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Jankauskis e Nehmi Uma família de história (...) O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor, embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza; não tem começo, não tem fim; (...) o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto, é sempre abundante em suas entregas (...)

Raduan Nassar, Lavoura Arcaica, 1975, Livraria José Olympio Editora.

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Sumário

A trajetória de Victor Entre os EUA e o México No Brasil, para sempre Victor, repórter de guerra Em Bebedouro A vinda para São Paulo Victor na Politécnica O sucesso e o amor3

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A saga de Ilse A volta para a Letônia O encontro de Irma e Arthurs A mudança para Ligatne A fuga da Letônia A pé para Passau Ilse e o livros 1949, a vinda para o Brasil São Paulo, a metrópole A vida na casa nova Alameda Glette, 463 O pedido de Ilse

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Victor e Ilse Rua Afonso de Freitas Dois milhões de exemplares vendidos Lembranças da casa grande Férias e Natais O reconhecimento internacional Um hiato no casamento A busca de Ilse O regresso das meninas à casa paterna 1985: a volta de Ilse Os casamentos, a descendência De pais e filhos A vida hoje A Letônia Receitas da vovó Irma Tênis e xadrez Uma carreira premiada Grupo Volga Recados aos pais

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Zahle, Líbano, 9 de novembro de 1925. Segunda-feira, quase meia noite. Nasce Victor Abou Nehmi, sob o signo de escorpião.

Riga, capital da Letônia, 28 de novembro de 1934. Sábado, entre seis e seis e meia da manhã. Nasce Ilse Jankauskis, sob o signo de sagitário.

São Paulo, Brasil, 1954. Victor e Ilse se encontram e se conhecem. Longe do Líbano, longe da Letônia. Do outro lado do mundo.

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A trajet贸ria de Victor

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A

gia tinha 20 anos e Georges 19, quando Victor nasceu. Eram primos, as duas famílias eram cristãs e tinham vindo de Rachaya, mais ao sul do Líbano, no interior, para Zahle, capital do vale do Bekaa situado no lado oriental do Monte Líbano, a 30 quilômetros da capital Beirute. O vale do Bekaa é uma região tão fértil que já foi chamada de celeiro do Império Romano. E continua sendo uma região agrícola de enorme importância para o país. É famosa por seus vinhos e por seu arak, reconhecidos internacionalmente por sua qualidade. A fabricação dos vinhos no Líbano começou há cerca de quatro mil anos.

Agia aos 14 anos, quando jogava tênis, com seu irmão Issa. Rachaia, Líbano, 1920.

O pai de Agia, o chefe da família Malooly, era um rico comerciante em Zahle. Era um homem culto e inteligente, excelente em Matemática. Segundo Victor, vem daí sua inclinação à Matemática, à Engenharia. Sem falsa modéstia, ele se considera um herdeiro intelectual do avô materno.

A família da minha mãe era muito rica, mesmo no Líbano. O meu avô, pai dela, era muito inteligente, daí vem a minha inteligência. Eu vejo pela Matemática, ele era matemático e eu sou engenheiro.

Os Malooly tiveram cinco filhos, quatro mulheres e um homem. Seguindo a orientação paterna, visionária, moderna, Agia, a filha mais nova, formou-se na Universidade Americana de Beirute, fato raro em um tempo em que poucas mulheres faziam um curso superior. Agia também era esportista, jogava tênis. Certamente vem de Agia a paixão de Victor pelo tênis. Ele se lembra com clareza e carinho de uma foto da mãe, aos 14 anos, vestida para uma partida, empunhando sua raquete. A família Neme, também comerciante, era de origem mais simples. O avô Neme viajava muito, esteve várias vezes nos Estados Unidos para comprar mercadorias e vender no Líbano. Viajava e nem se comunicava com a família ou a esposa. Eram quatro os filhos: Georges, Manoel, Raifa e Nídia. Georges brincava dizendo que o pai viajava quando lhe dava na cabeça. Trazia todo tipo de produtos. Segundo Victor:

Avó paterna e Avô paterno

No Líbano todo mundo é comerciante. Libaneses derivaram de fenícios. Fenícios comercializavam tudo. São os comerciantes do passado.

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Agia e Georges casaram-se provavelmente entre 1923 e 1924, lá mesmo, em Zahle. O casamento não foi tão simples, houve alguns percalços antes da sua realização. Estudada, inteligente, esportista, muito bonita e jovem, Agia encantava os clientes da loja do Sr. Malooly. Um deles, mais ousado, mais apaixonado, raptou-a pretendendo convencê-la a se casar com ele. Uma das versões que correm na família diz que Agia era de tal modo persuasiva que terminou por convencer o raptor a deixá-la partir, voltar para casa. Segundo outra versão, a polícia descobriu onde Agia estava e a libertou. Seja como for, de volta a casa, pouco tempo depois, casou-se com Georges. Em 1925, nascia Victor Abou Nehmi. Duas curiosidades. O sobrenome de Georges Nicolas, era Neme. Mas Victor, ao ser registrado, teve seu sobrenome mudado, tornou-se Nehmi e mais, embora Victor tenha nascido em 9 de novembro, durante muitos anos teve três datas de aniversário. Ele explica:

Eu nasci no Líbano em 9 de novembro de 1925. Essa é a data certa. Nasci perto da meianoite, meu pai falou que foi pelas onze horas da noite, meio duvidoso. E como eu gostava do dia dez, empurrei para o dia dez. Nasci numa época de revolução dos muçulmanos contra a França, que dominava o Líbano. Então o meu pai teve que se mudar com a minha mãe para outra cidade. E aí atrasou o registro e foi me registrar meio ano depois, em 7 de abril de 1926... Mas agora, eu resolvi ser fiel à data verdadeira.

Na época em que isso tudo aconteceu, o Líbano estava sob o protetorado francês, iniciado após o final da Primeira Grande Guerra, com a derrota da Alemanha e de seus aliados turcos. A força naval francesa chegou a Beirute em 1920. Em setembro daquele ano foi proclamado o Estado do Grande Líbano, sob o mandato do governo francês. Isso durou 25 anos, só terminando em 1943, quando o país – finalmente – conquistou sua independência. Mesmo criado há menos de um século e com apenas 10.452 quilômetros quadrados de extensão – área menor do que Sergipe – a terra hoje denominada Líbano tem uma história muito antiga e riquíssima.

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Líbano

Na Idade Paleolítica, as terras onde hoje se situa o Líbano foram abrigo dos nossos ancestrais, homens primitivos. Depois, uns 4000 anos antes de Cristo, passaram por lá os cananeus, antepassados dos fenícios. Em seguida, veio a Era Fenícia, que compreende o período de 3000/2500 a.C a 148 a.C. Os libaneses são descendentes diretos dos fenícios. Daí, sua arte, sua tendência para o comércio. Os fenícios eram grandes navegadores, saíam do Mediterrâneo e negociavam por várias partes do mundo em suas embarcações construídas com a madeira nobre dos cedros, árvore símbolo do país, estampada ainda hoje em sua bandeira. O cedro significa para os libaneses força e imortalidade. Nada mais apropriado a um país que sofreu tantas invasões, disputas religiosas, terremotos e muitas outras convulsões de naturezas distintas, e continua de pé. Forte, imortal. Mas os fenícios deram aos libaneses bem mais do que a herança do comércio. Deram ao mundo ocidental o alfabeto que, com algumas variações, é o alfabeto que ainda hoje usamos. Os árabes, por sua vez, nos legaram muito. Nossa língua portuguesa, segundo o dicionarista Antônio Houaiss, tem 25% de palavras de origem árabe, algumas muito

conhecidas: alcachofra, alcaçuz, alcaparra, álgebra, alambique, arroba, oxalá. E ainda: chafariz, sorvete, gengibre, tambor, recife, talco, xadrez, refém, xerife, leilão, quintal... O zero é um conceito árabe. O café, o limão, a laranja, a lima da Pérsia também vieram de lá. Esses frutos e outros alimentos que hoje fazem parte do nosso cotidiano nos foram legados muito antes da imigração árabe para o Brasil. Vem dos tempos em que os árabes andaram pelo sul da Espanha e por Portugal. Além dos cananeus e dos fenícios, passaram pelo Líbano, os romanos, entre 63 a.C a 330 d.C, época de grande desenvolvimento do comércio. Nesse período, em 220 d.C foi criada a escola de Direito de Beirute. Com a queda do Império Romano, a região foi ocupada pelos bizantinos e pelos cruzados. Em 1516, os turcos ocuparam o Líbano, dando início ao Império Otomano que durou quatro séculos. Só caiu após o final da Primeira Grande Guerra. O Líbano é também citado várias vezes na Bíblia. O templo do rei Salomão teria sido construído com cedros libaneses. Conta-se ainda que Cristo costumava ir a Sidon (lugar de pesca na língua semita) para descansar. Diz a Bíblia que Sidon foi fundada pelo neto de Noé. A cidade fica a 45 km de Beirute e ainda hoje é lugar de peregrinação e devoção a Maria. 11


Em 1926, Georges, Agia e o filho Victor, com menos de um ano de idade, partiram rumo aos Estados Unidos, na divisa com o México, onde já viviam Issa, o único irmão de Agia, e suas três irmãs. Os irmãos de Georges – Manoel, Raifa e Nídia –, também já haviam deixado o Líbano. Eles tinham vindo para o Brasil, para o interior de São Paulo. Mas os avós de Victor, tanto da família Malooly, quanto da família Neme, permaneceram no país. Foi apenas na década de 1950 que Manoel e seus irmãos trouxeram a mãe, já viúva, para São Paulo. Georges preferiu os Estados Unidos ao invés do Brasil por razões econômicas. Issa já estava bem de vida, o que significava um incentivo, uma possibilidade de sucesso. A saída dos filhos dos Malooly e dos Neme seguiu uma tradição libanesa de imigração. Correr mundo, procurar novas e melhores condições de vida, buscar uma terra mais pacífica, que ofereça maiores e melhores oportunidades sempre foi um forte traço libanês e sírio. A Amrik, como os árabes chamavam as Américas – do Norte e do Sul –, eram paisagens promissoras.

Agia e Victor

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D. Pedro II no Líbano

A imigração libanesa para o Brasil começou em 1880. Teve seus picos, seus descensos, mas o país mantevese sempre como um dos destinos eleitos dos libaneses. Hoje, a população de origem libanesa no Brasil é bem maior do que a própria população do Líbano. Por volta de 7 milhões aqui – incluindo seus descendentes - e 4 milhões lá, incluindo cerca de 60 mil líbano-brasileiros que fizeram o caminho de volta. Em 1876, Dom Pedro II visitou o Líbano, a Síria e a Palestina. O Imperador admirava a cultura árabe e chegou a estudar a língua com um arabista alemão. No Líbano, visitou vários pontos. Esteve em Beirute, em Zahle, foi a Bkerlé, Chtaura, Sofar, visitou as ruínas de Baalbeck, conheceu os templos de Júpiter, de Vênus, de Baco. E, principalmente, admirou-se com a receptividade, a força e o entusiasmo do povo libanês. Fez um convite: “Gostaria de ver o maior número de vocês no Brasil, prometo recebê-los bem e tenham certeza de que retornarão prósperos.”

Victor Nehmi só voltou ao Líbano em 1972, 46 anos depois da partida. Não levava lembrança alguma de seu país. Passou pela capital, Beirute, mas seu interesse maior era Zahle. Emocionou-se. Descobriu uma cidade linda, florescente, banhado pelo rio Bardawni, com seus vinhedos ao norte. Encontrou um importante centro agrícola, e uma intensa movimentação turística e gastronômica. Zahle... Ah, muito bonita, fica num vale muito bonito. O Líbano é todo montanhoso e um vale é uma raridade. Rio e vale são uma raridade... A uva é extraordinária... E eles fizeram uma série de restaurantes, diversões beira rio. A cidade tem hoje, já no século XXI, um viés brasileiro. É lá que moram cerca de 10 mil brasileiros, descendentes de libaneses ou mesmo libaneses que viveram aqui e voltaram ao seu país de origem. Não por acaso a movimentada avenida beira rio, citada por Victor, chama-se Avenida Brasil.

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Entre os EUA e o México

E

m El Paso, no Texas, sul do EUA, bem na fronteira com o México, Issa e suas irmãs esperavam por Agia, Georges e o filho Victor. Os Neme viajavam de navio. Chegando a Marselha, um problema técnico exigiu tempo para ser solucionado.

Durante a estada de quatro meses em Marselha, Victor ficou doente. Agia, mais uma vez demonstrou sua persuasão e sua simpatia. Ela foi auxiliada por algumas senhoras francesas, hospedadas no mesmo hotel, que preparavam refeições leves e adequadas para o menino. Victor logo se recuperou. A viagem foi retomada. Finalmente, aportaram em New Orleans. De lá tomaram um trem e foram até El Paso. Nessa época, os Estados Unidos já começavam a sentir as primeiras dificuldades que desembocariam na Grande Depressão de 1929. Os Neme estavam com seus passaportes regularizados, mas os EUA tinham cotas para imigrantes e as cotas reservadas aos libaneses já estavam esgotadas. Diz Victor:

Os libaneses são andarilhos. No mundo inteiro. Então, nossa cota era sempre preenchida.

Deu-se um jeito, achou-se uma solução. Entre El Paso, nos EUA, e Juárez, no México, onde a presença de imigrantes era menor, a única barreira era um rio, o Rio Grande, ou Rio Bravo. Os Neme ficaram em Juárez. Os Malooly continuaram em El Paso. Mas as duas famílias estavam sempre juntas. Oficialmente, os Neme moravam em Juárez, mas passavam a maior parte do tempo em El Paso, na casa dos Malooly. Seguindo a tradição libanesa, Georges tornouse mascate: comprava mercadorias nos EUA e vendia no México. A vida dos Neme nos EUA e no México durou pouco e não foi feliz. Em 1928 Agia teve seu segundo filho, Alfred, mas não sobreviveu ao parto.

Agia e Victor

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De uma hora para outra, Georges vê-se só, com dois filhos pequenos. Victor com pouco mais de três anos e Alfred, recém nascido. Georges trabalhava exaustivamente para sustentá-los, contando com o apoio dos cunhados. Mas não havia como criá-los em um mundo em crise, em um país praticamente falido, com milhões de americanos desempregados. A solução temporária foi mandar Victor e Alfred para um orfanato religioso americano. Lá ficaram internos até a vinda para o Brasil, em 1930. Com as freiras, eles aprenderam a língua inglesa e Victor, já grandinho, aprendeu também o charleston, uma dança muito popular nos EUA e que, mais tarde, lhe renderia aplausos e admiração. Com a morte de Agia, afastado dos filhos, Georges resolveu aventurar-se mais uma vez. O elo que o unia aos Malooly era Agia. Sem ela, o convívio com os cunhados esgarçou-se. Decidiu vir ao encontro dos irmãos, no Brasil. Os Neme, agora três homens: Georges, Victor e Alfred tomaram um navio e desceram no porto de Santos, com endereço certo. Foram diretamente para Pitangueiras, no interior do Estado de São Paulo. Desta vez, Georges era esperado por seus irmãos: Manoel, Raifa e Nídia.

Jorge Nicolau Neme com os filhos. Victor, à esquerda e Alfred, à direita

Issa e as irmãs continuaram nos Estados Unidos e nunca saíram de lá. De comerciante, Issa passou a grande investidor imobiliário. Enriqueceu. A universidade de El Paso foi construída em um terreno doado por ele. Victor esteve duas vezes nos EUA. Na última vez, em 1991, encontrou seus primos e viu, orgulhoso, a placa de agradecimento a Issa Malooly no campus da Universidade de El Paso. Victor não guarda nenhuma memória dos tempos que passou entre o México e os EUA. Não se lembra do orfanato. Não se lembra de sua mãe. Mas guarda, ainda hoje, grande carinho, admiração e afeição por Agia. Em seu quarto, ao lado da janela, em um lugar que pode ser visto de sua cabeceira, está o retrato da jovem Agia. Esse retrato o acompanha há muito, muito tempo. Quando alguém lhe diz: “Bonita a sua mãe!”, Victor responde sorrindo: “Você é quem está dizendo. Você acha?”.

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No Brasil, para sempre

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930. O país vivia sob os efeitos da crise econômica mundial. A chamada república café com leite, liderada por São Paulo e Minas Gerais, estava com os dias contados. A Revolução de 30 levou Getúlio Vargas ao poder. O governo de Getúlio deveria ser provisório, mas acabou durando 15 anos. Em 1945 Vargas foi deposto, mas voltou a governar o Brasil em 1950, eleito pelo voto direto. Este foi o panorama que os Neme encontraram no país ao desembarcar. Mas, em Pitangueiras, a vida tinha outro ritmo, outro tom. Logo que chegou ao Brasil, Georges alterou seu nome, aportuguesou-o. Nascido Georges Nicolas Neme, torna-se Jorge Nicolau Neme. Victor permanece com seu sobrenome original: Nehmi. Em 1930, Manoel, o irmão mais velho do agora Jorge, estava estabilizado financeiramente em Pitangueiras. Era comerciante, tinha uma loja de tecidos na principal rua da cidade. Jorge foi trabalhar com ele. Victor conta que nesses tempos, havia na cidade duas grandes colônias de imigrantes: os libaneses e os italianos. Além, é claro, dos imigrantes portugueses e dos brasileiros. Os brasileiros eram os pecuaristas, os homens ricos da cidade, seus fundadores. Mantinham-se afastados dos imigrantes, viviam apenas entre si, pertenciam a uma “casta” superior. Já os libaneses e italianos davam vida, voz e cor à cidade. Eram alegres, comunicativos, animavam o comércio, promoviam bailes, brincavam o carnaval, povoavam a cidade. O primeiro estranhamento de Victor em Pitangueiras foi com a língua portuguesa. Tinha cinco anos, falava inglês. Ao conhecer seu primo Chafic, pouco mais novo, filho do tio Manoel, surpreendeu-se. Não se fazia entender, não entendia o que Chafic dizia. Com alguma dificuldade, sofrendo no início, foi aprendendo português aos poucos.

Em Pitangueiras, da esquerda para a direita, os primos Julieta, Alfred, Chafick, Neli, Victor e Feiz.

Na escola, os dois primeiros anos foram difíceis, o menino penou. Mas, no terceiro e no quarto, deslanchou. Como ele mesmo diz: “me destaquei”. Já falava e escrevia um português corretíssimo. Passou a ser um aluno muito aplicado. Foi o primeiro da classe – sempre. Venceu sua primeira batalha. Na cidade, Victor fazia sucesso. Logo que chegou, além da língua estrangeira, o garoto de cinco anos tinha outra particularidade: dançava charleston como ninguém em Pitangueiras. O charleston é um ritmo 17


Pitangueiras

Situada no nordeste do Estado de São Paulo, a 50

Em 1930, quando Jorge chegou com seus dois filhos, a

quilômetros de Ribeirão Preto, em uma das regiões

cidade completava 36 anos. Era jovem, desenvolvia-

mais ricas do Estado, Pitangueiras surgiu como um

se. A pecuária era sua principal atividade, a agricultura

lugar de pouso para os condutores de carros de boi, que

era limitada. Em 1928, a cidade havia tido seu

supriam a região de São Carlos do Pinhal e o norte do

segundo grande estímulo. Nesse ano lá se instalou o

Estado. O carro de boi era o veículo utilizado na época

Frigorífico Anglo, proporcionando desenvolvimento e

de sua fundação, em 1894.

progresso à cidade.

Já no início do século XX, a cidade teve seu primeiro

Hoje, Pitangueiras tem por volta de 32 mil habitantes e

grande impulso. Em 1907 foi criada a Companhia Estrada

é um importante centro de usinas de açúcar e álcool.

de Ferro de Pitangueiras, posteriormente chamada Companhia Estrada de Ferro Paulista, a atual FEPASA.

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agitado que se dança com movimentos rápidos de pernas e braços e passos que aproximam e afastam os joelhos. Surgiu na década de 1920, nos EUA, e nos anos de 1930 era muito popular no Brasil. Os tios, os primos e os amigos insistiam para que Victor mostrasse seus dotes de bailarino americano.

Meu pai contava que todo mundo pedia para eu dançar... Estava na moda. As freiras eram boas dançarinas, pelo visto.

Pouco mais de um ano depois da chegada a Pitangueiras, Jorge casou-se com Suréia Aidar, filha de libaneses de Olímpia, uma cidade na mesma região. Desse novo casamento do pai nasceram mais três irmãos de Victor: Roberto, Janet e Nancy. Agora, eram cinco os filhos. Os primeiros tempos foram duros, difíceis. Durante o primário, Victor lembra-se de que o lanche que ele e Alfred levavam para o Grupo Escolar era um único pãozinho que deveria ser dividido entre os dois irmãos.

Um episódio triste: eu e meu irmão íamos para o colégio, eu estava na quarta série, ele na primeira, coisa assim. Nós dois recebíamos um único pãozinho francês seco para a merenda. Na hora do recreio a gente se encontrava na porta que separava as duas áreas do grupo escolar e eu tinha que repartir o pão. Nunca repartia no meio, porque seco não dava, ficava um menor, outro maior. E claro, eu era bem maior que ele, eu ficava com o maior e dava o menor para ele. Ele virava as costas e saía chorando. Aí eu trocava. Dava o maior para ele e ficava com o menor. Esse é um episódio, análogos a esse, tem outras situações. Não havia fartura.

Aos poucos, a situação financeira da família foi melhorando. Jorge comprou a loja de seu irmão. Manoel tinha várias outros negócios e atividades, era representante de grandes lojas da capital, tinha um curtume, várias casas que alugava. A loja de tecidos – a Casa Oriental, em homenagem ao longínquo e querido Líbano –, ficava no centro da cidade e sob o comando de Jorge cresceu e progrediu. Aos 11 anos, quando concluiu o primário, Victor foi o primeiro aluno da classe. O garoto que chegara seis anos antes, falando inglês e dançando charleston, estranhando o novo país e a nova língua, tinhase tornado um aluno brilhante. Escolhido para fazer o discurso de formatura de sua turma, foi elogiado pelo padre da cidade que destacava sua inteligência, sua capacidade, seus esforços. Ainda hoje, lembra-se desse momento como um dos mais importantes de sua trajetória. Lembra-o com alegria, orgulho e emoção. Mas, para sua tristeza, foi obrigado a interromper os estudos. Em Pitangueiras não havia o curso ginasial, correspondente à segunda parte do fundamental de hoje. A cidade mais próxima onde havia ginásio era Bebedouro, a mais ou menos 30

Antigo Ginásio Municipal de Bebedouro, onde Victor estudou na década de 1940

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quilômetros de Pitangueiras, o que, para a década de 1930, era uma distância razoável. Não havia estradas asfaltadas, os automóveis eram muito raros e o percurso tinha que ser feito de trem. Jorge, que não tivera a oportunidade de estudar além do primário, achava desnecessário que o menino continuasse os estudos. Além disso, a Casa Oriental prosperava, crescia, tornava-se um ponto comercial valorizado, com um bom estoque de tecidos. Jorge precisava de ajuda na loja, precisava de alguém esperto, inteligente, com boa vontade e disciplina. Victor, aos 11 anos, foi trabalhar com o pai. Era ele quem abria a Casa Oriental todas as manhãs, varria a loja, arrumava os mostruários, atendia alguns fregueses. Só não se aventurava a negociar preços. Dentro das peças de tecidos havia uma etiqueta com o preço de custo, em código. Assim, podia-se saber até onde avançar no desconto, na pechincha. Isso ficava por conta de Jorge, comerciante experiente, sagaz, hábil na arte de negociar. Victor recorda:

Eu atendia clientes. Desde que não fossem artigos muito caros. A tal de pechincha era uma constante, mas eu não sabia até onde podia baixar o preço.

Quando Victor trabalhava na Casa Oriental, seu pai, influenciado por quem notava no menino forte inclinação à instrução e ao saber, contratou o padre da cidade, um alemão, para dar aulas particulares ao filho. Assim, ele podia continuar contando com a ajuda do menino na loja e contentava o filho em sua vontade de estudar. O ginásio em Bebedouro não era necessário, estava descartado. As aulas eram sobre História, Geografia, Matemática e Conhecimentos gerais. O garoto ficou exultante, era tudo o que queria: aprender, estudar, tornar-se culto, bem formado. O nome do padre, Victor não lembra. Mas tem claras as memórias desse tempo, os elogios que recebia do mestre, o incentivo que este lhe deu e o convite para que o garoto também se tornasse padre. Padres, naquela época, geralmente eram muito instruídos, ilustrados. Victor tinha 11 ou 12 anos, não entendia bem o que significava aquilo. Preferiu manter apenas as aulas particulares. A turma era pequena, apenas Victor e quatro meninas. O garoto se destacava. Era, como no tempo do primário, um aluno interessadíssimo, aplicado, brilhante. O padre insistia para que o menino continuasse a estudar formalmente, fosse enviado à cidade vizinha para fazer o ginásio. Jorge continuava irredutível.

Nessa fase o meu pai teve o bom senso de contratar aulas particulares com um padre. O padre era um alemão. Alemão “roxo”. Eu aprendi bastante, padre tem muita cultura... Ele pressionava o meu pai para me mandar estudar. E meu pai relutava. (...) o padre sentiu meu potencial, queria que eu fosse padre, eu era pequeno, não podia pensar nisso seriamente. Mas ele queria, me prometeu mundos e fundos se eu fosse para o seminário.

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Victor, repórter de guerra

A

paixão de Victor pela História vem dos tempos de adolescente e mantém-se intacta. Até hoje lê O Estado de S. Paulo diariamente, assiste a vários noticiários na TV, está a par de tudo o que acontece no mundo.

Em Pitangueiras, durante a Segunda Guerra Mundial, o menino, já com 15 anos, acompanhava os acontecimentos e notícias internacionais. O pai comprava o jornal todos os dias, para usar como papel de embrulho na Casa Oriental. O mesmo O Estado de S. Paulo que Victor lê até hoje. Antes de o diário virar pacote de tecido, era uma fonte de informações para o curioso Victor. Ele contava ainda com outras fontes. Em uma de suas viagens a São Paulo, Jorge trouxe de presente para o filho um Atlas Histórico que o rapaz vivia folheando. Na época da Guerra, as informações dadas pelo Estadão eram conferidas no Atlas, para melhor acompanhar as operações militares dos nazistas e dos aliados. Livros eram raros na casa de Victor. O dinheiro era curto e a leitura não era um hábito. Ainda assim, Victor tinha mais um livro do qual nunca se esqueceu. Era um livro de História que havia ganhado de um primo da sua madrasta, um fabricante de camisas de São Carlos. Homem com forte tendência para a intelectualidade, percebia o interesse de Victor pela informação e via no menino o desejo de saber, de adquirir conhecimento. O livro tratava da História do mundo desde sua origem até a Primeira Grande Guerra. Ainda que Victor não se recorde do nome, lembra que era uma publicação da Editora FTD, hoje uma importante editora de livros didáticos. Lembra também que o autor era francês. O garoto o leu e releu repetidas vezes, o que lhe foi muito útil na época da Segunda Guerra, quando se tornou o repórter de guerra de Pitangueiras. Na cidade, as pessoas interessadas nas notícias da Guerra informavam-se com Victor. Ele relembra orgulhoso:

Chegava a ponto de os senhores de Pitangueiras irem até a loja do meu pai para ouvirem as últimas notícias, saberem como estava evoluindo a Guerra. Eu falava tudo, tinha uns quatorze anos: caiu tal cidade, outra cidade está sendo ameaçada e assim por diante. Falava o que acontecia nos oceanos, em todo lugar. Na África, na Europa. Eu estava em dia... Eu sabia de cor todas as cidades que diariamente caíam nas mãos das forças alemãs... Depois o Japão entrou na Guerra, eu aprendi o mundo inteiro, acompanhava tudo.

Cinema é outra paixão que também vem desde a infância em Pitangueiras. Sábado era um dia esperado durante toda a semana, era o dia da diversão. Aos sábados o cinema da cidade exibia vários filmes de Tarzan. Victor adorava o Rei da Selva. Mas o encontro com Tarzan só acontecia se o movimento da Casa Oriental tivesse sido bom durante a semana. Caso contrário, nada de cinema. O dinheiro era curto e Jorge, 21


que tinha uma dívida com seu irmão Manoel, optava por pagar o ingresso do sobrinho Chafic, filho de Manoel. Victor e Alfred sentiam, mas essa era a regra. Nada a fazer.

Sábado era o dia que a gente era louco para ir ver os seriados. Toda a criançada ia ver o Tarzan... Se o movimento na loja não era bom, meu pai não dava dinheiro para o cinema. Era chato ver os outros irem e nós não. E o pior é que como ele tinha comprado a loja do meu tio Manoel, ele dava o dinheiro para o Chafic ir... Meu pai devia para o irmão. Eram os momentos de penúria da infância.

Hoje em dia, mesmo não frequentando a sala escura, Victor se lembra não só do seu Tarzan da infância, mas de alguns filmes que o marcaram na vida adulta. Cita Blade Runner como um dos preferidos, rememora a beleza e o talento de Ingrid Bergman em muitos títulos, menciona Doutor Jivago e demonstra grande entusiasmo e muita empatia quando fala sobre Restoration. O filme, de 1995, foi exibido no Brasil com o título O outro lado da nobreza. Dirigido por Michael Hoffman, narra a vida e a carreira de dois médicos na Inglaterra do século XVII, um deles vivido por Robert Downey Jr., outro, por Hugh Grant. A mocinha era Meg Ryan.

Às vezes eu fico pensando: uma pessoa educadinha, muito formal, não consegue passar por todas essas vicissitudes que eu tive. A sociedade admira o cara muito educado. Eu vivo citando um filme, dois médicos na Inglaterra, dois ou três séculos atrás, uma epidemia. A comparação é extraordinária. Um médico muito educado, que se via que era de origem, de berço, mas que não conseguia enfrentar as doenças. E o outro, um baixinho, feio, que deve ter tido uma vida mais difícil. Esse, até coração ele pegava de dentro do tórax do paciente para colocar no lugar. E ele não era nada formal... Era expulso de todo lugar que vivia. Mal educado, namorava a amante do rei, foi mandado para um vilarejo, namorava uma empregada, teve filho e sempre fazendo o bem. Até que foi parar num lugar onde tinha uma epidemia matando todo mundo. O que ele fez para acabar com a epidemia? Pôs fogo em tudo na aldeia, em todos os lugares e conteve a epidemia.

Jogar bolinha de gude era outro divertimento de Victor nos tempos de menino. Não chegava a ser uma paixão como o cinema, mas o garoto gostava do desafio, era bom no jogo. Habilidoso e esperto, ganhava sempre. E exibia orgulhoso as caixas que enchia com as bolinhas ganhas. Quando fala sobre o gude, sobre as idas ao cinema e mesmo sobre as aulas com o professor particular, Victor revela um lado de sua personalidade que considera imperfeito: a competitividade, a ambição. Reconhece-se assim desde a infância e ainda hoje se questiona sobre essa característica. Foi um menino obstinado, determinado a vencer, a ser o melhor sempre, em tudo. Perseguia essa meta com rigor, o que irritava seus companheiros que o viam como arrogante, pedante. Isso ocasionava brigas e mais brigas com os amigos, com os meninos de Pitangueiras. Até mesmo com meninas, suas colegas de aula particular, que um dia se uniram para dar uma surra no garoto. 22


Victor não era agressivo, não provocava, mas revidava e se defendia com valentia e competência. Tinha uma grande vantagem: seus braços longos e ágeis. Enquanto o adversário procurava alcançá-lo, Victor já o atingia na perna, derrubando-o. E mais, tinha uma esquerda muito forte, pois sempre foi ambidestro. Bem mais tarde, já formado, professor na Poli e em vários cursinhos, escritor de sucesso, Victor mantevese assim: competitivo, buscando vencer. Na vida e no tênis, outra de suas paixões. Já não usava sua esquerda ágil e poderosa, os adversários eram outros, atuavam em outro plano. Mas Victor continuava respondendo. Agora, nos campos intelectual e esportivo.

Eu não media. O que eu sabia, mostrava que sabia e não ficava preocupado se a outra pessoa se sentia burrinha, ignorante. Não pensava nisso, mostrava o que sabia e sabia demais. Isso melindrava os colegas. A vida inteira foi assim, esse espírito de conquista me perseguiu. Nas aulas que dava também era tido como convencido, os alunos falavam. No tênis também briguei muito, fui campeão estadual.

Fica a pergunta: se o garoto nascido em Zahle, alfabetizado nos EUA, criado em Pitangueiras, não tivesse sido tão pertinaz, tão ambicioso e ousado, teria percorrido o mesmo caminho, teria chegado aonde chegou?

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Em Bebedouro

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941. Finalmente, o desejo e o sonho de continuar os estudos tornam-se reais. Victor parte para Bebedouro para fazer o ginasial, correspondente hoje aos quatro anos finais do ensino fundamental.

Depois de muito relutar, o pai concordou. A influência do irmão Manoel e sua astúcia foram essenciais. Como bom libanês, talentoso na conversa e na pechincha, Manoel havia conseguido um bom desconto nas mensalidades, eram dois os alunos, dois Nehmi: Victor e Chafic. Mas Jorge e Manoel pagariam apenas por um.

Foi uma fase maravilhosa, milagrosa... Eu era anãozinho quando fui para lá com 15 anos; espichei, fui a 1,80m. Comida à vontade, em casa não era assim, era diferente, meu pai estava começando a vida. E o aprendizado... Excelente.

Os meninos foram internos no Ginásio Municipal de Bebedouro, um misto de escola pública e particular, dirigida por um português. Victor se lembra desse tempo com nitidez e alegria. Foi um período rico, pleno de transformações. Ia pouco a Pitangueiras, apenas nas principais festas e nas férias. Não sentia falta da vida de lá. Estava em um habitat há muito acalentado, o espaço onde teria acesso à conquista do conhecimento, ao aprendizado. A partir de Bebedouro, Victor toma novos rumos, traça metas, persegueas. Como bom combatente, briga por elas, conquista-as. Nos anos que passou em Bebedouro, Victor sempre foi o primeiro aluno nas quatro séries. A irritação e o despeito que causava entre colegas e amigos de Pitangueiras, repetiu-se em Bebedouro. Seu espírito competitivo e a ausência de modéstia, também. Novos amigos, novas brigas. O rapaz era excepcional em Matemática, destacava-se em Geografia, brilhava em História. O repórter de guerra de Pitangueiras ganhou outros apelidos, passou a ser chamado de Heródoto – tido como pai da História – e também de Joaquim Silva, historiador brasileiro, escritor de livros didáticos adotados pelo Brasil afora entre as décadas de 1930 e 1970. Um dos momentos que Victor relembra com mais entusiasmo é a ocasião em que recebeu os livros que seriam usados em sala de aula. O rapaz que tanto gostava de ler, que tanto queria aprender, nunca havia visto, muito menos, tido – tantos livros.

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Eu tinha uma vontade louca de estudar. Quando cheguei lá, aquela maravilha de livros. Isso eu nunca esqueço: a primeira vez que recebi a coleção de livros, ah! Foi a realização de um sonho. Vinham todos juntos, todos os livros do currículo: História, Matemática, Português... O próprio colégio distribuía. Foi maravilhoso!

Além de estudar, ler, entrar em disputa com outros internos, Victor teve aulas de violino em Bebedouro. Quando saiu de Pitangueiras levou o instrumento que um cliente da Casa Oriental havia dado como pagamento de uma compra de tecidos. Jorge, que tocava harmônica, deu o instrumento para o filho mais velho. Victor chegou a tocar, mas quando veio para São Paulo em 1945 não teve mais tempo para isso. Seria um luxo e a época não permitia o supérfluo.

Formatura de Victor, aos 19 anos no Ginásio Municipal de Bebedouro, 1944

Também em Bebedouro, Victor fez outra incursão pela música. Cantou no Coro Sinfônico da cidade. O garoto, que não se lembrava da capital onde só tinha estado na chegada ao Brasil, em 1930, voltou a São Paulo para cantar no Palácio dos Campos Elíseos, palácio do governo na época, e também na Rádio Tupi. Hoje não se recorda do repertório, mas tem na memória a sensação de se sentir um caipirinha na cidade grande à qual viria definitivamente um ano depois. Final do ginásio, fim de 1944. Era hora de pensar sobre o futuro, escolher o que fazer a partir daí. Voltar a Pitangueiras não estava nos planos do rapaz. Além dos problemas geralmente comuns aos filhos quando há um segundo casamento do pai, Victor queria mais. Tinha 19 anos, sabia que já era tempo de ser independente, não ficar sob as asas de Jorge que, além de Alfred, tinha mais três filhos pequenos para criar. Além disso, projetava para si um futuro muito diferente do que observara na família durante a infância e a adolescência. Queria continuar os estudos, construir uma carreira sólida, ter sucesso. Intelectual e financeiro. Seus planos eram ambiciosos. 26

Victor, jovem


O caminho natural seria estudar História, disciplina que tanto o entusiasmava e sobre a qual tanto sabia. Mas a ambição do rapaz e a orientação do professor Abílio o levaram a outros rumos. Partiu para as exatas, escolheu a Matemática, a Engenharia. E não se contentou com nada menos do que a Escola Politécnica da USP. Seu destino era São Paulo.

Eu tinha um professor de Matemática muito bom, era português. Abílio era o nome dele. Ele vivia falando na classe: “vá para São Paulo, Victor, vá ensinar Matemática aos paulistanos”. Minha vocação era História, mas o Abílio e a minha vontade de crescer na vida me levaram à Engenharia, à Politécnica. Eu conhecia muito Matemática, dominava Matemática. Engenharia é muito mais prestigiosa, não é?

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A vinda para São Paulo

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945: a Segunda Grande Guerra chega ao fim. No Brasil, Getúlio Vargas é deposto, termina o Estado Novo. Victor, que há um ano tinha estado em São Paulo e se sentira um caipira, volta à capital, agora para ficar. A cidade tem uma população que gira em torno de um milhão e meio de habitantes.

Mais uma vez o garoto chega acompanhado de seu primo Chafic e conta com um empurrãozinho do tio Manoel. Os primos haviam concluído o ginásio em Bebedouro e vinham continuar os estudos, cursar o que hoje corresponde ao segundo grau. Além de estudar, Victor precisava trabalhar. O pai, com quatro filhos em Pitangueiras, não podia sustentá-lo em São Paulo. Mais uma vez, tio Manoel entrou em ação e conseguiu uma colocação para o sobrinho e um local para os primos morarem. O primeiro empecilho para Victor conseguir emprego foi ser estrangeiro. Era libanês, ainda não havia se naturalizado. Mas, com a ajuda do tio, obteve colocação em uma empresa de correias, transmissão, fitas isolantes, óleos lubrificantes. Os donos, também libaneses, eram de Rachaya, cidade onde seus avós haviam nascido. Trabalhou nessa empresa durante três anos, primeiro internamente, depois, como vendedor. Saia da Rua Florêncio de Abreu no coração de São Paulo e batia, a pé, os mais diferentes cantos da cidade. Conheceu São Paulo como poucos. Quanto à moradia, a colônia árabe já ocupava o que ainda hoje é reduto de seus descendentes: as imediações da Rua 25 de Março, também no centro. O comércio por lá já fervilhava. Turcos, sírios e libaneses conviviam em paz no país que haviam adotado. Os primos foram morar em uma pensão das redondezas, cujos donos também eram libaneses. Depois da Segunda Guerra Mundial, muitos estrangeiros vieram para o Brasil e tinha uma cota, só um terço de estrangeiros em cada empresa. Eu não arrumava emprego fácil... Aí meu tio arrumou um emprego na Florêncio de Abreu, de secretário, na secretaria de uma empresa comercial. E arrumou um alojamento com uma família de libaneses de Rachaya que ele conhecia. Lá perto da 25 de Março. O primeiro ano foi nessa família. Na firma da Florêncio de Abreu eu fiquei três anos. No primeiro ano trabalhei na secretaria, no segundo e no terceiro eu era vendedor.

Sem perder tempo, já trabalhando, Victor prestou o vestibulinho para o Colégio Roosevelt, na Liberdade. Naquele tempo, o melhor colégio público de São Paulo. Eram 50 candidatos para uma vaga. Victor passou em segundo lugar.

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O rapaz estudava à noite e trabalhava o dia todo. Para complementar a renda, começou a dar aulas particulares de Matemática para estudantes do ensino fundamental. Além disso, na pensão onde morava, havia um rapaz que vendia cachaça em tonéis. Lá foi Victor vender cachaça. A atividade era proibida, a venda só era permitida em garrafa. Os amigos saíam em plena madrugada para realizar os negócios. Victor não fazia nada além de trabalhar e estudar. Era da pensão para o trabalho, do trabalho para o colégio, do colégio para a pensão. Não tinha tempo nem dinheiro para se divertir ou para namorar. Suas metas estavam muito bem definidas: entrar na Politécnica, tornar-se engenheiro, ter sucesso, crescer financeiramente. Depois de um ano morando com os libaneses, Victor mudou para uma segunda pensão que ficava em uma travessinha perto da Praça João Mendes. Ficou lá por um ano e no terceiro colegial, transferiu-se para a Rua Conselheiro Furtado, também perto do Roosevelt. Nessa ocasião, seu irmão Alfred também veio para São Paulo e moraram juntos por algum tempo. Desta vez, a dona da pensão era polonesa, mas viúva de um libanês. Um dos filhos dessa senhora era colega de classe de Victor. O amigo só era aprovado porque colava de Victor. A mãe do rapaz retribuía.

E aí, foi muita sorte porque como o filho era meu colega – aquele também passava colando de mim, tirava dez em Matemática, o colégio era dificílimo – como nós dois fazíamos colégio juntos, a mãe dele nos favorecia muito com alimentação fora de hora, ela me ajudou bastante.

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A vinda para São Paulo

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Escola Politécnica – Poli, como é carinhosamente chamada –, foi fundada em 1893, muito antes da Universidade de São Paulo (USP), que é de 1934. Idealizada e criada por Paula Souza, engenheiro paulista que havia feito seus estudos na Politécnica de Zurique, a Politécnica foi a primeira escola de Engenharia do Estado de São Paulo. Quando a USP foi fundada, a Poli foi incorporada a ela. A Politécnica é famosa como formadora de líderes e essa fama vem desde o seu início. Afinal, a escola tem como símbolo a deusa Minerva, que alia técnica e racionalidade ao espírito criativo. É também referência em qualidade de ensino e tradição em todo o país e na América Latina. Tem em seu rol de ex-alunos personalidades que ocuparam e ocupam cargos importantes na política e na indústria. Em 1948, quando Victor entrou na Poli, a escola funcionava na Avenida Tiradentes onde, atualmente, está a FATEC. O prédio, majestoso, foi projetado por Ramos de Azevedo, o mesmo engenheiro que construiu o Teatro Municipal, o Colégio Caetano de Campos, na praça da República e outros edifícios notáveis na cidade. Tanto seu idealizador Paula Souza quanto Ramos de Azevedo foram os dois primeiros diretores da Poli.

Edifício Paula Souza, antiga Escola Politécnica, av. Tiradentes, centro de São Paulo. Projeto realizado em 1895, pelo engenheiro Ramos de Azevedo

Victor continuava morando na pensão da polonesa. Seu amigo e colega no Roosevelt, o filho da dona, não conseguiu entrar na Politécnica. Victor foi o único aluno do curso noturno do colégio estadual a conquistar uma vaga. A dona da pensão, que havia acompanhado os esforços do rapaz durante todo o ano anterior, ficou comovida e orgulhosa com o ingresso do rapaz na Poli e deixou de lhe cobrar o aluguel. Durante os dois primeiros anos de faculdade, Victor morou gratuitamente. Nunca se esqueceu e nem deixou de agradecer esse gesto. Esses dois primeiros anos foram os mais sacrificados. As aulas eram em período integral, inclusive aos sábados e Victor, que já havia se demitido da firma da Florêncio de Abreu, dava aulas particulares. Nessa ocasião, ampliou seu rol de alunos, dava aulas de reforço para os próprios colegas da Poli. Novamente, Victor se destacava, era o primeiro aluno de sua turma. Ele conta que quando entraram eram 13 alunos. Apenas cinco chegaram ao terceiro ano, os outros foram reprovados. Dos cinco, quatro eram italianos e ele, libanês.

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Ainda em Pitangueiras, quando Victor só sabia que queria estudar, progredir, mas não sabia ao certo que carreira seguir, ouviu um advogado local que voltava da Capital comentar sobre uma recente e sedutora ciência: a Química. Esse senhor, que conhecia os sonhos e projetos do rapaz, lhe disse: “estude Química, é uma ciência nova, abriu Engenharia química na Politécnica”. Quando prestou o vestibular para a Poli, Victor ainda se lembrava desse conselho e estava seguro sobre o curso que queria. Era a Química o seu caminho. A ciência havia chegado com mais força ao Brasil após a Segunda Guerra, ele enveredou por ela e nunca mais a deixou. Madame Curie chamou os laboratórios de química de recintos sagrados, templos do futuro, da riqueza e do bem estar social. Em seu discurso na ocasião da inauguração do Instituto de Radium, em Paris, em julho de 1914, no início da Primeira Grande Guerra, ela disse:

Se as conquistas úteis à humanidade vos comovem; se ficais pasmados diante da telegrafia elétrica, da fotografia, da anestesia, e de tantas outras descobertas; se estais orgulhosos e conscientes da parte que cabe ao vosso país na conquista dessas maravilhas, tomai interesse, eu vos conjuro, por esses recintos sagrados que chamamos de laboratórios. Façais o possível para que eles se multipliquem. (...) É por intermédio deles que a humanidade melhora e cresce. É neles que o homem aprende a ler os segredos da natureza e da harmonia universal, enquanto as obras do homem são quase sempre obras de barbárie, de fanatismo e de destruição...

Hoje, em seu quarto, além do retrato da mãe, de um crucifixo e dos diplomas que ganhou em congressos e universidades internacionais por seu trabalho como professor, autor e pesquisador, Victor tem um selo comemorativo com a imagem de Madame Curie, a única pessoa – entre homens e mulheres – a ganhar dois Prêmios Nobel: um de Química, outro de Física. Não é pouco: uma mulher, em pleno início do século XX. A Química foi e continua sendo a maior paixão de Victor.

A Química é fascinante, está ligada à vida, às pessoas. Tudo é química nas pessoas. Por dentro e por fora.

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O sucesso e o amor

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década de 1950 foi marcada por grandes transformações. São Paulo crescia alucinadamente, havia passado de um milhão de habitantes nos anos de 1930 para dois milhões e setecentos em 1953. Era a maior cidade brasileira. A construção civil acompanhava esse ritmo e a indústria evoluía. Em 1954 a cidade tornou-se o maior parque industrial da América Latina.

Para Victor, a década também foi de realizações e crescimento. Em 1950, aos 25 anos, no terceiro ano da Poli, Victor mudou para outra pensão, mais perto da faculdade. Foi mais um ano difícil, de muita batalha. Já tinha vários alunos, mas não em número necessário para uma vida financeira tranquila. Essa tranquilidade só veio em 1951 quando ampliou – e muito – seu leque de alunos. A fama de excelente professor particular corria, um aluno indicava-o a outro, os pais davam boas referências, Victor andava a cidade toda dando aulas, percorria os melhores bairros para atender dezenas de alunos. Aproveitava os intervalos de aulas na Poli, os finais de semana e as noites. Não fazia outra coisa a não ser trabalhar e estudar. O almoço e o jantar eram sanduíches rápidos entre uma aula e outra. Em 1952, no último ano de Engenharia química, aconteceu o sucesso. Além dos alunos particulares, Victor tornou-se professor dos melhores colégios e cursinhos da cidade. Dava mais de 60 aulas por semana. O dinheiro que ganhava começava a sobrar. Os tempos mais duros ficavam para trás. Ainda hoje, quando fala sobre essa época, empolga-se, emociona-se. O caipirinha de Pitangueiras tinha dado a volta por cima. Conseguira ser reconhecido. Tinha vencido todos os obstáculos nesta cidade grande que ele adotara e que o adotara.

No quinto ano eu peguei cinco escolas importantes para dar aula: Bandeirantes, São Luis, Cursinho da Poli, um colégio estadual nas Perdizes e, na Liberdade, o Di Túlio, Di Túlio era o dono do cursinho. Foi uma maravilha! Na Liberdade era no próprio lugar onde eu morei, derrubaram a casa, construíram um prédio e eu passei a dar aula lá, no mesmo lugar.

Final de 1952. Victor se forma. O rapaz, orgulhoso e vaidoso de sua trajetória e de suas conquistas, não pôde compartilhar isso tudo com a família. Os problemas em Pitangueiras eram muitos. Ninguém apareceu para a cerimônia de final de curso. Pouco depois, em 1955, Jorge, Suréia e os três filhos do segundo casamento vieram de Pitangueiras para São Paulo. A Casa Oriental não ia bem, as dívidas se acumulavam e os conflitos familiares se agravavam. 33


Na capital, Jorge deixou o ramo de tecidos, mas continuou no comércio. Abriu um bar com um primo, cunhado de Chafic. Ficava perto do largo de Santa Cecília e conta-se que Sílvio Santos, que trabalhava na antiga TV Paulista, atual TV Globo, que ficava na Rua das Palmeiras, frequentava o bar. Algum tempo depois, Jorge voltou ao mundo dos tecidos. Deixou o bar e abriu uma confecção de capas nas redondezas da Rua 25 de Março: Capas Etna. Confeccionadas em gabardine, muito elegantes, fizeram sucesso. Jorge continuou com as capas até se aposentar, aos 80 anos. E só deixou de trabalhar porque estava quase cego. Poucos anos depois, Jorge e Suréia voltaram para o interior, para Itapetininga, onde morava sua filha Nancy. Em São Paulo os Neme residiram muito tempo na Rua Cubatão, no Paraíso, um bairro tradicionalmente habitado por imigrantes árabes. Victor nunca voltou a morar na casa paterna, continuou morando só. O rapaz seguiu em frente e hoje, revendo esse tempo, fica claro que os anos 1950 não foram férteis para Victor apenas no campo profissional. Estabilizado financeiramente, um pouco mais confiante, Victor pôde olhar o mundo a sua volta. E viu as mulheres. O rapaz agora já tinha o dinheiro para pagar o bonde e o cinema de uma pretendente.

Jorge e Suréia, 1958

Irmão Alfred, casal Hélio e Nancy, 1958

Eu só consegui namorar depois de formado engenheiro. Antes era um tipo muito sem graça, não era formal, não era muito educado e não tinha dinheiro nem para pagar o bonde da moça.

A primeira namorada, aos 27 anos, foi uma espécie de arranjo. Uma ex-aluna do Colégio Bandeirantes lhe apresentou uma colega: Lílian. A moça, nascida no interior, em São Carlos, tinha ascendência alemã e brasileira, era filha de um comerciante atacadista na Rua Florêncio de Abreu. O namoro durou pouco mais de um ano. Victor ainda era um rapaz acanhado, sem muito jeito para a vida social. Não tinha tido um convívio frequente com a família, tampouco com outros grupos. Saíra de casa aos 14 anos e vivera quase sempre sozinho, obstinado com o estudo e o trabalho. Lílian, ao contrário, era uma moça desinibida. E autoritária, o que contribuía para que ele se sentisse ainda mais deslocado e retraído. Quando foram passar um carnaval em São Carlos, as brigas começaram. A garota teria flertado com outros rapazes, Victor não gostou. 34


Nessa altura, o rapaz vinha tendo sucesso. Além dos cursinhos e colégios em que dava aulas, tinha escrito seu primeiro livro de Química para o cursinho Brigadeiro, onde já lecionava. Sempre que Victor relembra sua vida profissional cita o Brigadeiro como um marco de ascensão e realização. Foi lá que encontrou os reais impulsos e possibilidades para que sua carreira decolasse. Foi lá ainda que escreveu seu primeiro livro, ao perceber que os vestibulares se tornavam cada vez mais competitivos e havia carência de bons títulos didáticos de Química. Não parou mais e, por décadas, seus livros revolucionaram o ensino da ciência. Victor ingressou no Brigadeiro por volta de 1954. O cursinho ficava na Liberdade, o bairro onde ele tinha morado logo ao chegar do interior. Estava em casa. O Brigadeiro era, na época, o melhor cursinho prévestibular, em especial para Medicina. Era famoso e manteve sua fama de excelência por várias décadas. Victor era respeitado no meio acadêmico, começava a se dedicar também à pesquisa.

Etiquetas Capas Etna

Eu estourei! Foi o curso Brigadeiro que me decolou com os livros. Em 1954 peguei o Brigadeiro, em 1956 estava editando os livros. Eu fui o fabricante, foi uma explosão. Foi uma revolução pedagógica.

Sentindo-se recompensado, confiante, ganhando o que antes nem chegara a sonhar, Victor decidiu que não havia mais razão para se submeter a uma namorada tirana, com a qual não conseguia manter um relacionamento equilibrado. A conversa final foi ríspida. Victor disse: “não estou gostando nada dessa briga, quero sossego”. Lílian retrucou: “você quer sossego? Vá para um deserto”. Victor replicou: “bom, se eu for para um deserto com você, não vou ter sossego”. O namoro estava terminado. Depois de Lílian veio Anna. Tinha 17 anos, cursava o primeiro colegial. Era filha de italianos e tinha sido aluna particular de Victor. O pai havia morrido, a menina estava deprimida, insegura. Quando Victor comentou que uma ex-aluna do cursinho da Poli da turma de 1954 o havia procurado para conseguir aulas, Anna teve uma crise de ciúme e acabou o namoro. Victor não se aborreceu, pelo contrário. A exaluna era Ilse. Ele se lembra bem, era 1957.

No dia seguinte corri para a Filosofia, lá na Alameda Glette... Eu me lembrava dela, era a única moça numa classe de cem homens. E depois, Ilse é meu tipo físico de mulher. Isso já era bem claro. Loira, pele branca, bem branquinha. Nórdica. Moça nórdica. E a cultura! Adoro a cultura nórdica. São liberais os nórdicos. 35


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A trajet贸ria de Ilse

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udolfs e Doroteija Balodis, avós de Ilse, nasceram em Riga, capital da Letônia, mas viveram muito tempo em Odessa, na Ucrânia. Foi lá que tiveram seus filhos, todos russos. Não por acaso, os bisnetos de Doroteija que vivem no Brasil, filhos de Ilse, têm sempre em casa uma ou mais matryoshkas ou babushkas. Quem viu Encouraçado Potenkim, filme de 1925, do diretor letão Eisenstein rodado em Odessa, certamente se lembra da célebre cena da escadaria. Muitos anos antes, Irma avistava a famosa escada da janela de sua casa, brincava nela. Rudolfs e Doroteija Balodis se conheciam desde crianças, seus pais eram amigos, moravam no mesmo prédio em Riga, trabalhavam juntos em uma indústria de rolhas na capital letã. Ainda bem jovens, começaram a namorar. Rudolfs formou-se na Escola Naval de Riga, falava russo e alemão, além da língua leta, assim como Doroteija. Casaram-se e Rudolfs conseguiu emprego em uma empresa sueca que atuava nos mares Báltico e Negro. Mudaram para a Rússia, foram para Odessa, importante porto comercial. Rudolfs era capitão de cabotagem, navegava pelo Mar Negro até Constantinopla, comprando e vendendo as mais variadas mercadorias. O casal teve quatro filhos: Irma, Juris, Doroteija, apelidada de Darta, e outra menina que morreu ainda criança. A vida em Odessa era divertida, contava Irma. Doroteija, sua mãe, era uma pessoa liberal, moderna. Os filhos tiveram autonomia e liberdade desde pequenos. Ela permitia que as filhas brincassem vestindo seus vestidos, usando suas bijuterias, fazendo-se de gente grande. Permitia também que Irma estudasse encarrapitada sobre o armário, munida de caderno, caneta e tinteiro. Até o dia em que o tinteiro despencou lá de cima. Mas essa permissividade só acontecia quando Rudolfs estava fora, navegando. A presença do pai impunha limites mais rígidos. Nesse tempo, começo do século XX, a família sonhava ter uma casa grande, com jardins, carruagens e belos cavalos. Rudolfs economizava para isso. Mas o sonho não se concretizou. Depois da Revolução socialista de 1917, a família voltou à Letônia. Ilse relembra:

Mamãe vivia como filha do capitão. Moravam em um apartamento que tinha vista para o porto do Mar Negro. Pela janela viam o porto, tinha uma escadaria, num filme até aparece. Eles desciam, brincavam naquelas escadarias... Tinha tudo aquilo, passavam as férias mais para o oriente... Aí veio a revolução, tudo acabou.

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O Império Russo

Quando a mãe de Ilse nasceu, em 1906, parte da Ucrânia, incluída Odessa, pertencia ao gigantesco Império Russo. A era dos czares teve início em 1721 e só terminou com a Revolução de 1917. Foi um dos maiores impérios do mundo. Além de partes da Ucrânia, Polônia, Suécia, Letônia, Lituânia, Estônia e muitos outros países compunham essa enorme colcha de retalhos que mesclava diversas etnias, culturas, crenças e línguas. Em seu apogeu, o Império se estendia do leste europeu, passava pela Ásia e chegava à América do Norte, ao Alaska, que foi comprado pelos Estados Unidos em 1867. No final do século XIX, tinha mais de 22 milhões de quilômetros quadrados e uma população em torno de 170 milhões de súditos. Era a maior população do mundo. O regime era a monarquia absolutista.

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Odessa era chamada A pérola do Mar Negro. No início do século XIX, a cidade foi governada por um francês, o Duque Richelieu, que lhe imprimiu modernidade e ares europeus. A cidade se transformou em importante centro cultural. É dessa época a concepção urbanística de Odessa idealizada e realizada por um arquiteto italiano, Boffo. Pushkin, grande escritor e poeta russo, que viveu entre meados dos séculos XVIII e XIX, autor de A filha do capitão, entre outros livros, definia Odessa como “uma cidade onde se pode cheirar a Europa. Fala-se francês e há obras e revistas europeias para ler”.


A volta para a Letônia

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o final do século XIX e início do XX, o Império Russo mostrava claros sinais de enfraquecimento. A situação se agravou pela Guerra russo-japonesa, em 1904 e 1905. Os dois Impérios lutavam pela conquista da Manchúria e da Coreia. A Rússia foi humilhada pelo inimigo, o que abateu ainda mais o debilitado regime autocrático. Em janeiro de 1905 a crise tornou-se ainda pior. Foi organizada uma manifestação popular com o intuito de entregar ao czar uma petição com a assinatura de mais de cem mil trabalhadores exigindo reforma agrária, tolerância religiosa, fim da censura, melhores condições de vida e representatividade da população no governo. A manifestação acabou em tragédia. A guarda czarista impediu que os manifestantes chegassem ao palácio. Os rebeldes não recuaram, a guarda disparou. Houve centenas de mortos. Dez anos depois, a entrada da Rússia na Primeira Grande Guerra aumentou a insatisfação popular. Estouraram inúmeras revoltas, a fome dominava o Império. O país entra em colapso. A Revolução de 1917 depõe o czar e termina com o antigo Império Russo. Para a família Balodis era hora de retornar à Letônia. Rudolfs pôde voltar ainda em 1917, em um dos últimos navios que saíram do porto de Odessa. Mas Doroteija e os filhos só retornaram à Letônia em 1921, quando Irma tinha catorze para quinze anos, a mesma idade em que Ilse chegou ao Brasil. Foram tempos de penúria e fome, tanto para Doroteija e os filhos, em Odessa, quanto para Rudolfs, em Riga. Doroteija empregou-se em uma cozinha. Ilse ainda se lembra de Irma lhe contando que a escassez de alimentos era tanta que só se comia mingau. Ao menos não se morria de fome. Outra fonte de renda da mãe e das crianças vinha dos objetos que Rudolfs havia trazido de suas muitas viagens.

Minha avó Doroteija arrumou trabalho numa cozinha. Mas lá só tinha mingau. Mingau de milho, polenta. E outro dia, outro mingau. Não tinha outra coisa, mas também não se morria de fome. E aquilo era integral, era muito bom. O meu avô era esse tipo que viajava ao redor do Mar Negro e trazia coisas que comprava: tapetes e outras coisas bonitas. Minha avó ficou vendendo tudo o que meu avô tinha trazido, coisas de valor. Foi vendendo aos poucos e comprando mais comida. Sobreviveram assim.

Em Riga, a situação de Rudolfs não era muito melhor. Quando saiu da Rússia em sua última viagem o capitão ganhara algum dinheiro transportando pessoas que voltavam aos seus países. Deixouos em Constantinopla e antes de partir para Riga foi à Suécia devolver o navio. Chegando a Riga estava desempregado. 41


Com o dinheiro ganho no transporte de passageiros naquela última viagem, comprou uma pequena chácara nos arredores da cidade, mas só conseguiu se manter demolindo a casa principal da propriedade. Vendia o material para sobreviver, ficou apenas com a dependência de empregados. A casa grande foi vendida aos pedaços. Por precaução, cercou a propriedade com um muro alto, feito em madeira. Foi muito bem feito. Tão bem feito que Ilse até hoje se recorda do muro que cercava a casa do avô.

Ele era capitão, pegou o navio dele, encheu de refugiados que queriam fugir do comunismo. Eles pagavam por fora, caríssimo, e ele embolsou, tinha perdido dinheiro no banco. E levou para Constantinopla. Depois viajou para a Suécia e entregou o navio. Com aquele dinheiro, comprou uma chácara em Riga. Não era no centro, era nos arredores, mas era um bom pedaço de terra, com uma boa casa senhorial e outra para os empregados. Mas depois ficou sem emprego.

Em 1921, época em que a Letônia vivia uma democracia, Doroteija e as crianças chegam finalmente a Riga. Rudolfs conseguiu uma colocação na alfândega da cidade, tornou-se funcionário público. Doroteija aproveitou o terreno da chácara onde moravam e resolveu plantar e criar cabras e galinhas. No começo, o produto das plantações e das criações era apenas para o consumo da família. Com o tempo, Doroteija passou a ganhar algum dinheiro vendendo suas galinhas brancas de raça, e seus ovos. Eram as preferidas da comunidade judia de Riga. Talvez venha desse tempo de cultivo e criações e, certamente, da cultura letã, o respeito, a valorização e o amor de Ilse pela terra, pela natureza. Ela diz:

Irma com Valdis vendo os pés de morango em casa

Tinha aquela propriedade grande, não era de luxo, mas era terra.

Os sonhos da época de Odessa não se realizaram. A família nunca chegou a ter um palacete, uma carruagem, belos jardins e belos cavalos. Na Letônia, Rudolfs e Doroteija sonharam outros sonhos para os filhos: a arte, a música. A música é uma tradição forte na Letônia. Tanto a erudita, quanto as canções populares e os coros. Os pais compraram um piano, um violino e uma harmônica para as crianças. Irma não se interessou em aprender, tocava de ouvido algumas canções na harmônica. Seu irmão também não quis saber do violino. Apenas Darta tornou-se pianista. Ainda assim, a música – notadamente a clássica – sempre fez parte da vida de Irma e de seus descendentes. A dança também é muito cultivada na Letônia. O maior exemplo é Mikhail Baryshnikov, letão nascido em Riga.

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A Letônia A região onde hoje é a Letônia é habitada há muitos séculos. As tribos bálticas chegaram lá cerca de três mil anos antes de Cristo. O maior dos três países bálticos, a Letônia, tem pouco mais de 60 mil quilômetros quadrados, com uma população de cerca de dois milhões e quinhentos mil habitantes, dos quais quase 40% não são letões, e sim russos, lituanos, ucranianos, bielorrussos etc. O país foi rota dos vikings, que o atravessavam pelo Rio Daugava e seguiam até os Impérios Russo e Bizantino. Mais tarde, sofreu inúmeras invasões e esteve sob o domínio dos Cavaleiros Teutônicos, que buscavam imprimir valores cristãos à população pagã. Esse domínio durou séculos. A Letônia fez parte dos reinos da Polônia e da Lituânia e, nos séculos XVIII e XIX, pertenceu ao Império Russo.

Guerra, o exército soviético conquistou e anexou a Letônia à União Soviética. Em 1941, os alemães ocuparam o país e lá permaneceram até 1944, quando a URSS voltou a subjugá-lo . Os dois períodos foram de extremo sofrimento. Somente em 1991, com o fim da União Soviética, a Letônia alcançou sua autonomia. O país sempre foi estreitamente ligado à agricultura e à extração de madeira. São famosos os pinhos de Riga e o âmbar. A maior festa nacional é dedicada à natureza e tem origem pagã. Até a cristianização da Letônia, comemorava-se em 24 de junho a entrada do verão com festa ao deus Sol. Hoje, a festa é cristã, comemorase o dia de São João, mas a natureza, as flores e as ervas medicinais continuam sendo festejadas. Os letões se distinguem pela honestidade, simplicidade, força, franqueza e obstinação, além de um profundo respeito à natureza.

Em 1918, um ano após a volta de Rudolfs, a Letônia tornou-se independente. Foi um dos poucos períodos em que esteve livre. Em 1940, durante a Segunda

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Riga, capital da Letônia, 2000

A capital do país, Riga, tem 900 anos e é uma das cidades declaradas Patrimônio da Humanidade. Sobreviveu a inúmeras invasões, diferentes domínios e mantém-se notável por sua arquitetura, sendo comparada a Viena, São Petersburgo e Barcelona. Banhada pelo Rio Daugava, a cidade tem hoje em torno de 700 mil habitantes. Foi nesse ambiente, há mais de oitenta anos, que Irma viveu. Chegou de Odessa adolescente e tornouse uma mocinha arrojada. Inventava moda, gostava de se vestir de maneira singular, sempre de luvas, avental e chapéu, mesmo no verão. Logo que pôde, ainda estudante, começou a trabalhar. Ilse conta que Irma foi office girl e cobradora de ônibus da linha que percorria o bairro onde a família Balodis morava.

Antes de ser cobradora, ela chegou a trabalhar numa editora ou jornal, como office girl. Comprou um chapeuzinho de palha, pequeno, e costurou uma pena de pavão. Não preciso dizer que chamava atenção, não é? E ela gostava de avental também. Luva branca, avental e aquele chapéu.

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O encontro de Irma e Arthurs

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oi em um ônibus que Irma e Arthurs se conheceram. Os dois moravam no mesmo bairro, e Arthurs tomava o ônibus em que Irma era cobradora. O rapaz era estudante de Engenharia química na Escola Politécnica de Engenharia de Riga. Irma também estudava, embora não gostasse muito. Começaram a namorar e Arthurs fez com que Irma continuasse os estudos. Ela se formou em Agronomia. Arthurs havia nascido em 1905, em Riga. Sua família nunca saiu da Letônia, mesmo nos períodos mais difíceis. Os pais, Vilis e Lina Jankowsky, tinham vindo do interior, eram camponeses. Em Riga, Vilis tornou-se marceneiro. Tiveram três filhos: Volpis, Martha e Arthurs.

Arturs Jankauskis e Irma Balodis

Embora Arthurs tenha se formado em Engenharia química e sempre tenha trabalhado nessa área, o ofício da marcenaria exercido pelo pai deixou sua marca no filho. Já no Brasil, em meados de 1950, quando construiu sua casa na Vila Prudente, fez um batente em marchetaria com vários tipos de madeira de diferentes tons, onde esculpiu os símbolos típicos da Letônia. Ainda hoje, esse arco é lembrado e admirado pelos filhos e netos. Jankowsky é um sobrenome de origem russa. Logo que se formou, Arthurs mudou-o para Jankauskis, letão. Os filhos de Irma e Arthurs são Jankauskis. Os Jankowsky ou Jankauskis eram muito diferentes dos Balodis. Eram pessoas mais contidas, retraídas, falavam pouco. Irma contava que as duas famílias – especialmente a mãe e a sogra – tinham temperamentos opostos. Doroteija era expansiva, divertida, falante, cozinhava em seu enorme fogão preto, sempre com muita gordura, muitos ovos, muito toucinho. Lina era franzina, delicada, tímida. Sua cozinha era pequena, impecável, muito limpa, sempre enfeitada com paninhos bordados. Arthurs era um rapaz inteligente, inventivo e estudioso, ia bem em todas as disciplinas e era um expert em Matemática. A tal ponto que seu apelido era matamor. Ilse conta:

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Matamor... Ele era um matemáticomor. Meu pai foi excepcional. Em todas as matérias da faculdade tirou excelente. A única que ele tirou suficiente foi meteorologia que não é matéria exata.

Logo depois de Arthurs se formar, após cinco anos de namoro, Arthurs e Irma se casam. Os móveis do casal – cama, mesa, escrivaninha, cadeiras e armários – foram feitos por Vilis. Arthurs e Irma foram morar em um pequeno apartamento na Rua Zemites, 2. Logo vieram os filhos. Foram cinco, mas o menor, Tennis, morreu ainda criança, ainda na Letônia. Valdis, o mais velho, nasceu em 1933. Em 1934, veio Ilse. Quatro anos depois, nasceu Maija e, em seguida, Juris.

Natal na casa dos Jankowsky

A vida seguia em Riga, Arthurs trabalhava em uma empresa que vendia máquinas fotográficas e revelava filmes. A fotografia ainda não tinha cem anos, era algo muito moderno na época e causava enorme sucesso. Saindo dessa firma, Arthurs foi para o Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade de Riga.

Irma e Artur na Letônia

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A mudança para Ligatne

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esse Instituto, Arthurs inventou uma filmadora muito pequena, que cabia na palma da mão. Era semelhante à Minox ou era a própria Minox, cuja invenção é creditada a um outro letão: Walter Zapp. Corre a história de que Arthurs foi vítima de inveja e intriga de um colega de trabalho que teria sido pago por poderosas empresas alemãs em troca da patente. Ilse relembra:

Eu sei que fizeram uma coisa feia com ele... A esposa do Schimidt – era um casal de letonianos – foi para a Letônia e quando voltou me telefonou. Disse que eu devia ir para a Letônia, porque ela ficou sabendo lá, país pequeno, muita gente se conhece, que meu pai tinha feito uma patente para revelação de filmes. Ela disse que estavam usando o mérito dele. Naquela ocasião foi feio. Intriga mesmo, sabiam como arrasar uma pessoa. Eles têm métodos de mentira. Eu só sei que meu pai ficou muito desgostoso e apareceu a possibilidade de trabalhar em Ligatne.

Por volta de 1939, decepcionado e deprimido com o que havia acontecido, Arthurs resolveu sair de Riga. Além das questões profissionais, o mundo estava às vésperas da Segunda Guerra Mundial. A família Jankauskis mudou-se para Ligatne, uma cidadezinha a pouco mais de 50 quilômetros a leste de Riga.

Tia Mimi, avô Rudolfs com Ilse coroada e Valdis

Ilse e seu avô materno, Letônia

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A região de Ligatne, onde em 1973 foi criado o Parque Nacional Gauja é uma das mais bonitas do Báltico e da Letônia. É recheada de florestas, castelos medievais, rios e lagos. Foi nesse ambiente que Ilse e a família viveram cerca de quatro anos. Ela se lembra desse tempo com alegria. Foi um tempo bom, apesar das muitas dificuldades. Um período de liberdade, novas experiências, contato com a natureza. Uma fase enriquecedora, transformadora. Arthurs foi para lá contratado por uma indústria de papéis. Entrou como engenheiro e logo foi promovido a engenheiro chefe. Era muito respeitado tanto no trabalho, quanto na comunidade. A empresa não era grande, mas tinha uma boa variedade de produtos: celulose, papel para cigarro, pergaminho vegetal, papel para baralho, papel crepom. A casa vivia cheia desses papéis e as crianças se divertiam especialmente com os crepons de cores vivas que se transformavam em roupas curiosas e vistosas. A casa também era pródiga em cadernos especiais para desenho, caligrafia, matemática.

Família Jankauskis, com Mercedes do tio de Irma (Carlis)

Esses anos tão caros a Ilse foram os anos da Segunda Grande Guerra, mas em Ligatne, como ela mesma conta:

A Guerra a gente passou mais ouvindo do que vivenciando.

Ilse e Irma em Ogre, na casa de campo de Darta Lá, a vida corria alegre. Arthurs e Irma sempre valorizaram e transmitiram aos filhos valores e princípios éticos, democráticos, libertários. Ilse tinha muitas amigas, desde a filha de um diretor da empresa onde Arthurs trabalhava, até as filhas de um administrador de fazenda. Os animais também faziam parte do cotidiano. A chegada do verão era uma festa para Ilse. A liberdade era ainda maior, as brincadeiras fora de casa mais frequentes, como ela mesma relata.

Você convivia com os animais, assistia naturalmente a tudo, a reprodução dos animais. A gente via tudo naturalmente. Quando chegava o verão, depois da primeira tempestade, mamãe me deixava andar descalça... Eu não punha mais sapato, a não ser para festa. Passava o verão inteiro descalça. Lá não tinha nada cimentado, era tudo caminho de 48


terra... A gente corria pelos campos descalços. A natureza lá é tão gentil comparando com a natureza dos trópicos. A natureza temperada, na Europa toda. Não tem escorpião, às vezes formigas que picam, uma picadinha de nada, não tinha nenhum perigo, nada. E eu tinha aquela liberdade que minha mãe me dava. Era um lugar muito gentil. Que vida mais interessante, todo dia uma coisa nova. Era tão gostosa a vida, como a gente vivia bem.

Família Jankauskis na casa de Ligatne

Outra lembrança que Ilse mantém viva e feliz é o pastoreio. A garota, aos seis anos, torna-se pastorinha. Valdis já havia pastoreado nos anos anteriores e às vezes Ilse o acompanhava. As propriedades agrícolas em Ligatne eram pequenas e os rebanhos, formados por poucos animais. As crianças ou mesmo os mais velhos cuidavam dos animais no verão e no começo do outono, preparando-os para o inverno, quando ficariam confinados em seus estábulos. Ainda que a Guerra não estivesse em Ligatne, os alimentos eram escassos e o pastoreio, além de Casa da avó paterna em Riga, construída pelo avô marceneiro ser uma alegria para a menina, era também uma oportunidade de conseguir algum alimento. Ilse se lembra que nessa ocasião uma senhora que morava por perto perguntou à Irma se tinha alguém que pudesse pastorear seus animais. A mãe perguntou à Ilse: “você quer?”. Ilse não teve dúvida: “lógico que eu queria, né? O que eu não queria?”. Eram quatro vacas e 12 ovelhas. Ilse saía de manhã com um cachorro que a ajudava na tarefa e levava um lanche que na hora da fome era dividido com o cão. Isso ela aprendeu com Valdis, afinal os dois – menina e cachorro – tinham o mesmo trabalho, esforçavam-se da mesma maneira. Ao levar os animais de volta, antes de ir para casa, Ilse comia uma fatia de um pão que a senhora fazia. Ainda hoje, seu sabor está vívido.

Ela nunca me deixava ir embora sem me dar um lanche. E como eu gostava daquele lanche! Aquele pão gostoso que ela fazia, um pão integral, meio docinho, bem feito. Como era gostoso! E ela passava em cima sementes de cânhamo que ela batia no pilão, o cânhamo é uma espécie de maconha, a sementinha é uma delícia. Eu sei que ela batia no pilão e passava naquele pão preto e com um pouco de leite ou coalhada, alguma coisa assim. Ela sempre me dava um lanchinho deste tipo. Aí eu ia para casa.

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Ao final do período de pastoreio, Ilse recebeu um saco de batatas e uma peça de toucinho como pagamento. Era muito para os dias difíceis de guerra. Os campos, lembra Ilse, eram lindos. Segundo ela, semeados pelos deuses, não pelos homens, meros mortais. Havia ervilhas, lentilhas, leguminosas e todos os tipos de flores: papoulas vermelhas, margaridas, tudo misturado. O rebanho comia tudo aquilo. Nesses mesmos campos, a menina brincava com os irmãos e amigos. Durante as brincadeiras faziam guirlandas de flores, todos as usavam. Muito mais tarde, muito longe da Letônia, em São Paulo, em pleno Paraíso, quando as filhas de Ilse eram pequenas, a história se repetia. As flores colhidas no jardim da casa viravam tiaras. Não havia papoulas vermelhas, mas as margaridas estavam lá. Desse tempo de infância, outra memória de Ilse é uma conversa com sua mãe que foi determinante para sua formação, que se tornou um lema, um preceito para ela. A menina não cansava de perguntar a razão disso e daquilo. Tudo queria saber, entender, compreender, tudo perguntava à mãe.

Irma no centro com Ilse e Valdis à sua direita em visita ao zoológico de Riga, com primos Roberto, Juris e Helena

Maija, Valdis e Ilse em Ligatne

Um belo dia mamãe disse que não queria mais ouvir de mim a palavra porque. E disse: você observe e pense. Estou fazendo isso até hoje.

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A fuga da Letônia

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ram os últimos anos da Guerra. Os soviéticos, que haviam perdido a Letônia para a Alemanha em 1941, voltavam ao país. Irma achou que era hora de fugir com a família. Ela já havia vivido sob o comunismo e sentia-se ameaçada, amedrontada. O dono da indústria de papel e celulose onde Arthurs trabalhava em Ligatne tinha um contato na Tchecoslováquia. Resolveram ir para lá. Foram até Riga e tomaram um navio de carga que levava soldados letões. Desembarcaram na Alemanha e de trem chegaram a uma pequena cidade tcheca.

Minha mãe queria muito ir embora, fugir. Porque nós já sabíamos como era o comunismo. Um ano já foi suficiente. Ainda mais que a gente estava lutando contra eles. Imagina quando eles viessem de volta. Realmente depois a gente ficou sabendo que mataram muita gente, que o exército chegou matando muita gente. Mamãe ficou com medo, quis ir embora. O diretor da indústria conhecia os donos de uma indústria na Tchecoslováquia. Com a chegada dos comunistas nós fomos para lá. Foi rápido, liquidar tudo, embarcar e ir embora.

Ilse tinha quase 10 anos e se lembra que antes de partirem de Riga, Irma tentou convencer sua irmã Darta a também sair do país. Mas a família não quis, preferiu ficar na Letônia. A estada na primeira cidadezinha tcheca durou pouco, meio ano, logo o Exército Vermelho chegou. Os Jankauskis e outros letões fugiram mais uma vez, desta vez em direção à Alemanha onde os aliados já estavam chegando. Saíram no último trem que tinha permissão para cruzar a fronteira. Mas antes de a cruzarem foram detidos e impedidos de seguir viagem. A estação seguinte, já na Alemanha, havia sido bombardeada, a via estava interditada. Retidos na Tchecoslováquia por mais uma ou duas noites, a família perdeu tudo, ficou apenas com as bagagens de mão. As muitas caixas com fotografias, pinturas e recordações da Letônia perderamse no trem. Impossibilitados de seguir pela estrada de ferro, Arthurs e seus companheiros letões conseguiram uma carroça e assim avançaram mais um pouco, quase chegaram à Alemanha. Nesse trecho da viagem, Ilse se lembra de ter visto pela primeira vez os tanques americanos e a Guerra mais de perto. Nova parada em uma pequena cidade ainda em terras tchecas. Lá se acomodaram em uma escola que havia sido transformada em acampamento. Eram muitos os imigrantes, todos dormiam em beliches largos em que cabiam várias pessoas. O beliche dos Jankauskis ficava defronte à janela. Ilse se recorda que puseram panos brancos na janela, em sinal de paz. Os americanos passaram e o respeitaram. Mas, 51


antes de anoitecer, um tenente alemão mandou que tirassem a bandeira branca. À noite, o alojamento foi bombardeado pelas forças aliadas. No dia seguinte, mais uma vez eles se deslocaram.

A gente ouvia. A primeira bomba voou e caiu em cima de uma pedra grande de granito, a janela caiu em cima de nós, o telhado ficou todo perfurado. Como estávamos deitados embaixo da janela, ficamos cobertos de pedaços de vidro... Acordamos assim, tivemos tempo de nos esconder lá embaixo. Mas matou uma criancinha e feriu uma mulher na perna. Era noite, tinham que socorrer a mulher. Meu pai e um homem improvisaram uma maca e foram levá-la para o hospital. E as bombas caindo. Mas caiam no pasto, não acertaram mais nada.

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A pé para Passau

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Alemanha estava perto, a três ou quatro quilômetros. Seguiram a pé e finalmente conseguiram ingressar no país. A região que percorreram era montanhosa, recorda Ilse, os aliados não incomodavam os imigrantes, ocupavam-se em bombardear a estrada de ferro que ficava no sopé.

Aí eu vi como é que acontecia. Era um vale grande, mas a gente via explodindo na estrada de ferro. Eu vi um pouquinho de guerra. Da Segunda Guerra Mundial.

A primeira estada da família Jankauskis na Alemanha foi em uma fazenda. Era outono, época de colheita, e faltava mão de obra, pois os alemães ainda não haviam retornado da Guerra. Arthurs e outros companheiros foram trabalhar no campo. Em troca, recebiam alimentação e alojamento. Dormiam sobre montes de feno. Mais tarde, sempre a pé, chegaram a Passau, na baixa Baviera, divisa com a Áustria. Passau é conhecida também como Dreiflüssestadt, Cidade dos três rios. Ali, o Danúbio se encontra com os Rios Inn (do sul) e Ilz (do norte, da Floresta Bávara). Ilse se lembra rindo de que quando chegaram lá foram obrigados a passar por uma rigorosa desinfecção de pulgas e piolhos, sem ter pulgas ou piolhos. Os aliados não economizavam, ela se recorda de que ficaram brancos – da cabeça aos pés – do pó usado no processo. Apesar das dificuldades, a família ficou relativamente bem em Passau. Nesse período, Arthurs trabalhou com os aliados americanos na direção do acampamento. Moravam em um prediozinho onde cada família tinha um quarto. A cozinha e o banheiros eram comuns a todos. Não passavam fome e como Arthurs falava russo, alemão e um pouco de inglês, não tiveram problemas para se comunicar. Eram muitos os imigrantes. Especialmente dos países do leste europeu: poloneses, lituanos, russos, ucranianos, estonianos. E também alguns italianos que ficaram na memória de Ilse. Eram divertidos, falantes e reinavam na cozinha, preparando as refeições para todos. Após algum tempo, os imigrantes começaram a voltar a seus países, incentivados pelos aliados. Os letões, lituanos e estonianos relutavam. Foram poucos os que fizeram o caminho de volta. Temiam o regime comunista. Preferiram continuar buscando um novo lugar para viver. Com o retorno de muitos refugiados, principalmente dos poloneses, o acampamento de Passau foi fechado. Mais uma vez, os Jankauskis se mudaram. Desta vez, apenas Irma e os quatro filhos, pois Arthurs continuou a trabalhar com os aliados ali mesmo, em Passau. Como outras famílias letãs e lituanas, foram para Erlangen, também na Baviera, um pouco mais ao norte. Lá ficaram por um bom tempo.

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Apesar dos problemas, da situação precária e dificílima da Alemanha no pós-Guerra, Ilse se lembra desses anos como um tempo de aprendizado e alguma alegria. Em Erlangen voltou a estudar, entusiasmouse em aprender melhor o alemão, o inglês. Curiosa e observadora como sempre, a menina aproveitava o pouco que tinha, informava-se, ouvia rádio, escutava os adultos. Havia ainda a esperança de que a Letônia voltasse a se tornar independente, o que só aconteceu muitas décadas depois.

O refugiado sempre tem aquela coisa de querer voltar. Refugiou, mas não abandonou. Você foge para depois voltar quando puder... Esperavam que mudasse alguma coisa, quem sabe a gente voltava, não é? Os homens se reuniam, conversavam sobre o que ia acontecer no mundo, meu pai não estava lá. E eu, pequena, sentadinha ouvindo tudo o que acontecia, o que eles falavam. Mamãe nunca se sentou lá para ouvir nem outras mulheres. Mas eu escutava tudo e depois contava para ela. Eu tinha onze, doze anos. É gozado como eles não achavam ruim que eu ficasse lá ouvindo o que falavam. Acompanhei tudo direitinho. Você vê o que é o destino? Até isso eu tive.

Ilse não só relatava à mãe as notícias do fim da Guerra, as conversas que ouvia, como também lhe contava tudo o que acontecia no acampamento, os dias marcados para vacinação e distribuição de remédios, as datas de entrega de alimentos. Logo cedo lia todos os quadros de aviso e corria levando as notícias. Depois disso, a menina ia à livraria para ver o que havia de novo. Os pais nunca lhe negaram dinheiro para comprar livros. Desde muito pequena, Ilse é uma apaixonada por literatura, paixão que cultiva e exercita até hoje. Irma e os quatro filhos ficaram em Erlangen até Ilse concluir o curso básico. Nessa época, Arthurs trabalhava e fazia pós-graduação em celulose em uma faculdade de Química em outra cidade da região. Foram para perto do pai, até porque em Erlangen não havia ginásio e as crianças deviam continuar os estudos. Quando fala sobre Passau, Erlangen e sobre esse novo acampamento, Ilse diz que o dinheiro era curto, a vida muito difícil, a alimentação escassa, mas se recorda também que eram lugares bonitos, sempre perto do campo e que teve boas experiências, conhecimentos e vivências. Suas lembranças têm sempre um traço vivo de alegria, de carinho e nostalgia.

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Ilse e o livros

Penso que o livro é uma possibilidade de felicidade de que dispomos, nós, os homens. Jorge Luis Borges, em Cinco Visões Pessoais, Editora Universidade de Brasília, 1985.

Ilse nunca se esqueceu da história e da edição de As aventuras do Barão de Munchausen, ainda nos tempos de Riga. O livro era de tia Mimi, um livro grande, bonito, ilustrado a cores, com capa de couro e ponteiras de metal. A garota tinha oito anos e ainda traz na memória uma tia Mimi velhinha, de cabelos crespos, olhos grandes, escuros. Uma tia muito querida. Mimi, ou Mimita, era tia de Rudolfs, avô de Ilse. Quando jovem, Mimi foi governanta em casas de famílias muito ricas, aprendeu várias línguas. Quando ficou bem mais velha, como era solteira, foi morar com o sobrinho neto e a família. Ilse conta que Mimi tinha canteiros de feijão, de hortaliças, de batata. Muito econômica, na horta Mimi usava uma velha saia comprida, em que ia pregando novos retalhos sobre o tecido gasto. Os sapatos que a família deixava de usar, Mimi levava ao sapateiro e mandava consertar. Foi guardando, guardando. Isso antes da Guerra. Em 1944, quando os soviéticos chegaram novamente à Letônia e tudo ficou ainda mais difícil, a família agradeceu à tia Mimi os sapatos consertados, as roupas guardadas. Mimi sabia do interesse de Ilse pelos livros. Numa ocasião comprou uma edição de As aventuras do Barão de Munchausen para ler para a menina e outros sobrinhos. A mais animada com a leitura era Ilse. Quando reunia as crianças, Mimi contava as aventuras do barão mentiroso e contava também os seus sonhos. De um deles, Ilse também nunca se esqueceu. Nos acampamentos por onde passou e até hoje, Ilse sempre se recordou do livro e dos sonhos da tia.

Era bacana essa tia... Eu sempre fui muito ligada em livros, ela tinha comprado um livro todo encadernado com capa de couro, todo trabalhado, com as pontas de bronze trabalhadas. E tudo a cores: As aventuras do Barão de Munchausen. Me lembro até hoje. Ela contava que quando fez oitenta anos sonhou que foi para o céu. E lá encontrou São Pedro e ele perguntou: ah, você? Mas quantos anos você tem que já está aqui? Ela disse: eu tenho oitenta. E ele disse: ah, mas você está muito bem, pode voltar e viver do outro lado, outro tanto. Ela contava isso tudo para a criançada. Os meus primos mais velhos ficavam zombando dela. Um dia ela falou: bem, quando eu morrer, esse livro é teu. Eu sempre pensava naquele livro. Eu tinha oito anos. Imagine eu, que já naquela época gostava tanto de livros, só pensava naquele livro. Eu pensava na Letônia e pensava naquele livro que ficou lá. Hoje, este livro, seria muito valioso, uma relíquia. 55


No último acampamento onde a família Jankauskis esteve antes de vir para o Brasil, Ilse continuou lendo sem parar e – mais que isso – aprendeu a ler muito rapidamente. Era amiga de uma menina também chamada Ilse, também letã, também nascida em 1934. A garota tinha um livro de Júlio Verne traduzido para o letão. As duas sentavam-se para ler em uma daquelas antigas carteiras escolares duplas. A segunda Ilse lia muito depressa. Quando a nossa Ilse estava na metade da página, a outra já tinha terminado. Para acompanhá-la, aprendeu a ler muito depressa, hábito que conserva até hoje, ao menos em uma primeira leitura.

Como lia depressa, aquela menina! E eu lia com calma. Aí comecei a forçar, eu tinha que ler depressa para ela não esperar, o livro era dela. Fui forçando, lendo depressa, depressa, no fim terminamos juntas. Mas eu lendo direito. Até hoje eu leio com uma rapidez impressionante. E eu entendo tudo, não é que eu só olho assim. Graças àquela menina Ilse. Eu sempre tenho que ter alguma coisa para ler. A primeira vez eu leio depressa, quero saber o que vai acontecer, aí, conheço a história. Passa algum tempo, um ano, leio de novo. E na segunda vez, como já conheço a história, começo a ver o estilo que não tinha percebido na pressa, começo a enxergar o que não enxerguei antes. É assim que eu leio. Aí passam alguns anos e eu leio de novo. E de novo, vejo coisas que eu não tinha visto antes.

O exemplo de tia Mimi e a paixão de Ilse pela leitura certamente contribuíram para que ela se tornasse uma excelente contadora de histórias. Seus filhos e netos se recordam bem das histórias que Ilse lhes contava quando eram pequenos. A leitora dava vida aos personagens. Encantava as crianças.

Eu estudava no Colégio Bandeirantes, que é no mesmo bairro da casa dos meus avós e fazia aulas extracurriculares na parte da manhã e aulas regulares na parte da tarde. Entre uma aula e outra eu fazia uma visita a vovó. Na casa dela, o protocolo era sempre o mesmo: contava-me histórias, servia um lanchinho, mais histórias, umas frutas, histórias, chocolate, mais histórias e era hora do almoço, excelente por sinal, mais histórias enquanto eu comia e quando eu já estava atrasado para aula da tarde, já na calçada me despedindo... Histórias. Contou-me histórias sobre sua infância na Letônia, durante a Guerra, sua chegada ao Brasil, sobre a criação de seus seis filhos, sobre suas idas para as fazendas que tínhamos no Vale do Ribeira, sobre suas filosofias, sobre o mundo e tudo o mais. Me estimulou desde pequeno a absorver pelo menos parte da intelectualidade dela e acredito que o fez muito bem, pois hoje gosto muito de livros.

Artur (neto de Ilse e Victor, filho de Vic e Izabel)

Tinha um quarto grande, onde dormíamos as cinco meninas. Não eram beliches, era um quarto bem grande. A lembrança que eu tenho é da gente já na cama e ela contando histórias, sentada na beirada de uma das camas. Ela contava tão bem! Ela tem essa coisa, essa emoção mais à flor da pele, ela contava as histórias de uma maneira interpretada. Era fantástico, uma delícia. Iracema 56


Alemanha, 1949. A Guerra havia terminado há cinco anos, os acampamentos estavam sendo fechados, os imigrantes cada vez mais se deslocavam para novas terras ou voltavam às de origem. Ilse tinha catorze anos. Arthurs e a família precisavam decidir para onde ir. Quem tinha parentes em outros países contava com algumas facilidades. Os solteiros ou os casais jovens, sem filhos, também tinham certos privilégios. Não era o caso dos Jankauskis. A Austrália foi cogitada, mas a necessidade lá era de operários, não de quem tinha formação superior, como Arthurs. Propuseram a Arthurs um contrato: ele trabalharia dois anos como cortador de grama. Ele resolveu esperar outra oportunidade e ir para um lugar onde pudesse exercer a Engenharia. Pensou-se também no Canadá, porém os Jankauskis não falavam francês. A Índia era uma possibilidade, assim como os Estados Unidos e o Brasil. Arthurs se inscreveu para os dois. A primeira resposta foi dada pela embaixada brasileira. Estava decidido, era para cá que viriam.

Ele se inscreveu para os Estados Unidos e Brasil. Para os dois fizemos exames médicos, ninguém aceita doentes. Nenhum país, não são idiotas. Querem saudáveis e perfeitos. Os novos habitantes. Nós passamos nos dois. Aí tivemos que esperar a chamada para falar com os embaixadores, ter a aprovação final. Então ficou combinado que quem chamasse primeiro, nós iríamos. E foi o Brasil que chamou. E nós viemos para cá, foi assim. Destino.

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1949, a vinda para o Brasil

E aí, bem de manhã, depois de quatorze dias, o sol ainda não tinha saído, mas o céu já estava claro. Já se via a Serra do Mar, bem escura. E um vento que vinha da terra, com cheiro forte de mato, de pântano, de plantas que eu nunca tinha sentido... Foi clareando, aparece o sol, já é dia, e agora vamos entrar no Rio, na cidade. Cedinho entramos na Baía da Guanabara. Naquela época já era um muro de prédios, mais ou menos todos do mesmo tamanho, aquela faixa sem falhas na praia. Tudo branquinho... Por cima da cidade aquela bruma, por cima das brumas, um monte de urubus voando. O Corcovado, Jesus abençoando tudo. Que entrada! Não consigo esquecer! E olha que são mais de cinquenta anos! É como se eu tivesse visto ontem, como me impressionou aquela entrada! Ilse Os Jankauskis deixaram a Alemanha e foram para Nápoles, na Itália, de onde saiu o navio que os trouxe para o Brasil. Ilse se lembra: era primavera e foram 14 dias de viagem. Tudo era novo, tudo a deslumbrava. Durante a viagem a popa era o lugar onde mais gostava de ficar brincando, olhando o céu, as ondas, a água muito limpa. Com o movimento do navio, sentia-se como em uma gangorra: lá em cima, no ar, e depois lá embaixo, atrás das ondas. Ilse tentava imaginar o novo país, a nova vida. Supunha que a família chegaria a uma terra selvagem. Na Alemanha a ideia que se fazia do Brasil era essa.

Gozado que meu irmão não se lembra, diz que nunca viu, mas eram tantos peixes voadores! Eu ficava sempre na beirada. Dava para ver os peixes dourados, os golfinhos através das ondas. Meu irmão não viu nada disso. Mas eu sempre observei a natureza, para mim foi linda a viagem... Na Alemanha disseram que aqui só tinha cobra, aranha... Eu ficava imaginando: vamos morar perto de um rio, vai ter jacaré, floresta, selva... Plantas, animais, pássaros. Um primo dizia que dormiu sentado aqui, porque caía tudo quanto era bicho em cima.

esta foto não está no cd e não tem legenda

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Imigrantes letos no Brasil

Em 1890, em Riga, capital da Letônia, foi publicado um livro chamado Brazilija (Brasil), escrito por dois jovens letões: Karlis Balodis, que era pastor luterano, e Peteris Sahlitis, doutor em filosofia. Os dois haviam estado no Brasil em 1888 e, além do livro, escreveram também algumas matérias para o jornal diário Baltijfas Wehstnesis (O mensageiro báltico). As publicações falavam sobre o Brasil, a fertilidade de seu solo, o clima, a flora, a política liberal do país, as facilidades para os imigrantes e a possibilidade de formação de aglomerados de pessoas vindas de um mesmo país. Pouco depois, em 1890, Karlis Balodis partiu do cais de Riga com cerca de 25 famílias letãs. Esses primeiros imigrantes se estabeleceram em Rio Novo e em Laguna, Santa Catarina. Em 1906, outro grupo veio para o Brasil e se instalou na cidade de Nova Odessa, no interior do Estado de São Paulo. Essas primeiras ondas migratórias ocorreram em razão das fortes dificuldades econômicas que o país enfrentava e ainda pelas facilidades oferecidas pelo governo brasileiro. Os letões sempre se distinguiram por serem excelentes agricultores, e o Brasil precisava de gente experiente na área. Em 1922 vieram outros grupos. Agora, a razão principal para a imigração era a presença dos soviéticos no país e a consequente falta de liberdade de credo. A grande maioria dos letões é cristã, especialmente luteranos e batistas. Desta vez, imigrantes batistas estabeleceram-se em Varpa, no município de Tupã, São Paulo. Depois da Segunda Grande Guerra, ocorreu um terceiro e último momento de imigração. 60

Além de Varpa, Nova Odessa, Rio Novo e Laguna, os letões concentraram-se também em Jacu-Açu, Ijuí e Orleans, no Rio Grande do Sul, e em outras cidades de Santa Catarina e de São Paulo. Monte Verde, no sul de Minas Gerais, foi fundada pelo letão Verner Grinberg. Ele chegou ao país em 1916 e radicou-se em São José dos Campos, São Paulo. Em 1936, chegou a Camanducaia e lá formou uma fazenda nos moldes letões. Nos anos 1950, Verner Grinberg iniciou o loteamento de suas terras, dando origem à cidade de Monte Verde. O nome da cidade é uma tradução do nome de seu fundador: verner, verde e grinberg, monte. Os imigrantes letões vinham para cá não só da Letônia, mas também da Rússia, para onde haviam imigrado anteriormente. Os brasileiros de origem letã são atualmente cerca de 20 mil pessoas e formam a maior comunidade na América Latina.


Chegando ao Rio de Janeiro, a família foi para a Hospedaria dos Imigrantes, que ficava na Ilha das Flores, uma das ilhas da baía da Guanabara. A hospedaria foi inaugurada em 1883 para receber os muitos imigrantes que nessa época chegavam ao país. Em 1996 foi desativada e hoje pertence à Marinha. Os dias que passaram na hospedaria são relembrados por Ilse como dias de descoberta e surpresa. Novamente, a garota tudo via, observava e pensava. Tudo era bonito aos olhos da menina: a construção antiga, sólida; os dormitórios grandes, confortáveis, os beliches. E quando Ilse descia à praia, encantavase mais uma vez com os golfinhos, sentia-se acolhida:

Eram montes de golfinhos nadando ao redor. Eu fui bem recebida.

A estada dos Jankauskis na Ilha das Flores durou pouco tempo. Logo vieram para São Paulo aonde chegaram para ficar.

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São Paulo, a metrópole

S

ão Paulo foi um susto, mais um sobressalto para Ilse. A garota nunca havia visto nada parecido, uma cidade enorme, onde ao contrário de cobras, aranhas e jacarés encontrou muita gente pelas ruas, prédios, trânsito já intenso.

Vindos de uma Europa pós-Guerra, abalada e empobrecida, habituados a locais mais acanhados, calmos e próximos ao campo, os Jankauskis se admiraram:

Achava que ia para uma selva e chego numa cidade como nunca tinha visto tão grande. As ruas do centro cheias de carro, aquele movimento. Naquela época na Europa não tinha tudo isso. A imagem que o pessoal tinha do Brasil era totalmente diferente do que depois eu vi aqui em São Paulo.

A cidade, com mais de dois milhões de habitantes, foi escolhida por estar em pleno desenvolvimento. A indústria, em ascensão, precisava de gente capacitada, preparada. Arthurs tinha o perfil ideal. No início, a família foi morar no Campo Limpo. Arthurs procurou o consulado da Letônia e alguns imigrantes letões que poderiam ajudá-lo a obter uma colocação. Contou, principalmente, com o apoio de um letão que morava no Brasil há algum tempo. O conterrâneo lhe emprestou algum dinheiro e orientou-o na escolha do bairro para a residência. Indicou-lhe a Vila Zelina, mais próximo do Ipiranga, onde ficava a empresa em que Arthurs trabalhava. A casa era pequena para o casal e os quatro filhos, mas era o possível. Tinha dois quartos, cozinha e banheiro fora. Ilse se lembra que não havia água encanada, havia um poço no quintal. Rememorando esse tempo inicial, ela diz:

Luz elétrica tinha, mas água encanada não. Então era muito romântico, interessante.

A Vila Zelina fica na zona leste de São Paulo e pertence ao distrito de Vila Prudente. A formação do bairro teve início em meados da década de 1920. Sempre foi e é ainda hoje um reduto de imigrantes do leste europeu, especialmente lituanos, russos e, em menor número, letões. Os Jankauskis estavam perto dos “seus”, mas no começo houve várias dificuldades. A língua foi o primeiro obstáculo. Por não falar português, Arthurs ingressou na Cia. Suzano de Papel e Celulose com um salário modesto. Mas, em pouco tempo ele e a família foram aprendendo o novo idioma. Compraram um dicionário alemão-português e se reuniam para estudar. O próximo passo foi contratar 63


uma professora particular para os filhos mais velhos: Valdis e Ilse. A professora era filha do amigo letão que tinha ajudado os Jankauskis logo no princípio. Arthurs trabalhou na Cia. Suzano até o fim da vida, em meados de 1960. Cresceu muito dentro da empresa, tornando-se o responsável técnico da fábrica. Dedicado e criativo, desenvolveu uma fórmula para aditivos na fabricação de papel que até então eram importados. Ilse encantava-se com o novo país, com a cidade e o bairro. Deslumbrava-se com os hábitos e os costumes dos brasileiros, tão diversos de tudo que já vira. Admirava-se com a abundância de alimentos, com o entusiasmo das pessoas.

Para mim tudo era aventura, interessante, diferente. As feiras que aconteciam uma vez por semana na Vila Zelina... Aquilo eu achava o máximo. Vendia-se tudo e tinha aquele cheiro de café torrado, moíam na hora, era típico. E os vendedores apregoando, aquela quantidade de frutas o ano inteiro! Tinha panelas, tamancos... Aquilo era tão diferente, gostava de ir com mamãe para a feira. E todo mundo gritando, era uma coisa que eu nunca tinha vivido. Eu sempre pensava nas amigas da Letônia: ai, se elas me vissem... Que bacana! Que diferente!

Já era tempo dos filhos voltarem a estudar. Os menores, Maija e Juris foram para o Colégio São Miguel Arcanjo, na mesma Vila Zelina, um colégio católico de freiras americanas que o fundaram na mesma época da fundação do bairro. Uma escola voltada especialmente para os imigrantes lituanos, russos e letos. Ilse e Valdis, já em idade de terminar o antigo ginásio que haviam iniciado na Alemanha, procuraram o Ginásio Benjamim Constant, um colégio na Vila Mariana, fundado em 1901 para receber os filhos dos alemães que vinham se estabelecendo no Brasil. A grande vantagem era a língua. Os irmãos ainda estavam aprendendo o português, estudar em um colégio alemão seria mais propício. No entanto, apesar de admitidos, seriam obrigados a fazer os quatro anos regulamentares do curso, não poderiam cursar uma classe mais adiantada, correspondente ao período que já haviam cumprido na Europa. Desistiram. Os jovens Jankauskis tinham pressa. Determinada, Ilse foi à luta. Soube que existiam cursos supletivos, chamados “madureza”, onde poderia fazer os quatro anos de ginásio em apenas um ou dois anos. Era a solução. O curso ficava no centro da cidade, na Rua Direita, nome que Ilse achava muito estranho para uma rua torta. Ilse precisava ter maior desenvoltura na língua portuguesa e aprender latim, além de se inteirar de fatos históricos e de assuntos geográficos mais afinados com o país. Nas demais disciplinas seu desempenho sempre fora muito bom. Quando terminou o curso, ficou em primeiro lugar. Rememora com alegria dos livros que ganhou como prêmio. Eram em português e ela já não tinha nenhuma dificuldade para lê-los.

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Ilse jovem no jardim de casa. Esta foto foi tirada para passar a imagem de vida junto à natureza, no Brasil. Seria enviada para os parentes que ficaram na Letônia.


O próximo passo era o antigo científico. Mas Ilse não pôde cursá-lo imediatamente. Ainda não tinha a carteira modelo 19, registro exigido aos estrangeiros. Novamente, Ilse tomou as rédeas. Tirou seus documentos e pouco depois prestou exame para admissão no Colégio Estadual Franklin Delano Roosevelt, na Rua da Figueira, junto ao parque D. Pedro, no Brás. O colégio, criado em 1894, era um dos melhores da capital. Ilse fez tudo sozinha. Muito viva, independente e já familiarizada com a cidade, nem mesmo contou à Irma suas decisões e providências. Não foi fácil, ela diz, mas tinha a disposição e a vontade necessárias.

Cheguei lá era o último dia das inscrições, eu tinha que preencher a matrícula, reconhecer a firma e tirar atestado de saúde. E era a última hora, ainda bem que tinha um pouco de dinheiro. Subi correndo a Celso Garcia e fui olhando os cartazes. Primeiro o atestado de saúde, vi o médico, subi e, toda saudável, falei que precisava do atestado para entrar no colégio... Ele não tinha o selinho para assinar em cima, fui procurar o selinho. Só faltava meia hora, corri, ele colou e assinou... Eu tinha ainda que reconhecer a firma dele e a minha. Voltei com tudo, a secretária recebeu, era só uma portinha aberta. Entreguei, ela verificou tudinho e disse que estava tudo bem. Perguntei quando começavam as aulas e deu tudo certo. Estava matriculada no colégio que eu queria. Mamãe nem sabia que eu ia me matricular, não comentei, não falei nada para ninguém. Veja como é, se eu falasse, iam criar obstáculos.

As lembranças desse tempo são as melhores. Ilse foi excelente aluna e surpreendeu alguns professores que não conheciam o passado da menina e a viam como “fraquinha” por ter vindo de um curso de madureza. Em Química, ela arrasava. Arthurs havia dado uma palestra para jovens no bairro onde moravam e Ilse aprendeu muita coisa. Além disso, Arthurs acompanhava os filhos em seus estudos. Um dos professores do Roosevelt, prof. Silvião, de Química, tinha Ilse como seu peixinho. Fazia perguntas que Ilse respondia com rapidez e se alegrava com o desempenho da aluna:

Ele perguntou quanto pesava um núcleo. Não! Perguntou quanto pesava um dedal cheio de núcleos, falou no dedal porque era classe só de meninas. Levantei e disse: toneladas e toneladas. É isso mesmo, ele disse.

A professora de inglês foi outra que se assombrou com Ilse. A garota respondia às suas questões em um inglês perfeito, fluente. O colégio era formal, como a época era formal. As meninas eram tratadas por senhora e em cada classe havia uma chefe de disciplina, uma espécie de bedel e auxiliar dos professores, responsável por manter a ordem, inclusive a ordem dos

Ilse no Brasil

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uniformes das alunas. Os modismos ou as extravagâncias das meninas eram quase sempre reprimidos, mas as bijuterias mais discretas eram permitidas. Ilse – como Irma, sua mãe – gostava de criar sua própria moda com toques diferentes, inusitados. Prescindia das bijuterias, mas não dispensava uma fita vermelha bordada para enfeitar o rabo de cavalo. Foi chamada à atenção três vezes. Ilse não se abateu e resolveu cortar os cabelos, aderir ao estilo à la garçonne. Com uma amiga também letã, foi ao cabeleireiro do Mappin, antiga e famosa loja de departamentos em frente ao Teatro Municipal, no centro da cidade, e saiu muito feliz com seus novos pega-rapazes. Não resolveu, a chefe de disciplina voltou a implicar com a garota.

Eu já tinha dezessete, dezoito anos, minha amiga me levou ao Mappin e cortei o cabelo como estava na moda: aquele cabelinho bem curtinho mesmo, e estava na moda usar pega-rapaz. E você acha que eu ia ficar só com dois? Eu fiz mais dois. Ela me mandou tirar. Implicou com minha fitinha vermelha e com meu cabelo.

O colete do uniforme de Ilse foi outro problema. Irma o havia feito de acordo com o modelo exigido, mas nas costas e nas pontas da gola, não se conteve, modificou os biquinhos. As alterações eram tão discretas que a chefe de disciplina não as notou imediatamente. Quando as viu, Ilse levou mais uma chamada que relembra rindo:

Por um bocado de tempo ela não percebeu. Um belo dia me viu de costas e implicou. Mas eu tinha que fazer uma coisa diferente, não é?

Na época do Roosevelt, Ilse mantinha seu interesse e amor pelos livros. Aproveitava os intervalos de aulas para frequentar a biblioteca, conhecer novos títulos, treinar seu português. Novamente, ela fala com paixão em Victor Hugo. Desta vez, sobre Os trabalhadores do mar. A história sofrida dos protagonistas e a atmosfera do livro a emocionaram, ela nunca mais se esqueceu. Lá tinha uma biblioteca maravilhosa, antiga, completa. Quando os professores faltavam, eu ia ler. Encontrei Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo. Era uma história de amor tão intensa, platônica e descrevia o mar... Eu adoro o mar. Victor Hugo viveu numa costa da Normandia. No fim, o rapaz morre afogado, ele estava tão abalado porque ela se casou com outro. Eu não conseguia segurar o choro. 66

Ilse e Maija


A vida na casa nova

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m meados dos anos 1950, Arthurs já estava estabilizado financeiramente. Um pouco antes havia comprado um terreno na Vila Prudente, na Rua General Bagnuolo. Lá construiu a casa que por mais de quarenta anos foi a residência dos Jankauskis. O projeto foi feito pelo próprio Arthurs que mesmo sendo engenheiro químico, tinha um forte viés de arquiteto e artista. A família mudou-se antes mesmo de a casa estar terminada. Ocuparam o andar superior enquanto o térreo era concluído. A casa, em estilo letão, ficava no alto de um terreno em aclive. Tinha um muro de pedra bem alto e portões em madeira trabalhada, também muito altos. Sobre o muro e os portões, jardineiras com plantas e flores. No jardim, árvores e flores. Irma enfeitava a casa com as flores do próprio jardim, que durante anos e anos foi cuidadosamente mantido por ela e por um jardineiro. Na nova casa, ampla e confortável, a família mantinha as tradições letãs. Ouvia-se muita música erudita. Irma privilegiava os russos. Tchaikovsky era seu compositor preferido. Quando jovem, Irma foi convidada para ser cantora lírica. Tinha uma voz muito bonita e cantava, principalmente, músicas russas. Além dos russos, os compositores clássicos alemães também frequentavam a antiga vitrola dos Jankauskis. Maija, a irmã mais nova de Ilse, era fã ardorosa dos germânicos. A culinária era o território de Irma. Suas receitas dos pratos típicos letões tinham certa influência francesa e ela sabia como ninguém combinar os vários ingredientes e temperos. Essa tradição foi transmitida para Ilse que a repassou a suas filhas. Em especial as kommorgenwieder – panquequinhas doces ou salgadas. O borsch, a salada russa e o haladets ou galets também fazem sucesso hoje, nas mesas dos netos de Irma e Arthurs. Nos trabalhos manuais, Ilse costurava e bordava muito bem, enquanto Maija preferia o tricô e o bordado. Seus pontos eram impecáveis. Os temas e os tons que as irmãs usavam seguiam sempre os padrões letões. As cores eram as da natureza: os vários matizes terrosos, as muitas nuances de verde. Arthurs tinha a pintura como hobby desde os tempos dos acampamentos na Alemanha, quando teve uma estafa e começou a pintar para espairecer. Nunca mais parou. Pintou a vida inteira e seus quadros se espalham pelas casas de Ilse e de alguns netos. Arthurs sempre pintou naturezas mortas, retratos, paisagens de sua terra.

Um dos vários trabalhos manuais de Ilse

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Receitas da vovó Irma

Salada Russa Ingredientes: batata cenoura pepino curtido beterraba ervilhas em lata arenques ou sardinhas anchovadas ovos maionese mostarda Cozinhar os ingredientes crus e cortá-los em pedacinhos pequenos. Adicionar as ervilhas em lata com o caldo. Colocar tudo picadinho numa tigela, temperar com maionese e um pouco de mostarda. Borsch Colocar um rabo de boi cortado em pedaços para cozinhar em água. Ir tirando a espuma com escumadeira. Adicionar o feijão branco (que ficou na água desde a noite anterior) e começar a picar cenoura e beterraba. Adicioná-las ao caldo também. Deixar cozinhar por uma hora e então cortar repolho e adicioná-lo. Quando tudo estiver mole, adicionar batata. Preparar em separado molho de tomate: extrato elefante dissolvido em água, sal e açúcar. Quando a batata estiver mole, jogar o tomate. Pegar uma cebola picada e fritar em separado, com manteiga. Quando estiver rosada, adicionar uma colher de farinha, fritar mais um pouco e jogar dentro da sopa. Servir com creme de leite separadamente. 68

Kommorgenwieder Massa da panqueca Misturar quatro ovos inteiros, um pouco de açúcar, sal. Adicionar um pouco de leite, mexer, e acrescentar um pouco de farinha, só para engrossar. Se ficar muito grosso, diluir de novo com leite. Fritar na frigideira. Recheio de carne Tirar as carnes da costela e moer junto com toucinho. Fritar na manteiga e sal a gosto. Cozinhar dois ovos até ficarem duros e picá-los. Misturar os ovos com a carne numa tigela. Montar as trouxinhas de panqueca com essa mistura de carne por dentro. Na hora de comer, fritar as trouxinhas em ambos os lados e servir com bouillon. Bouillon Cozinhar 1 kg e meio de costela de boi (retirar espuma com escumadeira) com um bouquet de salsão e salsinha amarrados com linha, uma cebola inteira cortada em quatro partes e sal. Deixar cozinhar por algum tempo. No final, retirar a costela, o bouquet e peneirar o caldo. Chucrute Colocar costelinha de porco para fritar. Adicionar o chucrute com um pouco de repolho cru, uma cebola picada, e pouca água para refogar. No final, jogar um pouco de farinha com água para engrossar.


Um de seus quadros de que a família mais gosta baseia-se em uma peça letã de teatro infantil. A autora é Anna Brigadere, a peça se chama Sprīdītis. O texto é muito popular na Letônia, apreciadíssimo por adultos e crianças. A personagem principal é um menino, um verdadeiro herói letão: um garoto de origem camponesa, trabalhador, honesto, com um coração enorme. A autora também usa figuras mitológicas para transmitir valores muito caros aos letões: a honestidade, a coragem, o amor à terra e à pátria, a valorização da natureza. Uma das netas de Arthurs, Sabina, também se inspirou Um dos vários quadros de Arthurs na peça de Anna Brigadere e no quadro do avô para fazer dois de seus muitos batiques. A inclinação às artes plásticas é um traço comum nos filhos de Ilse. A fotografia e a marcenaria eram outras atividades que Arthurs exercia com paixão. O gosto pela fotografia ele transmitiu à Ilse que, por sua vez, repassou-o a alguns dos filhos. A leitura era outro prazer, outro hábito que a família sempre cultivou e transferiu aos descendentes. As estantes da biblioteca da casa nova eram tomadas especialmente pelos grandes autores, os clássicos. Irma era uma grande e sábia leitora.

Minha avó tinha uma biblioteca fabulosa, lia russo perfeito, lia todos os grandes russos. Tinha também os alemães, ingleses, americanos, franceses. O que você pensar de top, tinha ali. Quando pequena eu queria ler, mas não passava da primeira página, era um sofrimento, eu dormia. Aos 14 anos, minha avó pegou um livro e me disse: “você vai ler Maupassant”. Ela soube pegar o filé mignon e eu comecei a ler muito. Ela me chamava e queria saber qual era a minha impressão sobre cada personagem e eu falava, falava com ela. Sabina

Jornais e revistas estavam sempre presentes. Ilse assinou durante anos o Ladies Home Journal, uma revista americana criada no final do século XIX que existe ainda hoje. A publicação trazia contos ilustrados, artigos sobre moda e outros assuntos mais voltados ao público feminino. A Saturday Evening Post, outra revista americana, também era comum na casa. Valdis a comprava com regularidade. Arthurs assinava a Life e a Time que eram lidas pela família toda. Os Jankauskis estavam sempre bem informados sobre o mundo. Recordando esse tempo, Ilse se ressente de que hoje a edição da Time mais facilmente encontrada no Brasil trata exclusivamente da América Latina. Considera essa segmentação empobrecedora, Ilse se manteve interessada no mundo, vibrante, querendo mais.

Naquela época a Time era sobre o mundo inteiro não era só sobre a América Latina. Eu tenho comprado, mas eu quero saber do mundo todo! Sobre nós, já se sabe tudo. Nós líamos e acompanhávamos o que acontecia no mundo todo.

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Revistas e jornais brasileiros da época, como O Cruzeiro, Manchete e O Estado de S. Paulo, também faziam parte do rol de leitura dos Jankauskis. Sobre as revistas, Ilse diz que não lhes interessavam. Ilse as achava fúteis, seus assuntos eram distantes do universo dela e da família. Mas o Estadão, que Ilse, o marido e os filhos continuam assinando e lendo ainda hoje, era obrigatório, especialmente aos domingos. Nos finais de semana, Ilse não perdia as matinês do cinema em São Caetano. Na sala de Vila Prudente o ingresso era mais caro. Ela e os irmãos iam a pé para a cidade vizinha. A mesada era curta. Economizavam a passagem de ônibus para pagar os ingressos e comprar as balas azedinhas que até hoje Ilse adora. A sessão era dupla, dois filmes diferentes, além do noticiário e de algum seriado. Entre um filme e outro, o intervalo, quando a criançada aproveitava para correr e brincar.

Mamãe dava uma mesadinha. Mesadinha certa. Íamos a pé até São Caetano, lá o ingresso era mais barato e mostravam dois filmes inteiros, além do noticiário e do seriado. Tudo por meia entrada. Como valia a pena, viu? Comprávamos balinhas azedinhas que eram baratinhas e ficávamos chupando e assistindo aqueles filmes. Ai que maravilha! Cinema era a diversão daquela época. Todas as crianças iam para as matinês. Cinema era a única coisa. Televisão ainda não havia. Além do cinema, só tinha o rádio, a música.

Dançar era outra alegria para Ilse. Mas não qualquer ritmo ou dança. Ela gostava mesmo das danças letãs, das quadrilhas e não do boogie-woogie ou do foxtrote, tão em voga naquele tempo. Na falta de quadrilhas, de vez em quando ia a algumas festas promovidas pelos amigos dos irmãos. Mas frustrava-se: 70

Ilse com traje típico da Letônia


Aquilo não era dança. Os caras apertavam você, era um esfrega-esfrega.

Quando as festas eram promovidas pelos amigos de Valdis da colônia letã no bairro do Campo Belo, Ilse gostava. Ainda que a música não a agradasse tanto, divertia-se. Os rapazes letões eram mais respeitosos, mais contidos, Ilse dançava muito. Essa alegria acabou quando Valdis saiu de São Paulo para estudar fora. Mas logo depois, veio o melhor: as festas organizadas pelas freiras do Colégio São Miguel Arcanjo, na Vila Zelina. Lá, Ilse se esbaldava. Aos domingos as freiras faziam um “mingau dançante”, onde entravam também as músicas típicas, as quadrilhas. Ilse e Maija adoravam.

Elas colocavam a música daquela quadrilha que aparece em “E o vento levou”, aquela que a Scarlet dança com o bacanão. Todo domingo nós íamos... Aparecia muita gente da nossa idade. A Maija também ia. Foi bacana o que as freiras fizeram. E elas também ensinaram umas músicas em inglês. Músicas americanas. Eram mesmo bacanas aquelas freiras.

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Alameda Glette, 463

O

s filhos de Irma e Arthurs seguiram os passos da família. Valdis – como a mãe – decidiu-se pela Agronomia, foi para a Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais. Juris cursou Engenharia florestal na Federal de Curitiba, Paraná, como anos antes, na Letônia, fizera seu tio paterno Volpis. Os rapazes mantiveram a tradição letã de proximidade com a natureza, com a terra. Era hora de Ilse e Maija escolherem seus caminhos. E as duas optaram pelo trajeto de Arthurs, a Química. Ilse, inicialmente, pretendia fazer História natural. Ela sempre foi uma observadora atenta e amorosa da natureza, da botânica, dos animais. Mas o campo de trabalho nessa área era incipiente, restrito. Aconselhada por Arthurs, decidiu-se pela Química. Prestou Engenharia química na Poli, como o pai havia sugerido. Mas não entrou. Hoje, pensando nisso, Ilse considera que não ter sido aprovada na Poli foi algo positivo. Não queria ser engenheira. Era a Química que a agradava. No mesmo ano, 1955, Ilse prestou vestibular para o curso de Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, hoje, o Instituto de Química. A faculdade de Química, dentre outras, funcionava na Alameda Glette 463, nos Campos Elísios, desde 1934. Ficava em um casarão imponente que originalmente pertencera a Jorge Street, médico e industrial, que havia falido em 1929. A faculdade de Química foi uma das últimas a sair do casarão e ser transferida para o campus da USP. Ficou na Glette até 1966. Com o deslocamento de todos os cursos o casarão veio abaixo. Atualmente é um estacionamento. Desse tempo restou apenas uma grande figueira que foi tombada pelo Condephaat em 1989. Um grupo de ex-alunos, não só da Química, mas também da Biologia, da Geologia, da História natural, organizou um blog para relembrar e celebrar os tempos da Glette.

Prédio da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, onde Ilse estudou

De um lado a Geologia, do outro a Química. No meio, o monumental casarão (...). Ali minhas paixões infantis se transformaram em paixões mais sérias (não quero dizer adultas). Ali me ensinaram a mudar o fascínio pelo conhecimento em reverência e envolvimento com a ciência. (...) Os prédios da Química eram na verdade dois, cada um com três andares. Eles eram de tal modo emendados que pareciam ser um só. Numa das alas o laboratório do primeiro ano e o magno anfiteatro em padrão alemão: plateia em enorme desnível e palco 73


atrás de uma mesa de laboratório, tudo planejado para que pudessem ser bem executados e visualizados experimentos demonstrativos. E acima de tudo uma indefectível luz vermelha sobre o lado externo da porta de entrada para, acesa, avisar que uma respeitável função, sim – função – e não uma mera aula, estava em curso. (...) Não me lembro exatamente o ano (...) eu tinha ido ver uma reprise de 2001 do Kubrick e descia a Glette quando vi o prédio em ruínas. Parei e tentei resgatar algo dentre aqueles calhaus. Só o que me pareceu digno foi a placa indicadora do endereço que ainda restava firmemente pregada ao muro (...) de lá saí com uma placa metálica parcialmente enferrujada, mas que ainda registrava na sua tinta azul e branca o número 463, a derradeira recordação concreta de um tempo e lugar importante para mim e para várias gerações de químicos deste país. Prof. Sérgio Massaro, Química, turma de 1964 http://www.figueiradaGlette.com.br

Um ano antes de entrar para FFCL da USP, Ilse havia feito o cursinho pré-vestibular Politécnico, onde Victor era professor. Foi lá que os dois se conheceram. Era 1954 e eles nunca mais se esqueceram daquele primeiro encontro. Mas a clássica história de amor entre aluna e professor só começou realmente três anos depois, quando se reencontraram no laboratório de química da Glette.

Eu fiz o cursinho da Politécnica e ele era um dos professores. Foi uma paixão. Os Deuses me jogaram um feitiço! Ascendente escorpião com escorpião, eram só olhares. Não precisava mais nada... Aquele jogo de olhos... Eu não me esqueci dele. Nem ele de mim.

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O pedido de Ilse

Q

uando Ilse e Victor se conheceram, ele namorava Anna, a ex-aluna particular, filha de italianos. Mesmo sentindo-se fortemente atraído por Ilse, mesmo intuindo que era correspondido, Victor não demonstrou com clareza seu encantamento, não deu nenhum sinal de maior interesse. Afinal, estava comprometido. Ilse, que não sabia do namoro e da correção de Victor, sentiu-se um tanto rejeitada. Pensava nele com constância, apanhava-se sonhando, fantasiando. Corajosa e inconformada, mais uma vez, foi à luta. Nessa época ela já cursava Química na FFCL e resolveu procurá-lo com a desculpa de conseguir indicações de alunos particulares. Não era exatamente uma desculpa, ela pretendia realmente lecionar, mas o essencial era encontrá-lo, conhecer e explorar melhor o terreno, saber se o que sentia era recíproco. Ou então desistir, convencer-se de que estava enganada, iludida. Aí eu pensei: pombas! Preciso acabar com esse negócio de Victor, preciso encontrá-lo mais uma vez. Eu sabia onde ele lecionava, um dia fui lá pedir aulas. Mas parece que ele ficou meio chateado comigo... Eu aparecer assim, sem avisar. Achei que estava incomodando... Fui embora, acabou! Para mim, acabou. Sou chorona, tive um ataque de choro. Estava chovendo forte, eu chorando e andando... Desci a Liberdade, tinha muito movimento, entrei numa travessinha que não tinha ninguém... Relâmpagos, trovões, a água caindo e eu chorando. Acabou, estou livre, não quero mais saber dele. Antes de procurar Victor e sair decepcionada do encontro, Ilse já havia tentado esquecê-lo. Paquerou e conquistou um outro rapaz. Chegaram a sair juntos, mas o flerte, como era de se esperar, não deslanchou. A principal qualidade que Ilse via no rapaz era ele ser estudante de Engenharia, e a garota queria porque queria casar-se com um politécnico. Começaram a encontrar-se nos finais de semana, iam aos cinemas do centro da cidade, como era habitual, passeavam, reuniam-se com outros amigos. Ilse esforçava-se para se apaixonar, para se encantar. Mas nada acontecia. Ela esperava que ele lhe dissesse coisas interessantes, que puxasse assuntos inteligentes, mas ele só dizia bobagens, tratava-a como uma menina tola, sem cultura, sem opinião. Ilse, falante e expansiva, foi ficando quieta, acabrunhada, não se animava a conversar. Ela tinha a expectativa de que ele fosse gentil, sedutor, que lhe oferecesse um doce, uma pipoca em seus passeios. Isso não ocorria, os passeios eram a seco.

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O rapaz tinha um carro, um calhambeque, como Ilse o define. Certa vez, sabe-se lá a razão, enquanto ele dirigia, ela se pegou prestando maior atenção às mãos dele. Foi a gota d’água: as unhas eram feias, o dedão era grande, desproporcional. O namoro, que nem havia começado, terminou.

Como é que se pega numa mão dessas? A gente começa pegando na mão, não é? Como eu ia pegar naquela mão? Quanto mais eu saía com ele, menos gostava. Coitado! A culpa não era dele. A culpada fui eu, escolhi por interesse, queria um engenheiro, como meu pai. E também, ele nunca me comprou uma pipoca, a gente passava tanto na frente dos pipoqueiros aos sábados, ele nunca se ofereceu para me comprar uma pipoca. E eu ia aceitar. Mas não falei nada... O sentimento não veio. Ao contrário, cada vez eu gostava menos dele. E aí foi o cúmulo, eu não quis mais saber dele... Se pelo menos ele tivesse uma conversa interessante... Porque Sagitário – como eu – é fogo, é só botar o fósforo que vai. Mas esse fósforo não apareceu. Apesar da frustração do namoro que não ocorreu, apesar da decepção do encontro com Victor, Ilse queria muito um namorado. O casamento, a família, os filhos faziam parte do que planejava para sua vida. Ela estava com vinte e três anos era bonita, inteligente, vivaz e sua vida amorosa continuava em branco. A família Jankauskis nunca foi religiosa. Hoje, Ilse declara-se pagã, politeísta. Crê nas forças da natureza e em vários deuses e deusas de várias galáxias. Mas ela confessa: naquela época, titubeou. A garota passava diariamente em frente a uma igreja católica perto da Estação da Luz. Era uma igreja pequena, pintada de branco, com as portas sempre abertas. Naquele dia fazia frio, apesar do sol, da tarde tão bonita. Ilse voltava para casa, sentia-se triste, desanimada, sem perspectivas de namoro, de amor. Ilse não resistiu, entrou e fez seu pedido.

Família Jankauskis em 1958, casamento de Ilse

Era quentinha, aconchegante, não tinha ninguém. Sentei sem nenhuma intenção, simplesmente me deu vontade de entrar. Eu era curiosa, queria ver tudo. E na minha cabeça, pedi um marido, pensei: vamos ver se funciona. E no meu pensamento, pedi a Deus. Não olhei para nenhum santo, Santo Antônio, nada. Pedi para me casar, ter família. E fui embora, esqueci. Mas olha, não demorou, eu comecei a namorar o papai, o Victor... Foram os Deuses, ele era o único que me servia, e eu ainda pedi na igreja católica... Tinha que ser, foi destino.

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Victor e Ilse

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De repente, chegou o papai, o Victor. Chegou e disse: vim te buscar! Assim: vim te buscar! Ilse

Estou no casarão antigo, histórico. Procuro alguém para perguntar de Ilse. Entro no laboratório e está lá a Ilse, sozinha. Aí começou, aí foi. Victor O namoro de Ilse e Victor foi breve. Menos de um ano. Em 1957 reencontraram-se no laboratório de química da Alameda Glette. Em 1958 se casaram. O tempo de namoro foi um tempo bom, de alegria, de encantamento. Ilse falava muito, expressava suas opiniões, soltava-se. Victor era um ouvinte interessado e concordante. Não havia razão para esperar. Os dois se amavam, se entendiam, tinham planos. Ilse conta:

Eu falava, ele só concordava e dizia: “Eu também penso assim, eu também sou assim.” Que homem inteligente! Igualzinho a mim, que maravilha! Aí foi rápido, casamos rápido. Foi assim. Foram os Deuses, Victor era o único que me servia.

Dia do casamento de Ilse e Victor

No ano em que se casaram Ilse cursava o último ano da faculdade de Química. Victor já tinha se estabilizado na profissão, estava muito bem financeiramente. Em 1956 havia escrito seu primeiro livro didático que foi adotado nos melhores cursinhos e colégios. Vendeu milhares de exemplares. Além disso, ele continuava lecionando no Brigadeiro, no Anglo, nos cursinhos da GV e da Poli, nos colégios São Luiz e Bandeirantes. Casal com Irma, Arturs e Maija Victor tinha um forte desejo, quase uma necessidade, de sentir-se seguro financeiramente. A infância e a juventude com tantos empecilhos e dificuldades geraram esse anseio no rapaz. Ele buscava tranquilidade econômica, buscava acumular bens, precisava disso para sentir-se tranquilo.

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Logo que começou a ganhar bem, iniciou a compra de imóveis. Na época em que se casou, já tinha um apartamento em Higienópolis, na Praça Buenos Aires e um terreno no Morumbi. Tinha um carro também, o que na época não era comum. Mesmo assim, continuava morando em uma pensão e alugava o apartamento da Praça Buenos Aires. Tudo para economizar. Ele conta: Tinha o apartamento e morava num quartinho perto do Bandeirantes... Por instinto de economia, para ficar rico. Eu queria ficar rico, rico de verdade. Eu tive uma vida difícil, por causa disso já é automática essa vontade de enriquecer. Ilse e Victor casaram-se apenas no civil. Autêntica e coerente, Ilse dispensou a cerimônia religiosa. Dispensou também o vestido branco, Festa do casamento, 1958 o véu, o formalismo que a época ditava. Victor concordou imediatamente com as decisões da noiva. Casaram-se na casa de Arthurs e Irma, na Vila Prudente e a recepção foi em um salão de festas. O casal era uma alegria só, as fotos mostram os noivos sorridentes, felizes. Para facilitar a vida de Ilse, Victor alugou um pequeno apartamento na Rua Pirineus, bem perto da faculdade. Ela ia e voltava a pé. Foi nessa época que a família começou a crescer. Ilse teve gêmeos, mas um dos bebês morreu ao nascer. Se o desejo do pai tivesse sido atendido, Vic teria se chamado Saladino, o herói curdo muçulmano que lutou contra os cruzados. Ilse discordou. Sutilmente convenceu o marido a chamá-lo de Victor.

O Vic era pra se chamar Saladino, um herói árabe. Meu pai queria Saladino. Minha mãe conta que pensou: “Meu Deus! Saladino? Ele vai ser chamado de salada.” E disse para papai: “por que não Victor, seu nome, que é tão lindo?” O Vic se salvou pela esperteza feminina de minha mãe. Yara

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Lua de mel de Ilse e Victor em Campos do Jord達o, 1958

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1. Casados , na casa de Irma 2. Ilse e Vic, no apartamento 3. Ilse com Vic, Juris, Maija e Irma, 1959

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Rua Afonso de Freitas

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om o nascimento de Vic e a formatura de Ilse, o casal decidiu sair da Rua Pirineus. Precisavam de um espaço maior. Victor pensou no apartamento de Higienópolis. Mas Ilse preferia uma casa. Queria um jardim, um quintal para o filho pequeno e para os filhos que viriam. Queria criá-los com liberdade. Sonhava com um jardim, um quintal. Encontraram a casa ideal entre os bairros Paraíso e Vila Mariana, na Rua Afonso de Freitas, 743, a mesma rua onde moram hoje. Ilse conta que a casa foi um achado. O bairro ainda não estava valorizado. A 23 de maio só seria inaugurada em 1967 e o metrô era apenas projeto. ApesardeVictorjáestarmuitobemfinanceiramente, o advogado que fez a intermediação ofereceu um financiamento pela Caixa Econômica. Na época, o Brasil não tinha inflação, pagaram o imóvel quase sem sentir. Mesmo assim, Victor achou o valor da casa um pouco acima do que pretendia. Sempre pensando no futuro, querendo poupar, tentou fazer com que Ilse desistisse da escolha. Em vão. Ela manteve-se firme, era a casa que precisavam: três quartos, duas salas, uma boa cozinha e, embora pequenos, um jardim e um quintal.

Victor com Vic e Sabina na praia, 1961

A família morou no número 743 da Afonso de Freitas de 1959 a 1967. Nesse período, tiveram mais quatro filhas. Um ano depois de Vic, em 1959, Ilse teve trigêmeas, mas apenas uma das crianças sobreviveu: Sabina. Vic comenta:

Ela teve cinco filhos em 14 meses, o que deve ter sido um recorde para a época.

Logo depois, em 1960, vem Samara; em 1963, Iracema e em 1965, Yara. Dois anos mais tarde, em 1967, já na casa grande, no número 695 da mesma

Picnic da família na praia, 1961

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Afonso de Freitas, veio a caçula: Isabel. Diz o folclore familiar que Victor queria que viesse outro menino para fazer companhia a Vic. Não veio, Vic reinou sozinho entre cinco irmãs. Diz Victor:

Se fosse só uma menina, eu também quereria mais uma menina. Eu achava que um só homem não teria referencial. Eu gostava imensamente de ter filhos, queria mais. Não tinha limite para mim.

Sabina, Samara e Vic no quintal de casa, 1961

Por volta de 1962, Victor sentia-se um tanto acomodado, estagnado profissionalmente. Apesar do sucesso dos livros, apesar das muitas aulas em colégios e cursinhos, pretendia mais. Ele diz ainda hoje:

Professor é um repetidor. Pode dourar a pílula, mas é um repetidor.

Era tempo de buscar novos caminhos, de renovar-se, dedicar-se à pesquisa, atividade que o estimulava muito. Pressentia que os tempos de professor de cursinho e colégio estavam se esgotando. Percebia a necessidade de se destacar entre outros professores autores de livros didáticos de Química. Sentia que precisava de um diferencial, de algo que o distinguisse ainda mais. Justamente nessa fase, recebeu um convite para ser professor da Politécnica. O salário era cinco vezes menor, mas Victor relata que enfrentou o desafio. Voltou à Poli, não mais como aluno ou professor do cursinho da Poli, e sim, como catedrático.

Casal com os três mais velhos, 1962

Professor não adota livro de outro que ele acha que não merece. Eu precisava adquirir prestígio. Peguei a Politécnica, passei a ganhar cinco vezes menos Os cursinhos naquela época pagavam uma fortuna. Eu tinha 160 alunos na sala do Brigadeiro. Na Politécnica peguei a vaga para ser professor em tempo integral. Aí, nos livros, aparecia: professor da Poli. Por tabela, em 1963, os livros começaram a deslanchar mais ainda. 84


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C4F12 não está no Cd

1. Samara, Sabina e Vic, 1962 2. Sabina, Samara e Vic, 1964 3. Vic, Iracema, Samara e Sabina em casa, 1964 4. Sabina, Samara e Iracema em casa, 1964 5. Sabina com Yara, 1966 6. Primeira comunhão de Vic e Sabina, 1964

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Dois milhões de exemplares vendidos

V

ictor diz que Iracema, a quarta filha, nascida em 1963, lhe trouxe sorte. Nesse ano, com a chancela do título de professor da Politécnica, os livros foram adotados pelo país afora. Era um tempo em que as faculdades se multiplicavam.

Os livros de Victor mudaram os caminhos do ensino de Química no país. Foram milhões de exemplares vendidos dos dez títulos que havia escrito. Ilse o incentivou e o ajudou desde o início. Aliás, a ideia de que Victor escrevesse não apenas sobre Química orgânica foi dela. Ela também o apoiava e dava o suporte doméstico necessário para que ele crescesse mais e mais. Além disso, o auxiliava na própria feitura dos livros, datilografando diretamente nas placas de off set, desenhando as fórmulas e dando sugestões para melhoria do texto. Ilse relembra:

Ele já tinha a Química orgânica. Conseguiu mais aulas, de Matemática e de Química inorgânica. Como tinha que preparar as aulas, eu incentivei: por que você não escreve sobre Química geral? Não tinha um livro bom, ele ia fazer um. Aí ele começou. Ele escrevia preparando as aulas. Escreveu sobre toda a Química. E vendemos muitos livros. A gente comprava uma casa por ano.

Victor e Ilse

Victor era seu próprio editor e terceirizava todo o processo. Contratava uma pessoa para criar as capas e fazer a diagramação, negociava com a gráfica, fazia as revisões, comprava o papel, supervisionava a impressão, fixava o preço. A distribuição para todo o país ficava por conta de duas grandes distribuidoras: Nobel e Disal. O volume de exemplares era tanto que Victor alugou um espaço também na Rua Afonso de Freitas onde estocava os milhares de livros. A garagem da casa também vivia cheia de pilhas de livros. Pensando nesse período, Victor se reconhece mais uma vez como um verdadeiro herdeiro de seus ancestrais fenícios. E se orgulha dessa ancestralidade. Naqueles anos seu forte tino comercial e sua tendência para negociar o levaram adiante. Isso, claro, além da capacidade, do conhecimento e da persistência para produzir o que produziu. 87


Eu revolucionei a pedagogia de ensino da Química. Especialmente a Química orgânica que é difícil de memorizar. Criei uma sistemática que facilitou muito a memorização. Brinco sempre com a Iracema que meus livros começaram a decolar de verdade quando ela nasceu: 1963. E foi assim até 1969, 1970. Eu era o químico mais popular do Brasil, mais famoso do Brasil. Quando os filhos relembram esse tempo, rememoram principalmente do pai pedindo silêncio para se concentrar e escrever: lembram da voz severa que causava temor e das punições que geralmente terminavam em risos. Você não sabe como é a voz do meu pai quando ele grita ou fica bravo! Quando a gente fazia muito Capa de um dos livros de Victor, 1961 barulho, às vezes ele gritava. Nossa Senhora, todo mundo falava “aaaaiiiii”. Algumas vezes ele gritava e ninguém dava bola, quando ele gritava pela segunda vez e ninguém ficava quieto, ele descia do escritório, punha a gente um do lado outro e dava coque na nossa cabeça. Era doído aquele coque do meu pai, era bem doído. Ele é terrível, bravo, tem aquela cara, o olho, aquele vozeirão. E aquele jeito duro dele, aquele andar de boi. Ele era muito aguerrido. Era doído, mas era ele virar que a gente já estava rolando de dar risada. Mas rindo baixo! Uma vez, alguém deixou escapar o riso e ele já estava de costas. Meu pai tinha uma alma boa. Porque mesmo de costas, ele viu que alguém riu. Então, ele deve ter pensado: “acho que isso já deu um sossega leão nessa turma”. Sabina

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Tênis e xadrez Durante os anos em que lecionou na Poli, Victor teve uma vida mais pausada, já não precisava correr a cidade para dar suas 80 aulas semanais. Seus livros já obtinham enorme sucesso, ele só precisava atualizálos anualmente. Assim, pôde dedicar-se ao esporte de que tanto gostava, o tênis. Treinou muito nos primeiros anos e, em 1965, tornou-se campeão estadual na quarta classe pelo Clube Sírio. Optou pelo Sírio como forma de retribuir a gentileza que recebeu do Clube no início dos anos 1950, quando ainda era estudante e foi admitido na agremiação sem o pagamento da joia. Victor explica: Sabe o que é entrar sem joia? Você entra sem pagar o título, só pagando as mensalidades. Eu fiquei sócio não para jogar tênis, mas para dançar aos domingos com as filhas dos libaneses. Não tive sucesso nenhum, não consegui nenhuma namorada. As moças me apresentavam ao pai, e o pai perguntava: “quem é a tua família?”. Iam lá saber quem era a família Nehmi!?

O título de campeão de tênis que Victor conquistou em 1965 foi o primeiro do clube Sírio. A comemoração durou meses. Victor continuou jogando pela vida toda. Ainda hoje, aos 85 anos, vai todos os dias ao clube Pinheiros encontrar os amigos de 40 anos atrás, passear, praticar xadrez e, vez por outra, tênis. Entre os dois, prefere o tênis. O xadrez, diz ele, não é um jogo saudável. Além de ter que ficar horas sentado, praticamente imóvel, é um jogo que não comporta sociabilidade, exige silêncio e concentração. Se pudesse optaria sempre pelo tênis. Mas com o passar do tempo e os atuais problemas de visão teve que deixá-lo um pouco de lado. Com certo pesar, mas rindo, Victor se define hoje como um “perna de pau”. Ao mesmo tempo, mostra com orgulho o diploma de campeão conquistado há 45 anos.

Victor tentou, fez de tudo, comprou uniformes, raquetes, bolas. Mandou construir uma meia-quadra, um paredão no quintal da casa grande. Não houve jeito. Ainda que alguns dos filhos tenham tentado, nenhum deles o seguiu na paixão pelo tênis. Já Ilse gostava de jogar tênis. Treinou no quintal, leu sobre o esporte, instruiu-se e resolveu enfrentar a quadra do Sírio tendo Victor como adversário. Mas, como quase sempre acontece, casal disputando o que quer que seja, mesmo um simples jogo de tênis, não dá certo. Pegou-se pouco ou nada competitiva, e com dificuldade para um belo saque. Desistiu, não sem pena, mas desistiu. “Não era para ser”, como ela mesma diz. Já o xadrez, fez história entre os netos. Lembro-me das tardes que passava na casa do meu avô, jogando xadrez com ele, como um mestre e um aprendiz. Aprendi diversos lances, aberturas e, principalmente, aprendi a pensar... Sempre tive muito orgulho do vovô. Lembro-me de quando ele me deu algumas de suas medalhas conquistadas no xadrez e no tênis, o que me deixou muito feliz. Eu as coloquei penduradas no meu quarto. Mais tarde, aos 13 anos, passei a participar de torneios de xadrez no Colégio Bandeirantes e conquistei minhas próprias medalhas. Artur (neto de Ilse e Victor, filho de Vic e Izabel) 89


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Lembranças da casa grande

Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo. Adélia Prado, Impressionista, em Poesia reunida, Editora Siciliano, 2001.

Em 1967, quando estava grávida de Isabel, sua sexta e última filha, Ilse achou que a família merecia uma casa maior. Victor estava muito bem, ganhava muito dinheiro com os livros. A cada ano comprava um novo imóvel para renda ou um novo terreno. Por que não investir em uma casa mais apropriada à família, às crianças?

Vic, Yara, Samara, Iracema e Sabina na casa grande, 1968

Bem perto de onde moravam, na mesma rua, um pouco mais acima, no número 695, havia uma casa que Ilse sempre namorou. Era grande, tinha um jardim bem maior, um quintal muito amplo. O estilo da casa também a cativava. Ilse soube que a casa estava à venda. Não perdeu tempo, conversou com Victor que relutou no início, mas falou com a proprietária. Logo fecharam negócio. A proprietária exigia que o pagamento fosse à vista, Victor concordou. Ilse exultou. Especialmente pelo quintal enorme, onde pôde plantar outras árvores além das já plantadas, onde havia muito espaço para a filharada brincar e crescer com liberdade. Ela conta: Samara, Vic, Yara, Iracema e Sabina em casa, 1968

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Fiquei sabendo pela zeladora de um predinho que aquela casa que parecia um castelinho, com aquele quintal enorme, que eu namorava dando volta no quarteirão, estava para vender. Victor não queria se desfazer de todo o dinheiro e perguntou se eu queria mesmo. Eu disse que fazia questão. E ele comprou. Para as crianças e todos nós, foi tudo muito gostoso.

A educação das crianças e a organização da casa sempre foram terrenos de Ilse. Victor pouco parava. Os filhos se lembram do pai nessa época trabalhando, dando suas aulas, participando de congressos, escrevendo livros ou no clube, jogando tênis. O pai era exigente quanto ao desempenho escolar, mas pouco acompanhou os estudos dos filhos. Todos foram ótimos alunos e se recordam que durante as refeições o Heródoto de Pitangueiras treinava as crianças em História e Geografia. Na parede da sala de jantar havia um mapa-múndi e o pai, brincando, fazia as perguntas: “que país é aquele? Qual a capital desse país? O que está ao norte do Egito?”.

Irmãos brincando na casa grande, 1968

No comando da casa, Ilse teve uma maneira singular de educar seus filhos. Fundada no estilo da educação que tivera, diferenciava-se bastante do comum da classe média brasileira. Liberdade era essencial. Assim como respeito ao próximo, solidariedade, simplicidade. Nada de consumismo, tampouco vaidade exacerbada ou fricotes. Os filhos de Ilse e Victor se lembram desses primeiros anos na casa grande como um período muito feliz. A casa vivia cheia. Além dos seis filhos, as crianças da vizinhança estavam sempre por lá. Vic em casa, 1968 O quintal era o espaço da meninada, lá faziam o que desejavam. Ilse não se importava com a bagunça, com a folia, com a sujeira, com as brincadeiras na terra. Mesmo dentro de casa, nunca impôs normas excessivamente rigorosas, repressões ou proibições. O importante era que os filhos fossem educados, responsáveis, que fossem bem na escola e estivessem bem de saúde. O resto era brincadeira, diversão.

Minha mãe criou a gente de forma livre. Tinha os filhos em volta dela, estava ali para dar o que fosse necessário, mantinha o padrão de segurança, mas éramos crianças completamente soltas, tínhamos liberdade... Acho isso muito bom. Não tinha nem padrão de roupa, a gente andava com roupinha velha, rasgadinha, estava todo mundo sempre sujo, brincando. E não era por falta de condições, eram os valores dela, de que a vida é isso: deixar a gente se desenvolver do jeito que fosse. Yara 92


Dentre as muitas brincadeiras, os patins, bicicletas e patinetes eram constantes. Ilse sempre gostou de patins, quis ter os seus quando ainda morava na Letônia e também depois, na Alemanha. Nunca pôde, mas seus filhos, sim. Com cinco meninas em casa, bonecas não faltavam. Não foram muitas, as filhas se lembram de no máximo duas durante a infância. Não era preciso mais. Os brinquedos deviam durar. E duravam. O regime era de contenção, nada de desperdícios. Às vezes, os presentes de Ilse surpreendiam. Yara jamais se esqueceu de seu kart.

Eu sei que em um momento da casa, tínhamos duas bicicletas e dois patinetes. O meu era o patinete menor. As pequenas usavam patins. Todo mundo tinha como andar sobre rodas. Teve uma fase que a gente patinou naquela casa barbaramente. Iracema

Lembro de ter ganhado uma boneca grande. Não era essa coisa de hoje em dia de ganhar tantos brinquedos. Depois ganhei uma Susi também, quando já era um pouco maiorzinha. Eu, a Iracema e a Isabel. Quando minha mãe dava um presente era igual para todo mundo. Os brinquedos que ganhei me marcaram, foram poucos, nunca vou esquecer, ganhei um kart de aniversário. Eu tinha uns cinco anos, me senti um pouco masculina. Eu já tinha muito complexo de feiúra, me sentia feia, feia, feia. E minha mãe ainda me deu esse kart. Pra mim foi uma surpresa. Todo mundo tinha um tico-tico, eu tinha um kart. Na época lembro que gostei, mas pensei: “eu pareço mais um menino, não é?”.

Yara, Isabel, Samara e Iracema em casa, 1969

Irmãs brincando em casa, 1969

Yara

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Moda não fazia parte das preocupações de Ilse. Nem dos filhos. As roupas iam passando de filha para filha e eram compradas na feira do bairro ou no máximo na Sears, quando não eram feitas pela própria Ilse. O mais importante era que fossem resistentes, feitas para durar. Os presentes eram poucos: só no Natal e nos aniversários. Cabeleireiros eram dispensáveis, Ilse cortava os cabelos das filhas. Eficiente, nada dada a luxos ou firulas, ela enfileirava as meninas e, de uma só vez fazia um corte Chanel com franjinha. Cortava os cabelos bem curtos para que os cortes durassem mais tempo.

Ah, os cortes de cabelo. Era ela quem cortava. A gente detestava, minha mãe era prática, era franja e chanelzinho. Curtinho porque ela não ia ficar cortando todo mês. Então, a franjinha era aqui, no meio da testa, e o Chanel aqui, no meio da orelha. Sabina

Em época de festas juninas, a alegria era geral. As meninas ganhavam lindos vestidos feitos por Ilse e podiam usá-los sempre que quisessem e não apenas no dia da festa. As bandeirinhas e outros enfeites eram feitos pelas próprias crianças. A praticidade de Ilse era tanta que os aniversários de Iracema e Yara eram comemorados de uma só vez em plena festa junina. Iracema é de 14 de junho, Yara, de 15 de agosto.

Minha mãe gostava muito de festa junina, festa caipira, músicas caipiras. A Yara é de 15 de agosto, eu sou de 14 de junho e ela fazia uma festa junina para o aniversário das duas. Ela fazia umas roupas caipiras maravilhosas, lindas. Eram rodadas, com saiotes, era o nosso momento princesa. Também tinha as bombinhas. As bandeirinhas nós que fazíamos. E minha mãe fazia aquele bolo maravilhoso. Iracema

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Sabina, Samara, Iracema e Yara com trajes caipiras, 1969

Todas as irmãs em casa, 1969


Outra particularidade da família: cada filho tinha seu álbum de fotografias. Seguindo os passos do pai Arthurs, Ilse tirava inúmeras fotos dos filhos, mas não fazia os álbuns. Eram eles mesmos quem os faziam sentados ao redor da mesa, sob os olhos da mãe. Ainda hoje todos têm seus álbuns e os mostram felizes. Das muitas imagens, chama a atenção as das meninas com tiaras de flores ou flores atrás das orelhas. Ilse reviveu nas filhas o costume das guirlandas de flores de Ligatne e dos trajes típicos letões. Estilizadas, é certo. Além das guirlandas ou tiaras, Ilse trouxe outro hábito, outra brincadeira de sua infância para a de seus filhos. Na casa grande, sempre havia papel e lápis coloridos à vontade para que a meninada pudesse desenhar a qualquer hora, em qualquer lugar. Outras vezes, a mãe surpreendia os filhos inventando novos passatempos.

A gente tem muitas fotos com flores na cabeça. Você sabe que no traje típico letão tem uma coroa de flores? E este é o quintal da casa. Todo mundo sujinho. Era um lugar como o Sítio do Pica Pau Amarelo. Yara

A minha mãe tinha essas coisas, de repente ela aparecia com um monte de potinhos de miçangas, agulhas, fios de nylon e nós sentávamos e passávamos o dia fazendo colarzinhos. Ela ensinava. Eu já tinha uns oito anos, a Sabina uns 12, já dava para se virar. Ela dava uma ensinadinha, colocava tudo num plástico ou num pano ali no quintal... E também a gente sempre teve papel e lápis de cor à disposição. Para pintar, desenhar.

Isabel, Samara e Yara em casa, 1969

Iracema

Era no quintal que a meninada passava a maior parte do tempo, quase sempre rodeada dos muitos amigos da vizinhança. Além das árvores, plantas e flores que já existiam quando mudaram para lá, Ilse e os filhos plantaram outras. As jabuticabeiras, que eram três, passaram a ser dos filhos mais velhos: Vic, Sabina e Samara. A de Vic era a maior, a mais frondosa, e o menino,

Iracema e Yara em casa, 1969

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muito inventivo e habilidoso, construiu uma casa na copa da árvore. Havia ainda uma goiabeira, esta ficou para Iracema. Yara e Isabel não tinham árvores próprias, eram as caçulas. As meninas mais novas contam que tinham uma vontade louca de subir nas jabuticabeiras, especialmente na de Vic, a maior, a que tinha a casinha lá em cima. Eram muito pequenas, não conseguiam. Para consolá-las, a mãe pôs uma grande rede entre a jabuticabeira mais cobiçada e a de Sabina. Yara, falando sobre essa época, conta que na imaginação dela e das irmãs a rede virou um imenso navio do qual nunca mais se esqueceu:

Pra mim era uma rede imensa, muito maior do que as de hoje. A gente navegava todas juntas ali, eram altas tempestades!

Histórica: a família reunida, 1970

Animais e aves também frequentaram o espaço. Vic e o jardineiro, seu Manoel, cuidavam das plantas, da horta e das criações. Ilse, sempre muito ligada à natureza, incentivava o filho nessas atividades. No jardim, havia um tanquinho com peixes; no quintal, um antigo galinheiro que se transformou em viveiro de pássaros. Vira e mexe, passeava por lá um cão vira-lata. Vez por outra, apareciam outros animais e aves que eram trazidos por Vic de seus acampamentos ou viagens dos tempos de escoteiro. O menino sempre voltava com alguma novidade. Às vezes, coelhos; às vezes, tartarugas ou gansos. Até uma raposinha ele trouxe, mas esta ficou na casa de vovó Irma.

Teve também a fase dos gansos. Gansos são animais meio bravos. A confusão da história é que a gente não podia mais sair de dentro de casa, não podia ir para o quintal. A gente ficava dentro de casa, porque se saísse eles vinham atrás. E nós 96

As irmãs em casa, 1970


éramos pequenos, o ganso pegava no nosso bumbum. Dava medo. Ele vinha atrás pra bicar a gente. Minha mãe teve que se desfazer dos gansos. Iracema

O quintal tinha também uma meia quadra de tênis que pouco ou nada foi usada. Virou quadra de vôlei, palco de pega-pega, esconde-esconde, estátua, queimada e ainda local de banho de balde. A filharada não gostava do esporte tão valorizado por Victor. Se os meninos tivessem sido ouvidos, nesse espaço teria sido feita uma piscina.

Todo mundo queria uma piscina. Foi feita uma votação, deu 7 x 1 para a piscina, mas ele construiu uma quadra de tênis, ele queria a quadra de tênis. E ninguém jogava tênis, a gente jogava vôlei. Ele pintou tudo e a gente ficava jogando vôlei. E a gente tomava banho de sol no espaço que seria da piscina, na ex-piscina, na piscina que não teve... Vic

O incentivo e o valor ao trabalho que Ilse transmitiu aos filhos são outras reminiscências. Quando chegava o momento da limpeza da estante, as crianças mais velhas entravam em ação. Tiravam o pó, limpavam, passavam lustra-móveis nas capas dos livros e ganhavam um dinheirinho por isso. A manutenção e organização dos depósitos de livros do pai – tanto o da garagem, quanto o do prédio próximo – também contavam com a colaboração dos filhos mais velhos que assim, engordavam suas mesadas.

As mais novas indo para a escola, 1970

Família toda reunida, 1972

Vic foi além, ao contrário dos colegas que tinham preconceito contra trabalhar em serviços domésticos ou fazer negócios com outros garotos, ele se encarregava da lavagem do carro do pai e do corte da grama. Para aumentar suas fontes de renda, também oferecia seus serviços aos vizinhos. Pouco mais tarde, Vic ainda foi DJ. Ele e alguns amigos faziam o som e a luz das festas de colegas e amigos. Eram também responsáveis pelo “bar”. Vendiam refrigerantes e cuba-libres , a bebida do momento.

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Além disso, muito competente na feitura de pipas, fazia as suas e algumas a mais, que vendia na feira do bairro, onde vendia também as orquídeas que trazia da casa de vovó Irma. Até hoje Vic continua amando e cuidando de suas orquídeas e está certo de que todas essas atividades infantis e juvenis ligadas a terra e ao trabalho o influenciaram na escolha da profissão: Agronomia, e o aperfeiçoaram em sua habilidade comercial na vida adulta.

Trabalhar não era vergonhoso. Na cultura latina trabalhar é. Só trabalha quem é pobre, quem precisa. Para nós, não. Minha mãe sempre foi trabalhadeira... Ela tinha um sistema de pagar por trabalho, ajudávamos em casa. Eu vivia arrumando coisa para fazer para ganhar um trocadinho, a gente sempre recebeu a menor mesada do quarteirão. Eu lavava o carro do meu pai, ajudava a cortar a grama, limpava os livros, datilografava os livros do meu pai, vendia pipa na feira. Eu empinava pipa como todo mundo, como era um bairro rico, muitos meninos não queriam fazer a pipa, queriam comprar. Amigo não compra de amigo, então eu levava aquelas sacolas de lona cheias de pipas e ia oferecendo para os moleques que estavam na feira. Quando ia visitar a minha avó, eu pedia as orquídeas grandes, as antigas. Picava, plantava e vendia na feira também...

Irmãos lavando o carro, 1972

Vic

Livros a gente tinha muitos. A minha mãe era prática, pagava para gente limpar as estantes. Lembro que eu não limpava, nunca ganhei um tostão. A minha mãe dava uma 98

Isabel e Vic com as orquídeas em casa, 1970


estante para cada um limpar e pagava um dinheirinho. Eram umas cinco estantes grandes. Mas eu tinha pavor de barata. As minhas irmãs tinham de taturanas, eu não. Uma vez eu tirei uns livros e pulou uma barata... Joguei os livros e nunca mais voltei. Só ficava vendo as minhas irmãs limparem, mas pra mim, nem pagando. Sabina Os filhos geralmente não ajudavam na rotina da casa, na cozinha. Era Ilse quem cozinhava. Mas quando o cardápio era charutinho de folha de uva ou americano, as meninas entravam na dança. Americano, assim como outros sanduíches, era raro. Mas houve um tempo em que o jantar de toda sexta-feira era americano. Era um ritual e uma linha de produção, como conta Iracema. Também na alimentação dos filhos, a conduta de Ilse era diferente da maioria das mães brasileiras. Ela não forçava as crianças a comer. Sabia que se tivessem fome, comeriam.

Ela fazia charuto de folha de uva. Chamava todas as crianças pra enrolar os charutinhos. Ela usava aqueles caldeirões cheios pra alimentar toda aquela galera. É difícil explicar, mas tinha um clima domiciliar que eles realmente falavam poucas coisas que a gente tinha ou não tinha que fazer. Mesmo para comer... Outro dia perguntei para minha mãe o que fazer, o Tales não queria comer. Ela respondeu: “olha, eu sempre tive pão e banana à vontade pra quem não comeu e tivesse fome depois. Sempre tinha lá”. E era assim mesmo. Eles não ficavam no pé. Era a tal da liberdade. Iracema

Vic, que acompanhava a mãe à feira semanal para puxar o carrinho e vender suas pipas e orquídeas, se lembra que Ilse experimentava tudo e variava as compras a cada semana. Assim, o cardápio era sempre muito diverso, a família consumia todos os tipos de frutas, verduras, miúdos, pescados, queijos e carnes, o que certamente fez com que hoje todos gostem e experimentem os mais diferentes tipos de comida. As lembranças da escolha dos alimentos nas feiras e da alquimia de ingredientes que Ilse praticava, mantêm-se vivas na memória de Vic, foram experiências que ele apreendeu, cultivou e exercita. Até hoje, meu maior prazer durante os fins de semana e viagens, é comprar e experimentar comidas nos mercados locais. Minha mãe também sempre foi de cozinhar com base na intuição, ou seja, não seguia receitas e gostava de inventar pratos. Esse traço de culinária também me foi passado, tanto é que hoje eu gosto de cozinhar nos finais de semana, porém, sempre inventando pratos com base nos ingredientes que me chamaram a atenção no mercado. Vic

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Férias e Natais

I

lse e Victor tinham pouca vida social. Na casa, os amigos eram sempre os das crianças. As lembranças de passeios são das férias. Ilse e a filharada iam algumas vezes para a praia e outras vezes para uma fazenda em Sumaré, cujos proprietários eram letões e mantinham as tradições, os costumes do país. Victor não ficava por lá. Levava a família em seu LTD azul e voltava para São Paulo para reassumir o trabalho.

Era uma fazenda de letões em Sumaré, fez parte da nossa infância, alugavam quartos. Alguns letões estão concentrados em Sumaré e Americana, até hoje tem festas anuais de cultura letã. Íamos no Landau do meu pai. Na época, era como se passasse um Rolls Royce, aqueles de Hollywood... Meu pai se divertia com aquilo. Era azul celeste e o capô, preto. Uma banheira. Eu passava mal naquele carro, ele balançava atrás e eu lembro que ninguém queria sentar do meu lado, dava briga. Íamos os seis filhos. Meu pai levava a gente, mas não ficava... Para a praia também. Ele voltava para trabalhar nos livros e depois ia pegar de volta. Ficávamos minha mãe e os seis filhos. Sempre assim em lugares soltos, com bastante liberdade. E nós não tínhamos medo de nada. Samara

A memória dos Natais de antigamente vem carregados de emoção e trazem à tona a lembrança dos hábitos dos ascendentes. A tradição letã era revivida em Vila Prudente, na noite do dia 24 de dezembro. Na sala, a árvore de Natal era sempre um grande pinheiro natural enfeitado e iluminado com velas. A trilha sonora era de músicas europeias natalinas. Na mesa, as deliciosas comidas típicas letãs de vovó Irma. Papai Noel sempre aparecia por lá. O papel do velhinho, inicialmente, era de Juris. Mais tarde passou a ser de Vic que o interpretou por muitos anos. Papai Noel batia à porta, era recebido com alegria, entrava, perguntava às crianças como haviam se comportado durante o ano, como tinham ido na escola e distribuía os presentes. Poucos presentes, nada de exagero. Todos os anos, Irma presenteava seus netos com as meias de lã que tricotava para eles. Algumas dessas meias estão bem guardadas até hoje. Enquanto Irma estava viva, a tradição se manteve. Os bisnetos mais velhos também ganharam suas meias natalinas.

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1. Iracema, férias em Resende em Julho de 1972 2. Maija, sobrinhas (Samara, Sabina, Iracema, Isabel e Yara) e Victor em Resende em Julho de 1972 3. Filhos de Ilse e Victor em férias no sítio dos Ávots em Nova Odessa em Julho de 1974. 4. Filhos de Ilse e Victor em férias no sítio dos Ávots em Nova Odessa, em Julho de 1973. 5. Yara, Isabel, Iracema, Sabina e Samara em Sumaré em Julho de 1974.

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1. Fテゥrias no sテュtio dos テ」ots em Nova Odessa em Julho de 1973. 2. Yara, Iracema, Isabel, Samara e Sabina em Itatiaia, 1974

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1. Natal na casa de Irma, 1976 2. Natal na casa de Irma, 1976 3. Natal na casa de Irma, 1976 4. FĂŠrias em Resende, 1976 5. Apartamento de Maija, 1976 6. Yara, Isabel, Sabina e Samara em Penedo, 1976

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A imagem que a gente tem é muito bonita. Ela nunca fez uma árvore artificial. Isso seria um pecado. Só pinheiro... E as velas acesas na árvore. O costume era pegar um galhinho antes da família sentar à mesa, acendê-lo e acender as velas. O galho queimava e o cheirinho se espalhava pela casa. Era lindo. O Natal para os europeus é um momento de reunião, de festividade. A minha avó tinha muito isso. Era um momento que ela queria a família reunida. E as músicas... A gente cantava. Eram músicas do tipo Adeste Fideles, músicas europeias de Natal; Todo mundo cantava. Samara

Durante todo o tempo em que os Jankauskis moraram na Rua General Bagnuolo, os Verners, vizinhos e amigos de Irma e Arthurs, também letões, participavam das comemorações do Natal. O casal não tinha filhos, morava praticamente em frente aos Jankauskis em uma casa no mesmo estilo letão. Ainda hoje os Verners são lembrados com carinho pelos netos de Irma. O almoço do dia 25 de dezembro acontecia em outro cenário, na casa do avô paterno. Jorge e Suréia moravam perto da família de Ilse e Victor. No mesmo bairro, na Rua Cubatão. Não se viam com muita constância, mas o almoço de Natal era sagrado. A mesa de almoço, a cada ano, surpreendia. Era farta, abundante, como convém a uma família libanesa. A variedade e a qualidade dos pratos davam água na boca. Na casa de vovô Jorge não havia papai Noel batendo à porta, mas o próprio vovô, sem perguntar se os meninos haviam obedecido aos pais durante o ano ou tirado boas notas, dava de presente a cada neto um envelope com dinheiro. No sobrescrito, sua caligrafia desenhada é relembrada até hoje. O ritual se manteve sempre e é rememorado com emoção, com alegria.

Eles davam um almoço de Babette... Comidas árabes e brasileiras. O que você quisesse: carnes, arroz, um creme de palmito que eu nunca mais vi na minha vida. O que aquela mulher cozinhava! Carnes, bolos, fios de ovos. E também quibe, esfiha. Muita coisa meu avô trazia da 25 de março. Você olhava a mesa, era um negócio de louco. Meu avô era muito exagerado. E até a última vez que eu o vi, ele sempre chiquérrimo, com abotoaduras de ouro... Ele me adorava e minha mãe fala que eu puxei esse meu avô. Por exemplo, eu tinha uma letra muito bonita e ele é famoso na família pela letra bonita. O meu pai tem esse negócio de no Natal dar para os netos um envelope com dinheiro. Era meu avô que fazia isso, mas no envelope o nosso nome vinha com aquela caligrafia maravilhosa. Sabina

A gente conviveu muito pouco com o vovô Jorge. Lembro dele comendo bastante, naquela mesa farta. E o mais importante: os envelopinhos com aquela letra linda, de convite de casamento. A gente ia lá uma vez por ano, no Natal, e aí tinha o envelopinho de cada um. Iracema

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1. Natal na casa de Irma, 1977 2. Natal na casa de Irma, 1976 3. Natal na casa do vov么 Jorge, 1980 4. Papai Noel Vic presenteando Irma, 1980 5. Natal com os primos menores ao centro Cinthya e Juris, 1980 6. Natal na casa de Irma, 1977

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O reconhecimento internacional

E

m 1967, depois de cinco anos dando aulas e fazendo pesquisas no departamento de Química da Politécnica, Victor viu-se em uma situação delicada. A competitividade era muita. O sucesso de seus livros e sua reconhecida produção científica acirravam a inveja, a disputa por poder. Desgostoso com esse ambiente hostil, transferiu-se para o departamento de Física. Apesar das adversidades, o entusiasmo e a garra de Victor pelo trabalho e pela pesquisa não foram abalados. Mantinha sua vocação para o conhecimento e seu desejo de explorar novas áreas. Logo que se transferiu para a Física, o prof. José Goldenberg foi eleito chefe do departamento. Partiu dele o convite para que Victor se dedicasse à pesquisa e ao estudo sobre Carbono 14. Dois anos depois, em 1969, ele partia para a Universidade de Yale para especializar-se no tema, ficou lá durante cinco meses.

Victor dando aula no Curso Anglo, 1957

Eu entrei na Física em 1967. O Goldenberg também. Demonstrei muita vontade de aprender. Ele é um homem muito simples, humilde. Apesar de não ser engenheiro e eu ser um estranho no ninho ali na Física, porque lá só tem físico, ele me perguntou: “Quer ir para os EUA aprender sobre Carbono 14?” Falei: “Quero.” E fui para Yale, uma grande, uma das maiores universidades do mundo.

Nessa época os filhos de Victor e Ilse ainda eram pequenos. O mais velho, Vic, tinha 10 anos; a mais nova, Isabel, dois. Entre eles, mais quatro crianças. Falando sobre esse tempo, Victor reconhece em Ilse a mulher ideal. Só ela poderia fazer o que fez. Dar-lhe o amparo, a tranquilidade e a segurança para que ele pudesse continuar crescendo profissionalmente.

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Não existiu, não existe outra que pudesse viver comigo. A escolha da esposa foi a melhor possível. Se fosse com uma daquelas duas anteriores, eu não teria essa carreira que eu tive. A carreira que tive foi porque Ilse me deu muita liberdade. Para escrever os livros, para ir a Yale, passar meses lá, ela não saía de casa. Essa liberdade toda me deu sucesso, me fez despontar nos meios estudantis, universitários. Graças à tolerância de Ilse, à tranquilidade. Ela me deu a chance de alçar posições elevadas... Me orgulho muito, comecei do zero.

Victor entusiasmou-se com o Carbono 14. Apaixonou-se pelas pesquisas, dedicou-se. Finalmente conseguira unir suas duas paixões: a História e a Química. Voltando para o Brasil, Victor montou o laboratório do Carbono 14 na USP, onde permaneceu por dez anos. Era o único latino americano especializado no assunto.

Na pesquisa, você tem chance de criar. No fim atingi o ponto máximo que podia em pesquisa. Fazendo estágio na famosa Universidade Yale e voltando, montando o laboratório de datação de fósseis através do Carbono 14. Isso é lindo, é ligado à história do homem. A especialização em Carbono 14 e Energia nuclear para fins pacíficos, além da criação do laboratório na USP, proporcionaram a Victor a participação em congressos nacionais e internacionais. No Brasil, esteve em inúmeras universidades e faculdades. No exterior, em vários países: Nova Zelândia, Austrália, Suíça, Alemanha, EUA e Noruega.

Laboratório das Faculdades Oswaldo Cruz, 2005

Victor em sua casa, 2010

Em 1979, Victor deixou o laboratório de Carbono 14 e voltou a lecionar no departamento de Física da Universidade de São Paulo. Ao mesmo tempo, voltou a dar aulas no segundo grau. Continuou nesse ritmo até 1991, quando se aposentou pela USP. Estava com 66 anos e tinha ainda muita disposição para continuar trabalhando, ensinando. Tinha garra, ambição e entusiasmo para novos desafios. Em 1992 foi convidado e aceitou o convite da Faculdade Oswaldo Cruz para ser vice-diretor.

Larguei a USP para ser vice-diretor da Oswaldo Cruz. Foi por eleição que fui indicado. Na USP era só professor de Física, larguei. Larguei também o Agostiniano e o Renascença Hebraica. O sonho de um professor é ser diretor. Esta é a minha parte do professor, não do pesquisador. 108


Uma carreira premiada

A importância do trabalho de Victor, como pesquisador, professor, autor e diretor, tem sido amplamente reconhecida pela comunidade acadêmica internacional. Victor recebeu vários títulos. Ainda hoje, cinco anos depois de ter se aposentado, seu nome é lembrado e reverenciado. Em 2005, recebeu o título de Educador Internacional do Ano, do International Biographical Centre, de Cambridge, Inglaterra. Em 2006, foi condecorado com a Medalha de Ouro pelo trabalho sobre Carbono 14 para datação de fósseis, do American Biographical Institute, EUA. Em 2007, foi homenageado em sessão solene pelo CREA, Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, Agronomia e Geologia, que reúne 400 mil associados em todo o Brasil. Em 2010, seu nome foi indicado para constar do álbum da Associação Internacional Científica dos EUA e também da Inglaterra, como um dos 500 líderes mundiais nas áreas de ciências e de humanas. Hoje, quando se pergunta a Victor como ele se define profissionalmente, ele responde: “pesquisador internacional é o principal, é o título mais honorífico que eu tenho”. E complementa, pensando no período difícil que enfrentou na Química da Poli: “Em 2007, minha vida mudou. De 400 mil associados do CREA só eu fui homenageado! Todas aquelas tristezas, aquelas frustrações profissionais do passado, sumiram, apagaram-se todas”. 109


Ocupou o cargo de vice-diretor na Faculdade Oswaldo Cruz por sete anos. Durante sua gestão, foi criada a pós-graduação em Química. Foi um enorme sucesso, houve uma grande procura pelos cursos, trazendo à faculdade um prestígio ainda maior. Em 1998 foi convidado para assumir a direção da faculdade, um caminho natural para um profissional com a competência e com a obstinação de Victor. Permaneceu na Oswaldo Cruz até 2006, quando completou 81 anos. Victor em sua sala nas Faculdades Oswaldo Cruz, 2005

Durante todos esses anos, os livros de Victor continuavam vendendo bem, mas não tanto quanto na primeira metade da década de 1970. Em finais dos anos 1980, seus títulos voltam a estourar. Desta vez, Victor não era seu próprio editor. A Editora Ática, fortíssima em livros didáticos, procurou-o e propôs reeditá-los.

Os livros tiveram dois auges. O primeiro, na década de 1960 para 1970 e depois, no final dos anos 1980, começo dos anos 1990. A Editora Ática procurou-o e teve uma jogada de marketing muito boa, sabia que o nome dele era muito forte e convidou: “Por que você não faz uma nova coleção de livros? Agora modernos e com outros recursos?” Ele fez e estourou. Foram os livros de Química mais vendidos nos anos de 1993, 1994, 1995 e 1996. Samara

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Um hiato no casamento

Mas aí, um belo dia, eu tinha trinta e oito anos e eu explico, eu justifico tudo o que aconteceu nesta altura, eu vi que todo mundo cresceu e eu estava pensando o que ia fazer: começo a fazer livros sobre exercícios, experiências químicas? Nós já estávamos brigando muito... Aí, fui para a casa da mamãe com as meninas e fiquei cinco anos lá. Quando fui, não sabia quanto tempo ia ficar. Não sabia de nada. Ilse

Ilse vinha se sentindo insatisfeita. Pensava em voltar à Química, queria mais do que ser mãe, dona de casa, mulher de Victor. As crianças cresciam e o marido, sempre trabalhando demais, pouco parava em casa. A situação financeira não era das melhores, Victor teve que vender algumas propriedades. Os problemas e desentendimentos entre o casal tornaram-se frequentes e agudos. Ilse precisava voltar-se para si mesma, sentia necessidade de uma pausa. Precisava respirar. No início de 1974 resolveu que tinha que sair de casa. Vic, o filho mais velho, ficou com o pai. Ilse e as cinco meninas foram para a casa de Irma. Não foi uma decisão fácil nem sem sofrimento. Arthurs havia morrido há dez anos. Irma morava só no casarão de Vila Prudente. Maija trabalhava em uma indústria química, em Resende, Rio de Janeiro, e só vinha a São Paulo nos finais de semana. Juris morava em Belém, onde era professor na Universidade Federal do Pará e Valdis residia em Santos, era diretor do Instituto Oceanográfico. Foi uma revolução na vida da família. Victor e Vic ainda ficaram por algum tempo na casa grande da Afonso de Freitas, 695. Alguns meses depois, mudaram para uma menor, na mesma rua, no número 723. Era o terceiro endereço na mesma rua. Em seu período mais próspero, Victor havia comprado quatro imóveis ali.

Maija e Sabina na casa de Irma, 1975 Samara, Sabina, Vic e Maija na casa de Irma, 1975

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1. Yara, Isabel, Iracema, Irma, Sabina e Samara na casa de Irma, 1975 2. Isabel, Yara, Samara, Sabina e Iracema na casa de Irma, 1975 3. Yara, Ilse e Isabel na casa de Irma, 1977 4. Praia de São Lourenço em Fevereiro, 1975 5. Iracema e Sabina em frente à casa de Irma, 1976/ Sabina e Samara na casa de Irma, 1976 6. Irma e Da. Maria Verners na casa de Irma, 1976

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Na Vila Prudente, Ilse e as filhas foram aos poucos entrando em uma nova rotina, em um novo ritmo de vida. Apenas Sabina, a mais velha das meninas, continuou estudando no Colégio Bandeirantes. As outras foram transferidas para o mesmo Colégio São Miguel Arcanjo, onde Maija e Juris haviam estudado quando chegaram a São Paulo em 1949, e onde Ilse, quando mocinha, dançara as gostosas quadrilhas organizadas pelas freiras. O colégio era católico. Samara, Iracema, Yara e Isabel não haviam sido batizadas, não haviam tido nenhum tipo de educação religiosa. Com algum estranhamento inicial, adaptaram-se bem e guardam boas e divertidas lembranças.

A separação foi nas férias. Se parar para pensar, não deve ter sido à toa que aconteceu nessa época. Eu estava terminando o 4º ano primário. Ia começar a 5ª série. Nós, as menores, fomos pra uma escola de freiras lá perto. Não fomos batizados, eu não sabia nem rezar o Pai Nosso! Para mim era aquela coisa de ficar olhando pra ver o que eu deveria fazer, como me comportar. Eu não sabia. Acho que não tinha ido a uma missa sequer... Mas era um colégio normalzinho, não tenho o menor trauma. Era misto e eu tinha uns amigos bem moderninhos. Não era um colégio repressor. Estou me lembrando de uma peça que fizemos sobre o Hair.

Yara, Iracema, Valdis, Isabel e Samara na casa de Irma, 1975

Irma, netas e Valdis na casa de Irma, 1975

Iracema

Algum tempo depois de Ilse e suas filhas terem mudado para a casa de Irma, Valdis volta para São Paulo e também vai para a casa da mãe onde fica por algum tempo.

Valdis, Irma e netas na casa de Irma, 1975

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O tio Valdis não morava com a vovó Irma antes da nossa aterrissagem por lá, no big casarão. Logo depois, aterrissa tio Valdis. Tivemos que desocupar o laboratório do vovô Arthurs e montar um quarto para ele. O quarto ficava em uma varanda fechada, toda envidraçada e com persianas. Sabina O cotidiano na casa de vovó Irma era bem diferente do dia a dia dos tempos da casa grande. Havia liberdade, mas os limites eram mais estreitos. Não havia a espontaneidade de sempre. A casa tinha uma rotina já estabelecida e as garotas tiveram que se ajustar a ela. A avó era responsável pela cozinha, pelas refeições, sempre gostosas, sempre com toques letões. Ilse ajudava em todo o resto, as meninas cuidavam de seus quartos. A diversão mais frequente era o baralho, o jogo de buraco com trilha musical erudita, em especial, a Nona sinfonia de Beethoven. O rock, ritmo preferido de algumas das meninas, era ouvido meio às escondidas. Para vovó Irma, “aquilo” não era música. A gente jogava muito buraco, a gente até hoje adora. Eu era parceira da minha avó. No começo eu só ficava olhando, era muito pequenininha para jogar, mas eu ficava sempre do lado, olhando, eu gostava. Eram a minha avó, minha mãe, meu tio e minha tia... Com música russa, clássica, sinfônica... Esse era o grande prazer da família. Isabel Lá era música clássica, rock era barulho. Quando tinha aquela mesadinha ou eu ganhava de presente de aniversário um disco, era super legal, mas tinha que disputar uma vitrolinha meio escondida. Não tinha aquela liberdade. A gente não estava em casa. Era a casa da vovó. A dona da casa nunca deixou de ser minha avó. Ela não tinha aquela personalidade que desaparece. Ao contrário. Ela era a matriarca. Iracema

Aos domingos Victor visitava as filhas. Não havia muita intimidade entre elas e o pai. Victor e Ilse ainda estavam reticentes, magoados, pouco ou nada se falavam. Victor conversava mais com a sogra, com quem sempre se deu bem. Hoje, quando rememoram as visitas do pai, as filhas se lembram especialmente que ele gostava de levá-las aos shows do Holiday on Ice. Lembram-se também das deliciosas barras de chocolate que Victor trazia e que eram muito bem vindas. O período que as meninas passaram na casa da avó, em contato estreito com Irma e Maija, estudando no São Miguel Arcanjo, convivendo de perto com famílias de origens letã, lituana e russa aproximou-as ainda mais dessas culturas. Sob os olhos atentos e perfeccionistas da tia, exercitaram o bordado e a costura. Seguindo os passos de 114

Yara, Sabina, Irma, Iracema e Isabel na casa de Irma, 1975


vovô Arthurs, praticaram a pintura e o desenho. Ouvindo os russos e outros compositores eruditos, apaixonaram-se pela música clássica. Para mim é um medicamento. Desde os 14 anos ouço música clássica, erudita... Até hoje, ouço direto. Isso foi influência da minha tia Maija... Da minha avó também, mas a minha tia comprava as “bolachas” com excelentes gravações e eu ouvia todos os discos... Fiquei viciada, fui extremamente influenciada. Os trabalhos manuais também... Comecei a fazer os modelos de todas as minhas roupas e costurava. Eu adorava... Todo mundo vai mostrar: “Olha o que eu bordei! Olha o que eu bordei!”. Foi tudo tia Maija. Todo mundo bordou lá em casa por causa da tia Maija. Sabina

Apaixonaram-se também pelas danças russas. A tal ponto que no início dos anos 1980, quando já estavam de volta à casa do pai, no Paraíso, as cinco dançaram por vários anos no Grupo Volga, um grupo de dança russa que até hoje está na ativa. Os ensaios aconteciam no próprio Colégio São Miguel Arcanjo, como ainda hoje acontecem. Desse tempo, as recordações e as fotografias são inúmeras e algumas amizades permanecem. O Volga foi criado em 1981. Nós criamos o grupo e fizemos a primeira apresentação. Existia aqui em São Paulo um evento na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, na Rua São Joaquim. Todo ano faziam o Festival das Nações. Começava com um grupo belíssimo de dança japonês, depois os tambores japoneses e eles convidavam todas as colônias que tinham grupos

Grupo Volga de danças folclóricas russas, com Iracema, Yara e Samara, 1981

Apresentação na Bienal dos Imigrantes, com Samara, 1983

Apresentação na Bienal dos Imigrantes, com Iracema e Yara, 1983

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de dança. Durava dois dias, cada colônia montava um stand no hall de entrada, com bandeira, comida típica, objetos típicos, como a matrioshka... Eu fui uma das principais do Volga... Recebi uma homenagem no ano retrasado, eu realmente insisti, eu queria dançar, fiquei 10 anos e hoje, minha amiga Tamara, dirige o Volga. Ainda dançam nesse Colégio São Miguel Arcanjo. Samara Nós todas dançávamos, a Sabina e a Isabel saíram cedo. Eu, Iracema e Samara dançamos por muitos anos, e foi o nosso ambiente, o nosso círculo social da adolescência. A gente ia para Vila Zelina para ensaiar e voltava para o Paraíso. Ia todo mundo no Fusquinha, a Samara ou a Sabina dirigindo. Yara

É desse tempo também, início da década de 1980, a maior proximidade das filhas de Ilse e Victor com os irmãos Normonds e Ausma Alens. Normonds havia sido amigo de Ilse na juventude e sempre foi grande admirador de Arthurs. Como a colônia letã luterana era muito pequena, as meninas Nehmi foram convidadas para uma viagem a Ubatuba com outros jovens descendentes de letões. A casa onde ficaram era a casa dos Alens. Durante certo período esses jovens conviveram intensamente, principalmente viajando para Ubatuba e também para Monte Verde, no sul de Minas Gerais, cidade que começou como colônia letã. Foi nessa época, em 1981, que as garotas foram batizadas e fizeram a Confirmação na Igreja Luterana Letã. Normonds foi o padrinho de todas, tia Maija, a madrinha. A estreita ligação das jovens Nehmi com os Alens continuou para sempre. Samara, Sabina, Iracema, Yara e Isabel se lembram com nitidez e alegria dos muitos réveillons passados na bela casa dos Alens, na praia de Maranduba, em Ubatuba. 116

Festa à fantasia dos russos, Isabel, Sabina, Yara e Samara, 1981

Yara e Jaime, Iracema, Odair, Beto, Kátia, D. Margarida, Sabina e Ausma, Reveillon em Ubatuba, 1984

Normonds foi o padrinho de todas, tia Maija, a madrinha. Confirmação das meninas, 1981


Grupo Volga

A Associação Cultural Grupo Volga de Folclore Russo foi criada em 1981, por Tamara Gers Dimitrov, Victor Gers Júnior e Nicolay Chocianowicz, moradores de Vila Zelinda e Vila Prudente. Surgiu para dar continuidade ao trabalho do Grupo Kalinka, que havia sido fundado em 1972 e foi extinto em 1975. Desde o início, o Volga se mantém fiel ao objetivo de preservar e divulgar a cultura dos imigrantes russos, suas tradições, sua história. Além das danças folclóricas russas, a Associação difunde o artesanato, a música, o canto e a culinária daquele país. Promove ainda jantares beneficentes, organiza bailes e participa ativamente da comunidade russa de São Paulo. O nome Volga é uma homenagem ao maior rio da Europa. Ele tem 3.688 quilômetros, nasce no planalto de Valdai, a noroeste de Moscou, e desemboca no Mar Cáspio. O Volga interliga os Mares Branco, Báltico, Cáspio, Azov e Negro.

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1. Meninas e amigos letos em Ubatuba, 1981 2. Samara, Iracema e Sabina com amigos em Ubatuba, 1981 3. Ausma, Normonds, Iracema em Ubatuba, 1981 4. Sabina, Isabel e Samara em Ubatuba, 1981 5. Turma dos letos em Monte Verde, 1981 6. Yara, amiga, Sabina e Isabel em Monte Verde, 1981

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A busca de Ilse

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epois de quase cinco anos morando com a mãe, Ilse continuava insatisfeita, procurando um novo rumo. Decidiu ir para Belém onde estavam seus irmãos, Valdis e Juris. Valdis, depois de passar um período na casa de Irma, havia mudado para lá a convite de Juris, professor da Universidade Federal do Pará. No começo de 1978, Ilse, Sabina, Iracema, Yara e Isabel embarcaram para Belém. Era período de férias, ficaram lá por um mês. Samara, como estava prestando vestibular, não as acompanhou. A mãe e as filhas mais velhas ficaram na casa de tio Valdis. Yara e Isabel, na casa de tio Juris, casado com Cidinha, que era dentista. Para Isabel, a viagem foi inesquecível por vários motivos, inclusive por tia Cidinha ter lhe arrancado sete dentes de leite. Fomos passar um mês em Belém, tia Cidinha me arrancou sete dentes de leite! Eu me lembro! E depois de cada extração, me proibia de correr. Eles moravam em uma vila cheia de crianças correndo. Era um sofrimento para mim. Isabel

Terminadas as férias, Ilse trouxe as filhas de volta a São Paulo. As garotas foram para a casa do pai. Em abril do mesmo ano, Ilse voltou para Belém e trabalhou como desenhista na Universidade Federal do Pará. Durante a semana ficava na casa de Valdis, sábados e domingos passava com Juris. Mas a nova vida e a nova cidade também não a satisfizeram. Depois de seis meses em Belém, resolveu voltar para São Paulo, para a casa da mãe. Falando sobre esse período, Ilse se reconhece difícil, desagradável, vivendo uma forte crise emocional. A convivência com Irma tornou-se conflituosa. Foram tempos sofridos. Ilse chegou a passar um mês em uma clínica de repouso. Bem humorada, ela relembra:

Lauren isun dolor si ament, lauren dolor isun si ament dolor si ament

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O serviço lá era de categoria, comida boa. Era estar num hotel bom, mas sem necessidade da gorjeta, delicioso... No fim foi divertido. Era um clima alegre, interessante, eu gosto de jogar xadrez, ficava assistindo os jogos, jogava, papai tinha me ensinado... E tinha filmes à noite, filmes bons de vez em quando. Tinha pintura, escultura, trabalhos manuais. E uma vez por semana eu falava com o psiquiatra... Ele era jovem, eu dizia: “Olha, eu mudei muito. Eu era do tipo que só falava sim para a minha mãe, falava sim senhora. E agora eu falo não senhora. E eu gosto de mim assim”. Depois de um mês, saí. Ao sair da clínica, Ilse optou por morar com Maija, em Resende. As duas davam-se muito bem, mas a convivência diária não deu certo. Mais uma vez, Ilse voltou para São Paulo, para a casa da mãe, mas não se sentia à vontade. Victor e Ilse tinham um apartamento em Santos, na Praia do Embaré. Ilse mudou-se para lá. Inquieta e curiosa como sempre, Ilse continuava a pensar em voltar à Química. Mesmo morando em Santos, matriculou-se na USP como aluna ouvinte da pós-graduação. Decepcionou-se em pouco tempo. O ensino de Química havia mudado, a própria Química havia mudado. Frequentou o curso durante seis meses e desistiu. Desistiu também de morar no litoral.

Eu precisava saber a quantas andava a Química. Resolvi fazer curso de pós-graduação. Fui falar com os professores, escolhi as matérias, vi os horários. Perguntei se eles me aceitavam só como ouvinte, todos concordaram, me aceitaram. Mas a Química não era mais a mesma, incrível como destruíram a Química. Fiz meio ano e houve uma greve, não tinha mais aula, foi uma bagunça por meses. Eu falei: “Não é para ser”. E não continuei. Lá em Santos também não dava certo, eu vivia viajando para cima e para baixo. Em 1981, Ilse parte para uma nova aventura. Desta vez, em Sete Barras, no Vale do Ribeira. Ela sempre quis ter um sítio, uma fazenda. A ligação com a natureza, com a terra, vem desde cedo, desde os tempos de Ligatne. Vic, o filho mais velho, havia concluído a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz, da USP, em Piracicaba, trabalhava na Cica e já estava casado com Izabel.

Eu me formei e inventei de comprar um sítio. Como meu pai estava precisando de dinheiro, vendeu a casa 743, a pequenininha. Com a parte da minha mãe e das minhas irmãs, compramos o sítio. Só que eu não tinha experiência nenhuma, podia comprar 10 alqueires em Campinas, 50 alqueires no Vale do Paraíba ou 200 no Vale do Ribeira. Comprei os 200 no Vale do Ribeira, sem documento, sem nada. Eu era um moleque que acabara de se formar... Era só mato, morro e planta. Não conseguia nem chegar de carro, de tanto barro e morro. Comprei sem experiência nenhuma. Vic

A casa da fazenda era muito precária, nem luz elétrica tinha. Ainda assim, Ilse foi para Sete Barras, a 200 quilômetros da capital. Uma vez por mês, vinha a São Paulo ver as filhas. Um pouco depois, Vic compra um sítio vizinho que tinha uma casa bem mais confortável. Ele e Izabel iam à fazenda nos finais de semana. Eventualmente, as filhas de Ilse iam também. 120


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1. Ilse no Vale do Ribeira, 1982 2. Ilse com Artur no Vale do Ribeira, 1984 3. Vic e famĂ­lia no Vale do Ribeira, 1984 4. Ilse, Vic e Maija no Vale do Ribeira, 1985 5. Ilse, Maija e Valdis no Vale do Ribeira, 1985 6.

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Em 1982 nasce o primeiro neto de Ilse, Ulisses, filho de Vic e Izabel. Em 1984, vem o irmão, Artur. Os dois, ainda bem pequenos, iam com os pais a Sete Barras. Vovó Ilse, excelente contadora de histórias, apaixonada por bichos, pela natureza, esbaldou-se com os primeiros netos na fazenda.

A nossa convivência no Vale do Ribeira aos sábados e domingos, foi muito importante para os meus filhos. Principalmente para o mais velho, o Ulisses. Nós tínhamos ido à Bienal do Livro e havíamos comprado alguns livros em inglês. Eram livros grandes, com animais do mundo todo. Ulisses levou os livros para lá e a avó começou a ensinar tudo sobre os animais: “Este é o rinoceronte, ele é deste lugar, ele faz isso”. Ela contava tudo sobre cada um e a forma como ela contava era linda... Ulisses aprendia. Andava com o livro para lá e para cá e falava: “esta aqui é a girafa que faz isso, isso e isso; este é o elefante e faz isso, isso e isso”. A avó foi muito especial. Às vezes, eles chegavam à fazenda e tinha um ovinho na sala. “De que será o ovinho?”, perguntava a avó. Eles cutucavam e era uma lagartixinha. Ela andava muito com eles e explicava: “esta formiga, não sei o quê, esta joaninha”, ela ensinava tudo. Foi um período muito importante. Izabel, mulher de Vic

Mas a vida por lá não foi nada fácil. Sete Barras não era Ligatne e Ilse não era mais uma pastorinha. Apesar das dificuldades, ficou na fazenda por vários anos e hoje, quando recorda esse tempo, considera que foi um tempo necessário. Em 1985 Ilse apazigua-se, volta para casa onde até hoje vivem ela e Victor. Como ela mesma diz, voltou para “casar as filhas” que haviam retornado para a casa do pai em 1978.

Lá no sítio foi um aprendizado. Havia momentos bonitos, tinha alguma coisa boa, mas era difícil. Uma vez por mês eu ia para São Paulo. Chegava, sentava na sala, ficava ouvindo música e pensava: como é gostoso, como São Paulo é gostoso. Mas, no sítio eu aprendi muita coisa... Eu sabia que ia voltar. Foi Saturno que me mandou de volta para São Paulo. Tinha que casar minhas filhas. Elas não casavam, não tinham namorados, não tinham filhos. Estava na hora delas se casarem. Você imagina, qual homem vai se casar com uma moça sem mãe? Como é que ele vai entrar numa família assim? Não tem família, não tem convívio familiar. Então voltei, voltamos a ser uma família, com pai e mãe e a mãe atende, toca a família. E aí foi um período de vários anos muito bons para mim.

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O regresso das meninas à casa paterna

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m 1977, Sabina, a primeira das meninas, seguindo os passos do pai, da mãe e do avô materno – entra em Química na USP e volta para a casa de Victor para ficar mais perto da universidade. Logo depois, em 1978, quando Ilse parte novamente para Belém, as outras quatro filhas também retornam à casa do pai. Irma já tinha mais de setenta anos, não poderia se responsabilizar pelas netas. Tia Maija continuava em Resende, só vinha a São Paulo nos finais de semana. Nessa época Victor morava sozinho na casa menor da Afonso de Freitas, 723, Vic estudava em Piracicaba. De repente, a casa fica cheia mais uma vez. Victor as recebe e se vê cercado por cinco meninas com idades entre 11 e 19 anos. Ele relembra:

Foi maravilhoso. Para mim foi maravilhoso quando voltaram. Era o ano de setenta e oito. Abril de setenta e oito. Eu já tinha pegado a minha grande fonte de renda: o Oswaldo Cruz. Estava ganhando muito bem. Quando voltaram, achei maravilhoso.

Victor lendo o jornal de domingo, 1980

Todos os filhos e Izabel, 1980

Educadas por Ilse, muito práticas e corajosas, as garotas criaram uma organização própria, estabeleceram uma rotina onde tudo funcionava muito bem. Vic vinha a São Paulo nos finais de semana. Aproveitava para dar alguns “conselhos” às irmãs e sempre trazia discos de bandas de rock que as garotas tanto gostavam. Repetindo o tempo de infância na casa grande, trazia também novos animaizinhos. Izabel, que na época era namorada de Vic, recorda a admiração que sentiu quando conheceu as cunhadas.

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Conheci o Vic em janeiro de 78, fizemos juntos o Projeto Rondon, mas só começamos a namorar em abril... Era um domingo, me lembro muito bem. Vic deixou a mãe na rodoviária, ela foi embora para Belém, e depois foi encontrar comigo... E aí, as meninas voltaram para a casa do pai. Eu achava diferente e interessante: as meninas aprenderam a se virar sozinhas na estrutura da casa. Sabina e Samara, acho que mais a Sabina, organizou um cronograma: segunda-feira você vai buscar o pão, você lava a louça, você cuida do almoço, você, do jantar. No dia seguinte as tarefas mudavam entre as irmãs. Me chamava muito a atenção. Elas conseguiram um esquema perfeito. Era uma educação diferente da minha, diferente do padrão. A mãe havia ensinado as meninas a se virarem. Izabel, mulher de Vic Com o regresso para o Paraíso, nova mudança de colégios. As duas menores voltaram a estudar em escolas próximas, onde Victor lecionava ou já tinha lecionado. Iracema estudava no Colégio Bandeirantes. No ano seguinte, Samara entra em Geografia, na USP. Victor criou os filhos dizendo: “até o colégio, eu pago os estudos. Mas faculdade tem que ser pública...”. Assim foi feito. Os seis filhos estudaram na USP e na Unifesp. Nesse tempo em que moraram com o pai, as garotas tornaram a experimentar a liberdade que haviam provado na primeira infância na casa grande, liberdade que continha forte dose de responsabilidade.

Quando a gente voltou para a casa do meu pai, eu estava com 14 anos. Cada uma ganhou uma chave da casa e ninguém sabia onde estava ou não estava. É interessante esse tipo de educação que eles deram, com essa liberdade e por trás os valores. Às vezes a gente ia para um barzinho com os amigos – eu tinha 17, 18 anos – saíamos do bar lá pela meia noite, uma hora e íamos para Santos ver o sol nascer na praia. Meu pai nem ficava sabendo. Ninguém nunca teve essa regra de ter que avisar. Não tinha isso, não tinha hora pra chegar, não tinha que saber onde você estava. Iracema

As irmãs viviam uma rotina compartilhada, se ajudavam. Nos estudos, nos conflitos, nas questões do dia a dia. Como quase sempre acontece, as mais velhas cuidavam das mais novas. Eram elas o porto seguro.

A Samara e a Sabina tiveram uma presença muito importante nessa fase. Não era uma preocupação assumida de cuidar, mas elas eram as referências, eram as mais velhas, com quem a gente podia contar. E como as duas são mulheres fortes e inteligentes e sempre nos passaram tudo o que pensam, muito desse tudo eu fui absorvendo e hoje eu sou parte delas, tenho certeza. Yara

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A gente sempre fez tudo muito junto. Apesar de haver uma pequena divisão: eu, Yara e Isabel de um lado, as menores. E Sabina e Samara, as mais velhas. Nas horas difíceis eu sempre tive a Sabina. Sabina pra mim sempre foi aquela irmã que me deu conforto, segurança. Não era nada muito verbalizado. Mas se eu estava perto de Sabina sentia aquele conforto. Iracema

Nessa fase, houve um período em que a diversão de Iracema e Isabel era frequentar quase que diariamente o Clube Pinheiros, onde Victor jogava seu tênis, seu xadrez. Depois das aulas e dos estudos, iam para lá e nadavam, ensaiavam jogar tênis, praticavam esgrima, conheciam outros jovens, paqueravam. Cada uma tinha a sua chave de casa. Não havia horários pré-estabelecidos, exceto, é claro, os escolares. Todas sabiam seus limites, cumpriam suas obrigações.

Filhos com Izabel e amigo da família Carl, em Amigo secreto, 1980

Comecei a ir ao Clube Pinheiros com 13, 14 anos. Meu pai sempre estava lá e a gente também, mas o território dele era o tênis, o meu era a piscina, a esgrima e o boliche. Eu ia para escola e depois ia direto, de ônibus. Eu e a Iracema. A gente competia, passava a tarde na piscina competindo para saber quem era a mais bronzeada. O meu universo foi o Clube Pinheiros, os surfistas. Era o auge da adolescência. Eu fazia esgrima, mas tudo era desculpa para estar no clube. Tinha todo um grupo lá. Eu voltava de ônibus, por isso não podia ficar até muito tarde. Era um pouco frustrante, eram todos burguesinhos, tinham carro, e eu com aquele dinheirinho para o

Miss Letônia Iracema, com o irmão Vic, 1981

Iracema datilografando o livro, com Isabel, Yara e Samara, 1979

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ônibus tinha que voltar correndo porque pegar o ônibus muito tarde dava medo. O limite da hora era esse. Isabel Por volta de 1980, 1981, Samara e Sabina, já trabalhavam, davam aulas. Samara formara-se em Geografia. Mais tarde cursou Direito, também na USP. Sabina, havia se formado em Química. Logo depois, fez alguns anos de Arquitetura. Yara e Iracema também já começavam a ser independentes financeiramente, já ganhavam seu próprio dinheiro.

Eu fiz duas faculdades. Primeiro, Geografia, e logo comecei a dar aula de Geografia, e estou nisso há todos esses anos. Fiz durante o magistério a faculdade de Direito, me formei e me casei logo depois. Cheguei até a ter um escritório por um ano, mas eu engravidei e não dava para conciliar tanta coisa. Fiquei uns 10 anos sem usar o Direito pra nada e quando já estava formada há 10 anos, teve o encontro da turma da São Francisco. Eu falei: “puxa, preciso tentar esse lado jurídico que não estou usando.” Prestei o exame da OAB e passei. O Matias era pequenininho, e eu o levava no curso. Ia ele e a Natália, o pessoal até olhava meio assim... Hoje, de manhã sou professora e de tarde sou advogada. No resto do tempo, sou mãe. Samara

Quando voltei para a casa do meu pai, tinha a minha fonte de renda, ajudava meu pai. Aprendi a datilografar, não era máquina eletrônica. Era manual e das antigas, tinha que fazer força. Ajudava nos livros, nos relançamentos, nas novas edições. E também tinha outra fonte de renda: corrigia as provas dos alunos dele. Ele me dava o gabarito, eu tentava imitar a letra dele porque eu ficava constrangida. Bobagem! É lógico que ele podia ter uma assistente. Depois, comecei a fazer extra de Natal na Sears. Eu era empacotadora. Que divertido! Depois disso foi a faculdade. Iracema

Rememorando esses anos em que viveram com Victor, antes de Ilse voltar a São Paulo, as filhas falam da rara convivência que tiveram com o pai. Victor, como sempre, trabalhava muito, não parava em casa. Mas quando as garotas começaram a se interessar pelos rapazes, quando começaram a namorar, o pai abriu os olhos e não foi muito simpático.

Estou lembrando a fase em que a gente começou a ter os amigos e eles frequentavam a casa. Quando eram 126

Victor em sua Brasília, 1980


amigos homens, meu pai nunca tratou muito bem. Mas eu sei, deve ser uma mistura da mentalidade árabe – de que homem não presta e quer se aproveitar da filha – com a falta de jeito dele. A partir do momento em que virava noivo, íamos nos casar, aí tudo mudava. Mas enquanto era namorado, nem conversava. Depois ele foi relaxando. Iracema

Meu pai sempre foi liberal. Na verdade, liberal, desde que entrássemos na USP. Primeiro entra na USP, depois pode namorar. Samara

Também está viva na memória das filhas a vida espartana que levavam. O dinheiro, como sempre, era contado. As mesadas que recebiam supriam as necessidades das meninas, mas não permitiam extras. Muito menos luxos. Falando sobre o casamento de Vic e Izabel, Iracema rememora com bom humor as roupas que ela e as irmãs usaram.

O Vic se casou quando nós ainda éramos meninas. Nossa! Quando vejo as fotos acho engraçado. As roupas que usamos! Cada uma se virou como pôde,com o pouquinho que meu pai deu para os vestidos. Não tinha essa coisa de pedir dinheiro para meu pai... Desde que a gente foi morar na casa da minha avó a gente recebia uma mesadinha, tinha que se virar com aquele dinheiro. Servia para roupa, bijuteria, lanches fora de casa, presente pra amigo. Para tudo. E na casa dele continuou assim. E se eu te disser em quantos casamentos tinha ido antes do casamento do meu irmão? Nenhum! Não tínhamos noção. Era uma cultura espartana. E eu não tenho a menor lembrança de sofrer por isso.

Vic, Izabel e filhos na casa de Irma, 1987

Iracema Noivado Vic e Izabel, 1980

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Analisando a vida na época de infância e adolescência, época de dinheiro curto, de mesadas na medida exata, Vic, hoje, reflete:

As mesadas que recebíamos eram menores do que as dos nossos vizinhos, apesar de morarmos na maior casa do quarteirão. Essa situação nos levou a desenvolver criatividade e todos perdemos a vergonha de procurar trabalho, fazer bicos ou tentar fazer negócios para ganhar algum dinheiro. As mesadas apertadas foram altamente benéficas na nossa educação e, com certeza, ajudaram muito no endurecimento do espírito e na capacidade de superar adversidades de todos os filhos. Eu, particularmente, adotei o mesmo procedimento com meus filhos, com resultados igualmente positivos. Vic

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1985: a volta de Ilse

Até que um dia ela chegou e disse: “agora vou morar aqui”. Iracema, entrevista, 2010

Nos últimos tempos em que Ilse morou em Sete Barras, as visitas mensais às filhas foram se estendendo. A cada mês ela ficava um pouco mais em São Paulo, demorava um pouco mais para voltar à fazenda. As filhas faziam o possível para que a mãe permanecesse cada vez mais em casa e voltasse definitivamente. Em 1985, Ilse desiste da vida no Vale do Ribeira. O retorno da mãe mudou o ritmo da casa mais uma vez. A primeira providência que Ilse tomou foi dispensar a empregada. A dona da casa estava de volta e, a partir daí, ela é quem voltaria a cuidar de tudo.

Família reunida em casa, 1981

Um ano depois, em 1986, Sabina volta para a casa de vovó Irma. Já formada, tinha arrumado um emprego em uma indústria química em Santo André. Trabalhava no setor de informações técnicas, inteligência, análises e patentes. Era bem mais prático, Vila Prudente era mais perto de Santo André. Ficaram na casa da Afonso de Freitas, os pais e as quatro filhas menores: Samara, Iracema, Yara e Isabel. Samara já havia concluído a faculdade de Geografia, Iracema cursava Administração, na FEA/USP. Yara fazia Enfermagem na Unifesp e Isabel estudava na ECA/USP. Ilse retoma a rotina anterior a 1978: lê muito, informa-se, cuida da casa e da família, volta a cozinhar e a tratar do seu jardim com olhar atento e

Brinde de casamento da Sabina e Edson na casa 723, 1989

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zeloso. Dedica-se também ao I Ching, estuda e pesquisa, torna-se adepta do oráculo chinês. Com o apoio de Isabel, volta-se ainda à astrologia e à quiromancia. Mãe e filha aplicam-se, tornam-se entendidas nos temas. Ilse costuma dizer que a astrologia a fez mais tolerante, que através dela pôde perceber que as pessoas nascem para ser de uma forma ou de outra. Os trabalhos manuais também são retomados, a costura, o tricô, o bordado. São dessa época, as blusas de linho e de lã que as filhas até hoje guardam com carinho e cuidado.

Uma vez, minha mãe bordou uma blusa pra mim em que ela colocou umas faixas com ponto cruz, mas era um ponto cruz de um tamanho que as pessoas olhavam e achavam que era pintado, feito à máquina. E aí eu falava que não, que era ponto cruz. Minha mãe levou um ano pra bordar só essas três faixinhas. As pessoas ainda olhavam e faziam aquela cara de “será?”. É difícil que alguém tivesse a paciência de bordar isso. Samara

Em meados dos anos 1980, tia Maija havia se aposentado, voltara a São Paulo, morava com Irma na casa de Vila Prudente. Tinha trabalhado durante anos nas Indústrias Químicas Resende, uma fabricante de corantes, joint-venture da Sandoz e Ciba-Geigy, onde havia sido responsável pelo laboratório de controle de qualidade. Quando criança, Maija havia tido febre reumática e ficou com sequelas graves. Sabina, a sobrinha mais velha, muito chegada à tia como, aliás, todos os outros irmãos, conta sobre a convivência, a doença e a morte da tia tão querida.

Como consequência da febre reumática que teve na adolescência, tia Maija começou a sofrer desmaios. O médico que a atendia disse que ela não tinha muitos meses de vida e, se conseguisse sobreviver a uma operação, não poderia se casar e ter filhos, nem viver uma vida normal. Por uma graça, ela foi operada por um residente do Hospital do Servidor Público, de nome “Dr. Zerbini” e ficou com um coração melhor do que muita gente. Infelizmente, com o tempo, foi apresentando problemas graves de artrite reumatoide. Morreu de AVC, acidente vascular cerebral, por volta de seus 53 anos, ao redor de 1992. Tia Maija não foi nunca estimulada pela mãe a encontrar parceiros. Viveu para a mãe, irmãos e sobrinhas... Em alguns finais de semanas e nas férias ela nos convidava, convidava as sobrinhas para ficarem com ela em Resende. Ela ficava o dia todo fora, mas a gente ficava passeando em Mauá, Penedo. E à noite nós ficávamos com ela... Ela foi muito presente. Teve um papel muito importante para nós. Sabina

Com a morte de Maija, Irma fica só na casa de Vila Prudente. Os dois filhos, Juris e Valdis, continuavam morando no Norte do país. A situação financeira de Irma não era das melhores, a aposentadoria que recebia era pequena, ela já tinha oitenta e seis anos, não poderia viver sozinha. Foi o tempo de Ilse e Victor retribuírem o acolhimento de Irma a Ilse e suas filhas em 1974. Irma foi morar com o casal e ficou lá até sua morte, em 1998.

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Os casamentos, a descendência

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m 1982, nasce Ulisses, filho de Vic e Izabel. Em 1984, vem o segundo filho do casal, Artur. Em 1986, nasce Virgínia, a caçula. Até então, dos filhos de Victor e Ilse, apenas Vic tinha se casado em 1981.

Em 1987, confirmando o que Ilse havia dito – que voltara para casar as filhas –, Yara se casa com Jaime. Em 1989, nasce Yolanda. Em 1992, Pedro. E, em 1996, Isadora. Em 1988, mais um casamento. Samara se casa com Átila. Natália nasce em 1989, e em 1996, vem Mathias. Novo ano, novo casamento. Sabina e Edson casam-se em 1989. Em 1991, nasce Ingrid, e em 1993, Peter. Iracema e Isabel continuavam morando com os pais até que Isabel resolve correr mundo. Vai para Austrália, volta ao Brasil, trabalha aqui em hotéis e resorts e, em 1990, decide ir para a Índia. Casa-se lá e em 1994, na França, nasce Ezvin. Iracema foi a última a sair da casa dos pais e a última a se casar. Morou sozinha durante muito tempo, namorou Carlos Jorge durante vários anos; ele morava no Rio de Janeiro. Até que em 2006, contrariando todas as suposições e expectativas, finalmente, ela se casou com o namorado de sempre e nasceu Tales. Dos seis filhos de Ilse e Victor, quatro moram em São Paulo. Iracema mora no Rio de Janeiro e Isabel continua na França. Dos doze netos, dez estão por perto.

Desde pequena até agora, sempre que vou à casa do vovô e da vovó, aprendo muitas coisas, aprendo histórias, coisas que aconteceram com eles, aprendo sobre os países onde eles nasceram. Sempre saio da casa da vovó e do vovô com uma coisa nova na cabeça! Também ao longo destes anos percebi as personalidades dos dois. Sempre achei que os dois têm personalidades muito interessantes. Eles são pessoas que, realmente, me inspiram. Isadora, neta de Ilse e Victor, filha de Yara e Jaime.

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De pais e filhos

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uando os seis filhos falam sobre Ilse e Victor, falam de forma muito afinada, com muita concordância. Do pai receberam a inteligência, o exemplo de honestidade, a força, a perseverança, a valorização do trabalho e do esforço, o amor pelo esporte. Da mãe, também a inteligência e ainda a honestidade, a vitalidade, a autenticidade, a perspicácia, a praticidade, a simplicidade, o respeito às diferenças, a generosidade, a paixão à cultura e à terra, à natureza. Dos dois e de seus familiares, o amor à história, à informação, à culinária, às artes: música, dança, fotografia, pintura, literatura, artesanato. De todos, a firme disposição para enfrentar adversidades. E enfrentar confiando. Quando os pais falam sobre a vida, sobre os filhos, cada um a seu modo, a seu feitio e, no entanto, complementares, deixam ouvir uma voz amorosa, revelam um olhar de contentamento e orgulho.

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Recados aos pais

Eu mandaria um agradecimento para os dois por tudo o que fizeram pela gente, pela educação, principalmente. Educação no sentido amplo. No sentido dos valores que passaram para nós. Eu agradeceria assim: Obrigado pelos valores transmitidos: trabalho, honestidade e educação. Obsessão por educação e estudo. Acho que isso é a espinha dorsal. Vic

Ao Meu Querido Pai Victor Você me ensinou a ter uma postura altiva, confiante, intensa e espontânea em relação à Vida. Ensinou-me a não perder o controle da situação, mesmo quando se passa por grandes provas ou grandes tormentas; a ser justa com as pessoas – característica típica de pessoas que desenvolveram gratidão pela Vida ou por outras pessoas que as ajudaram em momentos difíceis; ensinou-me o amor pelos esportes; o amor pelo conhecimento, particularmente História, e o amor e a responsabilidade pela família, embora tenha levado uma vida sempre independente. Deu exemplo de pessoa focada no objetivo de não perder tempo com assuntos mesquinhos, que não tragam benefício. A lembrança que me fica é do ser sorridente e emotivo, embora paradoxalmente fosse um indivíduo de semblante duro e atitudes enérgicas a ponto de fazer correr qualquer pessoa de juízo quando ficava bravo. Agradeço a paciência, a responsabilidade, o amor, o exemplo e o DNA que me foi transmitido. À Minha Querida Mãe Ilse Você me ensinou a ser elegante com simplicidade; a respeitar e a tratar todas as pessoas com igualdade; a amar os livros, a natureza, a fotografia, a costura e também a desenvolver conhecimento geral. Deunos um bom exemplo do preciosismo letoniano, pois sempre que fazia alguma coisa, o fazia bem feito. Foi uma mãe dedicada e com visão futurista. Educou os filhos de forma livre, mas com valores humanistas e 134

culturais. Posso dizer que foi exemplo de honestidade e integridade pessoal. A imagem que me fica é a de uma mulher que viveu a Vida também de forma intensa, espontânea, capaz de discutir com qualquer um sobre qualquer assunto, e apresenta-se sempre muito espirituosa, capaz de dar belas gargalhadas quando o assunto assim o permite. Agradeço o amor, a dedicação, a paciência, o exemplo e também o DNA que me foi transmitido. Sabina

De meu pai, ficou esse amor ao estudo e ao trabalho. Da minha mãe o cuidado com a família. A praticidade. O povo letão é muito criativo e absolutamente prático, sem firula. São simples. Da minha mãe vem o valor da simplicidade e da praticidade. Só posso dizer muito obrigada. Eu devo isso, eles foram dois pilares. O meu pai é um pilar de concreto, que sustenta sozinho uma estrutura gigantesca. Agradeço os exemplos. Porque não é pelas palavras que se formam os filhos, mas pelos exemplos. Eles fizeram muito. Samara

À minha querida mamãe, agradeço pelo amor e cuidado dedicado a nós, crianças, que nos deixou essa ligação tão forte, sempre.E pelos valores que você nos transmitiu. Valores relacionados à justiça, honestidade, ao caráter, o amor à natureza. Enxergar as pessoas pelo que são e não pelo que possuem. O amor pelos livros. Admiro muitas coisas em você: é um grande privilégio ter uma mãe que a tudo o que se pergunte, sobre qualquer assunto, ela sabe responder, explicar. Sua sabedoria com as coisas da vida, aliada a um senso de humor delicioso. Nada de cobranças: “Venham me visitar somente se estiverem com vontade, não se sintam com obrigação”. Sempre me senti, e ainda me sinto, muito acolhida por você, com muito carinho e delicadeza, sempre!


Do meu querido papai, fui descobrindo muitas coisas em mim, cada vez mais, a começar pelo próprio físico. Essa energia para o trabalho! E a genética mesmo, como o fato de ser chocólatra, não poder comer banana à noite senão tenho pesadelo, fazer bilhetes com papel e letra grande, cortar o punho das meias... O amor pelo cinema vem de você, e a necessidade da atividade física. Tenho grande admiração por toda a sua trajetória, êxito e reconhecimento. Essa força de vontade e determinação incansáveis. Com uma cultura invejável, transmitiu-nos o valor do conhecimento e da realização.Mas, o admiro ainda mais, porque o tempo mostrou o grande valor que você dá à família. Foi aos poucos mostrando-se um pai devotado e sensível. Podemos destacar as diferenças, mas a verdade é que temos que agradecer à maravilhosa química entre Jankauskis e Nehmi, entre Ilse e Victor, que gerou esta família tão especial! Com muito amor, Iracema

Para mamãe: Agradeço aos deuses por terem escolhido você para eu me espelhar! Agradeço pelo exemplo de mulher de honra que é. Agradeço pela vivacidade, pela energia, por ter vivido a vida plenamente, sem deixar de ser um exemplo. E de ter nos passado valores realmente bons: a liberdade, a honra e esse mundo das ideias que é tão forte. Aprendi a ser livre e honrada graças a você, mamãe!

Minha mestra, minha mãe é minha mestra amada, foi bênção dos deuses. Eu agradeço ter tido esta mãe. Minha mãe é especial. Eu vivi os momentos de maiores “flashs” do “menor ao maior”, do átomo às galáxias, passando por todos os inúmeros elos da corrente de energia, (como astrologia, quiromancia, cristais e pedras, óleos essenciais, yoga, estudos herméticos...) com você, amada mamãe! Agradecer nunca será o suficiente! Minha dádiva é no Eterno Absoluto, mãe, “honrado” Ser do Grandioso. Na alquimia da matéria você transformou a realidade no Palácio dos Deuses, a grandeza da tua alma é o meu exemplo supremo e, mesmo em todas minhas experiências e pesquisas pessoais, é a tua verdade que sempre triunfou! Amor Eterno *** Meu pai nos salvou a vida, ele é um orgulho para mim! Meu faraó, pilar de granito em força constante,obelisco do conhecimento presente, passado e eterno. Um eleito, sua alma terá direito a uma morada nas estrelas dos reis, brilhando sempre. Meu amado Ser, representante do principio da força, é meu pai *** Isabel

Para papai: De meu pai fica a responsabilidade, a perseverança. E agradeço porque ele foi um bom pai, ele não faltou, ele sempre assumiu os filhos. E agradeço – e acho uma graça isso – mas, quando eu era menina, tinha a sensação de que eu era a queridinha do papai. Hoje eu sei que era só minha essa sensação,eu não era. Mas eu tinha isso, me sentia assim. E isso é muito bom, é um sinal de que ele me dava atenção a ponto de eu achar isso. Tenho muito orgulho de ter um pai humano e perseverante como você! E que esteve presente nos momentos importantes de minha vida. Yara 135


Agora, depois da homenagem do CREA, estou plenamente satisfeito. Não quero mais nada, sinto que já tenho tudo. O crescimento dos filhos também me deu essa plenitude de satisfação... Me considero um homem totalmente feliz e estendo para a família inteira essa satisfação. Estou muito feliz com meus filhos, me orgulho deles. Eles são tão diferentes, os seis são muito diferentes. Por uma faceta, por um detalhe, me orgulho muito deles todos. A vida toda você [conversando com Iracema] me chamou atenção sobre isso, sobre o valor espiritual. Sobre a sensibilidade. Agora sim, me despertou a sensibilidade humana. Meu coração fica aberto agora, tem uma maior entrega. Victor

Hoje em dia consegui digerir tudo que foi destino. O I Ching me ajudou, a filosofia chinesa também. Eles dizem que a pessoa é perfeita quando aceita seu destino e consegue conviver com ele. Não adianta dar soco na parede, você só vai se machucar e não vai acontecer nada. Vejo que o conjunto final foi positivo, aprendi tanta coisa sobre o mundo. Prefiro saber as coisas. Não sou mais sábia que as pessoas, mas conheço bastante. Sou uma pessoa que gosta de estudar, tenho curiosidade até hoje. Minha vida não foi um fracasso. Teve períodos bons. Outros foram terríveis, mas no fim mudavam e eu aprendia muita coisa. E eu criei seis filhos férteis, que tiveram filhos perfeitos. Fui muito feliz criando vocês, trabalhava muito, mas era muito bom criar vocês, era divertido. Vocês todos foram muito bons filhos, gostei muito de criá-los, de ensinar, orientar vocês. E vocês não perceberam, provavelmente, mas o sagitário rege a educação e a sabedoria, é um professor. Aquela divindade que vivia na floresta, que é meio homem, meio cavalo, o centauro, ele olhava as estrelas, previa o futuro e quem queria aprender sobre o mundo ia lá e ele ensinava. Era um professor. Eu sou assim, me preocupo com o futuro, estudo o passado, para ensinar. Eu sou assim. Faz trinta anos, li em um livro de Aristóteles que a idade boa para morrer é setenta anos; você ainda enxerga, ouve, anda, mas já com alguma dificuldade. Você já criou seus filhos, os seus netos já são grandes. Você já cumpriu seu dever e ainda não está dando trabalho para os outros. É a melhor hora para morrer. Na época, concordei. Vou fazer setenta e três esse ano, estou na idade de morrer. Eu concordei, mas não estou preparada. Ilse

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A vida hoje

Z

ahle, Riga, Ligatne e tantas outras cidades percorridas por Victor e Ilse hoje são memória. A vida é aqui. No Brasil, em São Paulo.

O casal continua morando na Afonso de Freitas, 723 . Ilse cuida da casa, lê muito, joga paciência, consulta o seu I Ching. Trata do seu jardim, e suas plantas mostram uma vitalidade exuberante. Cozinha seus pratos gostosos, mas não diariamente. Não tem horários rígidos, dorme quando tem sono e não precisa de remédios. Muitas vezes está acordada na hora em que o jornal chega, às cinco, e quando isso acontece o lê de imediato. Eventualmente, volta para a cama para dormir mais um pouco. Mantém-se informada sobre tudo. Victor acorda um pouco mais tarde, percorre seu jornal, assiste aos noticiários e aos jogos de tênis na televisão, caminha quilômetros por dia, sempre de sapato de sola de couro, calça e camisa social. Pratica seu xadrez no clube Pinheiros, mais esporadicamente exercita seu tênis. As datas são sempre comemoradas, especialmente Natal e Páscoa. Os filhos os visitam. Conversam sobre os netos, sobre o cotidiano, o trabalho, os lazeres. Discutem e comentam os acontecimentos nacionais e internacionais. Iracema confessa que jamais vai à casa dos pais sem abrir a geladeira e comer alguma coisa feita por Ilse.

Desde o dia em que eu saí daquela casa, eu nunca fui visitá-los sem entrar direto na cozinha e comer. Mesmo que não estivesse com fome. E minha mãe sempre incentivou, ela falava: “ah, é tão ruim cozinhar só para o seu pai, como eu gosto de cozinhar pra você”. Iracema, entrevista, 2010

No quarto de Victor, que é também seu escritório, além da fotografia de Agia, sua mãe, estão seus diplomas e condecorações. Ele os mostra com vaidade e orgulho, como uma recompensa conquistada pelo garoto que nasceu em Zahle, andou por El Paso, morou em Pitangueiras, estudou em Bebedouro e chegou a São Paulo há mais de sessenta anos com a cara, a coragem e uma vontade louca de ser o que é. E encontrou Ilse, essa mulher vibrante, inteligente, que também havia vindo de longe, da Letônia. E os dois geraram seus seis filhos que lhes deram doze netos.

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Livro