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Paulo Pires Moreira

A ILHA DO RATO

E OUTRAS HISTÓRIAS


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Este livro não foi, por opção do Autor, escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico

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ÍNDICE DE CAPÍTULOS I - A Repartição de Finanças 2160 .................................................................................... 7 II - O Professor Doutor Felisberto Silva ......................................................................... 13 III - O Redil de Empregos ............................................................................................... 27 IV - O Franchising Religioso .......................................................................................... 33 V - A Parábola da Caverna .............................................................................................. 39 VI - O Mito da Irlândia .................................................................................................. 49 VII - A Ilha do Rato ........................................................................................................ 51

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I A Repartição de Finanças 2160

Uma vez sonhei que um ministro das finanças, não sei qual nem interessa para o exemplo, nem se foi anteriormente ocupante desse lugar ou se ainda será num futuro próximo ou distante, - o que também não vem para o caso -, de modo a fomentar uma maior colaboração por parte dos contribuintes no que tem a ver com a transparência fiscal, se dispôs ele próprio a atender o público em várias repartições de finanças do país, em regime rotativo. Naquilo que o próprio baptizou de “ministério aberto” o bom do ministro pretendia através do atendimento personalizado aos contribuintes, dar prova que as pessoas deveriam ser recebidas como entes humanos e não apenas sob a forma jurídica; escutar seus anseios e responder às suas dúvidas, apaziguar seus medos, dando-se ele próprio como exemplo de bom contribuinte, aproveitando-se do mesmo golpe para apresentar perante os cidadãos-eleitores sua total idoneidade como figura pública. Pretendia o ministro idóneo com esta abertura toda ser visto como a figura de proa, a cabeça charneira, o farol da sensibilidade e do bom senso entre todos, fossem eles meros contribuintes individuais ou colectivos, dando o exemplo às massas de quão necessário era procederem ao pagamento dos devidos impostos. E como estes, depois de recolhidos, seriam utilizados de modo correcto e aplicados ao bem comum. Pretendia o ministro igualmente sair dessa - a um tempo provação, e ao outro, exemplo de verdadeira cidadania aberta e colaborativa com seus semelhantes - com uma mente muito mais arguta e perspicaz que lhe traria conhecimentos gerais e pormenorizados de como melhor governar tão difícil quanto ingrata tarefa. Sabe-se que a pasta das finanças é uma daquelas que mais exigência trás a quem a administra, muito principalmente quando o governo entende misturar economia com finanças numa amálgama quase ingovernativa. Mas o bom do senhor ministro das finanças

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entendeu que a melhor política a adoptar não seria a da velha escola que toma o cidadão anónimo como um simples código de acesso ao portal das finanças (o pagante) e o cidadão mais conhecido (e não pagante) como uma fonte dispendiosa de dinheiros públicos gastos com cartas de advertência ou com acções de contencioso. E que dificilmente trazem retorno algum. Assim, decidiu envolver-se a fundo naquilo que a oposição chamava de “marketing directo enganoso” mas que o ministro traduzia antes por uma acção de “meritório alcance social”, de modo a transmitir e inculcar nas mentes de todos os intervenientes neste processo isósceles de apuramento, recebimento e gastamento, do verdadeiro alcance de tal tipo de actividade; sua verdadeira natureza e finalidade. Sabe-se que para o cidadão o facto de receber uma carta com o logótipo apenso e de lacónico conteúdo para se apresentar no serviço de finanças de sua área de residência, em tal dia e a tantas horas, é semelhante a receber uma carta de hospital (envelope timbrado do hospital, carta assinada por funerária a qual tem serviço de messaging contratado pelo dito hospital), dizendo que o famíliar x do senhor y aguarda na morgue (já vestido e lavado), para ser enterrado. A conotação que se faz do serviço de finanças é na realidade muito parecida com uma ida ao hospital. Ninguém, excepto em situação extrema e coagido, lá quer ir, muito menos com ar desprendido e espírito agradável. Pelo contrário, costuma ser com ar apreensivo e com espírito resignado. Entendeu o senhor ministro que se o cidadão recebesse uma carta escrita e assinada pelo próprio pulso do dirigente máximo da instituição, carta personalizada com o nome e morada do contribuinte, nada daquelas cópias feitas aos milhares em que apenas mudam os artigos e as alíneas em apreço, as pessoas se sentiriam muito mais confiantes e decididas. No fundo quem não aproveitaria a ocasião para conhecer em privado o ministro e poder dizer aos familiares e amigos que havia cumprimentado ou beijado o tipo que quase todas as noites aparecia no jornal das oito, embora geralmente pelas piores razões. Assim, o ministro sorteou de dentro de um saco e perante as câmaras de televisão, a primeira repartição onde iria iniciar o seu ministério aberto. Não foi sem um certo sorriso frouxo de lábio-a-lábio que anunciou com voz falha de emoção que seria uma repartição de finanças de uma área degradada e conflituosa a primeira a receber tão politicamente ousada quanto socialmente inovadora iniciativa. De facto o ministro não foi bafejado pela sorte logo no primeiro sorteio, mas jogo é

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jogo e logo de imediato, ao falar para as TV´s, o ministro usou o pretenso azar em seu proveito: “- Estou grato por ter sido sorteada uma repartição de finanças onde existem tantos processos pendentes de dívidas ao fisco, isso será decerto a melhor forma de começar esta minha iniciativa de abertura para com o cidadão comum e decerto me trará muitas alegrias ao poder contactar com eles e comungar de suas dúvidas ou questões, problemas ou desconhecimentos” “- Mas senhor ministro, logo a repartição com o código 2160… não acha que para começar será demasiado extenuante?” “- Minha senhora todos os contribuintes são iguais perante a lei, não vou ser eu a discriminá-los, pelo contrário, quero que todos ao final se sintam como pertencentes a um todo que trabalha para atingir fins que trazem proveitos à colectividade.”

Dos processos pendentes na mencionada repartição foram retirados à sorte e pelo método do aleatório, de entre a pilha que uma colaboradora tinha em cima de sua secretária, os primeiros cinco felizes a serem contemplados com uma visita às finanças para serem recebidos pelo ministro do pelouro. O primeiro era respectivo a um processo de dívidas fiscais pelo não pagamento voluntário do IRC correspondente a determinado ano fiscal por parte de uma pequena empresa entretanto falida. Como não havia activos da empresa que pudessem ser resgatados por parte do fisco de modo a pagar a dívida (que amontoava já juros de mora), dera-se início ao processo contra o sócio-gerente de modo a ser ele a pagar através de seus bens particulares, a dívida da empresa. O senhor M. foi então recebido no dia e na hora marcados pelo senhor ministro que, o mais discretamente que lhe foi possível, o recebeu no gabinete do chefe das finanças local, empreendendo um diálogo que neste caso tinha como mérito tentar atingir uma solução satisfatória para ambas as partes. Satisfazer duas dimensões em conflito de interesses é algo que nem os melhores activistas políticos de renome mundial

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conseguem fazer por esses quatro cantos do mundo, quanto mais um ministro leigo em conhecimentos tributários de secretária, sem experiência prática de como se processam as cobranças coercivas ou sem experiência alguma, fosse de que tipo fosse, de atendimento ao público. Para lá das palavras e das saudações de ocasião, e já depois dos jornalistas terem abandonado a sala do chefe de repartição para deixarem o ministro trabalhar, o que surgiu logo de imediato foi uma enorme tensão latente no ar, uma espessa aflição que quase se podia cortar. O funcionário-ministro, mais nervoso do que o cidadão-gerente-incumpridor, iniciou a entrevista conferenciando com a cabeça curva para os papéis que tinha em cima da mesa, arrumados em dossier de capa mole, balbuciou frases desconexas sobre os méritos da tributação por iniciativa própria ao invés dos decorrentes das ordens dos tribunais (embora tal já não seja estritamente necessário por mérito da autonomia da Agência Tributária, algo que o ministro deveria desconhecer), assinalou o mérito inerente ao espírito colectivo que se deve promover através do pagamento voluntário das obrigações fiscais – por parte de todos – discorreu sobre o que aconteceria ao edifício fiscal e concomitantemente a todas as acções por parte do Estado se as pessoas deixassem de cumprir aquilo que por lei estavam incumbidas de fazer… Enquanto escutava as palavras decididamente estudadas de véspera e atenciosamente colocadas no presente e que saíam da boca de lábios grossos do ministro, o senhor M. apenas fazia um esforço enorme para se manter sentado com as mãos entre as pernas em frente a tão distinta personagem que nem se tinha dado ao trabalho de perguntar o que tinha dado azo a tão infeliz situação de pendência. Apetecia-lhe gritar para a douta personalidade que a situação se devera a incumprimento contratual por parte de terceiros, que despoletara o fenómeno descrito pelos físicos e pelos economistas como de “bola de neve”, que tentara tudo por tudo mas que não tinha a mínima possibilidade de pagar a percentagem exigida sobre a facturação apresentada pela sua empresa no que concertava ao ano a que respeitavam os rendimentos obtidos (facturados mas nunca recebidos, logo passíveis de não serem considerados como obtidos), que o fisco não atendia a problemas de índole pessoal e que se estava nas tintas para com os problemas daí decorrentes, quer para a vida das empresas quer dos administradores das ditas. Apetecia-lhe exclamar bem alto que a instituição à qual preside está se borrifando (com tendências alagadiças) para as situações potenciais de ruptura que

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estes casos implicam em termos de vida particular, as dores de cabeça originadas, as noites em claro proporcionadas, a pontada no estômago ocasionada por uma situação inultrapassável, bem documentada e sem ser passível de ser considerada como ilícita ou como expediente de roubo ou de falcatrua. Apetecia-lhe ainda berrar na cara do governante que enquanto as instituições financeiras que deram origem ao descalabro financeiro mundial e à crise económica que originaram, e que em última análise eram as verdadeiras responsáveis pela situação que M. atravessava, eram taxadas a uma taxa de IRC inferior àquela que pretendiam taxar a sua pequena empresa, mesmo esta não tendo volume de negócios algum pois na realidade acabara por não receber nada. Os números lavrados no modelo de apresentação de contas eram números contabilísticos, não reais. Mas M. nada conseguia dizer, o ministro aberto não dava hipótese alguma de falar, sempre utilizando o dom da palavra num conciliábulo agradável mas não pactuante e (tinham advertido os seus assessores), para não deixar espaços em aberto sem responder fosse o que fosse, o que poderia dar origem a que o interlocutor pudesse pensar que o ministro não dominava o assunto em questão. Desta forma, a reunião informal mas com teor formal arrastou-se durante mais de meia hora sem que M. pudesse alegar grande coisa a seu favor, apenas conseguiu meter já ao fim da conversa e entre duas palavras mais compridas - e que por tal necessitaram de um fôlego intervalar maior por parte do ministro -, dizer que não tinha nenhuns bens passíveis de serem penhorados, só se fosse a cama onde dormia (dormia mal, já se percebeu). Quanto ao ministro, desejoso por transmitir para fora da sala do chefe de repartição algo de útil que pudesse encher uns minutos do espaço televisivo da noite, tentou sacar algo que, nem que fosse por mera anuência circunstancial por parte de M., lhe pudesse ser de utilidade quando interrogado pelos jornalistas que ansiosamente esperavam pelo final do dia, lá nas escadarias da repartição de finanças da área, código 2160. M. apenas sentiu batendo de raspão aquela coisa dita em jeito de surdina como se fosse um pecado prestes a ser cometido de lhe serem perdoados os juros acumulados se M. se dispusesse a pagar a dívida da sua empresa em 10 prestações fixas mensais, isso claro, se apresentasse uma garantia bancária para esse efeito. Nem conseguiu alegar que nenhum banco iria aceitar lavrar uma garantia para fazer face a uma despesa desse teor e valor se a própria empresa já estava em situação de insolvência e ele próprio inibido de ter um simples cartão de débito em seu nome.

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O ministro, perante o silêncio constrangido de M. decidiu unilateralmente terminar com aquela primeira conversa-reunião com o feliz contribuinte escolhido para iniciar o ciclo que se ia abrir em termos de transparência, actuação desinibida e informalidades processuais por parte da administração fiscal nacional. Aos jornalistas alegaria que o cidadão anuíra em tudo que lhe tinha sido apresentado como alternativa e que M. (repticiamente retirado do edifício sob desculpa de preservação do seu anonimato para que a sua vida pessoal não fosse alvo de nada de vexatório por parte dos órgãos - sempre ávidos - de comunicação social, segundo o comunicado emitido pelo gabinete do ministro), tinha prometido ao ministrofuncionário que ia estudar todas as propostas que este lhe tinha de modo tão gentil e funcional, colocado em aberto. Dos outros quatro cidadãos sorteados e contrariamente ao esperado, apenas o senhor M. se prontificou a comparecer no dia e na hora sugeridos na carta que recebera assinada pelo ministro. E isto desdizendo o que fora anunciado à comunicação social horas antes em que se pretendia afirmar que todos eles estavam esperando ufanamente o momento de serem recebidos pelo angariador-mor. Este deslize incongruente, segundo alguns, esta infeliz iniciativa, segundo outros, esta triste realidade do que se assiste no fundo nos serviços de finanças, abertos ou não, segundo ainda outros, foi na verdade um muito mau prenúncio desta campanha tão engenhosamente arquitectada mas tão desgraçadamente executada. Felizmente o orçamento de Estado estava à porta (o rectificativo do rectificado anteriormente, claro), o que iria contrariar que o ministro desse mais enlevo a este tipo de ministério aberto daqui para o futuro, com grande pesar do mesmo, assegurava o ministro em carta-aberta no portal de acesso às declarações electrónicas.

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II O Professor Doutor Felisberto Silva

(Dia, aguardado com curiosidade e impaciência por uma multidão de convidados especiais, de lançamento de um livro associado a uma nova teoria económica que promete, tal como anunciado previamente na rádio, jornais e televisões, vir a revolucionar a vida dos habitantes deste planeta). Bom dia a todos, sacrossanto corpo de distintos professores, mestres e doutores da ciência económica e, já agora, a todos os demais presentes. Muitos já terão ouvido falar de mim, contudo, para os poucos que ainda não me conhecem, vou apresentar-me: sou o Professor Doutor Felisberto Silva e estou propositadamente aqui reunido com todos vós para lançar meu livro, minha tese e sua subsequente teoria que lhe subjaz, a que eu denominei de Nova Teoria Económica. O livro é muito apropriadamente - lançado em língua inglesa que como sabemos ainda é a língua internacional dos negócios e da economia e por outro lado porque pretendo que o impacto com esta minha nova teoria seja desafiadoramente direccionado ao meio científico internacional. Assim, o titulo desta obra é: “The Dr. Felisberto Silva´s New Economics Theory – Achieving The Perfect Society.” Este meu livro ora apresentado quer à intelligentsia quer ao corpo docente e estudantil, nasceu, tal como podereis observar, utilizando quer os métodos empíricos da experimentação, inatos como a dedução, particulares como a intuição, matemáticos como a estimativa, filosóficos como a metáfora e… superiores como a revelação, tornando-se uma teoria geral unificada que, - desprezando quer essas teorias

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imaginativas em voga tais como a dos Jogos e da Decisão, quer as puramente tecnocratas como a Teoria da Complexidade, - apresenta a ciência económica como a ciência social “par excellence” e além do mais, refunda e corrige todos os ensinamentos praticados até este momento. Meus senhores e senhoras, esqueçam tudo que aprenderam acerca de teorias e correntes económicas anteriores, mandem às favas esse Samuelson, esse Keynes ou esse Friedman que empestaram carradas de estudantes do mundo inteiro (e todos os laureados antes e depois deles), que não fizeram mais que fuçar nos mesmos erros inscritos nos calhamaços de análise económica como porcos fuçando à procura de trufas negras debaixo de carvalhos. Sem nunca as conseguirem apanhar. Nem trufas nem porcos! Se no prefácio aponto como meta ultrapassar o desmérito que todos sentimos com a actual balbúrdia que reina nesta tão maltratada quanto crucial ciência (por vezes, eu próprio me senti como um rato debatendo-se com o dédalo em pleno labirinto de Markoff), durante a leitura de minha tese suspirareis de alívio ao constatar o quão simples e de fácil construção é esta minha teoria – com força de Lei - e que eliminará os danos provocados no tecido social. Danos esses causados pelo tumor maligno originado pelo aumento exponencial dos problemas que num grupo n de pessoas são elevados ao quadrado. Segundo minha visão reformulei toda a questão e vereis ao final que os problemas de cariz social ou económico serão eliminados e que as relações de interdependência comercial deixarão de ser conflituosas ao tenderem para infinitíssimo. Já quando chegarem ao posfácio sentir-vos-eis libertos de todos os estigmas, angústias e dúvidas. Acabo de criar a suprema lei universal do comportamento ético, moral e económico! Mas começo por explicar a génese desta minha teoria revolucionária para que todos entendam bem os fundamentos da mesma. Após ter construído uma, ao mesmo tempo laboratório e estação similar à da Biosfera 2, erguida na margem esquerda do Guadiana e que contou com a colaboração – quase – desinteressada, de vários habitantes daquela região deprimida que se predispuseram a recriar o inicio daquilo que hoje conhecemos como Economia em stricto sensu, pude observar no terreno como as relações sociais se vão criando, adulterando e corrompendo, modificando e alterando por igual o comportamento e a situação do homem em sociedade. Após vários meses de estudos directos tentando discernir como nasceram as primeiríssimas actividades

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comerciais - que mais tarde se tornam na actividade principal do homem - e devidamente registado e observado como experiência científica (aqui a componente empírica já falada), constatou-se o seguinte: do grupo de homens a quem foram dadas condições básicas para iniciarem sua actividade económica – um casal de animais de capoeira e outro de caprinos, uns instrumentos toscos em bronze ou ferro como aqueles que contavam os nossos avoengos, um pedaço de terra de lavoura onde ficavam igualmente as suas habitações rudimentares feitas em adobe e palha -, ao final, apenas uns quantos sobreviveram com êxito à dura provação enquanto a maior parte dos participantes sucumbiu tristemente. Por exemplo, ao fim de uns meses, um dos indivíduos com o nome de código XPERTO5, conseguiu o brilhante feito de transformar suas duas cabras originais em 7 iguaizinhas através do método do acasalamento forçado. Trocou três delas com um seu semelhante por foices, machados de ferro e uma mó de farinha, plantou milho painço selvagem, montou um cercado para os animais, extraiu deles leite, carne e peles e montou um próspero negócio por troca directa. Ao fim de pouco tempo já possuía a maior parte dos animais, de ferramentas e de bens de toda a quinta laboratorial. Conseguiu até o feito de ter plantado alcaçuz extraindo dessa leguminosa uma espécie de beberragem semi-alcoólica a qual lhe deu imensos proveitos materiais e prazeres mundanos. Iniciou assim o que (por dedução), chamei de apropriação indevida de bens, uma vez que se aproveitou da fraqueza comercial dos outros. (Várias questões de natureza etiológica se colocam nesta fase mas eu deixo isso para os profissionais da antropologia ou da genética discorrerem). Nasceu assim o primeiro capitalista, pois numa sociedade sem moeda e baseada na troca directa de bens, quanto mais utensílios, culturas ou animais se possui mais capital fixo e circulante se possui e mais rico se é, como todos vós sabeis. Um outro colaborador codificado com a sigla TOTO-ME2, acabou desistindo quer dos animais quer de tentar cultivar a terra e apenas dormia, bebia e pedinchava comida aos outros, no que se revelou uma triste experiência de falta de colaboração, mas que ao final acaba por copiar uma realidade que todos hoje conhecemos. Tinha acabado de nascer o primeiro indigente. Outro, o ROB-IN3, tinha-se revoltado contra a acumulação de bens do XPERT-O5 e tinha-lhe roubado uma cabra que acabou por sacrificar e dividir pelos mais desfavorecidos -

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evidentemente, guardando para si mesmo a parte maior e melhor da peça - vivenciámos (intuitivamente), o nascimento do primeiro comunista. Ainda um outro, o RAB-I4, acabou por trocar cabras, galinhas e patos a outros congéneres, por ferramentas que os outros necessitavam para trabalhar a terra, voltando a trocar os animais, quando os outros viram que não podiam subsistir sem um regime alimentar com base na carne animal. Perante o aumento da procura e utilizando o esquema do açambarcamento, incorporou uma grossa fatia de lucro nessa posterior transacção – nascera, portanto, (eis a metáfora), o primeiro especulador. Finalmente, dentre muitos, destacou-se o indivíduo com o código XIS-00 que após se endividar a comprar bens e animais acabou por não conseguir singrar em qualquer das actividades e teve que trocar suas roupas, sua casa de colmo e até seu corpo, para conseguir fazer face a todas as dívidas. Ficou obrigado, por fim, a trabalhar gratuitamente para todos os outros até ao final da experiência. Nascera então (por estimativa), o primeiro pobre entre os pobres. Perante estes resultados tão elucidativos de como teve início, nos primórdios, a divisão entre classes com origem na posse ou na falta de bens, convertíveis em metálico uns séculos depois, dei origem à minha teoria propriamente dita. Ora se a divisão classista, a diferenciação entre ricos, pobres, miseráveis e remediados bem como restantes chagas sociais nasce com a posse de bens, a sociedade perfeita terá que refutar estes bens. Não apenas em termos de se passar da posse individual para a comunitária – isso não meus senhores, já foi tentado anteriormente e todos sabemos o pouco sucesso que obteve – refutar sim, toda a posse por completo, sejam os indivíduos sejam os Estados ou governos. Aqui está o que quis dizer com a revelação! Deste modo criei uma nova disciplina académica de estudo que vai substituir a economia clássica tal como se encontra institucionalizada e tal como é ensinada. Isto é, a macro e a microeconomia serão substituídas a curto trecho por novos modelos de estudo e de aplicação. Com base neste axioma – ou modelo nuclear - da Teoria do Efémero -, criei quatro conceitos auxiliares que se chamam simplesmente Arrendamento, Aluguer, Empréstimo e Dispensa. Vou de seguida explicar cada um deles.

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Arrendamento, como todos sabem (?), difere de aluguer por se aplicar a bens imóveis; assim eu arrendarei uma casa, mas alugarei um barco ou um carro. O Empréstimo surge quando se pede emprestado a alguém algum bem que não seja de consumo como, por exemplo, uma bicicleta e implica que o período de empréstimo seja curto. No caso, emprestar uma bicicleta para dar uma volta, volta entende-se por uns 5 a 10 minutos de posse temporária. (Outra hipótese será, “empreste-me sua filha para ir dar uma curva”, curva aqui entende-se como uma meia hora, três quartos de hora, máximo). Finalmente temos o conceito de Dispensa. Este aplica-se, contrariamente ao Empréstimo, única e exclusivamente a bens de consumo imediato. (Dir-se-á portanto, dispense-me um quilo de arroz e não dispense-me sua filha). Uma vez que já transmiti meu pensamento troncal acerca desta terminologia-chave vou agora tentar aprofundar um pouco mais a matéria de modo a que todos entendam o que eu quero transmitir em termos de sociedade perfeita partindo deste pressuposto nuclear de uma sociedade sem bens. Em termos simples, pretendo terminar com os dois domínios que empestam a sociedade humana: os conceitos de Lucro e Posse e substituí-los pelos conceitos inferior de Zero, e superior de Efémero. Numa sociedade em que ninguém possua nada, mas nada mesmo em relação ao conceito hoje vigente, em que tudo seja realmente efémero, ou seja, alugado, arrendado, emprestado ou dispensado, ninguém terá oportunidade de amealhar, de onerar ou de especular. Se todos – indivíduos e Estados – tiverem que proceder deste modo, o conceito de propriedade privada cairá estrondosamente por terra fazendo com que tudo seja de todos e ao mesmo tempo de ninguém. Imagine-se a seguinte cena: saio de manhã para trabalhar no “meu” escritório subarrendado a outra pessoa – que por sua vez o tem subarrendado a outro, por sua vez este tem a outro e assim por diante (daí as relações tenderem para infinitíssimo, entendem agora porquê?). Vou de carro subalugado a uma empresa que por sua vez o tem como subalugado a uma outra, que por sua vez… entenderam não? O meu trabalho – num atelier - consiste em estudos arquitectónicos para soluções ambientais, trabalho que me é subalugado por entidades camarárias por x tempo, ao final desse tempo ou se renova ou se extingue o contrato de prestação de serviços.

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Estes serviços, depois de realizados por firmas sub-sub-contratadas para o efeito pelas entidades camarárias, será alugado aos cidadãos que queiram desfrutar dos mesmos, serão realizados contratos de usufruto temporário a gosto e segundo as posses de cada um. (Atenção muita atenção neste ponto!) Não se pretende acabar com aquilo que se chama dinheiro, algo que deixo para a próxima obra da qual já possuo alguns tópicos essenciais. Não, o que acaba sim é o metálico e o papel-moeda tal como os conhecemos, sem necessidade de ter notas cheias de tanta filigrana, de marcas de água, códigos alfanuméricos, etc, ou então de moedas cheias de efígies, de datas e acontecimentos comemorando efemérides. Basta qualquer chapinha de carrinhos de choque para o efeito, ou ainda aquelas chapas de metal que dantes se introduziam nas cabinas telefónicas, lembram-se? O que não resta dúvida terão que ter será o valor facial, 1, 5… por aí fora. (Abreviarei este valor facial para a sigla vf a partir deste momento por economia de espaço e de tempo). Quando saio para ir almoçar, como ia narrando, dirijo-me ao restaurante da esquina e peço que me dispensem um bife com batatas e arroz. Esta dispensa como se disse, consiste num contrato de promessa em devolver o bem tal como foi entregue para consumir e deverá sempre ter a forma escrita para evitar situações de incumprimento voluntário. Ao final se não devolver aquilo que comi exactamente da mesma forma que me foi apresentado, serei multado ou preso – ou ambas - em consonância com o valor do consumível ou em conformidade com as leis e costumes do país. Desse modo terei que posteriormente ir a um talho e pedir que me dispensem um bife tal como aquele que comi e cozinhá-lo em casa de modo a ir entregá-lo ao restaurante que mais tarde nesse dia o dispensará de novo. O ciclo continuará eternamente. (Terei, como é óbvio que devolver o mesmo bife dispensado pelo talho, socorrendo-me de novo pedido de dispensa noutro talho de modo a poder cumprir com minha obrigação contratual). Se ao sair do trabalho o carro não pegar por qualquer avaria súbita, terei que apanhar um autocarro para casa, autocarro esse onde alugarei meu espaço de pé ou sentado por breves momentos e por quantia estipulada em vf´s. (Relembro que tudo que seja consumível deve ser objecto de Dispensa e não de outra forma o que implicaria a compra – logo, a posse – algo que será banido em definitivo como já prenunciei. No caso de prestação de serviço não há consumo propriamente dito de um bem, logo aplica-se o conceito de aluguer ou de arrendamento).

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Chegarei a casa onde me espera minha mulher que eu subarrendei aos pais da respectiva assinando para o efeito um contrato a x-anos passível de ser denunciado ao fim desse tempo por uma das partes ou então ser extensível a outro tanto tempo de subarrendamento. Como se trata de contratos entre particulares cada um pode decidir o período de vigência e as condições particulares – incluindo a gratuitidade ou não - como bem entender. Perguntarão agora sobre o conceito de posse familiar. Filhos, não é? Pois bem, nem estes serão propriedade dos pais; ao nascerem será assinado contrato de subaluguer entre os pais e um tutor oficial nomeado para o efeito por instituição governamental em que vigorará o aluguer conjunto e virtual por prazo definido, esse prazo será até ao momento em que a criança comece a balbuciar algo minimamente entendível e será extinto logo que a dita criança entenda por bem fazê-lo. Como é a parte fraca da relação, será dada primazia à sua decisão de resolução contratual sem necessidade de escutar as pretensões dos progenitores. Claro que, e foi aqui com que eu me debati com a maior dificuldade ao estabelecer esta minha Teoria Unificada, toda esta emissão de contratos, feitura de clausulados e interpretação dos ditos em termos de forma e de espírito, junto com a necessidade mais que óbvia de dirimir eventuais conflitos na interpretação dos mesmos, obrigará a que um exército de juristas, jurisconsultos, solicitadores, desembargadores, e juízes de fora, de dentro, de comarca, de circulo e de apelo tenha que ser formado e nomeado. As universidades jorrarão milhões de licenciados todos os anos (boa altura para isso agora que temos o Processo de Bolonha a correr a todo o vapor), mas uma vez que deixará de haver impostos a declarar e a cobrar, IVA´s, IRC´s ou derramas, taxas de juro simples ou compostas, bancos e máquina fiscal, que soçobrarão pois não haverá lucro algum a registar ou a cobrar, toda essa gente transitará para a actividade jurídica. Seguidamente, e porque vejo alguns de vocês a mexer de impaciência nos assentos das cadeiras, vejam neste PowerPoint o exemplo de um excerto de minuta para contrato de (como já expliquei terá que ser sempre de subarrendamento) de uma esposa para que todos tomem este exemplo prático como matriz de todos os outros: Contrato de subarrendamento de (mulher/esposa) a termo certo. Entre:

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(Nome do Pai ou da Mãe da mulher/arrendador)... e, (Nome do Marido/esposo/arrendatário). Cláusula I – Objecto As partes presentes acordam em subarrendar pelo período de (escrever os anos do contrato inicial) a filha de (do arrendador/ra) de nome (…), ao senhor (…). Todas as partes envolvidas são maiores de idade e estão plenamente conscientes de suas obrigações e deveres uns para com os outros. (…) Estipularam as partes unanimemente que este contrato seja uma cedência temporária de cariz gratuito. Cláusula II – Finalidade A (nome da filha) como parte arrendada aos senhores (nomes dos pais) por sua livre vontade uma vez que assim o decidiu fazer cf. estipula contrato de arrendamento entre pais e filhos assinado aos tantos-do-tantos e depositado na conservatória (a da zona ou outra, valha-nos o Simplex), sob o (n.º, fólio, livro, etc, correspondentes) será subarrendada ao senhor X que a utilizará para os fins que ambos (o bem arrendado e a pessoa que arrenda o bem) decidirem como razoáveis, desde que não sejam causados nenhuns danos ao bem ora arrendado que o coloquem em risco de ser devolvido ao final do tempo estipulado, em condições diversas daquelas em que foi cedido, que não os causados pela inevitável passagem dos anos e por outras anomalias funcionais tais como as causadas por doenças ou acidentes naturais. Cláusula III – Período de Vigência Este contrato entra em vigor em (data de início) e permanecerá válido até (data do final) exceptuando o caso de alguma das partes decidir suspender o mesmo pelo que deverá através de carta registada com aviso de recepção avisar a outra parte dessa mesma intenção, respeitando para esse efeito um prazo mínimo de pelo menos quinze dias de antecedência. Findo este período de subarrendamento sem que haja lugar a denúncia por qualquer dos signatários, as partes concordam em que o contrato seja renovado por período igual de tempo. Cláusula IV – Obrigações

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O arrendatário obriga-se a devolver o bem arrendado em igual forma como foi levantado, o qual será examinado pelo arrendador ao final do período para se certificar de que está em conformidade com o que se estipula neste contrato. Fica desde já informado o arrendatário de que é passível que o arrendador visite o seu bem subarrendado em qualquer altura sem aviso prévio de modo a verificar in loco as condições de utilização do mesmo. Caso o bem esteja a ser utilizado para outros fins que não os estipulados contratualmente, ou esteja em estado considerado de mau uso, ou apresente graves deficiências ou notório abandono, o arrendatário terá que substituir, mandar arranjar ou recolocar o que o bem possuía de inicio e já não tem – a suas expensas. Deste modo fica estipulada a soma de (x- vf´s) como caução que será devolvida ao final do contrato ao arrendatário se o bem estiver nos conformes. (…) Como viram e ouviram, este contrato tipo será um exemplo de que nada será nosso nunca, tudo terminará em um qualquer dia de inverno ou nalguma manhã soalheira, basta que nós acabemos também. Nada se perpetuará e os vínculos contratuais por mais extensões ou prorrogações que venham a ter acabarão por se extinguir naturalmente através da morte de um dos signatários. Não haverá heranças, dações, doações ou transmissões de bens uma vez que nada é nosso e não sendo nosso nada é passível de ser transmitido, doado ou herdado. Ninguém sentirá vontade de amealhar ou de coleccionar bens uma vez que nunca serão da pessoa efectivamente, mas que apenas serão colocados em usufruto temporário. Do mesmo modo, ninguém se arriscará a fazer danos deliberados ao bem arrendado, alugado, ou emprestado uma vez que terá que o entregar tal e qual como o levantou. Por sua vez quem o subarrenda/aluga/empresta sabe que terá que apresentar o bem ao respectivamente anterior subarrendador/alugador/emprestador, ad-infinitum o que por si só tecerá responsabilidades acrescidas na manutenção devida do bem e terá como consequência que uma miríade de pessoas se importarão com a boa preservação do mesmo. Imaginam a queda brusca que vai haver nas estatísticas acerca do número de esposas maltratadas ou assassinadas? Se o bem não for retomado em condições, ou se não for retomado nunca, os infelizes que o façam ficarão sem as respectivas fianças e acabarão presos, ou pior. O temor de devolver algo em condições que não as estipuladas no contrato fará per se que toda a gente tenha essa contingência como factor de risco e que dê muito mais

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atenção ao modo de manusear, usufruir ou utilizar todo e qualquer bem, algo que não acontece nos dias que correm em que, por exemplo, o marido maltrata a mulher tendo a certeza vergonhosa de que ela lhe pertence por desígnio natural. Imagine-se agora este exemplo transposto para o Estado: os carros de combate, os aviões, os navios e todo o restante arsenal serão subalugados (e as instalações fixas subarrendadas, como já todos decerto perceberam). Deixará de haver guerras, meus ilustres senhores e senhoras, pois simplesmente nenhum país se poderá dar ao luxo de entrar em escaramuças com um outro e arriscar-se a devolver o material riscado, esburacado ou simplesmente feito em ferro-velho. As condições severas impostas pelos contratos servirão para frear os mais audazes! Esta a verdadeira dimensão - poderão agora começar a tê-lo bem desenhado em frente a vossos olhos - dimensão, dizia eu, do que minha Teoria Unificada do Efémero conseguirá produzir em termos de bem-estar à Humanidade. Claro que os detractários irão apontar o dedo ao excesso de papelada que toda esta nova organização vai obrigar a processar e à quantidade de peritos em interpretação de leis que virá ser necessário formar, contratar e pagar (uma sociedade sem esta condicionante – e sem este tipo de actividade profissional - será tema igualmente de outro meu livro que ainda só existe em esboço dentro de minha cabeça mas que prometo que verá a luz a breve trecho), mas imagine-se quão perfeita será esta sociedade que irá assistir ao fim da discriminação do ser humano tendo como base a propriedade. Poderão chamar-lhe substituição do direito comercial pelo direito privado, ou vilipendiação do contrato social pelo contrato jurídico, ou ainda que tento estrangular os aparelhos produtivos das nações por meio da liquidação dos rendimentos do trabalho e da massificação das pessoas. Nada de mais errado, senhores! Apenas se substitui o perene pelo efémero, e para tal desígnio é necessário que tudo seja devidamente postulado e condicionado. Agora abro um breve parêntesis para responder a algumas questões que me queiram colocar uma vez que vi bastante gente rabiscando nos blocos de apontamentos. “- Senhor Professor, quero perguntar o seguinte: porque é que uma esposa terá que ser subarrendada enquanto uma namorada pode ser emprestada? Não existe aí o gérmen de um conflito no âmbito da lógica de predicados?”

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- Meu caro, namorada é para usufruir temporariamente, já a esposa deverá ser arrendada de modo a que o vínculo jurídico seja mais forte por mor das condicionantes do clausulado e de modo a se precaverem abusos. “- Mas, Doutor, o senhor não afirmou que o arrendamento era uma figura que apenas se prestava aos bens imóveis? Não há aí uma contradição, tomar uma esposa como bem imóvel ao contrário de móvel?” - Não há contradição alguma, o próprio nome “esposa” justifica a imediata imobilidade. Mulher alugada só para algumas finalidades como, por exemplo, o senhor ir ali ao Intendente subalugar uma. Mais perguntas, por favor… “- Caro senhor Doutor e Professor, falou acerca do dinheiro como simples fichas dos carrinhos de choque desde que tenham apenas o valor facial inscrito, certo? Esses vf´s como o senhor os apelida não serão passíveis de serem falsificados por muito boa gente se forem assim tão simples e sem qualquer tipo de segurança?” - Minha querida, ninguém irá perder tempo a falsificar dinheiro para arrendar ou alugar coisas, sem o estímulo dado pela pertença do objecto ou do bem, ninguém se dará a esse trabalho, apenas o conceito de posse leva as pessoas ao egoísmo e à ganância. Não o de aluguer ou de arrendamento, estes, na melhor das hipóteses, levarão à depressão psicótica e posteriormente ao suicídio. Ninguém quererá matar ou arriscar a vida por um mísero punhado de fichas. Está satisfeita? Outra. “- Doutor, explique-me, por favor, como é que se vai conseguir gerir em termos de contratação – se o simples acto de comer um bife num restaurante implica tanta movimentação e vínculo ao Dispensário, como será a tarefa de ir fazer compras ao hipermercado? As pessoas ficarão loucas de tanto contrato a assinar, não?” - Antevi aí um certo e mordaz pensamento. Escute, o tema de ir fazer dispensas ao hiper será muito simples de resolver. As máquinas servem para aquilo que precisamos que elas façam

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para nós. Ao final, o próprio talão de compras trará o respectivo contrato – em duplicado – que as partes assinarão, algo que se compara à assinatura do talão do cartão de crédito de hoje, certo? A pessoa só terá que o conservar e fazer a correspondente retoma dos bens Dispensados na altura. Não vejo qualquer dificuldade nisto, mas gostei do substantivo que utilizou – Dispensário. Uma pergunta mais e rápido que se faz tarde. “- Sou jornalista de imprensa económica especializada, Dr., queira, por favor, responder à seguinte questão: uma vez que deixará de haver lucro, posse e a correspondente inexistência dos mecanismos de acumulação, ninguém sentirá verdadeiramente vontade de produzir, acabaremos todos por nos tornar iguais aos cidadãos dos estados totalitários ditos democracias populares! Já agora, sem trocas comerciais em dinheiro entre nações (uma vez que não se me afigura possível os agentes económicos se darem a esse trabalho todo por nada, ou ainda exequível ir comprar chips à China e depois ir a correr a Sillicon Valley comprar outros para os devolver), existe a possibilidade real de o comércio internacional definhar e acabar por estagnar. Que me diz a isto?” - Eh, eh, logo vi que a imprensa económica especializada acabaria por tentar denegrir, se não tentar deitar por terra, a minha teoria amalgamada com tanto cuidado e atenção ao pormenor. Saiba, caríssimo, e respondendo à primeira parte de sua questão, que as pessoas irão sempre necessitar de comer, vestir e usufruir de bens, mesmo que seja em termos de efemeridade, logo não haverá socialismos nem outras politiquices como insinua. Nos outros países de que fala não havia nada que consumir, algo que você não vê de modo algum inscrito em minha Teoria. Já no que diz respeito à segunda questão, respondo da seguinte forma: as trocas comerciais entre nações terminarão simplesmente porque nenhum país terá interesse em investir noutro onde não exista lucro nem posse. Ao final de algum tempo, depois das principais nações do mundo adoptarem estes meus procedimentos, todos os países serão obrigados a viver em autarcia, o que no fundo acabará por resultar num maior desenvolvimento para todos, nomeadamente porque todos terão que se esforçar para obter tudo aquilo que necessitam consumir. No caso de nosso país, vejamos. Se não tivermos petróleo andaremos de fiacre ou a pé, isto até sermos obrigados a investir na descoberta de jazidas na plataforma continental em frente às Berlengas, ou então tentaremos encher os

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depósitos dos carros com bagaço de azeitona para ver se andam. Caso sejamos insucedidos, acabaremos mais cedo ou mais tarde por descobrir outro combustível. Se não houver electricidade em nossas casas, alumiaremos as mesmas com velas feitas de sebo animal até que a barragem do Alqueva esteja a produzir de tal modo que seja excedentária a abundância de gigawatts. Ou então seremos obrigados a descobrir novas e renováveis fontes de energia, para não termos que comer às escuras. Não esqueça jamais que a necessidade é a mãe da invenção! Imagine o quanto terá que ser pesquisado e desenvolvido. Deixaremos esta preguiça endémica de lado de uma vez por todas e teremos que arregaçar as mangas, caso contrário ficaremos eternamente dependentes do estrangeiro. Estrangeiro que, como aponto, deixará de existir para nos satisfazer a ânsia de bens de consumo. Ainda lhe respondo mais, senhor jornalista, de modo a ajudá-lo a perspectivar profundamente minha Teoria: deixará de haver “dumping”, concorrência desleal, manipulação de preços no consumidor, pressão sobre salários baixos para se manterem artificialmente os preços à saída da fábrica de modo a se conseguir ludibriar o concorrente. Não existirão mais embargos, sanções, grupos de pressão, acções de lobbying ou qualquer tipo de traficâncias, corrupções ou trocas de influência. Todas as obsoletas, criminosas e acima-de-tudo-repressivas organizações mundiais como a OMC, o FMI e o Banco Mundial, desaparecerão. Última pergunta… rápido. “- Uma perguntinha então Dr. Felisberto. Porque é que não começa de imediato aplicando na prática esta sua teoria e começa a vender o seu livro junto com a sua teoria unificada recebendo em troca fichas de carrinhos de choque?” - Bem, bem, ó meu bom homem, acha que sim? Então eu estive aqui este tempo todo e você não entendeu nada do que foi dito? Ainda não estamos preparados para esta revolução tremenda, só com muita paciência e dedicação de todos é que esta utopia se tornará realidade, creio que nos próximos vinte anos veremos algo a caminhar nesse sentido. De qualquer modo proponho-me a ensaiar na prática do terreno esta minha Teoria em qualquer país tecnologicamente e economicamente atrasado que se apresente como candidato. Até lá, e se estiver interessado, vendo-lhe o meu livro ao preço de sessenta e cinco euros mais IVA. De qualquer modo, que eu saiba, as fichas dos carrinhos de choque ainda não têm vf´s inscritos, nem na cara nem na coroa.

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III O Redil de Empregos

O que será quando a crise bater dura na porta de muito boa gente que pensa ter seu emprego como algo assegurado em termos de futuro? A arraia-miúda já se sabe que está sempre presa pela cauda, cauda que se separa do resto do corpo ao menor sinal de crise, mas que dificilmente voltará a crescer. Já os que usufruem de opíparos rendimentos a jeito de cunhas, bónus, prémios, ajudas de custo e outras regalias, findo o período de bonomia, terão que vir a terreiro juntamente com as massas pedinchar por um trabalhinho mal remunerado que seja. E, como a lista dos desocupados (sinónimo mais consentâneo com uma terminologia menos vexatória dos interesses dos envolvidos), engrossa de dia para dia, é de esperar que a qualquer hora uma empresa encontrará no meio de toda esta massa de deserdados um verdadeiro manancial a explorar. Como os nichos de mercado escasseiam e as oportunidades de novos negócios passaram a ser desesperadamente procuradas, alguns mais criativos encontrarão algum modo de sacar proveito da infelicidade dos outros. Não querendo criar ideias na cabeça de ninguém, nem tão pouco fazer futurismo, antevejo no entanto o que poderá sair da ideia de alguma dessas corporates imbuídas de espírito empreendedor do tipo glocal-americano acabadinho de sair de dentro de aula teórica de master em gestão e de script de filme de cowboys dos anos cinquenta: “Duelo por um lugar ao sol”.

Num misto de torneio medieval e de circo romano – em espaçoso hemiciclo erguido e legalizado para esse efeito – criarão uma espécie de diversão para os ociosos, jogadores

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inveterados e simples sádicos que consistirá basicamente em lutas homem-a-homem das quais apenas um, e só um vencedor sairá. O prémio ao feliz ganhador será uma ocupação em empresa filiada ou aderente deste projecto e que poderá ser - se assim for a série loteada - um trabalho a prazo ou a tempo indeterminado. Aceitar-se-ão inscrições de ambos os sexos, de qualquer tipo de profissão ou ocupação e sem limites de idade podendo os combates ser entre sexos ou não, sempre dependendo do que os dados estocásticos assim estabeleçam. A única condição exigível será que o inscrito seja considerado verdadeiramente desempregado e que ateste essa sua condição de improfícuo vegetativo. Ah! Competição vedada aos menores, estudantes ou jovens à procura do primeiro emprego. Os/as candidatos/tas a uma potencial sinecura deverão portar as “armas” próprias de sua anterior profissão e vestir-se em conformidade com o fato, uniforme ou roupa de trabalho que os identifique com a dita ex-ocupação. O torneio, a luta, a gesta, terminará quando um deles caia ao chão e implore pelo fim do combate ou então que fique pura e simplesmente K.O. As regras básicas dos ditos desportos de contacto serão as implementadas nesta nova modalidade em que tudo será permitido menos tirar olhos. (Segundo o regulamento desta espécie de kickjoboxing tenta-se recriar no fundo um pouco das condições daquilo que se passa no mundo verdadeiro, ou seja, também em situação de procura de emprego tudo é válido de modo a ultrapassar ou trapacear os restantes candidatos). Os felizes sorteados ficarão hospedados durante dois dias num dos hotéis da cadeia pertencente à empresa SGPS que desenvolveu esta iniciativa, em regime de meia-pensão. Passagens de ida-e-volta asseguradas mas, tudo o que seja extra actividades será por conta dos contendores. Todas as receitas obtidas com os lugares (sim, haverá cativos e bancadas VIP), publicidade, direitos de transmissão televisiva e radiofónica bem como os gerados pela venda de cachorros-quentes, batata frita, refrigerantes e toda a espécie de comercializáveis através de marketing directo, representarão uma generosa receita. Aos candidatos/gladiadores será entregue uma percentagem de 5% sobre todas as acções de patrocínio, cedências televisivas e outras acções de marketing que envolvam os ditos, desenvolvendo a empresa a intermediação e a posição de agente oficial dos contratados. Uma vez que quer os cinemas quer os teatros estão ao abandono, este espectáculo promete vir agitar as noites de quinta-feira – dia escolhido por se revelar o mais perto do fimde-semana sem transtornar este mercado noctívago (excepto o segmento de submercado das

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discotecas vocacionado para as ladies-nights...) - vindo excursionistas de todo o país assistir e incentivar os seus predilectos ou seus compadres. Outra forma de gerar rendimento suplementar aos organizadores de tal concurso será o de solicitarem ao público, através de sms ou de telefone, que vote nos seus duelistas preferidos. Para tal fim, um breve epítome dos candidatos da semana será transmitido pela TV diariamente em horário nobre de modo que todos possam ver as caras, conhecer os anseios e esperanças e saber as histórias de vida e o respectivo curriculum, - desactualizado -, dos contendores. Noite de quinta-feira, 21:30. Holofotes ligados. Canção “We are the champions” em altos berros saindo das colunas estereofónicas no topo das bancadas. Casa cheia. Vai ter inicio o primeiro espectáculo da temporada. Pode ler-se no cimo do pórtico que decora a entrada do “emploirium”: “Marco, Eng.º naval vs. Vítor, armador de ferro.” Grupos de estudantes universitárias do Técnico – umas apenas pretensamente o são contratadas em regime de recibo verde, animam a multidão executando danças de claque como se fosse um jogo da NBA que fosse decorrer. Os prémios já foram sorteados e anunciados: se for o armador a ganhar o título, sua taça consistirá num trabalho durante um ano, potencialmente renovável, em empresa nacional que executa trabalhos do ramo em Angola, Guiné ou Mauritânia, com direito a expatriação. Caso seja o engenheiro naval o conquistador do galardão, ser-lhe-á oferecida a possibilidade de ir trabalhar sem termo para uma empresa americana ligada à Halliburton e que se prepara para realizar obras de profundidade no destruído porto de Port-au-Prince, incluindo no pack salarial a possibilidade de poder obter mais tarde a Green Card. As rapariguinhas executam os últimos passos do bailado mal coreografado e a contenda em breve terá inicio, logo assim que o presidente do júri apresente os dois adversários da noite. Marco, engenheiro naval, depois de ter ficado sem emprego por motivos de falência do último estaleiro de construção naval do país, entrou em desespero de causa. Sua esperança é sair do redil com um emprego bem remunerado e de preferência em tão conceituada quanto

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generosa empresa, disse-o momentos antes de entrar na galeria abobadada que leva ao terreiro de luta. Veste um terno azul-escuro, gravata rosa, sapato luva de cor preta com berloques. A proteger sua cabeça, um capacete branco, cor reveladora de sua posição profissional anterior. Como arma escolheu uma mangueira de decapagem a jacto de areia, que, embora nunca tenha utilizado anteriormente por motivos óbvios, alegou ser parte integrante de seu arsenal profissional uma vez que só depois de bem decapado o metal pode ser de novo pintado. O júri anuiu. Vítor, embora ligeiramente mais novo, já teve uma atribulada vida profissional. Mais uma vítima da maldita crise no sector da construção civil que assola a nação e isto depois de longa estadia como desplazado no país vizinho a ganhar do bom e a arrecadar do melhor. Despedido por ser considerado excedentário, viu-se na necessidade de concorrer a esta luta de titãs em público aliciado pela promessa de um trabalho futuro. Seja o destino ele qual for – afirmou peremptoriamente – antes as Áfricas do que a taberna e o RSI. Enverga um trajo considerado um pouco desadequado: calças de ganga, camisa de flanela e sapatos de ténis de linha branca imitação dos Nike. Alegou ao júri ter sido obrigado a devolver o EPI no acto do despedimento. Por sorte ou por expediente, conseguiu trazer seu capacete – amarelo – que está novinho em folha. Nunca o usou anteriormente em obra, proferiu ao ser entrevistado minutos antes de sair por outra galeria, oposta à primeira. Traz na mão, calejada por milhares de varas de ferro de meia polegada, uma turquês e um rolo de arame na outra, tal como se estivesse em plena labuta. O gancho de ferro que trazia a propósito foi considerado arma demasiado letal e como tal não foi aceite, embora sob protesto do interessado que alegava desconhecimento de causa por parte do júri. Os dois gladiadores entram em cena e, com um evasivo e quase imperceptível olhar de soslaio, cumprimentam-se. Procuram o apoio das respectivas claques lá nas arquibancadas onde, se porventura uma cabeça calva se destacasse pela sobriedade e dignidade por entre tantas no camarote do júri, decerto que os dois adversários exclamariam em uníssono: “morituri te salutant” e estaríamos em pleno circo romano recreado.

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Eis que começa a tour de force! No lado esquerdo, com bandeirolas da universidade onde se graduou, está a pandilha apoiante do Eng.º, gritando gingas académicas e outros berreiros folgazões normais em dia de praxe. Vieram quase todos em seus carros particulares e trouxeram as namoradas, amantes e esposas. Bebem espumante por antecipação, esperando que seu colega saia triunfante desta libação. No lado direito está a turba apoiante do armador, vieram todos de longe, de autocarro fornecido pela junta de freguesia da qual é natural o seu preferido contendor. Estão todos bebidos e a maioria é só homens. Trouxeram farnel e dispensam os cachorros-quentes que moços de boné de pala vendem, a preços de mercado, pelas bancadas acima e abaixo, pois trouxeram comes-e-bebes a granel. Neste meio, os dois adversários estão em plena arena se mirando e estudando simultaneamente. Procuram um potencial ponto fraco para desferirem a primeira estocada. Eia!! O Eng.º começou a encher de jactos de areia grossa o pobre do armador, mas este conseguiu escapar ao jacto fortíssimo que o poderia derrubar, com a boca cheia daquela gravilha arenosa. Agora atira com o novelo de arame grosso às pernas do Eng.º, este enredase naquela bola de férrica “aramadilha”, tropeça e cai. Aí vai correndo o armador para lhe desferir um golpe fatal com a turquês. Falha! O capacete caiu-lhe para o meio dos olhos e deixou de ver. (Que azar, como é novo em folha ainda não se fez ao tamanho da cabeça)! O Eng.º levanta-se e dá uma valente castanhada com a agulheta nas costas do armador (que procura ainda ajeitar o capacete). Caiu! Chão!! A multidão de engenheiros ovaciona estrondosamente seu colega, ouve-se o abrir de dezenas de rolhas à pressão, as moças encharcam-se com o líquido, os moços com os corpos delas. Mas... eis que o armador se levanta, afinal aquela mangueirada não foi suficientemente forte para o derrubar de vez. (O júri levanta-se das cadeiras e perscruta o estado físico do individuo. O médico e o massagista são inquiridos e instados a se pronunciarem). Continuará o duelo ou será considerado findo e o Eng.º ganhará por vantagem técnica? Não! O armador garante estar bem, quer mais (ou melhor, quer dar ele também). Aí vão os dois com ar encolerizado se defrontar de novo. O arame está longe e a turquês é pequena de mais para ser lançada a jeito de arma de arremesso. Se falha, adeus arma e adeus prémio. O Eng.º faz

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pontaria com a mangueira, um só jorro daqueles bem em cheio será o suficiente para derrubar o armador para todo o sempre. Puffff!!! Falha! Não habituado a este tipo de trabalhos manuais, seus músculos não suportam a força de impulso originada pelo enorme jacto de areia que sai de dentro daquele tubo mortal. Ah! caiu de costas! A mangueira rodopia e varre a assistência com areia comprimida até à exaustão. Olha! o armador corre, ziguezagueia evitando a mortífera mangueira que parece ter adquirido vida própria. Catrapum! Levou com um jacto bem em cheio na cabeça, está arrumado. O Eng.º tenta fugir para dentro da galeria mas a mangueira prende-se-lhe às pernas como se fosse uma anaconda enrolando-se à vítima. Caiu! Está arrumado também, abriu a boca de medo e logo uns quilos de areia se lhe encheram os pulmões até à asfixia. O júri decide, por pressão do médico de serviço no recinto e perante o inesperado e potencial mortal ex-aequo, terminar com aquele primeiro duelo entre desocupados. A multidão agita-se e protesta. Querem um vencedor, dali não saiem sem um herói! Quando o júri começa a sair devagarinho espreitando por cima do ombro do seu camarote envidraçado, um barril de cerveja é atirado contra a montra de ilustres e uma bandeira é lançada como se fosse uma bandarilha contra as nádegas da mulher do organizador, que tentava escapar ao furor. A partir daí é o caos. Ambas as claques começam a ter um ataque de hooliganismo feroz e começam a escavacar tudo. Limusinas negras retiram apressadamente do local os organizadores e os patrocinadores. Para trás, espezinhado pelas botarras dos agentes da polícia de choque chamada a intervir, fica um cartaz rasgado e sujo pelos pés em correria mas onde ainda se consegue ler o seguinte: “Próxima semana! António, ex-gerente de banco vs. Ricardina, analista financeira.”

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IV O Franchising Religioso

Estando eu a matutar sobre os mistérios da vida, sobre a herética explicação epistémica dos Antigos à qual se opõe a gnose transmitida pelas religiões, calhou entremear esse pensamento com a sempre presente economia. Deste entremeado de conceitos e preceitos ocorreu-me poder resultar um negócio próspero o qual ainda apresenta a vantagem soberana de se estar inibido do pagamento de impostos – ao Estado - ou de alcavalas – aos particulares. Seria uma óptima forma de conseguir singrar no mundo sempre desconhecido e particularmente inóspito dos negócios tal como a maior parte dos mortais os conhecem. Que chatice dos diabos estar a montar uma empresa seguindo o manual dos procedimentos à risca tal como aparece na bíblia dos centros de formalidades empresariais, a gastar tempo nos notários, conservatórias e contabilistas, depender da munificência do Estado, perder dias inutilmente esperando pelo despacho da DGRN pensando sempre que já houve outro imbecil que antes de nós registou a empresa com o mesmíssimo nome - ou acrónimo - que tanto trabalho havia dado a descobrir, pensado e labutado na esperança de ser único mesmo e que ficava mesmo bem para aquela firmazinha que se queria montar e que tanto sono nos havia tirado, mas que era nossa mais firme obsessão. Nem pensar em recorrer aos serviços da empresa na hora, aquela coisa sem explicação que ao final nos obriga a registar uma empresa a partir de uma lista de cem nomes previamente feita. E que nomes eles inventam, é de bradar aos céus! Céus… até parece que tudo se encaminha em direcção a eles, para lá deles e sempre mais longe.

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Construir uma religião do pé para a mão não parece ser tão difícil como aparentemente possa parecer. Tal como um pasteleiro na sua cavernosa cozinha, temos antes de mais que fazer uma listagem dos ingredientes necessários e, seguidamente, procurar encontrar todos eles, caso em que não se poderá seguir em frente na confecção de... nosso acepipe, digamos assim. Como minuciosos e ordenados pasteleiros que pretendemos ser na confecção deste apetecível bolo, comece-se pela listagem de ingredientes a utilizar: 1 – Antes de mais, para se fabricar uma religião, é necessário encontrar uma Divindade à qual as pessoas se liguem seja por laços de simpatia, idolatria ou por temor. 2 – Depois de encontrar essa figura, símbolo ou ente abstracto é preciso montar todo o esquema envolvente que lhe confira um acabamento fofo de deísmo que a torne apetitosa e repleta de uma aura, seja ela de omnipotência seja de poder coercivo. 3 – Após se bafejar essa pretensa entidade com uma pitada q.b. de sobrenatural o suficiente para a considerar divina, depois de constituir todo o corpo religioso composto por ministros, padres, acólitos ou simples ajudantes desejosos por aprender a cozinhar e partilhar o bolo recheado eucarístico, há que juntar em doses generosas os rituais, homilias e preces. Após isso estar em ponto, urge montar o arraial onde tudo isso se vai adorar e onde os convivas se sintam mais perto do esplendor emanado pela divindade a devorar (endeusar, perdão). 4 – Por fim, encontrar fiéis que se prontifiquem a merendar, ou seja, ajoelhar, rezar, cantar ou simplesmente meditar em prol de sua redenção. O que não é difícil de achar. p.s.: não esquecer de fomentar uma religião pró-monetária, ao invés de puramente pró-monoteísta, é que tudo isto dá muito trabalho a fazer e alguma coisa tem que se obter, apenas os santos vivem do ar. Sugere-se algo do tipo donativo, dizimo, esmola ou ajudinha. Pois é, também nisto de assuntos de fé são as leis vivas do mercado e o vil metal que impõem as suas regras. Servir em temperatura ambiente sendo que a calda deve estar morna, mantida em banho-maria e, com o passar do tempo, com tendência a entrar em ebulição. Durante os

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repastos diários (o que deve ser observado pelo menos tantas vezes quanto possível, nem que tudo tenha que parar para as rezas se efectuar), ter especial atenção aos fiscais das finanças, agentes de execução fiscal e a outros penetras. Modo de confeccionar: Como todas as boas e rentáveis religiões prontas-a-servir, e igualmente por economia de tempo (e rápido retorno do investimento), pode-se e muito bem proceder à feitura do bolo com recurso a um, não direi propriamente fac-simile mas sim a um tipo de sucedâneo de uma qualquer religião já inventada. Parece que a que melhor se adapta a este tipo de modalidade é a apostólica. Seja por excesso de praticantes da velha escola, seja por notória desmoralização em termos de número de milagres operados, seja ainda por parecer que estes são os mais vulneráveis à refutação passiva e activa, incluindo-se nesta, como é óbvio, a refutação de teor religioso. Deste modo evita-se estar a inventar uma doutrina nova ou a arranjar dogmas à pressa que sejam de difícil entendimento para os futuros comensais, ou a montar toda a estrutura natural de santíssimas trindades, de pais, filhos, espíritos santos e toda a amálgama de gente santificada ou reconhecidamente milagreira. Iniciando a preparação desta espécie de filhoses (será que se diz filioque quando se trata destes mistérios de fé?) em mesa devidamente paramentada, o albigente pasteleiro transforma-se em ministro de deus e sem pudor algum pela autoridade papal ou primal, enche a malga com um crucifixo de grande porte, uns quantos textos sagrados ou apócrifos, umas hóstias em quantidade suficiente para os convidados esperados e deixa em lume brando. Já anteriormente deixou preparado, como vimos, o chocolate derretido em banho-maria confeccionado pelas mãos de uns quantos mais hábeis e mais prometedores auxiliares, esbirros ou cabotinos. Disponham-se umas quantas cadeiras em número ambicioso, uns cálices de metal em cima da mesa principal decorada com lençol de linho branco, faça-se entrar o cozinheiro com a bandeja cheia e a apoteótica simonia está pronta a arrancar. Sem grandes preocupações próprias pelos originais mandamentos culinários, pois o pasteleiro/pastor é rei e senhor (e também porque a cavalo que é dado não se mostra o dente), convém apenas incutir nos presentes essa devoção de modo a que todos eles demonstrem emoção durante a refeição.

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Já no que diz respeito aos sacramentos há que os servir de modo generoso como se de um fino vinho se tratasse, no fundo serão estas entradas que mais vontade de devorar o prato principal farão. E os que mais proveitos darão. Tudo isto será abrilhantado por um coro, banda ou convidado especial. Sabe-se que um banquete é sempre melhor digerido quando existe um ar festivaleiro ou alegreiro. A finalidade será, não apenas deixar cair o bolo num fastio que atinge os outros pastéis, de fabrico romano ou ortodoxo, mas sim causar uma agitação tal que roce o paroxismo. Deixando-se os convidados se banquetear com este bolo divino, passado pouco tempo, seus bolsos, bolsas e carteiras se abrirão por sua própria iniciativa demonstrando o quanto estão felizes por ter participado em tal comunhão por apenas um pequeno estipêndio. Depois da guloseima pegar, a jeito de viciados que já não podem sem a manjedoura passar, será um ver-se-te-avias de generosos e esfomeados fiéis a irromper pela malga-capela os quais proporcionarão que as iguarias sejam transmitidas através da propalação do boca-a-boca, técnica mais prática e fidedigna de propaganda não há. O passo seguinte – o crisol - desta indústria ocorrerá naturalmente. Quando se passa do caseiro para o industrial, ou seja, do meramente artesanal para uma congregação a rebentar pelos arcobotantes, deve-se então – seguros de que o negócio vai de vento em popa – alargar os horizontes. Entende-se por isto expandir a pastelaria inicial e transformá-la em verdadeira actividade lucrativa com direccionamento aos mercados externos. “Think local, act global.” Propõe-se para tal que o método adoptado seja o do franchising internacional. Através de uma maquia mínima como entrada, mais um tanto de publicidade e outro tanto de royalties, em pouco tempo este negócio será rentabilizado até aos píncaros. Sugere-se que se adopte um nome digno e fidedigno para a empresa a internacionalizar. Sabe-se qual é o verdadeiro poder da marca, certo? Seguidamente dá-se, a título meramente informativo, alguns exemplos: – “TEMPLO DO CRISTO-REI, Indústria de Reciclagem Religiosa, SA.” – “ECCE HOMO, Baptismos, Sacramentos et al, Unipessoal.” – “IGREJA DOS JUSTOS, Salvadores de Almas Arrependidas, Lda.”

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Como jogada de marketing brilhante que também, como em quase tudo, tem seu efeito sobre o rebanho a alimentar, em sentido nada figurativo, deve-se escolher umas quantas palavras-chave que atribuam desde logo o sentido e a natureza do produto que se pretende publicitar. Estas devem ser nada prolixas mas sim o mais curtas e lapidares possíveis e só de as soletrar, água na boca deve-se criar: – “VENHA CONNOSCO COMER O VERDADEIRO PÃO-DE-DEUS!” - “VINHO DO CÉU, SÓ NA NOSSA AFAMADA CASA!” –“MEL DIVINO E LEITE A JORRO - SERVE-SE A COPO!” Ao final de pouco tempo, na realidade, à velocidade de servidor, o empresário de doçaria religiosa aparecerá como um dos empreendedores de maior sucesso nacional, receberá medalhas de mérito industrial a torto, aparecerão entradas nos manuais de gestão a direito, transmitindo suas capacidades técnicas e sua visão ambidextra para descobrir nichos de mercado ainda por explorar. Fama, proveito e recompensa, serão o resultado deste projecto de doçaria religiosa que tornarão o futuro empresário um homem realizado e farão dele um verdadeiro sibarita.

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V A Parábola da Caverna

E aquela sequência criativa em que transformei um de meus vizinhos em sapienssapiens acabado de sair do meio da noite dos tempos... Nem Pitecantropo, nem Neandertal, nem homem de Java; homem evoluído fisiologicamente e com capacidade craniana a qual não deveremos menosprezar. Pois foi o que ele ganhou por ir passear os cães às sete da manhã e ficar urrando bem em frente de minha janela! Não só teve o condão de me acordar de modo desagradável como igualmente o de espevitar minha, já de si fecunda, imaginação.

Acordei com o escarcéu tonitruante daquilo que me parecia ser a tentativa vã, de conseguir articular sons numa linguagem vagamente humana, por parte de um macaco capuchinho ou de qualquer outro indivíduo da espécie macacae. Não foi a melhor maneira de sair do meu estado de letargia prazenteira e muito menos a uma hora tão matinal. Na verdade, senti-me como urso a ser arrancado da sua hibernação antes do final da estação invernal de modo tão violento quanto execrável. Assomei à janela para tentar perceber qual a origem de tal ruidoso amanhecer, não que fosse a primeira vez que tal sucedia, mas nunca de modo tão marcadamente inolvidável. Ao final, tratava-se apenas de um de meus vizinhos. Fiquei mais tranquilo e ao mesmo tempo mais apreensivo. Tranquilo por saber não ter acordado em plena selva e estar rodeado de estranhas e peludas criaturas, apreensivo por verificar de maneira pouco agradável que um ser humano pudesse ter o dom de me fazer acordar com tais

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pensamentos. Já era normal escutar algo vagamente parecido com um idioma humano saindo, em tom de impropério, da boca de um ou mais de meus semelhantes. Simplesmente nunca tinha escutado de modo tão gutural e tão perto de minha cabeça esse linguajar. Fico pois atento de modo a tentar perceber o que se seguiria. Os sons eram perfeitamente audíveis e o volume em que eram emitidos raiavam o excesso. Sabe-se que no ar límpido da manhã os sons se propagam mais intensamente. Para além disso, os barulhos provindos de viaturas ou fábricas da vizinhança que poderiam amenizar os urros, lançando sobre eles uma capa emudecedora, eram praticamente inexistentes àquela hora do dia. Não foi preciso muito tempo até perceber que o alvo de tais grunhidos era o animal doméstico do meu vizinho. Se aquele respondesse da mesma forma, estaria perante uma verdadeira orquestra de cacofonia em pleno raiar do dia. Deu para entender que o canídeo estava se deliciando há demasiado tempo satisfazendo suas necessidades fisiológicas e existenciais. Depois de urinar várias vezes e de defecar outras tantas, os bichos têm igualmente necessidade de cheirar tudo que é canto e todo pedaço de relva, numa incessante procura de sinais odoríferos de outros seus congéneres. Era então essa necessidade, exasperante, alongada decerto no tempo, que tinha originado os grunhidos por parte do humano. Perguntei a mim mesmo o porquê de tal emissão de sons tão vibrante quanto inatendíveis ao comum dos mortais. Pois, isso remeteu-me directamente à questão primeva: o humano balbuciava devido a que facto? Dificuldade em articular sons de modo a formar palavras gramaticalmente reconhecíveis devido a problemas de origem patológica, ou seria apenas a forma de se fazer entender pelo canídeo, através de uma espécie de código secreto estabelecido entre os dois, e que apenas eles entendiam? Esta análise de teor idiossincrático preencheu de forma mais ou menos intermitente o meu pensamento ao voltar para a cama. Questionei variadas vertentes do assunto, tal como se tratasse de um problema de cálculo matemático de difícil resolução. Pode haver várias maneiras de se chegar a uma mesma conclusão, mas o resultado terá que ser obrigatoriamente o mesmo. Claro que não consegui chegar a uma conclusão que, por si própria, demonstrasse o óbvio. Ficaria o problema por resolver nem que fosse por não ser possível recriar a experiência em sala, onde todas as condicionantes de origem natural e antropológica, bem como os factores internos e externos, estivessem controlados de modo a

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se poder emitir uma teoria credível? Nada disso! A vivência de tal visualização fez com que meus pontos de sinapse ficassem assoberbados de actividade na procura de uma explicação que roçasse, que fosse, a razoabilidade. À falta de condições optimizadas para poder repetir em ambiente adequado aquilo que presenciara, optei por criar um jogo mental e virtual, tal como se fosse um jogo de computador ou de playstation. Deixando de parte a atitude simiesca do vizinho e os sons desprendidos através do seu aparelho maxilo-facial, prendi-me com questões bem mais práticas. Tentei criar uma pequena viagem no tempo e tentar descortinar, através das diversas etapas do vídeo-jogo, de que forma as relações animal/humano seriam percepcionáveis dentro deste esquema.

Na perspectiva do cientista social, sempre procurando o fio condutor que revele a verdadeira natureza dos comportamentos e atitudes humanas, criei um jogo em que meu vizinho, transformado em cavernícola e balbuciando ainda frases sem nexo, numa tentativa de se comunicar com outros semelhantes, tem que penar para poder sobreviver num terreno hostil e cheio de perigos. E fazendo com que o vizinho seja acompanhado nesta luta diária pela sobrevivência, por seu animal de companhia recém-domesticado, tentar entender através de que tipo de simbiose, ou de relação de entreajuda, estes dois singrariam num mundo acabadinho de povoar. Assim, a meu vizinho despi-o de suas vestes de século XXI e coloquei-lhe uns andrajos feitos de pele de animal, a barba e o bigode apenas tiveram que ser alongados, a calvície prematura foi eliminada e coloquei-lhe uma melena de considerável extensão. A fácies ficou tal como é no original assim como o abdómen dilatado. Feio como o original, porco por acréscimo e fartamente peludo, tal como nossa imaginação colectiva nos obriga a imaginar de um ser deste tipo, seja no corpo, seja no modo. Ao final, cheguei à conclusão que basta retirar o invólucro, a ganga grosseira constituída pelas vestes, para que todo o restante mude drasticamente. O Homem, sem seus artefactos e bens materiais, perecíveis tal como ele, reduz-se a um simples organismo feito de carne, sangue e ossos, temeroso e despretensioso. Ao animal, em contrapartida, nada foi necessário alterar.

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Em posse deste boneco humano, fruto de minha imaginação, esta espécie de energúmeno construído em laboratório mental tal como os bonecos Action-Man, que se vestiam e despiam consoante nossa vontade ou equipamento disponível, iniciei então uma sessão de consola cheia de actividade aventurosa em plena era de trogloditas. Dando início ao jogo/diversão, perfilham-se então cenas rocambolescas de procura diária em busca de alimento. Este vizinho abonecado, agora no papel de homem das cavernas, sai do buraco onde pernoitou e leva junto consigo o lobo recém-domesticado que mais tarde dará origem ao cão caseiro, prazenteiro e mais ou menos acomodado. Como a acção de caça para suprir as necessidades calóricas é aquela que o impele primeiramente assim que sai do covil, e sendo que para o “lobo” é mais fácil conseguir uma presa de imediato, por mais pequena que seja, este incita-o a farejar algo que trincar. Os urros guturais emitidos já começam a fazer sentido neste contexto. Destinam-se a excitar o animal de modo a que este reaja a ordens de comando. Deixa de ser importante quer o idioma quer o sentido das pretensas frases, na perspectiva humana, claro. Vou aumentar o volume. O bicho, no entanto, revela ainda a rebeldia e a independência própria da espécie, que nem o comando da consola consegue eliminar, não acatando no imediato as ordens que o outro ser pretende transmitir, rejubilando sim de alegria por se ver solto ao ar livre e no seu meio natural. O humano fica deveras desagradado. O castigo físico seria algo que estaria disseminado e com o qual os bichos poderiam, amiúde, contar. Convém referir que o vizinho, travestido, apresenta aquilo a que chamo de inteligência inata, por oposto à inteligência adquirida. Esta é a diferença entre saber se a pessoa que dorme todos os dias a nosso lado é de confiança e entre saber executar cálculo diferencial. Embora a segunda tenha, infelizmente, melhor aceitação no meio académico, a primeira reveste-se indubitavelmente, de um sentido bem mais razoável. Descendo a vereda sobranceira à gruta onde pernoitou, no rasto do lobo/cão, verifica para grande surpresa sua que o animal longe de farejar algo comestível se entretém, de maneira pungente, a marcar território. Uma vez que os urros não fazem efeito por si só, talvez por falta de identificação por parte do canídeo ao que deles se pretende, talvez porque o grotesco humano não consegue emitir um conciliábulo explícito, a pedra que jaz no chão é o instrumento perfeito para acabar com as veleidades do bicho. Atirada de modo certeiro, o

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guincho de dor é sinal por si só de que o efeito pretendido foi alcançado. Dez pontos para o boneco humanoide! Toca a farejar, a barriga está vazia e o jogo está a cair na monotonia. Fome. Sim, essa a primordial necessidade do herói cavernícola. Sede não sente, pois perto da caverna vê-se que corre um ribeiro de águas límpidas e frescas. Fosse agora e tal seria uma fonte de extermínio rápido por meio de envenenamento químico. Mas por aquelas alturas ainda o ar é isento de poluentes, as águas brotam sadias das nascentes e correm desse modo até aos rios e oceanos. E o aquecimento global ainda não passa de uma teoria que tanto tempo vai exigir até ser reconhecida pelos ilustres sábios, que um dia pisarão as terras por ora quase imaculadas. Terras que o nosso antepassado tão afadigadamente percorre agora, tentando evitar os calhaus mais volumosos que enxameiam o solo e que o fazem tropeçar fazendo com que seus pés descalços se descarnem e sangrem. Esta a primeira e dolorosa pegada ecológica deixada por nossa espécie neste planeta. Daí a utilidade prática do animal domesticado que deveria fazer aquilo que é suposto fazer, mas que nem mesmo acirrado através de pedras o cumpre. Por enquanto ele ainda faz questão de se espreguiçar e de cheirar, detendo-se aos poucos nos arbustos de modo a lançar a sua feromónica urina directamente sobre as folhas das sarças não-tarda-muito ardentes. Voltando à dupla de caçadores e à actuação desajeitada dos mesmos, verifica-se que pelas redondezas não há vista de qualquer animal, por pequeno que seja, que possa mitigar as necessidades alimentares da família que espera na caverna. Terei que aumentar a fauna disponível no jogo quando fizer um up-grade. Só há uma alternativa possível: pescar no rio. O homem sabe que uma dieta à base de peixe não é a mais correcta, mas até sente certo prazer nesta alternativa uma vez que o possibilita de se refrescar ao mesmo tempo que tenta apanhar um qualquer espécime menos fugidio. Já sua horrorosa companheira e concubina não tem tanta sorte. Muitas horas antes já ela se entregou às tarefas da caverna. Faxina dos restos das brasas da noite anterior, espalhados pelo chão, amontoar os ossos que restam dos repastos anteriores, de modo a extrair o rico tutano, não vá o infeliz do cão ou o ainda mais infeliz parceiro não trazerem nada que se coma para o buraco. E até já se entregou à actividade lúdica de catar as cabeças de cabelos desgrenhados da prole que ela, de modo irremediável e subjugado, engendrou.

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Munido de um varapau apanhado ali ao lado, o boneco tenta descortinar nas águas rasas do ribeiro o sustento do dia. Fica o mais imóvel possível, na miragem de ver subitamente o corpo, alongado por efeito da refracção do meio líquido, de um animal aquático onde possa desferir uma pancada mortal. Uma vez que não me preparei ao sair da caverna para tal situação, o sílex que tanta falta me faz para produzir do varapau um esboço de arpão, ficou estupidamente, numa quietude improdutiva, no chão da caverna. Vejo-me assim desconsoladamente dependente da certeira pontaria para, de um só e formidável golpe, fazer o boneco acertar na vítima. Mas falar não é o mesmo que fazer como todos nós bem sabemos. Até já se vislumbram vários potenciais alvos, no entanto, assim que estes notam a presença do bruto, fogem apressadamente para zonas mais profundas nas quais o humano não se atreve. Grau de dificuldade superior... Não se atreve por medo do desconhecido e por não saber nadar. Também o seu parceiro é de pouca ajuda nesta situação uma vez que não há maneira de converter um caçador terrestre num caçador aquático assim sem mais nem menos. E o desgraçado do bicho, brincalhão como é, até se está divertindo - aproveitando as nuances do jogo - chapinhando dentro de água, fazendo correr o risco das presas não se aproximarem com tal chinfrim. Nova pedrada atirada ao corpo do pobre animal acompanhada de nova emissão de guturais urros (bateu em cheio no osso hióide do pobre animal, dói que se farta). Mais dez pontos para o sapiente humano! Tem efeito imediato. O bicho sai de dentro de água e vai lamber a ferida para longe. Tomara a pontaria aos peixes ser tão certeira quando for necessária, deve dar um monte de pontuação extra. Bem, sopesado o tamanho da pedra, o tamanho do cão e a fraca distância que os mediava, também não é de estranhar que tenha acertado. Os peixes esses passeiam em abundância por perto como em atitude desafiadora mas, assim que os pés peludos e escurecidos pela sujidade acumulada do pobre homem dão um passo em frente, aí vão eles a toda a pressa à procura da protecção oferecida pelo centro fundão do ribeiro. Exasperado por tal melindre, o pescador vive o pesadelo diário de levar comida para alimentar as bocas que o esperam, a esta hora decerto que esfaimadas, dentro da caverna. Como já se disse, o ser é dotado de capacidades cognitivas bem como de memória. E lá nos recantos da sua capacidade craniana reduzida surge o lampejo de uma outra acção de

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pesca da qual saiu triunfante. Que tal fazer com que a atenção dos animais do rio seja atraída por ele... Sem o mover com brusquidão dispo-o lentamente, mergulho seus andrajos dentro de água fazendo com que partes onde pesponta, aqui e ali, um pouco de pele ainda com carne dos animais a que anteriormente pertenceram, tesas da porcaria que se agarra a elas como se agarravam aos seus antigos donos, determinem assim a curiosidade dos bichos aquáticos. O estratagema resulta. Os animais curiosos e esperando uma refeição fácil aproximam-se inadvertidamente. Zás! O varapau, transformado naquele momento em mortífera maça, golpeia um dos prateados alvos mesmo em cheio no escorregadio e ictius toutiço. Quinhentos pontos para o boneco! Almoço para um já há. Faltam, no entanto, os outros todos para alimentar. E se a prole é numerosa. Isto porque uma das actividades favoritas que o embrutecido antepassado tem é o de usar seu proboscíde membro assaz activamente. Não se sabe se naquelas que eram as noites dos tempos, o prazer andava misturado com a necessidade de procriação, mas é de suspeitar que sim, porque uma vez é azar, duas é demais e mais que três é porque se gosta muito... Mas, e voltando aos peixes, não é que todos os outros já assustados pelo acontecido ao seu mais incauto companheiro, fugiram para o fundo do ribeiro e não se deixaram ver mais. Agora é que são elas. Nada a fazer, pescaria terminada. Que será da troglodítica esposa e dos paleolíticos rebentos que esperam ansiosamente pela partilha dos despojos? Problema deles concerteza. Neste mundo impiedoso apenas os fortes sobrevivem, e o macho adulto será sempre o primeiro a se alimentar, pois é dele que todos dependem. Voltando para a caverna, este esboço de pensamento primitivo segue o homem. Não será nem sentimento de culpa nem problemas de moral pois sua inteligência rudimentar ainda não lhe permite reter este tipo de idealismos bacocos. Será mais uma sensação incipiente de dever não cumprido. Em termos actuais o que se poderia chamar de frustração ao voltar do trabalho após ter sofrido um raspanete do chefe. E é claro, os olhos esfaimados estão à sua espera o que faz com que essa sensação se multiplique. Na visão do único e diminuto peixe toda a família se sobressalta.

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A mulher-concubina-companheira lança-lhe um olhar reprovador, daqueles que só as mulheres sabem oferecer e que encerram só por si toda a culpa do mundo e que, subrepticiamente, nos fazem saber de antemão qual o tipo de castigo que nos espera. Sim, este olhar deverá ser tão antigo quanto a espécie humana. Os numerosos filhos lançam, por sua vez, uma mirada de barriga vazia que reflecte suas pupilas nas escamas prateadas do peixe. Sabem que o tutano dos ossos sobrados será a sua refeição diária, isto se for suficiente para todos. Tal como as crias das aves empurram seus irmãos mais fracos para fora dos ninhos para não terem que partilhar a comida quando esta escasseia, também a dura lei da caverna faz com que os mais fracos fiquem à mercê dos mais fortes. Neste aparente caos social e que prima pela ausência de normas éticas ou sacrificiais pelos mais vulneráveis ou mais desprotegidos, algo que no fundo tem acompanhado a humanidade ao longo dos séculos, ao patriarca pouco importa que algum dos descendentes sucumba à fome. Não viu ele já vários deles serem atacados e comidos pelas feras, perante a sua impotência? Ou outros serem mortos por seres seus semelhantes apenas e apenas por uma espécie de prazer mórbido? Outros ainda vitimados por estranhos raios de luz caídos em noite de tempestade do céu escuro, outros de frio e outros ainda definhando misteriosamente até morrerem, sem terem sido atacados por animais ou humanos? Para o pobre troglodita apenas o pensamento prático lhe importa e esse pensamento faz com que ele seja impelido a uma opção deveras drástica, mas igualmente racional. Deixar alguns sobreviver em detrimento de outros pode parecer uma opção pouco humana mesmo vista pelo prisma de um habitante de caverna, mas, no entanto, não é o que se verifica hoje em dia, em que tantos morrem de fome e outros tantos de obesidade? Pelo menos na parábola da caverna a míngua é que ditava a lei, no nosso mundo é, contrariamente, a ganância e a avidez. Mas, - e o jogo não previa tal -, eis que subitamente, à entrada da caverna, surge a silhueta felpuda do outro personagem e que por algum tempo se tinha evaporado da história: o cão. E na sua bocarra toda aberta traz uma enorme lebre, engordada pelas ervas da pradaria que se estende até ao sopé dos montes, lá longe. Voltou o canídeo companheiro à caverna e às mãos do algoz boneco humano porquê? Não lhe seria mais útil e proveitoso ter ficado tranquilamente a devorar a presa por si apanhada e que tanto trabalho lhe dera. E, voltar ao convívio daquele que pouco tempo antes

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o tinha maltratado e apedrejado, dando-lhe de ânimo leve uma presa que este decerto devoraria e lhe daria, a troco, os restos, diga-se, os ossos? Junto com o “mas” deveria prefigurar algo mais que de momento se nos escapa. Certo é que o bicho, talvez por vontade de se ver reconhecido ou de recompensa futura, talvez por qualquer sentimento de lealdade ou ainda talvez por algo que só ele poderia nos explicar, (se na feitura do jogo se tivesse precavido convenientemente este tipo de circunstancialismos), caçou e voltou à caverna e ao homem que antes o tinha escorraçado. Homem que ao ver o que o mastim trazia na boca, de imediato lho tirou, como se tivesse sido ele o autor da façanha. Não restam dúvidas, a partir deste ponto, que tanto a sua trilobítica esposa quanto seus amoníticos rebentos, suspiraram de alívio. Uma presa daquelas era sinal de que as vicissitudes em suprimentos energéticos daquele dia estariam resolvidas. Amanhã, bom, se amanhã houvesse, logo se veria. Cinco mil pontos para o cão! Fim de nível.

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VI

O Mito da Irlândia

“Houve em tempos um país afortunado, melhor dizendo, era de uma ilha afortunada que se tratava. Uma ilha esmeralda que desapareceu no fundo das águas escuras da economia por força de um cataclismo financeiro mundial.” Este é um extracto de uma narrativa de uma antiga história que conta o percurso de uma ilha utópica e rica – a Irlândia – cujos habitantes possuíam um nível de vida excelente e que desapareceu no fundo do mar da perversidade económica por força de um grande cataclismo financeiro de proporções inimagináveis, castigada tanto por sua voluptuosidade para com o dinheiro como igualmente pelas agências internacionais de notação de crédito. Esta ilha, formosa, pobre e outrora temente a Deus, havia muito perdera a sua vocação de antanho e o elemento divino (como igualmente os seus padres tinham perdido sua castidade) e tinha-se transformado numa utopia onde os activos financeiros tóxicos tinham base. Na ilusão do dinheiro escorreito trazido pelas grandes multinacionais de prestação de serviços a nível global, que ocorreram em massa devido à taxa acima da média de licenciados entre as gentes desta ilha, à facilidade de estabelecer negócios e ao incentivo estatal que lhes era proporcionado, tinha-se deixado corromper pela terciarização do país. De facto esta ilha havia trocado o seu sustento à base de batatas pelo help-desk, a produção de aguardente pelas collection services, as estrelas musicais pelos serviços on-line. E tudo parecia estar a ir muito bem. De antiga ilha exportadora de mão-de-obra barata para

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todos os cantos do mundo havia-se tornado em importadora da mesma mão-de-obra barata para fazer frente às vacaturas criadas pelos postos de trabalho de menor exigência técnica, que todas as multinacionais geraram e que estavam por preencher. O ritmo de vida bem como o per capita haviam crescido em proporções gigantescas e em todos os países do mundo a Irlândia era cobiçada por seu alto nível de vida e todos desejavam poder crescer ao mesmo ritmo imparável. Era vista como a ilha da boa ventura, a ilha dos milagres ou ainda como o melhor aluno em termos de práticas económicas e de gestão financeira. Mas Deus, sempre vigilante nestas coisas de quebras com a fé, é que não ficou muito contente com tal viragem ocorrida no seio do um de seus mais fervorosos rebanhos. Os irlandieses tinham cometido vários dos crimes capitais – a gula, a cobiça, a luxúria (leia-se trocar o material pelo espiritual) – e quebrado vários dos mandamentos divinos – adorar uma imagem, repudiar o senhor seu Deus (leia-se divinizar o euro e prostrar perante Bruxelas). Deus estava realmente muito zangado e, para se desforrar daquela tremenda falta de dignidade para com sua pessoa, decidiu castigar a ilha afundando-a em sua concupiscência. Decidiu, portanto, que seria devorada por sua própria idolatria e soberba enviando não uma nuvem de gafanhotos para conseguir tal fim mas sim uma nuvem de tóxicos financeiros. Em um dia e uma noite a bela e esverdeada ilha ficou acinzentada e sem condições de manter vida (pelo menos vida como aquela que estava habituada a manter) tendo-se afundado – embora em termos metafóricos – para todo o sempre. No fundo deitaram-se na cama que fizeram, exclamaria Deus ao final verificando sua obra. Agora, castigados pela força do altíssimo, os habitantes da malograda ilha vivem em penitência e novamente de modo frugal, sem gula, ganância ou egoísmo. Já deixaram de se prostrar como antigamente perante falsos deuses e falsos profetas; de igual modo rejeitaram os ícones que vinham adorando, os velhos hábitos voltaram a se instalar no seio da sociedade. Purificada e santificada de novo, podem os habitantes da ilha recomeçar suas vidas rezando e orando nas igrejas para que não sejam fustigados por estirpe mutante da doença do míldio da batata, para que as águas límpidas de onde fazem sua cachaça continuem a fluir como antigamente e que todos os junk bonds desapareçam definitivamente daquela ilha tão aprazível quanto rendida ao divino. Esta a história do Mito da Irlândia tal como me foi contada.

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VII A Ilha do Rato

Olha... a ilha do Rato. Será que já a compraram como foi noticiado faz uns tempos? Mas quem iria enterrar ali uma fortuna num ilhéu malcheiroso como aquele? Só tem ratas e arbustos decrépitos chamados salgadeiras, covis daquelas. Nem daria pra fazer uma das tão badaladas offshores de que fala o jornal devido à proximidade dos esgotos. Quem iria depositar vultuosas somas de dinheiro previamente limpo num território tão mal cheiroso? Imagine-se o cheiro que ficaria agarrado às notas de dólar e aos francos suíços bem como aos écus. Nestes últimos o cheiro até faria sentido... Bonita linguagem de pensamento… Então? chamar os bois pelos nomes. Vê lá se os espanhóis não o fazem e se estão com lamúrias. Chamam ganáncia ao lucro e interessos aos juros, e ninguém os leva a mal. Ninguém me ouve nem consegue ler meu pensamento. Fico mais descansado sabendo que não haverá nenhum santo inquisidor por perto que me revolva a massa encefálica, levantando-me o hipocampo à procura de algo que me comprometa como aconteceu com a tipa de Ruão. Bem, essa pelo menos falava directamente com Deus, artifício que eu não possuo nem recorrendo à ajuda das novas tecnologias. Ora continuando. Seria possível tal coisa, ou não, uma offshore aqui mesmo ao lado? Deixa ver o que é capaz de produzir minha imaginação, parodiando um relapso de estimulação, simultaneamente a jeito de a mente acelerar e deste tema tratar.

Um dia pela manhã leio no jornal que acabara de comprar, a procura de pessoal de vários níveis de estudos e de conhecimentos práticos, para serem contratados em regime de

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imigrantes-colonos, para povoar, trabalhar e desenvolver, o recém-criado e independente país do Rato, sito a escassos quilómetros de minha área de residência. De início não entendi muito bem como tal coisa tinha surgido de modo tão rápido, tão incomum e tão perto de mim. Jornais eram coisa que eu agora comprava espaçadamente devido a minha situação periclitante em termos financeiros. Algo que passara a artigo de luxo em muito pouco espaço de tempo, o que era uma pena, pois adoro ler jornais e estar informado. E igualmente porque as ofertas de emprego diminuíam de dia para dia como cogumelos em floresta apinhada de gente em actividade recolectora. E o pior era que os poucos anúncios de emprego aos quais me candidatava nem se davam ao trabalho de responder. Idade, situação de desemprego de longo termo, habilitações que não se encaixavam neste perfil, naqueloutro era a experiência profissional que me tramava, bom, um cano sem fim. Calhou por isso naquele dia ter comprado o jornal quase por casualidade na bomba de gasolina para dar de caras com aquela oferta inusitada. Dizia laconicamente assim: “Administração Geral do Rato, por iniciativa da Secretaria dos Assuntos Internos, recruta através deste meio, candidatos para colonizar, trabalhar e viver neste país. Todas as profissões são requeridas. Enviar CV junto com foto recente para o seguinte e-mail: rato_recruit@live.mail.com Provas de aptidão e de selecção a realizar dentro do prazo de 15 dias in itenere.” Atónito e surpreso, decidi saber algo mais acerca desta nova nação aqui nascida tão perto e de modo tão espontâneo. Consultei a internet, claro, mas pouca informação existia acerca do que raio era o Rato e como tinha sido parido. Muito menos acerca da administração geral e ainda menos acerca de contratações de pessoal colonizador. Parecia que um manto de mistério em forma de neblina cercava todo aquele assunto. Com alguma persistência consegui na biblioteca de minha zona, através da consulta de um nobiliário, recolher algumas informações dispersas acerca do que se tinha passado nos meses anteriores e comecei a formar uma ideia geral da génese de tão original país. Pois então vejamos. Há algum tempo atrás, mais coisa menos coisa, aquela ilha, do Rato mesmo, jura a toponímia original em antigos mapas bebida, propriedade de particular, foi colocada à venda. Os poucos interessados rapidamente fugiam do local após o visitarem. Feio, pantanoso e

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lúgubre ainda apresentava o inconveniente de possuir uma das maiores populações de ratus aquaticus da zona. Fruto do isolamento e de comida em abundância, os ratos-marsupiaisaquáticos de gordos que eram, ocupavam toda a superfície da pantanosa ilha vivendo em grandes comunidades dentro de tocas proporcionadas pelos abrigos naturais, feitas pelas salgadeiras que escavavam o solo de modo a enterrar suas raízes. A pequenez da ilha também não convidava a potenciais compradores, bem como a qualidade do território adjacente e a poluição das águas provocada quer pelo apodrecimento dos lodos na maré baixa, quer pelas descargas dos efluentes domésticos e industriais, das cidades e vilas do continente ali tão perto. Nem a profundidade das águas ajudava a esse propósito uma vez que na baixa-mar, quase se podia atravessar a pé até à margem sul continental. Quem quereria enterrar uma fortuna em tais buracos, ou seja, em território tão inóspito? Ninguém, aparentemente. Isto até que surgiu um milionário que tinha tanto de excêntrico como de aventureiro, eivado de qualidades empresariais igualmente, que decidiu, após consultas a escritórios de famigerados advogados e jurisconsultos, auferir das possibilidades de compra do ilhéu com pretensões à independência total do país-mãe - o continente. Felizmente para o estulto e inverosímil empresário-empreendedor, uma simples lacuna na escritura de posse da ilha permitir-lhe-ia tal possibilidade. Algo um pouco complicado e que só aos entendidos nas minudências e nos contornos difusos das leis permitiria entender, mas em termos sóbrios rezava mais ou menos o seguinte: Esta ilha fora propriedade de um nobre que a recebera através de privilégio real transmitido por carta régia, e que lhe outorgava a propriedade da ilha – ratus ínsulae – na terminologia da época, como forma de pagamento por sua excelência em serviços prestados à coroa durante as lutas de restauração da independência, muitos séculos atrás. No arquivo real constava que a dita propriedade lhe dava o direito de fazer o que bem entendesse da ilha no que concertava a dação, venda ou transmissão por herança, valores transmissíveis sed lege aos potenciais novos proprietários. Pretendia-se decerto, como alguns historiadores afirmaram, tentar valorizar daquela forma a miserável ilha que alguns afirmavam na época de sua entrega ser um presente envenenado ou até uma amostra de desprezo velado, que nenhum monarca ofertaria tal coisa se fosse mesmo por agradecimento. Algo se passara com aquele nobre e com os ditos serviços prestados à pátria, que estaria tudo muito mal contado. Logo apareceram todo o tipo de histórias e de opiniões acerca do que realmente se passara. Diziam

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uns que o nobre tivera um caso com a rainha consorte, outros que teria sido com a princesa, outros que tinha sido com o rei e até chegou-se a comentar ter sido com os três. Enfim, também não interessa nada para a continuação da história. Continuemos. Esse foral nunca tinha sido denunciado e mantinha-se juridicamente válido. Tal lacuna ou distração ter-se-ia devido ao facto de ninguém, absolutamente ninguém, dar o mínimo de atenção a tão ignóbil afloramento pedregoso em pleno lodaçal. Longe de tudo e de todos, embora tão perto igualmente pelo menos nos dias de hoje, ninguém se interessara pelo estatuto jurídico da ilha. Nem pela ilha propriamente dita que nunca tinha sido ocupada pela presença do homem. Logo, aquele contrato de propriedade mantinha-se intacto e não haveria maneira de encontrar subterfúgio para fazê-lo purgar desse inconveniente perante a impotência do actual herdeiro da coroa - o estado republicano continental. Esfregando as mãos de emoção, o rico, inventivo e farejador empresário tratou rapidamente de fechar negócio com o dono actual, (antes que outros interessados surgissem no horizonte); dono que havia recebido em mãos a ilha através de herança de um seu antepassado que a ganhara ao jogo do damão, a um por sua vez antepassado, do nobre primeiro detentor de posse. Reunidos os milhões pedidos (comentava-se e especulava-se muito acerca do verdadeiro montante exigido, faz tudo parte do jogo), formalizou-se o respectivo acto de posse através de escritura de compra-e-venda perante notário. Até aqui tudo bem, não passava de mais um simples negócio de troca de propriedades através do muito e louvável mecanismo para esse efeito instituído em qualquer país civilizado. O toque de passe, a troca-tinta ou ainda o rasteiramento de bola, usando-se a terminologia futebolística para todos entenderem, deu-se quando o novo proprietário exigiu todos os direitos, todos repito, inerentes à posse do em causa território insular. Caiu o céu, a santíssima trindade e os restantes pendores, junto com aqueles que se sentam quer à direita, quer à esquerda do fazedor de milagres. O quê? Fazer daquilo um país independente? “- O homem tá louco ou acha que somos todos parvos? Nem tal coisa imaginar. Deve haver maneira de dar a volta à coisa. Há sempre maneira de retirar o conteúdo a um contrato, seja por corruptela seja por desvirtualização. Os juristas ao palácio do governo já e que tragam junto o conservador dos arquivos reais, ou conservador da torre dos documentos da república, que o efeito é o mesmo e serve para o caso. Analisem profunda e minuciosamente

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tudo que seja passível de ser interpretado sob uma nova luz. Isso até à exaustão, ou seja, até à vírgula.” Mas infelizmente para o governo continental pouco havia a fazer. Até chegaram ao cúmulo de consultarem o eterno e único reclamante da antiga coroa transformada em curiosidade histórica havia muito, para que se pronunciasse acerca da justeza da exigência do empresário, mas este, em género de doce vingança perante aqueles que sempre o haviam ignorado, tomou o partido do dono da ilha. E até comentou jocosamente que gostaria de ser um dos primeiros habitantes de tal nação, onde ainda permanecia uma réstia de sabor a monarquia sorvida através da carta régia que jazia, testemunha e originadora de toda esta situação incongruente, nos reais arquivos, mesmo que agora fossem da república. Fez-lhes portanto um manguito. Nunca nada de tal surgira anteriormente perante os olhares de estupefacção e de incredulidade dos deputados, assembleia, governo e presidência da nação continental. Algo de novo mexia entre todas as forças políticas que, esquecendo o momento eleitoral perto, se aliaram como nunca em persecução de um mesmo ideal de combate. Os jornais quase sempre maledicentes acerca das políticas governativas e das soluções da oposição também, deixaram isso de lado bem como os casos em análise de corrupção, de pedofilia, de marasmo, de incompetência e de mortos na estrada, para se dedicarem única e exclusivamente

àquela

situação

gravíssima

que

afectaria

todos

os

continentais

independentemente de seu sexo, classe social ou cor partidária. Nunca, com excepção de uma organização de campeonato de futebol, se tinha visto uma nação inteirinha reunida em volta de um mesmo objectivo. As bandeiras esvoaçavam pelas fachadas e varandas dos edifícios, as sedes dos partidos estavam coloridamente ornadas das cores nacionais, os edifícios governamentais hasteavam agora a bandeira nacional todos os dias, ao contrário do que era habitual - aos domingos - preocupando-se ademais em procurar aquelas que estavam em bom estado; nada de bandeirame desbotado ou com pontas desfiadas. Fanfarras de bombeiros entoavam suas marchas semi-marciais em quartéis, o exército desfilava pelas ruas, a força aérea pelos ares e a marinha fazia exercícios de tiro real em pleno estuário. Os jornais escreviam grandes parangonas exigindo acção em tempo real do governo,

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os engraxadores serviam de tição ardente entre a disseminação do valor da integridade da nação perante os sapatos dos cidadãos e as rádios e televisões passavam interminavelmente documentários, mesas-redondas e entrevistas sobre o assunto número um da agenda nacional. Até um conhecido comentador plurifacetado tinha deixado de lado as análises cruentas aos jogos de futebol domingueiros, a crítica literária e até os pratos de cozinha típica para se dedicar em exclusivo ao tema quente da actualidade nacional. Coisa tão verdadeira quanto quase inimaginável foram os incêndios que naquela época lavravam pelo país fora ficarem de um momento para o outro quase extintos. Mas era agora nos fóruns internacionais que a jogada de xeque-mate era arquitectada. Perante o não compulsivo e à laia de desprezo transmitido pelo governo continental a suas exigências, legitimas e fundadas na sua óptica, o empresário-dono decidiu levar a sua exigência a um nível mais alto. Informado por seu gabinete de consultoria jurídica do perigo de deixar errar eternamente o assunto nos tribunais continentais, que decerto protelariam as decisões ao máximo, acabando por considerar deferida a pretensão continental sobre a matéria, (e ao mesmo tempo dando de oferta um precioso tempo a que se encontrasse maneira de dar a volta à coisa), entregou um pedido formal de reconhecimento de independência perante nada mais, nada menos do que as nações unidas. Respaldado por sua riqueza influente e por uma multiplicidade de documentos (mais de mil e quinhentas páginas, dizem), com a assinatura aposta de um exército de sumas personalidades de reconhecidos méritos no campo da jurisprudência, acabou por colocar em maus lençóis tão provecta quanto imparcial instituição. De facto, e apelando à interpretação oferecida pela lei internacional, o assunto deveria ser resolvido entre as partes como se tratasse de um assunto de direito administrativo privado, e nada mais. A pretensa nação ainda não existia de jure, como tal não podia ser considerada como pessoa jurídica colectiva perante a lei internacional. Que resolvessem suas diferenças lá esses continentais e os proto-ratenses ou lá o que queriam ser chamados! Uma organização deste calibre não pode perder tempo com comezinhas questiúnculas. Siga-se para o plenário geral sobre a pirataria nas águas da Somália. Isto quis dizer um não virulento ao dilema do empresário-dono-quase-enrolado-nonegócio. Mas, com o espírito que tão bem o caracterizava e imbuído de uma perseverança

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digna de um títere de república ex-soviética, - melhor termo não encontro -, não se deu por vencido. Conversações tímidas e informais de início deram origem a outras de um teor diferente. Sempre realizadas através de assessores e de lugares-tenente, como é da praxe, pouco a pouco começaram a apresentar contornos de alguma visibilidade. A desconfiança deu lugar à diplomacia, a indefectibilidade à comunhão de valores. Sabendo das terríveis consequências que uma grave crise económica estava fazendo o continente passar, o empresário-dono-recém-erguido decide dar uma cartada de mestre. Abrindo o jogo ao máximo, informa as autoridades continentais do que a independência propriamente dita da ilha do Rato poderia ofertar em termos práticos aos continentais. O relance de uma miragem sobre o que se escutava da boca dos assessores era de uma imensidão inacreditável. Mas seria verdade o que os seus ouvidos escutavam? O empresário-dono-investidor pretenderia mesmo fazer o que se propunha? Um offshore? Escutaram bem… Um offshore a pouco mais de meia dúzia de quilómetros da cidade-capitalcontinental. Em pleno estuário?! Louco, visionário, engodo! Múltiplas interpretações foram retiradas daquela simples palavra, mas não tão isenta de pecados como a sua sibilina leitura e bonita grafia podem fazer supor. “- É pá, isso é peixe graúdo. Um paraíso fiscal aqui ao pé de nós... No estado em que nossas finanças se encontram, em que o défice raia o desespero, em que o PEC só a custo será engolido faltando depois ser ainda digerido, com o PIB a crescer zero ao ano e com os números do desemprego a subirem em flecha, isto até vinha a calhar bem. - Mas e a União que dirá? Podemos atribuir assim sem mais nem menos a independência a um país dentro do nosso, por assim dizer? E será reconhecido mundialmente, condição sine qua non pra se poder fazer o resto?” Novo dilema jurídico pela frente, E sabe-se bem o tempo que demora a deglutir estes cozinhados.

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“- Bem, o que interessa, e se a proposta a ser oferecida nos agradar, o que não quer dizer que estejamos a claudicar, nem nada que se pareça - isto não passam de reuniões informais entre as partes -, é saber em que moldes essa parceria pode ser feita.” Parceria... Um verdadeiro lapsus linguae intencional. Transa mercantil ficaria melhor naquelas bocas, ou negociata dito em surdina, ou esquema manhoso dito pela boca do povo. “- Que pretende afinal o senhor-empresário-dono-investidor fazer de concreto e o que nos dá, ao povo continental claro, em troca?” O esquema-negociata-parceria apresentado pelos advogados do empresário-donoesperançoso foi o seguinte: Primeiro: Independência total e imediata com tudo o que se entende com isso, garantida e reconhecida sem qualquer interferência ou exigência, ou seja o que for, por parte dos continentais. Em menos palavras, autodeterminação; Segundo: estabelecimento de um offshore no território da Ilha do Rato, cuja finalidade será a de captar capitais de particulares, grupos, empresas e governos – livres de impostos - de modo a se proceder ao seu reinvestimento, praticando-se uma margem elevada de remuneração sobre os seus depósitos de modo a rentabilizar o território e criar meios de sobrevivência aos seus habitantes; Terceiro: Contratar pessoal técnico e auxiliar no continente, sob a forma de colonostrabalhadores para guarnecer a ilha de quadros e habitantes e de forma a desenvolver o negócio. Proceder ao pagamento de uma quota anual ao país continental sob a forma de direitos de exploração, associação de amizade rato-continente, pacto de boa vizinhança, tratado de mútua cooperação, protocolo de entreajuda ou qualquer outra forma juridicamente viável de se estabelecer uma relação frutuosa entre partes. Será estipulada a soma de x para tal efeito, paga em anuidades pelo prazo de y anos, após o que será reexaminada toda esta relação contratual.

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As coisas até nem estavam mal encaminhadas, mas a ganância decidiu mais forte do que o bom senso. Escorrendo saliva perante a visão dos chorudos rendimentos e proveitos que a ilha-banco poderia obter e sabendo de antemão que ao contrário do que se possa pensar estes negócios de dar a volta a impostos, branqueamento de capitais e receptáculo de dinheiros duvidosos estão em alta e não em vias de extinção como se poderia crer, alguns políticos mais sabujos do continente começaram com suas reconhecidas exigências. “- O valor x é pouco. Queremos xxx! - Y anos dá pouca margem de manobra, queremos yyy!” E deste modo aquilo que parecia ir terminar de uma maneira salutar recomeçou de maneira mais cáustica e prepotente entre ambas as partes. Agora que a opinião pública continental estava ao corrente do que realmente se planeava fazer ali ao lado, de profundis in stuario, as opiniões começavam a soçobrar na sua magnanimidade. “- Eh pá, estes tipos da massa aqui espetados no meio de nós até que nos faziam jeito, hein? - Acho que era uma boa, até podia ser que alguns de nós pudessem ir trabalhar pra lá, ouvi dizer que querem contratar carpinteiros de cofragem e armadores de ferro. - E eu escutei que querem cozinheiros e empregadas de andares, copeiros e auxiliares de F&B.” Quando as divisões nascem no seio das massas a coisa geralmente acaba em turbulência. A vox populi depressa encontrou eco na imprensa, escrita e multimédia. Os artigos e opiniões, outrora tão bombásticos, começaram a mudar imperceptivelmente de tom. Pouco a pouco a divisão total instalou-se no seio do espírito da nação. Mas os governantes, a quem cabia a última palavra, em conjunto com a assembleia da república, pois era assunto de Estado e não de governo, e ainda pendentes do veto ou da aceitação presidencial, decidiram fazer finca-pé e não aceitar as condições, diziam eles, vexatórias do diktat do empresáriodono-abusador, o qual tresandava a ultimatum de má memória.

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Pressentindo o lobo ferido, o empresário-dono-perseverante começou a optar por métodos menos ortodoxos, mas igualmente eficazes. Dividir para conquistar é um adágio velho como o tempo; dessa forma distribuindo uns doces aqui e ali, mais uns copeques acolá e umas esterlinas além, untou mãos a torto e a direito. Algumas que já tinham dado sinais de quebra, outras que estavam em vias de mudança de atitude e ainda outras que se mostravam hesitantes e que por tal eram as mais importantes de arrastar para o lado de cá (lá). Crescendo como uma doença da qual não se tem controlo e muito menos se sabe a cura, a divisão da sociedade continental continuou imparável até ao ponto em que o governo estava prestes a sair estridentemente derrotado das eleições que se aproximavam, tal como garantiam as empresas de sondagens. Mas não era apenas essa a ameaça que pairava sobre o governo e sobre os mais arduamente combatentes pela defesa da integridade da nação. O assunto, de início meio adormecido nos fóruns mundiais, tomou novo relevo quando por mérito do aliciamento de alguns governantes africanos, tomou voz activa em cimeiras internacionais. Foi dessa forma discutido, embora de modo titubeante, na cimeira da OUA onde um dirigente máximo de uma nação anteriormente colonizada pelo continente teceu ameaças veladas acerca de neocolonialismo, direito à autodeterminação e a aspiração de todos os povos em serem livres e senhores de seu destino. Ele aparentava nem saber bem do que falava, no entanto teve o condão de fazer despertar outras mentes mais argutas ou mais interessadas a prestarem o seu envolvimento ao assunto. Já se sabe que quando os assuntos começam a ser badalados a nível internacional, que os jornais ditos de referência no panorama mundial avivam os temas de um modo que os nacionais não conseguem fazer. Assim que os Times, Corriere de la Sera, El País e Le Monde começaram a dissecar o assunto, este tornou-se numa bola de neve de efeitos imprevisíveis. Das páginas interiores passou para as secundárias e destas para a primeira página, isto à medida que as contradições e acusações faziam mossa dentro da sociedade continental, entre oposição e partido do governo, entre os próprios elementos do governo, entre o emudecido presidente da república e estes todos. Claro que a turba também já não se entendia. Àqueles que viviam perto da ilhapossível-banco agradava-lhes a ideia de algo desse tipo assim perto, por motivos óbvios. Aquilo era bem melhor que um aeroporto novo em folha, que uma linha de caminho-de-ferro

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de alta velocidade que quase ninguém usaria e que uma ponte que também ninguém se decidia a fazer nunca. “- Uma caixa forte no meio do rio? Venha ela que precisamos mesmo é de patacas, isso é uma verdadeira mina de ouro que não se pode desperdiçar. Se todos os outros países têm porque não temos direito a ter uma também? - Vai criar postos de trabalho e dinamizar a zona, tão caída no descaso e no esquecimento de sucessivos governos. Deixem o homem-empresário-dono-bom-samaritano abrir a porcaria do banco e dêem-lhe a independência, já!” Gritavam a maior parte dos visionários de pingues proveitos esperançosos. Outros, os que por razões de afastamento geográfico ou por motivos sentimentais ou por ideologia patriótica não corroboravam da mesma opinião, afadigavam-se em abaixo-assinados e moções ao governo para pararem de vez com a bandalheira a que a república tinha chegado. Que ponham esse empresário-dono-de-uma-ilha no olho da rua de uma vez por todas. “- Quer ilha, já a tem. Lixou-se com o negócio, paciência. Quer offshore, vá prás ilhas do Caribe. Quer mama, vá mamar na do boi.” Ao verde-rubro, as emoções dividiam a nação continental e fragmentavam o poder democrático. Receosos da perda da maioria nas eleições que se avizinhavam, os do governo pedem ao presidente que se pronuncie de uma vez por todas acerca do assunto, uma vez que este se tinha remetido a um silêncio constrangedor desde o início da polémica, referindo-se apenas uma única vez ao tema dizendo que era assunto dos tribunais civis. Agora, entre a espada e a parede, acicatado pela pressão não só nacional como também por parte da internacional, pela voz e eco dos jornalistas estrangeiros repercutida, tomou finalmente uma decisão. Dirigindo-se ao país em directo pela televisão e rádio, disse: “- Continentais e continentalas, o momento me obriga a proferir este discurso que eu tanto evitei ter que pronunciar. Mas como sabeis, o momento que nossa pátria vive não é o mais salutar nem o mais desejado. Aparte da crise económica, gravíssima, que vivemos há

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demasiado tempo, vem agora juntar-se esta de teor político que coloca em risco a base das nossas instituições democráticas. Como tal, e como presidente de todos os continentais e continentalas que sou, vejo-me obrigado a emitir a minha opinião que em termos legais será a do país inteiro. Não reconhecerei a independência de país algum dentro do interior do nosso, como se fosse um tumor indesejado crescendo à nossa custa. Não reconhecerei nenhuma ilha, ilhéu, quintal, logradouro, pátio das traseiras... parcela de território alguma como independente, o que considero crime de lesa-pátria. Isso de cartas régias é coisa do tempo dos bisavôs, nada de valor actual. Não assinarei, não darei apoio tácito ou explicito e muito menos concordarei mesmo que me obriguem, a reconhecer seja o que for senão o solo sagrado de nossa pátria, pátria de todos nós. Façam vossas as minhas palavras. Boa noite e até amanhã, se Deus quiser.” Claro que tal discurso caiu como declaração de guerra no meio do lodaçal da ilhaquase-e-só-apenas-isso. O governo ficara de mãos atadas, pois tinha sido ele a provocar o discurso presidencial, a oposição lavou dali as mãos e encostou-se à bancada de desenvolvimentos futuros e a populaça ficou ainda mais dividida e incomodada com a falta de rumo e de unanimidade dos seus dirigentes máximos. O empresário-dono, reunido com o seu quartel-general de juristas, (sim, está bem utilizado o termo, pois o estado era quase de guerra declarada) tomou uma decisão final. Quase a pretender renegociar os termos de existência da ilha-banco e dos proveitos a pagar pela sua actividade aos continentais, decidiu de uma vez por todas acabar com aquele abuso de charlatanice e de terrorismo de Estado cuja intenção ele descortinava qual era, e entrar a fundo na corrida diplomática. Primeiro que tudo abandonou o luxuoso hotel onde vivera até aí na cidade-capitalcontinental, com toda a mordomia e conforto disponíveis e decidiu atracar o seu iate ao largo da ilha do Rato de modo a formalizar através deste acto simbólico a sua pertença. Mandou imprimir um milhão de cópias da escritura de compra com os devidos anexos que lhe davam todos os direitos em conformidade com a carta régia, bem como uma espécie de memorando onde além de difundir suas pretensões futuras em termos do território, igualmente fazia clamor de sua voz como vilipendiado no seu sagrado direito à propriedade e sua racional

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utilização. Mandou distribuir estas cópias por todo o continente através de mailing, cartazes e de folhetos de rua, enviou ainda muitas através de correio electrónico, pagou fortunas aos jornais para publicarem em jeito de caderno destacável, toda aquela papelada e conseguiu o feito de alugar um dirigível publicitário para fazer passar sua mensagem, nos ares do continente. E não se ficou por aí. De novo conseguiu persuadir alguns dirigentes africanos e fazer-se ouvir pessoalmente em nova cimeira da OUA, caso deveras inédito uma vez que o pseudo país estava fora da órbita da influência diplomática daquela organização. Mas devido a um “buraco” na agenda de trabalhos, foi escutado por muitos e aplaudido por outros tantos, recebendo uma ovação, embora parcial, das comitivas diplomáticas. Aproveitou esta oportunidade para estabelecer os primeiros contactos com potenciais países que reconhecessem a independência do Rato. Comentava ele: “- Se, países situados no Cáucaso, contra a vontade da maioria da comunidade mundial, são independentes, porque carga d´água não pode ser o meu? Já pra não falar dessa coisa aberrante que criaram lá nos Balcãs. E que dizer daquele rochedo espetado no sul daquele país? País esse que por sua vez tem duas praças-fortes num terceiro. E aquela caganita de principado encravado entre outros dois, aqui tão perto também?” Conseguiu deste modo, embora se diga à boca cheia que também houve uma ajudinha sob outra forma, que alguns países reconhecessem logo ali, em cima do joelho, como se costuma dizer, a tão desejada independência da República do Rato. Com essa lista na mão, a sua próxima viagem diplomática foi a um país da meridional américa. Aí, junto de um defensor dos povos oprimidos, - o que foi considerado um golpe de mestre por uns e um casamento profano por outros -, fez escutar a sua voz cada vez mais possante acenando por todo o lado a lista dos países africanos que já tinham prometido ratificar o reconhecimento da novel nação. Alegando discriminação por motivos raciais, xenofobia social por ser ele também de origens humildes e campesinas – algo nunca provado, diga-se de passagem – que tinha subido a pulso na vida e que agora os ogres continentais queriam explorar e sugar seus dinheiros e recursos, conseguiu obter o apoio declarado de mais uns três países membros do Pacto Andino para a sua causa.

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A lista engrossava a olhos vistos, tal como sucede com a história da galinha e do grão. Mas havia que dar um certo ar de dignidade à coisa. Onde fica essa ilha? perguntavam alguns. Que autóctones tem e quantos sois? - perguntavam outros. Que existe lá? Ainda outros. São ricos, pobres, remediados? Tem recursos naturais que se possam explorar? Estanho, magnésio, ouro, prata, coltan? Perante isto e constrangido por um certo balbuceio de sua parte em frente destes representantes de países a angariar, o empresáriodono-exigente-de-um-país decidiu abrir uma outra frente. “- Que venham os primeiros bulldozers, retroescavadoras e caterpillars. Que os primeiros batelões de areia se aproximem das ráticas praias. Que os primeiros obreiros da construção civil desembarquem nas costas da ilha-meu-país e que metam mãos à obra. Vamos construir uma nação!” A ilhota depressa tomou a forma de um enorme estaleiro ao ar livre uma vez que tudo havia por fazer. Como a operação tinha mais de cosmética propagandística do que destinada a ter efeitos práticos, foram dadas ordens para que apenas se construísse uma casa em tijolo e pedra, moradia do empresário-dono-futuro-presidente e revertível em potencial palácio presidencial (logo apodado de palácio do rato, numa estranha e coincidente analogia com um outro bem conhecido na capital continental), e que as restantes fossem pré-fabricadas. Uma espécie de casas cartonadas, (algo inspirado nos westerns em que apenas as fachadas são reais), e igualmente se lembrou de mandar montar umas pretensas casas de habitação à imagem daquela coisa hilariante que foram os tanques de cartão prensado no deserto, durante a primeira guerra do Golfo. O que se pretendia no fundo era que visto do ar ou de terra ou do mar, os contornos do casario transmitissem uma imagem errónea de quem ou do quê lá vivia. Como ninguém estava autorizado a desembarcar para filmar ou entrevistar quem quer que fosse, tudo seria uma miragem bem montada ao estilo de estúdios de cinema. Aos poucos trabalhadores recrutados entre a mole de desempregados continentais foi prometido um chorudo complemento de trabalho ao final de um ano, caso mantivessem a boca fechada. Um ano era o que o empresário-dono-presidente cria ser mais que suficiente para atingir os seus fins.

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De imediato os continentais viram com aquela atitude de antagonismo a sua chance de intervirem de modo directo e de terminarem de vez com as veleidades independentistas daquele indivíduo. Como a ilha estava afecta em termos administrativos a uma autarquia local da margem sul do continente, foram dadas ordens para que, erguendo o PDM virtualmente trespassado que proibia a construção naquele local, (bem como para todos os efeitos, as construções mesmo que passíveis de serem erguidas, careciam indubitavelmente do correspondente licenciamento), enviar brigadas para arrasar aquelas barracas todas. Contrariando a lentidão costumeira dos actos administrativos do poder local, dois agentes camarários se apressaram a entregar uma primeira carta de intimação para o dono da propriedade ser ele próprio - e de modo auto-recreativo - a desmontar o que tão trespassadoramente montara. Mas a intimação não foi entregue por recusa, limitando-se os funcionários a fazer com ela um barquinho de papel esperançosos que a corrente o levasse até às praias da ilha onde alguém o recolhesse. Uns dias depois, voltam os funcionários acompanhados de um magistrado do tribunal de círculo e dois polícias uniformizados em tom e em jeito de ameaça com uma ordem de demolição imediata. Exigia-se a saída incondicional do empresário-dono bem como dos poucos trabalhadores, para que as equipas de demolição entrassem em acção. Estas aguardavam em instáveis barcaças projectadas para carregarem lodo retirado do fundo do rio, de modo algum preparadas para transportar homens e equipamento, a algumas dezenas de metros da costa/praia. Incrivelmente para o empresáriodono-presidente-quase-despejado, uma súbita alteração do estado do tempo provocou um mini temporal nas águas turvas do estuário, fazendo com que tudo que era barcaça tivesse que abandonar apressadamente o local sob risco de adornarem. “- Os deuses protegem-nos, isto é o sinal que o divino está com a minha causa! Tal como a Invencível Armada foi derrotada também eu tive o meu temporal enviado pelo Senhor. Tal como os japoneses tiveram o seu tsunami e se safaram do Genghis também eu me safei dos Ogres.” Bramava o empresário-dono em tom profético.

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“- Deixem esta turbulência passar e a poeira assentar que vai ver como elas lhe tocam. Há coisas que o dinheiro não compra. Agora é com gente cá da terra que ele se está a meter. Mas connosco não vai fazer farinha. A legalidade de destruir aquilo tudo é nossa e será isso que faremos. Homens! Não guardem os camartelos muito longe pois estes não terão tempo de arrefecer.” Retorquiam os vizinhos camarários, meio acicatados, meio comprados, pelo governo central. Para o governo continental tinha sido cereja em cima de bolo. Passar a bola para o lado camarário não só retirava protagonismo à reivindicação como igualmente poderiam desferir daquele modo um golpe mortal naquele infeliz e vê-lo, finalmente, pelas costas. Aproveitando estes circunstancialismos, o empresário-dono-ameaçado decide aproveitar o tempo que barcaças e homens decerto necessitariam para se recomporem, e entra com uma providência cautelar junto do tribunal administrativo da comarca correspondente para que as demolições fossem suspensas. Ganho tempo, decide empreender nova visita ao continente americano, desta feita à parte setentrional. Recebido friamente por alguns funcionários subalternos da administração, tem então um golpe de inspiração. “- Venho propor-vos um negócio que não podeis recusar*: vocês têm um problema e eu tenho outro. Como sabem, eu apenas desejo a independência para meu país tal e como a escritura de posse original me confere direito. Os senhores apoiam-me nessa pretensão e eu ajudo-vos a acabar com uma unha infectada. Receberei de imediato vinte presos que vocês albergam naquela base-prisão em troca do proposto!” Sugeriu ele à secretária de estado em tom que deixava passar um certo triunfalismo. Certo é que a jogada foi bem bolada. Os do norte estavam realmente desejosos de acabar com aquele pesadelo que tinha sido o de anunciarem alarvemente ao mundo que iam fechar as portas das celas e agora não sabiam como cumprir a promessa. _____________________________________ *

Não há dúvida alguma que esta expressão nascida de um diálogo de filme se transformou em algo de inegavelmente clássico.

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Poucos dos países que de início se mostraram interessados em receber alguns dos presos, mais por necessidade de se ajoelharem do que por motivos humanitários, tinham recuado nessa sua iniciativa aos terem conhecimento dos perfis dos ditos presidiários. E foi tal situação que realmente fez mudar definitivamente o curso da história, com um: “Vamos estudar a proposta atentamente.” Fizeram com que as forças do empresáriolutador se revigorassem. Com esta esperança debaixo do braço, o empresário-dono-novamente-ufano, regressa à sua ilha com muito boas e promissoras expectativas. Mas, como gato escaldado, decide fazer uma ligeira curvatura do círculo e passar por outra cidade antes de se enfiar na toca do rato. Mais vale mesmo dois pássaros na mão do que apenas um, cogitou ele. Bem, Sua Sumidade não o recebeu, mas enviou o seu secretário pessoal transmitir-lhe que apenas com reserva efectuada com antecedência de alguns meses poderia ser recebido pelo Sumo, mas que, sem embargo, sua reverendíssima senhoria receberia através das mãos do cardeal responsável pelos assuntos externos, as suas preocupações terrenas. “- É o que faz estabelecerem-se contactos de alto nível. Basta ser-se recebido por uma secretária de estado daquelas e é magia. Maravilha, de uma só viagem abato dois patos, quer dizer, duas águias. Reformulo: de uma só viagem, duas águias não me deixam abater que nem pato.” Foi um rejuvenescido empresário-dono-quase-presidente que regressou à ilha do Rato. Embora sem recepção de monta a recebê-lo, apenas dois de seus assessores legais e alguns restantes homens das obras que terminavam as casas-de-banho da residência-palácio e que sempre vinham mirar o iate imponente. No entanto, o sorriso que envergava no rosto não deixava desmentir o quão feliz se sentia. “- Foi uma viagem de sucesso! Em breve tudo será realidade tal como almejamos e merecemos. Isto não é uma mera promessa, é um discurso de tomada de posse antecipada!” Exclamou ele como se estivesse discursando perante uma plateia enorme.

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Como por artes mágicas, de facto, nem barcaças nem substitutos das barcaças, e muito menos homens se aproximaram das lodosas costas ratenses nas semanas seguintes que foram aproveitadas para terminar todas as obras principais e fazer um primeiro levantamento do terreno, quer da ilha quer das margens circundantes. Como era de esperar as chancelarias diplomáticas do mundo inteiro ficaram mudas de espanto. Ser-se recebido por um presidente de um país do Sul é uma coisa, ser-se por uma dama de tal calibre do Norte já é outra. O assunto da República do Rato, (atente-se na diferença de tratamento: anteriormente era apenas o tipo da ilha, o ilhéu ratense, o maníaco dos offshores), passou a ser tema de debate e de discussão a alto nível dos governos e dos areópagos internacionais. Nada podia ser mais agradável de ouvir e de ler nos órgãos oficiais dos governos, ou nos jornais tidos como de referência dos vários países, do que aquele conjuntinho de letras harmoniosamente aglutinadas. A coisa já começava a ter gosto a algo e isso era para ser saboreado em finos tragos. Agora eram os países outrora ausentes destas tramas com cheiro a terceiro-mundismo, os próprios a solicitar informações pormenorizadas acerca de tudo que dizia respeito à ilha da discórdia. Uma chuva de convites de chefes de estado, primeiros-ministros, ministros dos negócios estrangeiros, sheiks, tiranos e sicranos, começou a cair em cima do tampo da mesa de mogno que ficava na sala adaptada a escritório, lá no palácio. Sim, já podia começar a ser tratado assim, sua utilidade prática como casa para continental ver tinha terminado. Agora dar-se-ia início às funções de cariz diplomático e de lobbying, ambas sinónimas da mesma coisa como se sabe. Era urgente começar a constituir um esboço de elenco governativo mas não podia ser demasiado ostensivo, uma vez que ainda não se tinha atingido a meta proposta em definitivo, nem ter ao mesmo tempo um ar miserabilista. Consultados os calhamaços de História e de ciência política e administrativa, o empresário-dono-quase-presidente decidiu criar um corpo governativo ao mesmo tempo com mostras dadas anteriormente de viabilidade executiva e em simultâneo que fosse uma espécie de híbrido. Nem carne nem peixe, mas existente e sofrível. O triunvirato foi a solução encontrada. Três pessoas se encarregariam de constituir uma primeira mestra daquilo que posteriormente daria origem a um corpus governativo posterior - democrático, sem dúvida.

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O empresário, ele mesmo como era de esperar, ocuparia uma posição central neste xadrez, um segundo, seu enteado, jovem esperto nas andanças de conhecimentos em ambiente de jet-set internacional ocuparia outra, e um terceiro, administrador de uma das suas empresas e pessoa considerada de alto gabarito quer em questões de índole profissional quer em honestidade, ocuparia a última. Dado este nó górdio ao laço da gravata dos continentais, bastava agora esperar pela decisão final dos do Norte. Algo que não apenas os ratenses aguardavam com impaciente expectativa, como igualmente, a esta data, uma parte considerável do mundo. Resta acrescentar que os três primi-dirigentes (isso era apenas capa de aparência, quem decidia de facto acerca de fosse o que fosse era o empresário, punto), foram os primeiros habitantes oficiais, - e custa definir isto em termos lógicos e congruentes -, da Quase-República do Rato. Claro que os representantes desta quase nação não poderiam ser apátridas, de modo algum. Embora a situação raiasse o caricato, pois nem passaporte podiam apresentar com excepção daquele emitido por seus próprios países de origem, arranjaram maneira de comprar um programa informático, uma impressora a laser e uma guilhotina para desenharem, imprimirem e cortarem os seus três bilhetes de identidade e seus passaportes ratenses. Algo tosco e muito amador feito durante uma noite de vigília em frente do rádio alimentado a gerador, - como tudo o resto na ilha -, esperando por novidades de qual a decisão tomada acerca dos presos passíveis de transitarem de uma ilha para outra. Com o passar dos dias e das semanas começou a transparecer algum desalento e a impaciência tirou lugar à convicção. Nada transpirava para fora dos círculos oficiais ou oficiosos. Silêncio total. Foi a altura dos continentais, já um pouco apartados quase se diria, de todo este processo negocial, entrarem de novo em força com suas exigências. A providência cautelar foi considerada sem base legal para ser mantida e já um batalhão de magistrados, de oficiais de justiça, polícias, autarcas e pessoal operário com seu material de derrubar se dirigiam aos cais de embarque para tomarem lugar, agora numas embarcações de desembarque de tropas anfíbias, para se dirigirem ao mesmo tempo irados e comovidos às praias dos ratos, quando, subitamente…

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“- Interrompemos a transmissão para anunciar que segundo o canal de televisão NNC a administração do Norte decidiu, com o apoio do Congresso e dos Representantes, aceitar a proposta de envio de vinte prisioneiros para a Ilha do Rato e, concomitantemente, aprovar a pretensão deste território à sua autodeterminação. Segundo a mesma fonte, já terão sido enviados convites ao empresário-dono-quase-quase-triumvirático-presidente, para se apresentar na nortenha cidade-capital de modo a se estabelecerem as bases concretas e pormenorizadas acerca deste duplo e histórico acordo.” Tristes e visivelmente abatidos, toda a trupe de gente vestida de magistral negro, de indigo dos fatos-macaco e de azul-sarja dos uniformes, gingou de volta a casa, enquanto um eufórico - sim senhor! finalmente Presidente -, da República do Rato, inchava que nem sapo australiano. Não devem restar dúvidas de que os continentais espumavam de raiva, pelo menos aqueles que não concordavam de maneira nenhuma com aquela palermice toda e, principalmente, os que tinham tido uma atitude frontal, enérgica e activa na tentativa de bloqueio e de proscrição do empresário-dono, agora de uma parcela do ex-território nacional. A assembleia reuniu-se em plenário de emergência, o governo solicitou audiência naquela mesma noite ao presidente da república continental para transmitir seu pesar e saber o que o representante mais alto da nação e ao mesmo tempo chefe do estado-maior das forças armadas, decidiria fazer perante tal enormidade. Não muito surpreendentemente, este anunciou que iria demitir o governo em peso, dissolver a assembleia e marcar novas eleições legislativas. E que assim que o governo de transição ou de gestão estivesse em funções, apresentaria ele próprio a sua demissão. Pactuar com tal abjecção era algo que lhe era dolorosamente insuportável. “- Esses filhos da mãe, que não têm outro nome, esses polícias do mundo que afinal apenas pensam em seus umbigos, esses violadores das normas e pactos internacionais, esses… então isto é o da Joana? Nem nos consultam tampouco! Irei pessoalmente falar com o presidente da Comissão da União para lhe transmitir não só o desagrado do povo desta nobre nação como igualmente pressionar os nossos aliados no sentido de tal obscenidade ser revogada.

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Até ameaçarei com a saída do nosso país de tudo que seja organização internacional caso não seja escutado! Orgulhosamente sós é o que terá que ser se for essa a decisão de Deus.” Também o governo através do primeiro-ministro quase demitido fez eco da voz de desagrado do presidente. “- Senhor presidente da república, transmito-lhe todo o pesar, em nome dos membros do governo, perante aquilo que consideramos uma ofensa nunca antes feita a nossa nação. Nem mesmo no tempo em que desenvolvemos aquela impopular guerra extra continental nos fizeram um desassombro deste tamanho. Receba o apoio incondicional de nossa parte a qualquer acção que decida promover, incluindo desde já a ideia de enviar para casa todos os do Norte que temos naquela base aérea alugada. De igual forma sugerimos que se proceda a uma reunião com todos os dirigentes da oposição, de modo a se tomar uma resolução conjunta no que concerne a futuras medidas a tomar.” A população dividida como já se viu, inclinava-se agora um pouco mais para o sentimento e via-se até pessoas com as lágrimas nos olhos pelas ruas, tristes e pesarosas. A comunicação social também fazia a seu jeito as coisas, lançando anátemas sobre os vergonhosos contraditores da História. E sim, eles, os nortenhos, é que eram sociais colonizadores e neo-imperialistas! Exigia-se não apenas a base de volta como igualmente o corte de relações diplomáticas, a expulsão do continente de todos os adidos e pessoal que de alguma forma transpirasse americanice setentrional pelas ventas. Bandeiras queimadas do setentrião viam-se largando labaredas vermelho-azuladas pelas ruas da baixa, mais fazendo parecer uma sublevação qualquer de guerra das pedras, algures lá prás palestinas, do que a principal praça de uma europeia cidade-capital. Reunidos todos os líderes partidários em conjunto com o presidente e os seus chefes de casa civil e militar para estudarem a situação e o melhor modo de a resolver, ou enfrentá-la com o mínimo de brio pelo menos, eis que da parte de um dirigente da oposição surge, tímida mas resoluta, uma diferente interpretação da origem da situação que lograra atingir este ponto tão sensível.

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“- Meus senhores, o meu partido acha que se deu demasiada importância a este episódio, deveras sensível e angustiante para todos nós, mas igualmente despojado de tal importância e que apenas lhe foi atribuída por um mau desenrolar de vários tipos de acções e atitudes. Primeiramente, deixem-me referir o quanto será mau para o país um confrontamento directo com a nação mais poderosa da terra e o que isso nos pode custar a todos os níveis. Seguidamente, crê o meu partido que se deve desvalorizar a importância daquele pedaço de terra imunda que não serviu para nada até agora em termos práticos, mas que até poderá ter alguma serventia útil, incluindo nossa, bem entendido. Basta saber rodear a questão e saber tirar lucros de onde se possa achar que só haverá prejuízos. Em terceiro lugar, se formos devidamente espertos, e creio ser atributo à generalidade desta sala, lembrem-se os senhores que aquela ilha-país ou seja lá o que for que saia dali, vai ficar à nossa inteirinha mercê no que diz respeito à sua subsistência.” Aqui houve um arredondar de olhos acompanhado de algum murmúrio por parte dos conferencistas. “- Sim, penso que não se haviam lembrado dessa. Não é minha opção recolher qualquer tipo de dividendos políticos com tal argumento prenhe de realidade feita vingança, meus senhores. Atente-se ao facto de eles que lá venham a morar, não mais do que uma centena de indivíduos com risco da ilha afundar (eh, eh), ficarem dependentes na totalidade da boa colaboração, ou seja, de nossa esmola, em termos de água potável, electricidade, comida e de acessos à ilha-montão-de-terra. Não esqueçam que é uma ilha minúscula rodeada de antipatia, para não dizer pior. Como vão eles se governar sem nossa ajuda? Atirar as mercadorias e os bens pela janela do avião? Como, se até o espaço aéreo será nosso a toda a volta? Reflictam bem em minhas palavras que são as do meu partido em todo seu esplendor. Senhor presidente, posto isto é nossa sugestão que o senhor anuncie ao país a adopção de novas medidas para com esta problemática tristemente instalada no seio de nossa grande nação, que não se tomem nenhumas acções contra os do Norte, que se aparente uma atitude conciliatória para com os tipos do Rato e, para terminar, que se leia nas entrelinhas tudo aquilo que acabei de proferir. Bem hajam meus senhores.”

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Todos os participantes foram apanhados de surpresa. O chefe do governo era o que aparentava maior estupor, uma vez que esta deveria ter sido indubitavelmente uma sugestão por ele apresentada. “- Onde está o meu assessor de política externa, ou interna ou lá o que raios se aplica a este paso doble de política de recreio de escola? Tragam-me também ministros junto com ele. Mas que chatice, já não me chegava os problemas correntes, as escutas, as dúvidas instaladas na alma do público através das notícias falsas dos jornais e televisões e a porcaria da crise para vir mais esta bosta encher-me o juízo. Para que me serve ter uma corte de gente à minha volta se tenho que ser eu a lembrar e a tratar de tudo ao mesmo tempo. Ainda pensei que estava por momentos jogando uma cartada de mestre. Ao colar-me ao presidente fazia passar a ideia de que estava solidário com ele e que a dissolução da assembleia ao invés de me fazer perder votos me daria até alguns nas antecipadas. Chiça! Que argolada. Ainda por cima aquele gajo, daquele partido logo. Tem mesmo que ser, convencer o presidente a dar o dito por não dito e tentar ganhar terreno. Pessoal, demora muito é?” Enquanto estas afadigadas e conspirativas reuniões iam tendo lugar, o empresáriodono-presidente, arrumava as cuecas no fundo de sua mala de viagem para se dirigir à cidadecapital-setentrional resolver de uma vez por todas tudo o que ainda estava pendente, por um fio. O facto de se ir encontrar com o homem mais importante do planeta era só por si motivo de orgulho. À vinda, pensava ele em voz alta, nada será como antes, e terei ganho não apenas uma aposta como igualmente um nome e um status mundial. “Mereces dar um prémio a ti mesmo, vai comemorar.” Foram dadas ordens aos restantes dois membros do triunvirato - o que os converte implicitamente em duovirato - para que se começasse imediatamente a proceder no sentido da contratação de todo o tipo de pessoal necessário ao arranque do projecto, o qual já tinha originado custos elevadíssimos causados por este diferendo. “- Que as casas cartonadas comecem a dar lugar a bungalows; que se arranquem mais salgadeiras para criar espaço livre. (Atenção, por precaução acima de tudo e também para agradar às organizações ambientalistas, deve-se deixar a zona sul do areal com plantações

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das ditas. Vejam se alguns ratos também lá ficam, até já ganhei afeição aos bichinhos e nunca se sabe se poderão servir para algo mais do que andarem ali a escarafunchar no meio dos detritos). Preparem umas tendas de campanha daquelas dos beduínos para providenciar alojamento provisório para a caterva de tipos que vou trazer comigo; contratem gente sem trabalho na zona sul que se encarregarão de ir buscar provisões aos supermercados lá perto. Comprem de tudo pois temos que arrancar da melhor forma. Merecemos depois deste desgaste todo e temos igualmente que saborear a vitória alcançada. Arranjem igualmente maneira de começar a revolver aquele lodo mais podre e mais perto do areal e vejam se há maneira, com esse expediente, de ganhar mais alguns metros de solo firme. Não olhem a despesas, meus cheques assinados estão em cima da mesinha de cabeceira.” Escreveu em e-mail enviado a seus dois co-dirigentes.

Um pequeno parêntesis agora para poder explicar um pouco qual era o aspecto da ilha quando a conheci e também transmitir um pouco de sua orografia e de sua fauna e flora tão particulares. Quando cheguei à ilha, transportado por uma pequena lancha a motor alugada pelo governo ratense a um pescador reformado local para esse efeito - transportar pessoas com autorização para se deslocarem para a ilha - o que encontrei foi um país pequeníssimo, coisa que saltava à vista a centenas de metros de distância; e bem esquisito de aspecto. Não durou mais que cinco minutos de uma praia à outra, pois a maré estava cheia. Todos os horários eram em função das marés ou em opção, tinha que se calçar umas galochas e fazer metade do percurso a pé. Algo que para lá de ser desagradável era igualmente perigoso. Naquela zona do estuário e dito por quem sabia do assunto, eram frequentes os olheiros, espécie de buraco constituído por lamas instáveis que se tornavam uma espécie de areia movediça que sugavam uma pessoa num ápice. Estes olheiros podiam ter uma profundidade de poucos centímetros ou a profundidade superior ao tamanho médio de um homem. Coisa deveras estranha era que parecia que se movimentavam a seu bel-prazer nunca sendo possível identificar realmente onde se encontravam. Isto constituía como uma barreira natural de aproximação às costas da

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ilha do rato e o suficiente para demover o habitante local, habituado às armadilhas do mar e das marés, a lá ir. Por isso era muito raro encontrar alguém que conhecesse de facto aquele monte de terra erguido do fundo do rio e que não teria uma altitude superior a quatro metros acima da linha do mar, no seu ponto mais elevado. Os olheiros como disse, eram o pior inimigo dos apanhadores de moluscos gastrópodes e de anelídeos tais como a minhoca que serviam de isco para a pesca à linha. Foime dito que vários já tinham morrido ao longo dos anos dessa forma tão soez e traiçoeira, mas que no entanto os obrigava a arriscar de modo a manterem algum tipo de actividade recolectora de subsistência. Até um antigo e famoso jogador de futebol por aqueles lados tinha andado dobrado, após desgraçadamente ter desbaratado todo e qualquer recurso amealhado. Mas o pior mesmo, disse-me o barqueiro, eram as enormes ratas que lá viviam. Enormes pois não tinham aparentemente nenhum predador natural e também porque se tinham adaptado a comer de tudo um pouco que o rio ou as pessoas se encarregavam de lhes dar, de maneira mais ou menos involuntária. Deste modo tinham constituído uma farta comunidade naquela ilha abandonada onde nunca ninguém metia o pé. Sabendo-se da capacidade reprodutiva das bichas basta imaginar o seu número ao final de algumas gerações. Eu pensei que deveria haver milhões, bastava fazer simples cálculos de cabeça. No entanto o homem da barca disse-me que por qualquer motivo que ele não sabia nem ninguém conseguia explicar, a população mantinha-se mais ou menos estável todos os anos, como se qualquer mecanismo biológico servisse de estabilizador da população, evitando um transbordo tal que decerto levaria à extinção da espécie. Chegado à praia norte, pois a do sul era zona mais pantanosa e cheia de salgadeiras a toda a volta como se de um muro defensivo se tratasse, encontrei um chão de areia de praia batida, limpo de lodo e com uma espécie de rampa ligeira onde subiam pessoas e igualmente podiam descer pequenas embarcações. Quase todo o espaço limpo, ou livre, da ilha estava coberto de grandes tendas daquelas que se veem na televisão, tipo cruz-vermelha, e que dão abrigo aos desalojados produzidos pelas guerras ou às vítimas de grandes catástrofes naturais. Fiquei um pouco admirado pois pensei ir encontrar qualquer tipo de construções em alvenaria, ou em madeira pelo menos. Só depois me inteirei de que a “operação construção” estava a começar.

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Todos os abrigos eram provisórios excepto aquela grande casa ao fundo do que se poderia chamar rua e que tinha todo o aspecto de vivenda construída por pato-bravo a mando de emigrante, ou de novo-rico sem consciência arquitectónica, como se prefira. Todo o ambiente envolvente me transmitiu um certo ar de estaleiro de obras mal organizado. Embora não houvesse detritos espalhados em abundância, nada daquilo era a imagem que eu tinha de uma ilha feita para captar largas somas de capitais estrangeiros. Fiquei na dúvida se tinha feito uma boa escolha em me ter vindo meter ali. Ainda por cima sozinho, nem um único companheiro de viagem para poder partilhar esta angústia e sobressalto. Fui no entanto muito bem recebido por um indivíduo que já se tinha aproximado do cais/rampa que me apertou a mão, me deu as boas vindas, me pediu a carta-convite e me guiou até uma das tendas. “- O senhor sabe para o que vem? - Sim, fui seleccionado para trabalhar em regime de contrato a termo como jardineiro, após ter passado as provas psicotécnicas de selecção realizadas numa das vossas unidades móveis perto de minha casa.” A resposta deixou-o convencido. “- Bem, vou levá-lo à sua tenda onde permanecerá em regime provisório até os bungalows para quatro pessoas estarem disponíveis para serem ocupados. Lamento o inconveniente, mas decerto perceberá que estamos em pleno processo de arranque e que um país não se faz de um dia para o outro. Escolha uma das camas de campanha livres, deixe seus pertences ao lado (não se preocupe que aqui ninguém rouba ninguém), e acompanhe-me à secretaria dos assuntos internos para tratarmos de sua documentação pessoal.” Eu fiz o que ele me mandou, escolhi uma cama ao fundo da coxia com o corredor central, no meio de umas outras vinte pelo menos, poisei meus dois sacos com meus poucos pertences (já tinha sido avisado através da carta-convite que não deveria transportar comigo mais do que vinte quilos de bagagem), e acompanhei-o à dita secretaria que se localizava no interior da casa mosaico-apalacetada.

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No que eu vim a saber por meu guia, ser o palácio de governo – Palácio do Rato, saberia mais tarde – o ambiente era fervilhante. Pelo menos uma dúzia de homens andavam numa lufa-lufa de um lado para o outro, carregando camas, beliches, colchões, transportando sacos de plástico com comida escada acima escada abaixo, atendendo telemóveis, escrevendo assustadoramente rápido em seus computadores portáteis, enfim, parecia uma cena de antologia esperando por um qualquer desfecho que se produziria dali a algum momento. À minha pergunta do que se estava passando, o indivíduo mudou bruscamente de tom e de ar convertendo-se de um momento para o outro de pessoa agradável em pessoa ríspida. “- Primeira lição que você vai receber, não esquecer e obedecer, caso queira continuar a viver e a trabalhar aqui futuramente: nunca pergunte nada a ninguém do que se passa no interior deste palácio. Você só está aqui hoje porque tem que obter sua identificação e porque está tudo ainda em fase de consolidação. Futuramente se você precisar de aqui vir, ficará retido na portaria onde se identificará e explicará ao funcionário respectivo o que pretende. Lembre-se, aqueles degraus de entrada que acabou de flanquear são uma espécie de fronteira que não mais passará.” Não gostei nem da resposta e muito menos do tom em que a mesma foi dita. Tive que conter um súbito estremecimento de meu corpo para não responder à letra. Afinal quem era aquele indivíduo e que instrumento tocava ele naquela orquestra de tão duvidoso aspecto. Controlei-me dizendo para mim que a solução alternativa era bem pior que aquela. Ou seja, não havia solução alternativa. Numa secretária em ponto pequeno no meio de toda aquela tralha, encontrava-se um outro indivíduo quase gémeo daquele que me acompanhava. As roupas eram semelhantes, fatos escuros de camisa cinzenta às riscas, com gravata, e até o semblante e o corte de cabelo eram quase idênticos. Bem, achei que deveria ser algum sinal identificativo, alguma espécie de código por uniforme que eu com o tempo iria entender. Continuando, mostrei de novo minha carta-convite, minha identificação continental, entreguei as duas fotos que me haviam sido solicitadas na dita carta, a certidão de cadastro criminal, o certificado de vacinação com a apostila da anti-tetânica recentemente tomada, como também exigido atempadamente, e aguardei. Fui mirado de alto a baixo e senti-me

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pobremente vestido perante aqueles tipos tão bem uniformizados para o tipo de trabalho que estavam efectuando. Meus jeans e camisa chocaram de frente com aquele ar snob e roupinha de meninos executivos recém-promovidos. Cortou-me as fotos à medida, colou uma numa espécie de cartão antigo de sócio de clube de vídeo, mandou-me assinar o cartão e uma folha à parte onde colou a outra foto e que ficou com ele, - para o cadastro central -, afirmou, e com o cartão já na minha mão disse-me: “- Esta é sua identificação provisória até nossos arquivos estarem devidamente automatizados e termos à disposição máquinas de feitura de cartões com banda magnética. Tudo a seu tempo. Lembre-se que terá que manter em boas condições esse cartão que a toda e qualquer altura lhe poderá ser exigido de apresentar, e que terá que se fazer acompanhar com ele para todo o lugar para onde vá no interior da ilha. Repito: todo e qualquer.” Nova instrução dita em tom de ameaça em poucos minutos. Passou-me levemente pela cabeça a imagem difusa de eu, ossudo, num campo de concentração, e as caras daqueles tipos como anafados guardas SS. “- Tem também aqui esta credencial que é uma das duas autorizações de residência que damos a todos os que vêm para aqui viver e trabalhar. Só existem duas. Esta, que é uma autorização de residência temporária, válida até cinco anos no máximo, e uma outra que todos esperamos que venha a conhecer, que é a autorização de residência definitiva, com uma validade de dez anos. Seguidamente a este total de quinze anos será atribuída a nacionalidade, mas ainda é um pouco cedo para se falar nisso. Recordo-lhe igualmente que a qualquer momento pode perder qualquer uma das duas e ser compulsivamente expulso caso cometa algo passível dessa decisão. Boa sorte e bom trabalho.” Segui maquinalmente o primeiro indivíduo como se fosse a toque de caixa, de novo até à tenda de campanha. “- Está vendo aquela tenda ali de encerado vermelho? Lá dentro tem tudo que é ferramenta, pás, ancinhos, enxadas e tudo o resto. Amanhã mesmo começará a trabalhar. Oito horas em

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ponto. Ah, não se esqueça que por decisão do presidente do triunvirato, o fuso horário de nossa ilha indica uma hora mais tarde em relação ao continente, faça favor de acertar o seu relógio então. Mais uma coisa. Tenho duas notícias para lhe dar: uma boa e outra menos boa. Começo pela menos boa. Contrariamente ao inicialmente previsto, em que se pensava contratar dois jardineiros, apenas o contratamos a si, por isso saiba desde já que terá a seu cargo todo o trabalho de ajardinamento de nossa ilha. Já lhe devem ter dito isso na entrevista a que foi, mas eu digo de novo. Entende-se por ajardinamento não apenas o que tem a ver com relva, plantas e árvores, sua plantação e manutenção, mas igualmente trabalhos de consolidação da faixa costeira bem como remoção de lodos e lamas. A boa é que seu salário será de 3.000 mensais pagos através de depósito bancário no banco central onde deverá abrir conta logo que o sistema bancário esteja a funcionar. Alguma pergunta?” Eu tinha um monte de perguntas a fazer realmente, mas duvidei que fossem todas elas bem recebidas de uma só vez por aquele autómato tão bem instruído de suas funções quanto breve e conciso em suas orientações. “- Sim, por favor, diga-me como será com as refeições e com as instalações sanitárias.” Perguntei após ter medido mentalmente as palavras a proferir. “- Outro indivíduo virá ter consigo para o ambientar e explicar as normas de actuação e localização das instalações. Bom trabalho e não se esqueça que é um dos felizes seleccionados a ter o privilégio de poder viver nesta ilha. Todas as atitudes de iniciativa própria serão de louvar, não se esqueça que não terá ninguém a supervisionar seu trabalho directamente, no entanto, muitos olhos o vigiarão atentamente, mesmo que não os veja a olhar para si. O respeito pelas normas emanadas será uma condição sempre exigida e as insubordinações não serão toleradas, sejam de que tipo ou de que grau forem.” Posto isto, o tipo vira-me as costas e eu entro na tenda de modo a organizar meus pertences e tomar contacto com aquilo que ia ser minha vida nos próximos tempos. Isto se eu conseguisse suportar tal regime militarizado. Fez-me sentir como emigrante e no fundo era

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isso que eu era, estava num outro país para todos os efeitos, embora a cinco minutos do meu antigo e onde se falava a mesma língua. Estava eu a preparar-me para entrar na tenda quando tomo contacto com o primeiro dos verdadeiros e primordiais habitantes da ilha. Vejo um ratão sair correndo de lá de dentro e minha primeira reacção, assustado, foi dar um cómico e trôpego pulo para o ar. “- Não tenha medo, os gajos andam aí por todo o lado, andam mais curiosos do que assanhados. Deixe-os afocinhar que eles depois de matarem a curiosidade seguem a vida deles.” Era o outro funcionário que, rindo de minha reacção, me aconselhava tal comportamento. “- Pois é, até pode ser que sim, mas eu não gosto lá muito destes bichos, ainda por cima deste tamanho, aquilo parecia mais uma cauda do que um rabo, viu?” Respondi eu com visível temor espelhado no rosto. “- Então deveria ter pensado nisso antes de vir para cá, esqueceu-se que a ilha se chama do rato? Mas eu também nos primeiros dias me senti assustado, mas acabei por perceber que os malandros apenas estão tentando entender que andamos nós cá a fazer, acho que nem nunca tinham visto gente. Na outra noite acordei com um à volta da minha orelha me cheirando ou lá o que era, mas dei-lhe uma palmada com a mão e ele foi embora.” Que raio, já as coisas começavam a mudar de feição. Tipos automatizados repetindo sua linguagem sem emoção ainda topo, mas ratazanaria a cheirar-me as orelhas… “- Venha comigo. Já sei que é o jardineiro, eu sou o serralheiro, embora também seja à vez soldador, e tudo o que tenha a ver com ferro. Vou ter dois ajudantes que devem chegar esta tarde ainda. Vou mostrar-lhe o que sei e o que vi, aqui faz-se assim, os mais antigos, nem que sejam por um simples dia de diferença, mostram as coisas aos mais novos. Disseram-me os

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gravatinhas que era assim. Bom, como queiram. Eu quero é mesmo ver ao final do mês os meus quatro mil e o resto é cantiga” Afirmou o multifacetado serralheiro-soldador com a convicção própria de quem já tem dinheiro obesamente atafulhando a carteira. “- Mas olhe que parece que não vai ser bem cantiga, eles não lhe disseram que tudo vai ser vigiado e que tem que andar sempre identificado e tudo isso?” Retorqui procurando desse modo sub-reptício tentar receber mais como resposta do que verdadeiramente atribuir como pergunta. “- Sim, sim, mas isso é mesmo conversa de patrão, sempre gostam de nos dar essas ensaboadelas no primeiro dia, mas depois as coisas entram nos eixos, pois nós é que sabemos mesmo fazer as coisas, eles só sabem dar ordens e muitas das vezes nem isso sabem dar.” Imaginei que não iria ser bem assim, mas também não estive para criar mau clima logo de início nem tão pouco fazer nascer duvidosas questões em meu colega cidadão, trabalhador, emigrante, fosse o que fosse. “- Vou-lhe mostrar as casotas do cocó e os chuveiros, ah, ah.” Pelo caminho havia gente capinando e arrancando arbustos a toda a volta, disse-me o serralheiro/soldador que eram continentais contratados eventuais, somente para executarem trabalhos básicos. “- São tipos que eles contrataram para fazer o trabalho sujo, até já conheci um que tinha cá vindo com a polícia para deitarem tudo abaixo, veja bem as voltas que as coisas dão, agora está ajudando aqueles que ia prejudicar. Ai esta vida... Têm que arrancar as salgadeiras e destruir as tocas dos ratos, só deixam ficar isso lá na praia sul, disseram. Acho que é por isso

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que os ratos estão vindo meter o nariz nas nossas coisas, se lhes estão tapando os buracos eles não têm para onde ir. Bem, ali estão os módulos sanitários de pvc. Cada vez que se utilizar tem que se deixar em condições do próximo parceiro poder usar. Até nem estão nada mal, já vi bem pior em muita obra e paragens industriais onde trabalhei. Uma certa vez tive que fazer as necessidades ao ar livre, pelos cantos como se fosse um animal, nem mesmo um barraco de madeira havia. Quero mesmo saber é quem vai carregar os dejectos depois. Bem, alguém será. Ali, temos os chuveiros naquele barracão de madeira. Como pode ver ainda nem água quente tem, e a fria que há é racionada pois é de depósito. Ao fundo, na outra casa, de madeira também, são os lavatórios. Tem tanques de cimento nas traseiras para lavar roupa. Ainda bem que aqui não há mulheres para a gente se mostrar, vamos andar bem porcos.” Só então compreendi que nem água potável canalizada havia, nem gás, nem electricidade de companhia, nem nada. “- Diga-me uma coisa. Sabe como vai ser para ir a terra, bem, para sair da ilha? Perguntei eu desta feita mais para procurar escutar algo de bom ao invés de continuar a receber aquele tipo de informações deveras constrangedoras. “- Não sei e parece que ninguém sabe. Só os eventuais regressam todos os dias a casa e voltam. Nós deveremos ficar aqui por muito tempo. Já viu que nem embarcações existem para esse efeito. Isto aqui vai ser um pouco como um internato forçado. Uma vez trabalhei no deserto durante nove meses e foi assim. Só ao final da temporada se ia à cidade ou se voltava para casa. Eu por mim… ao final de um anito ou dois, no máximo, não penso estar aqui, por isso.” Respondeu meu colega emigrado com ar de resignação e com uma expressão facial demonstradora de outras situações que, embora pouco agradáveis, lhe teriam sido de proveito monetário.

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“- Então você vai ficar aqui esse tempo todo fechado sem sair para lado algum?” Respondi, como se estivesse falando para mim próprio e não para o parceiro interlocutor. “- Pense naquilo que vai poupar. Sem ir a terra não gastará o dinheiro que ganha em porcarias nas tabernas e nas mulheres. Assim quando sair daqui vai tê-lo todo contadinho para usar onde quiser. Isto é vida de emigrante meu amigo, tem que ser assim mesmo.” Emigrante aqui a dois passos de casa. Outra imagem de negativismo em minha mente formada em curtos instantes. Eu nem havia pensado nem sopesado estas possibilidades. Ficar aqui todo este tempo sem ir a terra, ver esta gente apenas durante meses e meses, vai parecer que estarei numa plataforma petrolífera. E aqui não haverá sindicatos nem comissões de trabalhadores para defender os direitos da parte mais fraca da relação. Vai ser do jeito que os tipos queiram. O que a necessidade obriga. “- Hei, você já viu algum dos”guantas?” Perguntou-me o serralheiro com um ar de mistério e de desafio ao mesmo tempo. “- Guantas? Que é isso?” Desta vez era real minha dúvida. Soava-me a algo em castelhano. “- Não é isso, são esses. São os vinte tipos que o dono da ilha trouxe lá da outra ilha em que estavam presos. Veja bem, saltam de uma ilha para outra. Bem pelo menos aqui estão livres, que é como quem diz, sempre podem andar à solta. Parece que onde estavam passavam o dia todo com grilhetas em celas e que quando saíam era só para o passeio matinal no pátio da prisão. Eu só vi ainda um de relance, são escuros. Consta que estão a ser preparados para serem os polícias da ilha ou lá o que é. Melhor evitar os tipos, bom, no fundo como se evita a polícia lá no continente.

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Aquela tenda grande com as mesas de madeira corrediças é o que eles chamam refeitório. A comida é toda comprada em supermercado e entregue em sacos de plástico, se não aproveitou para comer um bom cozido, melhor esquecer o sabor do dito. Ao lado tem os contentores do lixo. São levados depois para aquela ponta sul e descarregados num buraco aberto na areia onde queimam o lixo todas as noites. Faz uma fumaceira desgraçada. Ainda bem que o vento está sempre de norte e leva a javardice na direcção do continente. Tem que ser assim, caso contrário a ilha ficava impossível de habitar em curto espaço de tempo. Já para não falar que se o lixo não fosse queimado imagine em que barrigas ele acabaria.” A imagem de ratazanas se alimentando dos nossos desperdícios revolteou-me o restante do café da manhã que ainda permanecia em meu estômago. Tive que inventar algo reconfortador em minha mente apenas para esquecer essa imagem repulsiva. “- E aquelas casas que estão a construir lá na ponta norte para que vão servir?” Indaguei eu agora surpreso pelo esmero de construção das casas que eu avistava ao longe, tão diferentes daquelas que nos esperavam a nós, os indiferenciados. “- Ah, aquelas vão ser as casas para os tipos que vão trabalhar no banco. São chalés individuais, “germinadas” como se diz. Não dá pra ver logo pelo tipo de construção que vão ser para os da massa? As da costa oeste ficarão para o pessoal inferior, ou seja nós. Estão a fazer daquele tipo de casas de parque-de-campismo. Parece que vamos ser lá instalados. Na ponta leste vão construir a marina e um heliporto. No sul, como já lhe disse, vão ser os aterros e parece que o zoológico, eh, eh. Estes tipos não batem bem da cachola. Mas têm pasta, pilim, cacau, eh, eh. Bom, tenho trabalho para fazer. Até logo na tenda.”

Passados poucos dias regressa o empresário-dono-presidente - a partir de agora apenas Presidente - cheio de satisfação e de emoção incontida. Tudo se tinha passado da melhor das

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formas. Recebido pelo presidente setentrional e restante staff, suas pretensões à independência tinham sido plenamente escutadas e recebidas como justas. Desde logo tinham sido assinados diplomas nesse sentido, a serem despachados num curto espaço de tempo pelo presidente que depois enviaria ao congresso para serem ratificados. Concomitantemente tinha sido criada uma comissão de acompanhamento da autodeterminação da República Insular do Rato (Island Republic of Rat, em inglês), cuja missão seria apresentar perante as nações unidas o reconhecimento formal daquele que passaria a ser o mais novo membro da organização. De igual modo essa comissão faria chegar a todas as chancelarias dos países amigos a recomendação de todos eles procederem favoravelmente aquando da votação no plenáriogeral para esse efeito a ser reunido. Também ficou a promessa de que essa comissão enviaria um alto representante ao país continental de modo a acalmar os desânimos que porventura pudessem ocorrer com aquele reconhecimento por parte do país do Norte, de modo a que fosse reconhecida a independência do território do rato de forma multilateral. Os vinte prisioneiros de guerra prometidos como contrapartida por parte dos ratenses seriam enviados em levas de cinco de cada vez, que, aterrando em aeroporto militar sito em território de país aliado, seriam depois levados via terra ou mar até à ilha. Algo para ocorrer no mais breve espaço de tempo, logo a independência fosse formalmente reconhecida. Na bagagem de volta, para lá de trazer umas bandeirolas de associações do tipo de “Azores, independence now!” oferecidas por velhos combatentes pró-liberdade, algumas camisetas de basquetebol oferecidas por equipas pertencentes a várias universidades, o presidente trouxe igualmente tendas e equipamentos militares. É de crer, pelo menos transpirou algo nesse sentido, que algum tipo de acordo ou protocolo de âmbito mais secreto tenha igualmente sido assinado, mas ficou tudo no mudo terreno do especulativo. Havia quem afirmasse que não eram apenas presos que viriam povoar a ilha, mas igualmente outro tipo de indesejáveis que a administração setentrional queria de uma vez por todas meter a andar para fora do seu país. “- Eis-me de volta triunfantemente tal como eu vaticinei. De ora em diante somos todos ratenses!”

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Exclamou o presidente orgulhosamente à meia-dúzia de colaboradores e seus dois viratos que o aguardavam no areal da costa norte, naquela manhã quente e luminosa de chegada à ilha do rato. “- Vamos ter muito trabalho daqui para a frente, mas será bem recompensado vos garanto. Ponham-me a par de tudo o que ocorreu na minha ausência.” Convém contar que as coisas no continente, após a célebre reunião de altos dirigentes da nação e dos partidos da oposição, tinham acalmado consideravelmente. O presidente da república tinha sido pressionado para ver o pequeno lado bom das coisas e para proceder a nova comunicação ao país no sentido de, com diplomacia e tacto, não deixar transparecer que estava renunciando ao que prometera anteriormente, mas que de igual forma tranquilizasse a população continental do que se seguiria pós-reconhecimento da independência da ilha das emoções fortes. “- Continentalas e continentais, dirijo-me de novo à nação para vos transmitir que, após terme reunido com o governo, com altos quadros políticos e conselheiros de estado, com as forças armadas e com representantes eclesiásticos, com os dirigentes dos partidos da oposição e com representantes do poder civil, sindicatos e organizações patronais, decido proceder ao reconhecimento da Ilha do Rato logo que tal proposta seja enviada pelo parlamento ao palácio governamental para ratificação. Quero igualmente tranquilizar todos vós de que ajo em conformidade com toda a legalidade e de acordo com os princípios da constituição de nosso país. O diploma de reconhecimento da independência desse território não será, pois, levado ante o tribunal constitucional, pois como titular do mais alto cargo da magistratura da nação, não vejo tal necessidade e confirmo sua plena integridade.” Foi uma nação estupefacta e incrédula que acordou na manhã seguinte. “- Mas vamos mesmo dar a ilha àquele tipo? Isto é sempre a mesma podridão! Logo vi que com os setentrionais a reconhecerem a independência os nossos iam-se borrar todos de medo.

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- Sim, então e o Sumo que também estava a mexer os cordelinhos. Achas que os nossos iam fazer contrariar tal bula, eram todos excomungados na hora. - Pois é pá, estávamos mesmo a ficar sós. Mais vale engolir o orgulho, talvez eles lá naquela ilha consigam dar um empurrãozinho às coisas aqui no país, senão, pelo caminho que as coisas levam, ainda temos é que abdicar da independência do nosso território todo. - Bem, já há quem fale até numa união com nosso vizinho do lado, acho que tudo é passível de ser feito para se sair desta crise que não nos larga. - Isso, melhor ver o que dá ter um offshore ali no rio a olhar para nós do que ter que mudar de nacionalidade. - Mas, pergunto eu, porque é que o Estado não pensou nisso antes e fez ele mesmo o offshore? - Pá, para lá de já haver um na outra ilha “ainda” nossa pertença, sabes que uma coisa dessas com o patrocínio do Estado ou de governos locais cai sempre mal no panorama mundial quando estalam crises financeiras como a que estamos vivendo. Fica toda a gente de olho no que se passa lá e tentam arranjar logo maneira de revolver as contas todas e quebrar com os sigilos bancários. Agora uma coisa independente a fazer o que bem lhe interessa já não é bem o mesmo. Eles dizem sempre que sim, mas acabam não fazendo nada. - Tens razão. Bem, de qualquer forma ninguém se lembrou de tal coisa antes, foi preciso aquele empresário de olhinho prós negócios para ter a iniciativa necessária. - Sabes, a iniciativa privada tem sempre mais fulgor do que a iniciativa pública.” No interior do grupo parlamentar criado para proceder à análise do pedido de independência que não demoraria muito a cair em cima da mesa, discutiam-se critérios que não eram comuns. Embora todos se manifestassem agora a favor do reconhecimento do território, uns insistiam em que se devia renegociar as condições de tal independência. “- Senão arriscamo-nos agora a que não nos deem nada do anteriormente proposto. Lembrem-se que os tipos agora têm o aval dos do Norte, poderão achar ser-lhes permitido fazer o que lhes dê na real gana.”

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Outros achavam que se deveria esperar para ver o que viria junto com o pedido de reconhecimento e só depois partir para algum tipo de exigência, a haver. A posição mais timorata parecia ser a que mais votos recolhia, por isso não foi de admirar que, quando intempestivamente a folha de A-4 mais uns quantos anexos, com o timbre da república insular lhes foi parar às mãos, os que haviam reclamado por uma posição mais extremada tivessem reagido como se lhes tivessem espetado uma faca nas costas. “- Estão a ver isto? Nós tínhamos razão quando entendemos que o melhor seria partir para as negociações em posição de força e não de fraqueza. Vejam bem, já nem nos oferecem aquilo que diziam oferecer ao princípio. Querem a independência e já está. Olhem o que o tipo diz: que já pagou o que tinha a pagar quando procedeu à compra da ilha e que nada mais reconhece ter a pagar. Que lata! E agora senhores da posição oposta, que sugerem fazer perante mais esta patifaria?” Os da posição de joelhos ficaram com pouco para dizer, no entanto ainda conseguiram articular: “- Reconhecemos que a proposta vai contra todas nossas menos optimistas previsões. Em conformidade com o que temos nas mãos é nossa opinião que devemos partir para um contra-ataque concertado e que se deve enviar de imediato, uma missiva expondo nossas preocupações e aquilo que achamos ser justo receber em troca. Não é assim do pé para a mão que se deixa um pedaço de território escorregar por entre os dedos. Diplomaticamente, mas energicamente, devemos enviar, em força, tal resposta e já!” Foi assim que o presidente ratense recebeu um envelope do qual saltaram várias exigências para a boa continuidade do processo de reconhecimento, entre elas as seguintes: - A proposta anterior deveria ser considerada como válida. Isto é, x anual vezes y anos; - O pessoal a contratar e a povoar a ilha deveria, com excepção dos vinte presos, ser contratado exclusivamente no continente; - Embora autónomo em termos administrativos, o território da ilha do Rato permaneceria dependente em termos de política externa e defesa do território, do continente;

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- Sem a aceitação prévia destas condições, o reconhecimento da independência não poderia, pois, se tornar uma realidade. O presidente do Rato nem se deu ao trabalho de responder. Dois dias depois, já com a confirmação de que a primeira leva de cinco vinha a caminho, tendo evitado aterrar no aeroporto do continente e tendo antes escolhido o território de um país vizinho para o fazer, e que desciam o rio internacional em barco fretado para o efeito estando prevista sua chegada na manhã do dia seguinte, a embaixada setentrional faz chegar uma advertência, em termos rudes e agressivos, às mãos do governo continental. “- O que o governo continental pretende fazer não passa de pura chantagem que um Estado que se reclama de direito não pode ter a insensatez de exigir a nenhum outro Estado. Saiba o governo dessa república que a administração setentrional já procedeu ao reconhecimento formal da independência do estado vizinho e que qualquer política de confrontação ou de teor reclamatório, ameaça mesmo velada que seja ou qualquer outro tipo de contrariedade, que vise colocar em risco a existência do mencionado território ou a integridade de qualquer cidadão da República Insular do Rato, será considerada uma agressão aos interesses de nossa nação e como tal reagiremos em conformidade com essa agressão.” Não coincidentemente soube-se que uns quantos vasos de guerra se aproximavam das costas do continente, aparentemente incluídos em actividades de manobras de rotina, mas sabendo-se no fundo qual era seu propósito final. Desta forma a comissão parlamentar não teve outro remédio que deixar suas frustrações de parte, o governo engoliu em seco (pelo menos a espinha na garganta que eram as eleições antecipadas foi retirada), a assembleia aprovou o diploma e enviou-o por sua vez ao presidente da república. Um novo país acabara de nascer.

O dia da ratificação do diploma que reconhecia a independência total e multilateral da República Insular do Rato passou a ser o dia do feriado nacional. O único dia de feriado, digase de passagem. O triunvirato - o duo - na ausência do empresário-chefe e com sua aceitação

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tácita, lembre-se, havia decidido estabelecer as bases de organização política do novo estado. Deste modo haviam sido criadas três secretarias dependentes do governo-geral da república. O presidente executivo e chefe de governo para todos os efeitos tidos como práticos seria o dono-presidente. A secretaria dos assuntos externos estaria sob sua dependência directa igualmente. A secretaria dos assuntos internos sob a batuta do enteado e a secretaria dos assuntos financeiros sob a égide do administrador. Já se tinha dado azo à instalação das primeiras tendas de campanha e já se tinha dado instruções para se proceder à construção de trinta vivendas para receberem os executivos que iriam trabalhar no banco, banco esse que iria ser ao mesmo tempo banco central e banco de investimento dos depósitos a receber. Seria uma bonita e grande construção pós-moderna (na esteira do que se pretendia fazer na totalidade do país) cujo projecto já tinha sido encomendado a arquitecto continental de renome mundial, embora de renomeada sexual, igualmente. De igual modo se tinha dado início à construção de trinta bungalows que iriam acomodar os trabalhadores de outras profissões necessárias à manutenção de toda a infraestrutura da ilha e o projecto da marina estava em fase de estudo final. O heliporto era considerado fundamental uma vez que a ilha não tinha propriamente condições para ter um porto, pequeno que fosse, de águas profundas, e todo o material e pessoas tinham que ser passados para dentro da ilha através de pequenas embarcações, o que não era de modo algum viável. Os enormes geradores eléctricos que alimentariam a ilha já estavam instalados e a funcionar. Seriam eles a suportar toda a actividade dos ilhéus até que as negociações com as autarquias do outro lado dessem fruto, ou seja, que se estendessem cabos aéreos até à ilha junto com uma subestação e postos de transformação. Coisa que iria ser complicada de conseguir, uma vez que a independência tinha sido arrancada à força de pressão diplomática, digamos assim, e as relações não eram as mais cordiais entre ambas as partes. Outra necessidade básica era o fornecimento de água potável a toda a ilha. Viver a garrafão de água não era situação que se pudesse manter durante muito tempo com o aumento populacional que se esperava e com o aumento de actividades humanas daí decorrentes. Pelo sim pelo não, e à imagem do que se tinha feito de início no palácio governamental, tinham sido contempladas cisternas individuais em cada casa a ser construída, excepto nos

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bungalows, esses poderiam ficar dependentes de água engarrafada ou em jerricans, os outros, claro que não. Também aqui se procediam a negociações com o poder local da margem sul do continente. É que na margem norte ficava a capital, a poucos quilómetros. A detestada capital continental que tudo tentara para evitar que se desse origem ao que agora prazenteiramente se observava a ser construído. “- Vamos mostrar àqueles continentais do que somos capazes de fazer e como se constrói um país de jeito.” Dizia o enteado, secretário dos assuntos internos, aos seus homens. Uma força policial começara a receber treino para funções de policiamento costeiro e para intervir em qualquer situação de desacato que ocorresse, embora o pequeno número de habitantes não fosse de dar origem a grandes problemas de ordem pública, nunca se sabe que pode ocorrer quando pessoas são obrigadas a manter relações sociais de proximidade. Ainda por cima em espaço tão exíguo. Todos os novos trabalhadores que recebiam sua autorização de residência eram advertidos que não se toleraria qualquer tipo de situação de violência, quebra da ordem, discussão, rixas ou qualquer outro tipo de anomalia que perturbasse ao de leve que fosse, o funcionamento da ilha, sendo essa pessoa ou pessoas intervenientes, imediatamente expulsas da ilha. Álcool mesmo de baixo teor, e drogas, por leves que fossem, estavam totalmente proibidas e o seu uso ou posse confeririam de imediato, a expulsão da ilha. Também certo tipo de literatura estaria proibida bem como a leitura de jornais, a visualização de imagens ou de programas de rádio do continente, de modo a que a transmissão de má opinião junto dos cidadãos ratenses, não fosse de modo disseminatório bebido pelos habitantes e de tal forma se tornasse em veículo detractor da moralidade e da nacionalidade. Tinha-se inicialmente pensado em treinar os vinte presos recebidos em troca pela independência nesse sentido, - a jeito de polícia de costumes -, de modo a constituir uma espécie de corpo de defesa do Estado, mas devido às dificuldades da língua, ao seu historial e ao facto de ser necessário agradar aos setentrionais nas indicações de manuseamento de artigo tão perigoso quanto instável, optou-se antes por contratar pessoas do continente, gesto que

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visava igualmente agradar às autarquias locais de modo a cimentar boas relações. E a obter o que tanto se desejava, igualmente, como diz a história da cenoura. Contrataram-se assim quinze indivíduos ex-forcados e outros habituados a lidar com gado eurícero, quer nos campos quer nos matadouros, gente dura e habituada a lidar de frente com os problemas, mas que por razões várias, agora passava os dias desocupados de mãos nos bolsos pelas campinas pontapeando montes de caruma uns, outros de copo na mão, nas tascas do continente. A utilidade que se conseguiu dar aos vinte presos que viriam viver na ilha foi a de serem treinados nas funções de seguranças privados do presidente e dos outros dois membros executivos do governo. Pelo menos estariam sempre debaixo de olho e sua autonomia seria cerceada ou limitada desse modo tão evidente. Na cerimónia de empossamento deste tipo de guarda pretoriana foi dito o seguinte pelo presidente: “- Não é qualquer um que pode contar com uma guarda pessoal de tal estirpe, refinada em tão esquis local e que fazem a legião estrangeira parecer um agrupamento de boy-scouts. Não há um único inocente entre vós, mas saíram-nos barato. Também não nos podemos esquecer que foi por mérito da vossa transacção que hoje aqui me encontro a discursar.” Com o problema da autodeterminação sanado, com o reconhecimento pelas principais potências do mundo dessa independência, foi fácil obter igualmente o reconhecimento por parte da assembleia-geral das nações e dessa forma ser aceite como membro de pleno direito dessa organização. Agora urgia encontrar símbolos identificativos do país e de sua diferenciação. A língua que se falava era a continental como se sabe, algo que embora facilitasse o bom entendimento entre os colonos era igualmente causa de um certo mal-estar. Comentava-se nos corredores do poder, isto é, entre os três grandes, que falar a linguagem do inimigo era algo vexatório. “- Só falta os tipos virem agora com uma proposta, para nós assinarmos, de adesão àquela coisa que eles têm de comunidade de povos de língua continental. Era o que faltava, depois do que nos fizeram passar.”

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Outra ainda: “- Ou então começarem a enviar-nos calhamaços de língua continental com o b-a-ba da gramática e coisas assim, como costumam fazer aos países anteriormente colonizados, tudo camuflado e como forma de darem trabalho a umas dezenas de professores que ficaram sem colocação.” Pensaram inicialmente adoptar como oficial uma língua estrangeira qualquer, mas isso seria um pouco mais estabelecido ao nível de negócios, precisava-se mesmo era de um idioma do dia-a-dia. Decidiram perante isto fazer uma pequena alteração ao idioma falado de modo que, não sendo demasiado complexo para ter que se estabelecer uma nova gramática e formas de sintaxe, desse, no entanto, um ar de coisa nova ou diferente. Depois de muito pensarem o quê, o administrador-secretário dos assuntos financeiros, lembrou-se de algo que sempre o tinha divertido e ao mesmo tempo deixado perplexo ao falar com um seu ajudante-de-campo que era natural de uma cidade continental um pouco mais a sul. “- Eh, pá, lembrei-me que se fala de modo diferente e peculiar lá mais em baixo numa cidade dos tipos. Deveríamos fazer algo do género. Que tal falar um pouco como se fala lá que até fica bem nas redondezas e de onde se espera importar uma boa parte da mão-de-obra que colonizará nossa ilha? Não se muda a língua, mas muda-se o modo de a falar. Mudando o modo de falar passa-se a escrever como se fala, e já está.” Ficou decidido então começar a falar dobrando os “r” em cada palavra e também começando a escrever as palavras seguindo essa grafia. Foram convidados proeminentes professores, mestres e doutores em filologia, anteriormente participantes no grupo de trabalho conjunto e de cujas penas saíra o brilhante acordo ortográfico da continentalidade, que se encarregaram de estabelecer os fundamentos gramaticais desta espécie de crioulo. A primeira frase que traduziram no novo idioma ratense e que mandaram afixar em tarjas nas paredes como se de uma expressão nacional se tratasse foi: “Sou arratense com muito orrgulho e brrio.”

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Claro que palavra puxa palavra e, fruto de algum fraco e incipiente domínio cultural de alguns dos novos habitantes, já não se dobravam apenas os “r” como vinha sempre mais alguma coisa atrás. E alguns arratenses até levaram a história de se escrever como se falava demasiadamente a peito e começaram mesmo a fazê-lo extremosamente. Eram então comuns lerem-se expressões como as que se seguem: “É favorr limparrse os péis quandi si entrrar na teinda.” “Ficharr a torrnerra do barrili enquanti si ensabua prra popar iáuga.” A bandeira foi outra das questões em aberto. Desta feita foi o presidente a decidir de que modo o símbolo máximo da nação seria desenhado. “- Para demonstrar o apreço pelo apoio que recebemos um pouco por todo o mundo para com nossa causa, proponho que se faça uma bandeira às riscas multicores. Também acho que o rato desenhado ao centro é um pouco desapropriado; como tal, proponho antes uma mão aberta desenhada de perfil. Será como sinal de amizade e entendimento entre os povos. Mão de cor branca, em sinal de mão limpa, identificativa de que não temos nada a esconder de ninguém” Deste modo se obteve a bandeira nacional, que logo recebeu comentários jocosos de parte dos continentais que a apelidavam de “estandarte da mão pedinchona”, “mão aberta à espera do dinheiro que caia do céu”, ou ainda, “mani pulite, ma no troppo”, à laia de conotação da luta insolvente contra mafiosos e corruptos. Quem não gostou muito de tal símbolo identificativo do país foi o presidente dos gays, lesbos e trannys que, sempre atento a este tipo de fenómenos de simbolismo, da sede da organização sita em são francisco, o da Califórnia, lançou uma campanha contra a semelhança de bandeiras. Mas da parte dos ratenses apenas um curto e lapidar mail foi enviado às redacções dos jornais, em tom de resposta:

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“Bandeirras há muitas, ó paneleirrão!” Hinos, cantares e danças típicas não existiriam nem restaria dúvida alguma que toda a gente se encontrava ali para trabalhar e não para foliar. Só mesmo o extremamente necessário em termos administrativos ou governativos seria criado. Tudo o resto seriam puras perdas de tempo, e de dinheiro. Folguedos, festanças e feiras, de gado ou de roupa, também não. Isso faria com que o Rato se parecesse demasiado com o continente, nada que os dirigentes da nação queriam ou desejassem. Pelo contrário, tudo teria que ser maximizado e aperfeiçoado de modo a que o investimento começasse a fluir e os lucros a aparecer. Razão última para a independência do território e que culminara após luta extensa e encarniçada. O único propósito para pessoas e equipamentos seria, portanto, o de rentabilizar ao máximo o axioma homem-hora, homemmáquina, homem-lucro, numa verdadeira acepção da palavra em termos de contabilidade industrial. Para lá do virtuosismo da dedicação ao labor e em prol de uma verdadeira organização e divisão do trabalho subjacente aos fins em meta a serem convertidos, havia que mostrar aos continentais e ao mundo que tão industrioso país conseguiria sobreviver, prosperar e enriquecer. O sistema bancário, verdadeira pedra angular da actividade económica da neófita nação teria assim que ser delineado, instalado e colocado em acção o mais rápido possível. Não haveria actividade secundária, tudo e todos estariam convertidos em máquinas registadoras tendo como objectivo o amealhar de cifrões, viessem eles sob a forma que viessem. Não apenas se exigia por parte dos, ao mesmo tempo, cidadãos-trabalhadores-colonosimigrantes que estes dessem o seu melhor, que rumassem em direcção ao que se pretendia de uma ilha-caixa-forte no seu esplendor, como igualmente se pretendia nem mais nem menos, a excelência, apurada como se de uma nova casta de colheita implantada em socalcos se tratasse. “- Somos vistos como latinos por todos os povos do mundo, e sim, é verdade que não podemos renegar o nosso ADN por aquela palha, no entanto, já que não podemos criar do pé

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para a mão uma nova raça, que se faça pelo menos com que estes mandriões compulsivos consigam dar provas de produtividade extrema até que um dia destes nos laboratórios se consiga finalmente sintetizar e atingir aquilo que todos nós almejamos, o novo homem, superser, sobre-humano ou hiper-dotado.” Afirmava em discurso, na página web da república do Rato, o presidente de tão afamada e distinta entidade.

Cabe escrever, nesta altura da oração discursiva, que o presidente-eleito-por-autonomeação parecia ter-se esquecido de onde ele próprio provinha e que mais parecia um daqueles administradores ingleses perante um rebanho de domesticáveis quanto insubordinados indígenas de país ocupado. Estes autóctones eram no entanto a força de trabalho – labor force – com que ele podia contar e, já que nem Moisés vinha à montanha nem a montanha se preocupava com Moisés - atarefada em trabalhos de consolidação das suas encostas - um novo virtuosismo teria que ser encontrado de modo a que nem aquela virtuosa e laboriosa enorme caixa-forte alcantilada nos Alpes se pudesse comparar, em termos de disciplina e de controlo sobre seus efectivos, com o Rato. A teoria pura do chicote-recompensa parecia estar afastada tanto que o país estava obrigado perante as instituições internacionais, a respeitar algumas condições, que embora fossem uma chatice, estavam vinculadas em papel, sob a forma de Tratados, Pactos, Alianças, Protocolos e Actos, esses eternos e incontornáveis elementos transmissores de normas, juízos e sanções. “- Caramba, porque é que não se pode fabricar um país desde o ridiculamente zero absoluto sem ter que se estar logo, ainda no ventre, arreigado e submetido a condições de pendência jurídica. Ainda nem o vitelo nasceu e já está vendido… chiça!” Afirmava peremptoriamente o presidente-garboso e consciente de seus desígnios na terra conquistada.

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Em termos de demarcação fronteiriça, se o problema terrestre era inexistente, já o da demarcação da zona económica exclusiva – a impalpável e improcedente ZEE - era dor de cabeça que se anunciava. Ou até do mero e simples problema de se poder demarcar fosse o que fosse. Aquelas bóias de sinalização espetadas no meio do rio pareciam ser incontornáveis em termos de satisfação de fôlego geográfico. Teria que ser um pouco mais rápido e simples demarcar as águas territoriais. Puxando pela imaginação, consolidada claro com um pozinho de corrupção, não seria nada que não se conseguisse obter através de acordos discretos e bem sucedidos com os vizinhos autarcas das proximidades. “- Tá bom, mais uma milha náutica no sentido dos ponteiros do relógio para vocês em troca de um time-sharing em local à escolha pra mim e minha família. - O.K., aquele montículo de terra que só na maré baixa se vê passa a ser considerado a vossa ilha deserta, mas em troca o vosso banco central empresta-me dinheiro a fundo perdido para eu construir uma casita de campo, lá naquele terreno que me foi dado por um construtor, para quem eu furei o plano director.” Na sua aparente orgia construtiva, o enteado presidencial, ou secretário dos assuntos internos, como se prefira, tinha decidido estabelecer metas bastante ousadas para que o Rato depressa se parecesse com um país a sério. Uma vez que até estados que se encontram em guerra ou com corte de relações diplomáticas possuem mesmo assim ligações fronteiriças uns com os outros, também seria sensato fazê-lo no caso concreto deste novo país para com o seu anterior inimigo vizinho. As infra-estruturas futuras e de maior complexidade da ilha-país seriam pois adjudicadas a um consórcio do continente sob a promessa de serem eles a construir uma futura ponte que ligasse a ilha à mainland. No fundo, uma QTT. Ficaria ainda a cargo de decisão do ACE se a futura ligação seria rodo-ferro, ou antes, biciclo-pedestre. “- Meus senhores, existem três traçados possíveis e em estudo. - Mas, e os acessos dentro da cidade? E os sapais protegidos? E o tráfego fluvial? - Não se preocupem com nada disso. Os senhores ainda não ouviram falar porventura dos Investimentos Prioritários? Com esse estatuto tudo se consegue.”

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Uma vez que não existia propriamente uma constituição nacional, procurou-se eliminar este escolho o mais depressa possível sendo convidados proeminentes juristas conhecidos na nossa (vossa) praça - na do poder não na das hortaliças, bem entendido - que se dariam ao trabalho de apresentar um projecto de magna carta que desse um ar de legalidade à disforme lei base da provecta nação. O poder judicial seria praticamente inexistente uma vez que não serviria para nada. A todo-poderosa secretaria dos assuntos internos teria a seu cargo a resolução dos potenciais problemas de ordem pública ou jurídica que pudessem vir a ocorrer, embora sem grandes chances de tal se vir a produzir. Um pequeno guindaste com uma rede pendurada por cima do ratazânico lodaçal advertiria os potenciais prevaricadores do que os esperaria se tal viesse a ocorrer. Seria uma espécie de tortura psicológica a jeito daquilo que se vê no filme Apocalipse Now, o qual seria interminavelmente projectado na parede da alfândega como aviso. Isso decerto faria com que a criminalidade se reduzisse ao menor múltiplo comum absolutíssimo.

Ao cabo de pouco tempo as instalações necessárias à actividade bancária estavam prontas a ser usadas e começava o processo de triagem e de contratação dos colaboradores necessários ao bom funcionamento da actividade bancária. Contrariamente ao esperado pelas autoridades da antiga potência colonizadora, a administração do Rato alegaria falta de profissionais em termos de capacidade de gestão e de competências profissionais e académicas para fugir à contratação de gestores e banqueiros oriundos do continente, virando sim seu apetite para os antigos funcionários desempregados pela falência do Lehman Brothers, despedidos do Citigroup e dispensados da AIG. Pasme-se. Até deram trabalho a antigos correligionários do biltre Robert, algo que fez com que as tripas dos deputados da benevolente assembleia da república continental se revolteassem como café despejado em cima de uma dúzia de figos verdes. Dentro do estômago de suas excelências, falta compor.

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“- Eles que nos tinham dado a palavra de honra que iam ajudar a baixar os desgraçados índices estatísticos dos números do desemprego! E ainda se dão ao desplante de contratarem robertos!? Aqui não pode haver robertos tão perto de nossa capital, será um aliciamento aos poucos honestos banqueiros que ainda nos restam. Já não se pode confiar na honra de ninguém!” Afirmavam membros do governo pelos esconsos corredores do Parlamento continental, mais conhecidos por Saltos Partidos. “- Ainda que pelo menos a construção da ponte avançasse de vez e que o trabalho fosse entregue maioritariamente a grupos do continente… mas não! Aqueles sacanas suspenderam tudo que era projecto de engenharia como retaliação pelos danos provocados durante o período de “guerra” pela independência. Raios os partam de vez! Ofegantemente exclamado pelo presidente da confederação da indústria continental. A ETAR prevista para a zona ficou suspensa, usada por sua vez como modo de represália da parte dos continentais, sendo os esgotos atirados em fossa livre, soît, para o rio. Mas para os ratenses pouco importava já. Com os mega-cofres-fortes prontos pra encher de dinheirama, com promessas de largos empréstimos a tiranetes das áfricas, das obscuras repúblicas trans-caucasianas entre mãos e com a segurança de ninguém vir bisbilhotar a proveniência ou a saída desses montantes, os bancários ratenses ofereciam 25% de juros anuais a qualquer depósito acima do milhão. Um verdadeiro manancial de pedidos de abertura de conta começou a chover. Os primeiros cidadãos honorários e aos quais foi providenciada a abertura de conta em primeira mão – numa atitude de provocação, sejamos francos - foram o Bush, o dos Santos, o Mugabe e a família enorme do Sese Seko. No seguimento desta apoteótica resolução foi aprovada ainda a honorabilidade a título póstumo do Mobutu e do Marcus. “- Temos que reunir a nata – le creme de la creme – de modo a que todos os investidores, aforradores e especulares sejam atraídos a nossa ilha como ursos a favos de mel, mas sem terem que sentir os ferrões por tal acto de ousadia.”

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Exclamavam os dirigentes do Rato ao numerarem as primeiras contas usando um código alfanumérico digno de programadores de linguagem Fortran. Era ao mesmo tempo um verdadeiro negócio paralelo o que se oferecia às populações ribeirinhas do país recém-estreado. Os pobres e insalubres vizinhos aproveitavam para amealhar uns trocos servindo refrescos, melancia à talhada, sandes de afiambrado popular e pacotes de batata frita caseira dentro de barquinhos, aos magnatas que aguardavam dentro de seus iates nas águas territoriais, a sua entrada na diminuta marina da Cidade do Rato, capital. Um problema que surgiu e no qual ninguém havia pensado foi a questão dos imigrantes ilegais que logo começaram a aparecer. Sentindo nas fuças roídas pela depressão sentida no continente o cheiro a dinheiro fácil, começaram a tentar entrar aos magotes na dolarizada ilha, preferindo ser roídos pelos ratos verdadeiros - que nunca abandonaram definitivamente o local - do que serem roídos pela depressão endémica. Aproveitando-se das marés baixas que deixavam percorrer uma boa parte do lodo macio até à ilha-banco, seguiam a coberto da noite sem luar, enterrando-se até à cintura, em busca do paraíso, tão perto. Alguns com peso a mais, comida, cigarros e bebidas que sabiam escassear na ilha, eram sugados pelos olheiros em questão de segundos o que provocou grandes consternações nos familiares enlutados e originou que vozes se levantassem no continente contra os malefícios de se ter uma ínsula podre de rica a escassos metros das continentais e depauperadas praias. Aconteceu que os acidentes sofridos pelos desgraçados que tentavam atingir as costas ratenses ao invés de fazer diminuir as tentativas ainda fizeram com que estas aumentassem. “Quem não arrata não pataca”. Dizia-se nas tascas amexicanizadas da margem contrária. Pelo menos mulheres e niños estão fora, somente homem adulto e com tomates para atravessar aquele pântano de areias movediças, ainda mais perigoso desde que os múltiplos pés de potenciais emigrantes haviam revolvido o quase virgem chão lodoso. Revivendo os antigos contrabandistas da raia, pela calada da noite ou aproveitando restos de sargaços, de sacos de plástico e outras porcarias que por mérito de suas bolsas de ar são inafundáveis, eilos, esbracejando silenciosamente por entre as águas sujas, fracamente alumiados pela luz do

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quarto-minguante, com a cabeça pra fora e olhar sonhador. “Está quase, quase, mais um pedacinho e estarrei em águas deles.” Enganavam-se. Todos os que eram pescados pela recentemente criada guarda costeira, - que malhava neles à força e os obrigava a voltar de onde tinham vindo -, ficavam com marcas na pele do sonho desfeito do pretenso El Dorado acabado, finito. Pedras, paus, lanças de azagaia, chumbinhos de flobber´s e de espingardas de sal eram atirados aos pobres balseros que não tinham outro remédio do que regressar a seus casebres. Por vez ou outra lá havia um que não regressava e ficava-se a pensar se teria sucumbido às armadilhas do lodo ou se teria sido bem-sucedido. Contavam-se histórias do filho do não sei quantos que estaria integrado nos quadros do banco central do Rato trabalhando como contabilista de segunda, pois tinha levado consigo uma calculadora de bolso enrolada em plástico, que o havia safado. Ou um que era clerck, seja lá o que isso for, porque tinha-se dissimulado de tal, usando o argumento de ter levado um velho chapéu de chefe de estação dos caminhos-de-ferro continentais. Mas, na maior parte dos casos, tudo não passava de lendas. A fronteira marítima e parcialmente terrestre começou a pouco e pouco a parecer-se mais com a do Rio Grande ou a da Faixa de Gaza ou com a do paralelo 53. Os afortunados e riquíssimos cidadãos da República do Rato não queriam andrajosos pedintes a bater-lhes à porta. Aos que olhavam nas margens opostas, com olhos de tristes lémingues olhando o sol da meia-noite, só restava acomodarem-se à triste sina que tinham de ter nascido em tão desgraçada nação.

Vidé: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=829804

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Neste aparente caos social e que prima pela ausência de normas éticas ou sacrificiais pelos mais vulneráveis ou mais desprotegidos, algo que no fundo tem acompanhado a humanidade ao longo dos séculos, ao patriarca pouco importa que algum dos descendentes sucumba à fome. Não viu ele já vários deles serem atacados e comidos pelas feras, perante a sua impotência? Ou outros serem mortos por semelhantes de outras tribos apenas e apenas por uma espécie de prazer mórbido? Outros ainda vitimados por estranhos raios de luz caídos em noite de tempestade do céu escuro, outros de frio e outros ainda definhando misteriosamente até morrerem, sem terem sido atacados por animais ou humanos?

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A ILHA DO RATO  

A fronteira marítima e parcialmente terrestre começou a pouco e pouco a parecer-se mais com a do Rio Grande ou a da Faixa de Gaza ou com a d...

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