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Hélio Rocha

Os inquilinos da

Casa Verde Governos de Goiás de Pedro Ludovico à volta de Marconi Perillo


Palåcio das Esmeraldas no final de sua construção: o poder ali se instalaria em abril de 1937


Hélio Rocha

Os inquilinos da

Casa Verde Governos de Goiás de Pedro Ludovico à volta de Marconi Perillo

GOIÂNIA | KELPS | 2018


Copyright © 2018 by: Hélio Rocha Edição revista e ampliada

Capa: Pesquisa e Entrevistas para os depoimentos: Design gráfico: Revisão final: Fotos:

Retrato dos governadores:

Tela de Roos Bruno Rocha Adriana Almeida Sandra Rosa Sílvio Berto; Lorisvaldo de Paula; Sebastião Nogueira; Hélio Nunes; Agecom; Cedoc (Organização Jaime Câmara); Yosikazu Maeda; Hélio de Oliveira; Carlos Costa; Flávio Thadeu; Álbum de Família (livro de LBP); Carlos Alexandre; Wagnas Cabral; Nunes da Costa; Antônio Marcos Vieira; Julimar de Brito; Lailson Damásio; Aline Caetano, Wagner Soares e Acervos da família de Pedro Ludovico Teixeira e de Marco Antônio Veiga de Almeida Amaury Menezes

CIP. Brasil. Catalogação na Fonte BIBLIOTECA MUNICIPAL MARIETTA TELLES MACHADO

R

Rocha, Hélio. Os inquilinos da casa verde: governos de Goiás de Pedro Ludovico à volta de Marconi Perillo / Hélio Rocha. – Ed. revista e ampliada. – Goiânia: Kelps, 2018.

000 p.: il. ISBN 978-85-4001. Goiás – governadores. 2. Goiás – história. 3.Goiás – política I. Título.

CDU:

DIREITOS RESERVADOS – É proibida a reprodução total ou parcial da obra, de qualquer forma ou por qualquer meio sem a autorização prévia e por escrito do autor. A violação dos Direitos Autorais (Lei n.º 9.610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal. Impresso no Brasil Printed in Brazil 2018


sumรกrio


Presidentes e Governadores de Goiás (Período Republicano) MANDATO

NOME

GESTÃO

De 24 de fevereiro de 1890 a 17 de julho de 1892, os chefes do Poder Executivo passaram a denominar-se governadores. Já em 18 de julho de 1892, voltou-se à terminologia antiga: presidentes e vice-presidentes do Estado. 1º governador

Rodolfo Gustavo da Paixão

24/02/1890 a 20/01/1891

2º governador

Bernardo Antônio de Faria Albernaz

20/01/1891 a 27/03/1891

3º governador

João Bonifácio Gomes de Siqueira

30/03/1891 a 18/05/1891

4º governador

Constâncio Ribeiro Maia

19/05/1891 a 17/06/1891

5º governador

Rodolfo Gustavo da Paixão

18/06/1891 a 06/12/1891

6º governador

Constâncio Ribeiro Maia

07/12/1891 a 19/02/1892

7º governador

Braz Abrantes

19/02/1892 a 17/07/1892

1º Presidente republicano

Antônio José Caiado

17/07/1892 a 30/07/1893

2º Presidente republicano

José Inácio Xavier de Brito

01/08/1893 a 16/07/1895

3º Presidente republicano

Francisco Leopoldo Rodrigues Jardim

18/07/1895 a 09/07/1898

4º Presidente republicano

Bernardo Antônio de Faria Albernaz

09/07/1898 a 01/11/1898

5º Presidente republicano

Urbano Coelho Gouveia

01/11/1898 a 10/06/1901

6º Presidente republicano

Bernardo Antônio de Faria Albernaz

10/06/1901 a 12/08/1901

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Hélio Rocha


MANDATO

NOME

GESTÃO

7º Presidente republicano

José Xavier de Almeida

12/08/1901 a 14/07/1905

8º Presidente republicano

Miguel da Rocha Lima

14/07/1905 a 11/03/1909

9º Presidente republicano

José da Silva Batista

01/05/1909 a 24/07/1909

10º Presidente republicano

Urbano Coelho Gouveia

24/07/1909 a 30/03/1912

11º Presidente republicano

Joaquim Rufino Ramos Jubé

30/03/1912 a 24/05/1912

12º Presidente republicano

Herculano de Souza Lobo

24/05/1912 a 07/06/1913

13º Presidente republicano

Joaquim Rufino Ramos Jubé

07/06/1913 a 31/07/1913

14º Presidente republicano

Olegário Herculano da Silveira Pinto

07/06/1913 a 06/07/1914

15º Presidente republicano

Salatiel Simões Lima

06/07/1914 a 28/06/1915

16º Presidente republicano

Joaquim Rufino Ramos Jubé

28/06/1915 a 09/05/1916

17º Presidente republicano

Aprígio José de Souza

03/11/1916 a 09/05/1917

18º Presidente republicano

Salatiel Simões de Lima

09/05/1917 a 14/07/1917

19º Presidente republicano

João Alves de Castro

14/07/1917 a 21/12/1918

20º Presidente republicano

Joaquim Rufino Ramos Jubé

21/12/1918 a 24/04/1919

21º Presidente republicano

João Alves de Castro

24/04/1919 a 06/06/1921

22º Presidente republicano

Joaquim Rufino Ramos Jubé

06/06/1921 a 14/07/1921

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MANDATO

NOME

GESTÃO

23º Presidente republicano

Eugênio Rodrigues Jardim

14/07/1921 a 11/11/1922

24º Presidente republicano

Miguel da Rocha Lima

11/11/1922 a 14/07/1925

25º Presidente republicano

Brasil Ramos Caiado

14/07/1925 a 12/03/1927

26º Presidente republicano

Diógenes de Castro Ribeiro

12/03/1927 a 09/04/1927

27º Presidente republicano

Brasil Ramos Caiado

09/04/1927 a 14/07/1929

28º Presidente republicano

Alfredo Lopes de Morais

14/07/1929 a 12/12/1929

29º Presidente republicano

Humberto Martins Ribeiro

12/12/1929 a 27/10/1930 (último da República Velha)

Carlos Pinheiro Chagas

27/10/1930 a 30/10/1930

Junta provisória (composta por Emílio Francisco Póvoa, Pedro Ludovico Teixeira e Mário Caiado)

30/10/1930 a 23/11/1930

Fonte: Presidentes e governadores de Goiás, de Joaquim Carvalho Ferreira (Editora UFG)

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1937-2018 Cronologia da sucessão de governadores de Goiás e placar eleitoral


Uma foto histórica: deputados Vitor Coelho de Almeida, Jacy de Assis, Genserico Gonzaga Jaime, Alfredo Nasser, Agenor Alves de Castro, José da Costa Paranhos e Joaquim Rufino Ramos Jubé Júnior – oposição na Assembleia Legislativa de 1935


1937 Pedro Ludovico, que era governador eleito pela Assembleia Legislativa, em 20 de outubro de 1935, torna-se interventor federal, com a chegada do Estado Novo, regime proclamado.

1947

Jerônymo Coimbra Bueno, candidato da coligação UDN-PSP e dissidência do PSD, vence José (Juca) Ludovico, do PSD, por 40.792 contra 38.953 votos nas eleições realizadas em janeiro de 1947. Toma posse no dia 22 de março de 1947.

1950

Pedro Ludovico, do PSD, vence Altamiro de Moura Pacheco, da coligação UDN-PSP, nas eleições realizadas em 3 de outubro. Pedro Ludovico obteve 84.515 votos contra 55.480 do adversário. Toma posse na tarde de 31 de janeiro de 1951.

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1954 José (Juca) Ludovico, da coligação liderada pelo PSD, vence Galeno Paranhos, por 106.540 a 105.412 votos, nas eleições de 3 de outubro. Toma posse em 12 de março de 1955.

1958 José Feliciano Ferreira (PSD) ganha de César Bastos, da coligação (UDN-PSP-PTB), nas eleições de 3 de outubro, por 151.565 a 114.994 votos. É empossado em 31 de janeiro de 1959.  

1960

Mauro Borges Teixeira (PSD-PTB-PTN) vence José (Juca) Ludovico (UDN-PSP), nas eleições de 3 de outubro, por 160.365 a 130.968 votos. É empossado em 31 de janeiro de 1961.

1964/1965

Intervenção Federal (Meira Mattos), em 26 de novembro de 1964 e eleição indireta de Emílio Ribas em 7 de janeiro de 1965. Ribas governa de 23 de janeiro de 1965 a 31 de janeiro de 1966.

1965

Otávio Lage (UDN-PSP-PTB) ganha de José Peixoto da Silveira (PSD) por 180.962 a 176.809 votos. Toma posse no dia 31 de janeiro de 1966.

1970

Leonino Caiado (Arena) é eleito por via indireta pela Assembleia Legislativa no dia 3 de outubro de 1970. Posse no dia 15 de março de 1971.

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1974 Irapuan Costa Júnior (Arena) é eleito pela Assembleia Legislativa no dia 3 de outubro de 1974. É empossado no dia 15 de março de 1975.  

1978 Ary Ribeiro Valadão (Arena) é eleito pela Assembleia Legislativa no dia 1o de setembro de 1978. Toma posse no dia 15 de março de 1979.

1982 Iris Rezende Machado (PMDB) é eleito no dia 15 de novembro de 1982 com 964.179 votos, vencendo Otávio Lage (PDS), com 470.184 votos; Athos Magno (PT), com 9.818 votos; e Paulo Timm (PDT), com 845 votos. Toma posse no dia 15 de março de 1983.

1986

Henrique Santillo (PMDB), com 993.949 votos, vence Mauro Borges (Coligação MDG), com 592.776 votos; Darci Accorsi (PT), 135.485; Paulo Vilar (PCB), 9.601; e Eval Soares (Partido Humanista), 4.894. Santillo toma posse em 15 de março de 1987.

1990 Iris Rezende Machado (PMDB-PCB-PTR), com 889.927 votos, vence as eleições de 3 de outubro de 1990, derrotando Paulo Roberto Cunha (PDC-PFL-PRN-PSD-PTB), que teve 537.111 votos; Valdi Camárcio (PT PSB), 88.836 votos; e Iram Saraiva (PDT), 62.237 votos. Toma posse em 15 de março de 1991.

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1994 Maguito Vilela (PMDB), com 669.196 votos, lidera a votação no primeiro turno no dia 15 de outubro de 1994. Lúcia Vânia (PP), fica em segundo lugar, com 401.463 votos. Ronaldo Caiado (PFL), tem 364.726 votos; e Luiz Antônio (PT), tem 137.722 votos. No segundo turno, realizado no dia 15 de novembro de 1994, Maguito Vilela obtém 1.103.025 votos contra 782.568 votos de Lúcia Vânia. Maguito é empossado no dia 10 de janeiro de 1995.  

1998

No dia 2 de abril, Maguito Vilela passa o governo a Naphtali Alves.

1998

Marconi Perillo vence o primeiro turno da eleição para governador e vai para o segundo turno, disputando-o com Iris Rezende. O segundo turno do processo se realizou no dia 25 de outubro. Resultado: Marconi Perillo, l.157.988 votos; Iris Rezende, 1.015.340 votos. Marconi tem como companheiro de chapa Alcides Rodrigues Filho.  

1998

Por uma indicação para o Tribunal de Contas do Estado, Naphtali Alves passa a governadoria ao presidente da Assembleia Legislativa, Helenês Cândido.

1999

Primeiro de janeiro de 1999: posse de Marconi Perillo no governo do Estado.

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2002 Marconi Perillo concorre à reeleição e vence no primeiro turno. Os resultados foram estes: Marconi, 1.301.554 votos; Maguito Vilela, 833.554 votos, uma diferença arredondada de 468 mil votos; Marina Sant’Anna, 385.524 votos; Alba Célia Cruz, 10.672; Geraldo Lemos, 7.641; Javan Rodrigues, 3.087.

2003 Primeiro de janeiro de 2003. Marconi Perillo, tendo de novo  Alcides Rodrigues Filho como vice, assume pela segunda vez o governo de Goiás.

2006 Alcides Rodrigues vence o primeiro turno, concorrendo com Maguito Vilela, Barbosa Neto e Demóstenes Torres. No segundo turno, Alcides fica com vantagem de 57,14% contra 42,86% de Maguito Vilela.

2007 Primeiro de janeiro. Posse de Alcides Rodrigues, com Ademir Menezes como vice-governador.

2011 No dia 1º de janeiro, Marconi Perillo e José Eliton de Figuerêdo Júnior, tomam posse. Marconi estava assumindo pela terceira vez o cargo de governador de Goiás, que recebeu do vice-governador, Ademir Menezes. O até então governador Alcides Rodrigues havia rompido com Marconi.

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2014 No dia 26 de outubro de 2014, em segundo turno, Marconi Perillo, com 1.750.977 votos (57,44% dos votos válidos) vence a disputa com Iris Rezende Machado, que obteve 1.297.592 votos (42,56%). Naquela eleição também concorreram os seguintes candidatos: Vanderlan Cardoso, Antônio Gomide, Professor Weslei, Marta Jane e Alexandre Magalhães.

2015 Em 1º de janeiro, Marconi Perillo e José Eliton de Figuerêdo Júnior são empossados, respectivamente, nos cargos de governador e vice-governador. Marconi assume, pela quarta vez, o Poder Executivo goiano.

2018 Em 6 de abril, o vice-governador do Estado, José Eliton, assume o Governo do Estado de Goiás, enquanto Marconi Perillo deixa o seu quarto mandato para disputar as eleições daquele ano.

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prólogo

Goiás, o salto entre 1930 e 2018

G

oiás com Y e Z, havia um especial encanto nessa designação antes da reforma ortográfica que modificou a forma. O Estado dependia muito, naquele tempo, quando ocorreu a Revolução Liberal de 1930, da Estrada de Ferro que o ligava à parte mais desenvolvida do País. Sobre tal encanto escreveu o poeta Léo Lynce: Terra moça e cheirosa Nome bonito - Goyaz! Que prazer experimento sempre que o leio nos vagões em movimento, com aquele Y no meio! O fordinho e o chevrolet, rasgando campos, furando matas, vão, a trancos e barrancos, rumo às cidades pacatas que brotaram no sertão.

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(Nas pautas musicais do arame dos mangueiros, que gênio irá compor os motivos dos currais, os desafios brejeiros e as cantilenas de amor? Goyaz! recendente jardim, feito para a volúpia dos sentidos! Quem vive neste ambiente, sorvendo o perfume de seiva que erra no ar; quem nasceu numa terra assim, porque não há de cantar?

Não obstante o antigo charme, aquele Goiás com Y e Z só podia lamentar a sua posição no ranking de desenvolvimento brasileiro, pois ficava em antepenúltimo lugar, à frente, apenas, de Piauí e Mato Grosso, que na época não era ainda dividido, o que aconteceria com a criação, no futuro, de Mato Grosso do Sul. Em termos de dimensão geográfica, Goiás era maior, pois possuía a região Norte, que se tornaria, em 1988, o Estado do Tocantins. A Estrada de Ferro Goiás, cuja antiga designação ficou na saudade do poeta Léo Lynce, ,movimentava-se com a velocidade média de apenas 28 quilômetros. Era importante, transportando, por exemplo, café e arroz produzidos em Goiás. Mas, a partir da Revolução de 1930, o Estado não podia ficar na dependência quase que apenas dessa ferrovia. O transporte rodoviário começava a ter substancial relevância e Goiás era pobre em rodovias. O governo que emergia com a Revolução precisou pensar muito em

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estradas, seguindo o conselho que, ironicamente, havia sido dado pelo presidente da República que havia sido derrubado, Washington Luiz –“governar é abrir estradas.” Para se ter uma ideia da situação do estado um ano antes da Revolução de 1930, o relatório da administração do presidente Alfredo de Morais, mostra que as escolas totalizavam 193 (50 masculinas, 39 femininas e 104 mistas). Em 1929 nasceram em Goiás 5.450 crianças, sendo 2.900 do sexo masculino e 2.550 do sexo feminino. As ações criminais somaram naquele ano 182, sendo que Morrinhos se colocava em 1º lugar com 39 ações. Morrinhos também foi a cidade onde se registrou o maior número de nascimentos em 1929: 850 meninos e 851 meninas. Os casamentos somaram 1.213 em todo o Estado. Já o total de pessoas falecidas foi de 1.222. Goiânia ficaria em construção entre 1933 e 1937, quando se tornou de fato capital do Estado, mudança que provocaria grande impacto desenvolvimentista. Não apenas ocorreria progresso na área goianiense, mas em todo o Estado. Anápolis, por exemplo, que em 1935 passaria a integrar o sistema da Estrada de Ferro Goiás, experimentou grande crescimento e se tornaria uma referência industrial. A expansão rodoviária em Goiás não seria rápida, mas foi incrementada no curso da longa administração de Pedro Ludovico, entre 1930 e 1945. Com a implantação do sistema de voto direto, em 1946, passaria a ser bandeira das campanhas eleitorais. Com o surgimento do governo de Juscelino Kubitschek, e a decisão de mudança da capital para o Planalto Central, com a construção de Brasília, iria ocorrer o grande benefício da pavimentação das rodovias federais. A primeira foi a da BR-153, entre Itumbiara e Brasília. Vieram depois a Rodovia Brasília-Belém, inicialmente de terra, e depois pavimentada. A administração estadual também passaria a investir em rodovias pavimentadas.

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O impacto da mudança da Capital da República para o Planalto Central causou novo salto na economia goiana. O notável mérito do presidente Juscelino Kubitschek justificaria plenamente o voto de gratidão dos goianos, elegendo-o senador na eleição especial realizada em junho de 1961. Os governadores José Ludovico e José Feliciano deram grande contribuição à construção de Brasília no Planalto Central. No começo do século 21 Goiás iria se tornar grande produtor de carnes bovinas, aves, soja e milho, ganhando significativo espaço mas exportações. A indústria ganhou substancial força, inclusive com fábricas de automóveis em Anápolis e Catalão. O Estado que ficava em antepenúltimo lugar no contexto econômico brasileiro iria aparecer, em 2018, nada menos do que o nono, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Bahia e Distrito Federal. A cidade de Goiás perdeu evidentemente a importância política, mas nunca foi esquecida. E se tornaria bastante conhecida quando, a partir de 2001, ganhou a consagração da Unesco, com o título de patrimônio cultural da humanidade. “Ó, velha cidade de Goiás”, cujos becos tão bem cantou a poeta Cora Coralina – “Beco da minha terra... Amo tua paisagem triste, ausente e suja. Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa. Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia, e semeia polmes dourados no teu lixo pobre, calçando de ouro a sandália velha, jogada no teu monturo.

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Amo a prantina silenciosa do teu fio de água, descendo de quintais escusos sem pressa, e se sumindo depressa na brecha de um velho cano. Amo a avenca delicada que renasce na frincha de teus muros empenados, e a plantinha desvalida, de caule mole que se defende, viceja e floresce no agasalho de tua sombra úmida e calada. Amo esses burros-de-lenha que passam pelos becos antigos. Burrinhos dos morros, secos, lanzudos, malzelados, cansados, pisados. Arrochados na sua carga, sabidos, procurando a sombra, no range-range das cangalhas. E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja. Sem infância, sem idade. Franzino, maltrapilho, pequeno para ser homem, forte para ser criança. Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade. Amo e canto com ternura todo o errado da minha terra. Becos da minha terra, discriminados e humildes, lembrando passadas eras”.

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Nos vitrais do Palácio das Esmeraldas, cenas da primeira atividade econômica de Goiás, a mineração

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Antes e depois de 1937

O

utras bandeiras, entradas e descidas precederam a expedição chefiada por Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, mas foi esse que, em 1725, abrindo a economia do ouro nas terras dos índios Goyá, tornouse o descobridor oficial de Goiás. Em 1744, criou-se a Capitania de Goiás, que se desmembraria de São Paulo em 1749. Dom Marcos de Noronha, futuro Conde dos Arcos, foi o primeiro governador. E a designação nobiliárquica que recebeu daria o nome ao Palácio, na cidade de Goiás, a antiga Vila Boa, que hospedou governadores e presidentes da província goiana nos períodos do Brasil-colônia, no período imperial e no curso da chamada Primeira República. No plano econômico, a mineração seria sucedida pela expansão das práticas agropastoris, até chegar ao perfil moderno desenhado a partir da Revolução de 30. A Revolução de 30 consolidaria a ideia da mudança da capital e daria a Pedro Ludovico, a liderança que emergiu nessa fase, as ferramentas para a construção de Goiânia, iniciada no final de 1933. No entanto, ele teria de vencer, ainda, as últimas resistências até  conseguir a mudança definitiva, em abril de 1937. Começa,

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então, a fase contemporânea do poder político em Goiás – objeto deste livro. Poder que passou a emanar do casarão verde da Praça Cívica – o Palácio das Esmeraldas. Poder que teve como principais protagonistas os inquilinos da Casa Verde, de Pedro Ludovico, que ali se instalou em 1937, a Marconi Perillo, que governou o Estado por quatro gestões.

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Como aconteceu a Revolução de 1930

O

personagem Getúlio Vargas e a Revolução de 1930, deflagrada pela Aliança Liberal, liderada por ele, criou o fato político nacional que levou Pedro Ludovico ao poder em Goiás. Como foi esse acontecimento? Getúlio Dornelles Vargas nasceu em São Borja (RS) no dia 19 de abril de 1882, filho de Manuel do Nascimento Vargas e de Cândida Dornelles Vargas. Com seus colegas de faculdade João Neves da Fontoura, Firmino Paim Filho, Maurício Cardoso e numerosos estudantes, Vargas fundou um bloco acadêmico e deu início a seu envolvimento com a política. Getúlio Vargas passara pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e pela Câmara Federal e iria ser ministro da Fazenda no governo de Washington Luiz, empossado em 15 de novembro de 1926. Essa escolha tinha o claro propósito de reconciliar o Rio Grande do Sul com a aliança Minas-São Paulo. A passagem de Vargas pelo Ministério da Fazenda duraria pouco mais de um ano. Em 25 de janeiro de 1928, Getúlio assumiu a presidência do Rio Grande do Sul. Sua primeira preocupação foi estabelecer um modus vivendi com o ex-presidente do Estado, Borges

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de Medeiros, a fim de assegurar a independência políticoadministrativa de seu governo. Vargas iria governar com certa autonomia, apesar da influência preponderante de Borges nos assuntos de política partidária. Em 1929, Vargas teve condições de unificar a política do Rio Grande do Sul e empreender a primeira tentativa direta de um político gaúcho para chegar à presidência da República. A candidatura de Vargas às eleições presidenciais de 1930 nasceu do acordo entre o Rio Grande do Sul e Minas Gerais, marcando o rompimento dos dois estados com o governo federal. Foi o presidente de Minas, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, quem iniciou as articulações para uma candidatura de oposição. Tornou-se claro o interesse de Washington Luís em apoiar a candidatura de Júlio Prestes, antigo líder do Partido Republicano Paulista (PRP) e seu sucessor no governo paulista. Washington Luiz comunicou aos demais governadores de Estado a candidatura de Júlio Prestes, recebendo o apoio de todos, com exceção de João Pessoa, da Paraíba, que aceitara concorrer à vice-presidência na chapa oposicionista de Vargas. O convite a João Pessoa fora feito à última hora, depois da recusa da Bahia, de Pernambuco e do Rio de Janeiro, Estados de maior importância eleitoral que a Paraíba. As eleições de 1º de março de 1930, realizadas no estilo tradicional da República Velha, deram afinal a vitória a Júlio Prestes, como já era esperado. Além de vencer por grande diferença nos Estados situacionistas, o candidato oficial obteve 50 mil votos em Minas e a terça parte da votação na Paraíba. A fraude, praxe na época, dominou o pleito de parte a parte. De outra forma, seria impossível explicar o fabuloso resultado obtido por Vargas em seu Estado com 298 mil votos contra apenas 982 dados a seu concorrente. Mesmo

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assim, Júlio Prestes chegou a cerca de um milhão e cem mil votos, contra 737 mil dados a Vargas. O assassinato de João Pessoa provocou grande comoção nacional, dando novo alento às articulações revolucionárias. Na verdade, não se tratou de um crime político. Presidente da Paraíba, João Pessoa havia autorizado a invasão do escritório de João Dantas, na capital, que tinha na época o mesmo nome do Estado. Dantas era namorado da professora Anaíde Beiriz, e correspondência entre ele e ela foram violadas. João Pessoa foi a Recife para receber uma homenagem. Encontrava-se na Confeitaria Glória, na Rua Nova, quando dele se aproximou Dantas, dizendo: “João Pessoa, levanta-te para morrer” – disparando tiros fatais. Dantas foi preso num presídio que hoje é centro artesanal e lá assassinado. Anaíde se suicidaria. Em 25 de setembro, Vargas e Osvaldo Aranha decidiram desencadear a revolução no  dia 3 de outubro. Segundo o plano adotado, o movimento deveria irromper simultaneamente no Rio Grande do Sul, Minas e Estados do Nordeste. A revolução começou em Porto Alegre às cinco horas da tarde de 3 de outubro. Na madrugada do dia 4, todas as unidades militares de Porto Alegre já se encontravam sob o controle dos revolucionários. Em Belo Horizonte, apesar da resistência do 12º Regimento de Infantaria (12º RI), que durou cinco dias, o domínio da cidade foi rápido. No interior do Estado, quase não houve luta, algumas guarnições federais (Juiz de Fora, Três Corações) permaneceram fiéis a Washington Luís, mas limitaram sua ação à resistência dentro dos quartéis. Após a rendição do 12º RI, as forças mineiras concentraram-se na região de fronteira com São Paulo e o Rio de Janeiro, conseguindo deter a invasão de tropas legalistas. No Norte e no Nordeste, o movimento foi amplamente vitorioso. Em três dias, Juarez Távora e os tenentes assumiram o controle de

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quase todos os Estados, enviando tropas para dominar a Bahia e o Pará sob o comando de Juraci Magalhães e Landri Sales, respectivamente. Em 5 de outubro, as forças gaúchas partiram em direção a Santa Catarina e ao Paraná. A resistência de Florianópolis não chegou a ameaçar o êxito da ofensiva. No Paraná, o Exército se sublevou em apoio à revolução, depondo o governo do Estado. Em 11 de outubro, Vargas passou o governo gaúcho a Osvaldo Aranha e rumou para Ponta Grossa (PR), onde, ao chegar, dia 17, estabeleceu seu quartel-general e assumiu o comando das forças revolucionárias em marcha para a capital da República. Em meados de outubro, a revolução já era vitoriosa em quase todo o País, restando apenas São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pará sob controle do governo federal. A principal frente de luta localizava-se na divisa de São Paulo com o Paraná. Em Itararé (SP), as forças revolucionárias vindas do Sul viram-se diante de uma das maiores concentrações militares articuladas pelos governistas. O choque decisivo foi, entretanto, evitado pela intervenção da cúpula militar do Rio de Janeiro: em 24 de outubro, um grupo de oficiaisgenerais, liderados por Augusto Tasso Fragoso, exigiu a renúncia de Washington Luís. Ante a negativa do presidente, os militares determinaram o cerco do Palácio Guanabara e sua prisão. Washington Luís foi substituído por uma Junta Governativa provisória, composta pelo general Tasso Fragoso, seu chefe, o general João de Deus Mena Barreto e o almirante Isaías de Noronha. Ainda no dia 24, a Junta organizou um novo ministério, do qual faziam parte, entre outros, o general José Fernandes Leite de Castro (Guerra), Isaías de Noronha (Marinha) e Afrânio de Melo Franco (Relações Exteriores). Com a situação na capital sob controle, a Junta enviou o primeiro de uma série de telegramas a Vargas, propondo a suspensão

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total das hostilidades em todo o país, mas nada adiantando sobre a transferência do poder aos chefes da revolução. As verdadeiras intenções da junta não eram claras. A nomeação do Ministério e a adoção de medidas legislativas indicavam sua disposição em permanecer no poder como um fato consumado. A situação tornou-se ainda mais dúbia com a designação do general Hastínfilo de Moura, comandante legalista da 2ª RM, para o cargo de interventor em São Paulo e com as declarações do novo chefe de polícia no Rio, coronel Bertoldo Klinger, prometendo reprimir as manifestações públicas na capital em favor dos revolucionários. De Ponta Grossa, Vargas comunicou imediatamente à Junta que prosseguiria a luta se não fosse reconhecido como chefe de um governo provisório. Ao mesmo tempo, ordenou às forças revolucionárias que prosseguissem seu avanço em direção à capital do País. Em 28 de outubro, o impasse foi finalmente superado, após entendimento firmado por Aranha e Collor, emissários de Vargas, com o general Tasso Fragoso. Em proclamação ao País, a Junta comunicou a decisão de transmitir o poder a Vargas. Consumada a Revolução, Getúlio Vargas tomou posse a 3 de novembro como chefe do Governo Provisório, acabando assim, com a Velha República.

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Os combates e a prisão de Pedro

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uando Pedro Ludovico aderiu à Revolução de 1930, sentiu que estrategicamente deveria se dirigir para Minas Gerais e assim o fez, organizando-se na cidade de Uberlândia. Formou uma coluna com 110 homens, cerca de 20 dos quais com estilo meio janota, mas que o surpreenderam, pois lutaram com bravura, e nenhum deles abandonou o grupo. Armada de fuzis, a coluna marchou para Goiás e teve três combates. O primeiro, vitorioso, logo após a fronteira, com alguns adversários aderindo ao grupo. Perto da ponte de Quirinópolis, houve novo tiroteio, e os homens de Pedro também conseguiram vencer. No entanto, assim que se aproximava de Rio Verde, a coluna encontrou com forte esquema de resistência, com mais de 200 homens e, além disso, quase todos, inclusive Pedro, sofreram uma disenteria. Boa parte do grupo refugiou-se em um matagal. Pedro não resistiu ao sono e dormiu cerca de 6 horas. A coluna foi descoberta e aprisionada, com Pedro levado para a antiga cadeia de Rio Verde, que parecia um casarão.

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Integrantes da Coluna Prestes em passagem por Goiás Pedro Ludovico, vestido de revolucionário do movimento de 1930, com a mulher, Gercina Borges, e o filho pequeno, Mauro Borges Teixeira

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A Casa Verde e o sonho do poder

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uando a cidade de Goiânia estava sendo construída, tarefa que se iniciou no dia 24 de outubro de 1933, a capital continuou sendo oficialmente a cidade de Goiás – e a sede do governo era o velho Palácio Conde dos Arcos. A mudança veio se dar em 1937. No vértice das avenidas Tocantins e Araguaia, dominando a Praça Cívica, onde foram construídos os edifícios das secretarias de Estado, foi surgindo o casarão de três andares onde o governador despacharia e passaria a residir com a sua família. Quando começou o Palácio a receber a pintura, foi chamado, inicialmente, de Casa Verde. A ligação de Goiás com as Entradas e Bandeiras inspiraria o primeiro prefeito de Goiânia, Venerando de Freitas Borges, a sugerir a denominação que acabou sendo oficializada: Palácio das Esmeraldas. Sessenta anos depois, em 1997, o governo de Maguito Vilela deu início a uma restauração histórica do Palácio das Esmeraldas, trabalho que demandaria alguns meses, completando-se na administração de Naphtali Alves, que fechou a gestão. Além de serviços de reforma propriamente dita nas instalações, restaurou-se o revestimento externo, à base de quartzo, malacaxeta e tinta verde,

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em busca da mais forte característica original do Palácio, o visual de tom esmeralda que, desde 1937, simboliza, na Praça Cívica de Goiânia, o poder político. O Palácio junta os estilos art déco e art nouveau, o seu jardim interno concebido no gênero geométrico do Renascentismo italiano e um certo luxo para os padrões da época em que foi inaugurado. Chamam a atenção os seus tapetes e seu mármore de Carrara e os vitrais executados por Conrado Sorgenitch retratando cenas históricas de Goiás, como bandeirantes e índios na labuta da mineração de ouro. A Casa Verde, como foi inicialmente chamada, havia recebido algumas reformas parciais anteriores, nos governos de Mauro Borges, de Otávio Lage, de Irapuan Costa Júnior e Maguito Vilela, com o objetivo de adaptação das instalações aos tempos. Com o resgate do revestimento externo original, iniciado em 1997, o Palácio refulge no centro da Praça com características que havia perdido. Logo depois que assumiu o Governo do Estado, em 1999, Marconi Perillo determinou obras no Palácio das Esmeraldas e se criou um espaço novo que recebeu a denominação de Salão D. Gercina Borges Teixeira, em homenagem àquela que o governador chamou de primeiríssima-dama. O Salão passou a receber muitos eventos. Em 12 de outubro de 2000, um incêndio que se originou no 11º andar do Centro Administrativo, complexo que se localiza atrás do Palácio das Esmeraldas, destruiu parte das suas instalações. O Governo Marconi Perillo opta pela reconstrução e modernização do Centro Administrativo, reinaugurado em outubro de 2003 com a denominação de Palácio Pedro Ludovico Teixeira, fazendo parte do complexo o Auditório Mauro Borges Teixeira. O Palácio Pedro Ludovico Teixeira é  um prédio inteligente, dotado de modernos sistemas de comunicação e iluminação, possuindo

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circuito interno de TV e um heliponto. O novo gabinete de despachos do governador fica no 10º andar e, assim, praticamente, o Palácio das Esmeraldas se torna apenas residência oficial do governador.    

A origem

construção do Palácio das Esmeraldas foi autorizada pelo interventor Pedro Ludovico, pouco depois do lançamento da pedra fundamental de Goiânia, no final de outubro de 1933. Apresentado pelo urbanista Atílio Corrêa Lima, o projeto teve a execução iniciada pela firma P. Antunes e Companhia. A construção esbarrou em diversos embaraços, inclusive a falta de recursos. O contrato com a P. Antunes foi rescindido, e o prosseguimento da obra foi assumido pela empresa dos irmãos Jerônymo e Abelardo Coimbra Bueno. Finalmente, ela foi concluída em março de 1937. O casarão Verde entrou para a história. Seus corredores e seus salões refletiriam ruídos de muitas festas e saraus nos primeiros tempos, abafariam confidências do poder, iriam se abrir para receber visitas ilustres como dos presidentes Vargas, Dutra, Kubitschek, Goulart, Castello Branco, Geisel, Figueiredo e Sarney, o lendário Josip Broz Tito, da Iugoslávia, e receberia os inquilinos que governam Goiás desde o final de março de 1937, quando a capital foi transferida para Goiânia. A memória política do Palácio repercute a emoção e o regozijo de cerimônias de posse. Grava momentos tensos, como na crise da renúncia de Jânio Quadros, quando a Casa Verde se tornou um QG da resistência pela solução legalista ou quando foi sobrevoada por aviões de guerra e cercada de tanques na operação militar para afastar o governador Mauro Borges. E também dor e luto: no Palácio das Esmeraldas foram velados dois jovens, ambos

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mortos em acidentes aéreos: Antonio, filho de Pedro Ludovico, em 1952, e Ary Valadão Filho, filho de Ary Valadão, em 1981. A primeira festa no salão nobre do palácio ocorreu no dia 31 de julho de 1937, em homenagem aos poderes constituídos do Estado. O Correio Oficial de 5 de agosto de 1937, numa quinta-feira, publicava em sua primeira página: Conforme noticiamos em uma de nossas edições passadas, realizou-se no sábado último, em palácio, o grandioso baile com que s. excia., o governador, dr. Pedro Ludovico, querendo demonstrar mais a harmonia reinante entre os três poderes constitucionais do Estado, homenageou os membros do Judiciário e do Legislativo. Inundado de luz, o magnífico e soberbo Palácio das Esmeraldas, orgulho dos goianos e marco inicial de Goiânia, recebeu, naquela noite memorável, a visita das mais altas autoridades de nosso Estado e a fina flor da sociedade goianiense. Precisamente às 22 horas, após a chegada do chefe do Judiciário, desembargador Antônio Perilo, deuse início às solenidades, com a saudação pelo governador do Estado aos homenageados ali presentes.

Saudando os homenageados, o governador Pedro Ludovico enfatizava: Com o espírito de júbilo ofereço-vos hoje esta modesta festa, que tem uma alta significação histórica, por ser a primeira realizada neste palácio. Altamente histórica também o é porque denota cabalmente a grande harmonia de vistas entre os três poderes em que se divide o Estado. Grandemente marcante é, outrossim, a sua projeção, porque se reveste de um

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cunho muitíssimo cordial. Este edifício, que hoje penetrais, representou na construção desta cidade a viga mestra o seu principal arcabouço. Foi o primeiro prédio que aqui se iniciou, destinado a sede do Executivo e residência do governador. Esta noite, fatalmente, ficará impressa na vossa memória, não pela raridade do acontecimento; não pela sua originalidade, que é banalíssima; não pelo seu valor, que é modesto; mas, pela alta expressão que simboliza. Sempre que rememorardes este fato, à vossa mente virá a lembrança de um sonho que se transformou em realidade, de uma aspiração remota que se concretizou positivamente. Como eu, estou certo, ficareis satisfeitos, porque na construção de Goiânia vereis a capacidade realizadora do nosso povo... Coube a mim, por um fatalismo histórico, tirá-los do estado potencial para uma exuberante vitalidade. Nenhuma vaidade sinto ao assim me pronunciar, pois me considero um braço que o determinismo histórico pôs à disposição de uma ideia que se impunha por si mesma.

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1937 1945

cenário mundial e brasileiro

O panorama financeiro internacional recuperava-se da depressão econômica de 29, que persistira no inicio dos anos 30. Nos meados dessa década, quando Goiás se preparava para a mudança definitiva da capital para Goiânia, haviam desaparecido, em boa parte, os efeitos do impacto de 29. Nos Estados Unidos, as reformas promovidas pela administração Roosevelt criavam perspectivas bem mais otimistas. A Rússia experimentava avanços urbanísticos, educacionais e industriais. O panorama político é que lançava sombra sobre a Europa e sobre a Ásia, com a ascensão de forças totalitárias na Alemanha, na Itália e no Japão, criando-se o gradativo cenário de confronto que resultaria na Segunda Guerra Mundial, provocada, principalmente, pela ambição expansionista do eixo nazi-fascista. A Espanha mergulhou na sua cruenta guerra civil, na qual mais de 1 milhão de pessoas perderam a vida. Esse conflito dura três anos – de 1936 a 1939 – e o regime de Francisco Franco se impõe, ao final, o que acaba fortalecendo, também, o salazarismo em Portugal. A França passa pela experiência do Governo da Frente Popular de Blum. A Áustria é anexada pela Alemanha, e a Polônia, no final da década (1939) é atacada também pelo nazismo. Este ataque provoca a declaração de guerra à Alemanha pela França e pela Grã-Bretanha. O cenário do conflito se expande: Hitler invade os países escandinavos, a Finlândia, a Rússia, e forma a aliança com a Itália e o Japão que, de sua vez, ataca o Havaí, as Filipinas, Hong Kong e a Malásia. Os Estados Unidos entram no conflito e mobilizam sua produção para dar cobertura às necessidades de suas forças em terra, mar e ar. Entre 1940 e 1945, quando os aliados conseguiram a rendição dos três países do eixo nazi-

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GOIÁS

Urbana

12.880.182

Urbana

122.355

Rural

28.356.133

Rural

538.871

TOTAL

41.236.315

TOTAL

661.226

1940

POPULAÇÃO

BRASIL

Fonte: Censo ibge

fascistas (o Japão persuadido pela bomba atômica), o conflito monopolizou as atenções de todo o mundo. No plano artístico-cultural, no período em que o Brasil está sob o regime do Estado Novo, a arquitetura brasileira inicia o seu mergulho na grande onda renovadora que iria, posteriormente, projetá-la no cenário mundial. Influenciados pelo francês Le Corbusier, surgem talentos como Lúcio Costa, chefe da equipe que projetou o edifício do MEC no Rio, e Oscar Niemeyer. A art déco e o abstracionismo também estabelecem as suas fortes marcas no período. No México, emerge a arte dos muralistas Rivera e Orozco e, no Brasil, o nome de Cândido Portinari. Na música popular brasileira, o período registra a consagração da marcha, do samba e do samba-canção. Noel Rosa e Ary Barroso se destacam entre os nomes que a época projetou. A literatura brasileira, depois da explosão modernista da década anterior, ingressa em uma fase que destaca o regionalismo, filão do qual fluiu, por sinal, o primeiro livro do goiano Bernardo Élis, Ermos e Gerais. Érico Veríssimo surge no Sul, Jorge Amado projeta-se na Bahia. A premiação Nobel no período contempla, pela ordem, entre 1937 e 1945, com hiato entre 1940 e 1943 (por causa da guerra), os seguintes escritores: Roger Martin du Gard (França), Pearl Buck (EUA), Frans Sillanpaã (Finlândia), Johannes Jensen (Dinamarca) e Gabriela Mistral (Chile). No cinema, aparece o primeiro filme consumido por grandes plateias no mundo inteiro,...E o Vento Levou, vencedor do Oscar de 1939. Rebecca, a Mulher Inesquecível (Alfred Hitchcock), Oscar de 1940, e Casablanca (Michael Curtiz), Oscar de 1943, são filmes de grande apelo popular da época. O cinema brasileiro engatinhava, com a fundação da Atlântida, em 1941.

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Interventor federal, com nomeações alternadas entre 23/11/30 a 20/4/35. Governador, eleição indireta pela Assembleia Legislativa, em 15/4/35. Interventor federal, durante o Estado Novo – 1937-1945. Governador eleito pelo voto direto (derrotando Altamiro de Moura Pacheco) em outubro de 1950, por 84.515 votos, contra 55.480 do adversário. Posse em 31/1/51. Deixa o governo em 1/7/1954 para disputar o Senado. Vice-governador:Jonas Ferreira Alves Duarte, que completou o mandato. Esposa: Gercina Borges Teixeira Filhos: Mauro, Pedro, Lívia, Antônio (falecido), Paulo (falecido) e Goiânio


Pedro Ludovico Teixeira

Governador e interventor federal entre 1930 e 1945. Governador pelo voto direto entre 1951 e 1955. Nasceu na Cidade de Goiás, em 23 de outubro de 1891, filho do médico e escritor João Teixeira Álvares e de Josefina Ludovico. Diplomado em Medicina pela antiga Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Engajou-se à Revolução de 30, em Rio Verde, onde morava e exercia a profissão de médico. Com o movimento vitorioso, ele que havia sido preso e estava sendo conduzido para a cidade de Goiás, formou a Junta Governativa de três membros, e a seguir foi nomeado interventor federal pela primeira vez. Idealizou a construção de Goiânia, e a mudança da capital, cuja pedra fundamental foi lançada no dia 24 de outubro de 1933. Mudou a capital em março de 1937. Interventor federal durante o Estado Novo. Um dos fundadores do PSD em Goiás e seu principal líder regional enquanto esse partido existiu. Eleito senador e constituinte em 1946. Conquistaria mais dois mandatos de senador, posteriormente. Estava na vice-presidência do Senado em 1968, quando teve o mandato cassado, e os direitos políticos suspensos pelo AI-5 (Ato Institucional número 5). Escritor, deixou os livros Falando Francamente e Memórias. Foi um dos grandes amigos do presidente Vargas. Morreu em Goiânia no dia 16 de agosto de 1979, de ataque cardíaco.

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O primeiro inquilino

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utubro foi o mês que cravou as marcas mais fortes na agenda, política e pessoal, de Pedro Ludovico, o fundador de Goiânia, último inquilino do Palácio Conde dos Arcos, na cidade de Goiás, e primeiro inquilino do Palácio das Esmeraldas – o casarão verde da Praça Cívica, símbolo do poder no Estado desde 1937. Ludovico nasceu a 23 de outubro de 1891. Em 1930, a companhia que teve no dia do aniversário foi a escolta encarregada de levá-lo detido de Rio Verde à cidade de Goiás, mas no dia seguinte, a Revolução Liberal, pela qual pegara em armas, liderando o movimento no sudoeste goiano, tornava-se vitoriosa. O dia 24 de outubro de 1930 é o de seu batismo como líder político estadual. Pode-se dizer, por comparação com a magna tarefa confiada por Cristo ao apóstolo Pedro, que a história escolheu Pedro Ludovico como a pessoa predestinada a construir uma obra que parecia utópica, como se ele tivesse recebido a mensagem: Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirás Goiânia. No outubro de 1933, Pedro Ludovico simbolizaria, com o lançamento da pedra fundamental da construção de Goiânia, a

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irreversibilidade da mudança da capital, tornada definitiva em abril de 1937. No final de outubro desse ano, instalado no então recentemente concluído Palácio das Esmeraldas, ele receberia o emissário de Getúlio Vargas, o mineiro Negrão de Lima, portador da senha do golpe do Estado Novo, deflagrado no dia 10 de novembro. A visita de Negrão de Lima pode ser assim considerada o primeiro fato político de grande importância – pelos seus desdobramentos – depois que o poder se transferiu para o casarão verde da Praça Cívica. Entre o lançamento da pedra fundamental da construção de Goiânia, no histórico e para sempre festejado 24 de outubro de 1933, e a efetiva condição de capital do Estado, passaram-se três anos e cinco meses durante os quais a determinação política de Pedro Ludovico precisou vencer uma montanha de obstáculos. Ele teve paciência em alguns momentos, foi diplomático para contornar diversos embaraços, mas impaciente, duro e autoritário quando a resistência à mudança da capital da cidade de Goiás para Goiânia ganhava consistência a ponto de chegar a ameaçar o ousado projeto em andamento. A frase dele: “Vocês querem a capital aqui? Pois bem: vocês a terão aqui muito em breve, com a lei ou sem a lei, pela força do direito ou pelo direito da força” – resume o grau de sua determinação conduzindo o compromisso da mudança. O acanhamento da antiga capital de certa forma era compatível com a pobreza orçamentária de Goiás, limitação essa que Ludovico e seus companheiros acreditavam que só iria ser superada pelo redimensionamento da importância política do Estado. Esse redimensionamento exigia a mudança da capital. E ele, que chegou ao poder pela Revolução de 1930, teve pela via revolucionária condição de colocar a ideia de Goiânia em um decreto e simbolizar a decisão mudancista na pedra fundamental de outubro de 1933. A pobreza orçamentária não seria, no entanto, vencida apenas com esse

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simbolismo. Assim, construir Goiânia foi como cumprir uma odisseia. Já os embaraços de ordem política fixam-se nas raízes do apego à velha capital e cresciam à medida que Ludovico, como todos que governam, não fugia à  regra de também criar descontentes. O mudancismo e o antimudancismo iriam se inserir como tema forte na campanha eleitoral de 1933-34 quando, depois do período interventorial que se seguiu imediatamente à Revolução de 1930, o regime convocava as primeiras eleições parlamentares. As assembleias estaduais recebiam também a incumbência de escolher os governadores. O Partido Social Republicano (PSR), que apoiava Ludovico e a luta mudancista, conquistou maioria absoluta na Assembleia, de 24 cadeiras, instalada em 15 de abril de 1935. Ludovico foi então eleito, pela Assembleia, governador em caráter constitucional. Com o restabelecimento do Legislativo, os três poderes continuavam funcionando na cidade de Goiás, mas ainda em 1935, Goiânia conquistava a condição de município e de comarca. A então futura capital teve como primeiro juiz Heitor de Morais Fleury e, como primeiro prefeito, empossado no dia 20 de novembro de 1935, outra figura histórica do mudancismo – Venerando de Freitas Borges.

a mudança para goiânia

A

manhã chuvosa de 4 de dezembro-dia consagrado à Santa Bárbara-marcou para o vilaboense o início de suas desilusões. Até essa data muitos acreditavam que o governador Pedro Ludovico se afastaria da direção do Estado ou faria uma declaração transferindo para outra ocasião a mudança da sede do Poder Público. Em Goiânia, o governador Pedro Ludovico instalou-se no sobrado situado na rua 20, juntamente com sua família. Mais tarde

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naquele prédio funcionaria a Faculdade de Direito. Tão logo circulou a notícia da chegada de Pedro Ludovico e sua família a Goiânia, diversas pessoas, dentre elas autoridades, trabalhadores e populares, dirigiram-se à residência oficial do Chefe do Poder Executivo (Palácio da Rua 20, como era denominado e hoje sede da Justiça Federal), com o intuito de cumprimentar o governador, formulando votos de feliz permanência em Goiânia. Outra grande tristeza experimentada pela população vilaboense aconteceu na madrugada de 28 de janeiro de 1936, quando se fez a despedida do Batalhão da Polícia Militar. Assim se referiu Joaquim Carvalho Ferreira sobre esse episódio, em artigo publicado no jornal Folha de Goyaz: “Às 5 horas da manhã, toda a cidade foi despertada pelo toque de alvorada. Poucos minutos depois, ouvia-se a Banda de Música executando a marcha do adeus. E, ao som desse inesquecível dobrado, desfilaram pelas ruas da cidade, rumo ao Areião, os integrantes da valorosa unidade que, durante largos anos, viveu e sentiu o drama de Vila Boa, compartilhando com os seus habitantes dos momentos de alegria e das horas de pesar”. Joaquim Carvalho Ferreira ainda comentou em seu artigo: “Essa transferência não precisava ser feita de modo espetacular, como se realizou. Poderia o Batalhão vir para Goiânia, naturalmente, sem despertar esse sentimento de tristeza, de mágoa, na população, já tão sofrida, da antiga Capital do Estado. Entretanto, parece que, à época, havia por parte de muita gente apenas um desejo: sciar-se na dor de uma cidade...” A última transferência, que teve larga repercussão em Goiás, foi a da Imprensa Oficial. Eis como escreveu o Correio Oficial: “”Este é o último número que se publica em Vila Boa...Infelizmente, não foi compreendida por muitos a atitude deste jornal e o que ele fazia, com a intenção de não tripudiar sobre a tradicional cidade, tão

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digna do carinho de seus filhos, foi encarado, por alguns, como um gesto de desamor, procurando os que recalcavam ressentimentos e os que alimentavam interesses inconfessáveis desvirtuar a sinceridade dessa atitude”. E prossegue: “Se, por vezes, nós os que fazemos o Correio, fomos causticantes e severos, olhamos, agora, com um certo pesar, o arcabouço vazio, desta Casa onde vai ecoar, pela última vez, o velho prelo, numa expressão de despedida ao povo de Vila Boa”.

Casarão da Rua 20, onde Pedro residiu e despachou antes do Palácio das Esmeraldas. O local recebeu depois a Faculdade de Direito até o final dos anos 1960 cidarq – Centro de Informação, Documentação e Arquivo

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Em 1936, quando se afastou temporariamente, em licença para tratamento de saúde, Ludovico não supunha que a interinidade iria precipitar problemas políticos sérios para ele – e também para o projeto da mudança, que ficou ameaçado de ser frustrado ou protelado. O presidente da Assembleia, Hermógenes Coelho, também se afastou, assustado com as dificuldades financeiras. Assumiu o primeiro vice-presidente, Taciano Gomes de Melo. A oposição aproveitaria o momento vulnerável para o governo e questionaria a necessidade de mais tempo para a capital ser transferida, alegando falta de condições para o bom funcionamento do Poder Judiciário em Goiânia, como principal argumento, respaldando projeto nesse sentido da autoria do deputado Guilherme Xavier de Almeida. Pedro Ludovico reassume o poder disposto a implodir os focos de resistência à mudança. Pretendia promovê-la no dia 20 de dezembro de 1936, ainda que isso custasse confronto com o Poder Judiciário. O apoio do Poder Legislativo ficou incerto a partir de dissidências que fizeram, inicialmente, cair para 12 o número de deputados aliados do governo, depois com a ausência de mais dois deles, José Ludovico (fora ao Rio para sofrer uma cirurgia) e Moisés Costa Gomes (no sudoeste). Sentindo-se com circunstancial maioria, a oposição provocaria Ludovico com o que ele considerou proposta indecente: o reino dele por Goiânia, ou seja, a renúncia dele a troco da aprovação das medidas que faltavam para a capital se instalar, finalmente, em Goiânia. Pedro Ludovico decidiu jogar muito duro e recorreu até a intimidação, entre os meios para reverter o quadro, o que iria conseguir com a destituição de Hermógenes Coelho da presidência do Legislativo, substituído por João D’Abreu, pelo retorno de José Ludovico, do Rio, numa viagem em tempo recorde para a época, e com a adesão dos oposicionistas Felismino Viana, Agenor de

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Castro e Vítor Coelho de Almeida. O ano de 1937 se iniciaria com o governo podendo contar com 15 dos 24 votos dos deputados. E assim foi possível, no dia 23 de março de 1937, consolidar-se o objetivo simbolizado na pedra fundamental. A capital passava a ser Goiânia. E A Casa Verde, recebia a nominação oficial de Palácio das Esmeraldas e ganhava o seu primeiro inquilino: Pedro Ludovico Teixeira. Pedro Ludovico conheceu Gercina Borges em Rio Verde, quando, formado em Medicina no Rio, foi morar nessa cidade do sudoeste goiano Ela era filha do senador Antônio Martins Borges. O casal teve seis filhos: Mauro, que iria ser também governador e senador, Lívia, Paulo, Antônio, Pedro Ludovico Júnior e Goiânio. Antônio morreu em agosto de 1952, aos 21 anos, quando estava estudando nos Estados Unidos e se encontrava de férias. Foi vítima de um desastre de avião que transportava passageiros da cidade de Rio Verde para Goiânia e caiu no município de Palmeiras. Foi a maior provação sofrida pelo casal, trauma de que não se livrariam jamais. Em política, houve os dias de louros desfrutados juntos, mas também os momentos duros de reveses, como o da intervenção federal em Goiás, em novembro de 1964, que determinou o afastamento de Mauro Borges. Nesse episódio, uma manifestação do amor de mãe: Gercina ficou ao lado de Mauro enquanto foi possível resistir. Gercina Borges seria também inexcedível e amorosa companheira quando o regime arbitrário feriu o marido com a cassação de seu mandato de senador, em 1968, junto com a perda, por 10 anos, dos direitos políticos. Nos últimos anos, juntos, ela é que estava ferida por enfermidade incontornável. Muito católica, Gercina recebia em casa a comunhão, ministrada pelo padre salesiano José Dalla Mutta, conhecido como padre Zezinho, amigo da família. Pedro era católico, mas não comungava. Padre Zezinho sugeriu que talvez

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se sentisse mais confortado se tomasse também o sacramento da comunhão. Como se fosse uma confissão, tiveram uma conversa de quase uma hora e, a seguir, Pedro passou a acompanhar a companheira na comunhão. O sacerdote ficou convencido de que isso fez bem a Pedro, mitigando um pouco o sofrimento de ver a esposa vivendo seus últimos dias. Agosto de 1979: velho hospedeiro de crises e graves preocupações no Brasil, mais uma vez agosto registraria clima tenso. A administração do general Figueiredo, quinto e último dos presidentes militares do sistema de poder iniciado em 1964, teve de se desdobrar para conter manifestações e greves em Brasília, em várias capitais e grandes cidades. O presidente assinava lei que impedia o retorno da União Nacional dos Estudantes, a histórica UNE, mas consegue aliviar um pouco as tensões quando sanciona, nesse mesmo agosto, a Lei da Anistia, que iria reabilitar e devolver direitos políticos dos proscritos e perseguidos pelo regime militar. Pedro Ludovico, o fundador de Goiânia, não teria mais tempo para desfrutar essa anistia – ele que, em 1969, tivera seu mandato cassado e os direitos políticos suspensos com base no Ato Institucional número 5, o famigerado AI-5. Ludovico padecia as dores da perda da companheira Gercina Borges, já sofrera um infarto antes, estava a caminho dos 88 anos, que completaria em 23 de outubro. Na tarde de 16 de agosto de 1979, quando a filha Lívia foi ao seu quarto, no sobrado da Rua 26, para lhe servir um suco de frutas, encontrou-o aparentemente dormindo, mas, ao chegar bem perto, percebeu que estava morto. Eram 4 e meia da tarde. Lívia dá o alarme, as pessoas chegam. É chamado o padre José Dalla Mutta (padre Zezinho), o salesiano amigo desde os tempos pioneiros da cidade e que havia sido confessor de dona Gercina Borges, que ministra a extrema-unção.

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O corpo de Pedro Ludovico foi velado no saguão da Assembleia Legislativa. Claro que se juntaram no velório muitos políticos e pessoas importantes, mas havia muita gente do povo mesmo. Muitos choravam, principalmente, antigos moradores de Goiânia que acompanharam os momentos difíceis da construção. O exdeputado Willmar Guimarães, que integrara no parlamento a linha de oposição ao governo de Pedro Ludovico, chega apoiado em uma bengala, pois enfrentava problemas de saúde. Willmar beija a testa de Pedro e coloca rosas no esquife, dizendo: “Combati ao longo de 30 anos este gigante.” O prefeito de Goiânia, Índio Artiaga, decreta luto oficial por três dias, todas as federações e outras entidades de classe declaramse igualmente em luto, a morte de Ludovico repercute no Congresso e, no Senado, instituição na qual ele exercera três mandatos, o último cortado um ano antes do fim pelo ato arbitrário de cassação, anunciase uma sessão em homenagem ao político goiano. O editorial do jornal O Popular do dia 17 de agosto afirmava, no seu pri­meiro parágrafo: Figura exponencial da vida política do Estado no último meio século, Pedro Ludovico Teixeira entrou ontem em definitivo para a história de Goiás, que de certa forma já o havia incorporado em vida, pois ela foi alterada profundamente pelo maior feito deste seu novo e vigoroso personagem – a construção de Goiânia.

Na tarde do dia 17 de agosto, com grande acompanhamento, segue o cortejo fúnebre para o Cemitério Santana. Cumpre-se o último desejo do morto: ser enterrado ao som do tango que tanto apreciava: La Cumparsita.

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Pedro Ludovico despachando no Palácio Conde dos Arcos, na cidade de Goiás; assim que assumiu a interventoria

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Tempos do Estado Novo

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primeira visita importante a ser recebida no Palácio das Esmeraldas foi a do emissário de Vargas, Negrão de Lima, que, discretamente, percorreria os Estados com a senha do golpe de 10 de novembro de 1937. Getúlio Vargas aborta, com o golpe, as eleições cujos candidatos eram José Américo e Armando de Sales Oliveira e colocaria o País sob a égide do Estado Novo pelos oito anos seguintes. Com o Estado Novo dissolvem-se o Congresso e as assembleias estaduais, o presidente passa a governar à força dos decretos-leis e se restabelece, nos Estados, a figura do interventor, que também tem autoridade para nomear os prefeitos. Nos primeiros cinco anos sob o Estado Novo, Ludovico consolidaria Goiânia, conseguiria apoio federal para a melhoria da Estrada de Ferro Goiás, incluiria Goiânia na rota das companhias aéreas, realizaria algumas obras no esquecido norte do Estado (hoje Tocantins), apoiaria projetos de expansão da agricultura e da pecuária e conseguiria a proeza de trazer o presidente Vargas a Goiás. Essa visita, em agosto de 1940, estendeu-se também à Ilha do Bananal, que ganhou um campo de aviação especialmente para nele desembarcar o presidente. Ao se iniciar a década de 40, o programa de abertura de estradas, acrescentando 906 quilômetros à malha rodoviária (estradas de terra) colocou Goiás em quinto lugar entre os Estados em extensão linear de vias rodoviárias. Goiânia atrai migrações para Goiás e a população cresce. O recenseamento geral de 1940 indica uma população de 661.226 pessoas (122.355, na zona urbana e 538.871, na zona rural). A população urbana de Goiânia era de 14 mil pessoas e do município 48.166 pessoas.

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O desembaraço político permitido pelo Estado Novo dá a Ludovico condições para promover ampla reforma administrativa. Ele consegue a colaboração do governo de São Paulo, e o Instituto de Organização Regional do Trabalho promoveria os estudos e teorizaria o plano geral da reforma, aprovado no final de 1938. Pelo decreto 1.247, de 4 de novembro de 1938, implanta-se o programa que reformularia toda a estrutura administrativa, aplicado gradualmente, criando-se, inclusive, a carreira do Magistério Público e o concurso para o preenchimento dos cargos. A visita de Vargas dá  impulso ao ideal da Marcha para o Oeste, e Goiás se aproveita dessa referência para lançar as bases de uma política de colonização, atraindo investimentos para o campo e aumentando o número de propriedades rurais. Os resultados se exprimem no salto das safras agrícolas. A safra cresce 63% em relação ao início da década anterior, muito embora Goiás continuasse distante dos principais Estados produtores. A safra agrícola de 193940 foi de 356 mil toneladas. Um total de 176 novos estabelecimentos industriais seria acrescentado ao parque industrial incipiente e débil. A capacidade de produção industrial, apesar do distanciamento dos Estados líderes, dobraria nesse período. Entre 1935 e 1939, surgem 964 novos estabelecimentos comerciais e, apenas no ano de 1940, são instalados mais 425. No plano educacional e cultural, o período é  marcado pela abertura de algumas escolas de nível, como o Lyceu de Goiânia, a Escola Técnica Federal, o Grupo Modelo (o Ateneu Dom Bosco já estava também funcionando) e a Escola Normal, que se tornaria depois Instituto de Educação. Em 1939, é fundada a Academia Goiana de Letras. No Batismo Cultural, em 5 de julho de 1942, inaugurava-se o Teatro Goiânia. A

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cidade começa a receber eventos, funda-se a Orquestra Sinfônica, movimentam-se atividades sociais e culturais, e Goiânia se torna também boa referência como mercado consumidor. Goiânia estava indo bem, politicamente consolidada como capital, culturalmente evoluindo e começava a fortalecer a sua economia. Em abril de 1945, um acidente de percurso colocaria a cidade sob o risco de estagnação. Esse acidente deu-se na noite do dia 3, quando a estação chuvosa normalmente está chegando ao fim na região. Caiu uma chuva inclemente e furiosa, que provocou rapidamente o aumento do nível de água da represa do Jaó, no rio Meia Ponte, que abastecia a usina de energia elétrica pioneira de Goiânia. A chuva e os ventos fortes pressionaram as comportas, e elas se romperam, danificando os equipamentos, parte dos quais rodaram na enchente. Goiânia ficaria por cerca de dois anos subordinada à energia de geradores, com sua economia perdendo as perspectivas promissoras que havia criado desde a mudança oficial da capital, em 1937, até aquela fatídica noite. O período do Estado Novo, aberto em 10 de novembro de 1937, não chegaria vivo ao novembro de 1945. Pedro Ludovico enfrentava as dificuldades resultantes do blecaute energético de Goiânia quando começaram a chegar do Rio as notícias de que Getúlio Vargas estava sendo forçado pelos ministros militares a deixar o poder, o que se deu no dia 29 de outubro. Pedro Ludovico deixaria o cargo de interventor federal no dia 6 de novembro. Até  que se realizassem as novas eleições normais para governador do Estado, realizadas em 7 de janeiro de 1947 e vencidas por Jerônymo Coimbra Bueno, exerceram interinamente o cargo, todos por pouco tempo, pela ordem: Eládio de Amorim, Felipe Xavier, Paulo Fleury, novamente Felipe Xavier, Belarmino Cruvinel, Joaquim Machado de Araújo, Hegesipo Meireles e, de novo, Joaquim Machado de Araújo.

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1940: Goiânia se tornava símbolo da Marcha para o Oeste e recebia a visita do presidente Getúlio Vargas, no centro da foto, tendo a seu lado, à direita, Pedro Ludovico e Gercina Borges Teixeira

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Pedro Ludovico, discursando em ato pĂşblico durante seu primeiro governo

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O casal Pedro Ludovico e Gercina recebendo convidados em uma das últimas solenidades realizadas ainda no Palácio Conde dos Arcos, cidade de Goiás Os Inquilinos da Casa Verde

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Com a capital já em Goiânia, Pedro Ludovico com a esposa, Gercina Borges Teixeira


DEPOIMENTO DE PEDRO LUDOVICO*

“A história não perdoa os fracos”  

O senhor admite ter rompido a tolerância democrática no auge do confronto com a resistência oposicionista na Assembleia Legislativa, quando, já com Goiânia quase pronta para receber a capital, recrudesceu o antimudancismo? PEDRO LUDOVICO – A história não perdoa os fracos. Naquele momento, o que admito é  ter sido forte o suficiente para não recuar. Mas, veja bem que no consenso de todos os goianos, então, a mudança já havia conquistado sólido apoio da maioria. Uma decisão forte, mas tomada de acordo com a vontade da maioria, é na verdade uma decisão democrática.   A ideia inicial de Goiânia, de uma nova capital para Goiás, nasceu quando e como? PEDRO LUDOVICO – Quase tão antiga quanto as capitanias hereditárias, a ideia teve, no século passado, partidários ardorosos, como Lino de Morais e Couto de Magalhães. As suas razões se ampliavam com o passar dos tempos. A província goiana se distanciava das outras, e a principal causa *

(Na – esta entrevista foi concedida ao autor no mês de outubro de 1974)

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era a localização inadequada da capital. Uma série de fatores desfavoráveis – geográficos, topográficos, climáticos – limitava as possibilidades da antiga capital. Minha convicção mudancista nascera na adolescência e foi, muitas vezes, confundida e deturpada. Acusaram-me de inimigo da Cidade de Goiás, por sinal minha terra natal. De modo que, sentimentalmente, também eu me sentia preso à velha capital e por isso compreendia a resistência dos vilaboenses à ideia da mudança. Mas, colocava a ideia acima de tudo porque ela correspondia ao interesse superior do Estado. Se fora do poder já estava convencido disso, desde que formei, com Mário Caiado e Emílio Póvoa, a junta governativa, imediatamente à vitória da Revolução de 30, situei a mudança como alternativa irrecusável. Logo depois, nomeado interventor federal, transformei a ideia em um dos objetivos prioritários da administração. O senhor foi acusado até de louco, não? PEDRO LUDOVICO – Sim, de louco, de aventureiro, enfrentei uma tenaz resistência. Mas, cuidei de fazer a ideia arraigar-se, encaminhando paralelamente medidas burocráticas e buscando consentimento federal. Três anos depois da vitória da Revolução de 30, ou seja, no dia 24 de outubro de 1933, promovíamos o lançamento da pedra fundamental de construção de Goiânia. Boa parte da resistência ainda continuaria (a mudança definitiva só se deu em 1937), mas o entusiasmo em torno de Goiânia ajudava a tornar a causa irreversível. Tínhamos de colocar a força da razão acima dos sentimentos que nos prendiam à Cidade de Goiás. E Goiânia era a razão.  

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A opção pelo local em que se levantou Goiânia teve a ver com a preferência pessoal do senhor pela área escolhida? PEDRO LUDOVICO – A escolha foi determinada pelo trabalho de comissão nomeada, em 1932, para esse fim. E o que pesou mesmo foi uma associação de vantagens oferecidas pela área escolhida, como facilidade de comunicação com as demais regiões do Estado, topografia e clima favoráveis, proximidade dos 21 mil quilômetros quadrados das terras férteis do “Mato Grosso” goiano, disponibilidade de madeira para as primeiras construções, os recursos hídricos (principalmente o rio Meia Ponte), a possibilidade de construção de um sistema de abastecimento de água pioneiro (por gravidade) e vizinhança com o bem povoado núcleo de Campinas. Aprovei integralmente o local escolhido, que realmente apreciava e passei a considerar ideal para a construção da nova capital. A primeira lembrança que tenho dessas planícies foi de quando, com 18 anos, em viagem ao Rio, para estudar, por elas passei a cavalo. Antes de se consagrar a denominação “Goiânia”, resultado de um concurso, houve movimento no sentido de uma designação que prestasse homenagem ao fundador. Como o senhor recebeu isto? PEDRO LUDOVICO – De fato, surgiram sugestões que incorporavam meu nome à cidade. Lembro-me bem de duas: Petrolândia e Petrônia. Esta acrescentava, entre seus argumentos, a justificativa de que a homenagem a mim seria disfarçada pela associação entre meu nome e o nome do romano que encarnava fidalguia e elegância. Vetei essas sugestões, assim como também a designação de Pedro Ludovico para a futura avenida Goiás.

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Em que medida a construção de Goiânia contou com ajuda federal? PEDRO LUDOVICO – Todos sabem que o início da década de 30 correspondia a uma fase de dificuldades econômicas mundiais e, no Brasil, à consolidação de um movimento revolucionário. Era de mudanças, de transição. O governo federal também não estava apto a ajudar substancialmente um determinado Estado. De Getúlio Vargas e seu governo houve, sempre, grande apoio moral à nossa obra. Mas a ajuda financeira concreta limitou-se à emissão de 5 mil contos em apólices federais. Mesmo assim, essa ajuda incorporava um ônus para nós: a construção, na nova capital, dos prédios destinados a acolher órgãos de representação federal.   É verdade que as repartições federais também se opunham a se transferir da velha para a nova capital? PEDRO LUDOVICO – Sim, enfrentamos também essa oposição. E só  conseguimos resolver isto quando fui ao Rio e expus, pessoalmente, o problema a Getúlio Vargas. Disse-lhe que a mudança da capital tivera todo o apoio da União e, no entanto, alguns chefes de repartições federais e muitos funcionários não se dispunham a vir para Goiânia. Getúlio me ouviu com atenção e tomou providências imediatas, as repartições se transferiram, e os funcionários, mesmo os renitentes, acabaram se adaptando bem em Goiânia.   O planejamento original concebia uma cidade para 50 mil habitantes. Essa visão não era muito modesta e acanhada? PEDRO LUDOVICO – Se levarmos em conta o fato de que a população da Cidade de Goiás não chegava a 10 mil habitantes, a

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previsão de 50 mil para Goiânia era, de certa forma, até ousada. De fato, a nova capital superou rapidamente a sua própria concepção original, e o projeto urbanístico teve de ser reformulado poucos anos depois.   Ainda se discute, sobre Goiânia, uma questão que não é transcendente em relação ao desenvolvimento em si da cidade, mas significativa para os seus pioneiros: a data concebida para a comemoração de seu aniversário. Entre os pioneiros, existe uma corrente que defende como data correta o 5 de julho e não o 24 de outubro. PEDRO LUDOVICO – Tanto os que defendem a data de 24 de outubro – vitorioso, afinal, na prática, pois o aniversário é comemorado nesse dia – como os defensores da tese de que a celebração devia ocorrer a 5 de julho, sustentam-se em razões procedentes. Para mim, é dificil tomar partido, eu prefiro não fazê-lo. Ambas as datas são muito importantes. O 24 de outubro corresponde ao lançamento da pedra fundamental, promovido em 1933, e simboliza um empenho tenaz pela mudança. O 5 de julho, data oficial da inauguração de Goiânia. traduz a sua consolidação, nove anos depois. Um dado importante, contudo, é a inauguração. Goiânia formou uma população pioneira de 14 mil habitantes. Em 42, portanto, a cidade já existia.   O senhor e os demais mudancistas pretenderam, escolhendo as duas datas – 24 de outubro e 5 de julho – impregnar a campanha mudancista de significação épica contida nessa associação de datas? PEDRO LUDOVICO – Sim. Goiânia seria impraticável sem a Revolução liberal de 1930 e essa tinha precedentes históricos

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nos movimentos revolucionários de 1924. Nós escolhemos o 5 de julho e o 24 de outubro como homenagem a 1924 e a 1930. A visita de Getúlio Vargas a Goiânia, em 1940, teria sido a última prova de consolidação da nova capital? PEDRO LUDOVICO – Não exatamente. A visita de Getúlio Vargas concorreu para a consolidação, demonstrou que o governo federal também acreditava no impulso dado por Goiânia ao desenvolvimento do Estado. Lembro-me muito bem de que Getúlio se impressionou com a visão que teve de Goiânia apreciando-a da sacada do Palácio das Esmeraldas. Mas na verdade a capital, então, já estava consolidada, graças ao entusiasmo de seus pioneiros e testemunho de todos os que a visitavam.   A célebre Marcha para o Oeste, um movimento de interiorização do desenvolvimento lançado nessa época, inspirava-se no êxito de Goiânia? PEDRO LUDOVICO – Talvez não exatamente, mas Goiânia era a prova viva e mais concreta de que a região estava capacitada ao programa. E Goiânia tinha, afinal, despertado a atenção do País para o Estado e para o Centro-Oeste. A nova capital apagara a ideia de estagnação de toda essa área. Aliás, aproveito essa indagação para lembrar que a divulgação de Goiânia não nos custou quase nada. Nossos débeis recursos financeiros sequer o permitiam. O saudoso jornalista Joaquim Câmara Filho, que foi a alma da propaganda de Goiânia, na fase da mudança, prestou nesse particular um serviço inestimável. Fez dessa tarefa uma obsessão. Os jornais de fora sempre estavam editando alguma coisa sobre Goiânia, graças a seu empenho.

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Respeitadas evidentemente as proporções e as diferenças de suas respectivas épocas, Goiânia e Brasília somam apreciáveis semelhanças. Em que medida o senhor acha que a capital de Goiás contribuiu para a posterior construção da nova capital brasileira? PEDRO LUDOVICO – Quando se decidiu construir Brasília, estava aqui plantada o frutificante exemplo de Goiânia. A prova de que mudar uma capital era viável e compensador tinha sido dada por Goiás. Um dia, em meio à sua luta para construir Brasília, o próprio Juscelino Kubitschek me revelou que tinha em mente o exemplo de Goiânia. “Vocês construíram Goiânia sem recursos, enfrentando as dificuldades de uma época economicamente penosa. Se Goiânia foi possível, Brasília também o será” – me disse ele. De vários modos – e principalmente, com a força de seu exemplo – Goiânia contribuiu para o advento de Brasília.   Como o senhor imaginaria Goiás sem Goiânia? PEDRO LUDOVICO – É  uma hipótese, e raciocinemos então hipoteticamente. Em 1930, se fôssemos classificar os Estados brasileiros pela sua importância socioeconômica, nos três últimos lugares teríamos, mais ou menos igualados, Piauí, Goiás e Mato Grosso. Hoje, se não me engano, estamos em décimo primeiro lugar, pesamos mais do que a metade dos demais Estados. Goiânia foi a alavanca que permitiu essa escalada. Mudou a mentalidade de Goiás, removeu a estagnação anterior.   Se não houvesse a mudança, teríamos uma capital hoje como Cuiabá, digamos? PEDRO LUDOVICO – Já  disse que diversos fatores limitavam as possibilidades da Cidade de Goiás como capital. Realmente, existem semelhanças entre ela e Cuiabá. Mas Mato Grosso – dou

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como exemplo Filinto Muller – sempre tirou proveito de suas influências políticas na órbita federal, muito mais do que nós. Além disso, é um Estado que absorve vastos benefícios resultantes do fato de ser fronteira internacional e, portanto, área de justo interesse militar. Creio assim que, sem a mudança para Goiânia, teríamos uma capital inferior à do Mato Grosso.   O senhor considera Goiânia uma vitória pessoal sua? PEDRO LUDOVICO – Não exatamente, foi a vitória de uma geração, de um Estado, de um povo, embora tenha feito dela a minha principal causa. O que posso dizer é que, elegendo a mudança da capital como meta tão importante, a partir de sua consolidação eu me sentia politicamente realizado.

Interventor Pedro Ludovico com o primeiro prefeito de Goiânia, Venerando de Freitas Borges


Pedro Ludovico e Gercina Borges recebendo crianรงas na porta do Palรกcio das Esmeraldas para entrega de presentes de Natal durante o governo 1951-1954 Os Inquilinos da Casa Verde

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Pedro com Gercina e os filhos Mauro, LĂ­via, Pedro Ludovico Filho e Paulo

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1946 1950

cenário mundial e brasileiro

Ainda sob alguns reflexos da Segunda Guerra Mundial, que terminara em agosto de 1945 com a capitulação incondicional dos japoneses, aliados do eixo nazi-fascista, uma onda de apelo liberal-democrático passa a influenciar grande parte dos países ocidentais. Essa influência marca, por exemplo, as tendências da Constituinte brasileira de 46 e, consequentemente, a Constituição que ela – formada por 42 senadores e 286 deputados – promulgou no dia 18 de setembro de 1946. Os Estados Unidos acionam seus empenhos pela hegemonia do pósguerra. Têm na presidência, depois dos sucessivos mandatos de Franklin Delano Roosevelt, morto quando iniciava o quarto desses mandatos em abril de 1945, o também democrata Harry Truman. Promovem o Plano Marshal, injetando 12 bilhões de dólares na Europa. A União Soviética, sob Josef Stalin, iniciava a sua expansão pelo Leste Europeu (o Cominform foi formado em 1947) e a Doutrina Truman dá resposta com a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Começa a chamada Guerra Fria. A China caminha para o Comunismo, sob a liderança de Mao-Tse-Tung, a Índia e o Paquistão tornam-se domínios independentes, mas Gandhi seria assassinado em 1948. A ONU se instala inicialmente em San Francisco, reunindo 50 nações, entre elas o Brasil. Só depois é que iria construir a sede junto ao rio East, em Nova York. A organização aprova a divisão da Palestina entre Israel e Estados árabes. O Brasil havia encerrado a experiência totalitária do Estado Novo, o general Eurico Gaspar Dutra tinha vencido as eleições presidenciais, o PSD era o partido majoritário, vindo a rival UDN em segundo lugar. O Governo Dutra lançava

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o Plano Salte para promover o quadrinômio saúde-alimentação-transporteenergia. A moeda era o Cruzeiro que, em 1943, substituíra o antigo mil-réis. O País dependia substancialmente de importações de quase todos os bens que não prescindiam de avançado domínio tecnológico, como implementos industriais, maquinário agrícola, veículos automotores e equipamentos ferroviários. Nova York começava a se transformar no centro do mercado mundial das artes, o expressionismo ganhava força, a chilena Gabriela Mistral havia conquistado o Prêmio Nobel de Literatura de 1945, o suíço Herman Hesse ficara com o de 1946, e o francês André Gide arrebatava o de 1947. O poeta britânico T. S. Eliot é o ganhador de 1948, o norte-americano William Faulkner arrebata o de 1949, e o britânico Bertrand Russel ganhava o de 1950. São vencedores do Oscar, neste período, os filmes Os Melhores Anos de Nossas Vidas (1946), Acordo de Cavalheiros (47), Hamlet (48), Todos os Homens do Rei (47) e A Malvada (1950). Os diretores premiados foram William Wyler, Elia Kazan, John Huston, Joseph Mankiewicz (duas vezes, em 49 e 50), enquanto para os atores o Oscar era entregue a Fredrich March (46), Ronald Colman (47), Laurence Olivier (48), Broderick Crawford (49) e José Ferrer (50). As atrizes premiadas entre 1946 e 1950 foram Olivia de Havilland, Loretta Young, Jane Wyman, novamente Olivia de Havilland e Judy Holliday.

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Eleição: janeiro de 1947 Jerônymo Coimbra Bueno: 40.792 votos José Ludovico: 38.953 votos Posse: dia 22 de março de 1947 Deixa o governo em junho de 1950 Vice-governador: Hosanah Guimarães, que completou o governo. Esposa: Ambrosina Borges Coimbra Bueno Filhos: Eduardo (falecido), Roberto, Maria Luíza (falecida), Ana Maria e Jerônymo Coimbra Bueno Filho.


Jerônymo Coimbra Bueno Governador entre 1947 e 1950

Nasceu a 15 de maio de 1910, em Rio Verde (GO), filho de Orozimbo Souza Bueno e Umbelino Coimbra Bueno. Graduou-se em Engenharia Geográfica e Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da antiga Universidade do Brasil (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro), foi o superintendente geral das obras de Goiânia, coordenando a execução do projeto de construção da atual capital de Goiás. Fazendeiro, foi ligado também ao rodoviarismo, ao aeroclubismo e à ideia de navegação fluvial no Brasil. Criou a Fundação Coimbra Bueno pela Mudança da Capital para o Planalto. Diplomado pela Escola Superior de Guerra, em 1955. Senador por Goiás entre 1955 e 1962. Morreu no Rio de Janeiro, no dia 17 de setembro de 1996.

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O candidato de um povo varonil

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erônymo Coimbra Bueno, candidato de um povo varonil” – assim começava o hino de campanha eleitoral da coligação de forças que, nas eleições de janeiro de 1947 para o governo de Goiás, a primeira em que se atribuía o voto universal e direto para esse cargo, deu vitória ao engenheiro de 36 anos que havia dirigido a execução das obras civis na construção de Goiânia, junto com seu irmão Abelardo. Jerônymo Coimbra Bueno foi apoiado por uma coligação que incluía a UDN, o PSP e uma dissidência do PSD, vencendo José (Juca) Ludovico de Almeida, candidato do PSD ortodoxo. O irrompimento da dissidência no PSD, que em princípio era o partido mais forte de Goiás, tanto é  assim que elegeu a maior bancada para a Assembleia Legislativa, foi essencial na mudança do quadro e na consequente vitória do jovem engenheiro Jerônymo Coimbra Bueno. Que, pouco antes da campanha, não surgia nem sequer como provável candidato. O núcleo da coligação de forças que o apoiaria, antes da dissidência, tendia a lançar Alfredo Nasser como candidato a governador.

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José Ludovico, que fora secretário da Fazenda do último período de interventoria federal e primo de Pedro Ludovico, substituiu uma vez o interventor – por 11 dias, entre 20 e 31 de julho de 1945. A oposição utilizou esse argumento para recurso de arguição de sua inelegibilidade. Isso levou o PSD a realizar uma segunda convenção, na qual surgiram restrições à candidatura dele, inicialmente formuladas por um grupo liderado por Hosanah Guimarães, chefe político do município de Planaltina. O foco da dissidência cresce, ganhando a adesão de dois pesos pesados, o líder anapolino, Achiles de Pina, e o líder nortense, João D’Abreu. O grupo ludoviquista Coimbra Bueno (de branco, no centro) estimulou a aviação. Jornalista Câmara Filho é o último à esquerda.


não cede, mantendo o apoio à candidatura de Juca, o que tornou a dissidência inevitável. A UDN e o PSP se juntam à dissidência. Cria-se, pois, um novo quadro, e a candidatura de Nasser seria substituída pela de Coimbra Bueno. O engenheiro patrocinado pela coligação UDN-PSP e à qual se juntara a forte dissidência pessedista teve pouco tempo para a campanha, mas foi ágil o suficiente para chegar a todo o Estado e criar o clima de vitória –embora apertada.    

Posse e governo

posse de Coimbra Bueno no cargo de governador se deu no dia 22 de março de 1947, quando se iniciava a primeira legislatura da atual era do Poder Legislativo. A Assembleia Legislativa – e também Constituinte – realizou a sua primeira sessão no edifício da Praça Cívica que a abrigou originalmente. A mesa diretora era presidida por Taciano de Melo, o deputado José de Souza Porto na primeira vice-presidência, Afrânio de Azevedo como segundo vicepresidente, Vital Pereira Cabral como 1°  secretário, Ary Frausino Pereira como 2° secretário e Wilson de Paixão e Francisco de Brito como 1° e 2° suplentes. A presença mais importante na sessão que empossou Coimbra Bueno foi a do governador de São Paulo, Ademar de Barros. O ministro da Justiça, Costa Neto, foi representado por Leopoldo de Souza, e a Assembleia Legislativa de São Paulo enviou para representá-la o deputado Cunha Bueno. O edifício em que funcionava a Assembleia Legislativa é o que passou a acolher depois o Museu Zoroastro Artiaga. A Assembleia se mudaria posteriormente para instalação no edifício da Sociedade

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Goiana de Pecuária, na avenida Goiás, entre a Rua 3 e a avenida Anhanguera – ou seja, no coração da cidade. A vitória de Coimbra Bueno foi obtida com uma escassa diferença – ele teve 40.792 votos contra 38.953 de José Ludovico – e, apesar de ter atraído decisivo apoio da dissidência pessedista, as forças que o apoiaram não conseguiram fazer maioria na Assembleia Legislativa. Começando a legislatura com a incumbência também de Constituinte, adaptando a Constituição estadual à  nova Carta Magna do País, essa Assembleia dificultou a administração do engenheiro Coimbra. A bancada oposicionista, liderada por Getulino Artiaga, político que seria assassinado na campanha sucessória de 1950, foi um obstáculo, muitas vezes, intransponível, para os projetos do governador. No curso da administração de Coimbra Bueno, três vezes o orçamento foi prorrogado, a dívida cresceu e ganhou o tamanho da própria receita do Estado e houve atrasos no pagamento ao funcionalismo – chegando a quatro meses na capital e sete no interior. Não obstante, foram consideráveis os progressos na agropecuária, especialmente pela introdução de novas tecnologias e pela melhoria da qualidade genética do rebanho bovino. A administração estadual importou tourinhos indianos e induziu os criadores a utilizá-los em cruzamentos que melhoraram substancialmente o perfil do gado de Goiás. Embora de partido diferente, o governador conseguiu um bom relacionamento com o presidente Dutra e boa vontade federal para alguns de seus projetos. Dutra seria, também, hóspede ilustre do Palácio das Esmeraldas, visitando Goiânia, a convite de Coimbra, em junho de 1950. A administração Coimbra incentivou, ainda, a fixação de imigrantes europeus, deslocados de guerra na maioria, em Goiás.

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Muitos se fixaram em colônias agrícolas. Na área de transportes, além de estradas vicinais, melhorando as ligações intermunicipais, estimulou a construção de campos de aviação. Deu exemplo pessoal: foi o primeiro governador goiano a se deslocar entre a capital e o interior, como hábito, utilizando aviões.

O governador Coimbra Bueno e dona Ambrosina passeiam com dois dos seus filhos nos jardins do Palácio das Esmeraldas

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Em Goiânia, a sua Secretaria de Obras pavimentou ruas e apoiou a prefeitura na sistematização do serviço de limpeza urbana. Preparou a cidade para um evento de dimensão nacional – o Congresso Eucarístico de 1948, quando também o casarão verde acolheu outro hóspede importante, o cardeal dom Jayme de Barros Câmara. Quando governador, ele lançou as base de uma campanha pela mudança da capital federal para o Planalto, bandeira que, posteriormente, motivaria a Fundação Coimbra Bueno pela nova capital do Brasil. Em junho de 1950, passou o governo ao vice, o médico Hosanah de Campos Guimarães, que respondeu pelos últimos meses da administração. “Não me arrependo de nada do que fiz, seja como governador, seja como senador e sempre coloquei minha dedicação como político à causa da democracia e dos interesses do Brasil e de Goiás” – foi a resposta dada anos depois por Coimbra Bueno numa entrevista a Brasigóis Felício, publicada em O Popular, questionado sobre a acusação dos adversários de ter sido ele mau administrador. Coimbra Bueno se considerava politicamente vitorioso, gabando-se de ter conseguido a eleição para governador, realizando uma fulminante campanha de apenas 48 dias e de ter conseguido, posteriormente, sucesso na disputa para o Senado. Jerônymo Coimbra Bueno proclamava sempre que não fez um governo marcado por perseguições, nem partidárias, nem ideológicas. De ter sido tolerante, por exemplo, em relação aos movimentos de esquerda, mesmo quando ocorreu a cassação do Partido Comunista. “Em Goiás, não reprimimos as reuniões e as iniciativas dos comunistas” – lembrava ele. Orgulhava-se, especialmente, das bandeiras que levantou: a da interiorização da capital da República, que acabou ocorrendo com

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Brasília, e dos projetos de navegação interior. Ele criou um slogan, numa campanha eleitoral, que lhe custou ironias. O slogan era este: “Coimbra no Senado, navio no cerrado”. O que parecia utópico, então, virou realidade anos depois, com a navegação através do sistema Tietê-Paraná-Paranaíba. “Fui, de fato, o governador de todos os goianos: botei a mão na Bíblia, ao prestar o juramento e, cristão como sempre fui, cumpri o meu dever, com o pensamento em Deus” – afirmava ele. Coimbra Bueno propôs, também, a criação, em Goiânia, da Universidade do Brasil Central, ideia que, de alguma forma, inspirou iniciativas posteriores que abriram caminho, tanto para a criação da Universidade Federal, quanto para o surgimento da Universidade Católica de Goiás, posteriormente Pontifícia Universidade Católica (PUC-GO). Foi durante a administração Coimbra Bueno que se criou a Organização das Voluntárias de Goiás, a OVG, tendo, como primeira presidente, Ambrosina Borges Coimbra Bueno.

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Coimbra Bueno e esposa inaugurando a piscina e quadra de esportes do Jรณquei Clube de Goiรกs Os Inquilinos da Casa Verde

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1951 1954

cenário mundial e brasileiro

A Guerra da Coreia é o tema das principais manchetes do início dos anos 1950, produzindo mundialmente o temor de um conflito generalizado como fora a Segunda Guerra Mundial. A Organização das Nações Unidas forma a sua força de intervenção, que na verdade é basicamente suprida pelos Estados Unidos. A União Soviética sofreria o grande impacto da morte de Josef Stalin, em março de 1953, e passa a ser governada por um colegiado no qual emerge o novo líder, Nikita Kruchev, que, três anos depois, promoveria a campanha de desestalinização. No plano político interno, os Estados Unidos viveriam um momento vergonhoso – o da caça às bruxas, a fanática campanha anti-esquerdista iniciada pelo senador pelo Estado de Wisconsin, Joseph McCarthy. Eisenhower venceria as eleições de 1952, derrotando o democrata Adlai Stevenson e sucedendo Harry Truman. O Japão dá início à sua ascensão econômica, a Europa se recupera, vencendo as dificuldades do pós-guerra. No Oriente Médio, jovens oficiais lideram movimento que derruba o rei Faruk e leva Gamal Abdel Nasser ao poder. Na vizinha Argentina, a morte de Eva Perón, em 1952, e a deposição de Juan Domingo Perón, em 55, foram os dois acontecimentos de maior repercussão na primeira metade da década de 1950. No Brasil, a década começa com a volta de Getúlio Vargas ao poder, pelas urnas. Apoiado pela aliança PTB-PSP, mas com muitos votos também do PSD, ele obtém 3.849.040 votos (48,70% do total), contra 2.342.384 (29.70%) de Eduardo Gomes, da UDN, e 1.697.193 (21.50%) de Christiano Machado, do PSD. Vargas assume a Presidência com um programa nacionalista, lança bases de modernização do parque industrial, abre a campanha do petróleo

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GOIÁS

Urbana

18.782.891

Urbana

219.370

Rural

33.161.506

Rural

791.510

TOTAL

51.944.397

TOTAL

1.010.880

1950

POPULAÇÃO

BRASIL

Fonte: Censo ibge

que resulta na criação da Petrobrás, mas enfrenta terríveis dificuldades políticas. Em 1954, o atentado da rua Toneleros, no Rio, que causou a morte de um oficial da Aeronáutica, major Vaz, que estava acompanhando Carlos Lacerda, o alvo do atentado (Lacerda ficou ferido com um tiro no pé), leva a crise ao paroxismo. E Vargas se mata com um tiro no peito, no dia 24 de agosto de 1954. No futebol, o Brasil, que não conseguira realizar o sonho do título mundial em 1950, perdendo a partida final para o Uruguai, no Maracanã, sofreria outra frustração em 1954, na Suíça, atropelado pelo brilhante time da Hungria. O cinema brasileiro ganha força com as companhias Atlântida, no Rio, e Vera Cruz, em São Paulo (São Bernardo do Campo). O filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, ganha referência internacional. Ainda em relação ao cinema: o cinemascope aparece em 1953, com o filme O Manto Sagrado (The Robe). O musical Um Americano em Paris (1951), a superprodução O Maior Espetáculo da Terra (1952), A um Passo da Eternidade (1953) e Sindicato de Ladrões (1954) são os filmes vencedores do Oscar. Os diretores premiados nesses anos, na mesma sequência, foram George Stevens, John Ford, Fred Zinnemann e Elia Kazan, os atores Humphrey Bogart, Gary Cooper, William Holden e Marlon Brando e as atrizes Vivian Leigh, Shirley Booth, Audrey Hepburn e Grace Kelly.

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Jonas Duarte (d) foi o vice-governador do perĂ­odo de Pedro Ludovico (E) iniciado 31 Rocha de janeiro de 1951 96 emHĂŠlio


A volta de Pedro Ludovico

E

ra inevitável: o PSD e seus aliados, excitados pelos sinais de que voltariam ao poder, não têm outro nome senão o do líder Pedro Ludovico para a disputa da sucessão de Coimbra Bueno. Conseguem uma vitória tranquila: Ludovico derrota um médico e empresário de prestígio, mas de nenhuma experiência política, Altamiro de Moura Pacheco, lançado pela coligação UDNPSP. Teve 84.515 votos contra 55.480 do adversário. Correu sangue na campanha, com o assassinato do pessedista Getulino Artiaga, episódio cuja repercussão daria mais votos ainda para Pedro Ludovico. O vice-governador eleito representava na chapa a influência política de Anápolis: Jonas Duarte. Na chapa adversária o candidato a vice era o também líder político de Anápolis Achiles de Pina. A Assembleia Legislativa de Goiás deu início à sessão solene de posse de Pedro Ludovico e do vice-governador Jonas Duarte, eleitos em 3 de outubro de 1950, às 16h20 do dia 31 de janeiro de 1951. A sessão foi presidida pelo deputado Domingos Jacinto Pinheiro e secretariada pelos deputados Joviano Ribeiro e Pinto Coelho.

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O governador eleito e seu vice foram introduzidos no plenário por comissão formada pelos deputados Misach Ferreira Júnior, Félix de Moura, Taciano de Melo, Joaquim Gilberto e Benedito Melo. Prestado o compromisso constitucional, a presidência declara Pedro Ludovico empossado e designa para saudá-lo, em nome da instituição, o deputado Taciano de Melo, que se manifesta confiante numa administração desenvolvimentista, pois Pedro Ludovico já demonstrara a sua capacidade por quase 15 anos no Poder Executivo. O vice, Jonas Duarte, presta também o compromisso constitucional e é  saudado por discurso do deputado Joaquim Gomes Filho. Ludovico, no seu discurso, proclama o propósito de retomar o crescimento econômico do Estado e de se empenhar pela reversão mais rápida possível do quadro financeiro que estava herdando, com déficit orçamentário, endividamento e funcionalismo em atraso, entre os problemas. Comprometeu-se a estabelecer prioridades no campo social, mencionando, principalmente, a saúde e a educação. Os anos 50 chegaram encontrando Goiás ainda com muitas carências, apesar de sua surpreendente capital contar com uma expansão populacional já  muito além das previsões dos pioneiros. Dependendo muito da economia primária, o que limitava o alcance das receitas, o Estado precisava investir em infraestrutura para dar saltos compatíveis com o desenvolvimento da promissora Goiânia. A escassez energética era a carência mais limitadora. Não se resolvera até  então nem sequer a iluminação pública e domiciliar de Goiânia. Depois da usina do Jaó  e da energia a motor, a usina do Rochedo, no rio Meia Ponte, também não conseguiria remover a carência. Os demais municípios dependiam todos também de pequenas usinas próprias, mas inadequadas para necessidades industriais, muitas precárias, sujeitas a frequentes colapsos.

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Havia o embaraço da precariedade de comunicações e transportes: nenhuma rodovia era asfaltada, e a comunicação telefônica interurbana dependia de transmissão por canais de rádio sem confiabilidade. Embora fosse secretário da Fazenda, o desafio da questão energética foi assumido por José Ludovico, o sucessor de Pedro, com quem, posteriormente, romperia. Ele criou a mística de uma ideia: a usina de Cachoeira Dourada. No entanto, o primeiro grupo gerador da hidrelétrica só  iria funcionar mesmo quando o próprio José  (Juca) Ludovico assumisse o cargo de governador, depois de vencer as eleições de outubro de 1954. Na gestão de Pedro Ludovico, entre 1951 e 1954, preparou-se o caminho para o salto energético, pois Cachoeira Dourada iria permitir, além do abastecimento de Goiânia, a interligação do interior ao sistema, assim que se criou a Centrais Elétricas de Goiás (Celg). Durante a construção da nova capital federal e no início de Brasília, o Distrito Federal dependeu, também, da geração de energia de Cachoeira Dourada. A administração de Pedro Ludovico conseguiu melhorar o perfil da assistência à saúde no interior, embora a zona rural continuasse, nessa área, mal-assistida. A Secretaria de Educação, desdobrando um plano do secretário, cônego José Trindade da Fonseca e Silva, ampliaria a rede de ensino primário, inclusive com escolas rurais. A Secretaria da Fazenda, com Juca Ludovico, consegue incrementar a receita, o que alivia a crise financeira herdada do governo anterior, mas isso permite atualizar o pagamento do pessoal e dos fornecedores, sendo, no entanto, insuficiente para o sonho de grandes obras. A oposição na Assembleia Legislativa é incômoda, possui alguns bons oradores e conta com o veículo de comunicação radiofônica mais forte da época (não existia ainda tevê no Estado): a Rádio Brasil Central, fundada por Jerônymo Coimbra Bueno.

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O assassinato do jornalista Haroldo Gurgel, em agosto de 1953, envolvendo pessoas ligadas ao Departamento de Energia Elétrica (órgão que desapareceu quando foi fundada a Celg), fez o sangue respingar no governo, que sofreu grande desgaste, inclusive em todo o País, pois o caso teve repercussão nacional. A oposição, que tinha como base os partidos coligados UDN e PSP, parecia ameaçar a hegemonia do PSD de Ludovico quando se aproximava a sucessão. Ela conseguiu, ainda, atrair um pessedista descontente em seu partido, o deputado federal Galeno Paranhos, convertido em candidato da aliança oposicionista. Todavia, o PSD e Pedro Ludovico se imporiam, com o candidato José (Juca) Ludovico, com uma vitória, embora apertada e contestada no dia 3 de outubro de 1954. Juca (PSD-PTB-PTN) venceu Paranhos (UDN-PSP) por 106.540 votos contra 105.412.

Cartaz da campanha eleitoral de Pedro Ludovico em 1950

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1955 1958

cenário mundial e brasileiro

Os Estados Unidos, então presididos por Eisenhower, confrontavam-se com a União Soviética na fase mais intensa da Guerra Fria. Na America Latina, nem todos os países tinham governos constitucionais e legítimos. Em alguns, isso era uma farsa, em outros, ditaduras mesmo. As esquerdas mobilizavam-se sob o apelo anti-imperalista. A Europa dava os primeiros passos para a sua futura integração econômica, com a criação da Comunidade Econômica Europeia. A URSS, sob Kruchev, começava o processo de desestanilização, apagando as sombras do longo período de mando de Josef Stalin, que havia morrido em 1953. A China passava por processo de coletivização dos bens de produção, sob Mao-TseTung. A Indochina se dividia no Vietnã do Norte e no Vietnã do Sul, um prócomunismo, outro pró-Ocidente. Regimes militares de tendência esquerdistas assumem no Egito e no Iraque, no Oriente Médio ocorrem incidentes na Faixa de Gaza. As potências desenvolvem tecnologias bélicas importantes e revolucionárias, como os mísseis de grande alcance e a Bomba H. O Brasil continuava a depender muito de exportações primárias e da importação de bens da tecnologia. Ainda circulavam no país apenas automóveis importados, o que reduzia a um privilegiado número de pessoas o acesso a esse bem. No plano político nacional, havia os atemorizadores efeitos da crise decorrente do suicídio de Getúlio Vargas, que se matou no Palácio do Catete, no Rio, em 24 de agosto de 1954. Na Presidência estava o político potiguar João Café Filho, mas não se confiava muito na estabilidade política no País quando Juca Ludovico assumiu, em março de 1955. Os temores eram procedentes, pois após a eleição presidencial, em outubro, com a vitória de Kubitschek, a situação se agravou, com um golpe e um imediato contragolpe de Estado.

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Café Filho adoecera, assumindo o presidente da Câmara, Carlos Luz, deposto em golpe militar. O Congresso, depois disso, votou o impeachment de Café Filho e Nereu Ramos, presidente do Senado, assumiu para garantir a sucessão e entregar o governo a Kubitschek, eleito em outubro anterior, no dia 31 de janeiro de 1956. A população do Brasil era de 58 milhões de pessoas. Com Kubitschek instala-se uma era de otimismo e de desenvolvimento industrial, da construção de Brasília, da abertura de estradas, com a administração federal tentando justificar o slogan “50 anos em 5”, com reflexos positivos em Goiás. Nas artes é tempo do teatro do absurdo, com destaque para a dramaturgia de Becket (Esperando Godot), surgem os Beatiniks, o musical On The Road brilha sob as luzes da Broadway. O filme Marty surpreendia, arrebatendo o Oscar de cinema de 1955, ganhando, também, a melhor direção (Delbert Mann), com Ernest Borgnine ficando com o prêmio de melhor ator pela mesma fita, enquanto a italiana Ana Magnani ganhava o de melhor atriz por A Rosa Tatuada. Já em 56, o grande vencedor foi o filme A Volta ao Mundo em 80 Dias, George Stevens o melhor diretor, Yul Brinner o melhor ator e Ingrid Bergmann a melhor atriz. Em 57, o filme premiado seria A Ponte do Rio Kwai, o melhor diretor David Lean, o melhor ator Alec Guinnes e a melhor atriz Joanne Woodward. Em 58, Gigi ganhava como melhor filme, Vincent Minneli como melhor diretor, David Niven como melhor ator e Susan Hayward como melhor atriz. Escritores nobelados entre 1955 e 1958: o islandês Halldór Laxness, o espanhol Juan Jimenez, o francês Albert Camus e o russo Boris Pasternak. No Brasil, surge Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. É lançado o Manifesto Concretista e o marco do Cinema Novo projeta-se nas telas: o filme Rio, 40 graus, de Nelson Pereira dos Santos.

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Eleição: 3 de outubro de 1954, vencendo (houve necessidade de eleição suplementar) Galeno Paranhos. Resultado: Juca Ludovico 106.540 votos Galeno Paranhos 105.412 votos Vice-governador: Bernardo Sayão, que assumiu o governo entre 31 de janeiro e 12 de março de 1955. Esposa: Iracema Caldas de Almeida Filho: Francisco Ludovico de Almeida


José (Juca) Ludovico de Almeida Governador entre 12 de março de 1955 e 31 de janeiro de 1959

Nasceu no dia 6 de fevereiro de 1906, na cidade de Itaberaí. Diplomou-se em Farmácia. A carreira política teve início em 1933, com eleição para deputado estadual, mandato que exerceu até o advento do Estado Novo, quando o Poder Legislativo foi dissolvido. Em 1938, foi designado prefeito de Itaberaí. Em 1940, foi chamado pelo interventor Pedro Ludovico para ocupar a Secretaria da Fazenda do Estado. Foi escolhido, em 1946, para disputar o governo, na volta ao regime constitucional, nas eleições de janeiro de 1947, pelo PSD, mas foi derrotado por Jerônymo Coimbra Bueno. Na administração de Pedro Ludovico, entre 1951 e 1954, volta à Secretaria da Fazenda. Ganha a eleição de governador nesse ano. Colaborou firmemente para a construção de Brasília e iniciou a implantação da usina de Cachoeira Dourada. Foi diretor da Novacap, disputou a Prefeitura de Goiânia em 1965, perdendo para Iris Rezende, e passou mais uma vez pela Secretaria da Fazenda no governo Otávio Lage. Fazendeiro e administrador da Clínica Santa Genoveva, presidida pelo seu filho, Francisco Ludovico de Almeida, morreu em Goiânia no dia 25 de agosto de 1989.

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Juca Ludovico, a posse e o governo

C

omo houve necessidade de eleição suplementar por causa da impugnação de várias urnas, cujos votos representavam mais do que a diferença entre os dois candidatos a governador, Juca Ludovico não tomou posse no dia 31 de janeiro de 1955. O seu vice, Bernardo Sayão, sim, estava eleito independentemente dos votos suplementares que ainda seriam computados e foi ele quem assumiu o governo estadual no dia 31 de janeiro. Galeno Paranhos era o adversário, tendo Ruy Brasil Cavalcanti, pai, como vice. Para a posse de Juca Ludovico, a Assembleia– Legislativa de Goiás – que então funcionava no Edifício da SGPA, na avenida Goiás, – reuniu-se em sessão solene extraordinária, aberta às 14 horas, no dia 12 de março de 1955, presidida pelo deputado Pedro Celestino Filho. Estavam presentes os 32 deputados – a totalidade da composição da Casa, na época. Finalidade da sessão extrassolene: dar posse a José Ludovico de Almeida no cargo de governador do Estado, cumprindo-se, assim, a decisão eleitoral manifestada nas urnas no dia 3 de outubro, quando José Ludovico venceu Galeno Paranhos. Juca, apoiado pela coligação liderada

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pelo PSD, e Paranhos apoiado pela frente oposicionista, liderada pela composição UDN-PSP. O governador que estava sendo empossado foi introduzido no plenário pelos deputados Castro Costa, Rezende Monteiro, Willmar Guimarães, Lincoln Xavier e Berenice Artiaga. A Banda de Música da PM executou o Hino Nacional, os trabalhos foram abertos e o governador empossado prestou o juramento constitucional.

Juca Ludovico, tendo o vice, Bernardo Sayão, ao seu lado, toma posse no governo estadual


A saudação oficial da Assembleia Legislativa ao novo governador foi feita pelo deputado Venerando de Freitas Borges, da bancada do PSD. O orador tratou de dar relevo, nas suas palavras, às missões anteriores cumpridas por José Ludovico, conduzindo a tarefa de recuperação financeira do Estado, como secretário da Fazenda, coordenando a construção da usina do Rochedo, que redimensionou o abastecimento de energia elétrica da capital e o início da implantação da hidrelétrica de Cachoeira Dourada. O governador empossado, José Ludovico, proclamou, no discurso que a seguir pronunciou, o propósito de cumprir as suas obrigações constitucionais e administrativas com a intensidade de um sacerdócio. Pediu o apoio da sociedade, inclusive das forças eventualmente adversárias no plano político-eleitoral, em todos os casos em que os interesses transcendentais do Estado prevalecessem. Queria fazer um governo sem rancores, sem vinganças, o bem comum acima de tudo – assinalava.

UM HOMEM SIMPLES

F

az parte do folclore político de Goiás esta historieta: realizavase em Goiânia uma reunião dos governadores dos Estados que faziam parte da Comissão da Bacia do Paraná-Uruguai – CBPU. Um jornalista de São Paulo, estando no Palácio das Esmeraldas, tomou um corredor em busca de água para beber, pois percebeu que estava mais ou menos próximo da cozinha. Perto da cozinha encontra um homem forte que chupava uma laranja. Supõe ser um funcionário do Palácio, pergunta-lhe onde encontraria a água, e o homem lhe traz a água gelada. O jornalista agradece e retorna ao local onde se aglomeravam os colegas que iriam participar da cobertura da

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reunião. Para sua surpresa, quando daí a uns 15 ou 20 minutos foi instalada a reunião, constatava que o homem que chupava laranja era o próprio governador de Goiás – José Ludovico de Almeida – doutor Juca, como era chamado. A administração José Ludovico de Almeida (1955-1959) sucedeu um período muito tenso na história da confrontação de forças políticas em Goiás. Pertencendo ao PSD, que era o partido então situacionista desde o início da década de 50, Juca Ludovico vencera uma eleição de resultados contestados, enfrentando a coligação oposicionista que escolhera para candidato um dissidente do PSD, Galeno Paranhos. A coligação oposicionista recorreu a todas as instâncias contra o resultado, teve posteriormente ganho no Supremo Tribunal Federal, mas inócuo na prática, pois o mandato tinha sido então cumprido.

JUCA E BRASÍLIA

A

proposta de mudança da capital federal para o Planalto goiano foi inserida na plataforma da campanha eleitoral de Juscelino Kubitschek a partir de um comício que ganhou, por isso mesmo, dimensão histórica, realizado em Jataí, sudoeste do Estado, em abril de 55. Juscelino Kubitschek fora provocado a se manifestar a respeito por uma pergunta de Antonio Soares Neto, Toniquinho. A viabilidade dessa ousada meta de JK ganharia uma contribuição importante, decisiva mesma, do governo de Juca Ludovico: a solução do problema da área. Antes que Juscelino Kubitschek tomasse posse, no governo ainda de Café Filho, a Comissão da Mudança, presidida pelo marechal Pessoa, não possuía instrumentos legais para resolver essa questão. O governador Juca Ludovico decide se antecipar,

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eliminando o obstáculo. Consegue da Assembleia Legislativa, em apenas 24 horas, a aprovação de mensagem que encaminhou para legalizar a desapropriação da imensa área que se tornaria o futuro Distrito Federal. Imediatamente, nomeou uma comissão para resolver o lado prático, que era o acerto com os proprietários das terras, presidida pelo médico e empresário Altamiro Pacheco. Deu tudo certo, pois nenhuma desapropriação foi contestada em juízo pelos proprietários.

O PACIFICADOR Deram-lhe o tratamento de “governador de todos os goianos” – o que em boa parte se ligava a um ponto essencial de sua passagem pelo governo do Estado: o de ter sido um pacificador. Juca Ludovico removeu a grande turbulência que se manifestava no cenário político de Goiás, antes dele, na forma de confrontos violentos e da utilização do jaguncismo. Essa má fama de Goiás criou referência negativa na mídia nacional e foi desaparecer depois da administração Juca Ludovico. No plano de realizações governamentais, a posteridade registra como seu maior mérito o de ter modernizado a infraestrutura energética do Estado, como responsável por dois lances de grande ousadia para a época: como secretário da Fazenda do Governo constitucional de Pedro Ludovico (1951-1955), resolveu o problema de abastecimento de energia elétrica de Goiânia com a construção da usina do Rochedo. E deu início à construção da hidrelétrica de Cachoeira Dourada, inaugurando a primeira etapa, na sua própria administração. Junto com essas duas realizações, criou a Centrais Elétricas de Goiás (Celg).

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Momento Histórico: Juca assina a lei de desapropriação das terras para a construção de Brasília. À direita, o presidente JK e Pedro Ludovico. Atrás do governador, Israel Pinheiro, que iria comandar as obras.

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A usina do rochedo entrou em operação em 26 de julho de 1955. Um ano antes, quando se iniciou a fase mais intensa da campanha eleitoral, no enfrentamento entre Juca Ludovico e Galeno Paranhos, a questão energética foi o ponto mais debatido entre os candidatos e os eleitores de cada lado. Não havia ainda o recurso da televisão, portanto não existia o que anos depois seria chamado de palanque eletrônico. O forte eram os comícios ao vivo, uma série longa cuja programação reservara para a reta final a cidade de Anápolis, o bairro de Campinas e a concentração na Praça Cívica, no Centro de Goiânia, onde se juntava uma multidão.

26 de julho de 1955: Juca e Pedro Ludovico acionam a Usina do Rochedo


Como havia o projeto da hidrelétrica de Cachoeira Dourada e as obras da usina do Rochedo estavam em curso, Juca e seus partidários proclamavam nos discursos que finalmente Goiás estava resolvendo o problema energético e que esta era uma forte razão para o eleitorado optar pelos que realizavam. A oposição martelava com argumentos contrários e mencionava também um suposto vazamento na barragem da usina. E começou até a chamar a obra de “Usina do Rachado”. A usina não rachou, como se afirmava nos comícios da oposição. Estaria pronta para ser inaugurada no meio do ano. O governador Juca tinha o senador Pedro Ludovico ao seu lado quando inaugurou a obra. Alguns dias depois, ele assinava a criação da Celg. Essa empresa seria inaugurada no dia 19 de agosto de 1955. No dia l7 de junho de 1956, foi inaugurado o Aeroporto Santa Genoveva, obra construída pelo governo Juca Ludovico por meio de convênio com o Ministério da Aeronáutica. O antigo e pioneiro aeroporto, localizado no Centro da cidade, havia cumprido sua missão e já estava defasado, além de pressionado pelo crescimento da cidade. Quando o novo Aeroporto estava para completar um ano e meio de existência, Juca Ludovico conheceu a mais calorosa manifestação pública de sua passagem pelo governo estadual. Era final de manhã, e o governador retornava da cidade de Jataí, no dia seguinte a um grande susto. Ele havia viajado para Jataí, no sudoeste goiano, em um avião Rayon Navion, pilotado pelo comandante Santinone. A aeronave transportava, também, Alda Ferreira, esposa do então secretário da Educação e futuro governador José Feliciano e a esposa do secretário da governadoria, José Cruciano de Araújo, dona Ana Tereza Carvalho de Araújo. Finalidade da viagem: assistir à posse de dom Abel

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Ribeiro, como bispo da diocese jataiense. O avião enfrentou pesada turbulência em um trecho da rota, sendo o piloto compelido a um pouso forçado, numa fazenda no município de Paraúna, à margem do rio Ponte de Pedra. Durante as 17 horas que se seguiram temeuse por um acidente, com a aeronave desaparecida. Até o presidente Juscelino Kubitschek se preocupou, determinando que a Força Aérea Brasileira montasse uma operação de busca. O avião foi finalmente localizado, com os passageiros ilesos. Juca Ludovico, mesmo assim, fez questão de ir cumprimentar o bispo dom Abel, antes de retornar a Goiânia, onde foi recebido por milhares de pessoas à sua chegada no Santa Genoveva. José Ludovico, em comício de sua campanha eleitoral, realizado em Catalão, terra do candidato adversário, Galeno Paranhos

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Na área educacional, construiu novas escolas, aperfeiçou algumas antigas, implantou o Colégio Estadual de Anápolis, aparelhou o Instituto de Educação de Goiânia e construiu o Colégio Estadual de Campinas. Na área de transportes, incluiu a melhoria de algumas estradas que, posteriormente, seriam pavimentadas e a construção do Aeroporto Santa Genoveva na área de comunicações, ampliou o serviço telefônico; na área de saúde, construiu o Hospital Geral (hoje das Clínicas) e o Sanatório JK.

A QUASE PRORROGAÇÃO

Q

uase que os quatro anos de governo Juca Ludovico se tornariam seis. Um amplo acordo entre as bancadas situacionista e oposicionista na Assembleia Legislativa garantiu a aprovação, em dois turnos, pela Assembleia Legislativa, de uma emenda que prorrogava o mandato do governador de Goiás, do vice-governador, do prefeito e do vice-prefeito de Goiânia, por dois anos, a fim de que se chegasse a uma coincidência com as eleições presidenciais e para o Congresso Nacional, em 1960. Um recurso ao Supremo Tribunal Federal derrubou a decisão da Assembleia Legislativa de Goiás. E o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinaria eleições, em 1958, para mandato-tampão de dois anos para o próximo governador e o próximo prefeito de Goiânia. O que de fato se fez.


1959 1960

cenário mundial e brasileiro

O final da década de 50 marca a destalinização na URSS e o revigoramento das políticas anticomunistas pelos Estados Unidos, presididos então por Eisenhower – ele teve dois mandatos. No Oriente Médio se dá a experiência da República Árabe Unida, reunindo lemem, Egito e Síria, mas que fracassaria no início da década seguinte. Os rebeldes derrubam o ditador Batista, em Cuba. Emerge a liderança de Fidel Castro. No Brasil, vive-se a euforia da industrialização, do rodoviarismo, da construção de Brasília e das metas do Governo Juscelino Kubitschek. Circulam os primeiros automóveis fabricados no Brasil. A música popular brasileira criava um novo tom: surgia, para consumo interno e do mundo, a Bossa Nova. O teatro brasileiro reflete os problemas sociais com peças como Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri e o Cinema Novo entra em cena, acompanhando o cinema de vanguarda que surgira na França. Ben-Hur, um épico do gênero bíblico, em 1959, e Se Meu Apartamento Falasse, em 60, são os filmes premiados com o Oscar. William Wyler e Billy Wilder ganham a estatueta de melhor diretor. Charlton Heston e Simone Signoret, em 59, e Burt Lancaster e Elizabeth Taylor em 60, são os premiados como melhor ator e melhor atriz. já em Cannes, a Palma de Ouro consagra o diretor italiano Federico Fellini e seu filme A Doce Vida. O poeta italiano Salvatore Quasimodo arrebatava o Nobel de Literatura de 1959. Em 1960, quem iria a Estocolmo receber a premiação Nobel era o francês Saint-John Perse.

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Almoço, em Goiânia, de apoio à candidatura de Juscelino Kubitschek, à eleição para senador por Goiás, em 1961

Acervo: Iracema Alves de Vasconcelos

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Eleição: 3 de outubro de 1958 José Feliciano (PSD-PTN): 161.565 votos César da Cunha Bastos (UDN-PSP): 114.944 votos Vice-governador: João D’Abreu Esposa: Alda de Carvalho Ferreira Filhos: José Feliciano, Luiz Antônio e Francisco Antônio. (Teve, ainda, Tadeu, que morreu no pós-parto, com dois dias de vida)


josé feliciano ferreira

Governador de Goiás entre 31 de janeiro de 1959 e 31 de janeiro de 1961 Nasceu no dia 15 de dezembro de 1916, em Jataí, sudoeste goiano, filho de David Ferreira e Risoleta de Carvalho Ferreira. Diplomado em Direito pela Faculdade de Direito da antiga Universidade do Brasil, no Rio – hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro – iniciou a carreira política como vereador em Jataí, eleito em 1947. Em 1950, elegeu-se deputado estadual, foi líder da maioria e presidente da Assembleia Legislativa. Assumiu a Secretaria de Educação no governo José (Juca) Ludovico e disputou o governo do Estado em 1958, vencendo César da Cunha Bastos. Apoiou seu programa de governo no trinômio “estradas-educação-energia”. Foi eleito suplente de senador na eleição especial para o Senado em 1961, com Juscelino Kubitschek e, em 1962, foi eleito para o Senado como titular, ficando até a posse dos senadores eleitos em 1970. Em 1971, passa a dedicar-se à iniciativa privada, como fazendeiro. José Feliciano morreu em Goiânia no dia 23 de março de 2009, aos 92 anos, sendo sepultado no Cemitério Memorial, após um velório simples. A família assim preferiu, dispensando, por exemplo, honrarias como a de ser velado no Palácio das Esmeraldas.

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Feliciano, dois anos na Casa Verde

“P

ermita Deus que eu chegue ao final de meu mandato com a mesma disposição de ânimo que agora me encoraja e convida ao trabalho, alcance o término da jornada com a consciência de haver levado a bom termo a missão que o povo me confiou. Deus é testemunha de que, neste momento, o meu pensamento e o meu entusiasmo estão voltados para a grandeza de Goiás e para os problemas do meu grande povo” – assim José Feliciano Ferreira, então com 42 anos de idade, fechou seu discurso de posse, pronunciado perante a Assembleia Legislativa. Era uma tarde quente de verão: a sessão foi instalada às 14h30 no dia 31 de janeiro de 1959, na sede do Poder Legislativo, que então funcionava no Edifício da Sociedade Goiana de Pecuária, na avenida Goiás, no coração de Goiânia. A sessão de posse de José Feliciano foi presidida pelo deputado Wison da Paixão, secretariada por Jayr Abrão Estrela e Cylleneo França. O governador eleito foi introduzido ao recinto, junto com seu vice, João D’Abreu, pelos deputados Mendonça Neto, Natal Gonçalves, Almerinda Arantes e Antônio de Oliveira.

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José Feliciano ressaltou em seu discurso a preocupação com questões como segurança pública (área que, pouco mais de um mês depois, iria lhe criar grande problema político, por causa do confronto violento entre a polícia e estudantes), educação e transportes. Mencionou a mudança que iria se produzir no relacionamento de Goiás com o plano federal, com a construção de Brasília, então em andamento, e a programada mudança da capital para o Planalto, que iria acontecer dois anos depois. Manifestou confiança em um salto no desenvolvimento brasileiro, com o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, que estava sendo executado. O governador que tomava posse foi saudado pelo deputado Castro Costa, da bancada do PSD.

No dia 31 de janeiro de 1959, Feliciano presta juramento na Assembleia Legislativa

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GOVERNO PARTIDÁRIO

J

osé Feliciano Ferreira, advogado, e mais tarde fazendeiro exilado da política, começou cedo e terminou relativamente também cedo a sua carreira, pois, em 1970, fechou-a com um mandato de senador. Chegou ao plano estadual, vindo de Jataí com um mandato de deputado e foi secretário de Educação do Governo Juca Ludovico. Em 1958, a eleição para governador seria para preencher mandatotampão de dois anos. José Feliciano foi o vencedor, disputando o cargo com outro nome ligado ao sudoeste do Estado, o deputado federal César Bastos. Teve 151.565 votos contra 114.944 do adversário. Muito ao contrário do antecessor, que se aproximara da oposição, e posteriormente passaria para o lado dela, José Feliciano fez um governo partidário. Um de seus primeiros atos foi anular 1.280 nomeações de José Ludovico, com o que provocou o rompimento com o antecessor. Proporcionalmente, pois cumpriria apenas um biênio, a sua administração rendeu bastante no item obras públicas. Deu prosseguimento à construção da hidrelétrica de Cachoeira Dourada, iniciou os programas da pavimentação (Goiânia-Trindade e GoiâniaInhumas), construiu escolas, ampliou a rede de saúde pública e deu cobertura às prefeituras – principalmente às administradas pelo PSD – para que elas também se dedicassem a obras locais. O seu programa de obras baseou-se no estabelecimento de prioridade ao trinômio estradas-energia-escolas – os três E. Na mesma época em que a administração federal (Juscelino Kubitschek) construía o trecho Itumbiara-Goiânia da BR-153 e a Belém-Brasília, que juntas representavam um longo corte do extremo sul ao extremo norte (hoje Tocantins), a administração estadual executou obras suplementares, as estradas vicinais – que o povo costumava chamar

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de “costelas” – interligando as duas rodovias federais a grande número de municípios. Para evitar problemas como a insolvabilidade de uma construtora que deveria executar a pavimentação do trecho GoiâniaInhumas (Construtora Kosmos), o governo decidiu equipar bem o Departamento de Estradas de Rodagem de Goiás (Dergo) e o órgão passou a implementar diretamente as obras rodoviárias. No campo energético, a administração Feliciano, além de dar prosseguimento às obras da hidrelétrica de Cachoeira Dourada, implementou a rede de linhas de transmissão que levou o abastecimento a dezenas de municípios e também à linha GoiâniaBrasília, inaugurada no dia 4 de janeiro de 1960, três meses antes da instalação oficial da nova capital da República. Esse programa inclui, também, as estações abaixadoras do sistema pioneiro de Cachoeira Dourada. O governo ampliou o serviço de aeroviação e de aeroportos no interior, concedeu aumento a servidores civis e militares, dobrou o número de professores da rede de ensino estadual, criou o Serviço de Orientação do Ensino, construiu e ampliou dezenas de escolas e construiu a sede própria do Instituto de Educação de Goiás. O governo de Goiás ofereceu apoio logístico importante para a construção de Brasília nesse biênio, que correspondeu à fase final dessa obra de Kubitschek. Dos dois anos de José Feliciano um dia ficou marcado como data do dramático confronto entre a polícia e estudantes: 5 de março de 1959. Esse episódio provoca a queda imediata do secretário de Segurança, Thales dos Reis, substituído por Reinaldo Baiochi. José Feliciano apoiou com vigor a candidatura Mauro Borges, em 1960, e sua lealdade partidária lhe rendeu a indicação para ser o companheiro de chapa de Juscelino Kubitschek na eleição especial

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para o Senado, em 1961. Em 1962, voltou a ser indicado para disputar mandato titular, venceu e ficou mais oito anos no Senado. Viveu, a seguir, atividades de fazendeiro. Morreu em Goiânia, aos 92 anos, em 23 de março de 2009.

O governador JosĂŠ Felicianio, cortando a fita inaugural de obra no interior do Estado


Ato de inauguração do trecho pavimentado Goiânia–Anápolis. Da esquerda para a direita, o arcebispo dom Fernando Gomes, governador José Feliciano, presidente Juscelino Kubitschek, empresário Plínio Jayme, advogado Rivadávia Xavier Nunes (discursando)


Feliciano agiu com o partido O falecido ex-governador José Feliciano Ferreira concedeu uma entrevista ao autor deste livro em abril de 1998, quando estava sendo produzida a primeira edição de Os Inquilinos da Casa Verde. Ele revelou ter agido substancialmente em conformidade com o seu partido, PSD, fugindo de barganha com integrantes de partidos adversários. O PSD era a agremiação mais forte da época. A respeito de sua polêmica decisão no início do governo, de promover a exoneração de mais de mil pessoas nomeadas no final da gestão de seu antecessor, José Ludovico, Feliciano afirmou que, se assim não fizesse , não iria ter recursos necessários para investirem áreas como educação e saúde, pois a folha de pagamento comprometeria os recursos orçamentários disponíveis. Tal fato provocou o rompimento de José Ludovico com o PSD e sua candidatura contra Mauro Borges em 1960. Feliciano afirmou que fez um governo municipalista, atendendo bem a zona rural, e que, tendo sido antes secretário da Educação, deu prioridade a esse setor, preocupando-se bastante em melhorar os quadros docentes para aperfeiçoar a qualidade do ensino. Feliciano sustentou que houve desenvolvimento significativo no curto período de dois anos de governo, citando a gestão federal de Juscelino Kubitschek no fator importante nesse sentido. Acrescentou que em contrapartida contribuiu para o surgimento de Brasília, com o fornecimento, principalmente, com o fornecimento da energia elétrica da usina de Cachoeira Dourada. Afirmou ainda que dedicou substancial apoio à candidatura der Mauro Borges, que enfrentou José Ludovico e venceu a eleição para governador em 1060. Em 1961 Kubitschek foi eleito senador por Goiás, com Feliciano na suplência. Em 1062m Feliciano foi eleito o senador titular.

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Feliciano reconhecia ter sofrido forte desgaste quando se encontrava ainda nas primeiras semanas de governo, quando, no dia 5 de março de 1959, ocorreu um violento conflito entre a polícia estadual e estudantes. Mas que conseguiu, ao longo dos meses seguintes, normalizar o relacionamento com os estudantes, depois que substituiu o secretário de segurança Tales Reis por Reinaldo Baiochi. Esse secretário, Baiochi, iria também regulamentar a situação das na ´época chamadas casas de tolerância, ou seja, casas nas quais viviam prostitutas, Tais casas eram diferenciadas da s outras com luzes vermelhas.

O governador Feliciano sendo recebido no Rio de Janeiro, em audiência, pelo presidente Juscelino Kubitschek


Imagem da convenção do PSD lançando a chapa do general Teixeira Lott à presidência e Mauro Borges a governador. Aparecem, da direita para a esquerda, o então governador José Feliciano, Teixeira Lott, senador Pedro Ludovico, deputado federal Pedro Celestino Filho, deputado estadual Nelson Siqueira, deputado estadual Clotário de Freitas, deputado federal Castro Costa, e líder político de Catalão. Nilo Margon Vaz.

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1960 1965

cenário mundial e brasileiro

A primeira metade da década de 60 registraria acontecimentos de grande impacto no mundo e no Brasil, principalmente no plano político. A guerra fria estava intensificada ao máximo, a disputa espacial entre os EUA e a URSS abria novos avanços nesse campo, a economia ocidental experimentava um boom, a China promovia a sua Revolução Cultural, a revolução cubana entrava em cena, as campanhas pelos direitos civis agitavam os Estados Unidos e a Guerra do Vietnã se deflagraria. Martin Luther King seria assassinado. Os Estados Unidos vivem também a era Kennedy, que se fecha, em novembro de 1963, com a tragédia de Dallas, onde se deu o assassinato de John Kennedy. Na URSS, Nikita Kruchev promove as primeiras mudanças importantes desde a era Stalin. A Igreja Católica absorve o calor humano da liderança de João XXIII, que seria sucedido por Paulo VI. A crônica política brasileira também seria sacudida por grandes impactos. A década tem início com a inauguração de Brasília e a vitória eleitoral de Jânio Quadros, mas ele governaria apenas pouco mais de seis meses. A sua renúncia, em agosto de 1961, gera uma crise que quase leva o País a um conflito. João Goulart assume, constrangido por um parlamentarismo improvisado que, em 1963, seria revogado por um plebiscito. Em meio a uma intensa campanha por reformas de base, sobrevém o golpe militar de 1964 – e o Brasil inicia a fase de sucessivos governos militares, até a década de 80. A vida cultural brasileira começa a receber maior influência da televisão, surgem os festivais de música popular, o cinema nacional conquista a Palma de Ouro de Cannes com o filme O Pagador de Promessas. A premiação do Oscar contempla nos Estados Un dos os filmes West Side Story, Lawrence

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GOIÁS

Urbana

32.004.817

Urbana

541.469

Rural

38.987.526

Rural

1.084.907

TOTAL

70.992.343

TOTAL

1.626.376 Fonte: Censo ibge

da Arabia, Tom Jones, My Fair Lady e Música, Divina Música, entre 1961 e 1965. Os diretores premiados são: Robert Wise, David Lean, Tony Richardson, George Cukor e novamente Robert Wise; os atores: Maximilian Schell, Gregory Peck, Sidney Poitier, Rex Harrison e Lee Marvin; e as atrizes: Sophia Loren, Anne Bancroft, Patricia Neal, Julie Andrews e Julie Christie. A premiação Nobel de Literatura contempla, entre 1960 e 1965, pela ordem: Saint-John Perse (França), Ivo Andric (Iugoslávia), John Steinbeck (EUA), Giorgo Seferis (Grécia), Jean-Paul Sartre (França) e Mikail Solochov (Rússia). No futebol, voltaria a ser consagrada a geração que arrebatara o primeiro título mundial para o Brasil, com a conquista em 1962 do bicampeonato no Chile, proeza da seleção que basicamente era a mesma de 1958. Juscelino em campanha para o Senado por Goiás, em junho de 1961

1960

POPULAÇÃO

BRASIL


Eleição: 3 de outubro de 1960 Mauro Borges Teixeira (PSD-PTB-P TN) – 160.365 votos José Ludovico de Almeida (UDN-PSP) – 130.968 votos Posse no cargo de governador: 31 de janeiro de 1961 (afastado, por força de intervenção federal, em 26 de novembro de 1964. O mandato terminaria no dia 31/1/66). Vice-governador – Antônio Rezende Monteiro, que não assumiu em momento nenhum. Mauro foi substituído interinamente, durante viagem a Israel, pelo presidente da Assembleia Legislativa, Almir Turisco. Esposa: Maria de Lourdes Estivallet Teixeira (falecida) Filhos: Mauro Jr., Ubiratan, }ara, Pedro


MAURO BORGES TEIXEIRA

Governador de Goiás entre 31 de janeiro de 1961 e 26 de novembro de 1964 (afastado por força de intervenção federal) Nasceu na cidade de Rio Verde, sudoeste goiano, em 15 de fevereiro de 1920, filho de Pedro Ludovico Teixeira e Gercina Borges Teixeira. Oficial das Forças Armadas, passou à reserva, quando governador, como coronel do Exército. Também fazendeiro. Foi diretor da Estrada de Ferro Goiás, entre 1951 e 1954, mudando a sede de Araguari (MG), para Goiânia. Foi integrante da Comissão de Legislação da Nova Capital, eleito deputado federal, em 1958, e governador do Estado, em 1960. Afastado pelo ato de força da intervenção federal em 26 de novembro de 1964, teve os direitos políticos cassados em 1966. Integrou o movimento pela redemocratização e pela anistia ampla, geral e irrestrita e volta à política em 1979, sendo eleito presidente regional do MDB, depois PMDB. Eleito senador em 15 de outubro de 1982, presidindo a Comissão do Distrito Federal, integrando três outras comissões e ocupando a vice-liderança do PMDB. Nas eleições de 1990, disputa e ganha cadeira de deputado federal, mandato que exerceu até a renovação da Câmara, em 1994. No dia 12 de agosto de 2004, Mauro Borges foi eleito para a Academia Goiana de Letras. Faleceu, em Goiânia, no 29 de março de 2013.

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Um governo planejado

V

itoriosos na eleição de 3 de outubro de 1960, Mauro Borges e seu vice, Antonio Rezende Monteiro, foram empossados em uma sessão solene realizada às 14 horas do dia 31 de janeiro de 1961 na Assembleia Legislativa, presidida pelo deputado José Freire e secretariada por Sebastião Arantes e Almerinda Arantes. Mauro e Rezende foram introduzidos por comissão formada pelos deputados Venerando de Freitas, Valdyr Quinta e Haroldo Duarte. A presidência fez os convites para compor a mesa, chamando as autoridades presentes. Foi convidado, também, para a mesa, o senador Pedro Ludovico – pai de Mauro Borges. Mauro Borges fez seu discurso, a seguir, fazendo uma explanação de seus projetos de governo, mostrando a conveniência de uma administração planejada. Falou, também, o vice-governador empossado, Antônio Rezende Monteiro. O governo Mauro Borges se firmou em diretrizes planejadas – foi a primeira, em Goiás, a adotar critérios científicos de planejamento, com base no diagnóstico do potencial do Estado e de suas carências, e com respaldo de estudos encomendados à

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Fundação Getúlio Vargas. Para evitar desperdícios e pulverização de recursos e disciplinar os investimentos conforme o que fora planejado, Mauro, por sinal, recorreu a um técnico da Fundação, José de Almeida, recrutando-o para a Secretaria da Fazenda. Injunções políticas regionais, posteriormente, obrigaram o governador a mudar o secretário – e então ele nomeou o goiano José Abdalla, em uma fase, depois Sebastião Arantes.

No início de seu governo, Mauro Borges era recebido em audiência pelo presidente Jânio Quadros


Junto com o Plano de Desenvolvimento, que ficou conhecido como Plano MB, a administração Mauro Borges inovou também levando o Estado a interferir diretamente em atividades econômicas nas quais ele sentia a ausência da iniciativa privada. Assim, foram criadas empresas estatais como a Metago (minérios), a Iquego (medicamentos), a Casego (armazenagem agrícola), o Consórcio Rodoviário Intermunicipal, a Osego (saúde), a Caixego (finanças), a Cosego (seguros), o Departamento Estadual de Saneamento (DES) e o Idago (política agrária), responsável pela experiência com os combinados agrourbanos, inspirado no modelo de colonização agrícola (kibutz) de Israel. O governo Mauro Borges criou, também, em parceria com Pará e Maranhão, a Companhia Interestadual dos Vales do Araguaia e Tocantins (Civat) para estudar o potencial de uma região que englobava norte de Goiás, sul do Pará e parte do Maranhão. Criou-se, na mesma época, a Indústria do Babaçu, destinada a explorar a riqueza dos babaçuais do então norte goiano – hoje estado do Tocantins. Mauro Borges criou a Secretaria do Planejamento e para ocupála convidou o engenheiro Irineu Borges do Nascimento, que teve a responsabilidade de levar para a prática o que o Plano MB previa. O engenheiro Irineu notou que a administração era lerda para as dimensões do Plano. Procurou o governador, dizendolhe que o Plano requeria a velocidade de um Boeing-707, na época o avião de passageiros mais moderno, e a administração estava voando em um teco-teco. Propôs, então, a Mauro a criação de uma empresa sem os emperramentos burocráticos e dotada de agilidade. E assim surgiu a Superintendência das Obras do Plano (Suplan). Deu certo: o Plano passou a ser executado.

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A resistência de 61

N

a manhã do dia 25 de agosto de 1961, o governador Mauro Borges se encontrava em São Paulo, onde iria participar de um ciclo de palestras. Tinha, ainda, compromisso de almoço com o governador paulista, Carvalho Pinto, no Palácio Campos Elíseos, que era, na época, sede da governadoria paulista. Carvalho Pinto convidara, também, os governadores de Minas Gerais, Magalhães Pinto; Ney Braga, do Paraná; Carlos Lindenberg, do Espírito Santo; e Chagas Rodrigues, do Piauí. Estavam sentados à mesa do almoço quando o anfitrião Carvalho Pinto é chamado com urgência ao telefone. Voltaria à mesa perplexo, informando que o presidente Jânio Quadros renunciara. Esse episódio deflagraria séria crise política, pois houve veto de grande parte dos chefes militares à posse, como determinava a Constituição, do vicepresidente, João Goulart. A projeção do governo Mauro Borges além dos limites estaduais começou a se dar com a posição assumida por ele, em agosto de 1961, na crise decorrente da renúncia do presidente Jânio Quadros. Mauro se alinhou firmemente com a legalidade, firmou aliança nesse sentido com o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, e os dois Estados sustentaram um movimento de resistência a qualquer solução não constitucional e legalista, pois houve a ameaça de golpe militar: lideranças militares fortes relutavam em aceitar a posse do vicepresidente João Goulart. O legalismo triunfou – e Goulart assumiu. A administração planejada e a isenção político-partidária de muitas atitudes suas criaram problemas para Mauro, na sequência de sua gestão, no âmbito das correntes mais conservadoras de seu partido, o PSD, mas, mesmo assim, nas eleições para o Senado e para a Assembleia Legislativa, em 1962, sua base de apoio levaria

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boa vantagem. Para as duas vagas do Senado, foram eleitos os dois candidatos do PSD: Pedro Ludovico, pai de Mauro, e José Feliciano, antecessor dele no governo. Para a Assembleia Legislativa, os resultados das urnas também foram muito favoráveis, com a definição de folgada maioria situacionista. Mauro Borges havia feito uma viagem internacional longa, antes da posse, para estudos e observação. Depois de empossado, fez uma visita a Israel, para conhecer detalhadamente a experiência com o kibutz, que são as fazendas socializadas do Estado judeu.

Os tensos dias de 1964

M

auro Borges fazia um governo reformista, recrutou para a sua equipe pessoas classificadas como esquerdistas, tinha excelente diálogo com Miguel Arraes e Leonel Brizola, mas, além do rompimento com o PTB em plano regional, algumas divergências o distanciavam do presidente João Goulart. Embora essa atitude viesse a surpreender alguns de seus auxiliares, o pronunciamento que fez na noite de 31 de março de 1964 foi a favor do movimento que irrompera em Minas para depor Goulart. Não lhe faltou apoio de seu partido, o PSD, em cujas fileiras predominavam os conservadores. Mauro participou das reuniões de governadores que viabilizaram o consenso que levou à Presidência o marechal Humberto de Alencar Castello Branco, de quem ele por sinal fora aluno na Escola Militar. Durou pouco, no entanto, o seu bom entendimento com a área federal após a ascensão dos militares. A tranquilidade foi minada por uma conspiração de fatores. Nos quartéis, os chamados IPMs – inquéritos policial-militares –, quase sempre presididos por oficiais hostis ao governador, atingiam Mauro e tentavam ligá-lo à “ameaça subversiva”.

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Mauro teve muito apoio popular ao resistir em 61 e 64 e especial apoio da mulher, Maria de Lourdes Estivallet Teixeira


Depois que Mauro fez alguns pronunciamentos afirmando que não aceitaria em Goiás um clima macartista de caça às bruxas, passou a ser ainda mais hostilizado pela corrente mais radical do governo militar – a chamada linha dura. Já em maio, aprofunda-se a crise nessas relações, mas uma Comissão de Investigação, presidida pelo general Castro e Silva produziria um relatório que não incriminava irremediavelmente (do ponto de vista dos militares) Mauro. Entre os civis, parte da oposição municiava os militares com novas acusações contra Mauro, auxiliares dele eram cassados ou presos (caso do secretário de governo, Ary Demosthenes), e o segundo semestre chegou intensificando as hostilidades. Em outubro, o confronto entre Mauro e o regime tomava rumo irreversível. Um cenário de resistência se arma na Praça Cívica. Ao Palácio das Esmeraldas acorrem milhares de pessoas para oferecer solidariedade ao governador e compor uma tropa, ainda que improvisada, de resistência. No Planalto, toma-se a decisão de apertar o cerco contra o governador, para não deixar mais crescer em Goiás o “tumor subversivo”, conforme um oficial da linha dura se exprimira. A situação chega ao paroxismo em novembro. Depois de consultar alguns juristas, Mauro decide recorrer ao Supremo Tribunal Federal com pedido de habeas corpus preventivo. O advogado é o professor Sobral Pinto, que consegue excepcional vitória para o governador no STF: a unanimidade dos ministros do Supremo vota a favor do habeas corpus. As comemorações em Goiânia, em seguida à decisão do Supremo, irritam ainda mais o Planalto. Castello Branco se rende à linha dura, decidindo pelo ato de força da intervenção federal. No dia 26 de novembro de 1964, o cenário muda. Todas as forças federais no Estado são mobilizadas para a intervenção federal. De Brasília, deslocam-se as unidades do Exército e a Aeronáutica

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dá cobertura à gigantesca operação militar que ocuparia todas as posições e todos os pontos estratégicos da cidade. É por sinal um oficial da Aeronáutica, na época coronel, Jaime Peixoto, que chegaria escoltado ao Palácio, desafiando a multidão que se aglomerava em frente para entregar ao governador Mauro o comunicado da intervenção federal. Mauro se retira para ser submisso à lei. Daí a pouco, com todos os pontos estratégicos da cidade ocupados pelas tropas federais, chegaria ao Palácio o coronel Carlos de Meira Mattos. Seria ele o inquilino da Casa Verde por cerca de dois meses. O vice-governador, deputado federal Rezende Monteiro, fora o companheiro de chapa na campanha sucessória de 1960, indicado pelo PTB, na coligação liderada na época pelo poderoso PSD, partido de Mauro. Mas, no curso do governo, haviam se desprendido os laços que uniram os dois partidos. Já antes da intervenção, as relações PSD-PTB no plano regional eram delicadas, depois se tornaram hostis mesmo. O regime militar, ainda que Rezende Monteiro não cedesse, com certeza também não aceitaria que a ele se desse posse depois de cumprida a intervenção. No dia 7 de janeiro de 1965, passados 40 dias da intervenção federal, a Assembleia Legislativa, que se mantinha em convocação extraordinária, votaria o projeto de resolução que declarava vago o cargo de governador do Estado. Na mesma sessão se decidiu pelo arquivamento dos IPMs (inquéritos policial-militares contra o governo Mauro Borges). A vacância do cargo de vice-governador foi declarada na mesma sessão, depois de feita a leitura, pelo deputado Osires Teixeira, do documento assinado pelo deputado federal até então vice-governador Antônio Rezende Monteiro, renunciando a esse cargo e fazendo opção pelo mandato parlamentar.

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Mauro Borges falando ao povo que se aglomerava na Praça Cívica nos tensos momentos que antecederam a intervenção federal, em 26 de novembro de 1964 Os Inquilinos da Casa Verde

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O Planalto havia conseguido sem encontrar resistência intransponível o tácito acordo para a escolha do marechal Ribas Júnior. O PSD, desarticulado pelos acontecimentos, contenta-se em indicar o nome para vice, do deputado Almir Turisco, muito leal a seu partido, mas ideologicamente um conservador e, sob esse aspecto, identificado com a filosofia do que os militares faziam questão de chamar Revolução de 31 de março. Ao final da tarde, com a vacância dos cargos de governador e vice definida, a Assembleia Legislativa foi convocada para nova sessão extraordinária às 22 horas. Nela, o marechal Ribas, um ser estranho para os goianos, seria escolhido para governá-los.

Mauro Borges recém eleito governador com o pai


Mauro lembrou o risco de forte luta armada Numa entrevista concedida ao autor deste livro em março de 1998, quando estava em preparativos a primeira edição de Os Inquilinos da Casa Verde, o falecido ex-governador Mauro Borges lembrou episódios dramáticos, a sua resistência em defesa da legalidade, quando o presidente Jânio Quadros renunciou, em agosto de 1961, e durante o seu confronto com o governo federal, em outubro e novembro de 1964. Mauro foi claro quanto a um aspecto – quase ocorreu um sangrento conflito armado. No episódio de 1964, quando ele, que inicialmente apoiara o golpe militar, passou a divergir, Mauro disse que assumiu a decisão de resistir a tudo que não fosse por força da lei, mas acabou se rendendo em face de o então presidente Castelo Branco, não suportando a chamada linha dura, decidiu por uma intervenção federal, prevista em lei. Mauro teria ainda mais de um ano de administração e foi afastado por força dessa intervenção federal. Mauro justificou o seu apoio ao golpe militar, no dia 31 de março de 1964, afirmando que estava convencido de que seria um regime transitório e que ele estava desconfiado de que o presidente João Goulart tinha ilegítima pretensão de continuidade, com base em uma república sindicalista. Lembrou que, juntamente com Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, montou em Goiás uma resistência pela legalidade, em agosto de 1961, em defesa da pose de João Goulart, que era o vice-presidente, quando o presidente Jânio Quadros surpreendentemente renunciou. Revelou ter tido boas relações com Jânio, não obstante ter dado apoio ao adversário dele, na eleição presidencial de 1961, o general Teixeira Lott, AS relações não seriam boas com João Goulart, apesar do

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apoio que deu a posse dele. O PSD goiano teve problemas com o PTB de Goulart e este prejudicou muito Goiás apoiando o grupo de José Ermírio de Morais na exploração das jazidas de níquel goianas, Mauro fundou a empresa Metago que queria que ela explorasse o níquel. Mauro Borges afirmou que tinha pretensões políticas desde jovem, teve formação militar e se sentiu preparado quando terminou o Estado Maior das Forças Armadas. Havia dirigido a Estrada de Ferro Goiás, cuja sede transferiu ele de Araguari, Minas, para Goiânia. Então foi ao seu pai, na época poderoso Pedro Ludovico, então senador, e pediu para se candidatar a deputado federal e depois disputar a eleição de governador em 1960. Acabou enfrentando um parente, José Ludovico, e ganhou a eleição. Mauro afirmou ter chegado ao governo estadual com um planejamento bem definido, cuja teoria foi elaborada por técnicos da Fundação Getúlio Vargas, criou uma Secretaria do Planejamento, a primeira no Brasil, e assim começaria a realizar uma administração bastante diferenciada, lembrou ele na entrevista. Revelou que escolheu para secretário da Fazenda o técnico José de Almeida, da Fundação Getúlio Vargas, mas, depois de algum tempo, pressionado por uma linha do PSD, escolheria novo secretário, o empresário anapolino José Abdalla. “Não fosse o escudo protetor de Pedro Ludovico teria sido impossível fazê-lo”, revelou Mauro na entrevista sobre a execução do Plano MB, marcante em sua gestão e que deixou marcas profundas na administração estadual. Sobre a divisão do Estado de Goiás, com a criação do Estado do Tocantins, Mauro informou que, a longo prazo, Goiás terá perda, ao contrário de Tocantins, que, segundo ele, ficou com riquezas importantes que poderiam ser de Goiás. Nesse caso, ele deu o exemplo do rio Tocantins, uma grande e importante hidrovia e com grande capacidade energética. “Ele vai se transformar no Reno do Brasil Central”, prognosticou Mauro.

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Mauro Borges e Maria de Lourdes Estivalet Teixeira

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Eleição – Eleito em sistema indireto pela Assembleia Legislativa de Goiás no dia 7 de janeiro de 1965


emílio rodrigues ribas Governador de 23 de janeiro de 1965 a 31 de janeiro de 1966

Nasceu em 1898, no estado do Amazonas, filho de oficial do Exército que chegou também ao generalato. Saiu aspirante em 1918, segundo-tenente em 1919, primeiro-tenente em 1921, capitão em 1923, major em 1933, tenentecoronel em 1939 e coronel em 1943. Participou do comando da Força Expedicionária do Brasil enviada à Itália, na Segunda Guerra Mundial, como integrante do Estado-Maior, chefiado pelo general Cordeiro de Farias. Em 1949, foi promovido a general-de-brigada, em 1955, a general-de-divisão e, em 1960, a general-de-exército. Comandou o IV Exército no governo de Jânio Quadros e foi depois assessor militar do Brasil na Conferência de Genebra. Passando à reserva, teria o tratamento de marechal. Amigo pessoal do marechal Castello Branco, foi por esse convidado para ser governador de Goiás na transição entre a intervenção federal e as eleições de 1965.

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Um cachimbo na Casa Verde

– Emílio, tenho uma missão para ti: vais ser governador de Goiás. O marechal Emílio Rodrigues Ribas Júnior estava recolhido à sua condição de oficial da Reserva de alta patente, com a vida tranquila em seu apartamento na rua Prudente de Moraes, no bairro carioca do Leblon. Quem o convocava para a missão, através de um telefonema dado do Palácio do Planalto, era um velho amigo e companheiro de farda, o então presidente Humberto Castello Branco. Castello tinha um sério problema político a resolver: promovera a intervenção federal em Goiás, mas não queria deixar a solução por conta das forças locais. Tecnicamente, o cargo de governador estava vago, o vice-governador Rezende Monteiro iria também apresentar sua renúncia, optando pelo mandato de deputado federal, claro que forçado por um processo coercivo movido por Brasília. O marechal Ribas Júnior não hesitou: – Se tu precisas de mim, Humberto, sinto-me convocado. Topo a missão – respondeu ele a Castello Branco. Em Goiânia, o mês de dezembro de 1964 transcorria sob os efeitos ainda do impacto causado pelo ato de força da intervenção federal

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de 26 de novembro. O interventor Meira Mattos trouxera alguns assessores aos quais confiara alguns postos-chave na administração, entre eles a Secretaria da Fazenda, entregue a um homem de confiança do Planalto, o professor Iberê Gibson. A Assembleia Legislativa, na época presidida por Iris Rezende, manteve-se autoconvocada além do período regimental de trabalhos, realizando sessões extraordinárias, inclusive na última semana de dezembro e nas primeiras semanas de janeiro de 1965. Ao Legislativo caberia dar a solução formalconstitucional ao problema sucessório, escolhendo por via indireta o governador que fosse completar o mandato de Mauro, interrompido

Emílio Ribas é o segundo da esquerda para a direita, aparecendo o secretário Raul Silveira, Ursulino (que posteriormente seria vice-governador) e Lena Leão, Elcy Silva, José Luiz Bittencourt (que depois também seria vice-governador), Marlene Marile e Dyonne Costa


pela intervenção. O mandato era, então, de cinco anos – Mauro foi deposto antes de completar o quarto ano. O deputado Iris Rezende, que anos mais tarde seria o campeão dos votos para governador por via direta, abriu, às 22h05 do dia 7 de janeiro, como presidente da Assembleia Legislativa de Goiás, a sessão da excepcional escolha indireta da chapa Ribas Júnior-Almir Turisco. Procedeuse rapidamente ao escrutínio, com o Meira Mattos executou seguinte resultado: para governador, a intervenção federal Emílio Rodrigues Ribas Júnior, 32 votos; Mauro Borges, dois votos; Benedito Vaz, um voto; e quatro votos em branco. Para vice-governador – Almir Turisco, 29 votos; em branco, dez votos. A Assembleia continuou em período extraordinário e programou para o dia 23 de janeiro a sessão solene na qual daria posse a Emílio Ribas Júnior. A sessão foi presidida por Iris Rezende e secretariada pelos deputados Luziano de Carvalho e Teodoro Filho. O presidente Castello Branco considerou essa solenidade de posse muito próxima do ato de intervenção com a qual ele traumatizara a maior parte dos goianos e preferiu não estar presente (durante a administração Ribas, faria depois uma visita a Goiânia). Castello foi representado pelo seu ministro da Educação, Flávio Suplicy de Lacerda, que chegou acompanhado do ministro das Minas e Energia, Mário Thibau. A presidência designou os líderes das bancadas, João Abrão (PSD), Osíres Teixeira (PTB), Elcival Caiado (PDN) e Olympio Jayme (UDN) para a introdução ao plenário do governador eleito e seu vice.

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A solenidade de praxe seguiria com o assento à mesa das autoridades, a execução do Hino Nacional, a leitura do termo de posse e o juramento constitucional dos empossados. O deputado Edison Godoy, do PSD, discursa em nome da instituição. O marechal Ribas Júnior faz um discurso surpreendentemente humilde, finalizando-o com um apelo: “Preciso do auxílio de todos os goianos.” A Casa Verde da Praça Cívica ganhava um inquilino com sotaque carioca e o obsessivo hábito de fumar cachimbo, mania que exercitava com variedade de fumo e de aroma. O cheiro de fumo de cachimbo recenderia no gabinete do governador nos meses seguintes. O governo, chefiado pelo marechal Emílio Ribas Júnior, não se preocupou em criar algum programa novo, mas pôde dar continuidade a algumas obras que haviam sido interrompidas com o afastamento brusco de Mauro Borges – e nesse sentido contou com boa vontade da área federal. Foram obras como escolas de 1º e de 2º graus, unidades de saúde, ampliação da telefonia no interior e alguns trechos rodoviários. Ribas manteve inalterável e intocável, para surpresa de muitos, o complexo de empresas estatais implantado pela administração Mauro Borges, da qual já faziam parte a Metago, Cosego, Caesgo, Casego e Cotelgo, que viria a se transformar depois na atual Telegoiás. Quanto à questão política, ele acenava com postura isenta no caso de o então PSD lançar candidato mais alinhado ao regime instalado com o movimento militar de 31 de março de 1964. Os deputados Castro Costa e Benedito Vaz se enquadravam nesse perfil, mas o partido optou por Peixoto da Silveira. Emílio Ribas então apoiou o candidato da coligação UDN-PSP-PTB, Otávio Lage.

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1966 1969

cenário mundial e brasileiro

Intensificam-se os movimentos pelos direitos civis nos EUA. Auge da Guerra do Vietnã. O presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, ordena maciços ataques e bombardeios contra o Vietnã do Norte. As forças norte-americanas, envolvidas no conflito, somam meio milhão de homens. O republicano Edwaud Broke é o primeiro negro a ser eleito senador nos EUA. Cresce o movimento interno contra a guerra. O Japão começa a emergir ao topo das potências econômicas. Progressos econômicos na Europa começam a beneficiar também Espanha, Itália e a então Alemanha Oriental. Os dois gigantes do mundo socialista, URSS e China, divergem por causa do revisionismo da era de Kruchev e tem também conflitos fronteiriços. Surge o bloco dos países não-alinhados. O Brasil está ainda sob o impacto do golpe militar de 1964. O marechal Castello Branco é o presidente, e a chamada linha dura militar predomina, a partir de determinado momento, sobre as intenções aparentemente democráticas de Castello. São baixados os atos institucionais, o governo cassa mandatos e suspende direitos políticos. A economia obedece a políticas concebidas pelos ministros Roberto Campos e Octavio Gouveia de Bulhões, o País consegue créditos junto ao FMI, a moeda se estabiliza com a criação do Cruzeiro Novo. São rompidas as relações com Cuba, e tropas brasileiras participam da Operação de ocupação da República Dominicana. Época também de atentados, em São Paulo, Rio e Recife. Vigora a Lei Suplicy, restringindo a liberdade estudantil, e as greves são proibidas. No plano cultural, rompe-se a fronteira entre arte erudita e arte popular e se destaca a Pop Art de Warhol. Começa a popularidade dos Beatles. O russo

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Mikhail Sholokhov ganha o Nobel de Literatura de 1965, Samuel Agnon, de Israel, e a sueca Nelly Sachs dividem o Nobel de 1966. No mundo do cinema, Lee Marvin (Cat Ballou) e Paul Scofield (A Man for All Seasons) ganham os Prémios Oscar de 1965 e 1966, respectivamente, enquanto as atrizes Julie Christie (Darling) e Elizabeth Taylor (Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?) são as premiadas de 65 e 66. The Sound of Music e Um Homem para todas as Estações são os filmes vencedores nesses dois anos. No Brasil é tempo dos festivais de música, surgem canções como “A Banda” e “Roda Viva”, de Chico Buarque, e a Bossa Nova penetra forte o mercado internacional, principalmente os Estados Unidos, precedendo a célebre gravação de Tom Jobim com Frank Sinatra. A designação MPB para a música popular brasileira surge nessa época.

Dom Fernando Gomes, Otávio Lage, Castello Branco, secretário Zacarias Nunes e governador Ribas: o primeiro presidente do regime militar visitava Goiânia


Eleição: 3 de outubro de 1965 Otávio Lage de Siqueira (UDN-PSP-PTB): 180.962 votos José Peixoto da Silveira (PSD): 176.809 votos Vice-governador: Osíres Teixeira, que assumiu uma vez, por dois meses, durante licença e viagem ao exterior de Otávio Lage, entre os dias 20 de maio e 20 de julho de 1968 Esposa: Marilda Fontoura de Siqueira Filhos: Jalles, Sílvia, Ricardo e Otávio Filho


OTÁVIO LAGE DE SIQUEIRA

Governador entre 31 de janeiro de 1966 e 15 de março de 1971 Nasceu em Buriti Alegre, sul de Goiás, no dia 28 de dezembro de 1924, filho de Jalles Machado de Siqueira e Beatriz Lage de Siqueira. Estudou em São Paulo (Liceu Coração de Jesus) e no Rio de Janeiro (Instituto Juruena e Colégio Panamericano) e diplomou-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica de São Paulo, em 1948. Foi engenheiro do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, professor e diretor do Ginásio Estadual de Goianésia, e prefeito de Goianésia, antes de disputar – e vencer – as eleições para governador do Estado. Agropecuarista, é pioneiro no uso de tecnologia de confinamento em Goiás, fundador de diversas cooperativas, entre elas a Goiáscarnes. Membrofundador da Arena e do PDS, cidadão honorário de 87 municípios goianos e de Alterosa, Minas. Otávio Lage passou a dedicar-se à iniciativa privada em Goiânia e Goianésia, à frente de um grupo produtor de cana-de-açúcar, açúcar, etanol e energia elétrica derivada da combustão de bagaço de cana. Dirigiu ele, também, uma grande cooperativa de produtores de carnes bovinas. Trabalhou muito até o dia da morte, em 14 de julho de 2006, e cuja causa foram as decorrências de um acidente rodoviário, quando ele, pessoalmente, dirigia um veículo e se encaminhava para a fábrica no município de Goianésia.

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O governador Otávio Lage inaugurou muitas escolas e postos de saúde durante a sua administração

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Os cinco anos de Otávio Lage

V

encedor da eleição para o governo do Estado, em 3 de outubro de 1965 (teve 180.962 votos contra 176.809 recebidos pelo adversário, Peixoto da Silveira), Otávio Lage e o seu vice, Osíres Teixeira, foram empossados em sessão solene da Assembleia Legislativa na tarde de 31 de janeiro de 1966. Otávio pronunciou seu discurso, após ter prestado o juramento constitucional, anunciando propósitos de especial atenção ao interior e de promover uma administração preocupada com transportes, saúde, educação e apoio à agricultura. A sessão da Assembleia foi presidida pelo deputado Luziano de Carvalho e secretariada pela deputada Almerinda Arantes. O presidente da República, marechal Castello Branco, enviou como representante a esse ato o coronel Abdon Senna. O Judiciário foi representado pelo presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Paranaíba Pirapitinga de Santana. O Tribunal de Contas pelo seu então presidente, Nelson Siqueira. Entre outras presenças, as do arcebispo Dom Fernando Gomes, do prefeito de Brasília, Plínio Cantanhede e do conselheiro da Embaixada dos EUA, Herbert Okun.

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Por designação do presidente da Mesa, os deputados Raimundo Amaral, Joaquim Cordeiro, Brito Miranda e Antonio Magalhães acompanharam Otávio Lage e o vice Osíres Teixeira na chegada ao recinto. O discurso de saudação em nome da Assembleia Legislativa foi pronunciado pelo deputado Ursulino Leão, falando a seguir, precedendo o discurso do governador empossado, o vice, Osíres Teixeira. A candidatura de Otávio Lage foi apoiada por uma coligação formada por quatro partidos: UDN, PSP, PTB e PDC, cabendo ao PTB indicar o vice, Osíris Teixeira. No entanto, na convenção da UDN, na qual ele venceu Emival Caiado, Otávio já ficaria com o relacionamento arranhado com a corrente caiadista. Na formação do secretariado, descontentou alguns antigos udenistas, o que dá margem a um manifesto assinado por 16 deles. Houve descontentamento, também, na escolha de Jair Lage, irmão do governador, para a Secretaria do Planejamento. Um conflito com Olímpio Jayme motivado por questões ligadas a diretórios do interior leva ao rompimento, e Olímpio, com apoio do MDB, ganha a presidência da Assembleia Legislativa. O conflito se torna agudo e acaba perturbando as frias relações entre Executivo e Legislativo. Iriam se manifestar, também, dificuldades no relacionamento com a classe de fiscais, por causa da indicação de um estranho à classe (Mário Prudente) para diretor da Receita. Na mesma área, houve crises na Fazenda com a saída do secretário César Ribeiro, substituído por José Ludovico. Crise na Secretaria de Segurança Pública, com a Assembleia Legislativa exigindo a demissão de Sebastião Balduíno. Posteriormente, dificuldades para manter na mesma Secretaria Gonzaga Jayme, que acabou também sendo demitido.

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Derrota da Arena na disputa do Senado em 1966: João Abrão, do MDB, consegue vencer o favorito José Fleury, da coligação situacionista, e esse revés pesa sobre a liderança do governador. O governo federal cassa os direitos políticos de Iris Rezende, então prefeito de Goiânia e adversário político de Otávio, em outubro de 1968. Brasília acaba escolhendo Leonino Caiado para a Prefeitura. Otávio preferiria Luiz Menezes. Posteriormente, também contrariando a preferência de Otávio, Leonino foi ungido por Brasília para ser o sucessor. Luiz Menezes e os irmãos Carlos e Joaquim Guedes eram os preferidos de Otávio.

criação da saneago

J

oaquim Guedes foi convidado a colaborar na montagem do programa de governo de Otávio Lage, durante o qual foi presidente da Celg, então denominada Centrais Elétricas de Goiás. Otávio Lage escolheu o engenheiro Carlos Antônio Luciano para comandar a área de saneamento, função na qual permaneceu exatamente por um ano, entre 1º de fevereiro de 1966 a 1º de fevereiro de 1967, o ano em que a Saneago entraria em cena, de fato e de direito. O engenheiro Mário Evaristo de Oliveira assumiu o comando da área de saneamento sucedendo Carlos Luciano, no dia 2 de março de 1967. São imponderáveis as obras do destino: tomou o leme quando amadureceria o projeto da Saneago, finalmente criada e oficializada pela Lei n. 6.680, assinada pelo governador Otávio Lage de Siqueira, em 13 de setembro de 1967. Embora tivesse governado nos primeiros anos do regime militar, Otávio Lage não acentuou a repressão em Goiás, ou pelo menos não contribuiu, pessoalmente, para exacerbá-la – segundo

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reconhecem seus adversários políticos da época, inclusive militantes de esquerda. O balanço do governo de Otávio Lage sob o ângulo estritamente administrativo, principalmente quanto à realização de obras, tanto resultou positivo que ele ficou com a fama de tocador de obras, expressão que surgia nesse período. Tinha comando sobre a equipe, exigia dela dedicação, o que ajudou na produção dos resultados positivos no plano de obras públicas. Entre as suas principais realizações catalogam-se a conclusão da 2ª etapa da hidrelétrica de Cachoeira Dourada e a extensão da rede de transmissão de energia elétrica a algumas dezenas de municípios; a estrada Cidade de Goiás-São Miguel, a pavimentação da GO-030, dos trechos de interligação da BR-153 com as cidades de Goiatuba,

Missão no interior: o engenheiro Mário Evaristo (E) e o governador Otávio Lage (C) inspecionando obras de saneamento básico


Piracanjuba, Buriti Alegre e Pontalina e entre Goiânia e Nerópolis; a construção de unidades de saúde pública no interior e o início do Centro Materno Infantil em Goiânia; e dezenas de escolas de 1º e de 2° graus na capital e no interior, incluindo os Colégios Costa e Silva e Universitário.

Otávio LAGE: DA periferia para o centro Numa entrevista concedida ao autor deste livro, para a primeira edição de Os Inquilinos da Casa Verde, em fevereiro de 1998, o ex-governador Otávio Lage sustentou que a sua administração foi realizada da periferia para o centro, com forte dose no municipalismo. Revelou que isto fazia parte de sua formação. Seu pai, o político Jales Siqueira, era municipalista. Otávio acabara de administrar o município de Goianésia. Ele também afirmou que jamais deixou de receber prefeitos em seu gabinete. Na entrevista, concedida em seu escritório na então cooperativa Goiáscarne, em Senador Canedo, Otávio afirmou que adotou três altas prioridades em seu governo , educação, saúde e energia, tendo sobrado a capacidade energética de Goiás com a construção da segunda etapa da hidrelétrica de Cachoeira Dourada. Mesmo tendo assumido o Estado numa situação financeira ruim, Otávio informou na entrevista que conseguiu realizar muito. “A nossa preocupação não foi realizar obras suntuosas, nada de obra que exagerasse em recurso e com pouco benefício. Para administrar você tem que fazer aquilo que é mais importante”, informou ele. Afirmou, ainda, que não teve dificuldades na busca de apoio do governo federal. Na entrevista, por sinal, contou detalhes de sua

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histórica audiência com o então presidente Costa e Silva, durante a qual o segundo chefe da sucessão de governos militares começou a passar mal e teve um violento processo de acidente vascular cerebral. Costa e Silva teve de ser substituído por um trio de militares, até que fosse escolhido seu sucessor, o general Emílio Médici. Otávio revelou que, atendendo a pedidos, “caiu na bobagem”assim mesmo que ele se referiu- de ter saído candidato em 1982 para enfrentar Iris Rezende na disputa para o governo estadual.”Eu não queria e acabei sendo candidato para uma derrota que era previsível”, disse. Otávio fez um balanço positivo de sua gestão, afirmou que não teve nenhuma decepção e enfatizou a qualidade dos seus auxiliares, como Joaquim Guedes, Oton Nascimento, Salvino Pires e Jarmund Nasser. “Saímos todos de cabeça erguida. Isso é o mais importante para mim: o dever cumprido, a consciência tranquila”, afirmou Otávio.

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No pátio interno do Palácio das Esmeraldas, o casal Otávio LageMarilda com os filhos Ricardo, Jales, Silvinha e Otávio Filho

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1970 1974

cenário mundial e brasileiro

O homem havia chegado à Lua: o comandante da Appolo II, o astronauta Neil Armstrong, 38 anos, fora o primeiro a colocar os pés na face lunar, as primeiras gestões de paz se iniciavam, mas a escalada da Guerra do Vietnã já havia envolvido quase 600 mil soldados dos EUA no conflito. Explodem protestos contra a guerra nos EUA e no resto do mundo, os hippies pregam paz e amor e fazem das flores o refrão de seus festivais. Os Estados Unidos começavam a praticar a Doutrina Kissinger (do secretário de Estado Henry Kissinger) de multipolaridade das alianças. Na China, desenvolve-se a campanha de quebra do mito Mao-TseTung, que havia morrido em 1967 e as novas lideranças adotam políticas pragmatistas. A URSS tenta ampliar a sua influência, apoiando o regime de Cuba e buscando outras aproximações no Terceiro Mundo. O Brasil iniciava fase de desenvolvimento econômico, o chamado “milagre brasileiro’, mas estava submetido ao regime de exceção imposto pelo Ato Institucional número 5. Depois de Costa e Silva, que adoeceu, e de uma junta militar, o País tinha na Presidência o marechal Emílio Médici, considerado por muitos um homem de boas intenções, mas sua inaptidão permitiu que seu período constituísse um dos mais tristes da República quanto às liberdades e garantias do cidadão. Entre 1969 e 1973, o Produto Interno Bruto deu seus maiores saltos desta segunda metade do século, mas o chamado milagre brasileiro esbarraria depois na primeira das duas grandes crises do petróleo. Grandes obras são lançadas, algumas se tornaram inacabadas, como a Transamazônica, e muitas efetivamente inauguradas, como a ponte Rio-Niterói, a usina da Ilha Solteira e a Refinaria de Paulínia. No plano social, surgem os programas

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GOIÁS

Urbana

52.904.744

Urbana

1.134.242

Rural

41.603.839

Rural

1.325.765

TOTAL

94.508.583

TOTAL

2.460.007

1970

POPULAÇÃO

BRASIL

Fonte: Censo ibge

Proterra, Pasep, PIS e Funrural. O Banco Nacional de Habitação também financia casa própria em escala significativa. O Censo Oficial de 1970 indica a população: 94.508.583 habitantes. No plano cultural, tradicionais delineamentos da pintura, da arquitetura e da música, abandonadas durante boa parte das décadas anteriores, voltam a ser cultivados na virada dos anos 60 para os 70. O irlandês Samuel Beckett arrebata o Nobel de Literatura de 1969. O Nobel de 1970 é conferido ao russo Alexander Solzhenitsyn. No cinema, Oscar para Midnight Cowboy, de John Schlesinger, também melhor diretor, em 1969, enquanto o velho John Wayne ganhava o de melhor ator (por True Gift) e Maggie Smith o de melhor atriz. O filme Patton é o grande vencedor dos prêmios Oscar de 1970: melhor filme, melhor diretor (Frank Schafnner) e melhor ator (George Scott, que o recusa). Glenda Jackson, por Mulheres Apaixonadas, ganha o de melhor atriz. No Brasil, escapando à censura, a dramaturgia busca novos rumos e formula novas propostas, com Antônio Bivar (Cordélia Brasil), Leilah Assunção (Fala Baixo Senão eu Grito), José Vicente (O Assalto), Consuelo de Castro (Caminho de Volta), Bráulio Pedroso (O Fardão) e Roberto Athayde (Apareceu a Margarida). Fazem sucesso as montagens, em São Paulo, de Cemitério de Automóveis, de Fernando Arrabal, e O Balcão, de Jean Genet, pelo produtor argentino Victor Garcia. No futebol, o Brasil chegaria em 1970 ao tri, com o brilho incomum de sua seleção no México. Mas, em 1974 a seleção brasileira decepcionaria na Alemanha, embora ainda conseguisse o quarto lugar.

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Eleição: indireta, pela Assembleia Legislativa, no dia 3 de outubro de 1970. Posse no dia 15 de março de 1971. Integrava a Arena. Vice-governador: Ursulino Leão, que assumiu o governo entre 2 de julho e 12 de julho de 1973 Esposa: Maria de Lourdes Rodrigues Caiado Filhos: Valério e Luciana


Leonino Di Ramos Caiado Governador entre 15 de março de 1971 e 15 de março de 1975

Nasceu na Cidade de Goiás, no dia 14 de outubro de 1933, filho de Leão Di Ramos Caiado e Elidia Maria Perillo Caiado. A sua formação educacional em 1º e 2º graus se deram em sua terra natal, em Goiânia e em Niterói, RJ. Submetendo-se a dois concursos vestibulares, em Farmácia e Engenharia, conquistou o segundo lugar em ambos. Optou por engenharia na tradicional Escola de Minas e Metalurgia da Universidade de Minas Gerais, em Ouro Preto. Fez política estudantil, presidindo o Centro Acadêmico de Engenharia e o Diretório Central de Estudantes. Diplomado em 1959, foi o orador de sua turma. Pelo desempenho no curso, ganhou direito a pós-graduação em espeleologia. Iniciou-se nas atividades ligadas à profissão de engenheiro em Brasília, chefiando depois a 8ª Residência do 12º Distrito Rodoviário do DNER. Em 1965, foi designado para a superintendência da Suplan e conduziu cerca de 500 obras na capital e no interior de Goiás. Foi fundador e primeiro presidente da Cohab de Goiás. Escolhido para a Prefeitura de Goiânia, na transição que se seguiu ao período Iris Rezende, estava nesse cargo quando seu nome emergiu entre os cotados para a sucessão do governador Otávio Lage, vindo a ser o escolhido. É o construtor do Estádio Serra Dourada e do Autódromo Internacional de Goiânia. Não obstante o sobrenome fortemente associado à história política de Goiás, Leonino preferiu a iniciativa privada assim que deixou o governo, resistindo apelos e convites para disputar o Senado e, mais tarde, o próprio governo do Estado. Tem domicílio em Goiânia e é empresário rural, dedicando-se principalmente à pecuária.

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Leonino: opção por grandes obras

A

eleição indireta de Leonino Caiado e seu vice, Ursulino Leão, movimentou a Assembleia Legislativa de Goiás no dia 3 de outubro de 1970. Na tarde do dia 14 do mesmo mês, em sessão presidida pelo deputado Brasílio Caiado e secretariada pelos deputados Sidney Ferreira e Carneiro Vaz, o governador e o vice foram diplomados. O governador e o vice foram saudados pelo deputado Getulio Vaz e a seguir discursaram ambos. A posse deu-se em sessão solene da Assembleia Legislativa realizada na manhã (início às 9h10) do dia 15 de março de 1971. A sessão foi presidida pelo deputado Jesus Meirelles e secretariada pelos deputados Wanderlan Moura e Alcântara Marques Palmeira. Comissão designada pela mesa, formada pelos deputados Clepino Araújo, Luiz Menezes e Darcy Marinho, conduziu ao recinto o governador a ser empossado e seu vice, que prestaram o juramento constitucional. A saudação oficial da Casa a Leonino Caiado e Ursulino Leão foi feita da tribuna pelo deputado Osmar Cabral. O vice-governador Ursulino Leão falou a seguir e, por fim, discursou o governador

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Durante seu governo, Leonino Caiado inaugurando obra de saneamento básico no interior

empossado. Leonino Caiado fez um resumo de sua plataforma de ação e relacionou as prioridades com as quais desejava governar. O governador Leonino Caiado atravessaria terreno afetado por turbulências políticas regionais, inclusive por causa da falta de acomodação ideal para grandes e pequenas lideranças dentro do partido situacionista, a Arena. A sua primeira crise resultaria de desdobramentos da ruptura com o seu antecessor, Otávio Lage. Na própria solenidade de posse, o orador que falou em nome da Assembleia, Osmar Cabral, criticaria abertamente Otávio Lage. Leonino, aliás, não era o nome que Otávio desejava para sucedêlo. Havia ele trabalhado por Joaquim Guedes de Amorim e Luiz

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Menezes que, no entanto, não tiveram a unção de Brasília. Leonino buscou um homem da velha guarda da antiga UDN, José Fleury, que também presidiu a Arena, para a Secretaria sem pasta de Assuntos Políticos, mas na Assembleia enfrentou a má vontade dos deputados arenistas Tércio Caldas, Genésio de Barros e Luiz Menezes. Filho da Cidade de Goiás, Leonino também enfrentaria o irrompimento de um surto oposicionista na antiga capital, liderada pelos irmãos Paiva (Derval Paiva era deputado estadual), agravado pelo descontentamento da supressão da escolha do prefeito pelo voto direto, por força de norma para municípios de segurança nacional ou considerados estâncias balneárias. A última crise política administrada por Leonino foi a do rompimento de seu próprio primo, o então senador Emival Caiado. As crises políticas e a oposição não afetaram, no entanto, seu programa de obras – considerado bem-sucedido. Como sua administração, Leonino Caiado legou duas megaobras ao setor de esportes, o Estádio Serra Dourada e o Autódromo Internacional de Goiânia. Sua imagem ficou bastante associada a essas realizações. Ambas, estádio e autódromo, criaram referências externas positivas para a capital de Goiás. O setor agropecuário foi atendido com duas realizações importantes: a reforma do Parque de Exposições de Nova Vila, que permitiu o redimensionamento da importância da Exposição Agropecuária de Goiânia, que se realiza anualmente em maio e que se tornaria uma das principais feiras de gado bovino no Brasil; e a implantação do programa Goiásrural, que teve a ambição de provocar uma revolução verde no Estado. O programa contribuiu para a dilatação da fronteira agrícola no Estado e, principalmente, para a incorporação dos solos de cerrado à área agricultável e produtiva.

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O apoio oficial à industrialização ganharia um apreciável reforço, com a introdução de mecanismos legais de incentivo, concretizados pela Lei 7.700, que posteriormente iria evoluir e se aperfeiçoar, com a criação do Fomentar.

COINCIDÊNCIA Ninguém morre de amores pelo sucessor, observava Maquiavel. Essa regra marcaria as relações entre o governador Otávio Lage e seu sucessor, Leonino Caiado. Construtor do Estádio Serra Dourada, Leonino o inaugurou à véspera de terminar seu mandato. O jogo inaugural foi entre as seleções de Goiás e de Portugal. Goiás venceu de virada, por 2 X 1. Portugal fez o gol inaugural, de autoria do atacante Otávio. O cronista João Batista Alves provocou muitos risos nas tribunas de honra e da imprensa com este comentário: Pois é, o Leonino construiu o estádio, mas foi o Otávio quem inaugurou o placar”.

Leonino lembra sua ousadia com obras Em entrevista concedida ao autor desta obra em março de 1998, quando era produzida a primeira edição deste livro, o ex-governador Leonino Caiado acha que foi importante ter ele tido ousadia com algumas obras, principalmente em relação mao Estádio Serra Dourada, o Autódromo Internacional de Goiânia e a conclusão do Centro Administrativo,. Ele lembra que o estádio e o autódromo se tornaram uma referência de Goiás.

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Leonino afirmou que sua escolha para governador, na época por via indireta e com necessário respaldo militar, deu-se por ter antes passado pela prefeitura de Goiânia, sucedendo Iris Rezende, que fora cassado, mas que, antes de tudo técnico, ele tinha também origem familiar política, o que contribuiu para a sua que experiência como governador. Ele afirmou a respeito disso, também. que durante todo o período de estudante ele participou da política estudantil. E que, bastante jovem, assumindo a chefia da Suplan, passou a ter muitos contatos políticos, assim como reuniões com prefeitos – o que agregaria igualmente uma certa formação política.

Leonino: “além das grandes obras, investimos na expansão da fronteira agrícola e na industrialização”


Perguntado se obras caras em Goiânia prejudicaram o interior, ele disse que não, pois se concentrou também numa atenção especial aos municípios e fortaleceu a assistência à agropecuárias, principalmente com o mecanismo do programa Goiasrural. Lembrou que, em determinado momento, nada menos do que 500 tratores foram dar assistência ao interior goi Ele sustentou que o programa Goiasrural criaria uma n ova mentalidade no campo, contribuindo muito para a modernização do sistema produtivo rural em Goiás. Leonino disser ter evitado ao máximo ações repressivas, não obstantes fossse época de intensa de intensa repressão federal, que foi o período do presidente Emílio Médici. Elogiou o apoio que teve do então poderoso ministro da Economia, Delfim Neto que, segundo ele, achava fundamental um bom desempenho do setor agropecuário. Leonino afirmou que também desenvolveu bastante as ligações rodoviárias vicinais, o que foi bom para o desenvolvimento do interior. Ele entregou o governo ao engenheiro Irapuan Costa Júnior os dois não tiveram estremecimentos, ao contrário do que iria ocorrer entre este e o seu sucessor Ary Valadão. Afirmou também que durante toda a administração, por conta das condições criadas no relacionamento com os prefeitos, a maioria dele s proporcionou grande contribuição ao seu governo, com permanente ajuda, com pequenas mas empre valiosas obras.

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Governador Leonino Caiado passando em vista Ă tropa da PolĂ­cia Militar do Estado


Governador Leonino Caiado, prefeito de Goiás, Juarez Godinho, secretário de estado Dione Costa, Ronaldo de Britto, deputado Brasílio Caiado e, ao fundo, o vereador Pedro Garcia de Almeida, sua esposa Myraci e, o então menino, Marco Antonio Veiga. Transferência simbólica da capital para a cidade de Goiás, em julho de 1974

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1975 1979

cenário mundial e brasileiro

Os dois choques dos preços do petróleo no mercado internacional afetam fortemente a economia brasileira, que ainda dependia substancialmente das importações. O governo investe na produção própria da Petrobrás e estimula o uso de combustível alternativo a partir do álcool. A administração federal aposta ainda em investimentos na geração de energia nuclear, com as usinas de Angra dos Reis. A economia brasileira sofre também os efeitos da severa recessão nos Estados Unidos e na Europa. A França e a Grã-Bretanha são obrigadas a dar flutuação a suas moedas — o franco e a libra esterlina. Não existia, ainda, a moeda comum europeia, o euro. No plano político internacional, depois de terem absorvido o impacto e os efeitos do escândalo Watergate e de a administração federal ter sido conduzida por Gerald Ford, presidente da Câmara dos Representantes, que completou o mandato de Nixon, os Estados Unidos elegeriam Jimmy Carter, em 1976. Os democratas voltavam assim ao poder. Nesse mesmo ano, os EUA celebram o bicentenário de sua independência. Na área de influência soviética, apesar da distensão com o Ocidente, Moscou promove a guerra contra o Afeganistão. No plano político brasileiro, o duro período de Médici é sucedido pela era Geisel. O presidente Ernesto Geisel acena com a abertura lenta e gradual, mas não irrestrita, como reclamavam os oposicionistas. E tanto é assim que o pacote de abril faz sombra sobre os avanços da abertura, cuja consolidação só iria se dar depois de mais um governo militar, o de João Figueiredo. No início de outubro de 1978, o governo Geisel entra em confronto com a linha-dura liderada pelo general Sílvio Frota, que é destituído do Ministério do Exército. No plano esportivo, o destaque desse período, para o torcedor brasileiro, seria a Copa do Mundo da Argentina, em 78, que a anfitriã acabou

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vencendo, disputando a finalíssima contra a Holanda. Embora invicta, a seleção brasileira, orientada por Cláudio Coutinho, fica com o terceiro lugar. O poeta italiano Eugene Montale arrebata o Prêmio Nobel de Literatura de 1975. De 1976 a 1979, os vencedores foram Saul Bellow (EUA), Vicente Aleixandre (Espanha), Isaac Singer (EUA) e Odisseus Elytis (Grécia). No cinema, os filmes vencedores do Oscar, entre 1975 e 1979, seriam: Um Estranho no Ninho, Annie Hall, O Franco Atirador e Kramer Versus Kramer. Foram premiados os diretores Milos Forman, James Avildsen, Woody Allen, Michael Cimino e Robert Benton. Entre 75 e 79, os atores e atrizes vencedores no Oscar foram, pela ordem: Jack Nicholson e Louise Fletcher, Peter Finch e Faye Dunaway, Richard Dreyfuss e Diane Keaton, John Voight e Jane Fonda, Dustin Hoffman e Sally Field.

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Eleição para governador: indireta, pela Assembleia Legislativa, no dia 3 de outubro de 1974. Diplomação no dia 4 de outubro de 1974 e posse no dia 15 de março de 1975. Integrava a Arena. Vice-governador: José Luiz Bittencourt, que assumiu interinamente, uma vez, por curto período, entre 5 e 15 de janeiro de 1979. Esposa: Lúcia Vânia Abrão Costa Filhos: Carlos Frederico, Ana Carla e George Henrique


IRAPUAN COSTA JÚNIOR

Governador entre 15 de março de 1975 e 15 de março de 1979 Nasceu no dia 23 de dezembro de 1937, em Goiânia, filho de Irapuan Sardinha da Costa e Raynerita de Queiroz Costa. Foi aluno do Lyceu de Goiânia, do Colégio Batista e do Educandário Rui Barbosa, no Rio, e teve brilhante desempenho no vestibular (1956) da Escola Nacional de Engenharia (hoje pertencente à Universidade Federal do Rio de Janeiro), com cursos extracurriculares em Engenharia Atômica e Nuclear e pós-graduação em Engenharia Econômica. Professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Goiás, fundou e ajudou a fundar empresas construtoras. Foi diretor-técnico e depois presidente da Centrais Elétricas de Goiás (Celg), abrindo o capital da empresa. Prefeito (nomeado, pois o município, por causa da Base Aérea, passou a ser considerado, no período, área de segurança nacional) de Anápolis e eleito, por via indireta, governador do Estado. Deputado federal, então pelo PDMB, entre 1983 e 1987 e senador entre 1987 e 1995. Representante do Brasil e de entidades privadas em seminários e congressos internacionais. Comunica-se bem em inglês e francês. Autor de trabalhos e estudos políticos e socioeconômicos em jornais e publicações especializadas. Foi presidente do Banco Brasileiro Comercial, liquidado pelo Banco Central, fundou e presidiu a Associação de Bancos do Estado de Goiás, e foi conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), aposentado compulsoriamente e fazendeiro. Em março de 2018, foi nomeado pelo governador Marconi Perillo, secretário de Segurança Pública do Estado de Goiás..

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Um técnico vira político

I

rapuan Costa Júnior foi eleito para o período 1975-1979 pelo sistema indireto pela Assembleia Legislativa, conforme as regras ditadas então por Brasília, no dia 3 de outubro de 1974, juntamente com seu vice, José Luiz Bittencourt. No dia seguinte, 4 de outubro, os dois foram diplomados em sessão solene da própria Assembleia Legislativa, presidida pelo deputado Ênio Paschoal e secretariada por Wagner Ungarelli. Não compareceu à bancada de oposição, composta por 11 parlamentares: Adhemar Santillo, Clepino Araújo, Derval de Paiva, Iturival Nascimento, João Felipe, José Avelino, Juarez Magalhães, Lúcio Lincoln, Luiz Soyer, Ronaldo Jayme e Tobias Alves. O deputado Tércio Caldas falou em nome do Poder Legislativo, saudando o governador diplomado e seu vice. Irapuan Costa Júnior, em seu discurso, sintetizou suas diretrizes e suas metas. Discursou também o vice, José Luiz Bittencourt. No dia 15 de março de 1975, a Assembleia Legislativa se reuniria em sessão solene para dar posse a Irapuan e seu vice, sob a presidência do deputado Jesus Meireles e secretariada pelos deputados Paulo Rezek e Domingos Venâncio. A presidência da

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mesa designou o deputado Paulo Rezek para saudar os empossados em nome da instituição. Depois dele, num discurso informativo sobre seus planos de ação, falou o governador Irapuan. A bancada de oposição (MDB) compareceu. Já não era exatamente a mesma da sessão diplomatória, pois a Casa fora renovada pelas eleições parlamentares recentes, mas manifestou sua discordância em face do sistema de escolha indireta do governador. O líder da bancada do MDB, Luiz Soyer, pediu que fosse entregue ao governador empossado o discurso que, em nome dessa discordância, fora pronunciado na véspera pelo deputado Henrique Santillo.

O governador Irapuan Costa Júnior, entre sua mulher, Lúcia Vânia, e a famosa bailarina Margot Fonteyn, na noite em que foi reinaugurado o Teatro Goiânia


O então jovem engenheiro que foi cooptado pela administração pública para presidir a empresa energética estatal de Goiás, Celg, já não podia se limitar à condição apenas de técnico quando foi escolhido para ser o prefeito nomeado de Anápolis. Por causa da Base Aérea no município, o segundo em importância econômica e demográfica do Estado, o governo militar transformou-o em área de segurança nacional, sujeitando-o à excepcionalidade do prefeito nomeado, regra que a abertura política de alguns anos depois extinguiria. Dos nomes cogitados para a sucessão do governador Leonino Caiado, o favorito era o médico Manoel dos Reis, que havia passado pela Prefeitura de Goiânia. Leonino o endossava e se empenhou para que ele fosse o seu sucessor, mas, a eleição indireta, na época, formalizada pela Assembleia Legislativa, tinha controle remoto exercido pelo que se convencionara chamar de sistema – ou seja, em suma, a unção do regime militar. Antes de a Assembleia deliberar, decidia-se em Brasília. O sistema – o general Geisel acabara de assumir a Presidência da República – ungiu Irapuan Costa Júnior. E, assim, o técnico, que passara pelo noviciado político na Prefeitura de Anápolis, assume o governo do Estado no dia 4 de março de 1975 para ficar quatro anos como inquilino da Casa Verde. E acabou sendo muito mais político do que técnico. O partido situacionista, Arena, tinha seus impasses e suas divergências que exigiam paciente administração, e o então MDB, oposicionista, ainda na sua fase heroica de resistência, embaraçava-se nas limitações da época impostas às forças de oposição pelo regime militar. O governo de Irapuan não tinha de temer portanto o MDB, que era minoria na Assembleia, embora fizesse lá oposição ruidosa – e sim os problemas da própria Arena, aos quais se acloparia a sua colisão com Marcus Fleury, secretário do Governo na fase inicial da administração e respaldado na época pelo temido Serviço Nacional

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de Informações (SNI). Marcus Fleury, eminência parda por um ano e meio do governo Irapuan, foi demitido, para espanto dos circunstantes políticos, em 11 de setembro de 1976. Daí em diante, até passar o governo a Ary Valadão, no dia 15 de março de 1979, Irapuan mudaria o estilo, passaria a se identificar com a abertura. O que explica ter dado todo o apoio logístico à contraconspiração armada pelo general Geisel, em 78, para esvaziar a linha dura identificada com o general Sílvio Frota. Em ambas as fases, no entanto, Irapuan teve de ter paciência para enfrentar os embaraços em sua própria base partidária, a Arena – especialmente na Assembleia Legislativa. Ganhou um presente de grego, o cavalo de Troia que se convencionou na época chamar de bancadinha, formada pelos deputados rebeldes da Arena. Inicialmente sete – Ibsen de Castro, Mário Cavalcante, Clarismar Fernandes, Sérgio Caiado, Raimundo Marinho, Nelson de Castro e José Adorno. No final do governo, seriam três apenas: Sérgio Caiado, Mário Cavalcante e Raimundo Marinho. Houve dificuldades políticas também no relacionamento com dirigentes da Arena (como José Fleury e Hélio de Brito), na indicação de Francisco de Castro para a Prefeitura de Goiânia, na formação e nos remanejamentos promovidos no Secretariado e, no processo sucessório, o revés da escolha, pelo sistema, de quem não era seu preferido, Ary Valadão. O candidato de Irapuan era o deputado federal José de Assis. Na véspera de transmitir o cargo, Irapuan afirmou que deixava o governo com o pagamento do funcionalismo em dia, quitados os compromissos com os empreiteiros e 3 mil obras entregues à população. Boa parte dessas obras foi realizada no norte do Estado, que depois se tornaria estado do Tocantins, incluindo a ponte sobre o rio Tocantins, no município de Porto Nacional.

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Presidente Geisel visitando Goiรกs para inaugurar obras: ele deu forรงa ao governo de Irapuan


Governador Irapuan Costa Júnior inaugura o sistema de abastecimento de água de São Miguel do Araguaia, em 1977


Dentre as obras maiores, destacaram-se o Ginásio Esportivo Rio Vermelho e a recuperação do Teatro Goiânia, reinaugurado com espetáculo de gala de balé, a implantação do novo sistema de transporte coletivo urbano, na capital, e o Distrito Agroindustrial de Anápolis (Daia).

FOLCLORE Quando estudante no Lyceu de Goiânia, onde recebeu instrução que o habilitou a cursar Engenharia no Rio, Irapuan Costa Júnior era considerado aluno bastante aplicado. Fazia parte do elogiado corpo docente o professor de português Carlos de Campos, que atribuía notas aos alunos com justiça e equilíbrio. Na época, aplicava-se também aos alunos a prova oral. Carlos de Campos questionou Irapuan a respeito de um texto que falava de um navio enfrentando muita turbulência. Irapuan acertou as respostas, mas uma ficou incompleta: a que solicitava dois sinônimos para tempestade. Ele citou apenas temporal. O professor achou que seria justo dar uma pequena ajuda. Soprou para o aluno o sinônimo borrasca. Quando governador, Irapuan defrontou-se com turbulências políticas, a maior das quais quando colidiu com o secretário do governo, Marcus Fleury. Algumas semanas depois de ter afastado o secretário, Irapuan encontrou-se com Carlos de Campos e disse a este: “Agora sei bem o que é borrasca”.

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Irapuan destaca Força à indústria O ex-governador Irapuan Costa Júnior concedeu entrevista ao autor deste livro em fevereiro de 1998, quando estava sendo produzida a primeira edição de Os Inquilinos da Casa Verde. Ele afirmou que se fosse repetir o seu projeto de governo ampliaria a visão social, mas no aspecto do desenvolvimento econômico marcharia com semelhante enfoque. Entende que no plano de apoio à industrialização o seu governo inovou, incentivando a indústria de Goiânia e implantando o Distrito Agroinndustrial de Anápolis. Irapuan considerou importante o que sua administração investiu no plano do transporte coletivo urbano de Goiânia, que estava antes muito atrasado. Outro investimento destacado na capital, segundo ele, foi a construção do complexo esportivo Rio Vermelho, aberto com a realização de importante torneio internacional de baquete. Irapuan lembrou episódios críticos, como quando enfrentou o secretário Marcos Fleury e quando foi chamado pelo presidente Ernesto Geisel para colaborar na desmontagem do esquema do general Sylvio Frota. Ele afirmou que o governo Geisel apoiou bastante a sua gestão, mencionando, entre outros pontos, o apoio à eletrificação do Vale do Araguaia. Afirmou ter dado bastante atenção do antigo Norte goiano, hoje Estado do Tocantins, que na época, tendo apenas 20 por cento da população do Estado, nunca era região bem assistida.

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Da esquerda para a direita: José Luiz Bittencourt, Rubens Guerra, Irapuan Costa Júnior e Francisco de Castro

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1980 1983

cenário mundial e brasileiro

As taxas elevadas de crescimento do PIB brasileiro persistem até a virada da década de 70 (6,4% em 79, 7,9% em 80). Crescem também a inflação (110%) e a dívida externa. Em 1981, o crescimento foi negativo – menos 1,9%. Há greves no ABC paulista, ferindo o coração da indústria brasileira, o presidente Figueiredo se vê obrigado a proclamar uma economia de guerra, incluindo o congelamento das importações de petróleo, mas, mesmo assim, a anistia e a abertura política avançam. Para 1982, são marcadas as primeiras eleições diretas para o governo dos Estados desde 1965. Em 1981, no entanto, há o impacto do abortado plano de atentado do Riocentro, que abala a administração Figueiredo e provoca o afastamento do general Golbery do Couto e Silva. Os Estados Unidos têm na virada da década de 70 para 80 a desagradável e surpreendente experiência de uma inflação de dois dígitos, ao mesmo tempo em que cresce o desemprego – e, em 1980, elegem Ronald Reagan, voltando, assim, os republicanos ao poder. O terrorismo inquieta o mundo. Vítima de atentado terrorista, morre o presidente do Egito, Anuar Sadat, em 1981. A França entra na era Miterrand e a Grã-Bretanha na era Tatcher. Na América Latina, o maior impacto é causado por mudanças políticas na América Central, como a ascensão do sandinismo na Nicarágua. Nos esportes, o Brasil sofre outra frustração em Copas do Mundo, sendo eliminado pela Itália no Mundial de 82, na Espanha, embora representado por um time de alta categoria técnica. No plano cultural, o polonês Czeslaw Milosz (80), o britânico Elias Canetti (81) e o colombiano Gabriel García Márquez (82) ganham o Prêmio Nobel de Literatura. O britânico William Golding, o de 1983. Os quatro filmes premiados entre 1980 e 1983 com o Oscar são: Gente como a Gente, Carruagens de Fogo, Gandhi e Laços de Ternura; os diretores

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GOIÁS

Urbana

82.013.375

Urbana

2.172.925

Rural

39.137.198

Rural

1.056.254

TOTAL

121.150.573

TOTAL

3.229.219 Fonte: Censo ibge

premiados, Robert Redford, Warren Beatty, Richard Attenborough e James Brooks; os atores, Robert De Niro, Henry Fonda, Ben Kingsley e Robert Duvall; as atrizes, Sissy Spacek, Katharine Hepburn, Meryl Streep e Shirley MacLaine.

Governador Irapuan Costa Júnior, prefeito de Goiás, Antônio Ubiratan de Alencastro, autoridades, vereador Pedro Garcia de Almeida e o jornalista, então menino, Marco Antonio Veiga. A foto é da mudança simbólica da capital para a cidade de Goiás, em julho de 1976

1980

POPULAÇÃO

BRASIL


Eleição: indireta, pela Assembleia Legislativa, no dia 30 de novembro de 1978 Vice-governador: Ruy Brasil Cavalcanti Júnior Esposa: Maria Bahia Peixoto Valadão Filhos: Lúcia, Ary (falecido), Ronaldo, Lílian e Márcio


ary ribeiro valadão

Governador entre 15 de março de 1979 e 15 de março de 1983 Nasceu no município de Anicuns, em 14 de novembro de 1921, filho de Benedito Teodoro Valadão e Emília Parrode Valadão, tendo se iniciado muito cedo nas atividades da vida rural, como pequeno fazendeiro, às quais continuou sempre fiel, mais tarde como empresário rural de grande porte. Iniciou a sua carreira política também muito jovem, conquistando, pela legenda da UDN, mandato de prefeito de sua terra natal com apenas 25 anos de idade. Viria a conquistar outro mandato de prefeito de Anicuns, em 1954, antecedendo voo mais alto, rumo à Assembleia Legislativa de Goiás. Seu primeiro mandato de deputado estadual foi conquistado nas eleições de 1958, participando da legislatura instalada no dia 1º de fevereiro de 1959, integrando a bancada da coligação UDN-PSP, então oposicionista. Conseguiu reeleger-se nas eleições de 1962, com investidura no dia 2 de fevereiro de 1963. Foi líder da bancada da UDN nessa legislatura. Participaria da campanha eleitoral de Otávio Lage, em 1965, como presidente regional da UDN, e alçaria voo rumo à Câmara Federal nas eleições de 1966, já então pela Arena, reelegendo-se para as duas legislaturas seguintes. Integrou diversas comissões técnicas da Câmara Federal durante esses três mandatos. No Governo Irapuan Costa Júnior, foi secretário do Interior e Justiça. Ganhou a preferência da área federal na sucessão de Irapuan e foi o último dos três eleitos pelo sistema indireto nesse período para o governo do Estado. As suas ligações com o antigo Norte goiano, hoje Tocantins, renderam-lhe mais um mandato de deputado federal por esse Estado. Nas eleições mais recentes não se candidatou, enquanto sua mulher, Maria Valadão, era eleita para a Câmara Federal. Ambos (ela como vice na chapa) participaram da campanha de Nion Albernaz para a Prefeitura de Goiânia em 1996. Ary Valadão é diplomado em Direito.


A Era Ary Valadão

A

exemplo do que ocorrera nas duas sucessões anteriores, a de Otávio Lage para Leonino Caiado e a de Leonino para Irapuan Costa Júnior, também as preferências de Irapuan não iriam prevalecer na escolha de seu sucessor. Quando se aproximava o momento da indicação, que dependia do que se chamava de sistema, ou seja, do consentimento do governo militar, tudo indicava que o escolhido seria o deputado federal José de Assis, que havia passado, também, pela Secretaria de Educação. Na área federal, Assis tinha um canal de apoio aberto com o ministro Mário Andreazza. Ary Valadão, com mandato de deputado federal e passagem pela Secretaria do Interior e Justiça do próprio governo Irapuan, seria a surpresa do processo e nisso teve um decisivo peso o acesso que ele tinha ao general Golbery do Couto e Silva. Golbery, que deixaria o governo Figueiredo após o episódio do atentado do Riocentro, em 1981, era fortíssimo – eminência parda mesmo – no Planalto. Golbery foi a chave que abriu a porta do Palácio das Esmeraldas para Ary Valadão. O sistema o ungiu – e a Assembleia Legislativa formalizaria a sua escolha, como se procedia na época.

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Ary Ribeiro Valadão foi o último dos três governadores (antes dele, Leonino Caiado e Irapuan Costa Júnior) eleitos pelo sistema indireto, através da Assembleia Legislativa, dentro do período em que o regime militar suprimiu o processo direto. A sucessão dele já se deu com o restabelecimento das eleições diretas para governador, realizadas em 1982, vencidas por Iris Rezende. A Assembleia Legislativa estadual elegeu Ary Valadão no dia 1º de setembro de 1978. E, cumprindo o que prescrevia a legislação, alterada pelo chamado pacote de abril de 1974, uma das três cadeiras de senador pelo Estado também foi preenchida pelo voto indireto na mesma data.

Irapuan Costa Júnior e Ary Valadão: depois viria o distanciamento entre ambos


No dia 30 de setembro de 1978, Ary, o seu vice-governador, Ruy Brasil Cavalcanti Júnior, o senador que fora eleito pelo sistema indireto, Benedito Vicente Ferreira e seus suplentes (José Caixeta e Antônio Pereira da Silva) compareceram ao plenário do Poder Legislativo para a diplomação. A cerimônia de diplomação foi realizada no período da manhã, sob a presidência do deputado Ibsen de Castro. O governador eleito e o vice, o senador e os suplentes foram introduzidos no plenário por duas comissões formadas pelos deputados Clarismar Fernandes, Wolney Siqueira e Ataíde Borges, e Sérgio Caiado, Alziro Gomes e Genésio de Barros, respectivamente. O governador diplomado foi saudado pelo deputado Libânio de Araújo, que falou em nome da Assembleia, e agradeceu, mencionando algumas de suas metas de governo, como o apoio à base agropecuária da economia estadual. Na manhã de 15 de março de 1979, foi realizada na Assembleia Legislativa a sessão de posse, presidida pelo deputado Ênio Pascoal e secretariada pelos deputados Domingos Venâncio e Hélio de Brito. O Poder Legislativo havia sido renovado pelas eleições de novembro anterior. A mesa designou os deputados Derval de Paiva, Wolney Siqueira e Libânio Araújo para a introdução ao plenário do desembargador Paulo Amorim, presidente do Tribunal de Justiça, e a seguir do governador e seu vice, Ruy Brasil. Cumpridas as formalidades de juramento, falaram o deputado Frederico Jayme, em nome da bancada do MDB, e Libânio Araújo, em nome da bancada da Arena. No final, falaram o vice-governador Ruy Brasil e o governador Ary Valadão, anunciando diretrizes governamentais, sendo os trabalhos encerrados por Ênio Pascoal. O Governo Ary Valadão iria se instalar no início de um ano de reforma partidária e de grande importância política, o da consolidação

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da anistia, com a volta dos políticos que haviam sofrido cassação de mandatos e perda dos direitos políticos. Assim, no cenário estadual, ressurgem lideranças que tinham ficado impedidas até da simples militância durante pelo menos dez anos, como Iris Rezende e Mauro Borges. Claro que isso redobraria o vigor das forças oposicionistas no Estado que, nos dois governos anteriores, de Leonino Caiado e Irapuan Costa Júnior, estavam debilitadas pelas punições e restrições do regime militar. O clima para a oposição, quando Ary assume, já não era irrespirável. Além da oposição propriamente dita mais forte, ele teria ainda de enfrentar os embaraços causados por uma parte rebelde da bancada que havia sido eleita, em 78, pela legenda da Arena, legenda que, na reforma partidária, teria o PDS como sucedâneo, enquanto o MDB se tornaria PMDB.

Ary e Maria Valadão: ela continuou disputando mandatos eleitorais depois do governo do marido


Logo após a criação do PDS, o presidente Figueiredo sobe ao palanque com Ary Valadão


O plano de governo, cuja concepção fora coordenada por Oton Nascimento, tinha metas bastante ousadas, como o propósito de tornar Goiás – na época, com 642 mil quilômetros quadrados, pois incluiu a área que hoje forma o mapa do estado do Tocantins – na maior fronteira agrícola brasileira e numa grande província mineral. Para a agricultura, foram lançados três projetos, o de Rio Formoso, o do Rio do Sono e o de Alto Paraíso. O que se viabilizaria seria apenas o de Rio Formoso, um complexo de cultivos irrigados que depois seria transferido à iniciativa privada.

Da esquerda à direita: José Ubaldo Teles, presidente da Saneago, Clodovel Azevedo secretário da Saúde e Ary Valadão, governador


produção em primeiro lugar O ex-governador Ary Valadão concedeu entrevista ao autor deste livro em fevereiro de 1998, quando estava sendo produzida a primeira edição de Os Inquilinos da Casa Verde. Ele confirmou que a sua indicação para o governo de Goiás, na época por processo indireto, teve decisiva influência do general Golbery do Couto e Silva, então a mais forte figura do governo militar, chefiado pelo general Ernesto Geisel. Golbery marcou audiência de Ary, que era deputado federal, com o general Geisel e o tornou primeiro nome para indicação. Brasília decidia tudo, restando na verdade à Assembleia Legislativa do Estado a mera função de aprovar o nome indicado. Ary diz que assumiu a administração estadual muito adaptado ao peso do cargo. Afirmou que promoveu muitas obras no interior e destacou a implantação do Projeto Rio Formoso, um gigantesco esquema de agricultura irrigada em área que pertencia a Goiás e depois se tornou parte do Estado do Tocantins. Mencionou a sua preocupação com o setor educacional, destacando a criação do Colégio Hugo de Carvalho Ramos, Colégio Militar, como é mais chamado, hoje ampliado em várias unidades. Lamentou não terem prosseguido o projeto de produção de frutas nobres na região da Chapada dos Veadeiros, o qual o faria sofrer muito por causa da morte de seu filho Ary Valadão Júnior, morto em acidente de avião quando trabalhava naquele projeto. Manifestou ter ficado muito frustrado em relação à hidrelétrica do Rio Corumbá, que ele iniciou, e que foi entregue por seu sucessor, Iris Rezende, à empresa Furnas, do governo de Minas Gerais.


Governador Ary Valadão em solenidade de entrega de máquinas da antiga Goiásrural

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1983 1987

cenário mundial e brasileiro

No plano internacional, ocorre o crescimento das manifestações do terrorismo, em coincidência com o incremento do fanatismo no Irã, após a ascensão dos adeptos do aitolá Kohmeini: sequestro de 52 americanos no Irã, atentados em Beirute, Londres, Paris, Roma e Viena, entre outros casos. A Líbia de Khadafi também contribui com a sua porção de terrorismo. A ascensão conservadora amplia a força de Margaret Tatcher na GrâBretanha e se fortalece também nos Estados Unidos, sob a administração de Ronald Reagan, que havia derrotado Jimmy Carter nas eleições de 1980. A então União Soviética passava por problemáticos anos e trocava rapidamente de chefes: Breznev, Andropov e Chernenko, como prenúncio da era reformista de Gorbachev. Cresce a instabilidade na África, há mudanças na América Central, inclusive a ascensão do sandinismo na Nicarágua, o movimento contra o apartheid ganha força na África do Sul e a França elege François Miterrand. No Brasil, a administração Figueiredo, a última do regime militar, defrontase com crises na economia, uma recessão provocada por medidas oficiais e fica perplexa e abalada com o atentado a bomba no Riocentro. Depois de muitos anos de espera, as forças oposicionistas enxergam luz à frente e podem avançar. Ganham a maioria das cadeiras da Câmara dos Deputados e elegem nada menos do que dez governadores, entre eles Iris Rezende, em Goiás. Dois anos depois das eleições de 1982, o movimento pelas diretas-já para a Presidência se torna incontível. A população estava chegando à casa de 140 milhões de habitantes. No plano cultural, os anos da eleição (1982) e da posse (1983) de Iris Rezende são marcados pela recuperação da Liberdade Criativa.

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O Prêmio Nobel de 83 havia sido conferido ao britânico William Golding, o de 84 contemplaria o checo Jaroslav Seifert, o de 85, o francês Claude Simon, e o de 1986, o nigeriano Wole Soynka. No cinema, a premiação do Oscar de 1983 consagra Laços de Ternura: melhor filme, melhor diretor (James Brooks) e melhor atriz (Shirley MacLaine), enquanto Robert Duvall ganhava o de melhor ator por Tender Mercies. Amadeus, Entre Dois Amores e Platoon vencem em 84, 85 e 86. Milos Forman, Sydney Pollack e Oliver Stone foram os diretores premiados entre 84 e 86. Pela mesma ordem, os atores e atrizes foram F. Murray Abraham, William Hurt e Paul Newman, Sally Field, Geraldine Page e Marlee Mattin. No Brasil, há o irrompimento das bandas: Blitz, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso e Ultraje a Rigor. O fim da censura melhora o quadro para o cinema e permite filmes como Prá Frente Brasil. O cientista Albert Sabin esteve em Goiânia no início da década de 1980, quando o Brasil comemorava a vitória sobre a poliomielite, graças a campanhas de vacinação com a vacina que ele criou. Na foto, ele aparece neste grupo com o governador Ary Valadão e a primeira-dama, Maria Valadão, tendo à direita o então secretário da Saúde, Clodoveu Azevedo, e, à esquerda, Lilian Valadão, filha do governador. As duas crianças são netas

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Eleições para governador: *No dia 15 de novembro de 1982, pelo PMDB, obtendo 964.179 votos, derrotando Otávio Lage (PDS), que teve 470.184 votos; Athos Magno (PT), 9.818 votos; e Paulo Timm, PDT, 845 votos. Tem Onofre Quinan como vice nessa campanha. *No dia 3 de outubro de 1990, pelo PMDB, em aliança com PCB e PTR, obtendo 889.927 votos, derrotando Paulo Roberto Cunha (Coligação PDC, PFL, PRN, PSD e PTB), que teve 537.111 votos; Valdi Camárcio (PT-PSB), que obteve 88.836 votos; e Iram Saraiva (Coligação PDT, PSDB, PC do B, PMN e PSE), que teve 62.327 votos. Tem Maguito Vilela como vice nessa campanha. Esposa: Iris de Araújo Rezende Machado Filhos: Cristiano, Ana Paula e Adriana


iris rezende machado

Governador entre 15 de março de 1983 e 14 de fevereiro de 1986 e entre 15 de março de 1991 e 2 de abril de 1994 Nasceu no dia 22 de dezembro de 1933, na cidade de Cristianópolis, Goiás, filho de Filostro Machado Carneiro e Genoveva Rezende Carneiro. Estudou na sua terra natal, na Escola Técnica Federal de Goiânia, Escola Técnica de Comércio de Campinas, no Lyceu de Goiânia e na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás. A sua iniciação política se deu no meio estudantil, presidindo grêmios estudantis, como o Castro Alves, da Escola Técnica de Campinas, e o Félix de Bulhões, do Lyceu de Goiânia. Em 1958, candidata-se, pela legenda do PTB, a vereador, em Goiânia, e é o mais votado para a legislatura 1959-1962. Presidiu a Câmara Municipal entre 1960 e 1961. Em 1962, então no PSD, disputa cadeira na Assembleia Legislativa – e novamente seria o mais votado. Foi líder do governo Mauro Borges (63-64) na Assembleia e depois presidente da instituição, entre 1964 e 1965. Em 1965, disputa a Prefeitura de Goiânia e consegue impactual vitória, concorrendo com o ex-governador José Ludovico. Implanta na Prefeitura de Goiânia estilo popular de governar, incluindo a prática dos mutirões, os quais passariam a ser a sua marca, mas seu mandato não chegaria ao fim. Iris foi uma das vítimas do regime de exceção que o Ato Institucional número 5 instalou no País. Teve seus direitos políticos suspensos e o mandato de prefeito cassado por ato de força da junta militar que governava o País no final de outubro de 1968. Dedica-se, quando cassado, à advocacia. O movimento pela reabertura política no final dos anos 70 voltaria a colocar o nome dele em projeção. Quando se dá a anistia, ele era de novo o político mais popular no Estado, o que tornou natural a sua candidatura, em 1982, ao governo do Estado, pelo PMDB. Deixa o governo em 1986 para assumir o Ministério da Agricultura, conseguindo a proeza de safras agrícolas


recordes. Em 1990, o PMDB o chama para novamente disputar o governo do Estado. Em 1994, é eleito senador. Estava no exercício do mandato de senador no início de 1997, quando foi convidado para o Ministério da Justiça, cargo que deixou para ser, pela terceira vez, candidato ao governo de Goiás nas eleições de 1998. Foi derrotado de forma surpreendente pelo jovem Marconi Perillo, retornando ao Senado. Em 2002, tenta se eleger novamente para o Senado, mas as duas vagas em disputa ficariam com Demóstenes Torres e Lúcia Vânia. Em 2004, ele tomaria a decisão de disputar a Prefeitura de Goiânia e conseguiria a vitória, no segundo turno, confrontando-se com o então prefeito Pedro Wilson. Votos de Iris no segundo turno: 349.133 (56,71%), contra 266.541 (43,29%) de Pedro Wilson. Foi reeleito em 2008, mas em 2010 passou a função para o vice, Paulo Garcia, a fim de mais uma vez disputar o governo estadual, perdendo para Marconi Perillo; Em 2016, foi eleito prefeito de Goiânia para o seu quarto mandato à frente da administração municipal da capital.

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Onofre Quinan e Iris Rezende: rumo à Casa Verde, no dia 15 de março de 1983


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Em seu primeiro mandato à frente da prefeitura de Goiânia, Iris Rezende Machado, em evento político juntamente com o então senador Pedro Ludovico Teixeira Os Inquilinos da Casa Verde

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A volta das eleições diretas para governador

A

s eleições diretas para governador, suprimidas pelos militares, voltam ao calendário político brasileiro em 1982. Depois do longo jejum, os goianos passariam pelas experiência de uma empolgante campanha sucessória. O Governo João Figueiredo cumpre, com dificuldades – “Juro que hei de fazer deste país uma democracia”, bradou ele, em meio a pressões contrárias –, a agenda da reabertura política, ocorrendo junto com ela a reorganização partidária que extingue a Arena e o MDB. O PDS situacionista vira sucedâneo da Arena e o MDB fornece os principais quadros para a constituição do PMDB. Com os direitos políticos reconquistados, Iris Rezende se projeta como astro na constelação de lideranças do MDB, assim que se instala a década de 80. Rompido com Ary Valadão e sem clima para ficar no PDS, Irapuan Costa Júnior surpreende a cena política como um dos organizadores do PMDB. Os irmãos Henrique e Adhemar Santillo (Henrique: senador, Adhemar: deputado federal) passam por uma experiência difícil no PT, que estava também nascendo – e não conseguem conviver com os radicais. E Mauro Borges, que também acabara de readquirir os direitos políticos, vem a se formar entre as lideranças do PMDB.

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O carisma de Iris Rezende e as marcas do sacrifício da cassação e da suspensão dos direitos políticos impregnadas em seu perfil colocam-no em vantagem, como candidato natural a governador, deslocando a chance de Henrique Santillo. Com mais quatro anos de mandato de senador a cumprir, Santillo concorda em apoiar Iris, que por sua vez promete apoiá-lo em 86 – o que de fato se deu. Santillo também indica o candidato a vice: Onofre Quinan. Para a cadeira que iria ser disputada no Senado, por largo consenso, o partido escolhe Mauro Borges. Nesse ajuste, Irapuan concorre à Câmara dos Deputados, reservando energia para, em 86, disputar o Senado.

Ary Valadão transmitiu o governo a Iris Rezende, no dia 15 de março de 1983. À direita de Ary, seu vice, Ruy Brasil


No PDS situacionista, vencendo na convenção o pretendente que tinha o apoio do governador Ary Valadão, Brasílio Caiado, o ex-governador Otávio Lage entra no páreo. O PT lançaria o exexilado Athos Magno, o PDT, recém-criado por Leonel Brizola, lança Paulo César Timm. Embora as pesquisas não fossem feitas sistematicamente como depois passaram a ser e, não obstante Otávio Lage tivesse a fama de ser bom de voto no interior, assim que reiniciou a campanha o favoritismo de Iris se projetou – o que as urnas confirmaram até além das previsões. Nunca, antes, desde 1946, o pleito de governador assinalara vantagem tão grande para um candidato. Os resultados finais foram: Iris Rezende, 964.179 votos; Otávio Lage, 470.184 votos; Athos Magno, 9.818 votos; e Paulo César Timm, 845 votos.

A POSSE O dia 15 de março de 1983, uma terça-feira, marcou o reencontro do povo com os governadores por ele diretamente eleitos: 22 deles, entre os quais Iris Rezende, eram empossados diante de manifestações populares de entusiasmo. Acompanhado de seu vice, Onofre Quinan, Iris compareceu à Assembleia Legislativa para o ato de posse, em sessão aberta exatamente às 9h04s, pelo presidente da Casa, deputado Juarez Magalhães. As galerias estavam lotadas, e grande público se formava também nas proximidades da Assembleia para acompanhar o novo governador, depois do ato de posse, até o Palácio das Esmeraldas. Iris e Quinan fariam esse percurso a pé. A defesa do diálogo e a condenação do sectarismo foram realçadas no discurso de Iris Rezende, que também prometeu um

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duro ataque aos privilégios e às mordomias oficiais. “Darei todas as minhas forças e cobrarei dos meus auxiliares o compromisso de tornar realidade as promessas de campanha. A esperança não será traída. A mudança virá, porque aqui e agora o povo goiano chega ao poder” – afirmava no discurso. Além do discurso do novo governador, falaram o presidente da Assembleia, Juarez Magalhães, e os deputados Frederico Jayme, pela bancada do PMDB, e Clarismar Fernandes, pela bancada do PDS. Acompanhado pela multidão que se juntara diante da sede do Poder Legislativo, Iris seguiu para o Palácio, recebendo o cargo de Ary Valadão. Esse declarou que deixava o cargo sem mágoas e ressentimentos e que não abandonaria a vida política. Iris assinou os primeiros atos ainda no dia da posse, entre eles o que determinava o retorno de todos os servidores à disposição a suas repartições de origem. No dia seguinte, deu posse aos auxiliares do chamado primeiro escalão.

A MARCA DO MUTIRÃO A administração Iris Rezende iria chamar a atenção nacional para Goiás com a adoção de uma experiência: os mutirões da moradia. Colocando a construção de habitações em plano prioritário, levando em conta, principalmente, o déficit de moradias que estava crescendo, foi lançado o programa habitacional, inspirado na própria cultura do povo. Através de mutirões, buscava-se unir a capacidade de trabalho do governo estadual e das prefeituras com a força da participação popular, criando alternativas simples, mas eficientes, para multiplicar o número de moradias, principalmente para o atendimento dos estratos mais carentes da população.

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Iris passou o governo ao vice, Onofre Quinan, para poder assumir o Ministério da Agricultura

No plano político, favorecido por uma situação regional conformada pela maioria que as urnas haviam lhe proporcionado em 1982, na composição da Assembleia Legislativa na legislatura 83-87, Iris Rezende pôde ousar um trabalho de projeção para a cena nacional. Soube criar oportunidade através do decidido engajamento na campanha que começava a mobilizar a sociedade civil pelo restabelecimento do sistema de eleição presidencial direta. A campanha das Diretas-Já, nacionalmente comandada por Ulysses Guimarães, presidente do PMDB, e com respaldo de entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, tornou-se incontível, irrefreável

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e vitoriosa a partir, por coincidência, do primeiro grande comício, realizado em Goiânia. O comício foi um sucesso, e a mídia nacional creditou o êxito a Iris Rezende. Além de Ulysses e de Tancredo Neves, estavam no palanque das Diretas-Já, em Goiânia, o então senador Fernando Henrique Cardoso. A campanha das Diretas-Já desdobrou-se em duas fases: ganhou as ruas e o apoio do povo e impulso para a apresentação da Emenda Dante Oliveira, (nome do deputado por Mato Grosso, que tomou a iniciativa de elaborar o projeto com essa proposta), restaurando o voto direto para a Presidência. Como a emenda precisava de dois terços dos votos do Congresso para ser aprovada, o governo e seu partido, o PDS, então presidido por José Sarney, conseguem organizar a barreira do não comparecimento para impedir o número de votos necessários. Foi um dia triste para a multidão mobilizada para pressionar o Congresso: a Emenda Dante Oliveira não passa. Muda-se, então, a tática: as forças políticas, comprometidas com a volta do sistema direto de escolha do presidente da República decidem se organizar também no sentido de vencer o inimigo com as próprias armas dele. Surge, então, a candidatura de Tancredo Neves, movimentando um pacto que alcançaria a dissidência do PDS, dela fazendo parte o próprio Sarney, todo o PMDB e até o apoio de lideranças identificadas com o regime militar – caso de Antonio Carlos Magalhães. Tancredo é escolhido presidente, mas não chegaria a assumir, colhido por uma doença, cujos sintomas ele próprio dissimulou e pela morte. Mas não se esquecera do papel de Iris no movimento que o consagrou. Oferece a Goiás, que em toda a história brasileira só havia conseguido dois ministros, um lugar no Ministério. Iris indica seu secretário de Planejamento, Flávio Peixoto, que seria designado para o Ministério de Habitação, Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente.

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A administração Iris Rezende ampliou nesse período as unidades de saúde no interior, crescendo de 500 para 1.500 o contingente de médicos contratados, e aumentou de 180 para 320 o número de unidades escolares de II grau. No setor educacional, foram criadas, também, 15 faculdades no interior. O governo contratou serviços de 300 construtoras, grandes, médias e pequenas, para a implementação de obras, destacando-se os três mil quilômetros de rodovias pavimentadas, fazendo crescer a malha 2,5 vezes. A rede de energia elétrica estendeu-se por mais 14 mil quilômetros, e foram construídas 10 mil moradias populares, metade pelo regime dos mutirões. O então senador por São Paulo, Fernando Henrique Cardoso, que integrava o PMDB colocava Iris Rezende entre os nomes de seu partido potencializados para a futura disputa da presidência, quando viessem as eleições diretas pelas quais ambos batiam. E Iris acaba sendo chamado para um desafio ministerial e aceita o Ministério da Agricultura. No dia 14 de fevereiro de 1986, passaria o governo do Estado ao vice, Onofre Quinan, para assumir a pasta da Agricultura.

A VOLTA DE IRIS A criação do Estado do Tocantins, pela Constituição promulgada em outubro de 1988, secciona Goiás e subtrai de seu antigo mapa quase a metade do território anterior. A superfície, que era de 642 mil quilômetros quadrados, ficou reduzida a 354 mil quilômetros quadrados. O recenseamento de 1991 constata uma população de pouco mais de 4 milhões de habitantes. Assim que ocorre a separação da parte norte, o número de municípios cai para

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242. A densidade demográfica, obviamente, aumentou – saiu de 9% para 12,5%. Goiás passou a agasalhar cerca de 3% da população brasileira. A distribuição entre a cidade e o campo inverteu-se em relação a décadas atrás. Depois da criação do Tocantins, a população urbana ultrapassou os 80%, com menos de 20% vivendo na zona rural. Primeira economia do Centro-Oeste, Goiás começava a década de 90 como a oitava economia do País, registrando taxas de crescimento superiores à média nacional. A cena política goiana iria se movimentar, em 1990, com a campanha para o governo do Estado, a disputa de uma cadeira senatorial (vagaria a que estava sendo ocupada por Mauro Borges) e a renovação da bancada na Câmara dos Deputados e da Assembleia Legislativa. Um ano antes, aos pontos em que se distanciavam o então ministro Iris Rezende e o então governador Henrique Santillo, iria se acrescentar a questão que levaria ambos ao total rompimento. Iris decidira disputar a indicação do PMDB para a campanha presidencial, concorrendo a convenção com Ulysses Guimarães e Valdir Pires. Como lhe faltou o apoio de Santillo, considerou-se traído e entendeu que a sua aspiração se tornava vulnerável porque não incorporara nem o apoio do governador de seu Estado e companheiro de partido. Assim que se iniciam as articulações preliminares do processo sucessório estadual, Iris se rende aos apelos, depois de alguma relutância, e decide disputar o governo do Estado pela segunda vez – e certamente também motivado pelo seu conflito com Santillo. Onofre Quinan, vice-governador de Iris no mandato anterior, ganha a indicação do PMDB para o Senado (não chegaria a completar o mandato, pois morreu no início de 1998) e o então deputado federal Maguito Vilela conquista o lugar de candidato a vice-governador na chapa, reforçando o apelo eleitoral no sudoeste, sua origem. Quinan,

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Governador Iris Rezende Machado, acompanhado da primeira-dama Iris de Araújo, circulando pelas ruas de Goiás, durante a transferência simbólica da capital, em julho de 1983

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cuja carreira se iniciou ao lado de Santillo, estava agora no círculo de Iris. Santillo decide não se candidatar a nada e fica até o final do mandato como governador. A campanha eleitoral coloca Iris em confronto com Paulo Roberto Cunha, candidato por uma coligação puxada pelo PDC, pelo PFL e pelo PTB, Valdi Camárcio, do PT, e Iram Saraiva, por uma coligação liderada pelo PSDB e pelo PDT. A campanha quase lhe custa a vida: Iris sofreu um acidente rodoviário no trecho GuapóGoiânia da BR-060. No dia da eleição ainda estava se recuperando do acidente. Venceu com maioria absoluta, recebendo 888.927 votos, contra 537.111 votos de Paulo Roberto, 88.836 de Valdi Camárcio e 62.327 de Iram Saraiva. Iris Rezende voltou a assumir o governo do Estado no dia 15 de março de 1991. A sessão solene de posse, na Assembleia Legislativa, presidida pelo deputado Rubens Cosac, teve início às 14h55. Entre os convidados, encontravam-se na solenidade o então ministro da Agricultura, Antonio Cabrera, e o governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz. Demonstrando estar recuperado das sequelas do acidente rodoviário que sofreu durante a campanha eleitoral, entre Guapó e Goiânia, Iris Rezende enfrentou a solenidade na Assembleia, à qual se seguiria o ato de transmissão do cargo no Palácio das Esmeraldas, com uma descansada aparência. A mesa designou comissão formada pelos deputados Barbosa Neto, Iron Nascimento, Isaac Portilho, Orcino Gonçalves, Denise Carvalho e Vanderval Lima para acompanhar e introduzir no plenário Iris e seu vice, Maguito Vilela. Depois da execução do Hino Nacional, ambos prestam o juramento constitucional e, a seguir, o termo de posse foi lido pelo deputado Sodino Vieira, que secretariava os trabalhos.

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Iris e Maguito são declarados empossados governador e vicegovernador e ouvem dois discursos parlamentares: em nome dos partidos oposicionistas, o deputado Alcides Rodrigues, do PDC; em nome dos partidos que seriam aliados do novo governo, o deputado Waldemir Xerife, do PMDB. O governador empossado pronuncia então o seu discurso – de cerca de 20 laudas. Num dos trechos mais duros, demonstrando o grau de seu agastamento com o antecessor, Henrique Santillo, de quem iria na mesma tarde receber o cargo, ele disse: “Recebo um governo literalmente arrasado. O funcionalismo público desmotivado e desmobilizado porque não recebe seus vencimentos há cinco meses”. Hospitais e postos de saúde funcionando precariamente por falta de equipamentos, remédios e condições mínimas de trabalho. Rodovias intransitáveis. Escolas com calendário escolar comprometido. Instituições financeiras falidas. E a receita com níveis baixíssimos”. Mas promete ele, no discurso, empenhar a administração do Estado no apoio à produção do campo, inclusive defendendo a correção justa dos preços; estimular iniciativas de desenvolvimento tecnológico; retomar as obras que fazem parte das metas do crescimento do Estado; recuperar a malha rodoviária danificada e construir e pavimentar outras estradas; incremento de medicina preventiva na saúde pública; melhorar a segurança pública; e restabelecer os mutirões, inclusive da casa própria. Iris recebeu o cargo de Henrique Santillo em uma cerimônia simples e rápida, no Palácio das Esmeraldas, já no finalzinho da tarde. Apesar de rompidos, tratam-se polidamente, e Santillo deixa então a cena. Já é noite quando Iris se dirige à Praça Cívica, em frente ao Palácio das Esmeraldas, para falar ao povo. A Polícia Militar estimaria que a multidão aglomerada na praça era superior a 20 mil pessoas.

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Iris repete as promessas no discurso da Assembleia, acrescentando, também, a intenção de melhorar o serviço de transporte coletivo e a segurança pública. Termina o discurso afirmando que estava pedindo a Deus que lhe desse “saúde, sabedoria e força para ser digno da confiança e do amor do povo.” No exercício desse segundo mandato, o governador Iris Rezende abre logo no início mais um canal de comunicação com o povo, com a instalação, no Gabinete Militar do Palácio das Esmeraldas, de uma linha telefônica para o recebimento de denúncias, queixas e reivindicações populares. Estabelece-se um processo de descentralização administrativa, para aumentar a participação dos municípios nas realizações e se intensifica a fiscalização dos impostos, o que eleva em 18% a receita logo nos primeiros meses. Com isso se coloca em dia o pagamento ao funcionalismo e aos fornecedores. O governo reabre o programa de pavimentação de estradas e inicia a implantação da quarta etapa da usina de Cachoeira Dourada. As escolas estaduais reforçam as matrículas – passando a absorver mais de 800 mil alunos. Restabelece-se o programa do mutirão permanente de moradias, que entra em sua sétima fase. Na área de saneamento, amplia-se para 245 o número de sistemas de saneamento básico. Dáse início a um programa de expansão de distritos agroindustriais, e o Fomentar recebe mais de mil cartas-consulta.


Governo com Agenor Rezende Uma consulta às bases do PMDB fixaria o consenso partidário para a formação da chapa que iria disputar a sucessão de Iris Rezende: Maguito Vilela encabeçando-a, e Naphtali Alves como candidato a vice. Como Iris aceita, se rende aos acenos para ser candidato a uma das duas vagas do Senado nas eleições de 3 de outubro, ele e seu vice, Maguito, tiveram ambos de se desincompatibilizar. Nesse caso, seis meses antes da eleição, assumiria o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Agenor Rezende. Ele recebe o cargo de Iris no dia 2 de abril de 1994. Iria passá-lo a Maguito Vilela, o vencedor do pleito para governador, no dia lº de janeiro de 1995, ficando, portanto,

Casais Agenor Rezende e Iris Rezende: Transmissão do poder, no dia 2 de abril de 1994


quase nove meses completos como inquilino da Casa Verde. Foi o presidente do Poder Legislativo que, em circunstância semelhante, mais tempo exerceu o cargo de governador de Goiás. Agenor deu continuidade ao programa e às obras em andamento e colocou como principal preocupação o atendimento aos municípios no período em que governou. Político ligado ao sudoeste goiano, nascido em Coxim (MS), em 23 de agosto de 1944, mas criado em Mineiros, Goiás, Agenor, bacharel em direito, passara pela Câmara Municipal desse município, presidindo-a inclusive, chegara à Assembleia Legislativa com apoio também de Santa Rita do Araguaia, Portelândia e Mozarlândia. Casado com Laci Machado de Rezende e pai de Rosângela, Rosimeire, Marco Antônio e Míriam (falecida em acidente rodoviário em março de 1994), seria, em 1998, nomeado conselheiro para o Tribunal de Contas dos Municípios.

Iris afirma que Goiás mudou O ex-governador Iris Rezende era ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso quando, em março de 1998, concedeu entrevista ao autor deste livro, publicada na primeira edição de Os Inquilinos da Casa Verde. Falando sobre as duas vezes que exercera o governo do Estado, ele disse que Goiás havia conseguido mudar a imagem. Iris afirmou que sua grande frustração foi a de não ter construído mais casas populares e mais rodovias, principalmente pavimentadas. E sustentou que as suas duas administrações foram importantes principalmente pelo que se realizou no plano da infraestrutura.

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Após dois mandatos como governador, Iris Rezende foi eleito senador e prefeito de Goiânia por mais três vezes. Na foto, ao seu lado, Iris Araújo

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Ressaltou o investimento em escolas e, sobretudo, na melhoria das condições de trabalho do professorado. Iris Rezende estava no Ministério da Justiça e as pesquisas de opinião o colocavam como grande favorito para a eleição de governador em outubro de 1998. Ele iria serb governador pela terceira vez, se ganhasse essa disputa. Depois de muitas dificuldades para encontrar um nome, a oposição finalmente lançou o então jovem deputado federal Marconi Perillo. Que seria, surpreendentemente, o vencedor do pleito governamental. Iris Rezende sustentava que, ao deixar o governo duas vezes para ser ministro, da Agricultura e depois da Justiça, nos dois casos já havia realizado o suficiente, cumprido o que prometera em campanha. Lembrou que seu período no Ministério da Agricultura teve excelenre resultado, pois o Brasil bateu recorde de produção no campo.

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Em 2018, Iris Rezende exerce o seu quarto mandato à frente da Prefeitura de Goiânia. Ao fundo, painel de Juscelino Kubitschek, instalado em seu gabinete no Paço Municipal Os Inquilinos da Casa Verde

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1987 1990

cenário mundial e brasileiro

A campanha eleitoral vencida por Henrique Santillo coincide com a primeira e eufórica fase do Plano Cruzado, com a sociedade brasileira vivendo, como se veria depois, a ilusão de que a estabilidade econômica fora, finalmente, conquistada. Em boa parte, a larga vantagem do PMDB, elegendo quase todos os governadores, vinculou-se ao aparente sucesso inicial do plano, cujo fracasso começaria a se manifestar assim que eles foram empossados. A economia brasileira voltaria a sofrer o peso da hiperinflação, e toda a carga dos efeitos depressivos decorrentes, de nada valendo as tentativas de recuperação do Plano Cruzado, com o Cruzado II, o Plano Bresser e o programa criado mais ao final da administração Sarney pelo ministro Maílson da Nóbrega. No mesmo dia em que foram eleitos os governadores, em 86, os candidatos vitoriosos ao Senado e à Câmara dos Deputados ganharam também a delegação de constituintes. Trabalharam mais de ano na elaboração da Constituição que Ulysses Guimarães chamaria de Constituição-Cidadã, promulgada em 1988, mas que se revelaria, em diversos pontos, embaraços para o desenvolvimento brasileiro. A hiperinflação e a soma de alguns escândalos criariam o cenário que Fernando Collor exploraria na campanha de 1989 para vencer as eleições presidenciais, assumir o mandato presidencial e se tornar personagem de outra grande frustração. A economia mundial também não é muito favorável ao Brasil, no período. Em outubro de 1987, a Bolsa de Valores de Nova York cairia 508 pontos, um recorde na sua história. Mas, os efeitos das políticas de Ronald Reagan – “Reaganomics” –, então no seu segundo mandato, revigoram a economia norte-americana. Reagan fortalece, ao mesmo tempo, sua popularidade,

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até que, em 1987, o escândalo Irã-Contras se encarrega de golpear a sua imagem. O destaque da política internacional no período são as reformas conduzidas na então União Soviética por Mikhail Gorbachev, que iriam abrir caminho para grandes mudanças no próprio desenho do poder mundial. Os Estados Unidos enfrentavam problemas com a Líbia e começariam a enfrentar também a hostilidade de Saddam Hussein, o ditador iraquiano. São ganhadores do Prêmio Nobel nesse período o americano Joseph Bridsky (1987), o egípcio Mahfouz (1988), o espanhol Camilo Cela (1989) e o mexicano Octavio Paz (1990). No cinema, os filmes premiados com o Oscar entre 1987 e 1990 são, pela ordem: O Último Imperador, Rain Man, Conduzindo Miss Daisy e Dança com Lobos. Ganham a estatueta de melhor direção, pela ordem, Bernardo Bertolucci, por O Último Imperador, Barry Levinson, por Rain Man, Oliver Stone, por Nascido em 4 de Julho e Kevin Costner por Dança com Lobos. Arrebatam o Oscar de melhores atores, entre 87 e 90, Michael Douglas (Wal Strett), Dustin Hoffman (Rain Man), Daniel Day-Lewis (Meu Pé Esquerdo) e Jerome Irons (O Reverso da Fortuna). E ganham o Oscar de melhor atriz: Cher, Jodie Foster, Jessica Tandy e Khaty Bates.

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Eleição: 15 de novembro de 1986 RESULTADOS: Henrique Santillo (PMDB) Mauro Borges Teixeira (Coligação MDG) Darci Accorsi (PT) Paulo Arruda Vilar (PCB) Eval Soares dos Santos (Partido Humanista – PH)

993.949 votos 592.776 votos 135.485 votos 9.601 votos 4.894 votos

Vice-governador. Joaquim Domingos Roriz Esposa: Sônia Célia Santillo Filhos: Elidia Célia, Sônia Míriam, Carlos Henrique, Carla Cintia e Virgínio Neto.


Henrique Antônio Santillo Governador entre 15 de março de 1987 e 15 de março de 1991

Nasceu no dia 23 de agosto de 1937, na cidade paulista de Ribeirão Preto, filho de Virgínio Santillo e Elydia Masquietto Santillo. De origem italiana, a família Santillo mudou-se para Anápolis, em 1942 – Henrique estava com cinco anos. Estudou na Escola Dom Bosco, no Colégio Municipal e no Colégio São Francisco, já trabalhando também, e em janeiro de 1957, prestou concurso de vestibular para Medicina, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, arrebatando o primeiro lugar. Foi presidente do Diretório Acadêmico e da União Estadual dos Estudantes de Minas, ganhando gosto pela política. Diplomado, optou pela pediatria, fazendo residência médica em Belo Horizonte. Voltou a Anápolis em 1964, na época do golpe militar, clinicando em consultório particular e como plantonista do Samdu. Começou a carreira política como vereador em Anápolis, pelo MDB, que ajudou a fundar, elegeuse prefeito da cidade, em 1970, e deputado estadual, em 1974. Venceu a disputa da cadeira senatorial, em 1978, cumprindo oito anos de mandato. Em 1986, ganhava a eleição para governador de Goiás, derrotando Mauro Borges. Resistindo a pressões para se desincompatibilizar e disputar um mandato parlamentar nas eleições de 1990, ele preferiu ficar até o fim no cargo de governador. Foi ministro da Saúde do Governo Itamar Franco e assumiu, em 1997, a presidência regional do PSDB. Foi secretário da Saúde no início do primeiro governo de Marconi Perillo, depois indicado e aprovado para ser conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE), no final de 1999. Em 25 de junho de 2002, morreu em Anápolis, vítima de um maciço derrame cerebral.


Muitos desafios para Santillo

O

processo eleitoral de 1982, em Goiás, puxou naturalmente para o mesmo barco as lideranças de Iris Rezende, Mauro Borges e Henrique Santillo. Iris, que recuperara os direitos políticos em 1979, chegaria ao governo do Estado com ampla vitória sobre Otávio Lage; Mauro Borges elegese senador; e Henrique Santillo havia retornado ao PMDB depois de surpreendente passagem pelo PT, sôfrega experiência, sob a pressão inesgotável dos petistas radicais. Senador eleito em 1978, Santillo ainda teria mais quatro anos de mandato e se torna o candidato tácito do partido para a sucessão seguinte. O falecido político mineiro, Magalhães Pinto, deixou para a posteridade a famosa comparação da política com a nuvem: “Olhase para a nuvem, ela tem uma forma; olha-se de novo, e ela já mudou de forma”. Mauro Borges iria gradativamente se afastando de Iris, até procurar novo agasalho partidário, rompendo com o PMDB e se transferindo para o PDC, enquanto Santillo tratava de consolidar a sua candidatura. E, assim, em 1986, apoiado por uma coligação que reforça o PDC (a coligação chamou-se Movimento Democrático Goiano – MDG), Mauro Borges enfrenta o situacionismo, contra

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Henrique Santillo, o candidato do PMDB e do governo, que estava sendo então exercido pelo vice-governador Onofre Quinan, pois Iris assumira o Ministério da Agricultura. Concorreram, ainda, Darci Accorsi, pelo PT, Paulo Vilar, pelo PCB, e Eval Soares dos Santos, pelo Partido Humanista. Se o processo de 82 marcou o restabelecimento da escolha direta dos governadores, no plano presidencial, ia caminhando para o fim a escolha indireta. Que foi a de Tancredo Neves, que antes da posse é colhido pela fatalidade de doença irreversível. Em 1986, além da eleição dos governadores, o voto popular ungiria, também, os constituintes. A nova Constituição foi promulgada em 1988. O esquema de campanha de Santillo intensificou-se ao se aproximar a data da eleição, 15 de novembro, no ritmo das caminhadas fulminantes, que mudaram uma perspectiva aparentemente mais equilibrada. A vitória de Santillo acabou sendo ampla: superou Mauro por 400 mil votos de diferença, pois obteve 993.949 contra 592.776 do adversário principal, enquanto Accorsi receberia 135.485 votos. Santillo teve como companheiro de chapa Joaquim Roriz que, posteriormente, viria a ser interventor na Prefeitura de Goiânia e governador de Brasília. A sessão solene da Assembleia Legislativa que deu posse a Santillo e Roriz, nos cargos de governador e vice-governador, realizou-se na manhã de 15 de março de 1987. Às 9 horas, os trabalhos foram abertos pelo presidente da instituição, deputado Frederico Jayme. Então ministro da Agricultura, Iris Rezende representava na solenidade o presidente Sarney. Estavam, ainda, presentes representantes de outros ministros, o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador João Canedo Machado, o arcebispo Dom Antônio Ribeiro, os senadores Iram Saraiva e Irapuan Costa Júnior e o prefeito de Goiânia, Daniel Antônio – cuja administração começava

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a mergulhar em irreversível crise – chamados, entre outros, a ocupar lugar na mesa. Santillo e Roriz foram introduzidos ao plenário por uma comissão formada pelos deputados Walter Rodrigues, José Alberto, Manoel de Oliveira, Athos Magno e Jamil Miguel. Depois do Hino Nacional, procedeu-se à leitura do termo de posse, e Santillo e Roriz foram proclamados empossados pelo presidente da Assembleia. Foram saudados a seguir pelo discurso de cinco deputados, representando as bancadas: Paulo Reis, pelo PDS; Athos Magno, pelo PT; Vilmar Rocha, pelo PFL; Conceição Gayer, pelo PDC; e Milton Alves, pelo PMDB. Santillo, a seguir, pronuncia o seu discurso – resumindo o programa de intenções e prometendo realizar uma administração aberta e transparente. Da Assembleia Legislativa, Santillo dirigiu-se a pé até o Palácio das Esmeraldas, para a transmissão do cargo. Recebeu-o de Onofre Quinan, vice de Iris, que completara o mandato. Um ano antes da posse de Henrique Santillo no Governo de Goiás, o País experimentava a euforia do Plano Cruzado. Mas ele assumiu nos primeiros meses do terrível impacto recessivo da amarga correção sofrida pelo Plano – e que foi chamado de Cruzado II. Em março de 1987, desaparecera o otimismo do ano anterior, e o Cruzado II induzia o Brasil à recessão. Aliás, a administração estadual entre 1987 e início de 1991, quando Santillo deixou o cargo, só conviveu com programas federais recessivos, pois, a seguir, vieram o Plano Bresser, o Plano Verão e depois o Plano Collor. O governador eleito que fora ao Planalto uma semana depois das eleições, pedir apoio ao presidente Sarney para um Estado que ele descrevia, com muito otimismo, como de grande potencial e perspectivas de desenvolvimento singulares, já não era tão otimista

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uma semana depois da posse, no final de março de 1987. Mas achava que conseguiria encontrar respostas rápidas para a crise, apesar de uma dívida em torno de US$ 2 bilhões e o custeio da máquina administrativa extrapolando os limites. Santillo chegara ao Palácio das Esmeraldas com um plano de desenvolvimento concebido pela Fundação Pedroso Horta, com muitas ambições para Goiânia, como o metrô de superfície que iria revolucionar o transporte de massa na capital, metas também ambiciosas para a saúde, a habitação popular, os transportes e a educação. O plano fora aperfeiçoado com o levantamento de expectativas populares, durante a campanha, mas seria executado apenas parcialmente. Os obstáculos criados pela distância entre a intenção e os recursos realmente disponíveis impediram as metas mais ousadas, como o metrô de superfície. Os projetos menos ambiciosos fluíram, como a implantação dos Cais e a construção do Hospital de Urgências (Hugo) de Goiânia, a construção de 15 mil moradias populares, a pavimentação de 620 quilômetros de rodovias, uma reforma administrativa parcial, programas para o menor, o Ciclo Básico de Alfabetização, algumas realizações no setor de turismo, o programa de pavimentação urbana no interior (PPM), a implantação do Parque Ecológico de Goiânia e um programa de apoio a miniprodutores rurais. Seis meses apenas depois da posse, a administração Santillo passou pela inusitada experiência de uma crise que traumatizou Goiânia. O acidente radioativo com o Césio-137, que ameaçou contaminar Goiânia numa escala apocalíptica, e paralisou a administração no último trimestre de 1987. Para se ter uma ideia: um depósito provisório para receber os rejeitos da cápsula violada e impedir que a contaminação se disseminasse consumiu cimento suficiente para a construção de mil salas de aula.

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No plano político, o governo Santillo logo enfrentaria também o desgaste de uma intervenção na Prefeitura de Goiânia, compelido pelo quadro caótico que envolveu a administração do prefeito Daniel Antônio, que, como o governador, era também do PMDB. O vicegovernador, Joaquim Roriz, seria o escolhido para interventor. E, quando se aproximava a campanha presidencial de 1989, suas dificuldades de relacionamento com seu antecessor – e então ministro da Agricultura, Iris Rezende – foram se agravando. Iris decidira disputar a indicação do PMDB para a disputa e se sentiu traído por não ter contado com o apoio do governador. Ulysses Guimarães foi o escolhido. Na campanha para a sua própria sucessão, com Iris

Iris Rezende e Henrique Santillo: depois de vários anos juntos, o rompimento em 1989


candidato de novo pelo PMDB. E ele chegou ao final do mandato rompido com o antecessor e também sucessor. A administração Santillo passou, ainda, pela provação de um duro – para boa parte dos goianos, injusto, intolerante e preconceituoso – ato do Banco Central, liquidando a Caixa Econômica do Estado, Caixego. Essa perda custou o emprego para milhares de pessoas e empobreceu o patrimônio do Estado. A decisão foi do Banco Central, em cuja presidência estava o economista turco Hibraim Eris. Santillo passou a se referir a ele como “aquela turco sacana que nem falar português direito sabe”. O balanço da era Santillo mostra uma vertente realizadora na área social e discreta atuação em outras áreas, pois não se contabilizaram nelas grandes obras. É realçado, também, o empenho havido com a chamada prática democrática. Quando Henrique Santillo estava fechando seu período de quatro anos, a avaliação de seu governo pelos líderes das seis bancadas na Assembleia Legislativa apontava para os erros políticos. O líder da bancada do PSDB, Mauro Netto, entendia que Santillo realizara bastante e expressivamente no setor social, mas que não soube transmitir à opinião pública o que fez. O líder da bancada do PFL, Altamir Mendonça, concluiu que as dívidas herdadas pesaram e comprometer a administração e que a Santillo faltou definição política nos momentos em que ela era imprescindível. O líder da bancada do PMDB, Agenor Rezende, registrava “uma insatisfação generalizada das lideranças municipais, que saíam do Palácio com uma autorização que ficava no papel”. O líder da bancada do PDS, Wolney Martins, achava que faltou a Santillo melhor assessoria e que foi também mau arrecadador o seu governo. Álvaro Guimarães, que era líder da bancada do PDC, apontou erros políticos e administrativos, citando, ainda, o atraso, de até 100 dias, no pagamento ao funcionalismo.

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Santillo lamentava tantos impasses O falecido ex-governador Henrique Santillo lamentava muito, quando terminou a sua administração, ter enfrentado tantos impasses e tantas crises, como foi om caso do acidente nuclear com o césio 137, o qual deixou Goiás discriminado. Ele concedeu uma entrevista sobre seu governo ao autor deste livro em março de 1998, quando estava sendo produzida a primeira edição de Os Inquilinos da Casa Verde. Santillo afirmou que, não obstante todas as dificuldades, ele realizou uma boa administração sob o aspecto social, principalmente no pano da saúde, pois colocou muita ênfase nesse setor. Lamentou demais a falta de apoio federal. O presidente era José Sarney, que não ajudou Goiás nem mesmo em relação à crise resultante do acidente com o césio 137. Criticou muito o então presidente do Banco Central na época, Ibrahim Eris, “aquele turco que nem sequer sabia direito falar português. O Banco Central quase fechou o Banco do Estado de Goiás e sem razão acabou com a Caixa Econômica Estadual, a Caixego. Explicou que seu rompimento com Iris Rezende se deu porque ele havia feito compromisso de apoio a Ulysses Guimarães para a eleição presidencial de 1989 e Iris tentou também sair candidato, o que contrariava o sentimento do partido, o MDB . Santillo explicou que sempre entendera que a divisão de Goiás, com a criação do Estado do Tocantins, seria bom para as duas partes, e em razão dessa crença apoiou a separação, que foi aprovada pela Constituinte de 1988. Lembrou que o seu governo mobilizou os Estados do Centro-Oeste pela afirmação da Sudeco e criação de um banco de desenvolvimento na região.

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O governador Henrique Santillo inaugurando o Sistema Meia Ponte de Água, aparecendo, à direita da foto, o então ministro Prisco Viana e a primeira-dama, Sônia Santillo Os Inquilinos da Casa Verde

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1991 1994

cenário mundial e brasileiro

O Plano Collor, lançado em meio ao espalhafato de um confisco da poupança um ano antes, deprime a economia do País e aprofunda a crise que o governo, conduzido pelo primeiro presidente eleito diretamente pelo povo, desde 1960, herdou da administração Sarney. O pior estava ainda por vir: sucede o Caso PC Farias, e esse escândalo arrasta o País, já com sérios problemas econômicos e sociais, para o drama político cujo desfecho seria o impeachment de Collor em novembro de 1992. Assume o vice-presidente Itamar Franco, a inflação volta a explodir, até que, em março de 1994, a URV é implantada para fazer germinar, em julho, o Plano Real, que finalmente debela a inflação, embora apresente uma conta amarga para a sociedade: seus efeitos colaterais, como os juros altíssimos, que asfixiam muitos empreendimentos e causam desemprego. São realizadas eleições municipais em 1992. Em Goiânia, pela primeira vez, com Darci Accorsi, vence um candidato do Partido dos Trabalhadores. A Rússia, após o desmoronamento do socialismo, elege em junho de 1991, pela primeira vez, um presidente pela via do voto direto do povo: Boris Ieltzin. Em janeiro de 1991, os Estados Unidos, com o apoio da ONU, lançam a gigantesca ofensiva contra o Iraque – desencadeando-se a chamada Guerra do Golfo, operação que envolveu 400 mil homens. O ataque obriga o Iraque de Saddam Hussein retirar-se do Kuwait, cuja invasão pelos iraquianos foi o motivo do conflito que assustou o mundo, pois poderia ter se alastrado. Nos esportes, o Brasil finalmente conseguiria chegar ao sonho do quarto título mundial, vencendo a Copa do Mundo de 1994, realizada nos Estados Unidos. Faltou o brilhantismo técnico de outras conquistas, mas o sonho do tetra, que vinha escapando desde 1974 a cada quatro anos, se tornou realidade.

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GOIÁS

Urbana

110.875.826

Urbana

3.241.119

Rural

36.041.633

Rural

771.443

TOTAL

146.917.459

TOTAL

4.012.562

1990

POPULAÇÃO

BRASIL

Fonte: Censo ibge

No plano cultural, o Prêmio Nobel de Literatura contempla, entre 1991 a 1994, a sul-africana Nadime Gordimer, o poeta caribenho Derek Walcott, nascido na ilha de Santa Lucia, o novelista norte-americano Toni Morrison e o japonês Kenzaburo Oe. Em 1991, o Oscar do cinema vai para o filme O Silêncio dos Inocentes, para o diretor Jonathan Demme, o ator Anthony Hopkins e a atriz Jodie Foster; em 1992, para o filme Os Imperdoáveis, para o diretor Clint Eastwood, o ator AI Pacino e a atriz Emma Thompson; em 1993, o filme premiado é A Lista de Schindler, o diretor, Steve Spielberg; o ator, Tom Hanks; e a atriz, Holly Hunter; em 1994, a famosa estatueta contempla o filme Forrest Gump; o diretor Robert Zemeckis; de novo o ator Tom Hanks e a atriz Jessica Lange.

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1995 1998

cenário mundial e brasileiro

A defesa do Plano Real, implantado seis meses antes, e transformado na bandeira que deu a vitória eleitoral a Fernando Henrique Cardoso, ainda no primeiro turno das eleições presidenciais de 1994, pontifica como grande compromisso no discurso de posse de FHC. Ele receberia o cargo de Itamar Franco no dia lº de janeiro de 1995, um domingo, ao mesmo tempo em que os novos governadores também estavam assumindo nos Estados, entre eles Maguito Vilela, em Goiás. Outro compromisso colocado entre as prioridades era o da promoção de reformas como a previdenciária e a administrativa, cuja tramitação no Congresso iria, no entanto, passar por um ritmo muito lento. Os reflexos positivos do Plano sustentam a popularidade presidencial, fazendo com que surgisse o movimento pela emenda da reelegibilidade, aprovada quando a administração completava dois anos. Já os efeitos colaterais negativos do Plano quase não eram ainda percebidos pela maioria e começariam a ser desconfortáveis a partir do ano seguinte. No segundo semestre de 1997, esses efeitos incomodavam e preocupavam: escassez de crédito para as atividades econômicas, arrocho financeiro, taxas insuportáveis de juros, balança comercial deficitária, tudo isso se agravando ainda mais quando, quase no final desse ano, a turbulência da crise asiática soprou suas rajadas também sobre o Brasil. Os Estados e os municípios passaram a sentir grandes dificuldades. As vitórias de Celso Pita em São Paulo e Luiz Paulo Conde no Rio são destaques nas eleições municipais de 1996. O governo enfrenta crises e impasses: problemas com bancos, o Caso Sivam, a denúncia de compra de votos para aprovação da emenda da reelegibilidade, a questão dos sem-terra, o incêndio em Roraima e a grande seca do Nordeste, que se torna dramática no primeiro semestre de 1998.

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GOIÁS

Urbana

123.082.167

Urbana

3.873.722

Rural

33.997.406

Rural

642.146

TOTAL

157.079.573

TOTAL

4.515.868

1990

POPULAÇÃO

BRASIL

Fonte: Censo ibge

Apesar de candidaturas alternativas, como a de Ciro Gomes, a fase preliminar da campanha eleitoral volta a ser polarizada em torno de FHC e Lula. Em abril de 98, o governo sofre o abalo causado por duas mortes: a do ministro Sérgio Morta e a do deputado Luiz Eduardo Magalhães. No plano internacional, Bill Clinton conseguiria a sua reeleição à presidência dos Estados Unidos, derrotando o senador republicano Bob Dole. A popularidade dele mantém-se em alta, mesmo com as rumorosas denúncias de assédio sexual, por causa do bom desempenho da economia fazendo baixar o índice de desemprego. Os Estados Unidos voltam a ameaçar ataques ao Iraque. A intermediação da ONU contorna a crise EUA – Iraque. A unidade europeia se consolida com a moeda única – o euro. O showbiz perderia um de seus maiores astros: o cantor e ator Frank Sinatra, que morreu no final da noite de 14 de maio, em Los Angeles, aos 82 anos. Ganhador de 11 Oscars, o filme Titanic é o maior sucesso do cinema nesse período. A seleção brasileira, mais uma vez chegaria a uma final da Copa do Mundo, realizada em 1998 na França, mas foi derrotada por 3 X 0 pela própria França.

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Eleição: outubro de 1994 1° turno Maguito Vilela (PMDB) Lúcia Vânia (PP) Ronaldo Caiado (PFL) Luiz Antônio (PT)

669.196 401.463 364.726 137.722

2º turno (15 de novembro de 1994) Maguito Vilela 1.013.025 Lúcia Vânia 782.568 Vice governador: Naphtali Alves Esposa: Sandra Regina de Carvalho Vilela, de quem se divorciou, casando-se depois com Carmem Sílvia Filhos: Daniel e Vanessa


Maguito Vilela (Luiz Alberto Vilela)

Governador entre 1º de janeiro de 1995 e 2 de abril de 1998 Nasceu em Jataí, sudoeste goiano, no dia 24 de janeiro de 1949, filho de Joaquim Vilela e Nazime Vilela Martins, tetraneto do fundador do município, José Manoel Vilela, e bisneto do pioneiro (e doador da área na qual surgiu o núcleo urbano de hoje) Francisco Joaquim Vilela. Na juventude, dividia os compromissos de estudante com a dedicação ao seu esporte preferido, o futebol, e foi praticando-o que passou a ser mais conhecido como Maguito do que como Luiz Alberto. Essa ligação lhe rendeu popularidade que viria a ser importante na primeira campanha política, em 1976, quando conquistou mandato de vereador, em Jataí, pela legenda da Arena, de cuja orientação discordou, ingressando no PMDB. Nessa fase entra na luta pela volta das eleições diretas em todos os níveis. É formado em Direito, teve participação também na política estudantil, e foi presidente da Associação Esportiva Jataiense. Em 1982, elegia-se, com quase 25 mil votos, deputado estadual, envolvendo-se também na campanha que elegeu Iris Rezende governador do Estado pelo voto direto – e seria líder do governo na 10ª Legislatura da Assembleia Legislativa. Em 1986, elegese deputado federal, com 37.672 votos. Defensor também da convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, acabou integrando a Constituinte formada pelos senadores e deputados federais eleitos em 1986. Ao se aproximar a campanha sucessória de 1990, Maguito Vilela torna-se o nome consensual do PMDB como candidato a vicegovernador na chapa de Iris Rezende –, que disputaria o governo pela segunda vez. Eleitos ambos, assume encargos que dinamizam a vice-

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governadoria. Exerceu a governadoria durante algumas viagens de Iris e, em 1994, as bases do PMDB indicaram seu nome à sucessão. Vence as eleições no primeiro e no segunto turnos (o segundo disputado com Lúcia Vânia) e assume o governo do Estado no dia 1º de janeiro de 1995. Passaria o governo a seu vice, Naphtali Alves, no dia 2 de abril de 1998, para se desincompatibilizar e disputar com sucesso o mandato de senador Maguito Vilela voltaria a disputar o governo do Estado em 2002, perdendo para Marconi Perillo, vencedor ainda no primeiro turno. Reassumiu o Senado, disputou outra vez o governo do Estado em 2006, perdendo para Alcides Rodrigues Filho. Em 2007, ocupou a vice-presidência do Banco do Brasil. Nas eleições municipais de 2008, foi eleito prefeito de Aparecida de Goiânia, com 146.657 votos (81,11%) e reeleito em 2012, com 128.877 votos (63,98%).

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Maguito Vilela e Fernando Henrique Cardoso na primeira audiĂŞncia depois da posse em 1Âş de janeiro de 1995 Os Inquilinos da Casa Verde

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Compromisso de posse

U

ma administração, cuja maior prioridade é o compromisso com a defesa dos estratos mais desprotegidos, com o atendimento dos mais fracos e mais humildes. Pouco depois de ter prestado juramento constitucional, Maguito Vilela fez essa promessa, no seu discurso de posse. No mesmo dia em que Fernando Henrique assumia em Brasília, a Presidência da República, o governador Maguito Vilela recebeu o cargo de Agenor Rezende que, na condição de presidente da Assembleia Legislativa, completara o mandato anterior, de Iris Rezende, que se desincompatibilizara para disputar o Senado. Agenor exercera o cargo por quase nove meses. Tanto a posse, na Assembleia Legislativa, quanto a transmissão do cargo, no Palácio das Esmeraldas, foram atos despojados de pompa. Era 1º de janeiro de 1995, um domingo. A sessão solene e especial da Assembleia Legislativa foi aberta às 9h25 e presidida pelo deputado Nerivaldo Costa. Ele convidou para a mesa a nova primeira-dama, Sandra Regina de Carvalho Vilela, o então senador eleito Iris Rezende e dona Iris de Araújo Machado, o senador eleito Mauro Miranda, o então prefeito goianiense Darci

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Accorsi, o ex-governador José Feliciano e o vice-governador da província chinesa de Shitia-Zhvang, Wang Zy, e o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Mauro Campos, entre outras autoridades. Maguito e o vice-governador, Naphtali Alves, foram introduzidos ao cenário da posse, o plenário do Poder Legislativo, por comissão formada pelos deputados Luiz Bittencourt, Rubens Otoni e Mário Filho. O governador e o vice foram saudados pelos discursos dos deputados Humberto Aidar, que falou em nome da oposição, e Romilton Moraes, que falou em nome dos parlamentares situacionistas. Maguito Vilela fez o seu discurso falando de sua trajetória política, de sua terra, de seus pais, da manifestação do eleitorado e se declarando comovido pelo apoio das parcelas mais humildes, garantindo que elas estariam na preocupação permanente do governo. Maguito Vilela recebe as honras militares após ter sido empossado no governo do Estado


Os 39 meses de Maguito

A

administração de Maguito Vilela superaria as dificuldades iniciais, concentrando empenho na melhoria do perfil da receita e adotando algumas medidas aparentemente impopulares, inclusive em relação ao funcionalismo. A receita quase duplicou. E não demorou dois anos para conseguir primeiro lugar nacional nas pesquisas de aprovação. Todas as pesquisas desse gênero, como as da Datafolha, realizadas em 1997 e início de 1998, foram-lhe bastante favoráveis. Maguito deixaria o cargo como o mais popular dos governadores, pelos índices dessas pesquisas.

Maguito Vilela recebeu o cargo de Agenor Rezende, no dia 1º de janeiro de 1995


Quando completou três anos de administração, convocado para um novo desafio, o governador Maguito Vilela aceitou ser o candidato do PMDB e dos partidos aliados à vaga que se abriria no Senado. Isso implicaria a necessidade de ele se afastar seis meses antes das eleições do dia 4 de outubro de 1998, o que fez no dia 2 de abril, uma quinta-feira, passando o governo ao vice Naphtali Alves. Maguito ficou, portanto, 39 meses no cargo, período em que Goiás cresceu 70% acima da média nacional, conseguiu atrair alguns grandes investimentos industriais e agroindustriais, como o projeto do grupo Perdigão, no sudoeste. Essa industrialização envolve investimentos de cerca de R$ 5 bilhões, com o surgimento de novas 1.500 empresas. Goiás tornou-se a 8ª maior economia brasileira e realizou um programa de combate à fome que se tornou modelo. Sobre esse programa, o falecido sociólogo, Herbert de Souza, Betinho, conhecido principalmente pela sua cruzada de solidariedade, afirmou, antes de morrer, que Goiás era o Estado que mais se aproximava do espírito e da estratégia da Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida. Nesse campo, a administração Maguito Vilela conseguiu, também, referência internacional: seus programas sociais receberam o elogio e o reconhecimento oficiais do organismo da ONU para a infância – o Unicef. Para o desenvolvimento desses programas sociais, o governo criou uma secretaria especial – a Secretaria da Solidariedade Humana – cujo compromisso central liga-se ao resgate da cidadania, contra a fome e a miséria. Beneficiadas pelos programas, 250 mil famílias passaram a desfrutar isenção no pagamento de taxas de água e luz; 800 mil pessoas passaram a receber as cestas básicas de alimentos. E o programa “Meu Lote, Minha Casa”, em parceria com as prefeituras, estabeleceu o acesso de famílias carentes a terrenos nos quais constroem, pelo sistema de mutirão, a sua moradia própria.

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Um subprograma da Secretaria da Solidariedade abre caminho para o mercado de trabalho para milhares de pessoas, habilitando-as para que possam disputar empregos. A área de saneamento básico registrou avanços, pois se conseguiu elevar para 84% o porcentual da população do Estado servida por água tratada, enquanto Goiânia subiu para o primeiro lugar entre as capitais em relação a oferta desse benefício aos moradores. Deu-se, ainda, início ao projeto do novo sistema de abastecimento de água de Goiânia, que terá apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento e cujo reservatório será um grande lago com represamento de águas do Ribeirão João Leite.

Prefeitos Paulo Garcia, de Goiânia, e Maguito Vilela, de Aparecida de Goiânia, no último ano de seus mandatos, em 2012


Além de estradas secundárias, deu-se prosseguimento à pavimentação de rodovias e o governo estadual respondeu também pela responsabilidade de obras de duplicação do trecho GoiâniaAnápolis da BR-060; concluiu o trecho Jataí-Caiapônia da BR158, rodovia que interliga o sudoeste ao Vale do Araguaia, também chamada de Rodovia da Soja. Foram sendo duplicados também todos os acessos a Goiânia. Hoje são quase 10 mil quilômetros de rodovias pavimentadas. Eram apenas 1.500 há alguns anos. O setor de saúde enfrentou crises e denúncias, mas já havia alguns avanços a serem contabilizados no primeiro semestre de 1998, como o grande acordo com o governo municipal de Goiânia para a divisão racional das responsabilidades e a reabertura do Hospital Geral, depois de sete anos de obras. Reestruturado e bemreequipado, o HGG, como é conhecido, vai proporcionar, de agora em diante, atendimento selecionado, dando assistência a casos mais graves, como destinatário final de pacientes que passarão pelo crivo das outras unidades da rede de saúde pública. No setor educacional, Goiás conseguiu projetar-se para ficar entre os sete Estados brasileiros com melhor nível de ensino. Deu um salto nesse ranking, pois há alguns anos estava em 21º lugar. Houve reciclagem e aperfeiçoamento de 20 mil professores, a taxa de evasão escolar caiu de 18% para 2%, e a taxa de ocupação se tornou a maior no País – 94,95%. No setor energético, atingiu-se praticamente 100% de eletrificação de propriedades rurais, o que significa 1º lugar no País, a rede de transmissão passou de 20 mil quilômetros, investiram-se quase R$ 200 milhões no sistema geral dessa transmissão (subestações, novas linhas, etc), o consumo em MW/h chegou a 5.228.586, e as unidades consumidoras atingiram cerca de 1 milhão e 400 mil.

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O crescimento na agropecuária está bem acima da média nacional. A produção agrícola do Estado está próxima de 10% da totalidade do País, com a previsão de que chegue a 15% logo após a virada do século. A sojicultura chegou ao 3º lugar no ranking brasileiro, a cotonicultura alcançou o primeiro lugar e a agropecuária está no topo do ranking. O setor sucro-alcooleiro destaca-se nacionalmente, com produção de mais de 500 milhões de litros de álcool por ano. Goiás eliminou restrições quanto à sanidade do rebanho bovino de 18,5 milhões de cabeças. A produtividade cresceu, também, graças ao aperfeiçoamento genético do rebanho e aos programas de abate precoce.

de filho para pai Maguito Vilela sempre gostou muito de futebol, jogando desde menino, o que continuou fazendo como político. Durante um período participava todos os domingos do futebol-society na chácara do exdeputado Luiz Bittencourt. Certa vez, no Dia dos Pais, ele jogava em um time, e o filho, Daniel Vilela, posteriormente eleito deputado estadual, no outro time. Em um lance em que os dois disputavam a jogada, Daniel aplicou no pai um drible rápido que, no jargão futebolístico, é chamado de caneta. Ou seja: deu uma caneta de presente ao pai. Daniel Vilela, em 2018, como deputado federal eleito em 2016, surgiu como pré-candidato ao Governo do Estado de Goiás pelo PMDB.

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Maguito defendia a privatização O ex-governador Maguito Vilela concedeu entrevista ao autor deste livro pouco antes de passar o governo ao vice, Napjtaly Alves, em abril de 1998, para se desincompatibilizar e disputar o Senado, pleito em que sairia vitorioso. Maguito assumiu uma posição parecida com a do governo federal, comandado na época por Fernando Henrique Cardoso, em favor da privatização de algumas áreas. Ele, por exemplo, promoveu a venda para a iniciativa privada da hidrelétrica de Cachoeira Dourada. Ele afirmou, na entrevista, que o tempo da estatização, , como na época de Mauro Borges, estava superado. Maguito Vilela afirmou, durante a entrevista, que s sua grande frustração foi a de não ter podido promover a extinção de muitos privilégios. Sustentou que sua gestão foi municipalista, lembrando ter integrado por municípios com estradas pavimentadas e ter apoiado o plantio agrícola, principalmente de soja, cultivo que passaria a crescer muito em Goiás. Disse Maguito ter respeitado as oposição, mas, com algumas exceções, ela não teve um comportamento positivo, sendo destrutiva nas suas manifestações. Afirmou ter tido muita preocupação com o plano social, principalmente com as áreas de educação e de saúde.

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espaรงo para foto

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O governador Maguito Vilela com a primeira dama, Sandra Vilela, e os filhos, Daniel e Vanessa

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1998 2002

cenário mundial e brasileiro

Nas eleições de nível federal e estadual, realizadas em outubro de 1998 (em Goiás registrando a vitória, tida como fenomenal, de Marconi Perillo, detalhada em outro trecho deste livro), o então presidente Fernando Henrique Cardoso foi reeleito sem necessitar de segundo turno. Um terço do Senado se renovou, sendo eleitos, também, deputados federais e estaduais. O governo federal encaminha a proposta de reforma da Previdência, que iria caminhar lentamente no Congresso Nacional. A economia começa a enfrentar dificuldades. As empresas de telefonia passam pelo processo de privatização. O ano de 1999 irromperia, trazendo o agravamento da crise econômica. Depois de resistir cerca de quatro anos e meio em sustentar a moeda brasileira cotada quase ao nível do dólar, o governo Fernando Henrique capitula e permite a livre flutuação do real, que passaria a ser cotado pelo mercado. No desdobramento dessa situação, o real acabaria, mais tarde, valendo apenas um terço do dólar. No ano de 2000, realizam-se as eleições municipais. Em Goiânia (ver detalhado em outro trecho), vencida por Pedro Wilson. Na maior cidade brasileira, São Paulo, vitória da petista Marta Suplicy. As tão esperadas comemorações do quinto centenário do descobrimento do Brasil decepcionam por conta de grande número de falhas. O Ministério do Exterior foi incumbido da organização, e os preparativos estavam no bom caminho até que a responsabilidade foi transferida para o Ministério de Turismo, cujo titular, Rafael Grecca, desorganizou o que vinha sendo bem-organizado. Na literatura, a escritora Ana Maria Machado receberia o Prêmio Internacional Hans Christian Andersen de Literatura Infantil. O cinema brasileiro ganharia, em l998, o Urso de Ouro no Festival de Berlim, através do filme Central do

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Brasil, de Walter Salles Júnior, com esplêndida interpretação da atriz Fernanda Montenegro. Em 2000, o cinema brasileiro retornaria depois de 11 anos ao Festival de Cannes, com o filme Estorvo, de Ruy Guerra, baseado no romance de Chico Buarque de Holanda. No período 1998-2002, o Brasil seria vice-campeão da Copa do Mundo, realizada na França, perdendo a final para a seleção francesa, por 3 X 0, e voltaria a arrebatar o título em 2002, no Mundial que teve como sede o Japão e a Coreia do Sul. A final, contra a Alemanha, foi vencida por 2 X 0. O cenário internacional iria registrar, no período, um dos trechos mais tensos da história recente. Começa pelo lançamento, pelos Estados Unidos, ainda com Bill Clinton na Presidência, da operação denominada Raposa do Deserto, que teve o apoio do Reino Unido. A decisão foi tomada para forçar o ditador iraquiano Saddam Hussein a permitir o monitoramento do arsenal bélico do Iraque. No dia 11 de setembro de 2001, o mundo ficaria abalado pelo mais ousado atentado terrorista de todos os tempos. Dois jatos são sequestrados por terroristas no Aeroporto Kennedy e lançados contra as Torres Gêmeas, causando a morte de 3.500 pessoas. Outro jato foi lançado contra a sede do Pentágono, na Virgínia, junto à capital dos Estados Unidos, Washington. E um outro jato comercial, como resultado provavelmente de luta entre terroristas e passageiros ou tripulantes, caiu no Estado de Nova Jersey, matando passageiros, tripulantes e os próprios terroristas que haviam sequestrado a aeronave. Na Presidência dos Estados Unidos estava George W. Bush, que ficou paralisado durante sete minutos, sem saber o que faria, ao tomar conhecimento da notícia, enquanto o prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, comandaria com sensatez e espírito de liderança as providências necessárias à redução do tamanho da catástrofe. O Corpo de Bombeiros de Nova York, a ele subordinado, teve um trabalho notável e heroico, resgatando e salvando milhares de pessoas, ao elevado preço de muitos bombeiros mortos, entre ele o chefe Pete Ganci, o 1º subcomissário Bill Feehan e o capelão, padre Mychal Judge. O Prêmio Nobel de Literatura referente a 1998 foi outorgado ao escritor português José Saramago. O de 1999 ao alemão Gunter Grass. Em 2000, ao chinês Gao Xingjian. Em 2001, ao indiano Vidiadhar Surajprassad.

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A premiação mais famosa do cinema, que é o Oscar, foi deferida em 1998, categoria melhor filme, a Titanic. O de melhor direção foi para James Cameron, o de ator para Jack Nicholson e o de atriz para Ellen Hunt. O Oscar de 1999 premia como melhor filme Shakespeare Apaixonado. Melhor direção, Steven Spielberg. Ator: Roberto Benigni. Atriz: Gwyneth Paltrou. A versão 2002 atribui o prêmio de melhor filme a Beleza Americana. Melhor direção: Sam Mendes. Ator: Kevin Spacey. E atriz: Hilary Swank. Gladiador seria o ganhador da estatueta de melhor filme de 2001. Steven Soderberg receberia a de melhor diretor. Russel Grove ganhou a de melhor ator e Julia Roberts o troféu de melhor atriz.

Eleições para governador: em 1998, no primeiro turno, recebeu 946.588 votos; Iris Rezende Machado, 914.035; Osmar Magalhães, 61.355; Martiniano Cavalcante, 12.499; Everardo Pastore, 7.168; Chico Dentista, 6.645. No segundo turno, realizado no dia 25 de outubro de 1998, o resultado foi este: Marconi Perillo, 1.157.988 votos; Iris Rezende Machado, 1.015.340. Em 2002, tendo obtido maioria absoluta dos votos, 51,20%, venceu a eleição já no primeiro turno, com 1.301.554 votos. Seus concorrentes tiveram a seguinte votação: Maguito Vilela, 833.554; Marina Sant’Anna, 385.524; Alba Célia Cruz, 10.672; Geraldo Lemos, 7.461; e Javan Rodrigues de Souza, 3.087. Vice-governador: Alcides Rodrigues, em ambos os mandatos. Em 2010, no segundo turno, Marconi Perillo foi eleito com 1.551.132 votos (52,99% dos votos válidos); Iris Rezende Machado obteve 1.376.188 (47,01% dos votos válidos). Vice-Governador José Eliton Júnior Já em 2014, foi eleito no segundo turno, vencendo Iris Rezende Machado. Marconi Perillo: 1.750.977 votos (57,44% dos votos válidos); Iris Rezende Machado: 1.297.592 (42,56% dos votos válidos). ViceGovernador José Eliton Júnior Esposa: Valéria Jaime Perillo Filhas: Isabela e Ana Luísa


marconi perillo

Governador por quatro mandatos: 1º de janeiro de 1999 a 31 de dezembro de 2002; 1º de janeiro de 2003 a março de 2016; 1º de janeiro de 2011 a 31 dezembro de 2013; 1º de janeiro de 2015 a 7 de março de 2018, quando assumiu o vice-governador José Eliton Júnior. Nasceu em Goiânia, no dia 7 de março de 1963, filho de Marconi Ferreira Perillo e Maria Pires Perillo. É o primeiro dos quatro filhos do casal e irmão de Antônio, Vânia e Tatiana. Passou parte da infância em Palmeiras de Goiás. A carreira política de Marconi Perillo iniciou-se com sua militância no PMDB Jovem, do qual foi presidente estadual. Foi também presidente nacional da Juventude do PMDB. Assessor da governadoria na administração de Henrique Santillo, a quem acompanharia na opção pelo PP (Partido Progressista) e, depois, pelo PSDB, assim que essa legenda se inseriu no espectro partidário brasileiro. Em 1990, elegeu-se deputado estadual, e coordenou em Goiás a Frente Parlamentarista Ulysses Guimarães. Em 1994, pelo PP, seria eleito deputado federal. Foi vice-presidente da Comissão Regulamentadora do Sistema Financeiro Nacional e membro das Comissões de Constituição e Justiça e de Redação e de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática. Foi autor do substitutivo que tornou crime hediondo os delitos de falsificação de alimentos e de medicamentos. Exerceu a relatoria do projeto sobre a profissão de empregada doméstica. Foi o relator do processo que resultaria na cassação do mandato do ex-deputado Sérgio Naya. Dos processos que tramitaram na legislatura iniciada em 1995, esse foi o único que resultou em perda de mandato.

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Marconi Perillo seria o personagem da grande reversão de expectativas e favoritismo na sucessão governamental de 1998, transformando em uma proeza a vitória sobre Iris Rezende que, assim que foi formalizada a sua candidatura, parecia impossível. A frente oposicionista havia escolhido inicialmente o nome do deputado Roberto Balestra, que, no entanto, desistiria. Em uma campanha na qual ele se revelaria infatigável, Marconi foi reduzindo persistentemente a desvantagem nas pesquisas de intenção de voto, venceu o primeiro turno e repetiria a vitória no segundo turno. Iniciou a administração do Tempo Novo, em janeiro de 1999. Os resultados administrativos iriam lhe garantir elevados índices de aprovação nas pesquisas realizadas no curso dos quatro anos de governo, tornando-se candidato natural à reeleição em 2002, quando venceu novamente, derrotando Maguito Vilela (PMDB) e Marina Sant’Anna (PT) no primeiro turno.

Da esquerda p/ direita: Então presidente da Saneago, Geraldo Félix, deputada federal Lúcia Vânia, desembargador Joaquim Henrique de Sá (presidente do Tribunal de Justiça), vicegovernador Alcides Rodrigues e governador Marconi Perillo, no lançamento da ETE Goiânia, em 25 de outubro de 1999


Marconi: a vitória que parecia impossível

S

enador eleito em 1994 e exercendo esse mandato desde o início de 1995, o ex-governador Iris Rezende estava no Ministério da Justiça, indicado pelo seu partido, o PMDB, que se compusera com o governo de Fernando Henrique Cardoso como aliado. Tinha-se como muito provável que o então governador Maguito Vilela fosse disputar um segundo mandato, mas ele acabaria, para surpresa quase geral, anunciando que desistia de tal projeto – e que preferiria buscar mandato de senador. Ao se aproximar a fase de prelúdio da campanha para governador, fixava-se no PMDB um consenso semelhante ao de 1990: se Maguito não busca a reeleição, o partido levaria Iris Rezende a disputar pela terceira vez o governo do Estado. Iris acaba aceitando e deixaria o cargo de ministro da Justiça no prazo legal de desincompatibilização, entrando na pré-campanha para governador com tamanha vantagem nas pesquisas sobre intenção de voto a ponto de isso atordoar a oposição. Uma pré-candidatura oposicionista, a do deputado federal Roberto Balestra, duraria muito pouco, pois ele desistiria por não sentir a menor chance de vencer. Chegou-se a cogitar de desistência

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do PSDB e do PFL, para permitir um acordo com o próprio PMDB, mas os que se opunham acabaram criando clima para o surgimento de um nome jovem, o do deputado federal Marconi Perillo. E, assim, a fase propriamente dita da campanha para a eleição de governador do Estado teria início com desvantagem para o jovem candidato que parecia impossível reverter. O Partido dos Trabalhadores definira o nome do professor Osmar Magalhães, que também aparecia sem chances nas pesquisas – o que se confirmaria nas urnas, pois receberia pouco mais de 61 mil votos na eleição do primeiro turno. A reversão aparentemente impossível iria começar, paulatinamente, a ser removida pela superdedicação de Marconi e seus companheiros à campanha, pelo tom irônico com o qual se tratou a candidatura Iris no horário oposicionista de propaganda eleitoral e o inteligente aproveitamento do personagem Nerso da Capitinga (ator Pedro Bismarck), na mídia eletrônica e em comícios. Foi ocorrendo gradativa aproximação entre os dois candidatos até que, já na véspera do pleito, Marconi projetava-se nas pesquisas com pequena diferença sobre Iris. Exatamente a diferença que seria apurada nas urnas.

A MANHÃ DE POSSE No primeiro dia do ano de 1999, uma sexta-feira, as palmas, os ruídos do ritual e os discursos que se ouviram no Palácio Afredo Nasser, sede da Assembleia Legislativa de Goiás, quebravam o silêncio de uma manhã de feriado que se seguiu à noite do reveillon. Era a manhã de posse e de juramento constitucional do governador eleito, Marconi Perillo, e do vice-governador, Alcides

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Rodrigues Filho, em sessão solene que foi aberta pelo então presidente do Legislativo, deputado Paulo Rodrigues, às 9h30. Estavam presentes e foram chamados a compor a mesa autoridades eclesiásticas, como o arcebispo dom Antônio Ribeiro, o comandante da guarnição federal em Goiânia, general Renaldo Quintas Magioli; a reitora da Universidade Federal de Goiás, professora Milca Severino Pereira; o presidente do Tribunal Regional Eleitoral, desembargador Jamil Pereira de Macedo; o presidente do Tribunal de Contas do Estado, conselheiro Ênio Pascoal e as esposas do governador e do vice-governador que seriam empossados, respectivamente, Valéria Jaime Perillo e Raquel Mendes Vieira Rodrigues.

Marconi (e) e Alcides (d) são empossados pelo presidente da Assembleia Legislativa, deputado Paulo Rodrigues, na manhã de 1º de janeiro de 1999


No plenário, sentavam-se quatro ex-governadores: Mauro Borges Teixeira, Otávio Lage de Siqueira, Ary Valadão e Henrique Santillo. O presidente do Legislativo designou comissão formada pelos deputados Valdi Camárcio, Paulo Serrano e Vanda Melo para introduzir ao recinto o presidente do Tribunal de Justiça do Estado, desembargador Joaquim Henrique de Sá. Em seguida, outra comissão, formada pelos deputados Sebastião Monteiro, Mário Ghannam, Sebastião Tejota, Telmo Loiola e Onaide Santillo encarregou-se de introduzir Marconi Perillo e Alcides Rodrigues Filho. Executa-se o Hino Nacional, e Marconi Perillo faz a entrega de sua declaração de bens à mesa diretora da Assembleia, conforme determinação legal. E a seguir profere o compromisso constitucional: “Prometo manter, defender e cumprir a Constituição da República e a do Estado, observar as leis, promover o bem geral e sustentar a integridade do Estado de Goiás”. O presidente do Legislativo declara empossado o novo governador, repetindo-se o ritual em relação ao vice-governador. Representando a bancada do PSDB falou o deputado Carlos Alberto Lereia, enquanto pelo PMDB falou o deputado José Nelto. Durante o discurso de José Nelto, ocorreria um incidente: recebendo vaias de pessoas que se achavam nas galerias, o parlamentar reagiu e depois iria requisitar cópias das fitas de vídeo da TV do Legislativo, para identificar os manifestantes. Marconi Perillo reafirmaria, no discurso de posse, a determinação de materializar na prática os compromissos que se enfeixavam na plataforma do Tempo Novo, a designação da campanha eleitoral identificadora das propostas de mudanças.

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O DESAFIO DE RENOVAR Em vez da doação de cestas básicas para famílias carentes, o Governo Marconi opta por uma renda suplementar, denominada Renda Cidadã. Promove-se urgente reorganização administrativa. Na Secretaria da Fazenda, com Jalles Fontoura à frente da missão, busca-se a recomposição e o incremento rápido de receitas, a fim de se poder colocar em dia o pagamento atrasado dos servidores. Que passa a ser quitado em dia, dentro ainda do mês vincendo. O 13º salário que deveria ter sido pago em dezembro de 1998 ainda não fora pago. Assim que foi quitado, passou a ser repassado para o funcionalismo de um modo diferente, acompanhando o calendário da data de nascimento de cada um. Passou a ser pago no final do mês em que cada servidor faz aniversário. Na Secretaria do Planejamento, à frente dela Guseppe Vecci, montou-se o laboratório do planejamento estratégico e dos programas desenvolvimentistas e sociais. Posteriormente, a reforma administrativa transformaria em agências, com estrutura mais ágil, algumas das secretarias. A meta social visando a um futuro melhor com igualdade de oportunidades para todos os goianos e o objetivo econômico central buscando inserir Goiás na economia nacional e internacional para garantir seu crescimento em termos de progresso econômico, social e de qualidade de vida, ganham atenção especial. A administração Marconi Perillo buscaria alianças com a iniciativa privada para fortalecer a produção e dar andamento ao processo de industrialização. Os polos industriais emergem. Entram em operação indústrias como a da Perdigão, em Rio Verde, começam as obras das montadora Mitsubishi, em Catalão. A Secretaria de Educação promove reforma na sua rede de ensino e é criada a Universidade do Estado de Goiás, que ganha sede

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própria, em Anápolis, e se expande, descentralizando-se. O governo cria, sob a supervisão da Organização das Voluntárias de Goiás, o programa Bolsa Universitária, que no final da gestão estaria atendendo a cerca de 35 mil estudantes. Na área de saúde, consegue-se melhoria dos indicadores, Goiás passando a liderar inclusive em número de leitos de hospital por habitante. Subordinado à Organização das Voluntárias de Goiás (OVG), presidida pela primeira-dama, Valéria Perillo, que sonhava com esse projeto, o governo constrói o Centro de Recuperação e Reabilitação “Doutor Henrique Santillo” (Crer), inspirado na rede de Hospitais Sarah Kubitschek. O governo dinamiza e reestrutura a Agência de Cultura Pedro Ludovico, Agepel, lança, ainda, nos primeiros meses de gestão o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental – Fica – na cidade de Goiás. A antiga capital ganha o título de Patrimônio da Humanidade. A Agepel cria um braço de apoio à criação artísticocultural, beneficiando artistas plásticos, músicos e escritores. É criado o Festival Canto da Primavera, que se realiza em Pirenópolis, no mês de setembro. O governo passa a apoiar a presença da cultura goiana na Bienal do Livro de São Paulo e iria criar, também, a Bienal do Livro de Goiânia. Goiás, finalmente, iria se livrar das restrições internacionais às carnes produzidas no Estado, ganhando o certificado de área livre da febre aftosa. A produção de soja cresce, e os complexos soja e carne iriam, adiante, fazer com que as exportações goianas triplicassem. A receita de ICMS, não obstante o governo tivesse aliviado as alíquotas sobre produtos da cesta básica e trabalhado programa (Produzir) de incentivos fiscais, mais do que dobraria entre 1998 e 2003. Subiu de R$ l,160 bilhão em 1998 para R$ 2,350 bilhões no exercício de 2003. Na totalidade das receitas, houve um salto de R$ l,751 bilhão em 1998 para R$ 3.691 bilhões em 2003.

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Em seu segundo mandato, o governador Marconi Perillo comemora o fechamento do trecho do Ribeirão João Leite onde se deu o início à formação da barragem Os Inquilinos da Casa Verde

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2003 nov 2004

cenário mundial e brasileiro

No Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva assumiria a Presidência no dia 1º de janeiro de 2003. Tendo recebido um pacote de dificuldades como herança, a reduzida velocidade inicial de sua administração não desgasta o governo. Mas, não conseguindo melhoras substanciais na economia e nem o incremento da geração de empregos prometida na campanha eleitoral, a nova administração federal começaria a sofrer desgastes, a ponto de declinar bastante a própria imagem do presidente, que realiza sucessivas viagens ao exterior. A burocracia complica a ativação de programas, como o do primeiro emprego. O governo Lula atravessaria o clima de um inferno astral no começo de 2004. Valdomiro Diniz, assessor de confiança do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e que trabalhava no próprio Palácio do Planalto, é acusado de praticar tráfico de influências para beneficiar empresários de jogos eletrônicos, bingos e banqueiros do jogo do bicho. O governo teria de recorrer a tudo o que fosse possível para conter a iniciativa de CPI no Congresso. Depois da tempestade, não exatamente a bonança, mas alívio na turbulência. Os indicadores econômicos projetados a partir do segundo semestre de 2004 já estavam bem melhores, com as exportações batendo recorde, as importações subindo um pouco, a indicar a recuperação das atividades econômicas e até pequeno aumento na oferta de empregos. O Produto Interno Bruto do primeiro semestre (PIB) chegou a 4,2%, porcentual que não era esperado. Ano de eleições de âmbito municipal, que em Goiânia dariam a Iris Rezende novo mandato de prefeito de Goiânia, em outubro de 2004, o ex-senador José Serra ganharia a Prefeitura de São Paulo, vencendo no segundo turno a então

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Urbana Rural TOTAL

176.871.437

GOIÁS Urbana

4.737.079

Rural

569.380

TOTAL

5.306.459

2000

POPULAÇÃO

BRASIL

Fonte: Censo ibge

prefeita Marta Suplicy, por 3.319.829 (54,93%) contra 2.724.198 (45,07%) da adversária. No Rio, seria reeleito César Maia. No cenário internacional, prevaleceria, em abril de 2003, a obstinada e cega intenção do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de ocupar o Iraque para derrubar o ditador Saddam Hussein. A opinião pública mundial não tinha simpatia alguma por Saddam, mas não queria essa guerra insensata, pois se previa que ela iria produzir efeito contrário, açodando o terrorismo internacional, em vez de aplacá-lo. Bush teve vitória aparente, que se poderia definir como vitória de Pirro. Ele forçou ajuda de aliados como Inglaterra, Japão, Itália e Espanha, e todos se veriam afundados num longo conflito, tipo guerra que não se acaba. O terrorismo atacaria agora todos os dias. Proclamada por Bush como guerra ao terrorismo, ela provocaria também o incremento do terror em outras partes do mundo. A Organização das Nações Unidas, que foi de fato ignorada pelo governo Bush, instalou seu comissariado em Bagdá para cumprir a sua responsabilidade com a paz. Um brasileiro internacionalmente conceituado, o comissário Sérgio Vieira de Melo, tornou-se mártir dessa causa, morrendo em um dos maiores atentados terroristas de dezenas que foram deflagrados em Bagdá e outras cidades iraquianas desde abril de 2003. A situação entre Israel e palestinos também piorou muito. No dia 11 de março de 2004 o terrorismo atacou em Madri, com explosões em vagões ferroviários causando mais de uma centena de mortes, No dia 3 de setembro de 2004, a humanidade acompanhava, confrangida, um terrível episódio: o massacre de mais de 350 pessoas numa escola de Beslan, na Ossétia do Norte. Mais da metade das vítimas era constituída por crianças e adolescentes,

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que acabavam de concluir as férias. A escola foi tomada pelos terroristas chechenos no dia em que se iria começar a segunda parte do ano letivo. No dia 2 de novembro de 2004, realizam-se as eleições presidenciais nos Estados Unidos: George W. Bush é reeleito com 51% dos votos, contra 49% do senador democrata John Kerry. O Prêmio Nobel de Literatura de 2003 foi destinado ao escritor sul-africano John Maxwell Coetzel. O de 2004 contemplou a escritora austríaca Elfried Jenilek – que não era cotada, entre a maioria dos intelectuais, para o cobiçado prêmio. O Oscar versão 2003, entregue no início de 2004, premiaria como melhor filme Chicago. A estatueta de melhor direção contemplou Rob Marshall. Adrien Brody ganhou o prêmio de melhor ator e Nicole Kidman de melhor atriz. O diretor de cinema brasileiro Walter Salles Júnior colhe êxito de público e de crítica com o filme Diários de Motocicletas, baseado em uma aventuresca viagem de moto do argentino Ernesto Che Guevara, que se tornaria mundialmente famoso como revolucionário em Cuba, quando era estudante de medicina em seu país de origem. Jayme Monjardim ganha aplausos com o filme Olga, baseado na vida de Olga Benário, a mulher de Luiz Carlos Prestes que morreria em campo de concentração, perseguida pelo regime nazista de Hitler.

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depoimento de marconi perillo

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Governador Marconi Perillo e primeira-dama ValĂŠria entregando certificados do Programa Bolsa UniversitĂĄria, uma marca de seus governos Os Inquilinos da Casa Verde

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A reeleição de Marconi

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m ano antes da realização das eleições de 2002 para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual, o PMDB, que experimentava ser oposição depois de 20 anos no poder estadual, já tinha consensualmente definido o nome que iria concorrer à Casa Verde: o senador Maguito Vilela. Seria o principal concorrente de Marconi Perillo, cuja candidatura à reeleição apresentava-se como natural. A primeira pesquisa de intenção de voto indicava a essa altura vantagem para o senador Maguito. Padrinho de um casamento, seis dias depois da divulgação da pesquisa, Marconi Perillo afirmava, na recepção, realizada em uma fazenda, que tinha absoluta confiança de que venceria na proporção de dois votos por um. De fato, quando chegou o momento da montagem das chapas, nas convenções partidárias no meio do ano de 2002, as pesquisas indicavam franco favoritismo de Marconi e a perspectiva de que a sua vitória poderia se exprimir no primeiro turno. Marconi receberia até inédita manifestação dos servidores públicos, cuja maioria costumava votar contra o governo. É que se sentiam beneficiados pela administração Marconi que colocara em dia o

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pagamento do pessoal, passara a pagar o 13º salário no mês de aniversário dos trabalhadores do Estado e vinha proporcionando outras vantagens. O PT escolheu Marina Sant’Anna e ainda se registraram três candidaturas dos chamados nanicos: Alba Célia, Geraldo Lemos e Javan Rodrigues. O favoritismo de Marconi não subtrairia a emoção da campanha eleitoral, realizada simultaneamente com o processo de disputa da Presidência da República, que tinha Luiz Inácio Lula, do PT, como favorito, seguido de José Serra, Anthony Garotinho e Ciro Gomes. Lula seria vitorioso, no segundo turno, quando enfrentou José Serra, do PSDB. Para governador, a tendência de definição do processo no primeiro turno iria se confirmar, não obstante a terceira colocada no primeiro turno, Marina Sant’Anna ter avançado um pouco além do que previam as pesquisas iniciais. Foram 1.301.554 votos para Marconi; 833.554 para Maguito Vilela; 385.524 para Marina Sant’Anna; 10.672 para Alba Célia; 7.461 para Geraldo Lemos; e 3.087 para Javan Rodrigues.

A MADRUGADA DE POSSE Pela primeira vez na história da sucessão de governadores de Goiás, o ritual de posse iria ocorrer em um horário tão singular para cerimônias do gênero: o começo da madrugada. Ouviam-se os fogos e os inconfundíveis rumores do reveillon quando, aos 26 minutos do dia 1º de janeiro de 2003, uma quarta-feira, o então presidente da Assembleia Legislativa, deputado Sebastião Tejota, abriu a sessão solene para a cerimônia, no Palácio Alfredo Nasser, na qual seriam

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empossados o governador e o vice-governador eleitos em primeiro turno no dia 6 de outubro anterior, Marconi Perillo e Alcides Rodrigues Filho. A presidência convidou para compor a mesa o presidente do Tribunal de Justiça do Estado, desembargador Byron Seabra Guimarães; os ex-governadores Mauro Borges e Irapuan Costa Júnior; o prefeito de Goiânia, Pedro Wilson, e o ex-prefeito, Nion Albernaz; o presidente da Câmata Municipal de Goiânia, vereador Wladimir Garcez; a deputada Lúcia Vânia, senadora eleita; senador eleito Demóstenes Torres; a reitora da Universidade Federal de Goiás, Milca Severino Pereira; o comandante da Terceira Brigada de Infantaria Motorizada, general Rubem Peixoto Alexandre; e o procurador substituto da Procuradoria Geral de Justiça, Altamir Rodrigues Vieira Júnior. No plenário se encontrava Henrique Meirelles, que estava indicado para a presidência do Banco Central. Designados pela presidência, os deputados Ozair José, Antônio Uchoa e Marcos Cardoso conduziram até a mesa o vice-governador Alcides Rodrigues, juntamente com a esposa, deputada Raquel Rodrigues, enquanto outra comissão, formada pelos deputados Jardel Sebba, Rose Cruvinel, Nédio Leite, Lamis Cosac e Carlos Alberto acompanhava o governador Marconi e a esposa, Valéria Perillo. Após a entrega da declaração de bens à mesa, como exige a lei, Marconi Perillo leu o compromisso constitucional: “Prometo manter, defender e cumprir a Constituição da República e a do Estado, observar as leis, promover o bem geral e sustentar a integridade do Estado de Goiás.” Fez o mesmo o vice-governador, Alcides Rodrigues. Considerando o horário, o governador eleito resumiu o seu discurso de posse, com os compromissos do “Tempo Novo para Fazer Mais.”

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A abertura da nova administração estadual foi comemorada junto com os festejos do reveillon, no Palácio das Esmeraldas, e, no final da manhã do dia 1º, Marconi deu posse aos 52 auxiliares que haviam sido escolhidos para compor o que se convencionou chamar de primeiro escalão do governo. Em nome da equipe, discursou o secretário da Infra-Estrutura, Carlos Maranhão. Marconi fez uma advertência, ao discursar: “A ninguém será dado o direito de ameaçar o que, a duras penas, construímos. O povo só nos confiou a condução do Estado por mais quatro anos por nossa credibilidade”. Aos secretários, no discurso, o governador recomendaria: “Devo acrescentar que teremos de praticar também alguns nãos. “Como um não à acomodação e à preguiça, como um não à arrogância, à soberba, à improbidade e ao improviso”. Depois da solenidade de posse do Secretariado, o governador voaria para Brasília, a fim de assistir à cerimônia de posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O SEGUNDO MANDATO Iniciando seu segundo mandato de governador, Marconi Perillo montaria um tripé Fazenda-Planejamento-Infraestrutura, áreas confiadas aos secretários Giuseppe Vecci, José Carlos Siqueira e Carlos Maranhão, para o esforço de consolidação do desenvolvimento econômico, a atração de mais investimentos e viabilização de recursos para obras de infraestrutura. Novos projetos industriais seriam anunciados, inclusive da montadora sul-coreana Hyundai. O programa Asfalto Novo chegaria à maioria dos municípios. No primeiro ano da nova gestão

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Marconi Perillo, a Companhia Energética de Goiás, Celg, sob a presidência de José Paulo Félix de Souza Loureiro, apresentaria lucro em seu balanço e se revelaria assim recuperada, passando inclusive a investir no patrimônio cultural goiano. A situação da economia em geral está resumida no capítulo final deste livro. Durante os dois períodos de Marconi Perillo como governador do Estado, o então vice-governador, Alcides Rodrigues Filho, assumiu por algumas vezes, por conta de viagens do titular do cargo. E, quando Marconi se desincompatibilizou, para disputar mandato de senador, Alcides assumiu duplo desafio: de fechar o período 20032007 e, ao mesmo tempo, disputar a reeleição. A campanha eleitoral de 2006 se iniciou com o principal concorrente de Alcides, o ex-governador Maguito Vilela (PMDB), com vantagem nas pesquisas de intenção de voto. A campanha seguiu seu curso e, gradativamente, os porcentuais de Alcides nas pesquisas foram subindo. No primeiro domingo de outubro de 2006, cumpriu-se o primeiro turno do processo eleitoral, com os seguintes resultados: Alcides Rodrigues, 1.315.718 votos, 48,22% do total; Maguito Vilela, 1.123.139 votos, 41,17%; Barbosa Neto, 179.070, 6,56%; e Demóstenes Torres, 95.701, 3,51%. Depois da curta campanha para o segundo turno, o processo se finalizou com Alcides ficando com vantagem de 57,14% contra 42,86 de Maguito. Em votos, Alcides recebeu 1.508.024 votos contra 1.131.106 obtidos por Maguito. No dia 1º de janeiro de 2007, Alcides Rodrigues foi empossado em sessão solene na Assembleia Legislativa.

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Resultado da eleição para governador de Goiás – Primeiro turno Candidato Votos Votos Válidos Alcides Rodrigues – PP* 1.315.718 48,22% Maguito Vilela – PMDB* 1.123.139 41,17% Barbosa Neto – PSB 179.070 6,56% Demóstenes Torres – PFL 95.701 3,51% Alcides Rodrigues se reelegeu no segundo turno com 57,14% dos votos válidos. O placar foi este: Segundo turno Candidato Votos Votos Válidos Alcides Rodrigues – PP** 1.508.024 57,14% Maguito Vilela – PMDB 1.131.106 42,86% Senador eleito: Marconi Perillo (PSDB) – 2.035.564 votos (75,82% dos votos válidos)


ALCIDES RODRIGUES

Governador em exercício entre 31 de março de 2006 e 31 de dezembro de 2006. E, governador eleito, entre 1º de janeiro de 2007 e 31 de dezembro de 2010. Nasceu em Santa Helena, Goiás, em 8 de outubro de 1950. Casado com Raquel Mendes Vieira Rodrigues, tem dois filhos, a advogada Aline Viera Rodrigues e o médico João Alberto Viera Rodrigues. Formou-se em mMedicina pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), especialista em Ginecologia e Obstetrícia. Começou a sua trajetória política sendo eleito Deputado Estadual (1990-1993), depois eleito prefeito de Santa Helena (1993-1996). Vice-governador de Goiás com Marconi Perillo entre 1999 e 2006. Em março de 2006, assumiu o governo, com a desincompatibilização de Marconi, que se candidataria ao Senado. Como candidato à reeleição, Alcides Rodrigues, filiado ao Partido Progressista (PP), propõe dar continuidade à administração do candidato ao Senado, Marconi Perillo (PSDB), que ficou conhecida como Tempo Novo. Essa denominação caracteriza a oposição

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Alcides vence a disputa com Maguito Vilela

M

arconi Perillo passou o cargo ao vice, Alcides Rodrigues, no dia 31 março de 2006, para ser candidato a senador. A coligação PSDB-PP, a que ambos integrava, confirmaria Alcides Rodrigues como candidato à reeleição, tendo como vice, na chapa, Ademir Menezes. O PMDB homologou Maguito Vilela como seu candidato, repetindo o que fizera em 2002. Barbosa Neto, pelo PSB, Elias Vaz, pelo PSOL, e Edward Júnior, pelo PSDC, foram os outros candidatos ao governo de Goiás, em 2006. As primeiras pesquisas de intenção de voto apontavam Maguito como franco favorito. Marconi conclamou uma mobilização e conseguiu fortalecer o desempenho da campanha de Alcides, gradativamente. Na última pesquisa, no dia 30 de setembro de 2006, Maguito ainda estava à frente, embora então com pequena diferença. Abertas as urnas, Alcides à frente, e iria se confrontar com Maguito no segundo turno. Este foi o placar:

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Resultado da eleição para governador de Goiás – Primeiro turno Candidato

Votos

Votos Válidos

Alcides Rodrigues – PP

1.315.718

48,22%

Maguito Vilela – PMDB

1.123.139

41,17%

Barbosa Neto – PSB

179.070

6,56%

Demóstenes Torres – PFL

95.701

3,51% Publicidade

Alcides Rodrigues se reelegeu no segundo turno com 57,14% dos votos válidos. O placar foi este: 2006:* Resultado da eleição para governador de Goiás – Segundo turno Candidato

Votos

Votos Válidos

Alcides Rodrigues – PP

1.508.024

57,14%

Maguito Vilela – PMDB

1.131.106

42,86%

Senador eleito: Marconi Perillo (PSDB) – 2.035.564 votos (75,82% dos votos válidos)

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A colisão entre Alcides e Marconi Na obra O Príncipe, Nicolau Maquiavel afirma que ninguém ama o sucessor. Na história política de Goiás, conflitos entre antecessores e sucessores no governo de Goiás já haviam se registrado. Como, por exemplo, entre Juca Ludovico e José Feliciano, Otávio Lage e Leonino Caiado, e em todos esses três casos se tratavam de aliados antes da colisão. Entre Alcides Rodrigues e Marconi Perillo, os atritos foram se sucedendo até que ocorresse uma estrondosa colisão. Integrante do estafe de campanha de Alcides Rodrigues, Jorcelino Braga iria assumir a Secretaria da Fazenda do governo Alcides e adquiriu singular poder. Foi ele quem mais influenciou na formação da barreira que iria separar o governador e o então senador Marconi Perillo e foi igualmente ele quem fez Alcides desatar os laços com seu antecessor. Como secretário da Fazenda, impediu a liberação de recursos para a conclusão de algumas obras da administração anterior, como, e principalmente, o Centro Cultural Oscar Niemeyer. Com a aproximação da campanha sucessória de 2010, Alcides fez opção pela candidatura do ex-prefeito de Senador Canedo, Vanderlan Cardoso, que seria o terceiro colocado na votação para governador (ver quadro).

ACRESCENTAR DEPOIMENTO

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Hélio Rocha


Alcides Rodrigues reverteu as pesquisas, ganhou a eleição e tomou posse no cargo de governador no dia 1º de janeiro de 2007 Os Inquilinos da Casa Verde

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2006 2009

cenário mundial e brasileiro

A campanha sucessória presidencial de 2006 começa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, já tendo superado em boa escala os desgastes causados pelo chamado escândalo do mensalão, ocorrido no ano anterior. O candidato da coligação, liderada pela PSDB, Geraldo Alkmin, consegue ir com Lula para o segundo turno, disputado no dia 29 de outubro de 2006. Mas Lula ganha com 60.83% dos votos, contra 39.17% de Alkmin. Na Copa do Mundo de 2006, disputada na Alemanha, o Brasil venceu a Croácia (1X0), a Austrália (2X0), o Japão (4X1) e Gana, nas oitavas-de-final. Mas, mesmo com maior volume de jogo (55% a 45%), perde para a França, por 1 X 0, e é Eliminado. Um dos grandes fatos políticos no mundo, entre 2006 e 2009, foi a eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama, cuja administração continuaria lutando contra o terrorismo e iria conseguir eliminar o lendário Osama bin Laden. Obama assumiu em meio a uma crise econômica global, cujo epicentro foram os próprios Estados Unidos, a partir de problemas de inadimplência no setor imobiliário. Três terríveis acidentes de avião abalaram o Brasil. Com um avião da Gol, atingido por um jatinho na Amazônia, com 154 mortos, e no final do voo 3054 da TAM, no Aeroporto de Congonhas, São Paulo, no qual morreram 199 pessoas. No dia 31 de maio de 2009, caiu no Atlântico, o avião da Air France que fazia o voo 447, na rota Rio-Paris, com 228 mortos. A premiação Nobel de Literatura, no período, contemplou os seguintes escritores: 2006, o turco Orhan Pamuk; em 2007. Doris Lessin, do Reino Unido;

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em 2008, Jean-Marie Gustave Clezio, da França; e, em 2009, Herta Muller, na Alemanha. Os Oscar, a grande premiação do cinema, entre 2006 e 2009, foram entregues conforme a relação a seguir. 2006 – Melhor filme, Os Infiltrados; Melhor ator, Forrest Whitaker, O Último Rei da Escócia; Melhor Atriz. Helem Mirren, em A Rainha. 2007 – Melhor filme, Os Fracos não Terão Vez; Ator: Daniel Day-Lewis; Marion Cotillard, pelo papel de Edith Piaf em La Vie en Rose. 2008 – Melhor filme: Quem Quer Ser Milionário?: Melhor ator: Sean Penn, por Milk. Melhor Atriz – Kate Winslet, por O Leitor. 2009 – Melhor Filme: Guerra ao Terror; Melhor ator: Jeff Bridges, por Bravura Indômita; Melhor atriz – Sandra Bullock.

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O terceiro governo de Marconi Perillo

O

terceiro governo comandado por Marconi Perillo trabalhou praticamente todo o seu primeiro ano de gestão em busca de uma saída para a grande crise da Companhia Energética de Goiás (Celg), a empresa distribuidora que se afundou no vermelho e corria mesmo o risco de se tornar inviável. Durante esse quase um ano, a Celg foi presidida pelo vice-governador, José Eliton. Em dezembro de 2011, finalmente foi fechado um acordo, que repassou à companhia cerca de R$ 3,5 bilhões, um empréstimo da Caixa Econômica Federal e recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A Eletrobrás, pelo acordo, teria de assumir a gestão da Celg e ficar com 51% das ações da empresa. No dia 7 de fevereiro de 2012, tomou posse a nova diretoria, com o presidente, Leonardo Lins de Albuquerque, o diretor econômico-financeiro, Paulo Sérgio Fernandes, e o diretor administrativo, Rodrigo Madeira Henrique de Araújo, indicados pela Eletrobrás. Os outros diretores são: José Fernandes Navarrete Pena, vice-presidente e diretor de Assuntos Regulatórios; e Alfredo Salomão Filho, diretor comercial.

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Num encontro de confraternização com a imprensa quando se aproximava o Natal de 2011, o governador Marconi Perillo afirmou que o primeiro ano de gestão no seu terceiro mandato havia sido de superação, ou seja, o de enfrentamento dos impasses herdados da administração anterior, mas que quase tudo já estava nos eixos. Mencionou questões como o atraso no pagamento dos salários dos servidores. Marconi assumiu com uma folha em atraso (a de dezembro de 2010). O secretário da Fazenda, Simão Cirineu, organizou um esquema pelo qual, durante os primeiros meses, 80% do salário era pago antes de vencer o mês correspondente e, duas semanas depois, quitava-se o restante. No segundo semestre, já estava tudo normal, com a quitação completa antes do final do mês.

No começo do terceiro mandato, o governador Marconi Perillo com a primeira-dama Valéria e as filhas Ana Luisa (E) e Isabela (D)


Marconi Perillo surpreendeu, ao recrutar, para seu secretariado, o jovem deputado federal eleito Thiago Peixoto, originário do PMDB, e confiou a ele a realização de uma ampla reforma educacional, chamado de Pacto pela Educação, apoiado em cinco eixos: 1 – Valorizar e fortalecer o profissional da educação; 2 – Adotar práticas de ensino de alto impacto no aprendizado do aluno; 3 – Reduzir significativamente a desigualdade educacional; 4 – Estruturar sistema de reconhecimento e remuneração por mérito; 5 – Realizar profunda reforma na gestão e na infraestrutura da rede estadual de ensino. Na área educacional, o governo Marconi Perillo enfrentou uma crise na Universidade Estadual de Goiás (UEG), que provocou a renúncia do reitor Luiz Antônio Arantes, substituído, em fevereiro de 2012, pelo professor Haroldo Reimer. E, no início do ano letivo de 2012, uma demorada greve deflagrada pelos professores da rede estadual de ensino. Na área de transporte rodoviário, como o estado de boa parte das rodovias da malha estadual se encontrava ruim, foi lançado um programa, executado pela Agetop, para resolver esse problema. Na área de saúde, o governo enfrentou, como maior problema em 2011, as precariedades da rede hospitalar pública, chegando a cogitar uma espécie de terceirização. A empresa Indústria Química de Goiás (Iquego) foi recebida do governo anterior com quadro crítico, quase mesmo pré-falimentar. O governo buscou um acordo com a Cruz Vermelha, para que essa entidade assumisse o controle da indústria.

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Resultado da Eleição de 2010 Tendo José Eliton como companheiro de chapa, o candidato Marconi Perillo, do PSDB, levava vantagem nas últimas pesquisas de intenção de voto, enfrentando Iris Rezende, do PMDB, que tinha como vice Marcelo Melo. Os outros postulantes foram: Vanderlan Cardoso, do PR, Marta Jane, do PCB, e Washington Fraga, do PSOL.

depoimento

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Os vices que assumiram

N

o início da noite do dia 15 de janeiro de 1998, no Cemitério São Miguel, em Anápolis, era sepultado o corpo do político e empresário Onofre Quinan, que estava no exercício de mandato de senador para o qual fora eleito em 1990, pelo PMDB de Goiás. Aos 71 anos, morrera na véspera, de ataque de coração, em Brasília, deixando viúva a deputada Lídia Quinan. Filho de Vianópolis (nasceu em 19 de outubro de 1926), a família mudouse para Anápolis quando ele tinha quatro anos e começou a trabalhar na adolescência, na loja do pai, a Casa Violeta. Iria se tornar um megaempresário do segmento de comércio de eletrodomésticos, engarrafamento e distribuição de gás de cozinha. Ele havia sido velado no Salão Negro do Congresso Nacional, de manhã, com a presença do presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, e dos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, Antônio Carlos Magalhães e Michel Temer. Antes do sepultamento em Anápolis, o corpo fora velado também no saguão da Assembleia Legislativa.

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Onofre Quinan cumpriu a sua carreira política sempre fiel a uma causa: fez parte dos quadros do antigo MDB, ligado inicialmente ao grupo Santillo, na resistência ao regime autoritário e na luta pela redemocratização. Propunha-se, no início da década de 80, a disputar uma candidatura de deputado federal, mas seu nome acabou sendo o elemento de aglutinação da chapa do partido e, em 1982, integrou a chapa de Iris Rezende como candidato a vice-governador. O convite do então presidente Sarney a Iris Rezende para o Ministério da Agricultura levou Onofre Quinan a ser inquilino do Palácio das Esmeraldas por 13 meses – entre 14 de fevereiro de 1986 e 15 de março de 1987, quando entregou o cargo de governador a Henrique Santillo. Foi o vice-governador que, assumindo, mais tempo ficou no cargo. Onofre Quinan acompanhou Iris Rezende no rompimento político com Santillo, em 1989, e ganhou a disputa senatorial de 1990, vencendo Pedro Canedo. A figura do vice-governador não existia entre 1937, quando o poder se instalou na Casa Verde da Praça Cívica, e o fim do Estado Novo, em 1946. O médico Hosanah de Campos Guimarães, que morreu em Brasília em 1997, veio a ser o primeiro vice-governador a assumir. Substituiu Jerônymo Coimbra Bueno, assumindo em lº de julho de 1950 e ficando no cargo até 30 de janeiro de 1951. As 12 últimas horas desse período de governo foram completadas pelo presidente da Assembleia Legislativa, deputado José de Souza Porto, que transmitiu o cargo no dia 31 de janeiro a Pedro Ludovico, que voltava ao poder. Jonas Ferreira Alves Duarte, de Anápolis, vice-governador na gestão 1951-1955, completou o mandato, com o afastamento de Ludovico, que se candidatara ao Senado, governando o Estado entre lº de julho de 1954 e 31 de janeiro de 1955, quando passou o cargo

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a Bernardo Sayão, vice de José Ludovico. Antes, em 1952 (entre 5 de junho e lº de setembro) e, em 1952 (entre 30 de janeiro e 15 de fevereiro), assumira interinamente. Bernardo Sayão cumpriu um papel singular. Era o vice de Juca Ludovico, mas houve uma eleição complementar, por causa da impugnação de algumas seções. Os votos já computados, independentemente da contagem suplementar, eram suficientes para Sayão, que não seria alcançado pelo adversário, o candidato a vice de Galeno Paranhos, Ruy Brasil Cavalcanti – pai. Assim, deu-se posse a ele, no dia 31 de janeiro de 1955. Confirmada a eleição de Juca Ludovico na contagem suplementar dos votos, este assumiria em 12 de março de 55. João D’Abreu, o vice de José Feliciano Ferreira, não teve oportunidade de assumir. O vice de Mauro Borges, Rezende Monteiro, abriu mão da oportunidade em 1963, numa licença do governador para viagem a Israel, para não prejudicar seu mandato de deputado. Nessa ocasião, assumiu interinamente o presidente da Assembleia Legislativa, Almir Turisco –entre 24 de abril e 29 de maio de 1963. Osíres Teixeira assumiu o cargo entre 20 de maio e 3 de julho de 1968, quando Otávio Lage, de quem ele era vice, se licenciara para viagem ao exterior. Vieram a seguir os três governadores eleitos pelo sistema indireto: Leonino Caiado, Irapuan Costa Júnior e Ary Valadão. Leonino e Irapuan tiveram como vices, por coincidência, dois intelectuais: Ursulino Leão e José Luiz Bittencourt. Ambos representaram o governo em missões internas e fora do Estado, mas só assumiram formalmente o cargo por períodos curtos. Ursulino ocupou o Palácio das Esmeraldas entre 2 e 12 de julho de 1973 e, Bittencourt, entre 5 e 15 de janeiro de 1979.

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O vice de Ary Valadão, Ruy Brasil Cavalcanti Júnior, não teve oportunidade de assumir. Nas viagens que fez ao exterior, nenhuma ultrapassando duração de 15 dias, Valadão não formalizou pedido de licença ao Poder Legislativo, que na época era exigência discutível. Pela atual Constituição, proclamada em 5 de outubro de 1989, essa exigência é clara, expressa no artigo 36: no caso de ausência do País por qualquer prazo e, do Estado, por mais de 15 dias, o governador precisa dessa licença. Já o vice do período posterior ao de Onofre Quinan, que foi Joaquim Roriz, eleito com Henrique Santillo, assumiu a missão de interventor na Prefeitura de Goiânia e, depois, o governo do Distrito Federal. Ocorreu uma curta interinidade na administração Santillo, durante viagem dele ao exterior, sendo o cargo de governador exercido por alguns dias pelo presidente da Assembleia Legislativa, Milton Alves. O vice do segundo mandato de Iris Rezende, Maguito Vilela, assumiu interinamente durante viagens do governador, mas se desincompatibilizou para poder ele próprio disputar o cargo de governador nas eleições de 1994. Como Iris também teve de observar a exigência da desincompatibilização para ser candidato ao Senado, entre abril de 1994 e a manhã de lº de janeiro de 1995, o inquilino do Palácio das Esmeraldas foi Agenor Rezende, que exercia a presidência da Assembleia Legislativa. Maguito, de sua vez, afastou-se, também, no prazo da exigência legal para ser o candidato a senador do PMDB nas eleições de 1998. O vice de Maguito Vilela, Naphtali Alves, que havia assumido, também, interinamente durante viagens do governador ao exterior, assumiu o cargo para completar o mandato em 2 de abril de 1998. O final do mandato foi cumprido pelo então presidente da Assembleia Legislativa, deputado Helenês Cândido.

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Alcides Rodrigues Filho, o vice-governador da chapa de Marconi Perillo, eleita em 1998, iria assumir o cargo, até outubro de 2004, sete vezes. Sempre por períodos curtos, em razão de viagens do governador. Assumiram, também, durante os dois mandatos de Marconi, até outubro de 2004, na condição de presidentes do Legislativo, Sebastião Tejota e Célio Silveira, assim como os desembargadores, na condição de presidentes do Poder Judiciário, Joaquim Henrique de Sá, Byron Seabra Guimarães e Charife Oscar Abrão. Durante ausências de Alcides Rodrigues Filho, no período 2007-2011, assumiu algumas vezes o então vice-governador Ademir Menezes. Político que se projetou por força de liderança em Aparecido de Goiânia, Ademir Menezes, nascido em 5 de agosto de 1957, em Itapuranga, Goiás, assumiu pela primeira vez por quatro dias, entre 24 e 31 de outubro de 2007, quando Alcides fez parte da comitiva do presidente Lula que esteve na Suiça para acompanhar o anúncio de que a Copa do Mundo de 2014 seria no Brasil. Entre 15 e 28 de maio de 2008, Ademir chefiou a missão goiana que acompanhou o presidente Lula em viagem à China. Entre 4 e 18 de setembro de 2009 Ademir assumiu o governo durante viagem de Alcides à Rússia. Entre 28 de novembro a 5 de dezembro, Ademir voltou a assumir durante viagem de Alcides à Ucrânia e à França. Chefiando missão goiana em viagem à Bielo-Rússia, República Tcheca e Ucrânia, Alcides deixou o governo sob comando de Ademir entre 14 e 26 de fevereiro de 2010. José Éliton de Figueiredo Júnior, nascido em 27 de agosto de 1972 em Rio Verde, Goiás, vice-governador indicado pelo DEM, vitorioso com Marconi na eleição de 2010, assumiu a governadoria entre 16 e 28 de agosto de 2011, durante missão internacional à

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Europa chefiada por Marconi Perillo. Entre 8 e 22 de setembro de 2011 voltou a assumir, em virtude da viagem de Marconi à China e à Coréia do Sul. Entre 5 e 8 de outubro de 2011, assumiu por causa de uma viagem de Marconi a Roma, Itália.

Perfil da economia de Goiás na 1ª década do Século 21 A população estimada de Goiás no final de 2004 era de 5,6 milhões de pessoas, ocupando área de 340.086.698 quilômetros quadrados. Em 2012, o Produto Interno Bruto (PIB) goiano foi estimado em R$ 28,132 bilhões e o PIB per capita em R$5.399. O setor de serviços com participação de 47%, a indústria com 35,03 e a agropecuária com 17,54%. A população economicamente ativa era de 2,652 milhões de pessoas e a ocupada no mercado formal de trabalho de 2,479 milhões de pessoas. Pela avaliação da Consultoria Simonsen Associados, a posição de Goiás no ranking de competitividade entre os Estados é o nono lugar, atrás de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia e Espírito Santo. O expressivo crescimento da economia goiana nos últimos anos deve-se a uma convergência de fatores. A administração estadual, instalada em 1999, contribuiu com a reforma do Estado, o Plano Plurianual de investimentos, o ajuste fiscal, o lançamento de um plano estratégico, um programa de redução de alíquotas de impostos estimulando a produção e o consumo, o programa Produzir (incentivos fiscais) e o apoio às cadeias produtivas. Despertaram-se, também, as forças da iniciativa privada, sendo importantes as contribuições de entidades como a Federação

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do Sistema de Comércio, a Federação das Indústrias, a Federação da Agricultura e a Sociedade Goiana de Pecuária, articuladas em torno do Fórum Empresarial. Outra contribuição importante é a da Adial (Associação para o Desenvolvimento Industrial do Estado). O surgimento e a expansão dos polos industriais, inclusive o farmoquímico de Anápolis e o da indústria de alimentos do sudoeste (Rio Verde, Jataí, Santa Helena e Mineiros), a fábrica da montadora Mitsubishi em Catalão e o início da fábrica Hyundai em Anápolis, ajudaram a impulsionar o setor de serviços, que tem 47% do PIB. A seguir, a situação dos setores primário e secundário.

O CRESCIMENTO INDUSTRIAL A atividade industrial experimentou apreciável crescimento na primeira metade dessa década que abriu o século 21 e o novo milênio, crescendo a taxas muito superiores à média nacional. Para se ter uma ideia: em 1998, a indústria participava com 26% do Produto Interno Bruto (PIB) de Goiás e já em 2011 atingiria 35,03%. Outra comparação: em l998, não houve crescimento industrial, registrandose a taxa negativa de -0,97, enquanto em 2010, mesmo em meio à conjuntura nacional desfavorável, a indústria goiana cresceu 6,89. Pode-se dizer mesmo, que o Estado passa por um boom no setor industrial. No começo de 2004, já existiam cerca de 12 mil estabelecimentos industriais no Estado, com liderança para o complexo vestuário, calçados e artefatos de tecidos, com 3.414 estabelecimentos; o gênero de produtos alimentícios, com cerca de 3 mil e 100 estabelecimentos; produtos minerais não metálicos, com 944 estabelecimentos; metalurgia, com 723; e mobiliário, com 626 unidades industriais.

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Ganhou importância, também, a indústria farmoquímica, que tem um polo dinâmico em Anápolis, somando (química e produtos farmacêuticos e veterinários) 160 estabelecimentos. Destacam-se nesse crescimento os polos industriais de GoiâniaAparecida, Anápolis, Rio Verde, Jataí, Catalão, Morrinhos, Mineiros, Itumbiara, Santa Helena, Luziânia e Goianésia. Deve-se mencionar duas conquistas recentes importantes: a montadora Mitsubishi funcionando em Catalão e a montadora sulcoreana Hyundai se instalando em Anápolis. Assim como a decisão da companhia Perdigão, que tem sua maior capacidade instalada em Rio Verde, de investir em Goiás numa nova unidade, em Mineiros, sudoeste do Estado, que abaterá e beneficiará chesters e perus.

O DESEMPENHO AGRÍCOLA O salto, que há algum tempo se pregava para o desempenho da agricultura de Goiás, ou seja, a ultrapassagem da casa de 10 milhões de toneladas de grãos e, a partir daí, safras crescentemente maiores e recordistas, iria acontecer finalmente no começo da primeira década do século 21. A safra de 2003 atingiu volume de 11.505.119 toneladas de grãos, quase 10% de toda a produção nacional, que chegou a l25 milhões e 868 mil toneladas. A soja desponta como o maior cultivo, com 6 milhões e 319 mil toneladas colhidas em 2003, enquanto o Brasil colhia 51 milhões de toneladas. O milho aparecia em segundo lugar em volume colhido: 3 milhões e 660 mil toneladas de grãos. Em busca de autossuficiência na produção de trigo, o Brasil dobraria, em 2003, a colheita do ano anterior, com 5,9 milhões de toneladas. O consumo nessa época era de cerca de 10 milhões de

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toneladas. As maiores possibilidades de crescimento do volume estão no Centro-Oeste. E a fruticultura goiana vem crescendo em boa velocidade, estimando-se que se aproximasse de 70 mil toneladas em 2014. O notável fator desse incremento tem sido o da pesquisa. O sorgo cresceu no campo em Goiás. Com 683 mil toneladas colhidas em 2003, o Estado alcançaria o primeiro lugar no ranking da produção nacional. O Estado alcançaria o primeiro lugar também na produção de tomate, matéria-prima na sua maior parte encaminhada à indústria de atomatados. A colheita de l milhão de toneladas de 2003 correspondeu a 28% da produção brasileira. Quase dois mil pivôs centrais estavam instalados em Goiás no começo de 2004, movimentando a agricultura irrigada, que também cresceu bastante desde o início dos anos 1980, quando apenas sete deles estavam em operação no Estado. No algodão, Goiás ficou em segundo lugar no País, em 2003, colhendo 305 mil toneladas. Cultivos tradicionais no Estado, o feijão rendeu 290 mil toneladas na colheita de 2003, e o arroz, 244 mil toneladas. A cafeicultura teve espaço maior na economia goiana no passado, mas ainda aparece no contexto produtivo com participação de 10 milhões e 746 mil toneladas de grãos em 2003.

A AGROPECUÁRIA A pecuária bovina de Goiás entrou no século 21, vencendo o antigo embaraço de restrições e suspeitas quanto à sanidade do rebanho, pois recebeu a certificação internacional de zona livre de aftosa. É o quarto maior do País, com 20,1 milhões de cabeças, cerca de 12% do rebanho brasileiro. As carnes bovinas de Goiás chegam

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aos principais centros de consumo no País e conquistaram espaço no mercado internacional, sendo hoje o segundo item das exportações, atrás apenas do complexo soja. A pecuária leiteira alcançou o segundo lugar no ranking da produção brasileira, participando também das exportações de leite em pó. Na produção de carnes suínas, Goiás alcançou na primeira metade da primeira década do século 21, com abate acima de 900 mil cabeças e o nono lugar no ranking brasileiro. O Estado fica em sexto lugar na produção de aves, abatendo acima de 300 mil/ano. O avanço tecnológico da pecuária provocou o surgimento de polos coureiros, e Goiás exporta couros de primeira qualidade.

MINERAÇÃO A produção mineral de Goiás fecharia o ano de 2004 com dois primeiros lugares no ranking nacional: amianto e níquel. Nióbio, fosfato e vermiculita, em 2º lugar; e ouro, em 3º lugar.

COMÉRCIO EXTERIOR Com papel pouco expressivo no comércio exterior até o final da década de 1990, Goiás iria conseguir triplicar a sua participação nas exportações brasileiras nos primeiros anos da primeira década do século 21, ultrapassando os US$ l,5 bilhão. Principais importadores de produtos goianos: Holanda, Alemanha, Estados Unidos, Japão, China, França, Espanha, Rússia, Reino Unido e Chile. Produtos mais exportados: os do complexo soja, do complexo carne e do complexo mineral.

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PIB goiano passa de R$ 100 bilhões O governo e o empresariado goiano esperaram com ansiedade a ultrapassagem do cabalístico patamar de R$ 100 bilhões do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado, o que finalmente iria acontecer quando se aproximava o final de 2011. O PIB de 2011 chegou a R$ 102 bilhões. Entre 2006 e 2010, o avanço do PIB goiano foi de 25,78%, índice superior à média nacional, de 24,52%. É o nono maior no ranking do PIB entre todos os Estados. Os oito primeiros são, pela ordem, os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Bahia e Distrito Federal. As safras agrícolas de Goiás entre 2006 e 2010 registraram crescimento de 16%, realçando-se as culturas de soja, milho, sorgo e trigo. São importantes também os cultivos de algodão herbáceo, amendoim, arroz, café, feijão e girassol.A produção de cana de açúcar é mencionada mais adiante, neste texto. Goiás é um dos maiores produtores de carnes bovinas do País, com rebanho em torno de 20 milhões de cabeças, tem excelente desempenho na suinocultura. O rebanho suíno era de 1,3 milhão de cabeças em 2006, número que subiu para 2 milhões em 2010. A produção de leite no mesmo período passou de 2,648 bilhões de litros em 2005 para 3,086 bilhões em 2010. Quanto às aves, o plantel era de 39 milhões de cabeças em 2005 e chegou a 55 milhões de cabeças em 2010.

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Cana, açúcar e álcool O cultivo de cana e a produção de açúcar e de etanol, que já haviam experimentado crescimento entre 2000 e 2005, teve ainda ainda mais substancial entre 2006 e 2010. As usinas somavam 14 unidades em 2005 e chegaram a 36 em 2010. O mercado de trabalho nessa cadeia cresceu três vezes no período, com geração de empregos que saltou de 35 mil em 2005 para mais de 100 mil em 2010. A produção de açúcar elevou-se, no período, de 750 mil toneladas para 1,8 milhão de toneladas. Em 2005, foram 728 milhões de litros de etanol e 2,8 bilhões de litros em 2010. As exportações goianas somaram, em 2011, 5 bilhões e 805 milhões de dólares. No final da última década do século 20 não chegavam nem sequer a meio bilhão de dólares.

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Governadores e interinidades CARGO

POSSE

AFASTAMENTO

Pedro Ludovico (Eleição pela Assembleia)

Governador

20/4/1935

27/9/1935

Taciano Gomes

Gov. Interino

27/9/1935

21/10/1935

Pedro Ludovico

Governador

20/10/1935

10/5/1936

Hermógenes Coelho

Gov. Interino

10/5/1936

12/7/1936

Pedro Ludovico

Governador

12/7/1936

9/8/1937

João D´Abreu

Gov. Interino

9/8/1937

3/9/1937

Pedro Ludovico

Governador

3/9/1937

24/11/1937

Pedro Ludovico

Interv. Federal

26/11/1937

9/3/1942

João Teixeira

Interv. Interino

9/3/1942

28/3/1942

Pedro Ludovico

Interv. Federal

28/3/1942

24/9/1942

João Teixeira

Interv. Fed. Int.

24/9/1942

10/10/1942

Pedro Ludovico

Interv. Federal

10/10/1942

11/11/1942

João Teixeira

Interv. Fed. Int.

11/11/1942

21/11/1942

Pedro Ludovico

Interv. Federal

21/11/1942

20/7/1945

José Ludovico

Interv. Fed. Int.

20/7/1945

31/7/1945

Pedro Ludovico

Interv. Federal

31/7/1945

6/11/1945

Eládio de Amorim

Interv. Federal

6/11/1945

18/2/1946

Felipe Xavier

Interv. Federal

18/2/1946

4/8/1946

Paulo Fleury

Interv. Fed. Int.

4/8/1946

18/8/1946

Felipe Xavier

Interv. Federal

18/8/1946

12/9/1946

Belarmino Cruvinel

Interv. Federal

12/9/1946

22/10/1946

Joaquim Machado de Araújo

Interv. Federal

22/10/1946

5/12/1946

Hegesipo Meireles

Interv. Fed. Int.

5/12/1946

19/12/1946

Os Inquilinos da Casa Verde

333


Joaquim Machado de Araújo

Interv. Federal

19/12/1946

22/3/1947

Jerônimo Coimbra

Governador

22/3/1947

30/6/1950

Hosanah Campos Guimarães

Vice-gov.

1/7/1950

31/1/1951

Pedro Ludovico

Governador

31/1/1951

5/6/1952

Jonas Duarte

Vice-gov.

5/6/1952

1/9/1952

Pedro Ludovico

Governador

1/9/1952

30/1/1954

Jonas Duarte

Vice-gov.

30/1/1954

15/2/1954

Pedro Ludovico

Governador

15/2/1954

1/7/1954

Jonas Duarte

Vice-gov.

1/7/1954

31/1/1955

Bernardo Sayão

Vice-gov.

31/1/1955

12/3/1955

José Ludovico

Governador

12/3/1955

31/1/1959

José Feliciano

Governador

31/1/1959

31/1/1961

Mauro Borges

Governador

31/1/1961

24/4/1963

Almir Araújo

Interino

24/4/1963

29/5/1963

Mauro Borges

Governador

29/5/1963

26/11/1964

Carlos Meira Matos

Interventor

26/11/1964

23/1/1965

Emílio r. Ribas Júnior

Governador

23/1/1965

31/1/1966

Otávio Lage

Governador

31/1/1966

20/5/1968

Osires Teixeira

Vice-gov.

20/5/1968

3/7/1968

Otávio Lage

Vice-gov.

3/7/1968

15/3/1971

Leonino Caiado

Governador

15/3/1971

2/7/1973

Ursulino Tavares Leão

Vice-gov.

2/7/1973

12/7/1973

Leonino Caiado

Governador

12/7/1973

15/3/1975

Irapuan Costa Júnior

Governador

15/3/1975

5/1/1979

José Luiz Bittencourt

Vice-gov.

5/1/1979

15/1/1979

334

Hélio Rocha


Irapuan Costa Júnior

Governador

15/1/1979

15/3/1979

Ary Ribeiro Valadão

Governador

15/3/1979

15/3/1983

Iris Rezende Machado

Governador

15/3/1983

14/2/1986

Onofre Quinan

Vice-gov.

14/2/1986

15/3/1987

Henrique Santillo

Governador

15/3/1987

18/7/1989

Milton Alves

Gov. Interino

18/7/1989

3/8/1989

Henrique Santillo

Governador

3/8/1989

15/3/1991

Iris Rezende Machado (Maguito Vilela, assumiu durante viagens de Iris)

Governador

15/3/1991

2/4/1994

Agenor Rezende

Pres. Assembleia

2/4/1994

1/1/1995

Maguito Vilela

Governador

1/1/1995

3/4/1998

Naphtali Alves

Vice-gov.

3/4/1998

24/11/1998

Helenês Cândido

Pres. Assembleia

24/11/1998

1/1/1999

Marconi Perillo

Governador

1/1/1999

12/3/1999

Alcides Rodrigues

Vice-gov.

12/3/1999

20/3/1999

Marconi Perillo

Governador

20/3/1999

16/4/1999

Alcides Rodrigues

Vice-gov.

16/4/1999

28/4/1999

Marconi Perillo

Governador

28/4/1999

26/4/2000

Sebastião Tejota

Gov. Interino

26/4/2000

5/5/2000

Marconi Perillo

Governador

5/5/2000

31/7/2000

Joaquim Henrique de Sá

Gov. Interino

31/7/2000

7/8/2000

Marconi Perillo

Governador

7/8/2000

9/3/2001

Alcides Rodrigues

Vice-gov.

9/3/2001

22/3/2001

Marconi Perillo

Governador

22/3/2001

7/1/2002

Alcides Rodrigues

Vice-gov.

7/1/2002

12/1/2002

Os Inquilinos da Casa Verde

335


Marconi Perillo

Governador

12/1/2002

4/12/2002

Byron Seabra Guimarães

Gov. Interino

4/12/2002

15/12/2002

Marconi Perillo

Governador

15/12/2002

12/5/2003

Alcides Rodrigues

Vice-gov.

12/5/2003

23/5/2003

Marconi Perillo

Governador

23/5/2003

7/9/2003

Alcides Rodrigues

Vice-gov.

7/9/2003

14/9/2003

Marconi Perillo

Governador

14/9/2003

2/12/2003

Célio Silveira

Gov. Interino

2/12/2003

11/12/2003

Marconi Perillo

Governador

11/12/2003

17/1/2004

Alcides Rodrigues

Vice-gov.

17/1/2004

28/1/2004

Marconi Perillo

Governador

28/1/2004

27/4/2004

Charife Oscar Abrão

Gov. Interino

27/4/2004

4/5/2004

Marconi Perillo

Governador

4/5/2004

31/3/2006

Alcides Rodrigues

Vice-gov.

31/3/2006

31/12/2006

Alcides Rodrigues

Governador

1º/1/2007

31/12/2010

Ademir Menezes

Gov. Interino

28/10/2007

31/10/2007

Alcides Rodrigues

Governador

1º/11/2007

3/9/2009

Ademir Menezes

Gov. Interino

4/9/2009

18/9/2009

Alcides Rodrigues

Governador

19/9/2009

4/12/2009

Ademir Menezes

Gov. Interino

4/12/2009

...

Alcides Rodrigues

Governador

...

13/2/2010

Ademir Menezes

Gov. Interino

13/2/2010

26/2/2010

Alcides Rodrigues

Governador

26/2/2010

31/12/2010

Marconi Perillo

Governador

1º/1/2011

16/8/2011

José Eliton

Gov. Interino

16/8/2011

29/8/2011

Marconi Perillo

Governador

29/8/2011

8/9/2011

336

Hélio Rocha


JosĂŠ Eliton

Gov. Interino

8/9/2011

22/9/2011

Marconi Perillo

Governador

22/9/2011

5/10/2011

JosĂŠ Eliton

Gov. Interino

5/10/2011

8/10/2011

Marconi Perillo

Governador

8/10/2011

2/1/2012

Jardel Sebba

Pres. Assembleia

2/1/2012

10/1/2012

Marconi Perillo

Governador

10/1/2012

...

Obs.:

Os Inquilinos da Casa Verde

337


Este livro foi impresso na oficina da Asa Editora Gráfica/ Kelps, no papel: pollen soft 80g, composto na fonte Liberation Serif corpo 12 Junho, 2018 A revisão final desta obra é de responsabilidade do autor

2018 inquilinos versão para revisao  
2018 inquilinos versão para revisao  
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