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Índice

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MATRIZ


O Futuro Não Será Vulgar! Editorial Xavier Vieira Presidente da Direção da Associação Académica da Universidade de Aveiro

A Matriz, nesta edição, dá um passo em frente. Surge com uma postura de frontalidade para com a sociedade portuguesa demonstrando a pluralidade de ideias que a caracteriza. Através de um longo trabalho de recolha de contributos e planeamento da linha editorial, acreditamos ter conseguido construir uma edição capaz de se tornar uma referência para o início de . Os contributos recolhidos vão desde agentes políticos da maior relevância até especialistas das áreas mais polémicas que afetaram o decorrer do ano , contando ainda com uma perspetiva de análise do que está a acontecer na Catalunha que se correlaciona com o complexo conceito de liberdade. Normalmente, os anos iniciam-se com a vontade de efetuar novas resoluções contendo sempre uma áurea de esperança para a concretização de todos os sonhos que desejamos fazer parte. Acreditamos que esta revista, independentemente do lado da secretária em que se coloque, pode ser um guia para a fixação dos objetivos do

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que queremos para o nosso futuro. Sejamos honestos, o futuro deixou, há muito tempo, de se definir à esquerda ou à direita. Neste momento, depende de quem aponta melhor para a frente! Desta forma, foi do nosso entendimento que teríamos de construir algo que permitisse à Academia Aveirense constatar que o mainstream thinking que domina o nosso quotidiano deve ser combatido com o fomentar da capacidade de discutir a realidade. “In a time of social fragmentation, vulgarity becomes a way of life. To be shocking becomes more important – and often more profitable – than to be civil or creative or truly original.” Al Gore A matriz nesta edição caracteriza uma discussão onde compete ao seu leitor tirar ilações do que quer para o seu futuro. Olhemos em frente, nós sabemos onde queremos estar. E tu? [M]

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01 - Monumento aos Ovos Moles Fotografia: João Jesus 02 - Traje da Confraria Fotografia: Conf. Ovos Moles

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A Confraria dos Ovos Moles de Aveiro e a Nossa Academia

I

Esta associação de índole cultural, com traje contemporâneo, desenvolve outras ações de caráter social, turístico e gastronómico, com vista a imortalizar a história deste doce celestial, título então atribuído pelo escritor Eça de Queirós, e potenciar o futuro desta vantagem competitiva aveirense, através de uma maior venda e conhecimento deste produto tão acarinhado pelas suas doceiras, maestrinas dos nossos Produtores de Ovos Moles.

Cultura

Sérgio Ribau Esteves Chanceler Mor da Confraria dos Ovos Moles de Aveiro

A missão, que rege a Confraria dos Ovos Moles de Aveiro, adoça o compromisso dos seus sessenta Confrades pela promoção e divulgação dos Ovos Moles de Aveiro (apenas os que são certificados!). Este ex-libris carateriza não apenas a cidade e a sua região, mas também este doce país não por acaso à Beira-Mar plantado. MATRIZ

Tal imortalização teve o seu apogeu aquando da edificação em outubro de  de um merecido Monumento aos Ovos Moles de Aveiro (MOMA), que se encontra na Fonte Nova. A nossa romântica Cidade dos Canais, embalada num moliceiro, ficou ainda mais bela com este marco, autoria do escultor Albano Martins, a qual só foi possível com o patrocínio da Câmara Municipal de Aveiro e de várias empresas, nele mencionadas, e que integram o dinâmico tecido industrial que caracteriza a Região de Aveiro. Por entre a flor de sal e os Ovos Moles, desenvolve a nossa Confraria inúmeras atividades. A destacar. O evento desportivo “Aveiro Sweet Fire Trail”, com a participação em  de  atletas e cujas verbas angariadas foram distribuídas pela Associação de Assistência de Eixo, Centro #2

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Comunitário da Vera Cruz e pela própria Confraria. Esta edição teve o apoio imprescindível, e dinâmica, da Associação Académica da Universidade de Aveiro e do Beira-Mar. As duas primeiras edições desta atividade solidária permitiram ajudar os Bombeiros Velhos e Bombeiros Novos de Aveiro. O evento Via Gastronómica que vai para a sua ª edição, desenvolvido em parceria com a Confraria Gastronómica do Dão (Viseu), a Confraria Ovelhã da Guarda y a Cofradía del Jamón de Guijuelo (Salamanca) e que visa potenciar o eixo Aveiro/Salamanca como uma via também ela de elevado valor gastronómico. A peça em biscuit desenvolvida em parceria com a empresa Vista Alegre. O livro sobre o Monumento aos Ovos Moles de Aveiro com introdução do escritor Valter Hugo Mãe. O filme “make up” do Monumento e que pode ser visto através do QR code instalado no Monumento (º monumento em Portugal com QR code). E tantas, tantas outras doces ações… Com o nosso Confrade de Honra Universidade de Aveiro, e sublinhando que o nosso Magnífico Reitor Prof. Manuel Assunção é também ele membro efetivo da nossa Confraria, destacamos como realizações recentes o Capítulo realizado em  nas instalações da UA, onde elevámos a Confrade de Honra o Diário de Aveiro e a atriz Cláudia Vieira, e


De maneira a não se aborrecer em si mesma ao longo dos anos desdobrou-se em Cartola’s Band, SymphonyCartola & Co., Cartola’s Unplugged e Filarmonic Cartola. Magna Tuna Cartola Núcleo Cultural da Associação Académica da Universidade de Aveiro

Alter-egos utilizados em noites de lua cheia.

CAPÍTULO I Imagina ‘o nada’... e depois ‘o tudo’.

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Consegues?

destacamos também o livro, atualmente em desenvolvimento através de uma parceria entre a Confraria, a UA e a APOMA, sobre a história dos Ovos Moles de Aveiro. Ou seja, uma feliz e doce ligação, com muito futuro. Para assinalar tal ligação, vamos a breve prazo entregar emblemas da nossa Confraria, para que possam os nossos estudantes colocá-los nos seus trajes académicos.

CAPÍTULO II A Magna Tuna Cartola nasceu em  e desde tenra idade decidiu dar música às pessoas. Após tomada a supracitada decisão, ata  do Conselho Organizacional Nobilíssimo – vulgo CON, fê-lo nos mais imagináveis sítios e nas mais inimagináveis situações: nos melhores teatros do Portugal, tascas à moda antiga, bares de toda a espécie e feitio, praças, pracetas e pracinhas, aldeias, vilas, cidades, casamentos, batizados, pedidos de casamento, conciliações, reconciliações e desconcilizações (palavra existente no VIR – Vocabulário Inócuo Revolucionário).

A nossa academia é também ela potenciadora do envolvimento dos nossos estudantes, professores e funcionários, nos valores identitários da nossa Cidade e Região e que como todos sabemos, passam a ser nossas quando por aqui estudamos, ensinamos, namoramos e nos divertimos. De tantos pontos de interesse da cidade cujos reflexos de luz são únicos e nos fixam o olhar no horizonte, de salientar os Ovos Moles de Aveiro, iguaria que revela a sua conventualidade na ligação pela hóstia a qual deve ser rasgada, permitindo sentir a suavidade dos ovos moles, precedido de uma degustação que tem tanto de doce quanto de sensual. Um mix algo explosivo, único, e que deve ser acompanhado por um Espumante da Bairrada ou por um Vinho do Porto.

CAPÍTULO III (Caro leitor, se ficou cativado com o segundo capítulo avance até ao capítulo V.) CAPÍTULO IV Imbuída no espirito académico, a Cartola – como é carinhosamente tratada - é um Núcleo Cultural da Associação Académica da Universidade de Aveiro que se orgulha de pautar pela diferença em tudo aquilo que faz. A sua irreverência demonstra a sua maneira de ser e estar neste pequeno T.

Pelos Ovos Moles e por Aveiro, um grande Bem Haja à nossa UA. [M]

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CAPÍTULO V Abre o browser do teu dispositivo móvel, fixo ou híbrido e procura por alguns vídeos nossos. Sério. São divertidos! CAPÍTULO VI Se chegaste até aqui, presumo que o teu interesse e curiosidade em conhecer melhor a Magna Tuna Cartola está ao rubro. (Se o nível de excitação está mesmo no máximo, solte um suave “SIMMMM” à Cristiano Ronaldo – ajuda a desanuviar...) O que importa reter neste capítulo é o seguinte: Ensaios são às terças e quintas pelas h na Casa do Estudante. Aparece e vê com os teus próprios olhos. Segue-nos nas redes sociais e fica a par de todos os nossos movimentos. Lê o Capítulo IV. CAPÍTULO VI Imagina ‘o nada’... E depois a Cartola. Consegues? Atentamente, Da Cartola [M]

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Tuna Universitária de Aveiro Núcleo Cultural da Associação Académica da Universidade de Aveiro

A história da Tuna Universitária de Aveiro tem início em Outubro de , data em que se formou a TUNGA - Tuna Académica da Universidade de Aveiro. No entanto, a atual formação da Tuna Universitária de Aveiro remonta ao ano de , fruto da fusão com a Rial Tuna de Aveiro do ISCAA. Com o objetivo de unir a academia em prol da música tradicional e do espírito académico, a atual TUA herda as tradições e o vasto repertório musical das tunas que lhe deram origem, cantando às belas tricanas que passeiam pela cidade, levando a todo mundo, nas nossas canções, a nossa ria e os típicos moliceiros, sempre representando as cores da nossa universidade e da nossa cidade. O que nos faz continuar é a vontade de perpetuar a cultura e tradição académica em Aveiro. Tentando sempre, para isso, criar uma ponte entre a cidade de Aveiro e a academia na forma do nosso Festival Internacional de Tunas da Universidade de Aveiro – FITUA – que é o culminar do nosso projeto. Tudo isto apenas é possível devido ao apoio de diversas entidades locais a quem queremos deixar o nosso sincero agradecimento. Felizmente temos assistido nos últimos anos a um aumento do interesse dos estudantes da nossa Universidade de Aveiro em participar no nosso projeto. Por isso, a Tuna Universitária de Aveiro vai continuar em força a animar esta bela cidade. [M]

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03 - Ilustração Ilustração: Gabinete de Imagem AAUAv

Neste aspeto a bicicleta tem uma vantagem clara em relação aos restantes meios de transporte: não requer combustível. Os ciclistas não são afetados pelo aumento do preço dos combustíveis fósseis, poupando bastante desta forma. Contudo, as vantagens da adoção deste modo de transporte não se restringem apenas a benefícios próprios. Ao utilizares a bicicleta, estás a contribuir para a diminuição da poluição atmosférica, através da redução de emissões de CO2, e para a diminuição da poluição sonora. Estes são fatores muito importantes para a preservação do meio ambiente. Estão reunidas todas as condições necessárias para que esta prática seja adotada por um maior número de pessoas. Então qual é motivo de não existirem mais pessoas a movimentarem-se de bicicleta para a UA?

UA: Uma Universidade com Pedalada Núcleo da Bicicleta da AAUAv fb.com/nbicla/ | nbicla@aauav.pt UAUBike fb.com/uaubike.pt/ | uaubike@ua.pt

São muitos aqueles que usam a bicicleta nas suas deslocações para a Universidade de Aveiro… mas podiam ser muitos mais. A bicicleta permite uma deslocação mais rápida em centros urbanos, considerando curtas distâncias, comparativamente com o automóvel ou outros veículos motorizados, uma vez que é um veículo bastante mais compacto que um carro e com o benefício que não terás de te preocupar em arranjar lugar para estacionar. Para além disso, permite e estimula a atividade física e consequentemente contribui para o teu bem-estar e para a tua saúde. Existe, também, a vertente económica que é sempre um aspeto a considerar, especialmente para nós, os estudantes.

Serão as subidas de Aveiro as culpadas? A orografia da cidade de Aveiro é favorável à utilização da bicicleta como meio de transporte. Será pela falta de projetos? A nossa academia tem a resposta! Com o uaubike.pt, que é o projeto da Universidade de Aveiro no âmbito do U-Bike Portugal. Financiado pelo Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (PO SEUR), visa promover a mobilidade sustentável e estratégias de baixo teor de carbono, cedendo à comunidade académica 142 bicicletas convencionais e 97 bicicletas eléctricas, em regime de aluguer de longa-duração. Mais de 500 membros da UA demostraram o seu interesse neste projeto na fase de pré-registo, tornando esta mais uma prova de que existe um grande interesse do meio universitário no que toca à utilização da bicicleta, cada vez mais presente no quotidiano dos estudantes da academia aveirense. Ainda dentro deste projeto realizam-se outras iniciativas tais como os “UAUBikes Talks” que são conversas com o objetivo de estimular e dar a conhecer a toda a comunidade académica temas relaciona11

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dos com a bicicleta desde a utilização, à sensibilização, investigação e inovação. E será que não existem estacionamentos? São vários os parques de estacionamento para bicicletas, que estão à tua disposição na cidade. Dentro da tua universidade serão colocados num futuro muito próximo, 230 estacionamentos, que se traduzem em 460 lugares extra, contemplados também no projeto U-Bike. Já tens bicicleta, mas não a usas nem um dia? O “Quintas a pedal para a UA", da responsabilidade da Plataforma para a Bicicleta e Mobilidade e parceiros, tem com objetivo promover o uso da bicicleta aos membros da academia Aveirense às 5ªFeiras. E tens também a possibilidade de obter um desconto no pequeno-almoço e duche através da campanha promovida em parceria com os SASUA. Com que então são só os Docentes e a Reitoria que promovem o uso da bicicleta? Não! A Associação Académica da Universidade de Aveiro também dá o seu contributo, principalmente através de nós, o NBicla - Núcleo da Bicicleta da AAUAv. Estamos empenhados em incentivar-te a adotar a bicicleta como meio de transporte através das nossas diversas atividades: cicloficinas, gincanas cronometradas, debates, passeios, assim como outras actividades novas e interessantes que irão surgir. Estás pronto para aceitar a mudança, mas tens os pneus furados? Para remendarmos a situação, está a ser criado um espaço dedicado à bicicleta nas catacumbas da Universidade, onde estarão presentes membros do NBicla, prontos para te ajudar. Nesse espaço, terás ao teu dispor uma panóplia de serviços. Se fores um dos candidatos contemplados com a atribuição de uma das 239 UAUBikes, poderás usufruir deste espaço para fazer a manutenção da mesma e estar em contacto com a equipa do uaubike.pt para qualquer dúvida ou apoio. Conta ainda com outras atividades no espaço da bicicleta! Então e tu? Qual é a tua desculpa para não usares a bicicleta nas viagens para a UA? MATRIZ


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Quando os Tiros são Sempre os Mesmos Os Melros são Sempre os Mesmos Bruno dos Reis Encenador do Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro

Há talvez poucas coisas mais anacrónicas e paradoxais do que se escrever em  sobre a falta de público. Mais me espanta, a mim enquanto espectador bem alapado, que seja o sermão de maior afeição aos chamados operadores culturais na região de Aveiro. MATRIZ

Aveiro é uma cidade com enormíssimas falhas na sua malha cultural, na qual o espectador desempenhará pela sua natureza um papel vital, sem dúvida, mas são falhas de que o próprio tem pouca, se sequer alguma, responsabilidade. O salmo bacoco de que o espectador é ignorante se não comparece, estúpido se não frequenta, néscio se não se voluntaria, soa-me já à parábola do sábio que se põe a falar com os camelos porque na cidade ninguém o entende: haverá o dia em que cuspirá como os ditos animais, e os animais ditos estarão ainda por aprender uma palavra do que diz. Se por um lado é uma injustiça aos (mesmo que raríssimos) casos de sucesso na região, por outro é um paralogismo perigoso e contagiante que vai desresponsabilizando tanto os raros criadores como os programadores culturais. Há nisto porventura demasiadas mãos (todas bem lavadinhas, como se imagina) para que as possamos apontar criteriosamente: a falta de politização da Cultura por vários mandatos autárquicos que foram delegando as suas incumbên#2

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cias à fé no liberalismo acerebrado de iniciativas (inexistentes) privadas; o crescente fosso entre a cidade e as várias instituições de Cultura que foram fossilizando tanto as suas propostas como as suas estratégias de comunicação; a ausência de estruturas que conseguissem, academicamente, prover os mais jovens criadores tanto de bases sólidas como de formação adequada às carreiras a que se pretendiam lançar; e em última instância os meios de comunicação que, pelo seu formato profundamente caduco e conservador, sempre falharam em ser uma plataforma de recenseamento crítico. Uma obra (ou um evento) que não é objecto de crítica é uma obra que não sofre o peso da responsabilidade, que não defende a sua autoridade. É fácil de perceber como se entra na "no man's land" de Morin, em que o que acontece não é inscrito, não tem peso, não tem continuidade, não estrutura, não causa, não opera. Há uma sucessão de efemeridades de objecto artístico e cultural que não chegam sequer a acontecer entre si e para si - não podendo acontecer assim para a massa pública a que são destinadas. É, sim, verdade que Aveiro é uma cidade onde não existe uma esfera pública responsável pela Cultura contra-corrente e marginal essencial à sua dinâmica, pelo détournement do já instituído, das políticas culturais passivas e bacocas, dos meios de comunicação mais datados que trocam espaço noticioso por assinaturas anuais ou que fazem de press-releases alheios o


conteúdo ad verbum do seu expediente, dos (raros) equipamentos culturais fossilizados no pós-CEE das vacas gordas, mas a culpabilidade da inexistência dessa massa crítica activa não pode pertencer ao público passivo em gestação, é um contra-senso. E apontar-lhe o dedo parece-me o mesmo que acusar os melros de não acertarem nas balas. "O Teatro Académico não é o tio desempregado dos núcleos universitários, que vem às festas de família contar piadas e pôr nariz vermelho. (...) O Teatro Académico é Teatro." Mais ainda se poderia escrever sobre o capital humano que os estudantes universitários trazem à cidade e que tem sido continuamente desvalorizado pela falta de estratégia cultural da dita Universidade e da falta de visão dos (alguns) já idos agentes culturais. Um futuro regional, qualquer que seja, passará sempre em primeira instância pela inclusão destes milhares de jovens nas suas dinâmicas culturais, e só depois se pode pensar no resto de uma cidade que começou por

estar entre o Porto e Coimbra e hoje em dia está entre Estarreja e Ílhavo. Não se compreendem algumas vozes que acusam os estudantes, mormente os estudantes, de não quererem saber da Cultura. Ninguém quer saber da Cultura até estar envolvido nela, é quase o mesmo que o paradoxo da força e da vontade nietzscheana: o que se interessa pela Cultura é a Cultura. Vivemos talvez uma oportunidade de excepção. Não me lembro de outro tempo onde houvesse tão fácil acesso a uma programação tão variada (pegando ainda no caso de Ílhavo aqui tão perto); temos um Teatro Municipal que parece finalmente seguir uma lógica de programação e que parece, volvidos anos, ter começado a oferecer o patamar que faltava a pretensas vozes da região; um Grupo Experimental de Teatro a rebentar pelas costuras, a oferecer formação que nunca tão pouco houve na cidade e a provar, evento após evento, que falta de público é o que não existe; atrás disto sinais de mudança naquilo que nunca se julgou de outra forma, a entidade responsável por quinze mil jovens, a

AAUAv; o aparecimento de iniciativas privadas e individuais que a muito custo pessoal vão sendo um luxo, como o caso da recém-nascida VIC; por mais fátuas que algumas se adivinhem e mais ingénuas que outras ainda sejam, a recente criação de várias plataformas (digitais e em papel) que se propõem a fazer o trabalho que o jornal dito regional menos faz; e ainda o surgimento de eventos contra-corrente a quem talvez caiba o trabalho mais duro de todos, como o caso do Aveiroshima. E se tudo isto é ainda manifestamente pouco, é porque ainda nos falta a nós, criadores e agentes culturais, fazer manifestamente muito. O público de  não é o mesmo de  e idos longos passos, cabe-nos a nós encontrarmos estratégias diferentes – podíamos começar pelo nosso discurso. Fica aqui a minha cuspidela. [M]

04, 05, 06 e 07 - Peça Liberdade ou Morte Fotografia:GrETUA - Pedro Sottomayor

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Em Terra de Cego Quem Tem Olho é Pobre

Bárbara Pinho Estudante de Ciências Biomédicas

A arte e a cultura na comunidade UA Eu não estudo artes, não me estou a profissionalizar na área e nunca estive perto disso. Não por falta de vontade, mas sim por falta de coragem. Não há em mim todos os sonhos do mundo, desculpem. Há uma quanta incompletude e, acima de tudo, questões. A mais proeminente? É mesmo esta:

Luís Borges,  anos, Lisboa Design Como foi o teu percurso até agora no mundo das artes? Fui para artes porque desde puto queria. Até troquei de escola! Era uma cena que queria mesmo. No ºano estive um bocadinho de pé atrás porque muita gente julga quem quer ir para artes...

É preciso coragem para estudar arte em Portugal? A esta bela interrogação, juntaram-se outras tantas relacionadas com o estado da arte e cultura no nosso país nas passadas semanas, por cafés e restaurantes aveirenses. Falei com futuros designers e músicos, sem grandes papas na língua, na esperança de encontrar respostas sem ser cliché. No entanto, aí vacilo e vacilamos todos, fomos um pouco cliché. Não me parece que alguém se importe.

Sentiste atribulações em tua casa por quereres seguir artes? Foi na boa, mesmo, porque os meus pais são muitos interessados a nível cultural, o meu irmão mais velho estudou arquitetura, e tínhamos o interesse e o gosto lá em casa.

Queria que este artigo começasse de forma grandiosa e inspiradora. Um início em grande que depois definhava com a realidade que o título representa. Ainda assim, por entre procuras em estantes e com o objetivo de trazer um pouco mais de significado a este prefácio, que devia abordar o tema gigante na alma, mas pequeno nos bolsos portugueses que é a cultura, deparo-me com a obra que merece ser citada aqui, precisamente aqui, onde não há grande espaço para se ser conceptual, mas um enorme vazio que preencho de alma amadora.

Como surgiu Design cá em Aveiro e como está a ser o curso? É o melhor curso de Design em Portugal, e como queria Design mais geral acabei por colocar como ªopção. Os professores são muito próximos de nós e apoiam-nos imenso. Uma pessoa fica mais motivada e aprende imenso. Eu recomendo a toda a gente design aqui, acho que é mesmo excelente. Muita gente julga por ser uma cidade pequenina, mas adoro estar aqui, tenho aqui tudo, é muito completo. Temos uma preparação que junta o que é bonito com o que é funcional, uma preparação teórica, bases para fazer muita coisa e nota-se que estamos muito bem preparados quando nos colocamos em comparação com outras pessoas que estudam noutras cidades. Às vezes é claro que fazemos trabalhos que não gostamos, mas isso é como em tudo na vida e no mercado de trabalho também será assim, portanto habituamo-nos.

“… o melhor caminho para a cultura passa pela linguagem e tem de ser tão familiar como a nossa casa. Não precisamos de utilizar continuamente todas as divisões… No entanto, todas as divisões e todos os andares da linguagem têm de estar acessíveis; temos de saber movimentar-nos por todos de um modo rotineiro e hábil, temos de o fazer com a segurança de um sonâmbulo.” In “Cultura- Tudo O Que É Preciso Saber”, Dietrich Schwanitz Não sei se estas entrevistas vos providenciarão o dito caminho para a cultura, mesmo assentando na linguagem como Schwanitz aconselha. Não sei se daqui sai algo de proveitoso. Não sei se daqui se construirão sonhos, memórias ou simplesmente se passa incólume pelo campus. Não sei e duvido algum dia saber, por isso talvez seja mais adequado dizer que há em mim todas as questões do mundo. Todas não, vá. O Luís, a Bárbara, a Catarina, a Mónica e o Romeu responderam a algumas, e estas são as suas conclusões. Façam o proveito que acharem digno, e tirem as vossas. P.S. Um grande “obrigada” aos entrevistados e um especial agradecimento à Inês, a melhor RP de sempre e que teve uma dose enorme de paciência e ao Rafa, por ser o melhor e mais prestável grammar nazi à face da Terra.

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E em Portugal? Como é estudar Design no nosso país? Ouves muitas vezes a típica pergunta “Estudas para um hobbie?”? As pessoas acham que passamos o dia a desenhar, que não fazemos nada de interessante e que basicamente estamos aqui a gastar dinheiro aos nossos pais. E depois o pessoal abusa, acontece imenso. “Ah és de design, faz aí uns cartazes.”. A nós isso acontece imenso, “Ah, és de design, deves saber umas coisas, faz lá.” mas também temos muito o apoio dos mais velhos. Como nós temos tanto trabalho, às vezes nem temos tempo de ligar. É chato ouvir isso, mas já estamos tão habituados... já ouvíamos as boquinhas quando estávamos no secundário que acabamos por ignorar. E lidamos muito com pessoal no DECA e lá dentro há valorização. Cá fora é que, pronto, não é tanto assim. Mas então mesmo numa comunidade que devia ser informada como a UA não há conhecimento do que vocês fazem? Não, não sabem. Há muita falta de preocupação em geral, e já que estamos a falar da universidade, há muita falta de cultura nas pessoas. As pessoas não pensam muito nas coisas quando as vêm e acham que aquilo foi feito às  pancadas e que nada é pensado, nem há valorização. Sente-se isto sempre, há pouca gente que se importe. A cultura move o mundo, estamos aqui com esta cadeira e com este café assim por causa de pessoas que se interessavam e que fizeram. A cultura é muito importante e deve ser desde cedo colocada na educação dos miúdos. Estas pessoas constroem o mundo que temos, o músico faz a música que toda a gente ouve, os designers fazem as cadeiras onde nos sentamos, as coisas não aparecem assim do nada, são pensadas. Algumas coisas são feias, tipo estas cadeiras. São horríveis, mas alguém teve trabalho! No entanto, parece que na escola é sempre mais importante fazer exercício de matemática que aprender a desenhar. As pessoas deviam valorizar o que as rodeia.

Há uma frase de um poema de Ricardo Reis, um dos heterónimos de Pessoa que certamente conheces que enuncia “Põe quanto és no mínimo que faças”. Achas que isso faz sentido para um artista pouco valorizado? Sim, acho que… sim, por acaso, essa frase até faz algum sentido.

capacidade de dar a volta e tens que dar tudo, tudo de ti. Tens mesmo que dar de ti, e dar de ti. E quando achas que já não tens mais para dar, dás mais, tem que ser.

Colocar o máximo de ti em todos os projetos? Mesmo em projetos mal remunerados? Vale a pena, o trabalho do designer também é saberes vender o que fazes. Imagina, estou a fazer este pacote de filtros e o cliente quer isto maior e tu sabes que não faz sentido, também tens que ter a Bárbara Vitoriano,  anos, Porto Design Como foi o teu percurso até agora no mundo das artes? É estranho, eu adorava físico-química. Era mesmo a minha cena, mas na turma eu também era aquela miúda que fazia desenhos e a quem toda a gente pedia desenhos. Então acho que foi mais por exclusão de partes. Eu adoro físico-química, queria ser cardiologista e adorava a ideia, mas depois acabei aqui. Não sei, sentia-me bem a fazer isto para sempre. Via-me a fazer isto para sempre. Sentiste atribulações em tua casa por quereres seguir artes? Os meus pais já estavam à espera. Foi super natural, por isso na altura não senti que tivesse que ter coragem. Claro que agora uma pessoa tem que ter outra coragem, por causa do mundo de trabalho, e na altura a minha mãe queria que fosse para ciências. Toda a gente quer que os miúdos vão para ciências, mas depois foi natural. Aceitaram. Também tenho familiares que estão em artes, por isso foi um bocado mais fácil.

outra é em Lisboa. Eu queria ir para artes a sério, queria ir para uma escola a sério, e tive essa oportunidade. Foi um bocado difícil para eles aceitarem, questionaram-me algumas vezes, mas depois lá fui eu e adorei. Aliás, nem sei como é que faria coisas que faço hoje se não fossem as bases que tenho dessa escola. Foram essenciais.

Como surgiu Design cá em Aveiro e como está a ser o curso? Eu sou uma pessoa muito fifty-fifty, e como gosto de muita coisa, é complicado saber o que queria. Por isso entrei para cá, porque é Design geral, e queria experimentar tudo e depois ver “Okay, é disto que eu gosto”. O problema é que fiquei ainda mais confusa. Isto ainda não está resolvido.

Cheguei a andar numa das duas escolas artísticas no país, uma que há no Porto. A

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Na altura foi ªopção porque queria perceber o que queria para a vida. Também conhecia pessoal que já cá estava, e foi isso. Acabei por vir para aqui. E em Portugal? Como é estudar Design no nosso país? Ouves muitas vezes a típica pergunta “Estudas para um hobbie?”? “Isso é um curso mesmo?”. “Design é um curso?”. Normalmente perguntam-me o que é Design. Eu tento explicar as coisas. Mesmo coisas: colheres, cartazes. Não surgem assim do nada e são sempre pensadas. Há sempre esse exemplo: isto está aqui porque alguém pensou nisto. Ainda assim, as pessoas acham que não é nada de sério, e acho que isso tem a ver com a cultura das pessoas, talvez. A cultura é uma coisa na qual devemos investir, mas isso fica sempre para o fim, passa ao lado. Eu vejo isso em muitos lados, e corrigir isto passa muito pela educação. Eu vejo isto com a minha irmã mais nova. Ela tem expressão plástica, e se ela tem ‘muito bom’ é igual a um ‘suficiente’. Agora, se ela tem um ‘suficiente’ a matemática é tipo “Vê lá, que andas a fazer?”. Já pensei nisto, e discuti isto com os meus pais. “Porquê? Ela tem ‘muito bom’ a matemática, também tem que ter a expressão plástica”. A verdade é que, claro, ela precisa de se esforçar mais a matemática, mas isso não pode tirar o valor da expressão plástica. Há uma frase de um poema de Ricardo Reis, um dos heterónimos de Pessoa, que certamente conheces, que enuncia “Põe quanto és no mínimo que faças”. Achas que isso faz sentido para um artista pouco valorizado? Eu tenho esse lema. Se faço alguma coisa e se está lá o meu nome, se as pessoas estão a contar comigo, dou tudo. Claro que quando são projetos mal pagos, epá, é uma revolta muito grande. Muito grande mesmo, mas se pensamos assim, depois o que é o nosso trabalho? Já não é nada, fica mecânico, acordas de manhã, vais para o trabalho e voltas a casa. Não, não pode ser.

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Catarina Silva,  anos, Lisboa Música Como foi o teu percurso até agora no mundo das artes? Eu desde pequenina que queria estudar música: a minha mãe tocava e quando era mesmo novinha comecei a tocar órgão, mas detestava. Insisti muito para aprender acordeão e comecei aos  anos. Comecei mesmo pequenina: o acordeão era bem maior que eu. Fui sempre tendo música com o passar do tempo, e houve uma altura da minha vida em que fui viver para a Bélgica com a minha família, e lá entrei numa escola mesmo profissional de música e foi aí que me apercebi que gostava disto e “Uau, até tenho jeito!”. Depois voltamos a Lisboa, entrei numaescola de acordeão lá e foi mesmo graças aos professores que tive lá que acabei por seguir música. No entanto, eu andei sempre com a escola ‘normal’, porque estive com o ensino articulado.

Sentiste atribulações em tua casa por quereres seguir artes? A minha mãe apoiou-me imenso. Ela compreendeu e aceitou. O meu pai não adorou a ideia, porque ele queria muito que eu seguisse Direito, e acho que foi mais complicado para ele porque não segui o que ele realmente queria para mim.

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Como surgiu Música cá em Aveiro e como está a ser o curso? Para acordeão há muito pouca escolha em Portugal. Só há  sítios e eu preferi cá por ser universidade e não politécnico. Para além disso, depois disseram-me que tinha mais facilidade de mobilidade, por exemplo para ERASMUS, e então ficou decidido. Agora estou entusiasmadíssima, vou atrás de um professor que quero mesmo muito na Dinamarca, e mal posso esperar. E em Portugal? Como é estudar Música no nosso país? Ouves muitas vezes a típica pergunta “Estudas para um hobbie?”? A maior parte das pessoas até reage de forma querida, dizem logo “Ah, música é lindo, música é fantástico!... Mas que é que vai fazer a seguir?”. A pior parte é quando lhes digo que toco acordeão. Tenho logo que dizer que é de concerto para não falarem do Quim e do pimba. As pessoas não têm uma ideia formada, não se equaciona que a música existe porque somos bombardeados com música básica e ninguém procura entender o que é música complexa. Quando eu explico que até podemos dar aulas, o estereótipo finaliza com o “Ah então és professora.”. Esta falta de conhecimento vem muito da falta de cultura em muitos locais, mas também da falta de interesse. Em Portugal tens de tudo: pessoas interessadas e com conhecimento, pessoas que não têm assim tanto conhecimento, mas que se interessam, e depois temos pessoal muito mais novo e que procura porque se vai interessando. No entanto, há sempre, sempre pessoas que podem ter tudo. Conhecimento, oportunidades, tudo, e não vão querer saber. Ficam em casa. Mesmo numa comunidade que devia ser informada, como a UA, não há conhecimento do que vocês fazem? Eu sinto que as coisas estão a melhorar. Já há cada vez mais pessoas a tocar, logo a informação e a valorização já são outras, mas ainda assim, aqui na UA, não sei, é


um pouco estranho. Eu não tenho grande experiência por cá, mas olha, um exemplo que te posso dar é de há uns tempos, naquela sessão de abertura do ano letivo. Pediram-me a mim e a uma colega para irmos tocar, e eu percebo que o que fomos tocar não é propriamente fácil de ouvir. Não era a coisa mais melódica. Ainda assim, ver que tanta parte da audiência estava no telemóvel e sem querer saber… pronto, isso custa um bocado. Sente-se a falta de conhecimento, mas também a falta de valorização.

Há uma frase de um poema de Ricardo Reis, um dos heterónimos de Pessoa, que certamente conheces, que enuncia “Põe quanto és no mínimo que faças”. Achas que isso faz sentido para um artista pouco valorizado? Claro, acho que sim. A minha mãe costuma dizer “Se é para fazer, mais vale fazer bem feito!”, portanto acho que sim. Mesmo quando tens um auditório cheio de pessoas no telemóvel, como descreveste há bocado?

Sim, claro mas graças ao governo português no implementar do ensino articulado temos uma grande facilidade em criar instrumentistas, mas acima de tudo ouvintes, e isto é muito importante para aprender a gostar de música clássica, que é um bocado desafiante. Isto leva mais pessoas a ouvir e a valorizar a música em Portugal. Ainda assim, há algo que está a acontecer cá e que não facilita a vida dos músicos: nenhum músico consegue viver somente de concertos, é muito complicado, tem que haver a componente de ensino. O que acontece noutros países é que acabas de tirar a licenciatura e, com ou sem mestrado, consegues dar aulas onde quer que seja. Cá em Portugal não, tens que tirar o mestrado em ensino, e isto não existe em mais nenhum lado. Claro, excelentes músicos vão para fora, conseguem dar aulas sem mestrado, por

isso para quê ficar? Também estou nessa situação, não sei que fazer. Eu sou muito patriota, e gosto mesmo muito de Portugal, mas levas tantas chapadas que chega a uma altura que, epá, não queres levar mais. Outro problema passa muito pela falta de oportunidades. Às vezes com uns colegas vamos pedir para tocar em alguns sítios e vamos arranjando, vamos atrás dos lugares. No entanto, repara, estive na Holanda um mês e durante esse tempo tive duas ofertas para tocar e eram ambas remuneradas. É trabalho! Cá em Portugal isso não acontece, há muito a ideia que um músico toca por copos de cerveja ou porque é bom para se expor. Há sempre casos que fogem à regra, mas a maior parte passa por isto. Não há uma verdadeira valorização, muito por causa da falta de conhecimento. Se as pessoas soubessem ouvir, gostariam mais, e é como te estava a dizer há bocado: o Estado apoiou essa vertente com o ensino articulado, mas depois peca porque não alimenta o gosto dos ouvintes que criou quando eram adolescentes. Como é que esse gosto poderia ser aumentado? Com mais investimentos, claro, e aqui surge mais um problema. As prioridades estão confundidas. Ora pensa bem, gasta-se mais dinheiro para luzes de natal públicas que para a cultura no nosso país. A filarmónica de Berlim gasta mais que o Orçamento de Estado para a Cultura em Portugal para

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Romeu Curto, 20 anos, Covilhã Música Como foi o teu percurso até agora no mundo das artes? Como surgiu Música cá em Aveiro e como está a ser o curso? Tenho uma prima minha que tocou violoncelo, outro amigo da minha mãe também toca. Por isso, como a música já existia muito na família, fui estudar percussão quando tinha 7 anos, e depois guitarra. Começou a desenvolver-se assim uma paixão da minha parte e fui evoluindo. Andei numa escolinha de música, depois entrei no conservatório até ao 9ºano e depois decidi ir para uma escola profissional de música, na Covilhã. Fiz sempre música. Acabei, chego ao fim do 12º ano, e pronto, surgem questões. “Portugal? Fora?”. Entretanto concorri para a Holanda e para cá, entrei lá e cá e optei por ir para lá. Estive um mês a estudar em Haia, mas depois não gostei muito, porque o professor não era aquilo que eu esperava, e em música é essencial termos um professor que nos acompanhe bem, para além de que era um pouco dispendioso. Por isso, na 2ª fase vim para cá e encontrei um professor que me ajuda bastante e com imensa experiência. E em Portugal? Como é estudar Música no nosso país? Ouves muitas vezes a típica pergunta “Estudas para um hobbie?”?

Acho que vale sempre a pena, nem que seja porque no fim fico a sentir-me mal se não dei o máximo. “Que vim eu cá fazer? Para que é que vim se foi para isto?” Isto já atravessa a parte de exposição e vem muito ao que é pessoal, sou eu que tenho que me dedicar, é pela audiência, mas também por mim.

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um ano. Uma orquestra alemã investe mais que um país inteiro. Epá, eu sei, ninguém vai dar 40€ para ir ver uma ópera, pensa. Eu não julgo quem não dá esse dinheiro. Pensa bem, é quase um décimo do ordenado mínimo, mais deslocações. Fica muito caro. Claro que entre ir ou ficar em casa, as pessoas ficam em casa. Agora, se não tivesses que pagar, se calhar já ias. E se calhar ias gostar e talvez depois, como já ganhaste gosto a isto, começas a valorizar mais. Isto acontece lá fora. Na Lituânia as pessoas 08 - Ilustração Ilustração: Gabinete de Imagem AAUAv

sentam-se nas escadinhas das salas de espetáculos, mas não se importam. Então, estão a ver uma ópera gratuitamente, claro que não se importam! O Estado ajuda as pessoas a ganhar o gosto. Romeu, mas vê uma coisa, não é minha intenção estar aqui a contradizer-te, mas há muitos eventos, por exemplo cá na Universidade, que são completamente gratuitos, e as pessoas não aderem. O auditório da reitoria não enche. Achas mesmo que esse é o fator decisivo? Compreendo, mas isso sinto mesmo que já traz outras questões: conformismo... Compreendo que, mesmo gratuitamente, as salas não encham. Agora imagina se fosse pago, talvez tivesses menos adesão quando se trata de música. Infelizmente não enche, eu sei, mas sempre há mais adesão. Mas então mesmo numa comunidade que devia ser informada como a UA não há conhecimento do que vocês fazem? Claramente não há conhecimento do que fazemos, nem sequer se aproveitam

II Empregabilidade

Hugo Carvalho Presidente do Conselho Nacional de Juventude

Acabei a universidade! E agora? Vou trabalhar para uma caixa de supermercado? MATRIZ

O emprego e a empregabilidade são temas que o decorrer dos tempos e das mudanças políticas não tiraram ainda do topo da agenda dos jovens e do setor da juventude, tanto a nível nacional como a nível europeu ou global. Nos piores anos da crise económica e financeira que assolou o nosso país e a Europa, o desemprego jovem chegou a estar perto dos , estando, em , cerca de  mil jovens portugueses em situação de inatividade. Conseguimos, nesse ano, observar um fenómeno preocupante e quase inédito de ver  mil jovens, com formação mais atualizada, com menos comprometimentos familiares, com uma abertura diferente ao domínio das tecnologias, em situação de desemprego de longa duração, estando há mais de um ano sem encontrar emprego. O caminho positivo que temos observado de diminuição destes indicadores deve-se, na sua maior parte, à prioridade que a União Europeia estabeleceu em apoiar os Estados-Membros com orçamento para

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as oportunidades. Esta falta de adesão é um problema da sociedade em geral. Há uma frase de um poema de Ricardo Reis, um dos heterónimos de Pessoa que certamente conheces que enuncia “Põe quanto és no mínimo que faças”. Achas que isso faz sentido para um artista pouco valorizado? Sim, sim, sim é o lema que temos mesmo que pegar. Mesmo com uma plateia reduzida e uma remuneração baixa? Sim, tem que ser. Já me aconteceu. Tive 3 pessoas a ver-nos e olha, foi um concerto lindo, intimista e no fim ainda me vêm dizer que ficam comovidos. Já deixei impacto? Brutal. Cada pessoa tem o seu gosto e as suas preferências, há que respeitar isso, claro. Por isso, mesmo havendo salas vazias ou com dez pessoas e só uma delas ficar comovida, o meu trabalho é ficar contente porque comovi aquela pessoa e agora trabalhar para comover as outras nove. Que sintam algo. [M] Políticas Ativas de Emprego. Portugal foi, na aplicação do Programa Garantia Jovem, um dos países reconhecidos pelos seus resultados: estando hoje o desemprego jovem na casa dos  e tendo reduzido em praticamente metade o número de jovens desempregados de longa duração. Ainda assim, o desemprego jovem continua a ser o dobro do da população em geral, e continuam a crescer os desafios que os jovens têm no acesso à sua profissão, no acesso a empregos de qualidade, no combate às formas precárias de contratação e, mais recentemente, na prospeção dos avanços tecnológicos e da evolução laboral na nossa sociedade. O Fórum Económico Mundial avisava, há pouco tempo atrás, que  das crianças que hoje entram para a escola vão ter empregos que hoje ainda não existem. As tendências de automação e de especialização das funções laborais vão provocar necessariamente alterações no funciona-


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mento do emprego, mas a evolução tecnológica - que se impõe como condicionante à partida - não implica porém qualquer determinismo de degradação e precarização das condições de trabalho. Pelo contrário, a forma como a regulação laboral e o mercado de trabalho se vão adaptar às novas realidades são opções políticas e sociais, que reclamam um debate prévio esclarecedor e sério. Devemos olhar para esta transformação como um desafio a ser vencido pelas opções políticas que se fizerem por um lado por condições de trabalho mais dignas e com progresso social - em vez de se optar por uma crescente deterioração do acesso ao emprego e das condições de exercício das obrigações e direitos laborais - e, por outro, pela academia, a escola e a formação de todas as gerações, sob o risco de criar um novo tipo de exclusão: a exclusão digital. As tendências detetadas nas últimas décadas apontam para a existência de um fosso cada vez maior trabalhadores indiferenciados e trabalhadores altamente especializados, tendo decrescido abruptamente a necessidade de trabalhadores com especialização média: ora, considerando que o risco de extinção de emprego se coloca sobretudo do lado da indiferenciação, e sendo largamente conhecido o

défice de qualificação dos portugueses, é fundamental uma verdadeira aposta em Educação e Formação, que possa não apenas preparar as crianças e jovens para a realidade do emprego que se adivinha, como também reconverter os atuais trabalhadores em trabalhadores mais qualificados e com maior especialização. Estão Academia e sistema educativo a prospetivar estas realidades emergentes, a adaptar os seus currículos e a construir metodologias e programas educativos que capacitem os estudantes para estas realidades? Ou estão, pelo contrário, a demorar demasiado tempo a compreender o fenómeno, mais ou menos inebriadas na repetição dos processos do passado, não configurando com o tempo e a reflexão necessários a mudança de paradigma que se exige? Como podemos continuar a aumentar ou manter as formações específicas em áreas que estão em clara retração? Ou como não avançamos rapidamente para a inclusão das competências digitais, nomeadamente a programação, como uma competência básica que todos os estudantes devem desenvolver em contexto escolar?

no sentido de ela levar as pessoas mais longe, de ajudar as pessoas a desempenharem melhor as suas funções e a gerirem o seu tempo com maior eficácia, aumentando a produtividade sem reduzir o rendimento e as condições laborais e sociais de trabalhadores. A tecnologia poderá realizar ou facilitar todas as funções mecânicas e repetitivas: porém funções intelectuais, criativas e que requerem um espírito crítico e inovador são espaços privilegiados que apenas pessoas, com boa educação e formação pessoal, poderão ocupar. Acredito por isso que o futuro do trabalho passará muito pelo desenvolvimento as indústrias criativas, seja pela necessidade de criar novas formas de melhorar o que nós conseguimos fazer, seja pelo facto de inevitavelmente ficarmos com mais “tempo livre” durante o nosso dia.

Sendo verdade que caminhamos para um mundo sempre mais tecnológico, devemos ter uma visão sobre a tecnologia

De muitas mais teses que existam sobre o emprego do futuro - algumas com imensa validade também - eu diria que se quisermos apontar um caminho de futuro em que a academia se relacione com o tecido económico e empresarial, esse caminho passa pela criatividade e pelo desenvolvimento de tecnologia para as pessoas. Porque quando as máquinas nos tirarem o emprego a todos, o nosso emprego será dar-nos uns com os outros. [M]

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MATRIZ

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III

João Cardoso Presidente da Federação Nacional de Associações de Estudantes do Ensino Superior Politécnico

Ensino Superior

Universidades e Politécnicos: são assim tão diferentes? Atualmente no Ensino Superior Português existem dois subsistemas de Ensino Superior. O Politécnico e o Universitário. No presente poderíamos aplicar os clássicos jogos de diferenças para tentar decifrar o que os distingue contudo iríamos chegar a um entendimento que para lá das nomenclaturas das Instituições de Ensino Superior e da limitação dos Institutos Politécnicos conferirem Doutoramentos poucas são as diferenças existentes em ambos. A duplicação da oferta formativa é um fator que em muito veio permitir uma aproximação de ambos os subsistemas. Hoje universidades e politécnicos conferem licenciaturas e mestrados nas áreas das ciências sociais e engenharias em que o corpo docente tem as mesmas qualificações e a designação das formações é igual. Contudo, cabe às Universidades e Institutos Politécnicos se diferenciarem dentro do permitido pela Lei. O dia de amanhã deveria ter nos Intitutos Politécnicos docentes com maior ligação ao tecido empresarial e que não fossem só especialistas em título.

possibilidade das instituições oferecem o terceiro ciclo de estudos num clima empresarial e diferenciando-se da oferta curricular das universidades.

Margarida Mano Deputada independente, eleita pelo PSD

Este amanhã não pode ficar só por aqui. Também o ensino superior universitário terá que se repensar e preparar-se para os novos desafios. Portugal tem vindo a mudar e não podemos simplesmente comparar a nossa nação com outros países da Europa ou do Mundo. Temos que dentro do nosso ambiente cultural perceber como podemos ter um ensino de futuro e sermos reconhecidos no mundo pela excelência do nosso Ensino Superior.

Quem tem a palavra final? O primeiro ministro ou o novo presidente do Eurogrupo?

No meu entender, é um erro a Lei ainda não ser suficientemente clara sobre as Instituições de Ensino Superior não lecionarem à distância, que impede não só os estudantes mas toda a comunidade de aproveitar os recursos tecnológicos que já existem. A abertura de portas à tecnologia por parte de Universidades e Politécnicos será um grande desafio para o ensino superior, mas esse será o verdadeiro futuro. [M]

As Finanças dizem não ter dinheiro para cumprir o prometido ao Ensino Superior. Daí a pergunta: vai a palavra dada pelo primeiro-ministro ser honrada? Ou impõe-se de novo a falta de liquidez do país? Depois de um ultimo mês em que o ministro do Ensino Superior e da Ciência se esforçou por assegurar que a palavra do Governo, e dos contratos que o mesmo assinou em 2016, tem valor, eis que, na última semana, o Ministério das Finanças vem assumir que o Estado não tem dinheiro em 2017 para cumprir o prometido.

Deveria existir um contacto mais permanente dos estudantes com as empresas ao invés de realizarem um estágio no último semestre e por fim a

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A pergunta frequente regressa: Vai a palavra dada pelo primeiro-ministro ser honrada? Ou será a situação de falta de liquidez do país mais forte do que a palavra do Chefe do Governo? A PALAVRA DO PRIMEIRO-MINISTRO Em julho de 2016 o Governo assumiu um acordo de Legislatura, formalizado num contrato de compromisso com a ciência e o conhecimento, com as Instituições de Ensino Superior Público. Nesse acordo ficou firmado (Cláusula 2. – Compromissos do Governo) que todo o aumento de despesa que resultasse de alterações à lei feitas pelos órgãos de governo seria suportada com verbas “acrescidas” do Orçamento de Estado (OE). Como é do conhecimento público, os aumentos previstos com as políticas desenvolvidas pelo Governo em 2017 implicaram um aumento da despesa nas instituições. Aumento de despesa num valor conhecido desde há um ano, relativo ao aumento do salário mínimo, aumento do subsídio de refeição e aumento com a agregação dos docentes, estimado em 13 Milhões de euros. O envio deste “reforço”, cumprindo o Acordo de Legislatura, foi sucessivamente adiado de junho 2017, para outubro, novembro, dezembro … sem qualquer concretização. Entretanto, outros compromissos foram assumidos ao longo do ano, com outros reforços pendentes, também sem qualquer transferência até ao momento. “A palavra dada será sempre a palavra honrada”, repetiu o Primeiro Ministro em 28 de novembro passado, o que, em linha com o contrato firmado, só poderia significar que o executivo iria, para cumprir com a palavra dada, disponibilizar as verbas às universidades e aos institutos politécnicos correspondentes aos compromissos políticos assumidos pelo Governo.

A MEMÓRIA DO ÚLTIMO MÊS Porque “a memória é a consciência inserida no tempo”, como inspira Pessoa, e porque na política a memória é particularmente importante, na medida em que ajuda a perspetivar o caminho que se traça, o que se diz e, fundamentalmente, o que se faz, vale a pena relembrar três momentos do ultimo mês, a propósito deste contexto. •Palavra de Manuel Heitor na Assembleia da República a 14 de novembro A discussão no Parlamento do OE para 2018 (orçamento onde se propunham e assumiram compromissos adicionais para 2018) inicia-se num clima de forte preocupação e insatisfação em politécnicos e universidades. O Presidente do Conselho Coordenador do Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), Nuno Mangas, fez saber que “recebeu zero” e que “o contrato de legislatura estava em causa”, e o Presidente do Conselho de Reitores (CRUP), António Fontainhas Fernandes, na sua primeira declaração depois de empossado, manifestou “extrema preocupação” pelo “inexplicável atraso” no pagamento das verbas acordadas, referindo que “o não cumprimento do acordado consubstanciaria uma quebra da confiança entre as universidades e o Governo que o referido Contrato veio criar, abrindo uma crise institucional no setor”. Perante um clima de insatisfação de reitores e presidentes de institutos politécnicos e procurando antecipar a crítica no debate a um Orçamento para o ano seguinte com mais compromissos do que o atual, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), Manuel Heitor, na intervenção inicial da sua audição, a 14 de novembro, referiu: “O OE2018 enquadra 4 principais ações de

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política. Primeiro, naturalmente, o concretizar do contrato de legislatura com as universidades e os politécnicos e desde já afirmo que ainda hoje tive a confirmação do Ministério das Finanças que o esforço ainda pendente em 2017 será concretizado ainda este mês.” Apesar da clareza da palavra, na primeira intervenção dessa audição, tive oportunidade de questionar diretamente o Sr. Ministro sobre a mesma matéria para que não sobrasse qualquer dúvida sobre a palavra dada de que o reforço viria em novembro: “Está o Governo ou não em condições de cumprir em meados de novembro, o contrato de legislatura com as instituições?” Em resposta, afirma o Sr. Ministro: “não me passaria pela ideia que o acordo de legislatura não fosse cumprido. É isto que afirmo e obviamente tenho todas as responsabilidades políticas para poder assumir o cumprimento integral do acordo de legislatura, como não podia deixar de ser”. •Palavra de Manuel Heitor versus palavra de Mário Centeno Ainda em novembro, no dia 20, em resposta a uma pergunta parlamentar endereçada semanas antes, pelo Grupo Parlamentar do PSD, ao sr. ministro, Manuel Heitor, responde o Governo que “estima-se serem os referidos reforços transferidos até ao final do presente ano de 2017, através de mecanismos já aprovados pelo Ministério das Finanças”. É bom termos ministros que fazem declarações com firmeza, mas melhor seria termos governantes que agissem com essa mesma firmeza. Numa semana, o compromisso de Manuel Heitor no Parlamento de transferir a verba em dívida durante o mês de novembro passou a uma estimativa de transferência até ao final do ano. Dez dias depois, no ultimo dia do mês, o sr. secretário de Estado do Orçamento decide e informa 10 universidades e 12 politécnicos e escolas não integradas que não receberão reforço devendo acomodar

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o aumento das despesas com pessoal em saldos de gerência. Ou seja, o Governo incumpre com a palavra dada. O Ministério das Finanças dá instruções às instituições para incumprirem a regra de equilíbrio orçamental. O Ministério das Finanças introduz o princípio sibilino de olhar para os saldos das instituições sem atender à sua natureza, legitimando a utilização de saldos de projetos, independentemente do compromisso que sobre os mesmos recaia, em despesas correntes. Numa situação de um claro mal-estar, veio imediatamente Manuel Heitor afirmar estar “certo que se trata de um erro” a informação do Ministério das Finanças, assegurando “ter a garantia do primeiro-ministro de que o acordo vai ser cumprido e a totalidade da verba reclamada será transferida”. A verdade é que os erros corrigem-se mas o que está neste momento em cima da mesa não parece ser a correção de um “erro” mas o agendamento de reuniões, na próxima terça-feira, com as Instituições de Ensino Superior e Ministério das Finanças para explicar, num novo tempo, novas palavras. COMPROMISSO COM O ENSINO SUPERIOR Não é aceitável esta forma de conduzir o país à luz da satisfação das expetativas mais relevantes no momento. O Acordo de Legislatura representa um compromisso assumido pelo Governo em 2016 que, ao abdicar de qualquer estratégia ou melhoria no modelo de distribuição orçamental no ensino superior até 2019, tinha uma única virtude: assegurar a estabilidade no quadro financeiro com garantias para as instituições que o aumento de despesa decorrente de decisões do Governo seria financiado pelo Governo. Este Acordo não será honrado caso não seja transferido

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o orçamento correspondente aos aumentos de despesas com pessoal decididos pelo governo relativamente a 2017.

09 - Ilustração Ilustração: Gabinete de Imagem AAUAv

Num setor absolutamente crucial para o país que queremos ser, o governo está hoje a criar instabilidade e incerteza e a minar a credibilidade do orçamento do próximo ano. A três semanas do final do ano, e depois de reiteradas palavras dadas, em novembro, pelo MCTES e pelo primeiro-ministro, de que tal não aconteceria é absolutamente incompreensível o não cumprimento do acordo de legislatura. Como acreditar que por 13 milhões de euros, 0,5 % do orçamento do Ministério, o Governo coloca em causa a sua credibilidade no único acordo de legislatura sectorial? A ser verdade, isso só poderia significar que ou alguém andou a fazer mal as contas ou o valor que era devido ao Ensino Superior e Ciência terá outro destino. Em qualquer das situações, o que ficaria claro seria que o ministro das Ciências não tem força política para fazer cumprir o Acordo que assinou em nome do Governo; que por alguma razão o ministro das Finanças, agora novo Presidente do Eurogrupo, mudou completamente de ideias nas últimas semanas; que num tempo novo a palavra dada por um Primeiro Ministro pode não ser honrada … Esperemos que a palavra final seja a do primeiro-ministro — isto é, esperemos que os reforços sejam transferidos para as instituições até ao final do ano, com possibilidade de utilização no próximo ano — para que o Governo possa manter os seus compromissos com o Ensino Superior e a Ciência. [M]

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Entrevista

Nome: Manuel António Cotão de Assunção Naturalidade: Sousel, Distrito de Portalegre, Região do Alentejo Nascimento: 1952 (65 anos) Licenciado: Física, Universidade de Lisboa Ensino: Professor Catedrático do Departamento de Física da Universidade de Aveiro Investigador: Laboratório Associado I3N Percurso profissional: Laboratório de Glass Ceramics da Universidade de Warwick (Doutoramento)

Reitor da Universidade de Aveiro


Após um caminho com vasta experiência de gestão universitária e conhecimento da UA, como membro de equipas de vários reitores, nomeadamente, Júlio Pedrosa, Isabel Alarcão e Helena Nazaré, quando decidiu ao certo ser Reitor? Sentia-se preparado? Eu liderei um movimento ao Conselho Geral na altura e houve sempre na minha cabeça esta tentativa de distinguir, claramente, o que é o Conselho Geral, nas suas funções mais alargadas que englobam também o acompanhamento da ação do Reitor, e a questão estratégica, que tentei separar da questão da eleição do Reitor. O movimento pretendeu qualificar o Conselho Geral e foi nessa situação que eu me candidatei e encabecei este movimento. A questão de ser Reitor foi uma conse-

quência mais tarde. O movimento achou que eu era a pessoa indicada, sendo mais ou menos consensual, e foi aí que eu avancei. Obviamente que depois da experiência de ter trabalhado muito de perto com o Reitor Renato Araújo, porque fui Presidente do Conselho Pedagógico, e nessa qualidade também tive uma grande aprendizagem e experiência, portanto, depois destes anos todos, dizer que não se está preparado, é difícil. Estava com certeza preparado! Como viveu esse processo? Há uma grande diferença entre ser Reitor e Vice-reitor, isso é óbvio. Quando se é Reitor olha-se para trás e não há ninguém, enquanto que enquanto Vice-reitor ainda há o Reitor, e portanto, há aí uma diferença de responsabilização e um

sentimento de maior solidão que não existe nas outras funções. Mas digamos que tudo correu com serenidade. A Universidade de Aveiro festejará o seu º aniversário no próximo dia  de dezembro. Tomou funções quando a UA tinha apenas  anos. Quais foram os grandes momentos ao longo dos dois mandatos? Quais é que o marcam mais? Essa é uma pergunta que eu imagino que as pessoas fazem sistematicamente porque gostam de momentos singulares, mas eu tenho uma ideia mais de um processo contínuo. O que é importante é o que passa continuamente ao longo dos anos. Às vezes, há pequenos detalhes que ninguém nota e que são muito determinantes na vida das instituições, na vida das pessoas, claro. Mas, para não fugir à 09

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pergunta, eu diria que há quatro ou cinco coisas que eu posso destacar. Desde logo, esta nossa capacitação de nos reequiparmos cientificamente e também de fazermos alguma modernização do equipamento que já tínhamos, essencialmente usando fundos europeus, em contrapartida de algumas receitas próprias. Isso foi algo muito importante porque é fundamental estarmos capacitados para sermos mais competitivos, ou como eu gosto de dizer, mais úteis e é nesta lógica de espiral desejavelmente crescente de reforço positivo entre a relação de capacitação e utilidade competitiva para a sociedade que nós podemos vir a fazer melhor. Os grandes projetos com a Bosch, com a Navigator, que vai ser brevemente assinado, com o projeto “TEAMING em saúde”, a questão das cartas convidadas que eu consegui juntar às que já existiam, são marcos importantes na medida em que eles refletem a nossa capacidade de trabalhar com a sociedade, com a indústria, mas também com outros setores da sociedade, e portanto, são marcos, digamos assim, interessantes. Eu juntaria certamente o ECOMARE que já foi inaugurado, o PCI (Parque de Ciência e Inovação), que está quase a ser, como também algo que vai na mesma direção da relação, neste caso, com a região, que são extremamente importantes. Já agora o que mais trabalho me deu, se a pergunta fosse “quando ficou mais aliviado?”, foi quando o novo edifício do DeCA foi inaugurado, porque foi um parto extremamente difícil e foi um alívio, mas não o situaria neste grau de importância. Eu acho que, por exemplo, no desenvolvimento do desporto há um grande empenho da minha parte, aliás, como Vice-reitor, nas atividades culturais e desportivas MATRIZ

que estabeleci, em parceria com o saudoso Mestre Hélder Castanheira, já lá vão alguns anos, e portanto, depois de ter encontrado alguns Dirigentes Associativos e Presidentes da Associação Académica que também se empenharam muito neste caminho e que tão bons resultados tem dado, acho que é algo que também gostaria de destacar. A consolidação do modelo de governo e gestão da Universidade, com a designação dos Diretores, com os contratos-programa assinados com os Diretores, com as visitas acompanhadas aos Departamentos e Serviços, em alguns casos fiz três rondas, noutros menos, acho que são tudo aspetos que gostaria de salientar. Também no ponto de vista de consolidação do modelo de governo e gestão, o próprio trabalho com o Conselho Geral, com o Conselho de Curadores e portanto o próprio desen-

“O facto de termos estabelecido indicadores com aquilo que nós devíamos cumprir do nosso lado em termos de contrato-programa, apesar da parte do governo não ter sido cumprida, nós cumprimos a nossa.” volvimento, embora mitigado pelas razões que se conhecem do conceito de Universidade-fundação, no fundo eu fui o primeiro Reitor que teve de trabalhar ou que trabalhou no contexto do novo regime jurídico, e portanto, tudo isso foi a instalação desse novo modelo de governo e gestão, obviamente é algo que eu não posso deixar de referir. Em , o governo pede ajuda financeira à troika. Como viveu a Universidade de Aveiro esta fase do nosso país? Viveu mal como o geral do País mas apesar de tudo conseguimos fazer um caminho, #2

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pudemos continuar a fazer um caminho ascendente e isso é o mais importante. Eu sempre disse que nós nunca tivemos problemas de dinheiro, tivemos problemas de orçamento, que é uma questão bastante diferente, e que às vezes as pessoas misturam. E na questão do orçamento, em particular, é um aspeto que tem sido amplamente referido, e é um problema grave da Universidade portuguesa que é a falta de rejuvenescimento, portanto é óbvio que houve uma contenção ao nível dos salários, não se puderam recrutar mais pessoas, não havia margem para fazer promoção de pessoas, portanto isso refletiu-se numa Universidade que ficou mais envelhecida. Hoje os números médios etários das pessoas da Universidade de Aveiro, não tão mau como noutras, mas muito próximos da média nacional, é óbvio que é um número elevado portanto, e acho que foi algo que marcou esse período da troika. De qualquer maneira, obviamente, o contrato-programa que tínhamos assinado com o governo do ponto de vista da passagem a fundação não foi cumprido, mas é um aspeto que eu gosto sempre de destacar. O facto de termos estabelecido indicadores com aquilo que nós devíamos cumprir do nosso lado em termos de contrato-programa, apesar da parte do governo não ter sido cumprida, nós cumprimos a nossa. Isso significou que com menos recursos conseguimos, apesar de tudo, porque tínhamos objetivos bem definidos, mobilizarmo-nos para atingir essas metas. Isso é algo que eu registo com muito agrado, significou um grande esforço da Universidade e foi fundamental, repito, para continuarmos no caminho ascendente apesar desses constrangimentos que, sem dúvida, esse período nos trouxe.


Contrastando com esta situação económica do nosso País, eis que bem perto, em , assistimos à primeira conquista internacional da Seleção de Futebol de . Somos um país de verdadeiros CR’s em todas as áreas? Acha que o país tem talento para além do Futebol? Nós só ganhamos agora mas já tínhamos batido na trave várias vezes, o golo só entrou agora, tínhamos tido terceiros lugares, finais, portanto o talento estava lá, a qualidade da equipa estava lá. Eu penso que Portugal tem, obviamente, muito talento, os portugueses são um povo muito individualista, sabemo-lo todos isso, são um povo muito imaginativo, a questão do desenrasca e a questão do começar a correr quando se tem a meta à vista é muito típico de nós próprios, mas isso permite, de facto, um grande espaço para a criatividade e para o talento que está por aí. Eu acho que Portugal tem muito talento, definitivamente, não é só no futebol, quiçá agora no futebol está desequilibrado em relação aos outros desportos, mas no resto da cidade há muito talento, na música, nas artes e com certeza o Ensino Superior também tem feito um caminho belíssimo. Acho que as Universidades Públicas portuguesas, em geral, e um grande número dos Politécnicos, para referir só estes, têm feito esse caminho extremamente interessante. Várias Universidades de Portugal aparecem nos rankings, há uma grande qualidade na formação que levamos a cabo, é toda a gente a dizê-lo em Portugal e fora. Formamos bons engenheiros, bons médicos, bons enfermeiros, bons profissionais em geral. Temos uma grande capacidade de adaptação, e portanto, trabalhamos na Noruega, trabalhamos em África, trabalhamos no Brasil, trabalhamos na China, trabalhamos onde

“Como sabemos, uma situação que se arrasta, falta consumar esta paixão pela educação que todos os governos, uns atrás dos outros, afirmam mas depois não se traduz em percentagem do PIB, nem em apoio efetivo e portanto acho que há aqui uma contradição que também é fundamental resolver. Penso que só se vai resolver quando houver mais gente a dar o seu voto de acordo com esta paixão e essa é sempre a questão central porque os governos e os partidos acabam sempre por se mover no sentido de onde há mais votos para ganhar, e portanto, enquanto as próprias pessoas não puserem a educação num lugar central quiçá isto não vai acontecer.” é possível e eu acho que tem havido uma grande abertura à sociedade por parte das Universidades portuguesas de modo que, repito, o caminho feito é um caminho notável. Agora, penso que há aqui algumas lacunas que importa continuar a ter em atenção. Por exemplo, há uma grande abertura à sociedade, penso que a sociedade ainda não está a tirar partido dessa abertura e da qualificação que temos conseguido levar a cabo. O facto de muitos dos nossos doutorados estarem, ainda, no sistema científico e tecnológico nacional, aliás, ter trazido alguma controvérsia, neste momento, na sociedade portuguesa, é um reflexo de que algo não está a correr bem porque os doutorados não são só para ficarem dentro das Universidades, dos estudos de investigação. É para ir para a sociedade em geral, é para ir para as empresas, para a indústria, para a saúde, para todos os setores da sociedade, para a administração pública, e portanto, ajudarem a qualificar esses setores, havendo aí um processo de osmose em termos de passar essa qualificação e essa qualidade para o meio exterior que é preciso resolver. Falta esta clarificação ainda da missão das Universidades e dos Politécnicos. Como sabemos, uma situação que se arrasta, falta 27

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consumar esta paixão pela educação que todos os governos, uns atrás dos outros, afirmam mas depois não se traduz em percentagem do PIB, nem em apoio efetivo e portanto acho que há aqui uma contradição que também é fundamental resolver. Penso que só se vai resolver quando houver mais gente a dar o seu voto de acordo com esta paixão e essa é sempre a questão central porque os governos e os partidos acabam sempre por se mover no sentido de onde há mais votos para ganhar, e portanto, enquanto as próprias pessoas não puserem a educação num lugar central quiçá isto não vai acontecer. E um problema que sempre me preocupa, um problema que transcende as Universidades mas onde as Universidades e o Ensino Superior não podem deixar de estar, participar e preocupar-se que é a questão da coesão do plano nacional. Eu sou alguém que mora aqui e alguém que também é do lado da fronteira com Espanha, e portanto, tenho uma noção muito razoável desta dicotomia e desta falta de coesão, também naturalmente com as ilhas, mas nós temos para dar, se olharmos para a atratividade, para o que acontece no concurso nacional de acesso, vemos que as regiões mais periféricas, mais interiores perdem sistematicamente gente que se matricula nas grandes MATRIZ


cidades, principalmente, e portanto é uma perda de talento para sempre dessas regiões. Porque as pessoas não vão voltar depois de qualificadas, vão ficar, maioritariamente, a viver nas regiões onde se qualificam, portanto há um contínuo retirar de talento às regiões do interior para as regiões mais desenvolvidas e esse é, sem dúvida, um problema para o qual o Ensino Superior acaba por contribuir indiretamente ou diretamente, mas para o qual para modificar este estado de coisas tem de contribuir numa maneira positiva. É fundamental que, de facto, haja uma distribuição de riqueza, de qualidade, de capacidade e de dinâmicas pelo todo nacional. Tendo os seus mandatos sido vibrantes no que respeita à permanente afirmação desportiva universitária, assim como a constante aposta ao seu apoio, pode-se considerar que o Manuel Assunção é um apaixonado pela prática desportiva? Sou mais de sofá, neste momento, mas um grande apaixonado e pratiquei muito desporto. Futebol, naturalmente, joguei hóquei em patins, joguei basquetebol porque era alto, muito alto nos tempos do liceu, tive de jogar na seleção do liceu de voleibol, que é um desporto que gosto muito mas como praticante detesto porque a gente está sempre à espera da bola que vem e vai falhar, e depois falha mesmo. Hoje, toda a gente sabe que me limito, essencialmente, à bicicleta mas, sim, sou um grande apaixonado pela prática desportiva, sempre fui e continuarei a ser, estou ligado até como Dirigente a um clube de ciclismo, portanto, sempre ligado ao desporto. Há uma mensagem que o Exmo. Reitor envia para os estudantes que reside na capacidade que todos nós temos, independentemente da área de estudo, de nos adaptarmos à função que iremos um dia exercer.

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“A Universidade de Aveiro sempre compreendeu que estando, aqui, a  km de Coimbra e a  km do Porto, mais ou menos, entalada desde o início, num certo momento o entalada era literalmente assim, até porque houve um Ministro que chegou a questionar o que fazia uma universidade aqui, exatamente neste sítio...” Levou uma vida profissional, maioritariamente, ligada à gestão académica, no entanto, enquanto Reitor seguiu sempre uma visão muito ligada à investigação. Como comenta este facto? Pois, não sei bem o que quer dizer com isso de uma visão ligada à investigação, mas se eu entendo e se entender assim é verdade, eu sempre entendi, eu sempre compreendi, sempre esteve na minha mente que a investigação é uma missão, mas é também um pilar central para o bom desempenho das outras missões, ou seja, o que caracteriza o Ensino Universitário é ele existir num ambiente de investigação, de criação de conhecimento novo. É isso que diferencia o Ensino Universitário de outros tipos de ensino. Se a investigação não for boa, se o ambiente da investigação não for bom não podemos ter um ambiente de ensino de qualidade, assim como, não podemos passar para a sociedade, falando na terceira missão, aquilo que não temos. É na medida do conhecimento novo que conseguimos produzir que vamos conseguir passar para a sociedade, transferir parte desse conhecimento. Já para não falar de hoje, do que se chama a quota de missão, um pouco a reflexão sobre os grandes problemas do Mundo, o papel da Universidade nessa reflexão e no contributo para a resolução das grandes questões societais. Se a investigação não for de grande qualidade, e essa foi uma grande aposta desde o primeiro momento na Universidade. A Universidade de Aveiro sempre compreendeu que estando, aqui, a  km

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de Coimbra e a  km do Porto, mais ou menos, entalada desde o início, num certo momento o entalada era literalmente assim, até porque houve um Ministro que chegou a questionar o que fazia uma universidade aqui, exatamente neste sítio, portanto era um desafio enorme, e portanto, felizmente houve essa perceção de que era fundamental criarmos dinâmicas de investigação de qualidade para poder realmente situarmos melhor, ter o nosso papel e um papel que servisse o País. Como vê a situação da Catalunha? Como seria ser Reitor em Espanha num momento destes? Eu não conheço muito bem a situação a nível das Universidades, tenho relações de amizade com alguns Reitores da Catalunha, aliás o próprio Presidente do Conselho de Reitores das Universidades Espanholas é um catalão, o Roberto Fernández da Universidade de Lérida ou Lleida em catalão. Mas não tenho acompanhado. Acredito que seja uma situação complicada, desafiante, digamos assim. Sei que também os Reitores Espanhóis, entre todos eles, têm mantido um relacionamento muito bom. Agora, em relação à situação, o que eu gosto de dizer sempre é que em geral vivemos um tempo de esbatimento de fronteiras, isto é o meu entendimento, os nacionalismos ditos de esquerda ou direita não colhem o meu agrado. Penso que não vivemos em tempo disso, vivemos, exatamente, um tempo de comunhão, de cosmopolitismo, de avanço, de um espírito de abertura, repito, sem fronteiras. Espero que os nossos


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Conselho Pedagógico, e esse foi mesmo o fim da minha carreira como físico.

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A partir daí entrei numa estreita relação com o Reitor Renato Araújo, e portanto, comecei já um caminho de relação com a gestão universitária, com o governo da Universidade, que me foi progressivamente afastando do lado físico. Ao longo dos vários anos como profissional e mesmo como estudante, com quem lidou que hoje são pessoas de grande notoriedade? Bom, eu talvez se ficar pelo conjunto, porque senão obviamente que temos na própria Universidade de Aveiro muitas pessoas que tiveram notoriedade com quem eu lidei, mas digamos que do ponto de vista enquanto estudante, se lidei com alguém de elevada notoriedade e que teve um papel determinante na construção da Universidade, foi o Professor Veiga Simão. Conheci-o quando ele foi Ministro, ainda antes do  de abril, e depois mantive uma relação com ele até ao final da sua vida. amigos catalães em conjugação com os nossos amigos Espanhóis possam levar a bom termo este processo, que é um processo obviamente complicado, apaixonado, com uma divisão muito clara, praticamente  - , dos que defendem um caminho ou outro e portanto espero que consigam, democraticamente, e com a elevação possível e com a urbanidade que todos nós conhecemos. Barcelona e a Catalunha, em geral, que é uma das regiões mais cosmopolitas e mais abertas e mais agradáveis do mundo, que possam, de facto, encontrar esse caminho de pacificação e de seguir em frente em conjunto. Licenciado em Física pela Universidade de Lisboa e investigador na respetiva área… o que ficou por fazer enquanto profissional? Ah, ficou quase tudo! Eu já contei esta história muitas vezes porque é uma história real. Eu fui tramado

por uma conjugação… tramado no bom sentido da sua pergunta. Fui tramado por uma conjunção entre a física e os estudantes, porque eu dava uma das disciplinas com maior percentagem de reprovações, que se chamava eletromagnetismo, alguns ainda se lembrarão. Aquilo era difícil, tínhamos anfiteatros cheios, os alunos tinham má preparação matemática em geral, aquilo acontecia no primeiro semestre e alguns alunos ainda tinham Análise  para fazer, estavam a fazer Análise , e portanto, o corpo de conhecimento era complicado. Eu tentava sobreviver mantendo a atenção dos estudantes, com um equilíbrio entre a matéria mais estrita e algum sentido de humor, para que as coisas corressem o melhor possível e também houvesse essa vontade dos alunos em aprender e isso acabou por criar alguma popularidade, não há que esconder, e os alunos elegeram-me Presidente do

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Há pessoas que foram meus colegas na Universidade ou foram meus Professores, por exemplo, o Professor Filipe Duarte Santos, que hoje é uma personalidade ligada às questões das alterações climáticas como toda a gente conhece, e que foi o Professor com quem eu acabei o curso, a última disciplina que eu fiz foi com ele. O Presidente do IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera), também na berlinda, foi meu colega de curso e é um grande amigo desde esses tempos, o Miguel Miranda. O Ex-ministro Nuno Crato foi caloiro comigo em física. Há muita gente, mas ficando por este período de estudante, o Professor Honorio Silva, que depois acabou por não ter uma notoriedade tão grande, mas foi um grande Mestre e um grande Professor no meu período de estudante, que gostava aqui de relembrar.

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11 - Ilustração Ilustração: Gabinete de Imagem AAUAv

Como era o Manuel Assunção antes de entrar na Universidade? Eu sou filho único e mudei muitas vezes de lugar, portanto desse ponto de vista a minha infância/adolescência foi marcada por essas amizades que eu constantemente perdia porque mudava de sítio. Depois a minha adolescência propriamente dita foi passada entre Reguengos de Monsaraz e Évora e aí já quando me perguntam, sou um alentejano, toda a gente sabe, mas muito ecuménico, porque vivi em muitos sítios do Alentejo mas os lugares que me marcaram mais nesse período de crescimento, sem dúvida, o período do liceu que fiz em Évora e o período onde eu vivia em Reguengos de Monsaraz. Era, essencialmente, um adolescente da minha época que gostava dos Beatles, gostava do Bob Dylan, tinha os cabelos compridos, tinha um conjunto de rock com quem me entretinha, tocava guitarra, vivíamos muito à volta das ideias do Maio de . O Maio de  aconteceu quando eu ainda tinha  anos, era um adolescente muito integrado no espírito da época. Politicamente nunca teve vontade de ser candidato a nada, por ninguém? Não, nunca tive grande interesse partidário. Efetivamente, ainda quando estudante, ajudei a fundar um partido, portanto dei o meu nome e apoiei aquelas assinaturas que eram precisas para se criar o partido mas nunca tive nenhuma atração, realmente, pela política partidária. Como se define ideologicamente? Como eu disse, alguém que viveu o Maio de  e depois as lutas estudantis, as lutas contra a guerra colonial. Fui membro da Direção da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa, ajudei a criar, fui da equipa que criou o jornal, que ainda existe lá, que se chama ‘’Improp’’. Uma vez fui lá e perguntei-lhes se eles

sabiam o que significava o nome do jornal, eles não sabiam, fiquei chocado, mas ‘’Improp’’ significa imprensa e propaganda, portanto, só o nome diz tudo. Neste quadro é óbvio que eu vivi num ambiente de esquerda, mais próximo desses valores, mas também temos de perceber que a revolução russa, a revolução russa já aconteceu há  anos e a minha mãe nasceu no mesmo ano, portanto é uma data que não me posso esquecer, por estas duas razões. Num quadro de uma sociedade esclavagista

que vai ser a sociedade em , o número de ações que começam por uma razão, iniciativas, produtos, que aparecem por uma determinada razão e que depois têm efeitos multiplicadores que ninguém efetivamente nem anteviu, nem pode controlar. Coloco, realmente, esta questão do futuro como uma questão absolutamente determinante, e portanto, é preciso ser prudente, é preciso ser humilde nesta precessão que nós temos do que poderá ser a nossa sociedade daqui a alguns anos.

Penso que é um tempo, efetivamente, que é marcado por uma falta - tem sido dito por muita gente - de lideranças. como era a Rússia, na altura estávamos em situações muito diferentes, com certeza a doutrina Marxista, muito pertinente o que Marx escreveu, mas muita gente esquece-se que não foram só os trabalhadores e os oprimidos que leram Marx, os industriais e os empreendedores também leram Marx, e portanto, o que quero dizer com isto é que a sociedade, obviamente, foi se adaptando. As sociedades são muito dinâmicas, houve uma grande evolução, estamos numa situação muito diferente, hoje do que estávamos há  anos, do que estávamos há  anos, e desse ponto de vista alguma esquerda, hoje, tenho que dizer, aparece como muito conservadora, em lugar de aparecer como vanguardista. Não se pode parar o futuro, o futuro é algo que nunca se conseguiu parar, conseguiu-se travar, em algumas alturas, mas hoje cada vez menos. Quer dizer, se nós nos situássemos, já não digo em  a pensar no que se sucederia em , era relativamente fácil, mesmo em  era relativamente fácil antever a sociedade em , agora quem é que consegue, hoje, em , saber, pensar o

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Quem são as grandes figuras que segue? Não sigo grandes figuras, não há grandes figuras para seguir, não é. Penso que é um tempo, efetivamente, que é marcado por uma falta - tem sido dito por muita gente - de lideranças. Nos grandes países vê-se o que acontece, de facto, hoje a grande dificuldade também das pessoas, a grande dificuldade de trabalhar com pessoas mais esclarecidas em números suficientes para poder haver designações, eleições, nomeações de pessoas que representem melhores valores. Desse ponto de vista, obviamente, o Papa, apesar do meu distanciamento em relação à religião, ou às religiões todas, mas não posso deixar de reconhecer que é uma figura que tem um conjunto de valores notável e talvez, no contexto atual, seja ainda a referência para que possamos olhar com mais carinho e com mais cuidado e que, tem esse papel, como você perguntou, de farol. Quem é a figura política que mais o entusiasma? Marcelo Rebelo de Sousa? Não vou comentar. Em relação ao Prof. Marcelo, apesar do que já disse, toda a

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gente sabe que fui apoiante do Prof. Marcelo, fui mandatário por Aveiro, e devo dizer que estou contente por não me ter enganado. Tem tido um papel positivo na sociedade portuguesa, tem tido um papel de galvanizador e nós precisamos sempre destes papéis galvanizadores porque, já falamos há pouco dos CR’s e dessas expressões de grande talento, mas nós somos muito bipolares oscilamos sempre entre essa grande exponenciação do talento conjugada com algum miserabilismo na nossa própria autoestima. Aí o Presidente Marcelo, julgo que, tem tido um papel muito positivo nesse puxar-nos para cima, pôr um acento tónico correto em muitas coisas, onde é preciso pôr e, sem dúvida, estou contente por o ter apoiado. Antes demais, e estando já perto do final desta grande entrevista, parabéns pela recente eleição para o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas. E agora, quais são os grandes planos para o futuro? Bom, ainda tenho mais  meses à volta disso, grosso modo, de dores de cabeça e de empenho, como tenho dito. Não serei Reitor no dia seguinte, mas serei Reitor até ao último dia e depois não tenho grandes planos. O meu principal plano é, porque eu nunca tive grandes planos, mas isso é outra discussão, no entanto, o meu grande plano, para já, é ler, ler, ler, porque se me perguntar o que me faltou mais nestes anos todos é esse tempo para a leitura, não a leitura da papelada, dos ofícios, dos memorandos, dos protocolos, dos convénios, dos planos estratégicos, dos planos de ação, destas coisas todas obviamente que li e escrevi muito. Mas a leitura em geral, os livros que me interessam, eu quero ler e, portanto, estes são os planos mais nítidos. E claro, como

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eu gosto sempre de brincar, isto é uma metáfora para tudo o resto em relação com a família, colar cromos com os meus netos, mas gosto mesmo de colar cromos . Então, agora vai passar a ser produtor de felicidade interna bruta? É uma boa pergunta, tento sempre contribuir para isso na medida das minhas possibilidades. O humor, por um lado a felicidade é uma coisa muito complexa, como sabemos, não sabemos aliás como a podemos potenciar, a felicidade tem sempre a ver com as expectativas que nós temos e a realização ou não dessas expectativas. Sabemos que hoje as expectativas que nós temos não são iguais às expectativas que tínhamos há  anos atrás, eu ainda estudei muito à luz de um candeeiro a petróleo, que é algo inimaginável para todos os que estão nesta sala, andei numa escola onde era o único menino calçado, no concelho de Arraiolos e, portanto, isso mostra o tipo de expectativas que as pessoas tinham naquela altura, era ter sapatos, era ter luz elétrica, era ter casa de banho. Hoje, felizmente, estamos noutros patamares, para o geral das pessoas, claro que ainda há pessoas mais fragilizadas, em relação às quais temos de ter especial atenção mas quando falamos do geral, da globalidade, da maior parte das pessoas, as expectativas alteraram-se muito, portanto, não sei como se pode ajudar as pessoas a ser mais felizes. Mas gostaria de contribuir na medida do possível e eu acho que o conhecimento não pode deixar de contribuir para isso. A questão, nomeadamente, do conhecimento aplicado à saúde, que é algo que nos preocupa a todos, acho que vamos ter evoluções brutais nesse setor. Nós próprios aqui estamos a trabalhar nesse sentido e depois, repito, depois é o aspeto mais prático, mais imediato, que é de criar boa

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Vivemos esses momentos ali, mesmo no centro, no centro dos acontecimentos. Ainda fiz lá um pequeno assalto, colaborei no assalto do quartel da legião portuguesa que era ali pelos lados de Santa Clara, para quem conhece Lisboa. disposição e ter sentido de humor e toda a gente sabe que gosto, também, de ir por aí. Eu gosto sempre de dizer: ‘’As pessoas devem ser sérias, mas não se devem levar a sério’’ e muitas vezes nós assistimos ao contrário, temos pessoas a levar-se muito a sério, mas são autênticos trapaceiros, podíamos ter muitas entrevistas só a falar disso. Acho que é muito importante termos uma atitude de distanciamento em relação a nós próprios, sermos capazes de rir das coisas, levá-las a sério, mas rir delas e rir, também, de nós próprios e eu espero até ao fim poder manter a capacidade de ter gargalhadas e de me rir das coisas. Onde estava aquando da Revolução do  de abril? Essa é uma pergunta que eu já respondi e é muito fácil de responder, porque eu estava mesmo no largo do Carmo, eu era daqueles que estava no largo do Carmo porque estava a fazer estágio no Instituto Superior Técnico e a pessoa que era a espécie de meu orientador efetivo, não era o meu orientador, mas era alguém muito próximo que de facto me orientava, e ele disse-me: ’’Houve uma revolução!’’, e portanto, tive de pegar na mochila, tinha carro, e fomos para o largo do Carmo. Vivemos esses momentos ali, mesmo no centro, no centro dos acontecimentos. Ainda fiz lá um pequeno assalto, colaborei no assalto do quartel da legião portuguesa


que era ali pelos lados de Santa Clara, para quem conhece Lisboa. Decide ir estudar para Warwick, onde obtém o seu doutoramento. Porquê Warwick? Warwick foi uma possibilidade, havia as pessoas aqui da física, os professores que me tutelavam, digamos assim, em particular puseram as hipóteses, havia uma hipótese que tinha a ver com a área onde eu trabalhava na altura, da investigação do vidro, e portanto, de ir para os Estados Unidos e havia uma hipótese de ir para Inglaterra. Os Estados Unidos realmente eram muito longe e na altura as distâncias efetivas eram maiores, eu torci um pouco o nariz para a hipótese Estados Unidos e acabei por ir para Warwick porque havia lá um departamento de vidro-cerâmica e foi para aí que eu fui. Como foi afastar-se da família numa altura em que o contacto à distância não estava tão desenvolvido? A minha família na altura era muito reduzida e a minha família acabou por estar lá algum tempo comigo, a família mais chegada, a minha mulher, mas eu saí pela primeira vez com uma mochila do país com  anos, e portanto, viajei pela Europa toda à boleia. Fui sistematicamente nesses anos , ,  em mistura entre boleia e interrail, portanto eu tinha um grande à-vontade na relação com as viagens e aquilo foi mais uma viagem, uma viagem mais difícil, porque não era com um regresso imediato. Ainda por cima eu na altura tinha medo, pavor de andar de avião, portanto fiz várias viagens no meu velho Renault L que pode ser visto na garagem da Reitoria para quem vai lá, portanto o carro ainda existe. Mas o que mais me lembro de negativo, de facto, é o clima. Para um alentejano que gosta de sol, que está habituado ao sol não ver o sol durante não sei quantos meses como se sucede em

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Inglaterra, às vezes, é, de facto, uma experiência difícil do ponto de vista da nossa relação com o bem-estar que o sol propicia. Quando voltou, como encarou o nosso País? Já está muito longe no meu tempo, já estamos a falar de metade da minha vida, com certeza posso-me lembrar mais da Universidade de Aveiro. Claro que  anos naquela fase eram  anos muito significativos em termos do crescimento da Universidade, do aparecimento de novos edifícios, portanto aí houve algum desenvolvimento notório no número de alunos e desenvolvimento das infraestruturas. Claro que no País também estávamos numa fase de consolidação da democracia e da aproximação à União Europeia, que foi determinante para a nossa vida. Quando me perguntam um facto saliente é óbvio que o facto saliente da história, pensando que a história que vivemos, a nossa própria história, é a mais importante para nós, eu elegeria essa aproximação e depois a adesão à União Europeia como algo absolutamente determinante na minha vida, e portanto, estamos a falar exatamente dos anos , . Sente-se uma pessoa realizada? Não sei responder porque não sei o que é a realização! Sou uma pessoa inquieta por natureza, não gosto de repetições, não gosto de monotonias, de rotinas, para o bem e para o mal. Eu nunca tive grande sonhos, sempre gostei de viver o dia-a-dia, com certeza que tenho metas, mas nunca tive o sonho de ser isto ou ser aquilo e continua a acontecer, por isso, sim, desse um ponto de vista, estou tranquilo. Mas claro, a contribuição para a Felicidade Interna Bruta continua e que não tem a ver com ser Reitor, mas sim com o facto do Ser, um Ser-humano! [M]

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IV Ciência

Vítor Costa Diretor do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Aveiro

Engenharia Mecânica: do Passado ao Presente, e para o Futuro Segundo a Enciclopédia Britânica, Mecânica é a ciência dedicada ao estudo dos corpos sob a ação de forças, estejam eles em movimento (dinâmica) ou em repouso (estática), e ao estudo das forças que os corpos exercem uns sobre os outros. Por sua vez, Engenharia é a aplicação da ciência na conversão ótima dos recursos para o uso da humanidade, incluindo a predição do comportamento dos sistemas operando sob determinadas condições, o projeto e desenvolvimento de estruturas, máquinas, sistemas ou processos produtivos, simples ou combinados, a construção desses sistemas e a sua operação eficaz e eficiente. A Engenharia Mecânica começou por estar direcionada sobretudo para a conceção, projeto, fabrico, instalação e

consideração os processos e tecnologias de fabrico), Sistemas de CAD/CAM/CAE (para conceção, desenho, projeto e fabrico), Tecnologias de Fabrico (técnicas e sistemas/máquinas para produzir máquinas, sistemas e/ou produtos), Nanotecnologia (manipulação dos materiais e dos sistemas à escala nano, para condicionar o seu comportamento à escala macro), Simulação (modelação e predição, prevendo como vai ser antes de ser), Energia (análise energética, e conversão e armazenamento de energia), Térmica e Fluidos (transferência de calor e dinâmica e estática de fluidos), Automação e Robótica (automatização de sistemas e de processos, e resposta automática a operações e tarefas com diferentes graus de complexidade), Transportes (problema multidisciplinar, com vertentes tecnológica (sistemas mecânicos), política, de planeamento, etc.)), e Gestão (com incidência no planeamento gestão da produção). A grande área Engenharia Mecânica, em permanente evolução, adaptação e inovação, responde às necessidades do presente e evolui para responder às necessidades do futuro, contribuindo para a definição e construção do presente e do futuro.

operação de máquinas e de motores, e para os processos produtivos, prestando especial atenção às relações entre força e movimento. Para organizar o conhecimento foram criadas as grandes áreas da Engenharia Mecânica, incluindo: a Mecânica dos Sólidos, que começa pela definição do que é um sólido e que relaciona forças, tensões, deformações e falha de materiais (sólidos) e de estruturas, a Mecânica dos Fluidos, que começa pela definição do que é um fluido e que relaciona a resposta dos fluidos com as forças exercidas sobre eles, incluindo situações estáticas (fluidos em repouso) e dinâmicas (fluidos em escoamento), e a Termodinâmica, relacionando temperatura, calor, trabalho mecânico e energia, com especial incidência no estudo e compreensão do funcionamento e operação das máquinas térmicas (conversores de calor em trabalho mecânico). Para cumprir com os objetivos previstos para a Engenharia Mecânica, organizando o conhecimento num número razoavelmente pequeno de áreas que sejam, ao mesmo tempo, suficientemente amplas, foram-lhe sendo associadas áreas menos centrais, e não necessariamente exclusivas da Engenharia Mecânica (áreas de interface). Este foi, e é, um processo da maior importância para adaptar a Engenharia Mecânica à realidade e às necessidades da Sociedade, num processo de evolução permanente. Assim, conferindo um leque alargado de conhecimentos e de competências aos Engenheiros Mecânicos, em torno de um núcleo bem identificado, consegue-se dar respostas mais integradas, mais rápidas e mais eficientes às solicitações práticas.

Assentando sobre uma base bem definida, a abrangência da Engenharia Mecânica é uma das suas grandes mais valias, conferindo capacidades e competências necessárias em contextos práticos muito diversificados. Se atendermos ao tecido industrial e empresarial Nacional, facilmente se constata a adequabilidade dessas capacidades e competências às necessidades, principal justificação da elevada procura e empregabilidade dos Engenheiros Mecânicos. Tal verifica-se a nível Nacional e a nível Internacional, sendo elevada a procura e aceitação Internacional dos Engenheiros Mecânicos Portugueses.

De entre as várias áreas de interface da Engenharia Mecânica destacam-se, ainda que não se limitando a elas: Materiais (teste de materiais e de produtos, e avaliação das propriedades mecânicas dos materiais), Conceção de Sistemas Mecânicos (resposta a necessidades específicas), Desenho e Projeto (de sistemas mecânicos), Desenvolvimento de Produto e Prototipagem (conceção, desenvolvimento, preparação prévia e teste de protótipos, técnicas de prototipagem, conceção e projeto levando em 35

Uma sólida formação de base, associada a um vasto conjunto de conhecimentos, capacidades e competências, faculta uma boa integração no mercado de trabalho e é também o maior trunfo para enfrentar mudanças de funções e/ou de ambiente de trabalho. E o futuro será feito de mudanças! #2

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O processo de especialidade do Orçamento do Estado para  é um momento fundamental para melhorar a resposta que o Estado pode e deve dar ao país e ao povo português. Na área do Ensino Superior e da Ciência, este processo representa uma real oportunidade para responder àquilo que o Ministério que a tutela não teve coragem de resolver. Aumento do Número de Bolsas de Ação Social Em , o Governo do Partido Socialista levou a cabo uma grande ofensiva contra a Ação Social no Ensino Superior, quando decidiu rever o Regulamento de Atribuição de Bolsas de Ação Social. O Regulamento ficou pior, cerca de um terço dos e das estudantes perdeu ou viu a sua bolsa diminuída. O Bloco propõe, para este Orçamento do Estado, que as regras sejam alargadas, aumentando o limiar de rendimentos necessários para aceder a este mecanismo, de  IAS para  IAS (Indexante de Apoios Sociais). Garantir a aprovação desta medida é garantir que, já no próximo ano letivo de /, mais estudantes vão ter direito a um apoio essencial.

V Nacional

Congelamento das Propinas À imagem dos dois anos transatos, o Bloco quer voltar a congelar os valores máximo e mínimo das propinas. Mesmo que o Governo ou a Assembleia da República não alterem a legislação no que toca a política de propinas, os tetos máximo e mínimo aumentam consoante a taxa de inflação do ano transato. No sentido de garantir que, pelo menos, as propinas não aumentam, o Bloco propõe congelar esta atualização automática. Esta proposta representa um travão numa matéria fundamental: não podem continuar a ser os estudantes e as suas famílias a segurar grande parte do financiamento do Ensino Superior.

Bloco de Esquerda Grupo Parlamentar

OE 2018: Fazer do Ensino Superior e da Ciência um Serviço Público de Novo

Aumento do Investimento em Residências Universitárias

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Uma das principais contradições do sistema é a enorme discrepância entre algumas Instituições de Ensino Superior do litoral, que apresentam saldos orçamentais positivos bastante consideráveis (na ordem das dezenas de milhões de euros) e o resto das Instituições, mergulhadas em défices orçamentais e dificuldades financeiras graves. É justamente no litoral do país e, em particular, nos grandes centros urbanos, que a oferta de residências universitárias é mais deficitária, tendo em conta a procura que aumenta por causa do aumento absurdo de preços no mercado privado. O Bloco quer que um dos critérios de avaliação das Instituições seja precisamente a quantidade e a qualidade da oferta de alojamento por parte dos Serviços de Ação Social: quem apresenta saldos orçamentais positivos, tem de aumentar o seu investimento em residências. Alterações à Lei da Avaliação das IES – Combate à Precariedade À imagem do que defendemos que aconteça com as Residências Universitárias, o Bloco propõe que exista uma nova alínea nos critérios de avaliação das Instituições de Ensino Superior: as suas direções são responsáveis por combater a precariedade, abrindo mais concursos para a carreira, terminar com as falsas bolsas e convertê-las em contratos, aplicar legislação que abra concursos para os eternos bolseiros de investigação, reverter a lógica precária que assolou o Ensino Superior, Atualização do Valor das Bolsas de Doutoramento As bolsas de doutoramento financiadas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia estão congeladas desde o ano de . O Bloco propõe o óbvio e o elementar: descongelar o que está congelado há  anos e, assim, respeitar mais quem produz ciência no nosso país.


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Passe Sub- mais inclusivo O curso de Medicina é o único curso do Ensino Superior Público com a duração de seis anos. Isso implica que, mesmo quando estes e estas estudantes terminam o seu percurso académico dentro desse período, sabem que no último ano já não podem contar com o desconto do Passe Sub-. Para corrigir uma pequena grande injustiça, faz todo o sentido que a proposta do Bloco seja tida em conta: assegurar que, no caso do curso de Medicina, o desconto seja alargado até aos  anos. Os setores do Ensino Superior e da Ciência têm sofrido um desinvestimento estrutural tão elevado, a maioria dos seus principais dirigentes tem executado políticas de teor neoliberal, que no debate político já quase nem se evoca esta área como um Serviço Público. O setor está, assim, mergulhado num conjunto de contradições Estas propostas, que não resolvem estruturalmente os problemas já analisados, dão passos importantes, defendem os excluídos do sistema, percorrem um caminho no sentido de recentrar o setor no seio dos Serviços Públicos fundamentais e fundadores do Estado Social. Uma Academia livre só pode ser uma academia democrática e que respeite quem a ergue todos os dias [M].

Margarida Mano Deputada independente, eleita pelo PSD

Orçamento de Estado 2018, uma Oportunidade Perdida 37

Sabemos que o comportamento da nossa economia está assente em quatro dinâmicas conjunturais: o baixo preço do petróleo; a política monetária expansionista do BCE; o aumento do turismo e o crescimento da economia europeia. Infelizmente não controlamos diretamente nenhuma destas variáveis. Mesmo no turismo, onde Portugal foi eleito o “Melhor Destino Turístico do Mundo” #2

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no passado domingo, tornando-se o primeiro país europeu a conquistar o título, sem desvalorizar, muito pelo contrário, o que tem vindo a ser feito na promoção do país e na melhoria das nossas condições turísticas, sabemos bem como este fenómeno está dependente de fatores externos como a segurança internacional ou as condições de contexto. Face a esta inevitável dependência, assume particular importância a forma como as politicas publicas aproveitam os ciclos, potenciando as fases de crescimento e atenuando os impactos negativos nas recessões. Neste contexto podem ser analisadas as linhas mestras da governação financeira do país que sobressaem da proposta do OE. Qual o objetivo principal? Aproveitar os fatores externos favoráveis para acelerar as reformas que o país precisa, promover a poupança e incentivar o investimento, reduzir o valor da dívida externa ou, simplesmente, aumentar o peso da despesa corrente do Estado na economia? Na generalidade, este é um orçamento “difícil de criticar”! É um orçamento que está ajustado ao próximo ato eleitoral, uma vez que as medidas que colhem maior simpatia dos contribuintes, só serão pagas, na sua totalidade, depois das futuras eleições, por um futuro governo. Pelo terceiro ano consecutivo, vai aumentar o peso do Estado na economia. Aumentam as despesas correntes do Estado (leia-se despesas com pessoal) sem acautelar o nível de serviço publico presta-

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do ou a competitividade da economia porque, infelizmente, o OE também não dá sinais de investimento público. É mais uma oportunidade perdida porque não aproveita o crescimento económico para fazer as reformas estruturais de que o país precisa. Veja-se o que está programado a curto e médio prazo como grandes opções do governo: o descongelamento de carreiras na Administração Pública (+M€); a atualização extraordinária das pensões (+M€); a descida dos escalões do IRS (só com a criação de dois novos escalões e do aumento do valor do “mínimo de existência”, são +M€ em  e +M€ quando estiver completamente implementado); a eliminação da sobretaxa de IRS (+M€). Entre receita a menos e despesa a mais, temos uma necessidade de financiamento para estas  medidas superior a M€, já em , mas muito superior nos anos seguintes, conforme aliás é assumido no calendário do descongelamento de carreiras ( em janeiro e mais  em setembro de , e  em maio e mais  em dezembro de ). Transparece, em toda a ação governativa, a expetativa de agradar aos que dependem do Estado, com a assunção de compromissos atuais, por uma fatura que só vai chegar na sua totalidade em . Paralelamente, a política fiscal adotada pelo governo é a de aumentar substancialmente os impostos indiretos (menos visíveis, mas mais injustos), desagravar os

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diretos e penalizar as empresas que apresentarem maiores lucros. Num relatório com  páginas e com  dedicadas às principais bandeiras do governo, a expressão que é dada à iniciativa privada ocupa pouco mais que uma página e as poucas medidas anunciadas entram em clara contradição com o programa capitalizar e as (suas grandes) vantagens em investir no nosso país, tanto mais que a derrama estadual vai aumentar de  para , para lucros acima de M€, elevando neste caso o imposto sobre o lucro para ,, quando sabemos que só uma taxa de IRC próxima dos  é competitiva a nível internacional. Há ainda o aumento do imposto sobre a cerveja e as bebidas espirituosas; o aumento dos impostos com as cigarrilhas, os charutos e as bebidas açucaradas; o aumento do Imposto sobre veículos e do Imposto único de circulação; o aumento do imposto de selo sobre o crédito ao consumo; os dividendos do Banco de Portugal (+M€); os fundos estruturais (+M€); a poupança com juros da dívida pública (-M€); a contenção das despesas correntes (-M€); o “exercício de revisão da despesa” (-M€) e o “congelamento nominal do consumo intermédio” (-M€). Em suma, na matéria fiscal, este será mais um orçamento alinhado com o de  e de , ou seja, um agravamento muito significativo dos impostos, como aliás demonstram as execuções orçamentais consolidadas da Administração Central e


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da Segurança Social, apresentadas pela DGO, que a seguir se resumem. São mais .M€ de receitas do Estado de dezembro de  a dezembro de  e mais .M€ de outubro de  a outubro de .

13 - Ilustração Ilustração: Gabinete de Imagem AAUAv

Apesar do aumento da receita, esta não cobre as necessidades da ação governativa, tendo por isso aumentado a dívida externa. É exatamente aqui que reside o principal problema deste orçamento. Se em  a nossa dívida andava pelos  do PIB, hoje anda pelos , e esta questão é crítica, uma vez que é este endividamento que permite apresentar um orçamento “difícil de criticar”. Este pormenor faz toda a diferença: ou satisfazemos as nossas necessidades imediatas e hipotecamos o futuro dos nossos filhos, ou reformamos o Estado e acautelamos o futuro das gerações futuras. Qual a resposta a esta questão? Crescimento da dívida de .,M€ em ; .,M€ em  e . em agosto de !r Ultrapassado este pequeno (grande) pormenor do financiamento da ação governativa, apresentamos, programa a programa, as principais opções do OE. Considerando que a execução do OE ainda não está encerrada, esta análise só pode ser feita comparando as dotações iniciais de  e de , apesar do desfasamento que estas apresentam relativamente às execuções Relativamente às variações sectoriais mais significativas, exceptuando as Finanças, se considerarmos a Economia (e Planeamento e Infraestruturas), no conjunto, serão mais .M€ que ficam consignados ao setor ferroviário e dos transportes (conclusão dos estudos técnicos e avaliação do aeroporto do Montijo, a continuação da remodelação da Linha do Norte, da Eletrificação da Linha do Minho, o início das obras nos corredores ferroviários internacionais e a aquisição de material circulante). Na Saúde, acrescem mais M€. Será um orçamento de continuidade, em que as principais alterações resultam na maior quantidade de exames, em mais rastreios, mais unidades, o reforço da Rede Nacional de MATRIZ

Cuidados Continuados Integrados, a construção do Hospital de Sintra, o lançamento do concurso do Hospital de Lisboa Oriental, o início dos projetos dos Hospitais de Évora e do Seixal, menos tempo de espera e menos medicamentos. Haverá atividade com menos médicos e menos despesas com pessoal (-M€)! Para concluir há que fazer referência ao mecanismo de gestão criado pelo Ministério das Finanças, variação em  relativamente a  de +, que lhe permite, em última instância: controlar parte da despesa de cada Ministério e evitar que o governo submeta com transparência orçamentos retificativos na Assembleia da República, que permitam ao órgão de governo com competências de aprovação ir acompanhando as alterações #2

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por desvio ao programado. A Presidente do Conselho das Finanças Públicas, Teodora Cardoso diz tratar-se do um uso de cativações pouco transparente e que “passámos a ser democratas a fazer défices, mas em termos de gestão das despesas nós continuamos no Salazar” quando “o poder todo em matéria de gestão do orçamento estava no ministro das finanças”. Numa conjuntura externa europeia favorável e ultrapassadas as restrições financeiras excepcionais impostas pelo pacto de estabilidade, o Orçamento de Estado de  é uma oportunidade perdida de construir futuro. [M]


14 - Ilustração Ilustração: Gabinete de Imagem AAUAv

Diana Ferreira Deputada Grupo Parlamentar do PCP

Orçamento de Estado 2018 O Orçamento do Estado para  consolida as medidas de reposição de direitos, salários e rendimentos tomadas nos últimos dois anos e dá novos passos nesse sentido. Há uma descida no IRS, por via da criação de dois novos escalões, que se traduzirá num desagravamento do º e º escalões que associado à actualização do “mínimo de existência” significará mais rendimentos para os salários e pensões mais baixos. À atualização das pensões e reformas soma-se o aumento extraordinário, beneficiando um milhão e seiscentos mil reformados que de outra forma não teriam este aumento.

ho de reposição de direitos e rendimentos, traduzindo-se em  medidas aprovadas por intervenção e proposta do PCP.

terão significativa influência na vida quotidiana dos portugueses, melhorando as suas condições de vida.

A persistência, intervenção e proposta do PCP permitiram consagrar neste Orçamento do Estado um conjunto de medidas que são de valorizar porque significam melhores condições de trabalho e de vida para milhões de pessoas no país.

No âmbito da Educação importa destacar a gratuitidade dos manuais escolares para o º ciclo, prosseguindo-se um caminho de cumprimento da Constituição, assegurar a igualdade no acesso, frequência e sucesso escolar, bem como a redução do número de alunos por turma, cuja aprovação da proposta do PCP assegura que, no próximo ano letivo, as turmas do º ano, º ano e º ano de todos os estabelecimentos de ensino serão reduzidas, indo mais longe neste necessário caminho

O descongelamento das carreiras, a eliminação do corte de  no subsídio de desemprego, o alargamento da medida extraordinária aos desempregados de longa duração, o aumento da tributação a empresas com grandes lucros, o apoio para a gasolina da pesca artesanal e costeira, um programa de valorização de espécies de pescado de baixo valor em lota, o impedimento da liberalização da plantação de eucalipto, um programa integrado de combate a incêndios, desbloqueamento dos investimentos na Educação, Saúde e Transportes são exemplos de propostas do PCP que, estando consagradas no Orçamento do estado para 

Há um reforço no apoio social aos desempregados, às crianças, às pessoas com deficiência. É reposto o direito à progressão nas carreiras da Administração Pública e o pagamento por inteiro do trabalho extraordinário e noturno. Estão previstas medidas que apoiam as micro, pequenas e médias empresas, agricultores e pescadores. Estas medidas são indissociáveis da luta desenvolvida pelos trabalhadores e da insistência e contributo do PCP para que fossem dados novos passos no camin-

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para um melhor processo de ensino-aprendizagem e para um ensino de qualidade. A aprovação das propostas do PCP para um plano de reforço de meios no âmbito da Educação Especial e da garantia das condições para a abertura de salas da rede pública de pré-escolar, bem como de fiscalização das cantinas escolares responde a necessidades sentidas pelas crianças, jovens e famílias.

investimento público na Educação em todos os graus de ensino, assumindo o Estado todas as responsabilidades que tem que assumir para que todas as crianças e jovens, independentemente das suas origens, características, condições económicas e realidades sociais podem aprender juntos nas escolas públicas das suas comunidades e podem atingir os mais elevados graus de ensino.

No âmbito do Ensino Superior e Ciência, foi aprovada a proposta do PCP que suspende a atualização do valor máximo da propina no ensino superior. O PCP continua a defender a gratuitidade de todos os níveis e graus de ensino, defendendo por isso a eliminação das propinas no Ensino Superior e a responsabilidade integral do Estado no financiamento das Instituições de Ensino Superior. Por entendermos que não devem ser agravadas as condições de frequência do ensino superior público já existentes, propusemos que não fosse permitido o aumento do valor da propina, como forma de minimizar os impactos negativos que o aumento dos custos de frequência do Ensino Superior tem sobre os estudantes e as suas famílias.

Sobre o Ensino Superior o PCP tem intervindo, em diversos momentos, colocando a necessidade de valorização e democratização do Ensino Superior Público, seja no reforço do seu financiamento pelo Estado, bem como da Ação Social Escolar; no estabelecimento de um regime mais justo de acesso ao Ensino Superior e a expansão da rede pública; na integração num único sistema organizado de Ensino Superior de todas as universidades e institutos politécnicos (com respeito pela identidade, especificidade e criatividade de cada instituição); na salvaguarda e aperfeiçoamento da autonomia do Ensino Superior público, consagrada na Constituição e na defesa da gestão democrática e transparente das instituições – matérias que entendemos ser estruturais sobre o Ensino Superior e sobre as quais o PCP continuará a intervir.

Também por proposta do PCP foi alcançada uma valorização da carreira docente universitária, passando a ser consideradas no financiamento público as alterações e reposicionamentos salariais que decorrem da obtenção de título académico de agregado. A intervenção e proposta do PCP permitiram também que fosse considerado no Orçamento do Estado um alargamento do regime de apresentação e entrega de dissertações, trabalhos de projetos, relatórios e teses em formato digital. Valorizando os elementos positivos no âmbito da Educação, há problemas estruturais que persistem e que são inseparáveis de uma política de mais

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Contendo elementos positivos e que são de valorizar, o Orçamento do Estado do governo PS é limitado por opções e constrangimentos que o impedem de ir mais longe na necessária resposta aos graves problemas estruturais do País, provocados por sucessivos governos do PS, PSD e CDS. A submissão aos ditames da União Europeia, a dívida, o Euro e as metas de redução do défice que o governo PS impõe a si próprio continuam a limitar o ritmo e o alcance da reposição de direitos e rendimentos e o investimento público necessário.

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As opções do governo do PS mantêm vulnerabilidades e dependências que são um travão ao desenvolvimento económico e social de Portugal. Era preciso ir mais longe na reposição e conquista de direitos e nas opções de fundo para ultrapassar os problemas estruturais do país. O PCP não deixou de intervir nesse sentido. Não desperdiçando nenhuma oportunidade para repor direitos e rendimentos, o PCP apresentou soluções que refletem o sentido da política alternativa que continua a fazer falta para o desenvolvimento do país, para criar mais riqueza e distribuí-la com mais justiça, para criar emprego e combater a pobreza, para defender os direitos laborais e sociais, para assegurar o cumprimento das funções sociais do estado. O PCP cá estará, como sempre tem estado, para continuar a lutar pela libertação do país das amarras que o sufocam e para construir e garantir um futuro de desenvolvimento, progresso e justiça social para o nosso país e o nosso povo. [M]

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Eduardo Anselmo de Castro Representante no Conselho Científico e Professor Associado DCSPT Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território, Universidade de Aveiro

10 Milhões de Incendiários ou os Inconvenientes do Pior Sistema Político Tirando Todos os Outros As minhas primeiras recordações do flagelo dos incêndios florestais em Portugal remontam ao período posterior a , época em que não faltava quem dissesse que estes eram ateados pelos comunistas. Estas acusações absurdas iniciaram uma variada lista de bodes expiatórios que incluiu madeireiros, promotores imobiliários, bombeiros pirómanos, empresas ligadas ao negócio dos incêndios e um conjunto difuso de dementes, bêbados, invejosos e simplesmente malvados, atuando por conta própria ou a soldo de obscuros mandantes, quiçá ligados a redes terroristas internacionais. Há ainda um réu omnipresente, não porque ateie fogos, mas porque é o responsável concreto por diversos erros, desleixos e omissões (muitos realmente existentes) e o culpado abstrato de tudo o que corre mal: O Estado, a diversos níveis, mas, em particular ao nível central e do governo. Muitos dos que teorizam há anos a necessidade de emagrecer o Estado, retirando-lhe meios e funções, não hesitam em proclamar que as

principais causas do drama dos incêndios deste ano são falhas do estado. Não sou especialista em fogos e não conheço estatísticas fiáveis sobre a sua origem. Mas, já que de médico de incêndios e de louco parece que todos temos um pouco, arrogo-me o direito de dizer algo de minha justiça: Se a principal causa de incêndios florestais nos últimos quarenta anos são redes organizadas, ligadas a interesses obscuros, quantos mais anos serão necessários para que elas sejam detetadas e devidamente combatidas? Ou será que tal acontece, mas num âmbito tão secreto que ninguém, incluindo os jornalistas que tudo sabem sobre criminalidade, tem ideia do que se passa? Se os principais responsáveis são incendiários por conta própria, movidos pelas mais caprichosas causas, como explicar o padrão de ignições? Dado que em Portugal não é difícil atear incêndios durante o nosso longo verão mediterrânico, os pirómanos idiossincráticos deveriam gerar um padrão de ignições relativamente homogéneo ao longo do tempo, dado que não há dias melhores ou piores para dar largas aos instintos e impulsos destrutivos. No entanto, o que se verifica é uma enorme concentração de ignições nos dias mais secos e quentes, quando as condições são mais favoráveis a que elas ocorram. Estarão os pirómanos, munidos de higrómetros, termómetros e anemómetros, a reter pacientemente os seus impulsos à espera do momento propício? Será que a secura e o calor estimulam a maldade? Prefiro a seguinte explicação mais elementar. Os portugueses têm um comportamento pouco responsável com o fogo, o que, em dias normais de verão não gera grandes problemas: estou a falar de queimar tudo o que são resíduos (nas obras de construção civil queima-se todo o género de lixo, libertando fumos tóxicos e nauseabundos sem que ninguém intervenha, outros queimam pneus e coisas piores e todo o agricultor ou pastor que se preze faz queimadas por qualquer razão ou por razão nenhuma), de deitar 45

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beatas de cigarros para o chão (uma vez, retido numa auto-estrada por um acidente, tive a chocante oportunidade de ver o número inconcebível de beatas que jaziam nas suas bordas) de deixar o mato chegar descontroladamente à proximidade, quando não aos muros, de casas de habitação, fábricas ou armazéns. Se quase nada acontece na maior parte dos dias, quando a meteorologia é especialmente adversa milhares de atos irresponsáveis geram centenas de ignições que, a partir de um valor crítico, se auto-propagam descontroladamente. São estes os dias das catástrofes, onde tudo arde, muitos ficam sem nada e todos buscam bodes expiatórios, muitos porque neles acreditam, alguns porque assim disfarçam as suas faltas. Mesmo que a irresponsabilidade geral seja apenas uma parte do problema e haja muitos pirómanos criminosos, há uma diferença fundamental. A irresponsabilidade combate-se com informação e educação, por muito tempo que seja necessário. Loucos e criminosos sempre haverá e quem pense que os elimina com duras penas de prisão pouco sabe da natureza humana. Se assim é, como explicar o escasso empenho e o envergonhado recato com que se fala destes assuntos nos relatórios científicos, nos jornais e, ainda mais nos discursos políticos? Penso que a principal razão reside num dos defeitos da democracia, regime que, insisto, é melhor que todos os outros: em democracia o povo tem sempre razão, vota sempre sabiamente, tem uma grande inteligência e faz tudo bem, apesar da falta de qualidade dos poderes públicos. Acontece que a democracia não deve ser o regime do povo bom, mas sim do povo soberano que, apesar das suas limitações e defeitos, deve ter nas suas mãos as escolhas para o seu futuro. Percebendo que chamar incendiários a  milhões de portugueses dá poucos votos, não será possível fazer, com as cautelas necessárias, a pedagogia da responsabilidade? Se não for, temo que os fogos florestais vão continuar de ótima saúde. [M]

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José Carlos Mota, Sara Moreno Pires e Filipe Teles Docentes do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território, Universidade de Aveiro

A Floresta e os Incêndios: Causas, Consequências e Mudanças para o Futuro

incêndios, um membro da comissão técnica independente e um autarca de um dos concelhos mais afetados. O ponto de partida desta discussão foi o Relatório da Comissão Técnica Independente criada para a análise dos incêndios que ocorreram entre 17 e 24 de junho de 2017, em particular as suas recomendações (página 153-183). A partir destas recomendações gerou-se uma leitura crítica focada na identificação de prioridades ou na sugestão de pistas de atuação.

Na sequência dos trágicos incêndios que ocorreram em junho e outubro, o Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro (UA) e a Associação Académica da Universidade de Aveiro entenderam organizar uma reflexão pública sobre o problema da floresta e dos incêndios, discutindo causas e consequências, bem como pistas para o futuro.

O problema dos incêndios em Portugal resulta de uma conjugação de questões cuja análise e compreensão está longe de estar consolidada na opinião pública e no processo de produção de política pública, o que tem conduzido a respostas centradas essencialmente no combate aos incêndios, com resultados menos eficazes, em detrimento de alternativas centradas na prevenção, de natureza mais complexa, mas de resultado mais consequente, pelo menos a médio-prazo. O debate organizado pelo DCSPT e pela AAUAV ilustrou vários aspetos onde essa compreensão se revela difícil.

É importante sublinhar o papel da academia na reflexão com a sociedade sobre questões fundamentais que afetam e determinam o comportamento de todos os atores sociais, procurando dar esclarecimentos fundamentados em evidência científica que permitam aos decisores públicos tomarem decisões mais racionais e informadas e aos cidadãos terem comportamentos socialmente mais responsáveis. Para esta conversa pública foram desafiados os cidadãos a virem até à UA para ouvir e participar, o que resultou num auditório cheio e numa intensa discussão. Para o painel de debate foram convidados quatro especialistas das áreas do ordenamento do território, desenvolvimento regional, florestas e do combate aos MATRIZ

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O local onde as ignições ocorrem é uma das questões mais controversas. De acordo com a informação partilhada no debate, 85% das ocorrências desenvolvem-se num perímetro de 500 metros em torno das povoações, o que contraria a ideia, frequentemente transmitida, da sua ocorrência em locais distantes, no meio das matas. Associado à questão do local da ignição, surge a da responsabilidade pelos incêndios, dividindo-se entre as causas artificiais e naturais. No que concerne às causas artificiais, foi referida a facilidade com que se 46

1 https://www. fb.com/ events/190222199676 1316 ² Carlos Fonseca, Docente do Departamento de Biologia – UA, membro da Comissão Independente; Eduardo Anselmo Castro, Docente do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território – UA; Celeste Coelho, Docente do Departamento de Ambiente e Ordenamento -UA; António Patrão, Especialista em prevenção de incêndios; Raul Almeida, Presidente da CM Mira. ³https://www.parlamento.pt/Paginas/2017/outubro/CT-Independente-analise-incendios.as px


atribui a responsabilidade a terceiros (os incendiários, sobretudo) quando na verdade são conhecidos comportamentos negligentes por parte do cidadão comum, nomeadamente na realização de queimadas, cuja realização não merece a mesma censura pública. Quanto às causas naturais, sobretudo as relacionadas com as alterações climáticas, normalmente são desvalorizados os riscos dos fenómenos extremos de baixa humidade, elevada temperatura e ventos fortes e que, sabemos hoje, que se tornarão cada vez mais frequentes e intensos nas suas ocorrências. À propriedade e aos proprietários da floresta foi atribuído um papel central na capacidade de gestão e prevenção. Foi reconhecido que só uma pequena parte da floresta é pública, estando mais de 90% da floresta na posse privada e sobretudo de pequenos proprietários. Cabe, naturalmente, ao Estado a obrigação de proteger e de prevenir, mas os proprietários privados têm o dever de cuidar, de limpar e de gerir, individual ou coletivamente. Ficou claro que a ação dos proprietários está limitada pela baixa rentabilidade da floresta, o que exige a aposta em espécies e usos alternativos (os medronheiros foram referidos com um dos exemplos) e em formas de gestão coordenadas a média-larga escala A mudança na forma como a floresta é gerida vai exigir novos instrumentos e um conjunto de reforçadas competências dos atores locais. Apesar das atribuições relacionadas com o planeamento e gestão da floresta, os municípios têm serviços com meios e papel muito reduzidos face às necessidades. No caso do ordenamento do território à escala municipal ou regional, apesar das figuras de planeamento existentes (ordenamento do território e ordenamento florestal), estes instrumentos demoram anos a ser elaborados e aprovados e o seu resultado no controle da dispersão urbana ou na orientação da transformação da floresta é muito pouco eficaz. O debate terminou sublinhando que o problema da floresta e dos incêndios é complexo, com causas e consequências que têm de ser compreendidas. Existe uma tendência para mobilizar meios para atuar nas consequências, que são politicamente sensíveis e visíveis, em detrimento de uma ação nas causas, mais lenta nos resultados, mas mais eficaz. Essa mudança de foco exige da parte de todos uma responsabilidade acrescida, que se deve materializar no curto prazo na definição de estratégias inovadoras e concertadas que olhem para estes desafios como determinantes do futuro do território. [M]

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do já a distribuição total mais de 390.000 pessoas.

satisfeitas da melhor forma. A maior parte das actividades é assegurada por

Os BA’s são coordenados pela Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome. Ana Rita Mortágua Pinho Banco Alimentar Contra a Fome Aveiro

Banco Alimentar Contra a Fome O Banco Alimentar contra a Fome foi constituído em 1997, à semelhança de outros bancos já existentes, por um grupo de Aveirenses sensibilizado para um dos grandes problemas da nossa sociedade… a Fome! O que é o Banco Alimentar Contra a Fome? É uma Instituição Particular de Solidariedade Social que tem como missão Lutar contra os desperdícios e os excedentes alimentares, para diminuição da carência alimentar em prol dos mais desfavorecidos. A ação dos Bancos Alimentares assenta na gratuitidade, na dádiva, na partilha, no voluntariado e no mecenato. É uma resposta necessária, mas provisória, que permite que todas as pessoas tenham direito a um nível de vida suficiente que lhe assegure e à sua família, as condições necessárias para uma vida digna. Em Portugal existem 21 Bancos Alimentares, que recolhem e distribuem várias dezenas de milhares de toneladas de produtos e apoiam ao longo de todo o ano várias instituições portuguesas. Por sua vez, estas distribuem refeições confeccionadas e cabazes de alimentos a pessoas comprovadamente carenciadas, abrangen-

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O Banco Alimentar contra a Fome/Aveiro abrange 18 dos 19 concelhos do distrito de Aveiro e em 2017 apoiou 210 instituições que ajudam mais de 34.500 pessoas. Ao longo do ano, o Banco Alimentar recebe toda a qualidade de géneros alimentares, ofertas de empresas e particulares, em muitos casos excedentes de produção da indústria agro-alimentar, excedentes agrícolas, da grande distribuição e ainda, produtos de intervenção da União Europeia. Aproveitando onde sobra para distribuir onde falta. É este o nosso objetivo: evitar o desperdício de alimentos fazendo-os chegar às pessoas que têm fome.

voluntários que têm a seu cargo as mais variadas tarefas, desde a organização, a divulgação, e a execução nas áreas de abastecimento, distribuição até à comunicação com as instituições. Para melhorar o funcionamento do BACF/Aveiro, queremos reorganizar as equipas de voluntários com pessoas como tu! – Dinâmicas, responsáveis, criativas, solidárias e empenhadas.

Também, duas vezes por ano, os Bancos Alimentares Contra a Fome interpelam a população em geral para a solidariedade e o voluntariado através de duas campanhas de recolha de alimentos que se realizam em todo o país, uma na primavera e outra no Natal, apelando à generosidade de todos.

O Banco Alimentar contra a Fome /Aveiro precisa de todos, mas precisa sobretudo de TI.

Alguma vez pensaste em juntar-te à equipa de voluntários do BACF-Aveiro?

+INF e Inscrição: ba.aveiro@bancoalimentar.pt [M]

Trabalhamos durante todo o ano para que as necessidades das nossas famílias sejam

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QUERES CONHECER MAIS DO BANCO ALIMENTAR DE AVEIRO? VEM FAZER PARTE DESTA CAUSA, ALIMENTA ESTA IDEIA!


Victor Neto Docente DEM-UA / ex-aluno MGestão UA

Economia Circular: A Mudança do Paradigma de Produção e Consumo Muito se tem falado de “Indústria 4.0”, uma nova filosofia industrial que aos poucos está a mudar a forma como produzimos bens e serviços de modo a atingir uma maior produtividade utilizando menos recursos materiais e energéticos. A filosofia “Indústria 4.0” procura introduzir os avanços tecnológicos que foram alcançados nos últimos anos no campo da sensorização e controlo, na computação e processos de automação, criando condições para novos processos de desenvolvimento de produto

e novas formas de produção. No entanto, esta filosofia de desenvolvimento industrial tem de assentar de forma significativa também na reutilização de matérias-primas. Tem de fazer uso do eco-design e da ecoeficiência. O preço das matérias-primas está continuamente a aumentar, dado, em muitos casos, a sua crescente escassez, mas também devido a custos sociais e ambientais que a extração e produção de novas matérias-primas acarreta.

este fator está o crescimento demográfico da população. O crescimento da população coloca sérios desafios ao planeta e ao modo como utilizamos os recursos disponíveis.

Não nos iludamos, estamos com padrões de consumo que requerem muito mais tempo a serem produzidos pelo planeta do que nós a utilizá-los. Os recursos que precisamos, a nível global, para um ano, precisam de um ano e meio para serem produzidos pelo planeta. Acrescentar a

O conceito de economia circular visa responder aos desafios de manutenção da qualidade de vida das populações, sem exterminar a humanidade e o planeta. Uma economia circular é, por princípio, regenerativa e restaurativa. Tem como objetivo manter, intemporalmente,

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produtos, componentes e materiais no mais alto nível de utilidade e valor. Isto significa que um produto, após a sua utilização não é descartado para um aterro ou para incineração. Significa que após o seu tempo de vida útil, o produto continua o seu ciclo de vida, para ser reparado ou transformado, dando origem a um produto regenerado ou a matérias-primas que vão constituir um novo produto. Com isto mantemos estes produtos, componentes e materiais num círculo fechado de utilidade económica, sem aumento exponencial da necessidade de novas matérias-primas, nem desperdício de materiais para aterros. Importa, pois, desenvolver novos modelos de negócio que tenham estes conceitos na sua base. Imaginemos fresas diamantadas para corte de vidro ou material cerâmico. O modelo de negócio convencional passa por um fabricante,

possivelmente na China, produzir as fresas metálicas e o mesmo, ou outro, aplicar o revestimento de microcristais de diamante sintético. Finalizada a produção, serão vendidas a uma empresa que as irá utilizar até que sua eficiência de corte baixe consideravelmente. O destino final destas fresas são o lixo ou, quanto muito, a venda para a recuperação do metal. No entanto, estas fresas poderiam voltar a ser revestidas com diamante, múltiplas vezes, apresentando sempre a mesma eficiência de corte que as fresas completamente novas. Com este modelo de negócio, o material e energia despendido para o fabrico da parte metálica seria poupado.

boa eficiência de trabalho. Mas além disso, a Renault mantém a matéria-prima existente na bateria na sua posse. As baterias são constituídas por, entre outros materiais, lítio. O preço do lítio tem aumentado constantemente nos últimos anos. Significa que um investimento em lítio atualmente é um investimento com uma taxa de retorno interessante a médio longo prazo.

A Renault, no seu modelo de negócio de venda de carros elétricos, vende o carro, mas não a bateria. A bateria é alugada e o cliente paga uma renda mensal e assim garante que tem sempre uma bateria com

E nós?... Estaremos pessoal e socialmente preparados para passar de consumidores a utilizadores?... Estaremos despertos à implementação de modelos de negócio empreendedores e circulares?... [M]

mil milhões de pessoas e chegará em 2050 aos 9 mil milhões. No entanto, a raça humana levou 250.000 anos a chegar ao primeiro milhar de milhão de pessoas e levou só 12 anos a passar dos 6 para os 7 mil milhões.

Desafio Energético: está umbilicalmente ligado aos dois anteriores e à necessidade de resposta da matriz energética mundial às transformações do nosso tempo. A mudança de paradigma passa pela abolição progressiva da combustão na produção de energia, com o crescimento das renováveis, e uma possível solução tecnológica disruptiva.

A Apple apresentou recentemente no seu relatório de responsabilidade ambiental de 2017 o desejo de produzir futuramente somente com materiais reciclados, incluindo dos seus próprios produtos. Um desafio a si própria, sem dúvida.

Carlos Borrego Docente e Diretor do DAO/UA

A Economia do Futuro: Nesta Transição Será Economia Circular Hoje fala-se muito de economia do crescimento, de crescimento verde e de economia do bem-estar, assim como da dificuldade de ligação destes três universos. Justifica-se, por isso, contextualizar a nova economia, nesta transição, com a ecoinovação e a impossibilidade de crescimento eterno (as leis da Física assim ensinam!). A humanidade, apesar das crises e retrocessos, tem experimentado um nível de crescimento económico sem paralelo na História, mas também desafios societais importantes:

Desafio Económico: o PIB mundial em 1950 era de 5 biliões de dólares e em 2015 chegou aos 65 biliões de dólares. Isto é, em 60 anos a população mundial cresceu 3 vezes, enquanto a economia mundial aumentou 13 vezes, baseada nos bens ambientais e nos recursos naturais.

Desafio Demográfico: em novembro de 2011, a população atingiu 7 MATRIZ

Desafio Climático: é o desafio dos desafios e a sua não resolução pode conduzir à crise das crises. Em 2015 pela primeira vez a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera da Terra passou as 400 partes por milhão (ppm); antes da revolução industrial a concentração de CO2 na atmosfera era de 280 ppm. A temperatura da atmosfera aumentou 0,85°C no século passado, caminhando rapidamente para o limite de 2°C, a partir do qual existe aceleração da extinção das espécies, resultando danos em ecossistemas de que o ser humano depende e, por isso, pondo em causa a sobrevivência das espécies. A economia mundial atual deixa escapar

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recursos e matérias-primas preciosas, já que, desde a revolução industrial, tem desenvolvido um padrão de crescimento do tipo “extrair-fabricar-consumir-deitar fora”, um modelo linear baseado no pressuposto de que os recursos são abundantes, estão disponíveis, são fáceis de extrair e que é barato deitá-los fora.

vida do produto, otimizando a reutilização. A partilha, por sua vez, aumenta a utilização do produto.

Margarita Robaina Docente DEGEIT

Economia Circular: Oportunidades no Mercado de Trabalho?

O terceiro consiste em fomentar a eficácia do sistema, reduzindo os danos à utilidade humana, tais como alimentos, mobilidade, abrigo, educação, saúde e entretenimento e gerindo as externalidades, como uso da terra, ar, água e poluição sonora, libertação de substâncias tóxicas e mudanças climáticas.

Os sistemas de economia circular mantêm o valor acrescentado dos produtos durante tanto tempo quanto possível e eliminam os desperdícios. Mantêm também os recursos na economia quando os produtos atingem o final da sua vida útil, para poderem continuar a ser utilizados de maneira produtiva, como matéria-prima secundária, e a gerar mais valor.

A economia circular assenta em três princípios, cada um abordando vários dos desafios de recursos e sistemas enfrentados pelas economias industriais atuais.

Assim, a transição para uma economia circular exige mudanças nas cadeias de valor, desde a conceção dos produtos até novos modelos empresariais e de mercado, passando por novas formas de transformação dos desperdícios em recursos, até novos padrões de comportamento dos consumidores. Isso implica uma mudança sistémica completa, bem como inovação não só tecnológica, mas também a nível da organização, da sociedade, dos meios de financiamento e das políticas, ou seja, ecoinovação.

O primeiro consiste em preservar e valorizar o capital natural controlando stocks finitos e equilibrando fluxos de recursos renováveis. Quando os recursos são necessários, o sistema circular seleciona-os com sabedoria e escolhe tecnologias e processos que utilizam recursos renováveis ou com melhor desempenho, sempre que possível. Uma economia circular também aumenta o capital natural, encorajando fluxos de nutrientes dentro do sistema e criando as condições para a regeneração, por exemplo, do solo.

Em termos práticos, o crescimento com base numa Economia Circular seria aquele cujo crescimento do rendimento e do emprego é impulsionado por investimentos públicos e privados que reduzem as emissões de carbono e poluição, melhoram a eficiência energética e de recursos, e evitam a perda de biodiversidade e serviços ecossistémicos. Estes investimentos devem ser catalisados e apoiados por despesas públicas direcionadas, reformas políticas e mudanças na regulamentação. A aplicação da Economia Circular em países desenvolvidos e em desenvolvimento aumentaria a geração de empregos e o progresso económico. Ao mesmo tempo, combateria as causas do aquecimento global, do consumo irracional de recursos e dos fatores que geram a deterioração dos ecossistemas.

Sendo certo que é necessário melhorar a governação e o mercado para que se reutilizem os desperdícios como matérias-primas secundárias, continuam a ser as empresas e os consumidores os protagonistas da transição para uma economia circular. Numa perspetiva de desenvolvimento sustentável! [M]

O segundo consiste em otimizar o rendimento dos recursos através da circulação de produtos, componentes e materiais, tanto em ciclos técnicos quanto biológicos. Isso significa projetar para a remanufactura, reutilização e reciclagem mantendo componentes e materiais a circular e a contribuir para a economia. Estende-se a

A Agência de Economia Circular e Eficiência de Recursos no Reino Unido, publicou em 2015 uma análise sobre o potencial de uma Economia Circular no mercado de trabalho da União Europeia (UE). O estudo mostrou que esta poderia criar 3 milhões de postos de trabalho extras (em reparação, resíduos,

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reciclagem) e reduzir o desemprego em 520 mil em todos os estados membros da UE até 2030. Mas há importantes trade-offs a serem percebidos ao calcular os efeitos no emprego de uma mudança para uma economia mais circular. Pode haver um possível “rebound-effect”. Os efeitos diretos na criação de emprego nos sectores de tratamento e reciclagem de resíduos, intensivos em mão de obra, tendem a ser limitados e podem mesmo ser compensados pelas perdas de postos de trabalho nos sectores de matérias-primas primárias e da produção de novos produtos. Mas estima-se que o saldo final seja positivo. Essa transição oferece novas perspetivas para as economias em busca de fontes de crescimento e emprego. No início provavelmente haverá um padrão de "destruição criativa" que criará vencedores e perdedores. À medida que o nosso consumo e dependência de recursos continuam a aumentar, os governos e as empresas começam a olhar para o modelo circular não apenas como uma arma contra a escassez de recursos, mas como um motor de inovação e crescimento. Um caso concreto pode ser exemplificado com máquinas de maior durabilidade que substituirão os modelos de curta duração e diminuirão as vendas das mesmas. Os fabricantes de máquinas menos duráveis e mais baratas, teriam de se ajustar às ofertas concorrentes de modelos mais duradouros e mais eficientes numa economia circular. Esta "destruição criativa" também cria novas oportunidades - por exemplo, renovação e venda de peças de reposição para máquinas.

Turismo Centro de Portugal http://turismodocentro.pt/

Turismo Centro de Portugal: o Futuro do Turismo Sustentável Está nas Nossas Mãos 18

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Além de benefícios a longo prazo, a economia circular também oferece oportunidades imediatas. Os setores de energia renovável, sector agroalimentar, silvicultura e consultoria em matéria de sustentabilidade serão os setores dominantes e mais bem-sucedidos baseados no respeito ao planeta e àqueles que o habitam. A economia verde tornar-se-á a principal economia: uma economia que já não é linear, mas circular [M]. MATRIZ

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18 - Moinhos Oeste Fotografia: Turismo Centro de Portugal 19 - Vale Glaciar do Zêzere Fotografia: Turismo Centro de Portugal 20 - Monsanto Fotografia: Turismo Centro de Portugal 21 - Pateira de Fermentelos Fotografia: Armindo Ferreira


O turismo de natureza e sustentável é uma das imagens de marca mais fortes e diferenciadoras do Centro de Portugal. É também um dos grandes responsáveis pelo enorme aumento do fluxo de visitantes a esta região, em especial no último ano. Um crescimento na ordem dos dois dígitos, que se faz sentir no número de visitantes nacionais, e de forma ainda mais vincada no número daqueles que chegam de fora do país. Espanhóis, franceses, italianos, alemães, norte-americanos, ingleses, polacos – e até visitantes de países tão longínquos como a Coreia do Sul – têm escolhido o Centro de Portugal pela singularidade de aliar o

turismo cultural e de património (basta ver os sítios Património da Humanidade que se encontram na região) ao turismo religioso, ao turismo de aventura, ao turismo ativo e de desporto (com o surf a destacar-se), ao turismo enogastronómico, mas também, e de forma muito clara, ao turismo de natureza e sustentável. De facto, não há muitas regiões tão naturalmente belas como o Centro de Portugal. Pese embora os incêndios, que em particular este ano fustigaram impiedosamente a região, este continua a ser um destino maravilhoso para quem procura o verde da natureza, o ar puro das serras e florestas, a placidez dos rios e regatos, as praias fluviais, as caminhadas em comunhão com a flora e fauna autóctones. Os turistas hoje são, felizmente, cada vez mais exigentes: sabem o que querem e onde o encontrar. Em particular, aqueles que nos visitam têm crescentes preocupações ecológicas e de sustentabilidade. Nos anos mais recentes, as autarquias, associações e empresários do Centro de Portugal perceberam as vantagens de apostarem numa oferta turística com elevados padrões de sustentabilidade, em que o turista se integra harmoniosamente, respeitando as características distintivas e diferenciadoras e respeitando a cultura dos locais.

Vantagens que, desde logo, se evidenciam no aumento da coesão e das redes de interação entre os agentes regionais, nacionais e internacionais que participam na atividade turística. Projetos turísticos sustentáveis de qualidade qualificam os destinos e, consequentemente, as populações locais. É por isso importante garantir que o valor gerado pelo turismo, numa comunidade, seja canalizado e utilizado pelas populações locais para a melhoria das suas condições de vida, e a para a capacitação do turismo. Neste sentido, uma das principais linhas estratégicas de ação do Turismo Centro de Portugal é, precisamente, a Sustentabilidade e a Coesão Territorial. O seu principal objetivo é consolidar as intervenções motivadoras do desenvolvimento de agentes locais e regionais, criando a dimensão da sustentabilidade e da equidade territorial, através do fomento de parcerias, entre o Turismo Centro de Portugal e as instituições com intervenção direta no território. A sustentabilidade tem sido uma das bandeiras mais defendidas pelo Turismo Centro de Portugal. A título de exemplo, em todas as edições do Fórum “Vê Portugal” - um fórum anual dedicado ao debate da temática do Turismo Interno –, é revisitado o tema da Sustentabilidade, de modo a acompanhar as melhores práticas e os mais relevantes desenvolvi-

mentos nesta área. Uma ideia tem sido central às diferentes reflexões: é importante que se trabalhe a sustentabilidade como um desígnio, nacional e regional, procurando compatibilizar o crescimento económico com a responsabilidade social e ambiental, tornando-as num trunfo. No Centro de Portugal não faltam bons exemplos de Turismo Sustentável. É nossa ambição que estes sejam replicados em todos os novos projetos que surjam. Podemos citar, como exemplos emblemáticos, o Geopark Naturtejo, na Beira Baixa (reconhecido pela UNESCO e a que foi atribuída a Carta Europeia de Turismo Sustentável Terras do Lince), ou o Projeto “Montanhas Mágicas” (território que também tem uma Carta Europeia de Turismo Sustentável), nas serras da Freita, Arada, Arestal e Montemuro. Mas há mais projetos com uma ação estruturante a este nível. É o caso das 12 Aldeias Históricas de Portugal, projeto que assume como desígnio o desenvolvimento sustentável (económico, ambiental, social e cultural), capaz de respeitar o ecossistema das aldeias. A sua principal missão é afirmar a Rede de Aldeias Históricas de Portugal como território sustentável e inovador, assente no conceito de Crescimento Verde, reconhecido como um destino turístico de excelência e sustentado por recursos inimitáveis, com

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22 - Ilustração Poço de Santiago Ilustração: Gabinete de Imagem AAUAv

capacidade para potenciar o desenvolvimento local integrado. Da mesma forma, o projeto Aldeias do Xisto envolve 27 aldeias distribuídas num território de enorme beleza e com a capacidade de oferecer experiências únicas. Sem esquecer o projeto Aldeias de Montanha, território da autenticidade e da genuinidade. E muitos mais poderiam ser referidos. Luigi Cabrini, Presidente do Global Sustainable Tourism Council, destacou no Fórum “Vê Portugal”, em 2015, em Aveiro, que se assiste mundialmente a um aumento da procura por produtos turísticos sustentáveis. Segundo Cabrini, um em cada dois consumidores estão dispostos a fazer férias sustentáveis se estas estiverem disponíveis no mercado, podendo este ser um elemento diferenciador. Mais: 59% dos turistas referem que uma “qualificação verde” por parte do hotel exerce uma relevante influência na sua escolha. E 79% dos turistas consideram importante a prática de políticas ecológicas nos hotéis. Não é demais reforçar: os turistas são cada vez mais informados e preocupados. Questões como a sustentabilidade dos destinos são cada mais decisivas nas escolhas, pelo que, no momento em que escolhem um destino para visitar, um restaurante para fazer as suas refeições ou um hotel, procuram conhecê-los um pouco melhor, pesquisam na internet, pedem referências. É fundamental que todos os atores privados e públicos que atuam ao nível do destino tenham esta realidade bem presente e se preocupem com a adoção de práticas sustentáveis, capazes de criar no turista a imagem de um território com elevado valor ambiental, onde se desenvolve um turismo de qualidade em moldes sustentáveis. Este é o futuro do turismo no Centro de Portugal – um futuro, não tenhamos dúvidas, muito risonho. [M]

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Município de Sever do Vouga

Sever do Vouga: Um Destino ao Seu Alcance! Com uma localização privilegiada, próximo de cidades como Aveiro, Coimbra, Porto e Viseu e dos principais eixos rodoviários como A1, A17, A25 e IC2, Sever do Vouga é um território abençoado pela generosidade da natureza, onde os rios e as quedas de água convidam à aventura e ao descanso, onde o artesanato mantém viva a tradição e os saberes e sabores genuínos da gastronomia atravessam gerações. Com 130Km2 atravessados pelo rio Vouga e seus afluentes, o concelho possui cerca de 70% de mancha florestal, na qual repousam monumentos e estações arqueológicas. Com vestígios de arte rupestre, o Forno dos Mouros, a Necrópole da Anta da Cerqueira e do Chão Redondo e, ainda, a Anta da Capela dos Mouros e a Via Romana confirmam a passagem de povos pré-históricos. Já os pelourinhos, moinhos de água (alguns em funcionamento), eiras comunitárias e espigueiros são outros exemplos do património histórico edificado. Todavia, é no património natural que mais se demora o olhar quando percorremos os caminhos ou vias do concelho. Ao longo dos anos, a Câmara Municipal tem investido fortemente na requalificação e valorização da paisagem, através de intervenções que geram um impacto positivo no território, conferindo aos locais as condições necessárias para atrair e receber os turistas. As Cascatas da Cabreia e da Frágua da Pena, os rios

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Lordelo e Gresso, as aldeias, com destaque para a Aldeia dos Amiais e a sua Eira Comunitária contígua e sobranceira ao plano de água da Albufeira de Ribeiradio-Ermida, a Ribeira de Carrazedo, o Morro do Castêlo, o rio Vouga e a Ponte do Poço de S. Tiago, ex líbris do concelho, são alguns exemplos de rara beleza que foram potenciados através de intervenções. A riqueza paisagística projeta-se ainda em outros pontos de interesse turístico, como a Praia Fluvial Quinta do Barco, o Parque do Areeiro, o rio Alfusqueiro, as Pedras Talhadas e a Ecopista do Vale do Vouga que atravessa Sever do Vouga, unindo dois concelhos: Albergaria-a-Velha a jusante do rio Vouga e Oliveira de Frades, a montante do mesmo. O Parque Urbano da Vila, também um ícone de referência paisagística, é outro exemplo de locais intervencionados pela autarquia. Ali encontram-se instalados dois importantes equipamentos culturais: a Biblioteca e o Museu Municipal que, juntos, são responsáveis por uma oferta cultural e recreativa variada cuja qualidade da programação tem sido reconhecida através de prémios e menções honrosas. E porque uma mente sã exige um corpo igualmente saudável, estão à disposição percursos de manutenção e um Parque Geriátrico. As áreas verdes nas ruínas das Minas do Braçal, que adivinham a beleza inconfundível dos seus jardins envoltos na paisagem autóctone também surpreendem o visitante que encontra ali o cenário ideal para prática dos desportos de natureza e de observação. Existe, igualmente, uma rede de percursos pedestres, no seu total dez, de grande valor paisagístico e patrimonial, que merece ser percorrida. Os desportos de natureza também têm no rio Vouga um palco privilegiado para diferentes atividades. Além de adrenalina,


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o Vouga oferece, ainda, um dos produtos gastronómicos mais emblemáticos, a lampreia, que junto com a vitela assada com arroz de forno e o cabrito, fazem as delícias de quem os saboreia, assim como a doçaria regional, em que o mirtilo e a laranja são os principais produtos. Quem se determina a visitar Sever do Vouga pode beneficiar também da oferta anual de eventos, que em conjunto com outras iniciativas complementares, fazem Sever do Vouga acontecer em diferentes vertentes. Promover e contribuir para o desenvolvimento turístico e económico, valorizar produtos endógenos, bem como o património natural e históricos é o principal objetivo destes eventos que projetam o concelho no calendário cultural da região e do país e que complementam a oferta turística de Sever do Vouga. É exemplo disso a Rota da Lampreia e da Vitela, integrada no cartaz da Entidade Regional Turismo Centro de Portugal (março), Ralicross de Sever do Vouga, com provas pontuáveis para o campeonato nacional (julho e setembro), Feira Quinhentista/Foral (maio), Feira Nacional do Mirtilo e Festim (junho), FicaVouga (julho), Festival Internacional Guitarras Mágicas (julho), Rota do Cabrito (outubro). Importa também referir que Sever do Vouga está estrategicamente posicionado num território com a marca turística “Montanhas Mágicas®”. Um destino turístico certificado que abrange uma vasta área no centro/norte do país, circunscrito pelas montanhas da Gralheira, Montemuro, Arada e Arestal e entre os rios Douro e Vouga. Sete municípios (Arouca, Vale de Cambra, Castelo de Paiva, Castro Daire, Cinfães, Sever do Vouga e S. Pedro do Sul) assinaram a Carta Europeia de Turismo Sustentável, candidatando-se à Federação (EUROPARC, Federação Europeia de Parques Nacionais e Naturais), com vista a promover as potencialidades de cada território em escala. Nesta Carta são assumidos compromissos de requalificação e valorização, bem como MATRIZ

de educação ambiental, que devem ser concretizados dentro de um período temporal que permita a este território a revalidação da sua Marca. Numa fase de avaliação pelo EUROPARC, há a certeza por parte de todos os parceiros, particularmente por Sever do Vouga que o caminho deve ser pela cada vez maior aposta na qualidade de vida dos cidadãos, sejam munícipes ou visitantes.

Município tem em carta outros projetos de dinamização turística que concorrem ao Programa Valorizar- Linha de Apoio à Valorização Turística do Interior. Assim, determinado nesta senda, e assente numa estratégia concertada e transversal, o Município tem em carta outros projetos de dinamização turística que concorrem ao Programa ValorizarLinha de Apoio à Valorização Turística do Interior. Entre os projetos turísticos em preparação pelo Município, destacam-se a Via Ciclável do Braçal; (o) Parque de Pesca (Desportiva) da Cabreia; O “Rebuild Megalithic Period”, o Centro de BTT, o “Museu Vivo dos Alimentos”, o Miniparque de Campismo; Espaço Radical e de Apoio aos Caminhantes de Santiago, entre outros. Para o Município, desenvolvimento local e turismo andam de mãos dadas e, neste sentido, a autarquia defende que, ao proporcionar melhores condições de vida aos habitantes, está a contribuir para a construção de um concelho socialmente justo e atrativo, o que por sua vez gera uma maior captação de turistas. Assim sendo, a aposta na melhoria da qualidade de vida assume um lugar de destaque nas preocupações do Executivo Municipal, liderado por António Coutinho, através do reforço das apostas na Ação Social, Educação e Cultura. Recentemente, o concelho recebeu pelo #2

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segundo ano consecutivo, o galardão “Autarquia + Familiarmente Responsável”, atribuído pela Associação Portuguesa de Famílias Numerosas, através do Observatório das Autarquias Familiarmente Responsáveis. A distinção reflete as políticas municipais implementadas nos últimos anos, com ênfase para a Ação Social. Neste sentido, o Município tem vindo a conjugar esforços, em diferentes áreas, com vista a adotar práticas cada vez mais amigas das famílias, sendo exemplo disso o aumento do número de bolsas de estudo aos alunos do ensino superior, os projetos e ações culturais e educacionais dirigidos às famílias, o apoio na reparação de habitações, a descida de impostos, o programa de incentivo à natalidade e arrendamento urbano, entre outros. Sever do Vouga foi também considerado como um dos “melhores municípios para viver” pelo trabalho relativo ao turismo sustentável, mais concretamente através do projeto “Feira Nacional do Mirtilo”, responsável por criar uma dinâmica que ultrapassou as datas de realização da feira. A introdução de uma nova cultura, o aproveitamento dos campos abandonados e o ordenamento do território e alteração da paisagem e a sua divulgação e promoção, as propriedades medicinais e gastronómicas do fruto, a promoção da agricultura sustentável, o aumento das receitas familiares e criação de emprego, a melhoria da economia local e a criação da marca “Capital do Mirtilo”, foram algumas das ações que gravitam à volta da feira de âmbito nacional e internacional e que contribuíram de forma decisiva para a projeção turística de Sever do Vouga. Tudo isto, somado à generosidade da mãe natureza que presenteou o território com uma paisagem de rara beleza em que o verde é recortado pelas linhas de água do rio Vouga e quedas de água, faz com que os turistas se sintam atraídos por Sever do Vouga. Mais que um local de passagem, o concelho tem vindo a consolidar a sua posição de destino turístico de eleição dentro da Região de Aveiro e do território Montanhas Mágicas®. [M]


Município de Ílhavo

Município de Ílhavo: apoio ao Turismo de Natureza O Município de Ílhavo, integrando o destino turístico “Ria de Aveiro” e o “Centro de Portugal”, inclui duas cidades: a carismática cidade de Ílhavo e a dinâmica cidade portuária Gafanha da Nazaré. Inclui cerca de 7 km de areais dourados, banhados pelo Oceano Atlântico, sendo também triplamente atravessado pela Ria - a norte pela entrada da barra, e, no sentido norte-sul, pelos Canais de Mira e do Bôco. Inclui também uma ampla área verde central – a Mata Nacional das Dunas da Gafanha, sendo a Capital Portuguesa do Bacalhau, que tem “O Mar por Tradição” e é berço da mundialmente reconhecida e quase bicentenária Fábrica de Porcelanas da Vista Alegre. Ainda que o caráter ilhavense seja profundamente marítimo, e nesta característica esteja ancorada uma parte significativa da sua oferta turística, o Turismo de Natureza tem também, aqui, um território fértil para se mostrar, não raras vezes em simultâneo com a náutica, com a gastronomia ou até com o “sol e praia”. Desde logo, no Município de Ílhavo localiza-se uma parte significativa da oferta de alojamento “verde” regional, contando com três parques de campismo e caravanismo: um em cada uma das praias ilhavenses – Barra e Costa Nova, e outro na “antiga colónia agrícola” da Gafanha da Nazaré, e ainda com uma unidade de TER – Turismo em Espaço Rural, na vertente de Casa de Campo.

Um outro equipamento – a Quinta Inclusiva do CASCI – Centro de Apoio Social do Concelho de Ílhavo (http://quintainclusiva.wixsite.com/ quintainclusivacasci), uma área com aproximadamente 13 hectares, na antiga “Colónia Agrícola da Gafanha”, onde o visitante pode, desfrutando da natureza, usufruir de um circuito (com ou sem guia), que leva os visitantes por entre as atividades e animais da quinta bem como pelas atividades artesanais. Pode-se também participar nas atividades agrícolas, nos ateliers programados, ou apenas desfrutar dos espaços. Inclui também uma loja, onde o visitante pode adquirir os produtos agrícolas e artesanais que pessoas especiais aqui produzem, para comercialização. O birdwatching – observação de aves, é também uma das atividades muito procuradas, no âmbito do Turismo de Natureza, no Município de Ílhavo. Recorde-se que a Ria de Aveiro se constitui como uma Zona de Proteção Especial, no âmbito da Rede Natura 2000 – Diretiva Aves, zona esta que ocupa 31% do território ilhavense, em relação com os canais que o atravessam ou limitam. Outra área também procurada, além desta, a orla costeira, com a sua fauna e flora particulares. No Município de Ílhavo existem também duas árvores classificadas como de interesse público nacional, uma delas cumprindo, agora em 2017, 200 anos de existência e a outra 193 (na Quinta do Paço da Ermida e na Vista Alegre respetivamente). O acom59

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panhamento e dinamização desta procura de visitação aos valores naturais é efetuado por empresas de animação turística, incluindo operadores marítimo-turísticos, aqui sediadas e/ou com operação. Estes últimos, nalgumas situações, dispõem também de programas de observação da fauna marinha, em especial golfinhos roazes, quer na ria quer ao longo da costa marítima (como por exemplo os da Ria Príncipe - www.facebook.com/riaprincipelda). Em terra, a qualidade cénica e a planura do território do Município de Ílhavo propicia as caminhadas, desenvolvidas quer em ambiente urbano – no âmbito de passeios pedestres interpretados dinami.zados por empresas de animação turística, focando-se nos aspetos históricos e culturais das localidades, como por exemplo, o “Walking Tour Ílhavo” (www.cm-ilhavo.pt/p/walkingtoursocicerone) ou em ambiente natural, utilizando a rede de ecovias e os caminhos rurais, praticados, geralmente, de forma livre. No que às ecovias (caminhos que permitem, simultaneamente, a circulação pedonal e ciclável) se refere, deve dar-se nota do Caminho do Praião (www.cm-ilhavo.pt/p/caminhodopraiao), cerca de 6 km na margem nascente do Canal de Mira da Ria de Aveiro, nas Gafanhas da Encarnação e do Carmo, e ainda da Frente Ria Costa Nova – Vagueira (www.cm-ilhavo.pt/p/FrenteRiaCostaNovaVagueira), partilhada com o Municipio de Vagos e em ligação das duas praias que lhe dão o nome. Além MATRIZ


23 - Cais dos Pescadores da Gafanha da Encarnação - Bruxa Fotografia: Município de Ílhavo 24 - Entrada da Barra da Ria de Aveiro Fotografia: Município de Ílhavo

destas existem também os trilhos pedestres “Entre a Ria e o Mar” (praias da Costa Nova e da Barra), “Rota das Padeiras” (em Vale de Ílhavo), ambos circulares, e o trilho pedestre “Entre a Ria e a Floresta”. A utilização da bicicleta, no Município de Ílhavo, não é apenas exclusivo dos seus habitantes. Além de alguns dos hotéis terem bicicletas para empréstimo aos seus hóspedes é também possível alugá-las, nas praias, e fazer uso da rede de ciclovias instaladas um pouco por todo o território. Ainda que ela tenha sido implantada tendo mais em vista as necessidades de deslocações da população local, nas suas viagens casa-trabalho ou casa-escola, a Barra e a Costa Nova estão totalmente ligadas, entre si, por ciclovia, bem como a sul, ao Município de Vagos (por ambas as margens do Canal de Mira) e ainda atravessando a Ponte da Barra e através da Gafanha da Nazaré ou da Gafanha da Encarnação até à mais antiga cidade do Município, Ílhavo, que dispõe de uma via ciclável externa circular praticamente concluída. O Município de Ílhavo é também muito procurado para a realização de provas desportivas (amadoras) relacionadas com a corrida, o ciclismo ou o BTT, por força da elevada qualidade das suas infraestruturas e, mais uma vez, da sua elevada qualidade cénica. Tem uma elevada captação de atletas a prova de BTT Rota do Bacalhau e a Corrida Popular da Costa Nova. Outras iniciativas se iniciam nessa senda, sendo uma das mais recentes, mas também já bastante procurada, Ria Run & Bike. O usufruto da Natureza é também aqui estimulado através da criação e manutenção de parques e jardins e largos e da sua ocupação humana em torno dos valores culturais intrinsecamente relacionados com a cultura ilhavense. São os casos do Jardim Oudinot (www.cm-ilhavo.pt/p/jardimoudinot), na Gafanha da

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Nazaré, um investimento de 2008 de cerca 3,5 milhões de euros, pela Câmara Municipal de Ílhavo, que continua, ainda hoje a ser um dos mais aprazíveis espaços da Ria de Aveiro, dotado de um vasto conjunto de valências desportivas e recreativas, espalhadas por onze hectares onde também é possível encontrar uma praia fluvial e um dos ex-libris do Município, o Navio Museu Santo André. É também aqui realizado o expoente máximo das celebrações gastronómicas ilhavenses e o maior e mais emblemático Festival do Bacalhau português, durante 5 dias do mês de agosto. Numa escala distinta mas igualmente relevante para a celebração da história e cultura, o Jardim Henriqueta Maia é palco, anualmente, do Festival Radio Faneca. Finalmente, não poderia deixar de referir-se que uma parte significativa da oferta de Turismo Náutico no Município ilhavense é também Turismo de Natureza. Isto acontece sempre que há lugar à realização de passeios, interpretados ou não, para usufruto do património natural, e em especial quando a atividade se destina a praticantes com pouca ou nenhuma experiência na pratica da modalidade náutica. São exemplos desta situação a oferta, por exemplo, de atividade de Stand Up Paddle, também conhecido por SUP, modalidade que corresponde, acima de tudo, ao usufruto dos valores naturais da Ria de Aveiro mais do que propriamente corresponder à prática desportiva náutica. Outro dos exemplos são os frequentes são os passeios de canoa no Canal do Bôco. As empresas de animação turística e os operadores marítimo-turísticos são os dinamizadores de uma parte significativa destas iniciativas, existindo também uma parte importante proporcionada por associações desportivas (como por exemplo em torno dos batismos de Windsurf ou de Mergulho, entre outras atividades) e ainda no domínio da atividade juvenil e desportiva do Fórum Náutico do Municí-

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pio de Ílhavo, dinamizado pela Câmara Municipal. No Município de Ílhavo há também a ligação, no âmbito do Turismo de Natureza, à inovação e à ciência. Vejam-se, por exemplo, os casos do ECOMARE - o Laboratório para a Inovação e Sustentabilidade dos Recursos Biológicos Marinhos, da Universidade de Aveiro, que inclui o maior centro de reabilitação de animais marinhos da Europa, instalado na Gafanha da Nazaré e co-financiado também pela autarquia ilhavense, propiciando o turismo de base científica, do Aquário dos Bacalhaus do Museu Marítimo de Ílhavo, que pretende dar a conhecer, principalmente às crianças, o peixe vivo num ambiente semelhante ao seu habitat Todas as informações disponíveis em www.cm-ilhavo.pt/p/turismo [M] 24

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25, 26, 27, 28 e 29 - Aroucageopark Fotografia: Município de Arouca

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Município de Arouca

Arouca Geopark:  Natural 26

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Com aproximadamente metade do território classificado pela Rede Natura 2000, o Arouca Geopark é um paraíso para os amantes do turismo de natureza. A apenas uma hora de carro do Porto e de Aveiro, encontrará vários percursos pedestres para percorrer, trilhos de BTT para se aventurar, águas bravas para sentir a adrenalina subir, 41 sítios de interesse geológico, alguns dos quais raros no mundo, a descobrir, e aldeias tradicionais para desvendar. Conheça algumas das propostas de turismo de natureza do Município de Arouca/Associação Geoparque Arouca para descobrir este território UNESCO, que integra a Rede Europeia e Mundial de Geoparques.

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Rede Municipal de Percursos Pedestres Com  percursos pedestres de pequena rota (extensão inferior a  quilómetros) e um de grande rota, a rede municipal de percursos pedestres é uma excelente MATRIZ

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proposta para descobrir, a pé, os segredos do Arouca Geopark. Desenhados por entre rios, ribeiras, trilhos centenários, e aldeias tradicionais salpicadas de charme e de encanto, todos os percursos encontram-se homologados pela Federação Portuguesa de Campismo e Caravanismo. Rota dos Geossítios Esta rota assume-se como um produto diferenciador, com interesse científico, cultural e turístico para o território Arouca Geopark. Integra, entre outros geossítios, as icónicas Pedras Parideiras, na aldeia da Castanheira (Serra da Feita), a Frecha da Mizarela, uma das maiores quedas de água da Península Ibérica, as Pedras Boroas do Junqueiro, a Panorâmica do Detrelo da Malhada e a coleção de fósseis do Centro de Interpretação Geológica de Canelas. A Rota dos geossítios, organizada em  itinerários, é assim uma forma diferente de descobrir o Arouca Geopark, em que os geossítios são o fio condutor, e, simultaneamente, conhecer a história milenar desta região e da evolução do nosso planeta, gravado nas pedras deste território. Rota da Água e da Pedra A Rota da Água e da Pedra, promovida pela ADRIMAG - Associação de Desenvolvimento Rural Integrado das Serras do Montemuro, Arada e Gralheira é uma rota que se diferencia por valorizar elementos do património natural e cultural ligados à água e à pedra. Cascatas, rios, gravuras pré-históricas, turfeiras, antigas minas, dolmens, fragas, fósseis, fenómenos geológicos, vales e livrarias quartzíticas são alguns dos motivos para descobrir num território de paisagens deslumbrantes, com vales e serras talhados por milhões de anos de erosão e que compreende  municípios, entre os quais Arouca. Ao todo, a rota integra  pontos de visitação obrigatória.

Passadiços do Paiva Os Passadiços do Paiva são, atualmente, um dos maiores atrativos do Arouca Geopark. Localizados na margem esquerda do rio Paiva, o seu percurso de  km estende-se entre as praias fluviais do Areinho e de Espiunca, encontrando-se, entre as duas, a praia do Vau. Percorrer os Passadiços é fazer uma viagem pela biologia, geologia e arqueologia, a que ninguém ficará indiferente. Inaugurados em , os Passadiços do Paiva já receberam mais de  mil visitantes. Em  e , foram distinguidos com os «World Travel Awards» (considerados os Óscares do Turismo), na categoria «Europe’s Leading Tourism Development Project» (melhor projeto europeu de desenvolvimento turístico). No próximo ano, contarão com uma ponte pedonal suspensa sobre o rio Paiva, a qual já foi descrita como “assustadoramente bela”. A ponte, situada na zona da Cascata das Aguieiras, terá  metros de extensão e um piso transparente suspenso a  metros de altura. Audioguias para visitação às pedras parideiras e Serra da Freita (Casa das Pedras Parideiras) Lançados em novembro deste ano, os audioguias são o mais recente serviço da Casa das Pedras Parideiras, na aldeia da Castanheira (serra da Freita). Com circuitos para a aldeia da Castanheira e planalto da Serra da Freita, os audioguias, disponibilizados em dois idiomas (português e inglês), permitirão aos visitantes explorarem, de forma autónoma, o património natural e os saberes e tradições das suas gentes. Em alguns dos áudios, é possível ouvir-se os habitantes daquela aldeia tradicional. Desportos de aventura – Canyoning e Escalada O Arouca Geopark é um território de emoções fortes. Aqui, os amantes dos desportos aventura têm ao seu dispor  pistas de canyoning, com diferentes níveis de dificuldade, para que possam desfrutar, em pleno, da prática desta modalidade. A base de apoio logístico à prática de canyoning encontra-se instalada na antiga escola primária de Cabreiros que é também a sede da EC/DC Portugal 63

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(Espeleo Club Descenso de Cañones). Para quem quiser ficar fora de água, o Arouca Geopark tem a Escola de Escalada na serra da Freita. É composta por  zonas (Sr.ª da Lage, Parque de Campismo do Merujal e aldeia de Cabaços), com um total de  vias,  das quais são para principiantes. NA CALHA Sítio dos Viveiros da Granja – Base logística de apoio ao turismo de natureza Na antiga casa do guarda-florestal, na encosta norte da Serra da Freita, será criado um espaço público de educação ambiental e uma base logística de apoio ao turismo de natureza. Pretende-se que a zona dos Viveiros da Granja, onde fica a casa do guarda-florestal, seja assim a grande porta de entrada na serra da Freita. Com esse intuito, prevê-se criar aí um espaço vocacionado para centralizar e integrar a informação relativa à serra da Freita e às atividades de turismo de natureza. Recuperação de escolas primárias desativadas para apoio a pedestrianismo/BTT No âmbito da Operação “Arouca Geopark – Santuário da Natureza”, serão reabilitadas  antigas escolas primárias dos Planos Centenários, atualmente desativadas e localizadas em zonas rurais. Selecionadas pela sua proximidade a vários percursos pedestres, o objetivo é usar as mesmas como pontos de apoio aos praticantes de desporto de natureza. Guia de Natureza – Rio Paiva Rios e riachos sulcam o território do Arouca Geopark. O Paiva é o exemplo maior destes trilhos líquidos. Reputado como um dos mais bem conservados da Europa, nas suas águas, as trutas abundam. O “Guia da Natureza - Paiva” permitirá um conhecimento abrangente e integrado do vasto património natural existente, particularmente no rio Paiva. Esta publicação integra a Operação “Geonatura” - Qualificação, promoção e comunicação do património natural do Arouca Geopark. Mais info: www.aroucageopark.pt www.cm-arouca.pt [M] MATRIZ


O avanço das tecnologias de informação, comunicação e eletrónica (TICE) tem vindo a alterar decisivamente os hábitos e formas de vida das pessoas, e a registar profundas alterações no modo de atuação das atividades económicas, em resultado do desenvolvimento das soluções web e mobile. O desenvolvimento das TICE tem contribuído decisivamente para a mudança de paradigma, colocando o consumidor no centro do processo de tomada de decisão, mas também no poder de influência que exerce junto dos demais consumidores, pelo que as atividades económicas de dimensão global se deparam hoje, e tendem a ser mais pressionadas no futuro, pela forma como oferecem e proporcionam os seus produtos/serviços aos clientes.

Rui Costa Vice-presidente do DEGEIT

As Reviews Online: A sua Importância como Ferramenta de Gestão para as Empresas do Setor do Turismo MATRIZ

Num momento em que o setor do turismo apresenta, em termos internacionais e em particular em Portugal, um crescimento extraordinário em termos chegadas de turistas internacionais e receitas geradas por esta atividade, e em que este setor reforça a sua importância para o bem-estar das populações e da melhoria da qualidade de vida, os avanços tecnológicos ocorridos e o desenvolvimento das TICE é central para o sucesso das empresas do setor do turismo. A tecnologia permitiu aos turistas um maior acesso à informação, promovendo uma relação direta entre os fornecedores de serviços turísticos e os ‘consumidores’…os turistas, na possibilidade de conhecer novos destinos e novas ofertas, na venda online e na análise comparativa de preços, e também na partilha online de experiências, alterando drasticamente o papel dos intermediários turísticos. Hoje em dia a grande maioria das reservas de alojamento e transporte são realizadas através da Internet. As plataformas sociais são amplamente utilizadas para pesquisar,

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organizar e partilhar viagens e experiências, nomeadamente através de blogs, redes sociais e websites de partilha de informação. Após o ‘consumo’, os clientes têm a oportunidade de partilhar a sua experiência, contribuindo com uma crítica online. Estes comentários são cada vez mais importantes no processo de decisão dos consumidores, sendo já considerados o passa-palavra da atualidade. Para além disso funcionam como uma ferramenta de gestão para os agentes da oferta criarem e apresentarem um serviço de alta qualidade, fornecendo também, a potenciais clientes, uma vasta quantidade de informação gratuita sobre determinado serviço ou experiência. Desta forma, ao mesmo tempo que são úteis para os consumidores, que os consideram uma fonte credível e fiável de informação, os comentários nas comunidades online permitem aos gestores das empresas turísticas perceber os gostos e reclamações dos seus clientes e dos clientes da sua concorrência (Sousa, 2017). Criar uma boa reputação online é essencial para o sucesso de qualquer empresa, neste sentido, as reviews online podem ser consideradas o canal de comunicação mais direto entre o consumidor e o fornecedor do produto/serviço (Leung, Law, Hoof & Buhalis, 2013; Schuckert, Liu & Law, 2015). Considera-se que as vendas online são uma das grandes revoluções do século XXI, reduzindo a importância de outros canais de venda indireta, como os agentes de viagens e operadores turísticos. Face à frequente avaliação a que as empresas do setor do turismo estão sujeitas, as plataformas online têm um grande impacto na melhoria da qualidade do serviço oferecido. Nesse sentido é fundamental que a indústria do turismo se adapte a esta nova realidade, e desenvolva esforços para consolidar uma forte presença online. [M]


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30 - Street Art - Vhils Fotografia: João Jesus

José Ribau Esteves Presidente da Câmara Municipal de Aveiro

A Matriz do Futuro Agradecendo o desafio do Presidente da Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv) para participar nesta revista “Matriz”, quero saudar a Academia Aveirense e desejar a Todos um Excelente Ano Novo 2018. O crescimento que fizemos juntos nos últimos quatro anos, iniciando um trabalho diário e intenso de partilha de vida e de projetos entre a Câmara Municipal de Aveiro (CMA) e a Universidade de Aveiro (UA), polarizando essa cooperação nos Presidentes da CMA e da AAUAv, e no Reitor da UA, conseguiu resultados importantes e que seguramente vão estar presentes no futuro que vamos continuar a construir em equipa. Temos muitos e importantes objetivos para 2018. Tendo sido eu um dos Fundadores da FADU, tenho múltiplo privilégio de presidir à CMA no ano em que as finais dos Campeonatos de Desporto Universitário se vão realizar em Aveiro, culminando uma aposta e uma luta ganhadora da AAUAv, numa parceria que integramos com gosto e empenho, para que esse seja um momento importante do desporto universitário, um incenti-

vo à Academia e à População em geral para a prática do desporto e um momento relevante de divulgação e de afirmação da UA, da AAUAv, do Município e da Região de Aveiro. Na gestão da CMA e nesta fase de arranque do mandato autárquico 2017/2021, quero anotar a relevante importância do mandato anterior, em que executámos uma profunda reforma organizacional e financeira, credibilizámos a CMA e assumimos a liderança da Região de Aveiro num exercício assente em parcerias com entidades relevantes, destacando-se a que temos com a UA. No caminho do futuro, as opções que assumimos no plano de ação para 2018, apostam na consolidação da reforma, no forte crescimento do investimento da CMA, com destaque para as áreas da qualificação urbana (11,6 M€), educação (6M€), cultura e turismo (4M€), ação social e habitação social (2,8 M€), ria e mar (2,6 M€), e saúde (1M€), tirando o máximo de proveito dos Fundos Comunitários do Portugal 2020. A candidatura de Aveiro a Capital Europeia da Cultura 2027, é uma aposta forte num processo que é em primeira instância de fortalecimento da rede cultural do Município, de dinamização da atividade cultural, de promoção e afirmação dos valores culturais de Aveiro na Europa, num processo em que a Academia UA vai ter um papel relevante. Com a Cultura, o Ambiente faz o eixo de diferenciação de Aveiro, e são fortes e determinadas as nossas apostas, na qualificação, na valorização e na promoção de Aveiro Cidade dos Canais, da Ria de Aveiro e dos seus valores naturais, na promoção de uma economia mais azul, com um lugar especial para o Turismo que estamos a fazer crescer pelo trabalho de muitos, assente no tal eixo de diferenciação.

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Somos cada vez mais uma Cidade excelente para viver, trabalhar, estudar, partilhar momentos de cultura e de lazer. Somos cada vez mais Cidade Universitária, credível, atrativa e internacionalizada, em consequências do trabalho de todos os que optam por ser obreiros, e deste eixo institucional produtor que temos na CMA+UA+AAUAv. Para 2018 destaco ainda duas realizações. Vamos ativar o Parque da Ciência e Inovação, um dos resultados mais importantes para o nosso crescimento futuro, uma plataforma de caraterísticas únicas para a investigação e do desenvolvimento, o PCI gerado pela cooperação UA/CMA/CIRA/Empresas. Vamos executar o memorando “Mais Conhecimento, Melhor Saúde”, uma parceria UA, CMA, CHBV, ARSC, UNL, para capacitarmos o nosso Hospital Infante D. Pedro e o Centro Hospitalar do Baixo Vouga (CHBV), prestando melhores serviços de saúde com o contributo mais forte e mais presente da formação e da investigação. Como notas finais, quero saudar o Magnífico Reitor Manuel Assunção pela excelência do seu desempenho e por toda a dedicação à cooperação com o Município e a Região de Aveiro, que construiu um exemplo nacional e europeu da relação de desenvolvimento na “hélice tripla” da universidade, das empresas e da comunidade representada pelos poderes públicos locais. Uma saudação ao Presidente Xavier Vieira, pelo trabalho do seu primeiro mandato e pela sua reeleição na liderança da AAUAv, e por tudo o que realizámos juntos e seguramente vamos continuar a realizar em prol da UA, dos seus Estudantes, da Cidade e do Município de Aveiro. Seguimos Juntos a fazer Mais e Melhor pela Nossa Academia e pela Nossa Terra.[M]

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Hoje já ninguém tem mesmo dúvidas: o desporto universitário ganhou asas, voou e voou bem alto, contribuindo atualmente e de forma incontestável para o desenvolvimento desportivo do país! Quem o reconhece é a administração pública desportiva, as federações desportivas, os clubes, enfim, porque não dizê-lo, a grande generalidade do setor.

setor, quotidianamente. O sistema desportivo nacional soube estar atento, percebeu que este era um espaço por ocupar e passou a dedicar-se. A contribuir para o seu crescimento, para o seu reconhecimento e para a sua alavancagem. Uma receita diria que perfeita, em que o Desporto e a Educação (Ensino Superior) souberam cruzar-se, compreender-se e cooperar para que cada um dos setores pudesse, dia após dia, ir cumprindo a sua missão: formar melhores cidadãos e ir enraizando hábitos de atividade física e desportiva regulares no ensino superior, alargando a sua prática a cada vez mais jovens. Tarefa que não é propriamente fácil nem chega até nós de “mão beijada”. Afinal de contas, o país não tem ainda uma cultura desportiva vincada, em que o acesso ao Desporto seja visto como uma necessidade primária como tantas outras, nem tão pouco reconhece a importância do ecletismo desportivo, fundamental para o desenvolvimento da nossa sociedade. Não só na linha da prevenção de doenças, como na fixação de valores que só o desporto consegue oferecer: a igualdade, a entreajuda, o saber ganhar e perder, o respeito e o espírito de grupo/equipa, a capacidade de sacrifício por um colega, a autodisciplina, entre tantos outros.

Soubemos posicionar-nos, encontrar o nosso espaço e mostrar que o desporto universitário é uma oportunidade de crescimento e potenciação das modalidades no nosso país. Paralelamente, os nossos clubes (associações académicas e de estudantes e instituições de ensino superior) foram profissionalizando-se, investindo e consequentemente credibilizando o

E porque é de formação que falamos, o setor da Educação como um todo, onde se incluem os estabelecimentos de Ensino Superior, tem um papel verdadeiramente fulcral na promoção e valorização social do Desporto, instruindo as atuais e futuras gerações de que o Desporto faz bem, que vale a pena e que é uma das forças motrizes para ambicionarmos ter

É já em 2018 que Aveiro volta a receber umas Fases Finais dos Campeonatos Nacionais Universitários. Precisamente 10 anos após a última grande experiência organizativa, no quadro de competições da Federação Académica do Desporto Universitário. Uma década depois, muita coisa mudou. No país, na cidade da Ria, no Desporto e, naturalmente, também na atividade e dimensão da FADU. De Desporto Universitário falando, foi de lá para cá que se deu o grande “boom”. De não mais que 20 modalidades nos quadros competitivos universitários, passámos para mais de 40. E se à época não eram mais do que 25 campeonatos organizados, no presente atingimos já a marca dos 70 campeonatos nacionais universitários em cada época desportiva.

Daniel Monteiro Presidente da Federação Académica do Desporto Universitário (FADU)

“Fases Finais dos Campeonatos Nacionais Universitários 2018: um Legado que Inspirará as Próximas Gerações” MATRIZ

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uma sociedade mais justa, com cidadãos melhor preparados para responder aos atuais desígnios e aos propósitos futuros. A este respeito, a Universidade de Aveiro e a respetiva Associação Académica têm sabido estar um passo à frente. Definiram a atividade física e o Desporto como aposta estratégica, dando condições ao seu acesso, à sua prática, tanto no âmbito informal como de competição. Aproximaram-se dos clubes locais e envolveram a autarquia num projeto galvanizador, em que ninguém quer ficar para trás e em que todos os parceiros e demais intervenientes vêem benefícios em contribuir e em ser parte integrante do plano de crescimento e expansão do projeto. Uma Universidade que tem feito da ambição de querer mais e melhor Desporto chavão para se afirmar e projetar, também merece que as Fases Finais dos Campeonatos Nacionais Universitários 2018 sejam realmente marcantes, não só para a academia como para toda a cidade. Saibamos todos nós, em que a FADU naturalmente também se inclui, estar ao nível das ambições que nós próprios estipulámos, proporcionando um evento digno, com impacto local e nacional. Um evento que deixe um legado inspirador para as futuras gerações de dirigentes da Universidade e da Associação Académica, para que cada vez mais o acesso ao treino e à prática das modalidades possam ser oferecidos diretamente nas instalações desportivas da Universidade e em que a construção de novas infraestruturas possa ser equacionada, com vista a massificar a prática desportiva junto dos estudantes e a almejar receber mais eventos à escala nacional e internacional. Contarão naturalmente com a FADU, como a FADU continuará a contar com a Universidade e a Associação Académica da Universidade de Aveiro. [M]

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31 31 - Parque Ifante D. Pedro Fotografia: João Jesus

Jéssica Jacinto Agora

Agora, Aveiro Está Mais Verde Desde 2010, que a associação sem fins lucrativos Agora Aveiro e os seus voluntários locais e internacionais trabalham para que a cidade seja mais azul, vermelha, amarela, laranja e verde: desenvolvem inúmeros projetos de carácter social, artístico e de consciencialização ambiental, local e internacionalmente, acreditando que a mudança que se aspira ver na comunidade deve partir de cada cidadão. As atividades de intervenção cívica que realizam pretendem também fomentar o diálogo e a diversidade cultural, sendo uma associação acreditada pela Comissão Europeia para receber e enviar voluntários pelo programa de Serviço Voluntário Europeu. Tomar café transformou-se num gesto de generosidade com o projeto Café Suspenso. Nos cafés aderentes é possível comprar um café e deixar o outro suspenso, pronto a ser levantado por quem precise. As atividades de “guerrilha” pela cidade, sem anúncio prévio, como a “Precisas, então leva!”, onde os voluntários deixam por pontos da cidade roupa para ser levada por quem necessita, são uma imagem de marca da associação. Inicialmente o projeto Aveiro+Verde nasceu para chamar atenção para sítios mais degradados no espaço urbano e acabou por evoluir para a distribuição de plantas pela cidade, em 2016. Este ano a iniciativa cresceu, demonstrando a aposta da associação em atividades que promovam a

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sustentabilidade. A primeira parte consistiu na distribuição pela cidade de envelopes contendo “bombas de sementes”, que foram adaptadas do conceito original de “Seed Bombs”, bolas de argila com sementes no seu interior prontas a serem deitadas à terra. A segunda parte germinou no dia do Ambiente, nos dias 10 e 11 de Junho onde diversas palestras sobre alimentação ecológica e “eco-soluções” foram dinamizadas, em colaboração com outras associações locais. Em relação ao papel de cada cidadão na contribuição para o desenvolvimento sustentável, é esta uma responsabilidade das entidades competentes e com poder legal ou uma tarefa de responsabilidade individual? Pequenos gestos fazem realmente a diferença, ou são insignificantes face à dimensão dos problemas ambientais? Nas palavras de Liane Carvalho, voluntária da Agora: “Fechar a torneira enquanto lavamos os dentes pouca mossa faz quando há indústrias a desperdiçar e poluir quantidades de água muito superiores. Não quer dizer que pequenos gestos não façam diferença, os cidadãos têm um papel importante. Esse passa por ir mais além e procurar soluções junto de outras entidades ou associações com mais recursos. Por vezes, as entidades competentes precisam da orientação ou até mesmo pressão dos cidadãos para desenvolver e implementar estratégias na direção de um desenvolvimento sustentável.”

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A situação na Catalunha está a ocupar, nos últimos tempos, uma posição preeminente em telejornais e imprensa. Também, infelizmente, lemos por vezes proclamas incendiários que, apelando aos mais recônditos sentimentos aljubarrotistas, expõem uma visão romântica –no pior sentido da palavra– e obsoleta de um passado que nunca existiu, invocando uma suposta luta pela liberdade em termos maniqueístas e simplórios. A questão da Catalunha, porém, é muito mais complexa; é de fato, tão emaranhada que precisaria de discussão alargada no seio de palestras e conferências científicas, longe dos circuitos políticos. No entanto, teremos de nos contentarmos com o breve espaço destas linhas para tracejar, ainda que superficialmente, algumas questões que permitam refletir sobre o problema.

VI Internacional

Carlos de Miguel Mora Professor Associado do Departamento de Línguas e Culturas Responsável Durante Vários Anos pelas Disciplinas de Cultura Espanhola e Espanha Multicultural

O Procés: Algumas Considerações Sobre a Situação Atual na Catalunha MATRIZ

. Questões históricas. .. As origens do nacionalismo. A região da Catalunha tem uma identidade que vem de muito antigo. Este facto nem pode ser minimizado pelos defensores da unidade indissolúvel do Estado espanhol nem pode ser magnificado pelos separatistas catalães, pois afirmações idênticas podem ser realizadas, sem medo ao engano, de muitas outras regiões, quer na Península Ibérica, quer no resto da Europa. Ter uma consciência de identidade não quer dizer, como muitos querem deduzir, constituir uma nação. Na verdade, é absolutamente anacrónico falar de sentimentos nacionais antes do aparecimento das ideias do nacionalismo, lá pela segunda metade do século XVIII, pois, como disse Ernest Gellner, “É o nacionalismo que gera as nações, e não ao contrário”. A partir do desenvolvimento das sociedades industriais e o desaparecimento dos laços feudais é que se produz esse fenómeno bem estudado pelos teorizadores do nacionalismo que consiste na sublimação das tradições locais por parte das elites culturais, dando-se ao produto cultural resultante o nome de “nação”.

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Obviamente, a presença de um inimigo externo ajuda muito na criação deste sentimento nacional. O nacionalismo espanhol, por exemplo, apareceu mais tarde do que o português devido a que este tinha um inimigo claro, a Espanha, enquanto o estado espanhol não o tinha. Só aquando as invasões napoleónicas é que se criaram boas condições para que nascesse o sentimento nacionalista. E foi, portanto, nessa altura, nos inícios do séc. XIX que se gerou o nacionalismo espanhol. Só que nasceu um bocado torto devido a uma identificação indevida entre o espanhol e o castelhano. Esta identificação não pode ser negada, como os defensores do centralismo e acusadores dos separatistas costumam fazer, nem pode ser rotulada de propositada, como gosta de fazer a outra parte, pois não foi mais do que uma inércia devida, por um lado, à presença da Corte e do poder em Castilha e, por outro, ao prestígio dos autores em língua castelhana. As elites catalãs tiveram de lutar muito para que os seus colegas de Castela percebessem que a cultura e a língua catalãs não eram menos espanholas do que as castelhanas. Nessa altura, o nacionalismo catalão, criado por essas elites no período chamado “La Renaixença”, reivindicava a sua espanholidade, que parecia ser recusada ou desvalorizada desde Castela. .. O nacionalismo catalão sob o franquismo. Embora desde finais do séc. XIX já tivesse existido um sentimento independentista muito minoritário, sobretudo a partir da perda das últimas colónias em , podemos centrar-nos noutro período histórico relevante para os nacionalismos periféricos em Espanha (catalão, basco e galego), a ditadura de Franco. Num período da história de Europa em que os nacionalismos minoritários como os dos bretões, alsacianos e flamengos ficaram desprestigiados pelo seu apoio ao nazismo de Hitler, por aquilo de apoiar o inimigo do inimigo, os nacionalismos periféricos de


Espanha ficaram prestigiados por serem inimigos e adversários de um governo central fascista como era o de Franco. Sem se compreender esta situação histórica não se pode assimilar o paradoxo do caso espanhol, em que nacionalismos nascidos de ideologias muito conservadoras (e até da ultradireita, como é o caso do nacionalismo basco de Sabino Arana) ficaram emocionalmente ligados, no imaginário popular, ao progressismo. A oposição antifranquista, com efeito, aproveitou em muitas ocasiões a dinâmica da luta nacionalista na defesa do uso da sua língua e cultura para os seus próprios interesses, do mesmo modo que os nacionalistas aproveitaram as força de comunistas e socialistas em prol dos seus interesses. Como resultado disto, grande parte das pessoas de ideologia esquerdista em Espanha acredita sem reflexão que qualquer oposição às reivindicações dos nacionalismos periféricos implica conservadorismo retrógrado, e que o progressismo tem de ir ligado indefetivelmente à defesa das exigências destes nacionalismos. Esta parte da população desconhece tal vez as palavras de Bertold Brecht, que dizia que “o nacionalismo dos que estão em cima serve aos que estão em cima; o nacionalismo dos que estão em baixo serve também aos que estão em cima”.

semelhantes eram aprovados noutros Estatutos de outras autonomias. Para grande parte dos catalães tratava-se de um ataque anti-catalão que levou os cidadãos a não quererem votar partidos com representação ao nível do Estado (Partido Popular, Partido Socialista de Catalunha –associado ao PSOE central–, Ciudadanos ou Em Comú Podem –associado ao Podemos, se bem que este não gera as mesmas antipatias do que o resto pela sua defesa do referendum–) e virarem para partidos da Catalunha. Ao mesmo tempo, partidos catalanistas não independentistas mudaram a sua posição para um radicalismo secessionista (como Convergència Democràtica de Catalunya, mais tarde associada a Esquerra Republicana de Cataluyna na coligação Junts pel Sí, depois transformada em Partit Demòcrata Europeu Català e finalmente em Junts per Catalunya), pelo que o leque de possibilidades se viu reduzida e os votantes tinham quase que decidir entre dois blocos confrontados: o independentista e o “constitucionalista” (é deste modo que se costumam chamar a si próprios, como bloco, os partidos não secessionistas). A situação de confronto, o “ou preto ou branco”, o “comigo ou contra mim”, pode explicar parcialmente o aumento do número de votantes para os partidos independentistas.

.. O período -. Nos últimos anos houve um acréscimo espetacular no número de pessoas que votam, na Catalunha, num partido independentista. Passou, mais ou menos, duma percentagem de menos de  de cada  para uma percentagem próxima a  de cada . Qual será o motivo deste aumento? Para muitos analistas políticos, o facto fundamental foi a decisão do Tribunal Constitucional de “chumbar” grande parte dos artigos do novo “Estatut” (um Estatuto de Autonomia é a legislação principal de uma Comunidade Autónoma espanhola, sendo para essa comunidade o equivalente à Constituição ao nível do Estado), quando artigos

. Questões económicas Uma parte essencial do conteúdo do Estatut chumbada, aquela mais controvertida, era a questão económica. Uma reivindicação antiga do catalanismo (mesmo o regionalista, não independentista) era a equiparação económica com o País Basco, que tem um regime tributário especial (e muito vantajoso) chamado concierto económico. A manutenção das diferenças orçamentais entre Catalunya e o País Basco foi considerada uma afronta. Por outro lado, os líderes independentistas agitam sempre a mesma lengalenga para espicaçar os seus seguidores: “a Espanha rouba-nos”, apresentando cifras

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sobre a diferença entre os impostos pagos por Catalunya e os investimentos na região. Desse modo, em entrevistas a pessoas na rua sobre os motivos para se declararem independentistas, uma resposta muito repetida é “penso que viveríamos mais bem em termos económicos”. Como em muitas ocasiões, uma e outra parte teimam em negar a verdade ao oponente; por muito que incomode aos “centralistas”, é verdade essa disparidade entre os impostos pagos e a retribuição em forma de investimentos e, por muito que irrite aos independentistas, é altamente duvidoso que a Catalunha conseguisse esses resultados económicos se não estivesse integrada em Espanha, além de que a solidariedade inter-territorial é a base dos Estados de Direito, mesmo os federais como Alemanha ou os Estados Unidos. . Questões democráticas .. O “direito a decidir”. Esta divisa ou reclamação repetida tem por intuito apresentar uma exigência que, ao que parece, é “obviamente” um direito inalienável. Mas, direito a decidir o quê? Não se trata de direito a decidir se a pessoa quer ser bombeiro ou empregado de mesa, nem sequer se quer ter uma criança ou abortar ou se pode decidir a sua vida sexual. Na verdade, a expressão não passa de um eufemismo para não usar o “direito à autodeterminação”. Por que razão se deve usar um eufemismo? Simplesmente, porque os textos que falam da autodeterminação, como a Carta de Nações Unidas (artigo ), o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (art. ), o Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais (art. ), descrevem realidades muito afastadas da de Catalunha, que nunca foi uma colónia, nunca foi um território conquistado (faz parte de Espanha desde a criação desta, por aliança dinástica), e que está integrada num Estado Democrático (com um comportamento, afortunadamente, muito mais democrático que aquele que

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os líderes de Junts pel Sí demostraram no Procés independentista català). Fechado o caminho para uma reivindicação internacional deste direito à autodeterminação, a única via encontrada foi alterar o léxico mantendo a mesma reivindicação. .. A exigência de um povo. A reclamação de um referendum de autodeterminação é apoiada constantemente por um argumento que se apresenta como irrefutável: grande parte do povo catalão, independentista ou não, assim o exige. Não há nada mais democrático, afirma-se, que respeitar a decisão do povo. Aqueles que afirmam isto parecem desconhecer que a Democracia baseia-se no respeito às leis, e isto por um motivo muito claro. Um referendum só pode ser convocado quando existem certezas absolutas de que o resultado pode ser assumido, quer desde um âmbito ético quer desde um âmbito prático. Se  da população pedisse um referendum para não aceitar os refugiados sírios, ou para expulsar a população cigana, ou para pedir que não se paguem mais impostos, significa isto que o Estado está obrigado a convocar esse referendum? A convocatória irrefletida de referenda pode dar lugar a casos como o Brexit. A determinação da ética e da oportunidade daquilo que vai ser votado deve ser prévia à convocatória de um referendum, independentemente do número de pessoas que o exija. Desse modo, é preciso ponderar com calma se os habitantes atuais de uma região que nunca foi colónia nem território subjugado, que usufruiu durante grande parte da sua história das vantagens competitivas e benefícios fiscais de estar integrada noutro território maior, e que neste momento é comparativamente rica em relação à média do Estado, têm direito a decidir que se separam do resto do país, sem que se tenha em consideração a opinião dos habitantes desse resto do país, muitos deles ligados económica, familiar ou afetivamente com essa região. Este debate deve ser prévio a qualquer referendum, especialmente porque os independentis-

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tas sabem que têm a grande vantagem de que perder um referendum só implica aguardar pelo seguinte, enquanto os não-independentistas estão cientes de que perder um é perder para sempre. . Que referendum? Mesmo que consideremos que um referendum é justo, é ético e que podemos assumir o resultado, teríamos de saber que tipo de referendum se deve fazer. Nestes casos tão complexos a improvisação é sinónimo de maus resultados. A única forma de realizar um referendum em condições seria através de um processo de esclarecimento semelhante ao que se deu em Canadá em relação ao Quebeque. Seria necessário fazer uma campanha de informação o mais objetiva e independente possível que

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explicasse à população: as diferentes possibilidades de voto (pode haver estados intermédios entre a situação atual e a total independência), a ética implícita em cada uma dessa hipóteses, as consequências práticas de cada uma delas, a percentagem de participação e de votos afirmativos necessários para assumir uma decisão de tanta transcendência. Só depois de um longo processo deste tipo seria minimamente ético um referendum que, hoje em dia, é considerado ilícito, com toda a razão, pela comunidade internacional. Estas questões e muitas outras que não posso tratar neste curto espaço devem ser avaliadas com calma antes de emitir qualquer opinião sobre a questão catalã.[M]


hol alguma vez esperou, que atualmente tem uma solução de elevada complexidade. Josep Joan Santaularia Martinez Estudante noMestrado de Economia da Saude e Farmoeconomia, na Escola de Gestão da Universidade de Barcelona

Afinal, o que se passa na Catalunha? Falámos com um estudante em Barcelona. O meu nome é Josep Joan Santaularia Martinez. Nasci em Barcelona a  de Janeiro de . Estudei Engenharia Biomédica no Politécnico da Universidade da Catalunha e atualmente estou a trabalhar nos mantimentos e serviços no setor sanitário de um hospital. Ao mesmo tempo, estou no segundo ano do Mestrado de Economia da Saude e Farmoeconomia, na Escola de Gestão da Universidade de Barcelona. Quando te perguntas a ti próprio o que é que está a acontecer na minha cidade, no meu país, a resposta não é assim tão simples. Hoje em dia, a realidade consiste em aproximadamente  da população a lutar pela independência da Catalunha e a outra metade deseja continuar a ser parte de Espanha. Contudo, as duas posições agrupam um conjunto de posições e pensamentos que criam uma grande diversidade de opiniões e monitorização do conflito. Nos últimos  anos, esta situação política-social atingiu uma dimensão muito maior do que o Governo Central Espan-

A primeira grande demonstração ocorreu em Julho de , quando mais de  milhão de pessoas sairam para as ruas de Barcelona em sinal de rejeição da decisão do Governo Central Espanhol em cortar o “Estatuto de Autonomia”, um documento onde o governo catalão propôs um novo modelo de financiamento. A partir desse momento, o sentimento de independência começou a crescer, baseado em razões históricas, culturais e linguísticas, mas sendo acelerado e radicalizado pela crise económica global, assim como os vários casos de corrupção que ocorreram por todo o território espanhol que criaram em muitos cidadãos a frustração e desapontamento em relação a Espanha. Uma solução possível e sensível? Uma maioria da população catalã, contra ou a favor da independência, pede para votar num referendo vinculativo com garantias. Uma opção que não faz parte da Constituição espanhol, que data de .

O passado dia  de outubro levou a um nível mais sério. O uso de violência pela Polícia do Estado contra os seus próprios cidadãos, que apenas queriam expressar a sua opinião votando sim ou não à pergunta “É a favor de a Catalunha se tornar um estado independente na forma de uma república?”, acertando em qualquer um que se pusesse entre eles e as urnas de voto, pessoas desfrutando de férias com a família ou amigos que, depois de votarem, ficaram na escola defendendo as urnas, defendendo o direito de voto dos cidadãos. Foi conseguido por mais de , milhões de pessoas e eu fui uma delas. Mais de  cidadãos acabaram em hospitais devido à ação da polícia. Mas não acabou ali. Após todos os eventos descritos, o governo decidiu fechar em prisões muitos políticos e outras personalidade catalãs consideradas promotores de um movimento contra a união de Espanha. Algumas delas,  meses mais tarde, enquanto eu escrevo estas linhas, continuam na prisão. Outros, como o nosso presidente, tiveram de fugir para Bruxelas para não serem presos injustamente. A minha opinião

Uma reforma da constituição espanhola seria, talvez, a chave que permitiria um avanço nesta situação imóvel atual. O problema O voto do parlamento espanhol é necessário para ocorrer a reforma da Constituição, sendo que as forças catalãs não têm o poder para o fazer. E continuando nesta direção, nunca conseguirão apoio suficiente dos diferentes partidos para atingir tal coisa. Últimos eventos As contínuas demonstrações que têm tomado lugar nos últimos meses são em resultado da imobilidade do Estado Espanhol, que considera que este problema irá desaparecer da mesma forma que apareceu.

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A liberdade de expressão e o direito de decidir nunca deve ser silenciado ou negado. Os prisioneiros políticos e a violência nunca deviam existir. E os catalães, nos quais eu me incluo, nunca devem parar de lutar, pacificamente, pelos seus objetivos. Porque eu sou do tamanho do que vejo E não, do tamanho da minha altura… Fernando Pessoa Gostaria muito de agradecer à cidade de Aveiro e aos seus habitantes pelos grande momentos que deixaram e que continuam a deixar em mim. Muito obrigado. [M]

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VII Ilustração

Quero começar por dizer que se desenho, é porque não sei escrever. Dito isto, sinto-me capaz de enumerar alguns factos sobre mim. Nasci a  de Novembro de ’ e entrei para a Universidade de Aveiro para o curso de Design Geral em . Desde que me lembro que eu desenho e recentemente encontrei o ambiente ideal para partilhar as minhas criações com o mundo no Instagram.

O Outro Conde Estudante de Design na Universidade de Aveiro

Inicialmente comecei por fazer histórias desenhadas com os dedos no ecrã do meu telemóvel, agora isso evoluiu para se tornar @OOutroConde. Uma personagem fictícia que vestida de calças bege e t-shirt branca critica e goza com toda a minha vida e com a dos que me rodeiam, abrindo também portas para contar histórias que anteriormente ficavam apenas pela minha cabeça.[M]

O Outro Conde MATRIZ

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VIII Lifestyle


A ambiciosa Inês Silva pretende mostrar como a maquilhagem importa para a vida social das mulheres. Esta blogger e youtuber fornece dicas sobre como manter e até aumentar o nível de beleza, tanto pelo vestuário como pela maquilhagem. O seu vídeo mais popular no Youtube atingiu consideravelmente  Milhão de visualizações. Olá, o meu nome é Inês Silva, tenho  anos e sou natural do Porto. Atualmente, estou no meu último ano de licenciatura do curso de Design, na Universidade de Aveiro. A minha entrada para este “mundo” dos influencers, começou na verdade pelo meu blog. Na altura tinha  anos, ou seja, já tenho este meu cantinho há mais de  anos. Eu não estava muito ligada à blogoesfera (o mundo dos blogs), mas havia dois ou três blogs que eu gostava muito de acompanhar fielmente. Foi então que, numa tarde em que estava mais aborrecida, decidi criar o meu próprio blog, pois gostava imenso de moda, fotografia e de escrever, acabando então por convergir estas atividades lá.

Inês Silva Estudante de Design. Formas de fazer crescer a beleza

Pinkie_love: Do Blog para o Youtube MATRIZ

Entretanto, acabei também por criar o meu primeiro canal de Youtube, para servir como complemento ao blog e partilhar alguns temas que não fossem tão fáceis de retratar através de fotografias, como é o caso de tutoriais de maquilhagem. Há pouco mais de um ano, é que decidi começar com o Youtube do zero, criando aquele que é o meu canal atual e comecei a partilhar vídeos de forma regular, sem ser apenas como um anexo do meu blog. Da moda para a maquilhagem Como já referi, inicialmente, o meu blog surgiu mais focado no tema da moda. Entretanto comecei a ganhar mais interesse pelo mundo da beleza e descobri uma outra paixão minha: a maquilhagem. Os meus primeiros vídeos começaram por ser à base de tutoriais e foi aí que comecei a desenvolver mais esse tema e a explorar as mais as minhas capacidades. Hoje em dia, no blog, partilho tanto conjuntos meus, como reviews de produtos e no canal, partilho mais tutoriais, reviews, hauls e também vlogs, inclusive de férias que eu faça. Uma vez por outra, publico também vídeos de desafios, para ir quebrando a rotina. De momento, apesar de isto já ocupar uma boa parte do meu tempo, considero que seja um hobby. Um hobby com algumas responsabilidades, é certo, porque as pessoas já estão sempre a contar que vá publicar naquele dia, por volta daquela hora e também porque acabo por ter parcerias com várias empresas e tenho de cumprir com os acordos que faço. De qualquer das formas, acho muito difícil

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alguém conseguir viver apenas de redes sociais e ficar descansado com isso. Acaba por não ser um trabalho certo e é preciso estar-se num nível bastante elevado, para se ter a possibilidade de tomar essa decisão. No meu caso em particular, mesmo que tenha a possibilidade de “viver” das redes sociais, penso que, em princípio, vou optar sempre por ter mais alguma atividade extra. Acho que tanto a blogoesfera, como o Youtube, são plataformas incríveis de transmissão de informação e de entretenimento, que acabam por ter muita adesão, porque são totalmente gratuitas para o público. Por exemplo, eu já não me imagino a arriscar comprar um produto de beleza, sem primeiro ver umas quantas reviews online e acho que isso acaba por fazer com que, estas plataformas, façam mesmo parte da nossa vida, quer participemos diretamente nelas, ou mesmo que sejamos apenas visualizadores. Claro que, não se pode confiar em tudo o que se vê, nem tudo é bom conteúdo, mas ao mesmo tempo, como são plataformas que já começam a fazer parte do quotidiano, principalmente dos jovens, vamos aprendendo a filtrar aquilo que realmente vale a pena. Com isto, penso que, cá em Portugal, estas áreas ainda estão em crescimento constante e vão continuar a ter cada vez mais audiência.

Não deixes de visitar!: Blog : http://pinkie-love-forever.blogspot.pt/ Canal de Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCCXJCedac_fXnjsVSiEA [M]


Daniela Gomes Estudante de Economia. Apaixonada por moda e fotografia

Proveniente do distrito de Vila Real e sem nunca ter pensado verdadeiramente na questão, decide, por incentivo de amiga, lançar-se no mundo das plataformas digitais. Daniela Gomes, 23 anos. Estudante de Economia. Apaixonada por moda e fotografia. Olá, sou a Daniela. Tenho 23 anos, sou natural de Chaves e de momento estou a frequentar a licenciatura em Economia na Universidade de Aveiro. Desde cedo já manifestava interesse por esta área, tendo já no ensino secundário optado pelo caminho das ciências socioeconómicas.

No entanto, há outro grande interesse que faz parte da minha vida: a moda, que em nada tem a ver com o percurso que segui. Porém consegui arranjar uma forma de conciliar as duas coisas que gosto com a criação de um blog relacionado com essa vertente, o “In Fashion Wings”.

“In Fashion Wings”: Quando o Gosto pela Economia e pela Moda se Misturam

Sinceramente nunca tinha pensado em criar um blog, mas uma amiga minha teve a ideia e incentivou-me a fazê-lo, pois sempre fui uma pessoa atenta às tendências, desfiles, seguindo outros bloggers e youtubers e o trabalho de muitas pessoas ligadas a esse ramo. Assim, a ideia despertou-me o interesse e decidi criar o blog, no entanto um pouco receosa,

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principalmente do que as pessoas iriam achar, mas correu tudo pela positiva. O blog já conta com quase dois anos de existência e além de me proporcionar satisfação por partilhar conteúdo com os leitores (o meu público é maioritariamente feminino), também me trouxe muitas oportunidades, como as colaborações com algumas marcas, aquisição de algumas competências de organização e gestão de tempo e criação de novas amizades com pessoas do meio. Para além da vertente moda em que podem ver várias sugestões de looks, tendências e inspirações, também tem as temáticas beleza e lifestyle, na qual podem encontrar várias reviews de produtos, sugestões e também alguns “DIY” (Do It Yourself ). Apesar de adorar o blog, para mim é apenas um hobby e não me imagino só a viver dele, pois em Portugal viver apenas de plataformas como blogs e youtube nos dias de hoje, na minha opinião, é um pouco irreal. No entanto, há cada vez mais gente a aderir. Com o meu blog em termos de metas, eu gostaria de alcançar, num futuro próximo, o aumento do número de leitores, criação de mais contactos, fazer alguma colaboração ou projeto com outra blogger e alargar o conteúdo para outras áreas que também são do meu interesse como, por exemplo, a leitura. Blog - http://infashion-wings.blogspot.pt/ [M]

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Joel Araújo Formado em Design. Amante de automóveis clássicos

Tu Precisas de um Clássico tuprecisasdeumclassico.com Um blog sobre o dia-a-dia de um jovem e um clássico. Olá. Sou o Joel e estudei Design na Universidade de Aveiro entre  e . Não me considero de todo um blogger, não sou patrocinado por uma marca de óculos de sol e falta-me o estilo para usar lifestyle nos meus conteúdos. Contudo, não nego a vontade enorme que tenho de escrever sobre as coisas que gosto e que acredito serem úteis ao meu público imaginário. Curiosamente, o meu primeiro blog foi sobre a minha vida universitária, “Em direto do º Direito” (ainda não se falava em acordo ortográfico em ), no início da licenciatura. Quantos de vós querem esconder do mundo como é a vida miserável de estudante? Dos pratos de massa com atum, das diretas a trabalhar, das ressacas e do vosso quarto irremediavelmente desarrumado? Bem, eu não. Nem eu, nem os meus dois colegas de casa. ( Emdirectodoquartodireito.blogspot.com ) Apesar de já ninguém usar o Blogger da Google, ainda está lá (quase) tudo, incluindo toda a matéria embaraçosa que na altura fez todo o sentido escrever. Naturalmente, e nos afastávamos de , o ano forte dos blogs, e porque eventualmente tínhamos mais que fazer, o “ºDireito” acabou por deixar de ser atualizado. Antes de acabar o mestrado em Design (na verdade não o acabei, mas por bom motivo), ainda me juntei a estes mesmos colegas de casa para desenhar a imagem da AAUAv que vês hoje. O bom

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motivo para saltar do mestrado, para além da falta de vontade, foi o convite irrecusável de ser cofundador da startup mais preguiçosa de Portugal, a FHOLD, incubada na IEUA – Incubadora de Empresas de Universidade de Aveiro, parceira da Associação Académica. Parceria que nos levou a entregar em  e  umas bases em cartão para PC portátil bem giras a todos os novos alunos da UA. Isso, e empurrar um carrinho de compras no Shark Tank Portugal. Se mete rodas, às tantas isto ainda vai para o blog. O meu segundo blog teria um tema bem diferente, e que tal como o primeiro o fazia na altura, reflete algo muito atual da minha vida. Para alguns, só se atinge a maioridade ao acabar a Universidade. Para outros, é quando passas a tratar do IRS. Para alguns é casar e ter filhos. Para alguns ser adulto é saber estrelar um ovo sem sujar (muito) a cozinha. Cada um com as suas metas. Para mim, um desses objetivos foi comprar um carro, mas não um qualquer. Tive a sorte de em criança ter um contacto muito próximo com automóveis, como na manhã fria de  em que levei com um Renault  Chamade bordô na cara. Tinha eu  anos de idade. Ironia do destino, durante as  semanas que passei no hospital, todas as minhas visitas trariam carrinhos de brincar para me oferecer, felizmente nenhum R. Apesar de ser um desejo que alimentava há imenso tempo, ter um carro próprio foi um luxo ao qual voluntariamente me privei. Sabia que quando comprasse um, não o quereria apenas como mula de transporte de passageiros de A a B. Seria sempre uma compra numa perspetiva de investimento e nunca de desenrasque. Algo que respondesse a uma série

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de critérios que estabeleci para mim mesmo, e que para além de tudo, fosse um projeto que pudesse usar como base para a minha aprendizagem sobre automobilismo, mecânica, detalhe, e que fosse o meu bilhete de entrada para a comunidade mais fascinante de pessoas que já conheci, a dos clássicos. O grande percursor para a minha mudança de ideias foi o meu novo emprego, que deixou de estar a  min. a pé para estar a uns graciosos  min. de casa. Graças ao fantástico clima e serviço de transportes públicos da cidade de Aveiro, passado umas semanas de longas caminhadas até ao trabalho (sorte que em Aveiro não chove!), comecei a achar que os meus pais teriam razão (têm sempre) e talvez precisasse mesmo de um carro, rapidamente. Sempre fui contra a expressão “clássico é carro de fim-de-semana”. Sempre quis provar que qualquer pessoa, jovem, inexperiente e com pouco dinheiro, pode ter um clássico como carro diário. O blog tuprecisasdeumclassico.com foi a forma que encontrei de perceber ao longo dos próximos tempos, o quão certo ou errado estarei. O meu primeiro carro, e por sua vez estreante do blog foi um Toyota Starlet ep XL de . No blog registei tudo o que já fiz com o carro, e agora que volto atrás, não foi pouco: participei nos meus primeiros encontros de clássicos, criei o blog tuprecisasdeumclassico.com (a razão deste texto para a Matriz), aprendi (alguma coisa) sobre detalhe automóvel e (muito pouco) sobre mecânica. Foi ao volante que participei nas primeiras provas de perícia, e onde limei os pneus no circuito Vasco do Sameiro em Braga, cidade onde vivo atualmente. Foi o Starlet que me transportou a bateria para alguns dos concertos que dei até . Foi também ele que me levou o dinheiro dos pratos para substituir um radiador e junta da


cabeça do motor, antes de fazer os km da Estrada Nacional . Foi com ele que fiz grandes amizades e com que organizei o meu primeiro encontro de clássicos ainda em Aveiro. Foi nele que fiquei preso  horas na A durante os incêndios em . Foi nele que transportei os meus melhores amigos para todo o lado, de Chaves a Faro, e até ao topo da Serra da Estrela. Como já não moro em casa dos pais nunca precisei de usar os bancos de trás, mas acredito que esta ficará para uma próxima. Depois de  anos de muito abusar o pequeno Starlet, estava na hora de dar o próximo passo, e, mais vezes do que gostaria de admitir, sinto que posso ter dado um passo maior do que as pernas. O conceito de upgrade ao carro, regra geral define-se por substituir um carro mais velho por um mais novo. Ao que parece entendi a coisa ao contrário, e o meu upgrade foi de  para , onde fui buscar um Corolla KE que conquistou os meus olhos e que tornará o blog bem mais bonito. O meu objetivo com o tuprecisasdeumclassico.com sempre foi partilhar e inspirar jovens a perderem o medo pelos clássicos e verem neles alternativas viáveis como carros do dia a dia. Não sei se já convenci algum deles, mas decerto já convenci algumas publicações que me contactaram depois de ler os meus desabafos. Desde o E-Konomista, a Kelley Blue Book até ao Petrolicious e à Topos & Clássicos, mais relevante e antiga revista de clássicos nacional, onde fui convidado

a integrar a equipa de redação (e só por isso o blog já valeu a pena). O blog levou-me ainda a tornar-me colaborador do Museu do Caramulo, um dos meus locais favoritos em Portugal. Para além de falar do meu dia-a-dia com um clássico, ainda aproveito para partilhar as viagens, histórias e factos caricatos sobre este universo tão pequeno. Acredito que nunca foi tão boa altura para se ser blogger. A indústria dos media há muito que deixou de ser dominada por meia dúzia de gatekeepers (os tubarões). As grandes publicações cada vez têm menos credibilidade junto dos leitores e espectadores, talvez por serem sistemas mais fáceis de viciar através de patrocínios ou agendas próprias; talvez por existir uma desconexão entre o jornalista profissional e o leitor casual; ou talvez porque estas entidades são tão grandes que não conseguem acompanhar a exigência de conteúdos de todos os nichos. Talvez por isso a ligação one-on-one dos youtubers e bloggers se tem tornado tão popular. Eles não têm nada a perder por serem sinceros. Se quiseres seguir o meu “trabalho”, podes fazê-lo todos os meses ao ler a Topos & Clássicos, sumariamente no tuprecisasdeumclassico.com, ou até nos fóruns do Portal dos Clássicos ou Amigos dos Japoneses Antigos. Vemo-nos lá. Se não te queres dar ao trabalho, mail também serve: joelaraujocom@gmail.com [M]

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Mudaste completamente a tua vida. O que é que te levou a tomar essa decisão? Começou tudo no mês de Julho, de um dia para o outro decidi mudar todo o meu estilo de vida.

Entrevista

Era estudante do curso superior de Línguas e Relações Empresariais da Universidade de Aveiro, tinha  anos e estava no meu último ano. Foi na altura de estudante que o peso da balança começou a subir drasticamente e houve um dia em que decidi mudar, não porque me sentia mal no corpo onde eu vivia, mas por brincadeira. Uma amiga minha ia começar a ser acompanhada por profissionais e eu decidi seguir-lhe os passos. Desde então, nunca mais me separei deste estilo de vida.

Vanessa Alfaro Formada em Línguas e Relações Empresariais. Blogger e criadora do “Shape your Body”

Vanessa Alfaro: Quando o Estilo de Vida se Encontra com a Saúde Alimentar Entrevistamos uma jovem mulher de 27 anos que demonstra aos seus leitores e espectadores que o estilo de vida universitário é fundamental para seguir uma dieta equilibrada. Criadora da “Vanessa Alfaro Lifestyle”, Vanessa incentiva a seguir um estilo de vida saudável, provando que mesmo em redor de amigos, trabalhos e festas/convívios há sempre oportunidade da balança se equilibrar.

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Vimos já vários casos de sucesso como o teu em que as pessoas tinham de por exemplo, quando iam jantar fora com amigos, levar a sua própria comida. Alguma vez tiveste de fazer isso? Sorri ao ler esta pergunta, isso foi algo que me aconteceu muitas vezes. As Quintas académicas eram sagradas, trocava as cervejas por água ou chá e levava a minha marmita sempre comigo. Recordo-me muito bem de uma dessas situações, onde as minhas amigas comiam pizza enquanto eu comia uma omelete carregada de ingredientes do bem. À primeira vista a omelete passava bem por uma pizza. O que é que te motivou? Inicialmente foram os rápidos resultados, mas rapidamente tudo mudou. A minha maior motivação eram os meus seguidores, as pessoas do outro lado do ecrã que esperam noticias minhas diariamente. Quem são os grandes exemplos a seguir? Tenho uma pessoa muito especial que sigo com grande admiração. A Brasileira Gabriela Pugliesi, uma pessoa muito especial e muito positiva com a sua forma

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de viver e ver o mundo. A mudança implica o conhecimento sobre o que deves fazer ou não fazer/ comer ou não comer. Como é que te educaste nesse sentido? Na altura a ajuda profissional que tive foi extremamente importante não só para todo o processo de emagrecimento como também para o processo de aprendizagem e conhecimento. Para além disso eu era uma pessoa muito interessada e curiosa no que dizia respeito à alimentação. Pesquisei muito, li livros e fazia experiências na cozinha. Tudo isso me ajudou e facilitou todo o processo. A comida é uma constante nas tuas redes sociais. Como arranjas a inspiração para criar as tuas receitas? Parece estranho mas, na grande maioria das vezes, inspiro-me em receitas bem calóricas. Dou asas à imaginação e tento transformar uma receita gorda numa receita magra, usando ingredientes saudáveis. Muitas das receitas são inventadas na hora e raramente correm mal. Gosto de variar nos ingredientes, de cozinhar pratos diferentes, de fazer experiências, ver quais os alimentos que resultam melhor e nunca me esqueço que os olhos também comem. Foi sempre assim que pensei, desde o início. Mas vou buscar muita motivação aos ‘meus’, que estão diariamente a aguardar novas receitas.


Como fazes quando tens muita vontade comer algo mais calórico? Geralmente isso muito raramente acontece quando acontece como um doce saudável, como por exemplo panquecas, chocolate  cacau, banana com manteiga de amendoim, já existem muitas opções saudáveis para matar a vontade de comer um doce. No entanto, como alimentos mais caloiros no dia da minha refeição livre, um dia onde troco uma das minhas refeições por uma pizza ou um hambúrguer. (O que me apetece no momento) Atualmente os produtos considerados saudáveis são mais caros do que os produtos normais, o que, para estudantes que queiram seguir o teu exemplo e que têm mesmo de poupar, pode ser complicado. Alguma vez sentiste dificuldade em seguir o plano devido a isso? Que conselhos dás a esses estudantes que querem poupar, mas ao mesmo tempo ser saudáveis? O que achas que esta situação diz acerca da sociedade portuguesa? Não sou nada da opinião de que os produtos saudáveis são caros, se formos a ver acabamos por gastar o mesmo ou mais quando compramos alimentos menos saudáveis. Falo por mim, na altura eu era estudante, o meu plano alimentar alterava-se de  em  dias, então eu fazia uma lista de compras do necessário e gastava uma media de € por semana. Para além disso já existem imensos produtos de 85

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diferentes marcas nos diversos supermercados. Uma coisa que fazia na altura e ainda faço é pesquisar todas as promoções a decorrer em determinada semana de cada hipermercado. Esta é uma boa forma de comparar preços, produtos e poupar dinheiro. Portugal sempre foi um país com elevados índices de obesidade. Contudo, nos últimos anos, assistimos a uma mudança de “moda”, com as pessoas a preocuparem-se cada vez mais com a sua imagem e saúde. Consideras que a obesidade em Portugal está a tornar-se um problema do passado? Fico muito feliz por ser saudável ter virado moda, isso significa que Portugal está com cada vez mais saúde. Mesmo assim convém continuar alertar a população que a nossa alimentação é a coisa mais importante para um vida cheia de saúde. Não foi só a mudança na alimentação. O exercício também se tornou uma parte fundamental. Como começaste a treinar? Qual era a tua rotina? Treinavas todos os dias? Foi difícil habituares-te a essa rotina? Quando comecei a mudança estudava e tinha um emprego onde trabalhava das h às h. Todos os dias, excepto ao fim de semana, fazia um esforço e deslocava-me até o ginásio ou para a realização de um treino ao ar livre. Cheguei acordar muitas vezes as h para treinar, cansada mas ia. Para além disso, hoje em dia gosto muito de treino outdoor, o que é uma ótima alternativa para quem não tem possibilidades financeiras. O importante é ter vontade de mexer, há tempo para tudo se nos organizarmos. És já uma referência nesta área. Sentes pressão/ responsabilidade, na medida em quepodes influenciar quem está no mesmo processo que tu? Acredito sim que possa ser uma influência/exemplo para muitos seguidores, as pessoas vêm em mim um exemplo em mim e eu sou muito grata por tudo isso, mas elas também têm de estar cientes que

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cada pessoa é uma pessoa, todos nós somos diferentes e temos necessidades e objetivos diferentes. Eu apenas tento facilitar e mostrar às pessoas que comer bem nunca foi uma seca. Estudaste Línguas e Relações Empresariais na Universidade de Aveiro. Consideras que o teu percurso académico te influenciou de alguma forma esta tua mudança? Foi por causa do meu percurso académico que decidi mudar, a vida de estudante influencia os quilos da balança. Engordei  quilos em apenas um ano. E a culpa foi de quem? De muitas noites mal dormidas, muitas saída nocturnas, muitos jantares e muita cerveja à mistura. Graças a Deus fui a tempo de mudar toda a minha vida e principalmente a minha saúde. A Vanessa de agora, é igual à Vanessa estudante de LRE? Sim, sou a mesma Vanessa no entanto hoje valorizo mais os pequenos momentos da vida, cuido de mim, preocupo-me com a minha saúde o que significa que cresci muito como pessoa. Carne ou peixe? Peixe. Praia ou campo? Praia. Ganhaste vários seguidores e começaste a ser mais conhecido dentro deste mundo da saúde e bem-estar. Como foi lidar com toda essa atenção? É inexplicável, porque nunca imaginei estar onde estou hoje. Receber tanto carinho, tanto da parte dos seguidores, como das marcas, é algo que me deixa extremamente feliz e motivada. Acaba por ser um sinal de que estou no caminho certo. Sempre lidei muito bem com todo o crescimento porque tudo aconteceu de uma forma natural, ser blogger nunca fez parte dos meus planos, é algo que exige muita organização, tempo e paixão. É bom quando fazemos alguma coisa com paixão, tudo se torna mais fácil.

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Cinema ou teatro? Teatro. Portugal ou estrangeiro? Portugal. Frio ou calor? Calor. Quem são as tuas referências na música e na literatura? Música: Beyonce, Khalid. Literatura: Robin Sharma Se tivesses de escolher entre exercício e alimentação saudável, de qual não abdicavas? Uma pergunta difícil porque uma coisa complementa a outra e estão ligadas ao meu bem estar. Na verdade não vivo sem a boa alimentação nem sem o exercício físico. Que conselhos dás a quem quer mudar de estilo de vida? É necessário ter vontade própria e interiorizar o que realmente é possível. Ter uma alimentação cuidada e regrada, hidratar bem e a pratica de exercício físico extremamente importante. Procurar ajuda profissional é algo fundamental, só eles sabem quais as nossas necessidades até porque todos nós somos diferentes. Esquecer as dietas malucas e medicamentos que andam pelo mundo da internet, eles até podem resultar, mas não será a opção mais saudável, nem será uma opção de longa duração. A mudança alimentar é o suficiente. Eu não sou mais que ninguém e consegui! Mas nada caí do céu, é preciso lutar pelos objetivos e não baixar os braços é o segredo.

Para seguir a Vanessa e o seu estilo de vida saudável, visita o seguinte blog: https://www.vanessaalfaro.pt/ [M]


Entrevista

Tiago Pires Surfista do Circuito Mundial

Tiago Pires Tiago Pires levou o surf português ao mais alto nível, tendo entrado na elite dos melhores do mundo! “Saca”, também assim conhecido, dá entrevista exclusiva à Revista Matriz, falando-nos um pouco sobre a sua experiência e vivências profissionais e do surf, enquanto desporto e negócio em expansão na economia portuguesa.

Quando se fala de surf em Portugal, fala-se em Tiago Pires. Quem é o Tiago, “Saca”, para além do surfista? O que há por de trás da prancha? Por de trás da minha prancha existe um ser humano que gosta muito de se relacionar com pessoas, especialmente com a minha família e amigos. Gosto muito de arquitetura e design, gastronomia e conhecer cidades e metrópoles pelo mundo fora. Como surgiu a paixão pelo surf? Surgiu como uma brincadeira das férias de Verão, que, devido à intensidade de como me absorveu, rapidamente passou a hobby e pouco mais tarde a atividade competitiva a qual não podia viver sem. Como se vive dentro de um circuito mundial? Vive-se numa bolha em que somos quase uma espécie de família nómada que viaja em bando pelo mundo inteiro e sempre juntos. Para além disso, acabamos também por nos fecharmos muito do mundo social que nos rodeia, pois adquirimos rotinas de treino e de descanso que se incompatibilizam com a maior parte das pessoas à nossa volta. Qual o sentimento de surfar em mares 87

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estrangeiros? Tem um sabor diferente em relação aos mares nacionais? Sim ao princípio enquanto tudo é novidade tem um sabor muito especial, cada sítio tem o seu cheiro e cores próprias e dum certo modo ensinam-nos a alargar os nossos horizontes. Passado alguns anos passa a ser como ir para o um escritório!! Portugal tem uma costa marítima extensa. Estará a ser bem aproveitada no que respeita à exploração eficiente e sustentável dos recursos? Penso que pelo menos a mentalidade já se virou para aí. Portugal já percebeu que é riquíssimo em termos de recursos naturais e que consegue tirar um bom proveito se os tratar bem, por isso acredito que daqui em diante a gestão desses ditos recursos como é o caso da nossa costa seja cada vez mais cuidada. O surf é uma prova disso mesmo, um desporto que tem evoluído muito na última década e que já começa a contribuir para o PIB do nosso país! Que mudanças considera que devem ser feitas no sentido de melhorar o surf no nosso país? Talvez possamos olhar mais de perto para as nossas praias e tentar cuidá-las com mais rigor. A praia hoje em dia já não é só usada durante os dois meses do Verão mas MATRIZ


infelizmente em muitas zonas do nosso país o tratamento que continuam a receber parece o mesmo. Penso que Portugal precisa de se afirmar como um País que vive para a natureza e precisa de o demonstrar na maneira como trata os seus recursos e nesse sentido ainda temos muito que aprender com países como a Austrália, os EUA e até mesmo França. O Tiago tem um negócio local, uma escola de surf na Ericeira. Qual o perfil dos seus alunos? Temos uma carteira de alunos bem variada, mas sem dúvida que desde que abri a escola a minha vontade foi sempre de trabalhar com as camadas mais jovens. Hoje em dia temos miúdos que já estão connosco há mais de  anos e continuam a vir todos os meses do ano. Temos também o cliente turista que muitas vezes vem com a família e acabam por se juntarem todos, o que nos deixa muito orgulhosos do nosso tipo de trabalho. Quais as competências e motivações que considera essenciais na prática deste desporto? Ter uma mente aberta e uma capacidade de adaptação bem grande. O surf é um desporto que se pratica no mar e não há uma onda igual à outra. Ao início pode parecer um desporto muito complicado mas não o é. É preciso alguma perseverança para e alguma paciência pois as coisas nem sempre correm como estamos à

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espera, mas conforme vamos adquirindo experiência também as coisas se vão tornando mais fáceis. Tem algum surfista de referência? Porque o inspira? Sim, o Mick Fanning. É três vezes campeão do Mundo e continua a ser uma pessoa humilde e muito terra-a-terra. Para além de ser um surfista incrível é ainda melhor ser humano. Se tivesse que escolher apenas um momento da sua carreira profissional, qual escolheria e porquê? O meu primeiro na elite do surf mundial, em . Foi um ano em que comecei a tocar num sonho de criança e foi muito especial. Teria feito uma ou duas coisas de maneira diferente mas de resto queria viver tudo da mesma maneira e com a mesma intensidade. Sente-se uma pessoa bem-sucedida e feliz? Sem dúvida. Sinto-me uma pessoa que cumpriu o seu dever profissionalmente falando. Abrir as portas a um desporto onde não tínhamos sequer tradição foi uma coisa que me encheu de orgulho. Hoje em dia já se pensa em fazer carreira do surf, algo que antes era impensável. Para o Tiago, o que é sucesso? O sucesso para mim é lograr-mos um objectivo que estipulamos para nós próprios. [M]


Revista Matriz | 2ª Edição  
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