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ESPECIAL MURO DE BERLIM

SALVADOR 9/11/2009

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Thiago Teixeira / Ag. A TARDE

anos depois, pedaços do muro trazem à tona a história da divisão da Alemanha e sua influência na nova ordem mundial

Fragmentos do Muro de Berlim, do alemão Arno Dresden

http://murodeberlim.artade.com.br

COORDENAÇÃO: FLÁVIO OLIVEIRA / PLANEJAMENTO E EDIÇÃO: CASSANDRA BARTELÓ EDIÇÃO: MARCIA GOMES / PROJETO GRÁFICO E INFOGRAFIA: FILIPE CARTAXO E IANSÃ NEGRÃO


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ES P EC I A L

Em maio, nasce a República Federal da Alemanha, do lado Ocidental, e em outubro a União Soviética cria a República Democrática Alemã, no leste

1949

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No dia 27 de julho, as Coreias do Sul e do Norte negociaram um cessar-fogo. Entretanto, até hoje não foi assinado o tratado de paz. Aproximadamente 3 milhões de pessoas morreram no conflito

POLÔNIA

HOLANDA

Berlim

BÉLGICA

ALEMANHA

REP. CHECA

FRANÇA

SUIÇA

ÁUSTRIA

1950 1 O personagem Zé Carioca, criado para demonstrar o interesse dos Estados Unidos em uma boa vizinhança na América Latina, chega aos quadrinhos no Brasil

1953 1956

Nas Olimpíadas de 1956, em Melbourne, atletas das duas Alemanhas competiram juntas na mesma equipe, que ficou conhecida como Alemanha Unida

POL ARIZAÇÃO

Muro cristaliza separação do povo alemão

Arte sobre foto de Thiago Teixeira / Ag. A TARDE / Editoria de Arte A TARDE

Barreira foi levantada na noite de 13 de agosto de 1961

Alemães orientais, em 1989, clamam pelo fim dos sacrifícios pessoais e dizem não à manutenção do sistema socialista

DONALDSON GOMES

A barreira que se tornou o maior símbolo de um mundo dividido foi erguida em apenas uma noite e permaneceu de pé por 28 anos. Não foi a construção do Muro de Berlim, em 1961, que dividiu a Alemanha em duas, mas a existência dele acentuou por quase três décadas as diferenças de um povo. Do mesmo modo, a queda, há 20 anos, não acabou com tais diferenças, mas mostrou que fortalezas de concreto ou ideológicas não passam impunes à vontade popular. Na madrugada de 13 de agosto, soldados da Alemanha vermelha materializaram o abismo que existia entre o Ocidente e o Oriente. Para sustentar um regime político, a liberdade foi controlada, foram suspensos direitos individuais e muitas famílias foram separadas. O muro fazia sentido para o mundo socialista e era tacitamente aceito entre as potências

A divisão da Alemanha em Oriental e Ocidental fazia sentido para o mundo socialista e era um mal necessário entre as nações capitalistas

capitalistas. “Esta não é uma solução bonita, mas é melhor que uma guerra”, calculou o ex-presidente norte-americano John Kennedy. Em 1989, os alemães orientais demonstraram não suportar mais manter uma vida de sacrifícios pessoais em prol do socialismo. Ainda assim, o líder socialista Erich Honecker insistia na

retórica, ignorando as pessoas. “O muro vai existir por mais 50 ou 100 anos”.

Novos atores Além do início da reunificação alemã, o ano de 1989 marcaria o fim da polarização entre capitalismo e socialismo. Por conta disso, os Estados Unidos não tiveram problemas para expandir sua influência econômica e bélica pelo mundo. Duas décadas após o dia que marcou o fim do socialismo, novos atores assumiram a cena. O mundo bipolar deu lugar ao G-8. Este, por sua vez, já cede espaço para o G-20. Muitas barreiras, como as do comércio brasileiro, deixaram de existir. Outras se modificaram, como a segregação, cada vez mais simbólica. Entretanto, há muitos outros muros ainda por cair na era da pós-modernidade, caracterizada por barreiras econômicas, sociais, digitais, entre outras. Este é o mundo que A TARDE mostra no Especial Muro de Berlim.


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1959

Em junho, o governo da Alemanha Oriental nega a intenção de construir um muro para separar os dois países. Na madrugada do dia 13 de agosto, a fronteira em Berlim foi ocupada por soldados alemães e soviéticos que ergueram 66,5 quilômetros de gradeamento metálico

Começa a Guerra do Vietnã

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Exatamente um ano após a construção do muro, o pedreiro Peter Fechter tornou-se a mais famosa vítima do muro. Ao tentar atravessar para o lado ocidental, foi alvejado pelas costas e morreu de hemorragia

1961

1963

HISTÓRIA

Os mártires do concreto Nos 28 anos de existência do Muro de Berlim, 270 pessoas morreram fuziladas ao tentar passar para o outro lado e 18.300 foram presas, acusadas de trair a pátria

Ilustração sobre foto Cau Gomez / Editoria de Arte A TARDE

JOÃO PEDRO PITOMBO

O dia e mês não poderiam ser mais apropriados. Era dia 13, era agosto e, o ano, 1961. Berlim amanhecia ao som do tilintar das pás, do bater dos tijolos. A partir de rolos de arame farpado e sacos de cimento, foi erguida a barreira que separou a Alemanha por 28 anos. Imponente, ba-

tizaram-na de Cortina de Ferro. Ocidente de um lado, Oriente do outro. E o mundo ganhava uma linha divisória – não mais imaginária, tal como é a do Equador. Um ano e quatro dias depois. Na paisagem árida e cinzenta, o estampido. Alvejado pelas costas, o corpo tomba no chão. O ano é 1962, a cidade é Berlim e o nome dele é Peter Fechter. Então

com 18 anos, este pedreiro da Berlim Oriental deixa um rastro de sangue na rua Zimmerstrasse. Só queria visitar a irmã. Ficou para a história como uma das primeiras vítimas da estupidez humana em forma de concreto. Os anos se passaram e a cena é praticamente a mesma: o tiro, o estampido, o corpo caído no chão. O ano é 1989 e o nome de-

le é Chris Gueffroy. Abatido na faixa da morte, o jovem de 21 anos tem na carne a marca do último disparo fatal. Com a morte anunciada, as pedras da Cortina de Ferro ruíram nove meses depois. Sem sangue, sem balas, sem o menor sinal de resistência. Assim como apareceu, o muro se dissipou rapidamente entre picaretas e gri-

tos de liberdade. Eis a síntese da sua trajetória: 28 anos, 270 vítimas fatais e 18.300 presos sob acusação de traição à pátria. Liberdade cerceada e o isolamento de milhões de pessoas, que viviam com uma grande pedra no meio do caminho. As pedras foram ao chão. Viraram pó, com sangue e suor. E deixaram uma marca indelével na história.


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O golpe militar tira João Goulart do poder e mergulha o Brasil em uma ditadura que duraria até 1985

Os Estados Unidos decidem enviar tropas para apoiar o Vietnã do Sul e evitar que o país asiático se unificasse como uma nação comunista

1964

O diretor Stanley Kubrick lança Dr. Strangelove (Doutor Fantástico), uma das maiores e mais duras críticas satíricas à Guerra Fria

1965

No dia 6 de setembro, o termo hippie foi usado pela primeira vez para designar a contracultura

D I F E R E N Ç AS

2 LADOS

Enquanto, na década de 80, os Estados Unidos investem 25% do orçamento do país na disputa pela liderança na corrida armamentista, a URSS não consegue incrementar seu desenvolvimento industrial

Lúcio Távora / Ag. A TARDE / 14.3.2009

LÍLIA DE SOUZA

Governo de Ronald Reagan, década de 80. O mundo bipolar da Guerra Fria entra em uma nova corrida armamentista. O presidente norte-americano chega a comprometer até 25% do orçamento do país – isto representava todo o PIB da União Soviética. Apesar das tentativas de reforma e reconstrução econômica, empreendidas pelo governo de Nikita Kruschchev (58-64) e, nos anos 80, pelo último secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista, Mikhail Gorbachev, a URSS via a sua economia na lona. Àquela altura, não conseguia entrar na revolução tecnológicae nemfazer comque sua indústria produzisse bens de consumo. Registrava ainda as maiores taxas de alcoolismo e divórcio do mundo. A derrocada

do sistema estava próxima. E o que separava e aproximava a vida das pessoas do mundo pós-Segunda Guerra, baseado no equilíbrio de poder entre dois blocos encabeçados por duas superpotências vencedoras do conflito, cujo saldo foi 19 milhões de mortos? A ameaça constante de uma guerra nuclear envolvendo as supernações e suas áreas de influência era compartilhada pelos indivíduos daquelas décadas. Mas o pós-Segunda Guerra foi muito mais penoso para os países do Leste, da área de influência comunista. Um dos fatores que beneficiaram o bloco capitalista foi a ação norte-americana através do Plano Marshall, em 1947, para a reconstrução das economias europeias. “Diante de uma atmosfera internacional favorável às es-

“Eu era um refresco para quem queria ter liberdade de pensamento” TOM ZÉ, músico, sobre a reação do público alemão

querdas, para conter o expansionismo comunista, os Estados Unidos colocam em prática o plano de reconstrução, que visava não só reconstruir as economias europeias, mas fazer isso sob a égide das empresas multinacionais norte-americanas”, ressalta o professor da Ufba, especialista em História Contemporânea, Muniz Ferreira. Maior estudioso brasileiro do tema, o cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, em A reunificação da Alemanha - Do ideal socialista ao socialismo real, explica esse processo: “As condições econômicas e sociais da Zona de Ocupação Soviética/RDA, na verdade, eram terrivelmente mais precárias, piores do que em 1945, como resultante, sobretudo, da ação predatória da URSS, que não só impôs obstáculo a qualquer esforço de reconstru-

ção como agravou os danos causados pela guerra”.

Histórias Era 1972 ou 1973. O irreverente Tom Zé pisava na Berlim Oriental para fazer um show. “Tinha uma nuvem escura, entrei com medo infantil”, relatou. O músico baiano diz que chegou à Alemanha Oriental já trazendo consigo os relatos de seus amigos do antigo Colégio da Bahia que haviam estado lá. “Quando foram, voltaram como se tivessem regredido no tempo e no espaço”. Tom Zé rememora sua apresentação na cidade: “Na hora que eu estava desmontando os buzinórios, depois do show, os jovens não saíam do teatro. Um estava lá quase chorando e disse para eu não ir embora. Era como se eu fosse um refresco para pessoas que precisavam de alguma


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As cinco grandes potências nucleares – Estados Unidos, União Soviética, China, Grã-Bretanha e França – assinam o Tratado de Não-Proliferação Nuclear

1968

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Willy Brandt se torna chefe de um governo social-liberal na Alemanha Ocidental e promove ampliações na rede de proteção social do país, com melhorias na educação. É o início do Estado do bem-estar social

As duas Alemanhas passam a competir separadas nos jogos olímpicos

1969

Os astronautas Neil Armstrong, Edwin 'Buzz' Aldrin e Michael Collins chegaram à Lua em 20 de julho, após viajar a bordo da nave Apollo 11

MICHAEL KAPPELER / AFP

Muralha impõe estilos de vida opostos ao povo alemão

liberdade de pensamento”. Para Holger Tluche – ex-mecânico alemão que viveu em Dresden, a 120 km de Berlim Oriental – mais difícil do que esperar 15 anos para comprar um carro, ou cinco anos para adquirir uma tevê, era a convivência com a impossibilidade de viajar e se locomover para outros países fora da área soviética, devido ao forte

controle feito pela polícia nas fronteiras. “Quase todo mundo tinha dinheiro, mas não tinha produtos para comprar”, destaca. Mas havia vantagens: “Minha mãe nunca pagou para eu ir à escola. A escola era boa, o serviço médico era bom”. Em 1989, Tluche foi viver em Hanover, na Alemanha Ocidental. Diretor do Instituto Cultural

Brasil Alemanha (Icba), que viveu em Munique, na Alemanha Ocidental, Gmünder Ulrich relembra que, onde vivia, não existia uma expectativa de que o país fosse reunificado em 1989, após a queda do Muro de Berlim. “A maioria dos alemães que morava no lado ocidental não acreditava mais na possibilidade de unificação. Uma boa parte havia

se acomodado com a situação”. Administrador cultural e diretor da biblioteca do Icba, Álvaro Mendes considera que a sua mudança, durante a ditadura militar no Brasil, para a Alemanha Ocidental – onde viveu três anos – significou um encontro com uma esfera de liberdade. “Saí no governo Médici e encontrei lá diversos movimentos, em defesa

das liberdades sexuais, da causa Palestina, contra a Guerra do Vietnã, pelos panteras negras”. Para Tom Zé, “foi entristecedora a perda da utopia comunista”, diante do stalinismo soviético – que resultou no chamado socialismo real – e da vitória dos EUA. “Sempre que podem, (os norte-americanos) são os melhores filhos da p... do mundo”.


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O premiê Willy Brandt colocou flores no monumento pelas vítimas do nazismo na Varsóvia (Polônia) e em seguida se ajoelhou em um gesto que ficou marcado como o primeiro pedido de desculpas dos alemães em 7 de dezembro

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A Alemanha Ocidental venceu a Copa do Mundo de 1974, em casa, após superar a Holanda

1973

1970

As duas Alemanhas assinam o Tratado de Bases, que estabelece a boa vizinhança entre os dois países, e entram para as Nações Unidas

1974

ALINHAMENTO EVANDRO TEIXEIRA / 26.6.1968

Repressão durou de 1964 a 1985 no Brasil

Brasil mantém laços com Leste Europeu Estados Unidos apoiam ditaduras na América Latina para barrar o socialismo

União Soviética e países do Leste Europeu.

LÍLIA DE SOUZA

“O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, disse o ex-interventor da Bahia Juracy Magalhães (1931-1937), quando era, então, ministro das Relações Exteriores do governo Castello Branco – o primeiro do golpe militar de 1964. A frase do cearense evidencia o ápice do alinhamento do Brasil com os EUA, no período em que o governo norte-americano financiou ditaduras em toda a América Latina, na esteira da Guerra Fria. Mas não se pode dizer que a tradição da diplomacia brasileira foi a de alinhamento automático com o governo norte-americano, muito pelo contrário. O Brasil se aproximou, inclusive, dos países do Leste Europeu durante a ditadura militar. “A tradição da diplomacia brasileira é a de buscar na realidade internacional as condições mais favoráveis para a projeção do País enquanto potência emer-

“A diplomacia brasileira busca na realidade internacional condições para a projeção do País”

Ecumenismo

MUNIZ FERREIRA, professor de história contemporânea

gente”, explica o professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Ufba Muniz Ferreira, especialista em História Contemporânea. Antes do golpe militar, outro auge da influência dos EUA foi no governo de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), com a criação da Escola Superior de Guerra, em 1948. Calcada na Doutrina da

Segurança Nacional e inspirada no National War College norte-americano, a escola defendeu a concepção bipolar da Guerra Fria e se constituiu como um órgão difusor da ideologia anticomunista no País. As relações diplomáticas com a União Soviética foram rompidas neste mesmo ano por Dutra, ex-ministro da Guerra do governo Var-

gas, e só foram retomadas em 1961, com João Goulart. Daí em diante, excetuando-se o momento inicial do golpe, quando foram quebrados os laços com Cuba e China, o Brasil passou a adotar uma postura autônoma em relação à polarização da Guerra Fria. Mesmo com o patrocínio dos EUA à ditadura, o País manteve o diálogo com a

Nesse paradigma, o historiador Muniz Ferreira destaca o governo do general Ernesto Geisel (1974-1979). “Foi formulada a política do ecumenismo pragmático responsável. Assim, ele se aproxima dos países da África que têm governo marxista-leninista, a exemplo de Angola”, ressalta. Enquanto a ditadura reprimia violentamente os comunistas e os movimentos populares e sociais brasileiros, o governo Geisel fez do Brasil a primeira nação no mundo a reconhecer a independência de Angola. Em 1977, reconheceu a China popular e defendeu o retorno do país à ONU. Além disso, condenou o sionismo israelense contra o povo palestino e o apartheid na África do Sul. “Era uma política flexível para fora e dura dentro do País”, frisa Muniz Ferreira.


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7 John Gaps III / AP

Berlim: três décadas em uma noite JOÃO PEDRO PITOMBO

Ab sofort. Eram 18h45 do dia 9 de novembro de 1989 quando a senha foi dada pelo chefe do Comitê Municipal do Partido Comunista de Berlim Oriental, Günter Schabowski: ab sofort – ou em bom português, “agora, imediatamente”. Um ato falho sobre quando começariam a vigorar as regras que davam direito a passaporte aos alemães orientais. E o estrago estava feito. As palavras correram o país como um rastilho de pólvora. Em poucas horas, uma barreira que há 28 anos separava a Alemanha em duas partes foi ao chão. Enfim, o Leste reencontrou o Oeste. Berlim estava novamente unida.

GERARD MALIE / AFP

Armados e sem reação

Protagonistas do colapso

SEM ORDENS SUPERIORES

OS DONOS DO MURO

Perdidos e sem instrução dos superiores, os militares ficaram impotentes diante da multidão em torno do muro. A certa altura, deram de ombros: abriram os portões e permitiram o encontro entre as duas Alemanhas

Do outro lado, o retrato da busca pela liberdade. Os alemães se aglomeraram a poucos metros dos pontos de controle. E se mantiveram firmes frente a guardas armados, cães e holofotes. O muro já era deles


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HUNGRIA

Em 15 de outubro, a Bósnia e a Herzegovina se declaram independentes da Iugoslávia, dando início a uma das mais sangrentas guerras do século

1991

CROÁCIA

ROMÊNIA

BÓSNIAHEZEGOVINA

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Os jogos de Barcelona foram a primeira oportunidade de a Alemanha Unificada mostrar que ainda era uma potência olímpica. Com 82 medalhas conquistadas, a equipe garantiu a terceira posição em condecorações

SÉRVIA

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MONTENEGRO KOSOVO

Apesar dos sangrentos conflitos iniciados pelos pedidos de independência, a Comunidade Europeia reconheceu as independências das regiões um ano depois

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I D EO LO G I AS

CONTRADIÇÕES DA NOVA ORDEM SOCIAL Em 20 anos de transformações sociais, militâncias passam a adotar discurso que valoriza temas como globalização, aquecimento global e confronto de civilizações

JOÃO PEDRO PITOMBO

Pensamentos, ideologias, formas de organização social. Que mudanças são possíveis ao longo de 20 anos? Em duas décadas, a população mundial saltou de cinco para quase sete bilhões de pessoas. Mudaram os centros de decisão política e os protagonistas do desenvolvimento econômico. Avançaram as tecnologias, derrubaram-se fronteiras, tornando cada vez mais palpável o conceito de aldeia global. No centro destas mudanças, as pessoas. Das suas bocas, palavras como capitalismo, comunismo e luta de classes caíram em desuso. Foram trocadas por novas agendas que falam de globalização, aquecimento global, confronto de civilizações; cantadas em verso e prosa sob novas formas de participação na sociedade. Com todas as contradições que lhe são inerentes. Na análise da professora do Departamento de Ciência Políti-

ca da Universidade Federal da Bahia, Maria Victória Espiñeira, as mudanças mais significativas estão na participação política e social das pessoas. “Se antes as questões de classe estavam no centro das discussões, hoje as questões culturais dão o tom. Trazem temas mais específicos, voltados para questões sociais, raciais e de gênero”, explica. Neste cenário, são escancaradas as contradições da nova ordem social. A possibilidade de maior participação política deu origem a uma democracia mais

forte? A expansão da tecnologia e a superação de barreiras geográficas criaram uma sociedade mais integrada e participativa? As respostas não são tão simples. De acordo com a professora Victória Espiñeira, a participação política foi alvo de mudanças significativas nas últimas duas décadas: “A política representativa deu lugar a formas de atuação mais diretas e menos hierarquizadas. Por isso, há autores que defendem que vivemos em um mundo pós-partidário”. O professor do Departamento de

Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Musse, acredita que o avanço do capitalismo evidenciou o declínio das relações comunitárias. “A internet fortalece o individualismo. As comunidades são restritas ao mundo virtual e raramente têm impacto sobre a sociabilidade real”. Mesmo com a queda do socialismo e o avanço da economia liberal, conceitos como o de direita e esquerda ainda sobrevivem. “Eu

diria que estes ideais permanecem. Ainda existe este sentido deescolha,e obomdademocracia é que existe liberdade e respeito às regras do jogo”, ressalta Espiñeira. Na avaliação do professor Ricardo Musse, a hegemonia capitalista determinou o declínio das ideologias. “A defesa do socialismo cedeu espaço para a críticas da civilização capitalista que destacam seu teor destrutivo em relação ao meio ambiente, às culturas tradicionais e uniformização social”.

Os centros de decisão política e os protagonistas do desenvolvimento econômico mudaram

A queda do socialismo não pulverizou conceitos históricos como “direita” e “esquerda”

Declínio

Fernando Vivas / Ag. A TARDE

“Hoje, o centro das discussões está nas questões sociais, de gênero e raciais” MARIA VICTÓRIA ESPIÑEIRA, professora de ciência política


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O governo Itamar lançou o Plano Real, que estabilizou a economia e acabou com a crise hiperinflacionária

1994 Em 15 de fevereiro, o Brasil deu início ao processo de abertura comercial, no governo do ex-presidente Fernando Collor

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Início da proliferação da internet no Brasil e a entrada dos dois primeiros provedores de acesso brasileiros no mercado

A França realiza testes nucleares no Atol de Mururoa

1996

1995

Lionel Bonaventure / AFP / 24.10.2009

Muros e pontes do tempo ADILSON BORGES Jornalista

Manifestações sobre questões climáticas são cada vez mais frequentes

Parece um mamulengo – sem os braços abertos do Cristo no Corcovado. Projetada para a frente, a mão direita oferece cumprimento ou aponta direção. Mas, elevada ao céu, a estátua, homem-pássaro, vaga como se procurasse algo para se agarrar e interromper a forçada viagem na história. Removida por via área, como náufrago resgatado de helicóptero, a imagem do ex-incontestável comandante da revolução russa percorrendo as ruas germânicas é um dos mais fortes momentos de Adeus, Lênin, filme de Wolfganger Becker. Uma mulher que ainda não disse adeus às ilusões do comunismo totalitário entra em coma poucos dias antes da queda do Muro de Berlim, em 1989. Acorda, em meados de 1980, mas não sabe que o sonho acabou de forma inelutável. A Berlim Oriental que conhecia não mais existe. O capitalismo triunfou. Criativo, independente, sonhador e confuso, o filho, que está descobrindo o mistério e as inquietudes do amor, faz das tripas coração para poupar-lhe o susto com os novos tempos. Resoluto, arma um cenário para que a despertada não perceba que nada será como antes. Produtos de épocas distintas, mãe e filho se encontram e se descobrem na solidariedade. Ela acredita em muros, que interditam. Ele prefere pontes, que ligam. Ele é o futuro, que se esforça para nascer com suas

contradições, boas e más expectativas. Ela é o passado, de cuja barriga, datada, marcada e conhecida, emerge o amanhã. A imagem de Lênin transportada como um piano (no caso de Ghost ) simboliza um tempo iconoclasta. Trocando-se os personagens, a imagem evoca outra, esta de cunho televisivo: o transporte do que restou da estátua de Saddam Hussein, no Iraque, após a invasão e a matança promovidas pelas tropas lideradas pelos Estados Unidos do sanguinário Bush. Voltando a Lênin e ao cinema, a perspectiva imagética foi retomada recentemente em Budapeste, de Walter Carvalho. Desta vez, no entanto, a estátua de Lênin desliza no Rio Danúbio para deleite e espanto do personagem principal – um brasileiro ghost writer bem parido pela imaginação literária e musical de Chico Buarque. Os três momentos têm muito mais em comum do que sugerem à primeira vista. Expõem a comicidade incômoda que circunda, como uma aura, todos os ditadores.

Mãe e filho se descobrem (...) Ela acredita em muros, que interditam. Ele prefere pontes, que ligam


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ES P EC I A L A maior empresa de mineração do Brasil, a Vale do Rio Doce, é leiloada no processo de privatizações de empresas públicas. A empresa foi vendida por US$ 3 bilhões, financiados através do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES)

1997

1999

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Os atentados terroristas contra as torres gêmeas em Nova Iorque mostraram que o fim da Guerra Fria e a hegemonia política, econômica e militar dos Estados Unidos não tornaram o mundo mais seguro

O euro passa a circular em 11 países da União Europeia

2001

F R O N T E I R AS Sergei Ilnitsky / EFE / 16.6.2009

Reunificação é festejada, mas desigualdade social persiste DANIELLE VILLELA Universitária - fez intercâmbio na Alemanha em 2008

Países emergentes ganham destaque

Fim da Guerra Fria redesenha cenário de potências mundiais Nova ordem revela que a superioridade norte-americana é um fenômeno temporário LÍLIA DE SOUZA

Um sistema com um maior número de atores e conflitos, em meio a uma ordem mais fragmentada, foi o principal fruto do mundo pós-Guerra Fria. O especialista norte-americano em Relações Internacionais Jophef Nye, para explicar esse novo contexto, utiliza a matáfora do “xadrez tridimensional”. O primeiro jogo envolve um conjunto

limitado de países com poder bélico, como os Estados Unidos. No segundo, com mais atores, países com economias emergentes, como China, Brasil e Índia. Já o terceiro, mais disperso e fluido, compreende uma agenda transnacional – temas como meio ambiente, direitos humanos e questões culturais – mobilizando, sobretudo, o terceiro setor. Nessa análise, qualquer movimento de peça afeta as outras.

“A ordem mundial pós-Guerra Fria combina todos esses jogos, de um sistema mais permeável, menos ideologizado, que se torna cada vez mais complexo e que não pode ser visto só de um ângulo. Um sistema com mais processos de desestabilização e acirramento de grupos nacionalistas”, diz Denilde Oliveira, professora das Faculdades Integradas Rio Branco, referência em Relações Internacionais.

Em entrevista à imprensa, o historiador inglês Eric Hobsbawm chama a atenção para o fato de que a “superioridade norte-americana é um fenômeno temporário”. O pós-Guerra Fria mostrou um “paradoxo do poder dos EUA”, destaca Jophef Nye. Apesar de terem vencido a guerra ideológica contra o comunismo, não conseguiram se impor mais como os únicos atores hegemônicos no sistema.

Para um olhar menos atento, as comemorações em torno dos 20 anos da reunificação da Alemanha podem ofuscar a existência de outros muros invisíveis no país. Enquanto se festeja a modernização das cidades da antiga República Democrática Alemã, uma muralha de desigualdades econômicas e sociais ainda separa os dois lados. Mesmo com enormes investimentos estatais na infraestrutura e na indústria da região, a população da Alemanha Oriental ainda recebe salários menores e tem mais problemas com a falta de emprego, o que provoca o êxodo de mão-de-obra qualificada. Por outro lado, cada vez mais jovens do Ocidente buscam formação em universidades do Oriente, em cidades como Dresden e Leipzig. Apesar das desigualdades, os mais velhos encaram a reunificação como um grande acontecimento. Para os mais jovens, a sensação é difusa e o discurso é o de que a mistura entre as culturas se faz naturalmente. Para os que não vivenciaram o Muro de Berlim, novos muros impalpáveis parecem estar se solidificando, sobretudo no que diz respeito às questões de imigração e desemprego. Cabe à Alemanha derrubá-los mais uma vez.


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A crise econômica mundial se agrava em setembro com a quebra do Lehman Brothers, uma instituição de 158 anos, que sobreviveu à quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929

2008

A Ossétia do Sul e a Geórgia entraram em conflito. A primeira tem o apoio da Rússia, enquanto a segunda é apoiada pelos Estados Unidos Os Estados Unidos anunciam a instalação de escudos antimísseis no Leste Europeu, em áreas próximas à Rússia. Moscou informa que vai instalar mísseis táticos na região ocidental de Kaliningrado e dispositivos eletrônicos para neutralizar o escudo antimísseis

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A Rússia anuncia o rearmamento das forças militares e a ampliação do arsenal nuclear, como uma resposta ao fortalecimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)

2009

LU C R OS

DONALDSON GOMES

Há duas décadas, o socialismo enquanto regime econômico se apresentava ao mundo de joelhos. O lado Oriental da Alemanha era tecnologicamente defasado e duas vezes menos competitivo que o Ocidental. Vitória simbólica dos Estados Unidos, que souberam aproveitar a situação para disseminar pelo mundo o regime neoliberal. “O neoliberalismo se propagou de forma avassaladora, sob o comando dos EUA e do capital financeiro e suas agências internacionais”, lembra o professor de economia da Ufba Luiz Filgueiras em relação ao fim da Guerra Fria. A hegemonia levou à concentração da riqueza e ampliou a pobreza, destaca Filgueiras. “Desde os anos 1980, já tivemos mais de 10 crises importantes”, contabiliza. Problema que, segundo o economista, se deve ao predomínio da lógica financeira. Em meio às crises que se abateram tanto entre as nações centrais, quanto na chamada “periferia do capitalismo”, alguns atores ganharam força, enquanto outros perderam espaço. Pouco mais de dez anos após a sua criação, o G-8 já começou a ser substituído pelo G-20, que conta com a participação das nações em desenvolvimento. A sigla Bric, que representa o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China, é cada vez mais respeitada no mundo, após a superação sem maiores traumas da crise econômica mundial. Para o professor de comércio exte-

Sistema econômico neoliberal devora regime socialista Países do Bric – Brasil, Rússia, Índia e China – são respeitados por superar, sem dificuldades, a crise econômica mundial AFP / 18.10.2008

rior da Universidade Salvador Raimundo Torres, o fim da Guerra Fria abriu mais espaço para uma maior participação dos países emergentes na economia mundial. Entretanto, o alerta de Torres é justamente em relação à euforia que toma conta de alguns setores. “Há uma ilusão de que o antigo Terceiro Mundo está para chegar ao topo do desenvolvimento, mas as instalações nesses países mascaram a inexistência de tecnologias próprias, que continuam sendo produzidas nos mesmos países sobrepujantes na Guerra Fria”. Para o professor, não dá para pensar no topo antes de enfrentar os desafios da logística, corrupção, criminalidade, deficiências em educação, pesquisa, tributação e da falta de planejamento, entre outros fatores. “Durante os governos militares, o Brasil já viveu fenômeno parecido; entretanto, a queda de preços internacionais das commodities colocou um freio nessa concepção e voltamos à realidade”. Lição que não deve ser esquecida, avisa.

“Desde os anos 1980, já tivemos mais de 10 crises importantes” O fim da Guerra Fria abriu mais espaço para as nações emergentes na economia global

LUIZ FILGUEIRAS, professor de economia da Ufba


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SALVADOR SEGUNDA-FEIRA 9/11/2009

ENTREVISTA Michael Meyer

“TUDO ENTROU EM COLAPSO” JOÃO PEDRO PITOMBO

Vinte anos se passaram, mas as lembranças daquele 9 de novembro ainda estão vivas na mente do jornalista e escritor norte-americano Michael Meyer. Correspondente da revista norte-americana Newsweek entre 1988 e 1992, com atuação na Alemanha Oriental, Europa Central e Bálcãs, Meyer acompanhou como testemunha privilegiada os bastidores dos fatos que levaram à queda do Muro de Berlim e à derrocada o socialismo. Duas décadas depois, o jornalista – e hoje porta-voz do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon – revisita a história através do livro 1989, o ano que mudou o mundo, lançado no Brasil este ano pela Editora Zahar. Por telefone, Michael Meyer atendeu à reportagem de A TARDE com exclusividade para uma conversa de lembranças e análise da nova ordem geopolítica global. O senhor estava em Berlim no dia da queda do muro, em 1989. Como se sentiu ao testemunhar aquele momento? Eu estava no lado oriental de Berlim, no lugar conhecido como Checkpoint Charlie. Era uma noite gelada e eu tinha acabado de ouvir que o por-

ta-voz do Partido Comunista tinha divulgado um comunicado dizendo que o povo teria permissão de viajar (e cruzar a fronteira). Mas, na verdade, as pessoas interpretaram o anúncio de forma errônea e acharam que podiam cruzar o muro imediatamente. De repente, verdadeiras multidões se formaram nos pontos de controle dizendo: “Nós queremos atravessar, agora mesmo”. E começaram a pressionar para passar a fronteira. Por volta das dez horas daquela noite, uma multidão incalculáveljá haviaseformado em torno do muro. O capitão que comandava a guarda e estava de plantão na cabine envidraçada do Checkpoint Charlie naquela noite podia ser visto desesperadamente tentando contato telefônico com seus superiores. Daí, às 11h17 exatamente, ele deu de ombros, olhou para os lados e disse: estamos por nossa própria conta, abram essa joça! Eos portões abrirame as multidões da Berlim Oriental passaram para o outro lado. A queda do muro foi resultado de pressões internas ou da queda de regimes semelhantes no Leste Europeu? Foi uma combinação de am-

bos. O que aconteceu foi que a mudança começou em vários lugares da Europa do Leste ao mesmo tempo. Na Polônia, ocorreram negociações em que oscomunistas eo pessoal do (sindicato) Solidariedade sentaram juntos para organizar eleições livres. Em junho do 1989, os comunistas perderam e deram lugar ao novo governo eleito da Polônia. Na Hungria, os húngaros começaram a pôr abaixoa sua cortina de ferro, por onde muitos alemães do leste escaparam para o Ocidente. Os alemães do leste viram tudo o que estava acontecendo e iniciaram um movimento por conta própria. E, em outubro de 1989, começaram a marchar pelas ruas de grandes cidades comoLeipzig, Dresdenemesmo Berlim. O povo se levantou, e tudo entrou em colapso. Em 1987, o presidente norte-americano Ronald Regan fez um discurso em Belim em que cunhou a célebre frase “Senhor Gorbachev, derrube este muro”. O que a frase representou no contexto da época? Este provavelmente foi um dos discursos mais famosos dos últimos 30 anos. Para muitos norte-americanos, especialmente, isso foi equiva-

lente a uma derrubada real, foi como se o velho Ron Reagan tivesse dito esta frase e o muro caído. E é claro que discursos apenas não derrubam muros. Isso é ridículo. Mas os norte-americanos, particularmente, se julgam invariavelmente corretos e tomam este discurso como um atalho, um símbolo, para descrever toda uma visão mundial de política exterior. Penso que, duas décadas depois de Ronald Reagan ter feito este discurso, nós vimos a queda do muro, nós vimos a reunificação da Alemanha, e aí os norte-americanos começaram a pensar:“Nós vencemos a Guerra Fria!” Daí ouvirmos hoje histórias acerca do império dos EUA, de um Mundo Unipolar, de uma única superpotência. Há uma linha tênue entre esta visão distorcida do mundo e a aventura desastrada dos EUA no Iraque. Esta política inspirou governos posteriores como o de George W. Bush. Ela ainda persiste? Essa política não persiste mais. Acabou. Há uma nova administração em Washington que acredita no comprometimento em vez do confronto, e que reconhece que o mundo está mudando e que

Por volta das dez horas, uma multidão incalculável já havia se formado em torno do muro

Em 1987, Gorbachev e Reagan estiveram perto de (chegar a um acordo para) eliminar as armas nucleares

Após a Guerra Fria, ainda havia duas Alemanhas. A barreira mental não havia sido derrubada


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SALVADOR SEGUNDA-FEIRA 9/11/2009

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DIVULGAÇÃO/AE

Michael Meyer foi correspondente da Newsweek, entre 1988 e 1992, na Alemanha Oriental

há limites para o poder norte-americano, ou que há limites para o poder de qualquer nação. Veja a questão da mudança climática. Como lidar, como uma nação isolada, com uma ameaça contra a existência de toda a humanidade? Claro que isso é impossível. É uma ação que requer a participação da comunidade de nações. O mundo está mudando. E os Estados Unidos estão reconhecendo isto. Mesmo com a queda do muro, China, Coreia do Norte e Cuba ainda se mantêm firmes. Por que eles resistiram? Dentre as razões pelas quais o comunismo ruiu na Leste Europeu, boa parte se deve às questões econômicas. O sistema não funcionou! Em 1981, os preços do petróleo da Rússia alcançaram um patamar de US$ 45 o barril. Quando Mikhail Gorbachev assumiu o poder, no final de 1985, os preços do petróleo russo haviam despencado e oscilavam entre US$ 8 e US$ 9 o barril. Pense no que isso representou naquelemomento para um país totalmente dependente das exportações de petróleo! Agora, veja a China hoje: está experimentando um verdadeiro boom desde

que abraçou as leis do capitalismo. É uma forma de comunismo muito diferente da que existia no Leste Europeu. Por que, mesmo com o fim da Guerra Fria, pouco se avançou em relação ao desarmamento nuclear mundial? É muito difícil mudar um sistema. É muito difícil mudar um estilo de vida. A Guerra Fria pode ter terminado, com a queda do Muro de Berlim, em 1989, mas não desapareceu. Nós ainda temos grandes complexos industriais militares na Rússia, nos Estados Unidos e em outros países, fundados no “ethos” da Guerra Fria. Em 1987, Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan estiveram muito próximos de (chegar aum acordopara) eliminar as armas nucleares. Não tivemos mais outra oportunidade como aquela desde então. Até agora. Só mais recentemente o presidente Barack Obama, em reunião da Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro, propôs iniciativas dramáticaspara reduzir a proliferação de armamentos nucleares. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, propôs um plano de cinco pontos para o desarmamento progresso. Estou muito ansioso para ver para onde tudo isso vai nos levar em um ano ou dois. Uma coisa é certa: o trabalho vai ser difícil, mas a oportunidade é grande. Novos muros vêm sendo construídos, como o que separa Estados Unidos e México. A síndrome de Berlim não foi superada? Depois que as pedras do muro caíram e as duas Alemanhas se tornaram uma, a Newsweek publicou uma matéria de capa intitulada “Two Nations, One People” (Duas Nações, Um Povo). Havia a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental durante a Guerra Fria. E, depois da Guerra Fria, continuaram a existir a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental. O muro mental ainda não havia sido derrubado. A Guerra Fria durou duas gerações e vai levar duas gerações mais para que ela termine na cabeça das pessoas.


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O MUNDO HOJE O poder econômico e bélico dos países

Angela Merkel LÍDERES

Luiz Inácio Lula da Silva O presidente brasileiro defende uma maior participação do País em questões centrais do capitalismo mundial

Barack Obama Primeiro negro a ser eleito para a presidência dos Estados Unidos. Recebeu o Prêmio Nobel pelos esforços para reforçar o papel da diplomacia internacional e defesa do desarmamento nuclear

Eleita em 2005 e reeleita em 2009 para o cargo de chanceler da Alemanha. Neste período, o país deixou de ser a 3º para se tornar a 6ª maior economia global

Atual primeiro-ministro russo, no poder desde 1999. Governo se caracteriza pela animosidade em relação aos Estados Unidos e repressão aos rebeldes da Chechênia

%

3,9% EUA 14,26 %

GASTOS EM ORÇAMENTO MILITAR

Vladimir Putin

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Brasil 1,99

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trilhões

trilhões

Alemanha 2,9

trilhão

4%

Rússia 2,26

1,5%

trilhões

China 7,97

%

trilhões

2,6%

4,3% Hu Jintao

PIB

A República Popular da China cresce em média 9% ao ano. Defende a abertura econômica, mas acredita que só o socialismo pode garantir o desenvolvimento do país

7° 6° 5° 1°

ORGANIZAÇÕES ECONÔMICAS E MILITARES

Manmohan Singh

G-8 Grupo dos sete países mais industrializados e Rússia

10°

G-20

Índia 3,29

Bloco de países emergentes

Otan Organização de cooperação militar

%

trilhões

2,5%

ONU Conselho de Segurança

Primeiro não hindu a chefiar o governo indiano. O primeiro-ministro tem como responsabilidade manter a Índia com altas taxas de crescimento. Enfrenta problemas geopolíticos históricos com o Paquistão.

Fonte CIA (Agência Central de Informação dos Estados Unidos) – The World Factbook

Desigualdade social é o abismo que separa ricos de pobres no século 21 DONALDSON GOMES

Há outros muros por cair. Nos 20 anos seguintes à queda do maior símbolo do mundo bipolar, o homem substituiu as barreiras de concreto pelas sociais e a segregação se dá entre povos, raças, gêneros, classes. “Os ‘muros’ de hoje são os aeroportos, são as patrulhas marítimas”. O professor do Departamento de Antropologia da Ufba, Roberto Albergaria, acredita que a oposição ideológica da Guerra Fria deu lugar a uma “grande confusão ideológica”. Para Albergaria, os muros atuais são mais altos que o de

Berlim. “A preocupação hoje é a de impedir que os pobres invadam os Estados Unidos e a Europa”. Um exemplo disso é a ideia de construir um muro – “este é de concreto”, frisa – na fronteira entre os norte-americanos e o México. “Para muita gente que vive em países pobres, é melhor sofrer uma humilhação terrível para se enquadrar em determinados padrões e obter um visto do que viver na terra natal”. Um conceito do sociólogo Zygmunt Bauman ajuda Albergaria a explicar por que se dão os conflitos. “Bauman diz que a questão da política pós-moderna é o que fazer com o ‘lixo hu-

mano’ produzido pela sociedade”. O pior é que este “lixo” percebido por Bauman não existe apenas nas relações entre países, como ressalta Albergaria. “Salvador é uma cidade cheia de muros nos condomínios e shoppings”, lembra. Até nas praias é possível ver a segregação. “No meu tempo, era a (praia) de Aleluia, mas hoje existem outras. Lá só entram as siliconadas e os marombados”.

Solução distante Dois conflitos chamam a atenção do coordenador do curso de relações internacionais da Faculdade Rio Branco, Alexandre

Uehara. Um deles é entre Israel e a Palestina. O outro é o conflito entre as duas Coreias. A criação do Estado de Israel data de 1948 e a guerra entre as Coreias foi iniciada em 1953. “A relação entre Israel e Palestina, apesar das constantes negociações, não deve ter uma solução de curto prazo, pois envolve questões religiosas”, analisa Uehara. A participação dos EUA no processo – com especial interesse do atual presidente Barack Obama – não deve trazer grandes progressos, acredita o professor. Mas pior é a questão das Coreias, que teria se deteriorado durante o governo do ex-presi-

dente George W. Bush. “Colocar a Coreia do Norte no ‘Eixo do Mal’ aumentou a animosidade”, ressalta, descartando a possibilidade de uma reconciliação em um curto prazo. “A polarização entre os EUA e a antiga União Soviética evitava que as tensões se transformassem em conflitos”. Uehara explica que o temor serviu como um freio em muitas situações. “Com o fim da Guerra Fria, os países periféricos se insurgiram”. Estouram conflitos separatistas sem a intervenção das grandes potências. “A Rússia deixa de ter condições de se envolver, enquanto os EUA perdem o interesse”.

Especial A Tarde - Muro de Berlim  

Caderno especial do Jornal A Tarde que expõe a história da divisão da Alemanha e o que mudou após os 20 anos da queda do Muro de Berlim.

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