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Capítulo I Era uma tarde muito quente do mês de dezembro. O ano era 1998. A cidade estava vazia por conta das férias escolares. Apenas o clube da faculdade estava cheio. Belas garotas e rapazes aproveitando o sol e as piscinas. Pessoas de bem com a vida, conversando, se divertindo, curtindo o calor de 35 graus. Foi quando Renata a viu: linda, pele bronzeada, cabelos loiros, olhos castanhos... Bastou para sentir-se atraída. Cristiane realmente chamava a atenção. Mas não só por causa da beleza. Cristiane cativava as pessoas, era divertida, alegre, e muito amiga. Elas já se conheciam desde 1996. As duas tinham uma amiga em comum, Andréa. E numa das comemorações de seu aniversário, em agosto de 1996, elas se conheceram. Renata notou a presença de Cris, e para ela era a menina mais bonita da festa. Mas estava namorando uma outra garota, e além do mais, Cris não parecia ser do tipo que se interessaria por mulheres. Renata até gostava desse tipo de desafio, mas acabara de conhecer Mariana, e estava feliz ao seu lado. O namoro com Mariana começou a dar sinais de desgaste dois anos após ter iniciado. Renata e Mariana eram muito parecidas em muitos aspectos, mas queriam coisas diferentes. Elas nunca brigavam, mas se davam melhor como amigas. E foi nessa época que Cristiane chamou mais a atenção de Renata. Naquela tarde no clube, algo mágico, tão forte quanto um campo magnético aconteceu entre as duas, naquela fração de segundo em que seus olhos se encontraram. Foi como se o mundo tivesse parado de girar por alguns instantes. Renata soube de imediato que estava apaixonada. Só não sabia o quanto seria complicado. Renata sempre foi o tipo de garota que sabe o que quer, que vai atrás de seus sonhos e segue muito seus instintos, apesar de ter os dois pés bem fincados no chão, e ter a praticidade como sua maior característica. Não dá ouvidos aos que falam mal dela. Sempre sentiu atração por garotas, desde que era criança. E não era uma “fase”, como as professoras de seu antigo colégio costumavam dizer. Hoje, com 26 anos, sabe exatamente como quer viver sua vida. Sempre tratou as mulheres com quem saía com muitas gentilezas, muito carinho e muito amor. Era uma pessoa por quem era fácil de se apaixonar. Seu jeito cativava as outras meninas, mesmo as que não apresentavam nenhum traço de homossexualidade. Teve muitas namoradas, mas ainda estava a procura de sua alma gêmea. Trabalhava numa pequena empresa prestadora de serviços. Cuidava da parte administrativa. Realizava suas tarefas muito bem, mas ainda não tinha encontrado o emprego certo. Continuava lá apenas porque precisava do dinheiro. Afinal, morava sozinha, e não era fácil se sustentar, apesar de ter uma boa quantia guardada para emergências, que herdou de um parente distante. Não tinha mais contato com sua família, com quem brigara há anos. Só contava com seus poucos amigos. Cristiane era uma garota muito querida. Muitos amigos, muitos conhecidos. Era muito popular. Não existia uma pessoa que não gostasse dela. Trabalhava com esporte, por isso seu corpo era escultural. Amava o que fazia. Sempre deu muito valor a família e seu maior sonho era se casar e ter filhos.


Cristiane e Renata eram muito diferentes. Talvez por isso se gostaram tanto. Mas foram a beleza e a sensualidade de Cris que mais atraíram Renata. O jeito que Cris tratava Renata era especial, e isso fez com que ela se apaixonasse. Cris era muito carinhosa, muito atenciosa. Não era a toa que vivia com um batalhão de homens aos seus pés. E ela gostava disso. Renata ficava com ciúmes de todo esse assédio. Mas o que poderia fazer? Tentar seduzi-la, e mostrar outras formas de amar à Cris. Agora que havia sentido uma “abertura”, não iria desistir fácil. Renata convidou Cris para ir ao cinema, numa terça-feira, final da tarde. Ela iria pegá-la em casa, e poderiam ir num cinema ali perto. Chovera o dia inteiro, e a cidade estava um caos. Cris morava longe de Renata, que praticamente atravessou a cidade para encontrá-la. Escolheram um filme infantil, e por incrível que pareça a sessão estava vazia. A sala era inteira das duas. Em determinado momento do filme, seus dedos se tocaram. Foi uma descarga de adrenalina tão intensa! Como se um choque percorresse seus corpos. Seus dedos mal se mexiam, ninguém queria arriscar a perder aquele momento. E então Renata tomou a iniciativa e pegou a mão de Cris. Pareciam duas adolescentes se conhecendo e saindo juntas pela primeira vez. Sentiram uma emoção muito grande apenas por estarem ali, de mãos dadas. Renata sentia que Cris gostava dela, mas temia que Cris nunca assumisse isso, e tivesse medo de se entregar a esse sentimento. Cristiane estava saindo com um rapaz da faculdade, o que deixava Renata com muito ciúmes. Era hora de agir. Uma semana após irem ao cinema, Renata chamou Cris para terem uma conversa. Foram a um barzinho, pediram bebidas, e começaram a conversar sobre assuntos variados, até que Renata pergunta: - Cris, o que você faria se soubesse que uma amiga sua gosta de você... de um jeito diferente? Essa pergunta pegou Cristiane de surpresa, ela não esperava por isso, e, embora sentisse algo mais forte por Renata, não se imaginava com uma mulher. - Não sei! Acho que nunca teria coragem de levar isso adiante! Na verdade nunca me passou pela minha cabeça. Eu sempre gostei de homens! Mesmo não sendo a resposta esperada, Renata decidiu continuar. Não tinha nada a perder, e estava muito apaixonada: - Queria te dizer que sou apaixonada por você, desde o primeiro dia em que te vi... Cris ficou completamente sem reação. Não sabia o que fazer, mas sabia que estava sentindo a mesma coisa, só não tinha consciência disso até aquele momento. Com 23 anos e ainda dependente financeiramente dos pais, sabia que sua família nunca aceitaria. - Isso nunca daria certo. Eu nunca assumiria! É melhor nem tentarmos levar isso adiante. Essas palavras quebraram o coração de Renata, e todas as esperanças que ela poderia ter. Mas não poderia desistir. Seu sentimento era enorme, não cabia mais dentro de seu coração. E sentia que era correspondida.


A família de Cristiane era daquelas bem tradicionais e radicais. Seu pai dizia que homossexuais deveriam ser todos mortos. Eram radicais com todos os assuntos polêmicos. Diziam que preferiam morrer a ter filhos drogados ou ”gays”. Sua mãe fez uma espécie de “lavagem cerebral” nas filhas, dizendo coisas do tipo: - Se dançarem muito grudadas nos meninos, cuidado que podem engravidar! Esse tipo de coisa fez com que Cris fosse bem medrosa. Mantinha os rapazes numa distância segura. Tinha seus momentos íntimos com eles, mas sempre até certo ponto. Nunca deixava a relação se completar. Cris e Rê mantinham contato pelo “pager”, aparelhinho da época que permitia o envio de mensagens, por meio de um operador. É como se fosse o SMS de hoje, mas o usuário tinha que ligar para uma central e passar a mensagem pelo operador, que transmitia ao destinatário. Viviam trocando mensagens. Na maioria das vezes, piadinhas, alguns “bons dias”, nada muito mais sério. Como duas amigas. Mas Renata estava paquerando Cristiane. E com certeza ela estava gostando disso. Encontravam-se algumas vezes, almoçavam juntas, estavam se gostando, mas só conversavam. Um belo dia Cris ligou para Rê e pediu para que ela fosse até sua casa. Precisavam conversar e colocar um ponto final nessa situação. Renata chegou na casa de Cris as 8 horas da manhã do sábado, dia 06 de março de 1999. Sentaram-se no sofá da sala. Todos estavam viajando. Cris começou: - Rê, eu te chamei aqui, porque gosto muito de você, sei que estou apaixonada, mas precisamos deixar de nos ver e de nos falar. Não vou aguentar essa situação por muito tempo. Preciso estar com você o tempo todo, mas não posso! Minha família nunca aceitaria, nem eu mesma me aceito. Precisamos dar um fim nisso enquanto ainda é tempo, antes que nossos sentimentos fiquem mais fortes. Renata já esperava por uma reação assim, por isso não se surpreendeu. - Cris, eu faria tudo para ter você! Mas te entendo. Não é mesmo uma vida muito fácil. As pessoas são preconceituosas, não respeitam os sentimentos alheios, não conseguem entender que duas pessoas se amam, simples assim, independente do sexo delas. Talvez seja melhor não nos vermos por algum tempo, até eu poder olhar para você e enxergar apenas uma amiga. Vai ser muito difícil para mim, pois como eu te disse, estou perdidamente apaixonada. Mas não faria nada que te magoasse. Quero que seja feliz. Só queria ser o motivo da sua felicidade. Mas se você não se sente bem com essa situação, eu entendo. - Ai, Rê, vai ser tão difícil para mim também! Mas temos que conseguir agora, antes que seja tarde demais. Continuaram conversando sobre outros assuntos. O coração de Renata doía, só de pensar em ter que ir embora para não voltar mais. Pediu um copo de água, e depois iria embora. Tomavam a água em pé, ao lado da pia, e Renata pediu um abraço a Cris. Foi um abraço


apertado, cheio de desejo! Renata não resistiu, beijou o pescoço de Cris, foi beijando seu rosto, e quando perceberam estavam cara a cara, e se beijaram. O beijo mais doce, apaixonado e cheio de carinho, que as duas queriam a muito ter experimentado. Cris tremia como se fosse seu primeiro beijo (e era, numa mulher, afinal). Renata estava realizada. Há muito tempo esperava por essa oportunidade. Sentaram novamente no sofá, e Renata acariciava as pernas de Cris, fazendo com que ela ardesse de desejo. Mas... a razão voltou e Cris pediu para que Renata fosse embora. Não poderia aguentar a pressão da família, dos amigos e da sociedade. Era melhor assim.

Capítulo II Renata chegou em casa muito triste. Teve uma crise de choro descontrolada. Não conseguia parar de pensar em Cris, e naquele beijo. Não queria perdê-la sem nem mesmo tê-la tido. Queria mais, queria namorá-la, mimá-la, fazer amor com ela. Queria sentir seu corpo, seu perfume. Queria levá-la ao cinema, ao teatro, jantar fora. Queria uma vida junto, formar uma família. Sentia que seria muito difícil, mas algo em seu coração dizia para ela não desistir. Resolveu ligar para Cris, precisava ouvir sua voz: - Oi Cris... Precisava te dizer que não vou conseguir ficar sem você. Preciso ao menos te ver, falar com você. Estou muito apaixonada, deixe que eu te faça feliz! Preciso de você... - Rê, você está chorando? Por favor, não fique assim. Não quero que as coisas piorem. Eu também estou apaixonada, mas sabemos que não dá para continuar. Não vamos deixar de ter amizade nunca, apenas não podemos ficar nos vendo tanto. Você tem que encontrar alguém, e eu também. Nunca vamos esquecer o que aconteceu, mas não podemos ficar juntas. - Eu sei, Cris, que por um lado você tem razão. Mas meu coração não aceita! Ele quer estar com você!! Adoro você! Nunca se esqueça disso! Desligaram o telefone chorando. Renata resolveu pegar o carro e sair. Sempre fazia isso quando precisava pensar. Não se conformava com a injustiça do mundo. Por que duas pessoas que se amam não podem ficar juntas só porque são do mesmo sexo? Por que ainda existe tanto preconceito na sociedade? Por que as pessoas não podiam simplesmente entender o amor? Que ele independe de raça, sexo, cor ou religião? Estava revoltada! Passou pelas Marginais, viu muitas pessoas pobres pedindo dinheiro nas ruas, sem ter o que comer. Pensava nas injustiças. Com tantos problemas a serem resolvidos, a população ainda se importava com a vida dos outros. Passou pelos bairros nobres de São Paulo. Grandes mansões, entre jardins. Muitas árvores numa cidade suja e poluída. Isso era privilégio de alguns. No carro, fumando um cigarro atrás do outro, começou a imaginar como seria morar em outra cidade, outro país. Gostava de São Paulo em certos momentos. Mas não iria querer viver aqui até morrer. Pensava em mudar-se para o interior, para um lugar mais tranquilo, sem tantas preocupações e nem tanto stress. Paulistanos são agoniados, vivem com pressa. Renata era paciente e calma, não combinava com o perfil da cidade.


Gastou quase um tanque de gasolina. Estava há horas nas ruas. Voltou para casa e procurou dormir. Ao mesmo tempo Cris foi procurar sua melhor amiga. Não sabia o que fazer, precisava de uma opinião de alguém de fora da situação. Talita ficou perplexa quando soube. Não que se incomodasse, afinal, era “gay” também. Mas porque não esperava que sua amiga Cristiane, que saía com vários rapazes da faculdade, se interessaria por outra mulher. Buscou uma jarra de água e um copo. Deu o copo para Cris, e tomou direto da jarra mesmo. Cris achou divertida a reação da amiga. - Ai, Ta, só você para me fazer rir numa hora dessa... - Cris, me conta, o que mais aconteceu? Vocês só se beijaram? - Claro né, Ta, o que você queria que acontecesse? - Ah, então não vale. Para você saber mesmo se é isso que quer (ou que não quer), você vai ter que sair com ela uma vez, pelo menos. - Como assim? - Ah, você sabe né? Ir ao motel. Cris riu nervosa. Havia imaginado e morria de vontade, mas jamais poderia fazer isso! Como entraria no motel em companhia de outra mulher? - Imagina Talita!! Não vou fazer isso! - Tá bom, foi só minha opinião. Vai ficar com isso na cabeça, sem saber se gosta ou não. - E se eu gostar? - Aí você vive esse amor, ué? Dá para esconder da família. Eu namoro há tanto tempo e nunca ninguém desconfiou. – Talita não imaginava, mas seus pais desconfiavam de seus relacionamentos há tempos. Só preferiam fingir que não sabiam. Era mais fácil do que enfrentar. Cris foi embora pensativa. Saiu mais confusa do que quando chegou. Mas por incrível que pareça estava mais tranquila. Voltou para casa e descansou. Nos dois dias seguintes, não falou com Renata, não se viram. Mas a saudade apertou e na terça-feira Cris acabou ligando. Queria sair com ela de qualquer jeito. As palavras da amiga Talita não saíam de sua cabeça. Renata ficou feliz. Marcaram de se encontrar num shopping. De lá foram direto para o motel. Não aconteceu nada de mais. Queriam estar juntas sem ninguém por perto. Abraçaram-se, beijaram-se, curtiam algumas horas que passaram voando. Não queriam ir embora nunca mais. Infelizmente era preciso. Os dias seguintes foram torturantes. Ambas queriam telefonar, ver, estar com a outra, mas não podiam. Passou-se um mês inteiro nessa tortura.


Renata ainda queria estar com Cris, mas não tinha mais esperanças. Das últimas vezes que conversaram soube que Cris estava namorando um rapaz que conheceu na praia. Renata acabou saindo com outras garotas, mas não gostava de ninguém além de Cris. Sentia que tinham arrancado parte de seu coração. Queria poder mudar o mundo. Muitas vezes desejou ser um homem, assim poderia ter a mulher que amava.

Capítulo III Começo de junho. O pessoal da faculdade resolveu fazer uma viagem. Iriam mais de 100 pessoas. Renata não queria ir, mas mudou de ideia quando soube quem estaria lá. Isso mesmo, Cristiane também estaria presente. Seria uma longa viagem de ônibus, mas não tinha problema. Mesmo que nada acontecesse, estariam perto uma da outra. Nas primeiras horas da longa viagem o ônibus estava animado. Todos contando piadas e histórias. A turma do meio era a que mais agitava. Não parava um minuto de bater papo. Renata estava sentada junto com outra amiga, mas resolveu trocar de lugar e viajar ao lado de Cris. As duas foram conversando animadamente durante todo o trajeto. Enfim chegaram ao seu destino. Foram direto aos alojamentos, e não poderiam fazer nada além de dormir. Afinal, fora uma viagem longa e cansativa, para não dizer incômoda. Renata não demorou nem 5 minutos para adormecer, e sonhar com Cris. Ficaram cerca de 4 dias na cidade. Passaram a maior parte do tempo juntas. Depois de um mês sem se falar, estava valendo a pena. Parecia que agora nada mais as separaria.

Capítulo IV Tudo parecia um lindo sonho. Cristiane e Renata estavam felizes, se encontrando e se dando muito bem. Na maioria das vezes tinham que sair escondido, pois os pais de Cris jamais poderiam desconfiar que as duas estavam apaixonadas. Era um sábado quando saíram para jantar. Pediram uma garrafa de vinho tinto para acompanhar o prato de massa. Estava muito frio! Parecia que o inverno finalmente resolvera aparecer. Divertiram-se muito durante o jantar. Fazia 4 meses que estavam saindo, 4 meses desde aquele primeiro e delicioso beijo que trocaram na casa de Cris. Resolveram esticar a noite na casa de Renata, em comemoração aos seus 4 meses de namoro. Era uma casinha de tamanho médio, às vezes muito grande para uma pessoa, e muito aconchegante. Logo ao entrar via-se uma lareira perto de dois sofás e um grande tapete, daqueles bem macios, que dá vontade de dormir em cima. Mais atrás ficava a mesa de jantar e um quarto, todo decorado em tons de azul bem clarinho, com uma cama de casal enorme! A cozinha era gigante, quase desproporcional ao tamanho da casa, mas Renata fez questão de tê-la grande, pois um de seus maiores prazeres era cozinhar. Os móveis eram novos, ainda cheiravam madeira. E do lado de fora tinha um quintal e espaço para três carros na garagem.


No banheiro da suíte, uma banheira de hidromassagem comportava duas pessoas confortavelmente. Assim que entraram, Cris avistou uma garrafa de champanhe num balde de gelo, morangos e um bilhete ao lado de uma das taças: “ Você é o meu maior presente. E o grande amor da minha vida. Parabéns pelo nosso dia. Te amo!” Cris ficou muito emocionada com a surpresa. Abraçou Renata e a beijou, demonstrando todo o amor que sentia. Tomaram o champanhe, comeram alguns morangos. Deitaram lado a lado em frente a lareira e começaram a namorar. Acariciavam-se com muita vontade, desejavam esse momento há tempos. Renata tirou a roupa de Cris bem devagar, admirando cada parte de seu corpo. Beijava seu pescoço, acariciava seu rosto e seus cabelos, beijava e lambia seus seios com carinho. Virou-a de costas, fez uma massagem com óleo aromatizado. Tirou sua própria roupa e deitou sobre Cris, sem parar de beijar seu pescoço. Descia a boca por suas costas e pernas. Sentiu com seus dedos o prazer da outra. Virou-a de frente novamente, iniciou um delicioso sexo oral, que levou Cris ao delírio total. Foi a melhor noite da vida das duas. Fizeram amor até de madrugada. Adormeceram nos braços uma da outra. Pela manhã, Renata apareceu com uma bandeja com o café da manhã. Deu um beijo de bom dia em sua amada. Cris acordou com um largo sorriso, mais uma vez surpresa com as gentilezas de Renata. Nenhum homem havia feito com que ela se sentisse tão completa e tão desejada. Tomaram o café da manhã sem pressa. Domingo, poderiam ficar o dia inteiro na cama. E foi o que fizeram. A temperatura lá fora não era nada animadora. Amaram-se a tarde toda, até a hora em que Cris precisou ir para casa. Sua mãe deveria estar preocupada com sua demora. Sabia que ela dormiria fora de casa, mas esperava que a filha almoçasse com a família no domingo. Cris faltou no almoço, apareceu em casa as 20 horas, com um sorriso nos lábios e uma paz interior. Tinha tido um ótimo final de semana. Sua mãe não fez muitas perguntas, para alívio de Cristiane, pois ela não gostaria de mentir. Tomou um banho, conversou um pouco com os pais e irmãos e foi dormir. Sonhou a noite toda com Renata e com os bons momentos que tiveram. Renata ficou sozinha em casa pensando em Cris, e desejando tê-la em seus braços novamente. Pena que era tão difícil conseguir momentos como aquele, sem chateações, sem perguntas, sem cobranças. Um dia tomaria coragem e pediria Cris em “casamento”. É claro que as leis do país não permitem o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas pelo menos poderiam morar juntas. Esse era o sonho de Renata. Adormeceu pensando nisso.

Capítulo V As coisas começaram a sair do controle. Antes, muitos homens ligavam para sair com Cris, e ela estava sempre se relacionando com alguém. Agora era diferente. Sua mãe começou a desconfiar. E Cristiane não sabia mentir. Resolveu procurar Renata para conversar:


- Re, precisamos conversar... - Aconteceu alguma coisa, meu amor? - Sim, minha mãe está desconfiada. Precisamos dar um fim nessa situação. Ou então terei que arrumar um namorado, nem que seja para manter as aparências em casa. - Cris, desculpe, eu sei que as coisas não devem estar fáceis para você, mas eu não suportaria saber que está saindo com outra pessoa. - Mas Re, é diferente, seria só para manter as aparências. Eu posso estar com um homem, mas é você quem eu amo. Preciso despistar minha mãe! - Cris, você deve escolher. Não vou conseguir dividir você com ninguém. Se ainda tivéssemos um amigo “gay”, que topasse fazer esse teatro, tudo bem. Mas você arrumar um namorado, nem que seja “de mentirinha”, vai fazer com que tenha que beijá-lo, sair com ele sempre, e sabe-se lá o que mais. Não consigo aceitar. - Você não me deixa opções. Não posso enfrentar a minha mãe! Outro dia ela me questionou, e disse que preferia morrer a ter uma filha assim. Não posso contar a ela! – Cris estava com lágrimas nos olhos, temendo tomar a decisão errada, mas Renata não poderia aceitar. Ela não suportaria, e depois seria muito pior. Era melhor enfrentar a situação agora, nem que para isso tivesse que se separar de Cris. - Cris, você é quem escolhe. Eu sei o quanto deve estar sendo difícil para você. Se quiser podemos juntas falar com a sua mãe. Ela gosta de mim. Talvez entenda que está feliz assim e tente aceitar. - Não Renata, você não conhece a minha família. Eles me colocariam para fora de casa, e iriam querem me bater e em você também! Só me resta terminar tudo! Ao terminar de pronunciar a última palavra, se arrependeu. Ela não conseguiria viver longe de Renata, mas não poderia enfrentar a família. Não sabia o que fazer. - Rê, por favor! Será por pouco tempo. Eu preciso manter as aparências, eles nunca aceitariam. - Cris, por que não vem morar comigo? Eu ganho bem o suficiente. Podemos morar bem aqui. Você pode arrumar um emprego quando terminar a faculdade. - Não posso simplesmente fugir de casa. Não posso ficar brigada com a minha mãe. Ela é importante para mim. E para ela, é errado duas mulheres ficarem juntas. - Então continuamos saindo escondidos, ué, como estamos fazendo. Mas não posso aceitar ter que te dividir com mais alguém! – Renata estava começando a se irritar com aquela conversa. - Então estamos sem saída. Preciso me separar de você. - Vai jogar fora sua felicidade? Não vai nem tentar falar com a sua mãe para saber a reação dela? As vezes será melhor do que imagina.


- Sei que não vai ser melhor. E tem outra coisa, nem eu mesma sei se me aceito, e se quero viver assim para o resto da vida. Acho injusto a gente ter que sair como se fossemos duas amigas, sem poder dar as mãos, ou dar um beijo ou um abraço em público. Como se estivéssemos fazendo algo errado. Não quero viver escondida. - Não estamos fazendo nada de errado. Cada vez eu vejo mais casais “gays” de mãos dadas e se beijando na rua. Vai ter um momento que isso vai ser mais tolerado, e aceito. Não vai ser mais tão “estranho”. Só que precisamos dar tempo ao tempo. A sociedade está se acostumando aos poucos. E alguém tem que se expor, para que isso vá ocorrendo. Alguém tem que dar o primeiro passo. Se todos os casais “gays” ficarem escondidos para sempre, como é que vão nos respeitar? - Mas eu não quero me expor! Não quero que fiquem me olhando na rua como se eu fosse uma aberração! E minha mãe não vai aceitar nunca, já anda me perguntando dos meus namorados, dos homens que frequentavam minha casa. - Ok, Cris, então acho que não chegamos a um ponto comum. Você não tem coragem de enfrentar sua mãe, até entendo esse ponto. Mas também não se aceita. Gosta de mim, mas não o suficiente para me apresentar aos seus amigos como sua namorada. Tem vergonha de mim e do que sente por mim. Foi bom enquanto durou, eu nunca vou esquecer o que tivemos, mas acho melhor nos separarmos. Você vai viver a vida que achar mais cômoda, tanto para você quanto para sua mãe. Case-se com um homem, tenha filhos, e espero que seja feliz. Renata havia se transformado. Parecia uma pessoa fria e calculista. Cris chorava sem parar, não acreditando no que estava ouvindo. - Puxa, Re, parece tão fácil para você... - Não é nada fácil para mim. Está sendo a coisa mais difícil da minha vida falar essas coisas para você. Mas eu tenho que arrumar um jeito de ficar bem, ou pelo menos de acreditar que estou bem. Preciso esquecer você, seguir minha vida. E sou uma pessoa muito prática. Não gosto de confusão, nem de coisas mal definidas. Se quiser ficar comigo, ótimo, serei a pessoa mais feliz desse mundo. Mas se não quiser, o que eu posso fazer? Posso tentar, mas o que adianta eu tentar sabendo que você não quer, não assumiria, não conseguiria? Então o melhor a fazer é tentar te esquecer. Cristiane estava inconformada. Sabia que se arrependeria muito se fosse embora dali deixando as coisas como estavam, e sabia que jamais amaria alguém do mesmo jeito que amava Renata. Mas não tinha opção. Precisava esquecê-la. - Eu levo você para casa. – Renata se prontificou, pois Cris estava sem carro. - Não precisa, eu pego um taxi. - Cris, não quero que tenha raiva de mim. E acho que um dia seremos grandes amigas. Pode ser que demore. Você vai encontrar um novo amor, e eu também. Quero sempre guardar os bons momentos que vivemos. Por favor, deixe-me levá-la.


E assim foram. No carro, a caminho da casa de Cris, trocaram meia dúzia de palavras, mas não conseguiam falar mais nada. Tudo o que havia para dizer já fora dito, e as duas estavam muito tristes. Chegaram a casa de Cris 20 minutos depois. Foi o momento mais triste de suas vidas. Renata olhou nos olhos de Cris, talvez pela última vez, e não se conteve: - Eu te amo hoje, e vou te amar para toda a eternidade. Se você mudar de ideia, sabe onde me encontrar. E foi embora, sem olhar para trás, deixando Cris a beira das lágrimas novamente. Precisava se recompor antes de entrar, para que não houvessem mais perguntas.

Capítulo VI Após entrar em casa, Cris foi direto para o quarto, desvencilhando-se das prováveis perguntas de sua mãe. Agora estava com raiva de todo mundo, não queria falar com ninguém. As pessoas só queriam estragar sua felicidade. Não se importavam com seus sentimentos. Pensou na bobagem que havia feito, deixando Renata ir embora de sua vida. Depois de chorar por quase uma hora, pegou o telefone para ligar para Renata. Não conseguiria viver sem ela, teriam que dar um jeito de ficar juntas, mesmo se tivessem que enfrentar um monte de problemas. Estava decidida. Não poderia abrir mão de sua felicidade. No mesmo momento o telefone tocou: - Cristiane? – Era uma voz masculina do outro lado da linha. - Sim? - Desculpe incomodá-la, mas você conhece uma pessoa chamada Renata? - Conheço, o que aconteceu? Quem está falando? – Cris pressentia algo ruim. - Bem, nós encontramos o carro dela, e dentro de sua carteira havia um cartão com seu telefone. Não sabemos se ela tem família. - Por favor, o que aconteceu? – Cris estava aos prantos - Bem, ela foi encontrada há 30 minutos, o carro capotou. Não sei com lhe dar essa notícia, vocês eram muito amigas? - Sim, mais do que imagina! Onde ela está? No hospital? – Cris não queria pensar no pior, mas o pior já havia passado pela sua cabeça. Sentia-se culpada e arrependia-se do que havia dito e feito. - Está no Hospital das Clínicas. - Estou indo. – Cris desligou o telefone, pegou o carro e saiu, sem ao menos dizer aonde ia. Estava transtornada! E correu o mais que pode. Chegou ao hospital em 15 minutos, procurou o médico que ligou para ela. Parecia estar vivendo um pesadelo. Rezava para acordar, para que tudo não passasse de uma brincadeira de mau gosto. Não demorou a encontrar o médico:


- Doutor, você que me ligou, a respeito da Renata, quero vê-la, o que aconteceu? - Você deve ser Cristiane. Por que não se senta aqui e toma um pouco de água? - Por favor doutor!! Ela está bem? Posso vê-la?? - Sente-se. Cris sentou-se a contragosto, estava temendo algo muito ruim. Não poderia acreditar que algo houvesse acontecido. - Cristiane, acredito que sua amiga significava muito para você. - Como assim, ela ainda significa. O que está tentando me dizer? Por favor... – Cris chorava descontroladamente, o médico receitou um calmante leve a ela. - Infelizmente ela não resistiu aos ferimentos. Quando chegamos ao local do acidente, o carro estava capotado e pegando fogo. Ela deve ter morrido com a pancada na cabeça, e por isso não saiu do carro a tempo. O carro bateu um caminhão tanque. Seu corpo foi carbonizado. – O médico estava também transtornado, uma menina tão jovem perder a vida assim. Mas ele não podia omitir, precisava contar o que havia acontecido. - Não pode ser... Ela estava bem quando saiu da minha casa. Ela não pode estar morta! Faz menos de 2 horas que nos despedimos. Por favor diga-me que isso não é verdade. – Cris agora chorava muito e abraçou o médico, procurando um conforto, como se isso fosse fazer o amor de sua vida voltar. - Precisamos de você nesse momento. Não sabemos se ela tem família. Precisamos de alguém que reconheça o corpo, apesar de não estar em boas condições. Eu preciso que você seja forte. - Não vou conseguir! – Cris estava desesperada! - Ela era tudo pra mim. – Nem se deu conta do que estava dizendo, mas o médico já havia percebido que ali existia muito mais do que simples amizade. Claro que não fez nenhuma pergunta e nenhum comentário. Sentia muita pena daquela garota frágil ali ao seu lado. Fazia ideia do que ela estava sentindo. Perdeu a esposa há um tempo, e a dor jamais havia passado. - Cristiane, por que não vai para casa descansar um pouco? Talvez possamos deixar tudo isso para amanhã. Sabe de mais alguém que a conhecesse? - Todo o pessoal da faculdade. Família, acho que não tinha mais, ou estava brigada com todos. Não sei bem... – O calmante estava fazendo efeito, Cris estava um pouco mais controlada. – Posso vê-la? - Se quiser, pode sim. Mas lembre-se que o corpo está carbonizado, muito diferente do que ela era. - Preciso fazer isso...


Entraram no necrotério. Um lugar muito frio, que fez Cris estremecer. Sua amada não poderia estar ali. Ela não queria... Mas precisava vê-la. O médico abriu uma das várias gavetas. Nela jazia um corpo, coberto por um lençol branco. Ele duvidava que aquela menina que parecia tão frágil fosse aguentar o que veria em seguida. Pensou um pouco antes de puxar o lençol, mas sabia que Cristiane teria que enfrentar a situação. Puxou um pouco o lençol e apareceu um rosto de mulher, totalmente queimado, irreconhecível. - Não!!!! Essa não é ela!! – Cris chorava copiosamente. Não parecia sua amada de jeito nenhum! Ou ela não queria acreditar que fosse. O médico havia separado alguns objetos que foram encontrados junto ao corpo: um anel parecido com uma aliança, no dedo anular da mão esquerda, um relógio prateado, no punho direito, uma correntinha com dois pingentes e dois brincos, um diferente do outro, ambos na orelha direita. Cris pegou os objetos, ainda não se conformando com tudo aquilo. Eram mesmo de Renata. Chorou mais uma vez abraçada ao médico. Agora não restavam mais dúvidas. Aquele corpo pertencia a única mulher que amou em toda a sua vida, e que amaria para sempre. O médico acompanhou Cris até seu carro, sem a certeza de que ela conseguiria dirigir até em casa. Ela precisava de ajuda para cuidar de tudo: velório, enterro, essas coisas que esperamos nunca ter que fazer. Precisava falar com alguém. Foi até em casa, contou a sua mãe o que tinha acontecido. Ambas choraram, já que a mãe de Cris gostava muito de Renata, mesmo imaginando que ela estaria apaixonada pela sua filha. Nada disso vinha ao caso naquele momento. Prepararam tudo. Cris teve que avisar aos amigos de Renata. Todos eles ficaram muito chocados com a notícia. Apesar dela não ser a pessoa mais popular da faculdade, seu velório ficou repleto de gente. O caixão estava fechado, devido a gravidade dos ferimentos, mas todos prestaram sua última homenagem, e deram seu adeus. Como Renata desejava, seu corpo foi cremado e as cinzas jogadas ao mar. A própria Cris fez questão de fazer isso. Pronto. Estava terminada. Uma linda história de amor...

Capítulo VII Nos meses que se seguiram à morte de Renata, Cris não viveu. Sobrevivia as custas de calmantes. Trabalhava, totalmente sem motivação, voltava para casa, mal comia, dormia. Com muito custo conseguiu se formar, no final de 1999. Quando dormia, sonhava com Renata. Que ela estava feliz, e viva em algum lugar. Sonhava que faziam amor, que haviam se casado e eram felizes. Acordava com uma sensação gostosa, mas logo voltava a realidade, sabendo que seus sonhos nunca mais seriam realizados. Sentia-se totalmente culpada pela morte de Renata. Se não tivessem brigado, se não tivessem terminado... Muitas vezes tinha crises de choro, de ter que dobrar a dose dos calmantes para se controlar. Seus amigos não a reconheciam mais. Tentavam fazer de tudo para que ela saísse de casa, fosse ao cinema, a um barzinho, mas era em vão. Cris estava tão depressiva que não tinha vontade de fazer nada além de dormir. Pelo menos assim sonhava com ela...


Após quase 1 ano da morte de Renata foi que Cristiane voltou a frequentar seu antigo círculo de amizades. Mesmo assim não como antes. Saía, as vezes conhecia um rapaz interessante, mas não via a possibilidade de estar com alguém de novo. Pelo menos não tão cedo. Os rapazes convidavam-na para sair. Ela foi ao cinema com alguns deles, mas cada vez que beijava um, vinha a sua mente a imagem de Renata, e daquele dia em que completaram 4 meses juntas, e se amaram pela primeira e única vez em sua casa. Não conseguia mais estar com ninguém. Com outra garota ela também não iria ficar. Já que jogou fora o único amor de sua vida por medo do preconceito que sofreria, não queria passar por isso novamente. Tudo o que desejava era morrer também, para reencontrar seu grande amor. Não havia falado com ninguém sobre seu relacionamento com Renata. Comentou apenas com Talita, e essa fazia o possível e o impossível para dar-lhe força, mesmo sabendo que se acontecesse a mesma coisa com ela, estaria do mesmo jeito. Talita também tinha namorada, e a amava mais que tudo nessa vida. Assim como Cris, ficava em crise no começo, saía só escondida, não assumia. Mas no caso dela, podia sair com homens para manter as aparências, pois sua namorada não se importava. Talvez esse tenha sido o erro de Renata: não permitir que Cristiane mantivesse as aparências. Pelo menos no começo. Mas era tarde para se pensar nisso agora. Numa tarde ensolarada do mês de agosto de 2000, Cris, já mais conformada com a morte de Renata, resolveu sair sozinha, coisa que não fazia há mais de um ano. Foi a um shopping perto de sua casa comprar um presente para uma amiga que faria aniversário. Sem ideia nenhuma do presente, andava pensando na vida e olhando as vitrines, quando esbarrou num rapaz que passava apressado. - Desculpe-me, não vi você. Te machuquei? - Não, eu estava distraída, não vi você também. Cris levantou os olhos e sentiu seu coração acelerar. Algo naquele olhar era tão familiar! Como se conhecesse o rapaz. Bruno se assustou com sua reação: - Está tudo bem? Se machucou? - Não... está tudo bem. Só que... – não sabia como explicar. – Você tem um olhar tão parecido com alguém que conheci! - Bom, acabei de chegar dos Estados Unidos. Não creio que conheça você. Mas podemos fazer isso se quiser. – Bruno abriu largo sorriso. Há tempos não via uma garota tão bonita. Nos Estados Unidos as mulheres são mais frias, não teria uma aproximação dessas com ninguém. - Sim, claro, podemos. – Cris ainda estava atordoada. Algo mexeu com ela, no jeito daquele rapaz desconhecido. - Vamos tomar um café, ou um suco. Aliás, como é seu nome? - Cristiane. E o seu? - Bruno. Muito prazer, Cristiane.


Sentaram-se para tomar o café, e Cris ficou impressionada com a gentileza de Bruno, e com sua beleza. Seus olhos eram tão bonitos, podia jurar que eram da mesma cor dos de Renata. Vai ver por isso ficou tão impressionada. - O que foi? Por que me olha desse jeito? - É que você tem os olhos tão parecidos com os de uma amiga minha! Será que ela tinha um irmão? - Não creio, pois sou filho único. - Você mora nos Estados Unidos? – De repente Cris queria saber mais sobre ele. - Não. Morei lá por um ano, fiz alguns cursos. Conheci vários lugares, mas não me adaptaria. As pessoas são mais frias. Eu amo o Brasil, e principalmente São Paulo. Morri de saudades desse lugar nesse ano que fiquei fora. Imagine que se eu trombasse com uma garota, iríamos tomar um café juntos! Cris riu do jeito dele falar. Sentia-se muito a vontade. Eram estranhos, mas parecia que se conheciam há muito tempo. De outras vidas, quem sabe. Por um momento esqueceu-se de Renata, e lembrou que era a primeira vez que sorria após sua morte. De repente entristeceuse novamente. Era como se não pudesse se divertir. - O que aconteceu? Falei ou fiz algo errado? – Bruno preocupou-se com o semblante triste de Cris. Ele era atencioso demais. - Não, só estava pensando. A semelhança entre você e essa minha amiga é muito grande, e ela morreu há mais de um ano, por isso as vezes fico triste. Mas vamos mudar de assunto. O que você faz? - Eu estou montando uma empresa de prestação de serviços em informática. E consultoria também. Esse mercado está crescendo tanto, fiz vários cursos, acho que vai ser um bom negócio. Mas me conte um pouco dessa sua amiga. Que era tão parecida comigo. - Ela significou muito pra mim, e morreu em um acidente, de uma forma muito estúpida, talvez por minha culpa. - Por que sua culpa? - Porque brigamos e uma hora depois ela tinha sofrido esse acidente de carro. Devia estar correndo para não conseguir fazer a curva e capotar o carro. Por isso acho que a culpa foi minha. – Lágrimas começaram a correr, e Cris não se importou. Sentia-se a vontade com Bruno, e estava feliz por poder desabafar com alguém. - Escute, Cris, eu não a conheci, e nem conheço você ainda, mas não creio que deva sentir-se culpada. Foi uma fatalidade. Você não estava lá quando ela sofreu o acidente. Não pode viver se culpando. Acredita em destino? Se aconteceu da forma que foi, deve ter tido um motivo maior.


- Sei que não devo me culpar, mas não consigo! Ela devia estar com a cabeça fervendo por causa de nossa briga. – Cris estava chorando. - Cris, por favor... Desculpe-me ter tocado nesse assunto tão delicado para você. Me conte sobre você, o que faz? – Bruno tentava fazê-la se distrair. - Eu sou personal trainer. - Hum, que legal! Jura? Estava mesmo precisando fazer algumas aulas. Tenho uma academia montada em casa e não faço ideia do que posso fazer ali. Você tem horário pra mim? – Bruno havia se empolgado. Era um rapaz forte, de 27 anos, com um metro e setenta de altura, ombros largos, cabelos e olhos cor de mel. Tinha uma pele de bebê, quase sem barba. E tinha um bom dinheiro guardado que economizara. Fora isso, era inteligente, gentil, carinhoso e romântico. Do tipo que as mulheres procuram. - Sim, tenho horário disponível sim! Mas você quer mesmo? Ou está dizendo isso só porque estou aqui chorando? – Cris riu pela segunda vez. - Claro que estou falando sério. Eu ia procurar mesmo alguém, mas acabei de chegar, não saberia nem como começar. Além do mais, você parece ser muito competente. E se a aparência conta, com o corpo que você tem, puxa, qualquer um contrataria! - Que nada, eu nem consigo treinar muito, a vida é muito corrida. Mas obrigada pelo elogio. Conversavam animadamente há horas. Nem viram o tempo passar. Infelizmente Cris precisava ir embora, pois ainda daria uma aula. Queria ficar ali, conversando com ele. E queria ter falado mais sobre Renata. Mas ainda ficava tão triste! Não queria assustar seu novo amigo, e agora aluno. - Bruno, desculpe, nosso papo está ótimo, mas eu ainda dou uma aula hoje. Se você for querer mesmo as aulas, me ligue, e combinamos dia e horário. Veja o que é melhor para você. - Quais são seus horários livres? – Bruno não queria deixá-la ir. - Bom, tenho terças e quintas a noite, e todas as tardes. - Eu gostaria de fazer todos os dias, mas com a montagem da empresa vai ficar mais difícil. Podemos marcar três vezes por semana? Pode ser a tarde mesmo, terças, quintas e sextas? As 13 horas? - Sim, pode ser, perfeito. Você vai ter aulas em casa mesmo? - Sim, tenho uma academia montada. Você vê depois se os aparelhos são bons, ou se vamos precisar de mais alguma coisa. Fique com meu cartão. Tem o endereço aí também. Te espero na próxima terça. Cristiane passou seu telefone para ele e se despediu. Ambos sentiram uma forte atração um pelo outro, e Cris se pegou sorrindo mais uma vez.


Capítulo VIII Naquela noite, após a aula, Cris foi correndo para casa contar para sua mãe sobre o rapaz que havia conhecido. Estava voltando a viver aos poucos, voltando a se sentir feliz, depois de um ano de sofrimento e dor. Ainda pensava muito em Renata, mas parece que Bruno havia sido enviado para amenizar sua dor. A mãe de Cris ficou muito feliz pela filha, pois sabia o quanto ela havia sofrido. Nunca perguntou a filha se ela havia se relacionado intimamente com Renata, pois temia saber a resposta. Agora estava aliviada que a filha havia se interessado por um rapaz novamente. Bruno foi para a sua casa pensando na garota linda que cruzara seu caminho naquela tarde. Não quis assustá-la, mas se apaixonou assim que a viu. Ele era assim: intenso, se apaixonava facilmente. No tempo em que viveu nos Estados Unidos relacionou-se com algumas garotas, mas quando começava a ficar mais sério ele terminava. Parecia que estava se guardando para a garota ideal. E achava que a encontraria no Brasil. Além do mais, não pretendia viver nos Estados Unidos, então não queria se apaixonar perdidamente por ninguém lá. Chegou em casa com um grande sorriso. Carlos, seu mordomo, amigo e braço direito abriu o portão da garagem, e sorriu ao ver o patrão tão feliz, e finalmente de volta ao lar. A casa era muito grande, e ficou vazia durante esse ano todo. A entrada da casa era cercada por um grande jardim, muito bem cuidado, cheio de flores e até árvores frutíferas. A porta da frente era de vidro, enorme. Ao entrar via-se um bar a direita, perto da lareira, a cozinha a esquerda, um pouco mais atrás, e um lavabo. Mais para o fundo via-se a sala de jantar. E no andar de cima estavam os quartos. Seis ao todo, incluindo a suíte de Bruno, enorme, com uma cama de casal gigantesca, televisão suspensa, telefone no criado-mudo perto da cama. Ainda havia mais um andar, o terceiro, que abrigava uma piscina, uma sauna, e uma quadra poliesportiva, além da quadra de tênis e da academia. Os vestiários ficavam um pouco mais afastados, e eram muito espaçosos. Era uma casa muito grande para ele, mas tinha mandado construir alguns anos atrás, pois contava que teria uma família grande. Mas na verdade não tinha ninguém. Além de Carlos, não tinha amigos nem parentes. Conheceu algumas pessoas no tempo em que estava fora, inclusive brasileiros, mas eram apenas conhecidos. Por isso estava feliz em conhecer Cristiane. Teria mais alguém para conversar. E poderia utilizar a piscina, as quadras, e os equipamentos da academia, que nunca teve oportunidade de utilizar com ninguém. E quem sabe um dia Cris iria morar ali com ele. Sim, ele estava apaixonado, e faria de tudo para conquistá-la. Adormeceu sonhando com ela. Mal a conhecia e já gostava muito dela. Acordou com o telefone tocando. Precisava sair e resolver as coisas de sua nova empresa. Como não conhecia praticamente ninguém, Carlos o ajudou a cuidar da burocracia. A princípio trabalharia em casa mesmo. Tinha muito espaço, e não teria funcionários. A pequena edícula serviria bem para comportar seu escritório. Fez muita propaganda, distribuiu panfletos, colou cartazes, colocou anúncios em jornais e revistas de boa circulação. Em pouco tempo conseguira uma boa clientela. O comércio eletrônico estava começando a ser um ótimo negócio, e muitas empresas interessaram-se em criar seus sites. Possuía um bom capital guardado para os


primeiros anos da empresa, mas para sua surpresa logo no segundo mês ela começou a dar lucro. O volume de trabalho aumentava a cada dia, e ele teve que terceirizar uma parte. Bruno conheceu Michelle na USP, num dia em que estava procurando um estagiário para sua empresa. Foi até as faculdades de primeira linha colocar alguns anúncios. Enquanto ele colava seu cartaz, ela apareceu, e se interessou. Ainda não havia se formado, mas já tinha experiência com programação. Então ele decidiu que a contrataria como free-lancer, e não como estagiária. Ela topou e iniciaram os trabalhos juntos. Michelle trabalhava em sua própria casa, e entregava o trabalho pronto. De vez em quando ia até o escritório de Bruno para algumas reuniões. - Bruno, telefone para você! – Anunciou Carlos - Quem é, Carlão? – Parecia um pouco irritado por ter tido seus pensamentos interrompidos, mas ficou feliz quando soube que era Cristiane. – Obrigado, Carlos, pode deixar que atendo aqui. - Alô! - Bruno, é a Cristiane, personal trainer, lembra-se de mim? Nos conhecemos no shopping. - Cris, imagine se eu esqueceria de você! Como você está? - Tudo bem, e você? - Muito melhor agora! Senti saudades suas. Ligou para confirmar nossas aulas? - Sim, podemos começar na terça-feira? Hoje é sexta, então achei melhor ligar, caso houvesse esquecido. - Imagine se eu ia esquecer... claro que podemos. Está marcado. As 13 horas. Espero você. Sabe chegar aqui? - Sim, pode deixar. Se eu me perder te ligo. Desligaram felizes. Cristiane ainda não tinha certeza do porque, mas tinha gostado muito desse rapaz. Não via a hora de encontrar-se com ele novamente. O final de semana custou a passar! Apesar de Bruno estar muito envolvido com seus projetos, ele não via a hora de encontrar-se com Cris na terça-feira. Podia tê-la convidado para sair no final de semana, mas não queria apressar as coisas. Finalmente chegou a terça-feira, e as 13 horas em ponto Cris chegou, vestindo um conjunto de moletom branco, muito perfumada, com os cabelos presos. Bruno ficou encantado quando a viu: - Trabalha sempre assim? Linda e perfumada? - Você é louco! Estou de moletom, cabelo preso, sem maquiagem!


- Eu acho que está linda... – Disse isso olhando fundo em seus olhos, fazendo com que Cris corasse. Desviou o olhar e tentou ser o mais profissional possível, perto daquele homem que a estremecia. Foram para o andar de cima da casa e iniciaram os treinos. Cris caprichou no treinamento, e enquanto passava os exercícios, ia conversando com Bruno, como se fossem velhos amigos. Queria saber tudo sobre ele, mas ele era tão misterioso as vezes, que ela não sabia o que podia perguntar. Queria saber se ele tinha namorado muito, se já havia conhecido alguém especial como ela. Mas não sabia como entrar nesse assunto. No final da aula, Bruno a convidou para almoçar. Como ela não tinha mais alunos na parte da tarde, resolveu aceitar. Estava morrendo de fome! E a companhia de Bruno era muito agradável. A empregada serviu o almoço aos dois. Cris tomou coragem e perguntou o por que dele morar sozinho numa casa tão grande. E se ele tinha alguém em sua vida. Era melhor saber logo, antes de se encher de esperanças. - Não Cris... eu não tenho ninguém. Meus pais morreram quando eu era criança, e não conheço mais nenhum parente. Não tenho muitos amigos, já que fiquei fora por um tempo. Além disso, eu não era muito de sair. Gostava mais de ficar em casa, assistindo filmes. Mandei construir essa casa porque espero um dia encontrar alguém muito especial, que queira formar uma família, e morar aqui comigo. Cris sentiu um pouco de tristeza na voz dele, e uma pontada de medo. Será que essa pessoa especial já existia? Será que ele estava a procura? Será que ele gostava dela a esse ponto? Viuse pensando nessas coisas, que de repente gostaria de ser a pessoa por quem ele estava procurando. Gostaria de formar essa família com ele, e morar ali naquela casa. Mas ele a arrancou de seus pensamentos: - E você, Cris? Tem alguém? Tem namorado? - Não! - Desculpe, não quis me intrometer. - Ah, não fique assim, não está se intrometendo. É que faz tempo que não saio com ninguém. - Uma garota tão linda como você deve ter muitos admiradores! - Nem tanto... Ah, eu perdi alguém muito especial faz um tempo. E depois disso não consegui ficar com mais ninguém. - Ele te deixou? - Não, morreu... Mas não quero falar mais sobre isso, por favor... – Seus olhos encheram-se de lágrimas. Bruno levantou da mesa e foi abraça-la. Passou a mão em seu rosto, secando as lágrimas, sem entender. Ela havia perdido uma amiga há um tempo atrás. Será que havia perdido um namorado também? Ou será que a amiga era mais do que isso? Achou melhor não perguntar mais nada. Um dia, se ela quisesse, ela contaria para ele. E ele entenderia.


- Desculpe, não vamos mais tocar nesses assuntos tristes. Se um dia quiser me contar tudo o que te deixa tão agoniada, estarei aqui para ouvir e entender. Mas se não quiser, também entenderei. E não vou fazer mais perguntas. Cris sentiu-se melhor em seus braços. E de novo teve a sensação de que já o conhecia. Aquele abraço foi tão caloroso e familiar! Era como se houvessem vivido juntos, numa outra época. - Não se preocupe. Já estou melhor. Um dia conversamos sobre isso. Agora tenho que ir. O almoço estava ótimo. Nos encontramos na quinta, no mesmo horário? - Sim, estarei esperando. Despediram-se. Cris foi para a academia onde daria a última aula do dia. E Bruno voltou ao trabalho. Já era tarde, mas ele precisava terminar o projeto. Além do mais, se não trabalhasse ficaria só pensando nela, e precisava se concentrar. Mas não via a hora de ter a próxima aula. Um dia tomaria coragem e a convidaria para jantar. Mas achava cedo. Pressentia que ela ainda não estava preparada para um novo relacionamento. Pelo que pareceu, e perda foi grande. E ele queria que tudo fosse perfeito.

Capítulo IX Os dias iam passando, Bruno e Cris encontravam-se três vezes na semana, faziam esportes, divertiam-se, almoçavam juntos eventualmente e conversavam muito. Cris falava de seus pais, de seus amigos, e Bruno dava a entender que queria muito conhecê-los um dia. Eles pareciam ser pessoas muito agradáveis. Num desses dias, voltando para casa, Cris pensava em como sua vida havia melhorado. Apesar da dor que ainda sentia pela perda de Renata, e por ter estado quase um ano fora de sintonia, agora estava voltando a ser feliz. Agradecia todos os dias por Bruno ter entrado em sua vida. Parecia que ele era um anjo enviado para fazê-la esquecer. Voltou a trabalhar com entusiasmo, voltou a praticar esportes, jogar futebol de campo, uma de suas grandes paixões. Convidou Bruno a assistir a um dos jogos. Ele foi, é lógico, e adorou quando Cris fez um belo gol e ofereceu a ele. Bruno também estava de bem com a vida. Sua empresa foi classificada pela revista Info Exame como uma das melhores empresas de consultoria em informática do Brasil, e ele estava radiante. Choviam clientes, e ele já estava com mais 3 pessoas realizando trabalhos terceirizados para ele. Mesmo assim passava noites sem dormir terminando projetos. Michelle continuava trabalhando para ele, só que agora ela fazia os trabalhos no escritório, e não mais em casa. Era uma mulher bonita, apesar de não se preocupar muito com o que vestia. Cris ficou morrendo de ciúmes quando Michelle começou a trabalhar diretamente no escritório com ele. Apesar de não serem comprometidos, não queria outra mulher por perto. Gostava de Bruno, e estava esperando que ele tomasse a iniciativa de convidá-la para sair. Ela era assim, tradicional. Gostava quando o homem tomava a iniciativa, abria a porta do carro,


pagava a conta do restaurante. E Bruno era exatamente assim. Um perfeito cavalheiro. Adorava fazer a mulher se sentir amada e desejada. Adorava cuidar dela. No final do ano, Cris foi passar o réveillon com os pais, na praia. Sentia tanta falta dele que quase voltou na metade do tempo. No dia 30 de dezembro era aniversário de Bruno, mas Cris não sabia. Ele ficou sozinho em casa. E no dia 31 ele abriu uma garrafa de vinho e tomou sozinho, ouvindo o barulho dos fogos de artifício e desejando estar com ela.

Capítulo X No dia 06 de janeiro Cristiane voltou da praia. Estava em casa, desarrumando as malas, quando o telefone tocou. Era Bruno. Surpresa, perguntou como ele havia passado o final de ano. Ficou extremamente triste quando soube que ele ficou trabalhando, e depois tomou uma garrafa de vinho sozinho. Desejou ter estado com ele. - Puxa, Bruno, por que não me disse que ficaria sozinho? Eu poderia ter falado com meus pais, e você teria ido para a praia com a gente! - Não se preocupe Cris. Eu fiquei bem, de verdade. Foi bom, eu precisava terminar uns projetos, e também precisava pensar. O que está fazendo agora? - Nada, só desarrumando minhas malas. Por quê? - Gostaria de te convidar para jantar. - Sim, podemos ir, estou terminando de arrumar minhas coisas, e não tenho nada a noite. Só volto a trabalhar na segunda (era sábado). - Então te pego aí as 20 hs, pode ser? - Sim, te espero! Bruno parecia um menino indo encontrar sua paquera. Colocou uma calça social e um blazer e esperava ansiosamente o horário de ir buscá-la. Chegou na casa de Cris as 20 hs em ponto, mais lindo do que nunca, com um buquê de flores na mão. A mãe de Cris atendeu a porta e teve uma ótima primeira impressão. Aquele homem parecia ser a pessoa certa para sua filha. Mas não comentou nada com ela. Bruno teve que esperar mais ou menos meia hora até Cris finalmente ficar pronta, mas valeu a pena. Ela estava maravilhosa com um vestido preto “tomara que caia”, com seus cabelos loiros, soltos, bronzeada, perfumada, com sapato de salto alto. Parecia uma princesa de contos de fadas descendo a escada, e Bruno ficou atônito, sem palavras. - Nossa, você está linda! - Que nada! Você está acostumado a me ver de calça de moletom e camiseta! – Cris riu e ficou lisonjeada com o elogio. - E mesmo assim te acho maravilhosa...


Despediram-se dos pais de Cris e foram a um restaurante francês. No meio da segunda taça de vinho, Bruno toma coragem: - Cris, você aceita namorar comigo? – Ao dizer isso colocou um ursinho branco segurando um coração, sobre a mesa. Cris estava maravilhada com aquele homem. Era o que sempre sonhou: alguém que lhe pedisse em namoro, sem ao menos tê-la beijado. Aceitou na hora. Nesse momento Bruno levantou-se e tirou Cris para dançar. Formavam um lindo casal. O restaurante inteiro virou-se para olhar. Foi quando ele a beijou. Suavemente, como se estivesse beijando um cristal. Senti-la em seus braços era tudo o que queria naquele momento. Apreciou cada instante, queria parar o tempo. O coração de Cris dava pulos de alegria e emoção. Era impressionante a sensação de familiaridade. Como se há o tivesse beijado. Numa época distante. Não queria mais sair dali. Também queria congelar o tempo. O jantar foi maravilhoso. Pela primeira vez em mais de um ano, Cristiane sentia-se feliz, e se apaixonara novamente. Estava disposta a se entregar a essa paixão. Bruno levou Cris para casa perto de uma hora da manhã. Estavam muito felizes. Os dias que se passaram foram tranquilos. Bruno e Cris trabalhavam feito loucos, mal tinham tempo para sair, mas se falavam todos os dias, às vezes mais do que uma vez por dia, e continuavam praticando esportes juntos, pelo menos por três vezes por semana. Continuava com Cris como sua professora. Nos últimos tempos Cris andava implicando com Bruno por causa de Michelle. Ela começou a se vestir melhor, e todas as vezes em que Cris aparecia, notava um certo interesse da parte dela, por ele. Um dia comentou: - Essa garota está de olho em você... - Imagina, meu amor... Nós apenas trabalhamos juntos. Não tem porque você se preocupar. Além do mais, ela não faz meu tipo. E eu só tenho olhos para você. - Aposto que se ela te der bola, você entra na dela. Afinal, você é homem, e homens são assim. Não podem ver uma mulher bonita. - Nossa Cris, o que deu em você? Nunca te dei motivos para desconfiar de mim. Pode confiar em você mesma. Você é quem tem o dom de me fazer feliz. Eu adoro você. Nunca vai existir outra mulher. Cris deixou a história de lado, mas no fundo ela não estava totalmente errada. Michelle estava com segundas intenções mesmo, em relação a Bruno. Queria conquistá-lo. Ele não percebia nada. Seu coração pertencia a Cris desde que se conheceram. E Michelle sabia disso, mas não iria desistir. Cristiane já havia ido embora quando Bruno ouve um grito: - Ai! – Era Michelle


- O que foi, Michelle? O que aconteceu? - Cortei minha mão pegando a caixa de papelão... Está sangrando muito! - Calma, vou buscar os curativos. Lave a mão ali no banheiro, que já venho. Bruno pegou a caixinha de primeiros socorros e com a maior boa vontade e ingenuidade desse mundo, fez um curativo na mão de Michelle. Enquanto ele passava o algodão, Michelle se aproveitava e alisava a mão dele. Bruno afastou a mão, mas Michelle o segurou. - Por que me evita? - Como assim, Michelle? Trabalhamos juntos, estou sempre aqui, precisa de alguma ajuda com alguma coisa? - Sim, preciso de você. Estou apaixonada. – Disse isso e o beijou, de repente. Bruno se afastou, furioso: - Ei Michelle, o que deu em você? Não faça mais isso, por favor! Você sabe que estou namorando a Cris, e é por ela que estou apaixonado. - Ah, para com isso, eu sei que gostou. Vi como me olha, como olha para o meu corpo. - Não Michelle, você está enganada. Eu nunca olhei para você com outros olhos. Sempre fui profissional, e sempre te tratei como colega de trabalho. Não sei de onde tirou essas ideias. Se continuar dessa forma, não trabalharemos mais juntos. Cristiane havia esquecido o casaco e voltou para buscar, quando ouviu o final da conversa. Não conseguiu se controlar, e quase partiu para cima da outra: - Escuta, minha filha, o que quer? Não sabe que ele é comprometido? - Se ele gostasse tanto assim de você não ficaria olhando para o meu corpo! Cuidado viu! Esse tipo é comum. Se fazem de santinhos, mas no fundo são todos cafajestes. Bruno resolveu intervir: - Michelle, você está falando bobagens. Por favor, a partir de hoje não trabalhamos mais juntos. Vou contratar outra pessoa. O Carlos vai acertar as contas com você. - Cris, meu amor, vamos conversar lá em casa. Michelle tentou falar alguma coisa, Cris também ia xingar, mas Bruno conseguiu sair com ela e entrar em casa. Carlos acertou as contas com Michelle. - Tá vendo?? Eu sabia!!! Essa menina queria algo com você, eu te avisei!! – Cris estava descontrolada. - Amor, desculpe. Eu não tinha percebido. Achei que fosse só ciúmes exagerado de sua parte. Agora está resolvido, não se preocupe mais.


- Sempre vai ser assim? Você, bonito desse jeito, vai ficar atraindo todas as mulheres? - Deixe isso para lá. É de você que eu gosto. Vem aqui... Bruno tomou-a nos braços e deu-lhe um longo beijo.

Capítulo XI Quatro meses se passaram, Bruno conseguiu encontrar outra funcionária, muito eficiente. Simone estava realizando contatos fantásticos na empresa, e tinha trazido muitos clientes para Bruno. Um deles de Atlanta, nos Estados Unidos. Conseguiu fechar um contrato para criar todos os sites e aplicativos de uma multinacional. Poderiam trabalhar aqui mesmo no Brasil, mas de vez em quando Bruno teria que viajar para realizar reuniões. Teria que ir em breve para fechar o contrato e resolver últimos detalhes. Mas a viagem poderia ser demorada, e estava preocupado com a reação de Cris. Não queria deixá-la por nem um segundo, quanto mais por 2 semanas, que era o tempo que achava que seria o necessário. Naquela noite se encontraram e ele resolveu tocar no assunto. - Cris, tenho duas notícias para lhe dar. Uma boa e a outra não tão boa... - Diga a não tão boa primeiro. - Vou ter que viajar por pelo menos duas semanas. - Ah não! Jura? Por quê?? – Cris já começava a se entristecer. - Calma... vou falar a notícia boa agora. Fechamos um contrato com uma multinacional americana. Vamos criar todos os sites e aplicativos deles. Vai ser um contrato milionário. Não podemos perder a chance. Já estou contratando mais gente e o escritório aqui está ficando pequeno! - Parabéns, meu amor! Mas quando você terá que ir? E vai ficar longe esse tempo todo? Não vou aguentar de saudades! - Tenho que ir mesmo. Já na próxima semana. Para fechar o contrato e definir alguns detalhes. Cris fechou os olhos. Não queria imaginar como seria ficar sem ele por duas semanas. Apesar de não ser muito tempo, não estava mais acostumada a despedidas. Desde que se conheceram, não mais se separaram. - Cris... você está bem? - Sim, só um pouco chateada. Mas entendo, é importante para você... - Ei, não fique chateada não! Por que não vai comigo? - Eu posso?? – Cris abriu um sorriso, ficou muito feliz. - Claro que pode!! Eu adoraria que fosse. Vai ser chato ficar lá sozinho.


- Mas eu tenho meus alunos. Teria que combinar umas férias. Não posso desaparecer por duas semanas! - Converse com eles. Aproveite que não tem emprego fixo. Eles entenderão. Além do mais, o que você deixar de ganhar por não dar aulas nessas duas semanas, vai ganhar de outra forma. A viagem é um presente meu, e tudo o que você quiser comprar lá, também. - Você é demais, sabia?? Te amo tanto!! – Era a primeira vez que Cris falava isso para Bruno, e ele ficou comovido. Depois de Renata, ela nunca mais havia pronunciado essas palavras. - Isso é mesmo verdade, Cris? – Bruno olhava no fundo dos olhos de Cris, e essa estremeceu, com aquela velha sensação de que já o conhecia. - Sim, é verdade. Fazia muito tempo que eu não sentia nada parecido com o que sinto agora. Eu realmente amo você e não quero te perder por nada desse mundo. Quero ir com você sim! - Ótimo!!! Que felicidade!! Vamos atrás de visto para você, passaporte, essas coisas. Conheço um agente da Polícia Federal, acho que ele pode agilizar as coisas pra mim. – Bruno abraçava Cris, muito feliz. Sua vida estava perfeita. Simone também gostaria muito de ir, mas sabia que não poderia. O escritório precisava de alguém para gerenciá-lo, e havia muitos outros projetos. O pessoal contratado precisava de treinamento. Mas Bruno percebeu o que ela estava sentindo: - Simone, eu sei que foi você quem conseguiu o cliente. Foi graças a seus telefonemas que teremos um dos maiores clientes do mundo. E imagino que queira ir para Atlanta também. Olha, o escritório não pode ficar vazio, você é meu braço direito, temos os outros projetos que precisam ser terminados. Mas... para que servem os lap-tops e celulares? Você vai com a gente! Tocamos os projetos de lá. O Carlos pode ficar responsável pelas coisas aqui até retornarmos. Acho que não teremos problemas. Para mim vai ser ainda melhor. Enquanto você cuida da maior parte das negociações, eu levo minha namorada para conhecer a cidade! - Puxa, Bruno, muito obrigada! Eu realmente queria ir, mas entenderia se não pudesse. A viagem estava marcada para dali a uma semana. Bruno e Cris ficariam, com certeza, por duas semanas. Simone poderia ficar mais, ou menos, dependendo do que tivesse que fazer por lá. Bruno conseguiu a emissão do passaporte de Cris em tempo recorde, e o visto americano também. Como ele já possuía, foi mais fácil. Essa semana foi de muita ansiedade, principalmente para Cristiane e Simone. Cris não via a hora de estar em outro país com o homem que amava, e Simone esperava fazer muito mais contatos e trazer mais clientes ainda para o escritório. Seu objetivo era transformar a “RC Info” conhecida no mundo todo. E não iria descansar enquanto não conseguisse. Trabalhava até mais tarde muitas vezes, para conseguir falar com os outros países, devido ao fuso horário. Era muito dedicada, mas as vezes Bruno achava que trabalhava demais. Preocupava-se com sua vida pessoal. Muitas vezes teve que manda-la embora do escritório, por estar muito tarde. Mas ela gostava. Queria um dia ter sua própria empresa. Ou que Bruno a oferecesse sociedade. Admirava-o, pois conhecia sua história, sabia que ele era sozinho nesse mundo, e


que mesmo assim estava conseguindo construir alguma coisa dele. Sabia que ele possuía muito dinheiro antes da empresa, e se não quisesse, poderia viver de renda. Mas mesmo assim montou uma empresa, e trabalhava como ninguém. Cristiane tinha conseguido, depois de muita conversa, convencer seus pais a deixa-la viajar com o namorado. Sua mãe só permitiu porque gostava muito dele, e não sabia o motivo, mas confiava nele. Enfim chegou o tão esperado dia. Bruno e Simone não viam a hora de assinar o contrato. Isso seria um grande passo para a empresa. E Cris não via a hora de conhecer Atlanta. E de viajar com o amor de sua vida. Chegaram ao aeroporto duas horas antes do voo. Tomaram café, leram, conversaram para matar o tempo. E Simone trabalhava. Nunca parava. Levara o lap-top e estava desenvolvendo sites e atendendo alguns clientes. Enquanto Cris e Bruno divertiam-se, ela aproveitava para colocar a casa em ordem antes de embarcar. Era a perfeita “workaholic”. Bruno brincava com ela: - Simone, vê se larga um pouco esse seu brinquedo e vem aqui conversar com a gente! - Desculpe, Bruno, mas tenho que adiantar alguns projetos. Não quero entregar ao cliente fora do prazo. - Você consegue trabalhar mais do que eu!! Vê se desliga essa aparelhagem toda quando embarcarmos. Não vai derrubar o avião! – Todos riram. Seu voo foi chamado. Embarcaram e decolaram sem problemas. A viagem correu tranquila. Bruno e Cris namoravam, ficavam de mãos dadas, contavam piadas e conversavam muito. Ele estava contando a ela o que fariam em Atlanta. Não dormiram nem por um segundo, de tão animado que estavam. Já Simone aproveitou para descansar, pois teria muito trabalho pela frente. Aterrizaram no aeroporto internacional as 6 horas da manhã. Teriam 2 horas para levar as malas ao hotel, tomar banho e se apresentar na empresa. Bruno havia reservado um quarto de hotel para Simone, próximo a empresa. Para ele e Cris, alugou uma casa num condomínio fechado, com piscina e muita área verde. Fez isso pensando em Cris. Ela poderia aproveitar o dia da piscina enquanto ele trabalhava. Era verão, e as temperaturas estavam altas. O sol só se punha lá pelas 20 horas. As 8 horas da manhã em ponto, Simone estava negociando com o diretor da empresa. Antes de Bruno chegar, ele já havia assinado o contrato. Depois acertaram os detalhes finais, e Simone começou a trabalhar no projeto naquele mesmo dia. Bruno nem precisava ter ido, de tão eficiente que era sua funcionária. Tanto que ele aproveitou a maior parte dos dias seguintes levando Cris nos melhores lugares da cidade. Cris estava fascinada. Fizeram compras, passearam, tomaram banho de piscina e namoraram muito. Era um casal realmente simpático e feliz. Dormiam juntos, mas Bruno achava cedo para qualquer aproximação mais íntima. Claro que tinham seus momentos mais quentes, mas não


passava disso. Bruno amava demais aquela garota para fazer qualquer coisa que colocasse tudo a perder. A semana passou voando. Cris, Bruno e até Simone estavam se divertindo. Simone se divertia trabalhando. Bruno aparecia no escritório de manhã, conversava um pouco com ela, ajudava no que era preciso e tirava a tarde de folga. Simone mesmo sugeriu que ela aproveitasse a companhia de Cris. Ela estava dando conta do recado. No meio da segunda semana, o projeto base já estava pronto. Simone encarregou-se de fazer a apresentação aos executivos da empresa. Bruno estava junto, mas foi ela que comandou a reunião, e os executivos adoraram o projeto. Estava feito. Tinham conseguido seu maior cliente até então. Fecharam contrato por 5 anos. Os sites da multinacional seriam exclusividade de “RC Info”. Poderiam ter ido embora para o Brasil, mas Bruno pediu que Simone tirasse os três dias restantes para descansar e conhecer a cidade. - Mas Bruno, eu tenho um monte de coisas para fazer em São Paulo! Tenho projetos pendentes. Não posso me dar ao luxo de passear! - Simone, por favor. Você tem que se desligar por um minuto. Eu vou te ajudar, estamos com um pessoal bom agora, contratado. Vai dar certo. Quero que aproveite um pouco. Essa cidade tem muita coisa legal para conhecer. Faça isso! - Não sei não... Acho melhor ir embora... - Simone, é uma ordem! Se você não fizer isso eu pego seu computador e não devolvo mais! Bruno falou sério e Simone se assustou. Ele nunca havia falado assim com ela. Mas logo ele começou a rir para alívio de Simone. - Simone, é sério. Eu quero que aproveite esses três dias. Quando você voltar, seu trabalho será dobrado, porque como sócia, você sempre acaba trabalhando mais! Simone demorou uns segundos a entender, mas finalmente deu um pulo de alegria, e abraçou Bruno, comemorando. Seria sua sócia! Era tudo o que esperava! Agora sim, estava realizada. A volta ao Brasil foi tranquila. Agora todos poderiam relaxar. A empresa havia adorado o projeto, e essa preocupação era página virada. Chegaram ao Brasil no final da tarde. Carlos os aguardava no aeroporto. Deu uma carona para Simone até sua casa. - E você, meu amor? Quer ir para casa ou quer dormir comigo? – Bruno nem se deu conta do que havia dito. Perguntou sem segundas intenções. Mas Cris deu uma risadinha e respondeu: - Adoraria dormir com você... Não vejo a hora... Bruno ficou sem graça, pegou a mão dela e sussurrou em seu ouvido: - Eu também... Aliás, eu sonho com isso todas as noites...


Depois disso, não viam a hora de chegar em casa. Nunca tinham reparado como o trajeto entre o aeroporto e a casa de Bruno era longo!! Chegaram e foram direto para o quarto. Assim que entraram, Bruno abraçou Cris com força e deu-lhe um longo beijo. Estava louco de desejo por ela. Encostou-a na parede. Ela ficou de costas para ele, que beijava seu pescoço e passava a mão em suas costas. Lentamente tirou sua camisa. A pele de Cris era muito macia, e seu perfume, delicioso. Bruno beijava suas costas. Tirou a calça dela, suas mãos percorriam aquele corpo definido e queimado de sol. Despiu as próprias calças, e Cris pode sentir todo o desejo de Bruno por ela. Não aguentando mais, Bruno pegou Cris no colo e deitou-a na cama. Acariciava seus seios, suas coxas, seu rosto, sua barriga. Beijava sua boca, seu pescoço. Descia até o umbigo. Tirou sua calcinha. Suas mãos encontraram o caminho para o prazer de sua amada. Nesse momento ela gemeu, e ao mesmo tempo teve a impressão de já ter sido tocada dessa mesma forma. Bruno não parava. Iniciou um delicioso sexo oral, e Cris sentiu o maior prazer de sua vida. A sensação era divina e ela começou a chorar. Bruno ficou assustado: - O que foi, meu amor? Te machuquei? - Não! Foi maravilhoso! - Por que está chorando? - De prazer! Só uma vez na vida senti algo tão forte assim! Eu te amo! Muito!! - Também te amo, minha pequena! Recomeçaram... Bruno fazia uma massagem nas costas de Cris. E voltou a provoca-la. Ela virouse para ele, beijaram-se. Bruno penetrou-a lentamente, com medo de machuca-la. Sabia que era sua primeira vez. Ela estava relaxada. Sentiu uma dor leve no começo, mas logo a dor se transformou em prazer, de tão delicado que ela era com ela. Chegaram ao clímax total, juntos. Tiveram a melhor sensação de suas vidas. Amaram-se mais uma vez. Não queriam mais parar. Eram como velhos amantes. Sentiam-se muito a vontade um com o outro. Tinham uma intimidade deliciosa. - Não é possível! Você deve ser de outro mundo! Ou nos conhecemos em outra vida! – Cris estava admirada, - É, quem sabe fomos amantes numa outra vida... Tomaram banho na grande banheira de hidromassagem da suíte. Ficaram lá por quase meia hora, e então Cris volta a provocar Bruno. - Ih, de novo não, desse jeito você vai acabar comigo logo na primeira vez... – Bruno brincava com ela, e estava adorando a provocação. Dessa vez foi ela quem tomou a iniciativa, e amaram-se mais uma vez, ali mesmo na banheira.


Finalmente resolveram tomar um banho. Já amanhecia, e Bruno sugeriu um café da manhã num hotel 5 estrelas, para repor as energias. O hotel era lindo, e seu café da manhã, delicioso. Depois de comerem como se fosse sua primeira refeição em semanas, chegaram a conclusão que precisavam descansar. Bruno deixou Cris em casa, contra sua vontade, e foi dormir um pouco. O dia seguinte seria de muito trabalho. Bruno estava tão feliz e realizado, que não ligava para os problemas que estavam surgindo. Resolvia todos com paciência e tranquilidade. E é claro, Simone ajudava. Ela havia notado seu ar de felicidade, mas nem comentou nada. Ficava feliz por ele. Em sua casa, Cris também estava nas nuvens. O final de semana havia sido muito especial. Além das semanas que passou viajando com Bruno. Cris tinha certeza que nunca havia amado ninguém dessa forma. Só Renata... Mas ela se fora, e Bruno conseguiu fazer com que Cris voltasse a viver. Ela nunca esqueceria Renata, mas a dor havia diminuído muito desde que conheceu Bruno. Era tão mágico, parecia que eles se conheciam há muito tempo. Estava dando aula, e não via a hora de terminar, para que ela pudesse ligar para ele. Finalmente teve um intervalo e resolveu ligar: - Alô, oi Simone, é a Cristiane, tudo bem? O Bruno está? - Tudo bem Cris, e você? O Bruno foi num cliente, mas não deve demorar. Eu peço a ele para ligar no seu celular. Se quiser pode tentar o celular dele também. - Ah, eu já tentei, parece desligado. Diga que eu liguei, por favor. Desligaram e Cris ficou triste por não ter conseguido falar com ele. Foi para casa e acabou adormecendo. Acordou três horas depois, sobressaltada, assustada porque Bruno ainda não havia ligado. Resolveu ligar novamente: - Oi Simone, é a Cris de novo. E o Bruno, nada ainda? - Não Cris, ainda não chegou. E não ligou também. - Estranho, será que aconteceu alguma coisa? - Não Cris, não se preocupe. Ele deve ter ficado preso no cliente. Eu deixo mais um recado para ele. - Desligaram e Cris ficou muito preocupada. Ele não costumava demorar, e quando acontecia, sempre dava um jeito de avisar Simone. Tomou banho e foi até a casa dele, espera-lo. Eram mais de 20 horas quando Bruno apareceu, e ficou muito surpreso por encontrar Cris em sua casa. - Oi amor, o que faz aqui? Está tudo bem? Achei que estivesse dando aula. - Onde você estava? – Cris estava brava, desconfiada, e ao mesmo tempo aliviada. Tinha lágrimas nos olhos.


- Calma, amor, eu fiquei preso no cliente, uma reunião atrás da outra, vários problemas, não consegui parar para ligar. E para completar minha bateria acabou e não consegui carregar. Por que está tão tensa? - Ah, não sei, estava tão preocupada com você... – Cris chorava abraçada a ele. Morria de medo de perdê-lo. Após o acidente com Renata, desenvolveu um pânico de estar longe das pessoas que ama, correndo o risco de acontecer o que aconteceu com Renata. Bruno assustou-se com a reação dela: - Meu amor, não fique assim! Desculpe não ter ligado, eu achei que estava trabalhando, nem me preocupei. Não sabia que ficaria tão preocupada! Puxa, desculpe mesmo, não faço mais isso, agora por favor acalme-se, pare de chorar... – Bruno tomou-a nos braços e beijou-a apaixonadamente.

Capítulo XII Um ano havia se passado, desde que Bruno e Cris começaram a namorar. Em comemoração, Bruno levou Cris ao teatro, e depois jantaram num restaurante italiano. Mas Cris não estava aproveitando. Estava desconfiada de Bruno, e resolveu abordá-lo: - Bruno, você tem outra mulher? Bruno espantou-se com a pergunta, não imaginava que ela pudesse desconfiar dele: - Ah, Cris, que bobagem! Por que isso agora? Eu amo você desde o primeiro dia em que te vi, não tenho motivo nenhum para procurar mais ninguém. E nem tenho tempo para isso também. O trabalho está tomando todo o tempo. – Inclinou-se para beijá-la, mas ela tinha a sensação que ele mentia. Ele percebeu. - Cris, o que há? Por que essa desconfiança? Eu fiz alguma coisa que magoou você? Não estou te dando atenção suficiente? - Não sei, eu conheço você, parece que andou aprontando alguma coisa. Está diferente... - Bom, eu andei aprontando uma coisa mesmo. Mas não era para você descobrir. Cris ficou com o coração na boca. Imaginava que ele pudesse ter tido um caso. Morreria se ele a deixasse. Nesse momento, notando sua agonia, Bruno tirou uma caixinha do bolso do paletó, e entregou a ela. Quando Cris abre a caixa, levou um susto, e seus olhos encheram-se de lágrimas. Era um lindo anel de diamantes. - Aceita se casar comigo? Cris chorava de emoção, e sem dizer nada o beijou com paixão. Aceitava sim, se casar com ele. Conversaram sobre seu relacionamento, sobre como dariam a notícia aos pais e amigos, sobre a cerimônia, a festa, os convidados. Fariam uma cerimônia na igreja, porque o sonho de Cris era entrar vestida de noiva. Marcaram a data para dali a 1 ano, quando fizessem 2 anos de


namoro. A festa seria no salão da própria igreja, para melhor conforto dos convidados. Cris já pensava no vestido de noiva. Terminaram a comemoração num flat. Quando Bruno deixou Cris em casa, essa não aguentou esperar. Acordou os pais e contou a novidade: - Mãe, pai, o Bruno me pediu em casamento! Seus pais ficaram felizes, mas preocupados. Era a primeira filha que casava, e apesar de perceberem o amor entre os dois, achavam muito cedo. Namoravam há apenas 1 ano. Mas Cris argumentou que na época deles, os casais namoravam e casavam muito mais cedo. Além do mais, o casamento seria para dali há 1 ano! No fim foram se acostumando com a ideia. Sua mãe empolgava-se falando sobre o vestido de noiva, sobre a festa, os convidados. Só preocupava-se com os gastos. Será que conseguiriam bancar uma festa grande? Comentou com Cris, mas ela achava que Bruno ajudaria nas despesas. Bruno já havia visto a igreja e marcado a data. Adiantou-se e solicitou catálogos de buffets, e modelos de convites. Não queria deixar todas essas tarefas para Cris. Iria ajudar em tudo. E claro, ele é quem iria bancar o casamento. Não cobraria nada de seus sogros. Queria dar mais isso a mulher que ele amava. Nos seis meses seguintes a vida passou voando para Bruno e Cris. Viam-se pouco, de tão ocupados que estavam. Cris continuava dando aulas, e Bruno vivia arrumando novos projetos. Precisou contratar mais gente e sua empresa já contava com 20 funcionários, além de Simone, que era sua sócia e braço direito. A pedido dela, Bruno contratou Mônica, que seria treinada para gerenciar a empresa. Mônica era muito inteligente e esforçada, e estava aprendendo muito. Trabalhava tanto quanto Simone, e pareciam grandes amigas. As duas resolviam todos os problemas na empresa, e Bruno ficava muito feliz com isso. Aumentou várias vezes o salário delas. Aliás, uma de suas características era pagar muito bem seus funcionários, para que trabalhassem satisfeitos e não o deixassem. No segundo mês de trabalho, Mônica fechou contrato com a empresa Multitask , que os três (ela, Simone e Bruno) sempre almejaram ter como cliente. Sua presidente, Vanessa, era uma mulher muito exigente, e difícil de se relacionar. Topou fechar o negócio por 6 meses, mas poderia prorrogar, caso conhecesse Bruno e ele lhe convencesse. Bruno ficara muito conhecido no mundo dos negócios, por sua rápida ascensão, e também por sua beleza. Fora isso, por ser tão correto e por nunca ser visto com outras mulheres, além de sua noiva, despertava curiosidade. As mulheres fariam qualquer coisa para conhecê-lo, e conquistá-lo. Era um dos solteiros mais cobiçados de São Paulo. Bruno resolveu deixar essa reunião com Vanessa para mais tarde, quando o contrato tivesse na metade. No momento tudo em que ele pensava era em seu casamento. A noite, quando encontrou Cris, resolveram os detalhes finais. - Cris, o que acha de servirmos um coquetel, com salgadinhos, e depois um jantar, com entrada, prato principal e sobremesa? Contrataríamos garçons para servir, para que não fique aquela fila de gente para pegar comida. Acho isso péssimo! - Eu acho ótimo! Perfeito.


- Você já escolheu os padrinhos? - Sim, meus irmãos e a Talita, aquela minha super amiga, com um primo que adoro. E você? Quem vai querer que esteja ao seu lado, no altar? - Bom, não conheço muita gente, então vou chamar a Simone com o irmão dela, a Mônica com meu amigo João, que conheci na volta dos Estados Unidos, e o Carlos com a esposa. - E com quem você vai entrar na igreja? – Cris sabia que ele não tinha nenhum parente. - Eu vou entrar sozinho. – Bruno entristecia-se com essa parte. Já fazia tempo que perdera sua família, e não pensava nisso com frequência. Mas agora, que se casaria, gostaria que sua mãe entrasse na igreja com ele. - Bruno, tem outra coisa que preciso perguntar a você... - Diga minha querida. O que é? - Meus pais estão preocupados com o que terão que pagar. Você sabe, eles não tem muito dinheiro, meu pai é aposentado, precisamos ver quanto vai ficar tudo. - Cris, diga a eles para não se preocuparem. Eu vou pagar tudo. Não quero que eles se apertem. Tenho um bom dinheiro guardado, e a empresa é um sucesso. Cris imaginava essa resposta, mas agradeceu e beijou-o com paixão. Em pouco tempo esqueceram os detalhes do casamento e estavam se amando. Davam-se tão bem que pareciam Almas Gêmeas.

Capítulo XIII Chegou o tão esperado dia! Bruno levantou bem cedo, tomou um longo banho e finalmente se vestiu. Estava maravilhoso no terno branco que mandara fazer para a ocasião. O casamento era na hora do almoço, e ele não poderia se atrasar. Carlos foi quem o levou para a igreja. Ficou no carro até os padrinhos entrarem. E então dirigiu-se ao início da nave. Seu coração estava aos pulos, sua ansiedade incontrolável. Não via a hora de ver sua noiva caminhando rumo ao altar, a seu encontro. Caminhou sozinho até o altar, a passos lentos, mas firmes. Sorria para seus convidados. Era o dia mais feliz de sua vida. Já no altar, aguardava nervoso a chegada de sua amada. Os fotógrafos registravam cada momento, e um cinegrafista fazia o vídeo. De repente começa uma melodia suave e as portas da igreja são fechadas. O coração de Bruno estava saindo do peito. Ele mantinha um sorriso no rosto para disfarçar o nervosismo. A marcha nupcial inicia-se, e as portas são abertas. E então ela surgiu, linda, com seu vestido branco, do tipo tomara que caia, com um decote nas costas e um arranjo de flores na cabeça. Estava com uma maquiagem leve, e levava um pequeno buquê nas mãos. Seus cabelos loiros caiam sobre seus ombros, em cachos.


Bruno não continha as lágrimas. Estava muito emocionado. Recebeu Cris dos braços do pai, e agradeceu a seu sogro pela filha maravilhosa que ele possuía. A cerimônia foi linda, tudo havia sido perfeito, como os dois sempre sonharam. A festa foi maravilhosa, todos os convidados se divertiram, comeram e beberam muito! Não havia ninguém ali que não tivesse amado tudo. Foi o casamento do ano! A lua de mel seria em Paris. Bruno havia feito surpresa para Cris, ela ficou sabendo só ao final da festa. Ficou maravilhada e muito feliz. Sua vida não poderia estar melhor! Ela nunca imaginou que pudesse ser tão feliz. Por um momento pensou em Renata, mas em seu íntimo sabia que a outra estaria feliz por ela. Onde quer que estivesse. E sentia que ela estava muito próxima, como se olhasse por ela e apontasse os caminhos que deveria seguir. Passaram os melhores 15 dias de suas vidas em Paris. Maravilhosa e romântica, Paris era a cidade ideal para casais apaixonados. Conheceram tudo de mais bonito que havia para conhecer lá, incluindo os principais pontos turísticos. E faziam amor no resto do tempo livre que tinham. Voltaram mais cansados do que partiram, mas tinha valido a pena. Pareciam duas crianças felizes ao desembarcarem no Aeroporto Internacional em São Paulo. Só então puderam parar o abrir os presentes de casamento. Ganharam muita coisa, e Cris cogitou a ideia de morarem num apartamento. Bruno riu da ideia: - Por que quer sair dessa casa? - Ah, não sei, pensei em montarmos uma casa nossa. Essa era só sua, você não fez pensando em mim. - Mas Cris, tudo aqui está do jeito que você gosta. É uma casa grande, e podemos mudar a decoração quando quiser. Você pode fazer o que gostar aqui dentro. - Ah, é verdade, devemos ficar aqui mesmo, que ideia a minha... além do mais, será perfeita para nossos filhos. Bruno ouviu o que mais temia em sua vida. Estremeceu, mas não comentou nada. Deveria ter dito antes, mas não teve coragem. Cris notou seu nervosismo: - O que foi amor? Não me diga que não quer filhos. - Não é isso Cris... Eu devia ter te falado antes, mas não consegui. Eu não posso ter filhos... A frase foi como um golpe no coração de Cris. Tudo o que ela mais sonhara na vida, além do casamento, era um monte de filhos. E agora o homem que amava dizia que não poderia dar isso a ela. Bruno notou que ela ficara chateada. Disse que poderiam adotar, ou tentar uma inseminação. - É, eu sei que podemos... eu sempre sonhei em ser mãe, em ficar grávida, desfilar para cima e para baixo com um barrigão... - Podemos fazer uma inseminação, meu amor...


- Mas teria que ser com um doador? Eu seria mãe e você não seria pai de verdade... - Escute, eu não penso assim. Eu penso que mesmo se fizermos uma inseminação com sêmen de doador, ele será meu filho sim. Porque penso em algo maior do que essa vida material aqui. Penso que os espíritos precisam de um corpo para viver aqui na Terra, e esse corpo é só uma roupa. O que importa é a essência do ser humano. E é claro que a criança que viria para nós seria meu filho. Assim como se adotássemos. Desculpe, eu sei que está decepcionada, e que eu deveria ter te contado antes. - Tudo bem, Bruno. Deixa isso para lá por enquanto. Acabamos de nos casar, pensamos nisso mais para frente. Não tocaram mais no assunto. As vezes, quando saiam juntos para fazer compras, Bruno notava que Cris ficava observando as mães cuidando de seus bebês, com um olhar maternal. Achava melhor não comentar nada. Não queria que ela se sentisse incompleta. No tempo certo saberia convencê-la. Tirando esse fato, a vida dos dois seguia como se vivessem em lua de mel. Estavam sempre apaixonados, de mãos dadas, demonstrando o carinho que tinham um pelo outro. Cris já havia desistido da ideia de ser mãe. Não aceitava bem o fato do filho não ter a genética de Bruno. Talvez dali há alguns anos mudasse de ideia. Mas ainda não estava preparada. Além do mais, ainda trabalhava como personal, e Bruno vivia com a correria de sempre de sua empresa, que não parava de crescer. Contrataram mais uma mulher, que seria gerente de uma das filiais que Bruno pretendia abrir, no Rio de Janeiro. Carla chegou ao escritório de Bruno e adorou, logo de cara. Gostou de Simone e de Mônica e as três tornaram-se grandes amigas. Aprendeu rápido com elas. Certa vez Simone notou uns olhares diferentes de Carla, em relação a Bruno, e comentou com Mônica: - Você viu? - O quê? - O olhar que Carla lançou a Bruno. Se tivesse aqui, Cris certamente teria percebido. E não teria gostado nada! - Imagina, você deve ter se confundido. Carla não quer nada com ele. – Mônica foi tão taxativa que Simone estranhou. - Como você sabe? - Já a conheço. - De onde? - De um bar gay. - O que? Ela também? Parece que Bruno escolhe a dedo!


Simone e Mônica namoravam há tempos. Ninguém sabia, porque era escondido. Bruno desconfiava, mas nunca perguntaria nada. Não era da conta dele. Se um dia elas quisessem falar sobre isso, ele não teria nenhum preconceito. Mas não iria se intrometer. - Ô Simone, vê se não vai ficar dando em cima dessa garota viu? Tô de olho em você! – Mônica provocava Simone, mas sabia que a mesma era fiel. - Claro que não! Ela não faz o meu tipo! E aposto que o de Bruno também não. Mas Simone tinha razão. Carla realmente olhava Bruno com outros olhos. Uma vez Carla comentou com elas que achava que já conhecia Bruno. Mas não tinha certeza. Até achou que poderia ser de algum bar gay. Depois achou pouco provável. Bruno não tinha jeito de gay. Cristiane não gostou muito de Carla. Imaginava que Simone e Mônica fossem namoradas, e lembrava muito de Renata quando pensava nisso. Mas em Carla ela não confiava. Ela parecia saber de algo que ninguém mais sabia. E além do mais, achava que Carla olhava muito para Bruno. Uma vez comentou com ele: - Essa garota não para de olhar para você! - Ah, meu amor, não vamos começar com esse ciúmes de novo, vai... - Eu nunca me engano. Eu estava desconfiada de Michelle, e era tudo verdade. - Então tá, mas o que quer que eu faça? Eu mal fico junto com ela, logo ela vai ser transferida pro Rio, para a nossa nova filial. Ele é competente e profissional, não posso manda-la embora. Fora isso, ela deve ser do mesmo time da Simone e da Mônica. - O que quer dizer? - Ah Cris, eu acho que elas são namoradas. Você nunca notou os olhares? Fora que estão sempre juntas. Chegam juntas, vão embora juntas, almoçam juntas... - E você não se incomoda? – Cris estava testando Bruno. Queria saber de fato se ele era ou não preconceituoso. - Claro que não! Cada um faz o que quer com a sua vida. Se elas estão bem juntas, que mal tem? Se amam e aproveitam os bons momentos. Não fazem nada de errado, são trabalhadoras, muito profissionais. Imagina se vou ser contra! Mas e você? Tem preconceito? - Não, Bruno. Eu também penso como você. Só não sei se teria coragem. Assumir um relacionamento gay, enfrentar a sociedade, a família, os amigos. Deve ser muito difícil e muito sofrido. - É, deve ser. Mas as pessoas tem que começar a enfrentar os preconceitos. Devem “sair do armário”, com se diz por aí. Porque todo mundo deve ser respeitado e ter os mesmos direitos. Não acho justo que duas pessoas que se amam, que pagam seus impostos, que trabalham, não possam sair por aí de mãos dadas porque a sociedade acha errado.


- Nossa, você é um defensor da causa! Não me diga que já teve um relacionamento gay no passado. – Cris ria, mas Bruno ficou sério. Não gostou do comentário. Ele só estava defendendo o direito das pessoas. - Não tive, Cris, mas se um dia eu gostasse de outro homem, não iria ficar me escondendo em guetos. Gostaria de tentar levar uma vida normal como todo mundo. E você? O que aconteceria se gostasse de outra mulher? Iria atrás da felicidade, ou iria abrir mão dela por causa dos outros? Cris abriu a boca para falar, mas não disse nada. Já havia passado por aquela situação. E abriu mão da felicidade por causa de sua família e amigos. Lágrimas brotaram de seus olhos e ela tentou disfarçar. - Disse algo errado? Por que está chorando? - Nada... Só fiquei emocionada com suas palavras. Realmente as pessoas tem o direito de ser feliz. Mas mudando de assunto, quero que mantenha distância dessa Carla, não confio nela, mesmo sendo gay. Cris era desconfiada e ciumenta, e sempre que estava no escritório de Bruno, observava Carla. Era muito bonita e se vestia muito bem. Mas Bruno não teve problemas com ela. Ela lhe trouxe clientes novos e aprendera a programar. Depois de um tempo, quando já estava mais a vontade com ele, e quase indo para o Rio de Janeiro, criou coragem: - Bruno, sei que é meu chefe, mas há muito tempo queria te perguntar algo pessoal... - Pode perguntar, Carla. - Você já frequentou bares gays? - Por que essa pergunta? Nunca estive em um. - É que parece que eu te conheço de algum lugar, sua fisionomia não me é estranha. Eu sei que ficou famoso depois que a empresa cresceu, e começou a aparecer em vários jornais e revistas, mas parece que te conheço de outros tempos. - Então eu devo ser um tipo bem comum, porque quando conheci a Cris ela teve a mesma impressão. Agora vamos trabalhar, que os projetos estão esperando! E logo você vai se mudar, precisa preparar tudo. Bruno ficou preocupado com aquela conversa. Achava que estava na hora de conversar com Cristiane sobre seu passado. Mas ele não estava preparado para contar a ela. Qual seria sua reação? Eles eram tão felizes... Não, ainda não era a hora. Resolveu que iria esperar mais.

Capítulo XIV - Bruno, uma bomba para você. – Era Simone, logo cedo numa segunda-feira. - O que foi Simone?


- Vanessa, da Multitask. Está ameaçando não renovar o contrato, caso não vá a seu encontro. Ela quer uma reunião urgente, e tem que ser com você. - Ok, marque com ela. Pode ser amanhã de manhã. - Aí que está a segunda bomba. Ela quer jantar com você. Sexta a noite. - Ah, Simone, você deve estar brincando... O que essa mulher quer comigo? A empresa prestou os melhores serviços a ela. Deve estar com segundas intenções. Diga a ela que podemos marcar de manhã, não posso ir jantar, ainda mais na sexta-feira. - Bruno, eu já tentei argumentar isso com ela. Sabia que seria sua reação, mas ela insistiu. E disse que cancelaria o contrato, de qualquer jeito. Ela é responsável por metade do faturamento dessa empresa. Sei como se sente, mas seria importante não perdermos. - Marque o tal jantar. Vou avisar a Cris. E me preparar para a bronca... Quando Bruno chegou em casa, tentou explicar o motivo do jantar. Claro que ela ficou brava, e Bruno não tirava sua razão, se ele mesmo estava nervoso com essa história. Mas ele não tinha muita saída. Pediu para que ela confiasse nele. - Te amo, Cris. Confie em mim. Após o jantar venho voando pra casa. De qualquer forma, é só na sexta, hoje ainda é segunda. Não sofra por antecipação ok? No dia seguinte, Bruno precisou sair correndo para resolver um problemão em um cliente. Simone e Mônica estavam em outros clientes, e Carla já estava no Rio. Só havia ele ali que estivesse apto a resolver. Nem deu tempo de ligar para Cris, e acabou esquecendo o celular. Ficou preso na empresa até as 21 horas, sabia que Cris devia estar preocupada, por isso entrou em uma loja de conveniência e usou o telefone público. - Cris, sou eu. Desculpe, estou atrasado, fiquei até agora num cliente. O Carlos vai me levar para casa. Ele já saiu para me buscar? Vim pra cá de taxi e deixei o carro na empresa. - Eu não acredito mais em você! Sempre tem essas desculpas! Deve estar com sua amante! - O que é isso, meu amor? Estou aqui na porta da empresa, esqueci o celular no escritório, saí voando de taxi para cá, porque seria mais fácil do que procurar estacionamento. O cliente estava com um problema gigante e a Simone e a Mônica estavam em outros clientes. Você sabe como sou responsável, não podia deixar o cliente na mão. - Quando chegar aqui a gente conversa. – E desligou o telefone. Ele ia discar de novo, mas Carlos havia chegado. Foi conversando o caminho todo com ele. Bruno não entendia esse ciúmes doentio de Cris. Ele sempre fora fiel, nunca dera motivos para que ela desconfiasse dele. Carlos tentava amenizar o lado de Cris, mas Bruno estava bravo dessa vez. Chegou em casa e foi conversar com ela: - Oi Cris, desculpe o atraso. Como eu disse, fiquei preso no cliente.


- Pois eu não acredito em você!! Tenho certeza que tem uma amante!! – Ela estava descontrolada. Normalmente Bruno ficaria quieto, tomaria um banho, esperaria os ânimos de acalmarem para continuar a conversa. Mas dessa vez não aguentou. - Que tipo de homem você acha que eu sou, Cristiane? Se eu disse que estava trabalhando, por que acha que eu mentiria para você? Alguma vez te dei motivos para toda essa desconfiança? O Carlos foi me buscar na porta da empresa. Estou cansado, com fome, louco por um banho. O que eu mais queria era chegar em casa e cair nos seus braços. Mas você fica querendo arrumar briga, não entende meu trabalho, e desconfia de mim sempre! Assim fica difícil mantermos um relacionamento, não acha? Agora fique com suas desconfianças, vou tomar banho. Bruno estava muito chateado. Não aguentava mais esse tipo de desconfiança. Ela era a mulher da vida dele. Cris também estava chateada, achou que havia passado dos limites. Nunca vira Bruno daquele jeito. Até disse seu nome inteiro, coisa que ele nunca fazia. Devia ter ficado muito bravo com ela. Sem pensar, ela pegou a carteira dele em cima do criado mudo e abriu. Quase caiu para trás quando viu uma foto de Renata! Começou a chorar de saudades, e também desconfiada. O que era aquilo? Por que Bruno possuía uma foto de Renata? Ele jurou que não se conheciam. Por que ele mentira para ela? Será que ela havia sido namorada dele? Não, Renata gostava de mulheres. Será que eram irmãos, e ele não quis contar? Estava transtornada! Amava Bruno mais do que tudo no mundo, e não queria perde-lo. Mas não suportaria mais mentiras. Nem percebeu quando Bruno saiu do banho. Ele olhava para ela, com olhar assustado.

Capítulo XV - Cris? O que está fazendo? Onde encontrou essa foto? - Na sua carteira. De onde a conhece? – Cris era fria, queria saber toda a verdade, não suportaria mais mentiras. - Por que estava mexendo nas minhas coisas? - DE ONDE A CONHECE??? – Cris estava perdendo o controle. - Me escute, essa é uma longa história, um dia você vai saber. Ainda não está preparada. Mas pode ter certeza que não é nada de ruim, e nada do que possa estar pensando. - Você não sabe o que estou pensando. Eu quero saber a verdade. Você não tem noção do que Renata significou para mim. E você nunca mencionou que a conhecia. Me conte a verdade, por favor. Pelo bem de nosso casamento. - Ainda não posso te contar, Cris, desculpe. Cristiane ficou nervosa. Sentia-se traída, pois agora tinha certeza que Bruno e Renata se conheciam. Queria saber por que ele andava com uma foto dela na carteira, queria saber toda a verdade.


- Se você não me disser, eu vou embora dessa casa. Não vou viver ao lado de alguém que mente para mim. É um assunto delicado e importante. - Amor, confie em mim, você vai saber de tudo quando for a hora. - Não me peça para confiar em você. Eu vou embora. Estou indo para a casa da minha mãe. Quando mudar de ideia e resolver ser sincero comigo, sabe onde me encontrar. Bruno nunca havia visto Cris tão decidida. Ela se transformara. Arrumou suas malas e partiu, deixando Bruno com lágrimas nos olhos. Não conseguiu dormir a noite toda. Só pensava em como poderia contar a ela. Quando amanheceu Carlos estranhou que Bruno ainda não havia saido do quarto e resolveu levar o café da manhã. Encontrou Bruno sentado na cama, com a foto de Renata nas mãos. Levou um susto e quase derrubou a bandeja. - Carlos, ela encontrou isso... - O que disse a ela? - Nada. Eu ainda não posso contar a verdade. Ela não está preparada. E não sei se um dia vai estar. - E deixou que ela fosse embora? Não pode fazer isso! Tem que ir atrás dela. - Ah, Carlos, é complicado... Não sei como ela reagiria a essa história toda. E se tudo viesse a tona? Seria um escândalo! - Bruno, tenho certeza que ela te ama o suficiente. Vai entender. Pode se chocar no começo, mas vai compreender. - Preciso pensar... Vou trabalhar, assim me distraio um pouco. Cristiane passou o dia inteiro deprimida e infeliz na casa de sua mãe. Nunca havia sentido por homem nenhum o que sentia por Bruno. Sabia que ele era o homem da sua vida, e que seria muito infeliz sem ele. Mas não suportaria viver com um mentira. Por várias vezes pegou o telefone para ligar para ele, mas desistiu na metade. Queria que ele ligasse, que explicasse tudo, mas o telefone não tocou o dia todo. Ela ficou sem notícias dele por vários dias. Não conseguia comer e nem dormir direito, imaginando o que poderia ser tão grave que ele não poderia lhe contar. Bruno estava perdido. Trabalhava mecanicamente, voltava para casa bem tarde, para não ter tempo de sentir saudades e nem de pensar em Cris. Estava triste, não sabia o que fazer. Ainda por cima, na sexta ainda tinha aquele jantar com a Vanessa. Não tinha cabeça para resolver nada, e nem aguentar ninguém , mas não teve opção. Bruno chegou no restaurante pontualmente as 20 horas. Pediu uma mesa e ficou a espera de Vanessa. Assim que ela entrou todos viraram-se para olhar. Era uma mulher alta, linda, com cabelos negros longos, olhos verdes, olhar penetrante. Muito segura de si, seu andar


imponente chamava a atenção de todos os homens do local. Bruno também notou, mas seu interesse por ela era profissional. Bruno fez uma rápida apresentação da empresa, definiu algumas metas para a Multitask e convenceu Vanessa que poderiam trabalhar juntos para alcançar essas metas. Vanessa ficou impressionada com a lábia de Bruno, e com sua capacidade de negociar. Sabia que seria bom negócio para ela, se fechasse com ele. Mas esse encontro era para conhecê-lo melhor, e quem sabe conquistar um amigo. Precisava de alguém para desabafar. Vanessa contou para Bruno que era casada e tinha dois filhos. Mas descobriu que seu marido a estava traindo. Para não prejudicar seus filhos, resolveu que ele poderia continuar morando em sua casa, mas dormiam em camas separadas. Bruno achou estranho esse arranjo: - Como é que você aguenta isso? Você é bonita, pode ter o homem que desejar, inteligente, rica. Não precisa se sujeitar a esse tipo de coisa. - Bruno, é complicado quando você tem filhos. Eles são pequenos ainda, e não quero que cresçam sem o pai por perto. Não quero criar nenhum trauma na cabeça deles. Eles adoram o pai. Afinal, ele trabalha menos tempo que eu, e consegue se dedicar muito mais a eles. Eu não o odeio. Imagino que possa ter sido minha culpa o fato dele ter procurado outra mulher. Eu estou sempre trabalhando, não dava atenção a ele... - Vanessa, não se subestime. Você não pode se culpar. Se ele te amasse, tentaria entender, ou procuraria você para uma conversar. Vocês tentariam fazer os ajustes necessários para tudo dar certo. Mas ele preferiu o caminho mais fácil. - Mas eu também não sei se gostava tanto dele assim. Tanto que não me abalei quando soube da amante. Mas sempre fui contra a separação quando se tem filhos. Enfim, um dia isso tudo vai se resolver. Mas me fale sobre você. Parece aéreo, chateado. - Estou um pouco chateado sim. Minha mulher saiu de casa. Não sei viver sem ela. - Há quanto tempo estão juntos? - Íamos fazer um ano de casados. Namoramos mais 2 anos. Sinto que sempre estive com ela. É a mulher da minha vida. - E por que ela foi embora? - Ah, essa é uma longa história. Melhor deixarmos para uma outra ocasião. - Tem certeza? Se quiser pode se abrir comigo. Eu não sou aquela megera que todos pensam. No escritório sou mais durona, mas se eu não fosse assim, não teria conseguido respeito. Mas as vezes isso me magoa. Queria que as pessoas ficassem felizes em trabalhar comigo, como são no seu escritório. As vezes que fui lá senti um clima agradável, parecia que todos estavam satisfeitos. E demostraram gostar muito de você. - Talvez você devesse conversar com seus funcionários. Mostrar que está disposta a ajuda-los. Que entende os problemas deles, e perguntar se estão felizes ou infelizes com algo dentro da empresa. Pedir ideias, tentar entender o que eles querem. Claro que minha empresa é bem


menor que a sua, mas sempre converso com todos os funcionários, tento entender o que querem, o que precisam para trabalharem felizes. A gente pensa que é só aumento de salário, mas tem muito mais. - É Bruno, minha empresa tem mais de 500 funcionários, e não conheço bem nem minha secretária, que fica 12 horas por dia ao meu lado. Vou começar a prestar mais atenção. E você deveria mudar sua consultoria de informática para recursos humanos! - Quem sabe no futuro eu desenvolva essa sua ideia... - Ah desculpe, acabei falando de mim, e nem lembrei que está chateado. Quer desabafar comigo? - Não Vanessa, deixa esse assunto para lá. Falar de trabalho me animou. Agora podemos ir? Bruno pediu e pagou a conta. Por mais que fosse um jantar profissional, e geralmente a empresa que convida é a responsável pelos gastos, ele estava jantando com uma mulher, e não a deixaria pagar a conta. Era um cavalheiro, acima de tudo. Essa atitude cativou ainda mais Vanessa, que já tinha um certo interesse nele. Na saída, como Vanessa estava sem carro, Bruno ofereceu uma carona. Chegando em sua casa, Vanessa o convidou para um café. Estava cedo e ele não tinha pressa em voltar para sua casa vazia. Acabou aceitando. A casa de Vanessa era muito grande, e maravilhosa. Na sala, inteira de vidro, parecia que estavam ao ar livre. Tudo estava muito bem arrumado e aconchegante. Seus filhos dormiam no andar de cima e seu ex-marido ainda não havia chegado. Provavelmente estava com a outra mulher, e poderia nem vir para casa. Vanessa preparou o café. Sentaram-se na cozinha e continuaram sua conversa. De repente Vanessa aproxima-se mais de Bruno e beija sua boca. Surpreso e confuso, ele retribui o beijo. Os dois estavam confusos e carentes, e precisavam desse momento. Sem pensar, e seguindo seus instintos, Bruno carrega Vanessa até o quarto. Fecha a porta e começa a acaricia-la. Vanessa o desejava fazia tempo, e seu jantar era com segundas intenções. Em determinado momento, Bruno para, olha para ela, e diz: - Desculpe-me... - O que aconteceu? - Eu não posso continuar. Preciso ir... - Mas... vai me deixar aqui assim? – Vanessa não estava acreditando no que estava acontecendo. Como ele resistiria a ela? Seu corpo lindo, sua pele macia, seu sexo pulsando... Como ele poderia deixa-la e simplesmente ir embora? - Desculpe... Preciso ir mesmo. Bruno saiu, deixando Vanessa perplexa. Entrou no carro e fez o caminho da casa de Cris. Já era 1 da manhã, mas precisava fazer isso. Não poderia mais viver sem ela.


Capítulo XVI Assim que chegou a casa da mãe de Cris, resolveu ligar para seu celular, antes de tocar a campainha e acordar a vizinhança toda. Com uma voz sonolenta, ela atendeu, sem nem ver quem era: - Alô... - Cris?? - Bruno?! – Despertou assustada com a voz dele a essa hora. - Preciso falar com você. Estou aqui na porta, por favor pode sair um pouco comigo? Cris trocou de roupa e saiu. Aquele era seu marido, que ela amava tanto e estava morrendo de saudades. Ainda estava chateada, mas quando o viu sentiu tanto amor que abriu um sorriso. Bruno a abraçou com paixão, e não queria mais soltar. - Meu amor... Não posso mais viver sem você. Por favor volte para casa. - Bruno, não posso continuar com esse sofrimento. Eu amo você. Mas preciso da verdade. Preciso saber como conheceu Renata. - Por que insiste tanto nisso? Eu posso tê-la conhecido antes dela estar com você. Que diferença isso vai fazer agora? - Ela significou muito para mim. Nunca te falei sobre isso, mas éramos namoradas. Quando ela morreu naquele acidente estúpido, a minha vida acabou. Metade do meu coração foi arrancada do meu peito, e a outra metade estava morta dentro de mim, até você aparecer. Eu achei que vocês fossem gêmeos, tamanha a semelhança que vi quando te conheci. Pode ser que tenha sido por essa semelhança que me apaixonei tão rápido por você. Ela foi a primeira pessoa que amei na vida. Mas aí você apareceu, e fez a outra metade do meu coração reviver. Casamos e estávamos muito felizes. Eu nunca a esqueci, mas uma lembrança boa está guardada aqui dentro de mim. Tinha certeza que você não a conhecia, e nem era parente dela, nem nada, apesar de serem muito semelhantes. E aí encontro uma foto dela na sua carteira! Fiquei desesperada. Não sabia o que pensar. Será que eram namorados? Será que eram mesmo irmãos, e ele não quis me contar porque desaprovava nosso namoro? Será que eram amigos, e ele não queria me assustar? Será que ela ainda está viva, e mandou você, para que eu fosse feliz e a esquecesse? – Cris chorava muito, e Bruno se comoveu. - E se ela estivesse vida, Cris? O que mudaria entre nós? - Não sei! Nunca parei para pensar nisso! Eu vi seu corpo, e apesar dele estar todo queimado, estava com os pertences dela, para mim ela está morta. Não sei como eu reagiria agora se descobrisse que ela está viva, em algum lugar, e fez tudo isso para fugir de mim! - E se ela tivesse feito isso por ser melhor para vocês duas? Veja, agora você está comigo, e está feliz!


- Eu estaria feliz com ela também! Tenho certeza que conseguiria, depois de um tempo, enfrentar a sociedade e a família, como fazem Simone e Mônica. Mas agora ela não está mais aqui e você ainda não me contou de onde a conhece!! - Cris, pare um pouco e olhe no fundo dos meus olhos. Você vai encontrar as respostas que está procurando. Cris olhou para aqueles olhos cor de mel, que tanto chamaram sua atenção, e então, de repente, compreendeu tudo... Com lágrimas nos olhos, sem saber o que dizer, seu coração batia descompassado. Não poderia ser... Como? Seria possível? - Renata... - Oi meu amor... Não queria causar nenhum dano a você... Não sei nem o que te dizer... só que te amo mais do que tudo, e sempre amei... Nesse momento Cris desmaiou. Bruno pegou um pouco de água e tentou oferecer a ela, mas como continuava desmaiada, colocou-a no carro e foi dirigindo até em casa. Quando ela voltou a si, Bruno estava entrando com o carro pela garagem. - O que aconteceu? Onde estamos? - Estamos em casa, meu amor. - Tive um sonho estranho... Sonhei que Renata estava viva. E que... bom, que você era ela... Bruno, por favor... o que aconteceu? - Cris, não foi um sonho... Eu vou explicar tudo a você. Só espero que não fique magoada comigo. Tudo o que fiz foi por amor a você. Talvez hoje eu agisse diferente, mas na época foi o que me pareceu mais certo. Entraram em casa e sentaram-se no sofá. Bruno começou a explicação: - Você se lembra bem daquele dia em que brigamos e eu saí da sua casa voando com o carro. - Lógico que lembro. Como eu poderia esquecer... - Então, eu parei num posto para abastecer, e uma mulher me abordou, querendo o carro. Eu dei as chaves a ela, mas ela queria que eu fosse junto, porque iria passar nos caixas eletrônicos para roubar meu dinheiro. Tentei argumentar, mas ela tinha uma arma, achei melhor fazer o que ela pedia. Ela pegou a Marginal e começou a correr muito. Dirigia muito mal, e estava perdendo o controle do carro. Foi quando vi o caminhão de gasolina a nossa frente. Saltei do carro um segundo antes dele se espatifar contra o caminhão. Foi morte instantânea. Foi aí que pensei num plano. Fui lá e coloquei meus pertences no corpo da bandida, bem como minha carteira no bolso dela. Seu tipo físico era parecido com o meu, e ela estava carbonizada, ninguém iria desconfiar. Peguei um avião e fui aos Estados Unidos. Lá conheci um médico e fiz a cirurgia de mudança de sexo. Ele mesmo cuidou dos meus papéis, certidões, documentos, passaporte. Conhecia algumas pessoas que deram um jeito na imigração, pois eu tinha entrado com um nome e sairia com outro. Fiquei 6 meses me adaptando e então achei que estava pronto. Fiz alguns cursos, fiquei mais alguns meses. Voltei naquele dia em que te encontrei. Eu


sabia que estaria lá. E precisava te ver. Morria de medo que me rejeitasse, que estivesse casada, com filhos, com um novo amor. Por isso quis voltar o mais rápido possível. Quando te vi, meu coração batia tão rápido que não sei como não percebeu. – Cris estava boquiaberta com aquela história. - E eu olhei seus olhos e vi os olhos de Renata... Sentia o mesmo calor. Quando me tocou pela primeira vez, eu sabia que já tinha sentido a mesma coisa, Quando me beijou, quando fizemos amor... Não reconheci o corpo dela no necrotério. No íntimo eu achava que ela estava viva. Mas por que ela desapareceria assim? E jamais eu iria pensar nisso... - Está magoada? Sei que causei um grande trauma a você. Imagino sua dor tendo que ir a um necrotério reconhecer o corpo da pessoa que ama. Mas eu não conseguia pensar em mais nada no momento. - Como você conseguiu essa casa? - O Carlos é o único que sabe o que aconteceu. Confio nele, sei que nunca contaria para ninguém. Eu o conheci antes de conhecer você. Quando pensei em fazer isso, o contratei. Eu já tinha mandado construir a casa, quando te conheci. Então ele veio trabalhar comigo para cuidar dessas coisas. Não te contei da casa na época porque queria fazer surpresa. Tanto que decorei do jeito que eu achava que gostaria. O Carlos abriu a empresa para mim, não reparou o nome? RC Info. Renata / Cristiane... Não me orgulho do que fiz. Se fosse hoje creio que faria diferente. Assumiria você para o mundo, e te ajudaria a enfrentar os preconceitos. - Essa foi a maior prova de amor que alguém já me deu... E tenho que te dar os parabéns, pois você me conquistou quando era mulher, e depois também como homem. Estou impressionada. Mas sabe, quando você foi embora da minha casa, naquele fatídico dia, eu já estava mudando minha cabeça. Já estava pensando em enfrentar as pessoas. Fiquei tão estressada quando vi a foto na sua carteira. Achei que se conheciam, que eram irmãos, amantes... E na verdade, você é ela... Que coisa mais maluca... E como devo te chamar agora? - Cris, eu sou o Bruno. Sou homem. A Renata morreu, para todos os efeitos. Ninguém pode saber dessa história. Senão podemos ter diversos problemas. Isso o que eu fiz é crime. Nada vai mudar no nosso relacionamento. As coisas vão até melhorar, porque agora sabemos quem somos, e que nada vai poder nos separar. - Eu te amo demais... Mas ainda penso em uma coisa... e nossos filhos? - Cris, hoje em dia existem tantas possibilidades! Podemos fazer uma fertilização em vitro. Mesmo sendo com sêmen doado, será meu filho. - É, estou me acostumando com essa ideia... Abraçaram-se, beijaram-se e amaram-se o resto da noite e o dia seguinte inteiro. O que sentiam um pelo outro era muito forte. Não foram trabalhar. Conversaram sobre suas vidas, sobre filhos novamente, e decidiram tentar a fertilização. Quatro anos depois nasceram os gêmeos João e Renata. Lindos e loiros como a mãe. E com o jeito do pai. Formaram uma linda família, do jeito que sempre sonharam.


Amor e Preconceito