o entendimento da Receita quanto a esse aspecto, o que é muito bom porque retira a insegurança jurídica. Temos um grupo de trabalho nessa discussão, envolvendo a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), a Anpei e a Receita e, agora, precisamos voltar a discutir sobre esse entendimento. É uma fase de diálogos, de construção de caminhos.

INOVA – E quanto à restrição do uso de incentivos previstos pela Lei do Bem para as companhias que optaram pelo lucro presumido? CEC – O conceito da Lei do Bem é permitir o uso de incentivos fiscais que resultam em aumento do lucro das companhias e isso é muito bom, mas insuficiente, porque esse mecanismo funciona apenas para empresas que recolhem pelo sistema de lucro real, e que são poucas. É uma minoria, de 7% a 8% das companhias do país. A maior parte do setor produtivo recolhe pelo sistema de lucro presumido. Se a empresa investe em P&D e num determinado ano não tem lucro, não terá acesso a nenhum tipo de benefício. É um entendimento perverso. Quando a empresa não tem lucro, como nos momento de crise, precisa de mais estímulo para manter os investimentos em P&D. A Anpei propõe que os incentivos sejam concedidos em função do faturamento e não do lucro. Os recursos para a inovação precisam ser regulares. Isso é até mais importante que o valor, porque as empresas precisam se programar, se planejar. Se existem incertezas, as atividades e P&D são muito impactadas. Se armo todo o arcabouço regulatório e legal em função do lucro, estou mais sujeito a oscilações do que se eu fizesse com base no faturamento. Ele também pode oscilar, mas a amplitude dessa oscilação é menor do que ocorre com o lucro. Todos os atores da inovação têm de pensar em mecanismos que garantam maior regularidade desses recursos. Nos últimos anos, houve uma evolução enorme na criação de instrumentos para incentivar a inovação e a Lei do Bem faz parte dela. Os instrumentos de hoje são melhores que os existentes no passado. Estão ganhando mais robustez. Mas muitos deles foram pensados a partir da perspectiva das universidades e institutos de pesquisas. Temos de evoluir na criação de instrumentos específicos, que deem conta da dinâmica, dos prazos, dos movimentos do meio empresarial. FEVEREIRO•MARÇO 2012 | INOVA

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Inovar é uma atividade de risco, que exige muita reflexão. Mas, hoje, o risco de não inovar é ainda maior porque coloca em perigo a sobrevivência da empresa.”

INOVA – Em 2011, houve uma grande discussão, em decorrência de queixas generalizadas quanto à dificuldade e à demora de até oito anos para conseguir depositar uma patente no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi). Governo e empresas concordaram em discutir o problema. Houve alguma evolução? CEC – A situação tem melhorado porque o Inpi está fazendo a lição de casa, contratando analistas, investindo em sistemas de informatização. O problema é que a nossa defasagem nessa área é muito grande. Por mais que a gente se esforce, ainda estamos muito aquém do que ocorre em países como Estados Unidos, e principalmente como China, Índia e Coreia. Esse é o grande drama da inovação. Quando comparamos o Brasil com outros países de renda média da Ásia, por exemplo, ficamos sempre numa posição intermediária. O Brasil é a 6ª economia mundial. Mas em termos de inovação, dependendo da classificação, podemos estar em 28º, 42º, 46º lugares, posições que não correspondem às nossas ambições e ao nosso lugar na economia mundial. INOVA – Como fazer para o país sair dessa posição intermediária, principalmente quando se leva em conta que a inovação será cada vez mais importante para a conquista de novas posições econômicas? CEC – Somos a sexta economia, com a perspectiva de alcançar a quinta posição em um curto espaço de tempo. E para que essa posição seja sustentável, com geração de resultados, de riquezas e com distribuição dessa riqueza, como é o nosso sonho, a inovação é fundamental. E, para isso, o crescimento da inovação não pode ser vegetativo, não podemos trabalhar apenas no incremental,

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como vem sendo feito. Tem de haver uma ruptura. Isso está colocado de uma forma bastante estruturada e ousada na Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, apresentada pelo então ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação. O Brasil não é um país particularmente competitivo para fazer inovação em função de questões macroeconômicas como o Custo Brasil, a logística e a questão trabalhista, que impactam qualquer tipo de investimento. Além disso, existem pontos específicos que impedem a inovação. É preciso, por exemplo, haver recursos humanos altamente qualificados, dos quais não dispomos nos níveis desejados. A gestão, a cultura, os instrumentos de inovação nas empresas não estão totalmente desenvolvidos. Quando se compara o que temos com os outros países, percebemos a existência de um gap, apesar da evolução dos últimos anos. Para as empresas, muitas vezes ter um laboratório de P&D no exterior representa um custo mais baixo do que mantê-lo aqui. Temos de superar esses obstáculos. Programas do tipo Ciência sem Fronteiras, por exemplo, são muito interessantes porque mexem com a questão da formação de recursos humanos altamente qualificados. INOVA – Os resultados da balança comercial brasileira de 2011 mostram que as exportações de produtos industrializados cederam lugar para a venda de produtos básicos, de pouco valor agregado. É o caso, por exemplo, do minério de ferro. Essa situação é resultado da política cambial e de questões macroeconômicas. Mas o senhor não acha que isso também tem a ver com falta de inovação, que torna nossos produtos menos competitivos no mercado externo? CEC – Tem, claro. Precisamos aumentar a densidade tecnológica de nossos produtos, sejam eles destinados à exportação ou ao mercado interno. Quanto mais densidade tecnológica os artigos para o mercado interno tiverem, menos produtos de alto valor agregado teremos de importar. A abordagem da Anpei é alavancar a inovação nas cadeias produtivas porque é nelas que se pode agregar o máximo de valor. Temos no Brasil algumas empresas extremamente inovadoras. Se a gente alavancar as cadeias produtivas dessas companhias, para que elas também sejam inovadoras, faremos a inovação avançar. Essa mudança depende de todos: da universidade - e temos boas universidades para a geração de conhecimento -, da

vontade do governo – e o governo brasileiro está bem posicionado, tem uma clareza de propósito em relação à inovação. E depende da iniciativa privada, cuja percepção aumenta em relação à necessidade de inovar. Então, meu posicionamento é muito otimista. O que falta? Temos de dar velocidade a esse processo porque a China está fazendo com mais velocidade, porque nossos concorrentes estão fazendo com mais velocidade. Se não fizermos com a mesma dinâmica, com o mesmo sentido de urgência, vamos perder posições no mercado internacional. INOVA – Pesquisa do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) divulgada no início deste ano mostra que 70% das empresas brasileiras pretendem ser líderes em tecnologia no prazo de dez anos. Isso não é uma mudança drástica em um país onde apenas 30 mil empresas são consideradas inovadoras e 2,5 mil fazem P&D, em um universo de 100 mil companhias? CEC – Cada vez mais, as empresas têm clareza quanto à necessidade de inovação para a sobrevivência de seus negócios, principalmente nos momentos de crise. Precisamos criar um contexto para favorecer, fortalecer essa abordagem. Inovar é uma atividade de risco, que exige muita reflexão. Mas, hoje, o risco de não inovar é ainda maior porque coloca em perigo a sobrevivência da empresa. Empresários de todos os portes estão percebendo que, para operar e ganhar espaço em um mercado altamente competitivo,é preciso se diferenciar. E a necessidade de se diferenciar conduz, necessariamente, ao conceito de inovação.


notas

Portal para troca de experiências

divulgação

MEIO AMBIENTE

Filme denuncia: energia eólica causa danos à população, economia local e meio ambiente

DOCUMENTÁRIO JOGA DURO CONTRA ENERGIA EÓLICA

Windfall é o título do documentário, lançado em fevereiro no Quad Cinema, tradicional cineclube instalado no coração de Greenwich Village, em Nova York. Antes mesmo da exibição mundial, o filme, dirigido por Laura Israel, já provocou polêmica, por colacar sob suspeita a energia eólica, considerada uma das mais puras, senão a mais limpa, fonte energética disponível. Em Windfall, a diretora conta como os moradores de Meredith, pequena cidade do estado de Nova York, passaram da esperança de receber energia sustentável, independente do petróleo importado, para a desilusão de um serviço que exigiu terraplenagem de uma grande área e implantou parques geradores pouco fotogênicos – moinhos de vento de 330 metros de altura, fincados a três quarteirões de muitas casas. A cidade recebeu 40 turbinas eólicas industriais, com até 60 metros de comprimento. Para isso, estradas tiveram de ser alargadas, prejudicando a vegetação. Os habitantes ficaram sujeitos a sons de baixa frequência, que provocam insônia, dores de cabeça e náusea. A favor dos moinhos, estão pecuaristas de leite da região, que, com a crise econômica, largaram a atividade e viram um bom destino para suas terras abandonadas. A polêmica não é nova: na Europa, há quem considere que as pás dos moinhos, além da poluição visual e sonora, prejudicam as aves que viviam na área ocupada, afastando-as da região e alterando a cadeia ecológica. No Brasil, onde a energia eólica avança rapidamente, principalmente no Nordeste, a maioria dos órgãos estaduais, a quem cabe dar licença ambiental para esse tido de energia, parece estar convencida de que a energia eólica tem baixo impacto ambiental. Assista o trailer: http://windfallthemovie.com

Mais de 35 mil cientistas brasileiros já se inscreveram no portal Research Gate, de um total de mais de 1,3 milhão de pesquisadores de diversos países. O portal, uma espécie de Facebook dos cientistas, foi criado em 2008 pelo médico alemão Ijad Madisch e tem como proposta facilitar a comunicação e a troca de experiências entre pessoas que atuam na mesma área de investigação. A estimativa dos organizadores é que uma média de 30 brasileiros inscrevem-se diariamente. Gratuito, o site conta com diversos grupos de discussão e se diferencia de outros do gênero, porque os perfis dos participantes são estruturados como em um currículo científico, o que facilita a busca de usuários por área de atuação. Os pesquisadores também podem incluir um índice com suas publicações e um blog pessoal. Traz ainda calendário dos principais eventos científicos mundiais e bolsa de empregos para variadas áreas científicas. O endereço do Research Gate é www. researchgate.net.

Brasil e China pela nanotecnologia O Centro Brasil-China de Pesquisa e Inovação em Nanotecnologia (Cbc-nano), anunciado em 2011, já está criado e estruturado como uma “rede cooperativa de pesquisa e desenvolvimento” entre os dois países, para “promover o avanço científico e tecnológico da investigação e aplicações de materiais nanoestruturados”, segundo portaria do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação de 14 de fevereiro. O CBC-Nano estará sob coordenação da Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do ministério e funcionará com uma rede virtual de pesquisadores de nanotecnologia baseados em várias universidades e institutos brasileiros. Sua formação foi finalizada durante visita ao Brasil do vice-primeiro-ministro chinês, Wang Qishan, que coordena, com o vice-presidente Michel Temer, a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban). Em pauta, além do centro de nanotecnologia, o Programa Ciên­cia sem Fronteiras, que prevê a concessão de 100 bolsas para especialização de estudantes de um país no outro, num total de 200 por ano.

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notas

sustentabilidade

Pneu verde vem aí Em três anos um novo pneu à base de açúcar deve reduzir impacto ambiental e consumo de combustível

divulgação

Pneu feito com matérias-primas sustentáveis, como o açúcar, pode ser lançado no mercado dentro de três anos, com o uso de bioisopreno, novidade desenvolvida na Goodyear, fabricante de pneus, em parceria com a Genencor, empresa global de biotecnologia. O bioisopreno deve substituir o isopreno, composto químico derivado do petróleo, atualmente utilizado na produção de pneus, e poderá ter outras aplicações industriais, como a produção de luvas cirúrgicas, produtos de higiene feminina e adesivos de alta fusão. Entre as vantagens do pneu produzido com a nova matéria-prima estão a redução no consumo de combustível e maior durabilidade do pneu, por gerar menor atrito, e menor poluição, por se tratar de um produto orgânico e renovável. O impacto ambiental na época de descarte dos pneus será inferior ao dos produtos convencionais, já que boa parte dos novos pneus será feita com material biodegradável. A pesquisa, iniciada em 2008, teve base em processos de fermentação de bactérias geneticamente modificadas para converter os carboidratos da biomassa em bioisopreno.

O Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) fechou o ano de 2011 com recorde de pedidos de marcas e patentes, o que evidencia um bom ano para a inovação brasileira. Os indicadores de propriedade intelectual atingiram recordes históricos: foram 31.924 pedidos de patentes no ano passado, contra 28.052 solicitados em 2010. Os índices são ainda mais expressivos quando se compara 2011 com 2010 no item marcas: 152.735 pedidos, ou seja, 23.115 a mais que os registrados no último ano do governo Lula.

Embrapa terá filial na Alemanha A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) vai inaugurar, este ano, mais uma filial de seu Laboratório Virtual no Exterior (Labex), que tem sede na França e unidades também na Inglaterra, nos Estados Unidos, no Panamá, na Venezuela, em Gana, em Moçambique, no Mali e no Senegal. A nova filial será na Alemanha, com laboratório instalado no Centro de Pesquisas de Jülich, um dos maiores do país. Entre as pesquisas a serem desenvolvidas no novo laboratório destacam-se as de interação planta-ambiente e o seu uso em programas de melhoramento para adaptação de cultivares a mudanças climáticas e o uso sustentável de recursos naturais. Os resultados serão utilizados para projetar sistemas de produção integrados e sustentáveis para a bioeconomia de alimentos e bioenergia.

Para prevenir desastres agrícolas Goodyear e Genencor: matéria-prima para fazer de pneus a luvas cirúrgicas

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Funciona, desde o ano passado, no Ministério da Agricultura, a Sala de Antecipação de Risco, uma espécie de centro de monitoramento de prevenção a desastres agrícolas. Nela, são coletadas informações de 4 mil fontes privadas, como cooperativas, e oficiais, como a Agência Nacional da Água, na qual já se faz monitoramento semelhante. A idéia é dar rapidez e segurança à decisão de medidas preventivas e políticas públicas.


Finep anuncia planos para 2012

avaliação

Todos querem inovar, nem todos conseguem

Pesquisa do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), realizada com 40 grandes empresas — 30 nacionais e 10 internacionais — mostra como os principais líderes empresariais encaram a inovação. Para 58% dos entrevistados, inovação tecnológica é decisiva como estratégia de mercado atual. E nos próximos dez anos, será exigida ainda mais inovação para se manter ou ampliar mercado, disseram 80% dos empresários. No entanto, aponta o Iedi, na situação atual prevalecem posicionamentos mais tímidos, como o de diferenciador, seguidor rápido (fast follower), ou de licenciador de tecnologia, o que evidencia os problemas enfrentados para a inovação empresarial. Um deles se refere às capacitações declaradas para lidar com a inovação, cujo quadro causa preocupação. Nenhum destes desafios – desenvolver soluções tecnológicas próprias e novos modelos de negócios, fazer parcerias para inovação tecnológica, adquirir ou licenciar tecnologia, estabelecer alianças com outras empresas, buscar e reter talentos, gerenciar redes de conhecimento externas e sistemas de inovação aberta – têm solução totalmente satisfatória. Em especial, chama a atenção o fato de ser considerada baixa também a capacidade para gerenciar e administrar redes externas de conhecimento e inovação aberta. E poucas empresas declararam ter uma clara cultura de inovação.

pesquisa

Filtro solar hidrata a pele e reduz rugas No campus da Universidade de São Paulo instalado em uma das regiões mais quentes de São Paulo, Ribeirão Preto, foi desenvolvido um filtro solar que, além de brecar os efeitos nocivos da radiação ultravioleta, estimula a renovação celular, diminui rugas e melhora a textura e a elasticidade da pele, que fica mais hidratada. O trabalho é de pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e tem financiamento da Fapesp. Em sua fórmula, o filtro solar alia dois tipos de substâncias fotoprotetoras aos extratos vegetais de Ginkgo biloba e de algas marinhas vermelhas,

com adição de vitaminas A, C e E. A pesquisa, iniciada em 2008, interessou o Centre de Recherches et d’Investigations Épidermiques et Sensorielles, da francesa Chanel, e a equipe de Ribeirão Preto foi convidada a visitar o centro. Agora, a fórmula está pronta para ser comercializada. Entre suas vantagens, testes em voluntários mostraram, também, aumento significativo da função barreira à radiação. O produto deve ser usado diariamente e não apenas na praia ou piscina

Depois de ter multiplicado, nos últimos dez anos, a verba destinada a investimentos produtivos para universidades e institutos de pesquisa, a principal meta da Finep Financiadora de Estudos e Projetos, em 2012, é conseguir da presidente Dilma Rousseff aprovação para ser reconhecida como agência de fomento e, posteriormente, gestora de fundos de investimento. Com isso, será garantida maior estabilidade para as ações da financiadora, além de ampliação de recursos e combinação dos atuais instrumentos de financiamento à inovação - crédito, recursos não-reembolsáveis, subvenção econômica e investimento. Nestas condições, diz o presidente da empresa, Glauco Arbix, será recuperada a autonomia na decisão das áreas e setores cujos investimentos serão financiados. Dentro de dez anos, pretende investir entre R$ 40 bilhões a R$ 50 bilhões em tecnologia. Para 2012, a Finep está pleiteando R$ 6 bilhões do Programa de Sustentação do Investimento, para o apoio de mais de 160 projetos empresariais de inovação. Também se espera a criação da Conta Especial Inova Brasil, linha de crédito permanente, de R$ 3 bilhões até 2014, destinada a uma centena de empresas. Outro plano da agência é o lançamento de um programa de descentralização da subvenção econômica, para pequenas e médias empresas de base tecnológica, a ser operado em parceria com o Sebrae e com governos estaduais.


saúde

Butantan avança na vacina A nova vacina oral em fase de testes deve oferecer melhor eficácia e ampla cobertu divulgação

Sonia Nabarrete sonia@abcdmaior.com.br

AMANDA PEROBELLI

Butantan, um centro de excelência: mais de 93% dos soros e vacinas produzidos no Brasil; abaixo à esquerda: Oswaldo Augusto Sant’Anna, coordenador dos estudos da vacina oral: à direita: Rita de Cássia Stocco, pesquisadora da vacina BPV

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ma vacina administrada por via oral, em vez de injetada, pode aumentar a eficácia de ações preventivas contra a hepatite B, doença viral que afeta o fígado e pode ser letal. Hoje a vacina é ministrada em três doses injetáveis. A pesquisa da nova forma de vacinação, em curso avançado no Instituto Butantan de São Paulo, entrará em testes em humanos ainda este ano e a expectativa é que esteja disponível no mercado dentro de três a quatro anos. A hepatite B atinge mais da metade da população mundial, que muitas vezes desconhece estar infectada. Segundo os pesquisadores do Butantan, ligado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo - e um dos maiores centros de pesquisa biomédica do mundo, responsável por mais de 93% do total de soros e vacinas produzidas no Brasil -, espera-se que a inovação resulte em ganho de tempo e dinheiro, com mais ampla cobertura da imunização. Além disso, a vacinação deverá ganhar mais qualidade, uma vez que a descoberta de um novo adjuvante, a sílica nanoestruturada, conduzido com a vacina, eleva a produção de anticorpos que neutralizam o vírus causador da doença. Osvaldo Augusto Sant’Anna, coordenador da pesquisa e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Toxinas do Butantan, diz que a novidade poderá a ser estendida a outras vacinas. Ele lembra que as primeiras vacinas contra a hepatite B, doença altamente contagiosa e transmissível pelo sangue ou por via sexual, foram licenciadas em 1982, quando eram derivadas de plasma de pacientes com a infecção em sua forma crônica. Logo depois, em 1986, passaram a ser produzidas a partir de tecnologia de DNA recombinante. “Diversos estudos mostram que as vacinas contra hepatite B têm boa imunogenicidade e são eficazes, com proteção de mais de 90% em adultos jovens sadios e de 95% em lactentes, crianças e adolescentes. No entanto, sua eficácia diminui em pacientes


vacina contra hepatite b ra, com economia de recursos e tem previsão de comercialização em até quatro anos com mais de 40 anos de idade e, também, em casos de pessoas com quadro de obesidade, estresse, tabagismo e alcoolismo”, afirma o pesquisador. O estudo da versão oral da vacina começou em 2001, quando Sant’Anna ouviu a professora Márcia Fantini, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, relatar um experimento de difração de raios X de uma sílica nanoestruturada – “muito bonita, parecida com um favo de mel com seus hexágonos perfeitos”, diz ele. “Lembrei-me de um estudo feito no laboratório de imunogenética nos anos 80, com outro tipo de sílica, a coloidal. Essa substância, injetada em altas concentrações em camundongos transformava maus produtores de anticorpos em bons respondedores. Portanto, havia a possibilidade de que a sílica nanoestruturada pudesse carregar em seus favos um antígeno, uma vacina”, relata Sant’Anna, em artigo publicado nos Cadernos da História da Ciência do Instituto Butantan. Com isso em mente, ele procurou Jivaldo Matos e Lucildes Mercuri, pesquisadores do Instituto de Química da USP, que produziam o material, chamado SBA-15. Com a pesquisadora Flávia Lima, o grupo começou um experimento para demonstrar o poder da sílica nanoestruturada na indução dos mecanismos de defesa do organismo, maior do que a proteína absorvida em hidróxido de alumínio, o único adjuvante licenciado para uso em humanos. Esse tema gerou várias teses de mestrado e doutorado e a pesquisa prosseguiu, envolvendo 25 profissionais. O achado deu origem a uma patente nacional, em 2005, e a outra internacional, em 2008, além de uma parceria com o Laboratório Cristália, pela qual profissionais foram contratados e que financiou boa parte da pesquisa. Em especial, os testes de toxidade, que comprovaram: a sílica nanoestruturada não é tóxica nem provoca qualquer efeito adverso. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo também apoiou o projeto, por meio do subprograma Imunologia do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Toxinas-CNPq/Fapesp.

rebanhos PROTEGIDOS Outra importante pesquisa do Instituto Butantan está terminando a fase de testes clínicos, iniciados há pouco mais de um ano, e passará para a fase de testes de durabilidade da proteção. Trata-se da vacina contra uma doença que atinge 70% do rebanho brasileiro, o Papilomavirus Bovino (BPV). Rita de Cássia Stocco, diretora do Laboratório de Genética do Butantan, explica que o BPV provoca três tipos de doenças no gado, que afetam a produção de couro, carne e leite, mesmo se não chegam a ser fatais. Mas, como não existe tratamento, esse tipo de papilomavirus específico de bovinos é considerado um verdadeiro pesadelo para os pecuaristas. As doenças geradas pelo BPV são a papilomatose (verrugas ou lesões benignas nos epitélios, que prejudicam o couro do animal e abrem feridas que podem se transformar em vias de entrada de infecções), a hematúria enzoótica (provoca tumores na bexiga e perda de sangue na urina), e o “caraguatá” (carcinoma de trato digestório). “O vírus compromete a produção de leite e de couro e o animal afetado apresenta sensível perda de peso. Não há cura para a doença e os tratamentos disponíveis são apenas paliativos”, afirma a pesquisadora. As pesquisas para a descoberta de uma vacina contra o BPV são antigas, e começaram a ser feitas em 1978, sob a coordenação de Willy Baçak, ex-diretor do Instituto Butantã. Foram realizados vários estudos sobre o ciclo viral, as formas de transmissão e as características da infecção até a decisão de desenvolver estratégias vacinais, explica Rita de Cássia Stocco. Ela lembra que esses estudos foram pioneiros na identificação das sequências virais em outros sítios, como o sangue, e na descrição da interação viral com os cromossomos do hospedeiro. Segundo a pesquisadora, a expectativa, agora, é a vacina começar a ser comercializada dentro de três a cinco anos.

instituto BUTANTAN, CENTENÁRIO E ATUANTE A epidemia de peste bubônica que se alastrava no porto de Santos, em 1899, levou o governo de São Paulo a adquirir a Fazenda Butantan e, no local, instalar um laboratório para produção de soro contra a doença. Em 1901, batizado de Instituto Serumtherápico, e dirigido pelo médico Vital Brazil, já produzia soros e vacinas, dando início a uma história de destaque no incentivo à pesquisa e desenvolvimento científico no Brasil. A dedicação de Vital Brazil à saúde pública, desde esse começo, e as atividades pioneiras do instituto fizeram dele um centro de excelência internacionalmente reconhecido. O instituto colabora com órgãos governamentais de saúde e entidades internacionais no combate a surtos epidêmicos. Ainda hoje, o Butantan funciona dentro de um parque de 80 hectares, dos quais 62% de área verde aberta à visitação pública. Produz vacinas e soros para uso profilático e curativo, realiza pesquisas científicas e tecnológicas de primeira linha. As vacinas contra difteria, tétano, BCG, coqueluche, hepatite B, gripe (influenza) e H1N1 têm produção 100% nacional. Também vacinas contra coqueluche para bebês com menos de seis meses e contra dengue fazem parte das pesquisas atuais do instituto.

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divulgação

especial desastres naturais

24 horas de olho no Brasil brasil aprimora sistemas de previsão e prevenção de tragédias

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Virgínia Silveira

vir.silveira@hotmail.com

Detectar e analisar riscos de desastres naturais e dar o alerta para evitar tragédias é parte das atribuições do recém-criado Cemaden, Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais. Ele processa dados meteorológicos e ambientais e receberá R$ 250 milhões até 2014

De três a cinco milhões de brasileiros vivem em situação de risco de desastre natural, especialmente em encostas e planícies de rios que saem do seu leito e causam inundações.” CARLOS NOBRE, Secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

nilton cardin

Laboratório do Inpe, em São José dos Campos, São Paulo, que faz simulações com satélites: alta tecnologia e pessoal qualificado para obter informações e municiar o Cemaden

s inundações e os deslizamentos de terras provocados pelas chuvas mais uma vez castigaram os brasileiros neste começo de ano, mas pela primeira vez, em toda a história do país, o bom uso da tecnologia ajudou a prevenir e a minimizar estragos. Na primeira semana de janeiro, por exemplo, o recém-inaugurado Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), criado apenas quatro meses antes, emitiu um aviso para a defesa civil e o corpo de bombeiros da cidade histórica de Ouro Preto, que puderam organizar evacuação prévia de 40 famílias, moradoras na área atingida por deslizamentos de terra, durante a madrugada, horas mais tarde. Outros 150 moradores foram alertados a abandonar imóveis próximos da queda da ribanceira. “Duas pessoas, infelizmente, morreram, mas conseguimos evitar uma catástrofe”, afirma o secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCTI, Carlos Nobre. Idealizado por ele, o Cemaden, instalado na cidade de Cachoeira Paulista, em São Paulo, iniciou as operações em novembro de 2011, e funciona 24 horas por dia desde 3 de dezembro, conectado à coordenação nacional da Defesa Civil, em Brasília. O coordenador de Operações do Cemaden, Carlos Frederico Angelis, conta que o primeiro alerta emitido pelo Centro foi para Belo Horizonte, em dezembro. “Avisamos ao então ministro do MCTI, Aloísio Mercadante, sobre grande risco de deslizamento em vários pontos da região metropolitana de BH. Imediatamente ele ligou para o governador do Estado, que pôde coordenar com a defesa civil a desocupação dessas áreas com algumas horas de antecedência”. O número de municípios mapeados com grande risco de desastre natural, no entanto, ainda é pequeno e, sem essa informação, o sistema de alerta não funciona. Em Sapucaia (MG), por exemplo, sem estudo sobre áreas de risco, o excesso de chuvas deste ano provocou a morte de 22 pessoas na região, por falta de alertas e prevenção. Carlos Nobre calcula que de três milhões a cinco milhões de brasileiros vivem em situação de risco de desastre natural, especialmente em encostas ou em planícies de rios, que saem do seu leito e causam inundações.


especial desastres naturais

Sala de Situação no Cemaden: sistema de vídeo wall exibe imagens em múltiplas telas, com dados enviados em tempo real

MUNICÍPIOS EM RISCO

Modelo para exportação Países da América Latina têm interesse em tecnologia desenvolvida pelo Cemaden O modelo conceitual do Cemaden será replicado para outros países da América Latina, informa Carlos Nobre. A ONG Planetary Skin Institute (PSI), em parceria com o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), vai investir US$ 1 milhão na implementação de outros centros similares em países vizinhos ao Brasil. “Estamos aguardando a assinatura da proposta de projeto da PSI e do CAF para iniciar o processo de capacitação e desenvolvimento para outros países da região, montar equipes multidisciplinares e fazer o treinamento”, explica ele. O Chile já tem um trabalho parecido com do Cemaden, mas com foco na ocorrência de terremotos, e a Colômbia está iniciando o desenvolvimento do seu sistema, mais voltado para deslizamento de encostas, por conta do relevo acidentado daquele país. O novo centro brasileiro já se compara aos principais centros de monitoramento e prevenção de desastres naturais existentes hoje no mundo, acrescenta. “Seguimos o sistema de monitoramento e prevenção de desastres do Japão, pelo qual todos os tipos de desastres são geridos por um mesmo centro de alertas”. Mas a tecnologia para integrar as informações meteorológicas enviadas pelas principais instituições federais e estaduais de observação de variáveis ambientais e a geração de alertas foi desenvolvida pelo próprio Cemaden. “Trata-se de uma plataforma que poderá servir para toda a América Latina. O Peru já demonstrou interesse”, acrescenta. Esse software, batizado de Salvar, integra e analisa dados ambientais e físicos (geológicos, geomorfológicos e hidrológicos) fornecidos pelas mais variadas instituições ambientais e meteorológicas do país. “É a inteligência do Cemaden, desenvolvida por nossos especialistas, o que nos dá autonomia e controle para operar o sistema”, ressalta o coordenador do Centro, Carlos Frederico Angelis.

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Atualmente, apenas 76 municípios, situados num raio de até 300 quilômetros do litoral no Nordeste, Sul e Sudeste, têm mapeamento completo das áreas de risco. Até o fim do ano, esse número deve subir a 400 municípios, diz Nobre. E em três anos, a mil municípios que apresentam riscos. Para acelerar esse trabalho, o governo autorizou a abertura de concurso internacional visando a contratação de 20 geólogos, pois há carência desses profissionais no país. “Muitos geólogos foram absorvidos pelo setor de mineração e de petróleo e gás. As universidades não estavam preparadas para essa explosão de demanda”, destaca Nobre. Para o secretário nacional de Defesa Civil, Humberto Viana, será necessário contratar mais de 50 geólogos. “Além do concurso internacional, vamos buscar geólogos em outros ministérios e na Petrobras, que também tem interesse em garantir a segurança da infraestrutura de transporte de óleo e gás por dutos”, diz. Outra frente a ser criada, segundo Viana, é a concessão de bolsas de estudos para jovens interessados em se especializar na área de desastres naturais. Hoje, trabalha no Cemaden uma equipe multidisciplinar de 75 profissionais, entre meteorologistas, hidrólogos, geólogos e especialistas em desastres naturais. Os alertas


As maiores e mais recentes tragédias naturais brasileiras Gastos em obras de emergência

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2008 Enchente no Vale do Itajaí, Santa Catarina: R$ 2 bilhões para intervenções e R$ 60 milhões, em parceria com governo estadual e com a Japan International Cooperation Agency (Jica), para contratação de projetos.

2010

Enchentes nas bacias dos rios Una, Sirinhaém e Mundaú, Pernambuco: R$ 500 milhões para construção de complexo de sete barragens, em parceria com o governo estadual e R$ 23 milhões para as barragens de Panelas e Gatos. A de Serro Azul foi incluída no PAC.

2011 Enchentes e deslizamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro: R$ 330 milhões, em convênio com o Ministério das Cidades, dos quais R$ 30 milhões para drenagem, R$ 80 milhões para encostas e R$ 220 milhões para dragagem.

2012 Enchentes e deslizamentos em Belo Horizonte e Claro das Poções, em Minas Gerais: R$ 6,35 milhões. Ações de socorro e assistência a vítimas de enchentes em Santa Catarina: R$ 3,2 milhões.

nilton cardin

produzidos pelo Centro são baseados em informações vindas dos mais diversos centros de meteorologia existentes no Brasil e no mundo. O Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) é o responsável pela elaboração de previsões de tempo utilizadas pelo Cemaden para fazer as análises dos riscos de desastre natural. Ele está entre as dez instituições climáticas reconhecidas pela Organização Meteorológica Mundial para fornecer previsão meteorológica global. No Hemisfério Sul, apenas o Brasil e a Austrália possuem centro desse nível, ressalta o coordenador do CPTEC, Osvaldo de Moraes.

É também no CPTEC que está instalado o supercomputador Tupã, comprado há cerca de um ano, e que ampliou em 50 vezes a capacidade de processamento de informações, com 258 trilhões de cálculos por segundo. O equipamento custou R$ 35 milhões, informa o coordenador de gestão tecnológica do Inpe, Marco Antônio Chamon. Com esse novo equipamento, passaram a ser feitas previsões numéricas ainda mais confiáveis e com alto nível de detalhamento. São 15 quilômetros para a América do Sul e 20 quilômetros para todo o globo. “A nossa meta agora é rodar o modelo regional de previsão com uma resolução espacial de 5 quilômetros até 2013”, afirma Moraes. Ele explica que, “com a resolução de 15 quilômetros, já se consegue distinguir, por exemplo, as condições de precipitação para as diferentes áreas da Região Metropolitana de São Paulo. Na escala de 5 quilômetros, é possível detalhar o comportamento das chuvas nos bairros da capital, com descrição mais detalhada dos processos físicos de formação das nuvens em cada região. Quanto maior a resolução, maior o detalhamento da região que se está monitorando e do local onde a precipitação vai ocorrer”.

Marco Antônio Chamon, coordenador de gestão tecnológica do Inpe: previsões mais confiáveis

Fonte: Ministério da Integração Nacional

Enchentes na bacia dos rios Mundaú e Paraíba, Alagoas: R$ 8,5 milhões para estudos e projetos, em convênio com o governo estadual.

PREVISÕES 48 HORAS ANTES Os avisos meteorológicos produzidos pelo CPTEC são emitidos com 48 horas de antecedência e têm 100% de confiabilidade. “A nossa meta é atingir um índice de acerto entre 80% e 90% num cenário de sete dias”, diz. Gustavo Escobar, coordenador do grupo de previsão do tempo desse centro, explica que os modelos numéricos não são perfeitos e cabe aos meteorologistas saber ajustar as previsões, com base em sua experiência e conhecimento sobre determinadas regiões (tipo de hidrologia e vegetação). “O meteorologista usa o modelo rodado no supercomputador como ferramenta principal, mas a previsão final é feita por ele”, ressalta. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), por sua vez, recebe informações de sua rede de 500 estações meteorológicas espalhadas pelo país e manda esses dados, em tempo real, para o Cemaden. Da mesma forma, a rede de observações da Agência Nacional de Águas (ANA) repassa para o Centro as informações coletadas por suas 600 estações meteorológicas e hidrológicas. Com todos esses recursos, o Cemaden analisa o impacto que a previsão fornecida por órgãos como o Inmet e o CPTEC terá na hidrologia de determinado local e se isso vai resultar em algum risco. FEVEREIRO•MARÇO 2012 | INOVA

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especial desastres naturais

arte: claudinei de camargo

Da previsão ao alerta

“Não fazemos previsão de tempestade severa, mas da ocorrência de enchente e deslizamento em função das fortes chuvas”, explica Angelis. O Cemaden, acrescenta, também trabalha com dados de instituições regionais como a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagre). O Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), que, com o Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta IV), é responsável pela operação da principal rede de radares meteorológicos do país, com 17 equipamentos, firmou acordo de colaboração técnico-científica. O compromisso é repassar dados dos radares, utilizados na elaboração de previsões de tempo e estimativas de chuvas com até duas horas de antecedência. O radar meteorológico desse departamento tem alcance de 400 quilômetros e é capaz de estimar a intensidade e a localização das chuvas com precisão superior a 90%. Angelis considera o radar meteorológico mais preciso e realista que o satélite, porque interage diretamente com as gotas de chuva presentes dentro da nuvem. “O satélite observa o topo das nuvens e não consegue medir a quantidade de água real dentro da nuvem”, explica.

mais equipamentos Este ano, informa o secretário Carlos Nobre, o MCTI comprará quatro novos radares meteorológicos para complementar a cobertura de pontos críticos nas regiões de Maceió, abrangendo a Grande Recife e as cidades de Aracaju (SE), Maceió (AL), Salvador (BA), Vitória (ES) e Cachoeira Paulista (SP), onde está instalado o Cemaden. Também estão sendo comprados 1,5 mil pluviômetros automáticos para serem instalados em áreas de risco em todo o Brasil. Hoje o Cemaden possui mil aparelhos semiautomáticos para observar e medir a chuva. Utilizando o supercomputador do CPTEC, o Cemaden vai rodar modelos geodinâmicos para analisar com mais detalhes as condições das encostas (tipo de vegetação, grau de antropismo, uso do solo e variáveis meteorológicas e ambientais), em projeto que visa definir, de forma precisa, se a região é ou não suscetível a

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shutterstock

deslizamentos. “Os primeiros modelos já estão sendo testados em algumas áreas pilotos, como bacias hidrográficas do Sul e Sudeste, onde há ocorrência constante de deslizamento e enxurrada, devido à topografia mais acidentada”, afirma Angelis. No médio prazo, acrescenta, o Cemaden ampliará a previsão de desastres naturais, como o risco de colapso de safra de subsistência devido a longas estiagens, dando tempo ao governo para tomar medidas de apoio a prejuízos. Será possível obter-se uma boa estimativa de risco de quebra de safra, com até 60 dias de antecedência. Outro serviço, previsto para funcionar em 2013, é o de alertas contra desastres biológicos, ou seja, doenças respiratórias causadas por dispersão de poluição ou por ondas de frio, ou problemas causados por ondas de calor, de modo a evitar problemas como doenças cardíacas provocadas por desconforto térmico. Para viabilizar esse trabalho, parceria com o IBGE fornecerá ampla base de dados, com informações sobre faixa etária da população, condições sociais e ambientais e outras. Os investimentos do governo federal para inovação em tecnologia de prevenção estão concentrados na consolidação da operação do Cemaden. Segundo Carlos Nobre, serão aplicados R$ 250 milhões até 2014 (sem salários). Em 2011, foram investidos R$ 13 milhões no centro, para contratação de pessoal, compra de equipamentos de informática e instalação da sala de situação, de onde são emitidos os alertas de desastres. Dentro dessa política nacional, o Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad), da Defesa Civil, recebeu investimento inicial de R$ 30 milhões para aprimorar sua operação, de 24 horas por dia, de pré-desastre (com ações de monitoramente e planejamento), e no pós-desastre (com informações de inteligência, coordenação e mobilização). No primeiro trabalho, o Cenad usará informações enviadas pelo Cemaden.

Ajuda mais rápida: verbas para municípios vítimas da tragédia em 48 horas

O custo das catástrofes Nos últimos quatro anos, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) destinou R$ 5,8 bilhões para obras de prevenção ao impacto das chuvas nas cidades brasileiras. Até 2014, estão previstos mais R$ 10 bilhões a serem gastos com drenagem e contenção de encostas. Para os municípios afetados pelas chuvas dos últimos meses, o governo federal liberou R$ 100 milhões. Os recursos foram destinados para ações emergenciais nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, os mais afetados pelas chuvas este ano. Desse total, Minas Gerais recebeu R$ 55 milhões, o Rio outros R$ 25 milhões e R$ 20 milhões foram para o Espírito Santo. Levantamento feito pela ONG Contas Abertas, porém, mostra que, de um total de R$ 2,8 bilhões que teriam sido destinados pelo governo federal para ações de prevenção e preparação de desastres no período de 2004 a 2011, apenas R$ 695,4 milhões teriam sido efetivamente aplicados. Segundo relatório do Crea-RJ, na região serrana fluminense, onde as enchentes provocaram a morte de 900 pessoas em 2011, das 170 áreas identificadas como de alto risco de deslizamento, apenas em oito foram iniciadas obras para resolver o problema.

Carlos Frederico Angelis, coordenador de operações do Cemaden: em 2013 alerta também contra desastres biológicos

nilton cardin

Segundo o secretário nacional da Defesa Civil, Humberto Viana, a partir deste ano, a transferência dos recursos, em casos de desastres naturais, será feita por meio do Cartão de Pagamento de Defesa Civil (CPDC) e, no final de janeiro, o Ministério da Integração Nacional anunciou a universalização do cartão para todos os 5.565 municípios brasileiros. “Esse novo procedimento de repasse de recursos permite que o dinheiro chegue ao município afetado em 48 horas, além de garantir clareza na utilização da verba, uma vez que exige uma prestação de contas sobre como ele foi utilizado”, explica o secretário. O cartão cobre despesas com ações de socorro, assistência às vítimas e restabelecimento de serviços essenciais de municípios e estados em situações de emergência e calamidade pública, reconhecidas pela Defesa Civil Nacional.

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empreendedorismo

INOVAÇÕES MADE IN AMAZONAS Pequenos e médios empresários interessados em valorizar os produtos regionais recebem apoio financeiro e criam oportunidades de crescimento Rosana Vilar de Souza rosanassauro@yahoo.com.br

a Amazônia, fundos de investimento não retornáveis, como os da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), estão abrindo oportunidades para pequenos e médios empresários desenvolverem processos inovadores, com base em insumos regionais. É o caso do técnico em eletrônica Job Cruz de Pinho. Depois de 20 anos de trabalho em uma grande fabricante de microfones, ele decidiu pesquisar a aplicação de madeira para resolver alguns dos problemas típicos dos amplificadores de som e microfones de metal. Com subvenção de R$ 182,5 mil da Fapeam, criou Microfone feito com madeira: isolante perfeito

um novo produto, que tem corpo e cúpula de madeira reaproveitada, usado no revestimento dos circuitos elétricos do microfone. A madeira, abundante na região, é um perfeito isolante e proporciona também maior ressonância acústica, livre de ruídos metálicos e vibrações mecânicas, diz o novo empresário. “Temos instaladas no Polo Industrial de Manaus empresas de alto potencial tecnológico que investem em ciência e tecnologia, mesmo se alguns processos vêm de fora do estado. Mas as pequenas e médias empresas não dispõem de verbas para isso. Fazer inovação é sempre um negócio arriscado e a subvenção, por ser uma verba não retornável, traz mais segurança a quem quer avançar”, afirma Maria Olívia Simão, presidente da Fapeam. O mais antigo dos fundos é o Programa Amazonas de Apoio à Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação em Micro e Pequenas Empresas de Subvenção (Pappe Subvenção), de 2006, com verbas não reembolsáveis de até R$ 200 mil por projeto. No ano passado, novo edital foi lançado, no valor de R$ 6 milhões e recebeu 123 projetos, agora na fase de análise. Nos dois editais anteriores, de 2006 e 2008, foram feitas 196 inscrições.

Mais pesquisas e patentes Segundo dados mais recentes do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), em 2010 foram concedidas 153 patentes a pesquisas realizadas no Amazonas, com aumento de 75% sobre as 87 de 2009, e de

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nada menos de 183% sobre as 51 de 2008. “É uma conquista muito emocionante, pois era o que tentávamos realizar havia anos, mas não sabíamos como, pois ainda não existia um marco regulatório que proporcionasse esse avanço”, aponta Rosângela Bentes, coordenadora de extensão tecnológica e inovação do Instituto Nacional de Pesquisas do Amazonas (Inpa). O Inpa é a instituição de pesquisa que mais deposita patentes no estado, criadas por seu corpo de pesquisadores e geradas em pesquisas individuais. Os projetos desenvolvidos são oferecidos a pequenos empreendedores, que também recebem apoio de uma incubadora. Rosângela destaca que esses resultados têm sido possíveis graças à sintonia entre governo, instituições de pesquisa e empresários. Desde 2004, com a aprovação da Lei de Incentivo à Inovação, foram criadas ferramentas de captação e investimento de recursos para pesquisas, os quais ajudam a manter as que são realizadas pelo Inpa e por empreendedores independentes. A Finep, Financiadora de Estudos e Projetos, um dos braços do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, é a instituição que administra esses fundos em todo o país. Nos últimos três anos, ela emprestou R$ 88,5 milhões a empresas do Amazonas, em contratos com condições e juros diferenciados, e investiu R$ 115,1 milhões em 72 convênios com instituições de C&T na região Norte, para projetos de infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento tecnológico.


divulgação

Filipe Araújo | AE

Guaraná: dejetos da polpa da fruta se transformam em papel reciclado

Embalagem de folhas Um exemplo de sucesso é o da pesquisa vencedora do prêmio Finep da região, em 2010, da Amazon Green, do setor de cosméticos, apoiada pelo Sebrae. Francisco Aguiar tocava a empresa e decidiu inovar, criando uma embalagem feita com produtos locais. “Neste negócio, a apresentação é muito importante e também a parte mais cara, já que as embalagens são fabricadas no sul do país. Na busca de alternativas, resolvi aplicar a técnica de desidratação de folhas nos vidros. Ficou muito bom, todo mundo gosta”, conta o empresário. O trabalho exigiu 14 anos até ficar pronto e Aguiar confessa que, em alguns momentos, quase desistiu. Mas deu certo e os R$ 500 mil do prêmio Finep tiveram destino certo: mais investimento em inovação, agora, para uma nova embalagem de cerâmica. Outro projeto financiado pela Fapeam é o da Reciclagem de Fibras da Amazônia (Refiam). A empresa recebeu crédito de R$

106,2 mil para produzir papel reciclado, cuja composição tem 30% de dejetos da indústria de polpa de guaraná. Também processando material descartado pela indústria de polpas e óleos, a Revestimentos da Amazônia desenvolveu uma linha de revestimentos para decoração, com subvenção de R$ 199,8 mil da Fapeam. O empresário Aguimar Simões diz que a “ideia surgiu com meu trabalho de mestrado. Pensei que o ouriço da castanha poderia ter alguma aplicação industrial. Deu certo e passamos a utilizar outros produtos, como sementes de açaí, tucumã e jarina”. Desde a instalação, em 2008, a empresa cresce a uma taxa de 15% ao ano e agora se volta para a exportação. “Já vendemos um carregamento para uma empresa na França”, diz Simões, satisfeito com o resultado.

Combate à biopirataria Na Amazônia, inovar também ajuda a preservar a cultura popular e é valiosa ferramenta no combate à biopirataria. “Antes, vendíamos nossos ativos naturais em contêineres. Agora, nossos produtos saem daqui com código de barras”, afirma Maria Olívia, da Fapeam. Evanildo Pantoja, do Sebrae, acrescenta que “o uso responsável da matéria-prima é muito importante. A madeira, por exemplo: se não conseguirmos reaproveitá-la e utilizá-la bem, pode acontecer como aconteceu no Pará e no Mato Grosso, de onde levam embora a matéria-prima. Deixando para trás só a miséria”, afirma. “Não há mais por que continuar com a cultura colonizada de exportar raízes. Temos é de exportar a tecnologia pronta”, completa Rosângela, do Inpa.

divulgação

Mais R$ 31,1 milhões, nesses três anos, foram distribuídos em subvenção econômica, sendo R$ 12 milhões relativos a parcerias com a Fapeam e com o Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), por sua divisão de inovação e tecnologia. O Sebrae acompanha e orienta os pequenos e médios empresários em todo o processo, desde a elaboração do projeto para requisição de financiamento, até a comercialização do produto final.

Folhas da Amazônia: usadas nas embalagens de cosméticos


energia

Aparecida do Norte, em São Paulo: primeiro município do país com rede inteligente de energia

Aparecida do Norte ganha p Rede inteligente de energia vai gerir o consumo na cidade, com instalação, entre outras tec Marlene Jaggi

AMANDA PEROBELLI

marlene@lorem.com.br

João Brito Martins, da EDP Bandeirante: projeto de Aparecida do Norte parecido com a cidade histórica de Évora, em Portugal

s novidades ainda não aparecem no bolso dos consumidores, mas já estão em algumas ruas e casas de Aparecida do Norte. São novos medidores de energia, novas lâmpadas em vias públicas e até mesmo postes diferentes, preparados para fornecer energia a carros elétricos. Situada no Vale do Paraíba, em São Paulo, a cidade de 35 mil habitantes, conhecida por abrigar a basílica da padroeira do Brasil, é, desde outubro, sede de um projeto de inovação da EDP no Brasil, empresa do Grupo EDP Energias de Portugal, que controla as distribuidoras EDP Bandeirante e EDP Escelsa. Batizado de Inovcity, o projeto testa tecnologias que transformarão Aparecida na primeira cidade paulista com rede inteligente de energia (smart grid), investimento inicialmente estimado em cerca de R$ 10 milhões. Se tudo der certo e se o modelo regulatório avançar, a EDP quer ir ainda mais longe. No final do ano pas-

sado, a distribuidora assinou com a Universidade de São Paulo (USP) um convênio de parceria para, em cinco anos, desenvolver novas tecnologias para redes inteligentes – um dos pilares da estratégia mundial de investimento em inovação do grupo. As áreas de estudo são, por exemplo, eficiência energética, iluminação pública, sistemas de gestão de consumo e automação de redes, além de aquecimento solar mais barata, para população de baixa renda.

Tecnologia brasileira O acordo com a USP foi assinado depois que a EDP no Brasil obteve do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) a homologação para o medidor eletrônico monofásico direto MD 1.400, o primeiro medidor inteligente brasileiro e a grande estrela do projeto de Aparecida. O aparelho foi desenvolvido pela EDP e pela Ecil Informática (empresa brasileira, provedora de soluções tecnológicas nas áreas de energia e telecomunicação), espe-


Mauricio Simonetti | pulsar imagens

projeto pioneiro de energia

divulgação

nologias, de novos medidores residenciais, um investimento inicial de R$ 10 milhões

Medidor: a estrela do projeto tem tecnologia 100% nacional

cialmente para atender as características do mercado nacional, ante a necessidade de desenvolver a telemedição para os clientes de baixa tensão (abaixo de 2,3 quilovolts, ou 2,3 mil volts), diz o gestor executivo de Inovação da Bandeirante, João Brito Martins. Também participaram das pesquisas a equipe de medição da EDP Bandeirante. O primeiro equipamento, o “cabeça de série”, ficou pronto no final de 2009 e a homologação saiu em março de 2011. Com tecnologia 100% brasileira, vai substituir o medidor tradicional em 15 mil domicílios de Aparecida, até dezembro – os primeiros 200 já foram instalados. Os planos para Aparecida são parecidos com os realizados pela EDP na cidade histórica de Évora, em Portugal, mas os medidores de cada uma das cidades são diferentes, especialmente no que se refere à tecnologia de comunicações. Em Portugal adotou-se a PLC (Power Line Communications). “No Brasil, adotou-se uma rádio frequência, tipo Mesh, conhecida por Zig-

CALCULE SEUS GASTOS Para saber quanto cada casa consome de energia e que aparelho é responsável pelo valor mais alto na conta de luz, a AES Eletropaulo colocou no ar, desde fevereiro, um simulador online que ajuda a estimular o consumo racional. “Ao clicar em cada ambiente e em cada equipamento, informando potência, tempo e frequência de uso, o consumidor tem uma ideia bem próxima do gasto de cada equipamento e pode administrar melhor o uso de cada aparelho”, diz Fernando Bacelar, gestor de usos finais da AES Eletropaulo. O endereço do site é http://consumomaisinteligente.com. br/simulador

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Bee”, explica Martins. Em termos de funcionalidade, porém, são muito semelhantes, porque ambos permitem leitura, corte e religamento remotos, indicação de falta de energia, registro do perfil de consumo e possibilidade de interface para sistemas de gestão de energia para administração a distância – por meio da internet ou mesmo de um celular, acrescenta o executivo.

Gestão de consumo

No alto, os novos postes e as novas lâmpadas: com tecnologia led; e os medidores residenciais: melhor gestão do consumo

Aparecida do Norte vai ganhar uma rede de abastecimento para veículos elétricos e as famílias de baixa renda do município receberão até chuveiros e geladeiras mais econômicos.”

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A linha de medidores inteligentes é complementada por uma solução de comunicação, composta por um elemento coordenador de rede e um sistema de gerenciamento remoto. Os conceitos de rede utilizados são o HAN (Home Area Network) e o NAN (Neighborhood Area Network). A rede HAN faz a comunicação direta entre os medidores e equipamentos domésticos, como ar-condicionado e geladeiras e aquecedores, permitindo ao cliente acompanhar o consumo de sua residência em tempo real e ter elementos para fazer a gestão desse consumo, de forma a reduzir a conta no final do mês. Já a rede NAN transmite as informações de cada residência a centros de gerenciamento e controle, para gestão individualizada, por domicílio. Depois de Évora, a EDP já levou o sistema a outras quatro cidades de Portugal. “Como são tecnologias caras, o objetivo é ganhar em escala”, explica Martins, comentando que, para o Brasil, porém, ainda não se pensa em expansão. É que, além da necessidade de comprovar a viabilidade técnica e comercial das tecnologias em teste, ainda não há segurança sobre novos hábitos de consumo (carro elétrico, por exemplo). E também há limites do modelo regulatório em vigor, que estabelece um único preço para a energia, argumenta Martins. Mas ao final de 2011, por determinação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), foram introduzidos novos critérios de cobrança de energia pelas distribuidoras, criando tarifas conforme o horário de consumo. Com isso, “ganharão todos, os clientes e o mercado”, avalia o executivo. O projeto-piloto de Aparecida também prevê a substituição de lâmpadas incandescentes por fluorescentes compactas, mais econômicas. Serão testadas melhorias no sistema de iIuminação pública, usando a tecnologia LED, que poderá incorporar sensores de presença, para baixar o consumo de energia e aumentar a qualidade do serviço. O município ganhará uma rede de abastecimento para veículos elétricos e um sistema de geração de energia fotovoltaica, além de uma campanha de conscientização para uso racional – que inclui a doação de geladeiras e chuveiros mais eficientes para as famílias de baixa renda.

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TARIFA BRANCA CHEGA COM NOVOS MEDIDORES Em novembro de 2011, a Agência Nacional de Energia Elétrica aprovou alteração na estrutura tarifária em vigor desde os anos 80. Agora, será permitida cobrança de tarifas diferenciadas segundo o horário de consumo. A maior novidade é a chamada tarifa branca, que terá diferentes patamares de preço ao longo do dia, de acordo com os horários de consumo. Mas a tarifa branca só começará a valer quando os atuais medidores eletromecânicos de energia forem substituídos pelos eletrônicos, com capacidade de medição mais apurada. Pela tarifa branca, durante a semana, o custo por unidade de energia consumida será mais alto nas horas de maior demanda geral e cairá nas de menor demanda. O preço maior será o do pico máximo, ou seja, no início da noite. Para todo o final de semana, valerá a tarifa mais baixa dos dias úteis. Para os consumidores de baixa renda, continua valendo a tarifa social, definida pelo governo federal e pela Aneel.


medicina

Frutas do Cerrado CONTRA O câncer Pesquisas concluem que guapeva, gabiroba e murici, antiinflamatórias e antioxidantes Antonio Perri | Ascom | Unicamp

Sonia Nabarrete

sonia@abcdmaior.com.br

lém do prazer, a alimentação proporciona saúde e qualidade de vida, tendência que começa a ser observada na mesa do brasileiro, cada vez mais interessado em produtos ou ingredientes naturais capazes de promover benefícios até na prevenção de doenças crônicas e degenerativas. É nessa linha que se desenvolvem pesquisas universitárias, como a de doutorado da engenheira de alimentos Luciana Malta, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ela estuda, agora, a ação antioxidante e antiinflamatória de frutas do cerrado, possíveis auxiliares no tratamento de vários tipos de câncer. Motivada pela grande quantidade de comprovações científicas de que as frutas possuem compostos bioativos eficazes na prevenção de doenças, a doutora em ciência dos alimentos decidiu estudar três delas, nativas do Cerrado goiano: guapeva, gabiroba e murici, que nunca tinham sido avaliadas. O resultado, transformado em sua tese de doutorado na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (FEA/Unicamp), comprovou: elas têm potencial antiinflamatório e antioxidante e podem ser coadjuvantes no tratamento de vários tipos de câncer.

Testes em pacientes

Luciana Malta, engenheira de alimentos da Unicamp: as frutas do Cerrado são só o ponto de partida para outros estudos

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Luciana explica que essas frutas se enquadram na categoria de alimento funcional, “aquele consumido normalmente na dieta e que, além de funções nutricionais básicas, demonstra benefícios fisiológicos pela presença de compostos bioativos.” O consumo desses alimentos está intimamente relacionado com a diminuição de doenças degenerativas não transmissíveis, como mal de Parkinson, Al-


Carmen Thiago

GABIROBA

GUAPEVA

MURICI

naturais, podem ajudar no tratamento do câncer zheimer, diabetes, câncer, doenças cardiovasculares, dentre outras, acrescenta. Sob orientação da professora doutora Glaucia Pastore, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, foram estudadas polpa, casca e sementes das frutas, para identificar os compostos fenólicos, como ácido ferrulico, revesratrol, catequina e epicatequina, que demonstraram ação anticâncer. “Inicialmente foram feitos testes in vitro. Posteriormente, os extratos foram testados em animais e em células. Nos testes in vivo, com animais, foram avaliadas as atividades antioxidante, antigenotóxica, antimutagênica e antiinflamatória”, relata Luciana, que constatou maior potencial biológico in vivo na guapeva e na gabiroba. Já no ensaio com células, o extrato da casca de guapeva apresentou resultados mais eficientes. A pesquisadora conta que o primeiro ensaio para teste anticâncer é o antiproliferativo, em que os extratos são incubados com células de diferentes linhagens tumorais humanas, como de pulmão, fígado, próstata, melanoma, mama, rins, para saber o quanto o extrato diminui a proliferação celular. “O extrato que mais se destacou foi o da casca da guapeva, diminuindo a proliferação dos tumores de melanoma, mama, rim e próstata”, informa. A pesquisa se estendeu aos pacientes do Hospital das Clínicas da Unicamp, em um projeto de pós-doutorado, uma vez que, “por não terem sido tóxicas aos animais utilizados na pesquisa e por fazerem parte da alimentação da população do Cerrado, as frutas podem ser testadas em seres humanos com segurança, se consumidas na dose certa”, informa. Luciana também consolidou seus estudos sobre frutas do Cerrado em um doutorado-sanduíche, pela Universidade de Cornell, sob coordenação do professor Rui Hai Liu. “Lá foi feito o teste de atividade antioxidante celular, pelo qual esse potencial é medido de forma intracelular, mostrando resulta-

dos mais reais do que os obtidos nos testes in vitro tradicionais, e de forma mais rápida do que testes in vivo”. Mesmo com resultados animadores, a conclusão foi a de que, apenas o uso de extratos de frutas do Cerrado como quimioterápicos não seria eficiente devido à concentração necessária para obter um efeito desejável. Mas pode ser indicado como apoio ao tratamento convencional de câncer. “As sementes e cascas dos frutos não são utilizadas para alimentação, sendo descartadas como resíduos sem qualquer valor comercial. Dessa forma, tornam-se fontes importantes e renováveis de compostos antioxidantes para diversos setores industriais, com custo/benefício altamente vantajoso. Essas frutas ou seus compostos bioativos isolados podem ser usados, por exemplo, como ingredientes e suplementos alimentares”, sugere a pesquisadora.

Novas pesquisas Luciana considera sua tese de doutorado ponto de partida para muitas outras pesquisas sobre essas frutas e deve se aprofundar no tema, no pós-doutorado. “Pretendo selecionar os melhores extratos e avaliar a atividade antioxidante celular e anticâncer.” Boa parte dos dados levantados por ela será usado no trabalho de pós-doutorado da nutricionista Aline Castaldi Sampaio, mestre e doutora em Clínica Médica e pós-doutoranda em Ciência de Alimentos pela Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp. Ela desenvolve trabalho com pacientes em tratamento de câncer no Hospital das Clínicas da Unicamp. Luciana colabora na delineação desta nova pesquisa, também sob orientação da professora Glaucia Pastore. Segundo ela, “se consumidas na dose certa, as frutas podem ser testadas em seres humanos com segurança”, afirma.

AS FRUTAS DE UM TERRITÓRIO AMEAÇADO O Cerrado goiano faz parte do segundo maior bioma brasileiro, que se estende por nove estados e ocupa uma área de mais de 2 milhões de quilômetros quadrados. Embora menos diversificado que a Mata Atlântica e a Amazônia, o Cerrado possui uma alta biodiversidade, ameaçada por monoculturas, como soja e arroz, e pela pecuária intensiva, além de carvoarias, desmatamentos e queimadas. Nessa região proliferam árvores frutíferas, entre elas gabiroba, guapeva e murici. A gabiroba, fruta arredondada, de polpa amarela, é muito apreciada por pássaros. Além do consumo in natura pode ser usada em sucos, doces, sorvetes e como matéria prima para o licor. Possui propriedades medicinais, especialmente no tratamento de problemas gastrointestinais e males do trato urinário, como cistite e uretrite. A guapeva tem forma ovoide, coloração alaranjada e polpa esbranquiçada, com uma única semente de cor roxa. Muito rica em vitamina C, tem alto poder antioxidante. É usada para conter inflamações do fígado. Da sua semente é extraído um azeite usado como laxante e também no tratamento da erisipela. Já o murici é fonte de vitamina B1, B2 e niacina. De sabor forte, agridoce e ligeiramente oleoso, é consumido ao natural e também usado na fabricação de doces, sucos, sorvetes, licores e geleias.

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Direto de Berlim, alemanha Flávio Aguiar correspondente flavio-aguiar@t-online.de

Nos tempos em que Portugal era vanguarda maginemos um país com tecnologia de ponta em matéria de guerras, destinada a maximizar as perdas do inimigo e minimizar as suas. Além disso, um país que domina os sete e outros mares, com seus navios ímpares, seus navegadores ousados e precisos, reunindo o que de melhor há na inteligência no tempo no mundo inteiro a seu alcance. Ainda, um país cujo regime social é a vanguarda de um capitalismo vitorioso sobre outros sistemas concorrentes; inclusive por causa das tecnologias em confronto. Estaríamos falando dos Estados Unidos na abertura do século XXI? Decididamente, não. Até porque o capitalismo vitorioso deste nosso século não vai tão bem das pernas assim. Estamos falando de Portugal, entre os séculos XII e XV, vanguarda tecnológica, marinha, militar, política e social da Europa... Difícil de acreditar, não? A terrinha, como ainda se costuma dizer no Brasil. Essa reflexão me veio à mente durante recente visita que fiz à região do Porto, Guimarães e arredores. Estas duas cidades distam cerca de 50 quilômetros uma da outra: e entre elas tudo começou. Tudo: quero dizer, em grande parte, o mundo moderno. Talvez o pós-moderno. Porque ele, que tem as fronteiras dentre as mais antigas do mundo, também é, sobretudo, confronto e fragmentação. De um lado, a aplicação dos atuais “planos de austeridade” euro-

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peus, que penalizam o mundo do trabalho; do outro, a resistência dos trabalhadores, sem eco em outros setores da sociedade. Mas Portugal foi um vetor vertiginoso de modernidade. Entre os séculos X e XIV, Portugal formou-se, primeira nação e primeiro estado modernos da Europa. Em Guimarães, plantaram-se as primeiras fortalezas e abadias irredutíveis contra os mouros – e também contra os de Castela, Aragão e Leão, então vetores da futura e posterior Espanha. Portugal já nasceu mista – entre “Portus”, porto na língua latina, dos romanos, e “Cale”, também porto, na língua então local: Portucale, Condado Portucalense, depois Portugal. Língua: convenhamos, isso também é tecnologia. Foi de Guimarães que o príncipe Afonso Henriques liderou tropas, a partir das fortalezas e abadias erigidas por sua conterrânea Mumadona, mulher poderosíssima, considerada a fundadora de Guimarães (950) contra as... de sua mãe(!), que, depois de viúva do pai do príncipe, junto com seu segundo marido (ou primeiro amante, segundo fofocas multisseculares), disputava com o filho o poder da então Galécia. Afonso Henriques derrotou as tropas da mãe na histórica batalha de São Mamede, em 1128, e a seguir derrotou os mouros, na mítica batalha de Ourique, em 1139. Foi depois dessa batalha que Afonso Henriques decidiu proclamar-se Rex Portugallensis

(onde ainda ecoava a palavra “galense”, também de “Galécia” ou “Galizia”, “Galegos”. Mas o reino de Portugal só se consolidou mesmo depois da batalha de Aljubarrota, em 14 de agosto de 1385, que opôs o Rei Dom João I, o Mestre de Aviz, ao rei Don Juan I de Castela. Os generais dos dois Joões eram irmãos: do lado português, Nun’Alvares Pereira, o Condestável; do lado castelhano, Pedro Álvares Pereira, que morreu na batalha. Essa batalha é considerada uma das paradigmáticas do mundo moderno em ascensão. Os portugueses contaram com 6 mil homens: 4 mil de infantaria, 1,7 mil cavaleiros, 800 besteiros (armados com bestas, aquela arma que fez Guilherme Tell famoso) e 100 arqueiros ingleses, chamados de “arqueiros longos”, porque usavam arcos grandes, do tamanho de um homem ou mais, e que eram de longo alcance e mais precisos. Os espanhóis estavam numa superioridade enorme: 31 mil homens, sendo 15 mil de infantaria, 6 mil cavaleiros, 8 mil besteiros, 15 morteiros, mais 2 mil cavaleiros franceses, que formavam a cavalaria pesada. Seus cavalos portavam verdadeiras armaduras de ferro, e os cavaleiros iam também com pesadas armaduras de metal. Eram uma coorte de “blindados”, uma cavalaria de choque. Entretanto, os portugueses ganharam a batalha, com mil perdas, contra 10 mil dos adversários, sendo 5 mil no campo de


arquivo pessoal

A caravela, símbolo maior de um país que dominava os sete mares: singrando as águas do império norte-americano

confronto e mais 5 mil depois, nas perseguições sangrentas que se seguem a esses acontecimentos. Por quê? Porque os portugueses tinham uma técnica de guerra mais up to date para esses confrontos que já apontavam a formação das nações modernas. País pequeno, tinha pouca gente; mas conduzia guerras “massificadas”. Do lado dos futuros espanhóis, o forte era a cavalaria francesa. Mas nas montanhas e ravinas onde a batalha se deu, esses cavalos e cavaleiros mais atravancavam o caminho do que se moviam; enquanto os portugueses se moviam com rapidez e, com seus cavaleiros portando armas e vestimentas mais leves, tinham uma mobilidade surpreendente. A batalha, travada ao entardecer, foi um desastre para os castelhanos e seus aliados. Os portugueses espalharam trincheiras, paliçadas pontiagudas e “calcitrapas” – ferrões pontudos voltados para cima com apoio num tripé de ferro, que feriam os cavalos, os cavaleiros e os infantes. Eram técnicas que favoreciam a infantaria a pé, em detrimento da cavalaria. E havia também os arqueiros, que, com seu longo alcance, derribavam os cavaleiros antes mesmo que estes começassem a atacar. Essa batalha, que sucedeu à de Crécy (1346) e à de Poitiers (1356), e antecedeu a de Agincourt (1415), todas na França, com técnicas semelhantes, é considerada um dos grandes marcos do declínio da cavalaria medieval: o restante seria assun-

to para o Dom Quixote, publicado quase 200 anos depois da última. Registre-se também que os portugueses foram os inventores da formação em quadrado, quando um pelotão de infantaria assume essa forma para resistir a um ataque de cavalaria, o que aconteceu na batalha dos Atoleiros, em 1384, quando 1 mil infantes, 300 cavaleiros e 100 besteiros derrotaram 5 mil castelhanos (2 mil cavaleiros e 3 mil infantes). Mas isso não era tudo. Comprimido entre os reinos da futura Espanha, desunidos, mas poderosos, e o mar, Portugal só podia se expandir, como era a vocação de seu sistema já capitalista (ainda que muito de Estado...), na direção do último. Os portugueses tornaram-se navegadores de vanguarda: entre outras coisas, porque reuniram em suas “escolas de navegação” os melhores cartógrafos de então, fossem árabes, judeus, ou de outra origem, sem distinção. Além de avançados, foram os “democratas da tolerância”: as intransigências da Inquisição só viriam mais tarde. Reuniram “línguas”: gente poliglota, que enviavam em suas embarcações, que eram... as melhores do mundo de então. Por quê? Porque os “engenheiros navais” (o termo não existia então) portugueses conseguiram resolver o nó górdio da navegação. Combinando velas triangulares (então ditas “latinas”) e retangulares (então ditas “redondas”), de acordo com a forma que pareciam ter quando enfunadas e vistas de frente, con-

seguiam manobrar com grande velocidade e navegar praticamente contra o vento, se fosse necessário. Criaram assim a chamada “caravela redonda”, inspirando-se nos navegadores árabes do Mediterrâneo, e depois as velozes e poderosas “naus”, que levavam três mastros e seis velas, velozes, seguras e também ágeis para o seu porte. Tão importante era essa “conquista tecnológica”, que os capitães portugueses tinham ordem de queimar as caravelas e naus ao invés de as verem aprisionadas. Mas como o mundo já ia capitalisticamente orientado, o segredo das naus portuguesas não durou muito: compartilhado, tornou-se também a marca da expansão espanhola, depois da holandesa e finalmente da inglesa, que eclipsaram o então (no século XVI) já combalido império colonial português. Que assim mesmo duraria até o século XX, sendo um dos últimos a se desmantelar no mundo, graças às guerras de libertação dos povos no século XX. Portugal: vanguarda do capitalismo europeu em expansão, quem diria... Hoje os senhores do capitalismo e das marinhas de guerra são outros, ou um só, os Estados Unidos, sobretudo. Entretanto, os senhores de hoje parecem pequenos, diante daquele destemor português de antanho. Que não nos deve servir de exemplo enquanto ideal de conquista, coisa que queremos superada por um ideal de solidariedade, mas talvez como idéia de abertura e de inovação.

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Direto do texas, estados unidos João Valentino correspondente joaovalentino@abcdmaior.com.br

Tintim em alta tecnologia, mas sem nenhum caráter arquivo pessoal

E a liberdade, igualdade e fraternidade defendidas pelo herói francês se perderam na versão hollywoodiana do diretor Steven Spielberg

Da série clássica de Hergé, a história em quadrinhos O Segredo do Licorne, de 1943, ganha versão de Steven Spielberg: francesinho se transforma num ianquezinho

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e há um menino que não envelhece, ele se chama Tintim. Nascido em 1929, das penas do cartunista belga Hergé (Georges Remi, 1907-1983), ele atravessou o século XX criando o sonho de bravura e justiça na cabeça de adolescentes de todo o mundo. Primeiro, em preto e branco em tirinhas de jornal; depois, todo colorido, em revista própria e em desenho animado. E agora, em filme com as técnicas mais avançadas, dirigido pelo mestre de efeitos especiais Steven Spielberg. O pequeno repórter continua, nesta sua nova aparição, mais esperto que qualquer espião ou detetive, e sempre capaz de resolver qualquer mistério. Porém, sua feição artística mudou. Produzido com o processo motion capture, ou captura de movimento, que mescla nas imagens aquilo que foi realmente filmado com cartum, As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne, baseado no episódio de mesmo título, lançado em quadrinhos em 1943, leva à tela grande não apenas Tintim, mas também o capitão Haddock, o cãozinho Milu e os investigadores Dupond e Dupont, com bastante realismo, ainda que o espectador não se esqueça um instante de que se trata, na verdade, de desenhos.

Sim, os detalhes das expressões do rosto, dos movimentos dos olhos ou dos dedos correndo uma linha de texto parecem muito mais verdadeiros e humanos do que aqueles que os fãs de Hergé estão acostumados a encontrar em seus traços despretenciosos. Ponto alto da indústria cinematográfica, sim, mas em muitos momentos o filme parece ter sido feito apenas para explorá-la, e esse talvez seja seu ponto fraco. Vencedor do Globo de Ouro de melhor animação, o que indica que certamente será também forte candidato ao Oscar dessa categoria, na telona, o novo Tintim parece ter-se esquecido de alguns dos mais marcantes princípios que o caracterizaram nos quadrinhos de jornais ou revistas. Pois é, o simpático europeuzinho, adepto do lema liberdade, igualdade e fraternidade, teve de se adequar às exigências hollywoodianas para se tornar um brigador das telas. Que pena! Mas nem sempre inovações tecnológicas respeitam valores éticos. O roteiro abocanhou passagens de várias das 24 aventuras originais de Tintim, mas todas com o objetivo de acrescentar sensações visuais a O Segredo do Licorne. Uma preocupação de Hergé, que não tem como ser esquecida pelos admiradores de Tintim, entretanto, é a de que o herói, ao


sony pictures publicity | internacional

combater toda sorte de criminosos, age sempre com sentimento de humanidade. E isso se perdeu com Spielberg. Em sua trajetória, Tintim já foi acusado de tudo, de elitista, imperialista e defensor dos detentores do poder, mas nunca tinha perdido o caráter, como agora. É evidente que o roteiro sofreria modernizações, mas a opção adotada acabou com as possibilidades de interpretação do personagem. Em seus originais, ele é oficialmente um repórter, mas também se permite ser visto como eficiente, sofisticado e talentoso agente da época da Guerra Fria, a serviço do bloco capitalista (em algumas aventuras). Ou então um menino qualquer que

brinca do “faz de conta que eu era o mocinho”, superdestemido diante das mais adversas situações, superadas com muita imaginação e pequenos arranhões. É assim que ele invade a União Soviética, para mostrar ao Ocidente as barbáries do regime de Stálin. Visita o Congo, então possessão da Bélgica, para civilizar colonos. Vence a corrida espacial, chegando à lua antes de americanos e russos. Conhece o fundo dos mares, à cata de tesouros. Resolve perigosos esquemas de tráfico de drogas no Oriente. Vai ao Tibete salvar um amigo. Ou depõe um caudilho de San Teodoro, o esterótipo de um país latino-americano nos anos 1970.

Agora, já maduro e consagrado, com mais de 80 anos de sucesso, o jovem das bravas aventuras tornou-se mais um ianquezinho a fazer estripulias contra bandidos do cinema, distribuindo-lhes socos no queixo e pontapés nas nádegas. Assim, quem conhece um pouco do Tintim é candidato a decepcionar-se com o lançamento de Spielberg, não pelos efeitos visuais inovadores, que sempre encantam. Mas com o encanto que o singelo Tintim desperta nas linhas graciosas e econômicas de Hergé e que está ausente nesse filme de última geração. Aliás, também disponível em 3D da mais alta qualidade.

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DIVULGAÇÃO

ponto de vista | Orlando R. Kelm

O tal jeitinho brasileiro também é uma inovação uitas vezes me perguntam por que, na Universidade do Texas, a gente tenta enriquecer o currículo, levando nossos MBAs da McCombs School of Business para visitas de duas semanas a outros países. Para entender o porquê, eu gostaria de compartilhar uma experiência que tive anos atrás. Eu estava no Rio de Janeiro com um grupo de executivos norte-americanos. Era hora do almoço, e os representantes de uma empresa brasileira iriam nos levar a um restaurante bem perto do escritório deles, no Leblon. No caminho, porém, os brasileiros ficaram sabendo que um dos americanos de nosso grupo era de Miami e gostava muito de veleiros. Imediatamente nossa amigável anfitriã sugeriu: “Bem, se você gosta de veleiros, a gente precisa almoçar no Iate Clube, em Botafogo”. Daí, em vez de almoçar no Leblon, fomos direto para Botafogo. Depois do excelente almoço, outra vez nossa colega brasileira sugeriu: “Sabe, está acontecendo uma exposição de veleiros na praia do Flamengo, vamos dar uma rápida olhada neles, antes de voltar para o escritório, tudo bem?” A essa altura, os americanos já estavam muito preocupados, porque era tarde, tínhamos muitas reuniões marcadas, muitos tópicos para discutir, e parecia que não daria tempo para concluir todos os detalhes. Tenho que confessar que a visita a

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exposição foi muito legal. Mas, então, a anfitriã brasileira ligou para a matriz: “Ó, vem cá, o trânsito está terrível hoje. Vamos chegar um pouquinho atrasados. Por favor, faça os ajustes na agenda da tarde, ‘brigada, beijo.” E não é que o dia chegou ao final, deu para falar com todo mundo, resolver tudo o que tínhamos para resolver, e alcançamos todas as metas e objetivos da visita? Depois, fiquei pensando na experiência. Nossa anfitriã nos deu uma tremenda mostra da famosa “flexibilidade” brasileira. Tenho certeza absoluta de que, se a mesma situação tivesse acontecido aqui em Austin, no Texas, teríamos dito aos nossos visitantes brasileiros: “Que pena que não sabíamos que vocês gostam de veleiros, porque teríamos levado vocês para o Iate Clube. Na próxima vez, combinaremos essa visita”. Também teríamos lamentado: “Que triste, porque justamente neste momento tem uma exposição de veleiros aqui na cidade. Infelizmente já tem muita coisa programada para hoje. Tomara que na próxima visita a gente tenha tempo para aproveitar isso”. Em Austin, a gente teria perdido a oportunidade de mudar de restaurante e de ver a exposição. Por quê? Porque o forte do americano é que ele se organiza muito bem e prepara uma agenda bem detalhada. Infelizmente, sair dessa agenda é mais difícil. Essa experiência nos dá uma mostra muito forte da diversidade no mundo. O interesse dos meus alunos pelo Brasil começa com essa ideia de que todos

nós vivemos num mundo muito diverso. E, se quisermos ser inovadores, precisamos nos expor a essas diversidades. Em maio deste ano, uma delegação de estudantes da Universidade do Texas vai poder interagir com executivos do Banco do Brasil, Itaú, Finep, Petrobras e Embraer. Assistirão a palestras dos professores da FGV-SP e vão entrevistar executivos “estrangeiros” que moram no Brasil. No Rio, passarão um dia no Morro do Cantagalo, e em São Paulo, visitarão o canteiro de obras do futuro estádio do Corinthians. Imaginem como será quando 35 alunos norte-americanos deixarem o Brasil, todos vestidos com as camisas do Timão! Sabemos que o Brasil se encontra numa posição nova e importante no cenário internacional. O país nunca teve uma imagem tão positiva como a que desfruta agora. Esse é momento de crescimento econômico, de preparação para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016, de desenvolvimento de novas energias e de novas estratégias para alimentar e educar o povo. Como já mencionei, vivemos num mundo muito diverso, e, se quisermos ser inovadores nos Estados Unidos, temos que participar dessa diversidade também. E quem sabe no futuro, nós, os norte-americanos, seremos tão flexíveis, que também poderemos mudar de restaurante já no caminho para o almoço. Orlando R. Kelm é professor da Universidade do Texas, em Austin, e diretor associado do Centro de Ensino e Pesquisa de Negócios Internacionais (Ciber), da escola McCombs.


inova 17  

Ed 17 da revista INOVA

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