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Rosa dos Tempos Rosa dos Ventos


CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO

Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos

Leonardo José Magalhães Gomes

TEXTOS:

Pablo Luiz de Oliveira Lima e Thaís Tanure de O. Costa Ronaldo Alves de Oliveira e Beth Zianni REVISÃO:

Nathalia Campos

VERSÃO PARA O INGLÊS: Thaís

DESIGN GRÁFICO:

Flávio Vignoli

ASSISTENTE DE DESIGN:

FOTOGRAFIAS:

Queiros Mattoso Valle

Israel Crispim Jr.

Pedro David

Ronaldo Alves - pags. 84 a 89, 108 a 111 PRODUÇÃO EXECUTIVA:

Andréa de Magalhães Matos


Leonardo José Magalhães Gomes Flávio Vignoli

CURADORIA MUSEOGRAFIA E DESIGN


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Apresentação do Governo do Estado de Minas Gerais

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Apresentação da PETROBRAS

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Apresentação da Curadoria

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Museu Casa Guimarães Rosa

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Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa

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Cronologia da vida e obra de João Guimarães Rosa

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Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos: pequeno informe

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Cartografia Rosiana: os Marcos Territoriais do Museu Casa Guimarães Rosa

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Minudências: pesquisa de campo e histórica para a nova exposição de longa duração do Museu Casa Guimarães Rosa

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Museu Casa Guimarães Rosa e o Projeto Memória Viva do Sertão Presentation of the State of Minas Gerais Government

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Presentation of the PETROBRAS

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Presentation of the Museum Curator

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Museu Casa Guimarães Rosa / Guimarães Rosa House Museum

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Association of Friends of Museu Casa Guimarães Rosa

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Timeline of João Guimarães Rosa’s life and work

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Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos / Rosa of the Times, Rosa of the Winds: a brief account

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Rosa’s Cartography: landmarks of Museu Casa Guimarães Rosa

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Particularities: field and historical research for the long term new exhibition of Museu Casa Guimarães Rosa

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Museu Casa Guimarães Rosa and the Project Living Memory of the Sertão /Backlands

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Corredor interno: trabalhos em bordados do Grupo Estrelas do Sert達o


“O sertão é do tamanho do mundo.” Bem-vindo ao mundo mágico do escritor João Guimaraes Rosa! A ressignificação do Museu Casa de Guimarães Rosa era uma das prioridades da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais. Graças à parceria com a Petrobras e com o Ministério da Cultura, a vida e a obra de um dos maiores escritores da língua portuguesa está mais presente nesta casa, onde ele nasceu. Esse projeto propiciou a constituição de um acervo com toda a obra de João Guimarães Rosa, em suas principais edições, inclusive edições raras, disponibilizando-o a pesquisadores. O museu vira sertão e o sertão vira museu. Com a reavaliação e inclusão de novos pontos de vista, o espaço físico do Museu amplia-se. O Museu Casa Guimarães Rosa convida você a visitar os quarenta marcos instalados em Cordisburgo. Vá a pé ou de bicicleta, descubra a cidade que era do coração do escritor e que entrará no seu. Não deixe de conhecer o projeto sociocultural desenvolvido pela Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa. Participe de uma sessão na Academia Cordisburguense de Letras João Guimarães Rosa. Outros cinquenta e cinco marcos, citados em sua obra, foram instalados em um território que abrange dezesseis cidades do interior mineiro. Sugerimos acompanhar o projeto Caminhadas Eco-Literárias, do Brasinha – personagem vivo da obra rosiana. “As pessoas não morrem, ficam encantadas.” Desvende os segredos de Riobaldo e Diadorim, cavalgue com Manuelzão, embrenhe pelo sertão de Minas Gerais, descubra essa forma tão peculiar de ser mineiro. Da janela do quarto que era dele, imagine a ansiedade que o menino Joãozito tinha de percorrer e escrever sobre a vista que dela tinha. Ao visitar a venda do Seu Florduardo permita que a mente viaje e que ela possa reproduzir a entrada dos tropeiros e comerciantes que ali vinham negociar ou mesmo “prosear”. Por fim, deixese emocionar pelos Miguilins, jovens que nos ensinam a gostar cada vez mais desse Museu. “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” A tropa está estacionada à frente da casa. Não perca esta oportunidade de refazer a viagem, seja para descobrir ou para redescobrir a obra do grande escritor brasileiro, mineiro, cordisburguense, João Guimarães Rosa. Eliane Parreiras

Secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais

Léo Bahia

Superintendente de Museus e Artes Visuais

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Sala Acolhimento/Sala de Visitas: cortinas com imagens do sert達o mineiro


A exposição Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos é o resultado de um trabalho minucioso, de percurso pela obra e pelos sertões de Guimarães Rosa. Pensar uma nova exposição para o Museu Casa

Guimarães Rosa não poderia prescindir de ouvir, ver e sentir as pessoas, as paisagens, as coisas. E assim foi feito. O sertão de ontem e o de hoje foram percorridos e revividos desde Cordisburgo e em cerca de 1.500 quilômetros afora, que certamente se estendem até perder de vista. Afinal, o sertão está em toda parte… Mesmo que velhos caminhos de tropeiros tenham se transformado em estradas asfaltadas. Ou

que velhas estações do trem de ferro guardem, em suas ruínas, pedaços da memória dos tempos. O verde dos eucaliptos pode até cobrir o que um dia foi terra seca. E até podemos nos perguntar: o que terá restado dos sertões de Guimarães Rosa?

Muita coisa. Muita memória. Muita história. Muita vida. O patrimônio cultural do mundo de Guimarães Rosa – o sertão, os sertões das Gerais – sobrevive não apenas na paisagem, mas também nas vozes de homens e mulheres, de todas as idades, que se

lembram, e ao lembrar preservam e contribuem para que a memória permaneça viva pelos tempos. Assim, como o legado de Guimarães Rosa, há, dentre os vários sertões, aquele que permanece dentro

da gente – que se debruça na riqueza da obra do escritor – e de todos que exercitam diariamente um modo de ver e sentir o seu lugar.

A Petrobras, através do patrocínio à exposição Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos, reafirma o seu

compromisso com o Brasil, seu patrimônio e sua arte. Com a certeza de que o Museu Casa Guimarães Rosa consolida o seu papel essencial na permanente construção da memória cultural brasileira.

PETROBRAS

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Sala Corpo de Baile/Sala de Jantar: datiloscritos com correções de Guimarães Rosa do livro Corpo de Baile, máquina de escrever e objetos de escritório pertencentes ao autor


E, quanto mais leio e vivo e medito, mais perplexo a vida, a leitura e a meditação me põem. Tudo é mistério. A vida

é só mistério. Tudo é e não é. Ou: às vezes é, às vêzes não é. (Todos os meus livros só dizem isso).

João Guimarães Rosa, em carta a Joaquim Montezuma de Carvalho

Festejado como personagem maior de nossa literatura, Guimarães Rosa faz parte do seleto grupo de escritores cuja capacidade de invenção transcende, expande e enriquece os limites e recursos usuais de seu idioma. Destarte, sua obra, mais do que qualquer outra produzida no Brasil do século XX, é considerada o divisor de águas da evolução de nossa língua. Em Navegação de Cabotagem, Jorge Amado, para citarmos apenas um de seus colegas ilustres, diz ser a língua brasileira “outra língua depois de Guimarães Rosa”. Mas a arte de Rosa foi além dessa notável invenção linguística. Por estar construída sobre vários dos elementos essenciais de nossa nacionalidade e pela sutil e vívida caracterização de seus personagens, ela se tornou, também, um marco da identidade brasileira. Fruto da inesgotável capacidade de invenção e criação de um artista singular, o universo rosiano é o universo de cada um de nós. Afinal, “o sertão é dentro da gente”. A profunda identificação do leitor com esse mundo acontece de maneira plausível porque João Guimarães Rosa não se coloca acima de seus personagens. Ele não trabalha como um autor comum que simula as sensações e os sentimentos de suas criaturas. Ele se posiciona no mesmo plano delas. Mais do que um escritor, Rosa é, igualmente, um de seus personagens, pois mistura os planos de criação e, assim, envolve espontaneamente o leitor. É por isso que Riobaldo, no Grande Sertão: Veredas, o onceiro de Meu Tio o Iauaretê e, ainda, o narrador de A Terceira Margem do Rio parecem falar para um interlocutor que seria outro personagem do poema. Na verdade, estão em pé de igualdade com o escritor e o seu leitor. Os três – escritor, leitor e personagem – habitam a mesma casa. Ao abrir para seus visitantes a exposição de longa duração Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos, o Museu Casa Guimarães Rosa oferece a seu púbico a oportunidade de visitar o grande universo contido na obra de João Guimarães Rosa. Assim, em cada cômodo da sede do museu, o visitante encontrará em exibição importante acervo relativo a momentos significativos da biografia e da cidade natal do escritor cordisburguense, além de seleções de textos, apreciações críticas e imagens ilustrativas da história editorial de cada um de seus livros. Leonardo José Magalhães Gomes Curador da exposição Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos

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Roteiro da exposição Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos


Museu Casa Guimar達es Rosa


Sala Acolhimento/Sala de Visita: Cartografia Rosiana, aquarela de JĂşlia Bianchi


Museu Casa Guimarães Rosa “A edificação do Museu Casa Guimarães Rosa caracteriza-se pela simplicidade de suas linhas arquitetônicas tão comuns em Minas Gerais em meados do século XIX. No entanto, destaca-se pela sua importância enquanto residência onde morou na infância o ilustre escritor João Guimarães Rosa, que divulgou universalmente a identidade da sua cidade e dos sertões de Minas. Para Cordisburgo, o Museu representa o marco da travessia de João Guimarães Rosa por este mundo e a importância para seus conterrâneos. Por tudo isso, indicamos o tombamento de Museu Casa Guimarães Rosa em nível municipal.” (Trecho final do parecer para o tombamento do Museu, elaborado pelo arquiteto José Ozório Caetano)

O Museu Casa Guimarães Rosa está instalado na casa onde o escritor João Guimarães Rosa nasceu e viveu seus primeiros nove anos de vida (1908 – 1917). O imóvel, localizado na esquina da Rua Padre João com a Travessa Guimarães Rosa, em Cordisburgo, Minas Gerais, foi construído no final do século XIX e está estrategicamente situado em frente à estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, inaugurada em 5 de agosto de 1904, para embarcar e exportar para outras regiões do Brasil o gado criado nas fazendas da região circunvizinha. Um dos principais itens do acervo do Museu é o seu prédio, composto pela residência da família de João Guimarães Rosa e pela venda mantida por seu pai, “seu” Florduardo, mais conhecido como “seu Fulô”, construção muito comum do interior de Minas Gerais. A venda, típica casa comercial do final do século XIX, tinha como público principal os vaqueiros que traziam as boiadas para o embarque nos trens da Central. Nessa venda, o menino Joãozito conviveu com os vaqueiros e demais fregueses que a frequentavam e pode ouvir as muitas e pitorescas histórias e causos diversos que certamente estimularam a viva imaginação do futuro escritor.

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A venda do “seu Fulô” funcionou até o ano de 1923, conforme informação do comerciante Elpídio Meireles de Avellar, que sucedeu “seu” Florduardo. Nas décadas seguintes, o estabelecimento teve vários proprietários e foi, entre outros, casa de jogos e bar. Em 1971, o Governo do Estado de Minas Gerais comprou o imóvel de Ildefonso Rodrigues Costa, transferiu-o para o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA/MG, definindo sua destinação como museu casa. Logo depois, a instituição iniciou a sua restauração, recuperando aspectos arquitetônicos originais da edificação, e em seguida promoveu seu tombamento. Em 1982, a edificação passou por nova restauração e adaptações arquitetônicas. Nessa ocasião, foi montada nova exposição e a venda foi reconstituída cenograficamente, mantida, dessa forma, como parte da exposição Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos, em curso no Museu.


Inaugurado em 30 de maio de 1974, o Museu Casa Guimarães Rosa é vinculado à Superintendência de Museus e Artes Visuais da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais e oferece a seus visitantes um acervo composto por cerca de setecentos documentos relativos à vida e à obra rosiana, como originais datiloscritos do livro Tutaméia; objetos de uso pessoal do escritor, como sua máquina de escrever e o espadim de seu fardão, usado em sua posse na Academia Brasileira de Letras, além de móveis, fotografias, obras de arte e todas as edições importantes de seus livros. Visitar o Museu Casa Guimarães Rosa é experiência marcante tanto para o conhecedor da obra do grande escritor cordisburguense como para quem é iniciante em seu mágico universo sertanejo. Para aqueles já acostumados à leitura dos livros do escritor, a visita oferece a oportunidade de conhecer, no acervo do museu, elementos evocativos do ambiente em que Rosa nasceu e se formou, bem como de sua biografia posterior e de sua obra. Esse acervo, sem dúvida, é um ótimo complemento para enriquecer ainda mais a leitura de Guimarães Rosa. Para o neófito, a visita pode ser o passaporte ou o impulso que faltava para o mergulho na leitura desse autor, cuja leitura é fator fundamental para a definição de nossa nacionalidade.

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Fachada e vista lateral do Museu Casa Guimarães Rosa


Corredor interno: trabalhos em bordados do Grupo Estrelas do Sert達o


Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa A Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa, fundada em 1994, é uma entidade filantrópica reconhecida como de utilidade pública municipal e estadual e constitui um centro de convergência e referência cultural para os moradores de Cordisburgo. O objetivo principal da Associação é apoiar e proporcionar a participação da comunidade nas atividades do Museu Casa Guimarães Rosa, que é uma das unidades da Superintendência de Museus e Artes Visuais, órgão da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais. O Museu e sua Associação de Amigos desenvolvem uma série de atividades paralelas ao atendimento aos visitantes e às consultas e divulgação de seu acervo. Essas ações já estão incorporadas ao calendário cultural e turístico de Cordisburgo e contam com participação da comunidade local e de visitantes procedentes de todas as partes do país. Desde 1988, anualmente, no mês de julho, em comemoração ao aniversário de João Guimarães Rosa, é realizada na cidade a Semana Roseana. O evento conta com apoio da Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa e é promovido pela Academia Cordisburguense de Letras em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura, a Superintendência de Museus e Artes Visuais, o Museu, a Prefeitura e a Câmara Municipal. A cada ano é escolhido um tema central, retirado da obra do escritor, e oferecida ao público uma programação cultural variada e gratuita, composta por espetáculos de música, dança e teatro, oficinas artísticas, mostras de cinema e mesas-redondas. Essas atividades tomam conta da cidade e atraem público diversificado. A intensa participação popular é a tônica desse evento único de valorização da obra de um dos maiores escritores da literatura brasileira. A entidade é parceira do Grupo Caminhos do Sertão na promoção de caminhadas eco-literárias por trajetos do sertão referidos ou descritos por Guimarães Rosa em seus livros. Durante as caminhadas, que são realizadas principalmente em pontos estratégicos do entorno de Cordisburgo, membros do Grupo narram e encenam trechos alusivos aos locais do percurso. Essa atividade permite aos participantes conhecer a paisagem do sertão, o cenário admirado e tão bem descrito pelo autor. Para atendimento à comunidade de Cordisburgo, a Associação mantém, em sua sede, localizada a poucos metros do Museu, a Biblioteca Pública Riobaldo e Diadorim, que disponibiliza um bom acervo de livros voltados para o público infanto-juvenil e para o público adulto, obras de ficção e de referência, de literatura nacional e estrangeira. A biblioteca contribui para o fomento da leitura no

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município, pois além de conceder empréstimos de livros para leitores de todas as idades, promove atividades como a “Hora do Conto”, o “Chá Poético”, os “Momentos de Estudo”, entre outras. A Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa é, ainda, mantenedora do Grupo de Contadores de Estórias Miguilim, constituído por jovens moradores de Cordisburgo. O grupo é responsável pelo atendimento do público no Museu e, por meio da narração de trechos dos livros de Guimarães Rosa, dá vida à obra do autor. A atuação do grupo torna mais atraentes as visitas ao Museu, incentiva a leitura e divulga a obra do ilustre escritor. O Grupo de Contadores de Estórias Miguilim foi criado em 1995 pela Dra. Calina Guimarães, prima de Guimarães Rosa, a qual foi responsável pela preparação das primeiras turmas a se apresentarem no Museu. Desde então, os jovens selecionados recebem preparação específica para atuarem na difusão da literatura rosiana. Essa formação tornou-se a principal ação educativa do Museu, sendo conduzida por uma estreita parceria entre a instituição, a Associação de Amigos e a comunidade local. Desde 2000, as contadoras de estórias Dôra Guimarães e Elisa Almeida, integrantes do Grupo Tudo Era Uma Vez, são as responsáveis pela direção e formação dos novos membros do Grupo de Contadores de Estórias Miguilim. Também participam desse processo a pedagoga Lúcia Corrêa Goulart de Castro, na pré-seleção de candidatos, e Fábio Júnio Barbosa, ex-integrante e atual coordenador do Grupo dentro do Museu, responsável pela avaliação da aptidão do novo Miguilim para narrar trechos da obra de Guimarães Rosa e receber o público visitante. A atuação dos contadores de estórias do Museu Casa Guimarães Rosa e da sua Associação de Amigos tem sido fonte de inspiração para outros projetos que, a exemplo dos Miguilins, procuram integrar arte, literatura, desenvolvimento pessoal e comunitário através da narração de estórias. O modelo criado em Cordisburgo foi implementado ou adaptado por entidades de outros municípios mineiros, como Araçaí, Morro da Garça, Três Marias e Itabira.

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A atuação do Grupo de Contadores de Estórias Miguilim concorre decisivamente para a ampliação do público do Museu Casa Guimarães Rosa e dos leitores da obra do escritor. Enquanto muitos museus veem nas mídias contemporâneas a forma de atrair os jovens, o Museu Casa Guimarães Rosa e sua Associação de Amigos buscam na tradição oral a estratégia de aproximação com esse público. Por meio dos contadores de estórias, os jovens participam ativamente das atividades propostas pelas entidades, identificam-se com sua missão institucional e compartilham a responsabilidade pela valorização e preservação do patrimônio cultural da cidade.


Sala Cordisburgo/Quarto de Guimarães Rosa: trabalhos em bordados do Grupo Estrelas do Sertão, painéis e fotos alusivos à Cordisburgo


Além de receberem o público do Museu em visitas orientadas, os Miguilins participam de eventos culturais locais, regionais e de outros estados, tendo seu trabalho sido reconhecido em nível nacional. Pelos relatos espontâneos dos visitantes, podemos dizer que suas apresentações emocionam e comovem os presentes. Finalmente, a Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa é mantenedora do Grupo da Melhor Idade Estrelas do Sertão, criado em 2003 e constituído por cerca de 30 senhoras da comunidade, com idade entre 30 e 80 anos. A atual presidente da Associação, Solange Agripa Trombini, é a coordenadora do grupo, que além das bordadeiras, conta ainda com crocheteiras, costureiras e com o jovem artista Leonardo Goulart, criador dos desenhos dos bordados. As Estrelas do Sertão se encontram regularmente para bordar imagens e trechos dos livros de Guimarães Rosa. Elas se inspiram tanto na obra de seu conterrâneo ilustre quanto em suas memórias, pois também retratam cenas relacionadas com suas próprias lembranças. As peças confeccionadas são colchas, painéis e mandalas, panos de prato, toalhas de mão, almofadas, paramentos de copa e cozinha, entre outras, comercializadas na sede da Associação. Como destaque principal, temos as técnicas utilizadas do bordado tradicional em ponto cheio e suas diversas variações. Esses trabalhos são feitos sempre manualmente, com o uso, também, de

Sala Cordisburgo/Quarto de Guimarães Rosa: painéis e fotos alusivos à Cordisburgo, cortina com foto dos arredores da cidade


diversos outros pontos, muitos deles desenvolvidos e aperfeiçoados pelas senhoras do grupo. Para o acabamento, são empregados fitas, cadarços, sutaches e crochê. Os painéis, almofadas e colchas são feitos com pontos mais elaborados que retratam as texturas de flores, árvores (principalmente buritis e ipês coloridos), pássaros e bichos típicos do sertão mineiro. A estação de trem e a pequena e singela Capela do Patriarca de Cordisburgo também são recorrentes nos trabalhos das bordadeiras. Essas peças apresentam tamanhos variados e são bordadas em tecidos diversos, como americano cru, popeline e tricoline, e ainda em panos mais simples, como sacos de aniagem. Regularmente, as participantes do grupo interagem com bordadeiras de outras partes do estado e do país, por meio de oficinas ministradas principalmente durante a Semana Roseana. Elas também participam de eventos semelhantes em cidades do interior mineiro e paulista, ministrando cursos de bordados para o público interessado. Portanto, a Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa desenvolve uma série de atividades por meio dos grupos artísticos que mantém, todos com destacada atuação na cidade e região. Em 2010, a instituição teve suas atividades socioculturais e educativas reconhecidas como relevantes pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria Estadual de Cultura de Minas Gerais, passando a funcionar como Ponto de Cultura.


Sala Biografia e Cronologia/Quarto dos pais: criado mudo e porta retrato pertencentes a Guimar達es Rosa


João Guimarães Rosa

CRONOLOGIA DE VIDA E OBRA 1908 Em 27 de junho, nasce em Cordisburgo, Minas Gerais, filho de Florduardo Pinto Rosa ("seu Fulô") e de Francisca Guimarães Rosa (D. Chiquitinha). 1918 a 1924 Muda-se para Belo Horizonte e estuda no Colégio Arnaldo. Passa um breve período como interno do Colégio Santo Antônio em São João del-Rei. 1925 Ainda em Belo Horizonte, matricula-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. 1929 Em 27 de junho, data de seu 21º aniversário, casa-se com Lygia Cabral Pena. 1929 Em dezembro, publica seu primeiro trabalho de ficção, o conto O mistério de Highmore Hall, na revista O Cruzeiro. 1930 Publica Makiné em O Jornal e Chronos kai anagke (Tempo e destino) e Caçadores de camurças em O Cruzeiro. Esses contos são rejeitados por Guimarães Rosa e somente reeditados postumamente em 2011. 1930 Em 21 de dezembro, forma-se em Medicina, tendo sido escolhido orador da turma pelos colegas. 1931 Muda-se para Itaguara, onde trabalha como médico. 1931 Em 5 de julho, nasce sua primeira filha, Vilma. 1932 Atua como médico voluntário na Revolução Constitucionalista, defendendo o governo Vargas. 1933 Muda-se com a família para Barbacena, onde atua como médico da Força Pública de Minas Gerais. 1934 Em 17 de janeiro, nasce sua filha Agnes. 1934 Em 11 de julho, ingressa na carreira diplomática, ao ser nomeado cônsul de 3ª classe, após ter sido aprovado no concurso do Itamaraty. 1934 Muda-se para o Rio de Janeiro com a família. 1936 Ganha o 1º lugar do concurso promovido pela Academia Brasileira de Letras com Magma, publicado postumamente em 1997. 1937 Classifica-se em 2º lugar no Prêmio Humberto de Campos, da Editora José Olympio, com o livro Contos. 1938 É enviado para a Alemanha, país em que viverá, sem a família, até 1942, na qualidade de cônsul-adjunto do Brasil, em Hamburgo. Conhece Aracy Moebius de Carvalho (Ara), funcionária do consulado, que se tornará sua segunda esposa. 1942 De janeiro a maio fica internado em Baden-Baden devido à declaração de guerra entre o Brasil e a Alemanha. 1942 Volta ao país e é promovido a 2º secretário de embaixada e lotado em Bogotá, onde permaneceu de setembro de 1942 até junho de 1944. Nessa cidade, sofre muito com o soroche, ou mal das alturas, relatando-o no conto Páramo, publicado em Estas Estórias. 1943 Em 5 de abril, é oficializada sua separação de Lygia. 1944 Em 27 de junho de 1944, volta ao Rio de Janeiro, onde ficará até agosto de 1948. 1945 Reelabora seu livro de contos, muda o título para Sagarana, neologismo criado por ele, e o entrega à Editora Universal para publicação. Em dezembro, o escritor visita o interior de Minas Gerais, incluindo Cordisburgo.

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1946 Em fevereiro, é nomeado chefe de gabinete do ministro das Relações Exteriores, João Neves da Fontoura, cargo que ocupará até 1948. 1946 Em abril, é publicado pela Editora Universal Sagarana, seu primeiro livro. A recepção pelo público e crítica é altamente favorável. No mesmo, ano sai sua 2ª edição. 1946 Em julho, participa da Conferência de Paz em Paris como secretário da Delegação Brasileira. 1947 Em julho, viaja pelo Pantanal Mato-Grossense e visita a região de Nhecolandia. Na fazenda do Firme, onde permaneceu uma semana, conheceu o vaqueiro Mariano, personagem imortalizado no conto-reportagem Com o vaqueiro Mariano, publicado pelo Correio da Manhã em 26 de outubro do mesmo ano. O texto, também republicado, em 1952, pelas Edições Hipocampo de Niterói em tiragem limitada, foi incluído no livro póstumo Estas Estórias, com o título Entremeio: com o vaqueiro Mariano. 1948 Em 20 de agosto, no México, casa-se com Aracy, por procuração. Em seguida, o casal vai para Paris, trabalhar na Embaixada Brasileira, lá permanecendo até 1951. 1949 Vive e trabalha em Paris. Viaja pela Europa em companhia de sua esposa Aracy e de sua filha Vilma. Conhece e passa a ter uma especial predileção pela Itália. Faz leitura detalhada da Divina Comédia, de Dante. 1950 É promovido ao posto de conselheiro de embaixada. Após viagem à Grécia lê, cuidadosamente, a Ilíada e a Odisseia, de Homero. 1951 Retorna ao Rio e reassume a chefia do gabinete do ministro João Neves. Publica a 3ª edição de Sagarana pela José Olympio, sua editora até o final da vida. 1952 Em maio, realiza viagem pelo interior mineiro para, segundo suas próprias palavras, “conferir os mugidos dos bois e a copiosidade do orvalho nas moitas do meloso, entre aboios, estrelas e amenas peripécias”. Nessa viagem, por ele denominada A Boiada no caderno de notas que organizou, conheceu Manuel Nardi, o Manuelzão de Uma estória de amor, Bindóia, um “tirador de versos”, e o vaqueiro e cozinheiro Zito, sobre quem escreve em um dos prefácios de Tutaméia. 1952 Em junho, participa, juntamente com o empresário Assis Chateaubriand e o presidente Getúlio Vargas, de uma vaquejada na Bahia, em que foram reunidos mais de 600 vaqueiros oriundos de vários estados nordestinos. 1953 e 1954 Continua a publicar textos, contos e poemas na imprensa carioca, mineira e paulista. 1956 Em janeiro, publica Corpo de Baile e, em maio, Grande Sertão: Veredas, ambos pela Editora José Olympio. 1956 Lança a 4ª quarta edição de Sagarana. 1956 A revolução linguístico-estilística contida nas novas obras provoca acirrada discussão entre seus defensores e críticos. 1957 Com o sucesso de público e crítica dos livros publicados no ano anterior, consolida seu prestígio como um dos grandes nomes da literatura brasileira do século XX. Pensa em se candidatar à Academia Brasileira de Letras (ABL). 1958 Em janeiro, é derrotado por Afonso Arinos de Melo Franco na eleição para ABL, na vaga deixada por José Lins do Rego. 1958 Em maio, é promovido a ministro de 1ª classe, correspondente ao posto de embaixador, o mais alto da carreira diplomática. 1958 A Editora José Olympio publica a 2ª edição de Grande Sertão: Veredas e a 5ª e definitiva de Sagarana. 1958 Traduz livro O Último dos maçaricos, de autoria de Fred Bodsworth, publicado pela Biblioteca de Seleções do Reader’s Digest. 1958 Em novembro, sofre um enfarte. 1959 Tem início a correspondência com Edoardo Bizzarri, seu grande tradutor italiano.

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1960 Inicia sua colaboração com a revista Senhor. 1960 A José Olympio lança a 2ª edição de Corpo de Baile. 1961 Publica Meu Tio o Iauaretê na revista Senhor, posteriormente incluído em Estas Estórias, e uma série de poemas “anagramáticos” em O Globo, reunidos em Ave, Palavra.


1962 Em janeiro, é nomeado chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras do Itamaraty. 1962 Lança Primeiras Estórias, pela José Olympio. 1963 Em agosto, é eleito para a Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada por seu amigo João Neves da Fontoura. Só tomará posse em 1967. 1964 No livro Os sete pecados capitais, da Civilização Brasileira, publica Os chapéus transeuntes, sobre a soberba, republicado em Estas Estórias. 1964 No final de setembro, participa da Semana Cultural Latino-Americana, em Berlim. 1964 Grande Sertão: Veredas, com tradução de Curt Meyer-Clason, é publicado na Alemanha. 1964 Na Itália, é lançado Corpo di Ballo, com tradução, notas e glossário de Edoardo Bizzarri. 1965 Em janeiro, participa do Congresso Internacional de Escritores Latino-Americanos, em Gênova, e é eleito vice-presidente da Sociedade de Escritores Latino-Americanos. Na ocasião, concede entrevista a Günter Lorenz, que será publicada no Brasil em 1973. 1965 Entre maio e dezembro, publica 17 contos no jornal de médicos Pulso, 14 deles republicados em Tutaméia e 3 em Ave, Palavra. Grande Sertão: Veredas é publicado na França com tradução de J.J. Villard. 1965 Em novembro, em Brasília, na 1ª Semana do Cinema Brasileiro, é exibido o filme A hora e a vez de Augusto Matraga, que ganha 5 prêmios, incluindo o de melhor filme. 1966 No dia 10 de março, o filme estreia em São Paulo. 1966 Em junho, participa do 34º Congresso Internacional do Pen Club, em Nova York. 1966 Entre janeiro e dezembro, publica 26 contos no jornal Pulso, 24 deles republicados em Tutaméia e 2 em Ave, palavra. 1966 Sagarana, A Cycle of Stories é publicado nos EUA, e Corpo de Baile, na Alemanha. Sai também uma 2ª edição alemã de Grande Sertão. 1967 Publica Tutaméia (Terceiras Estórias), sua última obra em vida. 1967 Em 16 de novembro, finalmente, toma posse na Academia Brasileira de Letras. 1967 Em 19 do mesmo mês, o escritor João Guimarães Rosa falece em seu apartamento no Rio de Janeiro, vítima de um enfarte fulminante. 1967 O jornal O Estado de São Paulo noticia sua morte com a manchete: “Morre nosso maior escritor”. Poucas vezes na história de nossa imprensa, o banal superlativo jornalístico foi tão fiel à verdade. 1968 A Editora José Olympio lança Em memória de João Guimarães Rosa. 1969 Lançado pela José Olympio o livro póstumo Estas Estórias. 1970 Lançado pela José Olympio o livro póstumo Ave, Palavra. 1994 Lançada pela Nova Aguilar sua obra completa em 2 volumes. 1997 Lançado pela Nova Fronteira o seu livro de poesia Magma, inédito por 60 anos. 2011 Lançado pela Nova Fronteira Antes das Primeiras Estórias, com os contos: O mistério de Highmore Hall, Makiné, Chronos kai anagke e Caçadores de camurças. 2011 A mesma editora publica uma nova edição do Grande Sertão: Veredas com A Boiada, o caderno datilografado das notas da viagem de 1952, como volume suplementar.

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Sala Biografia e Cronologia/Quarto dos pais: mobiliário do apartamento do Rio de Janeiro, vestuário e coleção de gravatas do autor


Gabinete/Dep贸sito da venda: mobili谩rio e objetos do apartamento do Rio de Janeiro


Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos PEQUENO INFORME

Leonardo José Magalhães Gomes A nós, a poesia. (Guimarães Rosa, em carta a Paulo Dantas) O mundo está cheio de sinais e sábio é aquele que entende umas coisas pelos sinais das outras. Há muitos fatos comuns que podem ser conhecidos dessa maneira. (Plotino1)

I A obra madura de João Guimarães Rosa está contida em mágicos sete títulos. Cinco foram publicados em vida do autor: Sagarana, em 1946; Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, ambos em 1956; Primeiras Estórias, em 1962; Tutaméia, em 1967. Os outros dois, Estas Estórias, de 1969, e Ave, Palavra, de 1970, estavam em processo de preparação quando o escritor faleceu, em novembro de 1967. Destarte, sua inclusão no cânone rosiano estava prevista e em curso quando de sua morte. As outras obras anteriores a Sagarana, Magma, o livro de poemas premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1937 e lançado apenas em 1997, trinta anos após a morte do autor, e Antes das Primeiras Estórias, uma coletânea dos contos escritos na sua juventude, quando ele estudava Medicina em Belo Horizonte, e lançada em livro em 2012, nada acrescentam à estética rosiana. Os contos de Antes das Primeiras Estórias revelam a imaginação fervilhante do jovem Rosa e nada mais. Se os poemas de Magma, por outro lado, abrem uma fresta, por pequena que seja, sobre a revolução linguística que viria a ser realizada pelo escritor cordisburguense, não têm o vigor característico de suas extraordinárias personagens. É óbvio que JGR sabia que seu caminho era outro e, por isso, não quis publicar esses ensaios prévios à sua grande estreia, ocorrida em 1946 com Sagarana. Na entrevista concedida a Günter Lorenz, Rosa diz: Entretanto, escrevi um livro não muito pequeno de poemas que até foi elogiado. (...). Mas logo, e eu diria que

por sorte, minha carreira profissional começou a ocupar meu tempo. (...) Assim se passaram quase dez anos, até eu poder me dedicar novamente à literatura. E revisando meus exercícios líricos, não os achei totalmente maus, mas tampouco muito convincentes. Principalmente, descobri que a poesia profissional, tal como se deve

manejá-la na elaboração de poemas, pode ser a morte da poesia verdadeira. Por isso, retornei à “saga”, à lenda, ao conto simples, pois quem escreve estes assuntos é a vida e não a lei das regras chamadas poéticas. Então comecei a escrever Sagarana.2

1. PLOTINO. Terceiro Tratado, Sobre a influência dos astros, In: ________. Enéada II a organização do Cosmo. Introdução, tradução e notas de João Lupi. Petrópolis: Vozes, 2010. p. 22 2. LORENZ, Günter. Diálogo com Guimarães Rosa. In: COUTINHO, Eduardo de Faria (Org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1983. p. 70.

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Homem de fé que, segundo suas próprias palavras, aceitava todas as religiões, rezava por todos os credos e se guiava por muitas filosofias, Guimarães Rosa também acreditava no poder mágico dos números, no que se conhece como numerologia. Como tal, era um crente fiel na força e na magia do número 7, tão difundida pelo mundo afora. Em suas raras entrevistas, disse que livros como Sagarana, Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas – acredite quem quiser – haviam sido escritos em sete meses. Por isso, o conteúdo de sua obra estar contido em sete títulos é mais do que adequado: é necessário e parte de sua concepção mágica do mundo. Não nos esqueçamos de que ele aceitou a nova divisão do Corpo de Baile, proposta por seu editor, na qual a obra passou do volume único da segunda edição aos três, mais ou menos independentes, da terceira: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá no Pinhém e Noites do Sertão, solução que possibilitou a distribuição de sua obra pelos – mais uma vez, mágicos – sete livros, antes do lançamento de Estas Estórias e Ave, Palavra. Em entrevista concedida a Ascendino Leite em 1946, republicada em livro em 1997, Guimarães Rosa dá algumas das razões que o levaram a escrever Sagarana, e que podem se estender ao conjunto de sua obra: Saudade da terra, cinquenta por cento. A distância física aproxima de nós as coisas e os lugares ausentes. Depois, cada um deve falar do que conhece melhor naturalmente. E assim, naquela ocasião eu achava que, não podendo

compor fábulas só com animais, que são mais “retilíneos”, talvez valesse a pena pôr palco para os personagens

capiaus, menos uniformizados, mais sem “pose”, mais inconvencionais que a gente do asfalto. Com eles, no seu habitat, pode-se deixar solta a poesia, sem prejuízo do realismo. Há menor quantidade de matéria “isolante”, que

nas histórias citadinas obriga a gente, a bem da naturalidade e da verossimilhança, a gastar muita página boba. E há a natureza, que não é cenário, mas sim personagem. Na cidade, a natureza exterior também representa, mas de modo quase invisível. Na roça, o diabo ainda existe. Já fiz pequenos pactos, provisórios, com o dito. Se eu tivesse morrido três meses depois, estava frito…3

Logo em seguida, Guimarães Rosa define outra importante parte de seu credo estético-literário: - Porque o que me interessa, na ficção, primeiro que tudo, é o problema do destino, sorte ou azar, vida e morte. O homem a “N” dimensões, ou, então, representado a uma só dimensão: uma linha evoluindo num gráfico.4

Dezenove anos depois, na entrevista a Günter Lorenz, concedida em janeiro de 1965, Rosa voltou a justificar a inevitabilidade de suas escolhas: Veja você, Lorenz, nós os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias;

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já no berço recebemos esse dom para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando as

narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. Deste modo a gente se habitua, e narra[r] estórias corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens.5

3. LIMA, S. M. van Dijck. Ascendino Leite entrevista Guimarães Rosa. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 1997. p. 53-54. 4. Ibidem, p. 55. 5. LORENZ, op. cit., p. 69.


Fruto da arte de um autor que escrevia lentamente, que pensava e pesava cada palavra, ressuscitava aquelas em desuso quando possível e inventava novos vocábulos quando necessário, a criação literária rosiana é uma mistura organicamente construída de esplendor linguístico-vocabular, profundidade psicológica e fantasia criativa, que trata dos temas mais profundos da humanidade com finura e poesia e representa, em grau único em língua portuguesa, o ideal da poiésis grega, da poesia como criação de novos e esplêndidos mundos e personagens.

II A leitura dos livros de João Guimarães Rosa não transcorre sem dificuldades. Autor de invulgar

ambição estética, profundo conhecimento psicológico e imenso saber linguístico, Rosa nunca pretendeu criar uma arte sedutora, de fácil apreensão, que pudesse ser assimilada automaticamente sem a participação ativa e consciente do leitor. Ele buscava, assumida e persistentemente, a devoção incondicional do seu público, a imersão total do leitor em seu universo estético, em seu sertão, tanto físico quanto metafísico. Tudo indica que o escritor queria fugir do leitor fugaz, superficial, e, por isso, seus livros parecem estar escritos contra o leitor. Mais do que lidos, devem ser conquistados, como quem anda por um caminho cheio de obstáculos. A Lorenz ele admitiu: Como escritor, não posso seguir a receita de Hollywood, segundo a qual é preciso sempre orientar-se pelo limite mais baixo do entendimento. (…) no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievsky e Flaubert, porque o sertão

é o terreno da eternidade, da solidão (…). No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por isso, ali os anjos ou o diabo ainda manuseiam a língua.6

Além disso, o grau de complexidade aumenta na medida em que o autor percorre seu caminho de criação. Entre o regionalismo poético de Sagarana e a síntese ontológica, de alta densidade, de Tutaméia, há uma clara e contínua evolução estética e literária, um constante refinar da linguagem, em que as obras vão se tornando continuamente mais densas e a linguagem mais sintética e, talvez por isso mesmo, mais complexa. O primeiro é uma sequência de histórias (Rosa só usou o termo estória posteriormente) apresentadas em uma linguagem original, mas sem criar dificuldades especiais para o leitor, que podem ser lidas sem maiores esforços. Já Tutaméia é um dos livros mais densos de nossa literatura, em que o autor demonstra seu virtuosismo criador e um raro poder de síntese. Por isso, é recomendável que o leitor iniciante aborde sua obra na ordem de publicação, de Sagarana para Tutaméia, com Corpo de Baile, Grande Sertão: Veredas e Primeiras Estórias como etapas intermediárias.

6. Ibidem, p. 86.

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Essa ordem, porém, muda quando chegamos aos dois volumes póstumos, Estas Estórias e Ave, Palavra. Ambos contêm textos em que a sequência de publicação em livro não é, necessariamente, a de sua redação. Um bom exemplo é a reportagem incluída em Estas estórias com o título de Entremeio – Com o Vaqueiro Mariano. Ela foi escrita em 1947, ano em que o escritor esteve em visita ao Pantanal Mato-Grossense, tendo sido publicada no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em 20 de abril do mesmo ano. Posteriormente, em 1952, a Edições Hipocampo, uma pequena editora artesanal de livros para bibliófilos sediada em Niterói, lançou COM O VAQUEIRO MARIANO, uma plaquete com 96 páginas, ilustrada por Darel Valença Lins, em tiragem limitada de cento e dezesseis exemplares assinados pelo autor, atualmente um raríssimo item de colecionador. Essa edição pode ser apreciada no Museu Casa Guimarães Rosa como parte importante de seu acervo, e, finalmente, o texto foi incluído no cânone rosiano pela sua incorporação a Estas Estórias. III Sagarana é neologismo criado por Guimarães Rosa a partir da junção de saga, a palavra germânica para narrativa, como nas grandes sagas nórdicas, ao sufixo rana, tirado do nheengatu, que significa à maneira de. Como o próprio Rosa nos informou: - Saga-rana: coisa que parece saga… Filei um sufixo do nheengatu…7

Esse é, também, o título do livro inaugural, o primeiro degrau da obra rosiana. A sua história é interessante e merece ser detalhada aqui.

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Logo após completar vinte e seis anos de idade, no segundo semestre de 1934, João Guimarães Rosa mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou no serviço diplomático. Com a troca de cidades, houve, também, uma transição radical de ambientes. Afinal, o médico militar, que fugia da medicina por inadaptação à profissão, deixou o universo quase feudal do sertão da pecuária extensiva, talvez a mais rude das atividades rurais, onde a violência explícita era corriqueira, para penetrar na sofisticação urbana da capital do país e, mais ainda, no refinamento do corpo diplomático, o lócus do requinte sociopolítico, das maneiras apuradas, da fina hipocrisia valorizada como instrumento legítimo de trabalho. Podemos imaginar o choque causado por tal contraste em alguém dotado de inteligência aguda e sensibilidade exacerbada como o jovem, agora diplomata, Guimarães Rosa. Algo tinha de ser feito para que as impressões causadas pela mudança fossem processadas de maneira satisfatória, para que a nova realidade fosse assimilada sem a perda do riquíssimo simbolismo do seu mundo sertanejo. Como ele mesmo confessou: 7. LIMA, op. cit., p. 66.


Quem cresce em um mundo que é literatura pura, bela, verdadeira, real, deve algum dia começar a escrever, se

tiver uma centelha de talento para as letras. É uma lei natural, e não é necessário que atrás disto haja ambições literárias.8

A arte era o caminho natural, e a literatura, inevitável. Era preciso que o artista recriasse metaforicamente o sertão-mundo para não perder sua identidade. Por isso, podemos supor que a mudança de Barbacena para o Rio de Janeiro representa um salto maior, um impulso mais significativo para a criação artística de Rosa do que a ida, em 1938, para Hamburgo, como tem sido destacado por alguns analistas. Guimarães Rosa, mais uma vez, expôs esse argumento com precisão: Nós sertanejos somos muito diferentes da gente temperamental do Rio ou da Bahia, que não pode ficar quieta nem um minuto. Somos tipos especulativos, a quem o simples fato de meditar causa prazer. Gostaríamos de

tornar a explicar diariamente todos os segredos do mundo. Chocamos tudo o que falamos ou fazemos antes de falar ou fazer.9

No Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo,onde está recolhida importantíssima parte dos arquivos de Guimarães Rosa, existem dois volumes datilografados intitulados Sezão.10 Um deles, encadernado em couro vermelho e datado de 1937, é a versão mais antiga que temos de Sagarana. Mas esses volumes não representam as únicas etapas conhecidas da elaboração do livro. Além dessas duas versões preservadas no IEB, existe a informação segura de haver existido outra, intitulada simplesmente Contos, inscrita por Guimarães Rosa, sob o pseudônimo de Viator, em dezembro desse mesmo ano de 1937, no concurso Humberto de Campos, competição literária promovida pela Livraria José Olympio Editora. Após a seleção inicial, chegaram à rodada final dois livros, os Contos de Rosa/Viator e Maria Perigosa, de Luís Jardim. O júri do concurso, composto por Prudente de Morais Neto, Marques Rebelo, Dias da Costa e Peregrino Júnior, era presidido por ninguém menos que Graciliano Ramos. Após debates acalorados, os dois primeiros membros votaram em Contos para ganhador do concurso, e os três últimos optaram por Maria Perigosa, de Luís Jardim, que obteve, assim, o primeiro lugar, deixando o livro de Viator em segundo. Guimarães Rosa, que já estava na Alemanha quando o resultado do concurso foi publicado em 1938, não se manifestou, e entre a divulgação da vitória de Luís Jardim e a primeira edição de Sagarana transcorreram oito anos, período em que o autor retrabalhou e depurou seu livro. O curioso dessa história é que Graciliano Ramos parece ter se arrependido de seu voto e, demonstrando grandeza ao reconhecer seu erro, publicou uma crônica, posteriormente recolhida no livro póstumo Linhas Tortas, em que narra os acontecimentos do concurso e convoca o autor 8. LORENZ, op. cit., p. 69. 9. Ibidem, p. 79. 10. Existem vários relatos da criação de Sagarana. Um deles está em Lima, op. cit., p. 10 e seguintes.

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de Contos a se manifestar.11 Como Guimarães Rosa, naquele momento, viajava constantemente no exercício de suas funções profissionais, passando longos períodos fora do Brasil, preferiu se manter em silêncio. Em 1946, quando a obra foi finalmente editada pela editora Universal com o título Sagarana, Graciliano Ramos publicou uma interessantíssima apreciação do livro em que o analisa favoravelmente, elogia a evolução artística de Rosa, reconhece seu espírito superior por não demonstrar rancor pelo voto do escritor alagoano em Maria Perigosa e faz uma impressionante previsão. O final da resenha sintetiza a visão do Velho Graça: A arte de Rosa é terrivelmente difícil. Esse antimodernista repele o improviso. Com imenso esforço escolhe palavras simples e nos dá a impressão de vida numa nesga de catinga, num gesto de caboclo, numa conversa

cheia de provérbios matutos. O seu diálogo é rebuscadamente natural: desdenha o recurso ingênuo de cortar ss, ll e rr finais, deturpar flexões, e aproximar-se, tanto quanto possível, da língua do interior.

Devo acrescentar que Rosa é um animalista notável: fervilham bichos no livro, não convenções de apólogo, mas

irracionais, direitos exibidos com peladuras, esparavões e os necessários movimentos de orelhas e rabos. Talvez o hábito de examinar essas criaturas haja aconselhado o meu amigo a trabalhar com lentidão bovina.

Certamente ele fará um romance, romance que não lerei, pois, se for começado agora, estará pronto em 1956, quando meus ossos começarem a esfarelar-se.12

O autor de São Bernardo e de Vidas Secas só errou em um ponto. Em 1956, João Guimarães Rosa publicou não um, mas dois livros seminais da literatura brasileira: Grande Sertão: Veredas, o romance previsto por Graciliano, e Corpo de Baile, parte não menos importante do nosso patrimônio. O diálogo dos dois grandes escritores, o mineiro e o alagoano, parece se encerrar com a recusa de Guimarães Rosa em assumir categorizações arbitrárias. Na já citada entrevista concedida a Ascendino Leite, ao comentar os bichos que viu no zoológico de Hamburgo, o autor de Sagarana diz: - Com coisas dos bichos de lá para ficarem bem contadas, podia encher um livro grande como Sagarana. Mas, não se assuste. Nunca o escreverei, pois o povo podia ficar enfarado, enjoado com detalhes, de que tanto gosto. Depois, há o perigo de me rotularem de “animalista”, e eu detesto que me atribuam especializações…13

A afirmação pode não ter sido concebida como uma resposta direta a Graciliano Ramos, mas funciona perfeitamente como tal. Elegante e firmemente, o autor estreante já tem a noção de seu caminho e rejeita os rótulos limitadores de sua ação como artista.

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Ao ser lançado em 1946, Sagarana fez grande sucesso e colocou Guimarães Rosa em lugar de destaque como escritor consumado e reconhecido pelo público e pela crítica. Nelly Novaes Coelho definiu com felicidade essa entrada de nosso autor no cenário literário brasileiro: 11. RAMOS, Graciliano. Um livro inédito. In: ________. Linhas Tortas (obra póstuma). 4. ed. São Paulo: Martins, 1971. 12. RAMOS, Graciliano. Conversa de bastidores. In: ________. Linhas Tortas (obra póstuma). 4. ed. São Paulo: Martins, 1971. p. 315-316. 13. LIMA, op. cit., p. 52.


No marco divisor de águas que foi o ano de 46, Guimarães Rosa surge realmente como uma presença definitiva; como o primeiro entre os brasileiros que logrou captar o mundo regional através de um prisma universal. E tão

aparentemente virgem de ligações estéticas nascia a ficção rosiana que foi apontada como uma “ilha literária” em nossas letras. Entretanto, a verdade é que nada surge do nada, e a essência de que ela veio impregnada foi, sem dúvida, preparada por um longo processo de maturação. Foi condicionada pela mesma atmosfera que daí por diante se iria delineando nos novos caminhos da nossa literatura.

Guimarães foi, pois o brado de alerta. E sua obra veio concretizar a nova dimensão que o regionalismo estava esperando: a dimensão do Espírito e do Mistério das coisas.14

Note-se que a ensaísta destaca aspectos importantes de Sagarana para a literatura brasileira. Vou salientar alguns deles: definir Guimarães Rosa como uma “presença definitiva” desde sua estreia; considerá-lo o primeiro a conseguir “captar o mundo regional através de um prisma universal”, dado fundamental para a compreensão da estética rosiana e para a concretização de uma nova dimensão na literatura brasileira; enfatizar a dimensão metafísica, “do Espírito e do Mistério das coisas”. Em 1946, foram lançadas duas edições do livro que se esgotaram rapidamente. A terceira somente viria a público cinco anos depois, em 1951, já pela Livraria José Olympio Editora, que seria a casa editorial do escritor mineiro até sua morte. As edições iniciais lançadas pela José Olympio foram amplamente revisadas pelo escritor e cada uma delas traz, como subtítulo, observações sobre essas revisões: a já mencionada 3ª edição de 1951 é apresentada como terceira edição revista, e o texto de suas orelhas, que se supõe ser do próprio Rosa, conta um pouco das já descritas peripécias que precederam a publicação de Sagarana em livro; a 4ª edição, de 1956, o mesmo ano de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, diz ser essa a versão definitiva, e a quinta, de 1958, é apresentada como 5ª edição, retocada forma definitiva. A verdade é que o escritor nunca se mostrava satisfeito com seu trabalho e sempre tentava “melhorar” Sagarana por meio da mudança de detalhes à medida que as edições se sucediam. Entre 1951 e 1983, ano em que a José Olympio perdeu o contrato editorial, foram produzidas vinte e cinco edições de Sagarana. A partir desse ano, as obras de Guimarães Rosa passaram a ser editadas pela Nova Fronteira. É interessante notar que, entre a 3ª e a 4ª edições (não nos esqueçamos de que a 4ª é do mesmo ano de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas), houve uma revisão mais acentuada na linguagem dos contos. Parece que Rosa queria que seu livro de estreia se mantivesse no mesmo caminho que sua estética havia aberto com os novos lançamentos. Em 1958, quando novamente se publicou o livro, houve um recuo, e o escritor se conservou mais fiel à concepção inicial. Essa 5ª edição, a primeira ilustrada por Poty, por conter a versão do livro que atualmente se edita tem, portanto, a força de editio princeps no que se relaciona ao texto. Como foram mínimas as mudanças posteriores – apenas pequenas correções –, essa é a variante 14. COELHO, Nelly Novaes. Guimarães Rosa: um novo demiurgo. In: COELHO, Nelly Novaes;VERSIANI, Ivana. GUIMARÃES ROSA (dois estudos). São Paulo: Quíron/Brasília: INL, 1975. p. 3.

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de Sagarana que conhecemos. Em carta a Paulo Dantas, Guimarães Rosa corrobora essa opinião: Há dias, também, autografei na nossa “José Olympio” o Sagarana (5ª edição). (…) Gostaria de saber o que Vocês

acham dele, da roupa nova, das figuras. E das orelhas, também – dedicadas ao “Corpo de Baile”. As ilustrações de Poty, glosantes. E, esta, é a definitiva-para-sempre. No livro não mexerei mais.15

Todas essas edições e outras posteriores fazem parte do acervo do Museu Casa Guimarães Rosa e podem ser apreciadas pelos seus visitantes.

1ª Edição 1946 Editora Universal Capa de Geraldo de Castro

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27ª Edição 1983 Livraria José Olympio Editora Capa e ilustrações de Poty Última edição da Livraria José Olympio Editora

3ª Edição Revista 1951 Livraria José Olympio Editora Capa de Santa Rosa

Edição Comemorativa 60 anos 2006 Editora Nova Fronteira Capa de Dora Levy Design sobre ilustrações de Poty

4ª Edição Versão definitiva 1956 Livraria José Olympio Editora Capa de Poty

63ª Edição 2001 Editora Nova Fronteira Capa de Victor Burton sobre desenho de Poty

5ª Edição, retocada (forma definitiva) 1958 Livraria José Olympio Editora Capa e ilustrações de Poty Primeira edição a ser ilustrada. É o padrão de Sagarana seguido pelas edições posteriores

Edição Portuguesa Prefácio e glossário de Alberto da Costa e Silva S/D Edição “Livros do Brasil” Lisboa Capa de Infante do Carmo

15. GUIMARÃES ROSA, João. Sagarana emotiva, cartas de J. Guimarães Rosa (a) Paulo Dantas. Introdução de Dora Ferreira da Silva. São Paulo: Duas Cidades, 1975. p. 87


Sala Sagarana/Alcova: painéis e história editorial do livro Sagarana, talhas em baixo-relevo de Poty contendo as ilustrações feitas para a 4ª edição e o infinito utilizado nessa obra e posteriormente no Grande Sertão:Veredas


IV A evolução estilística ocorrida entre Sagarana e Corpo de Baile é impressionante e diz muito do artista preocupado e comprometido apenas com sua arte que foi João Guimarães Rosa. Se ele estivesse em busca do sucesso fácil, sua meta já teria sido atingida com o livro de estreia. Embora tenham existido as inevitáveis resenhas negativas, o tom geral da crítica foi de entusiasmo pela revelação de um novo mundo linguístico e de uma nova concepção estética. Como exemplo desse entusiasmo, podemos citar um trecho da análise que Antonio Candido publicou n’O Jornal em 21 de julho de 1946, texto posteriormente recolhido em livro: Sagarana nasceu universal pelo alcance e pela coesão da fatura. A língua parece finalmente ter atingido o ideal

da expressão literária regionalista. Densa, vigorosa, foi talhada no veio da linguagem popular e disciplinada dentro das tradições clássicas. (…) Além das convenções literárias, Sagarana se caracteriza por um soberano desdém das convenções. O sr. Guimarães Rosa – cuja vocação de virtuose é inegável – parece ter querido mostrar a possibilidade de chegar

à vitória partindo de uma série de condições que conduzem, geralmente, ao fracasso. Ou melhor: todos os fracassos dos seus predecessores se transformaram em suas mãos, noutros fatores de vitória.16

Elogios como esses seriam mais do que o suficiente para manter satisfeito e acomodado um artista menos ousado. Por outro lado, para alguém interessado em criar obra substancial e inovadora, que afirmava a impossibilidade de haver compromisso na arte, como era Guimarães Rosa, tal aceitação serviu como estímulo para prosseguir em seu caminho e se aprofundar em sua revolução criadora.

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O próximo passo dessa revolução foi Corpo de Baile, lançado dez anos após a primeira edição de Sagarana e cinco após sua terceira edição revista. Em sua primeira edição, Corpo de Baile foi apresentado em dois volumes, que continham suas sete – o mágico sete – novelas. A distinção em relação a Sagarana já começa no sumário do primeiro volume, que traz a denominação poemas para as novelas. Mas Rosa não para por aí: no índice do final do segundo volume, ele emprega duas nomenclaturas diferentes para designá-las. Sigo aqui, rigorosamente, tais designações. A primeira, intitulada simplesmente “Gerais” (os romances), é composta por quatro novelas: Campo Geral; A estória de Lélio e Lina; Dão-Lalalão e Buriti. A segunda nomenclatura, intitulada Parábase (os contos), inclui três delas: Uma estória de amor; O recado do morro e “Cara-de-Bronze”. Parábase, não nos esqueçamos, é um termo advindo do teatro grego antigo e designa o momento em que os atores, ou o autor da peça, despem-se de seus personagens e recobram suas personalidades verdadeiras para conversar com o público e tecer comentários e observações sobre a ação dramática. Já romance,

16. CANDIDO, Antonio. Sagarana. In: COUTINHO, Eduardo de Faria (Org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/Brasília: INL, 1983. p. 245.


além do consagrado significado de livro de ficção de fundo psicológico, como se tornou corrente a partir do final do século XIX, tem outras acepções que devem ser consideradas como possíveis. A primeira é a linguística: são assim denominadas as variedades que o latim gerou ao se misturar com as línguas bárbaras. Romance pode ser, também, uma narrativa, em geral em versos, das aventuras e amores dos antigos cavaleiros medievais. Sem dificuldade, podemos incluir os romances do Corpo de Baile em qualquer um desses significados, ou em todos eles. Para uma tentativa de definição do gênero literário de uma obra rosiana, é preciso recorrer, mais uma, vez ao autor: Não, não sou romancista; sou um contista de contos críticos. Meus romances e ciclos de romances são na realidade contos nos quais se unem a ficção poética e a realidade.17

O título, Corpo de Baile, é outro dado importante para a leitura do livro. Se substituirmos a expressão coro de dançarinos do texto de Plotino, citado a seguir, por corpo de baile, teremos a chave do título do ciclo de novelas de Guimarães Rosa: Aqueles que não logram conformar-se à ordem universal perecem, tal como a tartaruga que estivesse no meio de um coro de dançarinos: seria pisoteada se não escapasse aos passos ordenados dos dançarinos, mas não sofreria nenhum mal se se conformasse a essa ordem.18

Essa chave está relacionada com a filosofia de Plotino, o filósofo neoplatônico que viveu em Roma no século III de nossa era. Plotino é um dos fundadores da escola filosófica que chamamos de neoplatonismo, que renovou os ensinamentos de Platão e tem exercido considerável influência até os dias atuais. Guimarães Rosa é mais um dos seguidores das doutrinas de Plotino, trazendo para os dias de hoje uma linhagem intelectual que tem entre seus participantes nomes como Santo Agostinho, Santo Anselmo, São Boaventura, Marsílio Ficino e outros de semelhante peso religioso e filosófico. A doutrina filosófica de Plotino está contida nas Enéadas, obra dividida em seis livros, sendo cada um deles composto por nove tratados – do grego ene(a), nove. Atenção especial deve ser dada, também, às oito epígrafes que Guimarães Rosa incluiu no início das duas primeiras edições do Corpo de Baile. Nas quatro primeiras, mais uma vez, aparece Plotino. As duas primeiras dessas epígrafes são tiradas da segunda Enéada, a que tem como tema a origem e organização do Cosmo. A primeira, que trata da imobilidade do centro do círculo, está no segundo tratado, O Movimento Circular do Céu. A segunda epígrafe, que trata da solidez do planeta Terra como centro do universo, foi retirada do primeiro tratado, O Mundo e o Sistema Celeste. As duas seguintes foram extraídas da terceira Enéada, cujos temas são a fatalidade, a providência, a eternidade e o tempo, e vêm do segundo tratado, intitulado Sobre a Providência, livro I.

17. LORENZ, op. cit., p. 70. 18. PLOTINO. Nono Tratado, Contra os gnósticos. Op. cit., p. 84.

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Sala Corpo de Baile/Sala de Jantar: pain茅is e hist贸ria editorial do livro Corpo de Baile


As três epígrafes seguintes pertencem ao tratado A Pedra Brilhante, de Ruysbroeck, o Admirável.19 O clérigo flamengo Johannes Ruusbroec, ou Ruysbroeck, (1293-1381), beatificado pela Igreja Católica, é considerado um dos mais importantes autores místicos da Idade Média, e seus escritos tratam da união da alma humana com Deus. Grande parte da obra de Plotino também se refere a esse tema. Assim, após ter usado os conceitos da comunhão da alma com a divindade contidos no neoplatonismo de Plotino, um filósofo da Antiguidade Clássica, Guimarães Rosa recorreu ao misticismo medieval para nos dar mais chaves de leitura de seu Corpo de Baile. A última das oito epígrafes é um “coco de festa”20 atribuído a Chico Brabós, ou seja, Chico Barbosa ou Barboza. O coco é uma forma de música e dança usual no interior do Brasil e o escritor mineiro certamente ouviu muitos desses “cocos” em suas viagens de pesquisa pelo interior mineiro. Paulo Dantas conta que ouviu de Rosa a seguinte confissão: - Acredito que Krishnamurti seja a segunda encarnação de Cristo. Estudo muito as doutrinas. A sabedoria oriental me fascina. Não foi à toa aquelas epígrafes de Plotino ou de Ruysbroeck, o Admirável, para meu Corpo de Baile. São um complemento da minha obra. Sou um contemplativo fascinado pelo Grande Mistério, pelo O Anel ou a Pedra Brilhante.21

Assim, na escolha das epígrafes, Guimarães Rosa une, misticamente, a Antiguidade Clássica à Idade Média, e ambas, intemporalmente, ao sertão brasileiro do século XX. Ao criar esse continuum no tempo, dá a seus temas e personagens a dimensão de eternidade que buscava e que veio a ser característica fundamental de sua arte. Além disso, as diferentes formas de amar elaboradas em cada uma das estórias de Corpo de Baile se entrelaçam com a divindade – o Uno de Plotino e a Santíssima Trindade de Ruysbroeck – e revelam o Amor como a parte divina que existe em nós e nos une ao Ser Supremo. A primeira edição de Corpo de Baile, lançada em 1956, compunha-se de dois volumes vendidos conjuntamente. Em 1960, a Livraria José Olympio Editora editou a obra completa em um volume. Nessas duas versões, as epígrafes vinham no início da obra, logo após a folha de rosto. Em 1964, Guimarães Rosa aceitou a sugestão de seu editor e consentiu na divisão de Corpo de Baile em três livros comercializados separadamente: Manuelzão e Miguilim, com as novelas Campo Geral e Uma Estória de Amor; No Urubùquaquá no Pinhém, com O Recado do Morro, “Cara-de-Bronze” e A Estória de Lélio e Lina, e Noites do Sertão, com Lão-dalalaõ (Dão-lalalão) e Buriti. Nessa edição, como nas duas primeiras, as novelas, mais uma vez, são denominadas poemas no sumário do início do volume e conto ou romance no índice do final desse mesmo volume. As epígrafes foram distribuídas pelos três volumes e o título de cada livro tem Corpo de Baile como subtítulo. Assim, Guimarães 19. Informações extraídas de RUUSBROEC, J. The spiritual espousal and other works. Introduction and translation of James A. Wiseman, OSB. Mahwah: Paulist Press. 1985. 20. Coco é forma de música popular do sertão, cantada e dançada. 21. DANTAS, Paulo. Nossa Amizade, depoimento. In: GUIMARÃES ROSA, João. Sagarana emotiva, cartas de J. Guimarães Rosa (a) Paulo Dantas. Introdução de Dora Ferreira da Silva. São Paulo: Duas Cidades, 1975. p. 26.

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Rosa se curvou às exigências do mercado editorial sem perder a unidade do livro. Essa versão em três volumes passou a ser o padrão que rege as edições de Corpo de Baile. Em 2006, a edição comemorativa do cinquentenário do lançamento do livro o reapresentou em dois volumes. Em 1964, a Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil lançou uma edição limitada da novela Campo Geral, ilustrada por Djanira, com tiragem de cento e vinte exemplares. Essas edições, atualmente raros itens de colecionador, podem ser vistas na exposição em curso no Museu Casa Guimarães Rosa. O salto de um lírico e bem resolvido mundo regional, como o apresentado em Sagarana, para o universo erótico-místico de Corpo de Baile, não se deu sem problemas. Quando o livro foi publicado, no início de 1956, muitos dos leitores e críticos que haviam recebido Sagarana com entusiasmo estranharam os novos caminhos rosianos. Esses leitores que, no primeiro momento, não souberam ou puderam acompanhar a evolução do escritor cordisburguense logo tiveram outra surpresa. No mesmo ano de 1956, poucos meses após a publicação de Corpo de Baile, a Livraria José Olympio Editora lançou Grande Sertão: Veredas, o único “romance”, no sentido moderno do termo, escrito por João Guimarães Rosa.

Agora, após poetizar sobre as diversas formas que o amor assume para nos enredar em sua teia, o escritor passava a representar a luta entre o Bem e o Mal, a incansável batalha movida pelo Homem contra o Demo, o Que Diga, o Capiroto, o Capeta, o Satanazim, o Demo, o Muitos-Beiços, o Rasgaem-Baixo, o Faca-Fria, o Fancho-Bode, o Azinhavre, o Hermógenes, o Tinhoso, o Tal, o Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Côxo, o Temba, o Coisa-Ruim, o Canhoto, o Rapaz, o Não-sei-que-diga, o Que-nunca-se-ri, o Sem-gracejo, o Diá, o Outro... – para mencionarmos apenas alguns dos inúmeros nomes que o diabo recebe no livro. Esse é o tema de Grande Sertão: Veredas. Em outubro de 1966, em carta dirigida a seu tradutor italiano, Rosa descreveu uma doença que o havia acometido: E... aqui passei um mês de cama – é uma espécie de septicemia, de causa ignorada, foco que ainda não se encontrou, deve ser vingança do diabo, que ataquei no “Grande Sertão: Veredas”.22

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22. ROSA, João Guimarães. João Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p. 181.


1ª Edição 1956 Livraria José Olympio Editora Capa de Poty

2ª Edição 1960 Livraria José Olympio Editora Capa de Poty Única Edição em um volume

3ª Edição 1964 / 1965 A partir dessa edição o livro passou a ser dividido em três volumes, tendo Corpo de Baile como subtítulo. Os livros são: Manuelzão e Miguilim, com as novelas Campo Geral e Uma Estória de Amor; No Urubùquaquá, No Pinhém, contendo O Recado do Morro, Cara-De-Bronze e A Estória de Lélio e Lina; Noites do Sertão, trazendo Lão-Dalalão (Dão-Lalalão) e Buriti. Livraria José Olympio Editora Capas de Poty

4ª Edição 1969/1970 Livraria José Olympio Editora Capas de Poty

Edição Comemorativa 50 anos 2006 Editora Nova Fronteira Capa de Dora Levy Design sobre ilustrações de Poty No verso da caixa contém as informações relativas a essa edição

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11ª, 9ª, 9ª Edição respectivamente 2001 Editora Nova Fronteira Capa de Victor Burton sobre desenho de Poty


Sala Corpo de Baile – Campo Geral/Quarto da avó: quarto de D. Chiquinha, avó de Guimarães Rosa, reconstituído cenograficamente


V - NONADA. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. (...) Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.23

As duas linhas da citação acima são, respectivamente, a primeira e a última frase de Grande Sertão: Veredas. As reticências entre parênteses simbolizam as quinhentos e oitenta e seis páginas, em formato in-oitavo grande, de texto corrido, sem divisão de capítulos, da primeira edição do livro. Na primeira frase, aparece Deus. Na última, é negada a existência do diabo e afirmada a força de nossa humanidade. Ao final, como último signo impresso, a lemniscata de Bernoulli, o símbolo ∞, que representa o infinito, a assinalar, como o próprio autor explicou na entrevista a Günter Lorenz: Pois o diabo pode ser vencido simplesmente, porque existe o homem, a travessia para a solidão, que equivale ao infinito.24

Entre as frases, temos o mundo violento em que o Bem e o Mal se confrontam numa luta sem tréguas. Como já foi dito, essa luta é o tema do livro. A epopeia dos jagunços Riobaldo Tatarana e Diadorim, narrada por Riobaldo para um ouvinte silencioso, que seria o próprio Guimarães Rosa, é o enredo. As oito primeiras páginas trazem as informações de praxe, como o ano de edição, as obras anteriores de Guimarães Rosa, a editora. Duas informações, porém, são relevantes. A epígrafe, na página três, em caixa alta, diz: (“O DIABO NA RUA, NO MEIO DO REDEMOINHO...”)

Na página 5, vem a dedicatória, firme, cabal, para não deixar dúvidas: A

Aracy, minha mulher, Ara, Pertence este livro.

Também em carta a Curt Meyer-Clason, seu tradutor alemão, datada de janeiro de 1964, ao discutir, com a minúcia que lhe era característica, a edição da tradução alemã do Grande Sertão, Guimarães Rosa pede:

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NOTA – Detalhe importante, a respeito do qual lhe pediria ficar atento, pessoalmente: é o de que seja incluída no volume, naturalmente, a dedicatória, à minha mulher, Aracy. Obrigado.25

Essa não é a única referência de Rosa à dedicatória; em cartas posteriores, ele reitera o pedido ao 23. ROSA, J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1956. p. 9 e p. 594. 24. LORENZ, op. cit., p. 73. 25. ROSA, J. G. Correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason (1958-1967). Belo Horizonte: Editora UFMG/Rio de Janeiro: Nova Fronteira, Academia Brasileira de Letras, 2003. p. 130.


Sala Grande Sertão: Veredas, Estas Estórias e Ave, Palavra/Venda do “seu Fulô”: venda do pai de Guimarães Rosa, reconstituída cenograficamente, com painéis das três obras


tradutor e discute a melhor tradução possível. Essa preocupação demonstra a ligação do escritor mineiro com sua esposa e o importante papel dela em sua vida e sua obra. Grande Sertão: Veredas caiu como um raio, da mais alta potência, nos círculos literários brasileiros. Mal refeitos do choque de Corpo de Baile, os leitores e críticos das obras rosianas tinham agora um novo Everest para escalar. Everest linguístico e filosófico, pois ninguém nega ser esta a novela “metafísica” de Guimarães Rosa, aquela em que o escritor ultrapassou os limites da mera criação literária para atingir os cimos da percepção transcendente da realidade. Mais do que qualquer outro, esse foi o livro que garantiu a glória em vida, a imortalidade literária e a presença quase mítica de Guimarães Rosa em nossas letras. No livro, Rosa, mais uma vez, mergulhou em suas pesquisas linguísticas, recuperou o falar sertanejo com suas características vocabulares, promoveu a ressurreição de palavras arcaicas e, quando necessário, criou neologismos. A naturalidade com que Riobaldo Tatarana se expressa é fruto de uma minuciosa construção da linguagem em que nada é deixado ao acaso, nada é improvisado. Como nas grandes obras de arte, a aparente espontaneidade com que o leitor se defronta é fruto de uma organização altamente complexa, em que tudo é detalhadamente planejado. Grande Sertão: Veredas é, talvez, o livro brasileiro sobre o qual mais se escreveu. Críticas, resenhas, crônicas, seminários, dissertações, teses, roteiros, louvores, censuras, análises filosóficas, linguísticas, estilísticas, psicológicas e, também, filmes, seriados de televisão, peças de teatro, histórias em quadrinhos, balés, canções, obras de música clássica e popular, poemas, exposições, instalações, pinturas, esculturas e demais criações artísticas de todos os gêneros e ramos das artes já foram produzidos tendo como tema as aventuras do jagunço Riobaldo. Generosas, elas representam uma inesgotável fonte de inspiração e estímulo à produção artística e intelectual. Se em nosso organismo existem as células-tronco que dão origem às demais células, podemos dizer que obras de arte como Grande Sertão: Veredas são verdadeiras obras-tronco, pois dão origem a outras obras de arte e enriquecem continuamente nosso patrimônio simbólico.

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Para narrar a odisseia de Riobaldo Tatarana e de Diadorim pelo sertão das Gerais, João Guimarães Rosa fez uso de extenso repertório de mitos e situações dramáticas tradicionais e recorrentes no folclore, nas literaturas e nas religiões – esse legítimo artifício estético também é usado pelo escritor em quase todas as suas obras. Riobaldo, assim como Fausto, é um pactário com o Diabo, só que sertanejo. Mas não é somente isso, é muito mais. Na entrevista a Lorenz, as palavras de Rosa definiram o personagem e sua relação com nossa nação:


Sem dúvida o Brasil é um cosmo, um universo em si. Portanto, Riobaldo e todos seus irmãos são habitantes de meu universo. (...) Riobaldo não é Fausto, e menos ainda um místico barroco. Riobaldo é o sertão feito homem

e é meu irmão. Muitos de meus intérpretes se equivocaram, (...). Riobaldo é mundano demais para ser místico, é místico demais para ser Fausto; o que chamam barroco é apenas a vida que toma forma na linguagem. (...)

Gostaria de acrescentar que Riobaldo é algo assim como Raskolnikov, mas um Raskolnikov sem culpa, e que entretanto deve expiá-la, mas creio que Riobaldo também não é isso; melhor é apenas o Brasil.26

Já Diadorim encarna lindamente o mito da donzela guerreira, como bem observou Walnice Nogueira Galvão: Ao delinear a personagem Diadorim, a amada do narrador e protagonista, o escritor não poupou detalhes

e abeberou-se nas fontes tradicionais, inclusive folclóricas. Em meio às lides do cangaço, os fragmentos vão surgindo e compondo uma mais do que completa Donzela-Guerreira. Órfã de mãe e filha única de grande chefe

de jagunços, foi criada naquele meio e adestrada na arte de guerrear: pontaria certeira, manejo do punhal, prática

de equitação. Vestia-se de homem, usava o cabelo aparado rente, portava um colete apertado e se banhava no escuro da madrugada. Dava exemplo de excelência, sem cansaço nem desfalecimento, e sua bravura não conhecia

limites. Após a morte do pai dedica-se a vingá-lo. E é executando a vingança que, justiçando o assassino, perecerá também. Cumpre o destino fatal da Donzela-Guerreira. Nas palavras de Guimarães Rosa, à guisa de epitáfio: “(…) que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor...”.

Graças à Donzela-Guerreira, com suas metamorfoses e aparições tão mutáveis, vai-se ampliando nossa percepção das infinitas possibilidades da aventura humana.27

Outro exemplo é o de Maria Mutema, que, ao matar seus maridos adormecidos jogando chumbo derretido em seus ouvidos, repete o gesto shakespeariano do tio do príncipe Hamlet, o usurpador Cláudio, que assassinou seu irmão, o rei da Dinamarca, jogando veneno em seu ouvido enquanto este dormia durante a sesta no jardim do palácio. Além desses, poderiam ser citados muitos outros episódios, situações e personagens inspirados no patrimônio simbólico da humanidade. Quando GSV foi lançado, a repercussão foi imensa. Como nesse espaço é impossível tratar dos inúmeros artigos então publicados na imprensa, selecionei dois deles, um de Manuel Bandeira e outro de Paulo Mendes Campos, que sintetizam bem o impacto sofrido pelos leitores à época. Bandeira era vinte e dois anos mais velho que Rosa, e, embora sua generosidade fosse tão grande quanto seu gênio, não transigia em relação à crítica justa, principalmente quando o objeto dessa crítica era um escritor da estatura de Guimarães Rosa, que mostrava, pela evolução estética visível em seus livros até então publicados, uma sensível tendência a melhorar com o tempo. O poeta pernambucano não leu Grande Sertão: Veredas logo que foi lançado; ele só mergulhou no sertão de

26. LORENZ, op. cit., pp. 95-96. 27. GALVÃO, W. N. A Donzela-Guerreira. In: GRUPO ANIMA. Donzela Guerreira (CD + livreto). São Paulo: SESC/SP, 2009.

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Sala Grande Sertão: Veredas, Estas Estórias e Ave, Palavra/Venda do “seu Fulô”: venda do pai de Guimarães Rosa, reconstituída cenograficamente, com painel da história editorial das três obras


Riobaldo e Diadorim quando a agitação inicial do lançamento já havia serenado. Após a leitura, publicou na imprensa carioca uma crônica, em forma de carta aberta a João Guimarães Rosa, que é um primor de percepção e sensibilidade. A carta é datada de março de 1957, quase um ano após o lançamento. Nela, Manuel Bandeira diz: AMIGO MEU, J. Guimarães Rosa, mano-velho, muito saudar! Me desculpe, mas só agora pude campear tempo para ler o romance de Riobaldo. (...) Aos despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. (...) Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! (...)

Ainda por cima disso, você fez Riobaldo poeta, como Shakespeare fez Macbeth poeta. Natural: por que um

jagunço dos gerais demais do Urucuia não poderá ser poeta? Pode sim. Riobaldo é você se você fosse jagunço. (...)

E o sertão? O sertão é espera enorme. E o silêncio? O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio, põe no colo. (...) Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe: O diabo não há! Existe é o homem humano. Soscrevo.28

Após apreciação tão poética, esclarecedora e consagradora da pena de Manuel Bandeira, um dos mais importantes poetas da língua portuguesa, não há o que dizer. Só podemos registrar a relação de respeito e admiração mútuos que unia os dois grandes artistas. Já o cronista e poeta Paulo Mendes Campos, nascido em Belo Horizonte em 1922, sendo, portanto, quatorze anos mais jovem do que Guimarães Rosa, publicou um poema em prosa em forma de crônica em que expõe sua versão dos porquês do Grande Sertão: Veredas que tem aqui citadas algumas de suas linhas: Porque esse livro conta uma história que não ouvíramos ainda, que precisávamos ouvir, uma história que agora se torna impossível imaginar não existindo; porque devemos escutar uma história ao amanhecer, outra ao meio-

dia, outra ao cair da noite; uma história na infância, outra ao abrir-se das luzes e das sombras da maturidade, outra quando um farol no golfo escuro decidir o caminho da velhice; porque há uma história no princípio, outra

no meio, outra no fim do mundo; porque as três histórias são uma única história; os enredos do homem com a

28. BANDEIRA, M. Grande sertão: veredas. In: ________. Poesia completa e prosa, organizada pelo autor. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974. p. 511-512.

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sua força e o seu medo, e os da mulher com sua fragilidade e a sua coragem; porque esse livro repete a parábola

da vida humana sobre a Terra e nos molha no frescor das primitivas vegetações, até aclarar-nos e ofuscar-nos em definitivas indagações da consciência; porque os homens são um único homem, e um único homem são todos os homens; (...)

porque o pouco que sabemos esse livro ordena e nos ensina; porque o Brasil existe; porque os brasileiros existem; porque seguimos todos através do grande sertão, e aos poucos nos distinguimos no lusco-fusco do mato; porque nós guardamos para sempre um livro como esse: eu o saúdo com modéstia e espanto.29

O artista de fina sensibilidade que era Paulo Mendes Campos, ao resumir em poucas páginas o espanto causado por Grande Sertão: Veredas em seus primeiros leitores, sintetizou poeticamente os múltiplos significados dessa obra de arte de alta densidade. É bom salientar que, transcorridos cinquenta e seis anos de sua publicação inicial, Grande sertão... continua a causar o mesmo espanto em que o lê pela primeira vez. Também, podemos dizer que o livro de Rosa atua como a obra-tronco já mencionada, ao inspirar os textos de Bandeira e de Campos. A história editorial de Grande Sertão: Veredas é mais simples do que a de Corpo de Baile. Entre 1956 e 1982, a Livraria José Olympio Editora lançou quinze edições da obra. Todas trazem a capa e as ilustrações internas da pena do artista plástico paranaense Poty Lazzarotto, intimamente ligado à produção gráfica das obras rosianas. Foi ele, também, quem desenhou o mapa das andanças de Riobaldo pelo sertão que, a partir da segunda edição, ilustra as orelhas dos livros. A partir de 1984, toda a obra de João Guimarães Rosa passou a ser editada pela editora Nova Fronteira.

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Além da primeira, a de 1956, como é natural, chamamos a atenção para edições importantes de Grande Sertão: Veredas. A segunda, de 1958, denominada 2ª Edição (texto definitivo), é a única que tem uma reprodução colorida do desenho da capa em seu interior. Nas outras, o desenho é somente em preto e branco. Suas orelhas contêm, pela primeira vez, o mapa das perambulações de Riobaldo pelo sertão. Esse desenho, cujo estudo detalhado pode ser considerado parte integrante da leitura do livro, foi produzido por Poty segundo indicações precisas de Guimarães Rosa. A terceira edição, de 1963, tem como curiosidade o fato de não se encerrar com a lemniscata de Bernoulli, o símbolo do infinito. As edições posteriores, a começar pela quarta, de 1965, restauram o símbolo como signo que, simultaneamente, conclui o livro e aponta para a eternidade de sua narrativa. As onze demais edições da José Olympio, incluindo a 5ª, de 1967, a última feita em vida do autor, mantêm o mesmo 29. CAMPOS, Paulo Mendes. Grande sertão: veredas. In: ________. Artigo indefinido: crônicas literárias. Rio de Janeiro: Record; Civilização Brasileira, 2000. p. 71-73.


padrão da quarta: quatrocentos e cinquenta e nove páginas, capa e ilustrações de Poty. Nas últimas, lançadas a partir do final dos anos 1970, a editora substituiu o fundo verde das capas pelo vermelho, dando a elas, assim, um tom mais diabólico. Pela Nova Fronteira, as edições de destaque são a do cinquentenário, com capa dura e o título bordado em linha vermelha sobre fundo branco, e a mais recente, a da caixa denominada Os Caminhos do Sertão de João Guimarães Rosa, que comemora os sessenta anos da viagem de Rosa pelo sertão mineiro em companhia de uma boiada, ocasião em que conheceu o vaqueiro Manuelzão, que seria a fonte de inspiração do protagonista de Uma Estória de Amor, de Corpo de Baile. Nessa caixa está incluído o fac-símile do caderno de notas datilografado que o escritor produziu durante a viagem e que foi parte importante das pesquisas desenvolvidas na redação de seus livros. Como é o caso das obras anteriores, essas edições de Grande Sertão: Veredas são parte do acervo do Museu Casa Guimarães Rosa e podem ser admiradas pelos seus visitantes.

1º Edição 1956 Livraria José Olympio Editora Capa de Poty

2ª Edição (texto definitivo) 1958 Livraria José Olympio Editora Capa e ilustrações de Poty

3ª Edição 1963 Livraria José Olympio Editora Capa e ilustrações de Poty

4ª Edição 1965 Livraria José Olympio Editora Capa e ilustrações de Poty

5ª Edição 1967 Livraria José Olympio Editora Capa e ilustrações de Poty Última edição feita em vida do autor

Edição Comemorativa dos 50 Anos 2006 Editora Nova Fronteira Inclúi também o catálogo e o DVD com imagens e depoimentos da instalação Grande Sertão: Veredas, concebida por Bia Lessa para a inauguração do Museu da Língua Portuguesa, São Paulo, março de 2006.

55 19ª Edição 2004 Editora Nova Fronteira Capa de Victor Burton sobre desenho de Poty


VI Seis anos se passaram entre o lançamento de Grande Sertão: Veredas em 1956 e o livro seguinte de Guimarães Rosa. Nesse pequeno lapso de tempo, o escritor mineiro, sempre atuando com dedicação e assiduidade em seus cargos no Ministério das Relações Exteriores, cuidou das já mencionadas revisões e reedições de seus três livros já publicados, tarefa pesada se considerarmos a densidade e complexidade deles, além de promover suas edições no exterior, o que implicava a troca de extensa correspondência com seus tradutores. Nesse período, ele, também, de maneira incansável, escreveu contos e poemas, que publicou em diversos periódicos brasileiros, em particular na revista Senhor e no jornal O Globo, ambos do Rio de Janeiro. Essa nova forma de “testar” suas produções – publicar os textos inicialmente em periódicos e, após ter sentido a reação do público, lançar a versão definitiva em livro – foi adotada por João Rosa em suas últimas quatro obras. Na crônica Um Encontro Casual com Rosa, publicada em janeiro de 1961, Manuel Bandeira descreve uma conversa que manteve com o autor de Sagarana, na qual foi explicitada a angústia sentida por ele, Rosa, em relação ao compromisso com o jornal. No final, Bandeira conclui: Escrever para jornal é como escrever na areia. Rosa não escreve na areia: Rosa grava na pedra. Para a eternidade. Assim, o que Rosa está fazendo em O Globo é, capítulo a capítulo, mais um livro digno de ficar junto de Sagarana, Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas.30

Esse livro, previsto por Bandeira, com todas as qualidades antecipadas pelo poeta pernambucano, é Primeiras Estórias, publicado em 1962. Ao contrário do que geralmente se pensa, o vocábulo estória não é uma invenção de Guimarães Rosa. Datado do século XIII, já o encontramos no português medieval e, desde o início do século XX, já havia sido usado por autores como o brasileiro João Ribeiro. Outro escritor que o usou, antes mesmo de Ribeiro, foi o português Conde de Sabugosa. Por analogia com a palavra inglesa story, pode ser considerada como uma alternativa bastante útil para diferenciar histórias de ficção de obras científicas que tratem do ramo do conhecimento conhecido como História. Estórias em contraposição à História. No entanto, foi através da obra de Guimarães Rosa que o português moderno descobriu estória e a incorporou ao uso corrente.

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Mais uma vez, Guimarães Rosa não se repetiu. O volume, composto por vinte e uma estórias, representa mais uma significativa etapa na evolução estilística do escritor cordisburguense. Como bem mostrou Heloisa Vilhena de Araujo em seu livro O Espelho,31 o livro tem uma estrutura narrativa 30. BANDEIRA, M. Um Encontro Casual com Rosa. In: ________. Poesia completa e prosa, organizada pelo autor. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974. pp. 694-695. 31. ARAUJO, Heloisa Vilhena de. O Espelho: contribuição ao estudo de Guimarães Rosa. São Paulo: Mandarim, 1998.


Sala Primeiras Est贸rias e Tutam茅ia/Cozinha: cozinha remontada cenograficamente, pain茅is e hist贸ria editorial dos livros


1ª Edição 1962 Livraria José Olympio Editora Capa e ilustrações de Luís Jardim Gravura da Capa

1ª orelha

Folha de Rosto

2ª orelha

Índice

Índice (cont.)

2ª Edição 1964 Livraria José Olympio Editora Capa e ilustrações de Luís Jardim Capa

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Folha de Rosto

4ª Edição Introdução de Paulo Rónai Poema de Carlos Drummond Nota Biográfica de Renard Perez 1968 Livraria José Olympio Editora Capa e ilustrações de Luís Jardim

15ª Edição 2001 Editora Nova Fronteira Capa Victor Burton sobre desenho de Poty


circular. A primeira e a última das estórias – respectivamente As Margens da Alegria e Os Cimos – têm como protagonista o mesmo personagem, um menino, que faz uma viagem com seus tios para uma cidade em construção, provavelmente Brasília, e volta para casa após saber, para seu grande alívio, que sua mãe havia se curado de uma doença grave. No meio do livro, a décima primeira estória se intitula O Espelho, como a refletir as duas faces de uma mesma moeda, a variedade das experiências, das expectativas e dos tipos humanos. Assim, o escritor usa o centro como o pivô em torno do qual constrói o livro. Esse recurso, entretanto, não é a novidade de Primeiras Estórias*. São outras as suas inovações. A mais significativa delas é ter Guimarães Rosa, pela primeira vez em sua obra, produzido estórias curtas, de poucas páginas, em geral entre duas e cinco, que, mesmo pequenas no número de páginas,

são densas e riquíssimas em significado. Para atingir essa síntese, Rosa, mais uma vez, desenvolveu processos linguísticos inéditos, em que consegue dizer muito em poucas palavras, uma tendência que se radicalizaria em Tutaméia. Pela densidade de sua escrita, o livro não é fácil de ser lido, mas o esforço é recompensado pela profundidade do conteúdo. Como prova dessa riqueza e profundidade, poderia ser citada qualquer uma das suas estórias, mas destacaremos apenas duas delas, as que se tornaram, justamente, as mais célebres: A Terceira Margem do Rio e Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha. Além de sua riqueza literária, que, afinal, é o mais importante em se tratando de um escritor como JGR, o livro tem peculiaridades editoriais que são a prova da importância e prestígio que o escritor mineiro havia alcançado quando de sua publicação. A Livraria José Olympio Editora encomendou a Luís Jardim** o desenho da capa e uma série de ilustrações para as orelhas e o índice do final do volume. A marca gráfica do livro é sua capa, de um amarelo vivo que se vê de longe, tão inconfundível que, Rosa, em suas cartas, chama Primeiras Estórias de o amarelinho. Já as ilustrações das orelhas e do índice funcionam como as iluminuras medievais, por serem verdadeiras pontes poéticas para os contos, pois sugerem, mais do que ilustram explicitamente, suas narrativas. O colofão é, também, ilustrado, e tem duas figuras de jogadores de futebol, alusivas à conquista do campeonato mundial de futebol pela seleção brasileira em 1962, ano do lançamento do livro. A José Olympio manteve esse padrão editorial, com as cores e ilustrações originais, em todas as suas edições de Primeiras Estórias, com pequenas variações no tamanho. Quando os herdeiros dos direitos do autor mudaram de editora, houve a supressão dos desenhos de Luís Jardim. Somente na 15ª edição, lançada pela Nova Fronteira em 2001, o índice ilustrado original foi restaurado, e é essa a edição que se acha nas livrarias. Todas essas versões fazem parte da exposição permanente do Museu Casa Guimarães Rosa e podem ser vistas e apreciadas pelos visitantes. * O mesmo acontece em Corpo de Baile, em que o centro é a quarta das sete novelas, O Recado do Morro, que se passa na crista da elevação que lhe dá nome. As outras seis novelas, três anteriores e três posteriores a O Recado…, representam as encostas do morro-livro que deve ser escalado, ter sua crista percorrida e descido pelo leitoralpinista. ** É o mesmo Luís Jardim, autor de Maria Perigosa, o livro que havia derrotado a primeira versão de Sagarana no concurso Humberto de Campos, quinze anos antes do lançamento de Primeiras Estórias. Artista plástico e escritor, Jardim atuou também como um importante ilustrador de livros no mercado editorial brasileiro da época.

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Sala Primeiras Estórias e Tutaméia/Cozinha: painel do livro Tutaméia, peças de cenografia do espaço e ao fundo vista do corredor interno


VII Após Primeiras Estórias, João Guimarães Rosa lançou apenas mais um livro – os outros, Estas Estórias e Ave, Palavra, são publicações póstumas. Esse último livro é Tutaméia – Terceiras Estórias, uma coleção de quarenta estórias sintéticas e quatro prefácios. Os contos que compõem o livro foram publicados inicialmente em um periódico de propriedade do Laboratório Sydney Ross do Brasil, uma revista semanal chamada O Pulso, distribuída gratuitamente em consultórios médicos e farmácias de todo o Brasil. Ficaram famosas as cartas dos leitores em que os contos eram debatidos, com posições fervorosas a favor e contra o autor. Assim, tal como aconteceu no caso de Primeiras Estórias, Rosa pôde experimentar suas criações antes da publicação final. O último livro de Rosa, como não podia deixar de ser no caso de autor tão inovador, causou uma série de interrogações e debates. A primeira questão é: se o livro anterior foram as Primeiras Estórias e Tutaméia tem como subtítulo Terceiras Estórias, quais são as segundas? A resposta não é fácil de ser obtida. Em um artigo sobre Tutaméia, Paulo Rónai, amigo íntimo do autor, descreveu a conversa que manteve com Rosa sobre essa questão: - Por que Terceiras Estórias – perguntei-lhe – se não houve as segundas? - Uns dizem: porque escritas depois de um grupo de outras não incluídas em Primeiras Estórias. Outros dizem: porque o autor, supersticioso, quis criar para si a obrigação e a possibilidade de publicar mais um volume de contos, que seriam então as Segundas Estórias. - E o que diz o autor? - O autor não diz nada – respondeu Guimarães Rosa com uma risada de menino grande, feliz por ter atraído o colega a uma cilada.32

Tutaméia não obteve o sucesso imediato de Sagarana e de outras obras de Guimarães Rosa, tendo alguns críticos tratado o livro como se fosse uma obra menor do escritor. Transcorridos 45 anos de sua publicação, período em que foram elaboradas análises críticas que muito contribuíram para a melhor compreensão de Tutaméia, essa posição depreciativa não é mais dominante. Hoje, com a perspectiva de quatro décadas e meia de leitura, podemos dizer que a incompreensão foi fruto de uma leitura apressada, que não permitiu que se revelassem plenamente as belezas e os segredos das Terceiras Estórias. Além disso, de todos os livros de Guimarães Rosa, Tutaméia é aquele cuja leitura apresenta o maior grau de dificuldade. Nessa obra complexa, o escritor se revela e desvenda parte – muito importante, diga-se de passagem – de seu credo literário. Mas, como é costume na escrita rosiana, isso é feito 32. RÓNAI, Paulo. Os prefácios de Tutaméia. In: ROSA, J. G. Tutaméia (Terceiras Estórias). 3. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1969. p. 194.

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de maneira sutil, quase criptográfica, o que exige leituras seguidas. Por isso, foram necessários tantos anos até que a complexa estrutura de Tutaméia pudesse ser apreendida, mesmo que de forma incompleta. Mais uma vez podemos citar Paulo Rónai: Em conversa comigo (...) ele me segredou que dava a maior importância a esse livro, surgido em seu espírito como um todo perfeito não obstante o que os contos tivessem de fragmentário. Entre estes havia inter-relações as mais substanciais, as palavras todas eram medidas e pesadas, postas no seu exato lugar, não se podendo

suprimir ou alterar mais de duas ou três em todo o livro sem desequilibrar o conjunto. A essa confissão verbal acresce outra, impressa no fim da lista dos equivalentes do título, como mais uma equação mea omnia. Essa etimologia, tão sugestiva quanto inexata, faz de tutaméia um vocábulo mágico tipicamente rosiano, confirmando a asserção de que o ficcionista pôs no livro muito, se não tudo, de si. Mas também em nenhum outro livro seu cerceia o humor a esse ponto as efusões, ficando a ironia em permanente alerta para policiar a emoção.33

Algumas características de Tutaméia já se tornaram famosas: as quarenta estórias e os quatro prefácios são apresentados em ordem alfabética até chegarmos à letra “J”. Nesse ponto, quebra-se a sequência e temos contos começados com as letras “G” e “R”, compondo a sequência das iniciais, J G R, de João Guimarães Rosa. A seguir voltamos à ordem alfabética tradicional até chegarmos à estória final, Zingarêsca. Os “prefácios” são antes digressões sobre a visão estética, poética e humorística de Guimarães Rosa do que propriamente estórias no sentido rosiano. Já os contos formam um magnífico caleidoscópio em que uma multiplicidade de personagens, poeticamente caracterizados, acompanhando o sempre surpreendente poder de criação de João Guimarães Rosa, mergulham no fervilhar da vida com suas infinitas situações e possibilidades. A história editorial de Tutaméia é simples. A edição princeps de 1967, com a célebre capa vermelha, mais uma vez desenhada por Luís Jardim, foi reproduzida sem muitas alterações pela Livraria José Olympio Editora enquanto esta deteve os direitos de edição dos livros de Rosa. A partir da 3ª edição, os editores passaram a incluir no livro, como apêndice, dois textos de Paulo Rónai intitulados, respectivamente, Os Prefácios de Tutaméia e As Estórias de Tutaméia, publicados em 1968. Tais textos podem ser considerados o ponto inicial dos estudos da obra. Essas edições, e as posteriores, de responsabilidade da editora Nova Fronteira, fazem parte do acervo do Museu Casa Guimarães Rosa.

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33. RÓNAI, op. cit., p. 15.


1ª Edição 1967 Livraria José Olympio Editora Capa de Luís Jardim Última obra lançada em vida O Museu Casa Guimarães Rosa possui exemplar com dedicatória do autor a seus pais.

3ª Edição 1969 Livraria José Olympio Editora Capa de Luís Jardim Contém apêndice com análises de Paulo Rónai

2ª Edição 1967 Livraria José Olympio Editora Capa de Luís Jardim

8ª Edição 2001 Editora Nova Fronteira Capa de Victor Burton sobre desenho de Poty

Sala Grande Sertão: Veredas, Estas Estórias e Ave, Palavra/Venda do “seu Fulô”: venda do pai de Guimarães Rosa, reconstituída cenograficamente, com painel da história editorial das três obras


VIII Os dois livros seguintes de Guimarães Rosa, Estas Estórias, de 1969, e Ave, Palavra, de 1970, mesmo tendo sido editados postumamente, foram concebidos e tiveram sua preparação iniciada pelo escritor. Ambos são coletâneas, de estórias o primeiro e de crônicas e poemas o segundo, de trabalhos, em sua maioria, publicados previamente em jornais e revistas. Estas Estórias é composto por oito contos e uma “reportagem poética”, intitulada Entremeio: Com o Vaqueiro Mariano, que, como diz o nome, divide o livro ao meio, além de narrar uma viagem de Rosa ao Pantanal Mato-Grossense, na região conhecida como Nhecolândia, onde conviveu durante alguns dias com o vaqueiro Mariano e com ele “muito aprendeu sobre a alma dos bois”. Essa reportagem foi publicada em 1947 em jornais e depois, em 1952, foi lançada em livro pela editora Hipocampo, conforme narrado acima. Essa pequena edição de bibliófilo, que teve como título Com o Vaqueiro Mariano, fez da reportagem o segundo livro publicado do escritor. A novela Os Chapéus Transeuntes foi escrita para o livro coletivo Os Sete Pecados Capitais, lançado pela editora Civilização Brasileira em 1964. Esse texto, dentro do espírito do livro para o qual foi escrito, trata do pecado da soberba e, pelo seu humor, é uma das mais divertidas criações do escritor cordisburguense. A Simples e Exata Estória do Burrinho do Comandante, publicada inicialmente na revista Senhor de abril de 1960, é uma estória em que Guimarães Rosa aplica sua capacidade criativa na construção de uma narrativa inspirada na linguagem dos marinheiros, em seu característico jargão profissional. Com esse procedimento, ele mostra ser possível adaptar sua concepção de criação a diversas formas de linguagem com o mesmo sucesso obtido nos livros em que predomina o falar sertanejo.

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Mas o mais significativo dos contos do livro, aquele que um autor do porte de Antonio Callado considera “talvez a história curta mais importante da literatura brasileira34”, é Meu Tio o Iauaretê. Essa é a narrativa, feita na primeira pessoa, das aventuras de um onceiro de origem indígena que, após ser contratado para livrar uma fazenda de um grupo de onças, muda de lado e passa a matar e devorar as pessoas. Pela originalidade de sua escrita, Meu Tio o Iauaretê é considerado uma das criações máximas de Guimarães Rosa, no mesmo padrão de complexidade linguística e profundidade do Grande Sertão: Veredas. A primeira publicação de Meu Tio... se deu na revista Senhor, em março de 1961. Mas a data de publicação não é, necessariamente, próxima da de redação, pois no original datilografado do livro existe uma anotação à mão, feita por Rosa, que diz ser o original do texto anterior à escrita do Grande Sertão: Veredas. Desde sua publicação, Meu Tio o Iauaretê tem fascinado

34. CALLADO, Antonio. Depoimento. In: ________. Depoimentos sobre João Guimarães Rosa e sua Obra. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira; Livraria Saraiva, 2011. p. 9.


os leitores e exercido enorme influência nas artes brasileiras. Para dar apenas um exemplo, podemos citar o fato de um músico da importância de Milton Nascimento ter lançado um disco intitulado exatamente Yauaretê, com uma bela onça preta na capa como ilustração do título, pois Yauaretê, com Y ou I, tem o mesmo significado que jaguaretê, ou seja, onça verdadeira em tupi antigo. Mais uma vez, pelas circunstâncias de sua publicação póstuma, Estas estórias tem uma história editorial simples. O padrão estabelecido por sua primeira edição em 1969, contendo um prefácio do organizador da edição, Paulo Rónai, e, também, um texto afetivo da filha do escritor, Vilma Guimarães Rosa, foi seguido com apenas algumas pequenas correções nas edições posteriores. O acervo do Museu Casa Guimarães Rosa exibe as diversas edições do livro Estas Estórias, além de um raríssimo exemplar da edição limitada de 1952 de Com o Vaqueiro Mariano, alguns exemplares da revista Senhor e o livro coletivo já mencionado, Os Sete Pecados Capitais.

1º Edição 1969 Livraria José Olympio Editora Capa de Poty Nota introdutória de Paulo Rónai Página de saudade de Vilma Guimarães Rosa Edição póstuma

5ª Edição 2001 Editora Nova Fronteira Capa de Victor Burton sobre desenho de Poty Nota introdutória de Paulo Rónai Página de saudade de Vilma Guimarães Rosa Um chamado João de Carlos Drummond de Andrade

2ª Edição 1976 Livraria José Olympio Editora Capa de Poty Nota introdutória de Paulo Rónai Página de saudade de Vilma Guimarães Rosa

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Sala Grande Sertão: Veredas, Estas Estórias e Ave, Palavra/Venda do “seu Fulô”: venda do pai de Guimarães Rosa, reconstituída cenograficamente, com painéis das três obras


IX O livro seguinte, Ave, Palavra, o último a ser idealizado e parcialmente preparado por João Guimarães Rosa é uma “miscelânea” que, nas palavras de Paulo Rónai apresenta: (…) notas de viagem, diários, poesias, contos, flagrantes, reportagens poéticas e meditações, tudo o que, aliado à

variedade temática de alguns poemas dramáticos e textos filosóficos, constituíra sua colaboração de vinte anos, descontínua e esporádica, em jornais e revistas brasileiros, durante o período de 1947 a 1967.35

Pelo seu conteúdo heterogêneo, Ave, Palavra não tem a consistência dos outros livros do escritor. Mas, como disse Manuel Bandeira no trecho já citado, “Rosa não escreve na areia: Rosa grava na pedra.” E, por isso, mesmo os textos mais simples e despretensiosos de JGR são significativos e merecem ser preservados como parte inestimável de nosso patrimônio simbólico. Uma das partes mais originais que compõem o livro são as poesias, escritas por Rosa usando anagramas. Além disso, existe um apêndice intitulado Jardins e Riachinhos, do qual fazem parte quatro contos bucólicos que, ao que tudo indica, deveriam constituir um livrinho editado separadamente. Além desses, temos alguns textos que se tornaram famosos, como O Mau Humor de Wotan, em que o escritor narra a morte de um amigo alemão no front russo durante a Segunda Guerra Mundial, Pé Duro, Chapéu-de-Couro, que descreve um encontro de vaqueiros nordestinos, e Minas Gerais, uma declaração de amor a seu estado natal. Do ponto de vista da história editorial, não há muito a ser dito sobre Ave, Palavra. A primeira edição, de 1970, tem a vantagem de trazer a data e o local da publicação original de cada texto, o que é de grande interesse para o leitor mais exigente e para os pesquisadores da obra de Guimarães Rosa. As outras edições, lamentavelmente, eliminaram essa informação, mesmo que tenham incorporado pequenas correções ao texto. Essas edições e algumas outras, mais modernas, são parte do acervo do MCGR.

1ª Edição 1970 Livraria José Olympio Editora Capa de Gian Nota introdutória de Paulo Rónai Edição póstuma

5ª Edição 2001 Editora Nova Fronteira Capa de Victor Burton sobre desenho de Poty Notas de Paulo Rónai Um chamado João de Carlos Drummond de Andrade

35. RÓNAI, Paulo. Nota introdutória. In: ________. ROSA, J. G. Ave, Palavra. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1970.

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X Os textos de Guimarães Rosa não incluídos nas publicações mencionadas acima foram escritos para finalidades específicas, sem que tivessem sido republicados fora de seu contexto. Os mais importantes são: – Simples Passaporte, do livro De 7 Lagoas aos 7 Mares, de autoria de Vasconcelos Costa e lançado em 1960 pela editora Itatiaia, de Belo Horizonte. – Pequena Palavra, um estudo sobre a cultura e a língua húngaras, escrito em 1956 e editado como prefácio da Antologia do Conto Húngaro, preparada por Paulo Rónai, amigo íntimo e um dos intelectuais mais próximos de Guimarães Rosa. – O Verbo & O Logos, o importantíssimo discurso pronunciado por João Guimarães Rosa em sua posse na Academia Brasileira de Letras, em 16 de novembro de 1967, e publicado no livro Em Memória de João Guimarães Rosa, lançado pela Livraria José Olympio Editora em 1968. – A tradução da versão condensada do livro de Fred Bodsworth O Último dos Maçaricos, publicado no volume VI da Biblioteca de Seleções, da editora Ipiranga, em 1958. – O capítulo VII – sempre o 7 pitagórico – do livro coletivo O Mistério dos MMM, novela policial organizada por João Condé e publicada em 1962 pelas edições O Cruzeiro. Existem, também, as seguintes coletâneas de cartas, leitura indispensável para quem deseja se aprofundar no processo de criação do escritor mineiro: – J. Guimarães Rosa Correspondência com o Tradutor Italiano, lançado pelo Instituto Cultural ÍtaloBrasileiro em 1972 em edição de 1.000 exemplares numerados. Atualmente, existe a reedição, de 2003, lançada pela Nova Fronteira/Editora UFMG. – Sagarana Emotiva Cartas de J. Guimarães Rosa a Paulo Dantas, que reúne as cartas que Rosa enviou ao seu amigo, o também escritor Paulo Dantas. A coletânea foi editada em 1975 pela Livraria Duas Cidades. – João Guimarães Rosa – Correspondência Com Seu Tradutor Alemão Curt Meyer-Clason (1958-1967), editado conjuntamente, em 2003, pela Academia Brasileira de Letras, editora Nova Fronteira e Editora UFMG.

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– Cartas a William Agel de Mello, que reúne as cartas enviadas pelo escritor a seu colega do Itamarati W. A. de Mello, editadas em 2003 pela editora Giordano conjuntamente com a Ateliê Editorial. João Guimarães Rosa era um homem reservado, que evitava aparições públicas, entrevistas e badalações em geral. Por isso, ao longo de sua vida, pouquíssimas vezes se dispôs a atender às constantes solicitações da imprensa. Ele dizia que suas opiniões estavam todas nos livros. Para


termos uma imagem mais profunda do homem e da visão que ele tinha da literatura como arte, é necessária a leitura de três importantes entrevistas que foram publicadas em livro. Em janeiro de 1965, em Gênova, na Itália, Rosa concedeu uma longa entrevista em alemão a Günter Lorenz. Nela, ele discute seus princípios éticos e estéticos, sua biografia, seu gosto literário e, até mesmo, suas opiniões políticas e religiosas. Traduzida para o português, a entrevista foi republicada diversas vezes. A mais recente ocorreu na edição da Ficção Completa de Guimarães Rosa lançada pela editora Nova Aguilar em 2006 e reeditada em 2009. A entrevista pode ser lida, também, no livro Guimarães Rosa, organizado por Eduardo Coutinho de Faria para a Coleção Fortuna Crítica e lançado em 1983 pela editora Civilização Brasileira/Pró-Memória Instituto Nacional do Livro. Em 1946, Guimarães Rosa concedeu a Ascendino Leite uma entrevista sobre seu recém-lançado Sagarana. É interessante observar a coerência de Rosa, pois muito do que disse sobre a criação de seu livro de estreia valeu para o resto de sua obra. A entrevista foi publicada em João Pessoa, em 1997, pela Editora Universitária, em publicação organizada por Sonia Maria van Dijck Lima e intitulada Ascendino Leite Entrevista Guimarães Rosa. Em 2000, a mesma editora lançou uma 2ª edição revista do livro. Em 1966, Guimarães Rosa recebeu em seu gabinete no Itamarati o professor e escritor português Arnaldo Saraiva para aquela que, provavelmente, foi sua última entrevista. Por ter sido publicada em Portugal, no livro Encontro de Escritores, lançado pela editora Paisagem em 1972, a conversa é pouco conhecida no Brasil. Quem desejar conhecer melhor a atuação e alguns dos textos oficiais do diplomata João Guimarães Rosa tem uma ótima fonte de estudo no livro Guimarães Rosa: Diplomata, de Heloisa Vilhena de Araújo, editado pela Fundação Bartolomeu de Gusmão em 1987, com 2ª edição em 2007. Mas, por mais curiosos, interessantes e raros que possam ser como objetos, os livros, revistas, plaquetes e demais publicações relacionadas acima não teriam maior valor caso abrigassem a obra de escritor menos importante. Materialmente, seu valor está em serem o meio físico pelo qual se tornou pública e se preservou a arte de João Guimarães Rosa, escritor único e fundamental, cuja originalíssima visão da língua portuguesa como substância essencial a ser trabalhada e cuja percepção metafísica do sertão como metáfora do universo – exterior e interior – de cada indivíduo, o campo de batalha onde se defrontam o bem e o mal, onde afloram e prosperam nossas contradições, revolucionaram nossa maneira de ver e estar no mundo. Quatro décadas e meia após sua morte, sua literatura, um dos elementos consolidadores de nossa identidade nacional e cultural, permanece viva a apontar as veredas da eternidade que nos aguarda e do sertão que nos acolhe. João Guimarães Rosa é, portanto, Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos. Belo Horizonte, abril de 2012

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Gabinete/Depósito da venda: vitrine com as principais edições dos livros de Guimarães Rosa


Cartografia Rosiana

OS MARCOS TERRITORIAIS DO MUSEU CASA GUIMARÃES ROSA Como ocorre na Ilíada e na Odisseia de Homero, a obra de João Guimarães Rosa tem sua cartografia própria. Os nomes dos lugares do sertão onde transcorrem as aventuras de seus personagens são, em sua maioria, inspirados em localidades reais, existentes nos mapas comuns do interior de Minas Gerais. Imaginária, fantástica, mítica mesmo é a relação dessas localidades com o universo do escritor, que transforma o pacato interior mineiro no surpreendente sertão rosiano. Assim, a geografia real de Minas Gerais se transmuta na geografia mítica de João Guimarães Rosa. Essa região mineira, que traz em si a referência geográfica do ambiente onde vivem seus personagens, está representada ao lado no mapa artístico em aquarela de autoria de Júlia Bianchi exibido na Sala Acolhimento / Sala de Estar do Museu. Na área externa do Museu, está exposto o mapa geográfico, contendo a identificação de marcos territoriais instalados em noventa e cinco pontos estratégicos, sendo quarenta em Cordisburgo. O Museu convida aqueles que quiserem travar um contato mais próximo com o ambiente que inspirou o grande escritor a percorrer esse peculiar território.

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Área externa do Museu Casa Guimarães Rosa: painéis com os Marcos Territoriais


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Área de eventos, jardim e quiosque de apresentação do Grupo Miguilim: painéis com mapas, tabelas e textos sobre os Marcos Territoriais (acima) e painéis com o processo de criação em João Guimarães Rosa (abaixo)


Minudências

PESQUISA DE CAMPO E HISTÓRICA PARA A NOVA EXPOSIÇÃO DE LONGA DURAÇÃO DO MUSEU CASA GUIMARÃES ROSA Pablo Luiz de Oliveira Lima

Pesquisador e professor da Universidade Federal de Minas Gerais

Thaís Tanure de Oliveira Costa

Pesquisadora e estudante na Universidade Federal de Minas Gerais

O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas. Demais do Urucúia. Toleima. Para os Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é o dito sertão? Ah, tem que maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre de volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte. E o senhor me desculpe, de estar retrasando em tantas minudências. Mas até hoje eu represento em meus olhos aquela hora, tudo tão bom; e, o que é, é saudade. João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas.

História e saudade andam juntas no sertão de Guimarães Rosa. Essa interdependência, que em muitas passagens aparece na obra do escritor, também é encontrada nos relatos dos habitantes do sertão de hoje quando narram suas vidas, suas travessias. Percorrendo as Gerais é possível conhecer pessoas e lugares, suas rotinas e festas e diversos trabalhos com o patrimônio cultural. Muita vida e muita saudade: é sensível que se trata de um outro sertão. Ao longo da pesquisa de campo, testemunhamos a perda das matas e a invasão dos eucaliptos, a poluição dos rios e o esquecimento de muitas veredas. Dinâmica afetiva que os olhos podem apreender, mas muito que não se vê. A saudade, no tempo decorrido, aparece na oralidade do dia a dia. Em uma passagem de Grande Sertão: Veredas, Rosa, na voz de Riobaldo, questiona outro personagem que tem a intenção de viajar pelo sertão para fins de conhecê-lo. Riobaldo vê com estranheza o intento e adverte que o “senhor” havia chegado tarde. O sertão já não era o mesmo que outrora: Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios, para sortimento de conferir o que existe?

Tem seus motivos. Agora – digo por mim – o senhor vem, veio tarde. Tempos foram, os costumes demudaram. Quase que, de legítimo leal, pouco sobra, nem sobra mais nada. Os bandos bons de valentões repartiram seu fim;

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muito que foi jagunço, por aí pena, pede esmola. Mesmo que os vaqueiros duvidam de vir no comércio vestidos

de roupa inteira de couro, acham que traje de gibão é feio e capiau. E até o gado no grameal vai minguando

menos bravo, mais educado: casteado de zebu, desvém com o resto de curraleiro e de crioulo. Sempre, no gerais, é à pobreza, à tristeza. Uma tristeza que até alegra. Mas, então, para uma safra razoável de bizarrices, reconselho de o senhor entestar viagem mais dilatada. Não fosse meu despoder, por azias e reumatismo, aí eu ia. Eu guiava o senhor até tudo. ( J.G.Rosa. Grande Sertão: Veredas. RJ: José Olympio, 1984, p.21)

O velho vaqueiro Riobaldo demonstra vontade de acompanhar o viajante, limitada, porém, pelo reumatismo. E sugere uma viagem mais longa. Mesmo considerando que “Tempos foram, os costumes demudaram”, Riobaldo afirma que a empreitada ainda é possível porque os lugares continuam como testemunhos da história: O senhor vá lá, verá. Os lugares sempre estão aí, em si, para confirmar. ( J.G.Rosa. Grande Sertão: Veredas. RJ: José Olympio, 1984, p.22)

A pesquisa de campo para a Nova Exposição do Museu Casa Guimarães Rosa, Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos, foi realizada ao longo de três meses (julho a outubro de 2011) e percorreu, ao todo, pouco mais de 1.500 km. Esse trabalho foi organizado coletivamente pela equipe responsável pelo projeto, e se desenvolveu por meio de duas viagens de campo pelo sertão de João Guimarães Rosa. A primeira por Cordisburgo, Morro da Garça, Curvelo, Inimutaba, Presidente Juscelino, e Araçaí. E a segunda por Felixlândia, Três Marias, Pirapora, Buritizeiro, Várzea da Palma, Lassance e Corinto.

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O objetivo dessas viagens foi reconhecer o patrimônio cultural da região em sua relação com a obra de João Guimarães Rosa, e realizar registros fotográficos de bens culturais da região. Foram desenvolvidas fichas de registro de bens culturais materiais (móveis e imóveis) e intangíveis (manifestações culturais, técnicas, saberes, grupos ou indivíduos). Estas fichas foram preenchidas por pesquisadores locais vinculados ao projeto: Maria de Fátima Castro, José Maria Gonçalves e José Osvaldo dos Santos (Brasinha). E foram transcritas por Thaís Tanure. A partir desse levantamento feito na região, nas memórias da população e na leitura da obra de João Guimarães Rosa, e ainda no Arquivo Público Mineiro, realizamos a seleção de um conjunto de bens culturais que pode ser trabalhado pela nova exposição como acervo operacional do Museu Casa Guimarães Rosa. Um acervo operacional é composto por bens culturais que não podem ser incorporados fisicamente pelo museu – como um imóvel, uma paisagem, um grupo ou manifestação cultural – mas que podem ser pesquisados, documentados e exibidos pelo museu de diversas maneiras: catálogos, dossiês, seminários, exposições. O acervo operacional pode também receber intervenções in loco, como placas informativas, eventos, etc…


Em nossa pesquisa foram encontrados lugares, manifestações culturais, grupos e indivíduos que dão vida à cultura do sertão de João Guimarães Rosa. Realizamos um amplo levantamento de informações sobre o patrimônio cultural dessa região e identificamos mais de setenta bens culturais materiais (móveis e imóveis) e intangíveis (manifestações culturais, técnicas, saberes, grupos ou indivíduos). As informações desse acervo operacional estão agora disponíveis para pesquisas e exposições futuras no Museu Casa Guimarães Rosa. A pesquisa revelou a importância especial de alguns bens culturais para o Museu Casa Guimarães Rosa: a própria casa-sede do museu; as cidades de Cordisburgo e Morro da Garça e a vila de Andrequicé, no município de Três Marias. Essas localidades, seus núcleos urbanos e várias fazendas, são portadoras de fortes ligações com a obra de João Guimarães Rosa e com os trabalhos no campo da cultura. Outros dois grandes conjuntos de acervos operacionais que a pesquisa considerou fundamental para o Museu Casa Guimarães Rosa são o Rio São Francisco, com suas diversas cidades e vilas ribeirinhas, suas tradições sertanejas centenárias, e o complexo ferroviário regional, composto por trilhos, estações e edificações ferroviárias nos municípios de Sete Lagoas, Araçaí, Cordisburgo, Corinto, Lassance, Várzea da Palma, Pirapora e Buritizeiro, representantes da modernidade que alcançou e transformou paisagens do sertão. O Velho Chico e a Maria Fumaça estão sempre presentes na obra de João Guimarães Rosa. Ao percorrermos os velhos caminhos de tropeiros transformados em estradas de asfalto, observamos a pujança dos eucaliptos verdejando sobre a terra seca e encontramos as ruínas do progresso em velhas estações de trem. Conhecemos e ouvimos as mulheres e homens do sertão que nos permitiram ver a força da cultura sertaneja, das pessoas que trabalham cotidianamente sob o sol, nas terras e nas águas, e daqueles que estão à luz da obra e vida de João Guimarães Rosa. Resistências de outros tempos estão aí, no agora, perto de nós. Trabalhar a literatura de João Guimarães Rosa, a sua vida, a sua terra e o seu povo, para a construção de uma exposição museológica, não é algo simples. É trabalho de coração, pernas, mãos e olhos; de ouvidos e outros sentidos. Por onde passam os pesquisadores de campo, com quem e como conversam, em que momento, em que época da vida, são minudências que condicionam as sensações e o conhecimento produzido. Ao fim, esperamos ter conseguido mediar as intenções de um projeto de pesquisa para uma exposição tão bela com a realidade concreta do campo percorrido. Um difícil, delicioso e honroso labor quando se trata de percorrer, no sertão, os caminhos de João Guimarães Rosa. O conteúdo completo da pesquisa está disponível no site www. amigosdomcgr.org.br

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Vão dos Buracos – Chapada Gaúcha/MG

Interior da casa de D. Maria Paquinha, Cordisburgo/MG


Museu Casa Guimarães Rosa e o Projeto Memória Viva do Sertão A importância de preservar a memória de vida justifica-se pela necessidade de manter e ajudar a construir a história de lugares e pessoas. Sendo assim, o projeto Memória Viva do Sertão vem contribuir para que o Museu Casa Guimarães Rosa, instituição vinculada à Superintendência de Museus e Artes Visuais da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, tenha em seu acervo o registro das histórias, do modo de viver, de falar e de pensar das pessoas do sertão. Com o registro dessas memórias, teremos a oportunidade de sensibilizar as pessoas sobre a importância de repensar o nosso presente e o futuro a que almejamos. A valorização do conhecimento cultural advinda das experiências acumuladas e das vivências cotidianas dessas pessoas nos permite fortalecer a unidade social, como ferramenta que restaura e amplia a liberdade de aprender, de descobrir e de viver. O resgate e a reconstrução dessas histórias irão auxiliar o cidadão a conhecer e a desenhar sua realidade e a realidade de seus antepassados como forma de perpetuá-las às novas gerações. O projeto Memória Viva do Sertão tem como enfoque o uso da memória como resgate da história afetiva, a qual envolve recordações, emoções e outros sentimentos, fazendo com que as pessoas do sertão compartilhem suas lembranças individuais com todos nós. O documentário Conto o que vi, o que não vi, não conto nos permite conhecer essas diversas histórias que foram construídas cotidianamente por pessoas que, ao rememorarem a própria vida através dos depoimentos, se sentiram confiantes e orgulhosas de suas experiências, sentimentos, decepções e alegrias de um passado ao mesmo tempo tão distante e tão próximo. Ronaldo Alves de Oliveira

Coordenador do Museu Casa Guimarães Rosa Sr. Ângelo, Serra das Araras/MG

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D. Lica, Cordisburgo/MG


Memória Viva do Sertão é um projeto que nasceu da literatura do escritor João Guimarães Rosa e de viagens por cidades do sertão de Minas Gerais (Cordisburgo, Morro da Garça, Andrequicé/Três Marias). Entre realidade e ficção e o interesse por histórias de vida, surgiu a idéia de documentar a cultura local vivenciada pela população e retratada pelo escritor. Cantigas e brincadeiras, serestas e danças, casos e histórias e a luta pela sobrevivência despontavam nas histórias dos entrevistados. As primeiras entrevistas em áudio e os registros fotográficos datam de 1997. Dessa forma, um acervo foi constituído processualmente por iniciativa da idealizadora do projeto, Beth Ziani. Com o projeto da Nova Exposição Permanente do Museu Guimarães Rosa, a pesquisa foi ampliada e a relação da literatura com a cultura, a memória e a oralidade tornaram-se fonte para a realização do documentário – Conto o que vi, o que não vi, não conto e para o projeto Manto do Vaqueiro. Estes dois trabalhos foram desenvolvidos criando um diálogo entre as pessoas do sertão e a obra de Guimarães Rosa. O documentário – Conto o que vi, o que não vi, não conto, aborda a vida de sertanejos e coloca-os como narradores das suas histórias. A proposta foi registrar experiências de vida em um sertão antigo, mas ainda vivo na memória do povo. Com reflexões sobre a infância, a maturidade, as tradições e as relações com a terra e com o sertão, o documentário apresenta um sertão que sobrevive na lembrança das pessoas e na literatura de Guimarães Rosa. As gravações foram realizadas nas cidades: Cordisburgo, Morro da Garça, Andrequicé/Três Marias, Corinto, Curvelo, Pirapora, Buritizeiro, Urucuia, Riachinho, Arinos, Chapada Gaúcha, Parque Nacional Grande Sertão Veredas, Serra das Araras, Vão do Buraco, São Francisco, Montes Claros, Itacambira. Direção e roteiro Beth Ziani; Fotografia e edição Joacélio Batista; Direção de arte Ronaldo Alves.

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Rio Urucuia, Urucuia/MG


O Manto do Vaqueiro é o resultado de uma longa pesquisa sobre a vida e a obra do escritor João Guimarães Rosa na tentativa de estabelecer paralelos entre memória, literatura e outras linguagens.

A réplica de uma antiga capa de vaqueiro concretizou a força da memória a ser trabalhada e a impressão das cores do sertão, do azul celeste ao marrom terra, por toda a extensão, compôs a atmosfera dessa paisagem. Os desenhos do artista plástico José Murilo, também impressos, trouxeram o cotidiano do sertão e a leitura de episódios da obra Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa.

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Na parte interna da capa, foi registrado o processo criativo do escritor. A primeira página de Grande Sertão: Veredas encontra-se na parte central e nas laterais estão fragmentos do diário A Boiada, referências da viagem de 1952 realizada pelo autor com vaqueiros e o chefe da comitiva Manuel Nardy.


O Manto foi bordado por aproximadamente duzentas pessoas. A capa partiu da cidade de São Paulo e viajou por Cordisburgo, Andrequicé, Três Marias e Morro da Garça. Três miniaturas foram confeccionadas e bordadas pelas comunidades com a intenção de registrar referências da identidade de cada cidade. Assim, além de bordar o Manto, cada localidade também bordou uma pequena réplica.

Este Manto é a representação do sertão mineiro, uma homenagem aos nossos vaqueiros, personagens tão importantes na história do Brasil e também uma possível leitura da literatura de João Guimarães Rosa, mas acima de tudo é a experiência coletiva de tecer e compartilhar a criação de uma obra bordada por muitas mãos a partir de muitas e muitas histórias. Este projeto é dedicado a três pessoas que muito contribuíram para o desenvolvimento desse movimento em torno da obra de Guimarães Rosa: Calina Guimarães (criadora do Grupo de Contadores de Estórias Miguilim); Marily da Cunha Bezerra (idealizadora do Circuito Literário e estimuladora de muitos projetos realizados nas cidades do Circuito); Neuma Cavalcante (colaboradora e parceira da Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa / Semana Roseana). Concepção e curadoria: Beth Ziani Direção de arte e figurino: Joana Salles Criação e Desenvolvimento: Beth Ziani e Joana Salles Desenhos e pinturas: José Murilo de Oliveira Pesquisa literária: Beth Ziani Bordado: Grupo Estrelas do Sertão, moradores de Cordisburgo, Morro da Garça, Andrequicé, Três Marias e São Paulo.


“The sertão (backlands) is as big as the world.” Welcome to the magical world of the writer João Guimarães Rosa! The reframing of Museu Casa Guimarães Rosa was one of Minas Gerais State Department of Culture’s priorities. Thanks to the joint venture with Petrobras and the Ministry of Culture, the life and work of one of the greatest writers in the Portuguese language is much more present in this house where he was born. This project favored the setting up of a collection with all the work by Guimarães Rosa, in its main publications, including rare ones, making it available to researchers. The museum becomes the sertão and the sertão becomes the museum. With the reevaluation and inclusion of new points of view, the physical space of the Museum is expanded. Museu Casa Guimarães Rosa invites you to visit the forty landmarks installed in Cordisburgo. Either on foot or riding a bike discover the town which was the heart of the writer and which will now enter your own heart. Do not miss the socio-cultural Project developed by the Association of Friends of Museu Casa Guimarães Rosa. Take part in a session in Cordisburgo’s Academy of Letters Guimarães Rosa. Other fifty-five landmarks, mentioned in his work, were installed in a territory which covers sixteen towns in Minas Gerais inland. We suggest you follow the Eco Literary Walks project, by Brasinha – a living character from Guimarães Rosa’s books. “People do not die, they become enchanted.” Unveil the secrets of Riobaldo and Diadorim, ride a horse with Manuelzão, penetrate the sertão of Minas Gerais, discover the peculiar way of being born and raised there. From his bedroom window, imagine the desire that Joãozito had of wandering and writing about the view from that window. When visiting Seu Florduardo’s store allow your mind to travel so that it may reproduce the scene of muleteers and traders entering the place to negotiate or even “chat”. Finally, let yourself be touched by the Miguilins, teenagers who teach us to love this Museum more and more.

The exhibition Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos / Rosa of the Times, Rosa of the Winds is the result of a thorough job, wandering through the work and the backlands of Guimarães Rosa. Preparing a new exhibition for Museu Casa Guimarães Rosa could not dispense with listening to, seeing and feeling the people, the landscape, the things. And thus it was prepared. The sertão of yesterday and of today were explored and re-lived from Cordisburgo and throughout 1,500 kilometers, which certainly extend out of sight.

“The real is neither at the departure nor at the arrival: it is in the middle of the way that it presents itself to us”

Even if the old tracks used by the cattlemen have turned into paved roads. Or if old railway stations keep within their ruins, bits and pieces of the memories of times. The greenness of the eucalyptus may even cover what once was dry land. And we may even ask ourselves: what is left of Guimarães Rosa’s sertão?

The muleteers group is standing in front of the house. Do not miss the opportunity to go on this trip again, whether to discover or rediscover the work of the great Brazilian writer, from Minas Gerais, from Cordisburgo, João Guimarães Rosa. Eliane Parreiras Secretary of Culture of the State of Minas Gerais

Léo Bahia Superintendent of Museums and Visual Arts

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After all, the sertão is everywhere.

Many things. Many memories. A lot of life. The cultural heritage of Guimarães Rosa’s world – the sertão, the backlands of Minas Gerais – survives not only through the landscape, but also through the voices of men and women, of all ages, who remember, and upon remembering preserve and contribute for the memory to remain alive through times. Thus, as Guimarães Rosa’s legacy, there is, among the several different backlands, one that remains inside us – which bends over the richness of the author’s world – and inside everyone who daily practices a way of seeing and feeling their land. Petrobras, by means of sponsoring the exhibition Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos, reasserts its commitment to Brazil, its historical heritage and its art. Most certainly Museu Casa Guimarães Rosa consolidates its essential role in the permanent construction of the Brazilian cultural memory. PETROBRAS


THE EXHIBITION ROSA DOS TEMPOS, ROSA DOS VENTOS ROSA OF THE TIMES, ROSA OF THE WINDS And, the more I read and live and meditate, the more life, reading and meditation make me feel bewildered. All is mystery. Life is but mystery. All is and is not. Or: sometimes it is, sometimes it is not. (All my books simply say this) João Guimarães Rosa, in a letter to Joaquim Montezuma de Carvalho

Celebrated as the major character of our literature, Guimarães Rosa is part of an exclusive group of writers whose capacity of inventing transcends, expands and enriches the restrictions and usual resources of his language. Thus, his work, more than any other produced in Brazil in the 20th century, is considered the turning point of the evolution of our language. In Navegação de Cabotagem, Jorge Amado, only to mention one of his distinguished colleagues, says the Brazilian language is “another language after Guimarães Rosa”. However, Rosa’s art went beyond this remarkable linguistic invention. The fact that it is built on several of the essential elements of our nationality and because of the subtle and vivid portrayal of its characters, it has also become a symbol of the Brazilian identity. Result of inexhaustible capacity of invention and creation of a unique artist, Rosa’s universe is the universe of each one of us. After all “the sertão is inside us”. The deep identification of the reader with this world takes place in a plausible manner because João Guimarães Rosa does not place himself above his characters. He does not work like a common author who simulates the sensations and feelings of his creatures. He stands in their shoes. More than a writer, Rosa is equally one of his characters because he mixes the creation plans and thus spontaneously involves the reader. That is why Riobaldo, in Grande Sertão: Veredas/The Devil to Pay in the Backlands, the jaguar hunter in Meu Tio o Iauaretê / The Jaguar and Other Stories and also the narrator in A Terceira Margem do Rio / The Third Bank of the River seem to talk to the interlocutor who would be another character of the poem. The three of them – the writer, reader and character – live in the same house.

Upon opening the long term exhibition Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos to its visitors, Museu Casa Guimarães Rosa offers its public the opportunity to visit the great universe contained in João Guimarães Rosa’s work. Thus, in each room of the museum, the visitor will find an important collection relative to significant moments of the biography and the home town of the writer from Cordisburgo, besides selections of texts, critical appraisals and illustrative images of the editing background of each one of his books. The exhibition follows the guide below: Living Room: Welcoming the visitor Guimarães Rosa's bedroom: Cordisburgo Alcove: Sagarana Grandma’s bedroom: Campo Geral (in Corpo de Baile) Parents’ bedroom: Biography and timeline of the writer’s life and work Dining Room: Corpo de Baile (other novels) Kitchen: Tutaméia / Primeiras Estórias Garden and kiosk: map referring to landmarks / Guimarães Rosa’s vocabulary Warehouse: Temporary exhibitions (currently the exhibit A Boiada) Warehouse: Office/Library with copies of several editions of Guimarães Rosa’s books “Seu Fulô’s” store: Grande Sertão: Veredas / Estas Estórias / Ave, Palavra Leonardo José Magalhães Gomes

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MUSEU CASA GUIMARÃES ROSA “The building of Museu Casa Guimarães Rosa is characterized by the simplicity of its architectural design so common in Minas Gerais in the middle of the 19th century. However, it stands out due to its importance as the residence where during childhood there lived the distinguished writer João Guimarães Rosa, who disclosed the identity of his hometown and the sertão / backlands of Minas worldwide. For Cordisburgo, the Museum represents the milestone of the crossing of João Guimarães Rosa through this world and the importance for his fellow countrymen. Due to all that, we suggest that Museu Guimarães Rosa be declared a listed building at municipal level.” (Final excerpt of the opinion prepared by architect José Ozório Caetano for declaring the Museum as listed building)

Museu Casa Guimarães Rosa is set up in the house where the writer João Guimarães Rosa was born and lived the first nine years of his life. The building, located on the corner of Rua Padre João and Travessa Guimarães Rosa, in Cordisburgo, Minas Gerais, was built at the beginning of the 20th century and it is strategically situated opposite the station of the Central do Brasil Railway, opened on 5 August, 1904, in order to ship and export to other regions in Brazil the cattle raised in the farms neighboring the region. One of the main items of the Museum’s collection is its building, consisting of João Guimarães Rosa’s family residence and the store run by his father, “seu” Florduardo, known as “seu Fulô”, a very common type of construction in Minas Gerais inland. The store, a typical retail store from the end of the 19th century, had as its main customers the cattlemen who would bring the cattle for shipment in the trains of the Central Railway. In this store, the boy Joãozito had the opportunity to be with the cattlemen and other customers who would come and he could, consequently, listen to many picturesque stories and several anecdotes which most certainly stimulated the lively imagination of the future writer. “Seu Fulô’s” store was in operation until 1923, according to information from the trader Elpídio Meireles de Avelar, who replaced Seu Florduardo. In the subsequent decades, the establishment had several owners and among other destinations, it was a gambling house and bar. In 1971, the State of Minas Gerais Government bought the real estate from Ildefonso Rodrigues Costa, transferring it to the State Institute of Historical and Artistic Heritage of Minas Gerais - IEPHA/MG, defining its destination as a house museum. Right after that, the institution began its restoration, recovering the original architectural aspects of the building and after that promoting its declaration as listed building. In 1982, the building went through another restoration and architectural adaptations. At that time, a new exhibition was prepared and the store was reconstituted as a scenario, and it was kept this way in the exhibition Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos / Rosa of the Times, Rosa of the Winds.

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Opened on 30 May, 1974, Museu Casa Guimarães Rosa is connected to the Superintendence of Museums and Visual Arts of the Minas Gerais Department of Culture and offers its visitors a collection composed of seven hundred documents relative to the life and work of Guimarães Rosa , such as the original typed version of the book Tutaméia; the writer’s personal effects, such as his typewriter and the sword from his

uniform of the Brazilian Academy of Letters, used when he took office in that Academy, furniture, photographs, works of art and important editions of his books. The Museum, in a partnership with the Association of Friends, promotes several activities and cultural events in its physical space and in Cordisburgo, aiming at the intense participation of the museum visitors and the community. One of these activities is the Semana Roseana/Guimarães Rosa Week, an annual event, with a varied program executed in partnership with the Academy of Letters of Cordisburgo, the State Department of Culture, the Superintendence of Museums and Visual Arts, the Municipality and the Municipal Chamber, as celebration of João Guimarães Rosa’s birthday. For guided visits, the Museum relies on Grupo de Contadores de Estórias Miguilim/Miguilim Story Tellers Group, who receives the guests narrating excerpts from Guimarães Rosa’s books. The Institution also supports Grupo Caminhos do Sertão/Sertão Tracks Group for the performance of eco-literary walks in tracks in the Sertão referred to or described in the writer’s books. Portal Grande Sertão, set up a few meters from the Museum, in Praça Miguilim, and conceived as an extension of the institution and a touristic spot of the town, stands out in the Cordisburgo landscape. Designed by the artist Léo Santana, the monument is composed of life size sculptures of six muleteers riding horses and typically dressed, greeted by Guimarães Rosa. Visiting Museu Casa Guimarães Rosa is a remarkable experience, both for people who know the work of the great writer from Cordisburgo and for people who are initiating in the magical universe of the sertão. For those already used to reading the writer’s books, the visit offers the opportunity to know, in the museum’s collection, evocative elements of the environment where Rosa was born and raised, as well as about his later biography and work. This collection is undoubtedly a great complement to enrich even more the reading of Guimarães Rosa’s work. For the neophyte, the visit may be the passport or the impulse which was lacking for diving into this author’s books, whose work is a fundamental factor for the definition of our nationality.


ASSOCIATION OF FRIENDS OF MUSEU CASA GUIMARÃES ROSA The Association of Friends of Casa Guimarães Rosa, established in 1994, is a philanthropic entity acknowledged as having public utility both at municipal and state levels and it stands as a convergence center and cultural reference for Cordisburgo’s residents. The Association’s main target is to support and offer the community the participation in the activities of Museu Casa Guimarães Rosa, which is one of the units of the Superintendence of Museums and Visual Arts, an agency of Minas Gerais State Department of Culture. The Museum and its Association of Friends develop several activities parallel to assisting the visitors and to consulting and disclosing of its collection. These actions are already part of the Cordisburgo’s cultural and touristic calendar and they rely on the participation of the local community and visitors coming from all over the country. Since 1988, in July, in order to celebrate João Guimarães Rosa’s birthday, the Semana Roseana/Rosa’s Week has been taking place. The event relies on the support of the Association of Friends of Museu Casa Guimarães Rosa and it is promoted by the Academy of Letters of Cordisburgo in a partnership with the State Department of Culture, the Superintendence of Museums and Visual Arts, the Museum, the Municipality and the Municipal Chamber. Every year a theme taken from the writer’s work is chosen, and the public is offered a varied and free of charge cultural program, consisting of music, dance and drama performances, art workshops, film festivals and round tables. These activities involve the town and attract a diversified audience. The intense popular participation is the keynote of this unique event that cherishes the work of one of the greatest writers in the Brazilian literature. The entity is a partner of Grupo Caminhos do Sertão/Sertão Tracks Group offering eco-literary walks through tracks in the sertão referred to or described by Guimarães Rosa in his books. During the walks, which mainly occur in strategic points around Cordisburgo, members of the Group narrate and act out excerpts which make allusions to the places along the route. This activity enables the participants to learn about the sertão landscape, a scenario admired and so well described by the author. In order to assist Cordisburgo’s community, the Association conserves, in its head office, located a few meters from the Museum, the Riobaldo and Diadorim Public Library, which offers a good collection of books meant for children and teenagers and for adults, fiction and reference books, national and foreign literature. The library contributes to the encouragement of reading in the town, because besides lending books to several types of readers, it promotes activities such as “Tale Time”, “Poetic Tea Time” and “Study Moments”, among others. The Association of Friends of Museu Casa Guimarães Rosa is also the supporter of Grupo Contadores de Estórias Miguilim/Miguilim Story Tellers Group, consisting of young residents of Cordisburgo. The group is responsible for receiving the public in the Museum and through the narration of excerpts of Guimarães Rosa’s books, they give life to the author’s work. The group’s performance makes the visits to the Museum more attractive, it motivates reading and discloses the distinguished writer’s work. Grupo Contadores de Estórias Miguilim was created in 1995 by Calina Guimarães, Guimarães Rosa’s cousin, who was responsible for the preparation of the first groups to perform in the Museum.

Since then, the selected young people receive specific preparation for disclosing Rosa’s literature. This formation has become the main educative action of the Museum and it is conducted by means of a close partnership between the institution, the Association of Friends and the local community. Since 2000, the story tellers Dôra Guimarães and Elisa Almeida, who integrate Grupo Tudo Era Uma Vez/All was Once Upon a Time Group, have been responsible for directing and forming new members of Grupo Contadores de Estórias Miguilim. The pedagogue Lúcia Corrêa Goulart de Castro also takes part in this process, in the pre-selection of candidates, and Fábio Júnio Barbosa, former participant and current coordinator of the Group in the Museum, is responsible for evaluating the talent of the new Miguilim in narrating excerpts of Guimarães Rosa’s work and assisting the visitors. The performance of the story tellers of Museu Casa Guimarães Rosa and of the Association of Friends has been a source of inspiration for other projects which, like the Miguilins, seek to integrate art, literature, personal and community development through the narration of stories. The model created in Cordisburgo was implemented or adapted by entities from other municipalities in Minas Gerais, such as Araçaí, Morro da Garça, Três Marias and Itabira. The performance of Grupo Contadores de Estórias Miguilim is decisively responsible for expanding the number of visitors to Museu Casa Guimarães Rosa and of readers of the writer’s work. While many museums count on the contemporary media as a means to attract young people, Museu Casa Guimarães Rosa and its Association of Friends seek in the oral tradition the strategy of getting close to this audience. By means of the story tellers, the young people actively participate in the activities proposed by the entities, identifying themselves with their institutional mission and sharing the responsibility for the recognition and preservation of the cultural heritage of the town. Besides receiving the visitors of the Museum in guided visits, the Miguilins take part in local, regional and other states cultural events. Through the spontaneous accounts of visitors, we can say that their performances thrill and stir the audience’s emotion. Finally the Association of Friends of Museu Casa Guimarães Rosa supports Grupo da Melhor Idade Estrelas do Sertão/Sertão Stars Senior Citizens Group, established in 2003 and consisting of approximately 30 community women, with ages ranging from 30 to 80. The current president of the Association, Solange Agripa Trombini, is the coordinator of the group who besides working with embroidery, also works with crochet and sewing and they can rely on the young artist Leonardo Goulart, who creates the drawing for the embroidery. The Estrelas do Sertão regularly meet to embroider images and excerpts of Guimarães Rosa’s books. They get their inspiration both from the work by their distinguished fellow countryman and from their memories, because they also portray scenes related to their own souvenirs. The products are quilts, cloth panels and mandalas, tea cloths, hand towels, cushions, kitchen ornaments, among others, commercialized in the Association’s head office. As the main highlight: the used techniques, traditional embroidery stitches and their several variations. These works are always handmade, also using several different embroidery stitches, many of them developed and improved by the women of this group. For the finish, they use ribbons, shoelaces, soutaches and crochet. The cloth panels,

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cushions and quilts are made with more elaborate stitches which portray the textures of the flowers, trees (mainly buritis and colored tabebuia trees), birds and typical animals of the Minas Gerais sertão. The train station and the small and simple Patriarca de Cordisburgo Chapel are also recurrent in the embroidery work. These products come in varied sizes and are embroidered in various types of fabric, such as raw fabric, popeline and tricoline and also in simpler fabrics such as burlap sacks. Regularly the participants of the group interact with other embroidery manufacturers from other parts of the state and of the country, by means of workshops prepared mainly during the Semana Roseana. They also take part in similar events in towns of Minas Gerais and São Paulo inland, giving embroidery courses. Thus, the Association of Friends of Museu Casa Guimarães Rosa develops various activities by means of artistic groups which they support, all of them with outstanding performance in the town and in the region. In 2010, the institution obtained the acknowledgment of its socio-cultural and educational activities as relevant by the Ministry of Culture and by the Minas Gerais State Department of Culture, becoming a Cultural Center.

TIMELINE OF JOÃO GUIMARÃES ROSA’S LIFE AND WORK 1908: Born on 27 June, in Cordisburgo, Minas Gerais, son of Florduardo Pinto Rosa (“Seu Fulô”) and Francisca Guimarães Rosa (Dona Chiquinha). 1918 a 1924: Moves to Belo Horizonte and studies at Colégio Arnaldo. Spends a short period of time as boarding school student at Colégio Santo Antônio in São João del-Rei. 1925: Back in Belo Horizonte, enters Medical School in Minas Gerais University. 1929: Marries Lygia Cabral Pena on 27 June, date of his 21st birthday. In December, publishes his first fiction work, the short story O mistério de Highmore Hall, in O Cruzeiro magazine. 1930: Publishes Makiné in O Jornal and Chronos kai anagke (Time and fate) and Caçadores de camurças in O Cruzeiro. These short stories are rejected by Guimarães Rosa and they are only re-edited posthumously in 2011. On 21 December, graduates in Medicine, having been chosen as class orator by his classmates. 1931: Moves to Itaguara, where he works as a doctor. On 5 July, his first daughter Vilma is born. 1932: Works as volunteer doctor in the Constitutionalist Revolution, defending the Vargas government. 1933: Moves with his family to Barbacena, where he works as a doctor of the Minas Gerais Public Force. 1934: On 17 January, his daughter Agnes is born. On 11 July, joins the diplomatic service, appointed as 3rd class consul, after being accepted in the Itamaraty competitive examination. Moves to Rio de Janeiro with his family. 1936: Wins 1st place in competition promoted by the Brazilian Academy of Letters with Magma, published posthumously in 1997. 1937: Is classified in 2nd place in Humberto de Campos Prize, by José Olympio Publisher, with the book Contos. 1938: Is sent to Germany, where he lives without his family until 1942, as assistant-consul of Brazil in Hamburg. Meets Aracy Moebius de Carvalho (Ara), an employee at the Consulate, who will become his second wife. 1942: From January to May he is interned in Baden-Baden due the declaration of war between Brazil and Germany. Returns to Brazil and is promoted to 2nd secretary of the embassy in Bogota, where he remained from September 1942 until June 1944. In that city he suffered a lot from soroche, or altitude sickness, reporting it in the short story Páramo, published in Estas Estórias. 1943: On 5 April, he and Lygia are officially separated. 1944: On June 27 1944, returns to Rio de Janeiro, where he will remain until August 1948.


1945: Re-prepares his short stories book, changes the title to Sagarana, a neologism created by him, and hands it to Editora Universal (Publisher) for publication. In December, the writer visits Minas Gerais inland, including Cordisburgo.

1957: With the success of the books published in the previous year supported by the public and reviews, he consolidates his prestige as one of the major names in the Brazilian literature of the 20th century. Thinks about applying for the Brazilian Academy of Letters (ABL).

1946: In February, he is appointed chief of staff to the minister of Foreign Affairs, João Neves da Fontoura, position that he will hold until 1948.

1958: In January, he is defeated by Afonso Arinos de Melo Franco in the elections for ABL, for the chair vacated by José Lins do Rego.

In April, Sagarana, his first book is published by Editora Universal. The reception by the public and critics is highly favorable. In the same year, the 2nd edition comes out. In July, participates in the Peace Conference in Paris as the Brazilian Delegation secretary. 1947: In July, travels through Pantanal Mato-Grossense and visits Nhecolandia region. In Firme farm, where he remained for a week, he met the cattleman Mariano, a character made immortal in the short story-report Com o vaqueiro Mariano published by Correio da Manhã on 26 October in the same year. The text, also re-published in 1952 by Edições Hipocampo of Niterói with limited edition, was included in the posthumous book Estas Estórias, with the title Entremeio: com o vaqueiro Mariano. 1948: On August 20, in Mexico, marries Aracy, by proxy. Next, the couple goes to Paris, where he works at the Brazilian Embassy, remaining there until 1951. 1949: Lives and works in Paris. Travels around Europe in the company of his wife Aracy and his daughter Vilma. Visits and starts showing his preference for Italy. Thoroughly reads The Divine Comedy, by Dante. 1950: Is promoted to the position of embassy counselor. After a trip to Greece, he carefully reads, Iliad and Odyssey, by Homer. 1951: Returns to Rio and resumes the chief of staff to the minister João Neves. 3rd edition of Sagarana is published by José Olympio, his publisher until the end of his life. 1952: In May, goes on a trip around Minas Gerais inland in order to, according to his own words, “check out the mooing of the oxen and the copiousness of the dew on molasses grass bushes, among aboios (typical melody sung by cattlemen), stars and mild adventures”. On this trip, which he called A Boiada on the notebook he organized, he met Manuel Nardi, Manuelzão from Uma estória de amor, Bindóia, a “poem line maker”, and the cattleman and cook Zito, about whom he writes in one of the prefaces of Tutaméia. In June, he participates, together with the entrepreneur Assis Chateaubriand and president Getúlio Vargas, in a vaquejada (tiedown roping) in Bahia, where more than 600 cattlemen from various northeastern states got together. 1953 and 1954: Continues publishing texts, short stories and poems in Rio de Janeiro, Minas Gerais and São Paulo press. 1956: In January, publishes Corpo de Baile and, in May, Grande Sertão: Veredas, both by José Olympio Publisher. Publishes the 4th edition of Sagarana. The linguistic-stylistic revolution contained in the new works provokes heated discussion among his supporters and critics.

In May, he is promoted to 1st class minister, corresponding to ambassador’s position, the highest rank in the diplomatic career. José Olympio Publisher publishes the 2nd edition of Grande Sertão: Veredas and the 5th and definitive edition of Sagarana. He translates the book Last of Curlews, written by Fred Bodsworth, published by Reader’s Digest. In November, he suffers a heart attack. 1959: Begins corresponding with Edoardo Bizzari, his great Italian translator. 1960: Begins collaborating with Senhor magazine. José Olympio releases the 2nd edition of Corpo de Baile. 1961: Publishes Meu Tio o Iauaretê in Senhor magazine, later it is included in Estas Estórias, and several “anagrammatic” poems in O Globo, collected in Ave, Palavra. 1962: In January, he is appointed chief of Boundary Demarcation Service in Itamaraty. Releases Primeiras Estórias, by José Olympio. 1963: In August, he is elected for the Brazilian Academy of Letters, for the chair vacated by his friend João Neves da Fontoura. He will only take office in 1967. 1964: In the book Os sete pecados capitais, of Civilização Brasileira Publisher, publishes Os chapéus transeuntes, about pride, re-published in Estas Estórias. At the end of September, participates in the Latin American Cultural Week, in Berlin. Grande Sertão: Veredas, translated by Curt Meyer-Clason, is published in Germany. In Italy, Corpo di Ballo is published with translation, notes and glossary by Edoardo Bizzarri. 1965: In January, he participates in the International Congress of Latin American Writers, in Genoa, and is elected vice-president of the Society of Latin American Writers. On that occasion he gives an interview to Günter Lorenz, which will be published in Brazil in 1973. Between May and December, publishes 17 short stories in Pulso, a physicians’ newspaper, 14 of them are republished in Tutaméia and 3 in Ave, Palavra. Grande Sertão: Veredas is published in France, with translation by J.J. Villard. In November, in Brasília, during the 1st Brazilian Film Week, the film A hora e a vez de Augusto Matraga, is exhibited and it wins 5 prizes, including best film. 1966: On 10 March, the film comes out in São Paulo. In June, participates in the 34th Pen Club International Congress, in New York.

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Between January and December, publishes 26 short stories in Pulso newspaper, 24 of them are republished in Tutaméia and 2 in Ave, Palavra.

ROSA DOS TEMPOS, ROSA DOS VENTOS / ROSA OF THE TIMES, ROSA OF THE WINDS: A BRIEF ACCOUNT Leonardo José Magalhães Gomes

Sagarana, A Cycle of Stories is published in the USA, and Corpo de Baile, in Germany. A German 2nd edition of Grande Sertão is also published.

To us, poetry.

(Guimarães Rosa, in a letter to Paulo Dantas)

1967: Publishes Tutaméia (Terceiras Estórias), his last work in his lifetime. On 16 November, finally he takes office in the Brazilian Academy of Letters. On 19 of the same month, the writer João Guimarães Rosa dies in his apartment in Rio de Janeiro, victim of a sudden cardiac death. The newspaper O Estado de São Paulo broadcasts his death with the headline: “Our greatest writer has died”. Few times in the history of our press, the common place journalistic superlative was so faithful to the truth. 1968: José Olympio Publisher publishes Em memória de João Guimarães Rosa. 1969: Released by José Olympio the posthumous book Estas Estórias. 1970: Released by José Olympio the posthumous book Ave, Palavra. 1994: Released by Nova Aguilar his complete works in 2 volumes. 1997: Released by Nova Fronteira his poetry book Magma, unpublished for 60 years. 2011: Released by Nova Fronteira Antes das Primeiras Estórias, with the short stories: O mistério de Highmore Hall, Makiné, Chronos kai anagke and Caçadores de camurças. The same publisher publishes a new edition of Grande Sertão: Veredas with A Boiada, notebook with the typed notes from the trip in 1952, as a supplementary volume.

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The world is full of signs and wise is one who understands some things through the signs of other things. There are many common facts which may thus be known.

I

(Plotinus1)

The mature work of João Guimarães Rosa is comprised in seven magical titles. Five were published during the author’s lifetime: Sagarana, in 1946; Corpo de Baile and Grande Sertão: Veredas, both in 1956; Primeiras Estórias, in 1962; Tutaméia, in 1967. The other two, Estas Estórias, 1969, and Ave, Palavra, 1970, were in preparation process when the writer died, in November 1967. Thus, their inclusion in Rosa’s canon was foreseen and in progress at the time of his death. The other works previous to Sagarana, Magma, the book of poems awarded by the Brazilian Academy of Letters in 1937 and only released in 1997, thirty years after the author’s death, and Antes das Primeiras Estórias, a collection of short stories written during his youth, when he studied Medicine in Belo Horizonte, and released in book in 2012, add nothing to Rosa’s aesthetics. The short stories in Antes das Primeiras Estórias reveal the bustling imagination of the young Rosa and nothing else. If the poems in Magma, on the one hand, open an aperture, no matter how small, on the linguistic revolution that was to be performed by the writer from Cordisburgo, they do not have the distinguishing vigor of his extraordinary characters. It is obvious that JGR knew that he would track another path and, therefore, he did not want to publish these works before his great debut, which took place in 1946 with Sagarana. In the interview given to Günter Lorenz, Rosa he says: However, I wrote a not very small book of poems which was even praised. (…). But soon, and I would say that by chance, my professional career began to take up my time. (…). So almost ten years went by, until I could dedicate myself again to literature. And going over my lyrical exercises, I did not find them too bad, but neither very convincing. Mainly, I discovered that professional poetry, the way it should be handled in the preparation of poems, could mean the death of real poetry. That is why I went back to the “saga”, to the legend, to the simple short story, because it is life that writes about these matters and not the law of the rules named poetic. So I began to write Sagarana.2

A man of faith who, according to his own words, accepted all religions, prayed by all creeds and was guided by many philosophies, Guimarães Rosa also believed in the magical power of the numbers, known as numerology. As such, he was a faithful believer in the power and magic of the number 7, so disseminated worldwide. In his rare interviews, he said that books like Sagarana, Corpo de Baile and Grande Sertão: Veredas, believe it or not, had been written in seven months. Therefore, the content of his work containing seven titles is more than suitable: it is necessary and part of his magical conception of the world. Let us not forget that he accepted the new division of Corpo de Baile, proposed by his publisher, in which the work from one volume of the second edition was distributed in three, more or less independent, in the third edition: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá no Pinhém and Noites do Sertão, a solution which enabled the distribution of his work in – once more, magical – seven books, before the release of Estas Estórias e Ave, Palavra. In an interview given to Ascendino Leite in 1946, republished in book


in 1997, Guimarães Rosa presents some of the reasons that led him to write Sagarana, and which may be extended to the entirety of his work: Missing the land, fifty per cent. The physical distance brings the absent things and places close to us. Then, each person should talk naturally what they know well about. And so, at that time I believed that, not being able to write fables only with animals, which are more “rectilinear”, maybe it would be worthwhile putting on stage country people characters, less regimented, more without “pose”, more unconventional than the asphalt people. With them, in their habitat, poetry can be set free, without prejudice to realism. There is less quantity of “isolating” material, which in urban stories forces us, for the sake of simplicity and verisimilitude, to waste many silly pages. And there is nature, which is not scenario, but in fact a character. In the city, the external nature also acts, but almost in an invisible manner. In the countryside, the devil still exists. I have made a few pacts, temporary ones, with him. If I had died three months later, I would be in big trouble…3

Immediately after, Guimarães Rosa defines another important part of his aesthetic-literary creed: - Because what interests me, in fiction, above all, is the issue of fate, luck or bad luck, life and death. Man at “N” dimensions, or, rather, represented at one only dimension: a line evolving in a graph.4

Nineteen years later, in the interview to Günter Lorenz, given in January 1965, Rosa again justifies the inevitability of his choices: Mind you, Lorenz, us men from the sertão, we are fabulists by nature. It runs in our blood to tell stories; already at the cradle we receive this gift for life. Since we are children, we are constantly listening to multicolored narratives from the old folks, tales and legends, and also we are brought up in a world which at times may seem like a cruel legend. In this manner we get used to it, and telling stories runs in our veins and penetrates our body, our soul, because the sertão is the soul of its men.5

Result of the art of an author who wrote in a slow manner, who thought and weighed each word, resuscitated those in disuse when possible and invented new words when necessary, Rosa’s literary creation is a mixture organically made of linguistic-vocabulary splendor, psychological depth and creative fantasy, which deals with mankind’s deepest themes with refinement and poetry and represents, at a unique level in the Portuguese language, the ideal of the Greek poiésis, of the poetry as creation of new and splendid worlds and characters. II The reading of João Guimarães Rosa’s books does not flow without difficulties. An author with unusual aesthetic ambition, deep psychological cognizance and immense linguistic knowledge, Rosa never intended to create a seductive art, with easy grasp, which could be assimilated automatically without the active and conscious participation of the reader. He sought, assumedly and persistently, the unconditional devotion of his audience, the reader’s full immersion in his aesthetic universe, in his sertão, both physical and metaphysical. Everything indicates that the writer wanted to run away from the fugacious, superficial reader, and, for this reason, his books seem to be written against the reader. More than read, they must be conquered, as if walking in a path full of obstacles. To Lorenz he admitted: As a writer, I cannot follow Hollywood’s recipe, according to which it is necessary to guide yourself by the lowest understanding limit. (…) in the sertão Goethe, Dostoievsky and Flaubert’s language is spoken, because the sertão is the land of eternity, of solitude (…). In the sertão, man is the I who has not yet found a you, that is why, there the angels or the devil still manipulate the language.6

Additionally, the level of complexity increases as the author tracks his creation path. Between the poetic regionalism of Sagarana and the ontological synthesis, of high density, of Tutaméia, there is a clear and continuous aesthetic and literary evolution, a constant refining of the language, in which the works continuously become denser and the language more concise, and maybe for this very reason, more complex. The first one is a sequence of stories (Rosa only used the term estória/ story later) presented in an original language, but without causing special difficulties for the reader, which can be read without much effort. Whereas Tutaméia is one of the densest books in our literature, where the author shows his creator virtuosity and a rare ability to synthesize. Therefore, it is recommendable that the beginner reader approach his work in the order it was published, from Sagarana to Tutaméia with Corpo de Baile, Grande Sertão: Veredas and Primeiras Estórias as intermediate stages. However, this order changes when we get to the two posthumous volumes, Estas Estórias and Ave, Palavra. Both contain texts in which the sequence of publication in book is not, necessarily, of when they were written. A good example is the news report included in Estas Estórias with the title Entremeio – Com o Vaqueiro Mariano. It was written in 1947, the year when the writer visited Pantanal Mato-Grossense, having been published in Correio da Manhã newspaper, in Rio de Janeiro, on 20 April in the same year. Later, in 1952, Edições Hipocampo, a small book publisher for bibliophiles established in Niterói, published COM O VAQUEIRO MARIANO, a small book with 96 pages, illustrated by Darel Valença Lins, with limited edition of one hundred and sixteen copies signed by the author, currently an extremely rare collection item. This edition can be appreciated in Museu Casa Guimarães Rosa as an important piece of its collection, and finally, the text was included in Rosa’s canon by adding it to Estas Estórias. III Sagarana is a neologism created by Guimarães Rosa by joining saga, a Germanic word for narrative, such as in the great Nordic sagas, to the suffix rana, taken from nheengatu, which means in the manner of . As Rosa himself informed us: - Saga-rana: a thing that seems like a saga… I got the suffix from the nheengatu…7

This is also the title of his first book, the first step of Rosa’s work. Its history is interesting and deserves to be detailed here. Right after turning twenty-six, in the second semester of 1934, João Guimarães Rosa moved to Rio de Janeiro, where he joined the diplomatic service. Upon changing cities, there was also a radical transition of environments. Finally, the military doctor, who ran away from Medicine due to unsuitableness to the profession, left the almost feudal universe of the extensive cattle breeding sertão, maybe the toughest of rural activities, where the explicit violence was trivial, to penetrate into the urban sophistication of the capital of the country, and furthermore, into the refinement of the diplomatic body, the locus of the socio-political polish, of the elegant manners, of the fine hypocrisy valued as legitimate instrument of work. We can imagine the shock caused by such contrast in a person endowed with sharp intelligence and heightened sensitivity like the young, now diplomat, Guimarães Rosa. Something had to be done so that the impressions caused by the change were processed in a satisfactory manner, so that the new reality was assimilated without the loss of the rich symbolism of his sertão world. As he himself confessed:

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One who grows up in a world which is pure, beautiful, truthful, real literature, one day should start writing, if one has a spark of talent for the belles-lettres. It is a natural law, and it is not necessary that behind it there are literary ambitions.8

Art was the natural path, and literature, inevitable. It was necessary that the artist metaphorically recreated the world-sertão so as not loose his identity. So, we can suppose that moving from Barbacena to Rio de Janeiro represents a greater leap, a more significant impulse for Rosa’s artistic creation than his going to Hamburg in 1938, as it has been pointed out by some analysts. Guimarães Rosa, once again, expresses this argument with precision: We the sertão people are very different from the temperamental people from Rio or from Bahia, who cannot stay still not even for a second. We are speculative types, to whom the simple fact of meditating causes pleasure. We would like to explain over and over again daily all the secrets of the world. We brood all we say or do before saying or doing.9

In IEB (Institute of Brazilian Studies of São Paulo University), where a very important part of Guimarães Rosa’s files is collected, there are two volumes typed with the title Sezão.10 One of them, with red leather cover and dated 1937, is the oldest version that we have of Sagarana. But these volumes do not represent the only stages known about the preparation of the book. Besides these two versions preserved in IEB, there is trustworthy information of there being another one, simply called Contos, entered by Guimarães Rosa, under the pseudonym Viator, in December in that same year 1937, in the Humberto Campos competition, a literary competition promoted by Livraria José Olympio Editora. After the initial selection, two books reached the final round, Contos by Rosa/Viator and Maria Perigosa, by Luís Jardim. The jury of the competition, composed of Prudente de Morais Neto, Marques Rebelo, Dias da Costa and Peregrino Júnior, was chaired by none less than Graciliano Ramos. After heated debates, the first two members voted on Contos to be the winner of the competition, and the three last members chose Maria Perigosa, by Luís Jardim, who, thus, got the first place and the book by Viator came second. Guimarães Rosa, who was already in Germany when the result of the competition was announced in 1938, did not express himself about it and between the announcement of Luis Jardim’s victory and the first edition of Sagarana eight years went by, a period in which the author reworked and refined his book.

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What is curious about this story is that Graciliano Ramos seems to have regretted about his vote and, demonstrating nobleness upon recognizing his error, he published a chronicle, later collected in the posthumous book Linhas Tortas, in which he narrates the events of the competition and calls the author of Contos to express himself. Since Guimarães Rosa, at that time, was constantly traveling due to his professional duties, spending long periods away from Brazil, he chose to hold peace. In 1964, when the work was finally published by Universal publisher with the title Sagarana, Graciliano Ramos published a very interesting appreciation of the book in which he favorably analyzes it, praises Rosa’s artistic evolution, recognizes his superior spirit by not demonstrating bitterness due to the vote of the writer from Alagoas on Maria Perigosa and made an amazing prediction. The end of the account synthesizes Good Old Graça’s vision: Rosa’s art is terribly difficult. This anti-modernist repels extemporization. With immense effort he chooses simple words and gives us the impression of life in a rift of caatinga, in a gesture of a peasant, in a conversation full of rustic country people proverbs. His dialog is elaborately natural: he disdains

the naive resource of using plurals in a wrong manner, disfiguring inflections, and getting close, as much as possible, to the language of the backlands.

I should add that Rosa is a remarkable animalist: animals stir up in the book, apologue’s non-conventions, but irrational, rights exhibited with peelings, spavins and the necessary movements of ears and tails. Maybe the habit of examining these creatures has advised my friend to work with cattle like slowness. For sure, he will write a novel, a novel which I will not read, because, if it is started now, it will be ready in 1956, when my bones will begin to crumble.12

The author of São Bernardo and Vidas Secas only made a mistake about one point. In 1956, João Guimarães Rosa published not one, but two seminal books of the Brazilian literature: Grande Sertão: Veredas, the novel foreseen by Graciliano, and Corpo de Baile, not a less important piece of our heritage. The dialog of our two great writers, the one from Minas Gerais and the one from Alagoas, seems to end with the refusal of Guimarães Rosa to accept arbitrary categorizations. In the already mentioned interview given to Ascendino Leite, when commenting about the animals he saw in the Hamburg zoo, the author of Sagarana says: - With the things about the animals from over there to be well narrated, I could fill up a book like Sagarana. But, don’t you worry. I will never write it, because the people would get bored, sick and tired with the details, which I adore. Also I risk being labeled “animalist”, and I hate it when they attribute specializations to me…13

The statement may not have been conceived as a direct reply to Graciliano Ramos, but it works perfectly as such. Elegant and firmly, the neophyte writer already has a notion of his path and rejects labels which limit his action as artist. When released in 1946, Sagarana was a great success and placed Guimarães Rosa in an outstanding position as accomplished writer and acknowledged by the public and critics. Nelly Novaes Coelho defined very well the entry of our author in the Brazilian literary scenario: In the turning point milestone which was the year 1946, Guimarães Rosa clearly emerges as a definitive presence; as the first one among Brazilians who managed to capture the regional world through a universal prism. And so apparently virgin of aesthetic connections Rosa’s fiction was born that it was pointed out as a “literary island” in our literature. However, the truth is that nothing emerges from nothing, and the essence of which it was impregnated was, undoubtedly, prepared by means of a long maturation process. It was conditioned by the same atmosphere that henceforth would be outlining in the new paths of our literature. Guimarães was, hence the wake-up call. And his work came to consolidate the new dimension that regionalism had been expecting: a dimension of the Spirit and of the Mystery of things.14

Note that the essayist highlights important aspects of Sagarana for the Brazilian literature. I will point out some of them: defining Guimarães Rosa as a “definitive presence” since his debut; considering him as the first one to manage “to capture the regional world through a universal prism”, fundamental data for the understanding of Rosa’s aesthetics and for the consolidation of a new dimension in the Brazilian literature; emphasizing the metaphysical dimension, “of the Spirit and of the Mystery of things”. In 1946, two editions of the book were released which sold out very quickly. The third one would only come out five years later, in 1951, published by Livraria José Olympio Editora, which would be the writer’s publishing house until his death. The initial editions released


by José Olympio were thoroughly reviewed by the writer and each one of them carries, as subtitle, notes on these reviews: the already mentioned 3rd edition of 1951 is presented as third reviewed edition, and the text on its flaps, presumably written by Rosa himself, narrates a little the adventures already described which preceded the publication of Sagarana in book; the 4th edition, of 1956, the same year of Corpo de Baile and Grande Sertão: Veredas, this is said to be the definitive version, and the fifth one, of 1958, is presented as 5th edition, retouched definitive form. The fact is that the writer was never satisfied with his work and always tried to “improve” Sagarana by means of changing of details as the editions succeeded one another. Between 1951 and 1983, the year in which José Olympio lost the publishing contract, twenty-five editions of Sagarana were produced. As from this year, the works by Guimarães Rosa began to be published by Nova Fronteira. It is interesting to note that, between the 3rd and the 4th editions (not forgetting that the 4th one is of the same year of Corpo de Baile and Grande Sertão: Veredas), there was a more accentuated review in the language of the short stories. It seems that Rosa wanted his debut book to keep in the same track that his aesthetics had opened with the new releases. In 1958, when the book was again published, there was a recoil, and the writer kept himself more faithful to the original conception. This 5th edition, the first one illustrated by Poty, due to the fact that it contains the book version which is currently published has, therefore, as regards the text, the power of editio princeps. Since the subsequent changes were minimal – only a few corrections - this is the variation of Sagarana that we know. In a letter to Paulo Dantas, Guimarães Rosa corroborates this opinion: Some days ago, I also autographed in our “José Olympio” the Sagarana (5th edition). (…) I would like to know what You think of it, of the new clothing, of the figures. And also the flaps – dedicated to “Corpo de Baile”. Poty’s illustrations, glossing. And this is the definitive-one-for-ever. The book I will never touch again.15

All these editions and other subsequent ones are part of Museu Casa Guimarães Rosa’s collection and can be appreciated by its visitors. IV The stylistic evolution that occurred between Sagarana and Corpo de Baile is amazing and it says a lot about the artist that João Guimarães Rosa was, worried and committed only with his art. If he had been seeking easy success, his goal would have already been achieved with his debut book. Although there were the inevitable negative reviews, the general tone of the critics was enthusiasm for the revelation of a new linguistic world and a new aesthetic conception. As an example of this enthusiasm, we can quote the excerpt of the analysis that Antonio Cantido published in O Jornal on 21 July, 1946, the text was later published in book: Sagarana was born universal due to the extent and cohesion of the work. The language finally seems to have achieved the ideal of the regionalist literary expression. Dense, vigorous, it was carved in the shaft of the popular communication and disciplined within classical traditions. (…) Beyond the literary conventions, Sagarana is characterized by a sovereign contempt for conventions. Mr. Guimarães Rosa – whose virtuoso vocation is undeniable – seems to have wanted to show the possibility of obtaining victory starting from a series of conditions which normally lead to failure. Or better say: all the failures of his predecessors were transformed in his hands, into other victory factors.16

Praises like those would be more than enough to keep a less bold artist satisfied and accommodated. On the other hand, for someone interested

in creating substantial and innovative work, who stated the impossibility of having commitment in art, as Guimarães used to be, such acceptance was used as stimulus to carry on tracking his path and deepening in his creative revolution. The next step of this revolution was Corpo de Baile, released ten years after the first edition of Sagarana and five years after its third reviewed edition. In its first edition, Corpo de Baile was presented in two volumes, which contained its seven – the magical seven – novels. The distinction in relation to Sagarana already starts in the table of contents of the first volume, which uses the name poems for the novels. But Rosa does not stop here: in the index at the end of the second volume, he uses two different nomenclatures to designate them. I will here rigorously follow such designations. The first one, simply with the title “Gerais” (the novels), consists of four novels: Campo Geral; A estória de Lélio e Lina; Dão-Lalalão and Buriti. The second nomenclature, with the title Parábase (the stories), includes three of them: Uma estória de amor; O recado do morro and “Cara-de-Bronze”. Parábase, let us not forget, is a term originally from the ancient Greek drama and designates the moment in which the actors or the playwright, disconnect from their characters and recover their real personalities in order to talk to the audience and make comments and observations about the dramatic action. Whereas novel, besides the acclaimed meaning of fiction book with psychological background, as it became current at end of the 19th century, has other meanings which should be regarded as possible. The first one is the linguistic: the varieties that Latin generated when mixed with the Barbarian languages are thus named. Novel can also be a narrative, normally in lines, of the adventures and romances of the old medieval knights. Without difficulty, we can include the novels in Corpo de Baile in any of these meanings, or in all of them. As an attempt to define the literary genre of Rosa’s work, it is necessary to turn to the author once again: No, I am not a novel writer, I am story teller of critical short stories. My novels and novel cycles are in fact short stories in which poetic fiction and reality are joined together.17

The title, Corpo de Baile, is another important data for the reading of the book. If we replace the expression choir of dancers from the text by Plotinus, quoted as follows, by corps de ballet, we will have the key to the title of the cycle of novels by Guimarães Rosa: Those who do not succeed in conforming to the universal order, perish, just like a tortoise in the middle of a choir of dancers: it would be treaded on if it did not escape the ordained steps of the dancers, but it would suffer no harm if it conformed to this order.18

This key is related to the philosophy by Plotinus, a neo-platonic philosopher who lived in Rome in the 3rd century of our era. Plotinus is one of the founders of the philosophical school which we call Neo-Platonism, who renewed Plato’s teachings and has been having considerable influence until today. Guimarães Rosa is another follower of Plotinus’ doctrines, transporting to our days an intellectual lineage which has among its members names such as Santo Agostinho, Santo Anselmo, São Boaventura, Marsílio Ficino and others with similar religious and philosophical weight. Plotinus’ philosophical doctrine is comprised in the Enneads, a work divided in six books, and each one of them consisting of nine tractates – from the Greek ene(a), nine. One should also pay special attention to the eight epigraphs that Guimarães Rosa included at the beginning of the first two editions of Corpo de Baile. In the first four editions, Plotinus appears once again. The first two of these epigraphs are taken from the second Ennead, the one

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that has the origin and structure of the Cosmos as theme. The first one, which is about the immobility of the center of the circle, is in the second tractate, O Movimento Circular do Céu. The second epigraph, which is about the solidness of planet Earth as the center of the universe, was withdrawn from the first tractate, O Mundo e o Sistema Celeste. The two subsequent ones were extracted from the third Ennead, whose themes are fate, providence, eternity and time, and they come from the second tractate, with the title Sobre a Providência, livro I. The following three epigraphs belong to the tractate A Pedra Brilhante, by Ruysbroeck, the Admirable.19 The Flemish clergy Johannes Ruusbroec, or Ruysbroeck, (1293-1381), beatified by the Catholic Church, is considered one of the most important mystical authors of the Middle Ages, and his writings are about the union between human soul and God. Great part of Plotinus’ work also refers to this theme. Thus, after having used the concepts of the soul communion with the deity included in Plotinus’ Neo-Platonism, a philosopher of the Classical Antiquity, Guimarães Rosa resorted to the medieval mysticism to give us more keys to the reading of his Corpo de Baile. The last one of the eight epigraphs is a “coco de festa”20 attributed to Chico Brabós, or that is, Chico Barbosa or Barboza. The coco is a common type of music and dance in Brazil inland and the writer from Minas certainly listened to many of these “cocos” during his research trips to Minas Gerais backlands. Paulo Dantas says that he heard from Rosa the following confession: - I believe that Krishnamurti is the second incarnation of Christ. I study hard the doctrines. The eastern wisdom fascinates me. Those epigraphs of Plotinus or of Ruysbroeck, the Admirable, for my Corpo de Baile were not by chance. They are a complement of my work. I’m a contemplative person fascinated by the Great Mystery, by O Anel or the Pedra Brilhante.21

Thus, in the choice of the epigraphs, Guimarães Rosa, mystically joins the Classical Antiquity with the Middle Ages, and both, timelessly, to the Brazilian sertão of the 20th century. Upon creating this continuum in time, he gives his themes and characters the dimension of eternity which he sought and which became a fundamental feature of his art. Additionally, the various ways of loving prepared in each of the stories in Corpo de Baile intertwine with the deity – the One of Plotinus and the Holy Trinity of Ruysbroeck – and reveal Love as the divine part that exists in us and that connects us to the Supreme Being.

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The first edition of Corpo de Baile, released in 1956, consisted of two volumes sold together. In 1960, Livraria José Olympio Editora published the complete work in one volume. In these two versions, the epigraphs came at the beginning of the book, right after the title page. In 1964, Guimarães Rosa accepted his publisher’s suggestion and authorized the division of Corpo de Baile in three books sold separately: Manuelzão e Miguilim, with the novels Campo Geral and Uma Estória de Amor; No Urubùquaquá no Pinhém, with O Recado do Morro, “Carade-Bronze” and A Estória de Lélio e Lina, and Noites do Sertão, with Lão-dalalaõ (Dão-lalalão) and Buriti. In this edition, as in the first two editions, the novels are once again called poems in the table of contents at the beginning of the volume and short story or novel in the index at the end of the same volume. The epigraphs were distributed among the three volumes and the title of each book has Corpo de Baile as a subtitle. In this manner, Guimarães Rosa yielded to the publishing market requirements without losing the unity of the book. This version in three volumes began to be the standard that governs the editions of Corpo de Baile. In 2006, the celebration edition of the fiftieth anniversary of the release of the book presented it again in two volumes. In 1964, the Society of the One Hundred Bibliophiles of Brazil released a limited

edition of the novel Campo Geral, illustrated by Djanira, with print run of one hundred and twenty copies. These editions, currently rare items of collectors, may be seen in the ongoing exhibition in Museu Casa Guimarães Rosa. The leap from a lyrical and well-resolved regional world, like the one presented in Sagarana, to the erotic-mystical universe of Corpo de Baile, did not occur without problems. When the book was published, in the beginning of 1956, many readers and critics who had received Sagarana with enthusiasm found it strange the new paths taken by Rosa. These readers who, at first, did not know how to or could not follow the evolution of the writer from Cordisburgo soon had another surprise. In the same year 1956, a few months after the publication of Corpo de Baile, Livraria José Olympio Editora released Grande Sertão: Veredas, the only “novel”, in the modern sense of the word, written by João Guimarães Rosa. Now, after poeticizing about the various forms that love takes to entangle us in its web, the writer began to portray the fight between Good and Evil, the tireless battle executed by Man against the Demo, o Demo, o Que Diga, o Capiroto, o Capeta, o Satanazim, o Demo, o Muitos-Beiços, o Rasga-em-Baixo, o Faca-Fria, o Fancho-Bode, o Azinhavre, o Hermógenes, o Tinhoso, o Tal, o Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Côxo, o Temba, o Coisa-Ruim, o Canhoto, o Rapaz, o Não-sei-que-diga, o Que-nunca-se-ri, o Sem-gracejo, o Diá, o Outro… – only to mention a few of the several names that the devil got in his book. This is the theme of Grande Sertão: Veredas. In October, 1966, in a letter written to his Italian translator, Rosa describes a disease that had struck him: And... here I have spent a month in bed – it is a type of septicemia, the cause is unknown, the origin has not yet been found, it must be the devil’s revenge, who I attacked in “Grande Sertão: Veredas”.22

V - NONADA. The shots you heard were not men fighting, God be praised. (…)

Nonada. There is no devil! That’s what I say, if there… What exists is human man. Passage.23

The two lines of quote above are, respectively, the first and last phrase of Grande Sertão:Veredas. The points of ellipsis between brackets symbolize the five hundred and eighty-six pages, in-octavo format, of running text, without chapter division, of the first edition of the book. In the first phrase, God appears. In the last one, the devil’s existence is denied and the strength of mankind is asserted. At the end, as the last printed sign, the lemniscat of Bernoulli, the symbol ∞, which represents the infinite, to point out, as the author himself explained in the interview to Günter Lorenz: For the devil may simply be defeated, because man exists, the passage to solitude, which is equivalent to the infinite.24

Between the phrases, we have the violent world in which Good and Evil confront each other in an endless fight. As already mentioned, this fight is the theme of the book. The epopee of the jagunços (type of henchmen from the backlands) Riobaldo Tatarana and Diadorim, narrated by Riobaldo to a silent listener, who would be Guimarães Rosa himself, is the plot. The first eight pages carry the usual information, such as the edition year, the previous works of Guimarães Rosa, the publisher. However, two pieces of information are relevant. The epigraph, on page three, in capital letters, says:


(“THE DEVIL IN THE STREET, IN THE MIDDLE OF THE WHIRLWIND ...”)

On page 5, there is the dedication, firm, perfect, leaving no doubts: To Aracy, my wife, Ara, This book belongs.

Also in a letter to Curt Meyer-Clason, his German translator, dated January 1964, when discussing thoroughly, which was his characteristic, the edition of the German translation of Grande Sertão, Guimarães Rosa asks: NOTE – Important detail, in relation to which I would ask you to be personally attentive: is that the dedication to my wife Aracy naturally be included in the volume. Thank-you.25

This is not the only reference of Rosa to the dedication; in subsequent letters, he reinforces the request to the translator and discusses the best possible translation. This concern shows the connection of the writer from Minas with his wife and her important role in his life and his work. Grande Sertão: Veredas fell like a lightning, of the greatest power, in the Brazilian literary circles. Barely recovered from the shock of Corpo de Baile, the readers and critics of Rosa’s work now had a new Everest to climb. Linguistic and philosophical Everest, for no one denies this being Guimarães Rosa’s “metaphysical” novel, the one in which the writer overtook the limits of mere literary creation to achieve the summits of transcendent perception of the reality. More than any other, this was the book which guaranteed in his lifetime, the literary immortality and the almost mythical presence of Guimarães Rosa in our literature. In the book, Rosa, once again, dived into his linguistic researches, recovered the sertão speech with its vocabulary characteristics, promoted the resurrection of archaic words and, when necessary, created neologisms. The naturalness with which Riobaldo Tatarana expresses himself is a result of a thorough language construction in which nothing is left to chance, nothing is improvised. Like in the great works of art, the apparent spontaneity which the reader encounters is the result of a highly complex organization, in which everything is thoroughly planned. Grande Sertão: Veredas is, perhaps, the Brazilian book most written about. Reviews, appraisals, chronicles, seminars, essays, theses, itineraries, praises, criticisms, philosophical, linguistic, stylistic, psychological analyses and, also, films, television series, plays, comics, ballets, songs, classical and popular music pieces, poems, exhibitions, installations, paintings, sculptures and other artistic creations of all genres and art fields have already been produced having as theme the adventures of jagunço Riobaldo. Generous, they represent an endless source of inspiration and stimulus to the artistic and intellectual production. If in our body there are the stem-cells from which the other cells originate, we can say that works of art such as Grande Sertão: Veredas are real stemworks, for they generate other works of art and continuously enrich our symbolic heritage. In order to narrate the odyssey of Riobaldo Tatarana and Diadorim through the Minas Gerais backlands, João Guimarães Rosa used an extensive repertoire of myths and dramatic and recurrent traditional situations in the folklore, in the literatures and in the religions – this legitimate aesthetic artifice is also used by the writer in almost all his works. Riobaldo, just as Faust, made a pact with the Devil, the difference

is: in the sertão. But it is not only that, it is much more than that. In the interview to Lorenz, Rosa’s words defined the character and his relationship with our nation: Undoubtedly Brazil is a cosmos, a universe within itself. Therefore, Riobaldo and all his brothers are inhabitants of my universe. (…) Riobaldo is not Faust, and not even a baroque mystic. Riobaldo is the sertão as a man and he is my brother. Many of my interpreters made a mistake, (…). Riobaldo is too mundane to be mystical, he is too mystical to be Faust; what they call baroque is only the life that takes form in the language. (…) I would like to add that Riobaldo is something like Raskolnikov, but a guiltless Raskolnikov, and who nonetheless has to expiate it, but I believe that Riobaldo is not that either; better say he is simply Brazil.26

Whereas Diadorim beautifully incarnates the warrior maiden, as Walnice Nogueira Galvão well noted: Upon outlining Diadorim character, the narrator and main character’s beloved one, the writer did not restrict the details and drank from the traditional sources, including the folklore. In the middle of the tasks of the cangaço, the fragments begin to appear and create a more than complete Warrior-Maiden. Orphan of mother and the only child of the chief of the jagunços, brought-up in that environment and taught the art of war: precise targeting, usage of the dagger, riding practice. Dressed as a man, had very short hair, wore a tight vest and bathed in the darkness of the dawn. Was an example of excellence, no tiredness nor faintness, and her bravery had no limits. After her father’s death she dedicates herself to avenging him. And it is upon executing the vengeance that, making justice, she will also perish. The fatal fate of the Warrior-Maiden is accomplished. In Guimarães Rosa’s words,by way of epitaph: “(…) who was born for the duty of war and never to fear, and moreover to love in abundance, without the enjoyment of love…” Thanks to the Warrior-Maiden, with her metamorphoses and apparitions so mutable, our perception of infinite possibilities of human adventure expands itself.

Another example is that of Maria Mutema, who, upon killing her husbands by putting melted lead in their ears while they were asleep, she repeats the Shakespearean gesture of Prince Hamlet’s uncle, Claudius the usurper, who murdered his brother, the king of Denmark, by putting poison in his ear while he was asleep during a siesta in the palace garden. Besides these, many other episodes, situations and characters inspired in mankind’s symbolic heritage could be mentioned. When GSV was released, the repercussion was immense. Since in this space it is impossible to deal with the several articles then published in the press, I have selected two of them, one by Manuel Bandeira and the other one by Paulo Mendes Campos, which summarize well the impact suffered by the readers at that time. Bandeira was twentytwo years older than Rosa, and although his generosity was as great as his genius, he did not make concessions in relation to fair review, mainly when the object of this review was a writer of the stature of Guimarães Rosa, who showed, through the visible aesthetic evolution in his books published until then, a sensitive trend to improve with time. The poet from Pernambuco did not read Grande Sertão: Veredas as soon as it was released; he only dived into Riobaldo and Diadorim’s sertão when the initial heat of the release had cooled down. After the reading, he published in the Rio de Janeiro press a chronicle, in the form of an open letter to Guimarães Rosa, which is a perfection of perception and sensibility. The letter is dated March 1957, almost a year after the release. In it, Manuel Bandeira says: DEAR FRIEND OF MINE, J. Guimarães Rosa, old-brother, my greetings! I am sorry, but only now did I find time to read Riobaldo’s novel. (...)

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(…), they have been saying that you had invented a new language and I dislike invented language. (...) Come to think of it, it is no new language whatsoever Riobaldo’s language. It is difficult, at times. So many words from the sertão! (...) And besides all this, you have made Riobaldo a poet, like Shakespeare made Macbeth a poet. Natural: why can’t a jagunço (henchman) from Minas Gerais from Urucuia be a poet? Of course he can. Riobaldo is you if you were jagunço. (...) And the sertão? The sertão is immense waiting. And the silence? The wind is green. Then, in the pause, you pick up the silence, put it on your lap. (...) Oh Rosa, old-brother, I envy is what you know: There is no devil! What exits is the human man.

I undersign.28 After such poetic, clarifying and acclaiming appraisal from Manuel Bandeira’s pen, one the most important poets in the Portuguese language, there is no more to say. We can only register the relation of mutual respect and admiration that joined the two great artists. Whereas the chronicle writer and poet Paulo Mendes Campos, born in Belo Horizonte in 1922, fourteen years younger than Guimarães Rosa, published a poem in prose in the form of a chronicle in which he exposes his version of the reasons why of Grande Sertão: Veredas who has some its lines quoted here: Because this book tells us the story which we had not yet listened to, which we needed to listen to, a story which now has become impossible to imagine it not existing; for we need to listen to a story when morning comes, another one at noon, another one when evening comes; a story during childhood, another one at the opening of the lights and the shadows of maturity, another one when the lighthouse at the dark gulf chooses the path of old age; for there is a story at the beginning, another one in the middle, and another one at the end of the world; because the three stories are one sole story; the plots of the man with his strength and his fear, and those of the woman with her fragility and her courage; because this book repeats the parable of human life on Earth and wets us in the freshness of primitive vegetation, until it brightens us and dazes us in definitive questionings of the conscience; because men are one sole man, and one sole man are all men; (…) because the little we know this book organizes and teaches us; because Brazil exists; because Brazilians exist; because we are all wandering through the great sertão, and little by little we can distinguish ourselves in the twilight of the bushes; because we always keep a book like this for ever: I greet you with modesty and amazement.29

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Paulo Mendes Campos who was an artist with fine sensibility, upon summarizing in a few pages the amazement caused by Grande Sertão: Veredas in its first readers, poetically synthesized the multiple meanings of this work of art of high density. It is important to point out that, after fifty-six years having gone by since its first publication, Grande sertão… continues to cause the same amazement in those who read it for the first time. Also, we can say that the book by Rosa acts as the stem-work already mentioned, upon inspiring the texts by Bandeira and Campos. The publishing history of Grande Sertão: Veredas is simpler than the

Corpo de Baile one. Between 1956 and 1982, Livraria José Olympio Editora released fifteen editions of the work. All of them have the cover and the inside illustrations from the fine artist from Paraná Poty Lazzarotto’s pen, intimately linked to the graphic production of Rosa’s works. It was also he who drew the map of Riobaldo’s wanderings through the sertão which, from the second edition on, illustrates the books’ flaps. From 1984, all João Guimarães Rosa’s work began to be published by Nova Fronteira editor. Besides the first one, the 1956 one, as expected, we call the attention to important editions of Grande Sertão: Veredas. The second one, of 1958, named 2nd Edition (definitive text), is the only one that has a colored reproduction of the cover drawing inside the book. In the others, the drawing is only in black and white. Its flaps include, for the first time, the map of Riobaldo’s wanderings through the sertão. This drawing, whose thorough study can be considered as integrating part of the book reading, was produced by Poty according to Guimarães Rosa’s precise guidance. The third edition, of 1963, has as curiosity the fact that it does not end with Bernoulli’s lemniscat, the infinite symbol. The subsequent editions, starting from the fourth one, of 1965, recover the symbol as a sign which, simultaneously, concludes the book and points to the eternity of its narrative. The eleven editions of José Olympio, including the fifth one, of 1967, the last one done during the author’s life, keep the same standard as the fourth one: four hundred and fifty-nine pages, cover and illustrations by Poty. In the last ones, released as from the late 1970s, the publisher replaced the green background of the covers by a red one, giving them, thus, a more devilish tone. By Nova Fronteira, the outstanding editions are the one of the fiftieth anniversary, with hard cover and the title embroidered in red thread on a white background, and the most recent one, the one of the box named Os Caminhos do Sertão de João Guimarães Rosa, which celebrates Rosa’s trip through the sertão of Minas Gerais in the company of a boiada (herd of cattle) when he met the cattleman Manuelzão, who would be the source of inspiration of the main character of Uma Estória de Amor, of Corpo de Baile. In this box the facsimile of the notebook with the typed notes that the writer produced during his trip and which was an important part of the researches developed for the writing of his books is included. Similarly to the previous works, these editions of Grande Sertão: Veredas are part of Museu Casa Guimarães Rosa’s collection and can be admired by its visitors. VI Six years went by between the release of Grande Sertão: Veredas in 1956 and Guimarães Rosa’s next book. In this short period of time, the writer from Minas, always working with dedication and assiduity in his office positions in the Ministry of Foreign Affairs, took care of the already mentioned revisions and re-editions of his three already published books, a hard task when considering their density and complexity, besides promoting his editions abroad, which meant an extensive mail correspondence with his translators. During this period, he also, tirelessly, wrote short stories and poems, which he published in several Brazilian newspapers and magazines, particularly in Senhor magazine and O Globo newspaper, both in Rio de Janeiro. This new way of “testing” his productions – publishing texts initially in newspapers and magazines, and after having felt the public’s reaction, releasing a definitive version in book – was adopted by João Rosa in his last four works. In the chronicle Um Encontro Casual com Rosa, published in January, 1961, Manuel Bandeira describes a conversation


he had with Sagarana’s author, in which the anguish felt by him, Rosa, in relation to the commitment to the newspaper was made explicit. At the end, Bandeira concludes: Writing to a newspaper is like writing on sand. Rosa does not write on sand: Rosa engraves in rock. For eternity. Thus, what Rosa is doing in O Globo is, chapter by chapter, one more book worthy of being together with Sagarana, Corpo de Baile and Grande Sertão: Veredas.30

This book, foreseen by Bandeira, with all the qualities anticipated by the poet from Pernambuco, is Primeiras Estórias, published in 1962. Differently from what is generally believed, the word estória/story is not an invention by Guimarães Rosa. Dated from the 13th century, we can already find it in medieval Portuguese and, since the beginning of the 20th century, it had already been used by authors like the Brazilian João Ribeiro. Another author who used it, even before Ribeiro, was the Portuguese Conde de Sabugosa. By analogy with the English word story, it can be considered as a very useful alternative to differentiate fiction stories from scientific works which deal with the field of knowledge known as History. Stories as in contrast with History. However, it was through Guimarães Rosa’s work that modern Portuguese discovered estória/story and incorporated it into its current use. Once again, Guimarães Rosa did not repeat himself. The volume, consisting of twenty-one short stories, represents one more significant step in the stylistic evolution of the writer from Cordisburgo. Just as Heloisa Vilhena de Araujo has well shown in her book O Espelho,31 the book has a circular narrative structure. The first and the last short stories – respectively As Margens da Alegria and Os Cimos – have the same character as the main character, a boy, who goes on a trip with his uncle and aunt to a city under construction, probably Brasília, and returns home after learning, to his relief, that his mother had been cured from a serious disease. In the middle of the book, the eleventh story is named O Espelho, as if to reflect the two sides of the same coin, the variety of the experiences, the expectations and the human types. Thus, the writer uses the center as a pivot around which he builds the book. This resource, however, is not the innovation of Primeiras Estórias*. The innovations are other ones. The most significant of them is the fact that Guimarães Rosa, for the first time in his works, produced short stories, with few pages, in general between two and five, which, in spite of being few in terms of page number, they are dense and extremely rich in meaning. In order to achieve this synthesis, Rosa, once again, developed new linguistic processes, in which he manages to say a lot in a few words, a trend which would become radical in Tutaméia. Due to the density of its writing, the book is not easy to be read, but the effort is awarded by the depth of the content. As an evidence of this richness and depth, any of the short stories could be quoted, but we will highlight only two of them, the ones which in fact became the most famous: A Terceira Margem do Rio and Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha. Besides its literary richness, which, after all, is the most important thing when referring to a writer like JGR, the book has publishing peculiarities which are the evidence of the importance and prestige that the writer had achieved when it was published. Livraria José Olympio Editora ordered Luis Jardim** the drawing of the cover and several illustrations for the flaps and the index at the end of the volume. The graphic mark of the book is its cover, in bright yellow that one can see from afar, so unmistakable that, Rosa, in his letters, calls Primeiras Estórias by the name the little yellow one. While the illustrations of the flaps and of the index work as medieval illuminations, for being real poetic bridges to the short stories, because they suggest, more than explicitly illustrate,

their narratives. The colophon is also illustrated, and has two figures of football players, allusive to the winning of the world football cup by the Brazilian football team in 1962, the year the book was released. José Olympio kept its edition standard, with the original colors and illustrations, in all its editions of Primeiras Estórias, with small variations in size. When the heirs of the author’s copyrights changed publishers, Luís Jardim’s drawings were suppressed. Only in the 15th edition, released by Nova Fronteira in 2001, the original illustrated index was recovered, and this is the edition that we can find in book stores. All these versions are part of the permanent exhibition of Museu Casa Guimarães Rosa and can be seen and appreciated by the visitors. VII After Primeiras Estórias, João Guimarães Rosa released only one more book – the others, Estas Estórias and Ave, Palavra, are posthumous publications. This last book is Tutaméia – Terceiras Estórias, a collection of forty synthetic short stories and four prefaces. The short stories which constitute the book were initially published in a magazine owned by Laboratório Sydney Ross do Brasil, a weekly magazine named O Pulso, distributed free of charge in doctors’ offices and drugstores all over Brazil. The readers’ letters became famous, in which they debated the short stories, with heated positions for and against the author. Thus, similarly to what occurred with Primeiras Estórias, Rosa could experiment his creations before the final publication. The last book by Rosa, as it would occur in the case of such innovative author, caused a series of questions and debates. The first question is: if the previous book was the Primeiras Estórias (First Stories) and Tutaméia has Terceiras Estórias (Third Stories) as subtitle which are the second stories? The answer is not easy to get. In an article about Tutaméia, Paulo Rónai, a close friend of the author, described the conversation he had with Rosa on this issue: - Why Terceiras Estórias (Third Stories) – I asked him – if there were no second ones? - Some say: because they were written after a group of other ones not included in Primeiras Estórias (First Stories). Others say: because the author, superstitious, wanted to create for himself the obligation and possibility of publishing one more volume of short stories, which would then be the Segundas Estórias (Second Stories). - And what does the author say? - The author says nothing – answered Guimarães Rosa with a big boyish laugh, happy to have led his colleague to a trap.34

Tutaméia did not obtain the immediate success of Sagarana and other works by Guimarães Rosa. Some critics considered the book as a lesser work of the writer. 45 years having gone by since its publication, a period in which critical analyses were made which contributed a lot to a better understanding of Tutaméia, this depreciative position is not dominant any more. Today, with the perspective of four and a half decades of reading, we can say that the incomprehension was a result of a hasty reading, which did not permit the beauties and secrets of Terceiras Estórias to be fully revealed. Additionally, of all Guimarães Rosa’s books, Tutaméia is the book whose reading presents the greatest level of difficulty. In this complex work, the writer reveals himself and unveils part – very important, by the way – of his literary creed. But, as it is a habit in Rosa’s writing, this is done in a subtle manner, almost cryptographic, which demands re-readings.

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That is why, so many years were necessary until the complex structure of Tutaméia could be grasped, even if in an incomplete way. Once again we can quote Paulo Rónai: In a conversation with me (…) he told me in secret that he gave great importance to this book, arisen in his spirit as a perfect whole notwithstanding what the short stories had of fragmentary. Among them there were the most substantial inter-relations, all the words were measured and weighed, set in their exact place, without the possibility of suppressing or changing more than two or three in all of the book without unbalancing the set. To this oral confession another one is added, printed at the end of the list of the equivalents of the title, as one more mea omnia equation. This etymology, so suggestive as inexact, makes of tutaméia a magical word typical of Rosa’s writing, confirming the assertion that the fictionist put a lot of himself, if not all of himself, into the book. But also in none of his other books does humor restrict the effusions to this extent, and irony stays in permanent alert to control the emotion.33

Some characteristics of Tutaméia have already become famous: the forty short stories and the four prefaces are presented in alphabetical order until we get to letter “J”. At this point, the sequence is broken and we have short stories beginning with the letters “G” and “R”, composing the sequence of the initials J G R, of João Guimarães Rosa. Then it goes back to the traditional alphabetical order until we get to the final short story, Zingarêsca. The “prefaces” are rather digressions on the aesthetic, poetic and humoristic view of Guimarães Rosa than stories themselves in Rosa’s way of seeing. Whereas the short stories form a magnificent kaleidoscope in which the multiplicity of characters, poetically characterized, following the ever amazing creation power of João Guimarães Rosa, dive into the effervescence of life with its infinite situations and possibilities. The publishing history of Tutaméia is simple. The princeps edition of 1967, with the famous red cover, once again drawn by Luís Jardim, was reproduced without many alterations by Livraria José Olympio Editora while holding the publishing rights of Rosa’s books. As from the 3rd edition, the editors began to include in the book, as appendix, two texts by Paulo Rónai with the respective titles, Os Prefácios de Tutaméia and As Estórias de Tutaméia, published in 1968. These texts can be regarded as the starting point of studies of the book. These editions, and the subsequent ones, under Nova Fronteira publisher’s responsibility, are part of Museu Casa Guimarães Rosa’s collection.

VIII Guimarães Rosa’s two subsequent books, Estas Estórias, of 1969, and Ave, Palavra, of 1970, despite having been published posthumously, were conceived and initially prepared by the writer. Both are collections, the first one of stories and the second one of chronicles and poems, of works, most of them, previously published in newspapers and magazines.

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Estas Estórias consists of eight short stories and a “poetic news report”, named Entremeio: Com o Vaqueiro Mariano, which, as the name puts it, divides the book in the middle, besides narrating Rosa’s trip to Pantanal Mato-Grossense, in the region known as Nhecolândia, where he was during some days with the cattleman Mariano and with him “much was learned about the cattle’s soul”. This news report was published in 1947 in newspapers and later in 1952 it was released in book by Hipocampo publisher, as mentioned above. This small bibliophile edition, which carried the title Com o Vaqueiro Mariano, transformed the news report into the writer’s second published book.

The novel Os Chapéus Transeuntes was written for the collective book Os Sete Pecados Capitais, released by Civilização Brasileira publisher in 1964. This text, in the spirit of the book for which it was written, is about pride and, due to its humor it is one of the most enjoyable creations of the writer from Cordisburgo. A Simples e Exata Estória do Burrinho do Comandante, initially published in Senhor magazine in April 1960, is a story in which Guimarães Rosa places his creative capacity in the construction of a narrative inspired in sailors’ language, in their characteristic professional jargon. With this procedure, he shows that it is possible to adapt his conception of creation to several language forms with the same success obtained in the books in which the spoken language from the sertão is preponderant. But the most significant of the short stories in the book, the one that the distinguished author Antonio Callado regards as “maybe the most important short story in the Brazilian literature34”, is Meu Tio o Iauaretê. This is a narrative, in the first person singular, of the adventures of a jaguar hunter of indigenous origin who, after being hired to get rid of a group of jaguars in a farm, changes sides and begins to kill and devour people. Due to the originality of its writing, Meu Tio o Iauaretê is considered as one Guimarães Rosa’s top creations, in the same linguistic complexity standard and depth of Grande Sertão: Veredas. The first publication of Meu Tio… was in Senhor magazine, in March 1961. But the publication date is not, necessarily, close to the date of the writing, because in the original typed version of the book, there is a handwritten note, by Rosa, which indicates the original of the text being previous to the writing of Grande Sertão: Veredas. Since its publication, Meu Tio o Iauaretê has been fascinating the readers and having a huge influence in the Brazilian arts. Just to give one example, we can mention the fact of an extremely important musician Milton Nascimento having released a record named Yauretê, with the beautiful black jaguar on the cover as illustration of the title, because Yauretê, with Y or I, has the same meaning as jaguaretê, that is, real jaguar in ancient tupi language. Once again, due the circumstances of its posthumous publication, Estas estórias has a simple publishing history. The standard established by its first edition in 1969, containing a preface of the edition’s organizer, Paulo Rónai, and, also an affective text by the writer’s daughter, Vilma Guimarães Rosa, was followed with only a few corrections in the subsequent editions. Museu Casa Guimarães Rosa’s collection exhibits the several editions of the book Estas Estórias, besides a very rare limited edition of 1952 of Com o Vaqueiro Mariano, some copies of Senhor magazine and the collective book already mentioned, Os Sete Pecados Capitais. IX The next book, Ave, Palavra, the last one to be idealized and partially prepared by João Guimarães Rosa is a “miscellany” which, in Paulo Rónai’s words, presents: (…) trip notes, diaries, poems, short stories, poetic news reports and meditations, everything which, connected to the thematic variety of some dramatic poems and philosophical texts, will constitute his twenty-year collaboration, discontinuous and sporadic, in Brazilian newspapers and magazines, during the period from 1947 to 1967.35

Because of its heterogeneous content, Ave, Palavra does not have the consistence of the writer’s other books. But, like Manuel Bandeira said in the excerpt already mentioned, “Rosa does not write on sand: Rosa engraves in rock.” And, for this reason, even the simplest and


unpretentious texts by JGR are significant and deserve to be preserved as inestimable part of our symbolic heritage. One of the most original parts that constitute the book are the poems, written by Rosa using anagrams. Additionally, there is an appendix with the title Jardins e Riachinhos, including four bucolic short stories which, it seems, should constitute a small book published separately. Besides these, there are some texts which have become famous, such as O Mau Humor de Wotan, in which the writer narrates the death of a German friend in the Russian front during the Second World War, Pé Duro, Chapéu-de-Couro, which describes a meeting of northeastern cattlemen, and Minas Gerais, a love declaration to his native state. From the view point of publishing history, there is not much to say about Ave, Palavra. The first edition, of 1970, has the advantage of bringing the date and place of the original publication of each text, which is of great interest for the more demanding reader and the researchers of Guimarães Rosa’s work. The other editions, unfortunately, eliminated this information, although they have incorporated small corrections into the text. These editions and some others, more modern, are part of the MCGR collection. X The texts by Guimarães Rosa not included in the publications above mentioned were written for specific purposes, without having been republished out of their context. The most important ones are: • Simples Passaporte, of the book De 7 Lagoas aos 7 Mares, by Vasconcelos Costa and released in 1960 by Itatiaia publisher, of Belo Horizonte. • Pequena Palavra, a study on the Hungarian culture and language, written in 1956 and published as preface of Antologia do Conto Húngaro, prepared by Paulo Rónai, a close friend and one of the intellectuals closest to Guimarães Rosa. • O Verbo & O Logos, the extremely important speech given by Guimarães Rosa when he took office at the Brazilian Academy of Letters, on 16 November, 1967, and published in the book Em Memória de João Guimarães Rosa, released by Livraria José Olympio Editora in 1968. • The translation of the condensed version of the book by Fred Bodsworth O Último dos Maçaricos, published in volume VI of Biblioteca de Seleções, of Ipiranga publisher, in 1958. • Chapter VII – always the Pythagorean 7 – of the collective book O Mistério dos MMM, detective novel organized by João Condé and published in 1962 by O Cruzeiro publisher. There are, also, the following collections of letters, indispensable reading for those wishing to go deeper into the process of creation of the writer from Minas: • J. Guimarães Rosa Correspondência com o Tradutor Italiano, released by Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro in 1972 in an edition of 1.000 numbered copies. Presently, there is the re-edition, of 2003, released by Nova Fronteira/Editora UFMG. • Sagarana Emotiva Cartas de J. Guimarães Rosa a Paulo Dantas, which collects the letters that Rosa sent to his friend Paulo Dantas, also a writer. The collection was published in 1975 by Livraria Duas Cidades. • João Guimarães Rosa – Correspondência Com Seu Tradutor Alemão Curt Meyer-Clason (1958-1967), jointly published, in 2003, by the Brazilian

Academy of Letters, Nova Fronteira publisher and Editora UFMG. • Cartas a William Agel de Mello, which collects the letters sent by the writer to his colleague from Itamaraty W. A. de Mello, published in 2003 by Giordano publisher jointly with Ateliê Editorial. João Guimarães Rosa was a reserved man, who avoided public appearances, interviews and parties in general. That is why, during his lifetime, very few times was he willing to meet the constant requests by the press. He used to say that his opinions were all in the books. In order for us to have a deeper image of the man and the vision that he had of literature as art, it is necessary the reading of three important interviews which were published in book. In January 1956, in Genoa, Italy, Rosa gave a long interview in German to Günter Lorenz. In it, he discusses his ethical and aesthetic principles, his biography, his literary taste, and even his political and religious opinions. Translated into Portuguese, the interview was re-published several times. The most recent one occurred in the edition of Ficção Completa by Guimarães Rosa released by Nova Aguilar publisher in 2006 and re-published in 2009. The interview can also be read in the book Guimarães Rosa, organized by Eduardo Coutinho de Faria for the Coleção Fortuna Crítica and released in 1983 by Civilização Brasileira Publisher/Pró-Memória Instituto Nacional do Livro. In 1946, Guimarães Rosa gave an interview to Ascendino Leite about his recently released Sagarana. It is interesting to note Rosa’s coherence, because a lot of what he said about the creation of his debut book applied to the rest of his work. The interview was published in João Pessoa, in 1997, by Editora Universitária, in a publication organized by Sonia Maria van Dijck Lima and with the title Ascendino Leite Entrevista Guimarães Rosa. In 2000, the same publisher released a 2nd reviewed edition of the book. In 1966, Guimarães Rosa received the professor and writer Arnaldo Saraiva in his office in Itamaraty, for the interview which was probably his last. Having been published in Portugal, in the book Encontro de Escritores, released by Paisagem publisher in 1972, the conversation is not very known in Brazil. Whoever wishes to know more about the performance and some of the official texts of the diplomat João Guimarães Rosa has a great study source in the book Guimarães Rosa: Diplomata, by Heloisa Vilhena de Araújo, published by Fundação Bartolomeu de Gusmão, with 2nd edition in 2007. But, however curious, interesting and rare that the books, magazines, small books and other publications above listed might be as objects, they would not have great value if they sheltered the work of a less important writer. Materially speaking, their value is in being the physical means through which the art of João Guimarães Rosa became public and was preserved, a unique and fundamental writer, whose extremely original vision of the Portuguese language as essential substance to be worked on and whose metaphysical perception of the sertão as a metaphor of the universe – external and internal – of each individual, the battle field where good and evil confront each other, where our contradictions bloom and prosper, revolutionized our way of seeing and being in the world. Four and a half decades after his death, his literature, one of the consolidating elements of our national and cultural identity, remains alive indicating the paths of eternity which awaits us and of the sertão which shelters us. João Guimarães Rosa is, hence, Rosa of the Times, Rosa of the Winds. Belo Horizonte, April 2012

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1. PLOTINO. Terceiro Tratado, Sobre a influência dos astros, In: ________. Enéada II a organização do Cosmo. Introdução, tradução e notas de João Lupi. Petrópolis: Vozes, 2010. p. 22 2. LORENZ, Günter. Diálogo com Guimarães Rosa. In: COUTINHO, Eduardo de Faria (Org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1983. p. 70. 3. LIMA, S. M. van Dijck. Ascendino Leite entrevista Guimarães Rosa. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 1997. p. 53-54. 4. Ibidem, p. 55. 5. LORENZ, op. cit., p. 69. 6. Ibidem, p. 86. 7. LIMA, op. cit., p. 66. 8. LORENZ, op. cit., p. 69. 9. Ibidem, p. 79. 10. Existem vários relatos da criação de Sagarana. Um deles está em Lima, op. cit., p. 10 e seguintes. 11. RAMOS, Graciliano. Um livro inédito. In: ________. Linhas Tortas (obra póstuma). 4. ed. São Paulo: Martins, 1971. 12. RAMOS, Graciliano. Conversa de bastidores. In: ________. Linhas Tortas (obra póstuma). 4. ed. São Paulo: Martins, 1971. p. 315-316. 13. LIMA, op. cit., p. 52. 14. COELHO, Nelly Novaes. Guimarães Rosa: um novo demiurgo. In: COELHO, Nelly Novaes;VERSIANI, Ivana. GUIMARÃES ROSA (dois estudos). São Paulo: Quíron/ Brasília: INL, 1975. p. 3. 15. GUIMARÃES ROSA, João. Sagarana emotiva, cartas de J. Guimarães Rosa (a) Paulo Dantas. Introdução de Dora Ferreira da Silva. São Paulo: Duas Cidades, 1975. p. 87 16. CANDIDO, Antonio. Sagarana. In: COUTINHO, Eduardo de Faria (Org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/Brasília: INL, 1983. p. 245. 17. LORENZ, op. cit., p. 70. 18. PLOTINO. Nono Tratado, Contra os gnósticos. Op. cit., p. 84. 19. Informações extraídas de RUUSBROEC, J. The spiritual espousal and other works. Introduction and translation of James A. Wiseman, OSB. Mahwah: Paulist Press. 1985. 20. Coco é forma de música popular do sertão, cantada e dançada. 21. DANTAS, Paulo. Nossa Amizade, depoimento. In: GUIMARÃES ROSA, João. Sagarana emotiva, cartas de J. Guimarães Rosa (a) Paulo Dantas. Introdução de Dora Ferreira da Silva. São Paulo: Duas Cidades, 1975. p. 26. 22. ROSA, João Guimarães. João Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p. 181. 23. ROSA, J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1956. p. 9 e p. 594. 24. LORENZ, op. cit., p. 73. 25. ROSA, J. G. Correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason (1958-1967). Belo Horizonte: Editora UFMG/Rio de Janeiro: Nova Fronteira, Academia Brasileira de Letras, 2003. p. 130. 26. LORENZ, op. cit., pp. 95-96. 27. GALVÃO, W. N. A Donzela-Guerreira. In: GRUPO ANIMA. Donzela Guerreira (CD + livreto). São Paulo: SESC/SP, 2009. 28. BANDEIRA, M. Grande sertão: veredas. In: ________. Poesia completa e prosa, organizada pelo autor. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974. p. 511-512. 29. CAMPOS, Paulo Mendes. Grande sertão: veredas. In: ________. Artigo indefinido: crônicas literárias. Rio de Janeiro: Record; Civilização Brasileira, 2000. p. 71-73. 30. BANDEIRA, M. Um Encontro Casual com Rosa. In: ________. Poesia completa e prosa, organizada pelo autor. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974. pp. 694-695. 31. ARAUJO, Heloisa Vilhena de. O Espelho: contribuição ao estudo de Guimarães Rosa. São Paulo: Mandarim, 1998. * O mesmo acontece em Corpo de Baile, em que o centro é a quarta das sete novelas, O Recado do Morro, que se passa na crista da elevação que lhe dá nome. As outras seis novelas, três anteriores e três posteriores a O Recado…, representam as encostas do morro-livro que deve ser escalado, ter sua crista percorrida e descido pelo leitor-alpinista. ** É o mesmo Luís Jardim, autor de Maria Perigosa, o livro que havia derrotado a primeira versão de Sagarana no concurso Humberto de Campos, quinze anos antes do lançamento de Primeiras Estórias. Artista plástico e escritor, Jardim atuou também como um importante ilustrador de livros no mercado editorial brasileiro da época. 32. RÓNAI, Paulo. Os prefácios de Tutaméia. In: ROSA, J. G. Tutaméia (Terceiras Estórias). 3. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1969. p. 194. 33. RÓNAI, op. cit., p. 15 34. CALLADO, Antonio. Depoimento. In: ________. Depoimentos sobre João Guimarães Rosa e sua Obra. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira; Livraria Saraiva, 2011. p. 9. 35. RÓNAI, Paulo. Nota introdutória. In: ________. ROSA, J. G. Ave, Palavra. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1970.

ROSA’S CARTOGRAPHY: THE LANDMARKS OF MUSEU CASA GUIMARÃES ROSA

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Similarly to what occurs in Iliad and Odyssey by Homer, João Guimarães Rosa’s work has its own cartography. The names of the places of the sertão where the adventures lived by his characters take place are, most of the time, inspired by real places, existent in the common maps of Minas Gerais inland. What in fact is imaginary, fantastic, mythical is the relationship between these places with the writer’s universe, who transforms the quiet Minas Gerais inland into the amazing Rosa’s sertão. Thus, the real geography of Minas Gerais is transmuted into João Guimarães Rosa’s mythical geography. This region in Minas, which carries within itself the geographic reference of the environment where his characters live, is represented in the maps herein presented, containing the identification of the territorial landmarks installed in ninety-five strategic points, forty of them are in Cordisburgo. Museu Casa Guimarães Rosa invites those who wish to engage in a closer contact with the environment which inspired the great writer to explore this peculiar territory.


PARTICULARITIES:

Field and historical research of the long term new exhibition of Museu Casa Guimarães Rosa Pablo L. O. Lima

Researcher and professor at Federal University of Minas Gerais

Thaís Tanure de O. Costa

Researcher and student at Federal University of Minas Gerais

O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas. Demais do Urucúia. Toleima. Para os Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é o dito sertão? Ah, tem que maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre de volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte. E o senhor me desculpe, de estar retrasando em tantas minudências. Mas até hoje eu represento em meus olhos aquela hora, tudo tão bom; e, o que é, é saudade. Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas.

History and nostalgia walk together in João Guimarães Rosa’s sertão.

This interdependence, which appears in many passages of the writer’s work, is also found in accounts from the current sertão’s inhabitants who narrate their lives, their crossings. Tracking the Minas Gerais sertão, it is possible to know people and places, works with heritage, their routines and parties. But, it is perceptible that it is, always, another sertão. During the field research, we witnessed the damage to the vegetation and the invasion of the eucalyptus, the pollution of the rivers and the neglect of many paths. Affective dynamics that the eyes can seize, but a lot is not seen: the nostalgia, in the elapsed time, appears in the day to day spoken words.

In a passage of Grande Sertão: Veredas, Rosa, in the voice of Riobaldo, questions his interlocutor on what can be interpreted as an intention to travel through the sertão, in order to know it. Riobaldo finds the intention strange and warns that the man had got there too late. The sertão was not as it used to be: Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios, para sortimento de conferir o que existe? Tem seus motivos. Agora – digo por mim – o senhor vem, veio tarde. Tempos foram, os costumes demudaram. Quase que, de legítimo leal, pouco sobra, nem sobra mais nada. Os bandos bons de valentões repartiram seu fim; muito que foi jagunço, por aí pena, pede esmola. Mesmo que os vaqueiros duvidam de vir no comércio vestidos de roupa inteira de couro, acham que traje de gibão é feio e capiau. E até o gado no grameal vai minguando menos bravo, mais educado: casteado de zebu, desvém com o resto de curraleiro e de crioulo. Sempre, no gerais, é à pobreza, à tristeza. Uma tristeza que até alegra. Mas, então, para uma safra razoável de bizarrices, reconselho de o senhor entestar viagem mais dilatada. Não fosse meu despoder, por azias e reumatismo, aí eu ia. Eu guiava o senhor até tudo. (ROSA, 1984, p. 21).

The old cattleman shows a desire to go with the traveler, however limited he was due to rheumatism. And suggests a longer trip. Even considering the “times had gone, habits had changed”, Riobaldo asserts that the undertaking is still possible because the places continue to be witnesses of the history: “Sir you go there, you will see. The places are always there, themselves, to confirm” (1984, p. 22).

The field research for the New Exhibition of Museu Casa Guimarães Rosa, with the title Rosa dos Tempos, Rosa dos Ventos/ Rosa of the Times, Rosa of the Winds, was carried out during three months, from July to October 2011, having tracked altogether approximately 1,500 km.

This work was collectively organized by the team responsible for the project and it was developed by means of two field trips through the sertão: the first one between Belo Horizonte, Cordisburgo, Morro da Garça, Curvelo, Inimutaba, Presidente Juscelino and Araçaí; and the second one between Belo Horizonte, Felixlândia, Três Marias, Pirapora, Buritizeiro, Várzea da Palma, Lassance, Corinto and Cordisburgo.

The objective of these trips was to identify and to register with photographs the goods of the cultural heritage of the region, mobile and immobile material, and also the intangible heritage. Parallel to this, record cards of the material cultural goods (mobile and immobile) and intangible goods (cultural and technical demonstrations, knowledge, groups or individuals). These record cards were filled in by local researchers connected to the project: Maria de Fátima Castro, José Maria Gonçalves and José Osvaldo dos Santos (Brasinha), and they were transcribed by Thaís Tanure de O. Costa. From this survey, executed in the region, based on the memories of the population and the reading of João Guimarães Rosa’s work, and also on the Minas Gerais Public Records, we selected some goods which may be used by the new exhibition as operational collections. We found places, cultural demonstrations, groups and individuals who give life to Guimarães Rosa’s sertão. We did a vast survey on the cultural heritage of this region, identifying more than seventy material cultural goods (mobile and immobile) and intangible goods (cultural and technical demonstrations, knowledge, groups or individuals), registered as operational collections. This documental collection is now available for researches and future exhibitions in Museu Casa Guimarães Rosa.

The research revealed the special importance of some cultural goods for MCGR: the museum house itself; the municipalities of Cordisburgo and Morro da Garça and Vila de Andrequicé, in Três Marias municipality.

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The last three towns are locations which hold strong connections with the works in the culture field and with João Guimarães Rosa’s work. We also concluded that it is essential to consider the River São Francisco and the set of stations and railway buildings of Sete Lagoas, Araçaí, Cordisburgo, Corinto, Lassance, Várzea da Palma, Pirapora and Buritizeiro as operational territorial collections for Museu Casa Guimarães Rosa.

Sr. Afonso Alves, Cordisburgo/MG

When exploring the old tracks of the muleteers transformed into roads, we observed the vigorousness of the greeness of the eucalyptus over the dry land and we found ruins of the progress in the old train stations. We met and listened to men and women of the sertão, which enabled us to feel the strength of the sertão culture, of the people who daily work under the sun, in the land and in the waters, of those who are under the light of Guimarães Rosa’s work and life. Resistance of other times is now here, close to us.

Working on João Guimarães Rosa’s literature, his life, his land and his people, for the construction of a museum exhibition, is not an easy job. It is job done with the heart, legs, hands and eyes; with the ears and other senses. Where the field researchers go, who they talk to, at what time, what day, what period are particularities that condition the sensations. At the end, we hope to have managed to mediate the intentions of a research project for the museum exhibition with the concrete reality of the explored field. A difficult and honorable job when it comes to exploring in the sertão Rosa’s tracks. The full content of the research is available at the site www. amigosdomcgr.org.br.

MUSEU CASA GUIMARÃES ROSA AND THE PROJECT LIVING MEMORY OF THE SERTÃO The importance of preserving the life memory is justified by the need to maintain and help build the history of places and people. Thus, the project Living Memory of the Sertão makes its contribution so that Museu Casa Guimarães Rosa, an institution linked to the Superintendence of Museums and Visual Arts of Minas Gerais State Department of Culture, has in its collection the register of stories, the way of living, speaking and thinking of the people from the sertão. With the record of these memories, we have the opportunity to touch people about the importance of re-thinking our present and the future we aim at. The appreciation for cultural knowledge resulting from accumulated experiences and the day to day life of these people allow us to strengthen the social unit, as a tool that reconstructs and expands the freedom to learn, discover and live. The retrieving and reconstruction of these stories will help the citizen to know and draw their own reality and the reality of their ancestors as a way of perpetuating them for the coming generations.

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The project Living Memory of the Sertão focuses on the use of the memory as a way of retrieving the affective history, which involves souvenirs, emotions and other feelings, making the people from the sertão share their individual memories with all of us. The documentary Conto o que vi, o que não vi, não conto / I’ll tell you what I saw, what I didn’t see I won’t tell you allows us to learn about these various stories which were daily built by people who, upon remembering their own lives through testimonies, made them feel confident and proud of their experiences, feelings, deceptions and joys of a past at the same time so far and so near. Ronaldo Alves de Oliveira Coordinator of Museu Casa Guimarães Rosa


Living Memory of the Sertão is a project which was born of the writer João Guimarães Rosa’s literature and the trips through Minas Gerais sertão towns (Cordisburgo, Morro da Garça, Andrequicé/Três Marias). Between reality and fiction and the interest in life stories, the idea of recording the local culture lived by the population and portrayed by the writer arose. Songs and games, serestas (typical serenades) and dances, anecdotes and stories and the struggle to survive emerged in the stories of the interviewees. The first interviews in audio and the photographic records are from 1997. Thus, a collection was progressively formed through the initiative of the project creator, Beth Ziani. With the project Permanent New Exhibition of Museu Casa Guimarães Rosa, the research was expanded and the relation of the literature with the culture, the memory and the spoken word became a source for the execution of the documentary – Conto o que vi, o que não vi, não conto / I’ll tell you what I saw, what I didn’t see I won’t tell you and for the project Manto do Vaqueiro / Cattleman’s Cloak. These two projects were developed creating a dialog between the people of the sertão and Guimarães Rosa’s work.

The documentary Conto o que vi, o que não vi, não conto, approaches the life of the sertão people and puts them as narrators of their own stories. The idea was to register the life experiences of an old sertão, but still alive in the memory of the people. With reflections about childhood, maturity, traditions and relation with the land and the sertão, the documentary presents a sertão which lives in the memory of the people and in Guimarães Rosa’s literature. The recordings were made in the following towns: Cordisburgo, Morro da Garça, Andrequicé/Três Marias, Corinto, Curvelo, Pirapora, Buritizeiro, Urucuia, Riachinho, Arinos, Chapada Gaúcha, Parque Nacional Grande Sertão Veredas, Serra das Araras, Vão do Buraco, São Francisco, Montes Claros, Itacambira. Direction Beth Ziani; Photography and editing Joacélio Batista; Art direction Ronaldo Alves. O Manto do Vaqueiro/The Cattleman’s Cloak is the result of a long research about the life and work of the writer João Guimarães Rosa in the attempt to establish parallels between memory, literature and other forms of expression.

The replica of an old cattleman’s cloak materialized the power of the memory to be achieved and the printing of the colors of the sertão, from the azure-blue to the earth brown, throughout the extent, composed the atmosphere of this landscape. The drawings by the artist José Murilo, also printed, brought the day to day of the sertão and the reading of episodes of the work Grande Sertão: Veredas by João Guimarães Rosa.

On the inner part of the cloak, the writer’s creative process was registered. The first page of Grande Sertão: Veredas is in the central part and on the sides there are the fragments of the diary A Boiada, references of the trip in 1952 the author went on with cattlemen and the head of the group Manuel Nardy. The Cloak was embroidered by approximately two hundred people. The cloak started off its journey in São Paulo and traveled through Cordisburgo, Andrequicé, Três Marias and Morro da Garça. Three miniatures were prepared and embroidered by the communities with the intention of registering references of each town’s identity. Thus, besides embroidering the Cloak, each town also embroidered a small replica. This Cloak is the representation of the Minas sertão, a tribute to our cattlemen, such important characters in the history of Brazil and also a likely interpretation of João Guimarães Rosa’s literature, but above all it is the collective experience of weaving and sharing the creation of an embroidered work by many hands based on many, many stories.

Detalhe de bordado, Serra das Araras/MG

This project is dedicated to three people who have contributed a lot to the development of this movement around Guimarães Rosa’s work: Calina Guimarães (creator of Grupo de Contadores de Estórias Miguilim/Miguilim Story Tellers Group); Marily da Cunha Bezerra (conceptor of Circuito Literário/Literary Circuit and stimulator of several projects performed in the towns of the Circuit); Neuma Cavalcante (collaborator and partner of Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa/Semana Rosiana – Association of the Friends of Museu Casa Guimarães Rosa / Rosa’s Week). Conception and Curatorship – Beth Ziani

Art Direction and Costumes – Joana Salles

Creation and Development – Beth Ziani and Joana Salles Drawings and paintings – José Murilo de Oliveira Literary research – Beth Ziani

Embroidery – Grupo Estrelas do Sertão, residents of Cordisburo, Morro da Garça, Andrequicé, Três Marias and São Paulo.


Parque Grande Sertão: Veredas, Chapada Gaúcha/MG


FICHA TÉCNICA DO GOVERNO Governador do Estado de Minas Gerais: Antonio Anastasia Vice-Governador do Estado de Minas Gerais: Alberto Pinto Coelho Secretária de Estado de Cultura: Eliane Parreiras Secretária Adjunta da Secretaria de Estado de Cultura: Maria Olívia de Castro e Oliveira Superintendente de Museus e Artes Visuais: Léo Bahia Museu Casa Guimarães Rosa: Ronaldo Alves de Oliveira

FICHA TÉCNICA DA EXPOSIÇÃO ROSA DOS TEMPOS ROSA DOS VENTOS Presidente da Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa: Solange Agripa Trombini Curador: Leonardo José Magalhães Gomes Museografia e Design: Flávio Vignoli Assistente de Design: Israel Crispim Jr. Revisão: Nathalia Campos Pesquisa de Campo: Pablo Luiz de Oliveira Lima Assistentes de Pesquisa de Campo: Thaís Tanure de O. Costa, Maria de Fátima Castro, José Maria Gonçalves e José Osvaldo dos Santos Memória Viva do Sertão – Coordenação: Elizabeth Ziani Memória Viva do Sertão – Filmagens e Edição: Joacélio Batista da Silva Mapa do Território do Museu Casa Guimarães Rosa: Dieter Heidemann e Ewerton Talpo Ilustração: Júlia Bianchi Fotografia: Pedro David Produção Executiva: Andréa de Magalhães Matos

Rosa dos Tempos Rosa dos Ventos  

Catálogo da Exposição Rosa dos Tempos Rosa dos Ventos