Jornada ABCA 2021: CRÍTICA DE ARTE DIANTE DAS CRISES ATUAIS

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Harriet Mena Hill, crise e pandemia: o silêncio e a desaparição na imagem Luciane Ruschel Nascimento Garcez UDESC

RESUMO: Em tempo de crises, cada artista encontrou, ou ainda procura, sua própria forma de lidar com o isolamento, o medo, a insegurança, as perdas. A Peste Negra chegou às costas europeias em 1348. Em 1350, ano em que recuou, havia derrubado quase metade da população da região. Em um afresco do século 14, na França, na antiga Abadia de Saint-André-de-Lavaudieu, vemos como a peste afetou a representação da imagem. A proposta deste estudo é pensar a arte no contemporâneo, a partir da artista britânica Harriet Mena Hill, justamente em relação às produções plásticas decorrentes da crise mundial gerada pela pandemia causada pelo Covid-19, fenômeno que atingiu o mundo em 2020, e vem se desenrolando ainda em 2021. Hill já trabalhava, propondo atividades artísticas, com um grupo de jovens de baixa renda, residentes do Aylesbury State, Londres, que por décadas foi o símbolo do fracasso do projeto social de habitação britânico. Durante a pandemia, mesmo estando tudo parado, em suspensão, o governo procedeu com a demolição de um enorme bloco de apartamentos na propriedade. Segundo Hill, “Tudo o mais havia parado e parecia intensificar a brutalidade do processo de demolição de todas as casas que estavam contidas no bloco (mais de 500 moradias). As ruas ao redor estavam extremamente silenciosas e os únicos sons eram os de se quebrar e se abrir quando o prédio foi destruído”. A série de pinturas de Hill que veremos, pinturas no concreto, série Aylesbury Fragments, vem como uma reação a esta crise, onde a artista coleta fragmentos dos prédios demolidos e pinta os próprios edifícios e arredores sobre eles, deixando “retratos”, “instantâneos”, rastros e vestígios desta paisagem vernacular em desaparecimento eternizadas na arte. São imagens silenciosas que mostram um imenso complexo de apartamentos, onde o vazio e o isolamento são a tônica presente. PALAVRAS-CHAVE: Harriet Mena Hill; crise; arte; silêncio; vestígio. ABSTRACT: In times of crisis, each artist found, or still seeks, his own way of dealing with isolation, fear, insecurity, losses. The Black Death reached the European coasts in 1348. In 1350, the year in which it retreated, it had toppled almost half of the region’s population. In a fresco from the 14th century, in France, in the former Abbey of Saint-André-de-Lavaudieu, we see how the plague affected the representation of the image. The purpose of this study is to think about art in the contemporary, from the British artist Harriet Mena Hill, precisely in relation to the plastic productions resulting from the world crisis generated by the pandemic caused by Covid-19, a phenomenon that hit the world in 2020, and has been still unfolding in 2021. Hill was already working, proposing artistic activities, with a group of low-income youths, residents of Aylesbury State, London, who for decades was the symbol of the failure of the British social housing project. During the pandemic, even though everything was stopped, in suspension, the government proceeded with the demolition of a huge block of apartments on the property. According to Hill, “Everything else had stopped and it seemed to intensify the brutality of the process of demolishing all of the homes that had been contained in the block (more than 500 dwellings). The surrounding streets were extremely quiet, and the only sounds were those of smashing and wrenching as the building was torn apart”. The series of Hill paintings that we will see, concrete paintings, Aylesbury Estate series, comes as a reaction to this crisis, where the artist collects fragments of the demolished buildings and paints the buildings and surroundings on them, leaving “portraits”, “snapshots”. Traces and traces of this vernacular disappearing landscape eternalized in art. They are silent images that show an immense apartment complex, where emptiness and isolation are the keynote. KEYWORDS: Harriet Mena Hill; crisis; art; silence; trace. 151


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