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REVISTA DA ACADÉMICA DA MADEIRA

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Magnífico(a) Reitor(a)? Brevemente…


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Atenuar as dificuldades!

CARLOS ABREU 8.º Presidente da Direcção da Académica da Madeira

Apesar de terem sido detectados outros vírus mortais desde a entrada no presente milénio, o SARS-CoV-2 continua a ter um grande impacto na nossa sociedade, inclusive no funcionamento do ensino superior. Dentro da panóplia de desafios associados à frequência do ensino superior, alguns deles surgiram e outros agravaram-se. Hoje, o principal desafio é saber conviver e lidar com este vírus em ambiente académico e familiar: continuar a olhar para a saúde como um bem comum e a respeitar as medidas de segurança e de higiene sanitária — enquanto a solução definitiva para combater este vírus não se tornar uma realidade —, são medidas eficazes para a segurança da nossa comunidade. Todos os nossos espaços e serviços respeitam essas medidas, preparados para receber o novo ano lectivo. Em consequência das medidas impostas de isolamento social, a situação económica dos agregados familiares dos estudantes ficaram mais instáveis e, por isso, as medidas de apoio social são, mais do que nunca, fundamentais para a boa prossecução dos estudantes no ensino superior. Com o arranque do ano lectivo, não te esqueças de submeter a tua candidatura à Bolsa de Estudo da Direcção-Geral do Ensino Superior! Poderás encontrar toda a informação no nosso portal sobre este e outros mecanismos de apoio social. Neste semestre, conta com a Académica da Madeira para te auxiliar em qualquer momento do teu percurso académico! Se tiveres alguma dúvida ou dificuldade, não hesites em contactar-nos. Continuamos aqui a procurar garantir que as dificuldades sentidas pelos estudantes são atenuadas. Conta connosco!

FICHA TÉCNICA EDIÇÃO: #89 · PROPRIEDADE: Académica da Madeira · EDITORA: Imprensa Académica · EDITOR: Luís Ferro · COORDENADOR: Andreia Nascimento · REVISÃO: Carlos Diogo Pereira · REVISÃO DE TEXTOS EM INGLÊS: Hrafnkatla Arnarsdóttir · DESIGN GRÁFICO: Pedro Pessoa · CARTOON: Teresa Vieira · TEXTO DA CONTRACAPA: Cristina Pinheiro · AUTORES DOS TEXTOS: Estudantes, antigos estudantes e professores da Universidade da Madeira; voluntários europeus dos programas da Académica e entidades externas · ISSN: 2184-5646 O CONTEÚDO DESTA PUBLICAÇÃO NÃO PODE SER REPRODUZIDO NO TODO, OU EM PARTE, SEM AUTORIZAÇÃO ESCRITA DA EDITORA AS OPINIÕES EXPRESSAS NA REVISTA SÃO AS DOS AUTORES E NÃO NECESSARIAMENTE AS DA ACADÉMICA DA MADEIRA. A REVISTA ET AL. É ESCRITA COM A ANTIGA ORTOGRAFIA, SALVO OS ARTIGOS ASSINALADOS.


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Novo ano letivo na UMa começa com o apoio dos estudantes de anos avançados ANDREIA MICAELA NASCIMENTO

O programa Embaixadores, da responsabilidade da Académica da Madeira e com o apoio da Direção Regional da Juventude, prevê que um conjunto de estudantes de anos avançados receba e oriente, nos primeiros dias de aulas, os estudantes recém-chegados à Universidade.

Devido às circunstâncias decorrentes da pandemia e da não organização da Receção ao Caloiro, do formato incerto das aulas (à distância ou presenciais) e do maior grau de incerteza, stress e de ansiedade com que chegam os estudantes ao ensino superior e à Universidade da Madeira, os Embaixadores assumiram uma importância extrema. Os estudantes que responderam afirmativa-

Fazer parte do programa é uma mais valia quer para ajudar os novos alunos a conhecerem melhor a universidade e sentirem-se bem recebidos, quer também para o meu desenvolvimento profissional e pessoal. A minha experiência como embaixador tentou co0ntribuir para que os novos alunos fossem mais autônomos e a nível pessoal melhorou as minhas capacidades de comunicação.

Ser embaixadora de um curso que não o meu foi desafiante dado que é um curso novo na UMa. Tentei orientar os colegas e criar uma ligação positiva entre a universidade e o estudante, garantindo a adaptação do mesmo a uma nova realidade. Este programa é importante pois prioriza as necessidades do estudante e esclarece as dúvidas do mesmo.

Fábio Pita

Cátia Rodrigues


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Com o apoio:

mente ao desafio da Académica da Madeira tiveram uma valiosa experiência de trabalho, além de devolver algo à comunidade local e à sua Universidade”. O programa complementa todas as outras ações que foram desenvolvidas quer pelos Conselhos de Curso, quer pelas Tunas quer, ainda, pelo Conselho de Veteranos. Numa época incerta, como a que hoje vivemos, o trabalho conjunto é fundamental”.

O programa não objetivou ocupar o lugar ou substituir as atividades da praxe, atividades que este ano foram suspensas pela Reitoria da UMa. Os embaixadores intentam ser uma ligação entre a UMa e os estudantes do 1.º ano, dos cursos profissionais e licenciaturas, ajudando naquelas que são as dúvidas e anseios dos primeiros dias de aulas.

Com este novo programa da Associação Académica, foi possível acolher os novos alunos na Universidade da Madeira, de um modo que se sintam em casa. Criei um grupo virtual com todos os novos alunos de Engenharia, de forma a esclarecer todas as dúvidas que lhes ocorram acerca do seu curso, da Universidade ou de qualquer outro assunto do Ensino Superior. Ainda está para ser agendada uma visita guiada pelo Campus da Penteada, de forma a conhecer as instalações da UMa.

Este projeto está a ser muito gratificante, pois revejo-me nos meus colegas. Compreendo bem os seus receios e preocupações e é nesse sentido que tenho tentado deixá-los o mais confortáveis possível, explicando o funcionamento do novo ano e da própria Universidade e estando disponível para qualquer esclarecimento. Penso que o nosso papel de Embaixadores, no dia das Matrículas, foi sem dúvida uma mais valia para os novos alunos, uma vez que muitos deles se sentiam perdidos com tudo o estava a acontecer e este foi o seu primeiro contacto com a Universidade.

Alex Faria

Inês Correia


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Sportswoman Project co-financed by:

LAVINIA HAAS Students' Union German Volunteer

Magdalena Neuner is a German biathlete. She won several heats and three times the overall WorldCup. She has also twice won the gold medal in the Olympics in 2010. Her career started in 2006 and ended in 2012. Neuner was born on February 9th, 1987 in Garmisch-Partenkirchen, a small village next to the border to Austria. She started skiing at a very young age. At the age of 9, she had the opportunity to join a biatheletic trial lesson. Since then, she was fascinated by the sport and continued it successfully for many years. She mastered her first huge competition, the junior WorldCup, at the age of 16 and even won the Gold medal for several times. Finally, at the age of 19, she was a triple world champion and a steady part of the national team. She joined the Olympics 6 times. At the height of her career in 2012, she decided to retire. Nowadays, she is married to Josef Holzer and has two children.


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30%* em compras iguais ou superiores a €25 em wook.pt 20%* em compras inferiores a €25 em wook.pt

*

*Não inclui novidades, livros escolares, ebooks e livros vendidos em marketplace.

WOOK


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Classes (mais) jovens e o caminho da(s) sustentabilidade(s)

GUILHERME VIEIRA Aluno da UMa

Na perspectiva dos grupos mais jovens e, sobretudo, ao nível académico, a sustentabilidade económica surge como preocupação crescente. Em tempos de crise, essa questão é um problema que se intensifica. Porém, outras soluções poderão ser reequacionadas nessa direcção e, tendo em conta a actual situação pandémica, a maior procura pelos meios digitais pode resultar precisamente numa eficaz e ponderada gestão dos recursos económicos. Outrossim, o trabalho das Nações Unidas tem visado um desenvolvimento sustentável, no âmbito da Agenda 2030. Veremos se, à velocidade frenética advinda de um progresso científico e tecnológico diário, a sociedade não se descaracterize em termos do seu ethos cultural ou se, porventura, possa potencializar o crescimento do sistema económico ao nível global, de modo a garantir um caminho sustentável. Certamente que, as classes mais jovens em questão, já tiveram a oportunidade de utilizar um cartão de débito ou, até mesmo, outra modalidade afim, que as permitisse efectuar operações sobretudo de transferência ou de levantamento.

Caso ainda não tenha acontecido, em princípio, os pais e outros familiares decerto já usaram determinados cartões bancários. Quero dizer com isto que, desde muito cedo, apesar de não se manifestar directamente na prática, lidamos com métodos de sustentabilidade económica, no caso, em ambiente familiar. Contudo, em que medida utilizamos ferramentas de sustentabilidade económica, em fases da vida, como por exemplo, a que se sente actualmente? Efectivamente, a resposta encontra-se nos meios digitais. A título exemplificativo, a criação de plataformas dedicadas ao mercado livreiro introduz-se como uma alternativa sustentável, visto que permite aos leitores na sua generalidade e, neste contexto, aos mais jovens, efectuarem uma selecção dos vários e-books, entrevistas e outras informações que se encontram disponíveis, dos(as) quais lhes suscite mais interesse, bem como encomendar algum livro e, neste sentido, dispondo daqueles que forem os métodos de pagamento mais convenientes: PayPal, MB Way, cartão de crédito, entre outros. Deste modo, a área do livro também recuperará nos vários sectores que dinamizam e contribuem para o seu crescimento económico, desde os agentes editoriais até aos autores.


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Relativamente à Agenda 2030, esta pode servir como porta-estandarte para que os jovens se guiem numa linha de pensamento mais comunitária e associada aos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que se estabeleceram em 2015. A base para uma sustentabilidade global não só está presente economicamente, mas também social e ambientalmente. Por outras palavras, são esses três pilares que funcionam articuladamente e permitem às gerações jovens actuais não comprometerem o futuro daquelas que lhes sucederão. Por isso, quando pensamos numa sociedade mais desenvolvida tecnologicamente em paralelo com o progresso científico, não há certezas que a questão da sustentabilidade esteja resolvida. Como poderemos explicar essa evidência que nos conduz a uma reflexão? Significa que ao caminharmos cada vez mais para uma óptica de manipulação do ser humano e, consequentemente, para uma substituição pelas máquinas robotizadas, estaremos inevitavelmente a associar-nos a uma corrente pós-humanista alicerçada a um transhumanismo, que apodera-se de uma sensibilidade humana entorpecida. Os riscos de que incorremos serão: em relação à sustentabilidade económica, com a redução das horas de trabalho

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e com uma redefinição dos contratos laborais, que pode resultar em mais despedimentos; no domínio social, a descrença nas capacidades práticas que, naturalmente, o ser humano por ele próprio fazia, o que resulta num afastamento social em relação a algumas actividades em grupo e, por fim; no domínio ambiental, a presença de armas completamente autónomas é um dos exemplos, que pode proliferar maior destruição dos habitats naturais. Cabe ao ser humano e, neste sentido, as classes mais jovens desempenham um papel fundamental, prever os prós e os contras destas alterações significativas ao nível da(s) sustentabilidade(s), programando as inteligências artificiais de forma segura e com uma distribuição equitativa por cada sector empresarial ou unidades de emprego. Em conclusão, o caminho da sustentabilidade económica é desenvolvimento de uma estrutura holística, que trabalha quotidianamente para assegurar os recursos indispensáveis ao seu funcionamento. Em tempos de crise, as classes mais jovens representam a força motriz de uma economia mais digital, mas também mais social e ambiental. Assim, esperemos que essa dicotomia pós-humana e transhumana se mobilize como raiz ética para reflectirmos sempre em sustentabilidade(s).


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A visão do Outro A maneira como vemos os outros e outros nos veem tem sido crucial nos estudos antropológicos, mas tem despertado pouco interesse na Madeira.

REDESCOBRIR A MADEIRA

RUI CARITA Professor da UMa

Há séculos que os homens viajam pelo mundo, entrando em contacto com outras sociedades e povos, relatando depois as suas experiências. Ao longo do século XIX, inclusivamente, muitos desses relatos foram acompanhados por apontamentos em desenho e aguarela, alguns depois divulgados em litografia. A partir da segunda metade do século e com a divulgação da fotografia, a situação mudou bastante, perdendo grande parte da sua carga afetiva. A análise das opiniões dos estrangeiros sobre os madeirenses e o seu quotidiano tem sido

trabalhada por vários investigadores, como o Dr. António Marques da Silva, para os viajantes de língua inglesa e Eberhard Axel Wilhelm, para os de língua alemã. A opinião destes viajantes não é muito diferente, elogiando quase sempre a classe mais abastada madeirense, mas criticando quase ferozmente as classes mais humildes, que a depois célebre escritora Maria Ridell, ainda nos finais do século XVIII, não se coíbe de apelidar de “indolentes, sujas e propensas ao roubo”. Alguns anos depois, Alfred Lyall, in Rambles in Madeira (1827), só não apoia a última opinião, quando refere a propósito da dificuldade em recrutar criados no Funchal, que são uma “raça desleixada em que só se pode confiar quanto à honestidade”.


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Nos meados do século a inteligente e atenta inglesa Isabella de França, volta a tecer as piores críticas aos mais desfavorecidos, chegando a escrever “que não serão estúpidos, mas fingem sê-lo, o que aliás acontece com todos os camponeses”. Acrescenta mesmo, que “além da sua desonestidade, os camponeses são muito cobardes” e “são espertíssimos, fingindo sempre extrema ignorância e estupidez, e ao mesmo tempo, como quase todos os velhacos, muito desconfiados, crendo sempre os outros tão maus como eles”. As piores críticas, entretanto, especialmente dos viajantes britânicos, vão para o clero, não conseguindo entender como uma população tão diminuta conseguia suportar economicamente

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um tão elevado número de religiosos regulares e irregulares. As litografias divulgadas pelas oficinas londrinas são, inclusivamente, de enorme e mordaz crítica, sendo mesmo anedóticas. Resta, no entanto, saber quem foram os autores de alguns dos desenhos que serviram de base a essas litografias, pois, muito provavelmente, algumas partiram de desenhos enviados da Madeira e por autores daqui naturais. Estas e outras opiniões, como as expressas por Isabella de França, quase ofendida com o regresso dos ex-emigrantes endinheirados de Demerara, que levantavam residências que ombreavam com as dos comerciantes ingleses, parece apontar mais para quase “luta de classes” que para outra coisa.


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Uma experiência Erasmus+ atípica Project co-financed by:

ALEX FARIA Aluno da UMa

Maribor, a segunda maior cidade da Eslovénia, foi a cidade onde realizei a minha experiência Erasmus+, na qual permaneci por cerca de 5 meses. É verdade que não tive muitas escolhas, pois a Universidade de Maribor oferecia maior facilidade nas equivalências, quando comparada a outras universidades, mas sinto ter sido a escolha mais adequada. Cheguei à cidade na segunda quinzena de Fevereiro, quando a situação pandémica começou a piorar em toda a Europa. Além do mais, era no norte de Itália que o número de casos de Covid-19 era mais elevado. Como essa é uma região que faz fronteira com a Eslovénia, vários colegas começaram a procurar soluções para regressar aos seus países de origem e muitos deles cancelaram a sua experiência Erasmus+ em menos de um mês. Cheguei a marcar o regresso a Portugal, mas poucos dias depois vi a minha viagem cancelada, pelo que decidi permanecer lá até ao final do semestre. Nos primeiros três meses, estive fechado na residência. Apenas saía para ir ao supermercado ou à farmácia. Ao longo do semestre, tive aulas e exames por videoconferência.

Após esses três longos meses, a Eslovénia foi o primeiro país da Europa a declarar o fim da epidemia de coronavírus, começando muitas actividades a regressar à normalidade e, consequentemente, poderia explorar um pouco a Europa. Foi isso que fiz, viajando pela Eslovénia de norte a sul, além de estar na Croácia, na Áustria e ainda na Alemanha. O número de estudantes portugueses a efectuarem Erasmus+ tenha caído em mais de 70%, neste semestre, como se anunciava em Outubro. O Conselho Europeu, porém, anunciou aumentar o valor das bolsas neste programa em 55%. Recomendo, vivamente, caso tenhas a oportunidade de realizar Erasmus+, que o faças, porque irás aprender novas competências a nível pessoal, bem como a nível académico.


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O movimento associativo nacional “Académicas.” composto pelas Associações Académicas das Universidades de Aveiro, do Algarve, da Beira Interior, de Coimbra, de Évora, da Madeira, do Minho e de Trás-os-Montes e Alto Douro, foi formado em Junho de 2020. A Académica da Madeira integrou o movimento em Outubro deste ano.

ANDREIA MICAELA NASCIMENTO ALUMNUS

O movimento associativo Académicas., composto pelas associações académicas de oito universidades - Aveiro, Algarve, Beira Interior, Coimbra, Évora, Madeira, Minho e Trás-os-Montes e Alto Douro - surge para promover a discussão sobre o futuro do ensino superior em Portugal. Tendo em consideração o contexto que atravessamos, entendem ser necessária uma reflexão profunda e urgente sobre o futuro do Ensino Superior em Portugal, com balanço nas respostas de emergência que as suas Instituições de Ensino Superior propuseram, mas, acima de tudo, promover a discussão numa ótica de oportunidade de mudança e evolução para o futuro.


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Quando questionado sobre as razões que levaram a Académica da Madeira a integrar este movimento associativo nacional, o Presidente da Direção, Eng. Carlos Abreu, responde que “as decisões sobre o ensino superior devem também ser tomadas auscultando os estudantes, independentemente da região do país onde estudam. Isso é fundamental. Além disso, e no nosso caso enquanto estudantes da mais nova instituição de ensino superior público português, localizada numa região insular e com estatuto de ultraperiférica, vivemos desafios e constrangimentos específicos que precisam ser minimizados. A insularidade constitui-se como um grande desafio do ensino superior português”. O movimento associativo pretende juntar as vozes dos estudantes das diversas instituições e ajudar o Governo na tomada de medidas para o futuro ao apresentar aquilo que consideram, na visão dos estudantes, preocupações e reformas fundamentais para o Ensino Superior e para o país. Por considerarem que o futuro de Portugal depende do ensino superior o movimento “Académicas.” lançou agora uma nova campanha com o objetivo de reivindicar o aumento do financiamento para o Ensino Superior no Orçamento de Estado. A campanha tem por base as principais preocupa-

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ções dos estudantes que as estruturas estudantis representam e ouviram, nomeadamente no que diz respeito aos problemas relacionados com o financiamento, a qualidade da educação, o alojamento, o impacto da pandemia na saúde mental dos estudantes, o transporte, a resposta das Academias à situação pandémica e a oferta formativa. Não quero depender de quanto a minha família ganha para continuar a estudar! Quero escolher onde e o que estudo! Preciso que a bolsa não seja para a propina! Preciso de apoio e soluções para me deslocar, porque a minha cidade não tem Metro! O Plano de Alojamento também tem de ser para mim! Quero ter onde dormir! Quero dormir num quarto que tenha mais que quatro paredes e uma cama! Já não cabemos nas salas! Quero sair das aulas e ter onde estudar! Quero ir para mestrado e doutoramento sem ter que vender um rim! Quero aprender de uma forma diferente dos meus pais! Gostava de não ter de tomar um ansiolítico para me conseguir sentar a fazer um teste.


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EM PORTUGUÊS ESCORREITO HELENA REBELO Professora da UMa

ASSESSORIA LINGUÍSTICA Usar qualquer língua obriga à reflexão sobre ela. A Assessoria Linguística deveria ser indispensável para evitar usos desadequados.

Em dois meses, disseminou-se um vocabulário que marca 2020: “Coronavírus”, “pandemia”, “isolamento social” (Pode um isolamento ser social?), “máscara”, “tele-ensino”, “teletrabalho”, “Covid-19”, etc. A lista é longa e observam-se hesitações. Por exemplo, “pandemia” é do género feminino. Porém, “vírus” é masculino, assim como “Coronavírus” ou “Covid-19”. No entanto, ouve-se, e lê-se, este último no feminino. Mesmo influenciado por “pandemia”, não deixa de ser um masculino: “o Covid-19”. A Assessoria Linguística deveria ser requerida por políticos e outros profissionais, incluindo docentes. Foi alarmante ouvir repetir “OK”, numa aula de Português para o 1.º ano e o 2.º do 1.º Ciclo do Ensino Básico, na televisão nacional. Pode desculpar-se o nervosismo da docente, mas generalizar, em português, este acrónimo inglês (de uso coloquial e popular), numa sala de aula televisiva, destinada a crianças de 6-7 anos, não deixa de ser preocupante. Recentemente, perguntavam-me se se podia dizer “uma esmagadora maioria” e “uma grande maioria”. Será adequado associar características como “esmagadora” e “grande” a um nome como “maioria”? Embora não fazendo muito sentido, devido à imprecisão daqueles adjectivos, “maioria” pode ser qualificada. Diz-se “maioria absoluta” e “maioria relativa”, em situação de votação. Os adjectivos colocados antes do nome, mas também depois, (como “esmagadora”) vão indicar qualidades pontuais e os colocados após (como “absoluta”) identificam, nestes casos, categorias diferentes de “maioria”.


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tez tes tês têz

rez res rês rêz

Aceitam-se ambos: “uma inesquecível maioria absoluta”. Num determinado conjunto de elementos, considerando “maioria” o subconjunto correspondente a “metade mais um”, não seria necessário qualificá-la. Todavia, às vezes, é mais do que isso. Desconhecendo-se a quantidade certa, é possível adicionar qualificativos que introduzam ideias vagas como a de “esmagadora” (que derrota, “es-

magando”, o adversário menos votado, se houve votação). Assim, “maioria” equivale a um número que ultrapassa em muito a linha de “metade mais um”, sem se saber qual é a contagem final. Não se precisando quantos são, apenas se quer realçar que a “maioria é inequívoca”. A Assessoria Linguística profissional deveria ser uma exigência. Vejam-se os casos de “tez” e “rês”.

1. A …………………. da cebola é acastanhada.

2. O agricultor comprou uma ………………………

Preencher o espaço com a forma certa: tez/ tes/ tês/ têz.

Preencher o espaço com a forma certa: rez/ res/ rês/ rêz.

Solução: A tez da cebola é acastanhada.

Solução: O agricultor comprou uma rês.

Explicação: A etimologia de “tez” (“superfície fina de qualquer coisa, incluindo a epiderme do rosto”) é de origem duvidosa. No passado, escreveu-se “tex” e “tês”, fixando-se com “z”, por, segundo Corominas, ter origem em “*atez, por aptez”.

Explicação: Um animal quadrúpede destinado à alimentação humana é uma “rês”. Virá do árabe: “rá,s”, significando “cabeça”. Estão atestadas “rex”, “res” e “rezes”, fixando-se “rês”.


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Religião: como e porquê? SOFIA GOMES Aluna da UMa

A religião e o culto do divino existem desde que o ser humano se apercebeu da sua própria existência no mundo e nascem da necessidade de explicar os eventos que sucedem na sua interação com o mesmo e com os outros elementos da própria espécie. Segundo o antropólogo inglês, Edward Tylor, as primeiras civilizações criam no animismo, ou seja, na existência da alma como um elemento que ultrapassa a morte do corpo. Ainda nesta linha de pensamento, o antropólogo R. R. Marrett observou que as culturas indígenas dos continentes africano e americano acreditavam que existia uma força inerente aos seres vivos e à natureza que inspirava temor e reverência ao ser humano. De facto, o conceito de alma está presente em diversas religiões. Em segundo lugar, uma vez que as religiões partilham diversos elementos, é justo deliberar o contacto entre os indivíduos da mesma religião e a interação com pessoas de outra. Anteriormente ao Iluminismo, a fé era transmitida de pais para filhos e explicava o funcionamento do mundo. Questioná-la era um ato censurável e punível. Com efeito, não é por acaso que a Igreja Católica lutou afincadamente para se preservar como a única detentora do

conhecimento, dado que assim se manteria como a autoridade incontestável. Por este mesmo motivo, outras religiões não eram aceites, pois apesar de terem similaridades, as suas diferenças eram o suficiente para abalar o modo de vida da sociedade, em especial se atentarmos que o Homem nem sempre separou a fé dos assuntos políticos. Não obstante, o século XXI oferece uma maior liberdade religiosa. Se antes da globalização muitos indivíduos não conseguiam cogitar a existência de uma religião distinta da sua, nos dias que correm as pessoas encontram-se melhor esclarecidas. Segundo o The World Factbook, em 2012, 28% da população mundial era cristã, 22% professava o islamismo, 15% cria no hinduísmo e 12% não possuía religião. Contrariamente ao passado, o avanço da ciência e a promoção da educação fornecem explicações sobre o funcionamento do mundo e até mesmo sobre a mente humana. Assim sendo, o que leva os contemporâneos a professarem uma determinada religião? Tal como no passado, a transmissão dos valores religiosos de pais para filhos continua a ser um grande fator. Por outro lado, existem pessoas que procuram a religião após um acontecimento traumático ou de extrema importância e a fé torna-se um meio de renovação e cura interior. Terceiramente, uma pessoa pode abdicar ou


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até mesmo mudar de religião. Isto pode dever-se ao facto dos seus valores deixarem de coincidir com os valores da religião que praticam ou por deixarem de acreditar no divino. Noutros casos, uma pessoa muda de religião para poder casar-se com o seu parceiro, como é o caso de Meghan Markle que se converteu à Igreja Anglicana para contrair matrimónio com o príncipe Harry. Adicionalmente, existem aqueles que recusam a religiosidade como forma de protesto contra o uso desta para justificar atitudes que atentam

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contra o bem-estar do outro. Um bom exemplo disto aconteceu em 2017, no Tribunal da Relação do Porto: um homem agrediu a ex-mulher com uma moca por esta ter encontrado um novo companheiro e o juiz encarregado do processo defende a sua atitude, recorrendo a citações bíblicas que fazem a apologia da submissão da mulher ao homem. Concluindo, a religião confere alento ao Homem, porém é inadmissível o seu uso para ferir o outro ou legitimar atos que contradigam os direitos humanos.


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MEMORANDVM

“Pragas e pestilências ou o desespero do ser humano perante um inimigo invisível” CRISTINA SANTOS PINHEIRO Professora da UMa

A ideia de que vivemos tempos inéditos, de que nunca nada disto antes se viu, aliada às imagens de ruas desertas, de cadáveres e caixões amontoados em igrejas ou armazéns, de unidades de cuidados intensivos em que nada mais se ouve que não o estertor da morte e os sons impiedosos das máquinas, tem-nos sido trazida pelos meios de comunicação social nestes que foram meses de apreensão e inquietude. É, porém, um grave erro histórico pensarmos que a ameaça de um inimigo invisível, mas omnipresente, tem algo de novo. Ao longo da sua história a humanidade enfrentou surtos epidémicos de causas, origens e características diversas, mas que tiveram em comum precisamente esta sensação de impotência e de incapacidade que tem o condão de nos reduzir, enquanto seres humanos, à nossa reconhecida e por vezes bem lembrada impotência. Para cumprirmos o objectivo desta secção – Memorandum, isto é, “o que deve ser lembrado” – queremos lembrar neste número alguns dos tópicos mais frequentes nos textos gregos e romanos sobre surtos de doenças contagiosas. O que propomos é um desafio do tipo “descubra as diferenças” entre o que nos legou a cultura clássica e o que enfrentamos na actualidade. Ao

leitor deixamos toda a liberdade para estabelecer as ligações que e como quiser. Baseamo-nos em textos de épocas diversas, desde Homero a Galeno, e de géneros literários distintos relacionados com a épica, a tragédia, a historiografia, a medicina… Um dos elementos mais significativos nestes textos e, em especial, naquele que constituiu, pelos séculos fora, uma espécie de modelo para a descrição de pestilências – referimo-nos à obra de Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, que descreve a peste de Atenas de 430-426 a. C. – é o relato vivo e complexo das consequências de ordem social e moral deste tipo de enfermidades. A inexistência de distinções de ordem social, baseadas na idade, no sexo, na riqueza, no estatuto, é reconhecida como uma inversão das normas. O contágio que se espalha sem fazer distinção entre o jovem e o idoso, a mulher e o homem, o pobre e o rico, o escravo e o cidadão livre representa a destruição da ordem social numa comunidade que tem os seus fundamentos precisamente na diferença. Nas cidades que se apresentam aos olhos do leitor vêem-se moribundos e cadáveres, tanto espalhados e insepultos pelas ruas, como no interior dos edifícios públicos e privados. O abandono dos rituais fúnebres – que aumenta, como os autores reconhecem, o perigo de contágio – é também um sinal da decadência moral que se identifica em so-


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ciedades em que o desespero e a certeza de uma morte próxima tornam irrelevante o cumprimento da lei. A estrutura das sociedades antigas, fortemente enraizada nas relações familiares, é arruinada pelo medo do contágio. Os doentes vêem-se abandonados e os poucos que deles se aproximam são, muitas vezes, cremados na mesma pira, diz-nos Tácito. Por fim, um esclarecimento. Ainda que se diga que os antigos não tinham conhecimento correcto das formas de contágio, é preciso ter em consideração que: 1) sabiam que algumas doenças afectavam apenas grupos ou comunidades; 2) que estas doenças passavam de um indivíduo para outro. A explicação mais frequente para este tipo de doenças baseava-se na existência de miasmata no ar, que teriam origem em vapores insalubres, como os exalados pelos cadáveres num campo de batalha ou pelas águas estagnadas e fétidas. Esta explicação manteve-se durante séculos, por vezes aliada à vontade e à ira divinas, pelo menos até que, na sua obra De contagione et contagiosis morbis, publicada em 1546, Girolamo Fracastoro apresentou a teoria de que as doenças epidémicas são causadas por partículas minúsculas que são transmitidas por um indivíduo doente para um indivíduo em contacto com ele. Nihil novi, nada de novo, portanto, e, também como no passado, aprenderemos e avançaremos, recordados mais do que nunca de omnia mors aequat, a morte nivela tudo.


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NUTRIÇÃO

… para um melhor sistema imunológico. BRUNO SOUSA Nutricionista

O sistema imunológico tem como missão proteger o corpo humano e capacitá-lo para lutar contra as infeções causada por vírus ou bactérias, sendo certo que um sistema imunológico saudável, consegue eliminar mais facilmente o indesejável. Desenvolve inúmeras reações que invariavelmente necessitam de energia e da presença de diversos nutrientes, pelo que, em primeiro lugar é fundamental ter uma ingestão energética adequada, isto é, de uma quantidade de comida ajustada às necessidades individuais de cada um, evitando situações de desnutrição ou de excesso de peso, que podem originar alterações imunológicas. As reações deste sistema necessitam ainda de um aporte adequado de nutrientes, potenciando desta forma as defesas do nosso organismo, dos quais, há a destacar os ácidos gordos ómega 3 e 6, as vitaminas A, B6, C, E e ácido fólico, e ainda o selénio, o ferro, o cobre e o zinco. Para satisfazer estas necessidades nutricionais, há que escolher uma alimentação diversificada, e onde estejam presentes diariamente os hortícolas, as frutas, as leguminosas, os cereais integrais, o peixe, os frutos secos, as sementes e o azeite, sempre com peso e medida! Os iogurtes e os leites fermenta-

dos contêm também compostos ativos importantes na imunidade. Aqui, não é particularizado, por exemplo, nos hortícolas, um alimento em particular, pois é mais importante variar o consumo dentro dos alimentos de cada grupo, do que estar sempre a consumir o mesmo alimento, mesmo que tenha grandes propriedades. Há também que realçar que é útil escolher, os alimentos da época, locais, e com um elevado grau de frescura. Assim, potenciamos todos os seu componentes. Atenção deve igualmente ser dada à confeção dos alimentos, para que não se exceda as perdas nutricionais. Cozinhar a vapor ou em pouca água, evitar os fritos e nos grelhados as partes carbonizadas, pode ajudar. É também importante destacar que se deve providenciar uma boa hidratação, escolhendo a água como bebida de eleição, podendo também optar pelas infusões ou tisanas, ou ainda pelos sumos de fruta naturais. Contudo, há ainda de enaltecer o papel da sopa. Hidrata e é um excelente fornecedor de imunonutrientes. Realça-se assim a importância de uma alimentação adequada e diversificada para proteger o nosso organismo, não havendo necessidade de consumir suplementos nutricionais para o efeito. Opte sim… por uma alimentação muito nutritiva!


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Os impactos do COVID-19 e organizadas e nos direito

DIREÇÃO DE SERVIÇOS DO CONSUMIDOR

Desde o surgimento da Pandemia, passámos a conhecer uma realidade nova, à qual consumidores, empresas e cidadãos em geral tiveram de se adaptar: uma verdadeira realidade de exceção, que alterou, de modo substancial, as circunstâncias existentes até então, e que obrigou a redefinir estratégias de reação, num cenário tão incerto. Da alteração desse estado normal em que vivíamos, resultaram inevitáveis consequências negativas nos mais variados domínios e setores de atividade. A inexistência de “culpados”, face ao carácter extraordinário e inesperado desta situação, conduziu à impossibilidade de se imputar responsabilidades pelos impactos negativos causados pela propagação da doença CODIV-19, sendo que, essa circunstância excecional obrigou à necessidade de se implementarem medidas, também elas de ex-

ceção, nos diferentes setores de atividade, onde se inclui, nomeadamente, o setor do turismo, fortemente afetado. Neste contexto e numa perspetiva de equilíbrio entre a sustentabilidade financeira das empresas, por um lado, e a defesa dos direitos dos consumidores, por outro, cuja salvaguarda importava acautelar, foi aprovado, neste domínio, o Decreto-Lei n.º 17/2020 de 23 de abril, que passou a estabelecer regras excecionais e de caráter temporário relativas ao setor do turismo, no âmbito da pandemia da doença COVID-19. Entre outras coisas, este regime jurídico prevê, de modo específico, novas regras relativas a viagens organizadas (combinação de dois ou mais serviços, designadamente, uma viagem aérea e estadia) por agências de viagens e turismo, onde se incluem as viagens de finalistas. Assim, estabeleceu-se que as viagens organizadas por agências de viagens e turismo, com data


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nas viagens aéreas os dos consumidores

prevista de realização entre 13 de março de 2020 e 30 de setembro de 2020, que não fossem efetuadas ou que fossem canceladas devido ao surto da pandemia da doença COVID-19, conferem, excepcional e temporariamente, o direito aos viajantes de escolher entre: a) a emissão de um vale de igual valor ao pagamento efetuado pelo viajante, com validade até 31 de dezembro de 2021; e b) o reagendamento da viagem, até 31 de dezembro de 2021. Se o vale (voucher) não for utilizado até 31 de dezembro de 2021, ou o reagendamento da viagem não ocorrer até esta data, o viajante tem direito ao reembolso do valor pago, a efetuar no prazo de 14 dias. O mesmo sucede em relação às viagens de finalistas ou similares, já que este regime veio permitir aos viajantes a possibilidade de optar por qualquer uma das modalidades atrás enunciadas. Foi, ainda, salvaguardada a possibilidade de os

viajantes em situação de desemprego solicitarem, até ao dia 30 de setembro de 2020, o reembolso da totalidade do valor que pagaram, o qual deve ser realizado, também, no prazo de 14 dias. Importa realçar que as viagens aéreas simples (diferentes das viagens organizadas, já que abrangem, apenas, o transporte aéreo) não estão incluídas neste normativo. No entanto, o Consumidor, perante o cancelamento da viagem aérea pela transportadora, independentemente do motivo desse cancelamento, já tinha o direito de optar entre o reembolso do valor pago e o reencaminhamento, nos termos do Regulamento (CE) n.º 261/2004 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 11 de fevereiro. Não dispõe, porém, do direito à indemnização prevista neste normativo comunitário, face ao COVID-19 constituir uma circunstância extraordinária. TEXTO ESCRITO AO ABRIGO DO AO 1990.


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A doença mental – uma preocupação pós-pandemia? JOANA DÓRIA FERNANDES Psicóloga Clínica e da Saúde

A Organização Mundial de Saúde define a doença mental como uma distorção do pensamento e das emoções que decorre devido a uma deterioração do funcionamento psicossocial que depende de fatores biológicos, psicológicos e sociais. De acordo com as Nações Unidas, desde o início da pandemia, já é evidente um aumento dos sintomas depressivos e de ansiedade na população em geral. Quem já sofria de algum tipo de perturbação psicológica tem uma maior probabilidade de agravar ou agudizar os sintomas pré-existentes. Para os restantes indivíduos, devido ao isolamento e à alteração inesperada da rotina, existe uma maior probabilidade de surgirem perturbações como a depressão, ansiedade, perturbações obsessivo-compulsivas e perturbações do sono. Estas poderão evidenciar-se através da alteração do sono, maior irritabilidade, stress, desesperança e incerteza face ao futuro, tristeza, apatia, angústia, entre outros. Existem fatores que podem desencadear estas reações, nomeadamente, a instabilidade a nível laboral e a nível financeiro, a alteração da dinâmica familiar, a mudança abrupta da rotina ou até a obrigatoriedade do confinamento. Existem grupos específicos de risco para o desenvolvimento de perturbações psicológicas, nomeadamente os profissionais de saúde que intervêm diretamente com doentes de COVID-19, devido a fatores como a sobrecarga laboral, decisões determinantes e risco de contágio; as crianças que apresentam necessidades especiais, crianças que vivem num espaço limitado e as que, com o confinamento ou suspensão das aulas presenciais,


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É essencial termos o conhecimento de que a doença mental pode afetar qualquer pessoa e fazermos um esforço para sermos uma sociedade livre de julgamento e com capacidade de entender o outro. ficam mais expostas a assistir ou vivenciar situações de violência e abuso; e, por fim, os idosos que, muitas das vezes, e devido às medidas, veem as suas visitas limitadas, aumentando a sensação de solidão e tristeza. Para combater estes sentimentos é importante manter a rotina e os horários habituais das refeições e de acordar; fazer uma alimentação equilibrada e exercício físico; estabelecer um contacto frequente com aqueles que nos são próximos; manter-se informado através de fontes de informação fidedignas como a DGS, a OMS ou a SRS24; ter em mente que já passou por situações difíceis e recordar-se das estratégias que o ajudaram a superá-las; evitar recorrer a substâncias psicoativas para lidar com os problemas; pensar de forma positiva e ter em conta que esta é uma situação

temporária; e, acima de tudo, desabafar com alguém de confiança sempre que sentir dificuldade em regular as suas emoções. Todas as pessoas têm problemas e podem, numa determinada altura de vida, ter alguma dificuldade em geri-los, que, quando agravada, origine um quadro de perturbação mental. Qualquer um de nós pode sentir necessidade de receber acompanhamento psicológico e o apoio de um profissional pode conduzir ao regresso de um funcionamento saudável. É essencial termos o conhecimento de que a doença mental pode afetar qualquer pessoa e fazermos um esforço para sermos uma sociedade livre de julgamento e com capacidade de entender o outro. TEXTO ESCRITO AO ABRIGO DO AO 1990.


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Um pequeno tesouro HÉLDER SPÍNOLA Coordenador do Programa Eco-Escolas no Politécnico da Universidade da Madeira

Com o desenvolvimento do Programa Eco-Escolas no Politécnico da Universidade da Madeira, iniciado no ano letivo 2018/2019, têm surgindo algumas atividades e medidas que vão contribuindo para que a vivência diária da nossa comunidade académica esteja cada vez mais acompanhada por valores ecológicos, os quais, aos poucos, vão transformando o campus universitário num espaço promotor de literacia e cultura ambiental. Neste contexto, tem vindo a ser promovido um pequeno espaço de frescura, diversidade e vida que reproduz o coração da natureza madeirense no interior do edifício da nossa Universidade. Falo-vos do Jardim de Plantas Indígenas, localizado junto à sala de estudo do piso zero, onde já podemos encontrar sete espécies da flora madeirense, devidamente identificadas e com informação sobre o seu porte, distribuição, família e nome científico. Dos quatro canteiros existentes no local, apenas um está presentemente ocupado pelas plantas na-

tivas, mas no ano letivo que agora se inicia contamos continuar a expandir o jardim para os restantes e, assim, aumentar a diversidade florística ali representada. Um dos principais objetivos deste pequeno projeto é criar proximidade física e emocional entre a Comunidade Académica e a nossa biodiversidade (diversidade de vida). Por isso, a escolha daquele espaço para dinamizar esta atividade não foi um mero acaso, resultando do facto de ser muito frequentado em contextos de descontração, nas pausas das aulas e do estudo. Assim, além do envolvimento em contexto curricular através de algumas disciplinas, perspetiva-se que ocorra um contacto informal, e em contexto social real, proporcionando uma forma mais genuína e eficaz de promover a literacia ambiental relativamente à flora madeirense. Acresce que, devido ao uso frequente do espaço por fumadores e para pequenos lanches, o abandono de lixo no chão e nos canteiros é frequente (entretanto melhorou, mas não está resolvido), acreditando-se que a requalificação e valorização do espaço possa contribuir para minimizar estes comportamentos desleixados.


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1 - Preparação do jardim 2 - Jardim aspeto atual 3

Neste momento, quem visita o jardim encontra um espaço viçoso e verde, agradável, mas não imagina as mãos que ali se empenharam para hoje estar assim, nem tão pouco se apercebe do caminho que foi percorrido. Com o empenho de um grupo de alunos do Curso Técnico Superior Profissional em Agricultura Biológica e das plantas herbáceas e arbustivas cedidas pelo Instituto das Florestas e da Conservação da Natureza, começou a nascer o novo espaço. O solo estava demasiado raquítico para nutrir as plantas e manter a humidade, mas depois de terem sido trazidas algumas sacas de composto produzido na quinta de São Roque, no Campo Experimental de Agricultura Biológica, o deserto transformou-se em oásis. A pujança e velocidade com que as pequenas plantas se desenvolveram comprovou a importância de aproveitar

3 - Identificação das plantas

os resíduos orgânicos para, através da compostagem, fertilizar os solos. Algum tempo depois, com o imprescindível apoio da Associação Académica da Madeira, e a ajuda dos prestáveis carpinteiros da Universidade, foram concebidas e produzidas as placas de identificação, as quais foram associadas às respetivas plantas pelas mãos das alunas e dos alunos de Educação Ambiental do curso em Ciências da Educação. Para a continuação do projeto estão já disponíveis novas espécies cedidas pelo Parque Ecológico do Funchal (Câmara Municipal do Funchal). Contamos contigo para plantá-las, quando chegar o momento, e, desde já, para visitar e usufruir do espaço. TEXTO ESCRITO AO ABRIGO DO AO 1990


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Não deixemos que outra pandemia prospere. LUCIANA FERREIRA e CARLA VALE LUCAS Serviço de Psicologia da UMa

Seja ao nível da saúde mental ou física, como no caso da Covid-19, seja em questões ligadas ao género, orientação sexual, origem étnica, religião ou estatuto social, o estigma e a discriminação criam prejuízos para uma sociedade que se quer resiliente. Por este motivo, todos somos chamados a ajudar no combate ao estigma e à discriminação, evitando a propagação de mitos e crenças errados, assentes em preconceitos e estereótipos, provenientes do medo e do desconhecimento. Assim, a procura de conhecimento de qualidade e a reflexão crítica sobre a realidade, não agindo em piloto automático, aceitando as diferenças inter-individuais, constituem

o caminho que importa seguir, mas que nos leva a uma viagem desafiante para fora da nossa zona de conforto. O ser humano está geneticamente preparado para responder às ameaças do meio envolvente. Assim, se por um lado somos máquinas de sobrevivência, por outro, somos seres biopsicossociais, determinados pela cultura e aprendizagens. Estas dinâmicas levam-nos a integrar a nossa identidade e a criar um sentido de pertença. No entanto, podem de igual modo criar limites, quando não aceitamos as diferenças do “outro”, considerando-as indesejáveis. É neste contexto que pode surgir o estigma e a discriminação. A discriminação refere-se ao tratamento negativo de uma pessoa/comunidade, por pertencer a um certo grupo. É, pois, o preconceito em forma de ação. Note-se que o preconceito


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representa um julgamento formado antecipadamente e sem fundamento crítico. Por tudo isto, a discriminação resulta, muitas vezes, na violação dos direitos e liberdades fundamentais, levando à rejeição, segregação e exclusão social. A pandemia da Covid-19 trouxe ao de cima muitas histórias deste tipo, tanto contra pessoas de certas origens étnicas, bem como qualquer pessoa que pudesse ter estado em contato com o vírus, o que acarretou múltiplos custos e perigos acrescidos para o bem-estar individual e social. O medo dos rótulos ou de poder ser percecionado como ameaça por outros, e ser excluído como tal, trouxe risco acrescido de contágio, pela possibilidade da pessoa esconder os seus reais sintomas e/ou adiar a procura de cuidados de saúde. Nesta e noutras situações, a própria pessoa pode chegar a internalizar as ideias estigmatizantes, acre-

ditando que tem menos valor por conta do seu problema de saúde, condição física, escolhas e/ou crenças. Por tudo isto, e porque o conhecimento e a reflexão crítica são os nossos melhores aliados, não nos deixemos afundar em medos irracionais assentes no desconhecimento. Lembremo-nos que o Coronavírus e outros problemas de saúde não discriminam. Não discriminemos nós também, e evitemos assim perigar a nossa saúde e a saúde dos que nos rodeiam, contribuindo para construir uma sociedade mais amadurecida, empática e capaz de superar a adversidade, porque tal como dizia Darwin: “Não é a espécie mais forte ou a mais inteligente que sobrevive. É aquela que é mais adaptável face à mudança.” TEXTO ESCRITO AO ABRIGO DO AO 1990


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Em torno das palavras «monumento» e «documento» A função do monumento é apenas fazer lembrar, já o documento serve para fazer lembrar e ainda para ensinar. O monumento lembra, já o documento lembra e ensina!

TELMO CORUJO DOS REIS Professor da UMa

O recente derrube de estátuas de figuras conotadas de algum modo com a escravatura, tanto na América como na Europa, vem suscitando várias reflexões, das quais me proponho desenvolver uma, talvez inusitada. Sabemos que as mesmas constituíam monumentos, mas a linha de pensamento que me proponho seguir é outra e diz respeito à própria palavra «monumento». Tem origem no latim monumentum, termo que designa tudo aquilo que recorda alguma coisa: edifício, templo, estátua, pórtico e ainda túmulo (o monumentum sepulcri). No plural, monumenta, designa igualmente os documentos escritos. Esta palavra é formada, por derivação, com o radical do verbo monere («fazer lembrar») e o sufixo de instrumento -mentum (cf. ornamentum, alimentum, etc.). Esta palavra mantinha, em Roma, uma estreita conexão com o culto dos mortos. Os antigos Romanos tinham um cuidado extremo com tudo o que se relacionava com o universo sagrado e tinham grande reverência (e temor!) pelos que já tinham deixado o mundo dos vivos. Chamavam-lhes dii manes, «os deuses bons» ou «os manes» (as almas dos mortos e, em especial, as dos pais).

Os funerais consistiam num cortejo, inicialmente nocturno, no qual o corpo do defunto era conduzido à pira funerária e cremado. Tal ocorria fora do pomoerium, isto é, fora do espaço sagrado definido pelas muralhas de Roma. Os ossos eram depois lavados e colocados numa sepultura. Ainda encontramos traços da vinculação da palavra «monumento» ao universo funerário em português, quando, por exemplo, Fernão Lopes, no último capítulo da Crónica de D. Pedro I, escreve, a propósito das exéquias de D. Inês de Castro: E seemdo nembrado de homrrar seus ossos, pois lhe ja mais fazer nom podia, mandou fazer huum muimento dalva pedra, todo mui sotillmente obrado […]; e este muimento mandou poer no moesteiro Dalcobaça […] Semelhavelmente mandou elRei fazer outro tal muimento e tam bem obrado pera si […]. O termo sepucrum («sepulcro») relaciona-se com sepelire («sepultar») e designa a sepultura sobre a qual era depois erguido o que principiou por ser um montículo de terra e pedras, cuja função era fazer recordar que, ali, estavam sepultados os ossos de determinado indivíduo. Esse montículo era o tumulus («túmulo»), palavra relacionada etimologicamente com o verbo tumere («estar intumescido») ou com o vocábulo tumor («intumescência»). Tal montículo acabou por evoluir, vindo a trans-


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formar-se num verdadeiro monumento funerário. Já a palavra «documento» tem origem em documentum, termo que designa tudo aquilo que serve de modelo, exemplo ou lição, enfim, tudo o que serve para ensinar. Este vocábulo é formado com o mesmo sufixo -mentum, o qual surge aplicado ao radical do verbo docere («ensinar»).

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Uma reflexão final prende-se com valor semântico destas palavras, uma vez que o de documentum é mais amplo do que o de monumentum: a função do monumento é apenas fazer lembrar, já o documento serve para fazer lembrar e ainda para ensinar. O monumento lembra, já o documento lembra e ensina!


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O ABM e os alunos universitários: estudar em tempo de pandemia NATÉRCIA GOUVEIA Arquivo e Biblioteca da Madeira

O Arquivo e Biblioteca da Madeira (ABM), a uma curta distância do Campus Universitário, tem neste grupo de estudantes um dos seus públicos mais fiéis. Em tempo de frequências e exames, mas também durante o ano letivo, são uma presença constante na sala de leitura para pesquisar e aproveitar o espaço para estudar. Eis que, em 2020, chegou um momento inédito na história recente desta instituição. O encerramento de todos os serviços do ABM durante dois meses consecutivos, em virtude da pandemia de COVID-19 que assolou o nosso planeta e decretou o confinamento de milhares de madeirenses no domicílio. Em maio de 2020, o regresso dos leitores ao Arquivo e Biblioteca da Madeira aconteceu, com novas regras. Um novo horário de funcionamento, entre as 10h00 e as 16h00, a redução dos lugares disponíveis para 1/3 da capacidade e a limitação no livre

acesso às estantes, colocaram constrangimentos à permanência dos estudantes e ao usufruto dos recursos da biblioteca. Um espaço antes cheio, tem agora leitores de máscara, com distanciamento social, desinfeção obrigatória das mãos e solicitações de rotatividade. Porque assim nos abrigam estes novos tempos. Face a esta realidade, as plataformas de pesquisa de arquivo e biblioteca ganham um novo protagonismo. Mas afinal, o que são estas ferramentas e de que forma podem ser úteis aos alunos? A plataforma de pesquisa de biblioteca permite aceder ao catálogo, com todas as espécies bibliográficas descritas na base de dados PRISMA e que constituem o fundo do ABM. Junta os acervos bibliográficos dos extintos Arquivo Regional da Madeira, Biblioteca Pública Regional e Biblioteca de Culturas Estrangeiras. Integra ainda os fundos bibliográficos disponíveis nas bibliotecas e centros de documentação da Região, no âmbito do projeto cooperativo Catálogo Coletivo Bibliotecas da Madeira (CCBM).


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A plataforma de pesquisa de arquivos possibilita o acesso à base de dados geral de descrições arquivísticas do ABM e respetivas representações digitais. Agrega informação até aqui dispersa em bases de dados específicas, como as bases de dados de registos de casamentos e batismos, entre outras. Recentemente, foi atualizada com um volume considerável de fotografias, provenientes do riquíssimo acervo do Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente’s. Pesquisar nas plataformas de arquivo e biblioteca O acesso às espécies bibliográficas, disponível na página institucional do ABM https://biblioteca-abm.madeira.gov.pt/ permite a pesquisa de monografias por autor, título ou assunto. Nesta fase, incentivamos à reserva dos livros por email, através do nosso serviço de referência: referencia. biblioteca.srtc@madeira.gov.pt ou do telefone 291 708 400. Na plataforma, também é possível consultar os nossos jornais e revistas onde se inclui, por exemplo, a coleção completa do Diário de No-

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tícias do Funchal. Recentemente, foi criado um tutorial para facilitar a exploração do catálogo, disponível tanto na página institucional como no nosso Facebook. Para aceder aos documentos de arquivo, dos quais destacamos fundos municipais que remontam ao séc. XV, fundos paroquiais, arquivos privados ou fundos fotográficos, basta recorrer à plataforma dedicada aos arquivos, em https:// abm.madeira.gov.pt/pt/acesso-aos-documentos/ arquivos/. Aqui, a pesquisa pode ser simples ou avançada, filtrando por datas, fundos ou coleções ou apenas registos com representações digitais, entre muitos outros parâmetros de pesquisa avançada. Futuramente, retomaremos as formações de utilizadores, dirigidas ao público universitário, nas quais vos indicamos as melhores formas de conhecer e explorar o nosso acervo. Até lá, bom trabalho! TEXTO ESCRITO AO ABRIGO DO AO 1990.


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Berlin’s Symbol of Unity Project co-financed by:

JAN RÖHRLEEF Students' Union German Volunteer

The Brandenburg Gate is one of the most important monuments in today’s Berlin with over two hundred years of history. Throughout its existence, it has been often a site for major historical events. Currently, this 18th-century neoclassical monument is considered as a symbol of turbulent German history as well as European unity and peace. The building is located in the western part of the city and it faces Pariser Platz, regarded as one of the city’s most attractive squares. It is the entry

to Unter den Linden, the renowned boulevard of linden trees, which led directly to the royal City Palace. It was designed by the German artist Carl Gotthard Langhans and was built from 1788 to 1791. It was damaged in 1945 during II World Was and after all, reconstructed from 1956 to 1957. This 26-meters high monument was inspired by the Propylaea in Athens’ Acropolis and is crowned with a 5-meter copper sculpture of Victoria-the Goddess of Victory. The Brandenburg Gate never closes, it is part of memorable events and is a magnet for locals and tourists every day.


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Eleições para o Conselho Geral

O Conselho Geral da UMa, é o órgão colegial máximo de governo e de decisão estratégica da Universidade. Composto por 11 representantes dos professores e investigadores, 3 representantes dos estudantes, 1 representante dos trabalhadores não docentes e não investigadores e 6 personalidades externas de reconhecido mérito, não pertencentes à Universidade, tem como uma das suas principais competências a eleição do próximo reitor. Mas será esse o cargo que motiva a mobilização e a apresentação de 3 listas candidaturas? Como avaliam a situação actual e o que perspectivam para o futuro da mais pequena e nova instituição de ensino superior público em Portugal? O que nos dizem os proponentes, Jesus Maria, Eduardo Fermé e Sílvio Fernandes?


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JESUS MARIA

“Nos últimos tempos, temos assistido a uma mera gestão do dia-a-dia, com alguma estagnação nos processos que estão a decorrer, por inação, fazendo com que os problemas se agudizem cada vez mais” Qual é a motivação da candidatura que integra e lidera ao Conselho Geral?

Em que cenário pós-eleitoral cogitaria apresentar uma candidatura ao cargo de reitor/a?

Pretendemos afirmar a UMa no panorama nacional e internacional, apostando no seu reconhecimento social pela comunidade madeirense, como um eixo fundamental de desenvolvimento local e regional.

Irei apresentar a minha candidatura a Reitora, independentemente dos resultados eleitorais, apesar de estar confiante de que reunirei os apoios necessários.

Como avalia a situação actual da UMa? Nos últimos tempos, temos assistido a uma mera gestão do dia-a-dia, com alguma estagnação nos processos que estão a decorrer, por inação, fazendo com que os problemas se agudizem cada vez mais.

Considera que o Conselho Geral, nas Universidades portuguesas ou no nosso caso particular, tem obedecido aos propósitos da sua criação há mais de dez anos? Em termos gerais, sem me focar no nosso caso, em particular, não me parece que este órgão de governo esteja a assumir na sua plenitude a in-


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tenção do legislador, ou seja, a de aconselhamento e de supervisão do funcionamento da IES, com os contributos oriundos dos elementos externos, no sentido de uma maior abertura à comunidade. Na prática, regra geral, funciona como caixa-de-ressonância das propostas de decisão da reitoria, seja essa qual for. Gostaria de contrariar esta tendência, remetendo atempadamente aos membros do Conselho Geral toda a documentação necessária para efeitos de votações devidamente informadas.

Qual o perfil que considera adequado para liderança do Conselho Geral? Como sabem, o Presidente do Conselho Geral é escolhido/eleito de entre os membros externos cooptados, devendo ser sempre externo, a fim de assegurar uma maior independência, relativamente à IES. Por isso mesmo, sem me imiscuir nessa decisão, diria que era importante que atuasse de forma livre e independente.

Se pudesse escolher uma personalidade mundial para integrar e liderar o Conselho Geral, quem seria e porque? Bill Gates, presidente não executivo da Microsoft, de que foi fundador juntamente com Paul Allen. Porque daria uma nota do desejo de projeção no futuro, tão necessário às universidades, enquanto sede de construção de conhecimento.

Acredita que a UMa deve reflectir sobre o regime fundacional no futuro? Julgo que a RAM não tem dimensão económica e financeira para reunir no seu seio agentes económicos com os recursos indispensáveis para o efeito. Não daria esse passo de ânimo leve.

Que prioridades acredita que o/a próximo/a reitor/a deve abraçar? São tantas as necessidades, todas para ontem,

que constam do nosso Programa de Ação, que é difícil de selecionar apenas algumas. Mas fazendo um pouco de esforço, diria que a Reitora deveria começar por: Lutar pela não discriminação da UMa no acesso ao Novo Programa de Coesão Social (2021-2027), de forma a podermos candidatar a nossa instituição a apoios para aspetos fundamentais na vida de uma organização, como infraestruturas e equipamentos, modernização administrativa e transformação digital. Perdemos milhões de euros, quando comparados com as nossas congéneres nacionais. Recuperar o edifício do antigo ISAPM, o espaço da Quinta de São Roque e o próprio edifício da Penteada, dando-lhes a devida dignidade, com as questões de segurança garantidas. Tudo isso resulta de uma negociação assertiva sobre os fundos europeus. Criar condições para a realização de investigação de qualidade reconhecida internacionalmente, que seja base de apoio para a criação de mestrados e de doutoramentos, sem os quais a universidade deixa de ser universidade. Incentivar os nossos estudantes madeirenses a fazerem pelo menos um semestre numa IES estrangeira, logo que a pandemia seja ultrapassada. É incomensurável o que se ganha com essa experiência, em termos de alargamento de horizontes culturais. Instituir uma política de sustentabilidade ambiental para uma Eco-Universidade e um Eco-Campus, de forma a ser pioneira no panorama nacional. E trabalhar a sério a imagem da Universidade, que tem sido muito causticada nos últimos tempos.

Qual a sua opinião sobre um cenário de tutela partilhada da UMa entre a República e o Governo Regional? Fazer valer a Constituição da República Portuguesa e o Estatuto Político-Administrativo da RAM constitui um desafio permanente para uma IES que, dependendo administrativamente da República, tem o seu impacto imediato regional, em termos sociais, culturais e económicos. Penso que não existe nenhuma razão para temermos a tutela partilhada.


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Que novos cursos, de qualquer grau, deveriam integrar a oferta formativa da UMa nos próximos 10 anos? É urgente que se volte a apostar na formação de professores, tendo em conta o envelhecimento da classe docente nos ensinos básico e secundário. Isso leva o seu tempo (3+2 anos). Não vale a pena corrermos riscos de formações apressadas quando o problema estalar. Há que prever cenários, com base na evolução dos números que já são conhecidos.

Como o Ensino Politécnico deverá integrar a aposta da UMa no futuro? Numa Região com a densidade populacional como a nossa, o Ensino Superior Politécnico terá sempre lugar na UMa. Precisamos dos dois subsistemas do ensino superior, dando-lhes a mesma dignidade em termos de reconhecimento social. Para mim, é tão importante a investigação aplicada para a resolução de problemas concretos, quanto a investigação dita pura.

Os números indicam que a UMa recruta os seus estudantes maioritariamente no mercado regional. Ainda assim, e à excepção do presente ano lectivo, o número de estudantes tem decaído. Como pode a UMa aumentar o número de estudantes inscritos? A minha ideia é a de iniciar um processo de diplomacia académica junto da Diáspora madeirense, procurando atrair esses estudantes à Universidade da terra dos seus antepassados. Há muito por fazer neste campo. Mas, atenção, não devemos pensar apenas em enxamear a Universidade de estudantes, sobrecarregando o trabalho dos professores.

Como tenciona atrair mais estudantes internacionais? Como avalia a experiência da internacionalização da UMa ao abrigo do Protocolo com o Free State? Objetivava atrair cerca de 100 estudantes por ano tendo ficado, este número, muito aquém do perspectivado.

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Além do recurso à diplomacia académica, criando condições especiais para recrutar os filhos da Diáspora, gostaria também de colaborar com a UE na integração de migrantes e refugiados, aproveitando programas de financiamento europeu já disponíveis. Apesar de a experiência de internacionalização ao abrigo do Protocolo com o Free State ter ficado aquém do esperado, ela foi uma boa iniciativa, pois deu algum know-how aos docentes na lecionação em Inglês. Julgo que a integração desses estudantes deveria ter sido mais acompanhada, ao nível de aspetos práticos como os problemas da saúde, evitando-se também a criação de grupos fechados. A UMa tem de prosseguir este caminho, mais especificamente junto dos PALOP, até por partilharmos a mesma língua. A nossa experiência no Brasil, com os seminários de acesso aos mestrados e doutoramentos em educação, deixou aí uma marca indelével da Universidade da Madeira.

Devido à situação pandémica e a evolução das novas tecnologias, o ensino à distância provou que existem outros métodos de ensino sem ser o método tradicional. Acredita que há espaço para um novo paradigma na forma como o ensino na UMa é leccionado, salvaguardando as acreditações dos cursos? Sem dúvida. Se a pandemia nos está a criar enormes dificuldades de organização, tendo em conta todas as precauções que devem ser tomadas de forma a acautelar o distanciamento social, a redução do número de pessoas por sala, a disponibilização de gel e a limpeza permanente em geral, também criou a oportunidade de provar que existem outros métodos de trabalho que assentam mais na aprendizagem do que no ensino, apostando mais na autonomia do aprendiz, aspeto este que a investigação educacional já tinha vindo a defender, sem ser, no entanto, ouvida. De repente, de forma compulsiva, acabou por se constatar que não é preciso ter tantas horas presenciais a ouvir o professor.


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Que medidas seriam importantes tomar para que os recém-licenciados pela UMa possam ter oportunidades no mercado de trabalho no qual vai ser mais difícil de entrar agora? É imprescindível que os planos de estudo tenham componentes práticas a serem realizadas em empresas, escolas, autarquias, num processo de indução no mercado de trabalho. Uma formação sólida tem de estar também assente no saber estar, pois este aspeto é sempre o melhor passaporte para o primeiro emprego.

Na sua ampla missão, a ação social no ensino superior também compreende o apoio às actividades desportivas e culturais. São, contudo, áreas que não integram a actividade dos Serviços de Acção Social na UMa, ao contrário do que se regista nas restantes Universidades. Como avalia, enquanto docente, essa acção tão distante das outras realidades universitárias? Penso que a AAUMa poderia ser um parceiro privilegiado dos SASUMa, dada a enorme experiência acumulada neste sector. Em termos de organização, para afetação de áreas de responsabilidade interna, ao nível dos diversos serviços, já iniciámos um estudo comparativo dos organigramas das grandes universidades de topo, no mundo, para nos ajudar a descentrar de modelos fortemente enraizados em práticas do passado e, por isso mesmo, resistentes à mudança.

Como entende que a UMa deve promover o desporto universitário, na sua componente de lazer e competitiva (CNUs, por exemplo), sendo esta uma actividade essencial para os estudantes durante a sua frequência no ensino superior? Defendemos, no nosso Programa de Ação, o desenvolvimento de competências transversais e essenciais, no âmbito das quais o desporto está incluído. Pretendemos promover estilos de vida saudável, que contemplem uma alimentação equilibrada e a prática de exercício físico, bem como a

prevenção de dependências. Ao nível competitivo, podemos nos inspirar no que já se faz noutras universidades, onde a prática desportiva é acalentada, a par do crescimento intelectual e académico, nos respetivos campi. De qualquer modo, é meu desejo que esta questão não seja apenas vista do ponto de vista dos interesses dos estudantes, mas de toda a comunidade académica, com programas de bem-estar e saúde para todos os funcionários, à semelhança do que fazem as grandes organizações internacionais, para quem a aproximação e o convívio das pessoas é um aspeto fundamental, não se esgotando nos jantares de Natal.


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EDUARDO FERMÉ

“Neste momento o Conselho de Gestão (órgão não eleito) é que parece guiar os desígnios da UMa e não o Conselho Geral, o que para mim é inadmissível.”

Qual é a motivação da candidatura que integra e lidera ao Conselho Geral? A motivação surge fundamentalmente para dar à UMa uma estratégia de curto, médio e longo prazo que nos permita garantir não só a continuidade da UMa como uma Universidade competitiva a nível nacional e internacional, como ainda potenciar de forma sustentável a sua docência, a investigação e os serviços à comunidade.

Como avalia a situação actual da UMa? A conjuntura económica e as restrições orçamentais têm colocado a UMa numa situação de stress agudo. Nestes casos, como bem foi definido pelo fisiólogo Cannon, existem 3 reações: lutar, fugir ou ficar paralisado (ou as 3 F em inglês Fight, Flight, Freeze). Do meu ponto de vista, nos últimos anos, a UMa tem escolhido ficar paralisada à espera que o milagre aconteça. Isto têm levado a que os saldos de gerência consolidados,


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que no fim de 2015 eram de 5,00 M€ ficassem reduzidos a a 1,19 M€ no fim de 2019, conforme os relatórios de gestão consolidados previstos pelo Conselho de Gestão. Na nossa lista achamos que a resposta não é “chorar pelos cantos” mas, sim, construir uma proposta competitiva que interesse à Região e ao Governo da República, que garanta não só a nossa sobrevivência e capacidade de atrair alunos de todas as partes do mundo, como nos capacite para enfrentar os atuais e futuros desafios com que se confrontam as Universidades a nível global.

Em que cenário pós-eleitoral cogitaria apresentar uma candidatura ao cargo de reitor/a? Neste tema há uma tentação grande de colocar a carro à frente dos bois. Agora estão-se a discutir as candidaturas que vão definir a composição do CG e não reitores/as. De facto, podem existir candidatos não ligados as listas ou a UMa; ou que estejam em outras posições nas listas candidatas e não necessariamente as liderando. Como exemplo, a Dra. Isabel Cabrita foi candidata a reitora em 2009, sendo externa da UMa e o Prof. Fino foi candidato nas mesmas eleições, não tendo sido cabeça de lista. Mas para que se perceba que não estou a fugir a pergunta, há dois anos que comecei a preparar uma candidatura a Reitor para as eleições de 2021.

Considera que o Conselho Geral, nas Universidades portuguesas ou no nosso caso particular, tem obedecido aos propósitos da sua criação há mais de dez anos? Não me compete falar de outras universidades. Relativo a UMa, o Conselho Geral está muito além do que é a sua função estatutária. Por exemplo, se os membros do Conselho Geral recebem da reitoria o plano estratégico apenas com 48 hs para o analisar e/ou aprovar, estamos claramente numa subversão de funções. Na prática, o CG e as suas Comissões estão coartadas nas suas funções porque não têm tempo para reunir, recolher opiniões e propor alterações à proposta. Neste momento o Conselho de Gestão (órgão não

eleito) é que parece guiar os desígnios da UMa e não o Conselho Geral, o que para mim é inadmissível. Pois, de facto é este órgão e não o CG que fiscaliza, propõe e aprova as medidas de governo da instituição.

Qual o perfil que considera adequado para liderança do Conselho Geral? O Presidente do CG tem que ser, ao meu entender, uma pessoa que conheça ou possa vir a conhecer a UMa em profundidade, mas também com uma experiência e um conhecimento muito forte da sociedade Portuguesa e, em particular a Madeirense e uma visão daquilo que são as dinâmicas universitárias globais e das Universidades de pequena dimensão e geograficamente localizadas longe dos grandes centros de decisão; Além disso, tem que se constituir como um elo entre a a UMa e a sociedade.

Se pudesse escolher uma personalidade mundial para integrar e liderar o Conselho Geral, quem seria e porque? Nomear alguém de fora de Portugal para liderar o Conselho Geral seria me contradizer com a resposta anterior. Sim posso dizer que gostava que a pessoa que vai ser escolhida para liderar o próximo Conselho Geral tenha um perfil semelhante ao do Pepe Mujica, ex-Presidente do Uruguai. Pela sua visão de modelo de sociedade, pela convicção de apostar na educação como elemento de transformação do povo. Pela sua trajetória de luta. Pela sua sabedoria de escolher qual posição ocupar na luta em cada momento. Pela sua coerência ao longo da vida e pela sua humildade.

Acredita que a UMa deve reflectir sobre o regime fundacional no futuro? Acredito que é uma reflexão permanente. Porém, a minha opinião sobre o assunto é que não podemos estar cada 2-3 anos a mudar porque a Universidade precisa de estabilidade para poder cumprir a sua função. Cheguei a UMa há 18 anos


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e vi o Departamento de Matemática fusionar-se para formar o Departamento de Matemática e Engenharias, depois para formar o Centro de Competências em Ciências Exatas e da Engenharia, depois virar em Faculdade Ciências Exatas e da Engenharia e renascer como Departamento de Matemática dentro da FCEE. No meio, duas mudanças de estatutos da UMa, a reestruturação de Bolonha, a acreditação e transformação de todos os cursos, a mudança do ECDU, .... Calculo que em algum momento precisamos de uma pausa.

Que prioridades acredita que o/a próximo/a reitor/a deve abraçar? Assegurar a sua sustentabilidade a curto, médio e longo prazos. Para isso é fundamental reforçar os vínculos com o Governo Regional e as Câmaras Municipais, no sentido de os transformar em reais parceiros estratégicos da UMa e intensificar as negociações com o Governo Nacional. Convencer estes parceiros que alocar recursos à Universidade não é uma esmola porque somos pequeninos, mas é um investimento porque vamos a assegurar um retorno a este investimento. Na sua missão de ensino, investigação e serviços, a UMa precisa de motivar os membros da sua comunidade, agilizando a evolução nas carreiras, promovendo a mobilidade e a internacionalização. Deveriam ser incentivadas práticas de divulgação do conhecimento que reforcem a sua reputação internacional e que a distingam pela oferta formativa e pelo conhecimento produzido.

Qual a sua opinião sobre um cenário de tutela partilhada da UMa entre a República e o Governo Regional? Como a nossa experiência dita, a relação entre a República e o Governo Regional passa ciclicamente por períodos de turbulência. Trasladar essa turbulência para UMa pode não ser positivo. Porém, como foi supracitado, é fundamental para o nosso futuro como Universidade que o Governo Regional seja um parceiro estratégico. Acrescenta-se que, neste momento a cooperação que existe

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é de interesse e respeito mútuo e com resultados muito positivos para a Região.

Que novos cursos, de qualquer grau, deveriam integrar a oferta formativa da UMa nos próximos 10 anos? Pensar a oferta formativa em 10 anos para a frente, o que significa licenciados, mestres ou doutorados em 13-14 anos, é um exercício que pode revelar-se inútil. Há 10 anos, ninguém teria respondido que um mestrado em Ciência de Dados seria uma boa aposta, porém hoje estes mestrados se multiplicam por todo o mundo. Em vez de pensar em que cursos novos queremos, devemos pensar em que tipo de oferta formativa queremos. Assim, a nossa lista propõe quatro grupos diferentes (não exclusivos) de cursos. O primeiro grupo é constituído pelos cursos atuais que têm relevância para a RAM e para o país. O segundo grupo corresponde a cursos que queremos de mérito reconhecido internacionalmente através de parcerias como foi a da CMU. O terceiro grupo corresponde à criação de pós-graduações para os nossos alumni, de forma a permitir-lhes uma formação ao longo da vida. Por último, o quarto grupo corresponde à criação ou adequação de cursos para atrair estudantes estrangeiros. Para isto devemos aproveitar as características da UMa e a experiência já existente em algumas áreas (Mestrado em Nanoquímica e Nanomaterias e o doutoramento em Estudos Insulares) para a criação de uma oferta formativa original e interdisciplinar, procurando constituir uma oferta diferenciadora das outras universidades e promover reuniões periódicas entre os Coordenadores de Departamento de forma a criar sinergias entre as diversas áreas, para potenciar a interdisciplinaridade e a constituição de novos cursos.

Como o Ensino Politécnico deverá integrar a aposta da UMa no futuro? O Ensino Politécnico tem que se articular com as necessidades da Região, e tem que se coordenar com a oferta formativa do Ensino Universi-


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tário. Isto, quero esclarecer, não significa criar CTeSP simplesmente para colmatar lacunas na distribuição de serviço dos professores de Ensino Universitário.

Os números indicam que a UMa recruta os seus estudantes maioritariamente no mercado regional. Ainda assim, e à excepção do presente ano lectivo, o número de estudantes tem decaído. Como pode a UMa aumentar o número de estudantes inscritos? A UMa tem que aumentar a sua inserção na sociedade madeirense. Promovemos a nossa oferta formativa nas escolas, mas são muitas vezes os encarregados de educação que decidem onde os alunos vão estudar. Precisamos abrir as portas à comunidade para que vejam o enorme trabalho que se desenvolve na UMa. Isto pode ser implementado a partir de iniciativas como “open day”, “family day” ou semelhantes. Iniciativas como Doutorecos ou A Química é Divertida, têm contribuído para este objectivo, mas temos que alargar este tipo de iniciativas a todas as áreas. Os quatro tipos de cursos que propomos e supracitei visam aumentar o número de estudantes inscritos.

Como tenciona atrair mais estudantes internacionais? Como avalia a experiência da internacionalização da UMa ao abrigo do Protocolo com o Free State? Objetivava atrair cerca de 100 estudantes por ano tendo ficado, este número, muito aquém do perspectivado. A experiência do Free State, se vamos ao prometido e ao concretizado foi um fracasso. Mas essa é uma visão reducionista. Se tomamos o Protocolo com o Free State como uma experiência que nos permita não repetir erros, capitalizando tudo o que correu mal em experiência para o futuro, então podemos resgatar aspectos positivos. No nosso programa contamos como pretendemos atingir 1000 alunos estrangeiros em 5 anos, o que significa duplicar os ingressos de 100 alunos por ano letivo que pretendia o Protocolo com o Free State. Não é um processo trivial porque não

se pode atingir este número sem uma parceria com o Governo Regional e a Câmara de Funchal, porque 1000 alunos implicam residências para viver, mais salas de aulas, laboratórios e infraestruturas. Por outro lado, o benefício de internacionalizar a UMa é enorme para a região, seja ao nível financeiro, como cultural. De facto, a globalização é um processo irreversível e que tem que ser apreendido cedo, particularmente para quem vive numa Ilha e que, para além de já ter, em tempos, contribuído para esse grande feito de encontro de povos e culturas que foram os Descobrimentos, tem hoje mais do que nunca que preparar a sua população para viver e trabalhar em qualquer parte do mundo, adaptando-se e integrando-se nas diferentes dinâmicas locais e nacionais. O primeiro mercado que propomos expandir é o mercado brasileiro, fundamentalmente no Nordeste. Somos uma oferta atrativa para este mercado por proximidade cultural, por sermos uma região sem criminalidade e por oferecer diplomas de validade no mercado europeu e brasileiro. Com uma promoção a nível de prefeituras (Câmaras Municipais) que permita bolsas de estudos financiadas por estas entidades, é possível atingir números significativos num curto prazo. Mas é preciso é destinar fundos a uma campanha profissional de promoção. No entanto, a nossa experiência no mercado Chinês tem que continuar a ser aproveitada para chegar a outros mercados Asiáticos, onde existe uma boa formação de base, mas escassez na oferta de qualidade a nível do Ensino Superior Devido à situação pandémica e a evolução das novas tecnologias, o ensino à distância provou que existem outros métodos de ensino sem ser o método tradicional.

Acredita que há espaço para um novo paradigma na forma como o ensino na UMa é leccionado, salvaguardando as acreditações dos cursos? A salvaguarda da acreditação dos cursos é difícil de responder, uma vez que a A3ES tem sido sempre uma entidade muito conservadora e pouco amiga de sair do preestabelecido. Mas existe espaço para a criação de pos-graduações que possam vir ser lecionadas nestes moldes.


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Que medidas seriam importantes tomar para que os recém-licenciados pela UMa possam ter oportunidades no mercado de trabalho no qual vai ser mais difícil de entrar agora? No curto prazo, o contexto pandémico tem criado uma situação totalmente atípica onde de pronto todo o mercado ficou paralisado. Nestas circunstâncias, a UMa pode articular, num curto prazo, cursos de capacitação (gratuitos) para os recém-licenciados de forma a se capacitar para o trabalho à distância. Em algumas áreas, tal como Informática, a região há muito tempo que trabalha a distância, com empresas que oferecem serviços a UK e aos PALOPs. Podemos criar parcerias com estas empresas de forma a que partilhem essa experiência connosco e os nossos recém-licenciados. Mas dada a urgência do caso, é uma questão a ser colocada a atual reitoria.

Na sua ampla missão, a ação social no ensino superior também compreende o apoio às actividades desportivas e culturais. São, contudo, áreas que não integram a actividade dos Serviços de Acção Social na UMa, ao contrário do que se regista nas restantes Universidades. Como avalia, enquanto docente, essa acção tão distante das outras realidades universitárias? Acho que é um aspeto a melhorar. Nós colocamos dentro das nossas 40 propostas a número 8, “Estabelecer uma aliança estratégica tripartida entre a AAUMa, a Ação Social e o corpo docente para iniciativas de extensão universitária”. Isto significa articular desporto social, atividades culturais, eventos para a comunidade, de uma forma organizada. É nossa intenção podermos criar este vínculo de forma a canalizar estas expectativas.

Como a entende que a UMa deve promover o desporto universitário, na sua componente de lazer e competitiva (CNUs, por exemplo), sendo esta uma actividade essencial para os estudantes durante a sua frequência no ensino superior?

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Da minha parte, sou partidário de promover inicialmente a vertente de desporto social, e, uma vez que esta vertente esteja consolidada em infraestruturas (que pode ser a partir de protocolos com entidades desportivas da Região), a estender para a componente competitiva. A participação nos CNUs depende de conseguir subsídios de mobilidade, uma vez que dificilmente a UMa tem receitas próprias que lhe permitam fazer frente aos custos de deslocação e os patrocínios neste momento são difíceis de conseguir. Mas é possível explorar outras alternativas, como a participação da UMa em competições de modalidade amadora regionais. O esforço e o investimento que a Governo Regional fez tem, necessariamente, que ser maximizado e a UMa não pode naturalmente deixar de se articular com o GR também nesta questão.


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SÍLVIO FERNANDES

“Apresentarei a minha candidatura ao cargo de reitor seja qual for o resultado eleitoral destas eleições para a representação dos docentes e investigadores no Conselho Geral”

Qual é a motivação da candidatura que integra e lidera ao Conselho Geral? Motivam-me os desafios que se colocam à Universidade, nomeadamente no que diz respeito à consolidação de trabalho que tem vindo a ser realizado, reforçando e inovando as componentes universitárias e politécnicas, relativas ao ensino, investigação, ligação à sociedade e recursos humanos e financeiros (incluindo neste último item o esforço para a concretização da majoração do Orçamento da UMa ou a celebração de um contrato-programa tripartido entre o Governo da República, o Governo Regional e a Universidade da Madeira). Motivam-me ainda o apoio de um número mui-

to significativo de colegas, que manifestaram a sua confiança na candidatura que proponho ao Conselho Geral e que concordam com a estratégia que temos vindo a pôr em prática e com o programa de ação que apresentamos para o próximo quadriénio. Os membros da Lista C representam uma parte desse apoio à candidatura a um dos órgãos mais importantes da Universidade. Movem-nos a todos os objetivos de reforçar as estratégias que conduziram a UMa à atual situação de estabilidade institucional e de crescimento da oferta formativa, do número de alunos e projetos de investigação. Pretendemos também continuar a lutar pelo crescimento e desenvolvimento da nossa Universidade, e pela sua cada vez maior


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afirmação no contexto social, cultural, científico e económico, na Região, no País e no Mundo

Como avalia a situação actual da UMa? Em primeiro lugar, como o de uma Instituição que fez grandes progressos e a diversos títulos: alargamento e diversificação da oferta formativa e consequente maior captação de estudantes, aumento da mobilidade, outgoing e incoming, nomeadamente estudantil, fomento do empreendedorismo e apoio à procurado de emprego, participação em projetos e publicação de artigos científicos, ocupação dos lugares de topo da carreira universitária, ligação à sociedade, entre outras. Por outro lado, como uma Instituição que, devido à sua situação insular e ultraperiférica, tem maiores custos e uma maior dificuldade em captar receitas próprias e em efetuar economias de escala, pelo que devia ter uma majoração do seu financiamento pelo Orçamento do Estado, mas que, pelo contrário, não só não usufrui dessa majoração do seu financiamento, como não tem acesso aos fundos a que as suas congéneres continentais acedem, pondo-a em clara desvantagem em relação a estas. Na realidade, a UMa, tal como a Universidade dos Açores, não tem tido acesso a um conjunto de programas que são hoje indispensáveis para o desenvolvimento e consolidação das Universidades, e que envolvem centenas de milhões de euros, como os destinados à internacionalização e à transformação digital e modernização administrativa, à aquisição de equipamentos e construção de infraestruturas para a lecionação dos cursos técnicos superiores profissionais, entre vários outros ligados, por exemplo, ao desenvolvimento do ensino politécnico. Por outro lado, a UMa tem sido também discriminada face à sua congénere Açoriana, que irá receber de Dotação inicial do Orçamento do Estado em 2021 mais cerca de 5.360.000€, isto é, mais 41% do que UMa, que tem atualmente um maior número de alunos, a que irá acrescer um anunciado contrato-programa, no valor de 1.200.000€ por ano, durante 4 anos, com o qual nos congratulamos, mas a que exigimos também ter acesso. Com a correção destas diferenças de tratamen-

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to, a UMa estará em condições de prosseguir com o alargamento da oferta formativa, o incremento da investigação e internacionalização, o aumento dos recursos humanos disponíveis, docentes e não docentes, a transformação digital e modernização administrativa, o reequipamento laboratorial e tecnológico, e o alargamento e manutenção das suas infraestruturas.

Em que cenário pós-eleitoral cogitaria apresentar uma candidatura ao cargo de reitor/a? Apresentarei a minha candidatura ao cargo de reitor seja qual for o resultado eleitoral destas eleições para a representação dos docentes e investigadores no Conselho Geral, nas quais estou profundamente convicto que a lista que lidero será bem acolhida.

Considera que o Conselho Geral, nas Universidades portuguesas ou no nosso caso particular, tem obedecido aos propósitos da sua criação há mais de dez anos? No fundamental, considero que sim, sem prejuízo de se poderem sempre questionar algumas das suas competências e/ou a sua composição. Em particular, considero muito positiva a existência de membros externos no Conselho Geral, que nos trazem a visão do exterior, sobre o mundo e sobre a nossa Universidade, e que, por outro lado, ajudam a projetar e divulgar a UMa, e a sua importância e o que faz, na sociedade. Realço ainda a importância da presidência do Conselho Geral ter de ser assumida por um membro externo, eleito pelo órgão, pois tal facilita a sua imparcialidade e distanciamento face a eventuais conflitos e interesses divergentes que sempre existem na vida de uma instituição.

Qual o perfil que considera adequado para liderança do Conselho Geral? O de uma pessoa com prestígio, que assuma o seu mandato com o objetivo único de defender e ajudar a Instituição, apoiando o Reitor e a direção


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da casa, mas mantendo um papel vigilante e de crítica construtiva à sua ação.

Se pudesse escolher uma personalidade mundial para integrar e liderar o Conselho Geral, quem seria e porque? Poderia propor nomes de personalidades de grande prestígio, em várias áreas, que iriam dar decerto uma enorme visibilidade à Universidade da Madeira, mas, sinceramente, penso que o Presidente do Conselho Geral deve ser alguém que conheça bem a realidade madeirense, sem prejuízo de possuir também uma ampla visão sobre o papel da Universidade no País e no Mundo.

Acredita que a UMa deve reflectir sobre o regime fundacional no futuro? Certamente que estará sempre em aberto essa reflexão, nomeadamente se forem dadas muito maiores facilidades às fundações. Eu, pessoalmente, não defendo, à partida, a passagem a fundação, mas defendo sim que todas as universidades tenham a mesma autonomia e responsabilidades (sejam fundações ou não).

Que prioridades acredita que o/a próximo/a reitor/a deve abraçar? Sinteticamente, talvez salientasse os seguintes 18 pontos que considero essenciais para a UMa e, portanto, para o seu Conselho Geral e para o seu Reitor: Dar respostas adequadas à evolução da pandemia do COVID-19; Consolidar a formação inicial e reforçar e alargar a formação avançada, universitária e politécnica; Combater o abandono académico dos estudantes, e melhorar o seu desempenho e o acompanhamento por parte dos professores; Promover o mérito, fomentar o empreendedorismo e desenvolver o voluntariado, envolver os estudantes em atividades de investigação, intensificar a sua participação na vida da Instituição, e

reforçar a ligação aos antigos alunos; Prosseguir com o incremento da mobilidade incoming e outgoing; Reforçar a captação de estudantes internacionais; Reforçar a investigação, o apoio aos centros e polos da UMa, a publicação de artigos científicos, a participação em projetos e a prestação de serviços; Prosseguir com o rejuvenescimento do corpo docente e com a ocupação dos lugares de topo das carreiras, bem como regular a carreira de investigador; Rejuvenescer e reforçar o pessoal não docente nos diversos serviços em que há faltas, da UMa e dos SASUMa; Continuar a incrementar a ligação à sociedade, quer na área cultural, quer através de consultadoria, prestações de serviços e projetos em colaboração com empresas, quer ainda na formação (estágios, cursos técnicos superiores profissionais, e formação ao longo da vida); Garantir que o Governo da República compense a UMa e os seus Serviços de Ação Social pelas quebras de receitas e aumento de despesas decorrente da pandemia; Garantir o financiamento de novas edições dos cursos técnicos superiores profissionais e o pagamento atempado dos financiamentos acordados; Promover a diversificação e aumento das receitas próprias, a boa execução dos projetos e o aumento do seu retorno financeiro, e a gestão racional dos recursos; Garantir uma majoração adequada do financiamento Estatal da UMa, seja através do aumento da sua Dotação do Orçamento do Estado, seja através da celebração de um contrato-programa; Garantir o acesso aos fundos do quadro comunitário de apoio para o período 2021-2027; Proceder à transformação digital e modernização administrativa, implementar as bases da contabilidade de gestão e concluir a implementação do sistema interno de garantia da qualidade; Garantir os apoios à construção, na Quinta de São Roque, de um edifício pedagógico-científico, e de uma segunda residência universitária; Proceder à conservação e reabilitação dos edifícios, e ao reequipamento dos laboratórios.


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Qual a sua opinião sobre um cenário de tutela partilhada da UMa entre a República e o Governo Regional? O problema da tutela partilhada da UMa entre a República e o Governo Regional (também chamada dupla tutela) não deve ser um tema tabu, e deve ser objeto de uma análise ponderada, de modo a determinar as vantagens e desvantagens em causa. No atual momento, a dupla tutela, ou a institucionalização da regionalização das universidades, poderia constituir uma forma de o Governo da República se desvincular paulatinamente da obrigação de financiar o ensino superior em Portugal, demitindo-se, assim, de assegurar o orçamento de funcionamento das universidades. No que diz respeito à Universidade da Madeira, não devemos esquecer que, já no processo da sua fundação, o Governo da República teve um papel diminuto na construção das infraestruturas fundamentais para a sua existência. Naturalmente que o Governo Regional deve interagir com a Universidade da Madeira, como não podia deixar de ser, atendendo não só ao impacto da atividade da Universidade na Região, como ao facto de esta ser um instrumento fundamental para o seu desenvolvimento social, cultural e económico. O que temos vindo a defender é a existência de uma parceria estratégica entre a UMa e o Governo Regional e, a curto prazo, um contrato-programa, tripartido, entre a UMa, o Governo da República e o Governo Regional, que vise assegurar à UMa as condições financeiras e de infraestruturas para que ela possa desenvolver a sua missão fundamental, mas sem nunca por em causa a sua autonomia. Que novos cursos, de qualquer grau, deveriam integrar a oferta formativa da UMa nos próximos 10 anos? Como referi acima, nos próximos anos o objetivo deve ser consolidar a formação inicial e reforçar e alargar a formação avançada, universitária e politécnica. Ao nível dos 1.ºs ciclos universitários, para além do início da lecionação, em 2021/22, do 3.º ano curricular do mestrado integrado em medicina, dever-se-á proceder a eventuais reajustamentos das licenciaturas face à sua procura em 1ª opção e continuar a tomar medidas com vista

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a ultrapassar a insuficiente procura de algumas (muito poucas) licenciaturas. Para além disso, dever-se-á equacionar a criação de novas licenciaturas que venham a ser consideradas estratégicas, mas tal dependerá dos recursos financeiros que seja possível alocar à contratação de docentes, no caso de se tratar de áreas novas. Em particular, deverá ser equacionada, ao nível da formação inicial e/ou avançada, ofertas ligadas à “ciência de dados” e ao processamento de grandes quantidades de informação e da capacidade de comunicação dos resultados do seu processamento. É necessário reforçar a oferta de formação avançada, eventualmente em parceria, em particular nas áreas de ciências económicas e das ciências empresariais, onde se estima uma grande procura, em particular, por parte dos nossos antigos alunos, assim como no âmbito da formação de professores, para dar resposta à carência, já existente, de docentes nos ensinos básico e secundário; Por outro lado, para além dos doutoramentos que temos em funcionamento, alguns com parcerias nacionais e internacionais, em áreas distintas do saber, pretendemos continuar a alargar a oferta de cursos de 3º ciclo a outras áreas, eventualmente também em parceria com instituições nacionais ou internacionais. Uma das áreas, por exemplo, onde existe na Madeira um forte potencial de procura de doutoramentos é a da Educação Física e Desporto, pelo que haveria todo o interesse em criar condições para corresponder a essa procura. No que respeita à oferta politécnica, atualmente com duas licenciaturas e catorze cursos técnicos superiores profissionais, há que consolidá-la, adaptando, nomeadamente, a oferta dos cursos técnicos superiores profissionais às necessidades das empresas e do mercado, e alargando a formação pós-graduada politécnica, seja na área da saúde, seja na área do Turismo e da Hotelaria, para além de outras áreas, eventualmente em consórcio. Finalmente, há que reforçar a formação ao longo da vida, explorando também a possibilidade de oferta de pós-graduações e cursos breves, em regime pós-laboral e/ou de b-learning, tirando partido da recente experiência de lecionação à distância, no contexto da pandemia.


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Como o Ensino Politécnico deverá integrar a aposta da UMa no futuro? O alargamento do ensino politécnico na UMa, a outras áreas para além das da saúde (onde já existia a área da Enfermagem), inicia-se apenas em 2015, com a alteração dos Estatutos da UMa, e a criação de uma segunda unidade orgânica politécnica, a da Escola Superior de Tecnologias e Gestão. O objetivo foi o de poder oferecer formações politécnicas, incluindo cursos técnicos superiores profissionais, noutras áreas para além da saúde, de modo a dar resposta quer a uma necessidade da própria economia e das empresas, quer a um número muito significativo de estudantes que concluía o ensino secundário sem prosseguir para o ensino superior, por pretender um ensino mais vocacional. O desenvolvimento do ensino politécnico na UMa, desde então, tem sido enorme, tendo a UMa passado de um único ciclo de estudos de ensino superior politécnico em 2014/15 (a licenciatura em Enfermagem, com 108 alunos), para 12 ciclos de estudos em 2019/20 (num total de 547 alunos), oferecendo, em 2020/21, um total de 17 ciclos de estudos. De acordo com o plano estratégico da UMa para os anos 2017/19 a 2020/21, a percentagem de estudantes envolvidos em ciclos de estudos politécnicos deverá vir a situar-se entre os 20% e os 25% do total de alunos. Para tal, há que consolidar e alargar o respetivo corpo docente, ainda em construção, bem como edificar as infraestruturas pedagógico-científicas que suportem o enorme aumento da oferta formativa em curso.

Os números indicam que a UMa recruta os seus estudantes maioritariamente no mercado regional. Ainda assim, e à exceção do presente ano letivo, o número de estudantes tem decaído. Como pode a UMa aumentar o número de estudantes inscritos? Não é verdade que à exceção do presente ano letivo, o número de estudantes tenha sempre decaído. Há dois anos (desde 2018/19) que o número de estudantes tem vindo a crescer, nomeadamente na formação inicial. Por sua vez, o atual ano

letivo foi o melhor ano de sempre em termos de colocações, seja no Concurso Nacional de Acesso (CNA), seja nos cursos técnicos superiores profissionais. Registe-se, ainda, o crescimento este ano, em 65%, do número de colocados na 1º fase do CNA vindos de fora da Região, passando de 23 para 38. Realce-se que a UMa tem vindo a alargar e a diversificar a sua oferta formativa, bem como a apostar numa maior divulgação dessa oferta formativa, seja recorrendo às novas tecnologias e ao marketing digital, seja reforçando a realização de sessões de publicitação dos nossos cursos nas escolas secundárias e profissionais, não só da ilha da Madeira, mas também do Porto Santo, e em algumas escolas do Continente, tendo-se mesmo, através da presença em feiras regionais e nacionais, e outras iniciativas, divulgado a nossa oferta formativa em mais de 160 escolas. Para além dessa maior divulgação, julgo que o aumento do número de inscritos passará essencialmente pelo reforço e alargamento da oferta pós-graduada, bem como pelo aumento da captação de estudantes internacionais.

Como tenciona atrair mais estudantes internacionais? Como avalia a experiência da internacionalização da UMa ao abrigo do Protocolo com o Free State? Objetivava atrair cerca de 100 estudantes por ano tendo ficado, este número, muito aquém do perspetivado. Em 2017/18, a UMa acolheu 36 estudantes da província do Free State, da África do Sul, que vieram frequentar três das nossas licenciaturas. De acordo com o protocolo estabelecido, pelo menos nos três anos seguintes, deveriam candidatar-se não menos de 15 estudantes, oriundos da província do Free State, para cada um dos ciclos de estudos abrangidos pelo protocolo. Tal não se verificou única e exclusivamente por razões que ultrapassaram a UMa, em virtude das alterações entretanto ocorridas no Governo daquela província e nas suas orientações em termos de política de ensino. Com vista a aumentar a captação de estudantes internacionais, usaremos a capacidade do re-


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cém-criado Laboratório de Marketing Digital da UMa, e manter uma política de bolsas para os melhores estudantes, nomeadamente para os oriundos da CPLP e da Venezuela.

Devido à situação pandémica e a evolução das novas tecnologias, o ensino à distância provou que existem outros métodos de ensino sem ser o método tradicional. Acredita que há espaço para um novo paradigma na forma como o ensino na UMa é lecionado, salvaguardando as acreditações dos cursos? Sem prejuízo de se poder e dever tirar mais partido das novas tecnologias em várias unidades curriculares, entendo que o ensino nos atuais ciclos de estudos conferentes de grau e cursos técnicos superiores profissionais deve ser presencial, para os quais foram acreditados. Não só vários alunos não dispõem das condições adequadas em suas casas, como o ensino presencial tem outra vivacidade, e o convívio entre os jovens é imprescindível para a sua formação. No entanto, para certos cursos e determinados públicos, nomeadamente no âmbito da formação ao longo da vida, e da oferta de pós-graduações e cursos breves, em particular quando dirigidas a estudantes trabalhadores, entendo que deve ser explorado um ensino misto, semipresencial (b-learning), tirando partido da recente experiência de lecionação à distância, no contexto da pandemia da COVID-19.

Que medidas seriam importantes tomar para que os recém-licenciados pela UMa possam ter oportunidades no mercado de trabalho no qual vai ser mais difícil de entrar agora? Penso que é fundamental continuar a acolher o Polo de Emprego no Campus da Penteada e reforçar a atividade do Observatório do Emprego e Formação Profissional (que organiza anualmente o Fórum da Empregabilidade, com o objetivo de aproximar os estudantes das empresas e outras entidades da Região), e continuar a fomentar o empreendedorismo e a parceria existente com a STARTUP Madeira.

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Na sua ampla missão, a ação social no ensino superior também compreende o apoio às actividades desportivas e culturais. São, contudo, áreas que não integram a actividade dos Serviços de Acção Social na UMa, ao contrário do que se regista nas restantes Universidades. Como avalia, enquanto docente, essa acção tão distante das outras realidades universitárias? Penso que é imperioso criar condições para que todos os alunos, docentes e pessoal não docente, possam ter a possibilidade de praticar de forma regular Atividade Física ou Desportiva, tendo acesso a apoio especializado que garanta a devida monitorização dessa atividade. Nesse sentido, procuraremos potenciar sinergias que permitam implicar neste processo, para além da AAUMa, os Departamentos da UMa que possuem a massa crítica e os equipamentos laboratoriais de suporte à promoção e consolidação de estilos de vida ativos. Quanto às atividades culturais, são e devem continuar a ser desenvolvidas pela Universidade, pelas suas unidades orgânicas e pelo Conselho de Cultura, em conjugação também com a AAUMa.

Como a entende que a UMa deve promover o desporto universitário, na sua componente de lazer e competitiva (CNUs, por exemplo), sendo esta uma actividade essencial para os estudantes durante a sua frequência no ensino superior? Tal como referi no ponto anterior, a articulação entre a componente lúdica e a competitiva exigirá uma estratégia de conjunto para que possamos otimizar as potencialidades que oferecem. Não deve ser esquecida, porém, a possibilidade da criação de um sistema de incentivos para a captação de alunos de alta competição ou integrados em patamares competitivos federados de relevo, que podem articular o seu percurso desportivo em clubes da RAM com o percurso académico na UMa e, dessa forma, acabar por representar a nossa universidade a nível nacional e internacional.


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CARPE DIEM CARLOS DIOGO PEREIRA Alumnus

A visitar - As torres no coração do Funchal. Uma das maravilhas da cidade do Funchal é o seu bosque de torres que se ergue sobre as águas dos telhados. Muitas ainda são usadas para habitação, trabalho ou armazenamento. Ao subi-las, tiram-nos o fôlego não só pelo número de degraus (que nos deixam de pulmões a arder), como pelo deslumbre da vista, lá em cima, em qualquer direcção. Para os pouco amantes do campo e para todos os curiosos em geral, um excelente sítio a visitar são as torres do centro do Funchal. Estão abertas ao público as que rodeiam a Praça do Município: uma no Colégio dos Jesuítas, outra nos Paços do Concelho e uma terceira no Museu de Arte Sacra. A dos Jesuítas é um dos torreões da fachada da Igreja, cuja subida atravessa uma exposição de arte sacra e fotografias antigas do templo. A da Câmara Municipal albergou a primeira central telefónica da cidade e tem uma vista de 360º sobre o anfiteatro do Funchal. A do Museu, finda uma sucessão de espaços imponentes de altos tectos e intermináveis escadarias, abre para um mirante ao mar revestido a azulejos barrocos dedicados a São Miguel Arcanjo e às três Virtudes Teologais. É um passeio cultural e uma caminhada dentro da cidade.

Para fazer - A, B, C, D, E...Stop! Estar trancado em casa durante a quarentena obrigou muita gente a pensar em formas de passar o tempo, especialmente as famílias com crianças e jovens para entreter. Sem necessidade de grande investimento, um dos mais oportunos jogos de grupo, óptimo para toda a família, é o conhecido Jogo do Stop. Para quem não se recorda dele, trata-se daquela corrida de cérebros na busca pelo maior número de substantivos em diferentes categorias (nomes de pessoas, animais, plantas, objectos, marcas comerciais, países, cidades, etc.) que começam todos pela mesma letra. A designação do jogo advém do facto de que, em cada ronda, um jogador lengalenga, mentalmente, o abecedário até ser interrompido pelo grito STOP de um companheiro, determinado, assim, a letra-chave de cada desafio. São várias as vantagens cognitivas para todas as idades, além de que a aprendizagem de mais vocábulos leva ao maior domínio da língua. O material necessário fica-se por papel e lápis. Um dicionário também é útil, pois esclarece dúvidas e evita batota! Divirta-se e aprenda!


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Filme - A Múmia (1999) de Stephen Sommers.

Livro - Um Gladiador só Morre Uma Vez de Steven Saylor.

Estará bem longe de ser melhor filme, pouco importa o galardão ao qual concorre, mas é o meu filme preferido. Se com tantos canais ou DVD nada de interessante passa pelo ecrã lá em casa, a solução é simples: vou ver A Múmia! Fascinam-me as cenas históricas, as tempestades de areia, os cenários, os figurinos, sei lá… tudo! Os diálogos são um máximo e cheios de sarcasmo, como: “Quando Ramsés conquistou a Síria, isso foi um acidente. Mas você é uma catástrofe! Comparado consigo, as Pragas são uma alegria!” Tudo porque Rachel Weisz deixou cair alguns livrinhos! – Nem imagino o que lhe diriam fosse apanhada a falar na Biblioteca do Campus da Penteada… Mesmo com grandes liberdades hollywoodescas, há certos detalhes baseados em factos do Egipto faraónico e nos hábitos dos outrora arqueólogos/ saqueadores de locais históricos que inspiraram as saídas de campo do Professor Doutor Henry Indiana Jones. O filme mistura o absurdo com vários géneros: acção, ficção científica, romance, comédia, tragédia, suspense, terror (mais ou menos), épico e animação (bom… tem bonecos!). Pode não ser nada de especial, mas deixa-me sempre de bom humor!

Steven Saylor é dos autores modernos de maior sucesso. Historiador de formação e especializado na Roma Clássica criou Gordiano, o Descobridor, um detective romano, do século I a. C. Ao longo dos livros de Saylor – que inspiraram a premiada série de televisão Rome – as investigações de Gordiano permitem-nos compreender o quotidiano dos romanos e dos povos seus contemporâneos de maneira magistral. Um Gladiador só Morre Uma Vez não é uma história única, como os restantes volumes, mas antes um conjunto de pequenos contos policiais que decorrem desde o tempo em que o general Sertório fez da Ibéria um território inimigo de Roma, até ao período em que a velha República moribunda vê ascender Júlio César à primazia do estado romano. Ler Saylor é das formas mais agradáveis de aprender a cultura romana.


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Fake news e influência no comportamento das pessoas RICARDO FONSECA Aluno da UMa

Muito poucos ficcionaram até hoje que a terceira guerra mundial seria travada contra a natureza, sem ter como protagonistas principais em conflito, os poderes bélicos clássicos. A ordem mundial relativiza-se e dissolve-se de modo surpreendente perante a pandemia que assola o mundo neste momento. A Covid-19 está a ter custos humanos e económicos gigantescos, uma catástrofe que é uma ameaça de saúde pública e uma emergência económica no presente e no futuro. Sobre o presente e o futuro fala-se 24 horas por dia, mas... e sobre o passado? Discutir os primeiros momentos de progressão do vírus é uma forma de distração política usada por líderes de países onde o surto continua a progredir? Ou é uma forma de xenofobia em relação à China? O regime chinês fez todos os esforços para avisar o mundo do que aí vinha?

Foi negligente? Incompetente? Agiu de forma intencional? E se não fez tudo o que podia, é possível prová-lo? Um estudo da Universidade de Southampton, no Reino Unido, calculou que ter atuado com medidas restritivas (desde logo nas viagens aéreas) uma semana antes, duas semanas antes ou três semanas antes teria reduzido o contágio internacional em 66%, 86% e 95%, respectivamente. O rigor é aliado da eficácia e todas as questões retóricas terão que um dia ser esclarecidas de forma transparente e fundamentada. Enquanto isso, o encerramento compulsivo de esplanadas, cinemas, cafés, restaurantes e todos os locais públicos não essenciais foi uma inevitabilidade. Os dias que vivemos de isolamento e confinamento aumentam dia para dia, a incerteza do que nos espera. E que ninguém tenha ilusões. A ameaça é bem real. Quando a crise sanitária se transformar numa crise económica e depois numa crise social, será que vai ficar tudo bem?


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As catástrofes são acontecimentos muito ambivalentes. São uma excelente oportunidade para repensar e mudar alguma coisa, sobretudo se as conseguimos antecipar sem termos de passar por elas. Antecipar o inesperado torna-o menos inesperado e, conhecendo-o, permite responder-lhe melhor. Porém tornam-se também numa oportunidade para agravar desigualdades. Ora, é nesta terrível ambivalência que estamos. Ao lado do medo da próxima catástrofe, inesperada, da morte por um vírus que não conhecíamos, cresce o medo da pós-catástrofe ou, dizendo melhor, da catástrofe do regresso ao esperado que conhecemos das vidas que levamos, mas mais endurecido. A necessidade de fazer frente à recessão, a défices multiplicados, a recuos de uma década de juros de dívidas, dados todos por certos, mistura-se agora com restrições movidas pelo imperativo da saúde, a justificar uma austeridade soberana e impiedosa, sem apelo nem agravo. E, ao mesmo tempo, a compressão de liberdades individuais em contexto de emergência mistura-se com critérios etários, restrições de circulação assimétricas, dirigidas apenas aos mais velhos, de que já se fala e se discute a constitucionalidade. Uma vez adquirido o precedente, é preciso perceber que outros critérios, de género, modo de vida, que uma qualquer racionalidade de meios determine, farão caminho. Este é um quadro distópico, não imaginado, mas apontado como certo. Lê-se até à exaustão que não haverá regresso ao normal e que começará um “novo normal”. Mas, fundamentalmente, o que há de novidade é “apenas” a intensificação do que não é novo. A catástrofe ao serviço da aceleração, da eficiência da extração. A novidade significativa que vamos vivendo angustiadamente não apresenta o novo, o diferente, mas o mesmo reiterado e empedernido como nunca vimos.

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A economia dita que terminem as medidas que a abrandaram, que aceitemos a condição de existirmos doravante ainda mais como massa colectiva biológica para assim tornar possível continuá-la, cada indivíduo com uma autonomia que não será maior do que a de uma célula. O ultimato que obtém a sujeição voluntária das sociedades, enquanto subsistir vontade democrática (e mesmo individual) é brutal: todas as alternativas serão piores. Mas até que ponto pode esta alternativa ser aceitável? Pode a economia avançada do conhecimento, do terceiro milénio, da sociedade da informação, pós-industrial, etc., valer, afinal, apenas a escolha entre a vida e a servidão voluntária de um país? Se nos conformamos a uma competição de catástrofes, resignamo-nos à degradação da dignidade colectiva, admitimos que a lógica da competição até da catástrofe faça oportunidade. Diante do desastre do capitalismo do desastre, as melhores esperanças são que o desastre natural de uma pandemia viral (mesmo se com razões humanas por detrás) conseguisse estar para o que ameaça seguir-se, socialmente devastador, como Chernobyl foi, no passado, para um regime político. Post scriptum: Ainda a este propósito, vale a pena ver um filme recente extraordinário: Milagre da cela 7. Está lá tudo. A luta entre a realidade e as aparências. A relação entre os normais e os diferentes. A desproteção dos mais fracos perante o Estado dos fortes. Mas, acima de tudo, o factor humano, aquilo que nos torna únicos e irrepetíveis, capazes da transcendência independentemente dos padrões que nos queiram impor. Será sempre um desafio, de encontrar o equilíbrio do fim ou o fim do equilíbrio que minimizem uma recessão futura.


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A Summer in Iceland

HRAFNKATLA Students' Union German Volunteer

If you find yourself in Iceland during the summer months, you will be spoilt for choice as there are plenty of activities available, helped by the extended daylight hours. After the long, dark nights of the winter, Icelanders look forward to the summer and make the most of the opportunity to spend time with family and friends in the great outdoors. There are no shortage of festivities for you to take part in during this time of year. Independence Day, on 17th of June, is a nationwide celebration. A 17th June party is also around the time when Icelanders might dust off their old barbecues, and serve up some of their famous hot dogs, SS Pylsur. Mid- to late-June is also the time of the summer solstice, which is when you might experience the midnight sun. On a clear night, head out to a western part of the island and watch the sun approaching the horizon before beginning to rise again without fully setting. If you’re not used to sleeping when it’s still light outside, you might need an eye mask! While

Project co-financed by:

school children enjoy long holidays, teenagers and adults will typically work for the majority of the summer. However, on the first Monday of August is Verslunarmannahelgi, a long weekend initially intended for the country’s merchants. Today, it’s become part of the summer calendar for everyone. This weekend is packed with events across the country. Many Icelanders try to get away for the weekend, to a sumarbústað [summer house] or on a camping trip. There are also several large open-air festivals, such as Þjóðhátíð, a popular one for young people which takes place annually on Vestmannaeyjar (an island just south of mainland Iceland). For those who want to stay in Reykjavík, there’s a weekend-long festival there too, called Innipúkinn, which might be translated to ‘homebody’. Make sure you visit the open-air pools and thermal baths and then treat yourself to ice cream afterward.


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A responsabili VERA DUARTE Alumnus da UMa

Num estudo do V-DEM Institute, da Universidade de Gothenburg, divulgado em março deste ano, Portugal surge com a 7.ª melhor democracia do mundo. Apresenta-se como um exemplo de evolução positiva quando se consideram as últimas décadas, mas peca pela fraca participação política dos cidadãos. Uma sondagem produzida para a Representação da Comissão Europeia em Portugal — Opinião pública na União Europeia demonstrou que houve uma quebra de confiança, por parte dos portugueses, nos partidos políticos e na satisfação com a democracia. Posição corroborada por vários outros estudos, que concluem que as instituições políticas são, definitivamente, aquelas em que é depositada menos confiança. É portanto fácil de questionar, perante os dados expostos, se a fraca participação política, o desinteresse da população e até a abstenção nos vários atos eleitorais não são senão espelho da falta de confiança dos portugueses nos partidos. Eu diria que sim!

Todos usufruímos dessa liber conquistada, todos temos a res de decidir, de dar a cara. Esse

Mas o que tem falhado? E que preço se paga por viver em democracia? O 25 de Abril de 1974 deu azo ao nascimento da democracia depois de anos de ditadura e foi ela que nos deu a oportunidade de ter opinião, de votar de forma livre, de escolher quem nos governa. Hoje, dizem que Portugal vive uma crise de confiança política, mas, muitas vezes, esquecemos que todos estamos no mesmo barco. Que a democracia nos serve no auge, mas que também deve ser arma para os tempos mais difíceis. Todos usufruímos dessa liberdade e, por essa democracia


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idade da escolha

rdade e, por essa democracia sponsabilidade de participar, e é o valor da democracia.

conquistada, todos temos a responsabilidade de participar, de decidir, de dar a cara. Esse é o valor da democracia. A realidade que atravessamos, com a pandemia da COVID-19, deixou-nos nas mãos dos políticos que nos representam. Sem escolha, confiantes ou não, foi essa democracia que mostrou, uma vez mais, que as nossas decisões se refletem, sempre, no percurso da nossa Região e do nosso País. Um estudo recente, realizado pelo ICS e pelo ISCTE, revelou que 51% dos portugueses considera que as medidas tomadas, em resposta à pande-

mia, foram adequadas, mas outros 44% defendeu que eram necessárias outras mais restritivas. Gostava de saber a percentagem de votantes entre estes inquiridos, o que nos traria mais uma oportunidade de reflexão e mais uma forma de entendermos que não basta reivindicar. Hoje, o papel da política é, também, o de nos salvar a vida. O de impor para nos proteger, o de alterar a realidade para que ela surja melhor, mais tarde. Na nossa Região, a estratégia política resultou. Não se registaram óbitos e, em relação ao resto do território, têm sido menos as linhas de contágio ativas. Afirmo, até porque escrevo um artigo de opinião num tempo de liberdade, de que acertámos no líder e na audácia de quem nos governa. Mas, nas últimas eleições, ainda faltou votar quase 45% da população. Que as novas circunstâncias, a que nos estamos a adaptar e a que o nosso Governo está a responder, possa mudar a opinião das pessoas e fazer com que, pelo menos aqui, a política esteja mais apta a ter a confiança da população.


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Antropologia

Falámos com Christine Escallier, professora da UMa e coautora de Controverses et appropriations des espaces et des territoires: approche ethnographique, que trata essencialmente de antropologia do espaço - para refletir sobre o Homem e os seus comportamentos através um olhar etno-antropológico.. O Ser humano sempre teve a vontade (necessidade?) de dominar, controlar, se apropriar os espaços mas também as outras espécies (animais) incluindo os elementos da sua própria raça homo sapiens (escravatura, teorias raciais), também os elementos naturais (águas, mares, rios, vento, clima, etc.). A própria invenção das linguagens com vocabulário científico, profissional, etc. (i.e. uma linguagem estatal, linguagem litúrgico com o latim utilizado durante séculos nas igrejas católicas facilitando o controlo dos espíritos dos povos analfabetos) – é uma outra forma de apropriação/dominação. Saber é Poder. O Homem, enquanto animal cultural, tem esse instinto – tanto biológico como cultural – de controlar, enfrentar e superar os seus medos. Quando não consegue explicar, dominar

– fisicamente ou intelectualmente –, procura substitutos. Assim nascem as crenças, as lendas, superstições e outras manifestações espirituais, irracionais quando o racional é inacessível. Essas manifestações servem a elucidar o mistério, explanar o inexplorado. Todas formas de culturas, ritos e rituais são soluções alternativas para “dominar”, “controlar” tudo o que escapa ao Homem. Agora, a questão de saber se sempre essas buscas permanentes têm êxito… o filósofo Immanuel Kant levantou essa questão fulcral sobre as funções do Homem: “O que posso conhecer?” (seguida de: “O que devo fazer?” “A que posso aspirar?” “O que é o homem?”) sugerindo a utilização, a extensão e os limites da Razão. A História sempre mostrou que qualquer ação humana tem consequências. A procura e descoberta da vacina contra o Covid19 (ou quaisquer doenças) terá um custo, não só financeiro, mas também humano, social, cultural até político (anúncio do Putine ontem que poderia declarar uma guerra diplomática, até mais…). Além das consequências negativas que a procura/busca do Conhecimento origina, podemos


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A História sempre mostrou que qualquer ação humana tem consequências. pensar que o Conhecimento sempre prevalece sobre o obscurantismo. Usando da alegoria da Árvore de conhecimento, o ato de comer (maçã) envolve conhecimento… aqui do bem e do mal, demonstrando a importância deste “pecado”, ato proibido, simbolizando o amadurecimento humano, tanto intelectual como corporal. Sou antropóloga, quer dizer que tenho uma especialização mas não se pode abordar, refletir, analisar “factos” sociais e/ou culturais sem ter, ao seu dispor (vamos dizer) “vários dicionários para traduzir” as ferramentas recolhidas (facto observado, palavras/discursos ouvidos gravados…) sem já ter um cultura geral (leituras diversas principalmente, descobertas individuais, viagens…). Essa cultura geral abarca as outras áreas científicas. Por exemplo, um antropólogo tem uma grande afinidade com a filosofia e a psicologia (hoje podemos acrescentar a sociologia, a geografia humana, etc.). O investigador, além da sua área principal, tem de desenvolver conhecimentos nas ciências afins, ferramentas indispensáveis para chegar ao fim: analisar/compreender os dados, e divulgar/publicar.

Outros elementos fundamentais – sobretudo em antropologia – SEMPRE USAR DE COMPARAÇÕES. Só a comparação permite diferenciar os elementos discordantes e/ou notar os semelhantes que serão à origem de definição de regras, leis, normais destacando os elementos culturais identitários do grupo estudado em relação com outros. Direi que as teorias são: o espaço não existe sem OBJETO (no sentido lato incluindo a presença de um corpo humano). É o objeto que dá realidade ao espaço. A partir desta teoria – visão – podemos dizer que isso seria um facto “desde todos os tempos”. O que nos carateriza como sociedade é – além da conquista do espaço e uso (o fato de praticar o espaço: organização, reprodução da espécie, sustentação do grupo (caça etc.), isso como qualquer espécie viva (humano, animal, vegetal), estamos a contextualizar os espaços (noção de territorialidade, espaço masculino/feminino, espaço social, profana/sagrada,…). São os corpos dentro esses espaços, e os ritos/ rituais envolvidos, que contextualizam um espaço físico/geográfico.


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Conhece um pouco mais acerca do Serviço de Psicologia da UMa

Bem-vindo a esta tua nova casa! Que este ano académico seja feito de oportunidades para o teu desenvolvimento pessoal e académico. Este está a ser um ano atípico devido à COVID-19 e aos seus múltiplos desafios. Queremos que saibas que podes contar com a equipa de psicólogos do Serviço de Psicologia, para te ajudar nesta jornada. Como estudante tens acesso gratuito, mediante marcação prévia, a sessões de psicologia destinadas a, por exemplo: melhor gerir a ansiedade, promover o bem-estar psicológico, estudar melhor, aumentar o autoconhecimento, tomar decisões de carreira (…). Tens ainda ao teu dispor workshops de treino de competências pessoais e académicas, no decurso da jornada académica. Podes também encontrar online materiais psicoeducativos, com dicas subordinadas à prevenção e promoção da saúde psicológica e à vida universitária, entre outros tópicos. Podes, inclusive, seguir-nos no Facebook. O Serviço de Psicologia está localizado no Campus da Penteada – gabinete 2.135 (andar 2) e/ou no Colégio dos Jesuítas, de 2.ª a 6.ª feira, das 9 às 12:30 e das 14:00 às 17:30. Contacta-nos através do email servico.psicologica@mail.uma.pt ou dos contactos telefónicos 91 81 59 467 | 291 70 53 40 (direto). No website scp.uma. pt podes encontrar mais informação, e caso tenhas alguma questão, não hesites em nos contactar.

Know a little more about the Psychology Service Welcome to your new home! May this academic year be full of opportunities for academic and personal development. This is being an atypical year, due to COVID-19 and its multiple challenges. Know that team of psychologists of the Psychology Service are here to help you on your academic journey. As a student, for free and upon scheduling, you can have access to counseling sessions. The sessions could be aimed to help you manage anxiety, to promote your wellbeing, to help you study better, to promote career decisions, to increase your self-knowledge, among other. You can also attend workshops and other activities aimed at promoting the development of transversal skills during the academic year. Check online for educational and self-help materials, regarding your psychological health and others, and follow us on Facebook. You can find us at Campus da Penteada – room 2.135 (floor 2) and/or at Colégio dos Jesuítas – Monday to Friday, from 9 to 12:30 and 2 to 5:30 pm. Contact us before by Email: servico.psicologica@mail.uma.pt or by the following phone numbers 91 81 59 467 | 291 70 53 40. On the Website: scp.uma.pt you can find out more information.


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Os Fenómenos Sísmicos no Arquipélago da Madeira: Estaremos preparados para eventuais eventos?

DOMINGOS RODRIGUES Docente da UMa

Os sismos são processos geológicos que ocorrem naturalmente sobretudo no limite das placas tectónicas. As placas tectónicas estão sempre em movimento, movimentando-se muito lentamente, na ordem dos cm(s)/ano. Esses movimentos não contínuos geram por vezes o aparecimento de zonas de acumulação de tensão e posterior libertação dessa mesma energia (sismo) sobre a forma de ondas sísmicas. Os sismos são o desastre natural mais difícil de prever, diria mesmo que é impossível prever o momento exato da sua ocorrência. Contudo, neste momento já existem sistemas de alerta rápido, ou seja, logo que o sismo ocorra é possível, através de sensores, receber essa informação e transmiti-la rapidamente no sentido de se poderem ganhar segundos importantes que permitam, por exemplo, parar comboios de alta velocidade. Os sismos provocam também mudanças no campo gravítico da terra, essas mudanças levam ao aparecimento de sinais que se deslocam à velocidade da luz (300 000 km por segundo) e, como as ondas sísmicas só se propagam a uma média de 8 km por segundo, o objetivo é registar esses sinais (PGES) antes das ondas sísmicas chegarem e

ganhar aí alguns segundos/minutos importantes para que sejam emitidos alertas precoces. A dificuldade é registar esses sinais. A Madeira não está localizada no limite das placas tectónicas, que são zonas de grande intensidade sísmica, estamos numa zona intraplaca onde a sismicidade é muito menor (cerca de 5% de toda a sismicidade). A grande maioria dos sismos que ocorrem perto da ilha da Madeira são de baixa magnitude e nem são sentidos, a exceção foi o sismo de 7 de março (5.2M) e de 15 de março (3.5M). Desde o mês de março de 2020 que há uma concentração de pequenos sismos numa zona a cerca de 50 km a sul do Funchal até às ilhas Desertas. Desde São Martinho (Funchal) até essa zona, existe uma crista (linha), a , constituída por cerca de 20 cones vulcânicos. A coincidência da localização dos sismos pode indicar a existência de uma relação entre o alinhamento de cones (crista) e a ocorrência de sismos, nomeadamente por ser uma zona frágil por onde, no passado, o magma conseguiu ascender e formou cones vulcânicos) e agora ocorrem sismos. As medidas que devem ser tomadas no sentido de minimizar o impacto dos sismos, têm a ver com as medidas de proteção pessoal e coletiva, como também o cumprimento de regulamentos de construção antissísmica


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AD LECTERUM

Gosto de bibliotecas


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MARIA TERESA NASCIMENTO

Sinto-me indissoluvelmente ligada a elas. A memória da primeira que frequentei desde a primeira infância quase supera afectivamente os outros dois espaços de vivência – a casa e a escola. Porque a ida à biblioteca era sempre acto festivo, fosse qual fosse a sua regularidade. Não me recordo de outros leitores. Talvez me cruzasse com eles, mas nesse espaço apenas contavam os livros e o bibliotecário, por quem eu tinha um misto de respeito e receio, por nele ver o guardião e censor.

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Havia três espécies de interditos: a inadequação à faixa etária do leitor, o tamanho exagerado do livro, e o calendário escolar. Mais entendível o primeiro, os dois outros eram motivo para o meu questionamento. Não podia a dimensão do livro interferir no número de exemplares requisitados, julgava eu, ao preencher o minúsculo formulário, salvo-conduto para a saída dos preciosos exemplares. Afinal havia dúvidas quanto à minha voracidade e velocidade de leitura? E ainda tinha que ouvir no acto de devolução a pergunta vexatória: “Leste tudo? Tenho dúvidas…” Vencida a resistência quanto ao número de exemplares a requisitar, a minha estratégia era escolher livros volumosos para que demorasse mais a acabar a leitura, sobretudo quando se avizinhava o calendário proibido – e esse era o escolar. Se acontecesse de ser eu a distrair-me, como foi o caso uma vez, tentando abastecer-me de livros, na véspera do começo das aulas, lá estava atento o bibliotecário, a dizer não. É que ele seguia à risca as instruções da minha mãe e não se distraía com as datas. Era como se, afinal, a biblioteca tivesse um regulamento geral, o do seu funcionamento, e um outro específico adaptado às singularidades de alguns leitores. Depois deste preâmbulo, as sugestões de leitura que vos faço só poderiam ter como tema as bibliotecas. Escolhi autores e géneros diversos, e por entre a talvez esperada ficção, tive que conferir um lugar especial à não-ficção de Alberto Manguel. Alberto Manguel (Buenos Aires, 1948 - ) A Biblioteca à Noite. (2016). (Rita Almeida Simões, Trad.). Lisboa: Edições Tinta da China. Título original: The Library at Night (2008)


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“Um livro chama outro, inesperadamente, e cria alianças entre diferentes culturas e séculos. Uma frase semirecordada ecoa noutra por razões que, à luz do dia, permanecem obscuras. Se a biblioteca de manhã sugere um eco da severa e razoavelmente ilusória ordem do mundo, a biblioteca à noite parece rejubilar na essencial e alegre desordem do mundo.”

A Biblioteca de Manguel começa por ser a dele mesmo e a dos milhares de livros por desencaixotar, à espera do lugar que os albergará mas já com o destino certo, num espaço secular ao sul do Loire1. É esse o pretexto para uma deambulação do bibliófilo-leitor e daqueles que com ele viajam desde a biblioteca mítica de Alexandria às da contemporaneidade. Pensar a biblioteca é acompanhar a sua criação, alcance e significado, é deter-se no livro e questionar a sua ordenação, o seu lugar no espaço, no tempo, nas emoções e afectos. Pensar a biblioteca passa também por nos posicionarmos face ao seu conteúdo e à sua identidade que é, muitas vezes, também, a de quem concebeu ou planeou a forma e o lugar, fez escolhas e exclusões. Cada título de capítulo é uma promessa que não engana. Em cada um deles, como leit-motiv, achamos A Biblioteca: A Biblioteca como Mito; ……........ Podemos começar a leitura por onde quisermos, indo de imediato ao capítulo cujo título nos parecer mais estimulante. Acho que vou começar pela Biblioteca como Sobrevivência. Foi a partir da leitura deste capítulo de Manguel que Antonio G. Iturbe pesquisou a matéria que ficcionalizaria em A Bibliotecária de Auschwitz. Antonio G. Iturbe Saragoça, (1967 -) (Título original): La biblioteca de Auschwitz (2012) A Bibliotecária de Auschwitz. (2013). (Mário Dias Correia, Trad.) Lisboa: Planeta.

“Dita pega no livro com amor, acomoda as pregas soltas e ajeita as páginas tortas. Demora tanto quanto necessário ... a bibliotecária passa os dedos pelas páginas para as alisar com o mesmo mimo com que uma mãe pentearia a filha.”

Auschwitz continua a ser lugar de inspiração fecunda para a criação romanesca, seduzindo leitores, movidos e comiserados por relatos que se avolumam enquanto memorial de atrocidades que o tempo não quererá esquecer, como forma de prevenir a repetibilidade. A Bibliotecária de Auschwitz (Prémio Troa a Novelas com Valores, 2013) é uma história de sobrevivência pelos livros. No pavilhão 31, ce-


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Umberto Eco Alexandria (1932 – 2016) (Título original): Il Nome della Rosa (1980) O Nome da Rosa. (1983). (Jorge Vaz de Carvalho, Trad.). Lisboa: Gradiva. “Mas a construção labiríntica deste edifício nega uma verdadeira função da biblioteca, pois é elaborada para prevenir a disseminação do conhecimento, ao invés de facilitá-lo. “

Recuemos alguns séculos, até 1327, ano em que decorre O Nome da Rosa, tendo como pano de fundo as querelas político-religiosas sob o papado de João XXII. E é ainda sob o signo da interdição que penetramos na maior biblioteca da cristandade, sita numa abadia beneditina, do norte de Itália. Uma biblioteca à qual só o bibliotecário pode aceder, ele, também, o único com autoridade para facultar ou não a leitura de determinados livros aos monges que trabalham no scriptorium. Guillaume de Baskerville – que leitor não se lembrará de Sherlok Holmes? – acompanhado do secretário Adso, é chamado a desvendar uma série de mortes inexplicáveis na abadia. Contra algumas das hipóteses que apontavam para a possibilidade de serem os hereges os presumíveis assassinos, a resolução do mistério pode, afinal, residir num livro e na sua leitura… Agraciado com vários prémios literários, O Nome da Rosa converteu-se num best-seller, sendo, também, adaptado ao cinema. nário da maior parte da narrativa, nasce uma improvável biblioteca. São oito livros, apenas, também eles sobreviventes de magros despojos de pertences clandestinos, tesouro incomensurável, de cuja guarda ficará incumbida a jovem Dita. Além dos livros vivos, em que se metamorfoseiam alguns dos prisioneiros, chamando a si o reconto de leituras passadas que evocam, os prisioneiros do pavilhão poderão agora contar com Dita que terá que guardar e gerir, arriscando a própria vida, alguns poucos livros mutilados, Os livros são perigosos. Permitem sonhar e aceder ao saber e são alimento esperançoso do porvir, mas estão vedados aos prisioneiros de Auschwitz.

1 Razões que desconhecemos fazem com que os livros de Manguel viajem, agora, até Lisboa, deixando a Biblioteca pensada para eles. A 12 de setembro de 2020, foi realizado o auto de doação do acervo bibliográfico de Manguel à Câmara Municipal de Lisboa. É nesta biblioteca, a sediar no palacete dos Marqueses de Pombal, na Rua das Janelas Verdes, em Lisboa, que nascerá o Centro de Estudos de História da Leitura.


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MARIA TERESA VIEIRA


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A EVOLUÇÃO DE IT/ TECNOLOGIA NA MADEIRA HÉLDER PESTANA Software Developer – Asseco PST

Até ao final da década de 90, a IT na Madeira foi vista principalmente como uma área de suporte para outras três grandes áreas, nomeadamente, o Turismo, a Construção e a Zona Franca da Madeira (ZFM). Isto era particularmente notável observando o mercado regional e o tipo de empresas de IT que nele existiam, verificando-se que a sua maioria focava a área de serviços e de comércio. Este paradigma sofreu alterações no início da década de 2000, altura em que a Universidade da Madeira (UMa) dividiu o curso de Engenharia de Redes e Sistemas Informáticos, até então concebido para dar resposta às necessidades do mercado onde se inseria, em três cursos distintos e mais especializados, nomeadamente Engenharia de Informática, Engenharia de Telecomunicações

e Redes e Engenharia de Instrumentação e Eletrónica. Isto assume particular relevo se considerarmos que foi parte de uma estratégia da UMa e da Região para angariar empresas tecnológicas a se instalarem na Madeira, com potencial recurso a apoios angariados à União Europeia. Para tal, faltava somente a produção de mão de obra especializada na área de desenvolvimento de software, para que a Região tivesse os recursos necessários para aliciar este novo mercado. Infelizmente, a estratégia não obteve o resultado esperado pois, no final da década de 2000, altura em que saiu a maior força de trabalho especializada no desenvolvimento de software pela UMa, não existiam suficientes ofertas de emprego com condições adequadas a esta nova realidade, apesar de algumas das empresas tecnológicas da ilha terem iniciado o seu reajuste face a esta nova oportunidade. A agravar a situação, surge a crise económica que culminaria com o reajustamento económico e


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financeiro da União Europeia, de Portugal e, consequentemente, da Madeira e da sua Zona Franca, o que culminou em que, até à primeira metade da década de 2010, a área de IT fosse seriamente afetada não só pela falta de oferta de emprego, como também pelo encerramento de diversas empresas de serviços de IT devido à crise. O panorama alterou-se a partir de 2014, altura em que sai a Troika de Portugal e se inicia o novo quadro de apoios da União Europeia (20142020) para a Madeira, que se focou na inovação e na tecnologia. Isto, aliado à reestruturação da Startup Madeira e ao novo alento encontrado pela Região, levou a um crescimento na área tecnológica em duas frentes, uma associada ao crescimento das empresas regionais que já apostavam na área, tais como o caso da Asseco PST, da ACIN e da NOS-Madeira, outra associada à angariação de novas empresas tecnológicas tais como a TV App Agency e a Unipartner, o que aumentou

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a oferta de emprego na área de desenvolvimento de software, bem como potenciou a qualidade do emprego já existente devido ao aumento da competitividade salarial. Agora, no início da década de 2020, com a nova crise provocada pelo SARS-COV-2, verificamos que a Madeira volta novamente a ser afetada de forma negativa na sua competitividade, com exceção da área de desenvolvimento de software que, devido à sua natureza e capacidade de ser realizada tanto em teletrabalho como em regime de remote working, veio demonstrar que o potencial futuro e sucesso do mercado de trabalho da Região poderá passar por uma aposta mais forte na área de desenvolvimento de software e na criação de condições que facilitem o remote working, tanto para empresas na Madeira como para empresas estrangeiras que pretendam contratar mão de obra especializada mas que não possuam condições para cá se sediarem.


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O Poder da Terapia Musical em Tempos de Confinamento

LUÍS FERRO Aluno da UMa

Já dizia Ludwig van Beethoven que a Música se fazia reflectir sob “uma revelação mais profunda que qualquer Filosofia”. Nos tempos de combate à pandemia da Covid-19, que até hoje nos encobre, o isolamento não mais será visto, do que uma via de reencontro familiar, e claro como se adequa, ao redescobrimento e ao assimilar musical. O plano familiar e musical permitiu-nos reflectir mais do que à própria Filosofia concerne, quer no campo vasto das emoções, quer no diálogo reflexivo no qual se insere, não deixando de parte a sabedoria, a conquista e a própria elevação de alma que muitas vezes nos faltou. De que maneira, e tracejando o percurso inicial das várias fases da quarentena a que fomos deliciados, surgirá a música com um corpus, associada à resposta incógnita do futuro e da estabilidades emocional, imunológica e mental? Desde o mês de Março, é possível afirmar que nunca estivemos num patamar de vendas de EP’s ou de reconhecimento profissional tão alto. De entre um buraco negro de impossibilidades, incertezas, desespero e medo, surgiram as tão aclamadas Quarantine Sessions que nos refrescaram de alegria, optimismo, vislumbre e, se quisermos, de apreciação. O grande berço de artistas regionais e nacionais estabeleceu uma lareira de confor-

mismo para com a actual conjuntura, uma chama de grande versatilidade que reuniu desde os mais prestigiados temas da música portuguesa, às mais excêntricas melodias estrangeiras. Além de todos os esforços excedidos, não nos deixemos de mentalizar de que estar face a face com cerca de milhões de visualizadores tenha sido fácil. No entanto, há que salientar a importância do musicista para o espectador. Falando nas sessões, e nomeando algumas que se destacaram ao longo destes meses de confinamento, ressaltamos a Conversa de Artista, enquadrada no projecto Quarantine Sessions, um conjunto de concertos via Facebook realizado e concretizado por músicos madeirenses, com o objectivo de tocar e (en)cantar todos aqueles que as veem. Isto, claro, respeitando o tão necessário isolamento social. Num somar de dias, encheram-se as redes sociais de partilhas, gostos, novas e múltiplas outras respostas com o mesmo intento. Agora, o papel terapêutico desempenhado aqui foi de tal modo rejuvenescedor para todos nós que, num abrir e fechar de olhos, assistimos a uma onda de solidariedade para todos aqueles que estão na frente activa do combate à Covid-19 (enfermeiros, médicos, bombeiros, etc), símbolo de acolhimento mundial, quase que equiparável ao espírito de camaradagem presenciado na Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974. Comparo o modo como o mundo reagiu à Revolução, num vendaval


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de manifestações consubstancializadas e de outras acções colectivas ou individuais. O trabalho feito pelos artistas, todavia, nem sempre é visto a bons olhos, e se muitos de nós os parabenizamos pelos seus indispensáveis labores. Claro que haveriam de existir para inverter a maré de consentimento. Não só de solidariedade a partir da nostalgia se servem aqueles que mais anseiam por um equilíbrio de vida estável, como também de homenagens e actos de apoio moral para com aqueles que defrontam este enorme Adamastor. Nas ruas de Berlim, na Alemanha, um camião percorre as ruas no intuito de partilhar a arte do compositor J. S. Bach com todos aqueles que se resguardaram em clima de angústia. Espectáculos de ópera, rock ou até mesmo musicais, passam das plataformas

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para manifestações de transmissão global, evidenciando o significativo clima existente entre os media e o mundo musical. Concluindo, o processo de investigação e, com sorte, de elucidação a todos os leitores, certamente, vimos uma nova característica sentimental em todos nós. Nada era como queríamos que fosse. Talvez devêssemos reflectir severamente sobre os nossos princípios e valores, mas relembrando o tema que nos concerne. Isto que fique bem claro em todo o nosso dia-a-dia, e que com a grande mão de Deus que nos suportou e que nos ajudou, há que aceitar as consequências do que plantámos valorizando o que nasceu connosco e que nunca foi tocado ou transformado, que vimos manifestar progressivamente ao longo dos nossos rígidos e inigualáveis tempos de confinamento.


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O impacto da pandemia na educação EMANUEL CAMACHO Aluno da UMa

No passado mês de Março, um bilião de alunos foram surpreendidos em todo o mundo pelo encerramento abrupto dos seus estabelecimentos de ensino, desde as creches até ao ensino superior. Nesta crise, sem precedentes e de proporção global, todos tivemos que nos adaptar às contingências e directrizes a que esta pandemia obrigou, pois todas as indústrias e todas a áreas foram atingidas de uma forma quase obscena. Esta crise pandémica revolucionou a forma de aprender e o isolamento acabou por criar vários hábitos e comportamentos, quer nas famílias, quer nas instituições de ensino, que englobam uma panóplia de recursos humanos, desde os alunos aos professores, mas também passando por todos os funcionários, que se foram obrigados a adaptar a um conjunto de novas metodologias. Todas as crises são uma oportunidade de crescimento, quer a nível individual, quer em sociedade e esta não é excepção. Que depois desta pandemia, a educação venha fortalecida, pois a única forma de mudar o paradigma de uma sociedade é investindo no seu sistema educativo, que ninguém tenha dúvidas sobre esta matéria. O desempenho do Governo nesta crise Como sempre, todos os estigmas e novas eras, trazem consigo um conjunto de obstáculos, que cabe a todos nós enquanto sociedade (em especial às instâncias governativas) resolver. Nas denominadas escolas públicas, 28% dos alunos do ensino básico não têm acesso a computadores. Depois, ainda temos os alunos que, embora tenham computador, não têm acesso à internet.

Existe ainda outro estudo que conclui que 23% dos alunos do 12.º ano não possuem computador ou não têm acesso à internet em casa. Estes números, se pudessem ser directamente extrapolados à população do nosso país, seriam qualquer coisa como 300 mil alunos sem os meios necessários para poderem aceder às suas aulas. O nosso Ministro da Educação já elogiou (e bem) o espírito de missão, o compromisso e seriedade dos nossos professores, alunos e funcionários, contudo, o seu grande desafio (seu e do seu governo) é combater as desigualdades que patenteiam este número desolador de alunos carenciados de equipamentos. As autarquias têm desempenhado um papel importante, mas não chega. A única forma de minimizar o impacto e os constrangimentos deste vírus, é fazer o ensino chegar a todos. António Costa já se comprometeu a fazê-lo e resta-nos esperar que cumpra com os seus desígnios dentro da máxima celeridade possível. Como será o próximo ano lectivo? António Costa deixou nas entrelinhas bem explícito que o retomar do ensino secundário, na próxima semana, será uma espécie de tubo de ensaio para o próximo ano lectivo. Esperemos que decorra tudo dentro da normalidade, permitindo abrir boas perspectivas para os próximos meses de Setembro e Outubro. Não existindo vacina em menos de um ano, resta-nos adaptarmo-nos aos novos tempos, aprendendo a lidar com o vírus e cumprindo as premissas da Direcção-Geral de Saúde. Se cada um fizer a sua parte, será meio caminho andado para um regresso gradual à normalidade. Mas que ninguém se iluda, o mundo e o ensino nunca mais serão os mesmos.


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Projeto Greening the Curriculum: metade do lixo são beatas de cigarro

HÉLDER SPÍNOLA Professor da UMa

No âmbito do projeto Greening the Curriculum da Académica da Madeira, financiado pelo Programa de Inovação e Transformação Social (PRINT) da Direção Regional da Juventude (DRJ), e em cooperação com o Programa Eco-Escolas do Politécnico da Universidade da Madeira e contando com o apoio logístico do Departamento de Ambiente da Câmara Municipal do Funchal, decorreram, nos dias 13 e 14 de outubro de 2020, com a participação de 224 voluntários, ações de limpeza no Campus da Penteada e sua envolvente. Com o objetivo de sensibilizar a Comunidade Académica para a deposição correta dos resíduos, e procurando recolher dados sobre a sua caracterização, as ações de limpeza resultaram na recolha de 138 quilos de lixo, não deixando de ser um valor surpreendente na medida em que, na sua grande maioria, estivemos perante resíduos leves

e de pequena dimensão, como são as beatas de cigarro, lenços de papel e plásticos diversos. Efetivamente, foram recolhidos mais de 12 mil itens (resíduos individualizados), resultando que, em média, cada resíduo recolhido possuía menos de 12 gramas, sendo que mais de metade desses itens foram beatas de cigarro (6274 beatas). Embora o aspeto mais importante desta iniciativa tenha sido a elevada participação dos alunos e a forma como se empenharam, já que a recolha destes resíduos minúsculos constitui um desafio de difícil execução, revelando-se uma atividade extenuante, os dados revelados pela caracterização efetuada pelos participantes demonstram uma realidade para a qual é necessário alertar a sociedade: a forma como os pequenos fragmentos de materiais não biodegradáveis estão a se entranhar no ambiente que nos circunda. À semelhança do que se passa no meio marinho, os ecossistemas terrestres também se vêm ameaçados por fragmentos de plástico cada vez mais pequenos, originários de resíduos abandonados ao longo do tempo, os quais, pela sua dimensão, são de difícil remoção e começam a ser demasiado frequentes na camada superior do solo e nos cursos de água. Por isso, limpar é apenas uma tentativa de minimizar e alertar para o problema, sendo o mais importante educar para não sujar; o apelo que fica desta iniciativa.


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Com o apoio:

em parceria com:

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Foi dito… O que fazer em caso de novo confinamento?

ARTURO ALVES

RAUL SILVA

“Estar informado e manter produtividade.”

“A época de confinamento poderá ser ideal para melhorar e fortalecer a relação familiar em casa e passar bons momentos em família.

ALEX FARIA

IGOR FERNANDES

“Criar uma rotina em casa, mas sempre diversificando algumas das ocupações.”

“Devemos continuar a amar aqueles de que gostamos, mas também aqueles que não nos valorizam tanto, visto que o risco é o mesmo, sejamos ricos, pobres, bonitos, feitos, raças diferentes, etc. Todos podem ser atingidos, não há diferenças somos todos iguais.”


Coca-Cola e o Disco Vermelho são marcas registadas de The Coca-Cola Company.

É HORA DE NOS JUNTARMOS PARA COMER


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é abreviatura da expressão latina et alii (“e outros”). Os alii são com frequência aqueles que não se nomeiam, que não se identificam, que não deixam memória da sua vida. Os outros são aqueles que não aparecem, que se remetem a um silêncio social e cultural que oblitera a sua identidade. Et al. será certamente um indicador do que a academia tem de mais precioso: a busca do conhecimento, da compreensão, da mudança, busca que resulta inevitavelmente em inclusão e tolerância.

ISSN 2184-5646

9 772184 564005

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