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Ano 14

n0 149

nov2011

www.teletime.com.br

O Brasil no espaco

Como anda o projeto do satélite geoestacionário nacional, que deve ter aplicações militares e na ampliação do PNBL ENTREVISTA Bap conta os planos da Sky para enfrentar as teles na TV paga e investir mais na banda larga wireless

SERVIÇOS Poder público começa a explorar o potencial da mobilidade para a cidadania, mas esbarra na burocracia


Presidente Rubens Glasberg Diretores Editoriais André Mermelstein Claudiney Santos Samuel Possebon (Brasília) Diretor Comercial Manoel Fernandez Diretor Financeiro Otavio Jardanovski

Editor Samuel Possebon Editora Adjunta e Editora de Projetos Especiais Letícia Cordeiro Editor de Mobilidade Fernando Paiva Redação Daniel Machado, Wilian Miron, Helton Posseti (Brasília) Consultor Especial Cláudio Dascal Arte Edmur Cason (Direção de Arte); Rubens Jardim (Produção Gráfica); Geraldo José Nogueira (Edit. Eletrônica); Débora Harue Torigoe (Assistente); Alexandre Barros (Colaborador); Bárbara Cason (Colaboradora) Departamento Comercial Bruna Zuolo (Ger. de Negócios) Ivaneti Longo (Assistente) Inscrições e Assinaturas Gislaine Gaspar (Gerente) Circulação Patricia Brandão (Gerente) Marketing Harumi Ishihara (Diretora) Gisella Gimenez (Assistente) Administração Vilma Pereira (Gerente) TELETIME é uma publicação mensal da Converge Comunicações - Rua Sergipe, 401, Conj. 603 CEP: 01243-001 - Telefone: (11) 3138-4600 e Fax: (11) 3257-5910 - São Paulo, SP. Sucursal SCN Quadra 02 Bloco D, sala 424 – Torre B - Centro Empresarial Liberty Mall - CEP: 70712-903 - Fone/ Fax: (61) 3327-3755 - Brasília, DF. Jornalista Responsável Rubens Glasberg (MT 8.965) Impressão Ipsis Gráfica e Editora S.A. Não é permitida a reprodução total ou parcial das matérias publicadas nesta revista, sem autorização da Glasberg A.C.R. S/A

CENTRAL DE ASSINATURAS 0800 0145022 das 9 às 19 horas de segunda a sexta-feira Internet www.teletime.com.br E-mail assine@convergecom.com.br REDAÇÃO (11) 3138-4600 E-mail cartas.teletime@convergecom.com.br PUBLICIDADE (11) 3214-3747 E-mail comercial@convergecom.com.br

Samuel Possebon

FOTO: arquivo

.:Editorial

samuca@con­ver­ge­com.com.br

Batalhas sobre a mesa

Q

uando olhamos para as principais mudanças que aconteceram no mercado de telecomunicações nos últimos 15 anos, notamos uma característica comum. Quase todas se basearam em tecnologias e serviços over-the-top (OTT). O surgimento dos serviços de VoIP, o advento dos aplicativos para celular, as novas plataformas de distribuição de vídeo, todas estas inovações que balançaram as estruturas da indústria de telecom vieram por cima de uma infraestrutura de redes já existente. Eram serviços de valor adicionado à plataforma de telecom que subverteram a ordem das coisas e se tornaram mais importantes do que os serviços para os quais as próprias plataformas foram projetadas. Podemos ir ainda mais longe e veremos que a própria Internet surgiu comercialmente por cima de uma rede já existente. O conceito de OTT não é, portanto, novo. O que esses serviços e tecnologias OTT têm em comum é a proposta revolucionária dos modelos de negócio existentes. Quem tem boa memória vai se lembrar que lá pelos idos dos primeiros anos da década de 2000, pouco depois das primeiras operadoras comerciais de VoIP entrarem em funcionamento, uma empresa chamada Vonage lançou um conceito de VoIP baseado em um terminal (ATA) que fazia a interface entre o telefone do assinante e a rede IP. Parecia o fim da indústria de telefonia tradicional, as ações da Vonage disparavam e ela era citada em 100% dos debates sobre o futuro da indústria. Hoje, olhando em perspectiva, a Vonage continua uma empresa pequena e de nicho, mas depois dela o modelo de VoIP, ainda que não tenha matado a telefonia de comutação por circuitos, mostrou que veio para ficar. A mesma coisa quando se fala no Skype, uma plataforma ainda mais simples, baseada fundamentalmente na conexão PC a PC, mas que acabou com o mercado tradicional de longa distância, sobretudo internacional. Um exemplo de over-the-top com efeitos mais avassaladores foi o surgimento,

Instituto Verificador de Circulação

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em 2007, do universo dos aplicativos para celulares. Até então, os programas que rodavam em terminais móveis eram complicados, nem todos os usuários sabiam como baixa-los ou instalá-los e raramente eles usavam a conectividade dos telefones. A Apple tratou de mudar essa equação no iPhone, simplificando as coisas e colocando as operadoras de lado nesse processo. Elas definitivamente se tornaram provedoras de rede, enquanto lojas como a App Store da própria Apple ou o Android Market, do Google se tornavam os entrepostos de trocas desses aplicativos. Em poucos anos, essa nova dinâmica reformulou o mercado de serviços de valor adicionado em redes móveis, revolucionou as redes de banda larga móvel e transformou completamente a indústria de handsets. Mais recentemente, vimos surgir o conceito de aplicações OTT no mercado de vídeos. TVs conectadas, consoles de videogames e set-tops dedicados, como Apple TV, Google TV e outros, aliados a novos provedores, como Hulu e Netflix, mostraram que a TV por assinatura tradicional estava diante de uma nova revolução de modelos. Ainda é cedo para dizer se essa nova realidade vai acabar com a TV por assinatura tradicional, linear. A julgar pela complexidade do negócio e pelos aspectos financeiros envolvidos, é pouco provável que a mudança seja de curto prazo. Empresas como a Netflix caminham para ganhar o título que a Vonage ganhou: revolucionárias, mas incapazes de mudar drasticamente um modelo pré-estabelecido no curto prazo. Ainda que no longo prazo o caminho, aparentemente, seja over-the-top. A variável que daqui para frente pode mudar muito esse jogo é a discussão sobre as regras de neutralidade de rede. É nesse campo que empresas tradicionais de telecomunicações tentarão jogar para se manterem no páreo e é aí que as novas entrantes vão tentar ganhar a partida. Uma coisa é certa, contudo: todos, nesse caso, têm interesses econômicos gigantescos a defender, e não existe mais ideologia por trás dessa batalha.


149 Número

w w w . t e l e t i m e . c o m . b r

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Capa

8 Plataforma de lançamento

Discutido desde 2005, satélite geoestacionário brasileiro ganha impulso para, literalmente, decolar. Plano Nacional de Banda Larga e uso militar devem acelerar processo, orçado em R$ 716 milhões.

12 Entrevista Céu de brigadeiro

Luiz Eduardo (Bap) Baptista explica como a Sky consegue crescer acima da média do mercado de TV paga e deter quase 30% de market share, mesmo sendo a única empresa do setor sem relação com as teles.

18 Convergência Onipresença TV everywhere é experimentada no Brasil pelas operadoras, programadoras e canais. Massificação, no entanto, esbarra em modelo comercial, negociação de conteúdo e adaptação das plataformas.

12

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móveis 24 Serviços Quebrando as amarras Poder público descobre os benefícios das tecnologias móveis na comunicação e integração com o cidadão. Burocracia ainda é o maior obstáculo para a modernização dos serviços.

Espectro

27 Duelo de gigantes Destinação da faixa de 700 MHz, atualmente utilizada para a TV aberta, esquenta a polêmica entre teles e radiodifusores.

30 Tecnologia

Sobrevida no cobre Indústria desenvolve tecnologias que devem viabilizar a ultra banda larga nas velhas redes de telefonia. Plataformas xDSL com soluções de vectoring e bonding podem alcançar até 100 Mbps.

24

30

32 Tributação Ônus da dúvida Por meio de medida provisória, governo federal sinaliza com uma política de desoneração fiscal nas redes de telecomunicações. Desafio para as teles, no entanto, está nas instâncias estaduais, com o ICMS.

humanos 34 Recursos Qualidade de vida De olho na produtividade, áreas de RH das empresas de telecom investem na melhoria das condições de trabalho dos colaboradores. Em alguns casos, no entanto, medidas são insuficientes.

Editorial 4 | Ponto de vista 36 | Ponto & Contraponto 38 Capa: seri

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A mãe está ao telefone, perguntando pela 5ª vez, se está tudo bem.

O pai está na internet fechando um grande negócio.

O irmão está se divertindo em frente à TV.

E a gente está por trás disso tudo. A CEMIGTelecom é uma empresa do Grupo CEMIG com presença em cerca de 70 das principais cidades mineiras, prestando serviços de telecomunicações com capilaridade, qualidade, e alta disponibilidade, sempre com alto grau de comprometimento aos requisitos de seus clientes. A CEMIGTelecom está presente em sua vida, muito mais perto do que você imagina. E muito mais longe também: no futuro.

A sua melhor opção de rede de telecomunicações www.cemigtelecom.com


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Samuel Possebon, de Brasília

cobertura

samuca@convergecom.com.br

Para o alto e avante

Projeto do satélite geoestacionário brasileiro, previsto para 2014, agora servirá aos militares e ao Plano Nacional de Banda Larga, mas os desafios para torná-lo uma realidade ainda são muitos.

O

projeto do satélite geoestacionário brasileiro (SGB), que vem sendo discutido desde meados de 2005, ganhou nos últimos meses um impulso adicional capaz de fazê-lo efetivamente decolar. A favor do projeto estão, agora, o interesse de diferentes áreas do governo e um orçamento já programado de R$ 716 milhões. Há pelo menos três áreas do governo trabalhando para que o projeto dê certo: o satélite brasileiro (na verdade, são dois os satélites, previstos para serem colocados em órbita em 2014 e 2019) terá que atender aos projetos das Forças Armadas na Política de Defesa Nacional; ajudará a Telebrás a atender 1.282 mil cidades, pelo Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), que não receberão cobertura por redes terrestres; e ainda fará parte da estratégia do Ministério de Ciência e Tecnologia para desenvolver a tecnologia aeroespacial brasileira, permitindo a empresas nacionais absorverem a tecnologia necessária para construir e colocar o satélite no ar. A virtude de ser desejado por muitas áreas do governo também é, paradoxalmente, o maior risco ao projeto do SGB, já que os interesses nem sempre são convergentes e conciliáveis. Para se ter uma ideia da complexidade, o projeto envolve a participação de três ministérios (Defesa, Comunicações e Ciência e Tecnologia), é coordenado pela Telebrás sob total supervisão dos militares (considerados os “donos” do projeto), mas ao mesmo tempo alinhado a diretrizes de uma política espacial coordenada pela Agência Espacial Brasileira (AEB), com a necessidade de que a absorção de tecnologia seja feita por uma empresa privada que seja nacional e sobre a qual haja algum tipo de controle do Estado. O que se sabe efetivamente sobre o projeto ainda é pouco, não porque o planejamento não esteja bem desenvolvido, mas sobretudo por conta do grau de sigilo com que o tema é tratado. Basicamente, se trata de um projeto para dois satélites

sobretudo, as fronteiras marítimas. Os planejamentos de Exército, Marinha e Aeronáutica precisam ser coordenados entre si, e hoje eles estão em estágios diferentes de preparação, sendo o Exército o mais adiantado. O SGB será parte ainda, segundo declarou o general Tiago no Congresso Latino-americano de Satélites, organizado pela Converge em outubro, de um programa espacial mais amplo, que envolve a construção e lançamento de satélites de observação, meteorologia e localização.

de pelo menos 2 toneladas cada, com capacidade para comunicação militar em banda X e transmissões de sinais banda larga em banda Ka. Mas não há certeza sequer se o primeiro satélite, previsto para 2014 (mas que tem como data mais realista, livre de pressões políticas, 2016) será apenas um, pois existe a possibilidade de que sejam dois satélites menores. Da parte militar, segundo o general Celso José Tiago, coordenador do projeto pelo Ministério da Defesa, a ideia é atender à Política de Defesa Nacional e à Estratégia Nacional de Defesa, instituídos pelo governo em 2009, o que por si só é uma missão complexa por envolver o monitoramento de uma gigantesca área de fronteira que cobre 27% do território nacional (como comparação, isso é o dobro da área de fronteira dos EUA), a Amazônia, o espaço aéreo brasileiro e, 8 Teletime nov_2011

Backhaul Da parte civil de telecomunicações, o projeto precisará atender o PNBL, especificamente as cerca de 1,3 mil cidades que hoje não têm planos de receber nenhum tipo de cobertura da Telebrás. Não é pouca coisa, considerando-se ainda que a maior parte dessas cidades fica em regiões de difícil acesso, sobretudo na região Norte. “O satélite tem uma capilaridade única e é resistente a catástrofes”, lembrou Maximiliano Martinhão, secretário de telecomunicações do Ministério das Comunicações. “O satélite deverá atender 24,4 milhões de pessoas em áreas remotas e não aglomeradas. E chegará a 1.283 municípios, que terão o satélite como backhaul. Enquanto a rede não chegar, (a banda larga) vai por satélite, com envolvimento de empresas públicas e empresas privadas”, disse. Uma palavra na frase de Martinhão deve ser especialmente destacada: back­ haul. Isso significa que o satélite não está sendo projeto para atender o usuário final, o que significa que não será um satélite do tipo HTS (High Throughput Satellite, ou satélite de altíssima capacida­ de), com várias células e potência. Ainda assim, não será um satélite pequeno. O que se sabe é que será um satélite em banda Ka (além da banda X para o uso militar), sem capacidade em banda Ku e banda C. Cerca de três ou quatro transponders, que corresponderiam a


aproximadamente 20% da capacidade do satélite, serão destinados à comunicação militar em banda X. Com isso, não será um satélite específico para aplicações de TV. A operação em banda Ka (cujas frequências vão acima da casa dos 25 GHz até 40 GHz) tem desafios adicionais em relação à atenuação atmosférica, o que é algo crítico em regiões muito chuvosas como a amazônica, onde estão boa parte das cidades em que o PNBL não conseguirá chegar por meio de fibra óptica. E para complicar, as características da chuva e nuvens nessa região, com grandes massas de água, podem representar um desafio adicional de engenharia. A questão da posição orbital também é crítica, pois disso depende uma cobertura mais ou menos eficiente da fronteira marítima. Hoje, se fala no mercado que o primeiro satélite geoestacionário brasileiro poderia ocupar ou a posição 48ºW ou a posição 75ºW, mas outras estão também sendo avaliadas. Se o satélite fosse apenas destinado à defesa, certamente não haveria questionamento em relação à consignação gratuita desta posição, mas algumas empresas privadas questionam como a Anatel tratará a questão considerando a participação da Telebrás no projeto.

“Existe uma demanda no mercado de pelo menos 360 Gbps que hoje não consegue ser atendida.”

Desconforto Para o mercado como um todo, a entrada de um player estatal não é algo confortável. Ainda que o governo sinalize que não pretende prestar serviços diretos à população, a Telebrás certamente será uma competidora para o mercado corporativo, que demanda capacidade satelital. “Existe uma demanda no mercado de pelo menos 360 Gbps em contratos que hoje não consegue ser atendida”, diz Paulo Kapp, diretor de tecnologia da Telebrás. Para Otávio Prates, presidente do Sindisat (sindicato das empresas de satélite), o projeto do governo de ter um satélite geoestacionário só mostra a relevância do setor e a importância da tecnologia. “Mas é importante lembrar que o Brasil é um dos mercados de satélite mais abertos no mundo, com empresas privadas nacionais e estrangeiras, e que nunca deixou de atender às necessidades brasileiras”. Para Manoel Almeida, presidente da Abrasat (Associação Brasileira de Ope­ radores de Satélite), é inegável que existe uma forte demanda pela capacidade satelital, mas ao longo do tempo a indústria

Paulo Kapp, da Telebrás sempre mostrou que tinha condições de atender às demandas. “Acho que esse projeto deveria ser uma parceria entre empresas e governo, com subsídios para compra de terminais e redução do ICMS”, diz. O Ministério das Comunicações argumenta que a demanda já existe e não está sendo atendida satisfatoriamente, sobretudo em regiões carentes de infraestrutura terrestre, e sugere que as empresas poderiam por exemplo aderir ao PNBL e oferecer acesso a R$ 35. Para as empresas, no caso de uma operação baseada em uso de satélite como backhaul, esse valor por uma conexão de 1 Mbps é inviável. A resposta da Telebrás é que ela operará com uma margem EBITDA menor, de cerca de 40%. Além disso, a aquisição do satélite será rateada com a Defesa e possivelmente a empresa integradora (ainda a ser definida) também aportará dinheiro ao projeto. E mais um detalhe importan-

não têm nem como ter acesso à Internet. A conta para essas pessoas não fecha sem reduzir imposto e dar subsídios. A questão hoje é a pressa: vamos esperar três anos, até o satélite brasileiro estar pronto, para atender a estas pessoas?”, questiona Russel Ribeiro, VP comercial da Gilat na América Latina. “O governo compra bem e poderia usar essa capacidade para alavancar a indústria”, disse o executivo. Enquanto isso, a indústria de satélites se mexe para assegurar que terá capacidade para atender à demanda existente, sobretudo para aplicações de TV. A SES está planejando para o final do ano a alocação de parte da capacidade de um mega-satélite de 124 transpônderes (o maior satélite comercial a ser lançado no mundo) para o Brasil. A StarOne conta com o lançamento do satélite C3 para o próximo ano e conseguiu mais duas posições orbitais na última licitação realizada pela Anatel em agosto. A Hispamar também terá um satélite novo em 2013, e a Intelsat está posicionando mais dois satélites para oferecer capacidade no Brasil. E mesmo a O3b, que poderia ter seus planos impactados pelo satélite geoestacionário brasileiro, já que tem como foco de operação justamente a Região Norte, está otimista. “Quando começamos ninguém achava que haveria interesse pela banda Ka, mas estamos em operação agora e acho que vamos conseguir comercializar os 10 GHz de capacidade que temos a oferecer”, diz Edwin Mercado, VP para América Latina da operadora. “Tenho certeza de que o mercado de satélites está mais maduro e competitivo, e todas as empresas têm capacidade de ajudar o governo em suas necessidades específicas e especializadas”, diz Lincoln Oliveira, presidente da StarOne.

Para o mercado como um todo, a entrada de um player estatal não é algo confortável te: a compra será pela Lei de Segurança Nacional, desburocratizada, o que permitirá ao governo barganhar condições melhores com os fornecedores. Mas o projeto do SGB, do ponto de vista do mercado de telecomunicações, deve afetar pelo menos um grande projeto do governo, o Gesac, que representa um projeto de pelo menos R$ 60 milhões ao ano, fora a perspectiva de que o satélite também possa ser utilizado para a interligação de órgãos públicos, como está no planejamento financeiro da Telebrás. Invenção “No Brasil, a gente tenta reinventar a roda, mas não devia. O Brasil e a América Latina têm feito um grande esforço para suprir o gap digital. Só em Gesac há 27 mil pontos apenas com a Gilat. Mas há 30 milhões de pessoas que nov_2011 Teletime 9

Capacidade Na última rodada de licitação para posições orbitais, o grande destaque foi dado aos valores finais arrecadados pela Anatel e aos ágios praticados. O que pouca gente se deu conta, aponta João Carlos Albernaz, gerente geral de satélites da agência, é para a brutal expansão da capacidade dos satélites brasileiros, caso os projetos técnicos apresentados se


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concretizem de fato. Ele fez também um balanço do processo de abertura do mercado de satélites no Brasil, e lembrou que, se em 1998 havia quatro satélites brasileiros e quatro estrangeiros operando no Brasil, hoje são oito nacionais e 32 estrangeiros, ressaltando que nacionais são aqueles com posição orbital brasileira e operados a partir do território nacional. Essa expansão trouxe ainda um salto de mais de quatro vezes na capa-

até 2009 para a capacidade depois da licitação deste ano é de 100%, o que mostra que as empresas estão entrando com satélites de maior capacidade. Hoje, sem contar a capacidade que será instalada a partir da licitação deste ano, a capacidade em satélites brasileiros é de 42,9% da capacidade disponível para operação no país, diz Albernaz, já que os satélites estrangeiros têm cerca de 13.450 MHz de banda ofertada para o Brasil. E a agência pretende licitar novas posições a partir de 2012, informa a Anatel.

“Vamos esperar três anos, até o satélite brasileiro estar pronto, para atender a estas pessoas?” Russel Ribeiro, da Gilat cidade instalada, contando apenas os satélites nacionais. Em 1998, a capacidade era de 5.022 MHz e em 2011, com a licitação realizada, irá a 22.506 MHz, fora mais 2.500 MHz em banda Ka. E a diferença entre a capacidade prevista

O desafio da contratação

Para o projeto brasileiro acontecer, ele precisa sair do papel. Aí que está o problema.

Q

uando os militares começaram a trabalhar no projeto de um satélite para as necessidades de defesa do Brasil, certamente não pensavam que estavam comprando apenas uma bala de canhão. Mas também não poderiam imaginar a complexidade que o projeto acabou adquirindo por conta dos múltiplos interesses que agora precisa conciliar. A primeira novidade foi incluir o Plano Nacional de Banda Larga no projeto, algo que não estava previsto nos primeiros esboços, assim como elementos da Política Espacial Brasileira, coordenada pela AEB. A decisão sobre o projeto multidisciplinar foi tomada pela presidenta Dilma Rousseff em setembro apenas. O elemento mais complexo para a viabilização do projeto é fazer tudo e ainda assegurar a transferência de tecnologia. Isso porque a outra experiência que o Brasil teve com tecnologia para satélites geoestacionários foi o projeto Brasilsat, da Embratel, nos anos 80, quando o país fechou a contratação do satélite junto à canadense Spar (que usava tecnologia Hughes) com lançador Ariane. A maior parte do know-how adquirido no projeto ficou com a Embratel/StarOne, depois privatizada, ainda que técnicos da empresa refutem o argumento de “mexicanização” do satélite nacional e garantam que ainda são brasileiros que operam

os satélites e que todo o centro de controle está instalado no Brasil. Para o SGB, o modelo mais provável de transferência de tecnologia é o de contratação de uma empresa nacional, possivelmente uma joint venture entre Telebrás e Embraer. A Embraer foi indicada depois de estudos da Agência Espacial Brasileira, e apontada como a mais adequada por já ter escritórios em todo o mundo, grande experiência de integração de tecnologias na fabricação de aviões e capacidade de investimento, já que os recursos orçamentários só seriam liberados em 2012, mas algumas compras precisariam começar a ser feitas este ano para viabilizar o lançamento do primeiro SGB ainda em 2014. Até o fechamento desta edição o acordo para a constituição da empresa integradora não estava fechado, e apostava-se que outras empresas, como a Mectron (ligada ao grupo Odebrecht), poderiam participar. O que pesava contra o fechamento da parceria é que a Embraer exigia controle da nova empresa e ainda avaliava o interesse estratégico do negócio. Já a Telebrás exigia golden share e uma substancial contrapartida financeira do sócio. O ministro de Ciência e Tecnologia, a quem a AEB está vinculada, chegou a anunciar o fechamento da parceria, mas o fez antes dos termos finais estarem acertados. De qualquer maneira, é certo que a transferência de tecnologia será feita para uma empresa. “Queremos que esse seja um projeto de Estado, e por 10 Teletime nov_2011

isso é importante que a tecnologia fique com brasileiros, com empresas brasileiras”, disse o general Celso Tiago, do Ministério da Defesa, durante o evento promovido pela Converge. O segundo desafio é o prazo, já que colocar um satélite no ar em 2014, com todo o desafio de projetar, encomendar, montar o satélite, ajustá-lo, preparar o lançador, o seguro e colocar o equipamento em órbita é em geral uma missão para pelo menos três anos. O governo se fia no fato de que o projeto já está andando há algum tempo. “O prazo é muito apertado, mas ainda é possível (cumprir). Parte do projeto já está bastante avançada porque o trabalho não vem de hoje. Além disso, já fizemos uma RFI confidencial para algumas empresas fornecedoras e a contratação de algumas partes do satélite deve ser feita ainda este ano”, disse Paulo Kapp, da Telebrás. Sem tecnologia É uma posição praticamente consensual de que o primeiro satélite, a ser lançado em 2014, terá muito pouco de sua tecnologia transferida para o Brasil, mas há ainda a expectativa de que pelo menos parte dela seja absorvida pelo integrador nacional, diz o general Tiago. Para Laurent Mourre, gerente geral da Thales para o Brasil, a transferência de tecnologia é sempre uma questão que passa por um aspecto político de quem detém a tecnologia, uma questão orça-


mentária, uma componente de tempo e a capacidade de absorção de quem contrata. A Thales é uma empresa francesa que construiu boa parte dos satélites geoestacionários em operação hoje. Segundo Mourre, da parte do governo francês, não existe nenhuma restrição para que a tecnologia francesa seja transferida ao Brasil. “Isso está claro no projeto do submarino nuclear ou na venda dos caças para a Aeronáutica” , mas ele ressalta que a componente de tempo é complicada para que haja transferência de tecnologia já nesse primeiro satélite geoestacionário a ser lançado em 2014. Há quem aponte a Thales como a mais forte candidata a fornecedora, já que tem relações antigas com a Embraer, de quem já foi sócia, e o Brasil e a França estão com laços estreitos em outros projetos críticos para a defesa (como a construção do submarino nuclear brasileiro ou a renovação da frota dos caças da Aeronáutica, em que os franceses ainda são vistos como favoritos). Mas outras empresas estão de olho, como a própria Alcântara Cyclone Space, uma joint venture entre Brasil e Ucrânia para o desenvolvimento do foguete Cyclone 4, um lançador de médio porte capaz de colocar em órbita geoestacionária satélites de até 1,7 tonelada.

“Queremos que esse seja um projeto de Estado, e por isso é importante que a tecnologia fique com brasileiros, com empresas brasileiras.” General Celso Tiago, do Ministério da Defesa Dois em um Segundo Sergiy Guchenkov, diretor da binacional, com o orçamento previsto pelo Brasil (cerca de R$ 716 milhões) seria possível construir dois satélites menores que atenderiam perfeitamente a capacidade militar e civil do SGB e que ainda poderiam ser lançados pelo Cyclone 4, o que garantiria ao Brasil a possibilidade de absorver plenamente inclusive a tecnologia de lançamento. Ele garante que o Brasil teria condições de acompanhar toda a montagem no País e ainda coordenar o lançamento a partir de Alcântara (MA), e que o fato de serem dois satélites daria 100% de redundância para a operação em banda X e atenderia o PNBL. A proposta foi reforçada pela recente visita ao Brasil do presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, que inclusive se comprometeu com a presidenta Dilma a colocar em dia o aporte de seu país ao projeto da ACS. O Brasil já investiu R$ 218 milhões na parceria, mas a Ucrânia destinou apenas R$ 98 milhões

à joint venture, que prevê investimentos totais de R$ 1 bilhão. Segundo fontes da ACS, o lançamento pelo Cyclone 4 poderia custar US$ 50 milhões, contra 160 milhões de euros de um lançamento pelo Ariane ou US$ 130 milhões para um lançamento pelo Proton. A proposta da ACS será apresentada ao Ministério da Defesa e à Telebrás no mês de novembro. Enquanto isso, o governo anunciou um grupo de trabalho que estudaria o assunto até o final do ano, mas que ainda não foi criado formalmente. Segundo fontes do governo, mesmo que o modelo de integração por meio de uma joint venture entre Embraer e Telebrás não saia do papel, o projeto vai sair de qualquer forma. “Temos um plano B e um plano C já desenhados, nem que para isso tenhamos que comprar tudo fora e colocar o satélite no ar sem incorporar muita tecnologia, pelo menos nesse primeiro lançamento”, diz uma fonte, lembrando que na escala de prioridades, a primeira é atender aos interesses da defesa e depois do PNBL.

A aposta na banda Ka

O

Brasil começa a entrar na era da banda Ka e dos satélites de alta capacidade (HTS). O primeiro exemplo é a O3b, com projeto já na anunciado nesta frequência, mas ainda com capacidade apenas para backhaul. A Hughes, por sua vez, deve ser a primeira a entrar com um modelo de oferta de banda larga por meio de satélites diretamente ao consumidor usando a banda Ka. É isso o que explica o interesse da empresa na última licitação de posição orbital brasileira realizada pela Anatel. Apenas pela posição 45ºW, a mais bem posicionada para o Brasil, a empresa pagou cerca de US$ 90 milhões, o que é um quarto do custo total de um sistema típico de satélites. “Parte da nossa charada foi desvendada. Meu business não é apenas para a oferta de capacidade satelital. A Hughes já foi, no passado, uma empresa desse mesmo tipo que apenas vende capacidade. Mas hoje, os satélites que temos são para o nosso uso”, diz Délio Morais, presidente da empresa no Brasil. Para Jurandir Pitsch, diretor geral da SES (uma das empresas que está explorando mais ativamente o mercado de banda Ka na Europa), o fato de se prestar o serviço diretamente ao consumidor muda toda a equação de custo de um satélite. “Uma coisa é vender apenas capacidade. Outra é entrar na prestação do serviço”. Ele lembra, contudo, que ainda é preciso regulamentar a oferta de serviços em banda Ka no Brasil. Para João Carlos Albernaz, da Anatel, a grande vantagem de uso da banda Ka é que ela praticamente não apresenta problemas de

interferência nem com transmissões terrenas nem entre satélites, já que ainda é pouco utilizada. Essa é uma das razões pelas quais, aliás, o SGB será em banda Ka. Na Europa, o modelo comercial da SES oferece serviços de acesso de até 10 Mbps de download e 512 kbps de upload ao consumidor final com uma antena de 75 cm. O terminal, explica Armin Neumaier, VP comercial da SES na Europa, custa cerca de 200 euros em uma operação em banda Ka, e o modelo é o de auto-instalação, o que pode ser um problema dependendo da regulamentação de cada país. A SES tem 80 mil assinantes na Europa do serviço. A Hughes planeja lançar nos EUA um satélite com capacidade de 100 Gbps para ofertar o serviço ao consumidor final. Parte para compensar um erro de estratégia cometido nos primeiros lançamentos, em que a capacidade ficou apontada para as áreas mais remotas, mas a demanda pelo serviço em banda Ka veio dos grandes centros, para surpresa da Hughes. Morais não comentou (e também não desmentiu) a possibilidade de uso do satélite da Hughes para uso em um DTH próprio no Brasil. A Hughes é controlada pela Echostar, que por sua vez tem o magnata Charles Ergen como controlador. Ergen também é acionista controlador da Dish, principal competidora em DTH da DirecTV nos EUA. “Banda Ka é o nome do jogo. O drive é que agora há uma maneira rentável e efetiva de atender ao mercado consumidor pessoa física”, disse.

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.:entrevista

Samuel Possebon

samuca@convergecom.com.br

Guerra nas estrelas

TELETIME O que fez o mercado crescer esses anos todos? LUIZ EDUARDO BAPTISTA Pri­mei­ ro, o Brasil ficou caro e a TV paga ficou, relativamente, barata. Se você for ao cinema sozinho vai gastar entre cinema, estacionamento e pipoca R$ 40. Por R$ 49,90 na Sky você assina o mês inteiro. Essa relação era outra há dez anos, quando o cinema saia por R$ 15 e a TV paga por R$ 100. Houve um xis, um cruzamento das curvas. Por uma série de movimentos econômicos o nosso produto ficou mais barato, depois de uma renegociação com os programadores, o reempacotamento, o ajustes das margens. Mas não me venha um deputado que nunca mexeu com isso dizer que o preço da assinatura vai cair porque tem uma lei nova. Esses caras vivem em um mundo do Papai Noel. Isso é desonestidade intelectual, porque não tem um fato que suporte essas teorias. Existe risco de o novo marco legal levar a uma desaceleração do mercado? Não continuará crescendo no mesmo ritmo porque o mercado está se ajustando a um novo cenário macroeconômico. Talvez não cresça mais 30% ao ano, cresça 20%. Mas na hora que entrarem as cotas, as assinaturas vão ficar mais caras. Não sabemos ainda quão sensível essa classe média vai ser a mais R$ 8 ou R$ 10 por mês em sua mensalidade. Pelo menos 30% ou 40% do nosso crescimento será afetado.

cotas, com os preços que estão surgindo, as assinaturas vão aumentar. Está cheio de esperto querendo vender canal a “apenas” R$ 1 ou R$ 2 por assinante, o que é uma fábula no nosso negócio. Para levar mais meia dúzia desses canais, alguém vai pagar a conta. E te adianto que não vamos pagar, a Sky não vai, assim como a Oi, a GVT, a Telefônica não vão pagar. Isso vai ser repassado.

foto: divulgação

O

mercado de TV por assinatura tem crescido a taxas de 30% ao ano, mas a Sky, única operadora a não ter nenhuma relação com empresas de telecomunicações, cresce quase 40%. Com mais de 3,5 milhões de assinantes, a operadora se aproxima dos 30% de market share e tem ajudado a puxar o crescimento do mercado de DTH no Brasil. Nesta entrevista, o presidente da operadora, Luiz Eduardo (Bap) Baptista, fala sobre as consequências do novo marco legal da TV paga, da competição com as teles, dos seus planos para a banda larga e para serviços over-the-top (OTT) e das perspectivas do mercado.

Luiz Eduardo (Bap) Baptista

A expectativa do governo era a de que os preços caíssem ainda mais? Eu estou crescendo 40% ao ano, e em ARPU eu garanto que sou o líder do mercado. Não venha me dizer que é porque o PLC 116 passou que o preço da TV paga vai cair. O preço caiu 50% em valores reais nos últimos três anos sem o governo fazer nada, e caiu porque passamos dois anos brigando com os programadores e mudamos algumas condições ruins que haviam. Todo o mundo lançou pacotes mais baratos, sem obrigações de carregamento, sem obrigações financeiras e mudamos o modelo de negócio. Os preços atuais cobrados nos pacotes básicos são viáveis? Abaixo de R$ 39,90 não existe vida em TV paga. Só bobos que não entendem do assunto dizem que TV paga vai crescer por conta da lei. Escreva o que eu falo: quando começarem as

A Sky pensa em apostar em con­ teúdos nacionais? Se o assunto é atual, relevante, eu adoraria patrocinar. Tem gente competente que precisa de apoio ou ajuda e quando você apoia gera-se um ciclo virtuoso. Mas como é que vai funcionar o modelo agora? É uma caixa preta. A Ancine decide o que é bom ou não. Não tem ninguém na Ancine que já tenha trabalhado em televisão, que entenda desse mercado. Ao invés de fomentar, vai controlar. O fato de ser empresa de telecom impediria vocês de produzirem conteú­ do. Mas se não houvesse a limitação legal, vocês teriam interesse? O fato de eu não poder produzir é bastante questionável, acho que seria contornável. Mas não vou produzir conteúdo porque eu entendo disso e sei o tamanho da encrenca. Nos EUA a DirecTV (do mesmo grupo controlador da Sky) gasta uma fortuna na aquisição de direitos exclu­ sivos, isso é um diferencial. Aqui isso não vai acontecer? Aqui isso não será possível, infelizmente. O fato de eu não poder prejudica o mercado, porque era um direito legítimo. Mas dado que vale para todo mundo, tudo bem, que vença o melhor. Como você vai se comportar se, de um lado, tiver uma cota de conteúdo brasileiro para cumprir e de outro,

Abaixo de R$ 39,90 não existe vida em TV paga. Só bobos que não entendem do assunto dizem que TV paga vai crescer por conta da lei.” 12 Teletime nov_2011


um programador que peça um preço que você considere elevado? Não vou pagar. Não tem uma linha na lei que diga que eu tenha que pagar qualquer preço, então não pago. Mas, em todos esses casos, vou colocar na imprensa quanto é que estão cobrando. Se disserem, “a Sky não quer levar o meu canal”, vou dizer, “realmente, por R$ 3,50 por mês por assinante, estou declinando”. Porque esse custo com imposto vai a R$ 4, custo de operação coloca mais R$ 3, isso sem falar na minha margem. Não acho que um assinante vai pagar R$ 10 a mais para ter um canal desses. Se o produto é tão bom, vou propor para esse canal um modelo de revenue share: eu abro espaço, cobramos R$ 15 e dividimos a conta. Mas ninguém vai topar esse modelo, porque a lei diz que tem que estar em pacote. Existe a máxima de que no Brasil há leis que não pegam. A política de cotas sofre esse risco? O objetivo principal das teles ao apoiar o projeto era o de resolver problemas societários, mais do que qualquer outra coisa. Esse boi vai ter que ser digerido em 2012, e tem muito trabalho para ser feito. Vão ter que fazer escolhas. O preço não vai cair mais e o mercado já está crescendo. Em relação às cotas, espero que todo o mundo cumpra o que foi colocado na lei. Não gostaria de ver quem tem 20 mil PADOs na Anatel repetindo a situação com a Ancine. Espero que a agência do cinema faça essas regras serem cumpridas, que seja mais rígida do que a Anatel tem sido. A Sky não tem um PADO contra ela e vai continuar não tendo. Mas não vamos, por isso, ceder a qualquer picareta que venha pedir preços exorbitantes apostando em uma reserva de mercado que julgamos, inclusive, inconstitucional. Vocês vão à Justiça? É uma decisão da empresa que só vamos divulgar depois de fazermos. Mas não vamos ficar de braços cruzados. É uma falácia dizer que essas cotas vão democratizar o acesso, reduzir preço. Vamos nos defender até as últimas consequências. Se a Justiça decidir que está tudo certo, vamos cumprir. Nesse cenário não se abre uma bre­ cha para serviços over-the-top, que não são afetados pela lei?

Essa discussão de over-the-top tem sido feita muito em cima de tecnologia, e isso é errado. O ponto focal é o consumidor. Existe biscoito, chocolate, Nescafé e Coca-Cola em uma loja de conveniência, mas ninguém faz compra do mês lá. A experiência da DirecTV com a Netflix mostra que não se perdeu nenhum assinante. E quase 40% da base da DirecTV nos EUA assina Netflix. Ou seja, é um serviço absolutamente complementar. É mais uma questão de conveniência e comodidade do que um novo modelo de negócios, que vai acabar com o anterior. Você não poderia ser over-the-top sobre a banda larga dos outros? E quem te disse que não vou ser? Isso vai acontecer em um ano ímpar. Façam suas apostas. Quando for lançar um negócio desses, vai ser muito melhor do que o Netflix ou do que o Now. Qual a dificuldade? Direitos? Esse é um dos problemas. Tem a questão da qualidade, porque o produto tem que ser bom. Mas não é isso que vai pavimentar o crescimento da Sky no

A Netflix paga imposto na Califórnia. Esses sim surfam na onda de crescimento do Brasil, no nosso mercado consumidor, sem dar contrapartida.” futuro. Um modelo OTT vai ajudar a defender o meu core-business. Eu posso fazer, então não tem porque deixar esse dinheiro na mesa para a Netflix. Com uma diferença: estarei no Brasil, gerenciando tráfego daqui, gerando impostos no Brasil. Porque a Netflix é uma empresa listada na bolsa que não paga impostos no Brasil. Eu queria chamar a atenção das autoridades, nós geramos empregos aqui, pagamos impostos aqui. A Netflix paga imposto na Califórnia. Esses sim surfam na onda de crescimento do Brasil, no nosso mercado consumidor, sem dar contrapartida. A nova legislação não cobre esses operadores... Não cobre, mas deveria. Deveria obrigar esse tipo de serviço a pagar imposto onde foi consumido. Se é no Brasil, paga aqui, como aliás o Skype faz. Era uma brincadeira, mas eles se ajustaram a isso para poder virar um negócio decente e respeitado. nov_2011 Teletime 13

O modelo a ser praticado é o da Netflix? Se o consumidor tem um cardápio com 10 mil opções, fica sem referência, olha, olha e não consegue escolher. O que eles têm é acervo. Com 500 títulos bem selecionados de acervo, é possível ser muito competitivo. A Sky tinha 30 canais de PPV e faturava “x”. Hoje tem 12 canais de conteúdos on-demand e faturo oito vezes mais. Todo o mundo quer blockbuster na sexta-feira, porque é uma decisão da família. O que vende é filme de ação ou comédia romântica. Não adianta colocar “Poderoso Chefão”, porque só 200 pessoas compram, contra 20 mil do blockbuster. Nosso negócio é short-tail com compromisso de qualidade na biblioteca. Vocês estão para lançar um serviço de banda larga. Qual a proposta? Há cinco anos diziam que a gente ia desaparecer porque não tínhamos banda larga. O mundo mostrou que não era bem assim. A banda larga virou commodity, e a realidade é que hoje o pacote combinado não é mais relevante. Garanto que ganho assinante da Net em São Paulo todos os meses, porque os assinantes já estão vendo que o melhor é comprar a banda larga da Net, o telefone da Telefônica e a TV por assinatura da Sky. Quando o combo tinha R$ 80 de desconto, valia a pena comprar tudo com a Net. Hoje esse desconto é de R$ 10, então não vale mais a pena abrir mão do serviço. Mas a nossa banda larga é uma estratégia interessante para ver como vai funcionar a entrega de conteúdos em outras plataformas. Podem existir restrições legais ou operacionais que precisam ser entendidas. A Netflix está entupindo as artérias de banda larga nos EUA. Uma hora virá alguma coisa para controlar isso. A rede vai deixar de ser neutra? Isso é uma coisa, mas é preciso entender a dinâmica dos pontos de troca de tráfego entre empresas de telecom... A Netflix, aliás, não troca nada com ninguém, ela só usa banda. Isso vai gerar uma situação incômoda ao mercado. Acredito que temos que ter um pé em distribuição de conteúdos por banda larga, por meios físicos, para entender o que é. Isso é um movimento defensivo, mas sei que se oferecer banda larga com qualidade vou ganhar mercado dos outros.


.:entrevista

Por isso a operação só em Brasília? Vou expandir em cima dessa experiência. Temos (operações em) mais 11 cidades além de Brasília, inclusive Belo Horizonte, Belém, Goiânia. Vamos investir para fazer essas redes, assim como investimos em TV por assinatura. Ninguém sabe, mas a Sky investiu em 2011 US$ 1 bilhão no Brasil. Em que? Basicamente em caixa (set-top box) e rede. Mas é um número que a gente não divulga. Se tivermos que colocar US$ 50 milhões em uma rede de banda larga, isso será feito, porque se esse é o custo que qualquer concorrente meu teria, estamos em condições iguais. O problema é que se o governo me cobra de licença para fazer banda larga na faixa de 2,5 GHz um valor absurdo, está desequilibrando o mercado, e isso pode nos prejudicar. E por que a opção por usar a infra­ estrutura da Telebrás? Foi absolutamente comercial. Conversamos com eles, disseram que teriam uma oferta competitiva, pediram para participar e demos essa chance, e a proposta que veio foi melhor, eles ganharam. O preço oferecido pela Telebrás foi inicialmente muito inferior ao das empresas de telecom. Depois que eles ganharam, as teles vieram me dando 50% de desconto, abaixo até do que a Telebrás pediu. Por que? É um deboche, um escárnio uma empresa de telecom te dar um preço e depois oferecer 50% de desconto para fechar. O pior é que esse tipo de player que uma Anatel acaba protegendo. Falta competição no mercado? Essa é a prova. É irrelevante quem controla a empresa, se é estatal ou não.

tratar funcionários nossos. É mais um player, que venha competir. Não vejo nada de novo. Não adianta chamar a imprensa e dizer o que fará, tem que fazer antes.

foto: divulgação

Além disso você vem com uma tec­ nologia ainda não testada, que é o TD-LTE... Verdade, a tecnologia é nova e não tenho experiência na exploração de banda larga, mas nos impor preceitos de qualidade, não deixar a rede deteriorar, vamos manter um patamar de velocidade média elevado e tentar fazer um produto condizente com a nossa imagem em TV por assinatura. Se não conseguirmos, vamos sair fora, para não comprometer a marca. Não vamos vender 10 Mbps e entregar 1 Mbps.

os assinantes já estão vendo que o melhor é comprar a banda larga da Net, o telefone da Telefônica e a TV por assinatura da Sky.” Como pode uma empresa recém estabelecida competir com quem está no mercado há 12 anos, com um preço muito mais competitivo? A DirecTV passou a dar mais importância para a América Latina ultimamente? Acho que a decisão nunca aconteceu dessa maneira. Começou a jorrar petróleo no mercado latino-americano e eles viram a oportunidade. Nunca houve uma aposta de longo prazo, estratégica, na América Latina. Tanto é que quando o Murdoch comprou a DirecTV, a América Latina veio meio que como uma imposição para ele poder levar a operação norte-americana. Só que a coisa deu certo por aqui. E a estratégia da GVT para TV por assinatura, como vocês avaliaram? Sempre dissemos que não era por conta da lei que as teles iam entrar em TV paga. Todos já estão nisso com o DTH, porque essa é a melhor forma de fazer TV por assinatura. Quem provou isso fomos nós. A GVT está entrando com essa mesma estratégia, copiando os features que a gente tem, tentando con14 Teletime nov_2011

Você deu uma entrevista ao Estadão dizendo que faria banda larga no Brasil todo e investiria R$ 12 bilhões, ou coisa assim... O que disse naquela ocasião é que investiria isso se me deixassem. A Oi dizia que precisava de R$ 30 bilhões para fazer. Eu faria por metade do preço. Não dá para querer ter proteção do Estado, reserva de mercado e dinheiro público. Não temos um centavo de dinheiro público. A Sky nunca cresceu tanto depois que as teles entraram em DTH. A Oi dizia que teria 8 milhões de assinantes em 2011, se não me engano. Cadê? Você reduziu preços por conta dessa concorrência das teles, sobretu­ do da Via Embratel? Reduzimos preço porque tinha peixe no lago para pescar. Tinha dinheiro sobrando da classe C. Eles romperam a barreira. Nos últimos 15 anos se combateu a pobreza, a distribuição de renda mudou e surgiu um outro Brasil comprando coisas. Tem risco desse novo mercado parar de consumir? Não vai parar. Temos no Brasil um bônus demográfico importante, nos últimos dez ou 20 anos a população dobrou e o número de lares triplicou. É mais gente jovem trabalhando, nível de desemprego baixo e, mesmo que aumente, não vai parar o consumo desse pessoal todo. O Brasil pode não ter plantado essa árvore, mas está colhendo os frutos e vai ficar por muito tempo explorando esse mercado interno. Temos pelo menos oito ou dez anos de crescimento consistente pela frente. Poderia ir melhor se houvesse uma preocupação de fomentar a competição, daria para avançar 25 anos em dez, mas não temos do que reclamar. Existe margem razoável? Você disse que não havia vida abaixo de R$ 39,90. Nós ainda temos gás para brigar, mas não posso falar por nossos concorrentes. A Embratel por exemplo, diz que cresce e o resultado só piora. Come e


.:entrevista faixa, porque sairia mais barato operar em frequências mais baixas. Esse movimento de tentar adiar o leilão da faixa de 2,5 GHz é reflexo disso. Adiar isso é adiar a competição.

foto: divulgação

está perdendo peso, tem algo errado. A GVT, para entrar com HD como está prometendo, vai acabar com a margem que ela construiu com a banda larga, pode apostar, porque sei quanto custa o que querem fazer em HD. O payback disso é de 20, 21 meses. Se o produto for um sucesso, vai destruir o caixa da empresa. Se for um fracasso, não deu em nada. Quando você fala em fomentar a competição, quer dizer o que? O governo tem que liberar tudo para todo mundo, deixar o pau comer. Pode colocar algumas obrigações, é claro, mas deixa a coisa solta. Usa o BNDES como banco de fomento. A Sky vai migrar para o Serviço de Acesso Condicional, o SeAC? Não sabemos ainda. Vai depender da nossa experiência e do mercado. Faria sentido se soubéssemos que seria um mercado perfeitamente competitivo. Posso decidir daqui a um ou dois anos, não preciso fazer isso agora. A adaptação dos pacotes já está planejada? Vou precisar de um novo satélite para isso, hoje temos dois satélites, sendo um de backup em conjunto com o México, mas eles terão um novo satélite em fevereiro e ele pode virar todo para o Brasil, é uma possibilidade.

De cada US$ 2 que a Net gasta de Capex, US$ 1 é para melhorar a rede. No meu caso, 95% do nosso investimento é para gerar receita incremental.” então acho que veremos a banda Ka chegando ao Brasil por aí.

Foi por isso que vocês estavam dis­ postos a pagar tanto pela posição orbi­ tal que disputaram com a Hughes (a Sky forçou a Hughes a subir o lance até US$ 90 milhões)? Vai fazer falta? Se tivéssemos levado a posição a esse preço, empatava em termos de custo em relação a contratar de terceiros, então para a gente tanto faz. Se pagasse menos, valia a pena ter um satélite próprio. A DirecTV nos EUA tem dez satélites, parte próprios, parte alugados. Mas o nosso negócio é entregar vídeo, e para isso precisa de banda sempre.

O modelo de evolução do produto da Sky está muito baseado em set-tops mais sofisticados. Isso não é um consu­ midor infinito de investimento? Não damos nada de graça para ninguém. Sempre que trocamos as caixas, isso se paga. Se tivéssemos que fazer upgrade de rede, isso seria um problema, porque o consumidor não vai pagar mais para você modernizar a sua rede. Mas quando você troca a caixa, pode agregar serviços que paguem o investimento. De cada US$ 2 que a Net gasta de Capex, US$ 1 é para melhorar a rede. No meu caso, 95% do nosso investimento é para gerar receita incremental.

Banda Ka faria sentido para operar banda larga ou mesmo vídeo? Acho que não. Nos EUA, há alguma coisa em banda Ka, mas eles já têm mais de dez satélites. Aqui temos um, não faria sentido ainda. Mas outros players podem querer fazer outros serviços além do vídeo, como banda larga,

Vocês têm planos de comprar ope­ radoras com espectro ou comprar mais espectro? O leilão de 2,5 GHz é uma oportunidade? Tem uma dinâmica por trás, preços a serem avaliados etc. Sobre o 2,5 GHz nós sempre dizíamos, quatro anos atrás, que as teles não tinham interesse real nessa 16 Teletime nov_2011

O que vai acontecer com o leilão? Acho que para as teles, tanto faz entrar ou não na disputa, porque não precisam dessa faixa para nada. E se alguém entrar pagando uma fortuna, vai se inviabilizar a competição. Infelizmente, a consequência da ação da Anatel de colocar o preço do espectro lá em cima é contra o cidadão, compra a competição. Posso ter interesse em casos pontuais, específicos, e nunca fazer banda larga popular. Aliás, o discurso do governo de banda larga popular não tem respaldo nas práticas da Anatel. Quem ganha são sempre as teles, ou porque nada se decidiu, ou porque podem ficar mais dois anos sem investir na rede, ou porque atrasou em mais três anos a entrada do competidor. A Anatel é culpada? Não, mas é responsável. Muitos operadores pequenos recla­ mam que os instaladores de vocês ati­ vam pontos extras em casas de dife­ rentes assinantes e que isso preda o mercado. Vocês já detectaram isso? Sim, mas te garanto que quando a gente pega, elimina esse instalador da nossa base. O próprio assinante já está denunciando isso. Recebemos 100 a 150 denúncias por mês de assinantes que veem um vizinho tirando vantagem de um esquema como esse e vamos atrás. E a pirataria de caixas, que parece cada dia mais sofisticada, preocupa? É verdade, está ficando cada vez mais sofisticada. O cardsharing é um tipo de pirataria muito sério, mas para funcionar exige um grau de conhecimento do usuário e uma complicação operacional que limitam a sua abrangência. Além disso, o serviço pirata já não está mais valendo a pena financeiramente. Quando o nosso produto custava dez vezes mais que o pirata o usuário tinha atrativo para ficar com o serviço ruim. Hoje, isso não acontece mais. A pirataria vai morrer pelo preço da TV paga. Não estamos parados, sempre vamos mexer na tecnologia, atuar com a polícia e com a Anatel para reprimir os piratas. Hoje a pirataria é muito menor do que já foi. 


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.:Convergência

Letícia Cordeiro

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Conteúdo para viagem

Operadoras, programadoras e canais fazem as primeiras experiências rumo à TV everywhere e percebem a complexidade de mudar o modelo tradicional da TV paga.

O

modelo de TV everywhere, no qual a entrega de conteúdo pode ser feita nas mais diferentes telas, como TVs conectadas, computadores, tablets e smartphones, além, é claro, da própria TV por assinatura convencional, é relativamente novo e está operacional apenas em mercados onde a TV paga está em um estágio mais maduro, como EUA e alguns países da Europa. No Brasil, operadoras, programadoras e canais começam a se preparar e as primeiras experiências nessa direção já ganham forma. O modelo foi desenvolvido pelas operadoras de cabo e DTH dos EUA como uma resposta a modelos não lineares de entrega de conteúdo, como Netflix e Apple TV. O princípio é simples: uma vez assinante de um conteúdo no modelo tradicional, o usuário pode consumir aquele conteúdo em qualquer meio, de forma online. A entrega de programação em múltiplas telas é uma tendência, e apesar de o mercado ter pouca experiência para dizer exatamente como será esse modelo, algumas características parecem já estar bem estabelecidas. Por exemplo, a distribuição via streaming, em vez de download de conteúdos, parece ser a tendência em todas as principais operações, assim como a autenticação do usuário sendo feita pela operadora de TV por assinatura. Ou seja, quem é o responsável pelo relacionamento com o cliente é sempre o operador, e não o provedor de conteúdo. Isso independentemente do serviço ser provido pela prestadora de TV paga ou pela programadora, como é o caso de serviços como o Muu, da Globosat, e o ESPN360, da Disney & ESPN Media Networks, que são as primeiras experiências concretas de TV everywhere presentes no Brasil. Outra solução que vem sendo adota-

d a por operadores de TV por assinatura do mundo todo é o uso de terminais móveis como segunda tela, com conteúdos complementares ao que se está assistindo na televisão, integração com redes sociais e até mesmo função de controle remoto e loja online para compra de produtos associados a determinados programas. O conceito é simples, mas sua implementação, nem tanto. A parte menos complicada é fazer o streaming de conteúdos direto para a televisão do assinante de TV paga, o que nada mais é do que o modelo de vídeo sob demanda já bastante consolidado no mercado mundial de TV por assinatura e que no Brasil está disponível em operadoras como Net Serviços e Telefônica/TVA. Entregar os conteúdos em outras telas, entretanto, implica vencer algumas barreiras. Em primeiro lugar os conteúdos devem ser formatados, com codificações distintas para os diferentes tamanhos de telas e plataformas. O diretor de operadoras da Cisco do Brasil, Rodrigo Dienstmann, explica que, tipicamente, cada conteúdo é formatado para cada um dos sistemas operacionais e, para cada um desses sistemas, são feitas de 4 a 16 codificações diferentes para que se adapte aos diferentes tamanhos de tela. As redes, por sua vez, precisam estar 18 Teletime nov_2011

preparadas para suportar o tráfego de tais conteúdos. Dienstmann lembra que para as operadoras é fácil controlar a qualidade dos conteúdos quando a distribuição é feita dentro da sua rede, mas para entregar em outros dispositivos fora da rede doméstica, será preciso usar a Internet para o transporte. “No Brasil temos 11 milhões de conexões banda larga, mas a qualidade e a velocidade variam muito. Hoje é possível ter uma qualidade muito boa até mesmo com baixas velocidades, mas depende do conteúdo. Conteúdos de esporte, por exemplo, que não têm um fundo estático, não se pode comprimir tanto sem perda significativa de qualidade”, explica. Uma maneira de garantir a qualidade do conteúdo e reduzir o impacto da transmissão nas redes é a implementação de uma CDN (sigla em inglês para rede de distribuição de conteúdos), que leva os conteúdos o mais próximo possível do usuário final. “Economiza dinheiro para a operadora e melhora a experiência do usuário”, garante o executivo da Cisco. Este modelo espalha os servidores que distribuem os conteúdos de vídeo em diferentes pontos da rede. Outro ponto que exige atenção é a segurança e a remuneração do conteúdo. “A indústria de produção está focada em criar conteúdos de qualidade, diferenciados e segmentados, e para convencê-la a colocá-los na nuvem para distribuição em outras telas é preciso mostrar que a cadeia será remunerada”, avalia o diretor de home da Motorola Brasil, Marcos Takanohashi. Do ponto de vista tecnológico, a segurança pode ser garantida com soluções de DRM, já bem consolidadas na indústria. Programação fora da TV Uma das primeiras experiências de


FOTOS: arquivo

“A indústria está focada em criar conteúdos de qualidade, diferenciados e segmentados, e para convencê-la a colocá-los na nuvem é preciso mostrar que a cadeia será remunerada.” Marcos Takanohashi, da Motorola Brasil

conteúdos fora da TV no Brasil foi o lançamento, em 2010, do ESPN 360, um portal de conteúdo autenticado do canal de esportes ESPN que traz vídeos on-demand e ao vivo, inclusive com transmissões exclusivas para a Internet. Todos os jogos da UEFA Champions League, por exemplo, têm transmissão ao vivo no 360. Nem todos os jogos são transmitidos na TV e o campeonato português, por sua vez, foi negociado para transmissão apenas pela plataforma online. Segundo o diretor de novos negócios e responsável pelo produto 360 da ESPN, Rafael Siqueira, “a ideia, dentro da grande estratégia da ESPN de não ser apenas canal de TV, era dar a possibilidade do fã de esportes ver nosso conteúdo onde ele estiver. Foi o nosso primeiro passo no modelo de TV everywhere”. O diretor de vendas afiliadas da programadora Disney & ESPN Media Networks, Marcello Zeni, explica que o projeto ESPN 360 brasileiro foi adaptado da iniciativa de mesmo nome do canal nos EUA, hoje chamada ESPN Play, de entrega de conteúdos de jogos e o melhor das produções próprias do canal para multiplataformas. O serviço tem uma plataforma própria, desenvolvida internamente, e que se integra com os sistemas de TV por assinatura para realizar a autenticação dos clientes. Os conteúdos passam por filtros de DRM e IP Lock, para restrição geográfica do acesso, são encodados e customizados para as operadoras. Atualmente, está disponível apenas na Internet e para usuários da TVA e da Telefônica, mas o projeto deve ser ampliado em breve para outros dispositivos conectados e, quando um modelo de negócios estiver melhor definido, também para outras operadoras. “A

plataforma já permite e estamos com planejamento para lançar o 360 para devices como tablets e smartphones”, conta Siqueira. “Estamos prontos para entregar em qualquer plataforma, mas precisamos saber como o nosso cliente operador pretende trabalhar. O que acontece hoje é que ainda não há um modelo de negócios constituído para isso, mas o que pretendemos é que aqueles assinantes que tiverem os três canais ESPN mais o 360 tenham a melhor experiência”, explica Zeni. No contrato com a Telefônica, a operadora entrega o conteúdo do portal no pacote de TV e paga a programadora por assinante. “Estamos conversando com três ou quatro operadoras e com duas estamos testando a plataforma, mas tem operadora que ainda não sabe se quer entregar o 360 com a TV por assinatura ou se quer ganhar assinante de TV cruzando a oferta para clientes de banda larga. O que precisa ser feito nos próximos meses é mostrar para o assinante que esse conteúdo tem valor”, conclui Zeni. Muu Lançado em meados de 2011, o Muu é o primeiro modelo mais completo de TV everywhere do mercado brasileiro. Trata-se da plataforma de vídeo sob demanda da Globosat, que oferece aos clientes de TV por assinatura acesso ao conteúdo dos canais pagos a partir de uma autenticação. Atualmente, o serviço está disponível apenas para assinantes da Net Serviços e da Videomar, operadora de TV a cabo de Fortaleza, via Internet ou por meio de aplicativos para iPhones e iPads. Em breve também será expandido para outros

“Estamos prontos para entregar em qualquer plataforma. Ainda não há um modelo de negócios constituído, mas pretendemos que tenha a melhor experiência aquele que tiver os três canais ESPN e o 360.” Marcello Zeni, da Disney & ESPN Media Networks nov_2011 Teletime 19

sistemas operacionais. “Parte da possibilidade de sucesso desse negócio está em uma distribuição ampla, para todos os dispositivos, desde smartphones e tablets a consoles de videogame, TVs e caixas conectadas”, afirma o diretor de novas mídias da Globosat, Gustavo Ramos. Até o final do ano devem ser lançados os aplicativos Muu para tablets e smartphones Android e para Windows Phone. TVs conectadas de duas fabricantes já têm protótipos rodando e, na sequência, consoles de videogames da Sony e da Microsoft também passarão a integrar o app da programadora. Uma terceira operadora deve ser anunciada ainda em novembro. Ramos explica que a plataforma do Muu precisa se integrar aos sistemas das operadoras para realizar a autenticação do assinante. “Só podemos saber que conteúdos o usuário pode acessar através da operadora de TV paga, e os bancos de dados são bem diferentes entre prestadoras, mas não é nada impossível de se fazer”. A iniciativa da Globosat é uma medida de defesa da cadeia de valor da TV por assinatura, frente à ameaça dos serviços over-the-top (OTT), como as locadoras online Saraiva Digital, Terra TV, NetMovies e, mais recentemente, a Netflix. “O Muu é oferecido de graça para o cliente de TV por assinatura e a operadora nos paga um fee bem pequeno. Não é um projeto em que estejamos visando o lucro, mas o modelo de TV everywhere faz sentido para a gente e para outros players no mundo. Queremos defender a cadeia de valor da TV paga e, no fundo, o trabalho conjunto é para sempre trazer um benefício maior para assinante”, avalia Ramos. “O valor do modelo de TV everywhere não está definido, ninguém sabe exatamente. Mas a nossa posição não é esperar pra saber. O custo de colocar produtos competitivos contra qualquer OTT é a defesa natural do nosso negócio. Se fizermos produtos muito bons e houver demanda, teremos produtos de muito sucesso. Se não houver demanda, defendemos o nosso negócio gerando valor para quem já assina nossos canais. Não tem como sairmos perdendo”.


oi.com.br

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édito é só rédito.

Imagem meramente ilustrativa.

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.:Convergência FOTOS: arquivo

Conteúdo Como o modelo de TV everywhere é relativamente novo em todo o mundo, a negociação de conteúdos ficou mais complexa e ainda passa por experimentações. Segun­ do Ramos, o que a Globosat tem feito é negociar os conteúdos on-demand para sua plataforma juntamente com os canais lineares. “O que estamos fazendo com nossos parceiros é pagar uma flat fee pelos conteúdos on-demand e a gente define como vai distribuir. Dessa forma, assumimos o risco de fazer o rateio das receitas todos os meses, que são bem pequenas por assinante. Seria um trabalho brutal para o operador fazer isso e o custo administrativo inviabilizaria o negócio”, explica. E os planos da Globosat não param no Muu. A programadora pretende lançar também produtos de subscription video on-demand (SVOD) e de compra de conteúdos avulsos. “Serão produtos possivelmente aliados a canais específicos, com a marca do canal, como Premiere FC.com, voltado para os assinantes do Premiere FC que queiram acompanhar os jogos longe do ponto de TV por assinatura”, detalha Ramos. O produto está em teste e deve começar a ser vendido a partir de janeiro do ano que vem. Para Ramos, cobranças adicionais só terão sentido para produtos ao vivo de grande valor no tempo, quando o assinante estiver fora do ponto de TV e o acesso ao conteúdo naquele momento for mais importante do que a qualidade, como é o caso de partidas de futebol, o último capítulo de uma série ou novela ou mesmo para uma notícia de grande impacto. Uma outra possibilidade é a criação de pacotes de assinatura para filmes de segunda janela. “O Telecine poderia ter, por exemplo, entre 30 e 50 filmes gratuitamente para assinantes no Muu, ter mais um produto de SVOD com títulos de segunda janela e, ainda, vender lançamentos blockbuster no modelo tradicional”, detalha o executivo. “Vejo a possibilidade de fechar 2012 com o Muu e mais dois ou três produtos de SVOD, utilizando as plataformas de VOD das operadoras para oferecer qualidade de som e imagem e também em

“Não é um projeto em que estejamos visando o lucro, mas sim defender a cadeia de valor da TV paga. no fundo, o trabalho conjunto é para sempre trazer um benefício maior para o assinante.” Gustavo Ramos, da Globosat outros dispositivos, agregar mobilidade”.

para

Operadoras Do lado das operadoras, o que se vê no mercado nacional são apenas os primeiros passos em direção à TV everywhere. A Telefônica/TVA prometeu, durante a ABTA 2011, em agosto, o lançamento do serviço de TV everywhere até o final o ano. Na ocasião, o diretor de tecnologia e inovação da empresa, Virgílio Amaral, afirmou que o produto já existe, está sendo testado e passa por uma fase de definição e maturação. “Resolvemos esperar um pouco e apresentar mais para a frente, ainda neste ano. Não temos pressa, queremos trazer um produto realmente inovador, que concorra de fato com os OTTs e que não se restrinja ao assinante de TV paga”, disse o executivo. O movimento mais significativo foi o lançamento do Now, plataforma de VOD da Net Serviços lançada no início do ano. “O conceito de TV everywhere é uma maneira que as operadoras têm de aumentar valor para seus assinantes. Lançamos o Now, mas imediatamente lançamos o Muu com a Globosat e estamos conversando com vários outros programadores internacionais para que eles ou criem sites autenticados ou que nos dêem conteúdos para colocarmos num futuro portal da Net na Internet”, revela o diretor de programação da Net, Fernando Magalhães. O executivo compartilha da opinião de Gustavo Ramos, da Globosat: programadora não compete com operadora. “Temos um inimigo comum, que é o OTT, e as programadoras estão do nosso lado, têm interesse em

aumentar o valor do negócio para ter mais assinantes”. Para o diretor da Net, a questão dos direitos das programadoras sobre conteúdos para outras plataformas que não um canal linear já está sendo resolvido. “Até então, as programadoras não tinham direitos para outras plataformas porque não precisavam, mas estamos estimulando os programadores a comprar esses direitos. No início, o Now tinha apenas conteúdos da Globosat, agora já temos de vários outros como Fox, Disney, MTV, Discovery, BBC e em breve Turner e HBO”, conta Magalhães. A Net passou a negociar em conjunto canais lineares e conteúdos on-demand. Um exemplo foi a recente entrada do novo canal Studio Universal no line-up da TV e simultaneamente de conteúdos do canal para o Now. No caminho de evolução da plataforma, a Net já trabalha com algumas programadoras para disponibilizar a funcionalidade de catch-up de alguns programas e também já discute uma oferta em tablets. Trata-se do modelo em que o assinante pode voltar a assistir qualquer conteúdo da programação linear dos canais pagos que tenha perdido. Infraestrutura O lançamento do Now, que não se confunde (ainda) com um modelo de TV everywhere porque está limitado à rede da operadora, só foi possível com o processo de digitalização da rede de cabos da Net Serviços, que aumentou a capacidade de transmissão da operadora, e foi impulsionada pelo início dos serviços de alta definição. “A nova topologia de rede aproximou os nós de fibra óptica da casa do usuário e os decodificadores

“Temos um inimigo comum, que é o OTT (over-the-top), e as programadoras estão do nosso lado, têm interesse em aumentar o valor do negócio para ter mais assinantes”. Fernando Magalhães, da Net Serviços 22 Teletime nov_2011


HD que usamos são híbridos e permitem conectividade IP. Isso foi essencial para lançarmos o serviço de VOD”, conta o diretor de produtos e serviços da Net, Márcio Carvalho. O Now utiliza a plataforma VideoScape, da Cisco, e trabalha com o conceito de CDN levar o conteúdo mais para perto do usuário. “Toda a topologia da rede é uma grande CDN gerenciada e hierárquica. Temos uma central de distribuição de conteúdo, vários servidores de distribuição e cacheing nodes espalhados pela rede. Assim, quando um conteúdo é muito solicitado, a inteligência da rede começa a copiá-lo em servidores locais para entregá-lo aos usuários de determinada área próxima”, explica Carvalho. A preparação do conteúdo a ser distribuído já adiciona a criptografia na central de distribuição, que só pode ser aberta no set-top box do assinante, com controle feito através do smart card. Levar esse conteúdo para outros dispositivos e tornar o produto um verdadeiro TV everywhere, entretanto, aumenta a complexidade da operação,

Entregar os conteúdos em outras telas implica vencer algumas barreiras. Os conteúdos devem ser formatados para diferentes telas e plataformas; e as redes precisam estar preparadas para suportar o tráfego de tais conteúdos. reconhece Carvalho. “Estamos procurando regular a complexidade. A gestão desse sistema é um processo de aprendizagem e estamos preparando um modelo que permita ao assinante consumir o conteúdo em diversas telas da melhor forma possível”, conta. Ele lembra que também existe um problema de escala. “O mercado de tablets, por exemplo, ainda é de baixa penetração e é preciso levar sempre em consideração a complexidade tecnológica de dispositivos e sistemas operacio-

nais. A Globosat está dando os primeiros passos e estamos aprendendo com eles”. Para oferecer um serviço de TV everywhere, a plataforma utilizada pela Net, precisam ainda ser adicionados alguns elementos, mas não deve demorar muito para o movimento acontecer. “Hoje estamos focados em aumentar oferta de conteúdo para o Now e aumentar quantidade de clientes, com expansão para outras áreas da cidade de São Paulo até o fim do ano, mas o cliente realmente quer esse conteúdo em todas as plataformas e a TV everywhere tem valor percebido na indústria toda”, diz. E se, no fim das contas, a tendência é um caminho sem volta e é o cliente quem vai ditar onde e quando quer ver seus conteúdos, a TV everywhere não deve demorar muito a evoluir no mercado brasileiro. Para o diretor da Motorola Brasil, Marcos Takanohashi, os dispositivos conectados serão uma alavanca para essa experiência. “É o caminho natural do mercado, smartphones, tablets e TVs conectadas estão se popularizando e os dispositivos serão o driver desse ecossistema”, conclui. 


.:Serviços móveis

Fernando Paiva, do Rio de Janeiro fernando.paiva@convergecom.com.br

Governos mobilizados

soas do primeiro e segundo escalões, como secretários e chefes de gabinete, e agora está disponível também para iPhones, enquanto uma versão para iPad encontra-se em teste. Para a comunicação com o cidadão fluminense, o governo do Rio escolheu o SMS, por ser uma ferramenta mais democrática, acessível por praticamente 100% da base de celulares. A primeira experiência foi feita na área de educação: pais que inscrevem seus filhos nas escolas estaduais via Internet recebem uma confirmação da pré-matrícula em uma mensagem de texto, que informa também a unidade onde o aluno foi alocado. São cerca de 200 mil inscrições anualmente. Agora, com a recente compra de um pacote para envio de até 10 milhões de SMS por ano, a ideia é expandir o uso para outras áreas. Existe uma demanda do Rioprevidência, fundo de previdência social do Estado do Rio de Janeiro, para uso de SMS na comunicação com

“A Lei 8.666 tem que ser obedecida, não pode ser ignorada.” Alexandre Gitahy, da Proderj 24 Teletime nov_2011

inativos, e outra da Secretaria de Fazenda, para contatar devedores da dívida ativa, informa Alexandre Gitahy, vice-presidente da Proderj, autarquia de tecnologia de informação do Rio. O SMS pode ser um aliado dos governos na fiscalização tributária. Novamente, o Rio foi pioneiro. Desde o fim de 2009 está no ar o programa Cupom Mania, que sorteia prêmios para os consumidores que enviarem por mensagem de texto os dados das notas fiscais que receberem de empresas fluminenses. Quem participa concorre a TVs, smartphones, automóveis e prêmios em dinheiro de até R$ 1 milhão. Em dois anos, foram enviados mais de 4 milhões de cupons fiscais via SMS. A Secretaria de Fazenda cruza as informações com aquelas compartilhadas pelos estabelecimentos comerciais. Calcula-se que o Cupom Mania conseguiu aumentar em R$ 80 milhões ao ano a arrecadação de impostos no Rio de Janeiro. A solução, desenvolvida pela MJV Tecnologia, foi FOTOS: divulgação

O

s celulares exercem um papel a cada dia mais importante em mobilizações sociais, vide as revoltas populares da Primavera Árabe, o movimento de “Ocupem Wall Street” e os distúrbios no subúrbio de Londres, para citar apenas exemplos ocorridos neste ano de 2011. O povo aprendeu que os telefones móveis podem ser uma ferramenta para a rápida divulgação de ideias e convocações de protestos. Se o celular pode ser usado para derrubar ditaduras, também pode servir para estreitar os laços entre um Estado democrático e seus cidadãos. Essa utilização, contudo, ainda engatinha em razão de limitações legais e burocráticas. No Brasil, os exemplos eficientes de uso da mobilidade por parte de órgãos públicos ainda são poucos, mas o potencial de uso por prefeituras, governos estaduais, institutos federais e concessionárias públicas anima as empresas do setor. O melhor sinal de que a mobilidade está finalmente entrando na pauta do dia dos governantes é a realização cada vez mais comum de pregões eletrônicos e licitações para a contratação de integradoras de envio de SMS, como os organizados este ano pelo governo do Estado do Rio de Janeiro e pelo Metrô de São Paulo, que adquiriram, respectivamente, pacotes de até 10 e 6 milhões de mensagens de texto. No Rio de Janeiro, o exemplo vem do alto. O governador Sérgio Cabral recebe diariamente em seu BlackBerry o clipping de notícias relacionadas ao Estado. A solução de m-clipping, feita sob medida para o governo fluminense, está no ar desde 2008 e aposentou o uso de papel para esse fim. Além de mais prático, permite que o governador se informe rapidamente enquanto está em deslocamento de um compromisso para outro. A solução, desenvolvida pela carioca Abacomm, inclui notícias de jornais, revistas, rádio e TVs. O serviço foi estendido a 200 pes-

timy/shutterstock

Poder público começa a experimentar o uso do celular para a comunicação com o cidadão, mas ainda esbarra em sua própria burocracia para levar projetos adiante.


“exportada” para Minas Gerais, onde terá o nome de Torpedo Minas Legal, a ser lançado em novembro. Outras duas unidades da federação estão em negociações avançadas para adotar a mesma ideia, revela Maurício Vianna, diretor da MJV. A limpeza e a manutenção urbanas também podem receber uma significativa ajuda dos cidadãos através de telefones celulares. A prefeitura do Rio de Janeiro lançou em março deste ano uma central de atendimento que reúne os serviços de 13 secretarias municipais e que pode ser contatada por telefone, pela web ou por um aplicativo móvel disponível gratuitamente nas plataformas iOS e Android. Pelo aplicativo, batizado com o mesmo número telefônico da central (1746), o cidadão comunica à prefeitura sobre buracos na rua, postes sem luz, árvores que precisam de poda, focos de mosquito da dengue etc. Basta fotografar a ocorrência com a câmera do aparelho e enviar pelo aplicativo. Não é necessário redigir o endereço: o software se encarrega de informar a localização da foto, via GPS. Em seis meses, houve 13 mil downloads do aplicativo móvel e 2 mil solicitações feitas através dele. Quem entra em contato por telefone ou pela web pode receber depois via SMS um alerta quando o problema for resolvido. Somando todos os meios de contato, a prefeitura do Rio realizou em seis meses 330 mil serviços a partir de solicitações do 1746. Em média, 82% das requisições são atendidas dentro do prazo, que varia de 24 horas, no caso de sinais de trânsito, a sete dias, se for um buraco na rua.

“À medida em que certas empresas de serviços públicos comecem a ser geridas por entidades privadas, a demanda por mobilidade será enorme.” Ulisses Campos, da Abacomm Outra prefeitura “mobilizada” é a de Porto Alegre. Através da Procempa, órgão municipal de TI, o site da prefeitura foi adaptado para acesso por dispositivos móveis, mesmo aqueles mais simples, com sistemas operacionais proprietários. Através do site, é possível acessar processos administrativos, pedir segunda via de conta de água, certidões de débito de IPTU, dentre várias outras informações de utilidade pública. Recen­ temente, a prefeitura de Porto Alegre criou um grupo multidisciplinar que se reúne semanalmente para discutir soluções de m-government. Existe a intenção de lançar ainda este ano algum serviço de comunicação via SMS com o cidadão porto-alegrense. E é avaliada a possibilidade de desenvolver um aplicativo similar ao carioca 1746 para receber pedidos de serviços de manutenção urbana. Federal No âmbito do governo federal, por sua vez, as poucas experiências se concentram mais em alguns de seus institutos e autarquias. Merece destaque o projeto do Censo 2010, do IBGE, que usou 150 mil smartphones com Windows Mobile 6.5 para a coleta de dados da população. Entretanto, cabe ressaltar, os aparelhos funcionavam como uma espécie de PDA, pois foram

comprados sem a funcionalidade de telefonia ou de tráfego de dados em redes 3G, para evitar a atratividade ao roubo. Os dados eram passados dos smartphones dos recenseadores para computadores ou laptops em 7 mil postos de coleta espalhados pelo País. O IBGE está estudando a adoção, a partir de 2013, de envio de dados pela rede 3G direto de dispositivos móveis nas mãos de seus pesquisadores. Se aprovado no orçamento do instituto, será necessário comprar novos equipamentos. Por enquanto o uso de tablets está descartado porque aumentaria muito o risco de roubos. “O tablet é o equipamento dos sonhos, mas não podemos expor os pesquisadores. Eles precisam ir e voltar do campo com os equipamentos e as informações na íntegra”, explica o diretor de informática do IBGE e coordenador de tecnologia do Censo 2010, José Sant’Anna Bevilaqua. O Serpro, órgão responsável por processamento de dados do governo federal, informou que o único projeto de mobilidade sob sua alçada até agora foi a adaptação para visualização no celular do sistema de e-mail, contatos e agenda usado parte dos funcionários da Presidência da República, do Ministério da Fazenda, do Ministério do Planejamento, da Dataprev e do próprio Serpro, dentre outros clientes que somam cerca de 500 mil contas de e-mail no Brasil todo. O sistema, chama

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.:Serviços móveis “Mobilidade é o futuro. E foi o cidadão, não o poder público, quem decidiu isso.”

Burocracia O maior desafio para a adoção de soluções de mobilidade dentro de governos é o excesso de burocracia. Para um setor dinâmico como o de telefonia celular, com inovações acontecendo diariamente, alguns empresários se frustram quando se deparam com a extensa lista de obrigações legais necessárias para se fechar um contrato com órgãos públicos. As regras estão descritas na Lei 8.666, que rege as normas para a realização de pregões, licitações e concorrências públicas. Dependendo do valor e do serviço prestado, a contratação precisa cumprir determinadas obrigações. “É necessário detalhar o pedido, fazer uma pesquisa de preço de mercado antes de um pregão eletrônico etc. A Lei 8.666 tem que ser obedecida, não pode ser ignorada”, comenta Gitahy, da Proderj. A legislação, embora atrase os negócios, é bem vista pelos gestores públicos. “A Lei 8.666 demanda mais tempo e formalidades. Isso gera uma angústia para quem está na gestão privada. Mas, sinceramente, como cidadão, fico feliz que haja certas restrições, porque são a garantia de que o processo andará bem”, analisa Eberli

da zona portuária está sendo realizada por uma concessionária composta por empresas privadas, a Porto Novo. Entre as suas tarefas está a manutenção das vias públicas. Para agilizar a solicitação de reparos, os fiscais da Porto Novo que circulam pela região utilizam um aplicativo móvel instalado em smartphones. “À medida que certas empresas de serviços públicos começam a ser geridas por entidades privadas, a demanda por mobilidade será enorme”, prevê Ulisses Campos, diretor executivo da Abacomm. Existe ainda muito espaço a ser explorado no que diz respeito a m-government. Setores como o de saúde e de transporte público estão entre os mais citados como promissores (leia box abaixo sobre o Metrô de São Paulo). A integração dos sistemas de TI de hospitais públicos, por exemplo, poderia ajudar a informar, no celular, qual a unidade de saúde mais próxima e com atendimento mais rápido para a especialidade procurada pelo paciente. “Mobilidade é o futuro. E foi o cidadão, não o poder público, quem decidiu isso. Foi o cidadão quem migrou do telefone fixo para o móvel. Nos próximos anos será banal ter soluções de m-government”, resume Riella, da Procempa.  FOTOS: divulgação

do de Expresso, foi desenvolvido em software livre. Sua versão móvel é o Expresso Mini.

Eberli Riella, da Procempa Riella, gerente de tecnologia e serviços da Procempa. Apesar do rigor da lei, nem sempre as coisas funcionam como deveriam. “Entre um projeto de um cliente privado e outro de governo, prefiro sempre o primeiro”, reclama um empresário do setor de mobilidade que preferiu não se identificar. Ele afirma que em algumas licitações participam empresas que nada têm a ver com o serviço prestado, mas que acabam vencendo e depois terceirizam o serviço. Para Vianna, da MJV, o melhor é buscar modelos de negócios que não requeiram pagamentos por parte dos governos. No Cupom Mania, por exemplo, quem paga a conta das mensagens de texto enviadas é o consumidor, ao custo de R$ 0,31 mais impostos por SMS, em troca de concorrer nos sorteios dos prêmios. “É uma parceria em que todo o mundo ganha”, resume o executivo. Parcerias público-privadas podem ser um caminho mais rápido para a oferta de mobilidade. No Rio de Janeiro, por exemplo, a revitalização

SMS nos trilhos do Metrô

O

transporte público é um dos serviços com mais possibilidades de integração com dispositivos móveis. O Metrô de São Paulo sabe disso e pôs em funcionamento este ano dois serviços de comunicação via SMS com seus usuários. O primeiro é o Metrô Direto, que envia mensagens de texto com informações sobre as condições das linhas metroviárias. Para receber os alertas, o usuário deve se cadastrar no site do metrô e escolher sobre que linhas e em quais dias e faixas de horários gostaria de ser informado. O sistema é totalmente automatizado, integrado com o centro de operações do metrô. Lançado em junho, o serviço conta com 19 mil pessoas cadastradas, mesmo sem que nenhuma campanha fosse lançada para divulgá-lo. As mensagens não têm custo para o usuário: quem paga é o Metrô. “Temos a preocupação de levar informação com transparência e em tempo real para o nosso usuário”, explica o chefe do departamento de marketing do Metrô de São Paulo, Aluizio Gibson. O SMS também é usado no sentido inverso, ou seja, para a comunicação do passageiro com o

26 Teletime nov_2011

Metrô. Desde janeiro está em funcionamento o SMS Denúncia, serviço que recebe mensagens de texto dos usuários sobre irregularidades que acontecem dentro dos trens. As mensagens chegam diretamente ao centro de controle de segurança do Metrô, que aciona imediatamente uma dupla de seguranças dentre os 1.180 que circulam pelas 58 estações. Em até sete minutos os agentes chegam ao local indicado, desde que o remetente tenha informado corretamente em qual trem estava. Mais de 34 mil mensagens foram enviadas em nove meses. A média atual é de 120 por dia. A maioria são denúncias de comércio clandestino e de pedintes dentro dos vagões. Mas há também reclamações de aparelhos de som em volume alto e até de pessoas indevidamente sentadas em assentos preferenciais. “Agora temos 4 milhões de pares de olhos diariamente ajudando na segurança do Metrô. O usuário aderiu ao serviço”, conta Rubens Menezes, chefe do departamento de segurança do Metrô, referindo-se à quantidade de passageiros que os trens paulistas transportam a cada dia.


.:Espectro

Helton Posseti, de Brasília helton@convergecom.com.br

Ar rarefeito

A

s comunicações móveis e a radiodifusão não existiriam sem o espectro radioelétrico. Esse é o pano de fundo por trás de uma disputa ferrenha entre os dois setores em torno da faixa de 700 MHz, usada hoje para a transmissão da TV aberta. Com a digitalização dos sinais, os radiodifusores precisarão de muito menos banda para a transmissão da programação, o que gera aquilo que se convencionou chamar de dividendo digital em referência aos canais que serão liberados com a transição da TV analógica para a digital. O setor de telecomunicações começou recentemente uma campanha para que o governo decida desde já como será alocado esse espectro no futuro. O sindicato das empresas de telecom, SindiTelebrasil, tem duas frentes de argumentação. Primeiro, quer convencer o governo de que a banda larga móvel cresce a taxas altíssimas e que as frequências disponíveis para o setor não serão suficientes. A expectativa é que ao final de 2011 o setor tenha uma capacidade total de 730 MHz, considerando a venda das faixas de 2,5 GHz e 3,5 GHz. A demanda estimada para o período, entretanto, é de 780 MHz. O problema, contudo, não seria resolvido nem com a alocação da faixa de 700 MHz. Pelo contrário, a demanda por banda cresce mais rápido e o déficit só aumenta ao longo dos anos. A estimativa é de que em 2015 a demanda seja por 980 MHz, enquanto as teles teriam 838 MHz, considerando o espectro do dividendo digital. Assim, o déficit que em 2011 é de 50 MHz, segundo as empresas, passa a ser de 142 MHz em 2015. Para 2020, do sindicato das teles considera os mesmos 838 MHz alocados para o setor e uma demanda de 1.060 MHz (ver gráfico). “Achamos que devemos antecipar o planejamento para não sermos pressionados por uma realidade que pode nos sufocar em cima da hora”, afirma Eduardo Levy, diretor executivo do SindiTelebrasil.

Bart_J/shutterstock

Esquenta o debate sobre a faixa de 700 MHz no Brasil. O embate entre radiodifusores e empresas de telecom começa a ganhar um tom mais agressivo.

O outro front das teles é mostrar que muitos canais não estão em uso e que, portanto, a radiodifusão tem mais espectro do que realmente necessita. Foi contratado um estudo técnico do CPqD que analisa a utilização do espectro em 700 MHz. O estudo mostra que hoje já seria possível realizar a destinação da faixa para o serviço móvel na maior parte do País. Em apenas 473 municípios brasileiros haveria a necessidade de refarming, já que a grande maioria das cidades não tem canais ocupados acima do canal 51, o que facilita a destinação imediata desse espectro para outro fim. Desse total de 473 municípios, segundo o CPqD, 377 possuem capacidade ociosa suficiente entre os canais 14 e 51 para receber os canais remanejados do dividendo digital, que vão do canal 52 ao 69. Esses 473 municípios estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste, além dos estados de Pernambuco, Rondônia e Goiás. Desse total, 83% terão a necessidade de remanejar apenas um ou dois canais e 17 municípios deverão realocar mais do que quatro canais. nov_2011 Teletime 27

O estudo aponta para a existência de 96 municípios com limitações de canais livres. Desses, em apenas 24 municípios – para os quais a Anatel já promoveu a consignação de canais digitais – há falta de um canal livre para a operação de refarming e em dois municípios há falta de dois canais. Nestes casos, excepcionalmente, a solução seria a migração para os canais de 7 a 13 do VHF. Esta possibilidade, segundo o CPqD, está prevista na Norma Técnica 1/2010 do Ministério das Comunicações e é compatível com os receptores digitais disponíveis no mercado. Para os demais municípios (70), a Anatel ainda fará o planejamento de distribuição de canais digitais. Destaque-se que o estudo do CPqD é diferente de um levantamento feito pela própria Anatel, que mostra que há 906 municípios em que já se sabe que será de fato impossível sequer pensar em alguma iniciativa de liberação das faixas de 700 MHz antes do fim das transmissões analógicas de TV. Isso porque, nesses municípios existe a necessidade de usar os canais de 50 a 69 (justamente os que ficam dentro do espectro de 700 MHz) para acomodar a migração digital. Ou seja, o simulcast analógico/digital está ocupando justamente as faixas em que as teles gostariam de estar, e assim permanecerá até pelo menos 2016. A divulgação do estudo do CPqD foi cercada de polêmicas. Na divulgação da primeira parte do levantamento, o instituto concluiu que mesmo em cidades como São Paulo seria possível o remanejamento de canais digitais, mas que não havia sido feita a análise sobre o impacto da migração dos canais nos municípios vizinhos, o que seria tratado na segunda etapa do estudo. A informação gerou protestos do secretário de comunicação eletrônica do Minicom, Genildo Lins de Albuquerque. “O estudo não analisa o impacto nos municípios vizinhos. Isso é básico. Qualquer estudo que não olha essa questão não é um bom estudo”. José Manoel Rios, um dos técnicos do CPqD que participaram da elaboração do


.:Espectro FOTOS: arquivo

material, saiu em defesa do levantamento. Ele explicou que, de fato, na primeira etapa o impacto nos municípios vizinhos não foi considerado, o que consta da segunda etapa do trabalho. E a conclusão é que o refarming da faixa na região depende de um estudo detalhado de radiocobertura. “Alguns canais entre o 52 e o 59 nos municípios vizinhos não podem ser realocados para a faixa de 14 a 51 sem observar a ocupação dessa faixa no município de São Paulo”, diz o texto do documento. Reação Não há nada que indique no momento que o governo irá ceder ao lobby das teles. O outro lado também começa a mostrar as suas armas nessa batalha. A estratégia dos radiodifusores é mostrar que não há uma harmonização mundial para a faixa, que as teles não usam de forma adequada o espectro e, inclusive, passaram a questionar as decisões da UIT. Nesse ponto específico, os radiodifusores têm o importante apoio da Casa Civil. O assessor especial do órgão, André Barbosa, também levanta dúvidas sobre a suposta isenção das decisões da entidade. “Existe a influência dos detentores de propriedade intelectual nas decisões da UIT?”, questiona ele. O diretor de uso e planejamento de espectro da Abert (associação de radiodifusores), Paulo Balduíno, aponta falhas no método usado pela instituição para chegar às estimativas de espectro para a banda larga no mundo. Segundo ele, dos 192 países membros, apenas 14 responderam à pesquisa da UIT sobre a faixa de 700 MHz e, entre eles, países com pouca representatividade no setor. “Nunca vi um trabalho da UIT tão frágil e tão polarizado. Todo mundo sabe que a UIT não é uma instituição acadêmica, técnica ou neutra. Ela sofre pressões.” A Abert calcula que existam mais de 8 mil pedidos de licenças de emissoras que estão sendo processados pelo Minicom. Há ainda mais 4 mil retransmissoras secundárias que, com o desenvolvimento dos municípios, deverão passar a primárias, o que mostra que é cedo para estimar as necessidades futuras de espectro para a radiodifusão, na visão da associação. Segundo ele, a migração para a TV digital já é suficientemente complexa e, por isso, não seria

“devemos antecipar o planejamento para não sermos pressionados em cima da hora.” Eduardo Levy, do SindiTelebrasil

prudente que a destinação da faixa fosse alterada nesse momento. “É como carregar e descarregar um trem em movimento em alta velocidade”, compara. Balduíno diz que as teles têm outras faixas a sua disposição, o que a radiodifusão não tem. E que capacidade de rede não é sinônimo de espectro. “Não se discute topologia de rede”, afirma. Ele apresentou dados que mostram que nos EUA as comunicações móveis dispõem de 547 MHz de banda e no Brasil 759 MHz. Sendo que a penetração da banda larga nos EUA está em mais de 50% e, no Brasil, 11%. O secretário de telecomunicações do Minicom, Maximiliano Martinhão, descartou a hipótese de o governo definir agora se a faixa será destinada ao serviço móvel terrestre como querem as teles. “Tomar uma decisão antes que a TV digi-

que lhe confere grande capacidade de transmissão de dados. De acordo com o SindiTelebrasil, a cobertura em 2,5 GHz requer um investimento cinco vezes maior que a mesma cobertura em 700 MHz. Em termos de tecnologia, vale ressaltar que o LTE só existe em 2,5 GHz e 700 MHz. Harmonização A faixa de 700 MHz ainda não foi harmonizada mundialmente. O que existe é uma recomendação da UIT para que ela seja destinada aos serviços móveis. O Brasil, entretanto, atribui a faixa para os serviços móveis em caráter secundário. Além disso, na Europa e na região ÁsiaPacifico a faixa não é a mesma que nas Américas. O SindiTelebrasil diz que a recomendação da UIT foi referendada pela Citel para as Américas. Clóvis Baptista, secretário-executivo da Citel, explicou que a posição do Brasil é uma mensagem de que o País estava estudando o assunto porque naquele momento – 2007, quando foi editado o último regulamento de radiocomunicação da UIT – não estava preparado para tomar uma posição. A expectativa do secretário é que o Brasil leve uma posição mais concreta à próxima reunião da Citel, que acontecerá em novembro em Porto Rico. “A Anatel está trabalhando internamente para apresentar uma resposta sobre a posição brasileira. Porque existem várias correntes de opinião. Ao responder o questionário, além de preencher o inventário, o Brasil deve mostrar essas posições e uma resposta coordenada. Já será uma declaração de intenções sobre o que o país pretende fazer no futuro”, espera o secretário da Citel. Mas para a entidade, não existe resposta certa a ser dada. “A nossa posição como fórum neutro é que não é um fato consumado que essa banda deva ser destinada ao serviço móvel pessoal. Nós entendemos que até mesmo os radiodifusores que hoje ocupam a banda poderão ter aplicações inovadoras capazes de competir pelo uso desta faixa. Ela também já está sendo testada em sistemas de segurança pública, o que pode ser muito útil nos eventos esportivos, por exemplo. Isso está sendo muito desenvolvido nos EUA”, lembra. As posições da Citel que forem fechadas esse ano na reunião de Porto Rico

A expectativa é que ao final de 2011 o setor tenha uma capacidade total de 730 MHz. A demanda estimada para o período, entretanto, é de 780 MHz tal esteja implantada em sua plenitude me parece precipitado”, disse ele. O secretário reconhece a acelerada expansão da banda larga móvel, mas, segundo estudo realizado por ele próprio em 2007, quando atuava na área de espectro na Anatel, o espectro disponível hoje é suficiente para a demanda estimada até 2015. Martinhão admite, entretanto, que o estudo adotou premissas conservadoras de desenvolvimento econômico e social, que foram superadas. A razão da cobiça das teles pela faixa é que por se tratar de uma frequência baixa ela consegue cobrir áreas extensas gastando menos em infraestrutura de ERBs, torres e links. Além disso, a faixa de 700 MHz ofereceria mais de 100 MHz de largura de espectro livre, o 28 Teletime nov_2011


devem se refletir no posicionamento da entidade em fevereiro de 2012, durante a Conferência Mundial de Radiocomunicação da UIT, que acontece em Genebra.

“Tomar uma decisão antes que a TV digital esteja implantada em sua plenitude me parece precipitado.”

sos do Fust para o atendimento rural. Aliás, em uma estimativa teórica da Oi, o Fust seria essencial para a viabilização do cumprimento das metas do PGMU no campo. No cenário onde o Fust não é usado para subsidiar os terminais, haveria um Valor Presente Líquido (VPL) negativo de R$ 2,1 bilhões para cobrir o Brasil inteiro. Com subsídio do Fust para o terminal, o prejuízo seria de R$ 1,1 bilhão. Paulo Mattos, diretor de regulamentação e planejamento estratégico da Oi, disse que o equilíbrio entre receita e custo só seria encontrado quando a cobertura atingisse 43% da população rural com aparelho subsidiado. “As condições do edital vão ser determinantes para a atração de mais interessados ou menos interessados”, disse ele. Vale lembrar que o cumprimento das metas de acesso rural do PGMU III está atrelado à venda da faixa de 450 MHz. Se a operadora vencedora do leilão não for a concessionária local, ela deverá ceder capacidade para que a concessionária cumpra as metas. Não está claro como essa engenharia vai funcionar. Os prazos para as concessionárias atenderem o campo passam a contar a partir da viabilização desta rede. Então, um eventual atraso na venda atrasa também as metas rurais. A estratégia da Anatel, conforme apurou TELETIME, é colocar a venda as faixas de 450 MHz antes da de 2,5 GHz. Caso não haja interessados, aí sim as  duas frequências serão vinculadas.

Maximiliano Martinhão, do Minicom 2,5 GHz e 450 MHz Não deixa de ser curioso que um setor tão coeso ao defender os seus interesses não publicamente a favor do leilão tenha chegado a um consenso em relado 2,5 GHz é a Claro. Embora ção a faixa de 2,5 GHz, que, diga-se de não tenha atendido o pedido passagem, foi objeto de outra briga conde entrevista da TELETIME, por meio de tra as empresas de MMDS que ocupanota oficial a empresa afirma que a licivam a faixa. Desde a Futurecom cometação do 2,5 GHz é essencial para atençaram a aparecer posições contrárias a der às pretensões da sociedade brasileira que o leilão aconteça rapidamente. A “quanto à banda larga móvel e os grande Vivo/Telefônica e TIM foram as empreeventos esportivos que sediaremos nos sas que, na ocasião, se opuseram à licipróximos anos”. tação da faixa sem que houvesse uma Dificilmente a licitação será adiada, revisão do modelo. uma vez que o decreto que estabeleceu A TIM, em nota oficial, defende um o PGMU III definiu para abril de 2012 o amplo debate sobre os impactos de um prazo para a licitação. O ministro Paulo eventual leilão da faixa já no começo de Bernardo inclusive já deu o seu recado: 2012. Segundo a operadora, para que o “se quiserem o adiamento, vão pedir a consumidor perceba qualquer mudança quem marcou”. No caso, a presidenta na nova rede, seria necessário o fortaleDilma Rousseff. cimento das redes de transmissão e o Em um ponto talvez todas as teles compartilhamento do backhaul. “A concordam: a não vinculação da faixa de empresa acredita na utilização das tec2,5 GHZ com o 450 MHz. “Entendemos nologias disponíveis para a massificaque tal vinculação, se de fato levada à ção da Internet no Brasil, visto que diante, pode trazer impactos negativos à ainda há espaço para crescimento e licitação, criando aos interessados no oferta de serviços pela rede 3G. Para a adiamento uma justificativa absolutaTIM, a evolução da tecnologia 3G está mente verdadeira para tumultuar e adiar em processo de amadurecimento, além o leilão”, diz a nota da Claro. de ser alvo de “fortes investimentos A operadora também defende um para a difusão da banda larga móvel no debate amplo com as concessionárias interior do país”, diz a operadora. fixas locais sobre a utilização dos recurJá o presidente da Vivo/Telefônica, Antônio Carlos Valente, embora não se oponha categoricamente ao leilão rápido da faixa, sugere que o governo adote o modelo conhecido de “beauty con(em MHz) test”, ou concurso de beleza. Pelo modelo, o preço da licença é menor para as 780 empresas que oferecerem metas maiores de cobertura. No leilão de 3G a 50 Anatel já reduziu o preço das licenças em função de metas de cobertura asso730 ciadas a cada bloco. Para o executivo, entretanto, há espaço para que a agên+ 3.5 GHz + 2.5 GHz cia seja mais ousada. “Essa nova oferta (de espectro) não pode interferir no crescimento da rede atual. Estamos pre340 MHz sentes em 1,55 mil cidades com 3G, mas SMP 2011 queremos chegar a 2,9 mil em meados atual esperado do ano que vem”, disse ele em recente Déficit de Espectro (MHz) Oferta entrevista no Rio de Janeiro. A única companhia que se coloca

Déficit de espectro no Brasil

nov_2011 Teletime 29

1060 980 222 142

838

838

+ 700 MHz Dividendo digital

2015 esperado Demanda

2020 esperado

Fonte: SindiTelebrasil


.:tecnologia

Daniel Machado

daniel@convergecom.com.br

Cobre turbinado

E

FOTO: divulgação

nquanto as incumbents apontam as suas estratégias e investem muito dinheiro para levar a fibra óptica cada vez mais perto da casa do usuário e assim ofertar a ultra banda larga, um movimento paralelo (e bem mais barato) começa a ser estudado pelas mesmas teles na infraestrutura legada, ou seja, na rede de par trançado, que por meio das tecnologias xDSL é ainda hoje o principal meio de banda larga fixa no Brasil. Como uma forma de garantir sobrevida às redes de cobre e cumprir o objetivo de oferecer os chamados ‘serviços à prova de futuro’ (pelo menos a médio prazo) pelos menores custos possíveis de instalação e operação, foram desenvolvidas algumas soluções que prometem turbinar a plataforma xDSL. As mais recentes são o vectoring (vetorização) e o bonding. “Essas soluções fazem parte de um conceito maior, chamado DSM (Dynamic Spectrum Management ou Gestão Dinâmica do Espectro), que busca harmonizar os pares de cobre de maneira a deixá-los com maior potência, um ganho que pode ser três vezes maior em relação a uma linha sem vectoring e bonding”, explica Wilson Cardoso, diretor de tecnologia para a América Latina da Nokia Siemens. A técnica de vetorização reduz dinamicamente os efeitos dos ruídos gerados a partir da transmissão de frequências nos pares de cobre, também chamado de crosstalk, que sempre foi considerada uma das principais desvantagens da rede de par trançado em relação à fibra óptica. A grosso modo, a vetorização pré-compensa o crosstalk que será sentido nas linhas de cobre. Em outras palavras, o FEXT (tipo de cross talk) é pré-subtraído no nó de acesso e compensado, ao longo da transmissão no par trançado, de modo a

Kasza/shutterstock

Soluções de vectoring e bonding prometem oferecer, sobre o par trançado, taxas de transmissão de até 100 Mbps, dando uma sobrevida às redes de telefonia.

deixar livre de interferências os sinais recebidos no modem do usuário. “A vetorização fica ‘olhando’ todas as portas Ethernet e analisando a melhor relação entre potência transmitida e consumo de energia. Esses parâmetros de linha variam durante o dia, de acordo com o aumento de umidade, de calor, ruído... A solução busca injetar a potência correta de acordo com as perdas e vai monitorando a linha e fazendo um balanço em tempo real entre potência transmitida e energia consumida”, explica Cardoso. Para o diretor de Soluções da Alcatel-Lucent, Juan Pablo Lopes, a vetorização representa uma solução operacional interessante para as operadoras e maior qualidade de serviço para os assinantes. “Ao cancelar o ruído das interferências, o usuário consegue ter acesso a uma velocidade maior de transmissão de

dados, uma banda mais próxima do limite teórico contratado”, diz. “Além disso, é uma forma de ter mais flexibilidade e ofertar ultra banda larga no cobre, uma infraestrutura já existente, atingindo velocidades de dados semelhantes às que hoje são ofertadas pela fibra. E isso vem resolver um outro problema para as operadoras à medida que cresce a base de assinantes xDSL”, acrescenta o executivo. Segundo dados da Anatel, entre 2010 e 2011 o contingente de assinantes xDSL no País cresceu 5% e atualmente é de 60% do total, com 8,8 milhões de usuários. A segunda maior (cable modem) tem 31% do market-share, ou seja, metade em relação ao xDSL.

Bonding A exemplo do vectoring, o bonding é uma tecnologia padronizada pela ITU (União Internacional de Tele­ co­ mu­ nicações) que também é utilizada para am­ pliar a performance do par trançado. Re­sumi­damente, o bonding dobra a quantidade de portas no DSLAM e no modem do usuário. “Se você tem duas Juan Pablo Lopes, da Alcatel-Lucent portas com uns 72

“Ao se cancelar o ruído das interferências, o usuário consegue ter acesso a uma velocidade maior de transmissão de dados, uma banda mais próxima do limite teórico contratado.” 30 Teletime nov_2011


“Um DSLAM com vectoring e bonding consegue, em média, velocidades de transmissão 70% maiores e redução de energia de 40%. É brutal.”

FOTO: arquivo

assinantes ‘pendurados’, com o bonding você duplica esses números”, exemplifica Cardoso. “Uma rede VDSL2 vetorizada e com quatro pares de bonding pode atingir 800 Mbps com última milha de 400 metros”, informa. Pablo, no entanto, adverte para a viabilidade comercial da solução. O bonding aumenta a velocidade da rede de cobre indefinidamente mas, segundo ele, para a ‘conta fechar’, a solução tem de utilizar, no máximo, quatro pares. “Para decolar comercialmente, creio que o bonding precisa ser de quatro pares. O modem do usuário encarece à medida que vai recebendo mais cabos. Não sei se vale a pena economicamente para a operadora”, explica. O modem encarece pois precisa de um chipset embarcado que suporte a tecnologia de bonding (e vectoring), assim como o DSLAM, que precisa contar com o software de gerenciamento. “Um dos motivos dessas tecnologias ainda não terem decolado no Brasil é a falta de escala de modems que suportem esses serviços”, diz Cardoso, que acrescenta que é viável ter vectoring sem bonding em uma rede xDSL, mas que o oposto é impossível. “Um DSLAM com vectoring e bonding consegue, em média, velocidades de transmissão 70% maiores e redução de energia de 40%. É brutal”. Barreiras Além da disponibilidade de modems, há outras barreiras significativas para a massificação das redes xDSL com vetorização e bonding no Brasil. Uma delas é o backhaul, que também precisa evoluir. “O backhaul é um grande gargalo. Um bom passo para resolver isso é implantar uma solução óptica GPON para alimentar o DSLAM”, diz Cardoso. Também utilizada nas redes de acesso, a tecnologia GPON é capaz de atingir taxas de velocidade de transmissão de 2,4 Tbps de downstream e 1,2 Tbps de upstream, além de permitir o compartilhamento de uma única fibra para múltiplos usuários e reduzir os investimentos em rede (Capex e Opex). Porém, segundo o diretor da Nokia Siemens, de nada adianta contar com um backhaul parrudo se a arquitetura

Wilson Cardoso, da Nokia Siemens não for adequada e o DSLAM estiver muito longe da casa do assinante. “Não faz diferença alguma implantar vectoring e bonding em uma central distante 3 quilômetros da residência do usuário. Essa última milha tem de ser de 400 metros, no máximo 500”, adverte. Essa distância ideal, infelizmente, está longe de se tornar realidade no Brasil, onde o loop médio é de 1 a 2 quilômetros. O terceiro obstáculo para a disseminação da vetorização e do bonding nas redes de cobre é a evolução das redes xDSL. Segundo especialistas, por serem soluções utilizadas para a oferta da ultra banda larga, com links médios de 100 Mbps, essas tecnologias só fazem sentido na rede VDSL e, principalmente, VDSL2, evolução da plataforma xDSL. “As operadoras ainda compram muitos equipamentos ADSL2 (tecnologia inferior) no mercado e as redes VDSL/VDSL2 só representam cerca de 10% da planta xDSL”, diz.

Phantom mode

O

utra tecnologia que promete turbinar as redes xDSL a partir de 2012 atende pelo nome de “phantom mode”, ou modo fantasma. Esta, ao contrário do bonding e do vectoring, é proprietária, desenvolvida e patenteada pelo Bell Labs, laboratório da Alcatel-Lucent. A solução tem o nome de fantasma por conseguir criar um link virtual (invisível) que, associado à porta física, duplica a capacidade de transmissão das redes VDSL/VDSL2. Segundo a Alcatel-Lucent, testes em laboratório da solução phantom mode com vectoring e bonding atingiram 300 Mbps sobre duas linhas VDSL2 em um loop de 400 metros. “Se você tem dois pares de cobre, é possível criar um terceiro virtualmente. A vetorização cancela o ruído que cresce com o aumento dos pares e o bonding combina e harmoniza a transmissão entre os pares físicos e o virtual em um único cabo”, informa a fabricante.

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Juan Pablo, da Alcatel-Lucent, diz que a fibra óptica é uma alternativa excelente. Mas, em locais com infraestrutura de cobre onde a dificuldade de instalação e o Capex forem maiores, ele recomenda a adoção do VDSL2 com vectoring e bonding. “A vetorização e o bonding colocam o assinante cada vez mais próximo de uma situação tecnológica ideal. Recomendo às operadoras que estão pensando em implementar VDSL2, não só pelo time to market como também pela excelente relação custo/benefício”. Pronta para uso Pablo diz que as operações com vectoring e bonding no Brasil ainda se restringem aos laboratórios, mas que podem ser lançadas comercialmente em breve. “Há mais de uma operadora estudando e, no momento que elas quiserem lançar, podem. A tecnologia está disponível”. Uma dessas operadoras é a Telefônica que, em comunicado oficial, informou à Teletime que “está avaliando a possibilidade de adotar a vetorização/ bonding em sua rede VDSL”. A Oi se limitou a dizer que “atualmente 27% de sua planta de usuários fixos pode ser atendida com a tecnologia VDSL”. A CTBC Telecom preferiu não se pronunciar a respeito, assim como a GVT, operadora que se encontra na melhor situação para turbinar sua rede xDSL, por contar com uma arquitetura de rede de par trançado mais moderna e atualizada. Esta reportagem encontrou dificuldades para entrevistar porta-vozes dessas operadoras. O diretor da Nokia Siemens explica: “Não existe nenhuma oferta de 100 Mbps em cima de cobre ainda no Brasil. Quem disser que vai fazer estará se entregando e denunciando que tentará lançar primeiro”, diz. Mas o aumento da demanda por banda, assim como a aprovação do novo marco legal da TV por assinatura e a oferta de IPTV, segundo o executivo, servirão de molas propulsoras e acelerarão o cronograma das teles. “Acredito que no próximo ano teremos as primei ras operações”, prevê.


.:Tributação

Wilian Miron

miron@convergecom.com.br

Um pequeno alívio

investimentos, ou em qual região acontecerão as melhorias nas redes de telecom. “Dependendo de quais são as metas, fica mais complicado avaliar a vantagem que o programa traria para o setor”. Neste ponto o presidente da Telcomp e o economista discordam: enquanto João Moura prega maior liberdade às teles para definir o escopo dos investimentos e expansão das redes, Santos vê na imposição de metas como contrapartida uma vantagem para evitar que parte das beneficiadas incorporem a desoneração ao lucro. “É adequado envolver as operadoras num sistema de metas, pois evita-se que seja uma vantagem unilateral”, explica. Investimento Até o fechamento desta edição, esperava-se que o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, concluísse, ainda em outubro, o projeto de desoneração do setor de telecom, provavelmente na forma de MP. Com a medida, espera-se

“Os investimentos podem não trazer uma redução de preços grande no primeiro momento, mas incentivam novos negócios que fazem o custo final do serviço desacelerar.” Tharcisio Souza Santos, da FAAP 32 Teletime nov_2011

elevar os investimentos das empresas a R$ 25 bilhões, contra aportes da ordem de R$ 17 bilhões este ano, cifra considerada insuficiente pelo governo. O corte de custos na cadeia de telecomunicações aliviará em 25% os custos de construção e ampliação das redes do setor. A proposta que irá a voto no Congresso cortará o custo das teles com PIS/COFINS, hoje na casa de 9,25% e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que varia entre 10% e 15%. O projeto encontra-se no gabinete do ministro, que analisa os últimos detalhes da MP. O secretário de telecomunicações do Minicom, Maximiliano Martinhão, acredita em investimentos inicialmente mais tímidos. Logo após as mudanças na tributação do segmento, devem ser, no mínimo, R$ 4 bilhões em aportes para o setor. Ele ressaltou a importância de o governo dar suporte aos investimentos privados em infraestrutura fixa, uma vez que estes equipamentos darão suporte à tecnologia móvel “que depende de espectro, um bem escasso”. Entre as alternativas estudadas como contrapartidas às empresas beneficiadas pela nova política industrial FOTO: divulgação

O

governo sinalizou no mês de setembro o encaminhamento de políticas para desonerar os investimentos privados em redes de telecomunicações, com isenção de cobrança de PIS e Cofins sobre estas redes. O decreto com a nova política é aguardado ainda, mas a medida já recebe elogios. Para o economista Tharcisio Souza Santos, diretor da escola de Administração da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em lugar de uma redução de p reços ao consumidor, a proposta de redução de impostos para o setor alimentará a injeção de novos aportes em tecnologia e infraestrutura. “Os investimentos podem não trazer uma redução de preços grande no primeiro momento, mas incentivam novos negócios que fazem o custo final do serviço desacelerar”, comenta. A opinião de Santos é semelhante à do presidente da Associação Brasileira de Prestadores de Serviços de Telecomunicações Competitivas (Telcomp), João Moura. Na visão dele, a única maneira de baixar o valor do acesso rapidamente é incentivando a competição no setor. Ainda assim, Moura comemora o interesse do governo em desonerar os investimentos em redes. “Acho que o mais importante neste caso é o fato de operadoras mais novas terem condições melhores para fazer investimentos”, diz Moura. O executivo da Telcomp ressalta que a entidade tem mantido contato com o Ministério das Comunicações para acompanhar o processo de edição da medida provisória (MP) que reduzirá o custo da compra e instalação de equipamentos às operadoras. “Temos muita expectativa, mas até agora pouca coisa concreta. O que acreditamos é que o governo dará o benefício em troca de metas”, fato que Moura encara como negativo por limitar ou direcionar como serão realizados os

Jezper/shutterstock

Governo vai desonerar os impostos federais sobre telecom por meio de medida provisória, mas ICMS ainda é questão complicada junto aos estados.


está o investimento em telefonia e banda larga em áreas rurais, onde apenas 6% das residências com computador têm conexão à Internet de alta velocidade. Ao mesmo tempo, nas regiões urbanas, 39% das famílias têm um dispositivo de acesso e 31% delas usam o serviço de banda larga. “Podemos ver que o setor está crescendo, em algumas áreas até existe competição, mas banda larga ainda não”, diz Martinhão. FOTO: arquivo

“Temos muita expectativa, mas até agora pouca coisa concreta. O que acreditamos é que o governo dará o benefício em troca de metas.” ICMS. “É um imposto que tem impacto direto na conta do usuário. Então, se o serviço chegar mais barato na ponta, terá mais gente assinando e a arrecadação aumenta. Adicionalmente, as empresas daquela região sairão ganhando por conta do efeito multiplicador deste serviço para a economia”. Em alta nas discussões entre a iniciativa privada e o governo, a desoneração dos impostos estaduais ganhou força em 2009, após o Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) firmar o Convênio 38. A partir dele, os estados podem isentar os acessos à Internet do pagamento de ICMS. Inicialmente 14 estados aceitaram a proposta, mas metade deste número homologou a concessão do benefício fiscal. Esta reportagem procurou o secretário-executivo do Mi­­ nistério da Fazenda, Nelson Henrique Barbosa Filho, mas foi informada, por e-mail, que ele não poderia atender à solicitação “devido ao grande volume de compromissos governamen-

tais”. Sem enxergar a quantidade de adesões esperadas, o Ministério das Comunicações enviou recentemente ao Confaz um apelo para mobilizar mais estados a aderirem ao convênio, que possibilita a oferta de banda larga a R$ 30 nas regiões onde há uma política de desonerações. Na prática, contudo, apenas alguns estados hoje efetivamente praticam o convênio, e mesmo nesses casos os resultados em termos de ampliação da penetração dos serviços são mínimos. Não há registros de grandes ampliações da penetração da banda larga no Estado de São Paulo, por exemplo, onde o convênio foi adotado já a partir do começo de 2010 e beneficiou as principais operadoras. A explicação para isso por parte das empresas é que a desoneração não incluiu os equipamentos a serem instalados, o que torna as margens do produto popular menos atraentes e, portanto, há pouco estímulo comercial para que o produto seja propagandeado ao consumidor. 

A MP e a indústria nacional George Bailey/shutterstock

Panorama A agenda para tornar mais baratos os serviços de telecomunicações no Brasil tem sido trabalhada em duas frentes: desoneração de impostos federais, como PIS/COFINS e estaduais, como o ICMS. No primeiro caso, a MP que está para ser editada, com desoneração de cerca de R$ 6 bilhões, deve resolver o problema. A intenção é que este dinheiro seja aplicado na construção e melhoria de redes, mas projeta-se incluir como meta que ao menos parte dos equipamentos comprados com base neste benefício seja produzida no mercado interno. Na outra ponta, bem mais complicada, há uma disputa nos Estados para se reduzir a alíquota do ICMS para a banda larga. Esta seria uma maneira de, no curto prazo, baixar os valores cobrados na conta do consumidor, especialmente daqueles que assinam planos básicos de Internet, a exemplo dos acessos que fazem parte do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL). O problema está na maneira como os Estados organizam suas finanças. E, em muitos casos, eles são dependentes da arrecadação com os serviços de telecomunicações. Para Tharcisio Souza Santos, a questão central no entrave para se aliviar o custo final do serviço é o aumento do custo do setor público nos últimos anos. O entendimento de João Moura, da Telcomp, é semelhante. Para ele, é preciso que os estados mais pobres ou dependentes desta arrecadação entendam que incentivar a massificação do serviço pode gerar novas receitas, ainda maiores do que a alcançada atualmente com a cobrança de

João Moura, da Telcomp

A

indústria nacional de telecom pode ser uma das grandes beneficiadas da medida provisória com a política de desoneração para a construção de redes. Caso os prognósticos do setor se cumpram, e o governo cobre das operadoras agraciadas com a desoneração mais investimento em tecnologia nacional, este segmento poderá suavizar o crescente déficit na balança comercial de insumos de telecomunicações. A previsão para este ano, ainda sem o auxílio do governo, é que o setor encerre 2011 com déficit de R$ 33 bilhões na balança comercial. Atualmente a indústria brasileira de equipamentos de telecomunicações está resumida praticamente à montagem de aparelhos. Ainda assim, o setor de telecom representa 4% do PIB. Ao mesmo tempo, em países mais desenvolvidos, este nicho ultrapassa os 12% da produção nacional. Em entrevista recente, o presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, afirmou que para o setor de microeletrônica, o que em algumas áreas inclui telecom, para retomar a trajetória de crescimento é preciso que o governo aumente as alíquotas de importação de produtos semelhantes aos fabricados no Brasil. “Já pedimos para eles taxarem em algo próximo de 30% ou 35%, mas até agora não fizeram”, diz ele sobre o pleito de o governo cumprir com as tarifas previstas na Organização Mundial do Comércio (OMC) para questões semelhantes. “As vezes tenho a impressão de que forças ocultas têm interesse em que as coisas não andem”, pontua. Procurada para comentar a iminência da aprovação de um pacote de medidas para beneficiar o setor, a entidade disse que só pretende se manifestar quando a MP estiver aprovada. Outro problema enfrentado pelas fabricantes de equipamentos e componentes, no Brasil, é o custo da energia elétrica e o dólar baixo, fatores que influenciam no preço final dos aparelhos e beneficia a importação, principalmente da China.

nov_2011 Teletime 33


.:Recursos humanos

Trabalho duro

Departamentos de RH apostam em políticas de melhoria das condições de trabalho dos funcionários, mas medidas ainda são limitadas frente às exigências colocadas sobre algumas funções. sparkdesign/shutterstock

“Não adianta criar um lugar bonito e depois usar o trabalhador até ele não aguentar mais.”

34 Teletime nov_2011

plo. Enquanto as pessoas que desenvolvem atividades “intelectuais”, em escritórios, necessitam de um trabalho focado na saúde mental e eliminação do estresse, os funcionários que desempenham atividades físicas, na rua, necessitam de acompanhamento com relação aos equipamentos e ginástica laboral. Os atendentes de telemarketing estão no meio termo e, geralmente, demandam atividades específicas, que algumas vezes trabalham o lado emocional também. “No momento de decidir pela implantação de um projeto destes, os gestores avaliam os riscos, de acordo com a área, com a função”, destaca Cleise. Já há alguns exemplos de programas de qualidade de vida em empresas de telecom. Um exemplo é o que ocorre na operadora Claro, que há pouco mais de dois anos lançou um site para debater o tema com os funcionários. Ao ver a iniciativa ser bem recebida pelos colaboradores, a operadora ampliou o projeto para grupos de corrida e caminhada e acompanhamento de funcionárias gestantes. Na TIM, que também preferiu não comentar o assunto, existe um projeto semelhante, que conta com academia nas dependências da empresa, para estimular os funcionários a cuidarem da saúde física. Acompanhamento Interessada nos benefícios de se trabalhar a saúde ocupacional, a GVT patrocina, anualmente, uma pesquisa sobre saúde no trabalho, realizada por uma consultoria externa. O objetivo do estudo é contribuir na prevenção de Lesões por Esforço Repetitivo (LER) e outras doenças. “Isto permite que a companhia desenvolva programas específicos de prevenção de doenças e promoção da saúde”, diz a operadora em nota. A partir dos re­­sultados do le­­van­­tamento, a em­­presa identificou a necessidade de proFOTO: Socorro andrade/divulgação

E

liminar o estresse dos funcionários e promover saúde física e mental são temas que têm dominado a agenda dos gestores de recursos humanos das grandes empresas, e no setor de telecom não é diferente. Prática comum nos Estados Unidos e Europa, os programas de saúde no trabalho se tornaram assunto corrente no setor e, dentro das operadoras brasileiras, já existem projetos de educação alimentar e auxílio para erradicar maus hábitos como tabagismo, por exemplo. O resultado destes programas pode ser mensurado tanto com o aumento da produtividade do funcionário saudável e, até mesmo, na redução da utilização de planos de saúde e faltas na empresa, explica Cleise Zolin, diretora de qualidade de vida da New Port Consultoria de Benefícios. Mas esse é um dos aspectos do problema. Medidas contra questões específicas do setor, como exposição a radiações eletromagnéticas, estresse de atendentes e atuação de funmais preocupadas com o lado humano cionários em áreas de risco ou regiões do trabalhador”. inóspitas ainda não recebem atenção Dentre os motivos que estão levando específica das empresas, segundo sindios RHs das operadoras de telecom a se calistas ouvidos por TELETIME. preocupar mais com a parte física e menEnquanto isso, as operadoras preferem tal de sua força de trabalho está o um enfoque voltado para a questão da aumento na produtividade, redução de qualidade de vida. custos com afastamento de funcionários As medidas que já vêm sendo tomae, eventualmente, com indenizações ou das pelas operadoras no sentido de despesas médicas. melhorar a saúde no trabalho dos funAo acompanhar a crescente busca de cionários de telecom, explica Zolin, empresas de telecom por programas de decorrem da percepção de que os saúde laboral, a especialista observa que impactos negativos que os problemas de há necessidades distintas entre as operasaúde causam nos colaboradores refledoras, empresas de manutenção e instatem-se sobre as empresas, que emprelação de equipamentos e gesgam dezenas de milhares de funcionátoras de call center, por exemrios. Por isso, as companhias têm enxergado as vantagens de ir além da assistência médica, incentivando a qualidade de vida dos funcionários. “Essa cultura tem aumentado entre companhias brasilei- Edna Maria do Sacramento, diretora de saúde no trabalho do Sindicato dos ras, especialmente quando Trabalhadores em Telecomunicações falamos daquelas que estão


“desde setembro a empresa mantém subsídio a mil colaboradores para a prática de atividades físicas em academias ou tratamento estético.”

FOTO: divulgação

mover exames periódicos em seus colaboradores. As avaliações são submetidas à equipe médica da empresa, ou conveniada, que ao perceber “incoerências no estado de saúde do funcionário os orienta a buscar tratamento médico adequado”. Outro ponto no qual a operadora identifica a necessidade de trabalhar é na assistência social, uma maneira de se melhorar as condições gerais de vida e o desempenho dos ‘parceiros’, auxiliando-os a resolver problemas recorrentes que geralmente tiram o foco do trabalho. “São casos de conflitos familiares, questões jurídicas (exceto trabalhistas), problemas conjugais e situações traumáticas”. Outras iniciativas que a operadora desenvolve para melhorar a saúde dos colaboradores são atendimentos ambulatoriais e programas de prevenção de riscos, como de câncer de pele, direcionado, principalmente, às pessoas que desenvolvem trabalhos de campo. Da mesma maneira, exames periódicos são feitos nos executivos da GVT. De acordo com a operadora, eles são submetidos anualmente a entrevistas com médicos do trabalho, que fazem uma triagem para levantar as “necessidades de monitoramentos de diagnóstico de cada um”. Após a bateria de exames, os executivos voltam a consultar-se com os médicos, que orientam esses funcionários sobre as melhores práticas de saúde, de acordo com cada perfil. Call center Já os funcionários de áreas como o call center, considerada um ponto crítico em termos de desgaste laboral (e também uma das profissões elencadas como das mais estressantes), recebem suporte como o Programa de Prevenção a Doenças Osteomusculares. Neste projeto são realizadas sessões de ginástica laboral e massagens. Outra iniciativa da GVT é o acompanhamento de casos, no qual existe um atendimento diferenciado aos colaboradores que apresentam recorrentes problemas de saúde. Conforme a empresa, a eles são fornecidos subsídios para auxiliar a recuperação. “A identificação dos colaboradores que necessitam de acompanhamento diferenciado é realizada pela análise de atestados médicos, de constatações de

Américo Figueiredo, da Nextel acidentes (do trabalho ou não), de internamentos, pelo histórico de utilização do plano de saúde e pela realização dos exames médicos ocupacionais”, explica a empresa. Vale do Silício A Nextel iniciou as primeiras iniciativas na área de qualidade de vida no trabalho em 2009, com o programa Você em Equilíbrio. O projeto começou com um portal sobre saúde ocupacional desenvolvido pela empresa, como

Maquiagem

P

ara os sindicatos de trabalhadores de telecomunicações, os investimentos da iniciativa privada na saúde dos colaboradores ainda é muito pequena, se comparada aos ganhos oriundos das atividades desempenhada pelos funcionários nas empresas. Para Edna Maria do Sacramento, diretora de saúde no trabalho do Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações do Rio de Janeiro, é preciso melhorar a condição do trabalho. “Não adianta criar um lugar bonito e depois usar o trabalhador até ele não aguentar mais”. Na visão dela, a área mais prejudicada com problemas de saúde por conta da atividade profissional é a de atendimento. “Para esta função, eles pegam jovens no primeiro emprego e a doença do trabalho só vai aparecer depois, quando ele não estiver mais na empresa”. Ela relata que os sindicatos de todo o Brasil têm recebido queixas de profissionais que, ao deixar um emprego, veem dificuldades para encontrar uma nova oportunidade de trabalho “porque na hora de fazer o exame admissional em outro lugar, os médicos detectam os problemas que esta pessoa carrega do emprego anterior”, relata. A diretora do sindicato também aproveitou para criticar os programas de qualidade de vida em atividade em algumas empresas. “Geralmente são apenas cinco minutos para filmar e tirar fotos e isso acontece pelo fato de o trabalhador desconhecer seus direitos. Então, eles acham que não têm direito nenhum e a empresa aproveita”, diz.

suporte aos funcionários. E, em janeiro deste ano, a companhia expandiu a ação para um “espaço”, destinado ao relaxamento dos trabalhadores. A ideia de se criar o espaço nasceu para atender a uma demanda dos colaboradores mais jovens, profissionais nascidos entre 1980 e 1990. Segundo a empresa, hoje eles representam 47% da força de trabalho da Nextel (mais de 4,7 mil pessoas). “Fizemos uma pesquisa com esses funcionários que apontou um interesse da parte deles em um ambiente no qual pudessem relaxar e recuperar a energia”, afirma o vice-presidente de Recursos Humanos da operadora, Américo Figueiredo. O modelo é inspirado nas empresas de tecnologia do Vale do Silício, com puffs, som ambiente, televisores, livros e revistas motivacionais, equipamentos de massagem, mesas de futebol de botão, tênis de mesa e bilhar, além de diversas mesas e bancos nas áreas internas e externas. Figueiredo ressalta que, desde setembro, a empresa mantém subsídio a mil colaboradores para a prática de atividades físicas em academias ou tratamento estético. Os profissionais inscritos têm direito a reembolso mensalmente. O executivo ressalta que os programas são direcionados a todos os colaboradores, sem distinção de departamentos e localidade. Embora parte das iniciativas da empresa sejam recentes, é possível ver os ganhos, comenta Américo Figuei­redo: “Este ano nossos colaboradores foram convidados a contribuir na seleção de um dos tópicos que faria parte da estratégia da companhia e o tema qualidade de vida foi o mais votado”, comemora. De olho nesta tendência, a Associação Brasileira de Tele­­ comu­ nicações (Tele­bra­sil) mantém um estudo sobre saúde no trabalho. Entretanto, a entidade não quis divulgar detalhes sobre o trabalho. José Américo, coordenador da discussão sobre o tema na associação patronal se limitou a afirmar que “está em fase embrionária, ainda estamos definindo o escopo”.  Wilian Miron

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Alberto Paradisi*

FOTO: divulgação

.:pontodevista

cartas.teletime@convergecom.com.br

Por trás do FTTH

A

oferta de serviços de telecomunicações cada vez mais sofisticados, como videoconferência, transmissão de vídeos de alta qualidade e jogos online, vem fazendo a demanda por largura de banda aumentar rapidamente. Segundo estimativas recentes, essa demanda vem registrando taxas de crescimento superiores a 50% ao ano. A previsão é de que, em breve, velocidades de transmissão da ordem de algumas dezenas de Mbps por usuário serão requisitadas em grande volume. E isso tem justificado os investimentos na utilização de fibras ópticas também nas redes de acesso – tecnologia conhecida como FTTx (fibra até a residência, prédio ou escritório do usuário). A rede fiber-to-the-home (FTTH) é mais uma alternativa ao acesso de banda larga, somando-se a outras tecnologias disponíveis no mercado, como xDSL (baseada no uso de par trançado de cobre) e as redes sem fio 3G/LTE (Long Term Evolution), Wi-Fi e WiMAX. Entre as vantagens do uso de fibra óptica na rede de acesso, vale destacar a velocidade superior a gigabit por segundo (Gbps), alcançando distâncias de até dezenas de quilômetros, a facilidade de atualização e evolução, a possibilidade de serviços simétricos (velocidade de download igual à de upload), o baixo custo de operação e manutenção, a confiabilidade e imunidade a interferências eletromagnéticas. A grande maioria das instalações de redes FTTH, atualmente, utiliza arquitetura do tipo ponto-multiponto, ou rede óptica passiva (Passive Optical Network – PON). A arquitetura de rede PON permite atender algumas dezenas de usuários de banda larga utilizando uma única fibra, a partir da central da operadora - o que representa alta escalabilidade e redução de custos de operação e manutenção, quando comparados com outras arquiteturas. Duas tecnologias de redes ópticas

passivas estão disponíveis hoje: Gigabit PON (G-PON), padronizada pela União Internacional de Telecomunicações (ITU-T), e Gigabit Ethernet PON (GE-PON), padronizada pelo Institute of Electrical and Electronic Engineers (IEEE). O padrão G-PON foi desenvolvido pelas operadoras de telecomunicações e oferece algumas vantagens técnicas sobre o GE-PON, como, por exemplo, maiores taxas de tráfego descendente e ascendente, maior eficiência de banda, maior variedade de serviços, maior segurança e suporte à operação, administração e manutenção. Novos padrões, chamados XG-PON (ITU-T) e 10GE-PON (IEEE), estão sendo desenvolvidos, visando aumentar a velocidade de downstream e upstream. Além das tecnologias PON já padronizadas, novas tecnologias baseadas nessa arquitetura – chamadas genericamente de NG-PON (Next Generation PON) - estão sendo pesquisadas com o objetivo de expandir a capacidade da rede óptica de acesso. O rápido crescimento do mercado de tecnologia óptica baseada em arquitetura de rede PON pode ser explicado por três parâmetros relevantes: número de usuários atendidos por um único cabo saindo da central da operadora (ou dentro da área de cobertura de uma estação radiobase, no caso de rede sem fio), velocidade por usuário e distância de cobertura (distância máxima entre o equipamento da central e o usuário). Só para dar um exemplo, nas redes de cobre com tecnologia xDSL, é possível atender um usuário, localizado a até 4 km da central, com velocidade média de até 4 Mbps. Já a atual geração de redes de fibra óptica de tecnologia G-PON permite atender até 64 usuários, a uma distância de 20 km da central, oferecendo a cada um deles velocidades de transmissão de algumas dezenas de Mbps.

Com o uso da técnica WDM (Wavelength Division Multiplexing), a capacidade da rede PON é ampliada em quatro vezes. Nas redes conhecidas como WDM-PON, empregam-se múltiplas frequências ópticas (comprimentos de onda, ou múltiplas cores), sendo que os usuários possuem frequências independentes entre si para se comunicar com a central – o que amplia a capacidade de banda por assinante. Além disso, essa configuração permite a ampliação gradativa da capacidade da rede, devido à eliminação da estrutura de compartilhamento de banda. No entanto, a principal limitação para a implantação de redes WDM-PON é o custo elevado – especialmente do terminal de usuário –, decorrente da necessidade de ter disponíveis inúmeras frequências ópticas requisitadas pelo sistema. Para resolver esse problema, tecnologias conhecidas como colorless, ou independentes de frequência, estão hoje em fase de pesquisa e desenvolvimento. Os terminais de usuário dessa rede usam transmissores ópticos sem cor - ou seja, o comprimento de onda da fonte não é fixo, o que reduz substancialmente o problema de gerenciamento de placas sobressalentes de transmissão, bem como o custo do terminal. No Brasil, já temos pesquisas e desenvolvimento de soluções WDMPON colorless. A meta é dispor de uma plataforma WDM-PON com capacidade de pelo menos 50 Gbps, o que significa ter 40 usuários conectados usufruindo velocidades de até 1,25 Gbps cada um, a uma distância de 40 km da central de serviço. Hoje, em testes de laboratório, já se constata capacidade de 20 Gbps (16 usuários com 1,25 Gbps cada um) e 40 km de alcance.

No Brasil, já temos pesquisas e desenvolvimento de soluções WDM-PON colorless.

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*Gerente de Sistemas Ópticos do CPqD.


Cláudio Dascal

cartas.teletime@convergecom.com.br

FOTO: ARQUIVO

.:ponto&contraponto

Nem tudo é o que parece

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om a rápida evolução das tecnologias e a demanda de soluções de redes, sistemas e aplicações cada vez mais complexas, associadas a ofertas mais convergentes e serviços com métricas diferentes em sua essência, fica cada vez mais difícil para os executivos, engenheiros e homens de mercado das operadoras se posicionarem e tomarem as decisões corretas. Mas não é apenas do lado das operadoras que esta dificuldade aparece. Pobres dos clientes e usuários que não conseguem navegar com facilidade e muito menos com simplicidade na miríade de ofertas e combinações disponíveis no mercado. A verdade é que muito cuidado tem de ser tomado quando o assunto é tecnologia. Um exemplo: a densidade de telefones celulares acima de 100% não é necessariamente o que o número diz. Muitos clientes têm mais de uma linha, para otimizar o benefício obtido nos diferentes planos tarifários, dedicando-se a falar com pessoas da família ou telefones exclusivos de uso da empresa ou ainda SIMCards locais para diminuir os custos de roaming. Essa característica de uso cria uma distorção na análise baseada em densidade de telefones. Para corrigir esta distorção é preciso analisar também os minutos utilizados e dados de roaming ao longo do tempo para poder interpretar a real utilização do celular. Só assim se poderiam desenvolver as estratégias para corrigir eventuais distorções que estejam colaborando para deteriorar a receita por assinante. Outra questão que requer uma melhor coleta de informações e análise mais criteriosa é relacionada com o tráfego de dados. O crescimento do uso de modems 3G, em aplicação nomádica em notebooks em hotspots, ou mesmo em escritórios, gera uma demanda alta de tráfego de dados, requerendo grandes investimentos de backhaul para a rede 3G, e seguramente este efeito se multiplicará com a introdução da LTE. Remunerar os investimentos passa a ser uma questão complexa, pois os planos de dados foram lançados com pre-

ços já bastante baixos, e a possibilidade do VoIP nos celulares usando 3G vai rapidamente deteriorar a receita de voz, que é o que mantém ainda hoje o equilíbrio econômico financeiro das operadoras. O uso da rede 3G, e futuramente 4G, para atender a demanda de banda larga em aplicações nomádicas nos faz questionar a necessidade de investir em redes móveis com os mesmos critérios das redes 2G que eram predominantemente para voz. Não sabemos ainda responder se para a real aplicação das redes 3G e 4G não deveríamos repensar as exigências de desempenho das redes. Chegou a hora da fibra óptica e parece que temos uma adoção em massa dessa tecnologia nos backbones. São investimentos da Telebrás, Vivo, TIM e Embratel, porém o mais relevante parece ser a adoção da fibra nas redes urbanas para o acesso da última milha, o que indica uma renovação das redes fixas depois de muitos anos sem investimentos. Pode ser em função da acirrada competição pela banda larga de maior velocidade e com maior qualidade ou uma preparação para a evolução das redes para a entrega de TV utilizando IP. Será a aposentadoria do xDSL. A introdução massiva de smartphones e tablets muda os modelos de negócio, pois cria uma alta demanda de tráfego na rede, ônus a ser arcado pelas operadoras, e o conteúdo vira receita adicional para terceiros que não participam do investimento na infraestrutura. Isso pode gerar um desbalanceamento na viabilidade do negócio, já que apenas o tráfego de dados está longe de pagar as contas dos crescentes investimentos. A computação em nuvem é mais uma novidade no mercado que gera novas oportunidades de negócio, não necessariamente a serem aproveitadas pelos donos das redes, mas é mais tráfego de dados e mais infraestrutura sendo

demandada, sem necessariamente remunerar corretamente a cadeia de valor. É mais uma novidade que parece uma coisa, mas de fato é outra. As ofertas de quase todos os provedores de serviço evoluem rapidamente para tentar oferecer pacotes de serviços múltiplos, que nem sempre têm vantagens além dos descontos. Aos poucos, e idealmente, estas ofertas caminharam para um otimização de redes e de dispositivos que poderão trazer mais vantagens além das comerciais. Finalmente chega a convergência de serviços e possivelmente a convergência de redes. Onde está, nas operadoras, o truque dos planos de minutos ilimitados por um valor fixo em reais? São, na verdade, minutos grátis na própria rede da operadora, mas o usuário não sabe disso. E o interurbano e o roaming nacional e internacional, como ficam? E a franquia de planos familiares? Banda larga nominal ou a garantida? Promoções limitadas ou permanentes? Benefício ou promoção? Contratos? Tudo isso tem que ser analisado pelo consumidor. Como todas estas questões são aplicáveis a todas as operadoras, constata-se que os planos são complexos e a dificuldade para o cliente é nunca receber o que pensava estar comprando. O desafio aqui é não só explicar melhor para o consumidor o que está sendo oferecido mas ter, dentro das operadoras, profissionais capazes de traduzir isso para um público comum. É cada vez mais difícil ter esse tipo de profissional, cuja formação requer especialização em várias áreas, mas isso é assunto para outra coluna. A dinâmica de evolução das tecnologias, serviços e aplicações continua em ebulição e a dificuldade para todos nós e tentar enxergar o que é e não o que parece ser.

A introdução massiva de smartphones e tablets muda os modelos de negócio, pois cria uma alta demanda de tráfego na rede, ônus a ser arcado pelas operadoras.

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Revista Teletime - 149 - Novembro 2011  

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