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ERNEST HEMINGWAY

POR QUEM OS SINOS DOBRAM Nenhum homem é uma ILHA isolada; cada homem é uma partícula do coNTineNTE, uma parte da TERRa; se um torrão é arrastado para o MAR, a EUROPA fica diminuída, como se fosse um PRomoNTório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a TUA PRóPRIA; a MORTE de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do GÉNERO HUMANO. E por isso não perguntes por quem os SiNos dobram; eles dobram por TI. CAPÍTULO I DEITADo de bruços, sobre a caruma do pinhal, com o queixo apoiado nos braços cruzados, ele ouvia o vento soprar entre a ramaria das árvores. A encosta da montanha, no ponto em que repousava, tinha pouco declive, mas mais abaixo tornava-se íngreme e ele via a curva negra da estrada alcatroada que seguia o desfiladeiro. Um rio corria ao longo da estrada e, muito mais abaixo, distinguia-se uma serração na margem da corrente e a cascata da represa, brilhando sob a luz estival. -É aquela a serração? -perguntou. -É. -Não me lembrava. -Foi construída depois da tua partida. A antiga fica mais adiante, muito abaixo do desfiladeiro. O rapaz abriu o mapa, cópia fotográfica do mapa do Estado-Maior, e estudou-o cuidadosamente. O guia, um velho entroncado e sólido, vestindo a blusa preta dos camponeses, calças cinzentas e alparcatas de lona e corda, olhava por cima do ombro do seu companheiro. Estava ofegante da subida, com, uma das mãos apoiada sobre um dos dois pesados sacos que tinham trazido. -Então não se pode ver daqui a ponte... -Não-disse o velho.-Aqui ainda o desfiladeiro é pouco íngreme e o rio corre suavemente. Mais adiante, quando a estrada se perde na floresta, o rio precipita-se e há uma garganta escarpada. . . -já me estou a lembrar. - A ponte corta essa garganta. -E onde ficam os postos? -Há um posto naquela serração. O rapaz que estava a estudar a zona, tirou do bolso da sua desbotada camisa amarela os binóculos, limpou as lentes 9


com o lenço, e focou-as até que a serração lhe surgiu muito nítida. Distinguiu o banco perto da porta, o grande monte de serrim. atrás do barracão e um pedaço do plano inclinado por onde desciam os toros de madeira cortados do outro lado do rio. A torrente surgia clara e unida nas lentes e longe, onde a cascata caía, o vento fazia voar a espuma do açude. -Está a sair fumo da chaminé-disse o velho-e há roupa a secar. -Sim, estou a ver, mas nada de sentinela. -Naturalmente pôs-se à sombra - explicou o velho. -Lá em baixo a esta hora faz muito calor. Deve estar à sombra, do lado que não podemos ver. -É possível. E o outro osto? -Fica abaixo da ponte. E na cabana de um cantoneiro, a cinco quilómetros do alto do desfiladeiro. -Quantos homens há lá?-apontava a serração. -Talvez quatro e um cabo. -E no outro posto ? -Mais. Temos de verificar. -E na ponte? -Sempre dois, um em cada extremidade. -Precisamos de reunir alguns homens-dísse o rapaz. -Quantos podes arranjar? -Posso arranjar quantos queiras-disse o velho.-Há muitos homens agora nas montanhas. -Quantos? -Mais de cem. Divididos em pequenos bandos. De quantos vais precisar. -Só o posso dizer depois de ter estudado a ponte. -Vais estudá-la agora? -Não. Agora quero arranjar um buraco onde possa esconder estes explosivos até que chegue a ocasião. Quero escondê-los com segurança e a não mais de meia hora da ponte, se for possível. -É fácü-disse o velho.-Do sítio para onde vamos há uma descida para a ponte. Mas antes de lá chegar temos que roer uma grande subida. Tens fome? -Sim-disse o rapaz.-Mas comerei mais tarde. Por falar, como te chamas? Esqueci-me. -Este esquecimento foi para ele um mau augúrio. -Anselmo-disse o velho.-Chamo-me Anselmo e sou de Barco de Ávila. Vou ajudar-te a levar isso. O rapaz, alto e magro, com os cabelos louros descoloridos pelo sol e um rosto queimado, vestia uma camisa de flanela 10 desbotada, calças de camponês e alparcatas de corda; curvou-se para a frente, meteu um braço numa correia do saco e ergu,*eu-o. Enfiou depois o outro braço pela outra correia e pos o saco às costas. Ainda tinha a camisa molhada no sítio do saco. -Pronto-disse o rapaz.-E agora, para onde vamos? -Subir -respondeu o velho. Dobrado sob o peso das cargas, suando, puseram-se os dois a galgar o resto da encosta, por dentro da mata de pinheiros que cobria o flanco da montanha. Não havia trilho visível, mas foram subindo, atravessaram um riacho e o velho continuou a i do a margem pedregosa. A subida era agora ascensão segum mais difícil até ao ponto em que a água caía sobre um ressalto liso da pedreira, e aí o velho parou à espera do rapaz. -Como vai isso?


-Muito bem-respondeu o rapaz, suado e com os músculos crispados pelo esforço da subida. -Bem. Agora eRpera-me aqui. Vou à frente para avisar os outros. Não seria divertido se apanhasses uma bala, com a carga que trazes em cimà. -Nem a brincar-disse o rapaz.-É longe? -Muito perto. Como é que te chamas? - Roberto -respondeu o rapaz que se tinha libertado das correias do saco para o pousar docemente entre dois rochedos perto da corrente. -Então, Roberto, espera-me aqui. Volto já. - Perfeitamente - disse o rapaz. - Mas é por este caminho que pretendes alcançar a ponte ? -Não. Para a ponte iremos por outro caminho. Mais curto e mais fácil. -Este material tem qúe ficar guardado perto da ponte. -Tratarei disso. Se o lugar não te parecer bom, proctiraremos outro. -Veremos -respondeu o rapaz. Sentou-se perto dos sacos e ficou a ver o velho galgar a encosta. Isto não era fácil e, pela maneira como ele encontrava os apoios sem os procurar, via-se que o caminho lhe era familiar. Contudo, fosse quem fosse que estivesse em cima, fora muito cuidadoso para não deixar rasto. C~ rapaz que se chamava Robert Jordan estava faminto e inquieto. Muitas vezes padecera fome, mas não se incomodava, porque não dava importância ao que lhe pudesse acontecer e sabia, por expenencia própria, quão fácil era mover-se atrás das linhas inimigas em toda aquela zona. Tão fácil mover-se atrás delas, como atravessá-las quando se dispõe 11 de um bom guia. O difícil era saber agir quando se era apaqt nhado; isso e saber escolher as pessoas em quem se podia T confiar e saber depois entregar-se completamente às pessoas. ri Era tudo ou nada. Robert Jordan não se sentia incomodado v por estes problemas, mas outros o inquietavam naquele tu momento. en Anselmo revelara-se um bom guia e sabia andar maravilho samente na montanha. RobertJordan era bom marchador mas, reconhecia, depois de o ter acompanhado desde madrugada, que o velho o poderia matar de fadiga. Até aqui tinha tido confiança em Anselmo, para tudo, excepto no que exigia discernir era missão sua. Não, Anselmo não o preocupava e discernimento; problema da ponte não era mais difícil que muitos outros. Sabia destruir pontes de todos os tamanhos e feitios e tinha nos sacos explosivos suficientes para fazer voar a ponte da melhor maneira, mesmo se ela fosse duas vezes maior do que afirmava Anselmo. Avaliava-a pelo que lhe dizia Anselmo e pela recordação que lhe ficara de a ter atravessado a pé, em 1933, numa viagem a La Granja e pela descrição que Golz lhe tinha lido na última noite passada naquela casa perto do Escurial. VO -Estoirar esta ponte não é nada-tinha dito Golz, com a cabeça rapada e coberta de cicatrizes sob a luz da lâmpada, designando com o lápis um ponto na carta. -Entendeu? ce -Sim, compreendo. o -Absolutamente nada. Fazer só voar a ponte não servirá para nada. -Sim, camarada General.


-Mas fazer voar uma ponte na hora estabelecida para o ataque, isso sim. Isso é tudo, e é o que você tem de fazer. Golz olhou para o lápis e pôs-se a bater com ele nos dentes. Robert Jordan não tinha dito uma palavra. -Compreenda que é essa a sua missão e como deve ser executada- continuou Golz encarando-o. Bateu com o lápis no mapa e disse:-Mas não pode decidir isto senão no último instante. -Porquê, camarada General? -Porquê ?-repetiu Golz enerVado. -Já assistiu a tantos ataques e ainda me pergunta porquê? Quem é que me garante que as minhas ordens não serão alteradas? Quem me garante que o ataque não será adiado ou alterado? Quem me garante que começará dentro de seis horas, ou mesmo que será iniciado? Alguma vez se fez um ataque como devia ser? -Este começará a tempo, pois que será o seu ataque -disse Robert Jordan. 12 -Os ataques nunca são meus-respondera Golz.-Sou eu que os preparo, mas nunca são meus. A artilharia não é minha. Tenho que aceitar a que me dão. Nunca me deram a necessária, mesmo quando ma podem fornecer. E ainda não é tudo. Você sabe como é esta gente. Não vale a pena estar a repetir tudo isto. Há sempre alguma coisa. E sempre há alguém que emoaraina tucio. Ifrocure COnIDreenler. -Então quando deve ser destruída a ponte? - Depois de iniciado o ataque. Logo que o ataque tiver começado e nunca antes. e mocio que os reforços não possam chegar por esta estrada (e designava-a com o lápis). Eu preciso saber que nada poderá chegar por esta estrada. -E quando é o ataQue~' -Vou dizer-lhe. Mas você vai usar a data e a hora apenas como uma indicação de probabilidade. Deve estar preparado para essa ocasião. Você fará saltar a ponte logo que o ataque tiver começado. Está a ver-apontava com o lápis. -Esta é a única estrada pela qual podem chegar reforços. É o único caminho que eles têm para a passagem dos tanques ou da artilharia, ou mesmo dum camião para a garganta onde vou atacar. Preciso de saber que a ponte saltou. E nunca antes, para não a poderem reparar se o ataque for retardado. Não. É preciso que salte quando o ataque começar, é preciso estar certo de que ela saltou. Há só duas sentinelas. O homem que o vai acompanhar veio de lá. Dizem que é um homem de muita


confiança. Você julgará. Há homens nas montanhas. Peça quantos homens precisar. Empregue os menos possível, mas os suficientes para triunfar. Não tenho necessidade de lhe dizer tudo isto. -E como posso saber que o ataque começou? -Será feito por uma divisão completa. Haverá uma preparação aérea. Você é surdo? -Devo admitir, então, que o ataque começou quando ouvir os aviões descarregarem. -Não pense que é sempre assim-disse Golz abanando a cabeça.-Mas neste caso pode admitir. É o meu ataque. -Compreendo -disse Jordan. -Não me agrada muito isto. -Nem a mim tão-pouco. Se não quiser tratar do caso, diga-o já. Se acha que não o pode realizar, diga-o também. -Farei o trabalho-tinha dito Robert _Jordan.-Pode contar comigo. É tudo quanto preciso saber-murmurou Golz.-Que nada passe por aquela ponte. Isso é absolutamente indispensável -Compreendo. -Não gosto de pedir aos outros que façam este trabalho e desta maneira -continuou Golz.-Não posso dar-lhe ordem de o fazer. Compreendo muito bem a que coisas pode ser arrastado pelas condições que lhe imponho. Explico-lhe tudo minuciosamente para que você compreenda bem as possíveis dificuldades e toda a importância da sua missão. ares ? -E como avançará sobre La Granja se a ponte for pelos -Avançaremos já pyeparados para a reparar, depois de ocuparmos a garganta. E uma operação muito complicada e muito bonita. Bonita e complicada como todas. O plano foi "tudado em Madrid. É ainda uma obra-prima de Vicente Rojo, esse desastrado professor. Vou atacar, e como sempre, sem forças suficientes. Apesar disso é uma operação realizável. Sinto-me agora muito mais satisfeito do que das outras vezes. Com a eliminação dessa ponte talvez tenha êxito. Podemos tomar Segávia. Olhe, vou-lhe mostrar como. Está a ver? Não é no alto do desfiladeiro que atacaremos. É muito mais adiante. Veja. Aqui... Assim... -Eu preferia não saber-confessou Robert Jordan. -Está bem. É menos bagagem que levará consigo para o outro lado... -Prefiro sempre não saber. Porque, aconteça o que acontecer, não fui eu quem falou. -Sim, é preferível não saber-concordou Golz batendo com o lápis na testa.-Muitas vezes eu também preferiria não saber. Mas sabe o essencial a respeito da ponte? -Sei. -Acredito e não farei mais discursos. Vamos beber um trago. Tanto falatório faz-me sede,


camarada Hordan. O seu nome em espanhol fica interessante, camarada Hordown. -E como se diz Golz em espanhol, camarada General? -Hotze -respondeu Golz rindo com um som profundamente gutural que se assemelhava a um ataque de tosse. - Hotze -repetiu. -Se eu soubesse como em Espanha iriam estropiar o meu Golz, teria escolhido outro nome antes de vir. Quando penso que vim comandar uma divisão e que podia ter escolhido o nome que quisesse e arranjei este Hotze. General Hotze. Mas agora é tarde para mudar. Que tal lhe parece este trabalho de partizan?-era o termo russo para indicar a guerrilha atrás das linhas. -Muito agradável -volveu Jordan sorrindo. -Está-se ao ar livre e é muito saudável. 14 -Eu também gostava quando tinha a. sua idadedeclarou Golz.-Dizem que você é perito em fazer saltar pontes. Muito cientificamente. É o que me dizem. Nunca o vi operar e podem ter-me informado mal. Quem sabe se realmente saltam? -Troçava. -Beba -disse apresentando-lhe um copo de aguardente espanhola.-É verdade que saltam? -As vezes. -Será bom não ficar na dúvida nesta ponte, peço-lhe. Basta. Não se fala mais de pontes. Já sabe o que é preciso saber. Estamos muito sérios e é por isso que podemos brincar. Diga-me: há muitas mulheres do outro lado das linhas? -Não, não temos tempo de pensar em mulheres. -Não concordo consigo. Quanto mais irregular é o serviço, mais irregular é a vida. O seu serviço é muito irregular. E você precisa cortar o cabelo. -Está cortado como convém -respondeu jordan que se sentiria infeliz com a cabeça rapada como a de Golz.-Tenho, muito em que pensar para me poder ocupar com raparigasdisse de mau humor. E acrescentou: -Que espécie de uniforme devo usar ? - Nenhum. O seu cabelo está bem. Estou a brincar. Somos muito diferentes - tinha acrescentado Golz, enchendo de novo os copos.-Você não pensa nunca em mulheres. Eu nunca penso em nada. Porque pensaria eu? Sou Général Sovietique. Não penso nunca. E não creia que conseguirá fazer-me pensar. Alguém do seu Estado-Maior, sentado numa cadeira e debruçado sobre um mapa estendido num estirador, disse-lhe qualquer coisa em língua que Robert jordan não entendeu. -Cale-se!-disse Golz em inglês.-Posso brincar se assim o entender. Por ser eu muito sério é que posso brincar. Agora beba mais isto e suma-se. Compreendeu? -Sim-disse Robert jordan. -Compreendi. Apertaram-se as mãos e fazendo a continência, o rapaz tinha-se dirigido para o carro militar onde o velho o esperava dormitando e, naquele veículo, pela estrada de Guadarrama, com o velho a dormir sempre, subiram a estrada de Navacerrada até à cabana do Clube Alpino onde Robert jordan tinha dormido três horas antes de prosseguir viagem. Foi a última vez que jordan viu Golz, com o seu estranho rosto branco que nenhum sol queimava, os seus olhos de falcão, ,o nariz grande, os lábios finos, a cabeça rapada e sulcada de cicatrizes. Na noite seguinte diante do Escurial, na estrada escura, longas filas de camiões absorveriam, na sombra, a 15 infhntaria; os homens pesadamente equipados subiriam para os camiões; as metralhadoras


tomariam posição de vigilância; os tanques subiriam pelas calhas para os camiões de transporte ; a Divisão pôr-se-ia em marcha, na noite, para o ataque ao desfiladeiro. Mas Jordan não pensaria nisso. Era com Golz. Ele só tinha uma coisa a fazer e só nela devia pensar, sem mais preocupações. Preocupar-se é tão mau como ter medo. Só serve para tornar as coisas mais difíceis. Sentado à beira da torrente, via correr a água clara por entre as pedras e viu do outro lado um canteiro de agrioes. Atravessou o riacho, colheu um punhado, lavou-o na água corrente e sentou-se ao lado do explosivo a entreter-se com aquela verdura de sabor picante. Depois, ajoelhado à beira da água, e tendo virado o cinto até que a pistola automática lhe bateu nos rins, para não a molhar, baixou-se, apoiado nas mãos e bebeu. Água geladíssima. Erguendo-se deu com o velho que vinha a descer acompanhado de um homem, que vestia também a blusa preta dos camponeses e calças cinzentas desbotadas que, nesta província, eram quase um uniforme, calçado de alparcatas e trazendo a espingarda a tiracolo. Estava de cabeça descoberta e, como o velho, descia pelas pedras com a agilidade do cabrito montês. Aproximaram-se e Robert Jordan pôs-se de pé. -Salud, camarada-disse, sorrindo, ao homem da espingarda. - Salud- respondeu o outro num resmungo. Robert ficou a observar aquele rosto sujo e de barba crescida. Cara redonda, numa cabeça redonda e enterrada nos ombros. Tinha os olhos pequenos e muito afastados um do outro, e as orelhas pequenas e coladas ao crânio. Homem forte, mãos e pés grandes. Uma quebradura no nariz e funda cicatriz no canto da boca e que lhe atravessava a maxila superior surgindo entre os tufos de barba que lhe cobriam o rosto. O velho levantou a cabeça para o companheiro e sorriu. -Este é o chefe, aqui-c, mostrando o bíceps do homem, acrescentou em tom de semi-irónica admiração:-Um homem muito forte. -Estou a ver-confirmou Robert Jordan sorrindo. Não gostava do aspecto do homem e não tinha, interiormente, nenhuma vontade de sorrir. -Tens alguma coisa que prove a tua identidade? -perguntou-lhe o homem. 16 Robert Jordan abriu o alfinete de segurança que lhe fechava o bolso esquerdo da camisa de flanela, tirou um papel dobrado e apresentou-o ao homem, que o abriu, olhando-o duvidosamente e virando-o entre os dedos. Não sabe ler, pensou Robert Jordan. O velho apontou com o dedo o selo que o homem da espingarda examinava apalpando-o com os dedos. -Que selo é este ? -Nunca o viste? -Não. -Pois existem dois-disse Robert Jordan.-Um é o do S. I. M., serviço de informações militares. O outro é o do Estado-Maior. -Sim, já vi este selo. Mas aqui mando eu, e mais ninguém. Que há nesses sacos? -Dinamite -respondeu o velho com orgulho.-A noite passada atravessámos as linhas na escuridão e durante o dia inteiro carregámos a dinamite pela montanha acima. -Sei lidar com dinamite-disse o homem da espingarda, devolvendo o papel a Robert Jordan, com


um olhar de soslaio. -E tenho emprego para ela. Que quantidade me trazes? -Nenhuma -respondeu Robert Jordan tranquilamente. -Esta dinamite tem outro fim. Como te chamas? -E que tens tu com isso ? -Chama-se Pablo-informou o velho enquanto o homem da espingarda assumia um ar carrancudo. -Ah? Ouvi dizer muito bem de ti -disse Robert Jordan. -Que te disseram de mim?-perguntou Pablo. -Disseram-me que eras um excelente chefe de guerrilha, leal à -República e que o provas com actos, além de que és ao mesmo tempo honesto e valente. Trago-te cumprimentos do Quartel-General. -Ouviste de facto tudo isso?-duvidou Pablo e Jordan percebeu que ele não dava qualquer importância aos elogios. -Ouvi-o desde Buitagro ao Escurial-disse o rapaz, referindo-se a toda a zona do lado oposto das linhas. -Não conheço ninguém no Buitagro, nem no Escurial -replicou Pablo. -Há muita gente nova do outro lado da montanha. De onde és ? -Ávila. E que vais fazer com a dinamite? -Rebentar uma ponte. -Qual ponte? 2-S. D. 17 -Isso é comigo. -Se é no meu território é também comigo. Não podes fazer saltar pontes perto do lugar onde moro. Temos que viver num sítio e operar noutro. Eu sei do assunto. Quem ainda está vivo desde há um ano para cá é porque entende do assunto. -A coisa corre por minha conta-disse Robert Jordan. -Havemos de discutir o assunto. Queres ajudar-nos a carregar os sacos? -Não-declarou Pablo sacudindo a cabeça. O velho voltou-se para ele e falou-lhe enèrgicamente num dialecto de que Jordan pouco percebia. Parecia-lhe ouvir recitar Quevedo. Em velho castelhano, Anselmo disse-lhe mais ou menos isto: -És um bruto? Sim. És uma besta? Sim, muitas vezes. Tens miolos? Nenhuns. Agora que viemos tratar de algo realmente importante, é que tu com o amor à lareira pões o teu buraco de raposa acima dos interesses do povo. Vamos. E isto e aquilo e naquilo e naqueloutro do teu pai. E isto e aquilo no teu. Pega já nesse saco. Pablo baixou a cabeça. - Cada um deve fazer o que pode dentro dos limites do possível. Eu vivo nestas bandas e opero para além de Segóvia. Se tu vens para cá arranjar perturbações, seremos perseguidos e expulsos destas montanhas. É não agindo por estes lados que nos aguentamos aqui. Este é o princípio da raposa. -Sim-disse Anselmo com amargura.-É o princípio da raposa e estamos a precisar de um lobo. -Eu sou mais lobo do que tu-disse Pablo; e Jordan percebeu que ele iria levar o saco. -Hi Ho...-Anselmo olhou paxa ele.-Tu és mais lobo do que eu, mas eu já tenho sessenta e oito no lombo... Cuspiu para o chão e abanou a cabeça. -És assim tão velho?-inquiriu Robert Jordan sentindo chegar o momento de arranjar tudo pelo


melhor. -Sessenta e oito em Julho. -Se chegarmos a ver esse mês-disse Pablo. E voltando-se para Robert:-Eu ajudo-te a levar a carga. O velho leva o outro saco.-Falava agora sem azedume, quase com tristeza.-Apesar de velho ele tem muita força. -Eu levo o saco-contrapôs Robert Jordan. -Não-disse o velho.-Dá-o a esse homem, ele é forte. -Eu levo-o-insistiu Pablo, cuja tristeza preocupava Jordan. M Conhecia muito bem aquele sentimento e encontrá-lo ali e naquele momento preocupava-o. -Dá-me então a espingarda -pediu. E quando Pablo lha passou pô-la a tiracolo e avançou seguindo os dois homens que galgavam a encosta pedregosa com diliculdade, até que atingiram o cimo, rumo a uma aberta verdejante. Ladearam aquela aberta e RobertJordan, livre do saco, avançava agora com facilidade. O contacto rígido da espingarda agradava-lhe depois da pesada carga do saco que o tinha coberto de suor. Observou que a erva estava tosada em vários pontos e que várias estacas tinham deixado sinais no solo. E viu um trilho de animais na direcção do bebedouro e estrume ainda fresco. Era evidente que amarravam os cavalos de noite para pastar e escondiam-nos entre as árvores durante o dia. «Quantos cavalos terá Pabio?», pensava ele. Lembrou-se de que tinha observado, mas sem ligar importância de maior ao facto, que Pablo tinha as calças usadas até ao fio nosjoelhos e nas coxas. Será que ele tem botas ou monta mesmo assim de alparcatas?, perguntou-se. Com certeza tem ?m equipamento. Mas não gosto daquele seu ar triste. Má coisa, essa tristeza. É a tristeza que aparece quando os homens estão prestes a desertar ou a trair. É a tristeza do começo do fim. Um cavalo relinchou na floresta, num ponto onde o sol não penetrava e por fim Jordan avistou um cercado feito de cordas amarradas aos troncos dos pinheiros. Os animais estenderam as cabeças ao verem os homens aproximar-se. Fora do curral, ao pé de um tronco, viam-se várias selas empilhadas e cobertas com um encerado. Os dois carregadores pararam e Robert Jordan. compreendeu que era para que ele admirasse os cavalos. -Realmente -exclamou o rapaz.-São bonitos.-E voltando-se para Pablo:-Com que então tens cavalaria e tudo? Havia cinco animais no cercado: três baios, um alazão e um tordiJho. Depois de os ver em conjunto, Jordan examinou-os individualmente. Pablo e Anselmo conheciam o valor dos cavalos, mas enquanto o primeiro impava de orgulho, já menos triste, o velho portava-se como se fosse uma surpresa que tivesse feito a si próprio. -Que te parecem? -perguntou. -Arrebanhei-os/a todos-disse Pablo, e Robert Jordan sentiu prazer em ouvir-lhe o timbre diferente da voz. -Aquele, além-disse o rapaz, apontando o garanhão baio de estrela branca no focinho-deve ser um óptimo reprodutor. 19


Era de facto um lindo cavalo; parecia ter saído de uma tela de Velasquez. -São todos bons-continuou Pablo.-Percebes de cavalos ? -Um bocado. -Muito bem. Notas defeito em algum deles? Robert Jordan percebeu que chegara o momento das suas credenciais serem examinadas pelo homem que não sabia ler. Todos os cavalos continuavam de cabeças erguidas, atentos. Robert Jordan penetrou no cercado e bateu na anca do tordilho; depois, encostando-se às cordas, observou a andadura dos cavalos que volteavam no curral. -O alazão está manco da pata traseira-disse sem olhar para Pablo.-Tem o casco fendido, mas não será nada se for convenientemente ferrado, de contrário estropia-se em terreno duro. - O casco já estava assim quando o apanhei. -O que há de melhor aqui é o garanhão baio de focinho branco, mas está com uma inflamação no colo do fémur que não me agrada. -Não tem importância. Coisa de uma pancada aí há uns três dias. Se fosse coisa grave já se via. Pablo afastou o oleado e mostrou os selins. Havia três selas de vaqueiros: duas simples e uma muito decorada, com couro trabalhado à mão e pesados estribos fechados e duas selas militares de couro preto. -Matámos dois guardias civiles- explicou apontando para as selas dos militares. -Foi uma boa caçada. -Tinham-se apeado na estrada entre Segóvia e Santa Maria del Real para examinar os papéis de um condutor de carroça. Pudemos assim liquidar os homens sem prejudicar os animais. -já mataste muitos guardas-civis? -quis saberjordan. -Muitos, mas sem ferir os cavalos só estes dois. -Foi Pablo quem fez saltar o comboio em Arevalo-lembrou Anselmo.-Foi tudo obra ele. -Estava connosco um estrangeiro incumbido da explosão - disse Pablo. - Conhecia-lo ? -Como se chamava? -já não me lembro. Tinha um rrome esquisito. Como era o tipo ? -Assim loiro como tu, mas não tão alto; tinha umas mãos enormes e o nariz partido. 20 -Kaenkine ?-sugeriu Jordan.-Deve ter sido Kachkine. -Isso mesmo -lembrou-se Pablo.-O nome era muito esquisito, parecido com esse. Que fim teria levado? -Morreu em Abril. -É o que toca a todos-suspirou Pablo melancólico. -Assim havemos de acabar todos. -É como acabam todos os homens-volveu Anselmo. -Foi sempre assim que acabaram os homens. Que diabo tens tu, hombre? Que andas tu a magicar? -Eles estão muito fortes-disse afinal Pablo, como se falasse consigo, olhando tristemente para os cavalos.-Nem imaginais como estão fortes. Vejo-os cada dia mais fortes, mais bem armados. Têm sempre mais material e eu aqui com cavalos como estes. Que me espera? Ser caçado e morto. Nada mais... -Tanto és caça como és caçador-disse Anselmo. -Não-opôs Pablo.-Agora não. Estou cansado de ser perseguido. Mas se tu fazes voar unia ponte nesta região vão da.r-*nos caça. Desde que notem que estamos aqui, mandam os aviões para nos


arrancar da toca. Estou cansado de tudo isto. Percebes?-E voltava-se para Robert Jordan.-Que direito tens tu, um estrangeiro, de me dizeres o que tenho a fazer? -Perdão! Eu não disse o que tinhas a fazer. -Mas hás-de dizê-lo-disÉe Pablo.-E o pior é isso, -rosnou apontando para os dois sacos que tinham trazido. A visão dos cavalos provocara em Pablo aquele assomo de revolta e o facto de RobertJordan perceber de cavalos parecia ter-lhe desatado a língua. Estavam os três de pé, junto da corda do cercado e manchas de sol luziam no pêlo do garanhão baio. Pablo olhou para Jordan e apontou com o pé um dos sacos:-O mal está aí. -Eu vim apenas cumprir ordens-declarou o rapazordens dos que estão a conduzir a guerra. Se te peço ajuda e tu não ma queres dar, procurarei outros que me ajudem. Ainda não te pedi ajuda. Tenho que fazer o que me ordenaram e posso dizer-te que é muito importante. Se sou estrangeiro a culpa não é minha. Por mim eu teria nascido em Espanha. -E para mim o mais importante é não ser perturbado aqui-tornou Pablo.-Os meus deveres são para os que vivem comigo e para comigo mesmo. -Tu e sempre tu-disse Anselmo.-Ouvindo-te acreditamos que não há mais do que tu e os teus cavalos. Enquanto não tinhas cavalos estavas lealmente connosco. Agora és um capitalista como os outros. 21 -És injusto-disse Pablo.-Eu vivo a expôr os cavalos na defesa da causa. -Muito pouco-tornou Anselmo com desprezo.-Na minha opinião muito pouco. Para roubar, sim. Para comer bem, sim. Para assassinar, sim. Mas quanto a combater, não. -Tu és um vèlho que ainda te hás-de perder pela língua. -Sou um velho que não tem medo de ninguém-retorquiu Anselmo.-E também sou um velho que não possui cavalos. -Tu és um velho que não deves durar muito tempo. -Sou um velho que há-de viver até ao dia de morrer e que não tem medo de raposas. Pablo calou-se e pôs o saco às costas. -E dos lobos também não-continuou Anselmo içando o outro saco.-Isto no caso de seres um lobo. -Cala a caixa-ordenou Pablo.-És um velho que fala sempre de mais. -E que faz tudo quanto diz-tornou Anselmo, curvado sob o peso da carga. -E que está agora com fome. E com sede. Vamos lá, chefe de guerrilha da triste figura. Leva-nos a um sítio onde se possa comer alguma coisa. Isto começa mal, pensou Robert Jordan. Mas o velho é um homem. Que povo! Que homens! Os bons são magníficos, incomparáveis. Mas quando são maus, não se pode ser pior. Anselmo devia estar certo do que fazia quando me trouxe para a cova de Pablo. Mas não gosto disto. A coisa não me está a agradar mesmo nada. O único ponto favorável era estar Pablo, a carregar o saco e ter-lhe confiado a espingarda. Talvez seja esse o seu gênio habitual, pensou Robert Jordan. Talvez seja um tipo melancólico. Não, não te deixes enganar, amigo Jordan. Tu não sabes como era este homem antes de o conheceres, mas estás a ver que anda a estragar-se depressa e não se esconde. Quando começar a dissimular é que já tomou uma decisão. Lembra-te disto. A primeira coisa amável que fizer será sinal de que já tomou uma decisão definitiva. Mas os cavalos são realmente bons, magníficos cavalos. Gostaria de saber a coisa que me daria uma sensacão parecida à que os cavalos dão a Pablo. O velho acertou. Os cavalos são a sua riqueza; desde que ficou rico, quer poupar a vida.


Muito em breve estará triste por não poder fazer parte do Jockey Club, aposto. Pauvre Pablo. E a manqué son Jockey. 22 Esta ideia distraiu-o. Sorriu olhando os dorsos curvados e os dois fardos que o precediam entre as árvores. Não tinha tido uma ideia divertida em todo o dia e agora sentia-se melhor. Estás a ficar como os outros, disse para consigo. Andas a cair na melancolia, também. E verdade que tinha estado solene e sombrio na presença de Golz. A missão tinha-o descontrolado um tanto. Não muito, pensou. Mais do que um tanto, totalmente. Golz; estava alegre e tinha procurado distraí-lo antes da partida, mas sem o conseguir. Todos os bons e firmes são alegres, reflectiu Jordan. É muito melhor ser alegre que é sinal de uma coisa: de uma imortalidade terrestre. Que coisa complicada! E já quase não há alegres. A maior parte dos lutadores joviais desapareceu. Restam pouquíssimos. E se continuas a pensar assim, meu rapaz, também estás pronto. Muda de disco, meu caro, velho andarilho, velho camarada. Agora és apenas um instrumento de destruir pontos. Não um pensador. Tens fome, companheiro. Oxalá se coma bem no covil de Pablo. 23 CAPITULO II POR entre os troncos dos pinheiros os três homens atingiram a estreita bacia que formava a extremidade superior da pequena planura. Robert pressentiu que o acampamento se encontrava resguardado pelo rebordo rochoso que se levantava na sua frente, entre as árvores. Era lá que se encontrava o acampamento, com efeito. Ponto excelente que apenas se notava de perto e que nenhum avião podia localizar do ar. Do alto não aparecia. Estava tão bem escondido como uma caverna de urso. Mas não parecia bem defendido. Robert Jordan examinou-o atentamente enquanto subia. Havia na pedreira uma larga gruta e ao lado da abertura estava um homem sentado no chão, encostado à rocha, de pernas estendidas, a espingarda apoiada contra a parede, ao alcance da mão. Estava a afeiçoar um pedaço de pau com a navalha; parou ao vê-los e depois retomou o seu trabalho. -Hola-disse o homem.-Quem vem lá? -É o velho com um dinamítista-disse-lhe Pablo poisando o saco à entrada da gruta. Anselmo pousou também a carga e RobertJordan. encostou a espingarda contra a rocha. -Não deixem isso muito perto da gruta-disse o homem sentado, um rapaz de olhos azuis num rosto cigano, moreno, descuidado e belo, rosto cor de couro curtido.-Há fogo lá dentro. -Levanta-te e leva os sacos para junto daquela árvore -ordenou Pablo. O cigano, porém, não se mexeu e soltou uma obscenidade. Depois: -Deixa-os aí. Vê se rebentas com eles e talvez isso te cure dos teus males. 24 -Que estás a fazer? -perguntou Jordan sentando-se a seu lado. O cigano mostrou. Era uma peça de armadilha. -Para as raposas- explicou. -Das que- desandam e quebram a espinha-disse rindo a Jordan.-E assim-e reproduziu o movimento da armadilha que desaba e apanha a caça incauta; a sua mão fez


de raposa e depois de simulado o golpe abanou-a no ar como se tivesse a espiàha partida.-É coisa muito prática -explicou. -Ele caça mas é coelhos-disse Anselmo.-Ê cigano e por isso diz que apanha raposas, quando o me apanha são coelhos. E se apanhar uma raposa dirá que oi um elefante. -E se eu apanhar um elefante? -indagou o cigano com os alvíssimos dentes à mostra e piscando os olhos para Robert Jordan. -Então dirás que é um tanque-volveu Anselmo. -Pois hei-de apanhar um tanque, e então quero ver o que lhe chamas. -Estes ciganos falam muito e não matam nada, -retrucou Anselmo. O rapaz piscou para Jordan e continuou a alisar o pedaço de pau. Pablo desaparecera dentro da caverna, talvez em busca de comida. Jordan sentou-se no chão ao lado do cigano. A luz morta do crepúsculo atravessava a copa do arvoredo e vinha bater-lhe nas pernas esticadas. Do fundo da gruta começou a vir uni cheiro de comida, azeite, cebolas, carne assada, e Robert Jordan sentia o estômago estremecer de fome. -Podemos apanhar um tanque, claro-disse Jordan ao cigano.-Não é tão difícil como parece. -Com aquilo? -perguntou o cigano apontando os sacos. -Sim-respondeu Jordan.-Hei-de ensinar-te. Faz-se uma armadilha. Não é muito difícil. -Nós dois? -Pois. Porque não? -Eh!-gritou o cigano para Anse-Imo.-Põe esses sacos em lugar seguro, sim? São de muito valor para nós. -Vou buscar vinho-resmungou Anselmo. Jordan levantotimse, tirou os sacos de onde estavam e encostou-os um de cada lado do tronco de uma árvore. Sabia o que continham e não gostava de os ver muito juntos. -Traz-me uma caneca-pediu o cigano. -Há vinho por aqui?-perguntou Jordan voltando a sentar-se ao lado do cigano. -Vinho? E porque não? Temos um odre cheio.. ou, antes, temos aí um meio odre. -E para comer, que há? -De tudo, hombre. Nós comemos como generais. -E que fazem os ciganos na guerra? - Continuam ciganos. -Boa profissão. -Se é!-concordou o rapaz.-Como é que te chamas? -Roberto. E tu? -Rafael. Esse negócio do tanque é a sério? -Porque não havia de ser? Anselmo surgiu do fundo da gruta com uma grande malga de pedra cheia de vinho tinto e, enfiadas nos dedos, as asas de três canecas. -Olhem-disse ele.-Têm canecas e tudo.-Pablo surgiu atrás dele. -A comida não dem&a. Trouxeste cigarros? jordan dirigiu-se aos sacos, abriu um e, tacteando, tirou de dentro uma caixa de cigarros russos, obtida no Quartel-General de Golz. Cortou com a unha do polegar o selo da tampa, abriu-a e apresentou-a a Pablo, o qual tirou meia dúzia e examinou um de encontro à luz. Eram cigarros compridos e finos, com boquilha de cartolina. -Muito ar e pouco tabaco. Conheço o género. O outro, o de nome esquisito, também usava destes


cigarros. - Kachkine -lembrou novamente jordan e estendeu a caixa ao cigano e ao velho, que tiraram um cada um. -Tirem mais-disse o rapaz, e eles tiraram outros dois. jordan deu a cada um mais quatro que eles agradeceram militarmente «apresentando» os cigarros como se fossem uma espada. -Pois é-disse Pablo-tinha um nome pouco vulgar. -Aqui está o vinho-anunciou Anselmo mer lhando a gu caneca na malga de pedra e apresentando-a a jordan; depois serviu o cigano e serviu-se a si próprio. -E não há vinho para núm?-perguntou Pablo. Estavam todos sentados próximo da entrada da gruta. Anselmo deu-lhe a sua caneca e mergulhou na gruta à procura de mais. Ao voltar encheu a caneca que trouxera; todos beberam às respectivas saúdes. O vinho era bom, apesar de um leve ressaibo acre devi-do ao odre; leve, porém, claro e de excelente paladar. Robert jordan saboreava-o devagarinho, sentindo-se aquecido e reanimado do cansaço. -A comida não demora-disse Pablo.-E como morreu o estrangeiro de nome esquisito? -Foi capturado e matou-se. 26 - Como se passou isso ? -Estava ferido. e não queria ser feito prisioneiro. -Sabes os pormenores? -Não sei-mentiu Jordan, pois conhecia muito bem todas as particularidades; mas não achava conveniente expô-Ias naquele momento. -Tinha-nos obrigado a prometer que o mataríamos se acaso fosse ferido no ataque ao comboio e não pudesse escapar-se -informou Pablo.-Falou-nos de um modo muito estranha. já devia estar com as faculdades alteradas, pensou Jordan. Pobre Kachkine. -Aquele homem tinha ideias sobre o suicídio-continuou Pablo.-Foi pelo menos o que me disse. E tinha também um grande medo da tortura. -Também falou nisso? -perguntou Robert Jordan. -Sim-respondeu o cigano-falou-me a mim e a todos. Todos aqui estiveram no comboio? -Sim, estivemos todos no comboio. -Falou-nos de um modo estranho -continuou Pablo mas era verdadeiramente um bravo. Pobre Kachkine, pensou Robert Jordan. Deve ter feito mais mal que bem por aqui. Será que já estava com a bola desarranjada naquele tempo? Não o deviam ter encarregado da missão se ele já falava assim. Não é maneira de falar que se possa empregar. Mesmo quai~do cumprem a missão fazem mais mal do que bem num caso destes. -Ele não era um tipo comum-observou Robert Jordan. -Creio mesmo que era meio maluco. -Mas muito hábil para provocar explosões -opinou o cigano. -E valentíssimo. -Mas maluco-comentou Robert.-Para estas missões é mister cabeça boa e fria. Quem fala como ele falava não serve. -E tu? Se no caso da ponte fosses ferido querias ficar para trás?-perguntou Pablo. -Escuta -respondeu Jordan inclinando-se para a frente para encher a caneca.-Se tiver algum pequeno serviço a pedir a um homem só lho pedirei no último instante. -Está certo-aprovou o cigano.-É assim que falam os bons. Eli! Lá vem a paparoca!


-Mas tu já comeste? Não?-perguntou Pablo. -Mas ainda posso comer mais duas vezes-disse-lhe o cigano.-Vejamos o que é. Uma rapariga veio dos fundos com um graride prato de ferro com a comida : fordan viu-a meio de Derfil e reDarou loco no que ela tinha de estranho. Ela sorriu e cumprimentou, -Hola, camarada. - Salud! - respondeu o rapaz tendo o cuidado de não a fitar e de não virar o rosto. A moça laxgou o prato diante dele. Lindas mãos morenas! Olhou-o de frente e sorriu. Os dentes brancos ressaltavam no tom moreno do rosto e os seus olhos eram de um castanho dourado. Maçãs do rosto safientes, olhos alegres, lábios cheios. Os cabelos, do tom de um campo de trigo queimado pelo sol, mas trazia-os cortados muito curtos e faziam lembrar a pelagem de um castor. Ao sorrir levou à cabeça a mão morena, alisando-os. Nada adiantou. De novo se eriçaxam. Bonita caxa, pensou Jordan e mais linda seria se não a tivessem tosquiado assim. -É assim que eu os penteio-disse ela ainda a sorrir. -Vamos lá, coma. Não me olhe assim. Cortaram-me o cabelo em Valladolid, mas já está a crescer. Sentou-se diante dele a olhá-lo. Ele correspondia ao seu olhar e ela sorriu com um dos joelhos presos nas mãos enclavinhadas. As suas pernas surgiam, longas e puras, das suas calças de homem enquanto estava assim sentada. Os pequenos seios túrgidos moldavam-se sob a camisa cinzenta. De cada vez que a olhava, RobertJordan sentia um aperto na garganta. -Aqui não há pratos-avisou Anselmo.-E cada qual que use a sua faca.-A rapariga tinha pousado quatro garfos junto do prato de ferro. Puseram-se todos a comer, calados, como fazem os espanhóis. O petisco compunha-se de um coelho guisado com cebolas e pimentos verdes e ervilhas em molho de vinho tinto. Coisa bem feita. A carne de coelho desprendia-se dos ossos e o molho estava delicioso. Jordan ingeriu outro copo de vinho enquanto comia. A moça observava-o. Os outros também. Jordan limpou o resto do molho com um pedaço de pão, fez o mesmo ao garfo e comeu o pão. Encheu novamente a caneca de vinho e a moça sempre com os olhos nele. Aquele estranho aperto na garganta ainda persistia. -Como te chamas? -perguntou. Dando-se conta do estranho tom da sua voz, Pablo olhou-o vivamente. Depois ergueu-se e afastou-se. -Maria -respondeu a moça.-E tu? -Roberto. Estás há muito tempo nas montanhas? -Três meses. -Três?-repetiu ele com os olhos no cabelo dela, cabelo arrepiado como um campo de trigo que o vento faz balouçar. - Foi rapado à navalha - explicou a moça. - Raparam-me a cabeça na prisão de Valladolid. Para crescer como está, 28 demorou três meses. Iam levar-me para o sul. Muitos prisioneiros foram agarrados depois do comboio explodir, mas eu escapei. im parar aqui. -Encontrei-a escondida atrás das Dedras-informou o cigano. -Estava um verdadeiro bicho. Trouxemo-Ia connosco, mas por pouco não a largámos no


caminho, várias vezes. -E o outro que estava com eles no comboio? -perguntou Maria.- quele louro, o estrangeiro, que fim levou? -Morreu-disse Jordan.-Morreu em Abril. -Em Abril? Como pode ser isso se o comboio foi em bril ? -Sim-respondeu Jordan.-Ele morreu dez dias depois do comboio. -Pobre homem. Era muito valente. E tu? Fazes o mesmo 1 trabalho ? -Sim. -Tá rebentaste comboios? -já. Três. -Aqui? -Na Estremadura. Estive na Estremadura antes de vir para aqui. Fizemos muita coisa na Estremadura. Há muitos dos nossos a oDerar na Estremadura. -E porque vieste parax a estas montanhas? -Substituir o outro louro. Eu iá conhecia a zona antes do movimento. -Conhecia-Ia bem? -Mais ou menos. Mas aprendo depressa. Tenho um bom mapa e um Dom gula. -O velho, sim-concordou Maria.-Ele é muito bom. -Obrigado -murmurou Anselmo. Jordan compreendeu que não estava só e que lhe era difícil atentar naquela rapariga porque o tom da sua voz mudava. Estava a violar a segunda regra de boa conduta dos povos que falam espanhol, dar tabaco aos homens e não se meter com as mulheres. Mas que lhe importava tal regra? Havia tantas coisas que para ele não tinham ímDortância. -Tens uma linda cara-disse para a moça.-Gostava de te ter visto antes de te cortarem o cabelo. -O meu cabelo crescerá de novo. Em seis meses fica bom. -Eu queria que a visses quando a trouxemos -rosnou


Anselmo.-Feia de fàzer doer. -Es a mulher de quem? -perguntou j ordan para liquidar a questão.- e Pablo? Ela olhou-o e riu, dando-lhe uma p mada no ioelho. -De Pablo? Tu reparaste no Pablo? -De Rafael, então. Reparei em Rafael. -De Rafael também não. -De ninguém-disse o cigano.-É uma estranha criatura que não pertence a ninguém, mas que cozinha regularmente. -Não és de facto de ninguém? -insistiu Jordan. -De ninguém, sim, nem a brincar nem a sério. Nem tua, igualmente. -Não?-e Jordan sentiu de novo o aperto da garganta. -Bom. Eu não tenho tempo para lidar com mulheres. A verdade é esta. -Nem quinze minutos? -perguntou o cigano de brincadeira.-Nem um quarto de hora?-Jordan não respondeu; tinha os olhos na moça, sempre com a garganta apertada. Maria encarou-o e riu-se; depois corou mas sem tirar os olhos dele. .-Coraste, hem?-disse Jordan. -Costumas corar muitas vezes? -Nunca. -Mas agora coraste. -Então volto lá para dentro. -Não vás. Fica. -Vou, sim-respondeu Mariajá séria.-Vou para dentro. -E apanhou o prato vazio e os quatro garfos. Caminhava sem harmonia, como um potro, mas com a graça dos animais novos. -Precisam das canecas? -perguntou. Jordan estava com os olhos nela e viu-a corar novamente. -Não me faças corar. Não gosto. -Deixa as canecas-gritou o cigano. E pegando numa encheu-a de vinho oferecendo-a a Jordan. Este apanhou-a, distraido, ainda com os olhos na moça. Maria desapareceu no escuro da caverna. -Obrigado, Rafael. Esta é a última.-Tinha já a voz normal.-Já bebemos de mais. -Temos de esvaziar a malga - observou o cigano. -O odre ainda está pelo meio. Podemos levá-lo num dos cavalos. -Foi a última presa de Pablo-informou Anselmo. -Não fez mais nada depois de apanhar esse vinho. -Quantos são aqui? -Sete homens e duas mulheres. -Duas? -Sim. Há ainda a mujer de Pablo. -Onde? 30 -Nos fundos. A rapariga pouco sabe cozinhar; eu disse que era boa cozinheira para a lisonjear. Na verdade apenas ajuda a mujer de Pablo.


- E como é essa mujer de Pablo ? -Um tanto bárbara -respondeu o cigano sorrindo. -E às vezes até muito bárbara. Mas valente. Cem vezes mais valente que Pablo. -Pablo era valente no começo - interveio, Anselmo. -Foi uma coisa muito séria no começo. -Sim, matou mais gente do que a cólera-disse o cigano. -No começo do movimento Pabio matava mais gente do que o tifo. -Mas já há muito tempo que está muy flojo-comentou Anselmo. -Medroso; tem medo de morrer. -Talvez seja por ter morto muito no começo-lembrou o cigano filoso'ficamente.-Pablo matou mais que a peste. -Isso e os despojos que recolheu -acrescentou Anselmo. -Também bebe muito. Agora pensa em reformar-se, como um matador de toros. Mas não pode. -Se ele passar para o outro lado das linhas tiram-lhe os cavalos e metem-no no Exército -advertiu o cigano.-Eu também não gosto muito do Exército. -Nenhum cigano gosta do Exército -lembrou Anselmo. -E porque haviam de gostar? Ninguém quer entrar para o Exército. Então fizemos a revolução para cair no Exército? Gosto de lutar, mas não no Exército. -Onde estão os outros?-indagou Jordan, sentindo-se bem e sonolento do vinho. Deitado de costas via, através das copas dos pinheiros, brancas nuvens boiando naquele céu de Espanha. -Há dois que estão a dormir na caverna -informou o cigano.-Outros dois estão de guarda no sítio onde temos a metralhadora. Um está de sentinela. Provàvelmente estão todos a dormir. Jordan voltou-se de lado. -Que tipo de metralhadora? -Um nome difícil que me escapa, agora. É uma arma de repetição. Deve ser uma espingarda-metralhadora, pensou Robert Jordan. -Quanto pesa essa arma ?-perguntou. -Um homem pode carregá-la, mas é pesada. Tem três pernas de dobrar e desdobrar. Capturámo-la num dos últimos raides, no último antes do vinho. 31 -Quantas cargas há aqui para essa metralhadora? -Uma infinidade -disse o cigano.-Uma caixa completamente cheia e pesadíssima. Devem ser uns quinhentos, pensou Robert Jordan. -Metem-se em -Utas o u em carregadores? -Com pedaços de ferro redondos em cima do cano. Diabo, deve ser uma Lewis, pensou Robert Jordan. -Sabes alguma coisa de armas automáticas? -perguntou ao velho. -Nada-respondeu Anselmo.-Mesmo nada. -E tu?-perguntou ao cigano. -Sei que atira com muita rapidez e o cano se torna tão quente que ninguém pode pôr a mão em cima-informou o rapaz com orgulho. -Isso toda a gente sabe-disse Anselmo com desprezo. -Pode ser, mas ele perguntou-me o que eu sabia da máquina e eu respondi. E sei mais. Ao contrário das espingardas comuns, aquela máquina continua a atirar enquanto se aperta o gatilho. -A não ser que se encrave, lhe faltem as munições ou que o cano aqueça tanto que comece a


fundir-murmurou Robert Jordan em inglês. -Que estás a dizer?-indagou Anselmo. -Nada-respondeu Robert.-Estava apenas a imaginar o futuro em inglês. -Aí está uma coisa rara, prever o futuro em ingIés. Sabes ler na palma da mão? -Não sei-disse Jordan enchendo a caneca de vinho. -Se tu sabes quero que leias na minha o que se vai passar nestes três dias mais próximos. -A mujer de Pablo lê muito bem nas mãos-informou o cigano-mas é tão irritadiça e tão bárbara que nem imaginas. Jordan sentou-se e bebeu um gole de vinho. -Vamos lá ver essa mujer de Pablo -disse. -Quero ver se ela é assim tão danada. - Eu é que não me meto com ela-murmurou Rafliel. -odeia-me. -Porquê? -Considera-me um vagabundo. -Que injustiça! -escarneceu Anselmo. -E- inimiga de todos os ciganos. - Que erro!-continuou Anselmo. E é de sangue cigano. Sabe o que diz quando fala mal deles-e Rafael riu-se.-Mas tem uma língua que queima e 32 morde como um vergalho de boi. É língua que arranca a pele a qualquer homem. Despedaça. Mulher de uma barbaridade incrível. -E como se dá ela com a rapariga, a Maria? - O melhor possível. Gosta da Maria mas não deixa que ninguém se aproxime dela.-E, sacudindo a cabeça, deu estalos com a língua. -Sim, é muito boa para a rapariga -confirmou Anselmo. -Trata bem dela. -Quando nós descobrimos a Maria, na altura do negócio do comboio-contou Rafael-ela estava, como já disse, um bicho. Não falava e chorava continuamente; se alguém lhe tocava com um dedo tremia como um cachorro molhado. Só últimamente é que melhorou. Hoje está firme. Não viste como ela conversou? Devíamos tê-la deixado lá ficar. Asneira ter perdido tempo com uma criatura tão triste, tão feia e aparentemente sem valor nenhum. Mas a velha amarrou-a com uma corda e quando a rapariga dizia que não podia andar mais a velha pô-la às costas, e quando a velha se cansava era eu quem a trazia. Estávamos a subir o monte, com mato até à cintura. E quando eu me cansava era Pablo quem a carregava. Mas o que a velha nos disse para nos forçar àquele trabalho! (e abanou a cabeça ao recordar-se). Verdade seja que a Maria não pesa muito. Tem ossos leves. Mas foi duro termos de carregá-la e pararmos para combater e depois voltar a carregá-la com a velha a bater em Pablo com uma corda e carregar a arma dele e entregar-lha quando ele largava a rapariga e fazê-lo carregá-la de novo enquanto carregava a pingarda entre maldições. Quando começou a escurecer, que grande alívio! A nossa sorte, porém, foi que eles não tinham cavalaria. e, -Deve ter sido um osso bem duro de roer-observou Anselmo.-Eu não estava no comboio -explicou a Robert Jordan.-Foi coisa dos bandos de Pablo e El Sordd, que veremos esta noite, e mais dois bandos das montanhas. Eu andava do outro lado das linhas.


-Com o louro, de nome esquisito -acrescentou o cigano. Kachkine. -Isso mesmo. E um nome que nunca decoro. Tínhamos dois tipos com uma metralhadora, também enviados pelo Exército. Mas não puderam conduzir a metralhadora e perderam-na. Tenho a certeza de que não pesava mais do que a rapariga e se a velha estivesse lá, queria ver se a carregavam ou não-abanou a cabeça recordando-se e depois prosseguiu: 3- S. D. 33 -Nunca na minha vida tinha visto uma explosão igual. O comboio marchava com velocidade regular. Via-se de longe. E eu estava tão nervoso que nem sei dizer. Primeiro vimos o fumo e depois o silvo do apito. Depois aproximou-se, chu-chu -Chu-chu-chu-chu, cada vez mais forte e depois, no momento da explosão, as rodas da frente da locomotiva ergueram-se. Dir-se-ia que toda a terra explodia e se levantava numa grossa nuvem negra. A locomotiva saltou no ar com uma nuvem de terra, as traves~as foram levantadas como por encanto e depois a locomotiva caiu de lado, como um grande animal ferido, e holiv- upi-a explosão de vapor branco antes que a terra da. prime!_-,~ explosão tivesse acabado de cair. E a máquina começou rá-táta-(-(,~,tinuou o rigario abanando os dois punhos cerra dus, e baixando-os, polegares dobrados, mane j,trido iiiii,~ rretralhadora imaginária. - Ratatá-tá-tá- gritava ele na minha vida assisti a nada seme Ihante: ;_-is tropas saiam do comboio caído e eram apanhadas pela ?ndqin??a e toniba,, ~i ni. Foi nesse momento que pus a mão ro cano &. m(Í~uÍna e me (jueimei e a velha deu-me uma bofe tada, gr.'~,ando: « - \iini, idiota! Atira ou esmago-te essa cabeça!y, I- ritão recomecei a atirar mas era difícil manter a --=a apontada e os soidados escondiam-se na montanha. Depois, n,u~indo descemos para ver o que podíamos aproveitar do combi)in, um oficial, de pistola em punho, forçou os sol d.i.dos a -~oItarem-se contra nós. Ameaçava-os com a pistola e grit,-,.va e n~s atirámos sobre ele mas nunca o apanhámos. l-',ntão o ~ soldados deitai,,rri-se de bruços e começaram a atirar e o oli~ ai ia de uni lado para outro atrás deles, mas nunca o cOllsegu.,r~os apan1 lar e a máquina não podia atirar sobre ele por causa <ia posiçao do comboio. Este oficial matou dois dos s(,us homens no chão e apesar disso os outros não se queriam levantar e ele arrastava-os até que acabaram por levantar-se, vin, priniciro, depois dois, depois três e correram para nós t, para o comboio. Então partimos com a máqui . na sempre a fiLzer fogo. Foi nesse momento que encontrei a rapariga, que tinha fugido do comboio, nos rochedos e ela fugiu connosco. Os soldados perseguiram-nos até à noite. -Deve ter sido um bom osso-comentou Anselmo.


-Foi a única coisa boa que fizemos-disse uma voz áspera.-E que andas tu a fazer agora, porcalhão, filho de uma vaca cigana? Que andas a fazer, esterco? jordan viu uma mulher aí de uns cinquenta anos, quase tão grande como Pablo, grossas meias de lã, alparcat" e um rosto moreno que poderia servir dc modelo para um monu34 mento de granito. Mãos grandes mas bem feitas e cabelos ondulados apanhados em pitote sobre a nuca. -Vamos, responde-disse ela ao cigano, sem prestar atenção aos outros. -Estava a conversar com os camaradas. Aquele veio como dinamitista. -já sei tudo isso-disse a mujer de Pablo.-Põe-te a andar e vai render Andrés que está de guarda lá em cima. -Me voy-disse o cigano. E para Robert Jordan:-Ver-te-ei à hora da comida. -Não penses nisso nem a brincar -disse-lhe a mulher. Hoje já comeste três vezes, segundo as minhas contas. Vai e diz a André para descer. -Hola-disse a Robert Jordan estendendo-lhe a mão e sorrindo.-Como vais tu e como vão as coisas da República? -Bem-respondeu Jordan apertando-lhe a mão.-Tanto eu como a República. -Gosto disso-disse ela olhando-o de frente e sorrindo. Ele notou os belos olhos cinzentos que a mulher possuía.Vieste para rebentar com outro comboio? -Não-disse Robert Jordan sentindo que podia confiar nela.-Agora é para uma ponte. -jVo es nada. Uma ponte não é nada. Quando atacaremos outro comboio, agora que temos cavalos? -Mais tarde. Esta ponte é de grande importância. -A rapariga contou-me que aquele camarada que esteve connosco na explosão do comboio morreu. -É verdade. -Sinto muito. Nunca vi uma explosão como aquela. O homem tinha talento. Gostei bastante dele. Não poderemos rebentar outro comboio, agora? Hoje dispomos de muitos homens nas montanhas. Muitos! Até está a ser difícil arranjar comida. O melhor seria sairmos daqui; temos cavalos. -É preciso fazer voar esta ponte. -Onde fica essa ponte? -Muito perto. -Tanto melhor-disse a mujer de Pablo.-Acabernos com todas as pontes daqui e fujamos. Estou farta. Há muita gente. Nada de bom pode vir disto, além de que a estagnação está a fazer-me mal. Interrompeu-se ao avistar Pablo entre os pinheiros. -Borracho! -gritou. -Bêbedo. Bêbedo ordinário.-Virou-se para Jordan alegremente. -Levou um odre de vinho para beber sózinho na floresta. Está sempre a beber. Esta vida 35 mata-me. Rapaz, estou muito contente por teres vindo-disse-lhe batendo-lhe nas costas. - Ah, és mais forte do que pareces. -Apalpou-lhe os músculos dob a camisa de flanela.-Bem. Estou contente com a tua chegada. -Eu também. -E havemos de nos entender. Toma uma caneca de vinho.


-já bebi muitas. Mas tu queres? -Só na hora das refeições. Fora disso queima-me o estômago.-E voltando-se para Pablo: -Borracho! -gritou-lhe. -Bêbedo! -Virou-se para Robert jordan abanando a cabeça. -já foi um bom homem. Hoje não vale nada. E ouve o que te vou dizer. É preciso ser muito bom e muito delicado para a rapariga. Ela passou um mau bocado. Compreendes? -Sim. Mas porque dizes isso? -Notei como ela ficou depois de te ver entrar aqui. Esteve a espiar-te antes de aparecer. -Brinquei um pouco com ela. -A Maria andou num estado verdadeiramente lastimável. Agora está melhor, mas precisa de sair daqui. -Poderá atravessar as linhas com Anselmo. -Sim. Tu e o Anselmo podem levá-la quando isto acabar. Jordan sentiu de novo o aperto da garganta e a sua voz mudou: -Podemos fazer isso-disse. A mujer de Pablo olhou-o abanando a cabeça: -Ai, ai. Todos os homens são a mesma. coisa. -Eu não disse nada. Ela é muito bonita, como sabes. -Não, ela não é bonita; está a tornar-se bonita-emendou a mulher.-Os homens! É uma vergonha para as mulheres serem as mães dos homens. Não. Estou a falar a sério. Não haverá na República casas para raparigas como esta? -Há-respondeu Robert jordan.-Há boas casas, sim, na costa, perto de Valência. E noutros sítios. Lá dão-lhe abrigo e ela poderá lidar com crianças. Há as crianças das cidades evacuadas. Lá a ensinarão a trabalhar. -É o qge eu quero-disse a mujer de Pablo.-Pablo anda pelo beiço. E outra coisa que o está a arruinar. Acho indispensável que ela vá o mais depressa possível. -Podemos levá-la quando isto tiver acabado. -Senta-te-disse a mujer de Pablo.-Não te p5ço promessas porque aquilo que tem de acontecer acontece. E apenas para o caso de ndo quereres levá-la que eu falo. 36 Porquê se eu não quiser levá-la? -Porque não quero vê-Ia maluca quando tu partires. Ela já esteve maluca antes e tenho mais que fazer que aturá-la. -Levamo-la depois da ponte saltar-disse RobertJordan. -Se estivermos vivos depois da ponte saltar, levamo-la. -Não gosto de te ouvir falar assim. Falar assim nunca dá sorte. -Só falei assim para fazer a promessa. Não sou daqueles que para falar fazem um carão triste. -Deixa-me ver a tua mão-disse a mulher. Robert Jordan estendeu a mão; a mulher abriu-a sus. tentando-a com a sua, passou-lhe o polegar sobre a palma, examinou-a atentamente e depois deixou-a cair. Levantou-se também e encarou-o sem sorrir. -Que viste tu?-perguntou-lhe Robert jordan.-Não acredito nisso. Não me meterás medo. -Nada-disse ela.-Não vi nada. -Sim, tu viste. É só por curiosidade. Não acredito nessas coisas. -Em que acreditas tu, então?


-Em muitas coisas, mas não nessas. -Em quê? -No meu trabalho. - Sim, vi isso. -Dize-me o que viste mais. -Não vi mais nada-disse ela secamente. -Disseste que a ponte era um caso difícil? -Não. Disse que era importante. -Mas talvez seja difícil? Sim. Talvez. E agora preciso de ir estudá-la. Quantos homens há aqui? -Cinco bastante bons. O cigano não vale nada mas tem boas intenções. Em Pablo já não tenho confiança. -E quantos homens bons tem El Sordo? -Talvez oito. Esta noite já o saberemos porque ele vem cá. É um homem muito prático. E também tem, dinamite. Mas não muita. Tu vais falar com ele. -Mandaste-lhe recado? -Ele vem todas as noites. É nosso vizinho e não só amigo como camarada. -Que ideia fazes dele? -Um homem muito bom e muito prático. No caso do comboio foi formidável. -E nos outros bandos? 37 -Avisando-os a tempo será possível reunir cinquenta espingardas de alguma confiança. -Que grau de confiança? -Isso depende da gravidade da situação. -E quantos tiros há por espingarda? -Talvez uns vinte. Depende dos que eles trouxerem para a tarefa, que lhes não deve interessar muito. Lembra-te de que nesta ponte não há nem dinheiro nem pilhagem a fazer e, ainda que tu o não digas, muito perigo. Esqueces-te de que depois disso é preciso abandonar a montanha. Muitos irão contra este negócio da ponte. -Naturalmente. -Nesse caso é bom que não toques no assunto senão quando for indispensável. -Estou de acordo. -Então estuda a ponte para falares à noite com El Sordo. -Vou descer com o Anselmo. -Acorda-o então-disse ela.-Queres uma espingarda? -Obrigado. Será bom levá-la, mas não a usarei. Só quero ver, sem fazer barulho. Obrigado pelo que me disseste. Gostei muito da tua maneira de encarar as coisas. -Procuro falar com franqueza. -Então diz o que viste na minha mão. -Não-disse ela abanando a cabeça.-Não vi nada. Agora vai lá para a tua ponte. Eu tratarei da tua bagagem. -Tapa-a e não deixes ninguém aproximar-se dela. E é melhor ficar aqui do que metê-la na caverna. -Vou tapá-la e ninguém lhe mexerá. Agora vai lá para a tua ponte. -Anselmo-gritou o rapaz pondo a mão no ombro do guia que estava a dormir com a cabeça nos


braços. O velho levantou a cabeça. -Sim-disse.-Ah, sim. Vamos. CAPITULO III DESCIAM OS últimos duzentos metros da íngreme encosta, caminhando sob os últimos pinheiros, cautelosamente, procurando alcançar, de árvore em árvore, a ponte lá em baixo. O sol mortiço da tarde, que ainda batia na encosta, ilumm*ava aquela ponte escura, lançada sobre o abrupto vazio da garganta. Era metálica e de um só lanço, com uma guarita de sentinela em cada uma das entradas. Tinha largura que permitia a passagem de dois carros lado a lado e num elegante arco de ferro transpunha a garganta no fundo da qual corria entre penhascos um riacho, afluente do rio que deslizava no sopé do desfiladeiro. Jordan caminhava contra a luz, de modo que apenas via a ponte em silhueta. Mas afinal o Sol foi descambando e desapareceu. Só então, olhando através das árvores para a encosta que tinha descido, notou que era um tapete de verde novo, com manchas de neve velha no alto. Pousou os olhos na ponte e observou-lhe a construção, aproveitando-se da luz fraca do fim do dia. O problema da demolição não era difícil. jordan pegou no caderno de notas e traçou rápidos esboços, mas não calculou as cargas, fá-lo-ia depois. Estava anotando os pontos em que o explosivo deveria ser colocado de modo a destruir o apoio do arco e fazê-lo desabar na garganta. Isso podia ser realizado sem pressas, correcta e cientificamente' com meia dúzia de cargas de explosão simultânea. E também podia ser feito com duas cargas maciças, que neste caso tinham que ser colocadas nos dois extremos para explodir simultâncamente. Jordan traçou ràpidamente os esboços, satisfeito por ter um problema para resolver e por poder entregar-se à sua solução. Depois fechou o caderno, meteu o lápis na ranhura de couro da capa e meteu o caderno no bolso, que fechou. 39 Enquanto ele fazia aquilo, Anselmo vigiava a estrada, a ponte e as guaritas das sentinelas. Achava que se tinham aproximado de mais e sentiu-se aliviado quando Jordan deu o exame por findo. Depois de guardado o caderno o rapaz deitou-se atrás de um pinheiro e ficou a olhar para o que tinha à frente. O velho bateu-lhe no ombro e apontou. Na guarita fronteira aparecia a sentinela, sentada, com a baioneta entre os joelhos. Fumava um cigarro e trazia na cabeça um gorro de malha e sobre os ombros uma capa feita de um cobertor. A cinquenta metros não se lhe distinguia o rosto. Robert Jordan pegou no binóculo para a examinar. Fez sombra com as mãos sobre as lentes, se bem que não houvesse sol para se reflectir, e viu aparecer o parapeito-da ponte, tão nítido que se julgaria poder tocá-lo com a mão; o rosto da sentinela surgiu tão claramente que Robert Jordan distinguiu as maçãs salientes, a cinza do cigarro e o brilho baço da baioneta. O homem tinha um rosto típico de camponês, faces chupadas e maçãs salientes, mãos grandes, sapatos grossos. Um velho odre de vinho de couro enegrecido estava pendurado dentro da guarita; viam-se também alguns jornais mas não havia telefone. Mas devia haver telefone em ponto invisível dali, embora, mesmo com o binóculo, fosse impossível distinguir os fios externos. Uma linha telefónica marginava a estrada e os fios atravessavam a ponte. Havia à entrada da guarita, um fogareiro de carvão feito com uma iata de petróleo vazia,


sem tampa e com alguns buracos feitos nos lados; estava assente sobre duas pedras e apagado. Algumas latas de conserva vazias e enegrecidas pelo fogo estavam entre as cinzas. Jordan ofereceu o binóculo ao velho, deitado junto dele. Anselmo sorriu e meneou a cabeça indicando os olhos com,, o dedo. -ra lo veo-disse quase sem mover os lábios, num silencioso murmúrio. Olhava a sentinela, enquanto Robert Jordan sorria e depois, apontando-a, correu o dedo pela garganta. Jordan concordou, mas não sorriu. A guaxita situada do lado oposto estava em posição tal que dali nada se podia ver para dentro dela. A estrada, larga, alcatroada, bem construída, virava à esquerda, na outra extremidade da ponte e sumia-se numa curva para a direita; tinha sido alargada naquele ponto com desgaste da pedreira marginal; a sua margem esquerda, ou ocidental, descendo da garganta e da ponte, era ladeada por uma muralha de blocos 40 de pedra. A garganta, naquele ponto, era quase um abismo e o ribeiro, que a ponte atravessava, lançava-se na torrente que descia da garganta. -E o outro posto? -perguntou RobertJordan a Anselmo. -Fica quinhentos metros abaixo daquela curva, na cabana do c,.ntoneiro construída ao lado da pedreira. -Quantos homens? -perguntou Robert Jordan. Jordan fez a pergunta enquanto observava através do binóculo. A sentinela pôs-se de pé, tirou da algibeira a bolsa de couro do tabaco e enrolou um cigarro. Para isso encostou a arma contra a guarita e espreguiçou-se; depois retomou a espingarda, pô-la ao ombro e caminhou até ao começo da ponte. Anselmo colara-se ao chão. Jordan enfiou o binóculo no bolso e quedou-se escondido atrás do tronco. -Há sete homens e um cabo - cochichou Anselmo. -Perguntei ao cigano. -Logo que a sentinela se distrair sairemos daqui-disse jordan.-Estamos muito perto. -já viste tudo o que querias ver? -Sim, já vi tudo. A temperatura descia ràpidamente depois do Sol ter desaparecido. A luz era cada vez menor enquanto se extinguia o derradeiro lampejo sobre as montanhas situadas atrás dos dois homens. -Que te parece? -sussurrou Anselmo, enquanto o soldado atravessava a ponte na direcção da outra guarita, de espingarda ao ombro, a baioneta luzindo sob um último raio de luz, a silhueta informe embrulhada no cobertor. -Muito bem. Mesmo muito bem. -óptimo. Nesse caso podemos voltar. Ele não nos poderá ver. A sentinela estava de pé, de costas voltadas, na outra extremidade da ponte. Da garganta subia o ruído da corrente contra as rochas. Depois, e através deste ruído, infiltrou-se um ronco regular, e eles viram a sentinela examinar o céu, com o gorro atirado para trás; então, voltando a cabeça e olhando também para o ar viram, no alto céu crepuscular, três monoplanos em formação de V; os aparelhos assemelhavam-se, naquela altura ainda iluminada pelo Sol, a delicados objectos de prata; atravessaram o céu com extraordinária velocidade, na cadência regular dos motores. -Nossos? -inquiriu Anselmo. -Parece-disse Jordan, mas sem certeza nenhuma, porque voavam muito alto e tanto podiam ser patrulha


41 nocturna de um lado como de outro.-Devemos dizer sempre que os aviões de caça são nossos, porque a nossa gente fica mais satisfeita. Com os de bombardeamento a coisa é outra. Anselmo sentia, evidentemente, da mesma maneira. -São nossos-disse ele.-Estou a reconhecê-los. Parecem-me Moscas. -Sim, 'a mim também me parecem Moscas. -São Moscas, pois-afirmou Anselmo. Jordan podia verificar com o binóculo a identidade dos aviões, mas preferiu não o fazer. Pouco se lhe dava naquela noite que fossem amigos ou inimigos e a verificação podia decepcionar o seu companheiro. Voavam na direcção de Segóvia e não pareciam ser os aviões verdes de asas vermelhas, adaptação russa dos Bocing P-32 a que os espanhóis chamavam Moscas. As cores não eram visíveis àquela hora, mas a linha dos aparelhos indicava isso. Sim. Era uma patrulha fascista que regressava. A sentinela permanecia de pé na outra guarita, de costas para eles. -Vamos-disse Jordan, e começou a galgar a subida, sempre cautelosamente. Anselmo seguia-o, a uns cem metros de distância. Quando perderam a ponte de vista o rapaz parou à espera do velho, o qual lhe ganhou a dianteira e retomaram a subida já dentro da escuridão nocturna. -Temos uma aviação formidável - observou o guia radiante. -Sim, temos. -E havemos de vencer. -É preciso que vençamos. -E depois de termos vencido, voltarás cá para caçar. -Caçar o quê? -O javali, o urso, o lobo, o cabrito montês... -Gostas de caçar? -Sim, homem. Mais do que tudo. Na minha aldeia todos, caçamos. E tu? -Não-disse Robert jordan.-Não gosto de matar animais. -Comigo dá-se o contrário -murmurou o velho.-O que não gosto é de niatar homens. -Ninguém gosta, a menos que se tenha a cabeça perturbada-volveu jordan.-Mas sendo necessário pouco se me dá... sendo pela causa. 42 -Sim, é coisa diferente -assentiu Anselmo.-Na minha casa, quando eu tinha casa, porque hoje é coisa que não tenho, havia as presas dos javalis que matei na floresta lá em baixo. E peles de lobos que abati no Inverno, caçando na neve. Nos arredores da aldeia matei, numa noite de Novembro, quando regressava a casa, um lobo enorme. Havia quatro peles de lobo no soalho da rainha cas,~.. já estavam gastas pelo uso, mas eram peles de lobo. Havia também os chifres de um cabrito montês que matei no alto da Sierra e uma águia de asas abertas e os olhos amarelos, iguais aos olhos verdadeiros de uma águia viva. Coisa muito bonita e que dava prazer olhar. -Sim -concordou Jordan. -Na porta da igreja da minha aldeia pregaram a pata de um urso que matei na Primavera. Encontrei-o numa colina coberta de neve, virando um tronco de madeira com a pata. -Quando foi isso?


-Há uns seis anos atrás. E cada vez que eu via aquela pata, tal qual a mão de um homem, só com garras compridas, seca e pregada pela palma à porta da igreja, sentia um verdadeiro prazer. -Orgulho, não é? -Orgulho de me lembrar do encontro com o urso na montanha, nesse começo de Primavera. Mas matar um homem, que é um homem como nós, não é coisa que me dê orgulho. -Não se lhe pode pregar a pata na porta da igreja -disse Robert Jordan. -Não. É uma barbaridade tão grande que nem se pode pensar nela. No entanto a mão do homem parece-se com a pata do urso. -Também o peito do homem é igual ao peito do urso -disse Jordan.- Tirada a pele do urso, as semelhanças musculares são notáveis. - Sim. Os ciganos acreditam que o urso é irmão do homem. -Os Indios da América também - observou Jordan. -Quando matam um urso, pedem-lhe desculpa e perdão. Penduram-lhe a cabeça numa árvore e pedem-lhe perdão antes de se retirarem. -Os ciganos acreditam que o urso é irmão do homem porque, tirada a pele, tudo é igual e também porque o urso bebe cerveja, gosta de música e sabe dançar. -O mesmo pensam os índios. -Os índios serão ciganos? -Não, mas em relação ao urso pensam como os ciganos. 43 -Compreendo. Os ciganos também acham que o urso é irmão do homem porque gosta de roubar. -Tens sangue cigano? -Não, mas conheço-os bem. Lidei muito com eles, principalmente depois do movimento. Há muitos nas montanhas. Para os ciganos não é pecado matar fora da tribo. Eles negam que seja assim, mas é verdade. -São como os mouros. -Sim, mas os ciganos têm um ror de leis secretas que negam ter. A guerra tornou-os maus como dantes eram. _ Eles não compreendem as razões da guerra. Não sabem a razão_por que combatemos. -E verdade -confirmou o velho.-Só sabem que há guerra e que por isso podem matar como antigamente, sem que ninguém lhes peça contas. - Tu j à mataste alguém? - inquiriu Jordan animado pela intimidade que a escuridão favorecia e por um dia passado em comum. -Sim, muitas vezes. Mas nunca me senti satisfeito. Para mim matar um homem é pecado. Mesmo quando são fascistas que é preciso matar. Eu, por mim, acho grandes diferenças entre um homem e um urso e não acredito nessa bruxaria dos ciganos a respeito da fraternidade com animais. Não. Eu sou contrário à matança de homens. -E, no entanto, mataste. -Sim. E voltarei a matar. Mas se escapar com vida hei-de fazer o possível por viver de modo a não fazer mal a ninguém, a fim de ser perdoado. -Por quem? -Quem é que sabe? Desde que não há Deus, nem Filho, nem Espírito Santo, quem pode perdoar? Eu não sei. -Então já não tens Deus? -Não, homem. É certo que não. Se houvesse Deus ele nunca permitiria, que visse o que tenho


visto com estes que a terra há-de comer. Podemos deixar-lhes o Deus. - Eles reclamam-no. -E claro que Ele me faz falta, pois fui educado com religião. Mas agora um homem tem que ser responsável por si. -Nesse caso és tu que tens de perdoar-te pelas mortes feitas. -Creio que sim-concordou Anselmo.-Já que pões a questão nesse ponto, parece-me que deve ser assim. Mas, com ou sem Deus, estou convencido de que matar é pecado. Para mim tirar a vida de outra pessoa é coisa de muita gravidade. 4~ Fá-lo-ei sempre que for necessário, mas não sou da raça de Pablo. -Para vencer uma guerra é preciso matar os inimigos. Isto sempre foi uma verdade. -Está claro. Na guerra temos de matar. Mas eu tenho ideias muito esquisitas -volveu Anselmo. Os dois continuaram a subir na escuridão, muito próximos um do outro; o velho falava mansamente voltando a cabeça de quando em vez. -Eu não mataria nem um bispo. Não mataria qualquer espécie de proprietário. Obrigá-los-ia, sim, a trabalhar no campo, e nas montanhas diàriamente, como nós trabalhamos e pelo resto das suas vidas. Então saberiam para que tinha nascido o homem. Teriam de dormir onde nós dormimos. Comer o que nós comemos. Mas antes de mais nada, teriam que trabalhar. Haviam de aprender. -Deste modo sobreviveriam e voltariam a escravizar-te. -Mas não é matando-os que eles aprenderão -respondeu Anselmo.-Tu não podes exterminá-los porque da semente nasceria ainda mais ódio. A prisão não adianta nada. A prisão só faz aumentar o ódio. E o que os nossos inimigos precisam é de aprender. -Mas apesar disso tu mataste. -Sim-respondeu Anselmo.-Matei e voltarei a matar. Mas nunca por prazer e considerando isso um pecado. -E a sentinela? Divertiste-te muito ao fingir que ias matá-la. -Sim, mas brincava. E matarei a sentinela. Sim, considerando isso uma obrigação e pensando na nossa missão. Mas sem prazer. -Deixaremos a tarefa a cargo dos que o fazem por prazer-disse jordan. -Há. oito e mais cinco. O que dá treze para os que gostam disso. -Sim, há muitos para quem matar é agradável-concordou Anselmo na obscuridade. -Conheço muitos desses. Mais desses do que dos próprios para um combate. -já tomaste parte em algum combate? -Em nenhum-respondeu o velho.-Lutámos em Segóvia no início do movimento, mas fomos batidos e fugimos. Também fugi. Verdadeiramente, nós não entendíamos o que estávamos a fazer, nem como o devíamos fazer. Além do mais nós só tínhamos espingardas de caça, contra os homens da guardia civil armados de Mausers. Nós não os podíamos atingir com chumbo a cem metros de distância e a trezentos eles caçavam-nos como se fôssemos coelhos. Eles atiravam muito 45 e muito bem, de modo que diante deles ficávamos como cordeíros.-Anselmo calou-se. Depois perguntou: -Pensas que haverá combates na ponte? - É provável.


-Ainda não vi um combate sem fuga-confessou o velho -e ignoro como me comportarei. já me perguntei isso muitas Vezes. --Eu respondo por ti-declarou Jordan. --Já estiveste em muitos combates? -Em bastantes. -E que pensas a respeito deste da ponte? -Penso primeiro na ponte. E a minha tarefa. Não é difícil fazê-la ir pelos ares. Depois tomaremos disposições para o resto, para os preliminares. Tudo será por escrito. -Há muito pouca gente que saiba ler-observou Anselmo. -Toda a gente encontrará escrito o que deve fazer e estará portanto ao corrente, mas as explicações serão dadas, muito claramente, de viva voz. -Eu farei o que me mandarem-disse Anselmo.-Mas por causa do que aconteceu em Segóvia, se houver combate ou apenas escaramuça, gostaria de saber bem como devo agir em qualquer emergência para não ter de fugir. Lembro-me de que em Segóvia senti uma grande tendência para correr. -Estaremos juntos, meu velho e dir-te-ei tudo o que tens a fazer, em todos os momentos. -Então esfá tudo resolvido. Farei o que me for ordenado. -Hão-de caber-nos a ponte e o combate, caso haja combate-disse Jordan e como o dissesse no escuro sentiu-se uni pouco teatral, o que, entretanto, soava bem em espanhol. -Será de um alto interesse -volveu Anselmo honestamente, claramente e sem afectação, sem a discrição simulada dos ingleses, nem a bravata latina. Ouvindo-o, Robert Jordan sentiu-se muito feliz por ter a seu lado aquela velho; agora que tinha visto a ponte, estudado e simplificado o problema que consistiria em surpreender as sentinelas e destruir a ponte de uma maneira normal, começou a pensar nas ordens de Golz-. Pensava nas consequências que teriam para ele e para o velho. Eram ordens terríveis para quem tinha que as éxacutar. Mas isto não é pensar correctamente, murmurou Jordan para si mesmo; pensar no que te vai acontecer, a ti e a todos os outros, não significa nada. Nem tu nem o velho sois coisas que valham a pena. Sois os instrumentos do vosso dever. Há ordens necessárias contra as quais não podeis nada; há 46 uma ponte e esta ponte pode ser a ponte onde o futuro da raça humana tomará outro rumo. Como, não importa, qual outro acontecimento da guerra. Tu só tens uma coisa a fazer. Uma única coisa? Favas! Se houvesse apcnas uma coisa tudo iria no melhor dos mundos. Basta, cretino, deixa-te disso. Pensa noutra coisa. E Jordan começou a pensar em Maria, que tinha o cabelo, os olhos e a pele do mesmo tom moreno. Os cabelos da rapariga eram um pouco mais escuros que o resto, mas, com o tempo, tornar-se-iam mais claros enquanto a pele escureceria ainda mais, doce pele de um ouro pálido cobrindo um fogo mais profundo. Drce deveria ela ser e doce todo o seu corpo; movia-se com timidez como se qualquer coisa nela e em volta dela a perturbasse, qualquer coisa que deveria existir no mundo visível e não apenas no seu espírito. Ela corava quando ele a olhava; sentava-se com o joelho preso nas mãos enclavinhadas, a camisa aberta no colo, mostrando a curva dos lindos seios. Robert Jordan sentia a garganta seca e marchava com dificuldade. Anselmo e ele guardaram silêncio até que o velho disse: -Vamos descer por estas pedras até ao acampamento.


Como avançavam entre as pedras, na obscuridade, uma voz de homem ergueu-se: -Alto, quem vem lá?-ouviram o duplo estalar da espingarda à qual abrem e fecham a culatra. -Camaradas -disse Anselmo. -Que camaradas? -Camaradas de Pablo-respondeu o velho.-Não nos conheces? - Sim - respondeu a voz. - Mas são ordens. Tens a senha ? -Não. Nós viemos de baixo. -Eu sei. Vieram da poi-te. Sei tudo. Mas a ordem não é minha. Vocês devem saber a segunda metade da senha. -E qual é a primeira metade? -perguntou Jordan. -Não me lembro-disse, rindo, a voz na sombra.-Passem para o acampamento com essa indecente dinamite. -Esta é a disciplina da guerrilha! -observou Anselmo. -Armaste a espingarda? -Está armada -respondeu o homem na sombra.-Mas travei-a com o polegar e o indicador. -Se um dia fizeres isso com uma Mauser, disparas sem saberes como. -Esta arma é uma Mauser, mas os meus dedos são a melhor das travas. Sempre a travo desta forma. 47 - E para onde está apontada a espingarda? -perguntou Anselmo na obscuridade. -Para ti. Desde o princípio. Quando chegares ao acampamento diz que mandem alguém render-me porque estou a rebentar de fome e esqueci a senha. -Como te chamas? -perguntou Jordan. -Agustin. Chamo-me Agustin e estou morrendo de aborrecimento neste canto. -Daremos o recado-prometeu Jordan e ponderou consigo que a palavra aburrimiento era palavra que nenhum camponês de outra língua empregaria. Era, todavia, uma das palavras mais comuns na boca de um espanhol de qualquer classe. -Espera-disse Agustin aproximando-se e pondo a mão no ombro do rapaz; fez depois funcionar o isqueiro e iluminou o rosto de Jordan. -Pareces-te com o outro, mas és um pouco diferente. Ouve. Essa coisa da ponte é verdade? -De que ponte? -Esse negócio de rebentar a ponte e termos depois que fugir indecentemente daqui. -Não sei. -Não sabes? Que engraçado! Então de quem é a dinamite ? -Minha. -E não sabes para que é! Deixa-te de lérias. -Sei para que é e tu também virás a saber quando for tempo. Mas agora vamos para o acampamento. -Vai para o diabo que te carregue-e Agustin acrescentou uma obscenidade. -Queres que te diga o que o serviço é ? -Sim-respondeu Jordan-se não é para dizeres mais mierdas- empregando a palavra grosseira que mais vezes aparecia na conversação de Agustin. Este homem falava de uma maneira tão ordinária, juntando uma obscenidade a cada substantivo, à guisa de adjectivo, conjugando-a depois como um verbo que Jordan se interrogava sobre se ele seria capaz de dizer uma frase que se pudesse chamar limpa. Agustin riu-se no. sombra ouvindo a palavra.-É a minha maneira de


falar. Talvez seja ordinária. Quem sabe? Mas cada um fala como pode e sabe. Ouve. A ponte não me interessa. A ponte ou seja o que for. Estou farto destas montanhas. Sair ou não sair daqui não me interessa e estas -montanhas não me dizem nada. Não me importa ter que marchar daqui. Mas quero dizer-te uma coisa. Toma cuidado com os teus explosivos. -Obrigado - agradeceu Jordan. - Devo guardá-los de ti? -Não-respondeu Agustin.-De gente que fala mais limpo do que eu. -E então? -perguntou Robert Jordan. -Tu compreendes o espanhol -respondeu Agustin com gravidade.-Toma muito cuidado com essa porcaria do explosivo. -Obrigado. -Não tens que me agradecer. Toma conta dessa merda. -Aconteceu-lhe alguma coisa? - Se lhe tivesse acontecido eu não perderia tempo a fafar assim. -Muito obrigado. Agora vamos para a gruta. - E que mandem alguém para cá com a senha-tomou Agustin. -E encontramo-nos lá? - Sim, velho... e breve. -Vamos-disse Jordan a Anselmo. Caía uma névoa cinzenta. Depois da caminhada sobre a caruma a relva ali era veludo e a humidade molhava a sola das alparcatas. De súbito, por entre as árvores, Jordan avistou luz no ponto onde devia ser a entrada da caverna. -Agustin é muito bom sujeito-afirmou Anselmo.-Tem a língua suja e está sempre a gracejar, mas é um homem sério. - Conhece-lo bem? -Sim, e há muito tempo. Merece-me toda a confiança. -E a respeito do que ele disse? -Está certo. Pablo já não presta, como vais ver. -E que te parece que devemos fazer? -Alguém deve ficar de guarda aos sacos. -Mas quem? -Tu. Eu. A mulher e Agustin, já que ele vê o perigo. -Achas que as coisas sempre estiveram tão más como agora? -Nâo-respondeu Anselmo.-Elas tornaram-se más. Foi porém necessário virmos para aqui. Esta é a terra de Pablo e El Sordo.. Nos domínios deles temos que agir com eles, a menos que seja coisa que possamos fazer sózinhos. -E El Sordo? -Borr)- Tem tanto de bom como este tem de ruim. -Acreditas que Pablo seja na verdade mau? 4- S. D. 49 e tratarmos de conseguir apoio de outros bandos? li -Não - respondeu Anselmo. - Esta região é a de i Pablo. Não poderíamos partir sem levantar suspeitas. O que temos a fazer é agir com muita cautela.


50 CAPITULO IV CHEGARAM à boca da caverna, àquela hora tapada coir um cobertor fingindo de cortina e com luz acesa nc interior. Os dois sacos estavam no mesmo lugar encostados à árvore, cobertos por uma lona esticada e húmida jordan baixou-se, passou :~C mão sob a lona e da bolsa exterioi de um dos sacos tirou um frasco com capa de couro que meteu no bolso. Abrindo os aloquetes passados através dos buracos que se abriam nas bocas dos sacos, desatou os fios e verificov às apalpadelas o conteúdo. Num dos sacos estavam os blocos nos saquinhos e os saquinhos enrolados no saco-cama. Depois tendo atado de novo os cordões e fechado o aloquete do primeiro saco, mergulhou as mãos no segundo e sentiu o contorno duro da caixa de madeira do velho detonador e a caixa de cigarros que continha as cápsulas. Cada pequeno cilindro estava enrolado dentro dos seus dois fios. Robert jordan tinha embrulhado tudo tão cuidadosamente como, quando era pequeno, acondicionava a sua colecção de ovos de passarinho. A coronha da metralhadora separada do cano e, enrolados no seu casaco de couro, as duas fitas e os cinco carregadores num dos grandes bolsos interiores do saco, os rolinhos de fio de cobre e o grande rolo de fio isolado num outro bolso; tudo estava nos seus lugares. Na bolsa que continha o fio sentiu as pinças e as duas molas de madeira que deviam permitir furar a extremidade dos blocos. Enfim, da última bolsa interior tirou uma grande caixa de cigarros russos que vinham do quartel-general de Golz. Fechando a abertura do saco, fechou o aloquete, estendeu de novo a lona sobre -os dois sacos. Anselmo tinha entrado na gruta. Robert Jordan levantou-se para o seguir mas reconsiderou e, levantando a lona, pegou nos dois sacos, um em cada mão e levou-os para a entrada da caverna; lá pousou um, com a 5 mão livre afastou a cortina e sustentando um saco em cada mão, entrou na caverna. A caverna estava quente e cheia de fumo. Encostada à rocha viu uma mesa comprida com uma vela de sebo no gargalo de uma garrafa; em redor sentavam-se Pablo, Rafael e três desconhecidos. A vela projectava na parede a sombra dos homens e Anselmo permanecia de pé, à direita da mesa. A mulher de Pablo afadigava-se em volta do fogaxeiro de carvão com Maria ao lado, de joelhos, a mexer num caldeirão com uma colher de pau. Ao sentir entrar Jordan a moça ficou com a colher no ar e Jordan guardou na retina aquela imagem: a jovem, com a colher suspensa, gotejando, batida pela luz vermelha das brasas. -Que é que trazes aí?-inquiriu Pablo. -As minhas coisas -respondeu Robert Jordan, largando os dois sacos a pouca distância da entrada, do lado oposto à mesa. -Não estavam bem lá fora? -Alguém podia tropeçar neles na escuridão - disse o rapaz dirigindo-se para a mesa, onde depôs a caixa dos cigaxros. -Não me agrada ter dinamite aqui dentro-disse Pablo. -Está longe do fogo-advertiu Jordan.-Toma lá estes cigarros.-Com a unha rasgou o selo e tirou a cobertura onde estava representado um grande couraçado a cores e atirou a caixa para Pablo. Anselmo aproximou uma banqueta de couro cru na qual Jordan se sentou à mesa. Pablo olhou-o como se fosse falar, mas contendo-se estendeu a mão para os cigarros. Em seguida Jordan empurrou a caixa na direcção dos outros, sem levantar os olhos para eles, mas


notou que um se servira e os outros dois não. Toda a sua atenção estava concentrada em Pablo. -Como vai a vida, cigano? -perguntou a Rafael. -Vai indo-foi a resposta. Jordan percebeu que aqueles homens falavam dele quando tinha entrado. Mesmo o cigano não se sentia à vontade. - Ela vai-te deixar comer outra vez ? - perguntou Jordan de brincadeira. -Sim. E porque não?-respondeu Rafael, mas não havia na sua voz o tom de chalaça que usara anteriormente. A mulher de Pablo não disse nada; continuou a soprar as brasas. -Um tal Agustín diz que está lá em cima a morrer de aborrecimento. Quer que alguém o vá substituir. 52 -Isso não mata ninguém - volveu Pablo. - Deixá-lo rebentar um pedaço. -Ainda há vinho?-indagou Jordan falando, em geral, com ambas as mãos sobre a mesa. -Ainda há um bocado -respondeu Pablo de cara feia e Jordan achou melhor olhar para os três desconhecidos como se quisesse adivinhar a terra que pisava. -Nesse caso quero uma caneca de água.-E virando-se para a rapariga:-Podes arranjar-me um pouco de água? Maria olhou para a mulher de Pablo, que não disse nada, nem deu sinal de ter ouvido; em seguida foi a um pote e encÉu uma caneca. Trouxe-a e pousou-a diante do rapaz. Jordan sorriu:lhe. Ao mesmo tempo contraiu os músculos do estômago e virou-se um pouco para -a esquerda na banqueta de forma a fazer deslizar a pistola ao longo da cintura até ao ponto que queria. Levou a mão ao bolso traseiro das calças, com Pablo sempre de olhos nele. Jordan sabia que todos o fiscalizavam, mas ele só atentava em Pablo. Tirou do bolso o frasco de capa de couro, torceu a tampa; depois, bebendo metade da água da caneca, despejou na restante, lentamente, parte do conteúdo do frasco. -É muito forte para ti-disse, sorrindo, à raparigase não dava-te um bocado. E como só há este restinho-continuou voltando-se para Pabio-cometo a indelicadeza de não te convidar. -Não gosto de anis-murmurou Pablo. O odor acre espalhou-se através da mesa e Pablo reconheceu na bebida o único elemento que lhe era familiar. -Que droga é essa?-quis saber o cigano. -Um remédio -respondeu Jordan. -Queres provar? -E para que é? -Para tudo-explicou Jordan.-Isto cura tudo. Tenhas a doença que tiveres, isto cura, -Deixa-me provar-pediu o cigano. Robert Jordan empurrou a caneca na direcção do cigano. O líquido misturado tinha tomado um tom amarelo leitoso e ele estava certo de que o cigano apenas o provaria. Restava-lhe muito pouco e uma caneca desta bebida substituía os jornais da tarde, todas as noites de out~ora passadas nos cafés, todos os castanheiros floridos;neste mês de Maio, os grandes e lentos cavalos dos «boulevards» excêntricos, as livrarias, os quiosques, os museus, o Pare Montsouris, o Stade Buffalo e os Buttes Chaumont, a Guaranty Trust Company e a Ile de Ia Cité, o velho Hotel Foyot e o prazer de ler e descansar 53


à noite; todas as coisas que tinha amado e esquecido voltavam logo que provava o líquido opaco, a áspera alquimia líquida que entorpecia a língua, aquecia o cérebro, queimava o estômago, modificava as ideias. O cigano fez uma careta e devolveu a caneca. -Cheira a anis mas é amargo como fel -disse ele. -Antes ficar doente do que sarar com esse remédio. -É absinto -explicou Robert Jordan.-É o verdadeiro absinto. Dizem que isto destrói o cérebro, mas não acredito. Isto apenas muda as ideias. É preciso deitar a água no absinto, gota a gota, muito docemente. Eu deitei o absinto na água. -Que é que tu dizes? -perguntou Pablo de mau humor percebendo a ironia. -Estou a explicar o que é o medicamento - disse-lhe Robert jordan, sorrindo. -Comprei isto em Madrid. É a última garrafa e durou-me três semanas-disse jordan tomando uma golada e gozando a sensação de entorpecimento da língua. Olhou para Pablo e sorriu de novo. -Como vão as coisas? -perguntou. Pablo não respondeu e jordan começou a atentar nos três desconhecidos. Um tinha uma grande cara chata, da cor do presunto de Serrano, e nariz também c'_-.~to e quebrado; trazia na boca um comprido cigarro soviético que, por contraste, lhe tornava mais chato o carão. Cabelos grisalhos e curtos, barba também grisalha, crescida e usava a camisa negra abotoada até ao pescoço. Baixou os olhos para a mesa quando RobertJordan o encarou, mas os olhos eram tranquilos e não se fecharam. Os outros dois eram visivelmente irmãos. Muito parecidos, ambos baixos e atarracados, cabelos negros, testa estreita. Um tinha uma cicatriz na testa, acima do olho esquerdo. Quando fitados nenhum dos dois desviara o olhar. Um aparentava vinte e seis a vinte e oito anos; o outro uns dois anos mais. -Para quem estás a olhar? -perguntou o da cicatriz na testa. -Para ti-respondeu jordan. -Que tenho eu de extraordinário? -Nada. Aceitas um cigarro? - Porque não? Não o tinha tirado antes. Vejo que são iguais aos do outro, o tal do comboio. -Tu também estavas no comboio? -Todos estivemos, menos o velho. 54 -Disso é que precisávamos agora, atacar outro comboio -volveu Pablo. -Nada mais simples-disse Jordan-mas só depois da ponte. A mulher de Pablo deteve-se para ouvir. A palavra ponte fez com que todos se calassem. -Só depois da ponte - repetiu resolutamente Jordan, tomando outro gole de absinto. E pensou consigo: «O melhor é liquidarmos de uma vez esta questão, já que as coisas chegaram a este ponto.» -Declaro que não embarco nesse negócio da ponteresmungou Pablo baixando os olhos para a mesa.-Nem eu, nem o meu pessoal. Jordan'não replicou. Olhou para Anselmo e ergueu a caneca. -Então temos de trabalhar sézinhos, meu velho-disse, sorrindo. -Sim, sem esse covarde-rosnou Anselmo. -Que é que disseste? -interpelou Pablo dirigindo-se ao velho.


-Não foi nada contigo. Não falei contigo -retorquiu Anselmo. Jordan olhou para a mulher de Pablo, sempre a lidar com o fogo. Ela nada dissera ainda, nem dera qualquer sinal de si. Nesse momento, porém, sussurrou algo à rapariga que saiu de junto do caldeirão, esgueirando-se sorrateiramente ao longo da parede. -Eu preferiria que não fosse assim, mas parece que tem de ser. -Nesse caso trataremos da ponte sem o teu auxíliodisse, dirigindo-se directamente a Pablo. -Isso é que não-retorquiu este, e o rapaz notou que gotas de suor lhe perlavam a testa.-Aqui não fazes saltar ponte nenhuma. -Não? -Não! Aqui não fazes saltar ponte nenhuma-repetiu Pablo com violência. -E que dizes tu? -perguntou Jordan à mulher que continuava junto do fogo, de pé, enorme e silenciosa. A mulher virou-se e, com o rosto iluminado pela luz do fogão, animada, viva, quase bela, declarou com firmeza: -Eu sou pelo negócio da ponte. -Quê? - exclamou Pablo, dando um pulo, com a traição nos olhos e a testa a pingar suor. -Sou a favor da ponte e contra ti-repetiu ela.-Só isso. 55 --Também sou pela ponte-declarou o homem de cara chata, apagando o cigarro de encontro à mesa. --Para mim a ponte nada significa-disse um dos irmãos. -Estou com a raujer de Pablo. -Também eu-acrescentou o outro. -E eu igualmente -aderiu o cigano. Jordan observava Pablo e, observando-o, deixava deslizar a mão cada vez mais baixo, pronto se fosse necessário, sentindo talvez que era o mais fácil e o mais simples, mas não querendo estragar o que caminhava tão bem, sabendo quão frequente é, nas discussões daquela ordem, toda uma família, um clã ou um grupo voltar-se contra o estranÉo, mas pensando que o que podia ser feito com a mão seria o mais simples e o melhor e, eirúrgicamente, o mais são, dado o ponto a que chegara a divergência; via também a mulher de Pablo de pé, radiante de orgulho em consequência do apoio que lhe davam. -Eu sou pela República-disse a mulher de Pablo, alegremente. -E a República é a ponte. Depois teremos tempo de fazer outros projectos. -Oh, tu!-interpôs Pablo amargamente. -Com a tua cabeça de touro e o teu coração de puta! Pensas que haverá um «depois» da ponte? Fazes alguma ideia do que vai acontecer? -O que vai acontecer é o que deve acontecer -respondeu a mulher de Pablo.-E o que acontecer aconteceu. -E não significa nada para ti a ideia de seres perseguida como uma fera, depois de um feito desses, que não nos trará o menor proveito? Ou de morrer lá? -Nada-gritou a mulher.-É inútil quereres meter-me medo, covarde! -Covarde !-repetiu Pablo amargamente. -Tratas um homem de covarde só porque ele tem o sentido táctico. Porque ele vê antecipadamente as consequências de um acto idiota. Não há covardia nenhuma em saber o que é loucura. -Como não há loucura em saber o que é covardiadisse Anselmo, incapaz de resistir ao desejo de lançar a frase.


-Estás com vontade de morrer, velho?-rosnou Pablo, e Jordan viu que ali não havia retórica. -Não. -Pois então cala essa boca. Falas de mais sobre coisas que estão fora do teu alcance. Não estás a ver como o caso é sério? -disse quase com dó.-Serei o único a ver a gravidade do caso ? Desconfio muito que sim, pensou Robert Jordan. Velho Pablo, meu caro, creio que sim. Tu vês as consequências como 56 eu as vejo, mas a mulher que as leu na palma da minha mão não as vê por enquanto. Ainda não as vê. -Então que raio de chefe sou eu?-arguiu Pablo.-Sei o que estou a dizer e vocès não sabem. O velho só diz tolices. Anselmo é um mensageiro, um guia de estrangeiros. Este estrangeiro vem para cá fazer uma coisa vantajosa para eles estrangeiros. É em benefício dele que vamos ser sacrificados. Eu defendo o bem e a segurança de todos. -Segurança i - repetiu a mulher. - É coisa que não existe. Há tanta gente a procurar a segurança aqui que isso se torna um grande perigo. Quem procura a segurança agora, perde tudo. Ela estava de pé, junto da mesa, com a grande colher de pau na mão. -Existe segurança, sim-disse Pablo.-Existe segurança no meio do perigo quando se sabe o ue vai suceder. E como o toureiro que, sabendo o que está alazer, toma todas as precauções para se salvar. -Salva-se até ao momento em que é esventrado -disse a mulher com amargura. - Quantas vezes ouvi falar os toureiros dessa maneira antes de se ferirem? Quantas vezes o . uvi Finito dizer que era tudo uma questão de ciência e que o touro nunca fere o homem mas é o homem que se mete nos cornos do boi? Todos falam com a mesma arrogância antes de serem feridos. Depois vamos visitá-los ao hospital.-E começou a mimar a visita a um doente: «-Bom-dia, meu velho. Bommdia» -disse com voz sonora. Depois: «-Buenas, comadre. Como vai isso, Pilar ?» -imitando a voz fraca do toureiro ferido. «-Como aconteceu isso, Finito, Chico? Como aconteceu essa porcaria do desastre ?» «- Não foi nada, mulher, não foi nada. Ninguém o poderia matar melhor. Matei-o exactamente como devia. Estava completamente morto, vacilava sobre as patas e estava quase a tombar com todo o seu peso, afastei-me com certa arrogância e muito estilo e, pelas costas, o touro enfiou-me os chifres pelo traseiro até ao fígado.» A mulher de Pablo começou a rir e deixando de lado a imitação da voz efenúnada do toureiro, prosseguiu no seu tom natural:-Vocês e mais a vossa segurança! Então vivi eu nove anos com três dos matadores mais mal pagos do mundo, para não saber o que é o medo e a segurança! E tu! As ilusões que tinha sobre ti e que se foram por água abaixo! Bastou um ano de guerra para te transformar num preguiçoso, num bêbedo, num covarde. -Tu não tens o direito de me falar àssini-redarguiu Pablo. -E ainda menos diante dos outros e de um estrangeiro. 57 -Pois hei-de falar como entender- continuou a mulher. -Pensas então que és tu quem manda aqui? -Penso-disse Pablo.-Quem, manda aqui sou eu. -Nem a brincar! -replicou a mulher.-Quem manda a~ui sou eu! Não ouviste o que disse la gente ? Aqui só mando eu. 1 odes continuar aqui, se quiseres, podes comer e beber mas sem te embriagares, podes trabalhar connosco se quiseres. Mas quem manda sou eu.


-Ali! Uma bala nessa cabeça e outra na do estrangeiro! -Experimenta para ver o que acontece. -Um copo de água-pediu Jordan sem desviar os olhos do homem encolerizado e da mulher que se mantinha firme, activa e confiante manejando a enorme colher de pau como se fosse um bastão de comando. -Maria-chamou ela. E quando a rapariga apareceu: -Água aqui para este camarada. Robert Jordan levou a mão ao bolso como para tirar o frasco e ajeitou o revólver. Preparou uma segunda dose de absinto, gota a gota, na caneca de água que a rapariga tinha trazido.A rapariga, de pé a seu lado, acompanhava-lhe os gestos. -Lá para fora-ordenou a mulher, acompanhando a ordem com um gesto. -Está frio lá fora-observou a rapariga, com o rosto perto do rosto de Robert Jordan, olhando o que se passava na caneca onde o licor formava uma nuvem. -Pode ser-disse a mulher de Pablo.-Mas aqui está muito calor.-E depois com afabilidade: -Não será por muito tempo. A rapariga suspirou e saiu. Isto rebenta já, pensou Robert Jordan. Sustentava a caneca numa das mãos e a outra repousava agora abertamente sobre a pistola. Tinha-a destravado e sentia o contacto suave e familiar da coronha com o quadriculado gasto, quase liso; acariciava a, redondeza fria e simpática do guarda-i-nato. Pablo não olhava para ele, mas para a mulher que prosseguia: -Ouve-me, bêbedo. Percebes quem manda aqui? - Sou eu. -Tira a cera desses ouvidos cabeludos e ouve: quem manda aqui sou eu! Pablo olhava-a e ninguém queria saber o que lhe ia pela cabeça. Depois volveu os olhos para Jordan. Fitou-o longo tempo, contemplativo; em seguida tornou a olhar para a mulher. .58 -Está certo-disse por fim.-És tu que mandas. E se quiseres ele também pode mandar e vão ambos para as profundas dos infernos.-Pablo olhava fixamente para a mulher, sem se deixar dominar, nem parecer afectado pelo que ela dissera: -É possível que eu seja um preguiçoso e beba de mais. Podes considerar-me um covarde, mas estás muito enganada. O que eu não sou é estúpido. E depois de uma pausa: -Que tu possas mandar e gostar disso, tanto se me dá como se me deu. Mas se és mulher e comandante, então manda dar-nos de comer. A rapariga entreabriu a cortina e enfiou a cabeça. -Podes entrar e servir a comida. A rapariga entrou, aproximou-se da mesa de arrumações e tirou as tigelas esmaltadas que pôs na mesa grande. -Há vinho bastante para todos-disse a mulher para jordan.-Não faças caso do que diz o bêbedo. E quando este vinho acabar arranjaremos mais. Larga essa droga que andas a engolir e bebe uma caneca de vinho. Jordan engoliu a última gota de absinto e, sorrindo, apresentou à jovem a caneca vazia. -Então sempre estudaste a ponte? -perguntou o cigano. Os outros, que depois do compromisso de obediência não tinham voltado a abrir a boca, inclinaram-se para ouvir.


-Estudei -respondeu Roliert Jordan.-E muito fácil. Queres que te mostre? -Sim, meu caro. Isso interessa-me. Robert Jordan tirou do bolso da can-úsa o caderno de apontamentos e mostrou os desenhos. -Como está parecida! -exclamou o cara chata, cujo nome era Primitivo.-E a ponte escarrada. Com o lápis, Jordan explicouc omo a ponte devia saltar e como seriam dispostas as cargas. -Que simplicidade! -exclamou o irmão de cara lanhada, cujo nome era Andrés. -E como vais fazer explodir a dinamite? Jordan explicou também esse ponto e, enquanto o demonstrava, sentiu o braço da rapariga apoiado no seu ombro. A mulher de Pablo também seguia a demonstração. Só Pablo se desinteressava, sentado à parte com uma caneca de que renovava o conteúdo mergulhando-a na grande taça onde Maria tinha despejado o vinho do odre que estava pendurado à esquerda na gruta. -já fizeste muitos desses trabalhos? -perguntou meigamente a rapariga. -já. E podemos assistir e este ? -E porque não ? -Vais assistir, sim-rosnou iro'*nicamente Pablo na extremidade da mesa.-Vais assistir. -Cala a caixa-disse a mulher de Pablo e, de súbito, recordando-se do que tinha visto na mão naquela tarde, foi tomada de uma cólera selvagem e desarrazoada: -Cala essa caixa, covardão. Cala essa caixa, ave de mau agouro. Cala essa caixa, assassino. " -Está bem, calo-me, já que és tu quem governa. Podem continuar a olhar para essas lindas pinturas. Mas lembrem-se de que eu não sou nenhum estúpido. A mulher sentiu que a raiva se lhe mudava em tristeza, num sentimento premonitório de frustração de toda a esperança e confiança. Possuía desde menina essa intuição do futuro. Veio-lhe o pressentimento. Mas afastou-o. Não quis que ele a afectasse, nem a si, nem à República. Depois, voltando-se para a rapariga: -Agoira vamos comer. Enche as tigelas, Maria. 60 ÉaLua eo Sol. Apesar de esbanjá-la pclo Mundo Não consegui gastá-la toda. A guitarra vibrou entre os aplausos que saudaram o cantor. -Muito bem-gritou alguém.-Agora canta o catalão, cigano. -Não. -Sim, sim. O catalão. -Está bem-e o cigano cantou com tristreza: Tenho o nariz chato E é negra a minha pele Mas ainda sou um homem. -Olé!-disse um deles. -Continua, cigano! A voz do cigano ergueu-se num tom irónico e trágico: Grqas a Deus sou negro mas não cataldo! -Estás a fazer muito barulho-disse a voz de Pablo. -Cala lá a caixa, cigano.


-Sim-apoiou a voz da mulher.-Estás a fazer muito barulho. Com essa voz tão má até podias ressuscitar a guardia civil. -Sei outra cantiga-disse RafacI repenicando a. guitarra. -Podes guardá-la-replícou a mulher. A guitarra calou-se. -Não estou com boa voz esta noite -desculpou-se o cigano.-Mas não está nada perdido -continuou. E abrindo a cortina saiu para o relento. Robert Jordan viu-o dirigir-se primeiro o. uma árvore e depois caminhar ao seu encontro. -Robert-disse suavemente o cigano. -Sim, Rafael-respondeu jordan vendo que o álcool tinha afectado a voz do cigano. Elé também tinha bebido dois absintos e algum vinho, inas estav,-,. com a cabeça fresca, apesar da tensa luta com Pablo. -Porque não mataste o Pablo',' -inquiriu o cigano com muita doçura. -Matá-lo porquê? ter que o matar, mais cedo ou mais tarde. Porque não aproveitaste aquele momento? 62 -Falas a sério ? -E que pensas que todos esperavam? Porque mandou a mulher a rapariga cá para fora? julgas que tudo pode continuar assim, depois do que se disse? -E porque não o matam vocês? - Quê va - exclamou tranquilamente o cigano. - Isso é um negócio teu.. Três ou quatro vezes contámos que tirasses. a pistola e o matasses. Pablo não tem amigos. -Veio-me a ideia de o matar, mas abandonei-a. -Todos nós percebemos os preparativos. Porque não foste até ao fim? -Receei molestar os outros e a mulher. - Quê. va. A mulher esperava que isso acontecesse como uma prostituta aguarda o freguês. Tu és mais novo do que pareces.-E muito possível. -Mata-o agora-instigou Rafael. -Agora é um assassínio. -Tanto melhor -sussurrou baixinho o cigano.-O perigo é menor. Vai. Mata-o agora. -Assim não posso. Repugna-me. Não é maneira de agir em favor da causa. Enquanto falavam, a coruja deslizou entre as árvores voando dentro de um silêncio mole, passou diante deles, e ascendeu, batendo P.s asas ràpidamente, mas sem qualquer ruído que traísse a sua presença. -Olha-advertiu o cigano.-Assim é que os homens deviam andar. -Mas de dia pousa completamente cega numa árvore com corvos em volta-concluiu Robert Jordan. -Isso acontece muito raramente -interpôs o cigano. -E por acaso. Mata-o -continuou. -Depois será difícil. -A oportunidade já passou. -Provoca-o ou tira vantagem desta calma -aconselhou o cigano. O reposteiro da gruta foi afastado e uma réstea de luz chegou até eles. Alguém se aproximava.


-Uma linda noite-disse uma voz surda.-Vamos ter bom tempo. Era Pablo. Fumava u m_ dos cigarros russõs. Tirou uma fumaça e a sua face redonda apareceu na luz avivada. Distinguia-se sob a luz das estrelas o seu corpo maciço, de longos braços. -Não faças caso da mulher-disse a Robert Jordan. 63 Na sombra o cigarro brilhou de novo na mão que se abaixou.. -Algumas vezes é difícil, mas uma boa criatura. Muito leal à República. A ponta luminosa do cigarro tremia ligeiramente. «Deve tê-lo no canto da boca,» pensou Robert Jordan. -Não devemos ter dificuldades. Estamos de acordo. E estou contente por teres vindo.-O cigarro brilhou ainda mais.-Não faças caso das discussões e crê que és muito estimado aqui. Agwa dá-me licença. Tenho que ir ver o que fizeram aos cavalos. Seguiu por entre as árvores para a beira do regato; logo a seguir os cavalos relincharam. -Estás a ver?-disse o cigano.-Estás a ver, agora? U! se foi a boa ocasião. Jordan não teve qualquer comentário. -Bem, vou para baixo-volveu o cigano irritado. -Fazer o quê? -Quê va. Pelo menos impedir que ele fuja. -Ele pode sair a cavalo lá de baixo? -Não. -Então vai para onde possas impedir-lhe a passagem -Agustin está lá. -Então vai falar com Agustin. Explica-lhe tudo o que se passou. -Agustin matá-lo-á com prazer. -Vai então - disse Jordan. - Conta-lhe tudo o que viste. -E depois? -Eu vou descer até ao curral dos cavalos. -Está bem, homem, está bem.-Jordan não enxergava o rosto de Rafacl, mas teve a impressão de que sorria.-Até que afinal te resolveste -disse o cigano aprovativamente. -Vai ter com Agustin. -Vou, Robert, vou. Robert Jordan meteu-se pelo pinheiral, às apalpadelas, de árvore em árvore, até ao prado onde a luz das estrelas tornava a sombra menos densa. Percorreu o prado com um olhar e, entre ele e a torrente, distinguiu a massa sombria dos cavalos. Contou-os. Cinco. Robert Jordan sentou-se junto a um tronco vigiando o pasto. «Estou fatigado, pensou consigo, talvez o meu critério não seja bom. Mas a minha missão é a ponte e para executar a ordem não posso arriscar-me à toa. Ocasiões há em que o risco maior é não aceitar as oportunidades. Mas faço isso para 64 ver se as . coisas se resolvem por si. Se é verdade, como disse o cigano, que contavam que eu matasse Pablo, então devia tê-lo feito. Mas não me parece claro que eles realmente o desejassem~


Não é coisa boa para um estrangeiro matar na região em que tem de agir com gente local. «Poder-se-á fazer isso em plena acção, ou logo que nos apoiamos numa disciplina sólida. Mas não creio que as coisas sejam rápidas ou fáceis nesta região, e se tenho confiança total na mulher, nãb sei como ela agiria diante de um acto tão brutal. Acabar num lugar destes deve ser feio, sujo, repugnante. É impossível prever a reacção da mulher. E sem ela não haveria aqui a menor organização, nem disciplina e com ela tudo pode caminhar bem. O ideal seria que ela: o matasse, ou o cigano - que nunca o fará - ou Agustin. Anselmo pode fazê-lo se eu lho pedir, apesar de se dizer avesso a matar. Anselmo odeia-o, suponho eu, e realmente confia em mim, porque represento aos seus olhos aquilo em que acredita. Só ele e a mulher confiam na República, mas ainda. é cedo para ter uma certeza.» Habituados os olhos à luz das estrelas, descobriu o vulto de Pablo ao lado de um dos animais. O cavalo ergueu a cabeça, deixando de pastar e baixou-a com impaciência. Pablo estava de pé, perto do cavalo, encostado a ele, seguindo-lhe os passos, acariciando-lhe o pescoço. O cavalo impacientava-se com as carícias e continuava a pastar. Robert Jordan não podia ver o que Pablo 1~.zia ao cavalo, nem ouvir o que dizia, mas dava-se conta de que não o soltava, nem o selava. Ficou ali, observando e tentando fazer um juízo claro do problema. -Meu cavalão, meu cavalinho-dizia Pablo ao animal na obscuridade (era o cavalo baio). -Grande e belo, com a tua marca branca e grande pescoço arqueado como o viaduto do meu pueblo. -Interrompeu-se. -Mas de curva mais fechada e mais delicada.-O cavalo ia roendo a erva com movimentos bruscos de cabeça. A presença e a conversa do homem enervavam-no.-Não és uma mulher, nem um louco-dizia Pablo ao cavalo baio.-Meu grandalhão, meu querido, meu pequenino. Tu não és uma mulher-vulcão. E não és uma rapariguinha de pêlo tosquiado e gestos de potro recém-nascido. Tu não insultas, nem mentes, nem deixas de compreender. Meu grandalhão. Seria muito interessante para Robert Jordan ouvir Pablo falar ao cavalo baio, mas não o ouviu, porque convencendo-se de que Pablo estava apenas a examinar os animais e decidindo que era imprudente matá-lo naquela ocasião, levantou-se e S-S. D. 65 regressou à gruta. Pablo continuou muito tempo no prado a conversar com o cavalo. O cavalo não percebia nada do que lhe dizia o dono. Sabia apenas pela entonação da voz que eram carinhos. Tinha passado o dia inteiro no curral e tinha fome. Puxava impacientemente a corda que o peava e o homem aborrecia-o. Pablo mudou-o para melhor pasto e continuou a seu lado, mas calado. O cavalo continuou a pastar, agora mais satisfeito em virtude do silêncio do homem. 66 CAPITULO VI DENTRo da caverna, Robert jordan sentara-se numa das banquetas de couro cru ao lado do fogo, ouvindo falar a mulher, que lavava os pratos. Ela passava-os depois a Maria que os enxugava e os punha num buraco aberto na parte da gruta que servia de prateleira. -Curioso!-disse ela.-El Sordo ainda não veio. Há mais de uma hora que devia estar aqui. -Mandaste dízer-lhe que viesse? -Não. Mas ele vem todas as noites.


-Talvez lhe tenha aparecido algo para fazer. -É possível-disse ela.-Se não vier, vamos procurá-lo amanhã. -É longe daqui? -Não. Apenas um passeio. E estou a precisar de exercício. -Também posso ir, Pilar? -perguntou Maria- -Sim, minha linda-respondeu a,mulher voltando-se para a rapariga.-É na verdade bonita, não é? Que te-parece? Talvez um pouco magra. -A- mim parece-me muito bem - respondeu jordan, enquanto Maria lhe deitava vinho na - caneca dizendo: -Bebe isto para me veres melhor ainda. Só com muito vinho é que eu pareço bomita. -Então posso deixar de beber porque ja me pareces, demasiado bonita. -Isso é que é falar!-exclamou a mulher.-Falas como os bons. E que mais parece ela? , -Inteligente -acrescentou jordan com displicência. Maria deu uma risada nervosa, enquanto a mulher suspirava: -Começaste tão bem para acabar assim, D. Roberto? -Não me trates por D. Roberto. 67 - É a brincar. Aqui dizemos D. Pablo por brincadeira. Como ele diz seflorita Maria também por brincadeira. -Eu não brinco com essa facilidade -observou Jordan. -«Camarada» é o tratamento que todos devemos empregar, com seriedade, nesta guerra. No brincar com tratamentos já começa a decomposição. -Tomas a política muito a sério, como uma religião -disse a mulher para o arreliar.-Nunca fazes troça de nada? -Faço. Gosto muito de brincar, mas não com o nome das pessoas. O nome é uma espécie de bandeira. -Pois eu não respeito bandeira nenhuma. Para mim tudo é motivo de troça. À antiga bandeira vermelho e ouro, chamávamos pus e sangue. À bandeira da República, a que juntaram a cor púrpura, chamamos sangue, pus e permanganato. É uma brincadeira. -Ele é comunista -observou Maria.-E os comunistas são gente séria. -És comunista? -perguntou Pilar. -Não. Sou antifascista-respondeu Jordan. -Há muito tempo? -Desde que compreendi o que era o fascismo. - E quando foi isso ? - Há uns dez anos. -Não é lá muito tempo-disse a mulher.-Eu cá sou republicana há vinte anos. -Meu pai foi republicano a vida inteira-disse Maria -e foi por isso que o fuzilaram. -Meu pai e meu avô foram republicanos durante toda a sua vida-declarou Jordan. -Em que país? -Nos Estados Unidos. -E não os mataram? -inquiriu a mulher. -Q_u~ va-esclamou Maria.-Os Estados Unidos são um país de republicanos. Lá não se fuzila ninguém por ser republicano.


-Em todo o caso-tornou a mulher-é uma recomendaçã& ter um avô que foi republicano. Prova que o sangue é bom. -Meu avô fazia parte da junta Nacional Republicana -acrescentou Jordan. Maria mostrou-se impressionada. -E o teu pai ainda está activo na República? -perguntou Pilar. -Não. Morreu. -Pode-se perguntar como? -Suicidou-se. 68 - Paxa não ser torturado ? - Sim - disse Robert Jordan. - Para evitar a tortura. Maria fitou-o com os olhos marejados. -Meu pai não conseguiu obter uma axm ' a-tomou ela e fico muito contente por saber que o teu teve a boa sorte de conseguir uma. - Sim. Foi muita sorte - murmurou Jordan. - E se mudássemos de assunto ? -Tu e eu somos parecidos-disse Maria pondo-lhe a mão no braço e fitando-o nos olhos. Jordan encarou aquele rosto moreno e aqueles olhos que, desde que os vira, nunca lhe,tinham parecido tão moços como a fisionomia, e que de repente se tinham tornado jovens, ansiosos e ardentes. -Até parecem irmãos-disse a mulher.-Mas acho que é uma felicidade não o serem. -Agora sei por que senti assim-observou Maria.-Agora tudo é claro. -Quê va - murmurou Jordan e dobrando-se, passou a mão pela cabeça da rapariga. Todo o dia tinha pensado naquilo e agora, ao fazê-lo, sentia a garganta apertada. Maria esfregava a cabeça na sua mão e parecia deliciar-se com a carícia. E ele sentia a espessura basta mas sedosa dos cabelos curtos deslizar entre os seus dedos. Depois a mão de Jordan desceu até à nuca e tombou. -Faz outra vez-disse ela. -Passei o dia inteiro a desejar que me fizesses isso. -Mais tarde-respondeu Jordan com voz surda. -E eu?-reclamou a mulher de Pablo com a sua voz cheia. -Tenho que assistir a isto sem mais nada? Pensas que sou de pedra? Na falta de melhor, terei que contentar-me com Pablo. Maria não se dava conta daquelas palavras, nem dos homens que jogavam as cartas à luz do candeeiro. -Queres outra caneca de vinho, Roberto? -Sim. Porque não? -Ainda acabas por ter um bêbedo à cola, como eu-disse a mulher de Pablo.-E para mais com essa droga esquisita que traz no bolso. Ouve, IngIés. -Não sou IngIés. Sou americano. -Escuta, então, americano. Onde vais dormir? -Lá fora. Tenho um saco de campanha. -Muito bem. Está clara a noite? -E vai ser gelada. -Dorme lá fora, então; mas a bagagem pode ficar aqui comigo. 69 -Está bem-concordou Jordan, e pondo a mão sobre o ombro de Maria pediu-lhe que o deixasse só


por um momento. - Para quê ? -Preciso conversar com Pilar. -E tenho de sair? -Tens. -Que há?-indagou a mulher de Pablo, quando viu a rapariga dirigir-se para a entrada da caverna onde parou ao lado do odre a olhar para os que jogavam. -O cigano disse-me que eu devia... -começou Jordan. -Não -interrompeu a mulher.-Rafael enganou-se. -Se é necessário... -continuou Jordan em voz baixa e arrastada. -Se fosse, já o terias feito, creio eu-disse a mulher. -Mas não é preciso. Eu estava a observar. Agiste muito bem. -Mas se acaso for necessário... -Não, não. Se for necessário, avisax-te-ei. A cabeça do cigano não regula lá muito bem. -Mas nos momentos de fraqueza um homem pode tornar-se um grande perigo. -Não. Tu não compreendes. Este homem já nem pode ser perigoso. -De facto não compreendo. -És ainda muito novo-disse ela.-Hás-de compreender. Podes voltar, Maria. já falámos. A rapariga aproximou-se e Jordan, estendendo a mão, pousoa-a sobre a sua cabeça. Ela esfregou-se naquela mão como um gatinho. Pareceu que ia chorar, mas os seus lábios desabrocharam num sorriso, quando os olhos do rapaz pousaram nela. -Acho que é melhor ir já para a cama-aconselhou Pilar.-O teu dia foi muito trabalhoso. -Está bem- concordou o rapaz. -Vou arrumarás minhas coisas. 70 CAPITULO VII ROBERT Jordan estava deitado no seu saco de campanha, no chão da floresta. Estava abrigado pelos rochedos, perto da entrada da gruta. Dormindo voltou-se e, ao fazê-lo, deitou-se sobre a pistola que trazia presa ao pulso por uma correia. Tinha colocado a arma perto dele, sobre a cobertura, quando se tinha deitado para dormir, com os ombros, o tronco e as pernas tão pesadas e os músculos tão tensos que a terra lhe parecia mole. Antes de se enrolar no saco forrado de flanela, tinha experimentado uma espécie de voluptuosidade filha da fadiga. Teve, ao acordar, a impressão de ter dormido muito tempo; perguntou-se onde estava, compreendeu, depois retirou a pistola e dispôs-se com prazer a mergulhar no sono, a mão sobre o rolo formado pelas suas roupas enroladas em volta das alparcatas, o outro braço também agarrado ao travesseiro improvisado. Foi quando sentiu uma pressão sobre o ombro que o fez voltar-se vivamente já com a mão no cabo da pistola. -Oh, és tu!-exclamou largando a arma. E estendendo os braços atraiu-a para si. Sentiu-a estremecer. -Entra neste ninho - murmurou carinhoso. - Aí fora está muito frio. -Não. Não posso. -Entra. Discutiremos depois. Ela tremia, presa pelo pulso, e ele puxava-a. Ela voltou a cabeça.


-Entra coelhinha-e, fazendo-a baixar, beijou-a na nuca. - Tenho medo. -Não há que ter medo. Entra. -Conio?. -Mete-te neste saco. Há lugar para dois. Queres que te ajude? Não - respondeu Maria. Meteu-se dentro do saco, ele -abraçou-a, apertou-a contra o seu corpo e procurou beijá-la nos lábios; ela meteu a cabeça no rolo de roupa que servia de travesseiro, mas tinha os braços passados em redor do seu pescoço e tinha-o apertado. Depois sentiu os braços afrouxarem-se e ela estremeceu. -Não-disse ele rindo.-Não tenhas medo. É a pistola. E afastou a axma que se interpusera entre os dois. -Tenho vergonha-disse ela virando o rosto. -Não. Não há motivo, aqui, agora. -Não posso. Estou com vergonha e com medo. -Não coelhinha. Vamos. -Não. Se tu não me amas... -Amo-te. -Eu sim, estou cheia de amor. Põe a mão na minha cabeça -disse ela, sempre com o rosto metido no travesseiro. Jordan passou-lhe a mão sobre a cabeça e acariciou-a. De súbito o rosto de Maria deixou o travesseiro. Encontraram-se apertados um contra o outro, rosto contra rosto. Ela chorava. Jordan manteve-a imóvel, sentindo o contacto daquele corpo esguio apertado contra o seu. Acariciou-lhe a cabeça e beijou o sal húmido dos seus olhos e enquanto ela chorava sentiu os seios redondos e de bicos firmes tocarem-no através da camisa que ela trazia vestida. -Não posso beijar, não sei-murmurou Maria. -Não é preciso beijar. -Sim. Preciso de beijar. Preciso de fazer tudo. -Não é preciso fazer nada. Estamos muito bem assim, mas tu trazes muita roupa. -Que devo fazer? -Vou-te ajudar. -Achas que assim será melhor? -Claro, muito melhor. Não é melhor para ti, também? -Sim. Muito mais. E irei contigo, como disse a Pilar? -Sim. -Mas não quero ficax em nenhum lar. Quero andax contigo. -Vais ficar num lar. -Não, não. Contigo e serei tua mulher. Estavam ambos deitados, e tudo o que antes estava oculto, desvendou-se. Em vez da aspereza das roupas, a doce pressão firme e redonda, a longa frescura calorosa, fresca na superfície e quente no interior, juntas; solitária doçura que tudo invadia, criando felicidade, jovem, amorosa e que se tornou a seguir 72 numa doçura que queimava e uma solidão devorante, dolorosa, tão pungente que Robert Jordan não pôde mais e perguntou: -já amaste aleuém?


-Nunca. E - súbitamente ficou como morta nos seus braços para acrescentar que lhe tinham feito coisas. -Quem? -Vários - e quedou-se imóvel, afastando o rosto dele. -Agora vais deixar de amar-me. -Amo-te, sim, Maria-disse o rapaz, mas qualquer coisa tinha mudado nele e ela percebeu-o. -Não!-murmurou Maria em tom dorido.-Não me amarás nunca, mas talvez queiras levar-me para um lar. Eu irei e nunca serei tua mulher, nem nada... -Amote, sim, Maria. -Não, não é verdade.-E depois, como num último apelo de esperança:-mas eu nunca beijei nenhum homem. -Beija-me então agora. -Eu bem queria. Mas não sei. Quando me fizeram coisas, lutei até perder os sentidos. Lutei até ... até... até que um deles se sentou em cima da minha cabeça ... e eu mordi-o... e então amordaçaram-me e prenderam-me os braços, atrás da cabeça... e outros abusaram de mim. -Eu amo-te, Maria-repetiu Jordan-e ninguém te fez nada, ninguém te atingiu, ninguém tocou a minha coelhinha. -Falas a sério? - Como nunca. -E podes amar-me ainda? -sussurrou Maria aconchegando-se a ele. - E mais ainda. -Vou tentar beijar-te muito bem. -Beija-me então. -Não sei. -Beija-me simplesmente. Ela beijou-o na face. -Não. -E que é que se faz ao nariz? Sempre me perguntei o que se faria ao nariz ? -Olha, vira um pouco a cabeça.-E as suas bocas juntaram-se. Ela estava unida a ele e a boca entreabriu-se pouco a pouco. E, de súbito, tendo a rapariga apertada contra ele, sentiu-se mais feliz que nunca, com uma felicidade interior ligeira, amorosa, exaltada e sem pensamentos, e sem fadigas, 73 e sem cuidados, tudo delícias e ele murmurou: -minha coelhinha. Minha querida. Minha doce amada. -Que dizes tu?-perguntou ela como se estivesse muito longe. -Minha amada-murmurou ele. Estavam deitados, estreitamente apertados, sentindo os corações bater, e com a ponta do pé ele acariciou-lhe os pés. -Tu vieste descalça. -Sim. -Então sabias que ias deitar-te comigo. -Sim. -E não tinhas medo? -Sim. Muito. Mas mais medo ainda de não saber como tirar as alparcatas.


-E que horas são agora? lo sabes? -Não. Tu não tens relógio? -Sim, mas está atrás de ti. - Puxa o braço. -Não. -Então espreita por cima do meu ombro. Era uma hora. O quadrante luminoso brilhava na sombra do saco de campanha. -A tua barba está a arranhar-me o ombro. -Desculpa, mas não tenho nada com que fazer a barba. -Gosto disso. A tua barba é loura? -É. -E vais deixá-la crescer? -Crescerá até eu resolver o caso da ponte. Maria, ouve. Tu... - O quê? - Tu queres ? -Sim. Quero tudo. É a maneira de fazer desaparecer os outros da minha lembrança. -já pensaste nisso? -Não. Só agora o sei, apesar de ela já me ter falado nisso. -É muito sabida, aquela Pilar! -Outra coisa-sussurrou Maria baixinho.-Ela disse-me para te dizer que não estou doente. Ela sabe todas essas coisas. -Também te mandou dizer isso? -Nós conversámos e eu confessei o meu amor. Amei-te desde o momento em que te vi entrar. Amei-te mesmo antes de te ter visto. Contei tudo à Pilar e ela mandou-me dizer-te o que te disse. Sobre a outra coisa nós já tínhamos conversado antes. 74 -E que disse ela? -Disse que nada atinge a gente, quando a gente não aceita. E que se eu um dia amasse alguém, o amor faria desaparecer tudo. Ah, eu até me quis matar, sabes? - O que a Pilar disse é pura verdade. -E agora sinto-me feliz por não ter morrido! Estou tão contente por não ter morrido! Então podes amar-me? -Sim. Eu amo-te, Maria. -E posso ser tua mulher ? -Com a vida que levo não posso ter mulher. Mas tu agora és a rainha mulher. ~ Se sou uma vez, então sê-lo-ei sempre. Sou a tua mulher agora? -Sim, Maria. Sim, minha adorada coelhinha. Jordan enlaçou-a e procurou-lhe os lábios e os corpos colaram-se, macios, frescos e jovens. -E agora andemos depressa. O que tem de ser feito, seja feito já. -Queres mesmo? -Sim-afirmou Maria, em tom enérgico.-Sim, sim, sim. 75 CAPITULO VIII A

noite estava fria. Robert jordan dormiu profunda


mente. Acordou uma vez e, espreguiçando-se, sentiu que a rapariga estava a seu lado, dobrada sobre si mesma, abaixo dele no saco, respirando ligeira e regularmente. Então, na obscuridade, retirou a cabeça do frio, do céu duro esmaltado de estrelas, do ar frio que lhe enchia as narinas; i~ergulhou no calor do saco e beijou a doce espádua da rapariga, que não acordou. Ele virou-se de lado, longe dela e, com a cabeça de novo fora do saco, ao frio, ficou um momento acordado, gozando todo o luxo da sua fadiga, depois a felicidade suave, táctil dos corpos unidos; estendeu as pernas até tocar o fundo do saco e retombou no sono. Acordou ao amanhecer; a rapariga já não estava a seu lado. Sentiu-o ao acordar e, estendendo o braço, sentiu o saco ainda quente no lugar onde ela estivera. Olhou para a entrada da gruta onde a cortina pendia, polvilhada pela geada, e viu a fina fumarada cinzenta que subia de uma fenda nos rochedos, indicando que o fogo da cozinha já estava aceso. Um homem saiu de entre as árvores, com um. surrado cobertor à cabeça, como se fosse um poncho: era Pablo fumando um cigarro. Ia levar os cavalos para o curral, pensou Robert Jordan. Pablo afastou a cortina e entrou na gruta sem ter olhado na direcção de Jordan. Robert Jordan apalpou com a mão a leve camada de gelo que revestia o saco de campanha, que desde há cinco anos lhe servia de leito, forrado com uma seda já a esfiapar-se. Encolheu-se depois e meteu-se dentro. Bueno, disse-se, sentindo a.carícia familiar da flanela dobrada sobre as pernas estendidas; afastou-as, voltou a juntá-las e virou-se para o lado de onde sabia que não viria o sol. Quê mas da, ainda posso dormir mais um pedaço. 76 E dormiu até que um ronco de aviões o acordou. Deitado de costas'viu-os. Era uma patrulha fascista de três Fiats, minúsculos, brilhantes, atravessando ràpidamente o céu das montanhas, voando na direcção de onde Anselmo e ele tinham vindo na tarde anterior. Desaparecidos os três, outros nove apareceram, voando mais alto, em formações de três. À entrada da caverna, Pablo e o cigano estavam de pé, na sombra, olhando o céu, enquanto Robert Jordan continuava estendido, sem um movimento. O ar estava agora cheio do ronco martelado dos aviões. Houve um novo roncar e apareceram três novos aviões, desta vez a menos de trezentos metros acima da clareira. Estes últimos eram bombardeiros bimotores Heinkel cento e onze. Robert Jordan, com a cabeça abrigada pela sombra das pedras, tinha a certeza de não ser visto e sabia também que não tinha importância se o vissem. Sabia que poderiam ver os cavalos no curral, se por acaso procurassem qualquer sinal nas montanhas. Na hipótese contrária poderiam vê-los, que os tomariam pela própria cavalaria fascista. Houve um novo ronco mais forte. Três Heinkel cento e onze apareceram, aproximaram-se ràpidamente, ainda mais baixo, em formação rígida; o rumor veio num crescendo até que os aviões cruzaram a clareira e se perderam. Robert Jordan desfez a trouxa de roupa que lhe servira de travesseiro e tirou a camisa. Estava a começar a vesti-Ia quando ouviu os aviões seguintes. Vestiu as calças sem sair do saco e estendeu-se, imóvel, enquanto surgiam três novos bombardeiros Heinkel. Antes que desaparecessem atrás das montanhas, já estava com a pistola afivelada à cintura, o saco enrolado e encostado à parede rochosa onde também se encostava, sentado no chão a apertar as alparcatas. O ronco, ganhando amplidão, tornou-se atroador e nove bombardeiros ligeiros Heinkel aproximaram-se por escalões, fendendo o céu.


Robert Jordan deslizou ao longo dos rochedos até à abertura da gruta onde já estavam reunidos um dos irmãos, Pablo, a mulher, o cigano, Anselmo e Agustin. Todos estavam de pé a olhar. -já alguma vez passaram por aqui tantos aviões?-perguntou. -Nunca -respondeu Pablo.-Entra que te podem ver. O sol ainda não batia na boca da caverna. Atingia apenas o prado perto da corrente. Robert Jordan sabia que dos aviões não podiam vê-lo na obscuridade, escondido pela 77 espessa sombra projectada pelos rochedos. Mas entrou na gruta para não enervar os companheiros. -São muitos-comentou a mulher. -E ainda virão mais-disse o rapaz. -Como sabes?-indagou Pablo suspeitoso. -Devem trazer com eles os aparelhos de caça. Mal acabou de dizer isso, ouviram um ronco mais agudo, semelhante a uma lamentação, e enquanto passavam a cerca de duzentos metros, Robert Jordan contou quinze Fiats escalonados como um bando de patos bravos, em grupos de três em forma de V. À entrada da gruta todos tinham um aspecto sombrio e Robert Jordan perguntou: -Nunca tinham visto tantos aviões? -Nunca -respondeu Pablo. -Não há assim tantos em Segóvia? -Nunca vimos mais de três e às vezes seis, dos de «caça». Aviões iguais a estes nunca vi. «Isto vai mal, pensou Jordan consigo. Na verdade mal. Não me cheira bem tamanha concentração de aparelhos. Tenho que escutar a ver se descubro onde descarregam. Mas, não, ainda não moveram as tropas para o ataque. Nem amanhã se porão em movimento. A estas horas ainda não pode haver nada.» Lentamente o rumor ia-se apagando. Olhou para o relógio. Deviam estar sobre as linhas, pelo menos os primeiros. Puxou a mola que comandava os ponteiros dos minutos e ficou a vê-lo girar. «Não, talvez ainda não. Agora. Sim. Já lá devem estar agora. Quatrocentos quilómetros à hora para os cento e onze, em todo o caso. Precisavam de cinco minutos para chegar lá abaixo. Agora devem estar para além do desfiladeiro, com Castela amarela e feroz sob eles, na manhã, o amarelo raiado pelas estradas brancas e coalhado de aldeias disseminadas; as sombras dos Heinkel deslizando sobre aquele solo pedregoso como sombras de tubarão num mar com fundo de arcia.» Não se ouviu qualquer explosão de bombas. O relógio continuava- a marchar. «Vão a Colmenar, ao Escurial, ou ao aeródromo de Manzanares el Real,» pensava ele, «lá onde havia um velho castelo acima das águas do lago e patos nos roseirais, e um falso aeródromo colocado justamente atrás do verdadeiro com falsos aviões semicamuflados com as hélices girando ao vento. Deve ser para lá que eles vão. Não podem estar avisados do ataque,» 78 dizia a si próprio, e qualquer coisa nele se opunha: «e por que não? Foram prevenidos de todos os outros.» -Parece-te que viram os cavalos? -perguntou Pablo. -Não estavam à procura de cavalos -retrucou Robert Jordan.


-Mas parece-te que podem ver os cavalos? -Só quando forem mandados com esse fim. -Mas tê-los-ão visto? -Suponho que não, a menos que o sol estivesse sobre as árvores. -Neste tempo o sol bate lá muito cedo-observou Pablo desoladamente. -Creio que eles têm coisas mais sérias em que pensar, do que nos teus cavalos. já tinham decorrido oito minutos e ainda não soara o estrépito do bombardeamento. -Que estás a fazer com o relógio ?-perguntou a mulher. -Estou a calcular onde eles devem estar. -Oh-disse ela, Passados dez minutos Jordan guardou o relógio; a distância já lhe não permitia ouvir coisa alguma, ainda mesmo concedendo um minuto para a transmissão do som. E chamou Anselmo: ~Quero falar contigo. Anselmo surgiu à boca da gruta e os dois colocaram-se a pouca distância da'entrada, junto a um pinheiro. Qgé tal? - perguntou Jordan. - Como vão as coisas? bem. -.Muito ~J4 comeste ? -,Não. Ainda ninguém comeu. ~-Trata de comer e de levar alguma coisa para jantar. Quero-- que vás vigiar a estrada e tomar nota de tudo o que passar por lá, tanto.-para cima como para baixo. -Mas não sei escrever. -Não tem importância. -Jordan arrancou, do caderno duas folhas e com o canivete cortou uma ponta do lápis aí com uns dois centímetros. -Leva isto e faz um sinal assim para os tanques-e desenhou sumàriamente um tanque-uma marca para cada um e quando forem mais de quatro corta os quatro para indicar o quinto. -É assim que nós cá fazemos as contas. -Está bem. Outra marca: duas rodas e uma caixa, para os camiões. Se passarem vazios, traça um círculo. Se estiverem cheios de tropa, faz um risco. Marca os canhões. Os grandes 79 assim. Os pequenos assim. Os carros também. Marca as ambulâncias assim: duas rodas e uma caixa com uma cruz em cima. Ma.rca a infantaria por companhias, assim, estás a ver? Um pequeno quadrado e um sinal à direita. A cavalaria assim, estás a ver? Como um cavalo. Um rectângulo de quatro patas. Isto significa um esquadrão de vinte cavalos. Compreendes? Cada esquadrão a sua marca. -Sim. É muito engenhoso. -Agora-e desenhou duas grandes rodas rodeadas por círculos com um traço.curto representando um canhão-estes são os antitanques. Têm pneus. Uma maxca para eles. Estes são os antiaéreos: duas rodas com um traço virado para cima. Uma marca paxa eles, também. Compreendes? já viste destes canhões ? -Vi, pois. Naturalmente -respondeu o velho. -Leva o cigano e mostra-lhe o ponto de observação paxa que depois te possam ir render. Escolhe um lugar seguro, não demasiado perto, de onde possas ver bem e confortàvelmente. Fica lá até que apareça alguém para te substituir.


- Compreendo. -Bem. E quando voltares, conta-me tudo o que se passou na estrada. Uma folha é para o movimento de subida, e a outra é só para o da descida. Finda a explicação voltaxam para a entrada da caverna. -Manda-me o Rafael-disse Jordan e ficou à espera junto a uma árvore. Viu Anselmo entrar na gruta e a cortina fechar-se sobre ele. Logo a seguir apareceu o cigano, bamboleando, a enxugar a boca com as costas da mão. -Quê tal? - perguntou o cigano. - Divertiste-te muito esta noite ? -Dormi. -Essa não está má-exclamou o cigano a rir.-Tens um cigarro ? -Ouve -principiou Jordan procurando no bolso um cigarro.-Quero que acompanhes o Anselmo a um pouto de onde ele possa observar a estrada. Deixa-o lá, mas toma nota do lugax, para depois me levares a mim ou a qualquer outro que o vá render. Depois procura um sítio de onde possas vigiar a serração e as mudanças que houver nesse posto. -Que mudanças? -Quantos homens costumam guaxdar o posto? -Oito. É a última informação. 80 -Vê quantos são presentemente. E a que intervalos é rendida a guarda da ponte. - Intervalos ? -Quantas horas é que as sentinelas ficam lá ou o tempo que levam para ser mudadas. - Eu não tenho relógio. -Leva o meu. E Jordan tirou o relógio do pulso. -Que relógio! - exclamou Rafael admirado. - Muito complicado, hem? Uma coisa destas é até capaz,de saber ler e escrever. Olha que complicação de números. E um relógio para acabar com todos os outros. -Cuidado com ele. Sabes ver as horas? -E como não? Doze horas, meio-dia: fome. Doze horas, meia-noite: sono. Seis horas da tarde, bêbedo. E quando há sorte, dez horas da noite... -Cala-te. Deixa-te de palhaçadas. Preciso que vigies o guarda da ponte grande e o posto da estrada em baixo, assim como o posto e o guarda da serração e a ponte pequena também. -Isso é trabalho de mais-protestou o cigano.-Não podes mandar outra_pessoa? -Não, Rafael. E muito importante. Trata de fazer tudo cora a maior cautela, de maneira a não seres visto. -Creio bem que não me mostrarei-disse o cigano.. -Porque me dizes tu para não me fazer ver? julgas que tenho vontade de que me encham o lombo de balas? -Leva as coisas mais a sério. Isto agora não é brincadeira. -Mandas-me tomar as coisas a sério, depois do que fizeste esta noite? Tu precisavas matar um homem e que fizeste? Devias matar um e não fazer um! Acabámos de ver o céu coalhado de aviões, em quantidade suficiente para nos M,-r.dar a todos fazer companhia aos nossos avós e matar até os netos por nascer, incluindo os animais, desde as cabras até aos percevejos. Aviões que faziam um barulho capaz de coalhar o leite no peito da tua mãe, escurecendo o céu e rugindo como leões; e ainda me fálas em tomar as coisas -a sério! Eu já levo tudo a sério, de mais até.


-Está bem-concordou Jordan, rindo-se e colocando a mão sobre o ombro do ciga-Tio.-Ent~,ío não as tomes &masiado a sério. Trata de almoçar e vai. -E tu?-perguntou o cigano.-Que vais fazer? -Vou precurar El Sordo. 6- S. D. 81 -Depois destes aviões é bem possível que não encontres vivalina por estas montanhas. Muita gente suou ftio esta manhã quando os aviões passaram. -Eles têm mais que fazer que dar caça às guerrilhas. -Lá isso têm-concordou o cigano.-Depois abanou a cabeça.-Mas quando o começarem a fazer!... -Qtíé va - exclamou Robert Jordan. - Aqueles são os melhores bombardeiros ligeiros alemães. Eles não os mandam atrás dos ciganos. -Causam-me espanto-disse Rafael.-Dão-me medo, de verdade. -Vão bombardear algum aeródromo - disse Jordan quando entraram na gruta.-Tenho quase a certeza de que vieram para isso. -Que é que. tu dizes? -perguntou a mulher de Pablo, estendendo-lhe uma tigela de café e uma lata de leite condensado. -Leite por aqui? Que luxo! -Aqui temos de tudo-disse ela.-Até aviões que metem medo. Para onde disseste tu que eles iam? Robert Jordan deixou correr um pouco de leite espesso no café, através da fenda da lata, limpou-a contra a borda da tigela e mexeu o café até ficar de um tom castanho-claro. -Vão bombardear um acródromo, suponho. Podem ir também ao Escurial ou a Colmenax. E talvez vão aos três sítios. -Que vão para bem longe e não voltem por aquirosnou Pablo. -E porque andam agora por aqui?-indagou a mulher. -Nunca vi desses aviões, nem nunca vi aviões em tanta quantidade. Devem estar a preparar algum ataque. -Que movimento houve ontem à noite na estrada?inquiriu Jordan. Maria estava perto dele, mas Jordan não a olhava. -Responde, Fernando, já que estiveste a noite passada em La Granja. Que movimento houve por lá? -Nenhum-respondeu um homem de fisionomia leal, com cerca de trinta e cinco anos e que Jordan ainda não vira. -Alguns camiões como sempre. Alguns automóveis. Nenhum movimento de tropas, enquanto andei por lá. -Vais todas as noites a La Granja ?-perguntou Jordan. -Vou eu ou vai outro qualquer. Nunca deixa de ir um de. nós. 82 -Sim, vão à cata de notícias, ou buscar tabaco, e outras miudezas -explicou a mulher. -Há partidários nossos por lá? -Como não? Temos os que trabalham na central eléc. trica. E outros mais. -E novidades? -Pues, nada. As coisas no norte continuam más; isso, porém, não é novidade. As coisas sempre andaram mal no norte desde o começo. -Ouviste qualquer coisa sobre Segóvia? -Não, hombre. Não perguntei nada. -Tens ido a Segóvia?


-Algumas vezes. Mas é perigoso. Há controles onde exigem papéis. -Conheces o aeródromo de lá? -Não, hombre. Sei onde fica mas nunca me cheguei perto. Lá as exigências são maiores. -Ninguém falou destes aviões a noite passada? -Em La Granja? Ninguém. Mas hoje não deixarão de falar. E muito. No que falavam era no discurso de Queipo de Llano pela rádio. Nada mais. Ali, sim. Parece que a República prepara uma ofensiva. - Parece quê ? -Que a República prepara uma ofensiva. -De onde vem esse boato? -De onde? Bah! De muitos lados. Os oficiais falam nos cafés, em Segóvia e em ÃviJa, e os criados escutam. Os boatos espalham-se. já há muito tempo que se fala de uma ofensiva da República por estas bandas. -Da República ou dos fascistas? -Da República. Se fosse dos fascistas toda a gente o saberia. Não. E essa ofensiva é importante. Dizem até que haverá duas. Uma aqui e outra para os lados do Alto del Léon, perto do Escurial. -E que mais ouviste? -Nada, hombre. Ali! Sim. Dizem também que os republicanos vão fazer saltar as pontes no caso de haver a ofensiva. Mas todas as pontes estão bem guardadas. -Isso é a sério ?-perguntou Robert Jordan bebendo o café. -Claro, hombre-disse Fernando. -Fernando não brinca-ajuntou a mulher. -Infelizmente. -Pois muito obrigado pelas notícias. Não ouviste mais nada? 83 -Não. Fala-se, como sempre, de uma limpeza nestas montanhas. Dizem mesmo que já estão a caminho. Que já partiram de Valladolid. Mas é conversa fiada a que não se pode dar importância. -E tu-e a mulher dirigia-se quase irónicamente a Pablo -a falar em segurança! Pablo encarou-a com ar preocupado, coçando o queixo. -Tu e as tuas pontes. -Que pontes? -perguntou Fernando alegremente. -Estúpido - exclamou a mulher. - Cabeça de pedra! Tonto. Bebe outra tigela de café e vê se te lembras de mais algum boato. -Não te zangues Pilar-disse Fernando com calma. jovialidade. -Não devemos preocupar-nos com os boatos. já te disse e a este camarada, tudo de que me lembrava. -Não re recordas de mais nada?-insistiu Jordan. -Não-declarou Fernando com dignidade. -Ainda tive sorte em lembrar-me disto, porque não passam de boatos e eu não dou atenção aos boatos. -Quer _dizer que podem ainda correr outras coisas? -Sim. E possivel. Mas não dei atenção. Há um ano que só se ouvem boatos. Robert Jordan ouviu estalar um riso; era Maria, de pé atrás dele, que não se podia conter. -Conta mais um boato, Fernando-pediu Maria. E os seus ombros foram de novo agitados pelo louco ataque de riso. -Nem que me lembrasse contaria -respondeu Fernando. -Acho coisa abaixo da dignidade de uni homem ouvir e propalar boatos.


-E é assim que nós salvaremos a República - murmurou a mulher. -Não. Vocês vão salvá-la fazendo voar as pontesrepontou Pablo. -Marchem-disse Robert Jordan a Anselmo e a Rafael -se já acabaram de comer. -Vamos-disse o velho, e ambos se puseram de pé. Jordan sentiu no ombro a pressão de uma mão. Era Maria. -Tu precisas de comer-disse ela deixando a mão pousada no ombro.-Come bem para que o teu estômago possa suportar outros boatos. -Os boatos tiraram-me-o apetite. -Não. Não deve ser assim. Come isto antes que venham mais boatos- continuou Maria empurrando para ele uma terrina. 81 -Não te rias de mim-queixou-se Fernando.-Sou teu amigo, Maria. -Não é contigo que estou a brincar, Fernando. E dele que me rio pois se não comer ficará com fome. -Todos precisam & comer-disse Fernando.-Pilar, que aconteceu para não nos servirem? -Nada, hombre-e a mulher de Pablo encheu-lhe o prato de carne cozida.-Come, sim. É isso que podes fazer. Come, agora. -Está muito bom-resoondeu Fernando mantendo intacta toda a sua dignidade. -Obrigada. Obrigada e outra vez obrigada. -Estás zangada comigo, Pilar? -Não. Come. Anda-me com isso. -Estou a comer-disse Fernando. -Obrigado. Robert Jordan olhou para a rapariga que reprimia o riso e os ombros tremiam-lhe nesse esforço e voltou os olhos. Fernando comia gravemente, a dignidade transparecendo-lhe no rosto, dignidade que não era afectada pelo colherão com que se servia, nem pelo molho que lhe escorria pelos cantos da boca. -Gostas da comida? -perguntou a mulher. -Sim, Pilar-respondeu ele com a boca cheia.-É o mesmo de sempre. Robert jordan sentiu a mão de Maria pousada no seu braço e, os dedos da rapariga apertaram-no com deleite. -E por isso que te está a saber bem?-perguntou Pilar a Fernando. «Sim. - acrescentou. - Compreendo. O cozido? Como sempre. Como siempre. As coisas vão mal no norte? Como sempre. Uma ofensiva por aqui? Como sempre. As tropas vêm correr-nos das montanhas? Como sempre. Tu poderias servir de modelo para a estátua do como sempre. -As duas últimas coisas não passam de boatos, Pilar. -A Espanha... -a mulher de Pablo falava com amargura. Depois virou-se para Robert jordan: -Haverá gente assim nos outros países? -Não há outro pais como a Espanha- respondeu jordan, polidamente, -Tens razão-disse Fernando.-Não há no Mundo país como a Espanha. -Conheces outro?-indagou Pilar. -Não, nem quero conhecer. - Tu vês isto ? - disse a mulher voltando-se para Jordan. 85


- Fernando -interveio Maria-conta-nos aquela vez que foste a Valência. -Não gostei de Valência. - Porquê? -perguntou Maria voltando a apertar o braço de Jordan. -Os valencianos não têm maneiras e nã(x fui capaz de os entender. Tudo o que fazem é gritar che uns para os outros. -E eles entendiam-te? -Fingiam que não. -E que fizeste lá? -Parti sem ao menos ver o mar. Não gostei daquela gente. -Oh! Cala-te, minha solteirona velha! - interveio a mulher de Pablo.-Fora daqui antes que a mostarda me suba ao nariz. Foi em Valência que passei a melhor época da minha vida. Vamos! Valência. Não me fales de Valência. -Como era a tua vida lá?-perguntou Maria. A mulher de Pablo sentou-se à mesa. diante do cozido, com a caneca de café e o pão ao lado. -Quê? A minha vida por lá? Eu estava em Valência quando o Finito fez um contrato para três corridas na Feria. Nunca vi tanta gente. Nunca vi cafés mais cheios. Durante horas não se conseguia lugar numa mesa e não se podia subir para os «eléctricos». Em Valência o movimento não pára, nem de dia nem de noite. -Mas que fazias tu?-insistiu Maria. -Tudo-respondeu a mulher.-Iamos para a praia e nadávamos e havia barcos à vela que eram tirados da água por juntas de bois. Metiam os bois na água até que começasserri a nadar; então atrelavam-nos aos barcos e quando tinham de novo pé, começavam a puxar; dez juntas de bois puxando para a areia um barco à vela, de manhã, com pequenas ondas desfàzendo-se na praia. Isto é Valência. -E que fazias além de olhar para os bois? -Comíamos em barracas na areia. Pastéis de peixe e lagostins com pimentões vermelhos e verdes e nozes pequeninas como grãos de arroz. Massas folhadas deliciosas e peixes de todas as qualidades. Mariscos fl-escos, saídos da água, com molho de limão. Rosados e macios e cada lagostini dava quatro pedaços. E comíamos muitos. E depois comia-se paella feita com mariscos frescos, mexilhões, caranguejos e enguias pequenas. E depois comíamos enguias ainda mais pequenas, sózinhas, fritas em azeite, que pareciam feijões verdes e se enrolavam em todas as direcções e tão macias que se desfaziam na boca sem a gente mastigar. E tudo regado com vinho branco, 86 gelado, leve, e bom, a trinta ceiiti7nos a garrafa. E para tern-iinar, melão. Valência é a terra do melão. - O melão de Castela é melhor-rosnou Fernando. -Q_ué va-exclamou a mulher de Pablo.-O melão de Castela é para os olhos. O melão de Valência é para a boca. Quando penso naqueles melões do tamanho de um braço, verdes como o mar, que estalam quando se abrem e mais doces que uma madrugada de Verão! Ali! Quando penso em todas aquelas enguias, miudinhas, delicadas, amontoadas nos pratos a cerveja em canecas, que bebíamos toda a tarde, cerveja tão fria que as canecas, grandes como panelas para a água, se embaciavam. - E que fazias tu quando não estavas nem a comer nem a beber?


-Amávamos no quarto, com as persianas da varanda corridas. Uma. brisa entrava pelo alto da janela; podíamos deixá-la aberta. Fazíamos amor na penumbra, mesmo de dia, com os estores descidos, e da rua vinha o perfume do mercado das flores e o cheiro a pólvora queimada dos petardos, das fracas Aue percorriam as ruas e se queimavam todos os dias ao meio-dia durante a Feria. Os fogos de Bengala atravessavam a cidade toda e as explosões estalavam ruidosamente em todos os postes dos «eléctricos», e nos fios, com um brilho e um estouro que nem queiram saber. Fazíamos amor e depois mandava vir uma caneca de cerveja bem gelada com o vidro embaciado, e quando a criada a trazia, ia buscá-la à porta e encostava o copo gelado às costas de Finito que estava já a dormir e que não tinha acordado quando traziam a cerveja e ele dizia: «Não, Pilar. Não, mulher, deixa-me dormir.» E eu dizia: «-Não, acorda e bebe, para ver como isto está frio.» E ele bebia sem abrir os olhos e voltava a adormecer e eu encostava-me a um travesseiro aos pés da cama e ficava a vê-lo dormir, queimado, com cabelos pretos, jovem e tranquilo no seu sono e bebia toda a caneca enquanto lá fora uma banda de música passava tocando. E dirigindo-se a Pablo:-Sabes alguma coisa disto? -Também fizemos boas coisas juntos -respondeu Pablo. -É verdade - concordou a mulher. - E tu eras mais macho que Finito, nos teus tempos. Mas nunca estivemos em Valência. Nunca nos deitámos juntos numa cama ouvindo uma banda tocar na rua. - Era impossível- volveu Pablo.-Não tivemos oportunidade de ir a Valência. Mas com Finito nunca fizeste saltar um comboio. 87 -Não-disse a mulher.-Eis o que nos resta. O comboio. Sim, sempre o comboio. E nada há a dizer contra isso. E o que se salva da preguiça, da baixeza, da covardia. E o que resta é * covardia. Antes houve inuítas coisas. Mas não admito que ri, inguém, fale contra Valência. Ouves? _ Eu não gostei-disse Fernando tranquilamente.-Não gostei de Valência. -E ainda dizem que a mula é o animal mais teimoso que há-rematou a mulher.-Arranja tudo para podermos partir, Maria. Nesse momento chegaram-lhe aos ouvidos os primeiros sons que anunciavam o regresso dos aviões. 38 CAPíTULO IX ESTAVAM todos de pé à entrada da gruta a ver os aviões passar, com as formações de bombardeiros voando agora a alta altitude, rápidas e perigosas pontas de lança que fendiam o céu com o barulho dos motores. «Têm a forma dos tubarões,» pensou jordan, «dos tubarões do Gulf Stream de largas natatórias e nariz pontiagudo.» Mas estes não se moviam como os tubarões, com as grandes natatórias de prata, o seu ronco, o nevoeiro que as hélices faziam ao sol. Moviam-se como a própria fatalidade mecanizada. -Tu deverias escrever. E talvez escrevas um dia. Alguém lhe pegou no braço. Era Maria. Olhava para o ar e ele perguntou: -Que te parecem os aviões, guapa?


-Não sei. Parecem-se com a morte. - Para mini são aviões - disse a mulher de Pablo. - E para onde foram os pequeninos? -Devem andar ainda por outra zona. Estes de bombardeamento são muito rápidos para esperar por eles e voltaram sózinhos. Nunca os perseguimos do outro lado das linhas. Não temos aparelhos bastantes para arriscar nesta luta. Neste momento, três Heinkel em formação de V baixaram sobre a clareira, parecendo vir na direcção deles, como feios brinquedos de nariz chato. Desceram tanto, que da clareira se avistavam os pilotos, com os seus capacetes, grossos óculos e uma banda voando atrás da cabeça do comandante. -Estes podem avistar os cavalos-disse Pablo. -Até podem ver a brasa do teu cigarro-lembrou a mulher.-Desce a cortina. Não passaram outros aparelhos. Os restantes deviam ter tomado outra direcção. Quando a zoada cessou, todos voltaram, de novo, para for~. 89 O céu estava vazio, límpido, azul, radioso. -Tudo parece ter sido um sonho-disse Maria a jordan. Não se ouvia o leve rumor do avião que se afasta, rumor semelhante a um dedo que nos toca na flor da pele e depois se afasta para voltar a tocar-nos de novo. -Mas não é um sonho e trata de arrumar as coisasobservou Pilar. -E para jordan: - Que fazer agora? Partimos a cavalo ou a pé? Pablo, olhou-a de soslaio e resmungou. -Tu é que sabes-respondeu J9rdan. -Vamos a pé-resolveu ela.-E melhor para o fígado. -Montar a cavalo também é bom para o fígado. -Sim, mas faz mal às nádegas. Nós iremos a pé e tu... voltou-se para Pablo:-Vai lá abaixo e conta os animais para ver se não voaram com os aviões. -Tu queres um cavalo? -perguntou Pablo a Robert jordan. -Não, obrigado. E a rapariga? -E melhor ir também a pé-disse Pilar.-Se não, fica com dores no corpo e não prestará para nada. Robert jordan sentiu-se corar. -Dormiste bem?-quis saber Pilar. Depois acrescentou: -Acredita que ela não tem coisa nenhuma. Podia ter. Nem sei como escapou. E que ainda existe Deus, apesar de O termos suprimido. Desaparece -disse a Pablo.-Isto não é contigo, é para gente nova, de outra laia. -E virando-se para jordan: -Agustin foi tratar da bagagem. Logo que ele tiver acabado partiremos. Dia de sol quente. jordan observava aquela mulher de rosto moreno e feições quase toscas; pesada, cheia de rugas e de uma fealdade agradável, de olhos alegres, mas havia nela uma expressão de tristeza que só desaparecia quando falava. Jordan ficou a olhá-la e depois volveu os olhos para Pablo, o homem maciço que se afastava entre as árvores na direcção do curral. A mulher também o seguiu com os olhos. -Então? Amaram-se? -perguntou a mulher. -Que foi que Maria te disse? -Nada. A mim nunca me dirá nada. -Nem eu tão-pouco. -Quer dizer que se amaram-decidiu a mulher.-Muito bem, mas toma cuidado.


-E se aparece um filho? -Não será nada. E talvez seja até melhor. go -O lugar não é bem escolhido. -Nem ela vai ficar aqui. Vai para onde tu fores. -E para onde irei eu? Não posso andar com uma mulher atrás de mim. -Quem sabe? Talvez possas até levar duas. -Isso não é resposta. -Ouve-disse a mulher-não sou covarde, mas vejo as coisas muito claramente logo de manhã e penso que entre os que estão hoje vivos, há muitos que não chegarão a ver o peóximo domingo. -Que dia é hoje? -Domingo. - Quê va- exclamou Jordan. -O domingo que vem ainda está longe. Se chegarmos a quinta-feira, já é muito bom. Mas não gosto de te ouvir falar assim. -A gente tem de falar com alguém. Antes havia a religião e outras porcarias. Agora devia haver uma pessoa em quem pudéssemos confiar e com quem falar ftancamente; porque por maior que seja a nossa coragem, a solidãá dói. -Não estamos sós. Somos um grupo. -A vista daquelas máquinas fez-me mal. Não somos nada diante de semelhantes máquinas. -No entanto podemos batê-las. -Olha-disse a mulher-confesso a minha tristeza, mas não julgues que me falta coragem. Sempre fui corajosa. -A tristeza desaparece com o sol. E como o nevoeiro. -Claro-disse a mulher.-Como queiras. E vê o que resulta das divagações sobre Valência e deste falhado que foi verificar os cavalos. Feri-o muito com esta história. Matá-lo, sim. Injuriá-lo, está certo. Mas feri-lo, não. -Como foi que vocês se juntaram? -Quem sabe lá como estas coisas acontecem? Nos primeiros dias do movimento ele ainda era alguém. Algo de muito sério. Mas agora está liquidado. O odre furou e todo o vinho escorreu para fora. -Eu não gosto dele. -Ele também nao gosta de ti, e tem razões para isso. A noite passada dormi com ele.-Sorriu e abanou a cabeça. - Vamos a ver- disse. - Perguntei-lhe: Pablo porque não matas o estrangeiro? É um bom rapaz, Pilar, respondeu-me ele. É um bom rapaz. Então perguntei:-já compreendeste que quem manda agora sou eu?-Sim, Pilar, compreendi, respondeu ele. Era já noite alta quando acordei; encontrei-o a chorar. Chorava com aquele barulho breve e surdo, como gr os homens choram, e dir-se-ia que há neles um animal que os sacode.-Que te aconteceu, Pablo?, perguntei apertando-o contra n-úm.-Nada, Pilar, nada.-Sim, aconteceu-te alguma coisa.-Os companheiros, a maneira como me abandonaram. A gente.-Sim, mas eles estão comigo e eu sou a tua mulher. -Pilar, tornou ele, lembra-te do comboio. Depois acrescentou: Deus te proteja, Pilar.-Porque falas tu de Deus? perguntei eu. Que linguagem é essa?-Sim, Deus e a Virgen, foi a sua resposta. - Quê va, Deus e a Virgen, disse-lhe eu. Isso são maneiras de falar?-Tenho medo de


morrer, Pilar, foi o que me respondeu. Tengo miedo de morir.-Então salta da cama, disse eu. Não há lugar na cama para mim, para ti e para o teu medo. Então ele envergonhou-se e calou-se e eu adormeci, mas este homem é uma ruína. Jordan não disse coisa alguma. -Toda a vida sofri com estes intervalos de tristezaobservou Pilar.-Mas não é igual à tristeza de Pablo, porque não afecta a minha resolução. -Acredito. -Talvez seja como as regras das mulheres -continuou Pilar. - Talvez não sej a nada. - E depois de uma pausa: - depositei grande esperança na República. Tenho na República uma fé inabalável. Creio nela com fervor, como os que são religiosos crêem nos mistérios. -Acredito! -E tu tens essa fé? -Na República? -Sim. -Tenho-disse ele sem grande convicção. -Estou contente-disse a mulher.-E não tens medo? -De morrer não-respondeu desta vez com sinceridade. -Mas medo de outras coisas? -Só o de não cumprir o meu dever como seria de exigir. -Não tens medo de ser capturado como o outro tinha? -Não-declarou lealmente Jordan.-Esse medo inutilizar-me-ia totalmente. -Pareces-me um rapaz muito frio. -Não, não acredito. -Quero dizer, de cabeça muito fria. -E que ando muito preocupado com a minha missão. -E não dás importância aos prazeres da vida? -Sim e muito. Mas isso não tem nada a ver com o meu trabalho. -Gostas de beber, já sei. Bem vi. 92 -Sim. Muito. Mas não de modo que interfira no meu trabalho. -E de mulheres? -Muito, também. Mas não lhes dou excessiva importância. -Não fazes caso delas? -Faço. Mas não encontrei nenhuma que me levasse a sentir o que dizem que se sente. -Parece-me que mentes. -Sim, um pouco, talvez. -Sei que gostas de Maria. -Isso veio de repente. E forte. -Também eu gosto muito dela. Muito. -Eu também-disse Robert Jordan sentindo a garganta apertada. - Eu também. Sim. - Dava-lhe prazer dizê-lo e disse-o muito solenemente em espanhol gosto muito dela. - Depois de falarmos com El Sordo deixo-vos sós. Jordan calou-se um instante; depois declarou que não era preciso. -Sim, hombre. É preciso. Não temos tempo a perder. -Foi isso que leste na minha mão? -Não. É preciso não acreditar nessas porcarias.


Pilar pusera aquilo de lado, como todas as coisas que pudessem prejudicar a República. Jordan calou-se de novo. Tinha o olhar em Maria, ocupada em arrumar os pratos, no fundo da gruta. Ela enxugou as mãos e sorriu-lhe. Não podia ouvir o que dizia Pilar, mas ao sorrir corou. -Há também o dia - lembrou Pilar. - Além da noite vocês podem dispor do dia. Está claro que sem aquele luxo que eu tive em Valência. Mas podem sair para apanhar amoras das silvas ou qualquer coisa parecida.-E riu. Jordan. pousou a mão sobre o seu ombro forte. -m--Também gosto de ti e muito. -Estás a sair-me um verdadeiro D. Juan Tenório-disse Pilar meio confusa.-Tens um vago amor por toda a gente. AI vem Agustin. Robert Jordan entrou na gruta e aproximou-se de Maria. Ao vê-lo avanéar e aproximar-se os olhos da rapariga brilharam e o sangue afluiu-lhe ao rosto. -Bom-dia, minha coelhinha-disse beijando-a na boca. Ela abraçou-o e olhou-o depois -no rosto:-Bom-dia, oh! Bom-dia. Bom-dia. 93 Fernando, que fumava sentado a distância, abanou a cabeça e retirou-se pegando na espingarda que estava encostada à parede. -Eles não fazem a mais leve cerimónia-disse de passagem a Pilar-e isso não me agrada. É preciso zelar pela rapariga. -É isso mesmo o que estou a fazer. Aquele camarada é o seu novio. -Oh!-exclamou Fernando.-Nesse caso tudo se torna perfeitamente natural. -Eu estou muito satisfeita. -E eu também -concordou Fernando com gravidade. - Salud, Pilar. -Aonde vais tu? -Render Prinútivo ao posto lá de cima. -Aonde é que vais cagar ?-perguntou Agustin ao homenzinho grave quando este começou a subir a encosta. -Vou cumprir o meu dever-respondeu Fernando com dignidade. -O teu dever-disse Agustin arreliador.-Me cago para o leite do teu dever.-Depois dirigindo-se à mulher:-onde está essa mierda que tenho que guardar? -Na gruta. Em dois sacos-respondeu Pilar.-E já ando cansada da porcaria da tua boca. -Me cago para o leite do teu cansaço-disse Agustin. -Pois então vai e caga-te a ti mesmo-volveu Pilar de bom humor. -E à tua mãe-ripostou Agustin. -Que tu nunca tiveste-tornou Pilar. Os insultos tinham atingido a extrema solenidade espanhola em que os actos não se exprimem mas se subentendem. -Que fazem eles lá dentro? -perguntou Agustin em tom confidencial. -Nada-respondeu Pilar.-jVada, apesar de estarem na força.da primavera, não sabes disso, animal? -Animal -- repetiu Agustin saboreando a palavra. Animal. E tu? Filha da maior vaca de todas as vacas. Me cago para o leite da tua primavera. -Tu-disse ela rindo com o seu riso sonoro-tens umas pràgas pouco variadas. Mas tens força. Viste os aviões? -Me cago no leite dos seus motores-disse Agustin abanando a cabeça e mordendo o lábio inferior.


-Isso já é alguma coisa, mas difícil de fazer. -Naquela altitude, sim-rosnou Agustin.-Desde luego. Mas o melhor é gracejar. 94 -Sim. É melhor gracejar e tu sabes fazê-lo. -Ouve, Pilar-volveu Agustin falando sério.-Está a preparar-se alguma coisa, não é verdade? -Que te parece? -Uma porcaria que não podia ser pior. Eles dispõem de muitos aviões, mulher. Muitos. -Estás com medo, como os outros? -Quê va-exclamou Agustin.-Que pensas que eles estão preparar? -Ouve-respondeu Pilar.-Se mandam um rapaz para ponte é sinal de que a República prepara uma ofensiva. E os aviões indicam que os fascistas se preparam para a resistência. Mas para que expô-los assim, a estes pássaros? -Nesta guerra tem havido porcaria sobre porcaxia. -Sem dúvida. Se não fosse assim há muito que não estávamos aqui. -Sim-concordou o rapaz-vogamos em plena idiotice, de há um ano para cá. Mas Pablo é muito esperto, Pablo é muito astucioso. -Porque dizes isso? - Porque o é. -Mas tu precisas compreender- explicou Pilar.-É tarde para nos salvarmos pela astúcia e ele não tem mais nada. - -Compreendo -respondeu Agustin.-Sei que temos que partir. E desde que precisamos vencer para sobreviver, façamos voar a ponte. Mas Pablo apesar de andar muito acovardado, é muito esperto. -Eu também sou esperta. -Não, Pilar-opôs Agustin.-Tu não és esperta. Tu és corajosa. Tu és leal. E és decidida. E tens intuição. Muita decisão e muito coração. Mas não és esperta. - Parece-te ?-perguntou ela pensativa. - Parece, Pilar. - O rapaz americano é esperto - disse a mulher. - Esperto e frio. Tem uma cabeça muito calma. -Sim-concordou Agustin.-Se não fosse hábíl e competente não lhe teriam dado a missão. Mas não sei se é esperto e Pablo sei que é esperto. -Mas está inutilizado pelo medo e pela preguiça. -Não quer dizer nada. Continua esperto. -E que te parece tudo isto? -Nada. Esforço-me por julgar a situação com inteligência. Neste momento precisamos de agir com muita cabeça. Depois de rebentada a ponte temos de partir imediatamente. Pre95 cisamos de estax todos preparados e é preciso saber para onde vamos e como vamos. -Naturalmente. - E para isso... Pablo. É coisa para ser feita com muita manha. -Não tenho confiança em Pablo. --Pois nesse ponto eu tenho. -É que tu não sabes até que ponto ele está aniquilado.


-Pero es muy vivo. É muito esperto. E se não formos espertos neste negócio estamos desgraçados. -Vou reflectir -declarou Pilar.-Tenho o dia todo para pensar nisso. - Para as pontes, o rapaz - disse Agustin. - Há-de saber trabalhar. Lembra-te como o outro organizou a tarefa do comboio. -De facto. Foi ele quem projectou tudo e muito bem. -Tu para a energia e resolução-disse Agustin.-Mas Pablo para a retirada, para o movimento. Obriga-o a estudá-Ia desde já. -Tu és inteligente. -Inteligente, sim, sou.Mas sinpicardia.Isto é coisa dePablo. -Apesar do medo e tudo? -Sim, apesar do medo e de tudo mais. -4 qual é a tua opinião sobre a historia das pontes? -E necessário. Isso sei eu. Temos que fazer duas coisas. Sair daqui e vencer. E para vencer é preciso destruir as pontes. -Se Pablo é tão esperto porque não viu isso? -Ele quer que as coisas se façam de acordo com a sua fraqueza. Ele quer ficar no redemoinho da própria inércia. Mas a maré está a subir. Obrigado a tomar uma atitude, ele mostrar-se-á ardiloso. Es muy vivo. -Então foi bom que o rapaz não tivesse dado cabo dele. - Quê va. O cigano queria que eu o matasse ontem à noite. O cigano é uma besta. -Tu também és uma besta, mas uma besta. inteligente. -Somos ambos inteligentes -emendou Agustin.-Mas o talento é de Pablo. -Talento difícil de manejar. Ninguém imagina até que ponto ele está arrasado. -Mas ainda é um talento! Olha, Pilar, para fazer uma guerra basta ter inteligência. M?_s para vencer é preciso talento e material. ~-Vou pensar nisso-rematou a mulher-e temos que partir já. Estamos atrasados. ~-- Depois, levantando a. voz: -Inglês-chamou ela.-IngIés! Vamos! São horas! 96 CAPITULO X DESCANSEMOS -disse Pilar a Robert jordan.-Senta-te aqui, Maria, e descansemos. -Não podemos parar, minha cara-objectou Jordan. -Descansaremos quando tivermos chegado. Tenho que ver aquele homem. -Hás-de vê-lo - disse-lhe a mulher. - É inútil tanta pressa. Senta-te, Maria. -Não, deixemos o descanso lá para o alto - insistiu Jordan. -Pois vou sentar-me -resolveu Pilar; e sentou-se à beira do riacho. Maria fez o mesmo; sentou-se na relva e o sol brilhava-lhe no cabelo. Só o rapaz permaneceu de pé, com os olhos voltados para o alto da montanha e o murmúrio da água nos ouvidos. Rochas cinzentas surgiam entre fetos amarelos que, mais abaixo, substituíam as urzes e via-se, ainda mais abaixo, a linha sombria dos pinheiros. - Ainda é longe a casa de El Sordo ? - perguntou Jordan. -Não é longe-respondeu Pilar.-É para além deste pedaço, no vale, acima da mata que está no alto do ribeiro. Senta-te e esquece essa gravidade.


-Preciso de ver El Sordo e deixar tudo regulado. -E eu vou lavar os pés-retrucou Pilar retirando as sandálias e as grossas meias de lã e metendo o pé direito na água. -Meu Deus, como está ffia. -Devíamos ter vindo a cavalo -continuou Jordan. - Isto faz-me bem - disse Pilar. - Era o que me estava a fazer falta. Que diabo tens tu, homem? -Nada. Pressa. Mais nada. -Então acalma-te, porque tens muito tempo. Que dia lindo está hoje e como estou contente por me ver livre dos 7-S. D. 97 pinheiros. Ninguém imagina como estou farta dos pinheiros. Tu não estás também farta dos pinheiros, guapa? -Eu gosto dos pinheiros -respondeu Maria. -Que encontras tu lá para gostares deles? -O cheiro resinoso e a caruma sob os pés. Gosto do vento balouçando os maiores, e os ramos a estalarem uns contra os outros. -Tu gostas de tudo-disse Pilar.-Serias um presente do céu para qualquer homem se soubesses cozinhar melhor. Mas os pinheiros são uma floresta de tédio. Tu nunca viste uma floresta de faias, nem de carvalhos, nem de castanheiros. Isso é que são florestas. Nessas florestas cada árvore é diferente da outra, todas têm um carácter próprio, beleza. Uma floresta de pinheiros enfastia. Que dizes tu, Inglês? -Também gosto dos pinheiros. -Pero, venga-tornou Pilar.-Os dois iguais. Eu também gosto dos pinheiros, mas estou farta deles. Estou há muito tempo entre eles. Também estou cansada das montanhas. Nas montanhas só há duas direcções: ou para cima ou para baixo. Quando se desce chegamos à estrada e às cidades dos fascistas. -Costumas ir a Segóvia? -Quê va. Com esta cara? Isto é uma cara que toda a gente conhece. Que dirias tu se fosses feia, guapa ?-perguntou ela a Maria. - Tu não és feia. - Vamos, não sou feia! Sou feia de nascença. Toda a vida fui feia. Tu, Inglês, que não sabes nada das mulheres, sabes o que sente uma mulher feia? Podes imaginar o que é ser feia toda a vida e sentir-se bela lá por dentro? É muito divertido. -Mergulhou o outro pé na corrente mas retirou-o.-Meu Deus, como está fria. Olha a aJvéloa-disse, designando um pássaro semelhante a uma bola cinzenta que voava de pedra em pedra subindo a corrente.-Não presta para nada. Nem para cantar, nem para comer. Tudo o que sabe fazer é dar ao rabo. Dá-me um cigarro, Inglês-pediu. ela. Acendeu-o com o isqueiro que trazia no bolso da blusa, aspirou uma fumaça e olhou para Maria e para Robert jordan. -A vida é muito curiosa-disse, expelindo o fumo pelo nariz.-Eu daria um perfeito homem e sou completamente mulher e ainda por cima mulher feia. Apesar disso os homens amaram-me e eu amei muitos homens. Curioso! Ouve, IngIés, que é interessante. Olha para mim feia como sou. Olha bem para mim, Inglés. 98 -Tu não és feia.


- Quê no ? Não me mintas. O u - e ela teve uma das suas profundas gargalhadas-já estás enfeitiçado? Não. Estou a brincar. Olha para esta fealdade. Pois apesar disso temos nós um sentimento que cega um homem enquanto está apaixonado. Com esse sentimento cegamo-lo e cegamo-nos a nós mesmas. Mas lá vem um dia em que, sem razão nenhuma, o homem vê como a mulher é feia, feia como realmente é; e a mulher vê-se tão feia como o homem a vê e então perde o homem E também os tais sentimentos interiores. Compreendes, guapa? -E bateu no ombro da rapariga. -Não-respondeu Maria,-porque tu não és feia. -Procura usar a cabeça e não o coração e ouve, menina. Estou a dizer coisas muito interessantes. Isto não te interessa Ingiés ? -Sim, mas temos que partir. -Quê va, partir. Estou aqui muito bem-e Pilar continuou dirigindo-se a Robert Jordan como se estivesse diante de um pequeno auditório ou como se falasse a alunos: -E então passado algum tempo, quando se é feia como eu, tão feia quanto uma mulher o pode ser, então, dizia eu, ao fim de um certo tempo, o sentimento, o sentimento idiota da beleza interna cresce novamente. Cresce como uma couve. E então, quando o sentimento está bem desenvolvido, aparece outro homem e acha a mulher bela e tudo recomeça. Agora creio que ultrapassei tudo isto, mas a coisa ainda pode voltar. Tu tens sorte, guapa, em não seres feia. -Mas eu sou feia-afirmou Maria. -Pergunta-lhe -aconselhou Pilar-E não metas os pés na água. Está fria de mais. -Roberto diz que deveríamos ir, e creio que é melhor -disse Maria. -Ouve lá. Este negócio da ponte interessa-me tanto como ao teu Roberto e se eu digo que podemos descansar aqui à beira da_água é porque temos tempo. Além disso gosto de conversar. E a única coisa civilizada que ainda temos. Temos outras distracções? Não te interessa o que digo, Inglês? -Tu falas muito bem. Mas há outras coisas que me interessam mais que um discurso acerca da beleza e da fealdade. -Conversemos então sobre o que te interessa mais. -Onde estavas quando começou o movimento?-perguntou Jordan. -Na minha cidade. -Ávila? 99 - Quê va. Ávila. - Pablo diz que é de lá. -Mentira. Disse para se gabar de ser filho de uma grande cidade. Ele é de...-e nomeou uma minúscula cidade. -E que aconteceu? -Muitas coisas-disse a mulher.-Muitas. E todas feias, mesmo as gloriosas. - Conta-me, Pilar. -É brutal -continuou a mulher.-Não gosto de falar disto na ftente da rapariga. - Conta -insistiu jordan. -E se ela não quiser ouvir que tape os ouvidos. -Posso ouvir, sim-protestou Maria, pegando na mão do rapaz.-Não há nada que eu não possa ouvir. -Não é que não possas ouvir, Maria, é que se ouvires podes ter pesadelos.


-Não será unia história que me causará pesadelos. Tu acreditas que depois do que me aconteceu terei pesadelos por causa dessa história? -Mas poderá dá-los ao Inglês. -Experimentemos para ver. -Não, Inglês, não estou a brincar. Viste o começo do movimento em qualquer pequena cidade? -Não-respondeu Robert jordan. -Então não viste nada. Tu conheceste Pablojá arruinado. Mas para saber o que era Pablo seria necessário conhecê-lo naquela altura. - Conta. -Bem. Contarei a verdade, tal como se passou. Mas tu, guapa, avisa-me quando a coisa te estiver a fazer mal. -Se me fizer mal, deixarei de ouvir-respondeu Maria. -Não creio que possa ser pior que muitas outras coisas. -Creio que sim-disse a mulher.-Dá-me outro cigarro, IngIés e vamonos. A rapariga encostou-se ao talude e Robert Jordan deitou-se no chão, com a cabeça apoiada a uma urze. Estendeu os braços e encontrou a mão de Maria; agarrou-a e esfregou as duas contra a urze; depois a rapariga abriu a mão e escutando, pousou-a sobre a de Robert Jordan. -Foi de madrugada que os civiles do quartel se entregaram-começou Pilar. -Vocês tinham assaltado o quartel? -perguntou jordan. -Durante a noite Pablo tinha cercado o quartel e cortara os fios telefónicos; colocou dinamite sob itma das paredes e 10O intimou a guardia civil a render-se. Como não se entregassem, -logo que o dia rompeu, Pablo fez saltar a parede. Houve luta. Dois civiles foram mortos. Quatro foram feridos e quatro renderam-se. «Nós estávamos sobre os telhados, deitados no chão ou encostados às paredes, na luz frágil da madrugada, e a nuvem de poeira da explosão não tinha ainda acabado de cair, porque tinha subido muito alto e não havia vento para a empurrar; e todos atiravam pela brecha do quartel, voltavam a carregar e a disparar através do fumo, e do interior ainda vinham tiros de espingarda; então um deles gritou para não atirarem mais e quatro civiles apareceram de braços erguidos. Tinha desabado um grande pedaço de telhado, já não havia parede e vinham render-se. «-Há mais lá dentro?»-gritou Pablo. «-Há os feridos.» «-Tomem conta destes-disse Pablo a quatro dos nossos que acorreram de onde estávamos a atirax.-De pé, contra a parede»-ordenou ele aos civiles. Os quatro civiles obedeceram e ali ficaram, sujos, cobertos de poeira, com os quatro nossos que os guardavam a apontar as espingardas para eles e Pablo e os outros invadiram o quartel para dar cabo dos feridos. «Quando acabaram e cessaram os gritos, os gei---nidos e os uivos dos feridos e deixaram de se ouvir os tiros de espingardas no quartel, Pablo apareceu com os mais. Pablo trazia a espingarda às costas e uma Mauser na mão. «-Olha, Pilax - disse-me ele. - Encontrei isto na mão de um oficial que se suicidou. Nunca lidei com semelhante arma. Tu-disse ele a um dos guardas-dize-me como funciona isto. Não. Não é preciso ensinar. Explica-me só.» «Os quatro civiles estavam encostados à parede, suavam e não diziam nada, enquanto ouviam o


tiroteio no quartel. Eram homens de elevada estatura, com cara de verdadeiros guardias civiles, que é uma cara muito parecida com a minha. A diferença é que estavam com a barba crescida-a última manhã em que não se barbearam -porque ainda se não tinham barbeado, e continuavam encostados à parede e não diziam nada. «-Tu-disse Pablo ao que lhe estava mais próximo. -Dize-me como funciona esta coisa.» «-Baixa essa alavanca pequena-volveu o homem numa voz incolor.-Puxa o cão à retaguarda e deixa-o correr à frente.» 101 «-Que diabo é o câo.~-perguntou Pablo mirando os quatro civiles--Que diabo é o cão?» «-Essa peça de cima.» Pablo puxou-o para a retaguarda, mas a coisa emperrou. «_E agora?-disse ele.-Isto não anda. Mentiste-me.» «_Puxa-o com mais força e deixa-o correr suavemente para a frente»-disse-lhe o civile. E nunca ouvi voz que se lhe assemelhasse. Era mais cinzenta que uma manhã sem sol. Pablo fez como o homem lhe dizia, e a peça correu, e assim a pistola estava pronta a funcionar com o cão levantado. Era uma pistola feia, de cabo preto e grosso, com cano largo e chato e pouco cómoda. Durante todo esse tempo, os cívi olhavam Pablo sem dizer palavra. «-Que vais fazer de nós?»-perguntou um deles. « - Matar-vos» -respondeu Pablo. «-Quando?» «-_Agora.» «-Onde?» «--Aqui mesmo. Agora e aqui. Tens mais alguma pergunta a fazer?» « - Xada- respondeu o civite.-Mas não é um trabalho muito limpo.» «-Tu é que não és nada bonito-retrucou Pablo.-Tu, assassino de camponeses. Tu, que fuzilarias a tua própria mãe.» «-Nunca matei ninguém -respondeu o civil.-E peço-te que não fales de minha mãe.» «-Mostra-nos como se morre, tu que vivias matando.» «-Não há necessidade de nos insultar-disse outro civil. -E nós sabemos morrer.» «-Ajoelhem-se com a cara contra a parede»-ordenou Pablo. Os civiles entreolharam-se «-Ajoelhem-se, já disse. kioelhern-se.» «-Que dizes tu, Paco?»-murmurou um para o mais alto de todos, o que tinha explicado a Pablo o funcionamento da pistola. Tinha nas mangas as divisas de segundo cabo e suava muito, apesar da manhã estar bastante fria. «-Ajoelharmo-nos -respondeu ele.-Isso não tem importância.» «-Ficaxemos mais próximo da terra»-disse o primeiro qu~ tinha falado tentando uma graça, mas estavam todos muito sérios para brincar e ninguém sorriu. « -Ajoelhemo-nos» -ordenou o primeiro civil. 102 E os quatro ajoelharam-se; tinham um ar muito desajeitado, as cabeças rentes à parede e as mãos pendentes e Pablo passou por detrás deles e deu um tiro na nuca de cada um, encostando-lhe a


pistola à nuca e cada homem deslizava por terra logo que Pablo disparava. Oiço ainda a pistola, um barulho agudo e abafado, todavia, e vejo o cano saltar e a cabeça do homem pender para a frente. Houve um que conservou a cabeça imóvel quando a pistola lhe tocou na nuca. Outro baixou a cabeça para a frente até a encostar contra a parede. Houve outro que estremeceu dos pés à cabeça e a sua cabeça tremia. E só um, o último, tapou os olhos com as mãos, e os quatro corpos estavam dobrados de encontro à parede quando Pablo os deixou e caminhou para nós ainda com a pistola na mão. «-Guarda-me isto, Püar-disse-me ele.-Não sei como se baixa o cão»-continuou, estendendo-me a pistola. E ficou a olhar para os quatro corpos caídos junto à parede do quartel. Todos os que ali estavam reunidos ficaram também a olhar e ninguém disse nada. Conquistámos a cidade e era ainda muito cedo e ninguém tinha almoçado, nem tomado o café, e olhávamos uns para os outros cobertos da poeira da explosão do quartel, tão empoeirados como os homens que malham o trigo, e eu continuava a segurar a pistola que pesava na nÚnh~, mão, e sentia uma fraqueza no estômago quando olhava Para os guardas mortos encostados à parede, tão sujos e tão poeirentos como nós. Mas, agora, iam empapando de sangue a terra, humedecendo e avermelhando a parede suja contra a qual tinham tombado. E no entretanto o Sol ergueu-se sobre as montanhas longínquas; iluminava a estrada onde estávamos e a parede branca do quartel e a poeira que ainda andava no ar parecia dourada nos raios deste primeiro sol; o camponês que estava a meu lado olhando a parede do quartel e o que estava por terra, olhou-nos a seguir, o sol depois e disse: «- Vaya, um dia que começa.» «-Bem, vamos tomar café»-propus eu. «-Boa ideia, PiIar» -concordou Pablo. E fomos para a cidade, até à plaza, e foram aqueles os últimos fuzilados na cidade. - Que -aconteceu aos outros ? - perguntou Robert Jordan. -Não havia mais fpscistas por lá? -Q_ué va! Então não havia de haver outros fascistas? Mais de vinte. Mas nenhum, porém, foi fuzilado. -Que fizeram, então? 103 -Pablo mandou espancá-los com manguais, até morrerem * atirar os corpos do alto do rochedo para o rio. -Aos vinte? -Vou dizer-te. Mas não é tão simples. E desejo não voltar * ver em toda a minha vida uma cena igual à destas mortes na plaza no alto da colina, por cima do ribeiro. A cidade está construída num planalto acima do ribeiro; tem uma praça com um chafariz e árvores grandes que dão sombra aos bancos. As varandas das casas dão para a plaza. Seis ruas desembocam na praça e, em redor, salvo de um lado, há casas com arcadas. Quando há muito sol, pode caminhar-se debaixo das arcadas. O quarto lado da praça é a extremidade do planalto, sombreado de árvores: é o passeio público. Muito em baixo pode ver-se o ribeiro. Cem metros a pique até ao ribeiro. Pablo organizou tudo, como tinha organizado o ataque ao quartel. Primeiro bloqueou com carroças as entradas das ruas, como se preparasse uma capea, uma tourada de amadores, Os fascistas estavam todos presos no Ayuntamiento, a Câmara Municipal, que era o maior edifício


da plaza. Ficava lá o relógio incrustado na parede e no mesmo edifício, sob as arcadas, ficava o clube dos fascistas. Na calçada fronteira ao clube, sob as arcadas, tinham as suas cadeiras e mesinhas. Antes do movimento era lá que habitualmente tomavam o seu aperitivo. As cadeiras e as mesinhas eram de vime. Parecia um café, mas mais elegante. -Mas não houve luta para os prender? -Pablo tinha-os prendido na noite anterior ao ataque do quartel. Mas o quartel já estava cercado. Foram todos presob em casa quando o ataque começou. Tudo feito com muita inteligência. Pablo é um organizador. Se não tivesse procedido assim, teríamos gente a atacar-nos de flanco e pela retaguarda durante o assalto ao quartel da guardia civil. Pablo é muito inteligente, mas muito brutal. Tudo foi bem planeado e organizado neste negócio da cidade. Ouve: depois do assalto e do fuzilamento dos quatro guardas e de termos tomado café no «café» que sempre abre mais cedo, de manhã, no canto de onde parte a primeira camioneta, Pablo deu início à organização da plaza. As carroças foram empilhadas, exactamente como para uma capea, ficando livre só o lado que dá para o ribeiro. Então Pablo ordenou ao padre que confessasse os fascistas e lhes desse os sacramentos necessários. -Onde se passava isso? .rO4 - No Ayuiztamie;zlo, coino já disse. Do lado de fora havia muito povo . e enquanto o padre lidava lá dentro, ouviam-se na rua obscenidades e gritos, mas a maior parte do povo tinha uma atitude muito grave e digna. Os que gritavam eram os que tinham bebido depois da vitória sobre o quartel e estavam bêbedos; gente sem classificação que bebe, haja ou não motivo. Enquanto o padre tratava das suas obrigações, Pablo organizou a turba da plaza em duas filas. Dividiu os homens em dois campos, tal como se fosse para o jogo da corda, ou como se dispõem as pessoas numa cidade para assistir à chegada de uma corrida de bicicletas, com o espaço necessário para a passagem dos corredores, ou ainda como se dispõem as pessoas para ver passar o andor principal numa procissão. Havia dois metros entre as duas filas que iam desde a porta do Ayuntamiento, atravessando a praça até à extremidade do planalto. De modo que, quem saísse do portão do Ayuntamiento, olhando a plaza só via duas formidáveis alas de populares aguardando. Estavam armados de manguais como se fossem malhar trigo e à necessária distância uns dos outros. Nem todos tinham manguais porque não se tinham arranjado os suficientes. Mas a maior parte tinha vindo do armazém de Don Guillermo, Martin, um fascista que vendia todas as ferramentas agrícolas. E os que não tinham manguais tinham cajados de pastor ou aguilhões e alguns tinham forquilhas de mexer e mudar os fardos e a palha depois da de6ulha. Havia também os que tinham foices e foicinhas, mas a esses Pablo tinha-os colocado nas extremidades, perto do fim do planalto. Era um dia tão claro como o de hoje e as fileiras estavam tranquilas. Havia umas nuvenzinhas no céu, como agora, a Plaza não tinha poeira, porque tinha caído uma forte orvalhada, e as árvores cobriam os homens com a sua sombra; ouvia-se a água correr do tubo de cobre metido na boca do leão e tombar na bacia de pedra onde as mulheres enchiam os cântaros de barro. Só perto do Ayuiztamiento, onde o padre continuava a exercer a sua missão junto dos fascistas, é que havia algum barulho. Eram os patifes que, como disse, já estavam bêbedos e gritavam grosserias e piadas de mau gosto através das grades de ferro das janelas. A maioria dos homens enfileirados aguardava em silêncio e ouvi um perguntar a outro: «-Haverá mulheres?»


E um outro comentou: «-Espero em Cristo que não.» 105 Então houve um que disse: «-Olha a mulher de Pablo. Ouve, Pilar, também há mulheres?» Olhei para ele. Era um campones em roupa domingueira, e suarento. Respondi-lhe: « -Não, Joaquim. Não há mulheres. Não, nunca matamos as mulheres. Porque havíamos de matar as mulheres?» E ele comentou: «-Graças a Deus que não há mulheres, mas quando vai isto começar?» E eu respondi: «-Quando o padre acabar.» « - E o padre ?» «-Não sei»-respondi-lhe e vi que o rosto do campones estava alterado, com o suor a escorrer pela testa abaixo: «-Eu nunca matei um homem»-disse ele. «-Pois vais aprender- comentou um cigano que estava a seu lado.-Mas não acredito que um golpe desta coisa mate um homem» -continuou, manejando o mangual que encarava duvidosamente. -«Pois isso é que é belo-observou um outro.-Serão necessários muitos golpes.» Outro acrescentou: «-Eles toniaram Valladolid. Eles estão em Ávila. Ouvi dizer isto antes de entrar na cidade.» «-Mas eles nunca ocuparão esta cidade. Esta cidade é nossa. Chegámos antes deles-disse eu.-Pablo não é homem para esperar que ataquem.» «-Pablo é esperto-disse outro.-Mas quando matou os civiles foi egoísta. Não achas, Pilar?» « -Acho -respondi. - Mas agora todos podem participar na matança.» «-Sim. Agora está bem organizado. Mas porque não aparecem notícias do movimento?» «-Porque Pablo cortou os fios do telefone antes de começar o ataque ao quartel. E ainda não foram reparados.» «-Ah, então é por isso que não sabemos nada. Ouvi as notícias de manhã, no posto do cantoneiro.» «-Mas porque vai a execução ser feita deste modo?» -perguntou Joaquim. «-para poupar munições c para que todos os homens tenhara a sua parte na responsabilidade» -respondi. «-Então comecemos já! Que comece de uma vez!» Olhei para ele e vi que estava a chorar. io6 «-Porque choras Joaquim" Isto não é motivo para lágrimas.» «-Não posso conter-me, Pilar. Nunca matei ninguém.» Se não viste o início da revolução numa cidade pequena onde toda a gente se conhece e sempre se conheceu, não viste nada. Nesse dia, a maior parte dos homens alinhados nas fileiras que atravessavam a plaza traziam as roupas de cotio, porque' se tinham dado pressa em marchar para a cidade, mas outros, não sabendo como vestir-se para o primeiro dia de um movimento, tinham envergado os fatos de domingo e dias santos e, vendo que os outros traziam os fatos da semana,


mesmo os que tinham atacado o quartel, tinham vergonha de não estarem vestidos como deviam. Mas também não queriam despir a roupa, com medo de a perderem ou de que fosse roubada pelos patifes, e transpiravam ao sol esperando que a coisa começasse. Então começou o vento, e a poeira começou a levantar-se, porque os homens que caminhavam na praça tinham-na secado e um homem de fato azul escuro gritou: «Ãgua! Ãgua!» E o varredor da plaza que tinha obrigação de a regar todas as manhãs com uma mangueira apareceu, e começou a afastar a poeira dos extremos da plaza para o meio. E as duas fileiras afastaram-se para que ele pudesse regar a poeira no meio da plaza; a mangueira projectava grandes arcos de água que brilhavam sob a luz do Sol e os homens apoiados nos manguais, ou nos cajados ou nas forquilhas de madeira branca, acompanhavam a irrigação com os olhos. E quando a plaza ficou bem regada e a poeira tombou, as fileiras refizeram-se e um camponês gritou: «- Quando teremos o primeiro fascista? Quando é que o primeiro sai da caixa?» «-Yai já-gritou Pablo da porta do Ayuntamiento.-Vai já. O primeiro vai sair já.» Estava enrouquecido por ter gritado tanto durante o ataque e por causa do fumo do quartel. Porquê tanta demora ?» -reclamou um. «-Estão ainda ocupados com os seus pecados»-respondeu Pablo. «-Há para aí uns vinte.» «-Sim, mais.» «-Entre vinte, há muitos pecados para confessar.» «-Sim, mas parece-me que isto é uma marosca para ganhar tempo. Numa ocasião como esta não podemos lembrar-nos de todos os pecados. A gente só pode lembrar-se dos maiores.» 107 «-Varnos, tem um bocado de paciência. Porque, sendo vinte, há muitos pecados grandes para gastar o tempo.» «-Eu sou um homem paciente -resmungou o outro.Mas era melhor acabar. Melhor para eles e para nós. Estamos em julho e há muito trabalho. já ceifámos, mas a malha ainda não se fez. O tempo das festas e das feiras ainda não chegou.» «-Mas hoje é dia de festa e de feira-disse alguém. E nisto está a liberdade deste pueblo.» «-Temos que administrá-la bem para a merecer-disse um outro.-Pilar, quando nos reunimos para tratar da organização ?» «-Logo depois de termos acabado com isto-disse-lhe eu.-Na casa do Ayuntamiento.» Por brincadeira eu trazia na cabeça um dos tricórnios de verniz da guardia civil e tinha baixado o cão da pistola segurando com o polegar o gatilho, como me parecia normal e meti a pistola numa corda atada em volta da cintura, com o cano comprido entalado na corda. No começo aquilo pareceu-me engraçado, mas depois arrependi-me de não ter tirado ao civil o coldre, em vez do tricórnio. E um dos homens das fileiras disse-me: «-Pilar, minha filha, parece-me de mau gosto usares esse chapéu. Agora que acabamos as coisas como a guardia civil.» «-Então vou tirá-lo» -respondi, e tirei-o. «-Dá-mo-pediu ele.-É preciso destruí-lo.» E como estávamos no fim das fileiras, no sítio onde o planalto margina o ribeiro, ele apanhou o chapéu e atirou-o para baixo, com o gesto de um vaqueiro que atira uma pedra aos touros para os juntar. O chapéu voou através do espaço e vimo-lo, cada vez mais pequeno, o couro envernizado brilhando no ar límpido, cair, girando, na ribeira. Olhei para o outro lado da praça e em todas asjanelas e em todas as varandas havia gente. Duas fileiras de homens atravessavam a praça até à


porta do Ayuntamiento e a multidão apertava-se contra as janelas do edifício; ouvia-se o barulho de muitas gente a falar ao mesmo tempo; então ouviu-se um grito e alguém disse: «-Lá vem o primeiro.» E era D. Benito Garcia, o presidente da Câmara, que saiu de cabeça descoberta. Desceu lentamente os degraus do átrio. Nada. Passou entre dois homens, quatro homens, oito homens, dez homens e nada aconteceu e ele caminhava entre as alas dos homens, a cabeça erguida, o rosto muito pálido, os olhos para a frente, olhando depois para a direita e para a esquerda, e caminhava com um passo firme. E nada acontecia. Ninguém se mexia. 108 De uma varanda alguém gritou: « - Quê pasa, cobardes ? Que se passa, bando de covardes?» Don Benito avançava sempre e não acontecia nada. Então vi a três metros de mim um homem mordendo os beiços. Tinha o rosto contraído e as mãos muito brancas sobre o mangual. Vi-o olhar para Don Benito, esperando que se aproximasse. E não acontecia nada. Então, quando Don Benito passava à sua frente, atirou a Don Benito uma pancada que o feriu na cabeça, de lado. Don Benito olhou para o homem que voltou a feri-lo, gritando: «-Apanha lá isto, cabron.» E Don Bcnito apanhou uma pancada no rosto. Cobriu o rosto com as mãos e continuaram a bater-lhe até que ele caiu e o homem que lhe tinha batido primeiro gritou aos outros que o ajudassem. Agarrou Don Benito pelo colarinho da camisa e os outros agarraram-no pelos braços; arrastaram-no, o rosto na poeira da plaza; arrastaram-no pelo planalto até à margem c atiraram-no para o ribeiro. O homem que o tinha ferido primeiro estava de joelhos na margem do planalto, olhando e gritava: «-O Cabron! O Cabron! Oli! O Cabi-oyi!» Era um rendeiro de Don Benito. Nunca se tinham entendido. Houvera uma questão de terras a propósito de um pedaço que Don Benito tinha retirado a este homem para o alugar a um outro e o rendeiro odiava-o desde há muito tempo. Não voltou às fileiras, continuou sentado na extremidade do planalto, olhando para o ponto onde Don Benito tinha caído. Depois de Don Benito não s-aiu. ninguém. Não se ouvia barulho na plaza porque todos queriam ver quem ia sair. Então um bêbedo começou a gritar: «-Qzie salga el toro! Venha o touro!» Então um dos que estavam junto das janelas do Ay.untamiePto berrou : « - Eles não se mexem! Estão todos a rezar!» Uni outro bêbedo gritou: «-Deitem-nos cá para fora' Vamos, empurrem-nos cá para fora. Acabem com a reza!» Mas ninguém saía, E depois vimos sair um homem. Era Don Frederico Gonzalez, dono do moinho e do armazém de víveres, um fascista de primeira ordem. Era alto e magro e usava os cabelos passados de lado a lado da cabeça, de forma a esconder a calvície, e tmzia uma camisa de noite que tinha enfiado nas calças. Estava descalço, como quando saltara da cama paro. o prenderem e caminhava à frente de Pablo, c Pablo caminhava atrás dele com o cano da espingarda apoiado nas costas de Don Frederico Gonzalez até que o deixou entre as duas fileiras. Mas assim que Pablo o deixou, Don Frero() derico não conseguiu avançar e ficou no mesmo sítio, com os olhos no alto e as mãos erguidas, como se quisesse agarrar o céu. «-Não tem pernas para andar»-comentou um. «-Que é isso, Don Frederico? Não podes andar?»gritou outro. Mas Don Frederico continuou parado, sempre de mãos erguidas e apenas os lábios lhe tremiam.


« -Caminha - gritou-lhe Pablo, do átrio.-Avança.» Don Frederico continuou imóvel, incapaz de se mexer. Um dos bêbedos empurrou-o pelas costas com o cabo do mangual e Don Frederico deu um salto, como um cavalo nervoso, mas continuou no mesmo lugar, com as mãos erguidas e os olhos no céu. Então o camponês que estava a meu lado disse: «-Isto é uma vergonha. Não tenho nada contra ele, mas é preciso acabar»-. Então abandonou a fileira e dirigiu-se para onde estava Don Frederico e disse: «-Com sua licença.» E deu-lhe uma grande paulada no alto da cabeça. Então Don Frederico baixou as mãos e cobriu a cabeça com elas no sítio da calva e, de cabeça baixa e protegida pelas mãos, e com os cabelos ralos a fugirem-lhe por entre os dedos, correu velozmente por entre as fileiras, enquanto os manguais o atingiam nas costas e nos ombros. Acabou por cair, e os que estavam no fim das filas levantaram-no e atiraram-no ao ribeiro. Não abriu a boca desde que saiu com a espingarda de Pablo apoiada nos rins. Só não podia andar. Era como se as pernas não lhe obedecessem. Depois de Don Frederico, os mais cruéis tinham-se juntado na calçada, no fim das fileiras; deixei-os lá, fui para a arcada do Aywitamiento, empurrei dois bêbedos e olhei pelo quadrado da janela. No salão do Ayuntamiento estavam todos ajoelhados, em semicírculo, a rezar, e o padre estava ajoelhado, e rezava com eles. Pablo e um chamado Quatro Dedos, um remendão que andava muito com Pablo nesse tempo e dois outros ainda, de pé, armados de espingardas. E Pablo, perguntou ao padre: «-Quem é que vaí- agora?» E o padre continuou a -rezar e não lhe respondeu. «-Ouve lá-disse Pablo ao padre com a sua voz rouca -quem vai agora? Quem está pronto?» O padre não queria responder e fingia que não percebia. E Pablo começava a encolerizar-se. «-Deixe-nos ir todos juntos»-disse Don Ricardo Montalvo, proprietário de terras. iio E dizia isto a Pablo levantando a cabeça e deixando de rezar para falar. «-Quê va-respondeu Pablo.-Um de cada vez, quando estiverem prontos.» «-Então vou já-continuou Don Ricardo.-Nunca mais estarei pronto.» O padre abençoou-o enquanto ele falava e voltou a abençoá-lo quando ele se pôs de pé; deu-lhe um crucifixo a beijar, Don Ricardo beijou-o, e voltando-se para Pablo disse: «-Nunca estarei tão pronto como agora, raça de cabroiz de mau leite. Vamos.» Don Ricardo era um homem baixo, de cabeça grisalha e pescoço grosso e estava de camisa sem colarinho. Tinha as pernas arqueadas de tanto andar a cavalo. «-Adeus-disse ele para os que se conservavam ajoelhados.-Não estejais tristes. Morrer não é nada. A única coisa má é morrer nas mãos desta caizalla. Não me toques-gritou para Pablo.-Não me toques com essa espingarda.» E saiu do Ayuntamiento com a sua cabeleira grisalha e os pequeninos olhos cinzentos, o pescoço atarracado, parecendo muito baixo e muito irritado. Ao ver a dupla fileira de camponeses escarrou para o chão. Podia escarrar saliva de verdade, e, em semelhantes ocasiões, e tu deves sabê-lo, Iiiglés, é muito raro e gritou: « -Arriba Espaffa! Abaixo a República e me cago no leite dos vossos pais.» Então devido a este insulto, mataram-no mais depressa. Começaram a bater-lhe logo que chegou aos primeiros homens e baterám-lhe enquanto ele tentava caminhar, de cabeça erguida, bateram-lhe até que tombou e depois cortaram-no com as foices e foicinhas e vi muitos homens arrastarem-no para o precipício para o atirarem para baixo e muitos tinham as mãos e as roupas


sujas de sangue e só então começaram a sentir que aqueles que saíam do edifício eram na verdade inimigos e que era preciso matá-los. Até Don Ricardo aparecer na praça com as suas violências e os seus insultos havia muita gente nas fileiras, estou certa, que daria tudo para não ter ido lá. E se alguém nas fileiras gritasse: vamos, perdoemos aos outros; já têm a sua lição,-estou certa de que todos concordariam. Mas Don Ricardo, com toda a sua bravura, prestou um mau serviço aos outros. Porque irritou os homens das fileiras e onde antes apenas havia um dever, cumprido a contragosto, havia agora a raiva e via-se a diferença. 111 «-Deitem o padre cá para fora para a coisa andar mais depressa-gritou um. «-Venha o padre.» «-Depois dos três ladrões, venha o padre.» « - Dois ladrões - corrigiu um camponês baixote ao homem que gritara. - Eram dois ladrões que estavam com Nosso Senhor.» «-Que Senhor é esse? - perguntou o outro, corado e encolerizado. «-É uma maneira de falar; costuma dizer-se Nosso Senhor.» «-Meu Senhor não é, nem a brincar -respondeu o outro. -E será melhor teres tento nessa boca se não queres dar um passeio entre as fileiras.» «-Sou tão bom republicano libertador como tu-retrucou o baixote.-Feri Don Ricardo na boca. Malhei nas costas de Don Federico. Só perdi Don Benito. Mas digo Nosso Senhor, é assim que se costuma dizer e havia dois ladrões.» «-Merda para o teu republicanismo. Vives a dizer Don isto e Don aquilo.» «-É como se costuma dizer por aqui.» «-Mas não eu, estes cabrones. E o teu Senhor... Olí, lá vem outro.» Então vi uma cena ignóbil, porque o homem que saía do Ayuntamiento era Don Faustino Riverto, o filho mais velho de Don Celestino Riverto, um proprietário. Um homem alto e de cabelos louros recentemente penteados para trás, porque trazia sempre um pente no bolso e passara-o pelo cabelo antes de sair para a praça. Tinha fama de sedutor de raparigas, este cobarde que sempre tinha desejado ser toureiro amador. Vivia metido entre ciganos e toureiros, e criadores de gado, e adorava andar vestido à moda andaluza, mas não tinha coragem e toda - a gente se ria dele. Uma vez anunciou que ia aparecer numa corrida de amadores em benefício do asilo de velhos de Ãvila e que mataria um touro, a cavalo, à maneira andaluza; andou a praticar muito tempo, mas quando viu nz arcna um alentado touro em vez do frágil bezerro que tinha escolhido, disse que estava doente, e dizem que meteu dois dedos na garganta para provocar um vómito salvador. Ouando as fileiras o viram aparecer, foi uma gritaria: JIota, Don Faustino. Toma cuidado para não vomitares. «Ouve, Don Faustino. Há lindas raparigas no fundo do precipício.» «-Don Faustino vamos a isto. O touro de hoje é ainda maior que o da outra vez.»


112 Don Faustino continuava de pé e continuava a fingir uma bravura que não tinha. Estava ainda sob o domínio do impulso que o tinha levado a anunciar ios outros que ia sair. Era o mesmo impulso que o tinha arrastado a anunciar a s.uaL par~ ticipação na corrida de' touros. Isso o levara a acreditar que viria a ser um toureiro amador. Agora era o exemplo de Don Ricardo que o inspirava, e ele estava de pé, bonito rapaz com aspecto corajoso e tinha um ax de desdém. Mas não era capaz de falar. «-Vamos~ Don Faustmo-grit ; o' u alguém das' filáras. Vamos, Don Faustino,'este touro e o maior de todos.» Don Faustino olhava-os e creio,que enquanto os olhava não havia uma réstia de piedade por ele nas fileiras. Contudo,, ele mantinha-se de pé, belo e corajoso;. mas -o terrip9 passava e não havia senão um caminho a tomar. «-Don Faustino - gritaram. - O que esperas tu, Don Faustino ?» « -Está a preparar-se para vonutar» - esclareceu um e as fileiras riram-se. «-Don Faustino-berrou um camponês. -Vomita se isso te dá prazer. Eu estou-me nas ti ' ntas.». Então e enquanto. aguardava, Don Faustino percorreu com o olhar as fileiras e olhando através da praça para o planalto, descobriu a margem e o vazio que se seguia, virou-se bruscamente e penetrou correndo pela porta do Ayuntamiento. Ambas ás fileiras oscilaram e uni homem gritou coni voz aguda:-Aonde vais tu, Don Fautino? Aonde vais tu? Então vi Don Faustino voltar, com Pablo atrás dele a empurrá-lo com a espin arda. Toda a sua.pose tinha desaparecido. O medir as fi feiras tinha-lhe retirado. a atitude', e agora saía com Pablo e era como se Pablo varresse uma rua e Don Faustino o lixo que varresse.. bon Taustino saiu e persignou-se e rezou e depois cobriu os olhos com as mãos e, com os lábios trementes, avançou, -entre as, fileiras. Ninguém dizia nada e ninguém lhe tocava e quando tinha percorrido metade do., caminho, não conseguiu ir mais longe e caiu de joelhos. . Ninguém lhe bateu. Espreitei por entre uma das fileiras para ver o que acontecia e um camponês debruçou-se sobre ele, pô-lo, a pé é disse4he: - Levanta-te, Don Faustino, e caminha sempre, O touro ainda não saiu. Don Faustino não era capaz de caminhar s.~zinho, ç o camponês de blusa preta amparou-o de um-lado e um outro. é campones de blusa preta.c botas de, pastor ajudou-o do outro,. 8 -S. D. 113 amparando-o pelos braços e Don. Faustino avançava entre as fileiras, as mãos a tapar os olhos; os lábios tremiam sempre e os seus cabelos colados brilhavam ao sol e os camponeses diziam-lhe quando passava: «-Don Faustino, buen provecho. Don Faustino, bom apetite.» E outros diziam: «-Don Faustino, a w ordem» e outro que também tinha falhado no toureio disse: «-Don Faustino, matador, a sus ordem», e um outro disse: «-Don Faustino, no céu há raparigas bonitas, Don Faustmo.» Fizeram-no caminhar ao longo das fileiras, amparando-o de ambos os lados, sustentando-o para que pudesse caminhar, e ele sempre com o rosto coberto pelas mãos. Mas devia estar a espreitar por entre os dedos porque, quando chegaram à margem do planalto,


ajoelhou de novo, depois estirou-se por terra. Agarrava-se à terra prendendo-se às ervas e gritava: «-Não. Não. Peço-vos. Não. Suplico-vos. Não. Não> Então os camponeses que o tinham trazido e os outros, os «duros» do fim das fileiras, precipitaram-se atrás dele, enquanto estava ajoelhado e deram-lhe um tremendo empurrão e foi projectado no abismo sem lhe terem batido e ouvimos os seus gritos fortes e prolongados enquanto caía. Percebi então ue as fileiras se tinham tomado cruéis, primeiro por causa Ss insultos de Don. -Ricardo e depois por causa da covardia de Don Faustino. «-Venha outro!-gritou um camponês, enquanto um outro camponês lhe dava uma palmada nas costas e comentava:-Don Faustino! Que história! Don Faustino! «-Ele viu agora o touro grande-comentou um outro. -E agora o vómito não lhe vai servir de nada.» «-Em toda a minha vida nunca topei coisa que se parecesse com Don. Faustino.» «-Há outros ainda - acrescentou outro camponês. Paciência. Quem sabe o que veremos mais.» «-Pode haver gigantes e anões-continuou o primeiro canipones.-Pode haver negros e bichos raros na Áfríca, mas, para num, nunca haverá nada igual a Don Faustino. Mas agora que venha outro! Vamos. Outro!» Os bêbedos iam passando de mão em mão garrafas de anis e conhaque pilhadas no bar do clube dos fascistas e bebiam aquilo como se fosse vinho, e mesmo os homens das fileiras começavam a estar um pouco tocados porque tinham comejado a beber depois das emoções fortes de Don Benito, Don, Frederico, Don Ricardo e especialmente Don Fãustino. Os que não bebiam das garrafas de licores, bebiam dos odres ZZ4 que faziam circular. Deram-me ura e bebi um grande trago deixando que o vinho me reirescasse a garganta correndo da bota de couro, porque a minha sede também era grande. «-Isto de matar dá mtúta sede-disse-me um homem ao lado.» «-Quí va-disse eu.-Tu mataste? «-Matámos quatro -respondeu-me muito orgulhoso.Sem contar os civiles. É verdade que mataste um dos ciWes, Pilar?» « -Não -respondi. -Atirei para dentro do quartel, naquela fumarada que se levantou depois da explosão, como os outros. Foi só isso.» «-Onde arranjaste essa pistola, Pilar?» «-Deu-ma Pabio. Deu-ma depois de ter liquidado os Civiles.» «-Foi com essa arma que ele os matou? «-Com esta mesma-disse eu.-E depois deu-ma para que eu tivesse uma arma.» « - Posso vê-Ia, Pilar? Posso pegar nela?» «-Porque não, hombre?» -respondi eu dando-lhe a pistola. Estava admirada por não aparecer mais ninguém e nesse momento quem saiu? Don Guillermo Martin, dono do armazém de onde tinham sido tirados os manguais, os cajados e as forquilhas. Don Guillermo era fascista, mas além disso nada havia contra ele. É verdade que não pagava grande coisa aos que lhe faziam os manguais mas ele também os vendia baratos e quem não os quisesse comprar a Don Guillermo, podia fazê-los em casa, porque assim o preço reduzia-se ao custo do pau e do couro. Aquele homem tinha um modo rude defalar e era, sem dúvida, fascista e membro do. clube dos fascistas e sentava-se à tarde e à noite


nas cadeiras quadradas do clube para ler El Debate, para engraxar os sapatos e para beber o seu vennouth com água de Seitz e amêndoas torradas, camarões secos e anchovas. Mas não se mata por isto e estou certa de que se não fossem os insultos de Don Ricardo Montalvo e o lamentável espectáculo de Don Faustino e o muito vinho bebido por aquela gente por causa da emoção, alguém havia de gritar: «-Deixem ir Don Guillermo em paz. já temos os seus manguais. Deixem-no ir.» Porque, vês tu, o povo daquela vila podia ser cruel, mas tinha um sentido inato de justiça e um desejo fundo de fazer * que é direito. Mas a crueldade entrara nas fileiras e também * embriaguês, ou um começo de cmbriaguês, e os homens já 1.r5 não eram os mesmos do princípio, quando Don Benito tinha aparecido. Não sei como é nas outras terras e ninguém gosta mais de beber do que eu, mas em Espanha a bebedeira, quando causada por outras coisas que não o vinho, é uma coisa ignóbil, e'as pessoas fazem o que não fariam noutras condições. Também é assim na tua terra, Inglês? -É-respondeu Jordan.-Quando eu tinha sete anos, fui com n-iinha. mãe a um casamento nó estado de Offio, onde devia ser pajem e devia acompanhar a noiva com flores, eu, e uma menina... -Fizeste isso? -perguntou Maria.-Que lindo! -Nessa cidade-um negro foi pendurado num candeeiro e depois queimado. Era um lampião de arco, com um mecanismo que permitia baixar o globo até ao passeio. Içaram o negro com esse mecanismo que servia para içar a lâmpada de arco, mas quebrou-se. -Um negro?-diss ' e Maria. -E preciso ser muito bárbaro. -O povo estava bêbedo? -perguntou Pilar.-Estavam tão bêbedos que fossem queimar um negro? -Não sei-respondeu Robert Jordan.-A casa onde eu estava ficava mesmo no canto da rua, em frente do lampião eu olhava pelas frinchas do estore. A rua estava cheia de gente quando içaram o negro,pela segunda vez... -Se só tinhas sete anos e estavas dentro de casa não podias saber se o povo estava bêbedo ou não-interveio Pilar. -Como ia dizendo, quando içaram o negro pela segunda vez, a minha mãe apareceu e tírou-me da janela, é não vi mais nada - continuou Robert Jordan - Mas outras experiências que depois tive provam que a bebedeira é a mesma daqui: sempre horrível e brutal. -Tu eras muito peq . ueno aos sete anos - disse Maria. -Muito criança para coisas dessas. Eu nuncavi negros, a não ser num circo. A menos que os mouros sejam negros. -Alguns são e outros "não são-informou Pílar.-Dos mouros posso falar. Não tanto como eu - tornou Maria.-Não, como eu, não podes. -Não falemos disso. Isso até fáz mal à gente. Onde estávamos ? -Falávamos da bebe'deira nas fileiras -informou Robert Jord.an. - Continua. -Não se pode_ dizer que fosse bebedeira- corrigiu. pilar. -Po~rque ainda não'era bebedeira. Mas já estavam diferentes quaiido Don Guille'rmo apareceu,' direito, míope, com os 116 cabelos grisalhos, de estatura média, com uma camisa que tinha botão de colarinho, mas não tinha colarinho, erecto, e persignou-se quando olhou para o que lhe estava à frente -mas não via


grande coisa porque não trazia os óculos-e avançou, muito calmo e dava dó. Mas alguém gritou: «-Por aqui, DoR Guillermo. Por aqui, nesta direcção. Temos aqui todos os artigos da tua loja.» O sucesso da troça feita com Don. Faustino fora. tão grande que não viam que com Don Guillermo era outr4 coisa e que, se era necessario matar Don Guillermo, era preciso fazê-lo com rapidez e dignidade. . «-Don Guillermo -gritou outro:-queres que vá alguém à tua casa buscar os óculos ?» Don Guillermo não tinha casa própria porque não era rico; era fascista por snobismo e para consolar-se de ter que trabalhar na sua loja de artigos agrícolas serri lucro que se visse. Também era fascista por causa da religião da mulher, que também praticava por amor a ela. Vivia num andar, a três casas da praça. Enquanto Don Guillermo continuava de pé, olhando, com os olhos míopes piscando, as fileiras por onde devia passar, uma mulher começou a gritar na varanda do andar onde morava. Era a mulher de Don Guillermo que podia vê-lo da varanda. «-Guillermo-gritava ela.-Guillermo, espera por mim, quero ir contigo.» Don Guillermo voltou o rosto na direcção dos gritos. Não podia ver a mulher. Tentou dizer qualquer coisa, mas não foi capaz. Então acenou um adeus na direcção de onde a mulher o tinha chamado e caminhou para as fileiras. « - Guillermo! - continuava ela a gritar. - Guillermo! Oli! Guillermo! Agarrava-se com as mãos à barra da varanda e sacudia-a. Guillermo!» Don Guillermo fez outro sinal de adeus na direcção de onde vinham os gritos e avançou para as fileiras, de cabeça levantada. Ninguém poderia dizer o que se passava dentro dele, a não ser pela palidez do rosto. Então um bêbedo gritou: « - Guillermo! » nas fileiras imitando a voz aguda e desesperada da mulher e Don Guillermo avançou para este homem como cego e as lágrimas corria-m-lhe pela cara abaixo. O homem atirou-lhe um pesado golpe de mangual que o atingiu no rosto e com o choque Don Guillermo caiu sentado e ali continuou sentado a chorar, mas não de medo, enquanto os bêbedos lhe batiam e um lhe saltou para cima dos ombros para lhe bater com uma garrafa. Muitos homens saíram das fileiras e o seu lugar foi ocupado pelos bêbedos que até então tinham estado a gritar e a berrar coisas obscenas pelas janelas do Ayuntamiento. Eu mesma me tinha emocionado quando vi Pablo matar a guardia civil, confessou Pilar. Era uma coisa horrorosa, mas eu pensava que era assim que devia ser e além disso não havia crueldade; Pablo contentava-se em tirar a vida àqueles homens. Matar as pessoas é horrível, sabemo-lo desde há muito; mas é uma necessidade se queremos vencer e salvar a República. Quando se tinham fechado as saídas da praça e formado as fileiras, compreendi e admirei a coisa como uma boa concepção de Pablo, embora me parecesse, apesar de tudo, um pouco fantástica e dizia-me que era melhor que tudo fosse feito com cavalheirismo para não ser repugnante. Se os fascistas deviam ser executados pelo povo, era muito melhor que o povo os executasse, e eu queria comparticipar daquela acção, para ter a minha parte de responsabilidade como qualquer outro, como esperava comparticipar dos beneficios da mudança revolucionária. Mas depois de Don Guillermo senti vergonha e nojo e quando os bêbedos entraram nas fileiras e os outros começaram a afastar-se para protestar, depois de Don Guillermo, também não quis ter mais nada a ver com o que se passava nas fileiras e afastei-me; atravessei a praça e fui sentar-me num banco, à sombra de uma das grandes árvores. Dois camponeses que também tinham abandonado as fileiras estavam a conversar naquele ponto e um deles disse-me:


«-Que te aconteceu, Pilar?» «-Nada, hombre-respondi.» «-Não acredito. Diz lá o que tens.» «-Parece-me que o meu estÔmago não aguenta mais -respondi.» «--Nós também-respondeu ele e ambos se sentaram no banco. Um deles trazia uma bota de vinho e passou-ma.» «-Lava a boca-disse-me ele; e o outro continuando a conversa que tinham começado:-o pior é que isto dá azar. Ninguém me convencerá de que matar Don GuiJlcrmo como * mataram não traz infelicidade.» «- Então -disse-lhe o outro-se é necessidade matá-los * todos e não estou convencido de que o seja, que os matem com decência e sem esta palhaçada!» «-A palhaçada compreende-se no caso de Don Faustino -advertiu o primeiro-que sempre foi um fascista e nunca levou nada a sério. Ma~ troçar de um homem sério como Don Guillernio, não está certo.» 118 «-Tenho o estômago revoltado -disse-lhe eu e era absolutamente verdade porque sentia tudo revolucionado por dentro e suores e náuseas como se tivesse comido marisco estragado.» «-Comigo basta - decidiu um dos camponeses. - Não tomarei mais parte na festa. E muito queria saber o que se passa nas outras cidades.» «-Ainda não repararam os fios telefónicos -disse-lhe eu. -Primeiro é preciso repará-los.» «-É claro que é preciso. Quem sabe se não faríamos melhor organizando a defesa da cidade, em vez de massacrar gente com esta lentidão e esta brutalidade.» «-Vou falar com Pablo-disse-lhe eu; e levantei-me do banco para me dirigir às arcadas do Ayuntami~ As fileiras já não conservavam a ordem e havia muita bebedeira e muito grande. Dois homens estavam caldos no meio da praça, de papo para o ar e passavam uma garrafa de um para o outro. Um tomava um gole e depois gritava: Viva Ia Anarquia! Assim, de papo para o ar e berrando como um doido. Tinha ao pescoço um grande lenço vermelho e preto. O outro gritava: Viva Ia Li~ E atirava pontapés para o ar, e depois berrava novamente: Viva Ia Libertad! Também usava um lenço vermelho e preto que agitava com uma das mãos, enquanto brandia com a outra uma garrafa. Um camponês que tinha abandonado as fileiras e que se tinha instalado à sombra, nas arcadas, olhava-os e desgostoso dizia: « - -Eles deveriam gritar : Viva a borracheira! Não podem acreditar noutra coisa!» « - Nem nisso acreditam - comentou outro camponês. -Esses tipos não compreendem nada nem acreditam em coisa nenhuma. justamente nesse momento um dos bêbedos conseguiu pôr-se de pé e levantando os punhos fechados acima da cabeça berrava: «-Viva a Anarquia e a Liberdade e mierda para a República!» O outro bêbedo, que ainda estava de costas, agarrou-o pelo calcanhar e os dois rolaram por terra. Então o bêbedo que berrava, rolou sobre si mesmo, sentando-se e o que o tinha feito cair agarrou pelo braço o que berrava e depois ofereceu-lhe uma garrafa e beijaram o lenço vermelho e preto e beberam pela mesma garrafa. Nesse momento soou um berro numa das fileiras e olhando pela arcada não podia ver quem safa porque a multidão que estava à porta do Ayuntamiento o tapava. Só pude perceber


119 que Pablo e o Quatro Dedos empurravam alguém, mas não podia ver quem e aproximei-me das fileiras até onde o ajuntamento tapava a porta e tentei ver o que se passava. O aperto naquele ponto era. grande e as cadeiras e as mesas dos fascistas estavam tombadas, excepto uma mesa ocupada por um bêbedo, deitado com a cabeça pendente e a boca aberta. Endireitei uma cadeira e apoiei-a contra um dos pilares e trepei para cima. para poder ver por sobre as cabeças. O homem empurrado por Pablo e pelo Quatro Dedos era Don Anastasio Rivas, fascista notório, além de ser o homem mais gordo da cidade. Era um negociante de cereais e agente de várias companhias de seguros, e também empres tava dinheiro a juros elevados. De pé na cadeira, vi-o descer as escadas e caminhar através das fileiras com as papadas do pescoço extravazando' do colarinho e a careca br - ilhando ao sol, nias não chegou a entrar nas fileiras porque desta vez não havia gritos, mas ufi-i barulho enorme, com uma gritaria colectiva. As fileiras deslocaram-se, os homens precipitaram-se e vi Don Anastásio atirar-se para o chão, com as mãos aper tadas na cabeça. Depois não consegui vê-lo, porque havia um grupo enorme em cima dele. E quando os homens o lar garam, Don Anastásio estava morto: tinham-lhe esmagado a ,cabeça contra as pedras do passeio que corria sob a arcada; as fileiras tinham desaparecido e havia uma multidão desor denada. «-Vamos lá-começaram a gritar.-Vamos buscá-los.» «-É muito pesado para carregar.»-Um homem dava pontapés em Don Anastásio que estava estendido sobre o ventre.-«Que fique para aí.» «-Não vale a pena arrastar este saco de tripas até ao fini do planalto. Deixerno'-lo ficar aqui mesmo.» «-O melhor é entrarmos e acabarmos com os outros lá dentro-gritou uni homem.-Vamos lá.» «-Não vale a pena gastar o dia todo, ao sol-berrou outro.-Varrios. Vamos lá.» . A turba comprimia-se sob as arcadas. Ouviam-se gritos e berros. Parecia uma cavalarica. Gritavam ao mesmo tempo: «-Abram! Abram! Abram!» Porque os guardas tinham trancado as portas do Ayuntamiento ao verem as fileiras deslocarem-se. Eu estava de pé na cadeira e podia ver através das grades das janelas a ~sala do Ayuntamiento, e o quadro não mudara. O padxe estava de pé e os outros continuavam de joelhos, em semicírculo e todos rezavam. Pablo estava sentado na mesa -120 em frente da cadeira do presidente da câmara, com a espingarda a tiracolo. Estava sentado com as pernas pendentes e fumava um cigarro. Nas cadeiras dos vereadores sentavam-se os guardas, com as espingardas sobre os joelhos. A chave da porta estava em cima da mesa ao lado de Pablo' «-Abram! Abram! Abram!-gritava a multidão como se repetisse uma canção, e Pablo continuava sentado como se não ouvisse. Disse qualquer coisa ao padre que não consegui perceber por causa do barulho da multidão.»


O padre continuou sem lhe responder, rezando sempre. A pressão do povo fez-me encostar a cadeira à parede, empurrando como me empurravam. Tinha a cabeça encostada às grades e agarrava-me a elas. Um homem também trepou à cadeira e passando os braços por trás dós meus agarrou-se às barras mais afastadas. - «-A cadeira vai arriar- disse-lhe eu.» «-Que me importa? -respondeu ele.-Olha-os. Olha para eles como rezam.» O seu hálito baforado contra o meu pescoço era como o cheiro da multidão, azedo como os vómitos esparsos sobre a calçada e o odor da borracheira, e ele passou a cabeça por entre as grades, com a cabeça em cima do meu ombro e pôs-se a gritar~I «-Abram! Abram!»-E era como se tivesse toda a multidão sobre o meu ombro, num pesadelo. A massa humana comprimia-se de encontro à porta e os que estavam à frente eram apertados pelos outros que os empur ravam, e da. praça veio. a correr um bêbedo de blusa negra e lenço vermelho e preto ao Pescoço, que se atirou contra a multidão e caiu sobre os homens que empurravam; depois recuo ' u e atirou-se de novo de encontro às costas dos que empurravam, aos gritos: «-Viva eu e viva a Anarquial» Vi esse homem sair da multidão; sentar-se e beber pelo gargalo de uma garrafa; e deu então com o corpo de Don Anãstasio, que continuava estendido sobre o ventre, mas já muito espezinhado; o bêbedo levantou-se e aproximou -se de Don Anastasio e verteu o resto do vinho sobre a cabeça e sobre as vestes do cadáver; depois, com uma caixa de fósforos que tirou do bolso e foi acendendo, tentou pegar fogo a Don Anãstasio. Mas havia muito vento e os fósforos apagavam-se. Acabou por se sentar ao lado de Don Anastasio abanando a cabeça e bebendo pela garrafa; de vez em quando debruçava-se e dava palmadas no ombro... no,ombro de um cadáver! A multidão berrava sempre para que abrissem e o homem que tinha trepado para a minha cadeira agarrava-se bem às 121 grades das janelas e berrava espantosamente. Ensurdecia-me a voz que berrava atrás de mim e a sua respiração fedorenta batia-me no pescoço e deixei de olhar para o bêbedo que tentava incendiar o cadáver de Don Anastasio e voltei a olhar para a sala do Ayuntamiento. Tudo continuava na mesma. Rezavam sempre, os homens todos ajoelhados, a carriÍsa desabotoada, uns com a cabeça inclinada, outros de cabeça erguida, e olhavam para o padre e para o crucifixo que o padre trazia; o padre rezava fervorosamente olhando por cima das cabeças e atrás dele Pablo, continuava sentado na mesa e fumava, balançando as pernas, a espingarda a tiracolo, e brincava com a chave. Vi Pablo inclinar-se de novo para falar ao padre, mas não pude perceber o que ele lhe disse, por causa da algazarra. Mas o padre continuou a não lhe responder e rezava sempre. E então um dos homens ajoelhados no semicírculo levantou-se e percebi que queria sair. Era Don José Castro, que toda a gente conhecia por Don Pepe, um fascista dos quatro costados que negociava em cavalos; estava já de pé, pequeno, muito cuidado, mesmo com a barba por fazer e com um casaco de pijama enfiado numas calças cinzentas com riscas. Beijou o crucifixo, o padre abençoou-o, endireitou-se, olhou para Pablo e virou bruscamente a cabeça para a porta. Pablo abanou a cabeça e continuou a fumar. Vi Don Pepc dizer-lhe qualquer coisa, mas não pude ouvir o que era. Pablo não lhe respondeu; voltou a abanar a cabeça olhando para a porta.


Então vi Don Pepe olhar para a porta e dei-me conta de que ele não tinha percebido que a porta estava fechada à chave. Pablo, mostrou-lhe a chave que ele olhou durante um instante para se voltar e ir de novo ajoelhar-se. Vi o padre olhar para Pablo e vi Pablo sorrir ao mesmo tempo que lhe mostrava a chave; o padre pareceu dar-se conta pela primeira vez de que a porta estava fechada à chave e pareceu ir abanar a cabeça, mas apenas a inclinou e continuou a rezar. Ignoro como não tinham percebido que a porta estava fechada, ou então estavam muito concentrados nas orações e nas coisas em que pensavam; mas finalmente perceberam e compreenderam os gritos e devem ter-se dado conta de que tudo tinha mudado. Mas continuaram como sempre. Porém, o barulho era tanto que não se podia entender nada, e o bêbedo que estava na minha cadeira tentava arrancar as grades e berrava: «-Abram! Abram!» E já estava rouco. Vi Pablo falar de novo ao padre, sempre sem obter resposta. Pablo tirou a espingarda do ombro e bateu com ela no 122 ombro do padre. Mas o padre não lhe deu atenção e Pablo sacudiu a cabeça. Depois Pablo disse por cima do ombro qualquer coisa a Quatro Dedos e Quatro Dedos falou com os outros guardas que se levantaram e foram para o fundo da sala, onde ficaram de espingardas em punho. Vi Pablo dizer mais qualquer coisa a Quatro Dedos e virar duas mesas e os bancos; os guardas ficaram atrás com as espingardas em punho. Fez assim uma barricada no canto da sala. Pablo incIm*ou-se para a frente e bateu no ombro do padre com a espingarda; o padre não lhe deu atenção mas vi Don Pepe olhar para Pablo enquanto os outros continuavam a rezar. Pablo abanou a cabeça e quando reparou em Don Pepe tomou a abanar a cabeça e mostrou-lhe a chave que continuava na sua mão. Don Pepe compreendeu e baixou a cabeça para continuar a rezar com muito fervor. Pabio abandonou a mesa e foi sentar-se na cadeira do presidente da Câmara que estava sobre um estrado, atrás da longa mesa da vereação. Sentou-se e enrolou um cigarro, sempre com os olhos nos fascistas que continuavam a rezar acompanhados pelo padre. O seu rosto estava impassfvel. A chave estava em cima da mesa na sua frente, uma chave de ferro, enorme, com mais de um palmo. Então Pablo gritou qualquer coisa aos guardas, não pude ouvir o que fosse, e um deles caminhou para a porta. Os homens apressaram as suas rezas e compreendi que todos agora sabiam. Pablo disse qualquer coisa ao padre, mas o padre continuou a não responder. Então Pablo inclinou-se, pegou na chave e atirou-a ao guarda que estava à porta. O guarda meteu a chave na fechadura, girou-a e puxou a porta para si, protegendo-se atrás dela quando a multidão se precipitou. 86 os vi entrar, porque nessa ocasião o bêbedo que estava na minha cadeira começou a urrar: «-Aí! Afl» E enfiava a cabeça pelo vão das grades e eu não podia ver nada e ele berrava: «-Mata! Mata! A paulada! Mata!» E esmagava-me com os dois braços e eu não podia ver nada. Dei-lhe uma cotovelada na barriga e disse-lhe: «-Bêbedo, de quem é esta cadeira? Deixa-me ver!» Mas ele continuou agarrado às grades balançando os braços e gritava: «-Mata! À paulada! Mata! Cabrones! Cabrones! Cabronesb> Dei-lhe uma cotovelada forte e disse-lhe: «-Cabroni Bêbedo! Deixa-me ver!»


E então ele apoiou as duas mãos na minha cabeça para se erguer e ver melhor; apoiava-se em mim com todo o seu 123 peso e continuava a gritar: «7--À paulada! Assim!' À paulada!» «-Pauladas para ti!»-disse-lhe eu e atirei o cotovelo a um sítio onde lhe devia doer e fiz-lhe doer. Tirou as mãos da minha cabeça e agarrou-se ao sítio onde lhe tinha feito doer e disse-me: «-iVo hay derecho, mujer. Tu não tens o direito de fazer isso.» E nesse momento consegui espreitar pelas grades e vi a sala cheia de homens que brandiam os cajados e brandiam os manguais, e que espetavam e batiam e gritavam e golpeavam as pessoas com as forquilhas de madeira branca que estavam agora vermelhas de sangue e tinham os dentes partidos e tudo estava assim na sala enquanto Pablo continuava sentado no cadeirão com a espingarda nos joelhos e olhava, e ouviam-se gritos e golpes e havia ferimentos, e os homens urravam como urram os cavalos no meio de um incêndio. Vi o padre, com as vestes soerguidas, trepar para um banco e os que o perseguiam feriam-no com as foices e as foicinhas e um deles agarrou-o pelas vestes e ele deu um berro e vi dois homens espetarem-lhe as foices nas costas, e um terceiro mantinha-o agarrado,pelas vestes, e encostou-se a uma cadeira e nesse momento a minha cadeira partiu-se e o bêbedo e eu estendemo-nos no passeio que cheirava a vinho derramado e vomitado e o bêbedo abanava um dedo e dizia: «-jVo hay derecho, mujer, no háy derecho. Podias ter-me ferido.» E o povo passava-nos por cima para entrar na sala do Ayuntamiento. A única coisa que podia ver eram as pernas dos que entravam pela porta e o bêbedo sentado à minha frente, agarrado ao sítio onde lhe tinha dado a cotovelada. ..Foi assim que acabaram os fascistas na nossa cidade e fiquei contente por não ter visto mais. Se não fosse o bêbedo teria visto tudo. Pode dizer-se que me fez alguma coisa de bem, porque o que se passava no Ayuntamiento não era espectáculo para ser visto. Mas o outro bêbedo, o que estava na praça, era ainda mais espantoso que o da cadeira. Quando nos levantámos, depois do tombo, e enquanto o povo continuava a agitar-se no Ayuntamiento, vi este bêbedo, com o lenço vermelho e preto ao pescoço, voltar a despcj,-r qualquer coisa sobre Don Anastasio. Agitava a cabeça e dificilmente se mantinha sentado, mas despejava e continuava a acender fósforos, e voltava a despejar e voltava a acender fósforos, e então dirigi-me a ele e perguntei-lhe: «-Q,,lc estás tu a fazer, patife?» «-J~'^ada, muJer, nada-respondeu ele.-Deixa-me em paz.» 124 i i 1 1 1 1 i i


1 1 1 1 J E talvez porque eu estava de pé e a minha saia servia de anteparo ao vento, o bêbedo, afinal, conseguiu acender um fósforo e uma, chama azul começou a correr do peito para o pescoço do cadáver, e o bêbedo levantou a cabeça e começou a gritar: «-Estão a queimar os mortos! Estão a queimar os mortos!» «-Quem?»-perguntou-lhe um homem. «-Onde?»-gritou outro. «-Aqui-berrava o bêbedo. -Exactamente aqui!» Então alguém lhe deu na cabeça uma,grande pancada com o mangual e ele tombou para trás; estava estendido por terra e olhava o homem que o tinha ferido e fechou os olhos, cruzou as m~os sobre o peito e deixou-se ficar estendido ao lado de Don Anastasio, como se dormisse. O homem não lhe bateu mais; lá ficou e lá estava ainda quando agarraram Don Anastasio e o puseram numa carreta ao lado dos outros cadáveres e os levaram para a margem do planalto e os atiraram ao ribeiro, nessa noite, depois de terem lavado o Ayuntamiento. Teria sido melhor para a cidade que também tivessem lançado ao rio uns vinte ou trinta bêbedos, especialmente os de lenço preto e vermelho, e sé Éor necessária outra revolução parece- . me que devemos começar por destruir essa gente. Mas naquele tempo ainda o não sabíamos. Mas nos dias seguintes pudemos aprendê-lo. Nessa noite não sabíamos o que ia acontecer. Depois da matança do Ayuntamiento, não houve mais mortes, mas não pôde haver reunião nessa noite porque a maioria do~ homens estava bêbeda. Era impossível estabelecer a ordem e a reunião foi adiada para o dia seguinte. Naquela noite dormi com PabIQ. Eu não te devia dizer isto, guapa, mas por out~o lado é bom que saibas tudo e, pelo menos, o que te digo é a verdade. Ouve, Inglés, que é muito interessante. Como ' ia dizendo, naquela noite comemos e 'era -muito divertido. Era como depois de um combate ou de uma tempestade ou de uma inundação e toda a gente falava pouco. Eu não me'sentia bem e estava oca, estava envergonhada e com a impressão de ter procedido muito mal, sentia uma grande opressão e um mau pressentimento, como esta manhã quando passaram os aviões. E à mal que eu pres -Sentia chegou -três dias depois. Pablo, enquanto comia, falou muito pouco. «-Gostaste, Pilar ?» -perguntou ele, finalmente, com a' boca-cheia de cábrito assado. Comíamos na hospedaria de onde partem as carnionetas, a sala estava cheia, havia gente a cantar e o serviço era demorado. «-Não-foi a minha resposta. -Exceptuando o caso de Don Faustino não gostei nada.» «-Pois eu gostei» -contestou ele. «-De tudo?»-inquiri. «-De tudo-foi a sua resposta enquanto cortava com a navalha um grande peUço de pão que


mergulhou no molho. -De tudo, menos do~.adre_» 3 «-Não gostaste~ adre?» -perguntei, pois sabia que ele odiava mais os pa4~es que os próprios fascistas. «-Desüudi me»-confessou Pablo com tristeza. Havia tanI~gente naquela sala a cantar que quase era preciso gritar para se ser ouvido. «-Porquê?» «-Porque morreu muito mal. Com muito pouca dignidade.» «_Como querias tu que conservasse a dignidade se estava a ser caçado pela multidão? Acho que demonstrou muita dignidade durante a coisa. Toda a dignidade que era possível.» «-Sim-confirmou Pablo.-Mas no último momento apavorou-se.» «-E quem é que não se apavoraria? Não viste como o feriram?» «-Como querias que não visse? Mas pareceu-me que morreu muito mal.» «-Naquelas circunstâncias não há quem não morra mal, Pablo. Que mais querias tu? Tudo quanto se passou no Aywntamiento foi5na realidade terrível.» «-Foi-assentiu. Pablo.-Não havia a menor organização. Mas um padre devia dar o exemplo.» «-Julguei que odiavas os padres.» «-E odeio - respondeu Pablo cortando outra fatia de pão.-Mas um padre espaftol, um padre espaffol deve saber morrer.» « _ Pois eu acho que morreu muito bem, estando privado de todas as formalidades.» «- - Não - opôs Pablo. - Para mim foi uma grande decepção. Esperei o dia inteiro pela morte dele. Pensei que seria o último a entrar nas fileiras. E esperava o momento com muita impaciência. Seria a coroa. Nunca tinha visto um padre morrer.» «-Pois não te faltará ocasião -respondi com sarcasmo. -O movimento apenas começou.» .r26 «-Não, Pilar. Estou desiludido.» « -Agora -acresçentei-vais perder a fé.» «-Tu não compreendes, Pilar. Era um padre espaffoi.» «-Que povo é o espanhol ?»-perguntei-lhe eu. -E que povo orgulhoso, hem, IngMs? Que povo! -Temos que nos pôr a caminho - advertiu Robert Jordan. olhando para o Sol.-É quase meio-dia. -Sim-concordou Pilar.-Agora podemos seguir. Mas deixa-me acabar a história de Pabio. Naquela noite disse-me: «-Pilar, esta noite não vamos fazer nada!» «-Está bem-respondi eu.-Estamos completamente de acordo.» «-Parece-me que seria de muito mau gosto, depois da matança de tanta gente.» «-Qué va- exclamei. -Que santo me estás a sair! Pensas que vivi tantos anos com toureiros para não saber como ficam depois da corrida?» «-É verdade, Pilar ?» -perguntou-me ele. «-quando foi que te menti?»-retruquei. «-£ verdade, Pilar. Esta noite sou um homem esgotado. Tu não queres?» «-Não, hombre-disse eu.-Mas trata de não matares gente todos os dias.» Pablo dormiu a noite inteira como uma criancinha e acordei-o de madrugada. Mas eu não consegui pregar olho e levantei-me e sentei-me numa cadeira. Olhando pela janela via a praça


iluminada pelo luar, no sítio onde tinham estado as fileiras e no fim da praça, do outro lado, via as árvores luzindo sob o luar e a obscuridade sombria, os bancos também iluminados pelo luar e os cacos das garrafas partidas que também brilhavam e a margem do planalto de onde todos tinham sido atirados. Não se ouvia senão o barulho da água no chafariz e, sentada, ponderei que tínhamos começado mal. A janela estava aberta e acima da praça, na Fonda, ouvia o choro de uma mulher. Fui para a varanda, de pés descalços. A Lua clareava todas as frontarias dos edifícios da praça, e o choro vinha da varanda da casa de Don Guillermo. Era a mulher. Estava na varanda, ajoelhada e chorava. Voltei para o quarto e sentei-me e não queria pensar, porque aquele foi o pior dia da minha vida, antes de um dia ainda pior. -Qual foi esse dia pior? --perguntou Maria. -Três dias depois. Quando os fascistas tomaram a cidade. 127 -Não me contes isso-exclamou Maria.-Não quero ouvir mais nada. Basta. O que contaste já é de mais. -Eu bem disse que não era coisa para os teus ouvidos. Teimáste em ouvir e agora vais ter pesadelos. -Não, mas não quero ouvir mais nada. -Pois eu quero que um dia me contes o resto-volveu Jordan. -Contarei, pois, mas não é para Maria ouvir. -Eu não quero ouvir mais nada. Por favor, Pilar! Não, quando eu estiver presente, porque mesmo sem querer posso ouvir alguma coisa. Os lábios da jovem tremiam; à ~ordan pareceu que ela. ia chorar. -Por favor, Pilar. Não contes. -Não te aflijas, minha cabecinha rapada. Hoje não contarei ao Inglês. Fica para outro dia. -Mas eu quero estar sempre onde ele está-murmurou Maria.-Oli, Pilar, não contes isso, nunca, nunca. -Poderei contar tudo quando estiveres ocupada no trabalho. -Não. Não. Peço-te. Nunca mais fales nisso. -E justo que conte o resto, já que contei o que fizemos -disse Pilar.-Mas sossega: tu não ouvirás nada. -Não há tantas coisas agradáveis no mundo.? -perguntou Maria.-Para que havemos de contar horrores? -Pois esta tarde tu- e o Inglés'podem conversar sobre coisas bonitas. Que venha então a tarde, já,, já. Que venha voando! -Virá, virá - disse Pilar. - Virá depressa , e ir-se-á depressa. E o dia de amanhã também será assim. -Esta tarde - disse Maria. - Esta'tarde. Oli, que esta tarde venha já, já. 128 CAPITULO XI TINHAm abandonado o prado coberto de mato e tomado um atalho que marginava a corrente e se afastava a


seguir para subir a pique uma cercadura rochosa e escarpada. Agora caminhavam, subindo, mergulhados na sombra espessa dos pinheiros. Um homem, armado de espin garda, saiu detrás de uma árvore. _Alto!-gritou. E depois:-Hola, Pilar. Quem trazes contigo ? _ Um Inglês- respondeu a mulher-mas com um nome cristão: Roberto. Que porcaria de caminho para chegar até aqui! -Satud, camarada-disse a.sentinela para Robert Jordan, estendendo-lhe a mão.-Como vais? Bem? -Vou bem-respondeu Robert Jordan.-E tu? -Eu também -respondeu a sentinela. Era um rapaz de pouca idade, rosto jovial e magro, nariz adunco, maçãs do rosto salientes e olhos cinzentos. Estava de cabeça descoberta e os cabelos eram pretos e hirsutos. Tinha o aperto de mão forte e amistoso. Olhos também amistosos. -Olá, Maria!-disse à rapariga.-Não te cansaste? - Quê va, Joaquim! -respondeu Maria. -Estivemos mais tempo sentados a conversar do que a caminhar. -Es o dinamitista? -perguntou ele a jordan.-Ouvimos falax da tua chegada. -Passei a noite no acampamento de Pablo-explicou Jordan.-Sim, sou o dinamitista. -Tenho muito prazer em ver-te. É para algum comboio? - Também estiveste no último comboio? - perguntou Jordan, sorrindo. 9-S. D. 129 -Sim, e foi lá que apanhámos isto-e indicou Maria, sorridente.-Tu estás bonita, agora, rapariga! já te disseram que eras bonita? -Cala essa boca, Joaquim, e muito obrigada. Tu também ficarias bonito se rapasses o cabelo. -Quando penso que te caxreguei às costas... -Como ffiuitos outros a carregaram- disse Pilar com a sua voz cheia.-Não houve ninguém que não a carregasse. Por onde an---la o velho? -Está no acampamento. -Onde esteve ele a noite passada? -Em Segóvia. -Trouxe novidades? -Sim, trouxe notícias. -Boas ou más? - Más, parece-me. -Viram os aviões? -Ai!-suspirou Joaquim abanando a cabeça.-Não me fales nisso. Camarada dinamitista, que aviões eram aqueles? -Heinkels-iii de bombardeamento e Fiats de caça. -Aqueles grandes de asas baixas? -Heinkel-iii. -Seja qual for o seu nome são sempre perigosos-disse Joaquim.-Mas não vos demoro. Vou levax-te ao comandante. -Comandante? -retiu Pilar. Joaquim abanou a cabeça, muito sério:


-Prefiro dizer assim a dizer chefe. É mais militar. -Estás a militarizar-te furiosamente -notou Pilar rindo-se. -Não, mas emprego termos militaxes porque tornam as ordens mais c ' laras e criam uma disciplina mais perfeita. -Este é ao teu gosto, Inglés-disse Pilar.-Rapaz muito sério. - Queres que te caxregue? -perguntou Joaquim a Maria, pondo-lhe a mão sobre o ombro e sorrindo-lhe. -Uma vez bastou -respondeu a rapariga.-Mas apesar disso, muito obrigada. -Ainda te lembras? -perguntou Joaquim. -Lembro-me de me terem trazido às costas-disse Maxia. -Mas por ti não. Lembro-me do cigano, porque me deixou cair uma porção de vezes. Mas agradeço-te, Joaquim e um dia destes também te hei-de levar às costas. -Pois eu lembro-me muito bem-disse Joaquim.-Lembro-me de te ter segurado pelas pernas, com a baxriga apoiada 130 no meu ombro, a cabeça sobre as minhas costas, com os braços pendentes. -Que boa memória-disse Maria sorrindo.-Eu não me lembro de nada disso. Nem dos teus braços, nem dos teus ombros, nem das tuas costas. -Queres saber uma coisa? -perguntou Joaquim. -Dize lá. -Eu estava muito satisfeito porque tinha as costas protegidas quando nos atiravam pela retaguarda. - (~ue grande porco!-disse Maria.-Então foi por isso que o cigano me carregou tantas vezes? -Por isso e para segurar as tuas pernas. -Meus heróis! - exclamou Maria. - Meus salvadores! -Ouve, guapa-interveio Pilar.-Este rapaz carregou-te durante muito tempo e naquela ocasião as tuas pernas não diziam nada a ninguém. Só as balas é que tinham importância. E se ele te atirasse para o chão, teria talvez muito mais probabilidades de escapar às balas. -já lhe agradeci-retrucou Maria.-E hei-de levá-lo às costas um destes dias. Deixa-nos brincar. Não vou por-me a chorar só porque ele me trouxe às costas, pois não? -Eu ter-te-ia atirado ao chão-brincou Joaquim-se não fosse o medo de que Pilar me matasse. -Nunca matei ninguém-disse Pilar. -No hace falta-interpôs Joaquim.-Tu metes medo às pessoas só com essa tua língua! - Que maneira de falar! já nem pareces aquele rapazinho tão delicado! Que fazias tu antes do movimento, menino? -Que fazia? Que podia fazer uma criança de dezasseis anos ? -Mas que fazias tu? -Fazia uns tantos pares de sapatos de quando em quando. -Fabricavas sapatos? -Não. Engraxava-os apenas. -Quê va-disse Pilar.-Há mais coisas ainda-e atentou inquisitivamente no rosto queimado pelo sol, no talhe esbelto, na cabeleira e na marcha rápida. - Como foi que falhaste, Joaquim? -Falhei em quê? -Bem sabes em quê. Mas vejo que já estás a deixar crescer o rabicho.


-Creio que foi o medo. -Tu tens uma bonita figura, exceptuando, talvez, a cara. Com que então foi medo? Pois no comboio não mostraste medo nenhum. 131-Agora não tenho nenhum medo deles-disse Joaquim. -Nenhum. Vi coisas piores e mais perigosas que os touros. Não há touro que se compare a uma metralhadora. Mas se agora estivesse na arena, não sei se dominaria as minhas pernas. -Ele quis ser toureiro -explicou Pilar.-Mas teve medo. -Gostas de touros, camarada dinamitista? -perguntou Joaquim, mostrando os dentes ao sorrir. -Muito -respondeu Jordan. -Enormemente. -já os viste em Valladolid? -Sim. Naferia de Setembro. -Pois é a minha cidade-declarou o rapaz.-Que cidade bonita, mas o que a buena gente, a boa gente da cidade tem sofrido com esta guerra!-E acrescentou, muito sério:-Lá fuzilaram o meu pai, a minha mãe, o meu cunhado e por fim a minha irmã. -Que bárbaros! -exclamou Robert Jordan. Quantas vezes tinha já ouvido aquilo? Quantas vezes observara o esforço com que o diziam? Quantas vezes tinha visto os olhos marejarem-se e a voz tornar-se rouca, quando pronunciavam as palavras: meu pai, ou meu irmão, ou minha mãe, ou minha irmã? Não podia recordar-se das vezes em que tinha ouvido mencionar esses mortos. E quase sempre falando acidentalmente, como aquele rapazinho, falando a propósito de uma cidade, e sempre repetiam o comentário: que bárbaros! Apenas se ouvia a notícia da morte. Não se via cair o pai, ou morrer de uma morte semelhante à dos fascistas que Pilar tinha descrito no prado, perto da corrente. Sabia-se que o pai tinha morrido em qualquer pátio, ou encostado a uma parede, ou num campo, ou num prado, ou ainda ~ noite à luz dos faróis de um camião, à margem de qualquer estrada. Não se tinha visto fuzilar nem a mãe, nem a irmã, nem o irmão. Contavam apenas; mas não se ouviam os tiros, nem se viam os cadáveres. Pilar tinha desvendado o que se passara na cidade. Se esta mulher soubesse escrever... Pensava. Ele ia tentar escrever a história e se tivesse a sorte de a recordar bem, talvez pudesse escrever tal como ela lha tinha contado. Meu Deus, como Pilar contava bem! Ela era melhor que Quevedo, sonhava ele. Quevedo nunca descreveria a morte de nenhum Don Faustino como ela o tinha feito. Gostaria de escrever bem paxa poder reproduzir esta história, continuava ele a sonhar. E o que nós fizemos. Não o que os outros nos fizeram. Disso sabia de mais. Mas era necessário ter conhecido as pessoas antes. Sabia bastante do que acontecia atrás das linhas. Mas 132 era necessário ter conhecido as pessoas antes. Era necessário saber como tinham sido antes, nas suas aldeias. Por causa da nossa mobilidade e porque nunca fomos obrigados a ficar num lugar para receber o castigo, nunca soubemos como as coisas na realidade terminam. Ficámos em casa de um camponês, dentro da sua família. Chegámos à noite e comemos com eles. De dia estamos escondidos e na noite seguinte, já nos fomos embora. Cumprida a missão, toca a andar. Mais


tarde reaparecemos por ali e então contam-nos que a família foi fuzilada. E a coisa é desta simplicidade. Mas nunca estamos presentes quando as coisas chegam. Os partizans fazem os seus estragos e cavam. Os camponeses ficam e pagam. Soube sempre o que se passava do outro lado. O que nós fizemos aos outros no começo. Soube-o sempre e sempre me horrorizei; ouvi envergonhado falar cinicamente, e com vanglória, com bravata, e dando explicações, desculpando-se, negando. Mas o diabo desta mulher pôs-me tudo a nu, tal como se tivesse estado presente. Bem, pensou, é assim que nos educamos, e será uma educação perfeita, no fim de contas. Quem prestax atenção a tudo aprende muita coisa nesta guerra. E tu aprendeste muito. Tinha tido a sorte de ter vivido uma parte dos dez anos anteriores em Espanha, antes da guerra. A gente da terra confiava nele sobretudo por causa da língua. Confiam completamente em quem compreende inteiramente a língua e tem conhecimento das várias regiões do país. Na verdade o espanhol só é fiel à sua aldeia. Primeiro à Espanha, evidentemente, depois à sua própria tribo, depois à sua província, depois à sua aldeia e finalmente à família e por fim à sua profissão ou negócio. Quem fala espanhol já tem muita simpatia; se conhecemos a sua província, melhor ainda, mas se conhecemos a sua aldeia e a sua profissão, está-se tão adiantado como nenhum estrangeiro o poderá estar nunca. Nunca se sentira estrangeiro em Espanha e raxamente o tratavam como tal; para que tal acontecesse era necessário as pessoas voltarem-se contra ele. E frequentemente voltavam-se contra os estrangeiros, como também se voltavam contra toda a gente e como o faziam entre eles. Onde há três espanhóis juntos, dois aliam-se contra o terceiro e depois os dois primeiros começam a trair-se mútuamente. Nem sempre, é claro, mas com a frequência suficiente para tirar uma conclusão. Não era maneira de pensar: mas quem censurava os seus pensamentos? Ele, apenas. E não se permitia nenhum 133 pensamento derrotista. A primeira coisa que há a fazer numa guerra é vencê-la. Se não vencemos, tudo está perdido. Mas ele dava atenção a tudo, tudo ouvia e de tudo se lembrava. Servia numa guerra, e punha no seu serviço a maior lealdade e uma actividade tão completa quanto possível. Mas os seus pensamentos não podiam ser governados por ninguém, nem as suas faculdades de ver e ouvir e se tinha que formular juízos, fá-lo-ia mais tarde. E então teria um material mais extenso, e já tinha muito; talvez de mais, por vezes. Olha para esta mulher, por exemplo. Haja o que houver, tenho que fazê-la contar o resto da história. Olha para ela caminhando entre as duas crianças. Era impossível encontrar três produtos de Espanha tão bons. Ela é como uma montanha e o rapaz e a rapariga como duas árvores novas. As árvores velhas foram todas abatidas e as árvores novas crescem muito direitas. A despeito de tudo quanto aconteceu a estes dois, ambos se apresentam frescos, puros e intactos, como se nunca tivessem ouvido falar em desgraças. Mas, segundo diz Pilar, Maria acaba de retomar o equilíbrio. Ela deve ter ficado num estado horroroso. Jordan lembrou-se de um rapazinho belga da Décima Primeira Brigada que se tinha alistado com outros cinco rapazes da sua aldeia. Era uma aldeia duns duzentos habitantes da qual o rapaz nunca tinha saído. A primeira vez que o tinha encontrado, no Estado-Maior da Brigada de Hans, já os outros cinco estavam mortos, e o rapaz estava em muito mau estado. Utilizavam-no para servir à mesa dos oficiais. Era o tipo clássico do fiamengo, redondo, louro, vermelho e grandes mãos de camponês, e mexia nos pratos pesadamente com o desajeitamento de um cavalo de tiro.


E para mais chorava sem cessar. Durante toda a refeição, chorava silenciosamente. Levantava-se a cabeça, olhava-se para ele e ele estava a chorar. Pedia-se-lhe vinho e ele chorava, e se lhe apresentavam o prato para que ele servisse alguma coisa, chorava e virava a cabeça. Depois parava, mas se alguém olhava para ele, punha-se de novo a chorar. Quando estava na cozinha chorava entre os pratos. Todos eram muito delicados para ele, mas não servia de nada. Gostaria de saber, pensou Robert Jordan, o que teria acontecido a esse rapaz, se tinha voltado a pegar nas armas, já recomposto. Maria andava boa agora. Ou parecia. Mas ele não era psiquiatra. O psiquiatra era Pilar. Sem dúvida que o terem dormido a noite passada juntos tinha feito bem aos dois. Para 134 ele fora um bem. Sentia-se muito bem. São, bom, repousado e feliz. A situação apresentava-se terrível, mas tudo lhe ia correndo pelo melhor. já tinha estado metido noutros sarilhos que também tinham começado mal. Começar... Ia pensando em espanhol. Maria era encantadora. Olha para ela, disse-se. Contempla-a. E vi-a caminhar alegremente ao sol, com a camisa de caqui desabotoada no pescoço. Caminha como um potro, pensou Jordan. Nunca encontrei ninguém assim. Estas coisas não acontecem na realidade. Mas talvez este a a, sonhar ou talvez me deixe axrastax pela imaginação, pensava ele, e nada tenha acontecido. Lembrava-se de se ter encontrado, em sonhos, na cama, acompanhado de actrizes de cinema que lhe prodigalizavam carícias. Tinha-as possuído a todas e lembrava-se ainda de Garbo e de Harlow. Sim, Harlow, tive-a muitas vezes. Talvez ainda sonhasse. Jordan ainda se lembrava da noite em que Greta Garbo veio para a sua cama, na noite que antecedera o ataque de Pozoblanco; trazia uma macia camisola tecida com uma lã doce e sedosa. Quando ele a abraçava e ela se inclinava sentia os cabelos acariciarem-lhe o rosto. E ela perguntou-lhe porque não confessara que a amava, a ela que o amava há tanto tempo. E ela não parecia nem tímida, nem distante, nem reservada. Era a Garbo dos dias de john Gilbert, boa e meiga e era estranho tê-la abraçada contra ele. Era tão verdadeiro como se tivesse acontecido, e amou-a mais que à Haxlow embora fosse uma vez só enquanto a Harlow... e talvez o presente não passasse também de um sonho. Mas talvez não seja, repetiu-se. Talvez Maria seja realidade e possa estender a mão e tocá-la. Ousarias fazê-lo? Perguntou-se. Talvez te desses conta de que nunca aconteceu nada e de que tudo é produto da tua imaginação, como os teus sonhos onde as actrizes de cinema, amigas velhas, vinham deitar-se no teu saco de campanha, por terra, na paJha das eiras, nos estábulos, nos corrales e cortUos, nos bosques, nas garagens, nos camiões e em todas as montanhas de Espanha. Vinham todas meter-se no saco de campanha durante o seu sono e todas eram mais gentis do que o poderiam ser na realidade. Talvez tenhas medo de tocar em Maria e verificar que é realidade, repetia-se ele. Mas sim, tu tens medo: sonho, imaginação, irrealidade. jordan adiantou-se e pousou a mão no braço da rapariga. Sentiu sob os dedos a macieza da carne debaixo do pano da blusa. Maria encaxou-o e sorriu. 135 -Olá! Maria!-saudou ele. -Olá, Inglês -respondeu a rapariga, e Jordan absorveu a rapariga, aquele rosto de um moreno tostado e o cinzento amarelado dos seus olhos, os lábios cheios que sorriam e os cabelos curtos queimados pelo sol. Ela levantou a cabeça e sorriu-lhe. Tudo era uma doce realidade.


Estavam agora à vista do acampamento de El Sordo, junto dos últimos pinheiros, onde se arredondava uma rocha em forma de bacia virada. Todos estes rochedos calcáreos devem estar cheios de cavernas, pensou Jordan. E logo duas lhe apareceram na frente. Os pinheiros que crescem nos rochedos dissimulam-nas. Esta região é tão boa, se não melhor que a de Pablo. -E como foi fuzilada a tua família? -perguntava Pilar a Joaquim. -Nada de especial, mulher,-foi aresposta.-Eles eram da esquerda, como muitos outros em Valladolid. Quando os fascistas fizeram a limpeza da cidade, começaram por meu pai, que tinha votado nos socialistas. Depois fuzilaram minha mãe que votara pela primeira vez na sua vida e tinha votado como meu pai. Depois fuzilaxam o marido de uma das minhas irmãs, por ser membro do sindicato dos condutores de «eléctricos,» um rapaz que não fazia política. Mas como conduzir um «eléctrico», sem fazer parte do sindicato? Eu conhecia-o muito bem. Era até um bocado mole. Não creio que fosse um bom camarada. O marido da minha segunda irmã, que também trabalhava nos «eléctricos,» fugiu paxa as montanhas, como eu. Eles acreditavam que ela soubesse onde ele estava. Mas ela não sabia. E eles mataram-na porque não queria dizer nada. - Que bárbaros! -exclamou Pilar. - Por onde andará El Sordo? Não o vejo. -Há-de estar por aqui. Provàvelmente recolhido -opinou Joaquim parando e descansando no chão a coronha da espingarda -Pilar -continuou -ouve e tu também, Maria. Perdoem-me se as magoei falando do que aconteceu à minha £uriília. Bem sei que todos têm os mesmos desgostos e que o melhor é não falar nisso. -Fizeste muito bem em falar-disse Pilar.-Para que nascemos nos senao para nos ajudarmos uns aos outros? E ouvir sem dizer nada é o menos que se pode fazer. -Mas podia ferir a Maria. já basta o que ela passou. - Quê va-disse Maria. -O meu barril é tão grande que podes despejar o teu lá paxa dentro e ainda não fica cheio. 136 Sinto muito, Joaquim, e espero que a tua irmã esteja bem. -Até há pouco tempo estava bem. Eles prenderam-na, mas parece que não a maltratam muito. -Há ainda outros da família? -indagou Jordan. -Não-respondeu o rapaz. - Ninguém mais, além do meu cunhado que fugiu para a montanha e que com certeza já não existe. -Porquê? Talvez esteja até muito bem. Talvez faça parte de algum bando nas montanhas -sugeriu Maria. -Para mim ele está morto-disse Joaquim.-Esse rapaz nunca prestou para grande coisa e era condutor de «eléctricos», o que não é lá muito bom treino para as montanhas. Não creio que tenha chegado a durar um ano. E depois era fraco do peito, ainda por cima. -Pode até ter-se curado-consolou Maria pondo-lhe a mão no ombro. -Pode, rapariguinha, lá isso pode-disse Joaquim. Como o rapaz tivesse parado, Maria enlaçou-o pelo pescoço e beijou-o. Joaquim virou a cabeça porque estava a chorar. -Um beijo de irmã-murmurou Maria.-Beijo-te como a um irmão. Lágrimas deslizaram pelo rosto do rapazola. -Sou tua irmã-insistiu ela.-Quero-te muito e tu tens uma família. Todos nós somos a tua faniflia. -Incluindo o Inglês- acrescentou a voz cheia, de Pilar. -Não é verdade, Inglis? Robert Jordan concordou:


-Somos a tua família, Joaquim. -Ele é teu irmão, hem, Inglês? Jordan enlaçou o rapaz pelos ombros: -Somos todos irmãos, Joaquim.-O rapaz sacudiu a cabeça. -Estou envergonhado de ter falado -murmurou. -Falar disto torna as coisas ainda mais difíceis para toda a gente. Envergonho-me por tê-los ferido. -Mierda para essa vergonha! -exclamou Pilar na sua bela voz profunda e cheia.-E se Maria te beija outra vez, eu também farei o mesmo. Há anos que não beijo um toureiro, mesmo um toureiro falhado como tu és, e gostaria de beijar um toureiro sem sorte que se fez comunista. Agarra-o, Inglés, enquanto eu lhe prego um bom beijo! -Deja - exclamou o rapaz voltando-se vivamente. Deixa-me em paz. Estou muito bem e estou envergonhado. 137 E ficou ali, de pé, procurando dominar os seus sentimentos. Maria pegou na mão de jordan. Pilax, com as suas nos quadris, olhava, agora zombeteira, para o rapazinho. -Se eu te beijax - disse-lhe ela - não há-de ser nada como irmã. Essa fita de beijar como irmã. * -Não troces-volveu Joaquim. -já disse que estou bem e axrependido de ter falado. -Está bem, vamos ver o velho, então-disse a mulher. -Estas emoções fatigam-me. O rapaz olhou-a e pelo seu olhar via-se que ficara ofendido. -Não foram as tuas emoções -observou Pilar.-Foram as minhas. Tu és muito terno para toureiro. -Foi um falhanço, sim-disse Joaquim.-Mas não há necessidade de insistir nisso. -Mas já estás a deixar crescer o rabicho outra vez. -Estou, e porque não? O negócio das. touradas é económicamente bom. Dá trabalho a muita gente,1 e o Estado há-de controlar o desporto. E talvez, então, eu já não tenha medo. -Talvez-repetiu Pilax.-Talvez. -Porque falas assim, Pilax? -interpelou Maxia.-Estás a agir çom muita barbaridade. -E possível que eu seja bárbara - respondeu Pilax. Ouve, Inglés, já pensaste no que vais dizer a El Sordo? -já. -Porque ele é homem de muito poucas palavras, não é como eu nem como tu, nem como esta bicharada sentimental. -Porque continuas a falax assim? - insistiu Maria, irritada. -Não sei-respondeu Pilar retomando a marcha.-Porque será ? -Eu é que não posso saber. -Há momentos em que muitas coisas me cansam-disse Pilar de mau homor. -Compreendes? E uma delas é ter quaxenta e oito anos. Estás a ouvir ? Quarenta e oito anos e uma cara feia. Outra, é ver o panico estampado na cara de um projecto de toureiro com tendências comunistas, quando lhe digo por brincadeira que o vou beijax. -Não foi assim, Pilar-disse o rapaz.-Não viste nada disso. -Q_yé va, não é verdade. Mierda para vocês todos. Ah! lá está ele. Hola Santiago! Quê tal? 138 O homem a quem Pilar se dirigia era baixo e pesado. Rosto moreno com maçãs salientes, cabelos grisalhos, olhos castanhos muito afastados, nariz de gancho como o dos índios, um lábio superior


exagerado e uma boca grande e fina. Vinha ao seu encontro saído da caverna; as pernas arqueadas diziam com as calças e as botas de guardador de gado que trazia. O dia estava quente, mas vestia um casaco de couro, forrado de pele de carneiro, abotoado até ao pescoço. Estendeu a Pilar uma grande mão morena: -Rola, mulher! Hola!-disse para Robert e apertando-lhe a mão observou-o atentamente. O rapaz notou que ele tinha olhos amarelos como os do gato e unidos como os dos répteis. - Guapa -disse para Maria batendo-lhe no ombro. -já comeram? -perguntou a Pilar, que disse que sim com a cabeça. -Comer? - repetiu ele olhando para Robert jordan. -Beber? -perguntou fazendo com o polegar o gesto de quem inclina o couro para beber. -Sim, obrigado. - Wh isky ? -Há whisky por aqui? El Sordo acenou que sim: -Inglês ?-perguntou. -Não. Ruso? -Americano. -Poucos americanos por aqui. -Agora há mais. -Menos mal. Do Norte ou do Sul? -Norte. -O mesmo que InglIs. Quáhdo fazes saltar a ponte? -já sabes do negócio da poi~te? El Sordo acenou que sim. -Depois de amanhã, de madrugada. -Bem-rematou El Sordo. -E Pablo? -perguntou a Pilar. Ela abanou a cabeça. El Sordo sorriu. -Vai lá para fora-disse para Maria e sorriu.-Volta -e consultou um enorme relógio preso com uma correia de couro-daqui a uma meia hora. El Sordo fez sinal aos outros para se sentarem num tronco aplainado que servia de banco; e olhando para Joaquim estendeu o polegar indicando-lhe o ar livre. -Vou andar por aí com o Joaquim e depois voltodisse Maria. El Sordo encaminhou-se para o interior da gruta e voltou com uma pequena garrafa de whisky e três copos. A garrafa 139 debaixo do braço e os três copos numa das mãos, enfiados nos dedos. Na outra mão sustentava pelo gargalo uma bilha de barro cheia de água. Colocou os copos e a garrafa sobre o banco e pôs a bilha no chão. -Não há gelo-disse ajordan apresentando-lhe a garrafa. -Eu não quero-declarou Pilar tapando o copo com a palma da mão. -Ontem à noite geou-disse El S6rdo, mas o gelo já derreteu todo. Neve agora só lá no alto-e apontou para as brancuras no topo da montanha.-Muito longe. Robert Jordan quis servir primeiro. El Sordo, mas o surdo abanou a cabeça e fez-lhe sinal para se servir primeiro. Robert Jordan deitou no seu copo- muito whisky; El Sordo observava-o, muito interessado e depois de feita a operação, estendeu a bilha a Robert Jordan. Este inclinou a bilha e deixou correr a água pela boca de barro cozido.


El Sordo despejou um meio copo e acabou de enchê-lo com água -Queres vinho? -perguntou aTilar. -Não. Água. -Serve-te-disse ele.-Não presta,-e sorriu parajordan. -Conheci muitos ingleses. Sempre muito whisky. -Onde? -Na quinta. Amigos do patrão. -Onde arranjaste o whiçky? -O quê?-ele não ouvia bem. -Tens que, gritar-disse Pilar.-Gritar ao outro ouvido. El Sordo apontou para o ouvido melhor e sorriu. -Onde foi que arranjaste o whisky?- gritou Jordan. -Faço-o -respondeu El Sordo acompanhando com os olhos a mão de Jordan a levar o copo à boca. -Não-continuou depois batendo-lhe no ombro. - É brincadeira. Vem de La Granja. Tive notícia da chegada do dinamítista inglês. Bom. Muito contente. Procurar whisky. Para ti. Tu gostas ? -Muito -respondeu Jordan.-É um whisky muito bom. -Contente?-e El Sordo sorriu. - Tenho boas informações. -Que informações? -Muito movimento de tropas. -Onde? -Segóvia. Viste os aviões? -vi. -Mau, hem? 140 -Mau, pois. Movimento de tropas? -Muito, entre Villacastin e Segóvia. Estrada de Valladolid. Muito entre Villacastin, e San Rafael. Muito. Muito. -Que pensas disso? -Que preparamos qualquer coisa. -É possível. -Eles sabem e também se preparam. -É possível. -Porque não rebentas a ponte esta noite? -Tenho de seguir as ordens. -Ordens de quem? -Do Estado-Maior. -Ah! -Tem importância o momento de fazer saltar a ponte? -perguntou Pilar. -Muitíssima. -Mas se eles já estão a movimentar as forças? -Mandei Anselmo tirar nota de todos os movimentos e concentrações. Ele está a vigiar a estrada. -Tens alguém na estrada? -perguntou El Sordo. Jordan não sabia ao certo o que o homem tinha ouvido. Com um surdo nunca se sabe.


-Tenho -respondeu. -Também eu. Porque- não fazes saltar a ponte agora? -Tenho instruções definidas a esse respeito -respondeu o rapaz. -Não me agrada-murmurou El Sordo.-Isso não me agrada. -Nem a mim-disse Jordan. El Sordo abanou a cabeça e bebeu um trago. -Tens necessidade de mim? -De quantos homens dispões? -De oito. -Temos de cortar os fios telefónicos, atacar o posto da casa do cantoneiro, ocupá-lo e depois fazer saltar a ponte. - É fácil. -As ordens estão dadas por escrito. -Não é preciso. E Pablo? -Pablo cortará o telefone lá de baixo e ataca o posto da serração, e depois de o tomar voltará à ponte. -E depois para a retirada? -perguntou Pilar.-Somos sete homens, duas mulheres e cinco cavalos. Quantos sois vós?-gritou ao ouvido de El Sordo. 14F -Oito homens e quatro cavalos. Faltan caballos-ffisse ele.-Faltam cavalos. -Dezassete pessoas e apenas nove cavalos-volveu Pilar. -Sem contar as bagagens. El Sordo não respondeu. -Não haverá maneira de obtennos caValos ? - gritou Jordan ao melhor ouvido do surdo. -Há um ano que estou na guerra-foi a resposta-e tenho quatro. - Mostrou quatro dedos. - E para amanhã fazem-te falta oito. - Sim - respondeu Jordan. - Como vamos partir, não há necessidade da cautela que sempre têm tido por cá. Não precisas precaver-te muito agora. Não poderás arranjar maneira de roubar mais oito cavalos? -Pode ser-respondeu ele.-Podemos não apanhar nenhum. Ou podemos arranjar mais que os oito. -Tens alguma arma automática? -perguntou Robert Jordan. El Sordo fez sinal que sim. -Onde? -No alto da montanha. -Que gênero de arma? -Não sei o nome. Com pentes. - Quantos tiros ? - Cinco pentes. -Quem sabe manejá-la? -Eu. Um pouco. Não atiro muito. Não quero Iàzer barulho por aqui. Não vale a pena gastar munições. -Veremos isso depois. Tens granadas de mão? - Muitas. - E quantos carregadores por espingarda ? -Uma porção deles.


-Mais ou menos quantos? -Cento e cinquenta. Talvez mais. -E quanto ao resto do pessoal? -Pessoal para quê? -Para tomar os postos e guardar a ponte enquanto eu preparo a explosão. Devíamos ter o dobro do que temos. -Tomar os postos não me preocupa. A que horas? - De madrugada. -Não penses mais nisso. -Eu precisava de vinte homens pelo menos -disse Jordan. -Dos bons não há. Queres homens nos quais se não pode ter confiança ? 142 -Não. Quantos realmente bons? --Talvez quatro. -Só? -Não confio nos outros. -E para guardar os cavalos? -Esses precisam ser de muita confiança. -Eu gostaxia de ter mais uns dez homens dos bons, se fosse possível. -Só tenho quatro. -Anselmo disse-me que havia mais de cem por estas montanhas. -Mas não prestam. -Mas tu disseste-me uns trinta-disse Robert Jordan. voltando-se para Pilar-trinta em quem poderíamos confiar, até certo ponto. - E o pessoal do Elias ? - berrou Pilar ao ouvido de El Sordo. -Não presta -respondeu ele abanando a cabeça. -Não podes arranjar-me ao menos dez ?-insistiu Jordan. El Sordo olhou-o com os seus olhos amarelos e unidos e abanou a cabeça. -Quatro só-repetiu mostrando quatro dedos. -E são de toda a confiança? -perguntou RobertJordan, arrependendo-se logo da pergunta. El Sordo acenou que sim. -Dentro de Ia gravedad-disse ele.-Conforme o perigoe sorriu.-Haverá muito perigo? - É possível. -Para mim tanto faz-disse El Sordo sem jactância. -Mais valem quatro bons do que muitos ruins. Nesta guerra tem havido muitos ruins e pouquíssimos bons. E cada dia há menos. E Pabio?-indagou voltando-se para Pilar. -Aquilo que sabes. Cada vez pior. El Sordo encolheu os ombros. -Bebe-disse a Jordan.-Eu. arranjo os meus e mais quatro. Fazem doze. Discutiremos à noite. Tenho sessenta bastões de dinamite. Queres? -Que percentagem? -Não sei. Da comum. Vou levá-la. -Podemos com essa dinamite fazer saltar a ponte pequena de cima-sugeriu Jordan. -Vais levá-la esta noite? Não tenho ordens a esse respeito, mas essa ponte também deve saltar.


-Volto à noite. Depois de apanhar os cavalos. -Qual é a probabilidade no caso dos cavalos? -Veremos. Agora vamos comer. 143 Será que ele fala assim a toda a gente?-pensou Robert Jordan. Ou é a sua maneira de se fazer entender pelos estrangeiros ? - E para onde iremos depois de tudo feito ? - berrou Pilar ao ouvido de El Sordo. Ele encolheu os ombros. -Tudo deve ser combinado -sugeriu a mulher. -Naturalmente -respondeu El Sordo.-E porque não? -As coisas já não estão muito boas-continuou Pilar. -É preciso combinar tudo muito bem. -Sim, mulher. Que é que te preocupa? -Tudo-gritou Pilar. El Sordo sorriu-lhe. -Estiveste muito tempo com El Pablo-foi o seu comentário. Robert Jordan verificou que os dois falavam normalmente. O espanhol telegráfico que El Sordo usara para com ele, era coisa reservada aos estrangeiros. -Para onde pensas tu que devemos ir?-perguntou Pilar. -Para onde? -Sim. Para onde? -Não faltam lugares por aí fora. Há muitos. Conheces os Gredos? -já há muita gente por lá. Todos esses lugares vão sofrer a limpeza, logo que eles tenham tempo. -Sim, mas a região é muito grande e muito agreste. -Vai ser difícil chcgarmos lá. -Tudo é difícil. Se viajarmos à noite, tanto podemos ir para os Credos como paxa qualquer outra parte. Aqui, agora, isto está muito perigoso. Foi um n-iiJagre conseguirmos sossego durante tanto tempo. Os Gredos são mais seguros que isto aqui. _ Sabes para onde eu queria ir? -Para onde? Para Paramera? Não vale nada. -Não-disse Pilar.-Não é para a Sierra de Paramera que quero ir. Quero ir para a República. -Não é má ideia. -A tua gente também quererá ir? -Se eu mandar, irá. -A rainha não sei-duvidou Pilar.-Pablo, esse não quererá ir, e realmente sente-se mais seguro por aqui. Pablo está muito velho para assentar praça, a não ser que mobilizem os da sua idade. O cigano não deve querer ir; e quanto aos outros não sei. 144 -Pelo facto de não se ter passado nada por aqui nestes últimos tempos, eles não se dão conta do perigo-observou El Sordo. -Depois dos aviões de hoje eles começarão a ver mais claro-interveio Jordan. - Acho que vocês deveriam agir muito bem nos Gredos. -Quê?-perguntou El Sordo, fixando-o com os seus olhos muito unidos. Não havia réstia de amizade no tom com que fez a pergunta.


-Vocês poderiam fazer surtidas mais eficientes lá em baixo-repetiu Robert Jordan. -Ah!-exclamou El Sordo.-Tu conheces os Gredos? -Conheço. De lá poderias operar contra a linha principal do caminho de ferro. Poderias cortá-la continuamente, como estamos a fazer mais ao sul, na Estremadura. Operar lá seria melhor do que voltar à República. Lá serias muito útil. Ã medida que escutavam iam-se tornando taciturnos. El Sordo olhou para Pilar e a mulher para ele. -Tu conheces os Gredos? De verdade? -Conheço -afirmou Jordan. -Em que ponto estiveste? -Acima do Barco de Ávila. Lugares muito melhores do que estes. Vocês poderiam operar na. estrada principal e na linha férrea entre BéJar e Plasencia. -Muito difícil -ponderou El Sordo. -Nós já operámos contra essa mesma via em pontos muito mais perigosos da Estremadura -disse Robert Jordan. -Quem é nós? -O grupo dos guerrilleros da Estremadura. -E quantos eram? -Cerca de quarenta. -O tal de nervos esgotados e nome esquisito veio de lá? -indagou Pilar. -Veio. -E por onde anda agora? -Morreu, como já te disse. -Tu também vieste de lá? -Também. -E sabes o que quero dizer com isto ? perguntou Pilar. Acabo de cometer um erro, pensou Jordan. Caí na asneira de dizer a espanhóis que podemos fazer alguma coisa melhor do que eles, quando a regra é nunca fazer alusão às façanhas 10-S. D. 145 ou habilidades próprias. Em vez de os bajular, fui dizer o que me parece que eles devem fazer, e eles agora estão muito irritados. Bem, isto passa ou não passa. Eles são, na verdade, muito mais úteis nos Gredos do que aqui. A prova é que nada fizeram depois do, comboio, cujo assalto foi dirigido por Xachkine. E isso não é caso para muita vaidade. Custou aos fascistas apenas uma locomotiva e alguns homens mortos ' mas os de cá referem-se ao caso como se fosse o ponto culminante da guerra. Talvez se decidam a ir para os Gredos. Ou talvez não me queiram aqui. Em qualquer caso as perspectivas não têm lá muito boa cor. -Dize-me, Inglês- perguntou Pilar.-Como vais tu dos nervos? -Muito bem-respondeu Jordan. -Perfeitamente. -É que o último dinamitador que eles mandaxam trabalhax connosco, conquanto fosse um técnico de primeira classe, era muito nervoso. -Temos tambémos nervosos, é natural. -Não digo que fosse covarde, porque até se portou muito bem-continuou Pilar.-Mas falava de


uma maneira muito estranha e aérea. - E levantando a voz: - Não é verdade, Santiago, % que o último dinamitador, o do comboio, era um pouco estranho ? -Algo raro-concordou o surdo, enquanto os seus olhos pousavam no rosto de Robert Jordan de um modo que fazia lembrar a abertura de um tubo de aspirador.-Si, algo raro ,pero buew. -Murió-gritou-lhe jordan ao ouvido.-Morreu. -Como :foi isso?-indagou o surdo, descendo os olhos dos de jordan para os lábios. - Matei-o -confessou o rapaz.-Estava gravemente ferido para caminhar e matei-o. . -Ele falava sempre nisso - lembrou Pilar. - Era uma obsessão. -Sim-concordou jordan.-Ele vivia a falar nisso. Era realmente uma obsessão. -Como fué?-perguntou o surdo.-Foi num comboio? -Foi num comboio, sim. O assalto fora satisfatório; quando regressávamos no escuro, encontrámos uma patrulha fascista; fugimos e ele foi atingido nas costas, mas sem que 14e tivessem atingido nenhuma vértebra. Foi só na omoplata. Ainda canúnhou muito tempo, n~as por fim não pôde mais. E como não queria ficar só, matei-o. -Menos mal-assentiu El Sordo. 146 -Mas tu tens a certeza 4ç~ qu-c--té'n-s os nervos calmos?perguntou Pilar. -Claro. Estou certo do equilíbrio dos meus nervos e penso que quando terminarmos o assunto da ponte, o melhor que vocês têm a fazer é ir para os Gredos. Mal ouviu isso, Pilar rompeu numa avalancha de invectivas obscenas que rebentavam em cima dele e à sua volta como água quente e branca que salta súbitamente de uma caldeixa. O surdo meneava a cabeça para Jordan e sorria, deliciado. E continuou a balançar a cabeça, satisfeito, enquanto Pilar ia lançando os mais pesados insultos contra Jordan, o qual só viu naquilo uma coisa: que tudo ia bem. Finalmente, parou, pegou na bilha da água, bebeu um gole e com a maior calma disse: _ Então fazes o favor de engolir a tua opinião sobre o que devemos fazer depois da ponte, estás a ouvir, Inglês ? Volta para a República com a tua bisca de cabeça rapada e deixa-nos cá à vontade, para decidirmos como quisermos a nossa sorte, * escolha da montanha onde vamos morrer. -Ou viver- acrescentou El Sordo.-Acalma-te, Pilar. -Viver ou morrer-tornou ela.-Estou a ver muito bem * fim disto tudo. Gosto de ti, Inglês, mas trata de conservar essa boca fechada depois de teres concluído a tua missão da ponte. -Não meterei o bedelho, hão. -Mas meteste. Pega na tua preciosa porca pelada e volta para a República mas não feches a porta aos outros que não são estrangeiros e que já amavam a República quando tu ainda eras de mama. Enquanto falavam, Maria tinha voltado, subindo o atalho, e ouviu a última frase que Pilar berrara paxa Jordan. Maria sacudiu vivamente a cabeça olhando o seu amigo e agitou o dedo fazendo sinal de silêncio. Pilar viu o rapaz olhar para a rapariga e sorrir-lhe depois. Virou-se e continuou: -Pois é isso, disse porca e sustento-o. Ainda hão-de ir juntos paxa Valência enquanto nós comermos carne de bode nos Gredos. _ Sou uma porca, se assim o queres e te dá prazer-disse Maria. -E deve ser verdade, porque tu o dizes. Mas acalma-te, Pilar. Que te aconteceu? -Nada-respondeu Pilar, sentando-se no banco, com a voz já calma e sem a vibração metálica.-Eu não penso isso de ti, mas desejo tanto ir para a República! -Podemos ir todos-sugeriu Maria.


-Porque não?-apoiou jordan.-Porque não, já que os Gredos não te agradam? 147 El Sordo sorriu-lhe. - Veremos - disse Pilar j à acalmada. - Dá-me um bocado dessa bebida tão rara. Estraguei a garganta com a cólera. Veremos o que acontece. -Aí está, camarada-disse o surdo.-Amanhã é que é o difícil. Deixara de usax o espanhol telegráfico do começo e olhava Robert Jordan nos olhos, calmo e grave; sem inquietação, nem desconfiança, nem a chata superioridade de veterano que antes tinha usado. -Compreendo perfeitamente as necessidades e sei que os postos têm que ser inutilizados e a ponte tem que ser guardada enquanto preparas a explosão. Isso percebo eu perfeitamente. E tudo é fácil de ser executado antes da madrugada ou durante a madrugada. - Perfèitamente -murmurou Jordan. E para Maxia, sem a encaxar:-Afasta-te um minuto, sim? A rapariga afastou-se e sentou-se a pequena distância, com os tornozelos presos nas mãos enclavinhadas. -Nisso não há dificuldade -continuou El Sordo.-Mas a retirada depois e o sair da região com dia claxo é problema. muito sério. -Naturalmente - confirmou Jordan. -já pensei nesse ponto. Mas paxa mim a coisa também será em pleno dia. -Mas tu és um e nós somos muitos-objectou El Sordo. -Há também a possiblidade de voltarmos para a gruta e só saixmos à noite-lembrou Pilar, levando o copo aos lábios, mas sem beber. -Isso é muito arriscado -opinou El Sordo. -Talvez ainda seja mais perigoso. -Posso estudax a coisa-disse Robert Jordan. -Fazer saltax a ponte de noite seria uma coisa muito fácil.. Mas se tu queres que seja em pleno dia, as consequências poderão ser muito graves. -Sei disso. -Não seria possível fazer o serviço à noite? - Eu serei fuzilado se o fizer. -E é mais do que possível que sejamos todos fuzilados se o fizeres de dia. -Para mim tanto se me dá, uma vez que a ponte tenha ido pelos axes - disse Robert Jordan. Compreendo o teu ponto de vista. Mas não podes organizar, uma retirada diurna? -Poder, posso-respondeu El Sordo.-E vou organizá-la. Mas quero que saibas por que estamos irritados e preocupados. 148 Tu falas em irmos para os Gredos como se fosse uma manobra militar a ser realizada. Mas se chegarmos aos Gredos será um verdadeiro milagre. Robert Jordan não disse palavra. -Ouve-continuou o surdo.-Estamos a falax de mais, mas é necessário, paxa nos entendermos melhor. O facto de estarmos vivos já é um milagre. Milagre devido à preguiça e à estupidez- dos adversários, mas dentro em pouco eles vão mudar. E também verdade que temos sido muito prudentes e não temos feito distúrbios nestas montanhas. -Sei disso.


-Mas depois da explosão da ponte teremos que partir. E cumpre reflectir na maneira de o fazer. -Naturalmente. -Então-disse El Sordo-tratemos antes de mais, nada de comer. Já falei de mais. -Nunca te ouvi falar tanto - observou Pilar. - Será devido a isto?-e apontou para o copo. . -Não-volveu El Sordo.-Não é o whisky. E que nunca tive necessidade de falar tanto. -Aprecio o teu auxílio e a tua lealdade - declarou Jordan. -Reconheço a dificuldade criada pela hora a que a ponte deve explodir. -Não fales mais disso-rematou El Sordo.-Estamos aqui para fazer o que for possível. Mas que o caso é complicado, é. -E no papel não há nada mais singelo-disse Robert Jordan sorrindo.-No papel a ponte voa no momento de se iniciar o ataque, de modo a não permitir a passagem de reforços. Não há nada mais simples. -Então que deixem também fazer as coisas no papelpropôs El Sordo. - O papel não sangra -respondeu Robert Jordan citando o provérbio. - Mas é muito útil-disse Pilar.-Es muy util. E muito gostaria de me servir dos teus papéis para outras coisas! -Eu também -respondeu Jordan.-Mas assim nunca se ganharia uma guerra. -Isso é verdade. Acho que não. Mas sabes o que eu gostaria de fazer? -Ir para a República-disse El Sordo que colocara o ouvido bem junto da boca de Pilar, para a ouvir.-.ra ir4, mujer. Se vencermos esta guerra tudo será República. -Está bem-murmurou Püar.-E agora, pelo amor de Deus, vamos comer. 149 CAPITULO X11 DFpois da refeição deixaxam o antro de El Sordo e puseram-se a descer o atalho. El Sordo acompanhou-os até ao último posto. -Satud- exclamou. -Até logo à noite. -Salud, camarada -respondeu Jordan. E os -três visitantes partiram enquanto El Sordo, de pé, os acompanhava com os olhos. Maria voltou-se e acenou-lhe com a mão, fazeãdo-o responder com o gesto espanhol do antebraço, o gesto rápido que quer ser uma saudação, mas sugere mais o atirar de uma pedra. Durante toda a refeição não tinha desabotoado o casaco de pele de carneiro e mostrara-se extremamente polido, sempre atento em voltar-se para o ínterlocutor. Tinha recomeçado a falax com Jordan no seu espanhol simplista para o interrogar acerca da situação na República; mas era nítido que desejava ver-se livre dos visitantes. No momento de se separarem, Pilar dissera-lhe: -Que há, Santiago? -Nada, mulher-tinha respondido o surdo.-Cá me fico a pensar. -Eu também-tinha retrucado Pilar. E agora desciam pelo atalho, caminho fácil e agradável entre os pinheiros, o mesmo caminho que antes tinham subido penosamente. Pilar não dizia nada. Robert Jordan e Maria seguiam também calados, e os três caminhavam ràpidamente. O atalho, depois de ter cruzado o mato do vale, subia através do bosque para desembocar no alto coberto de prados. Fazia calor naquela tarde de Maio e a meio caminho da última subida a mulher parou. Robert


Jordan, que ia na frente, fez o mesmo e voltando-se viu-a com a testa alagada de suor 150 O seu rosto queimado parecia pálido, a pele embaciada e com grandes olheiras escuras. -Vamos descansar uns rninutos-propôs o rapaz.-Viemos muito depressa. -Não vale a pena. Continuemos. -Descansa, Pilar. Não estás com boa cara-disse Maria. -Cala-te. Ninguém pediu a tua- opu*u*ão. Pilar recomeçou a subir, mas no alto estava a arfar, alagada em suor e com a palidez ainda mais acentuada. -Senta-te, Pilar - pediu. Maria. - Faze-me esse favor, senta-te. -Está bem-respondeu ela; e sentou-se debaixo de um pinheiro, com os olhos presos nos picos que pareciam surgir das curvas dos vales, para além dos prados, cobertos de neve luzindo ao Sol naquele inicio de tarde. -Que porcaria é a neve e que bonita parece! -exclamou. -E que ilusão é!-E para Maria:-Peço-te perdão da núnha rudeza, guapa. Não sei que demónio se apoderou de mim. hoje. Hoje estou com um gênio dos diabos. -Nunca faço caso do que tu dizes quando estás zangada -respondeu Maria.-E tu zangas-te muitas vezes. -Não é zanga, é coisa pior-disse Pilar sempre com os olhos presos nas montanhas distantes. -Tu não estás boa, Pilar. -Também não é isso. Chega para aqui, guapa, e deita a cabeça no meu colo. Maria achegou-se a ela, estendeu os braços e cruzou-os como se costuma fazer para dormir sem travesseiro e deitou a cabeça no colo da mulher. Levantou o rosto para Pilar e sorriu-lhe, mas a mulher olhava para aléirj. do vale, para as montanhas. Acariciava a cabeça da rapariga, sem a olhar, deslizando um dedo pela testa, orelha e seguindo a linha dos cabelos puxados para a nuca. -Poderás tê-la daqui a pouco, higIés-disse para Robert Jordan, sentado atrás dela. -Não fales assim-implorou Maria. -Falo. Ele poderá possuir-te-e o dedo de Pilar, continuava a acariciar o rosto da rapariga.-Eu nunca tive inveja de ti. Mas estou muito ciumenta. -Pilar-disse Maria.-Não fales assim. -Ele poderá possuir-te - continuou Pilar afagando o lóbulo da orelha. da rapariga.-Mas estou muito ciumenta. -Mas, Pilar, foste tu que me disseste que nunca haveria nada disso entre nós. Ir Jr~ -Sempre há. Sempre há o que não deve haver. Mas comigo não. Na verdade, não. Quero apenas a tua felicidade, Maria e nada mais. . Maria nada disse e continuou com a cabeça no colo de Pilar, fazendo-se leve. -Ouve, guapa-e o dedo de Pilar desenhava os contornos das orelhas. -Eu gosto de ti e tu vais para ele, porém, não sou nenhuma tortillera, mas sim uma mulher feita para homens. Essa é a verdade. Hoje sinto prazer em dizer isto às claras, que gosto de ti. -Eu também gosto de ti, Pilar. - Quê va. Não digas asneiras. Tu nem sabes do que estou a falar. - Sim, sei.


- Q_ué va. Sabes nada. Tu és para o Inglês. E é o que deve ser. É o que eu queria. Nunca teria consentido noutra coisa. Não sou nenhuma pervertida e digo a verdade... Pouca gente te dirá a verdade e uma mulher nunca o fará. Mas estou com ciúmes, e digo que é assim. -Não o digas-disse Maxia.-Não o digas, Pilar. -Por quê, não o direi? -continuou a mulher ainda com os olhos longe.-Direi enquanto tiver vontade de o dizer. -E descendo os olhos para a rapariga:-mas chegou o momento e não quero. Não volto a dizê-lo, compreendes? -Pilar-implorou Maria.-Não fales assim. -Tu és uma encantadora coelhinha. E levanta a cabeça porque estas asneiras já passaram. -Não eram asneiras-disse Maria-e a minha cabeça está muito bem no teu colo. . -Mas não. Levanta-te. E as mãos grandalhonas de Pilar levantaram a cabeça de Maria.-E tu, Inglés?-disse ela ainda a segurar a cabeça da rapariga e olhando para as montanhas distantes.-Que gato comeu a tua língua? -Não foi gato. -Que animal foi então? -perguntou ao mesmo tempo que depunha a cabeça da rapariga no chão. -Não foi nenhum animal. -Queres dizer que engoliste? -É bem possível. gostas do sabor~-disse Pilar olhando-o e rindo-se. -Não muito. -Vejo que não. Mas devolvo-te a tua coelhinha. Que aliás nunca pensei em tirar-ta. Este nome fica-lhe muito bem. Ouv~_te chamar-lhe assim esta manhã. 152 Jordan corou. - Para uma mulher és muito dura. -Não-volveu Pilar. - Apenas complicada, apesar de simples. E tu, IngIés, és complicado? -Creio que não, ainda que não seja muito simples. -Gosto de ti, IngIés-disse Pilar, depois sorriu e balançou * corpo, abanando a cabeça.-E se eu fosse capaz de te tirar * coelhinha e tirar-te à coelhinha? -Não podes. - Sei que não posso, nem quero. Mas se eu fosse rapariga, podia. -Acredito. -Acreditas? -Oh, nem pareces a mesma hoje, Pilar-exclamou a rapariga. -Não pareço, não-assentiu, Pilar.-Hoje não me pareço nada comigo. A tua ponte, IngIés, dá-me dores de cabeça. -Podemos então chamá-la Ponte da Dor de Cabeça, mas mesmo assim hei-de atirá-la para o fundo do buraco, como uma gaiola espatifada. -óptimo i - exclamou Pilar. - Continua a falar assim. -Parti-la-ei a meio como se faz a uma banana descascada. - E que bem que comeria agora uma banana! Continua, Inglês, a falar assim enèrgicamente. -Basta.' Temos que prosseguir. -O teu dever!-volveu Pilar.-A hora chega depressa. Já disse que quero deixá-los sózinhos. -Não - murmurou Jordan. - Tenho muito que fazer.


-Mas isso também é muito e não consumirá muito tempo. -Fecha essa boca, Pilar - ralhou Maria. - Hoje estás muito grosseira. -Sou grosseira mas também sou muito delicada. Soy muy delícada. Vou deixá-los sózinhos. E aquela história de ciúmes é uma asneira. Eu estava aborrecida com o Joaquim porque pela carínha dele vi como estou feia. Tenho ciúme de ti porque tu tens dezanove anos, Maria, e é tudo. Não é um ciúme que dure muito tempo. Tu também em breve deixarás de ter dezanove anos. Agora vou-me embora. Pilar pôs-se de pé e, de mão na cintura, encarou Jordan, que também estava de pé. -Vamos todos juntos para o acampamento - propôs Jordan.-É o melhor que temos a fazer. 153 Pilar olhou para Maria ainda sentada e de cabeça baixa. Sorria quase imperceptivelmente e perguntou: -Sabem o caminho? -Eu sei-respondeu Maria, sem se mover. -Pues me voy-disse Pilar. - Arranj arei comida fortificante para ti, Inglês. Pilar pôs-se a caminho pelo campo, rumo ao riacho que ia ter ao acampamento. -Espera - gritou ainda Jordan. - O melhor é irmos todos juntos. Maria, sempre sentada, não interveio. Pilar não parou, mas respondeu: -Quê va, juntos! Até logo no acampamento! Jordan de pé, parecia indeciso. -Deixa-a ir-murmurou Maria, ainda de cabeça baixa. -Creio que devíamos ir com ela. -Deixa-a ir-disse Maria.-Deixa-a ir. 154 CAPlTULO XIII Am os dois através das urzes do prado. Robert sentia nas pernas o raspar das plantas, sentia o peso da pistola sobre a coxa, sentia o sol queimar-lhe a cabeça, sentia nas costas a frescura da brisa que descia dos montes cheios de neve e na sua mão sentia a mão robusta e firme da rapariga e os dedos entrelaçados. Daquele contacto, da palma daquela mão que se apoiava contra a sua, dos dedos entrelaçados e do pulso que tocava no seu, qualquer coisa vinha, desta mão, destes dedos e deste pulso, para si, qualquer coisa tão fresca como a frescura das brisas leves que perpassam sobre o espelho de um mar calmo, da leveza de uma pluma que roça pelo lábio, da delicadeza de uma folha que caí no ar parado; uma leve impressão, tão leve que só a sentia pela ponta dos dedos, mas tão exaltante, crescendo de tal maneira e tornando-se tão insistente, tão premente e tão urgente pela rude pressão dos seus dedos, das palmas das mãos e dos pulsos encostados um ao outro que o rapaz julgou sentir o apelo de uma corrente que lhe subia pelo braço e lhe tomava o corpo inteiro como um pungente desejo. O sol brilhava nos cabelos da rapariga, dourados como o trigo, e acendia o amorenado do seu rosto, liso e delicioso e a curva da garganta; Jordan então inclinou-lhe a cabeça para trás e beijou-a. Sentiu-a estremecer inteiramente tendo-a apertada contra si e sentia-lhe os seios através das duas blusas de caqui, sentia-os pequeninos e firmes, inclinou-se paxa desabotoar a camisa e beijá-los. Ela continuava


de pé, fremente, a cabeça caída para trás, amparada pelo braço que a rodeava. Baixou depois a cabeça para beijar os cabelos de Robert Jordan e depois ele sentiu Maria pegar4he na cabeça com as mãos para a esfregar contra a dela. Ele ergueu-se paxa a enlaçar com os dois braços, com tanta força que a levantou do chão; sentia-a estremecer e ela beijou-o no pescoço e o rapaz estendeu-a por terra murmurando: 155 - Maria, oh! Minha querida Maria. E perguntou: -Onde? Para onde vamos? Maria não respondeu mas estendeu a mão para a blusa para a desabotoar: -Tu também. Eu também te quero beijar. -Não, minha coelhinha. -Sim, sim. Tudo como tu. -Não. É impossível. -Oh, então, então. Oh! Então, Oh! Então surgiu o odor da erva esmagada. Maria sentiu a aspereza dos talos dobrados sob a cabeça e o sol brilhando sobre os seus olhos fechados. E ele levaria toda a vida a recordar-se de Maria, com a cabeça tombada entre as raízes das urzes, a curva da garganta e os lábios que fremiam ligeiramente e o palpitar dos cílios sobre os olhos fechados contra o sol, contra tudo. Para ela só havia vermelho, laranja, o ouro vermelho do sol sobre os seus olhos fechados, e tudo era da mesma cor, tudo, a plenitude, a posse, a alegria, tudo era da mesma cor, tudo brilhava no mesmo tom. Para ele foi um caminho sombrio que não levava a nada, sempre a nada, ainda e sempre a nada, e outra vez a nada, sem fim, nunca a nada. Apoiado sobre os cotovelos para nada, caminho sombrio e sem fim, suspenso todo o tempo sobre um nada sem solução, esta vez e outra vez ainda, sempre para nada, entretanto, ah! não poder renascer outra vez para nada e entretanto, para além de tudo o que se pode suportar, mais alto, mais alto, mais alto e para nada. De súbito, deslumbramento, beatitude, tudo o que era sombrio e negativo desapareceu, o tempo absolutamente imóvel; estavam os dois juntos, o tempo suspenso e sentia a terra estremecer e esvair-se sob os seus corpos. Mais tarde, deitado de lado, a cabeça enterrada nas ervas. Respiravam e o odor das raízes, da terra e do sol misturavam-se, o sol batia nos seus ombros e nos flancos e a rapariga estava deitada junto dele, de olhos ainda fechados; mas aqueles olhos abriram-se e ela sorria. E ele disse, muito baixo e com uma voz muito lassa e como de uma grande distância e ao mesmo tempo de muito perto: -Olá, coelhinha. E ela sorriu e de muito perto respondeu: -Olá, meu Inglês. -Não sou IngIés-emendou Jordan molemente. - Oh, sim, és - teimou Maria. - És o meu Inglês - e agarrando-o pelas duas orelhas, beijou-o na testa. 156 -Toma lá! Que te parece? Já sei beijar melhor?


Depois ergueram-se e puseram-se a caminhar de mãos dadas pela beira do ribeiro. -Maria-disse ele-tu és tão encantadora e tão maravilhosa e tão linda e sinto tais coisas quando estou contigo, que tenho a impressão de que vou morrer. -Oh!-exclamou Maria.-Eu morro de cada vez. Tu não morres também? -Não. Mas quase. Sentes a terra mover-se? -Sim, quando morro. Põe o braço à minha volta, por favor. -Não, a tua mão já chega.-Jordan tinha os olhos na encosta, onde um gavião caçava e nas grandes nuvens pairando sobre as montanhas. -E não sentes o mesmo com as outras? -perguntou Maria, sempre a segurar-lhe a mão enquanto andava. -Não, E verdade. -já amaste muitas outras? -Algumas. Mas nunca como a ti. -E não era assim? De verdade? -Era um prazer, mas não era nada que se comparasse. -Então a terra não se movia? A terra moveu-se alguma vez com as outras? -Não. É verdade, nunca. -Ai-suspirou Maria.-E isto é só por um dia. Jordan não disse nada. -Mas tivemo-lo, afinal, ao tesouro, em todo o caso -afirmou ela.-E gostas de mim? Dou-te prazer? Mais tarde o meu aspecto melhorará. -Tu já és bonita, Maria. -Não sou. Mas passa a mão pela núnha cabeça. Os dedos de jordan correram sobre aqueles pobres cabelos cortados, sentindo-os baixar para logo se eriçarem. Depois, tomando-lhe a cabeça nas duas mãos, beijou-a. -Gosto muito de beijar, mas ainda não sei bem-disse ela. -Tu não tens necessidade de beijar. -Tenho, sim. Se vou ser tua mulher, tenho que te agradar de todas as maneiras. -já me 'agradas bastante. Não podes agradar-me mais. A vida não dá mais do que isto. -Havemos de ver-murmurou Maria cheia de felicidade. -O meu cabelo diverte-te porque é esquisito. Mas está a crescer dia a dia. Acabará por ficar comprido e então já não parecerei feia e tu vais amar-me ainda mais. -Esse corpo é lindo, Maria. É o mais belo do mundo. -Não. É apenas jovem e esbelto. -Num corpo belo há magia. Não sei explicar o que existe num e não existe num outro. Mas no teu corpo existe magia. - Para ti, meu amor. -Não. -Para ti e só para ti, e para ti eternamente. Mas é pouco o, que eu dou. Quero aprender a tratar do meu amor. Mas diz-me a verdade. A terra nunca se moveu com as outras? -Nunca-declarou Jordan com sinceridade. -Oh, como isso me faz feliz. Agora sinto-me verdadeiramente feliz. Estás a pensar em qualquer outra coisa agora? -Sim. No meu trabalho. -Eu desejava que tivéssemos aqui cavalos para montar, -lembrou a rapariga.-Na minha felicidade, eu gostaria de cavalgar num bom cavalo e galopar contigo, cada vez com mais velocidade,


sempre, sempre, de modo a que a minha felicidade não acabasse nunca. -Podemos levar essa felicidade num avião, Maria-disse Jordan já com o pensamento distante. -E voar paxa cima e para baixo, cada vez mais para cima, como esses aviõezinhos que brilham ao sol. E girar e voltar a girar em voltas e mergulhos, que bueno!-e ela riu-se. -A minha felicidade nem daria por isso. -A tua felicidade tem bom estômago -murmurou Jordan. que estava longe do que ela dizia. Porque ele já não estava ali. Estava ao lado dela mas com o espírito a remoer o problema da ponte, e tudo se f" nítido como numa objectiva fotográfica bem- focada. Jordan viu os dois postos, com o Anselmo e o cigano de vigília. Viu o ponto onde colocar as duas armas automáticas de modo a conseguir o mais amplo campo de tiro. E quem as manejaria? Eu no fim, pensava ele, mas no começo quem? Colocava as cargas, equilibrava-as e prendia-as, desenrolava e prendia os fios, e voltava ao lugar onde tinha colocado a velha caixa do detonador; e começou a pensar em todas as hipóteses possíveis de insucesso. Pára com isso! -ralhou consigo mesmo. Tu fizes;te amor com aquela rapariga e estás agora com a cabeça fresca, com as ideias claras e começas a inquietar-te. Sabes perfeitamente o que tens a fazer e sabes o que pode acontecer, e certamente acontecerá. Entraste nisto porque sabias no que entravas. A gente bate-se e faz o que é preciso fazer para vencer. 158 E era agora compelido a servir-se de pessoas de quem gostava, como se serviria de tropas desconhecidas com as quais, se queremos triunfar, é preciso não ter o menor sentimento. Evidentemente era Pablo o mais esperto. Pablo vira de pronto as consequências. A mulher tinha sido desde início a favor da coisa, ainda o era, mas a compreensão do que na verdade aquilo era fora-a minando pouco a pouco e estava agora notàvelmente mudada. El Sordo também adivinhara as consequências mas estava disposto a agir, apesar da coisa não lhe agradar, como também não lhe agradava a ele, Robert Jordan. Mas dizes tu que não é o que pode acontecer-te pessoalmente que te preocupa, mas o que pode acontecer à mulher, à rapariga e aos outros? Seja. Mas que lhes aconteceria se não tivesses aparecido? Impossível pensar assim. Tu não tens qualquer responsabilidade por eles durante a acção. As ordens não são tuas. As ordens são de Golz. E quem é Golz? Um bom general. O melhor de quantos conheceste. Mas pode um homem executar ordens impossíveis, quando sabe o resultado a que conduzirão? Sim. Devia executá-las, porque é a única maneira de poder provar a sua impossibilidade. Como verificar isso antes da prova? Se cada um se pusesse a dizer que as ordens não poderiam ser executadas, aonde- iríamos parar ? Que seria de todos nós, se respondêssemos «impossível» ao recebermos ordens? Estava farto de ver chefes para os quais todas as ordens eram de impossível execução. Aquele porealhão do Gomez, na Estremadura. Quantos ataques em que os flancos não avançavam porque era impossível? Não, ele executaria as ordens, embora tivesse a infelicidade de gostar das pessoas de quem tinha de servir-se e iria sacrificar. Todos os trabalhos que os partizans tinham feito sempre haviam dado azar e sempre pioraram a situação dos que os acolhiam e auxiliavam. E para quê? Para que, no fim de contas, o país se visse livre de todos os males e se tomasse um lugar agradável para viver. Era verdade, por mais banal que isso pudesse parecer. Se a República se desmoronasse tornar-se-ia impossível para os que nela acreditavam viver em


Espanha. Mas seria assim? Era, estava certo disso pelo que sabia que vinha acontecendo nas zonas onde os fascistas já dominavam. Pablo era um porco, mas os outros eram gente espantosa e não seria traição arrastá-los para aquele trabalho? Talvez. Mas se eles não o fizessem, dois esquadrões de cavalaria viriam ;. 159 dentro em pouco caçá-los naquelas montanhas, dentro de uma semana talvez. Não. Não havia nada a ganhar em deixá-los em paz. A menos que toda a gente fosse deixada em paz e ninguém se metesse com o próximo. Então tu acreditas verdadeiramente que o ideal é deixar toda a gente tranquila? Sim, acreditava em tal. Mas então a sociedade organizada e tudo o mais? Isso competia aos outros. Ele tinha mais que fazer, terminada a guerra. Ele combatia naquela guerra porque a luta irrompera num país que ele amava e porque acreditava na República, e se a República fosse destruída a vida tornar-se-ia impossível para os que acreditavam nela. Estava sob o comando comunista enquanto durassem as operações. Aqui, em Espanha, eram os comunistas que revelavam a melhor disciplina, a mais razoável e a mais sã porque, na condução da guerra, eram o único partido cujo programa e disciplina lhe inspiravam respeito. Mas que opiniões políticas eram então as suas? Não tinha nenhuma de momento. Mas não iria dizer isso a ninguém. Nunca. E que vais fazer depois? Voltar ao meu país para ganhar a vida a ensinar o espanhol, como dantes e escrever um livro verdadeiro. Tenho a impressão, sonhava ele, tenho a impressão de que me será fácil. Teria que conversar com Pablo sobre política. Seria muito interessante conhecer-lhe a evolução mental. O clássico movimento da esquerda para a direita, provàvelmente; como o velho Lerroux. Pablo tinha muitos pontos de contacto com Lerroux. E Prieto não valia mais. Pablo e Prieto tinham a mesma confiança na vitória final e na política dos ladrões de cavalos. Ele acreditava na República como forma de governo, mas a República teria que libertar-se de toda esta cambada de ladrões de cavalos que a levaram ao ponto em que estava quando a revolução começou. Teria havido um povo em que os dirigentes fossem tão inimigos do povo como acontecia em Espanha? Inimigos do povo. Aqui estava uma expressão que poderia dispensar, um lugar-comum que era preciso abandonar. E isto era o resultado de ter dormido com Maria. As suas ideias políticas tinham-se tornado, desde há algum tempo, tão estreitas e coriffirmistas como as de um velho fanático, e expressões como «inimigos do povo» ocorriam-lhe ao espírito naturalmente, sem se dar ao cuidado de as examinar. Toda a espécie de chavões revolucionários e patrióticos. Empregava-as a torto e a direito. E certo que eram verdadeiras, mas eram um hábito muito fácil. Todavia, depois da última noite e da tarde, tinha o espírito 160 mais claro e mais preciso para analisar os temas. Para ser fanático é preciso a certeza absoluta de ter razão, e apenas a continência dá esta certeza, o sentimento de ter razão. A continência é inimiga da heresia. Resistiriam estas premissas a um exame sério? Era talvez a razão dos esquerdistas atacarem tanto a boémia. Quando se está bêbedo, ou quando se cometeu o pecado da carne ou o adultério, reconhece-se a falibilidade pessoal até diante desse credo dos apóstolos que é a linha do partido. Abaixo com a boémia, o pecado de Mayakovsky. Mas Mayakovsky estava de novo modificado paxa santo. Porque estava morto e enterrado,


entenda-se. Tu também, tu também serás morto e enterrado um destes dias, dizia a si próprio. Agora, basta! Pensa em Maria. Maxia corroera sèriamente o seu fanatismo. Até aqui ela não tinha afectado a sua resolução, mas a verdade é que preferia não morrer. Renunciava de boa vontade, desistiria de acabar como um herói ou como um mártir. Não aspirava às Termópilas, nem desejava ser o Horatius de alguma ponte, nem o rapazinho holandês, com o dedo no buraco do dique. Gostaria de continuar ainda muito tempo, uma eternidade, com ela. Não acreditava que existisse para ele «eternidade» na terra, mas se a houvesse, gostaria de a viver com ela. Poderíamos ir para o hotel e fazer o registo como Sr. e Sr.a Livingstone. Porque não?-pensava ele. Porque não casar com ela? Certamente, pensava ele. Casarei com ela. Então seremos o sr. e a sr.a Robert Jordan, de Sun Valley, Idaho. Ou ainda Corpus Christi, Texas; ou Butte, Montana. As espanholas são óptimas esposas. Eu nunca tive nenhuma e é por isso que o sei. E quando voltar ao meu emprego na universidade, ela poderá ser uma óptima esposa de um professor, e quando os alunos de espanhol vierem fumar os seus cachimbos à noite e debater Quevcdo, Lope de Vega, Galdós e outros adruiráveis mortos, Maria poderá contar-lhes como alguns dos cruzados da verdadeira fé, de camisas azuis, se sentaram sobre a sua cabeça, enquanto outros a amordaçaram, enquanto outros lhe torciam os braços e lhe arrancavam as saias para a amordaçarem com elas. Pergunto-me qual será a impressão que fará Maxia em Missoula, Montana? Isto admitindo que eu consiga um emprego em Missoula. Imagino que tenho lá a classificação de Vermelho e fui incluído na lista negra. Apesar de que a I I -S. D. 161 gente nunca sabe. Nunca se pode dizer. Eles não terão provas do que fiz e, se eu lhes contar, não me acreditarão. Além de que o meu passaporte para a Espanha era válido antes das restrições. Mas não se pode pensar no regresso antes do Outono de trinta e sete. Eu parti no Verão de trinta e seis e a licença é p?r um ano; não há, portanto, urgência em voltar antes deexpirado o prazo no ano que vem. Há ainda muito tempo daqui ao trimestre do Ou-tono. Há muito tempo entre hoje e amanhã, enquanto aqui estás. Não creio que tenhas que te preocupar com a universidade. Basta que tu chegues lá no Outono e tudo irá bem. Trata de estar lá nessa altura. Mas a minha vida tem sido muito estranha nestes últimos tempos. Lá isso é verdade! A Espanha era o teu campo de acção, a tua profissão, é portanto natural que estejas na Espanha. Trabalhaste muitos Effios em projectos de construções, e nos serviços florest* e fazer estradas. Aprendeste então a trab,alhow com a pólvora, portanto as destruições são também um campo natural de acção paro, ti. Sempre um pouco precipitado, mas normal. Uma vez aceita a ideia de demolição como um problema, a coisa não passa disso. Mas as destruições possuem muitos pormenores que as tornam muito complicadas se bem que, Deus é testemunha, se tomem os pormenores pouco em consideração. Havia, dizia ele, o esforço constante para conseguir as melhores condições do assassínio lucrativo que devia acompanhar as destruições. Será que os rótulos imponentes tornam os actos mais desculpáveis? Tornavam a matança mais agradável? Tu aceitaste isso um tanto levianamente, deixa que te diga, prosseguia ele. E o que será de ti,, ou melhor, qual será a tua situação quando deixares o serviço da República? Parece-me, continuava ele, extremamente problemático. Mas penso que te libertarás de todas estas recordações lançando-as no papel. Tens um belo livro a escrever, se o conseguires.


Bem melhor que o outro. Mas entrementes, toda a vida que tu tens, que nunca terás, resume-se em hoje, esta noite, amanhã, hoje, esta noite, amanhã e assim sucessivamente. Esperemo-lo. Tu farás, portanto, melhor em aproveitar o tempo que tens e dar-te por muito feliz. E se a ponte caminha mal?... De momento não parece lá muito bem. Mas Maria fez-te bem. Não é assim? OM O bem que ela te fez, pensava ele. Aí está, talvez, o que a vida me reserva. Talvez represente a minha vida e em vez de vivê-Ia em setenta 162 anos eu a tenha vivido em quarenta e oito horas, ou em setenta e duas horas. A vinte e quatro horas por dia, três dias são setenta e duas horas. Deve ser possível, penso eu, viver plenamente a vida-em_ setenta horas tanto como em setenta anos... desde que a vida esteja bem vivida até ao momento em que se iniciam as setenta e duas horas e se tenha uma idade razoável. Tolice!-pensava ele. Que tolice o começares a pensar SI ozinho. E uma verdadeira tolice. E talvez não seja uma tolice tão grande como isso, apesar de tudo. Eli! Coisa que se veria. A última vez que dormi com uma rapariga foi em Madrid. Não, no Escurial. Acordei durante a noite e pensei que se tratava de uma outra e emocionei-me- até ao momento em que reconheci o meu erro. Em suma, dessa vez o que fiz foi remexer as cinzas. Mas à 'atte isso a noite não foi desagradável. A vez p anterior, foi em Madrid. Mas menti-me e durante as folganças iludi-me voluntàriamente acerca da identidade da minha companheira. Enfim, sempre a mesma história. De modo que n5.o sou urn romântico glorificador das mulheres espanholas e nunca pensei em nenhuma delas senão como um instrumento ocasional, agradável, e o mesmo em todos os países. Mas quando estou com Maria, amo-a de tal maneira que tenho literalmente a impressão de morrer. Coisa que nunca imaginei que me pudesse suceder. Portanto a vida pode resumir setenta anos em Setenta horas; agora tenho este tesou~o e tenho a sorte de o poder avaliar inteiramente. Se não há «por muito tempo», nem para «o resto da nossa vida», nem «de hoje em diante», mas apenas existe «agora», pois bem, é ao momento presente que é preciso dar graças e sinto-me feliz. Agora, ahora, maintenant, heute. Now, agora, uma palavra muito engraçada para exprimir todo um mundo e toda uma vida. Esta noite. Esta noche, to-night, ce soir, heute abend. Vida e mulher. Vie et mari. Não, não ligam bem; há também Now e Frau, mas também não provam nada. Vamos ver agora morto: mort,. muerto, dead e todt. Todt é destas três palavras a que melhor exprime a ideia da morte. War, guerre, guerra e krieg. Não é krieg que dá mais nitidamente a ideia de guerra? Ou será -apenas por saber menos o alemão que as outras línguas,? Querida? Sweetheart, chérie, prenda e schatz. Palavras que trocaria por «Maria». Isto é que é um nome. Bom, neste momento todos devem estar a trabalhar e não deve demorar muito agora. É verdade que a ponte tem cada vez pior aspecto. A ponte não pode ir a bom fim feita de 103 manhã. Situação terrível esta de ter que aguentar as posições até vir a noitinha para as abandonar. Tenta-se durar pelo menos até à noite. Tudo vai bem, desde que se consiga alcançar a noite, para


depois desaparecer. Mas que acontecerá se eu resolver agir à luz do Sol? E aquele pobre-diabo do El Sordo, abandonando a sua gíria telegráfica para me explicar cuidadosamente o perigo. Como se ele não tivesse pensado naqueles pontos, desde a noite passada e não os sentisse pesar-lhe como um pedaço de bolo de farinha mal digerida que pesa continuamente na boca do estômago. Que caso! Caminha-se a vida inteira com uma ideia, certo de que ela significa alguma coisa e por fim verifica-se que ela não significa nada. Acredita-se numa coisa que nunca se conhecerá bem. E depois, num negócio tão porco como este de coordenar dois bandos de guerrilhas para vos ajudar na explosão de uma ponte em condições impossíveis, para fazer abortar uma contra-ofensiva que muito provàvelmente já começou, é que se conhece uma mulher como Maria. O caso é este. Foi tudo um pouco tarde, eis tudo. 1 Uma mulher como Pilar pràticamente te mete a rapariga na cama. E qual foi o resultado? Sim, que aconteceu? Dize-me o que aconteceu, por favor. Pois foi isso. Foi exactamente isso mesmo... Tu mentes a ti mesmo quando pretendes que foi a Pilar quem meteu a rapariga no teu saco de campanha. Não tentes negar e envilecer tudo. Ficaste preso desde que viste a Maria. A primeira vez que ela abriu a boca paxa te falar já tudo tinha acontecido e tu bem o sabes. Agora que o tens, ao teu tesouro, não é razão para dizeres que nunca admitiste semelhante hipótese e tentas menosprezá-lo. Sabes bem que o tens, e isto desde o primeiro minuto em que pousaste os olhos em Maria, quando ela apareceu curvada ao peso do prato de ferro do jantar. Foste logo atingido e se o reconheces, para que mentes? Sentias-te atrapalhado cada vez que olhavas para ela e cada vez que ela te olhava. Se foi assim, paxa que o negas? Está bem, não nego. Quanto à Pilar tê-la metido na minha cama, o que Pilar fez foi agir como mulher de juízo. Era ela quem tomava conta da rapariga e desde o instante em que a rapariga voltou à gruta com o prato de ferro, compreendeu o que ia acontecer. Então facilitou as coisas para que Maria aproveitasse a noite e esta tarde. Ela é mais civilizada do que tu e sabe o valor do tempo. Sim, de facto tenho que concordar que ela tem uma 164 noção muito exacta do tempo. Tomou a iniciativa para que nós não perdêssemos o que ela perdera. E a recordação do que tinha perdido era muito amarga; quis voltar atrás, perto do ribeiro, mas penso que não a conseguimos ajudar em nada. E aqui está o que acontece e o que aconteceu; e farás melhor em admiti-lo. Não terás mais duas noites inteiras para passar ~om ela. já não falo de toda uma existência, nem de viverem juntos, de nada do que todos se consideram com direito a ter, nada disso. Apenas uma noite que se foi, uma tarde e a noite que vem, talvez. Nem tempo, nem felicidade, nem brincadeiras, nem filhos, nem casa, nem quarto de banho, nem pijama lavado, nemjornal. da manhã, nem o acordarem juntos, nem o despertar sabendo que ela está ali e de que não se está só. Não. Nada disso. Mas porquê, se é tudo o que terias da vida que desejas, já que a encontraste, porque não um4 noite, uma única noite, numa cama com lençóis?--Pedes o impossível. Pedes mesmo o impossível. Se real-----~nente amas essa rapariga como dizes, será melhor que a ames intensamente de modo a ganhar em força o que faltará em duração e continuidade. Percebes? Outrora, as pessoas dispunham de uma vida inteira. E agora que a encontraste, se tiveres ainda duas noites deves até espantar-te com tanta sorte. Duas noites. Duas noites para amares, para te enterneceres. Para o melhor e para o pior. Na doença e na morte. Não, enganei-me; na doença e na -saúde. Até que a morte nos separe. Em duas noites. Mais que


provàvelmente. Mais que provàvelmente e agora deixa-te destes pensamentos. Muda de ideias. Estas coisas não te fazem bem. Não faças nada do que não te faz bem. E isto não faz, com certeza. Fora isso que Golz dera a entender. Quanto mais raciocinava, mais hábil lhe parecia aquele Golz. Era então a isso que se referia quando falava das compensaçoes do serviço irregular? Golz também o tinha conhecido, e eram a precipitação e 4 falta de tempo e as circunstâncias que lhe davam origem?~ Seria o que tocava a todos os incumbidos de missões semelhantes à sua? Ou pensava nisso agora por ser a ele que acontecia? Teria também Golz vivido assim quando comandava a cavalaria irregular do Exército Vermelho, e a combinação das circunstâncias e tudo o mais teria feito que as raparigas tivessem para Golz tudo o que estava em Maria? Provàvelmente Golz tinha passado por aquilo e desejava insinuar que temos que viver a vida inteira em duas noites apenas; quando se vive como agora vivo é preciso concentrar 165 tudo o que se poderia tcr no curto espaço de tempo de que se pode dispor. O sistema era bom. Mas não podia acreditar que Maria fosse apenas um produto das circunstâncias. A não ser, está claro, que fosse uma reacção mútua das circunstâncias de ambos. E as circunstâncias em que Maria se encontra não #ão boas. Não são boas. Se era assim, bem, era assim. Mas que lei me obriga a aceitar isto? E nunca pensei que pudesse sentir o que estou agora a sentir. Nem que isso me pudesse acontecer. E gostaria de prolongá-lo por toda a vida. Tê-lo-ás, dizia-lhe a outra parte do seu ser. Tê-lo-ás. Tem-lo agora, e é toda a tua vida, entretanto. Não há outerri, certamente, nem amanhã. Que idade parecias tu ter antes de saberes isto? Bem, dois dias são a tua vida e tudo o mais será na mesma proporção. É assim que se vive uma vida inteira em dois dias. E se te deixas de lamentações e de pedir o impossível, terás uma bela vida. Uma grande vida não se mede em idades bíblicas. Então por agora não te rales mais, aproveita o que te aparece e faz o teu trabalho e terás uma vida longa e muito feliz. Não tens sido feliz últimamente? De que te queixas tu? É tudo assim como o teu gênero de trabalho, disse a si próprio e a ideia agradou-lhe. Não é tanto o que se aprende, mas as pessoas que se encontram. Estava contente porque brincava e voltou a interessar-se pela rapariga. -Amo-te, coelÉnha-disse-lhe. -Que estavas tu a dizer? -Estava a dizer que não tens que preocupar-te com o teu trabalho, porque não te incomodarei em nada e não te maçarei. E se houver qualquer coisa que eu pqssa fazer é só dizer. -Não é preciso nada-disse ele.-E uma coisa muito simples. -Hei-de aprender com Pilar o que é preciso fazer para tratar bem de um homem e fá-lo-ei-disse Maria.-Depois à medida que for aprendendo, descobrirei outras coisas por mim própria e outras que tu me possas ensinar. -Não há nada a fazer. - Quê va, hombre, não há nada! A roupa da cama desta noite devia ter sido sacudida e arejada hoje de manhã e posta ao Sol. Depois, , antes de começar a orvalhar, deve ser colhida. -Continua, minha coelhinha. -As meias devem ser lavadas e secas. Tenho que providenciar para que tenhas dois pares. -E que mais, coelhinha? -Se me ensinares posso limpar e olear a pistola.


166 -Um beijo, coelhinha. -Nada, agora estou a falar a sério. Vais ensinar-me a tratar da pistola. Pilar tem farrapos velhos e azeite. Dentro da gruta há uma vareta que deve servir. -Pois claro que ensino. - Depois- continuou Maria-vais ensinar-me a atirar; qualquer um de nós pode mataç lo outro e depois a si próprio, se um for ferido e tiver que evitar a captura. -Interessantíssimo! - exclamou Jordan. - Tens muitas ideias como esta? -Muitas não. Mas esta é boa. Pilar deu-me isto~ e ensinou-me a usá,la-e abrindo o bolso do peito da blusa tirou um estojo de couro com uma navalha de barbear tipo Gem. Eu ando sempre com ela. Pilar disse-me: «-Deves dar o golpe aqui atrás da orelha, até aqui.» E mostrou o lugar com o dedo.J)isse que é uma artéria grande e que puxando a navalha desde aqui não se erra. Fez o gesto com o dedo. Disse também que não dói, que basta apoiar a navalha com força atrás da orelha e puxar para baixo. Disse que não é nada e que depois de dado o golpe eles não podem estancar o sangue. -É verdade - disse Robert Jordan. - Essa artéria é a _carótida. Estou a ver que ela admite este plano como coisa prevista e definitivamente resolvida, pensou ele. -Mas eu preferia que tu me matasses - disse Maria. -Promete que me matarás se for necessário. -Pois bem. Prometo. -Qbrigada! Bem sei que não é fácil. -E difícil, mas está prometido. Esquecemos tudo isto, pensou. Esquecemos as belezas da guerra civil, quando pensamos continuamente na missão. Esquece-te de facto. Hem! É o que se precisa. Kachkine não o conseguia esquecer e foi o que lhe estragou o trabalho. Nunca te pareceu que ele estava perturbado? A Jordan sempre pareceu estranho não ter experimentado qualquer sensação ao disparar sobre Kachkine. Esperou que a emoção viesse mais tarde, mas o tempo passava e a emoção não chegava. -Ainda há outras coisas que eu posso fazer-continuou Maria, caminhando ao lado dele, muito séria e feminina. -Além de te matares? -Sim. Posso fazer cigarros, quando se acabarem esses dos maços. Pilar ensinou-me a fazê-los muito bem, apertadinhos e lisos, sem rebarbas. 1-67 -Excelente. Também os colas com a língua? -Também - respondeu a rapariga - e se fores ferido hei-de tratar-te, farei os curativos, lavo-te e dou-te de comer. -Talvez eu não seja ferido. -Então se estiveres doente tratarei de ti, farei a sopa, lavo-te, farei tudo que fizer falta. E leio-te. -Talvez eu não adoeça. -Então tratarei do café de manhãzinha, quando acordares.. * ' -Talvez eu não goste de café. -Mas gostas -respondeu alegremente a raparíga.-Hoje de manhã bebeste duas tigelas.


-Supõe que me aborreço do café e que não precisas dar-me tiros e que eu não sou ferido, nem adoeço e que deixo de fumar e fico só com um par de meias e trate eu mesmo de 4rejar o cobertor. Como vai ser, coelhinha? -disse ele batendolhe nas costas.-Que farás tu? -Que farei? Peço as tesouras de PiJar e corto-te esse cabelo. -Não gosto que me cortem o cabelo, coelhinha. -Nem eu! Gosto do teu cabelo como está, assim. Se eu não tiver nada que fazer sento-me perto de ti e olho e espero que a noite chegue para estar contigo. -Bem-disse Jordan-esta última parte do programa agrada-me. -E então a mim?-disse Maria sorrindo.-Oh Inglês! - O meu nome é Roberto. -Nada disso. Para mim és o IngIés, como diz a Pilar. -No entanto, chamo-me Roberto. -Não. Hoje durante o dia todo vou dizer IngIés. Ouve, IngUs, posso ajudar-te no teu trabalho? -Não. O que estou agora a fazer é sózinho, e é tudo dentro da minha cabeça. -Está bem. E quando acabas esse trabalho? -Esta noite, se estiver com sorte. ~- Está bem. Na sua frente tinham o último bosque que conduzia ao acampamento. -Quem é? - perguntou Robert Jordan estendendo a mão. Na extremidade inferior do prado, onde se erguiam as primeiras árvores, a mulher estava sentada, com a cabeça apoiada nos braços. Vista 'a distância parecia uma trouxa escura, contra o castanho do tronco da árvore. i6~ -Vamos-disse Robert Jordan. --e começou a correr em direcção à mulher. Mas como os tojos lhe davam pelo joelho a marcha era difícil. A certa altura cansou-se e começou a andar a passo. A mulher apoiava a cabeça nos braços cruzados e surgia grande e nfgra contra o tronco da árvore. Chegando perto, gritou: -Pilar! -em voz forte. A mulher levantou a cabeça e olhou para ele. -Ah! já acabaram? -Sentes-te mal?-perguntou Jordan debruçando-se sobre ela. -Quê va! Estava a dormir. -Pilar! -exclamou Maria que ao chegar se ajoelhara a seu lado.-Como vais? Sentes alguma coisa? -Estou bem-respondeu Pilar sem se levantar, e olhou para os dois.-Então, Inglês, muitas proezas novas? -Sentes-te melhor? -indagou Jordan como se não tivesse ouvido. -Claro. Dormi. E tu fizeste o mesmo? -Não. -Está bcm-disse Pilar. E voltando-se para a rapariga: -pareces satisfeita! Maria corou e calou-se. -Deixa-a em paz, -Pilar. -Ninguém falou contigo. Maria!-chamou Pilar com voz dura. A rapariga não respondeu. -Maria, eu disse que tu parecia satisfeita. -Oli deixa-a sossegada -repetiu Jordan. -Cala a boca-disse Pilar sem o olhar.-Ouve, Maria, kdiz-me qualquer coisa.-


-Não-exclamou Maria abanando a cabeça. Robert Jordan. pensou: se eu não tivesse que trabalhar com esta criatura e com mais o bêbedo do homem dela e todo o seu bando, dava-lhe agora uma tamanha bofetada... -Vamos, conta-dizia Pilar à rapariga. -Não. Não. -Deixa-a em paz-tornou Robert Jordan com a voz já alterada; e lá consigo pensou: vou esbofeteá-la apesar de tudo, não há que ver. Pilar não lhe deu atenção. Robert Jordan não tinha a impressão de se encontrar diate de uma serpente fascinando um pássaro, nem mesmo de um gato a observar outro pássaro. Não conseguia descobrir nem perfídia, nem perversidade. Mas tinha a impressão de ver expandir-se uma cabeça de cobra capelo. Essa expansão era o que ele sentia. E discernia 169 a ameaça. Todavia esta expansão parecia guiada mais por um instinto de descoberta que pelo desejo de fazer mal. Gostaria mais de não estar a ver isto, pensava Robert Jordan. Mas isto nem sequer merece a bofetada. -Maria-insistiu Pilar.-Não --te tocarei. Mas conta de tua própria vontade. De tu propria voluntad, tais eram as palavras espanholas. A rapariga sacudiu a cabeça. -Maria-tornou Pilar.-Diz e de tua própria vontade. Estás a ouvir? O que quiseres. -Não-murmurou Maria docemente.-Não e não. Hás-de dizer-me tudo e tudo. Hás-de dizer. Vamos. Como foi? -A terra moveu-se-conI~ssou afinal Maria sem ergueros olhos.-De verdade. Foi uma coisa que não sei explicar. -Sim-e a voz de Pilar tornou-se quente e amiga e não havia nada de forçado na sua expressão; mas Robert Jordan atentou ' em pequeninas gotas de suor que lhe apareciam na testa e no buço.-Ah! A terra moveu-se. Então foi isso. -É verdade -reafirmou Maria mordendo o lábio. -Sem dúvida que é verdade-disse a mulher com ternura.-Mas não o contes a ninguém, nem à tua gente, que ninguém acreditará. Tu não tens sangue Calé, Inglés? Pilar pôs-se de pé, ajudada pelo rapaz. -Não que eu saiba -respondeu ele. -Maria também não, pelo que sabe-disse Pilar.-Pues es muy raro. É muito raro. -Pois foi o que aconteceu, Pilar. -Como que no, hUa? Porque não, minha. filha? Quando eu era rapariga, a terra movia-se tanto que a sentia deslizar no espaço e tinha receio que ela desaparecesse debaixo de mim. E isso acontecia todas as noites. -Estás a mentir, Pilar. -Sim, estou. A terra não se move mais de três vezes na vida. Mas moveu-se de facto? -Sim, de verdade. -E para ti, Inglés?-P.,Iar olhava para Robert Jordan. -Dize a verdade. Não mintas. -Também. De verdade. -óptimo, óptimo! -exclamou Pilar.-Já é alguma coisa. -Que queres tu dizer com as três vezes? -perguntou Maria.-Porque dizes tu isso? -Quero dizer três vezes. E tu já tens uma.


-Mas são só três vezes? 170 -E para a maior parte das pessoas, nem uma-.,~E"stás 1 M-e-s- . mo certa de que a terra se moveu? -Quase caímos-disse Maria. -Isso mesmo... Pois então toca a andar para o acam~ pamento. - (?ue palermice é essa das três vezes ?-perguntou Jordan enquanto atravessavam o pir&a1 caminhando juntos. -Palermice? - replicou Pilar olhando-o de esguelha. -Não me digas que é tolice, inglesinho. -Alguma bruxaria como essa coisa da leitura na palma da mão ? -Não, é coisa comum e provada entre os Gitanos. -Mas nós não somos Gitançs. -Mas tiveram bastante sorte. Os que não são ciganos também têm alguma sorte, de quando em quando. -E isso é sério, essa coisa das três vezes? Ela fixou-o de novo bizarramente: -Deixa-me, Inglês, não me aborreças. Ainda és muito criança para saberes. -Mas, Pilar-começou Maria. -Cala a boca. Vocês sentiram já uma vez e ainda têm duas na vida para sentir. -E tu?-perguntou Maria. -Duas-disse Pilar mostrando dois dedos.-Duas. E nunca chegarei a ter a terceira. -Porque i~ão?-inquiriu Maria. -Oh, cala-te. Busnes da tua idade aborrecem-me. -Mas porque não a terceira? -insistiu Jordan. -Oli, cala essa boca, fazes-me o favor?-pediu Pilar. -Cala essa boca. Está bem, murmurou Jordan para consigo. Simplesmente isso não tem nada de sério. Conheci muitos ciganos e acho-os bastante esquisitos. Mas nós também o somos. A diferença é que nós procuramos ter um honesto modo de vida. Ninguém sabe de que tribo proviemos, nem qual é a nossa herança tribal nem que mistérios havia nas matas onde moravam os nossos antepassados. Tudo o que sabemos é que não sabemos. Não sabemos nada do que acontece durante a noite. Mas quando isto acontece de dia, é alguma coisa. Fosse o que fosse que sucedeu, o facto é que esta mulher não só o pressentiu como obrigou a rapariga a confessá-lo contra a sua própria vontade. Apossou-se daquilo. Fez daquilo um negócio de ciganos. Pensei que ela tinha partido para as montanhas, mas esteve a dominar a situação durante todo o tempo. Se dessa 171 influêmía derivasse o mal, teria disparado sobre ela. Mas não era para-mal. Pilar queria apenas manter o seu domínio sobre a vida. E por intermédio de Maria. Quando saíres desta guerra, poderás começax o teu estudo sobre as mulheres, disse-se. Poderás começar por esta criatura. Criou-nos hoje um dia muito complicado e noto que nunca se tinha referido a estes assuntos de ciganos. Excepto quando me leu a mão. E na leitura da mão não creio que estivesse a fingir, embora se recusasse a dizer o que leu. Guardou os segredos para ela, o que aliás não prova nada. -Ouve, Pilax-disse Jordan. Pilar olhou para ele e sorriu.


- Que há? -Não sejas tão misteriosa. Esses mistérios cansam-me muito. -É assim? -Eu não acredito em lobisomens, nem em adivinhos, nem em ledores da sorte, nem na feitiçaria cigana da noz. - Oli! - exclamou Pilar. -E vais deixar esta rapariga em paz. -Sim, deixarei a rapariga em paz. -E vais deixar-te de mistérios - acrescentou Jordan. -Não nos faltam trabalhos e preocupações, para ainda complicaxmos mais a vida com bruxedos. Menos mistérios e mais trabalho. -Também acho-disse ela concordando com a cabeça. -Ouve, Inglés-disse sorrindo-lhe-é verdade que a terra se moveu realmente ? -Com os diabos! Moveu, sim, moveu. Pilar começou a rir às gaxgalhadas, de pé, a olhar para Jordan e sentou-se a rir, a rir. -Oh, Inglês, Inglés-disse continuando a rir.-Tu estás cómico. Precisas de trabalhar muito para readquirir a tua dignidade. Para o diabo que te caxregue! Pensou Robert Jordan. Mas não abriu a boca. Enquanto eles falavam o Sol tinha sido tapado pelas nuvens e quando Jordan olhou para as montanhas o céu estava sombrio e cinzento. -Vai nevar-disse a mulher também com os olhos no céu -Agora? Quase no mês de junho? -E porque não? Estas montanhas não sabem o nome dos meses. Estamos na lua de Maio. -Não pode haver neve-disse ele. Xão pode nevar. 1172 -Pois apesar disso, Inglês, vai nevar. Jordan examinou o espesso véu cinzento do céu onde o Sol agora amarelo pálido ia desaparecendo; por fim viu-o sumir-se por completo e o tom cinzento tomou-se uniforme a ponto de parecer a um tempo macio e pesado; a massa cinzenta ocultava agora os cimos das montanhas. -Sim-concordou ele.-Parece-me que tu tens razão, Pilar. 173 CAPITtJLO XIV o chegarem ao acampamento, nevava e os flocos caíam em diagonal através dos pinheiros. Os flocos enviezavam por entre as árvores, esparsos e regirantes a princípio. Depois quando o vento glacial começou a descer da montanha começaram a redemoinhar e a aumentar e Robert Jordan, furioso, de pé à entrada da.gruta, via-os cair. -Vamos ter muita neve-disse Pablo. Tinha a voz rouca e os olhos vermelhos e ramelosos. -O cigano já voltou? -perguntou Jordan. -Não. Nem ele nem o velho. -Queres vir comigo até ao posto de cima, na estrada? -Não, não quero meter prego nem estopa neste negócio. -Pois eu mesmo darei com o caminho. -Com esta neve não encontras caminho nenhum-avisou Pablo.-Eu agora não iria.


-Fica logo abaixo da vertente, sobre a estrada, é só continuar a subir. -Pode ser que os encontres. Mas os dois guardas já devem estar de regresso por causa da neve e vão-se desencontrar. -O velho está à minha espera. -Não, com este tempo já deve estar em marcha para aquí. Pablo olhou para a neve que se ia acumulando à entrada da gruta e disse: -A neve não te agrada, não é, IngIés? Jordan praguejou e Pablo olhando-os com- os olhos ramelosos, riu-se. -Com esta neve é impossível a ofensiva, IngIés. Entra, que os homens não devem demorar. 174 Dentro da caverna Maria afadigava-se junto do lume e Pilar diante da mesa da cozinha. O lume deitava fumo; a rapariga tentava espertá-lo remexendo-o com um pau e abanando-o depois com um papel dobrado; apareceu primeiro uma fumarada súbita, depois uma fulguraçao e a ifiadeira começou a arder com uma chama muito alta e brilhante que o vento puxava pelo buraco do tecto. -E esta neve!-exclaniou Jordan.-lrá cair muita? -Vem niuítíssima-opínou Pablo satisfeito. E para Pilar: -Também não estás a gostar, hem, mulher? Agora que assumiste o comando, esta neve não te agrada? -A mi qué?-retrucou Pilax encolhendo os ombros.-Se neva, neva. -Bebe uma pinga, Inglés-convidou Pablo.-Passei todo o dia a beber, à espera da neve. -Aceito uma caneca. -À saúde da neve!-disse Pablo tocando com a sua caneca na do ra az. Robert Jordan chocou a sua caneca olhando-o nos Mos. Porco, assassino de olhos ramelosos, pensava ele. A minha vontade é quebrar-te esses dentes com a caneca. Calma, disse-se, calma. - e beleza a queda da neve!-txclamou Pablo enlevado._~Inão vais dormir hoje fora, com um tempo destes, não é? Hum! Com que então é isso que tu tens na cabeça? Ah, ah! Muitas são as coisas que te aborrecem, Pablo! -Não?-perguntou polidamente. -Não. Muito frio-disse Pablo.-Muita humidade. Tu não sabes, meu caro, pensou Jordan, por que motivo custam estes sacos sessenta e cinco dólares. Só queria ter um dólar por cada vez que dormi ao ar livre no saco em noite de neve. -Parece-te então que devo dormir aqui dentro? - Claro, homem. -Obrigado, mas continuarei a dormir lá fora. -Na neve? -Sim. (Vai para o diabo com esses olhos de porco, vermelhos e sanguinolentos e a tua cara de porco com cerdas de porco). Na neve. (No diabo desta desastrosa, inesperada, desoladora porcaria de neve). Aproximou-se de Maria que punha mais uma acha no fogo. -que beleza de neve, hem?-disse ele à rapariga. -Mas não vai estragar o trabalho? - perguntou ela. -Não estás aborrecido? 175


- Quê va! Aborrecer-me não adianta nada. Ainda demora muito o jantar? -Tu deves estax com fome-interveio Püar.-Queres uma fatia de queijo enquanto esperas? -Aceito;-e ela cortou-lhe uma fatia do enorme queijo que pendia do tecto preso por um fio e apresentou-lha. Comeu-a de pé. Tinha um sabor um pouco ácido para o seu paladar. -Maria!-gritou Pablo da mesa. -Que é?-perguntou a rapariga. -Limpa a mesa, Maria-respondeu Pablo sorrindo para Robert Jordan. -Limpa a tua porcaria tu mesmo-replicou Pilar.-E primeiro limpa esses queixos e essa camisa e depois a mesa. -Maria!-tornou a chamar Pablo. -Não lhe ligues, menina. Ele está bêbedo. -Maria!-chamou Pablo pela terceira vez.-Está a nevar e a neve é bela. Ele não conhece nada do meu saco, pensou Robert Jordan. Este velho olho de porco não sabe por que paguei aos caixeiros do Woods sessenta e cinco dólaxes pelo meu saco. Logo que o cigano me apareça, vou procurar o velho. Devia ir procurá-los agora, mas não tenho a certeza de dax com eles. Não sei onde se postaram. -Queres fazer bolas de neve, Pablo? Queres uma guerra com bolas de neve? -Que queres dizer com isso? -Nada-respondeu Jordan.-As selas estão bem abrigadas? -Estão. E então Robert Jordan disse em inglês: «Going the grain those horses or peg them out and let them dig for it». -Quê? -Nada. É coisa a tratar por ti. Eu saio daqui pelos Ineus pés. -Porque falaste em inglês? -Não sei. Quando estou muito cansado costumo falar em inglês. Ou quando estou muito aborrecido. Ou chateado, digamos. Quando me chateiam gosto de falar inglês para ouvir o som das palavras. É um som consolador. Experimenta quando puderes. -Que estás para aí a dizer, Inglês ?-interpelou Pilar. - A coisa parece-me interessante, mas não percebo nada. -E é mesmo nada, Pilar. Eu disse nada em inglês, nothing. 176 - Pois então fala espanhol. É mais curto e mais simples dizê-lo em espanhol. - Certamente -volveu Jordan. Mas, por Deus, pensava ele, oli Pablo, oh Pilar, oli Maria, oh vós dois irmãos que estais no canto e de que esqueci o nome mas de que preciso recordar a presença! Eu às vezes canso-me -verdadeiramente. De isto e de vocês e de mim e da guerra, e porquê, ainda por cima, havia de nevar? Isto é infame. Não. Não é. Nada é infame. É preciso saber aceitar e saber decidir. E agora deixa-te de asneiras e trata, de aceitar a neve e ouve o relatório do cigano e vai depois buscar o teu velho. Mas nevar! E neste mês! Basta, repetiu-se. Basta e aceita. A caneca... a caneca... que raio de história é esta da caneca? Faria bem melhor em exercitar a memória, pensava Robert Jordan, ou então nunca mais procurar citações porque quando uma falha, legiões delas esmagam a cabeça. Que diabo de história era esta da caneca? -Mais uma caneca de vinho, façam-me o favor-pediu em espanhol. E acrescentou: -Muita neve?


Eh?-disse dirigindo-se a Pablo.-Mucha nieve. O bêbedo levantou a cabeça para ele e sorriu. Sacudiu a cabeça e sorriu de novo. -Nada de ofensivas. Nada de aviones. Nada de pontes. A neve, só. -Parece-te que a neve vai durar muito tempo?-indagou Jordan vindo sentar-se ao lado de Pablo.-Parece-te que vai nevar o Verão inteiro, meu velho Pablo? -O Verão todo, não, mas hoje e amanhã vai. - Porquê ? -Porque há duas qualidades de neve-explicou Pablo pesada e judiciosamente. -Uma vem dos Pirenéus e traz um frio enorme. Mas já não é tempo dessas nevadas. -Optimo. já é alguma coisa. - E a outra, esta de hoje, vem do Cantábrico. Vem do mar. Com o vento nesta direcção a neve vai ser muita e tempestuosa. -Onde aprendeste tanta coisa, velho? -perguntou Robert Jordan. Agora que a sua irritação desaparecera, Jordan estava excitado pela tempestade, como sempre acontecia. Toda a espécie de temporais lhe mexiam estranhamente com os nervos. Era como a excitação da batalha, mas sem o horror da batalha. Há um vento que sopra nas batalhas, um vento quente e seco como a boca dos homens que se batem; e que sopra pesada12 -S. D. 177 mente; pesada e imundamente; e que se levanta ou esmorece com os azares da luta. Jordan conhecia muito bem esse vento. Mas uma tempestade de neve era exactamente o contrário. Quando a neve tomba tempestuosamente, podemos aproximar-nos dos animais selvagens sem que eles fujam. Esses animais atravessam os campos sem saberem onde estão e os veados param diante das cabanas. Na tempestade de neve avançamos a cavalo para um alce e o alce corre ao nosso lado porque toma o nosso cavalo por outro alce. Na tempestade de neve o vento pode soprar em rajadas; mas sopra uma pureza. branca, e o ar enche-se de correntes de ar de brancura; tudo se metamorfoscia e quando o vento acaba, então é a paz. Era uma grande tempestade a daquela noite e era preciso aproveitar. Podia arruinar tudo, podia-se gozá-la. -Eu fui carreteiro durante muitos anos-contou Pablo. -Atravessei estas montanhas com pesadas carretas, antes de terem aparecido os camiões de hoje. Foi nesse tráfico que aprendi a conhecer o tempo. -E como entraste na revolução? -Sempre fui das esquerdas. Tive muitos contactos com as gentes das Astúrias, que são muito desenvolvidas politicamente. Sempre fui republicano. -Mas que fazias antes do movimento? -Trabalhava para um contratador de cavalos, em Zaragoza. Ele fornecia cavalos para as corridas de toiros e para as remontas do Exército. Foi lá que conheci Pilar, que andava com o matador Finito de Palencia. Pablo deu esta informação com entono orgulhoso. -Finito não era lá grande coisa como matador- advertiu um dos dois irmãos que estavam sentados à mesa, olhando para Pilar que estava de pé diante do lume. -Não?-reagiu ela voltando-se e encarando-o.-Não era grande coisa como matador? E nesta gruta, ao lado do lume, aquela criatura visualizou Finito, pequeno e moreno, de rosto fino e olhos tristes, faces chupadas e os cabelos pretos e húmidamente anelados sobre o rosto, no


lugar onde o chapéu apertado do matador tinha deixado um risco vermelho que mais ninguém distinguia. Viu-o de pé enfrentando um touro de cinco anos, enfrentando os cornos que tinham levantado cavalos, o grande cachaço que tinha atirado o cavalo para o ax, mais alto, mais alto, enquanto o cavaleiro lhe cravava a farpa no cachaço, levantando-o cada vez mais, mais alto, até que o cavalo desabava com estrondo e o cavaleiro caía de encontro à barreira de -178 madeira; e o touro rascava o chão e marrava, na fúria de arrancar a vida ao animal caído. Ela via-o a Finito, o matador medíocre, de pé diante do touro virando-se para lhe apresentar o flanco. Via-o claramente a enrolar a capa vermelha na espada, a capa já pesada, empapada do sangue do touro, de tantos passes que tinha dado. Via o cachaço reluzir húmido de sangue, sacudindo o espinhaço e fazendo estalar as bandarilhas. Via Finito desenhar-se de perfil a cinco passos da cabeça do touro imóvel e maciço, e levantar lentamente a espada até que a ponta estivesse ao nível do ombro e depois apontar a lâmina para um ponto que não podia ver, pois a cabeça do touro estava mais alta que o seu olhar. Fazia baixar a cabeça do touro com o movimento ondulado que o braço esquerdo imprimia à capa húmida e pesada; e depois recuar ligeiramente sobre os calcanhares e olhar ao longo da lâmina, * perfil diante dos cornos perfurantes; o torso do touro ofegava * tinha os olhos presos na capa. Agora via o homem claramente, e ouvia a voz fina e limpa enquanto voltava a cabeça e, olhando as pessoas que estavam na trincheira e depois para todos os que estavam acima da barreira vermelha dizia: «-Vejamos se o posso matar assim!» Ouvia-lhe a voz e via o matador avançar dobrando o joelho. Seguia a penetração da arma por cima dos cornos que se abaixavam agora como por magia à medida que o focinho do touro seguia a capa que rastejava no chão, o pequeno pulso moreno muito firme dominando o abaixamento dos cornos e dominando-os, enquanto a espada penetrava na massa sombria do garrote. . Via a penetração da lâmina brilhante, lenta e regular, como se o ímpeto do touro tivesse por fim enterrar a espada cada vez mais fundo, arrancando-a à mão do homem; viu-a desaparecer até ao momento em que o homenzinho moreno, cujos olhos não se tinham afastado do ponto onde a lâmina desaparecera, afastava agora os cornos do seu ventre liso e se afastava do animal para se endireitar, tendo na mão direita a capa e levantando a mão direita para ver morrer o touro. Via-o de pé, os olhos fitos no animal que tentava aguentar-se sobre as patas, o touro que oscilava como uma árvore antes da queda, o touro que lutava para se aguentar nas patas, a mão do homenzinho levantada no clássico gesto do triunfo. Via-o de pé, banhado em suor, no imenso alívio de tudo estar acabado, o alívio de ver morrer o touro, alivio de não ter sido ferido nem morto quando se tinha afastado; depois, enquanto ele continuava de pé, o touro abatia-se por fim, rolando, morto, 179 as quatro patas no ar, e via o homenzinho moreno dirig~r-se, fatigado e sem sorrir, para a trincheira. Ela sabia que mesmo que a sua vida estivesse em causa ele não poderia correr pela arena e observou-lhe os passos vagaxosos em direcção à trincheira, limpar a boca com uma toalha, olhax para a toalha e abanar a cabeça, enxugar o rosto e iniciar a volta triunfante em redor da arena. Ela via-o mover-se lentamente, sorrindo, cumprimentando, sorrindo, seguido pela quadrilha,


baixando-se, apanhando cha,rutos; devolvia os chapéus, fazia a volta à arena, sorria com olhos tristes para terminar o circuito diante dela. Ela olhava ainda e via-o agora sentado no degrau de madeira da trincheira, com a toalha na boca. Pilar revê tudo isto ali, de pé, diante do lume e exclama: -Então não era um bom matador? Com que espécie de gente passo agora a vida! -Era um bom matador, pois - disse Pablo. - A sua pequena estatura é que o prejudicava. -Era visivelmente um tuberculoso -disse Primitivo. -Tuberculoso? - repetiu Pilar. - E quem não ficaria tuberculoso com os sofl-imentos por que ele passou? Nesta terra em que ninguém pode enriquecer senão fazendo-se criminoso como Juan March, ou toureiro de ópera, ou tenor? Como não havia de ficar tuberculoso? Nesta terra em que a burguesia morre de indigestão, sempre a recorrer ao bicarbonato de sódio e os pobres andam com fome desde o dia em que nascem até ao dia da morte, como não havia de ficax tuberculoso? Se tivesses viajado debaixo dos bancos dos compartimentos dos vagões de terceira paxa ires de borla de uma feira paxa a outra, como fazem os rapazes que aprendem o ofício de toureiro, estendidos no chão, na poeira e na porcaxia, com escaxros frescos e escarros secos, tu também ficarias tuberculoso, depois de teres levado uma comada no peito. -Naturalmente -concordou Primitivo.-Eu só disse que ele era tuberculoso. -E nem podia deixar de ser-continuou Pilar, de pé, agitando a grande colher de pau que tinha na mão.-Não só era baixinho, como tinha a voz fina e um verdadeiro pavor aos touros. Nunca na minha vida vi um homem mais medroso antes da tourada, nem nunca vi ninguém mais corajoso na arena. Tu-disse ela a Pablo-tens agora medo de morrer. Achas que é uma coisa muito séria. Pois durante toda a vida Finito teve medo de morrer, mas na arena era um leão. i80 -Ele de facto tinha fama de muito valente -observou o segundo irmão. -Nunca na minha vida encontrei homem mais medroso -continuou Pilax.-Finito não queria ver em casa uma cabeça de touro, nem empalhada. Uma vez, na feria de Valladolid, ele matou muito bem um touro de Pablo Romero,... -Lembro-me -disse o primeiro irmão.-Assisti. Era um touro cor de água de sabão, com topete fresco e chifres enormes. Touro de umas trinta arrobas. Foi o último que ele matou em Valladolid. -Exactamente -volveu PiJar.-Depois, disso o grupo dos aficionados que se reuniam no Café Colon e tinham adoptado o seu nome para o clube mandaram empalhar a cabeça do touro para lha oferecerem num pequeno banquete no Café Colon. Durante o banquete a cabeça do touro estava lá na parede, mas coberta com um pano. Eu estava lá com outras mais, Pastora que ainda era mais feia do que eu, a Nina de los Peines e outras ciganas e mulheres da vida de alto bordo. O banquete era modesto, mas muito animado, nias tomou-se agitado por causa da disputa entre a Pastora e uma das tais mulheres. Eu por mim sentia-me mais do que feliz. Estava sentada ao lado de Finito e notei que ele não queria levantar os olhos paxa a cabeça do touro que estava embrulhada num pano roxo como o que cobre as imagens dos santos durante a semana da Paixão do nosso antigo Senhor. «Finito não comia muito porque tinha recebido um palotazo com o chato do chifre quando se prepaxava para matax o touro, na última corrida de Zaragoza, golpe que o tinha deixado sem sentidos durante algum tempo. E naquela festa ele não aguentava a comida no estômago e tinha que levax o lenço à boca por causa do sangue que lhe vinha de quando em quando. Mas que


queria eu contar-lhes? -A história da cabeça do touro - lembrou Primitivo. -A cabeça empalhada. -Sim. Mas é preciso contar antes alguns pormenores para que possam compreender. Finito nunca foi muito alegre, como voces sabem. Essencialmente sério e não me lembro de o ter visto rir, fosse do que fosse, quando estávamos sós. Nem mesmo das coisas mais engraçadas. Levava tudo a sério. Era quase tão sério como Fernando. Mas naquele banquete do Clube Finito, oferecido pelos aficionados, tinha que mostrar um pouco de alegria, camaradagem e espírito. E, portanto, durante todo o banquete sorriu e brincou e só eu me dava conta das manobras que ele fazia com o lenço. Tinha trazido três lenços 181 e tinha-os sujado a todos. Depois, virando-se para mim, disse muito baixinho: «-Pilar, já não posso mais. Parece-me que tenho que sair.» «-Pois vamo-nos embora»-disse eu.-Porque vi que ele estava a sofrer muito. Naquele momento a hilaridade era grande, uma algazarra tremenda. «-Não, não posso sair. Trata-se afinal de um clube que tem o meu nome. Tenho obrigação de ficax.» «-Se te estás a sentir mal, vamo-nos embora» -insisti. «-Não. Eu fico. Dá-me Manzanitta.» -Achei que lhe faria mal beber, porque não tinha comido nada e estava naquelas condições; mas era nítido que ele já não podia suportar por mais tempo a barulheira e a gritaria, sem beber qualquer coisa. Por isso deixei-o beber. Vi que bebia muito depressa quase meia garrafa de manzanilla. Como não tinha mais lenços, começou a servir-se do guaxdanapo. O banquete tinha chegado a tal ponto de entusiasmo que algumas das mulheres mais leves eram passeadas aos ombros de vários membros do clube em volta da mesa do banquete. Pediram a Pastora para cantar. El Nino Ricardo tocava guitarra e era comovente aquela manifestação de verdadeira alegria e amizade, bêbeda até ao mais alto grau. Nunca tinha assistido a um banquete onde o verdadeiro entusiasmo fiamenco atingisse tal altura, mas ainda não chegara a hora de descobrir a cabeça do touro, que era, afinal de contas, a razão da festa. Eu estava a divertir-me tanto, e tão distraída a bater palmas para acompanhar a música de Ricardo e o canto de Nina de los Peines e a ajudar a formar um grupo de acompanhadores, que não percebi, que Finito já tinha ensopado de sangue o seu guardanapo e estava agora a servir-se do meu. Ele continuava a beber manzanilla e tinha os olhos muito brilhantes e abanava a cabeça parecendo 'muito contente a olhar todas as pessoas. Não podia falar muito porque se falasse podia ter que usar o guardanapo, mas parecia estar a divertir-se muito, e era para isso mesmo que ele ali estava. O banquete continuou e o homem que estava a meu lado, antigo empresário de Rafael el Gallo, estava a contar-me uma história que acabava assim: « ... então Rafael aproximou-se de mim e disse:-Tu és o meu melhor amigo, o melhor que tenho no mundo e o mais nobre. Amo-te como a um irmão e quero dar-te um presente. E deu-me um lindo alfinete de gravata com um brilhante e beijou-me nas faces e ficámos os dois muito emocionados. Então Rafael el Gallo retirou-se 182 do «café» depois de me ter dado o alfinete de gravata com um brilhante e eu disse a Retana, que estava sentada perto de mim:-Aquele cigano nojento acaba de firmar contrato com outro empresário. « - Que estás tu a dizer ? - exclamou Retana. -Há mais de dez anos que sou


empresário dele e nunca me deu nenhum presente-disse o empresário de Rafael el Gallo. Isto não pode querer dizer outra coisa!» E era absolutamente verdade, e foi assim que El Gallo o deixou. Mas nesse ponto a Pastora meteu-se na conversa, não tanto para defender o nome de Rafael, já que ninguém nunca tinha dito tanto mal dele como ela, mas porque o empresário insultara os ciganos com aquele «cigano, nojento». Ela investiu com tanta violência e em tais termos, que reduziu o empresário ao milêncio. Eu meti-me para acalmar a Pastora, e outra gitana eteu-se para me acalmar. e a barulheira tomou-se tamanha que já não se distinguiam os palavrões, excepto o pior de todos (quando se trata de mulheres), que se ouvia por cima dos outros até que se fez um pouco de calma; os três de entre nós que se tinham metido no barulho estavam sentados olhando o seu copo, e então dei-me conta de que Finito, horrorizado, olhava para a cabeça do touro ainda embrulhada no pano roxo. Nesse momento o presidente do clube começou o discurso que devia fazer antes de se descobrir a cabeça e durante o discurso foi acompanhado com aplausos e gritos de Olé!, e murros na mesa. Eu estava observando Finito, que naquele momento se servia do seu, não; do meu guardanapo, aflindado na cadeira, fascinado e horrorizado com o que via na parede. Perto do fim do discurso, Finito começou a abanar a cabeça e afundar-se mais e mais na cadeira. «-Como yais tu, pequeno ?» - murmurei-lhe, mas Finito olhou para num e não me reconheceu, apenas sacudia a cabeça dizendo: «-Não, não, não.» Então o presidente do clube terminou o seu discurso e romperam os aplausos; ele trepou a uma cadeira e puxando o cordão desamarrou o pano roxo e começou vagarosamente a descobrir a cabeça do touro. O pano prendeu-se num dos chifres; ele soltou-o e os belos chifres aguçados e polidos apareceram. O grande touro amarelo estendia para a frente os seus enormes cornos negros, cujas pontas brancas eram tão aceradas como os picos de um porco-espinho. Dir-se-ia que a cabeça estava viva; tinha o pêlo crespo, as narinas estavam abertas, os olhos brilhantes: o touro parecia estar vivo e a encarar Finito. 183 A sala inteira aplaudia e gritava, enquanto Finito se afundava cada vez mais na cadeira. Todos se calaram e olharam para ele, que só repetia: «Não, não, não.» E sem tirar os olhos do touro depois de um último «não», soltou uma enorme golfada de sangue, sem tempo de pegar no guardanapo, o sangue corria,lhe pelo queixo e ele continuava a olhar para o touro dizendo: «Durante toda a temporada está bem. Para ganhar dinheiro, sim. Paxa comer, sim. Mas não posso comer. Estão a ouvir? Tenho o estômago doente. Mas agora que a temporada acabou, não, não, não!» - Quanto tempo ainda viveu depois do banquete?indagou Primitivo. -S6 até ao Inverno. Ele nunca chegou a melhorar daquela pancada do chato do chifre em Zaxagoza. Coisa pior que as chifradas, porque o mal é interno e não sara. De cada vez que toureava, ele recebia um desses golpes; era por isso que não conseguia muito êxito. Era difícil safar-se por ser muito baixinho. Quase nunca se safava sem um golpe desses. Mas naturalmente que o golpe nem sempre era em cheio. -Sendo assim baixinho, ele nunca devia ter tentado fazer-se matador-disse Primitivo. Pilar olhou paxa Robert jordan e abanou a cabeça. Depois inclinou-se paxa a grande marmita de ferro e continuou a abanar a cabeça. Que gente esta!-dizia consigo. Que pove é o espanhol! E «sendo baixinho ele nunca devia ter


tentado fazer-se matador», e eu a ouvir uma coisa destas sem dizer nada! A raiva passou-me depois de ter explicado tudo e calo-me. Como tudo é simples quando a gente não sabe nada! Quê sencillo! Sem saber nada vem um e diz: «Ele não era lá muito bom matador» sem saber nada vem outro e diz: «Ele era tuberculoso». E vem outro que depois de ter ouvido toda a explicação diz: «Sendo, baixinho ele não devia ter tentado fazer-se matador!» E lá diante do lume, Pilar continuou a ver a cena: o corpo moreno de Finito sobre o leito, com grandes cicatrizes nas coxas, outra de cauterização sobre as costelas, outras no lado direito do peito e uma branca, enorme, que lhe riscava todo o peito até se perder na axila. Viu-o de olhos cerrados e solene expressão no rosto moreno, os cabelos crespos lançados para trás e ela sentada a seu lado na cama, esfregando-lhe as pernas, massajando os músculos endurecidos das barrigas das pernas, premindo-os, distendendo-os, batendo-os de leve com os dedos. «-Como vai isso? -perguntava-lhe ela.-Como vão as tuas pernas, pequeno?» 184 «-Muito bem, Pilar»-respondra ele sem descerrar os olhos. «-Queres que te esfregue o peito?» «-Não, Pilar, não me toques por favor.» «-E as coxas?» «-Não. Doem-me de mais.» «-Mas se eu as friccionar com linimento, aquecem e melhoram.» «-Não, Pilar. Obrigado. Prefiro que não mexas nelas.» «-Então vou lavar o teu corpo com álcool.» «-Sim. Mas muito de leve.» «Tu foste formidável com o último touro»-dizia-lhe ela. E ele respondia: «-Sim, matei-o muito bem.» Depois de lhe lavar o corpo e de o tapar com um lençol, ela deitava-se a seu lado e ele movendo a mão morena pegava na mão dela e dizia: «Tu és uma mulher espantosa, Pilar!» E era a coisa mais parecida com um gracejo que ele jamais dissera. Habitualmente depois da corrida, Finito deitava-se para dormir e ela deitava-se a seu lado, com a mão dele nas suas, muito atenta à sua respiração. Às vezes durante o sono ele assustava-se e ela sentia-lhe a mão apertar as suas com força e via-lhe a testa porejada de suor. Se ele acordava ela dizia: «-Não é nada.» E ele voltava a adormecer. Tinha assim vivido cinco anos com ele e nunca o tinha enganado ou quase nunca; e só depois do enterro se tinha juntado a Pablo que levava os cavalos dos picadores para a arena, e era como os touros que Finito passara a vida a matar. Nada, porém, durara, nem a força, nem a coragem de touro, sabia-o agora, e que existia ainda? Eu duro, pensava ela. Sim, durei. Mas para quê? -Maria presta mais atenção ao que estás a fazer. Esse fogo é para cozinhar. Não é para incendiar uma cidade. Nesse momento o cigano apareceu à entrada da gruta. Vinha coberto de neve, com a espingarda na mão e batia com os pés para descolar a neve. Robert Jordan levantou-se e aproximou-se dele:


- Então ? -perguntou-lhe. -A guarda é de seis horas. Dois homens ao mesmo tempo, na ponte grande. Na cabana do cantoneiro estão oito homens e um cabo. Aqui tens o teu cronómetro. -E quanto ao posto da serração? 185 -O velho está lá. Ele pode vigiar a serração e a estrada ao mesmo tempo. -E a estrada? -perguntou jordan. -O movimento de sempre. Nada de extraordinário. Muitos automóveis. O cigano parecia gelado, o rosto parecia endurecido pelo fl-io e tal como as mãos, estava gelado. De pé, à entrada da caverna, tirou o casaco e sacudiu-o. -Fiquei lá até mudarem a sentinela. Foi rendida ao meio-dia e às seis. É uma guarda longa. Estou contente por não estar no exército deles. -Vamos à procura do velho-disse jordan enfiando o casaco de couro. -Não contes comigo-volveu o cigano.-O que quero agora é lume e sopa quente. Posso explicar a um destes onde ficou o Anselmo e ele. irá contigo. Olá, mandriões! Quem quer levar o Inglês ao posto do velho, na estrada? -Vou eu-declarou Fernando.-Explica-me onde é. -Ouve-começou o cigano.-É...-e o cigano explicou-lhe onde o velho Anselmo ficara de vigia. 4 186 i i CAPITULO XV NSELMo estava agachado no buraco do tronco de um grande pinheiro e o vento empurrava a neve dos dois lados. Apertava-se contra a árvore. Tinha as mãos enfiadas nas mangas e a cabeça enterrada tanto quanto possível na gola do casaco. Se estiver muito tempo aqui, fico gelado, pensava ele, e não ganharei nada com isso. O Inglés disse-me que ficasse aqui até ser substituído, mas é evidente que não contava com a tempestade. Não houve movimento anormal na estrada e já sei as disposições e hábitos do posto da serração. Logo, posso dirigir-me para a gruta. Quem tiver um pouco de senso comum deve estar à espera do meu regresso para lá. Vou aguentar um pouco mais e depois raspo-me. A culpa é das ordens que são muito rígidas. Não se prevê nada para o caso de haver mudança de situação. Esfregou os pés um contra o outro. Depois tirou as mãos das mangas, inclinou-se para a frente, esfregou as pernas e bateu os pés um contra o outro para restabelecer a circulação. Estava menos flio ali, agasalhado pela árvore, mas em breve teria que se pôr a andar. Ao agachar-se para esfregar os pés, ouviu um automóvel na estrada. Trazia correntes e um aro batia. Subia a estrada coberta de neve. Pintado de verde e castanho em grandes manchas de cor, as janelas borradas de azul de modo a não se poder ver para dentro, apenas com um semicírculo deixado em branco, para que os ocupantes pudessem ver para fora. Era um Rolls-Royce com dois anos, um carro da cidade camuflado para uso do Estado-Maior. Mas Anselmo não sabia isso. Ele


nada via para dentro do carro, onde vinham três oficiais bem encapotados. Dois no assento traseiro e um no assento móvel, O oficial do assento móvel vinha a olhar para fora, pelo semicírculo na janela azul, no momento em que o carro passou junto dele. Anselmo não deu por ele. Nenhum dos dois viu o outro. 187 O automóvel passou sobre a neve abaixo do ponto onde ele estava. Anselmo viu o condutor, de cara vermelha e capacete de aço acima da capa de oleado em que estava embrulhado; e viu o cano da metralhadora que o soldado sentado a seu lado, trazia. Tirou imediatamente do bolso as duas folhas de caderno que Jordan lhe dera e fez uma marca junto do desenho representando um automóvel. Era o décimo que passara durante o dia. Seis já tinham descido e quatro continuavam lá para cima. Não era um trânsito exagerado para aquela estrada, mas Anselmo não diferençava os Fords, Fiats, Opels, Renaults e Citroens do Estado-Maior da Divisão que dominava as gargantas e as montanhas, dos Rolls-Royces, Lancias, Mercedes e Isotas do Quartel-General. Era essa a distinção que Robert Jordan. teria feito, se estivesse no lugar do velho, avaliando da significação dos carros que subiam. Mas não estava lá e o velho fazia simplesmente um sinal no pedaço de papel para cada automóvel que subia a estrada. Anselmo tinha agora tanto frio que decidiu voltar para o acampamento antes de escurecer. Não tinha medo de se perder, mas pensava que era inútil demorar-se ali mais tempo. O vento soprava cada vez mais frio e a neve não din-iinuía. Quando, porém, se ergueu, batendo os pés e olhando a estrada através da neve que caía intensamente, em vez de se pôr a caminho encostou-se ao lado abrigado do pinheiro. O Inglês mandou-me ficar, reflectiu consigo. Pode ter-se já posto a caminho e se eu sair daqui pode perder-se. Durante toda esta guerra fomos vítimas da falta de disciplina e da desobediência às ordens. Vou esperar por ele mais algum tempo. Mas se se demorar muito serei forçado a partir, apesar de todas as ordens, porque tenho que apresentar o meu relatório. Vou ter muito que fazer nos próximos dias, e ficar aqui enregelado é um exagero sem vantagem nenhuma. Do outro lado da estrada, na serração, o fumo safa da chaminé e o vento atirava-o para Anselmo. Os fascistas parecem bem aquecidos, reflectiu o_velho; estão no quente e amanhã à noite vamos matá-los. E uma coisa estranha em que não gosto de pensar. Estive a observá-los durante o dia todo. São homens como nós. Estou certo de que se pudesse ir até lá e batesse naquela porta, eles me receberiam; mas têm ordens de exigir e examinar os papéis dos viajantes. A única diferença que existe entre nós são as ordens. Esses homens não são fascistas. Trato-os assim, mas não o são. Não passam de pobes criaturas como nós. Nunca deveriam ter combatido contra nós, e eu não gosto de pensar em matá-los. M8 Os que estão naquele posto, são gallegos. Ouvi-os falar o dia inteiro. Não podem desertar porque se o fizerem lhes fuzilam as famílias. Os galegos ou são muito inteligentes ou são muito estúpidos e brutos. Conheci as duas espécies. Lister é um galego da mesma cidade de Franco. Pergunto-me o que pensarao eles da neve, nesta altura do ano. Na região deles as montanhas não são altas como as nossas e chove sempre, o verde lá é constante. Uma luz apareceu na janela da serração. Anselmo estremeceu e pensou: maldito Inglês! Aqueles galegos estão nas nossas terras dentro de uma casa, enquanto eu estou aqui a gelar metido atrás de uma árvore e vivemos num buraco de pedreira como as feras nas montanhas. Mas amanhã as


feras sairão da toca para dar cabo dos que estão agora bem agasalhados e vão morrer quentinhos dentro dos seus cobertores. Como morreram aqueles, na noite em que invadimos Otero, recordou-se o velho e a lembrança entristeceu-o. Fora em Otero, naquela noite, que tinha matado pela primeira vez e agora esperava não ter que matar no assalto ao posto. Tinha sido em Otero que Pablo, esfaqueara a senti-,nela que Anselmo tapava com um cobertor, mas a sentinela tinha-o agarrado pelos pés e mesmo abafada como estava, tinha rompido numa gritaria; Anselmo, teve que atirar-se a ela e, tateando o cobertor, esfaqueá-la até que lhe largasse pé e se calasse. Fincara o joelho no pescoço do homem para impedir de gritar e foi esfaqueando a trouxa, enquanto Pablo atirava pela janela a bomba para dentro da caserna onde todos os outros guardas do posto dormiam. E quando a explosão se deu dir-se-ia que o mundo inteiro rebentava em vermelho e amarelo diante dos olhos; e já duas novas bombas tinham sido atiradas. Os homens que não morreram na cama foram apanhados pela segunda bomba quando tentavam levantar-se. Isso tinha sido nos grandes dias de Pablo, quando ele fiagelava o país como um tártaro e nenhum posto fascista estava em segurança durante a noite. E agora ele está liquidado, acabou como um varrao que fosse capado, pensou Anselmo; quando o capador acaba o trabalho os grunhidos cessam, o capador atira os dois bagos fora e o varrão, que já não é varrão, recomeça a fossar, encontra-os e come-os. Não, ele ainda não está assim. Anselmo, sorriu. A gente pode pensar mal de mais mesmo de um Pablo. Mas a verdade é que ele está a aviltar-se sem conta nem medida. Que ffio! exclamou. Era melhor que o Inglés já tivesse chegado e que eu não tivesse de matar os homens deste posto. 189 Estes quatro galegos e o cabo estão bons para os que matam por prazer. O Inglês disse-o assim. Eu fá-lo-ei se for a minha obrigação, mas o Inglés disse que eu iria com ele para o negócio da ponte e que a tarefa de matar seria para os outros. Na ponte vai haver combate e se eu sou homem paxa aguentar a luta, então terei feito tudo que se podia esperar de um homem velho nesta guerra. Mas que o Inglés não tarde, porque isto de olhar para a serração e ver os galegos no quente, ainda me dá mais frio. Eu bem desejava estar na minha casa, e ver esta guerra no fim, de uma vez. Mas tu agora já não tens casa, Anselmo. Precisas de ganhar esta guerra para poderes voltar a casa. Dentro da serração um dos soldados, sentado no banco, engraxava as botas, outro dorn-úa na tarimba. O terceiro cozinhava e o cabo lia um jornal. Os capacetes estavam pendurados na parede, e as espingardas encostadas às divisões de madeira. -Que diabo de terra é esta onde neva quando se está quase em junho? -desabafou o soldado do banco. -Isto é um fenómeno-disse o cabo. -Estamos na lua de Maio-observou o que cozinhava. -A lua de Maio ainda não acabou. -Nevar em Maio! Raio de terra-insistiu o soldado do banco. -Nestas montanhas não é nada fora do comum nev" em Maio-volveu o cabo.-Eu jâ senti mais frio em Madrid no mês de Maio do que em qualquer outro mês do ano. -E mais calor, também - acrescentou o que cozinhava. -Maio é um mês de grandes contrastes de temperatura -continuou o cabo.


-Aqui, em Castela, o mês de Maio tanto pode ser muito quente como muito frio. -Ou até chuvoso-disse o do banco.-No Maio do ano passado choveu quase todos os dias. -Não foi tanto assim- contraveio o cozinheiro.-Em todo o caso, era a lua de Abril. -A gente acaba no manicómio de tanto ouvir falar em luas-disse o cabo.-Deixa as luas em paz, homem. -Quem vive no mar ou nos campos sabe que é a lua e não o mês o que tem mais importância -insistiu o soldado, que cozinhava. -Agora, por exemplo, acabamos de entrar na lua de Maio e no entanto o mês de junho está à porta. Igo -Porque não arranjamos maneira de nos enquadrarmos nas estações?-quis saber o cabo.-Êste negócio começa a dar-me cabo da cabeça. -É que tu és homem da cidade, vieste de Lugo. Que sabes tu da vida do mar ou da vida dos campos? -A gente aprende mais numa cidade do que vocês anaTabetos aprendem no mar e nos campos. -Nesta lua aparecem os primeiros cardumes de sardinha -disse o soldado da cozinha. -Os barcos da sardinha começam a aprontar-se para a pesca e a cavala ruma para o norte. -Porque não estás na marinha já que és de Noya? -perguntou o cabo. -Porque não fui recenseado em Noya, e sim em Negreira, onde nasci. Em Negreira, que fica perto do Rio Tambre, só levam gente para o exército. -Falta de sorte-murmurou o cabo. -Oh, não penses que a marinha, não oferece perigos -interveio o soldado do banco. -Mesmo sem possibilidades de combate, a costa é perigosa no Inverno. -Nada pode ser pior que o exército - retrucou o cabo. -E é um cabo que fala!-protestou o soldado que cozinhava.-Que maneira de encarar as coisas é essa? -Não-defendeu-se o cabo.-Refiro-me aos perigos, à necessidade de aguentar os bombardeamentos, de atacar, da vida nas trincheiras. -Aqui não temos nada disso. -Graças a Deus. Mas tudo pode começar de um momento para o outro. Não creio que esta paz se prolongue por muito tempo. -Quanto tempo te parece que vamos ficar aqui?. -É impossível sabê-lo, mas o meu desejo era que fosse durante todo o tempo que a guerra ainda vai durar. -Seis horas de guaxda é muito-observou o soldado que cozinhava. -Enquanto durax a tempestade teremos quartos de três horas apenas-disse o cabo.-Ê o razoável. -E que te parecem estes caxros do Estado-Maior ? perguntou o soldado do banco. - Tudo me parece sinal de mau agouro. -A mim também-disse o cabo.-Tudo me parece mau sinal. - E a aviação? -perguntou o soldado que cozinhava. -A aviação é outro mau sinal. 191 -Mas que aviação formidável temos nós, hem?-entusiasmou-se o do banco.-Os Vermelhos estão longe, muito longe de ter uma aviação assim. Os aviões que passaram esta manhã encheram-me o coração de alegria.


-Eu vi os aviões dos Vermelhos quando eram coisa séria-lembrou o soldado do banco. -Vi aqueles bombardeiros de dois motores, quando era horroroso ter que os aguentar. -Sim. Mas nunca foram tão formidáveis como os nossos -insistiu o cabo.-Temos uma aviação insuperável. Era assim que falavam na serração enquanto Anselmo esperava na neve, olhando a estrada e a luz que brilhava na janela da serração. «Espero, não tomar parte na matança, reflectia lá consigo, e acho que depois da guerra deve haver uma penitência pela muita que tem havido. Se a religião vai desaparecer depois da guerra, paxece-me que devemos instituir alguma forma de penitência cívica, bem organizada, que nos limpe a todos dos crimes de guerra cometidos e nos dê uma base de vida bem humana. A matança na guerra é necessária, eu sei, mas a realização da matança é coisa muito má para o homem; de modo que, depois da guerra, é preciso organizar uma penitência que nos limpe as almas.» Anselmo era homem de excelente coração e sempre que ficava só, e passava só a maior parte do tempo, aquele problema da matança atormentava-o. Como pensará o IngIés ?, pôs-se a reflectir. Pelo que me disse não faz caso da matança e no entanto parece um homem bom e sensível. Talvez o caso não se apresente com importância para os jovens. Ou então talvez seja que os estrangeiros, os que não tiveram a nossa antiga religião, tenham uma atitude diferente. Mas a mim ninguém me tira que o matar é um grande pecado e que exige uma grande expiação. Estava já bastante escuro e Anselmo, com os olhos nas luzes da serração encolhia-se todo paxa resistir ao frio. Agora não há mais remédio senão ir para a caverna, pensou ele, mas * despeito de pensar assim não tinha coragem para abandonar * posto; qualquer coisa o prendia a ele. A neve apertara e ele reflectiu: se ao menos pudéssemos rebentar a ponte esta noite! Numa noite destas seria uma brincadeira tomar o posto e rebentax a ponte e tudo estaria acabado. Numa noite assim pode-se fazer seja o que for. Estava encostado à árvore, sapateando levemente e tirou da cabeça a ideia da ponte. O cair das trevas sempre lhe dava uma impressão de solidão, e nessa noite sentia-se tão solitário 192 que crescia nele um vazio semelhante ao da fome. Antigamente combatia-a por meio de preces; quando voltava para casa depois de uma expedição venatória, rezava pelo caminho, repetindo continuamente a mesma oração, o que lhe fazia bem. Mas depois do movimento tivera que aband r semelhante o o`ona .s co si - , deslealdade remédio. Sentia falta das orações, ma n i d~rava ri e lúpocrisia recorrer agora a elas. Não queri pedir nenhum fa.vor especial, nenhum tratamento que diferisse do dado a todos os homens. Não, dizia ele, estou só. Mas é a situação de todos os soldados e de todos os que perderam a família, os pais. Eu não tenho mulher e hoje estou satisfeito por minha mulher ter morrido antes do movimento. Ela nunca compreenderia isto. Não tive filhos e nunca os virei a ter. Sinto-me muito só de dia quando não estou a trabalhar, mas quando a noite vem a solidão cresce ainda mais. Uma coisa tenho, porém, que nenhum homem, nem nenhum Deus pode arrancar-me, e é que tenho trabalhado muito bem a favor da República. Tenho trabalhado rijo para assegurar mais


tarde o bem de todos. Foi assim desde o começo do movimento, e não fiz nada até agora de que me possa envergonhar. Contudo, isto de matar não é comigo. Mas mais tarde encontraremos certa.'mente uma forma de expiar isto, porque, para um pecado como este e que tantos cometeram é preciso encontrar uma penitência justa. Vou falar com o Inglês a este respeito, mas tenho medo de que, pelo facto de ainda ser muito novo, não me'compreenda. já o vi referir-se à matança, suponho, ou fui eu mesmo que principiei a conversa? Ele deve ter matado bastante, mas não dá sinal de gostar da coisa. Nos' que gostam de matar há sempre qualquer coisa de podre' Deve ser realmente um grande pecado, pensava ele. Porque ainda que seja necessário é certamente uma coisa que não temos o direito de fazer. E na Espanha mata-se muito levianamente e sem necessidade real, muitas vezes. E comete-se muita injustiça que mais tarde nunca poderá ser reparada. Gostaria mais de não pensar nisto, disse para consigo. Queria que houvesse uma penitência e que pudéssemos começar já, porque é o único acto que pratiquei na minha vida que me faz sentir mal quando estou só. Tudo o mais é perdoado. Tem-se uma possibilidade de apagar as faltas, vivendo com bondade e decência. Mas julgo que esta matança é um grande pecado e gostaria de o expiar. Mais tarde poderá haver certos dias em que se trabalhe para o Estado ou outras coisas que se possam fazer para apagar isto. Será unia coisa que pagaremos 13- S. D. 193 tal como no tempo da Igreja, pensava ele e sorriu. A Igreja estava bem organizada para atender aos pecados. A ideia agradou-lhe e sorria na obscuridade quando Robert Jordan chcgou. Chegou, silenciosamente e o velho só o viu no último Momento. -Hola, v~ejÓ! - sussurrou o americano batendo-lhe nas costas.-Como vai isto por aqu~ velho? . -Muito frio - respondeu Anselmo. Fernando também tinha vindo e estava um pouco afastado, as costas viradas contra o vento. -Pois vamo-nos embora-disse o rapaz.-Vamos para o campo para te aqueceres. Foi um crime. deixar-te aqui tanto tempo. -Lá estão as luzes'da serração -apontou Anselmo. -E onde está a sentinela? -Não se pode ver daqui. Está na curva. -Que vá para o diabo-exclamou Jordan.-Na gruta contas-me tudo o que viste. Vamos. Toca a andar. -Espera~ Quero mostrar-te uma coisa. -N-àda. Veremos tudo amanhã -contraveio Jordan.Agora bebe uni trago desta coisa. E apresentou-lhe o frasco de whisky. O velho bebeu uma golada e estalou com a língua dizendo: - Isto é fogo. -Vamos, vamos-tornou, pondo-se a caminho na escuridão. Na escuridão profunda os olhos só divisavam os flocos de neve mais próximos e a linha rígida dos troncos dos pinheiros. Fernando seguia à frente. A Jordan ocorreu-lhe a ideia dos índios das caixas de cigarros. Preciso de oferecer-lhe de beber. -Hé, Fernando-disse, alcançando-o-vai um trago? -Não, obrigado,-foi a resposta. Eu é que te agradeço, pensou Robert Jordan. Fico contente por ver que os índios das caixas de


cigarros não bebem. O que tenho é muito pouco. Bom Deus, como estou contente por ver este velho. Olhou para Anselmo e bateu-lhe de novo nas costas. Começavam a subir o declive. -Estou contente em ver-te, viejo. Tu alegras-me sempre. Se estou aborrecido basta ver-te para ficar contente. Vamos. Iam subindo o declive coberto de neve. -Eis-nos de volta para o palácio de Pablo-disse Jordan ao velho. Em espanhol soava magníficamente. -El Palacio del Miedo-murmurou o velho. 194 _La cuéva -de los huevos perdidos- retrucou Jordan alegremente. -A cova dos ovos perdidos. -Que ovos?-inquiriu Fernando. -Brincadeira -minha. Pura brincadeira. São uns ovos diferentes dos verdadeiros. -Mas porque dizes que eles estão perdidos? -Não sei. Vê nos livros ou pergunta a Pilar.-Depois agarrou Anselmo,pelos ombros, abraçou-o e de~ois abanou-o. -Ouve. Estou contente! Tu nem sabes o que nesta terra significa encontrar alguém no ponto combinado. A mútua confiança que os ligava permitia-lhe dizer todas as verdades acerca do carácter espanhol. -Também tenho prazer em ver-te volveu Anselmo. Mas eu estava quase a regressar. -Nessa é que não acredito. Homens como tu morrem gelados no posto, mas não arredam pé. -Como vão as coisas lá em cima? -Tudo bem - respondeu Robert Jordan. - Vai tudo muito bem. Jordan sentia-se feliz com aquela súbita e rara felicidade de quem conduz uma missão num exército revolucionário: descobriu que pelo menos um dos flancos se aguenta firme. «Se um dia se aguentam os dois é coisa de mais para que eu a possa afirmar», pensava ele. «Gostava de saber se poderia aguentar isso. E um flanco, não importa qual flanco, definia-se às vezes por um homem. Sim, um único homem. Não era esse o axioma que buscava. Mas tinha o homem na mão. Vais ser o flanco esquerdo durante o combate, continuava a pensar. É melhor não to dizer já. Será um pequeno mas duro combate. Mas um combate muito duro mesmo. Bem, sempre desejei ter o meu combate. Sempre vi o ponto fraco dos outros desde Azincourt. É preciso que este caminhe bem. Se tenho a fazer o que penso que tenho a fazer, o combate será um primor». -Ouve-disse outra vez a Anselmo.-Estou muito contente por te ver. -Eu também -respondeu o velho. Subiam a montanha no escuro, com o vento tempestuoso nas costas e Anselmo já não se sentia solitário. Deixara de sentir-se solitário desde o momento em que o IngIés lhe batera no ombro. O Inglês mostrava-se satisfeito e feliz e brincavam os dois. O Inglês dissera que tudo ia bem e portanto tudo ia bem. O álcool que tinha no estômago aquecia-o, e os pés também se aqueciam com a marcha. 195 -Não houve nada de importante na estrada-disse ele ao InglIs. -Bem - respondeu o IngIés. - Deixa isso para quando chegarmos. Anselmo sentia-se feliz e contente por ter aguentado a neve até quase estar congelado. «Se ele tivesse voltado para o acampamento», ponderou Jordan consigo, «teria feito muito bem,


teria sido inteligente e correcto, dadas as circunstâncias. Mas não voltou. Ficou até ao fim, de acordo com as instruções recebida§~ a coisa mais extraordinária que pode acontecer em terras de Espanha. Aguentar firme no meio de unia tempestade significa muitíssimo. Não é por acaso que os alemães empregam a palavra tempestade para designar um ataque. Eu precisava de mais dois tipos assim, capazes desta firmeza. Não são muitos, certamente. Fernando teria aguentado? É possível. Foi ele quem se ofereceu para vir comigo procurar o velho. Teria aguentado? Seria óptimo. Parece-me bastante teimoso. Tenho de me certificar. Gostaria de saber em que pensa este indio de caixa de cigarros neste momento». -Em que pensas tu, Fernando? -Porque mo perguntas? -Curiosidade, apenas, sou muito curioso. -Eu estava a pensar no jantar. -Gostas de comer? - Gosto muito. -E que tal a comida de Pilar? -Aceitável. «Não há dúvida de que é um segundo Coolidge», ponderou o rapaz». Mas tenho um palpite de que este é dos que aguentam. Calaram-se e, em silêncio, foram galgando a íngreme encosta. 196 CAPITULO XVI L Sordo esteve aqui-disse Pilar logo que Jordan e o -Evelho entraram na gruta fumarenta e aquecida. -Foi ver se arranja cavalos. -Bem. E nenhum recado para mim? -Só que ia ver se arranjava cavalos. -E nós? -jVo sé. Olha para ele. Ao entrar já Robert Jordan tinha notado o sorriso de Pablo. Agora via-o à. mesa fazer-lhe um sinal amigável com a mão, sempre a sorrir. -Inglês, continua a cair, Inglês. Jordan acenou com a cabeça afirmativamente. -Deixa-me tirar esse calçado para secar-disse Maria. -Vou pô-lo ao lume para secar. -Não as deixes queimar. Não quero andar descalço por este mundo horrível. Que há de novo?-indagou voltando-se para Pilar.-É alguma reunião? Não vi sentinelas lá fora. -Com esta tempestade? Quê va! Havia seis homens sentados à mesa, de costas para a parede. Anselmo e Fernado sacudiam a neve das roupas, batiam nas calças e esfregavam as solas na pedra junto da entrada. -Deixa-me tirar-te o casaco -ofereceu-se Maria.-Não deixes a neve derreter-se-lhe em cima. Jordan despiu-o, sacudiu as calças e desatou as alparcatas. -Vais molhar-me tudo aqui!-observou Pilar. -E quem me mandou entrar? -Isso não impede que vás dacudir-te lá fora.


-Desculpa-disse o rapaz, descalço sobre o chão sujo. -Arranja-me um par de meias, Maria. 197 -O senhor e dono!-excIamou Pilar metendo uma acha de lenha no lume. -Hay que aprovechar el tiempo -retrucou Jordan. -É preciso aceitar as coisas tal como vêm. -Está fechado o saco-disse Maria. -Toma lá a chave-e atirou-lha. -Não serve neste. -É do outro. As meias estão em cima, à direita. A rapaxiga encontrou o par de meias e trouxe-lho com a chave, depois de ter voltado a fechax o saco. -Assenta-te, calça-as e esfrega bem os pés-disse ela a Robert Jordan, que'lhe sorriu. -Não podes secá-los. com os teus cabelos? -perguntou de forma a que Pilar ouvisse. -Que porco! -exclamoil ela.-Primeiro era o dono do solar. Agora já é o próprio ex-Nosso Senhor em pessoa. Dá-lhe com uma dessas achas, Maria. -Estou a brincax porque me sinto feliz-informou Jordan. -Estás contente ? -Estou, sim. Paxece-me que tudo vai bem. -Roberto-disse Maxia-aquece os pés enquanto eu axranjo uma bebida quente. -Dir-se"ia que é.a primeira vez que este homem tem os pés húmidos-disse Pilar-e que nunca viu um floco de neve. Maxia trouxe uma pele de carneiro. -Aqui. Põe os pés aqui até que as alparcatas sequem. Aquele couro cru e ressequido estalou quando os pés de Jordan o pisaram. A fumaceira era grande e Pilar gritou para Maria: -Sopra este lume, vadia. Isto aqui não é uma casa de defumação. -Sopra-o tu. Estou a procurax a garrafa que El Sordo deixou. -Está atrás dos sacos. Queres então tratá-lo como se fosse uma criancinha de mama? -Não - respondeu Maria. - Quero tratá-lo como um homem que está molhado e gelado. E como um homem que acaba de chegar a sua casa. Aqui está-disse entregando-lhe a garrafa.-Dá um lindo candeeiro. Quando voltarmos a ter electricidade, podemos fazer um lindo candeeiro com istoe Maxia olhava a garrafa com admiração. - Como queres tomar isto, Roberto? -já não sou o Inglês? 198 -Diante dos outros digo Roberto - respondeu Maria em voz baixa e corando. - Como queres tomar isto, Roberto ? -Roberto -repetiu Pablo em voz pastosa, imitando-a. -Como queres tomar isto, Don Roberto? -Tu queres?-indagou o rapaz. Pablo acenou que não com a cabeça: -Estou a embebedar-me com vinho - respondeu com dignidade. -Pois fica-te com Baco-murmurou Jordan. -Baco? Quem é esse freguês? -Uma camarada teu. -Nunca ouvi falar de semelhante criatura. Não mora aqui por estas montanhas.


-Dá uma dose a Anselmo - disse Jordan voltando-se para Maria.-Ele é quem precisa mais: está congelado. . O rapaz ia calçando as meias, com os olhos na bebida tentadora. Mas o whisky com água não fica leitoso como o absinto. Ah, não há como o absinto! Quem pensaria que eles tinham whisky por estes lados?pensou ele. -Era verdade que La Granja era o lugarda Espanha onde se poderia esperar encontrar tais coisas. E este Sordo que vai comprar uma garrafa para o dinamitista de passagem e que vai à caverna para lha deixar. Não era apenas delicadeza o que tinham estas gentes. A delicadeza teria sido tirar a garrafa do bolso e oferecer um copo. Era o que os franceses fariam, guardando o frasco para outra ocasião. Não, esta atenção profunda, o pensamento de que o hóspede gostaria disto, a ideia de lha trazer para lhe ser agradável, enquanto se partia para uma missão em que havia todas as razoes para pensar apenas em si, e em mais nada que não fosse a missão, era bem espanhol. Uma espécie de cortesia tipicamente espanhola. Ter pensado em trazer o whisky, era uma das coisas que o levavam a gostar deste povo. Mas nada de generalizar. Há muitas espécies de espanhóis como há muitas de americanos. O que não impede que tenha sido muito elegante o ter trazido esta garrafa. -Gostas? -perguntou a Anselmo. O velho estava sentado próximo da lareira, sorrindo, e segurando a caneca com ambas as mãos. Fez com a cabeça um gesto negativo. -A rapariga misturou-lhe água. -É assim que Roberto bebe-respondeu Maria.-Julgas-te mais do que.ele? 199 -Não é isso, mas gosto de sentir a droga queimar-me por dentro, quando desce. -Então dá-me esse-disse Robert Jordan à raparigae dá-lhe um que queime. -Ah! - Tomando a caneca de whisky puro, Anselmo inclinou a cabeça para trás e deixou o líquido escorregar pela garganta abaixo. Voltando-se para Maria, de pé a seu lado com o frasco na mão ou os olhos onde apareciam lágrimas. pisc Isto sim. Isto-e lambeu os lábios-isto é que mata o bicho que nos rói. -Roberto-disse Maria aproximando-se com a garrafa na mão-queres comer agora? -Está pronto? -Estará pronto quando quiseres. -E os outros já comeram? -Todos, menos Anselmo e Fernando. -Então vamos a isso. E tu? -Depois, com Pilar. -Comam agora connosco. -Não, isso não ficaria bem. -Venham comer! Na minha terra um homem não come antes da sua mulher. -Isso é na tua terra. Aqui é uso comer depois. -Come com ele!- ritou Pablo da cabeceira da mesa. 9 -Come com ele. Bebe com ele. Dorme com ele. Morre com ele. Segue os costumes da terra dele. -Estás bêbedo? - perguntou Robert Jordan de pé na kente de Pablo. O homem de cara suja e pêlo hirsuto olhou-o divertido.


-Que terra é essa onde os homens e as mulheres comem juntos? -perguntou Pablo. -Estados Unidos, Estado de Montana. -É lá que os homens usam saia, como as mulheres? -Não. Isso é na Escócia. -Mas ouve-tornou Pablo-quando vocês usam saias assim, Inglés... -Eu não uso saia-respondeu Robert Jordan. -Quando vocês usam as tais saias-continuou Pabloque é que trazem debaixo delas? -Não sei o que os escoceses trazem -*disse Robert Jordan -e nunca pensei nisso. -Não estou a falar de escoceses- resmungou Pablo. -Quem faz caso dos escoceses? Quem dá importância a gente com um 20O nome assim? Estou a falar de ti, IngUs. Que usas tu por baixo da saia, na tua terra ? -já disse duas vezes que não uso saia-tomou Jordannem quando estou bêbedo, nem a brincar. -Mas que usam debaixo das tais saias?-insistiu Pablo. -Pois toda a gente sabe que vocês usam saias. Até os soldados. Vi fotografias e também vi no Circo de Price. Que usas tu por baixo das saias., Inglês? -Los co; . ones-respondeu Jordan. Anselmo riu-se e também se riram os outros, excepto Fernando. O palavrão soara-lhe mal, principalmente estando mulheres presentes. Sentiu-se melindrado. -Isso parece-me normal-disse Pablo.-Mas parece-me que. quando se tem bastante cojones, não se trazem saias. ~ -Não deixes insistir nisso - reclamou o homem de nariz quebrado, cujo nome era Primitivo.-Ele está bêbedo. Dize-me, que criam lá pela tua terra? -Bois e carneiros -respondeu Jordan. -E plantam muitos cereaig. e feijões. E também muita beterraba para fazer açúcar. Estavam os três sentados à mesa, os outros foram-se aproximando, menos Pablo, que ficou so'zinho diante da sua caneca. O 'guisado era o mesmo da véspera e Jordan comeu-o ávidamente. _~1á montanhas na tua terra? Com um nome desses, Montana, com certeza que há lá montanhas? - indagou Prinu*tivo cortêsmente para,iniciar a conversa. Estava envergonhado da.embriaguez de Pablo. -Muitas montanhas e,muito, altas. -Y, os pastos? Bons? -Excelentes; pasto alto no Verão, nas florestas contro1adas pelo governo. Depois, no Outono, o gado é conduzido para as vertentes mais baixas. -As terras pertencem aos camponeses? -Muitás são propriedade dos que as cultivam. A princípio a terra era propriedade do Estado mas se um homem ia morar num sítio e declarava pretender cultivá-lo, obtinha um título de propriedade de cento e cinquenta hectares. -Conta-me como é feita essa coisa - pediu Anselmo. -Aí' está uma reforma agrária que já representa alguma coisa. Jordan explicou o regime que nunca tinha encarado como uma reforma agrária. -Isso é esplêndido! -gritou Primitivo. - Então na tua terra vocês têm o comunismo? -Não. É coisa da nossa República.


201 -Na min4a ideia-disse Agustin-tudo pode ser feito por um governo republicano. Não vejo necessidade de outra forma de governo. -Há lá grandes proprietários? -E muitos. -Então deve haver abusos. -Naturalmente que há e numerosos. -Mas estão a acabar com eles., não é? -Sim, estão, mas ainda se verificam muitos. -E não.:há grandes propriedades que devam ser divididas? -Há. E há os que supoem que os impostos progressivos conseguem fazer a divisão. -Como? Robert jordan, limpando cdm pão o fundo do prato, explicou como actuavam os impostos sobre os rendimentos, e sobre as heranças. -Mas' as grandes propriedades continuam. Também temos impostos territoriais. -Com certeza os grandes proprietários e os ricos ainda acabam por fazer uma revolução contra os impostos. Esses impostos parecem-me revolucionários. Eles vão-se revoltar contra o governo, quando se virem ameaçados, exactamente como os fascistas fizeram aqui--disse Primitivo. - É possível -E vocês terão que combater na vossa terra como nós combatemos aqui? - É provável. -E existem muitos fascistas por lá? -Há muitos que não sabem que 'são fascistas agora, mas virão a sabê-l~ com o tempo. -E vocês. não podem destruí-los antes de se revoltarem? -Não - respondeu jordan. - Não podemos destruí-los. Mas podemos educar o povo para que tenha medo ao fascismo eo combata logo que aparecer. -Sabes onde não há fascistas? -perguntou Andrés. -Onde? -Na cidade de Pablo, - respondeu Andrés sorridente. -Sabes o que fizemos nessa cidade ?-perguntou Primitivo a jordan. -Sei, sim. Contararri-me. -Pilar? -Sim. 202 -Então não sabes tudo-interveio Pablo com voz pastosa.-Porque ela não assistiu ao final, caiu da cadeira lá na janela. -Conta-lhe o resto-disse Pilar-já que eu não sei a história toda. -Não-recusou Pablo.-Eu. nunca o contei a ninguém. -E agora muito menos-rosnou Pilar.-Agora o que querias é que não tivesse acontecido. -Protesto! -repontou Pablo.-Não é verdade. E se todos tivessem morto os fascistas como eu os matei, não teríamos esta guerra. Mas o que eu hoje queria é que as coisas não se tivessem passado como se passaram. -Porque dizes isso? -interrogou Primitivo. -Mudas de política? -Não, mas aquilo foi bárbaro de mais. Eu era um bárbaro naquele tempo.


-E agora és um bêbedo-observou Pilar. -Sim-respondeu Pablo.-Com a tua licença. -Eu gostava mais de ti quando eras bárbaro-disse a mulher.-De todos os homens o bêbedo é o pior. O ladrão quando não está a roubar, é igual a qualquer outro homem. O chantagista, não faz chantagem em sua casa. O assassino quando está em casa pode lavar as mãos. Mas o bêbedo fede e von-úta na própria cama e dissolve os órgãos no álcool. . -Tu és mulher e não me compreendes - respondeu Pablo com resignação.-Eu embebedax-me-ia e sentir-me-ia feliz se não fosse aquela gente que matei. Enchem-me de desgosto-e ergueu a cabeça com ar lúgubre. -Dêem-lhe um pouco disso que El Sordo trouxe-gritou Pilar. -Qualquer coisa que o anime. Está a ganhar uma tristeza insuportável. -Se eu pudesse fazê-los regressar à vida, fazia-o. -Me cago! - urrou Agustin. - Que espécie de lugar é este ? -Pois eu os ressuscitaria a todos-repetiu Pablo em tom triste.-Um a um. -A tua mãe!-berrou Agustin.-Acaba com essa maneira de falar e põe-te a andar. Aqueles fiLscistas foram muito bem mortos. -Pois sustento o que disse-voltou Pablo.-Voltava a fazê-los viver. -E depois irias andar em cima da água-rosnou Pilar. -Em toda a minha vida não vi um homem assim. Até hoje ainda conservava uns restos de energia. E agora não tem nem com que fazer um gato doente. E mesmo assim, contente com a sua covardiaè -Nós devíamos matar todos ou não matar nenhum* Pablo, abanava a cabeça. -Dize-me, Inglés-indagou Anselmo-como vieste paixar * Espanha? Não dês atenção a Pablo. Está bêbedo. -Vim pela primeira vez, há uns doze anos, para conhecer * país e estudar a língua-respondeu Robert Jordan.-Ensino espanhol numa universidade. -Pois não tens ar de professor- advertiu Primitivo. -Nem barba tem-acrescentou Pablo.-Olhem paxa ele. Não tem barba. -Tu és realmente professor? -Leitor. -Mas ensinas? -Ensino. -E porque ensinas espanhol? - perguntou Andrés. -Não seria mais fácil ensinar inglês, já que és inglês? -Se ele fala o espanhol como qualquer daqui-lembrou Anselmo-porque não havia de ensinar espanhol? - Sim, mas em suma, é um pouco pretensioso para um estrangeiro ensinar espanhol - disse Fernando. - Não quero ofender-te, Don Roberto. -Ele é um falso professor - volveu Pablo satisfeito consigo próprio.-Pois se nem barba tem. -Mas naturalmente sabe mais inglês do que espanholcontinuou Fernando.-Não teria sido melhor, mais fácil e mais claro, ensinar inglês? -Mas ele não ensina espanhóis... -tentou intervir Pilar. -Espero-o! -disse Fernando. - Deixa-me acabar, cavalgadura -retrucou Pilar. - Ensina espanhol aos americanos, aos americanos do Norte. -E porque é que esses americanos do Norte não falam espanhol como os do Sul?-perguntou


convicatmente Fernando. - Quê burro! Ele ensina espanhol aos americanos do Norte que falam inglês. -Mesmo assim, julgo que lhe seria mais fácil ensinar inglês, que é a língua que ele fala-teimou Fernando. -Mas tu não vês como ele fala correctamente espanhol? -arguiu Pilax, abanando a cabeça para Jordan, desanimada. -Fala com sotaque. -De onde? -Da Estremadura-disse Fernando com ax sentencioso. 204 -Ç)h, minha mãe-gemeu Pilar.-Que gente! -E possível-volveu Jordan. - Foi de lá que eu vim para aqui. -Como de resto Fernando está farto de saber-acrescentou Pilar. - Meu rabugento, não queres comer mais nada? -Eu comeria mais alguma coisa se houvesse -respondeu Fernando. - Não julgues que quis dizer qualquer coisa contra ti, Don Roberto. -Leche! -murmurou Agustin.-E mais leche. Estaremos a fazer a revolução para chamar Don Roberto a um camarada? -Pois a meu ver, justamente na revolução é que devíamos todos tratar-hos por Don-disse Fernando.-Assim é que devia ser na República. -Leche!-tornou Agustin.-Leche preto. -Eu cá continuo na minha-insistiu Fernando.-Seria muito melhor e mais claro que Don Roberto ensinasse in és. '91 -Don Robcrto não tem barba-repetiu Pablo.-E um falso professor. -Que queres tu dizer com esse não ter barba?-interpelou Jordan. - Então isto que é ? - e bateu no rosto com barba de três dias, muito loura. -Não é barba-continuou Pablo abanando a cabeça. -Isso nunca foi barba-e quasejovial acrescentou: -Ele é um falso professor. -Me cago no leite de todos-berrou Agustin.-Parece urna casa de doidos. -Tu devias beber-disse-lhe Pablo.-A mim tudo me parece natural, excepto a falta de barba de Don Roberto. Maria passou a mão pelo rosto de Robert Jordan. -Mas ele tem barba-disse ela. -Tu deves sabê-lo -retrucou Pablo. E Robert Jordan olhou-o. «Não creio que esteja assim tão bêbedo,» pensou Robert Jordan. «Não, não estás assim tão bêbedo. E farei bem em pôr-me em guarda.» -Dize lá, então, Pablo -perguntou -parece-te que a neve vai durar? -Porque perguntas isso? -É uma pergunta como outra qualquer. -Então pergunta a outro-respondeu Pablo.-Não sou o teu serviço de informações. Tu tens um papel do serviço de informações. Pergunta à mulher. É ela quem manda. -Foi a ti que perguntei..


20.5 -Me cago em todos-rompeu Pablo.-Em ti, na mulher e na rapariga. -Ele está bêbedo-disse Primitivo.-Não lhe ligues, I?~g1íS. -Não me parece que esteja assim tão bêbedo -respondeu Jordan. Maria estava de pé atrás dele, e Robert Jordan via os olhos de Pablo que a observavam por cima dos seus ombros. Os olhos pequenos como os do javali na cabeça redonda e peluda observavam-na e Robert Jordan pensava: encontrei muitos assassinos nesta guerra e mesmo antes e eram todos diferentes; não há traço comum; nem tipo de criminoso; mas Pablo é positivamente horrendo. -Não creio que tu saibas beber-disse a Pablo-nem que estejas bêbedo. -Estou bêbedo -respondeu Pablo, com dignidade. -Beber não é nada. Ficar bêbedo é o importante. Estoy muy borracho. -Duvido muito dessa bebedeira. Covardia é que é. Cresceu de súbito um tal silêncio na gruta que se podia ouvir o crepitar da lenha na lareira onde Pilar cozinhava. Robert Jordan ouviu os estalidos da pele de carneiro em que tinha pousado os pés. Imaginou até ouvir a neve cair lá fora~ Não a ouvia, mas ouvia o silêncio em que ela caía. Queria matá-lo e acabar, pensou Robert Jordan. Não sei o que ele vai fazer, mas pela certa não é nada de bom. Depois de amanhã a ponte. Este homem está podre e constitui um perigo para o bom resultado da empresa. Vamos. Acabemos com ele. Pablo sorriu-lhe, levantou um dedo e passou-o pela garganta. Abanou a cabeça sobre o pescoço curto e groàso e disse: -Não, Inglês, não me provoques.-E olhando para Pilar: -Não há-de ser deste modo que tu te verás livre de mim. -Sin verguenza - insultou Jordan já resolvido a agir. Cobarde. -É possível - volveu Pablo. - Mas não estou disposto a considerar-me provocado. Bebe um trago, InglIs, e diz à mulher que o plano falhou. -Cala essa boca - gritou Jordan. - Estou a provocar-te por minha conta. -Perdes o teu tempo-respondeu Pablo.-Não me dou por provocado. -Tu és um bicho raro -disse Jordan, não querendo perder a oportunidade pela segunda vez, mas sabendo que o pretexto diminuía enquanto falava. 206 Tinha a intuição de estar a representar de cor o papel de uma peça lida ou sonhada e sentia tudo girar-lhe à volta. -Muito raro mesmo-disse Pablo.-Muito raro e muito bêbedo. À tua saúde, Inglês!- Mergulhou a caneca no cangirao do vinho e ergueu-a.-Saludy cojones. «Ele é realmente extraordinário, corajoso e complicado,» ponderou Jordan, «cuja respiração ofegante lhe não permitia já ouvir o crepitar da lenha.» -Ã tua. saüde-retribuiu Robert Jordan, e mergulhou a caneca no vinho. «A traição não significará nada sem todas as honras,» pensou ele. «Rendamos-lhas.» -Salud-disse ele.-Salud e mais salud, como eu te saludo. Salud e ainda mais salud. -Don Roberto - murmurou Pablo com voz pastosa. - Don Pablo. -Tu não és professor porque não tens barba. E para dares cabo de rnim será necessário assassinar-me, e também não tens coiones.


Encarava Robert Jordan, a boca fechada de tal maneira que os seus lábios eram uma linha estreita; «corno a boca de um peixe,» pensou Robert Jordan. «Com essa cabeça pareces um peixe-serra dos que engolem o ar e incham quando são pescados.» -Satud Pablo-tornou Jordan erguendo a caneca e esvaziando-a.-Estou a aprender muita coisa contigo. -Estou a ensinar ao professor. -Pablo abanou a cabeça. -Vamos Don Roberto, sejamos amigos. -:-Mas já somos amigos-disse Robert Jordan. -Sejamos agora bons amigos. -Mas já somos bons amigos. - Vou sair daqui - disse Agustin. - Dizem que precisamos de comer uma tonelada dessa coisa durante a vida, mas já tenho duas arrobas metidas em cada ouvido neste instante. -Que é que houve, negro ?-perguntou Pablo.-Não te agrada ver Don Roberto e eu como amigos? .-Lava essa boca antes de me chamares negro. Agustin levantou-se e colocou-se diante dele balançando os braçgs. -E como dizem por aí-disse Pablo. -Mas não quero que tu o digas.. -Bom' então blanco. -Também não. -Então que és tu então? Vermelho? 207 -Sim. Vermelho. Rojo. Com a estrela do Exército Vermelho e pela República. E chamo-me Agustin. -Que grande patriota! -exclamou Pablo. - Vê, Inglês, que belo patriota! Agustin assentou-lhe uma bofetada com as costas da mão esquerda. Pablo continuou sentado. Tinha os cantos da boca sujos de vinho, e a sua <expressão não mudara, mas Robert Jordan observava os seus olhos estreitos, como as pupilas quase verticais de um gato sob a acção de uma luz muito forte. -Nem isso-disse ele.-Nem isso, mulher.-E voltando-se para Pilar:-não me deixo provocar. Agustin esbofeteou-o novamente. Desta vez atirou-lhe um murro na boca. Robert Jordan segurava a pistola debaixo da mesa. Tinha-a destravado e afastara Maria com a mão esquerda. A rapariga vacilou apenas e empurrou-a com as costas da mão esquerda para que se afastasse de facto. Desta vez ela afastou-se e pelo canto do olho ele viu-a deslizar ao longo da parede em direcção ao lume; então espiou a face de Pablo. O homem de cabeça redonda, sentado, olhava Agustin com os seus olhinhos apertados. As pupilas estavam agora ainda mais pequenas. Lambeu os beiços, levantou um braço, limpou a boca com as costas da mão, olhou para ver o sangue na mão. Passou a língua pelos lábios e escarrou. -Nem isso. Não sou nenhum tonto. Não reagirei a nenhuma provocação-foi tudo quanto disse. -Cabron-gritou Agustin. -Tu deves sabê-lo -observou Pablo.-Conheces a minha mulher. . Agustin feriu-o de novo muito rijo na boca, e Pablo pôs-se a rir, mostrando os dentes amarelos, partidos, estragados, na linha avermelhada da boca. -Acaba com isso-disse Pablo metendo a caneca para tirar um pouco de vinho do cangirão.-Aqui ninguém tem cojones para me matar e este jogo de mãos é idiota. - Cobarde -exclamou Agustin.


-Palavras também não adiantam - continuou Pablo aspirando o vinho para lavar a boca. Bochechou e cuspiu para o chão.-Não faço caso das palavras. Agustin ficou diante dele a insultá-lo; falava devagar, com clareza e desdém, e o fluxo das suas injúrias era tão regular como se estivesse a tirar estrume de um carro para um campo com uma forquilha. -Isso também não, não pega. Acaba, Agustin. E não me batas mais. Vais dar cabo das mãos. 208 Agustin afastou-se rumando para a entrada da caverna. -Não saias-disse Pablo.-Está a nevar muito. Estás aqui bem, no quente. - Oh tu! Tu! -Agustin virou-se para lhe falar pondo todo o seu desprezo naquele-Tu. -Sim, eu-tornou Pablo.-Estarei vivo quando já estiveres morto. Encheu de novo a caneca de vinho e ergueu-a, na direcção de Jordan. -Ao professor - disse ele. E voltando-se para Pilar: -À sna Comandante.-E para os outros, olhando-os a todos: -A quantos sustentam ilusões. Agustin avançou para ele e com um revés de mão fez voar a caneca. -Isto é estragar vinho--ironizou Pablo.-É idiota. Agustin soltou um palavrão obsceno. -Não - disse Pablo enchendo outra caneca. - Estou bêbedo, estás a ver? Quando não estou bêbedo, não falo. Tu nunca me ouviste falar tanto. Mas um homem inteligente tem que beber às vezes para passar o tempo entre imbecis. -Me cago no leite de tanta covardia-gritou Pilar.Conheço-te de mais a ti e à tua covardia. -Como esta mulher fala!-comentou Pablo.-Vou ver os cavalos. -Vai namorá-los- disse Agustin.-Não está nos teus hábitos ? -Não -respondeu Pablo abanando a cabeça. Estava prestes a pegar na capa feita de um cobertor que estava pendurada na parede e olhava Agustin. -Tu -disse ele-como podes ser violento! -Que vais tu fazer com os cavalos? -perguntou Agustin. -Gosto muito de cavalos - respondeu Pablo. - Mesmo vistos por trás são melhores e têm mais senso do que voces aqui. Divirtam-se muito-continuou sorrindo. -Fala-lhes da ponte, IngIés. Explica o dever de cada um no ataque. E como vais conduzir a retirada. Aonde os levarás tu depois da ponte, IngIés? Aonde vais levar os teus patriotas? Estive com isso na cabeça o dia inteiro, enquanto bebia. -E que pensas tu?-quis saber Agustin. - Que pensei?-e Pablo mexeu com a língua dentro da boca.-Qué te importa o que pensei? -Diz-intimou Agustin. -Em muita coisa-volveu Pablo ajeitando sobre a cabeça um encardido cobertor amarelo. - Pensei em muita coisa. 14-S. D. 209 -Em quê? Vamos. Em quê? -Pensei que vocês eram um pobre bando de iludidos, comandados por uma mulher que tem o miolo entre as coxas e por um estrangeiro que veio para nos destruir a todos. -Vai-te-gritou-lhe Pilar.-Vai rebentar na neve. Vai arrastar o teu mau sangue para outra parte, maricon de cavalos. -Isso é que é falar-comentou Agustin com admiração, mas preocupado. Estava inquieto.


-Vou, sim, mas não tardarei a voltar-disse Pablo e levantando o cobertor que servia de reposteiro, saiu, gritando da boca da caverna:-A neve está a cair, Inglés. 210 CAPITULO XVII Oúnico rumor que havia agora na caverna era o chiar da neve que caía pelo buraco do tecto nas brasas da lareira. -Pilar - disse Fernando - ainda há daquele guisado? - Cala-te -respondeu a mulher.-Maria, porém, pegou no prato de Fernando e encheu-o pela segunda vez. Serviu-o e bateu-lhe no ombro. Fernando não levantou os olhos. O que queria era comer. Agustin estava de pé diante do lume. Os demais, sentados. Pilar sentou-se à mesa defronte de jordan. -Agora, Inglés, viste como ele é. -E que pretenderá fazer? -Tudo.-A mulher olhava a mesa.-Tudo. Ele é capaz de tudo. -Onde está a metralhadora? -perguntou Robertjordan. -Ali no canto, embrulhada no cobertor - respondeu Primitivo. -Precisas agora dela? -Não. Depois. Só queria saber onde estava. -Está ali-continuou Primitivo. -Entrei e embrulhei-a no meu cobertor para a manter seca. As munições estão no saco. -Com isso ele não fará nada-disse Pilar.-Com a mdquina não lida. -Mas tu disseste que ele faria tudo. -Sim, mas não sabe trabalhar com a mdquina. Prefere atirar bombas. É mais do feitio dele. -Foi uma idiotice e uma fraqueza não o matarem de uma vez-disse o cigano, que até aquele momento não entrara na conversa. -Roberto devia tê-lo morto a noite passada. -Pois matem-no -murmurou Pilar com expressão sombria.-Agora acho que deve morrer. 211 -Eu era contra - disse Agustin. De pé, diante da lareira, com os longos braços pendentes as suas faces pareciam mais chupadas do que nunca. - Mas agora sou a favor. Pablo, tornou-se venenoso. Gostaria de nos ver a todos destruídos. -Que todos dêem a sua opinião -murmurou Pilar com voz cansada.-Tu, Andrés? -Matarto-votou o irmão a quem os cabelos desciam até ao fundo da testa em bico, abanando a cabeça. -Eladio? -Igualmente -respondeu o outro irmão.-A meu ver ele representa um grande perigo. E não serve para nada. - Primitivo ? -Igualmente. -Fernando? -Não o poderíamos guardar prisioneiro? -E quem tomaria conta dele ? - inquiriu Primitivo. -São precisos dois homens para tomar conta de um e no fim que faríamos?


-Poderíamos vendê-lo aos fascistas -lembrou o cigano' -Nada disso - atalhou Agustin. - Nada de porcarias. -Foi só uma ideia-respondeu Rafael, o cigano.-Mas parece-me que osfacciosos gostariam de o apanhar. -Pára com isso, Rafael. Não venhas com porcarias. -Porcaria? Ninguém mais porco que Pablo-tornou o cigano para se justificar. -Mas uma porcaria não justifica outra-disse Agustin. -Bem. Estamos todos de acordo, excepto o velho e o Inglés, que ainda não falaram. -Esses não se metem nisto-observou Pilar.-Pablo não foi chefe de nenhum dos dois. -Um momento - reclamou Fernando. - Eu ainda não acabei. -Pois fala-disse Pilar.-Vai falando até que ele volte e faça voar tudo isto com uma bomba. Com os sacos de dinamite e tudo. -Acho que tu exageras, Pilar-volveu Fernando.-Não acredito que ele tenha semelhantes projectos. -Também acho que não-disse Agustin.-Porque também chamaria a atenção sobre ele e ele vai voltar dentro de um momento para beber o seu vinho. -Porque não o enviar a El Sordo para que El Sordo o venda aos fascistas? - voltou a sugerir Rafael. - Podialcegá-lo e seria fácil levá-lo. -Cala-te-gritou Pilar.-Quando tu falas assim, sinto uma revolta cá dentro. - De qualquer maneira os fascistas não pagariam nada por ele-disse Primitivo. -Essas coisas já foram tentadas por outros. Não pagam nada. E acabarão por te fuzilar. -Pois acho que cego podia ser vendido por alguma coisa-insistiu Rafael. -Se voltas a falar em cegá-lo, segues o mesmo camin o e ficas sem olhos. -Mas Pablo cegou aquele guardia civil que estava ferido. já te esqueceste disso? -Cala a boca-tornou novamente Pilar. Estava vexada por se falar de semelhante assunto diante de Jordan. -Vocês não me deixam acabar -interrompeu Fernando. -Pois anda para a frente. Fala de uma vez. -já que não se pode manter Pablo prisioneiro, assim como nos repugna entregá-lo aos fascistas... -Acaba-insistiu Pilar.-Pelo amor de Deus, acaba. -...por negociações ou de outra forma -prosseguiu tranquilamente Fernando - concordo que talvez seja preferível eliminá-lo, a fim de que as operações projectadas tenham asseguradas as maiores possibilidades de êxito. Pilar encarou o homenzinho, abanou a cabeça, mordeu os lábios e não disse nada. -Esta é a minha opinião -continuou Fernando.-Estou certo de que estamos mais que justificados com a ideia de que ele representa um perigo para a República... -Mãe de Deus!-exclamou Pilar.-Até aqui nesta gruta um homem consegue fazer burocracia apenas com a boca. -...tanto pelas suas palavras como pelas suas acções mais recentes -continuou Fernando.-E, apesar de merecer gratidão pela maneira como actuou no início do movimento, e mesmo pelo que há pouco tempo atrás... Pilar tinha ido até ao lume. Depois voltou para a mesa. -Fernando-disse tranquilamente Pilar estendendo-lhe um prato. - Toma este guisado, peço-te por favor, enche essa boca e não digas mais nada. já estamos cientes da tua opinião. -Mas como então... - principiou Primitivo e parou. -Estoy listo - declarou Robert Jordan. -já que estão todos de acordo neste ponto, ofereço-me para


executar o serviço. - «Mas que me aconteceu?» - ponderou Jordan consigo. «A força de o ouvir falar, pus-me a imitar Fernando. Parece 2r3 que esta língua é contagiosa. O francês é a língua da diplomacia. O espanhol a língua da burocracia.» -Não-protestou Maria. Não. -Nada de intrometer-se no que não é da sua conta -advertiu Pilar.-Ninguém te pediu opiniões. -Liquido o caso esta noite-decidiu Jordan. Neste momento Pilar levou um dedo à boca. Tinha os olhos na cortina da entrada. O cobertor colocado na entrada da gruta moveu-se e a cabeça de Pablo apareceu. Sorriu para todos, entrou e voltou-se para pendurar a capa atrás de si. Depois, de pé, enfrentando-os tirou a manta que trazia na cabeça e sacudiu a neve. -Estavam a falar de mim? Estou a interromper a conversa ? Ninguém lhe respondeu. Pendurou a manta num gancho da parede e aproximou-se da mesa. -Quê tal? - exclamou, e tomando uma caneca vazia mergulhou-a no cangirão.-Aqui já não há vinho, Maria. Vai enchê-lo ao odre. Maria pegou no cangirão e foi enchê-lo na encardida pele de carneiro pendurada de pescoço para baixo na parede; retirou a rolha de uma das pernas e deixou que o vinho corresse para o cangirão num jorro vermelho-ecuro. -Cuidado-disse ele.-O vinho já está abaixo do peito, Ninguém deu uma palavra. -Hoje bebi do umbigo ao peito - continuou Pablo. -Foi um dia de bom trabalho. Mas que têm vocês todos? Perderam a língua? O silêncio continuou. -Põe a rolha, Maria. Não deixes transbordar. -Não tenhas medo de perder vinho - disse Agustin. -Há vinho para um bom bêbedo apanhar uma boa borracheira. -Olá! Então já há um que recuperou a língua? Felicitações. Pensei que também estivesse mudo. - Porquê ? - perguntou Agustin. -A minha entrada. Julgas que a tua entrada tem alguma importância? «E ele mesmo que se está a meter em trabalhos -pensou Robert Jordan.-Talvez Agustin vá dar cabo dele. Odeia-o o suficiente. Eu não o odeio. Não, não o odeio. Enoja-me mas não o odeio. Apesar de que esta história de rebentar os olhos o coloca numa classe especial.Todavia, isso é a guerra deles. Mas 214 ião a podemos ter à nossa volta nestes dois dias. Vou pôr-me io lado desta coisa toda, pensou. já fiz o papel de tonto esta ioite e estou decidido a liquidá-lo de uma vez para sempre. Mas não cairei noutra. E *não haverá duelos à pistola nem outras histórias com esta dinamite toda. Pablo, já pensou nisso naturalmente. E tujá pensaste? -perguntou-se. -Não e Agustin ainda menos. Tu mereces bem tudo o que te acontecer-continuou a pensax.» -Agustin! -chamou. -Que é lá?-e os olhos coléricos de Agustin voltaram-se de Pablo para o rapaz.


-Tenho uma palavra a dizer-te. -Depois. -Não. Já-disse Robert Jordan. -Por favor. Jordan encaminhou-se para a entrada da gruta, seguido pelo olhar de Pablo. Agustin, alto, de faces chupadas, ergueu-se e can-iinhou ao seu encontro. Parecia relutante e despeitado. - Esqueceste-te do que está nos acos ? - murmurou Jordan tão baixo que nenhum dos outros ouviu. -Leche! A gente acaba por se habituar e esquece. -Eu também me tinha esquecido. -Leche! Que loucos somos! -Desplicentemente Agustin. voltou para o seu lugar na mesa e sentou-se.-Mais um copo, meu velho-disse para Pablo.-Como estavam os cavalos? -Muito bem. E está a nevar menos. -Parece-te que vai parar? -Julgo que sim. Está a diminuir e caem só uns flocos pequenos e duros. O vento vai continuar, mas a neve acaba. O vento mudou. -Julgas que temos bom tempo amanhã? -perguntou Jordan. -Sim. Tempo claro e mais frio. O vento está a mudar. «Olhem para ele - pensou consigo Jordan. Agora está camarada. Será que também mudou como o vento? Cara e corpo de porco, e sei que é autor de vários assassínios e tem no entanto a sensibilidade de um barómetro. Sim, mas o porco também é um animal muito inteligente. Pablo, odeia-nos, ou talvez só odeie os nossos planos, e levou o seu ódio até ao ponto de nos induzir a liquidá-lo. E quando vê que a coisa chegou a esse ponto, muda. de rumo e recomeça de novo como se nada se tivesse passado.» -Nós vamos ter tempo favorável para o trabalho, IngIés. -jVós ?-perguntou Pilar.-jVós? 215 -Sim, nós-respondeu Pablo, sorrindo e bebendo um trago. -E porque não? Estive a pensar nisso lá fora. Porque não havemos de concordar? -Concordar com quê? -Com tudo-respondeu Pablo.-Estou agora com vocês neste assunto da ponte. -Concordas connosco depois de tudo quanto disseste? -interpelou Agustin. -Exactamente. Com esta mudança de tempo vou no vosso jogo. Agustiu abanou a cabeça. -Por causa do tempo? - repetiu com sarcasmo. - E depois das bofetadas que te dei? - Sim. - Pablo sorriu e passou a mão pelos lábios. - Depois disso também. Jordan voltou-se para Pilar. A mulher olhava para Pablo como para um animal estranho. Tinha ainda no rosto a expressão sombria que lhe viera com a referência à cegueira. Sacudiu a cabeça corno para afastar aquele pen.samento. -Ouve-disse ela a Pablo. -Sim, mulher. -Que se passa contigo? -Nada. Apenas mudei de opu*u*ão. Mais nada. -Estiveste a escutar à porta? -Estive, mas não fui capaz de ouvir nada.


-Tens medo que te matem. -Não-respondeu ele encarando-a por cima da caneca de vinho.-Eu não tenho medo disso. Tu bem o sabes. -Então que reviravolta foi essa?-perguntou Agustin. -Há um momento estavas para aqui bêbedo, insultando-nos a todos, referindo-te à nossa morte de uma maneira ignóbil, ofendendo as mulheres, opondo-te nitidamente àquilo, que vamos fazer... -Eu estava bêbedo-murmurou Pablo. - E agora... -A bebedeira já passou e mudei de ideias. - Quem quiser que acredite em ti. Eu é que não-disse Agustin. - Confiem ou não, só eu aqui sou capaz de os levar para os Gredos. -Para os Gredos? -É o único sítio para onde podemos ir depois da ponte ter rebentado. 216 jordan olhou para Pilar e disfarçadamente bateu com o dedo no ouvido, como a consultá-la com essa mímica se Pablo teria ouvido. Pilar acenou que sim com a cabeça e segredou algo a Maria, que se aproximou de jordan para lhe dizer baixinho: -Pilar diz que Pablo ouviu com toda a certeza. -Então, Pablo -interpelou judiciosamente Fernando agora estás connosco e com o negócio da ponte? -Sim, homem. De pleno acordo.-Olhou Fernando nos olhos e acenou que sim. -De verdade mesmo? -perguntou Primitivo. Í -De veras-respondeu Pablo. -E pensas que a coisa vai dar certa? Que vai dar resul tado? já tens agora confiança no trabalho? -E porque não? Tu não tens confiança nele? -Tenho, mas não é de agora. Sempre tive. -Preciso sair daqui-murmurou Agustin. -Lá fora está muito frio-avisou Pablo em tom cordial. -É possível, mas não posso aguentax mais tempo este manicómio. -Não digas que a nossa caverna é uma casa de doidos disse Fernando. Um manicómio para loucos furiosos -retrucou Agustin. -E vou-me safar antes de enlouquecer também- concluiu. 1 CAPITULO XVIII como as rodas de cavalinhos -pensou Jordan. -Não dos x<Eque giram muito depressa, ao som de um realejo automático e em que as crianças montam em vacas de cornos dourados e há as clássicas argolinhas, na luz vacilante do gás que rasga o crepúsculo azul da avenida do Maine...


uma destas rodas encostadas a uma barraca de comes-e-bebes e a uma roda-de-fortuna girando e estalando, com o indicador de celulóide, sobre o oleado cheio de divisões e números e, no fundo, a pirâmide dos prêmios. Não, não se trata de uma destas rodas, embora aqui também haja gente reunida esperando, como os homens de boné e as mulheres de blusa e cabeça descoberta, que vêem o girar da roda-de-fortuna. Sim, as pessoas estão bem lá. Mas a roda é outra. Uma que subirá para descer sempre e girar. «Já deu duas voltas. E uma roda grande que gira em plano inclinado. Cada vez que dá uma volta inteira regressa ao ponto de partida. Há um lado mais alto que outro. A roda faz-nos subir quando partimos para logo nos descer ao nível do ponto de partida. Também não há prêmios e ninguém entra por deliberação própria. Ficamos por cima em cada golpe e fazemos a volta sem o termos desejado por nada deste mundo. Há apenas uma volta, uma volta helicoidal que sobe e desce, para voltarmos ao ponto de partida. E agora estamos outra vez no ponto de partida, pensou ele, e tudo está por fazer.» Muito calor na caverna e lá fora o vento diminuíra. Jordan estava sentado à mesa, diante do caderno de notas, calculando a parte técnica da explosão da ponte. Fez três esboços, traçou fórmulas e depois apontou a mantira. de proceder à explosão em dois desenhos tão simplistas como desenhos de crianças de escola infantil, de modo que Anselmo pudesse guiar-se por aquilo e levar o projecto por diante, se qualquer 218 coisa lhe acontecesse. Concluídos os desenhos pôs-se a estudá-los. Maria, sentada ao lado dele, olhava por cima do seu ombro. Tinha também consciência da presença de Pablo, do outro lado da mesa, e dos outros que conversavam e jogavam às cartas. O cheiro da gruta, que já não era o cheiro de cozinha e da refeição, mas de fumo da l'âreira, suor masculino, tabaco, vinho tinto e suor azedo e azinhavre. Quando Maria, que o via acabar o desenho, pousou a mão na mesa, Jordan pegou nela e encostou-a ao rosto, respirando a frescura da água e do sabão escuro de que ela se tinha servido para lavar a louça. Pousou a mão sem olhar para a rapariga e, como continuasse a trabalhar, ele não a viu corar. Ela deixou ficar a mão na mesa, muito perto da dele, mas não voltou a pegar nela. Tinha terminado o desenho do projecto da demolição e noutra página do caderno começou a apontar as ordens. Estava com o espIrito lúcido e sentia-se satisfeito consigo próprio. Encheu duas páginas do caderno e releu-as cuidadosamente. «Parece-meque é tudo,-ponderou ele. -Está tudo perfèitamente claro e sem falta nenhuma. Os dois postos serão destruídos e a ponte explodirá de acordo com as ordens de Golz e aí acaba a minha responsabilidade. O caso de Pablo é história em que nunca me devia ter metido e que será solucionado de uma maneira ou de outra. Pablo viverá ou morrerá. Mas de qualquer maneira estou-me nas tintas. Mas nunca mais me volto a meter neste assunto. já duas vezes me meti nele e das duas vezes tive que voltar ao ponto de partida; mas não volto a meter-me nele. Fechou o caderno e olhando para Maria, disse: -Hola guapa! Deduziste alguma coisa de tudo isto? -Não, Roberto-e a rapariga pousou a mão na dele que ainda segurava o lápis.-Já acabaste o trabalho? -já. Agora está tudo escrito e explicado. -Que estavas tu a fazer, IngIés ?--perguntou Pablo do outro lado da mesa. Tinha os olhos turvos.


Jordan encarou-o. «Afasta-te da roda fatal, ponderou de si para si. Nada de embarcares outra vez. Parece que ela. vai começar a girar de novo». -A trabalhar no problema da ponte-respondeu o rapaz com bons modos. -E que tal vai a coisa? -Muito bem. Vai tudo muito bem. 219 -Eu estive a matutar no problema da retirada-disse Pablo. Jordan olhou para aqueles olhos de porco bêbedo e para o cangirão de vinho quase vazio. «Não te metas na roda, amigo Jordan, -reflectiu consigo. Pablo está de novo a embebedar-se. Mas não metas outra vez o pé nesta engrenagem. Não dizem que Grant passou uma grande parte da guerra civil bêbedo? E devia passar. Aposto que Grant ficaria furioso com a comparação se pudesse ver Pablo. E por outro lado Grant fumava charuto. É preciso encontrar um charuto para Pablo. É justamente o que falta para completar esta fisionomia. Um charuto mastigado. Onde se poderá encontrar um charuto para Pablo?» - E como vai isso ? - inquiriu Robert Jordan cortêsmente. -Muito bem-respondeu Pablo acenando a cabeça, judicioso e grave.-Muy bien. -Encontraste a solução?-quis saber Agustin da ponta da mesa onde estava a jogar às cartas. -Sim-respondeu Pablo.-E várias. -E onde as encontraste? No cangirão? -Talvez. Quem sabe? Maria, enche outra vez esta coisa fazes o favor, sim? -Naquele odre deve haver óptimas ideias-disse Agustin voltando ao jogo.-Porque não te metes nele de uma vez para sempre? . -Não-respondeu Pablo com calma.-Prefiro procurá-las no cangirão. «Ele também está a evitar entrar na roda, - pôs-se a pensar Robert Jordan. -A roda está a girar sózinha. Não se pode ficar nela durante muito tempo. Esta é uma roda mortal. Sinto-me feliz por já não estar nela. já me pôs com a cabeça tonta uma ou duas vezes. Mas é nesta roda que se metem os bêbedos e os que são realmente mesquinhos e cruéis, e nela ficam até à morte. Isto gira e sobe e o movimento nunca é igual e depois desce-se girando. Pode girar sempre, pensou. Não me apanharão lá outra vez. Não, meu general! já me despedi desta roda, general Grant.» Pilar estava sentada junto da lareira, com a cadeira colocada de tal modo que podia ver por cima dos ombros os dois jogadores de cartas que lhe voltavam as costas. Estava a seguir o jogo. «O mais espantoso aqui é a passagem dos momentos perigosos à serenidade de uma verdadeira vida famíliar, -pensava Robert Jordan.-É no momento em que o diabo desta roda 220 desce, que a gente se mete nela. Mas ninguém me fará voltar a entrar nela. «Há dois dias eu ignorava por completo a existência de Pilar, de Pab~lo e dos outros. Maria era coisa que não existia para mim no Mundo. Era certamente um mundo bastante mais simples. Recebi de Golz ordens perfeitamente claras e definidas e que pareciam perfeitamente realizáveis, se bem que apresentassern algumas dificuldades e trouxessem algumas consequências. Pensei que uma vez destruída a ponte poderia voltar para as li~has ou não voltaria. Se voltasse tinha a intençao de pedir alguns dias de licença para os gozar em Madrid. Nesta guerra não há licenças, mas tenho a certeza de que arranjaria dois ou três dias para passar em Madrid. «Em Madrid, - pensava ele, - queria comprar alguns livros e pediria um quarto no Hotel Flórida e


tomaria um banho bem quente. E mandaria Luís, o porteiro, procurar-me uma garrafa de absinto, se ainda as houver nas Mantequerias Leonesas ou em qualquer outro ponto perto da Gran Via, e ficaria deitado a ler, depois do banho, bebendo um ou dois absintos. E depois telefonaria para o Gaylord a fim de saber se poderia lá ir jantar». Jordan não desejava jantar na Grand Via não só porque a comida não era boa como também era preciso chegar cedo, para ainda encontrar alguma coisa. E depois havia por lá muitos jornalistas seus conhecidos e não queria estar a vigiar as palavras. Ele dese ava estimular-se com absintos e ir ao Gaylord jantar com Karkov e comer bem e beber boa cerveja e saber como ia realmente a guerra. Da primeira vez que tinha ido a Madrid tinha gostado muito do Gaylord; esse hotel cheio de russos parecera-lhe muito sumptuoso, a carne muito boa para uma cidade sitiada e as conversas muito cínicas para uma guerra. «Mas corrompi-me muito depressa» pensou Jordan consigo. «Porque não há-de ter a melhor comida possível quem chega depois de ter realizado uma missão como a minha? E aquele cinismo das conversas que outra coisa era senão a verdade nua e crua? E este negócio será coisa para contar no Gaylord depois de realizado, pensava. Sim, depois de realizado!» Poderia levar Maria para o Gaylord? Não, impossível. Mas podia deixá-la no hotel, onde, depois de um banho quente, ela ficaria à espera que ele regressasse do Gaylord. Sim, era assim que faria; mas depois de conversar a respeito dela com Karkov poderia levá-la mais tarde, porque então estariam cheios de curiosidade e desejariam conhecê-la. 221 «E talvez nem fosse ao Gaylord. Poderia comer cedo na Grand Via e voltar para o Flórida. Mas sabes bem que irás ao Gaylord, porque tens desejo de voltar a rever aquilo; desejas de novo comer aqueles petiscos e desejas rever todo aquele conforto e todo ~,quele luxo, depois de cumprida a missão. Depois regressarás ao Flórida e Maria estará à tua espera. Mas tu só estarás depois de cumprida a missão. Depois de cumprida. Sim, quando estiver terminada. Se levares esta missão a bom termo, merecerás um jantar no Gaylord». O Gaylord era o ponto de reunião dos famosos comandantes camponeses e operários espanhóis que, sem qualquer preparação militar, tinham saído do povo para pegar em armas no início do movimento; e descobria-se que muitos deles falavam o russo. Desses homens lhe tinham vindo as suas primeiras desilusões, alguns meses antes, e tinha feito para uso próprio alguns reparos irónicos. Mas, mais tarde, tinha-se dado conta de que as coisas estavam bem assim. Tinham sido camponeses e operários. Tinham tomado parte na revolução de -1934 e depois da derrota tiveram que abandonar o país; na Rússia tinham-nos enviado à Escola Militar e ao Instituto Lenine, dirigidos pelo Komintern de modo a habilitá-los para os próximos combates e dar-lhes a preparação militar necessária para exercerem um comando. O Komintern tinha procedido lá à sua educação. Numa revolução não se pode revelar a toda a gente de onde vem o apoio, nem convém que se saiba mais do que aquilo que se deve saber. Jordan aprendera-o. Se uma coisa era fundamentalmente certa pouco importavam as mentiras que a rodeiam. Mas mentia-se muito. A princípio a mentira não lhe agradava. Odiava-a. Depois mudou de ideias e começara a amá-la. Era coisa que fazia parte do papel do estar dentro do assunto mas era coisa muito corrupta. Foi no Gaylord que veio a saber que Valentin Gonzalez, conhecido pelo El Campesino ou O Camponês, nunca tinha sido camponês, mas sim ex-sargento, da Legião Estrangeira espanhola,


da qual desertara para combater a favor de Abd-el-Krim. E isso também estava muito certo. Porque não? Precisavam-se chefes camponeses neste gênero de guerra e um chefe camponês real poderia parecer-se de mais com Pablo. Não se podia pois esperar a chegada de um verdadeiro Chefe Camponês! E além de tudo seria campones em excesso. Era preciso portanto fabricar um. E mesmo o El Campesino que vira, com a sua barba preta, grossos lábios negróides e olhos febris, era homem para dar tanto trabalho como um autêntico 222 chefe camponês. El Campesino acabou por se tomar pelo que dele dizia a publicidade: como um autêntico chefe camponês. Era um homem valente e rijo, e ninguém mais valente que ele no Mundo. Mas, meu Deus! Que falador! E quando estava excitado dizia tudo o que lhe vinha à cabeça sem se importar com as consequências da sua indiscrição. E as más consequências já se tinham mostrado de considerar. Mas revelou-se um maravilhoso chefe de brigada em circunstâncias onde tudo parecia perdido. Nunca se apercebia de que tudo estava perdido e lutava sempre até ao fim. Também no Gaylord se encontrava o simples pedreiro Enrique Lister, da Galiza, que comandava agora uma divisão e também falava o russo. Também se encontrava o marceneiro Juan Modesto, de Andaluzia, a quem tinham dado um corpo de exército. Não fora evidentemente em Puerto de Santa Maria que tinha aprendido o russo, se bem que fosse capaz de o fazer se lá existisse uma escola Berlitz que os marceneiros frequentassem. De todos os jovens militares era aquele em que os russos tinham mais confiança, porque era um autêntico homem do partido, «cem por cento», diziam eles, muito orgulhosos deste americanismo. Era muito mais inteligente que Lister e El Campesino. Sim, o Gaylord era bem o lugar que era indispensável frequentar para completar a educação. Lá se verificava como as coisas realmente se passavam e não como oficialmente constava que se passavam. E apenas tinha começado a sua educação, pensava. E ainda levaria muito tempo a completá-la? O Gaylord era bom e são. No começo, quando ainda acreditava no idealismo, aquela realidade tinha-o chocado. Mas agora já sabia o suficiente para aceitar a necessidade de todas as mentiras, e o que aprendia no Gaylord apenas reforçava a sua fé naquilo que considerava como verdade. Gostava de saber como as coisas na realidade se passavam e não como se julgava que tinham acontecido. Numa guerra existiam sempre mentiras. Mas a verdade de Lister, Modesto e El Campesino valia mais que todas as lendas e mentiras. Mas tempo havia de chegar em que todos saberiam a verdade. Mas, enquanto se aguardava, agradava-lhe a existência de um Gaylord onde se pudesse aprender por conta própria. S m, era lá que ele iria, em Madrid, depois de ter comprado os livros e tomado um bom banho quente., bebido o absinto e lido um pouco. Mas este plano era anterior ao encontro de Maria. Bem, agora pediria dois quartos. Ela podia fazer o que quisesse enquanto fosse ao Gaylord e, quando regressasse, ela 223 estaria à sua espera. Ela tinha aguardado todo este tempo nas montanhas. Podia aguardar um pouco mais no Hotel Flórida. Estariam, portanto, três dias em Madrid. Três dias era muito tempo. Levá-la-ia a ver os Irmãos Marx na ópera. A fita estava no cartaz há mais de três meses e com certeza se aguentaria ainda mais três. Ela gostaria muito dos Irmãos Marx na ópera. Ela divertir-se-ia muitíssimo.


Era comprido o caminho do Gaylord àquela gruta. Não, mas não era isso o mais difícil. O caminho comprido seria daquela gruta ao Gaylord. Na primeira vez tinha lá ido com Kachkine e o lugar não lhe tinha agradado. Kachkine tinha-lhe dito que era preciso encontrar Karkov, porque Karkov queria conhecer americanos e porque era homem educado que gostava de Lope de Vega e considerava a «Fuente Ovejuna» como a maior peça teatral de sempre. Talvez fosse verdade, mas não era a opinião de Robert jordan. Karkov tinha-lhe agradado, mas não o lugar. Karkov era o homem mais inteligente que tinha encontrado. Calçado de botas pretas, vestindo calções de montar e um dólman cinzento, tinha os pés pequenos, mãos também pequenas, um rosto e um corpo débeis e inchados e falava deitando perdigotos pelos dentes estragados; no seu primeiro encontro Robert jordan tinha-o achado cómico. Mas tinha mais cérebro e mais dignidade interior, insolência e humor que qualquer outro homem que tivesse conhecido. Mesmo o Gaylord lhe tinha parecido luxuosa e corruptamente indecente. Mas por que motivo os representantes de uma potência que dominava a sexta parte do Globo não haviam de gozar um pouco de conforto? Bem, eles tinham-no e Robert Jordan que a princípio se revoltara acabou por achar tudo natural e aproveitar-se também. Kachkine havia-o apresentado como um homem diabólico e Karkov começara por mostrar-se insultuosamente polido, depois como jordan não armava aos heróis, mas tinha começado a contar uma história muito divertida e muito inconveniente, que o não favorecia muito, Karkov passara da polidez a uma alegre grosseria, depois à insolência e por fim eram amigos. Kachkine era apenas tolerado no meio. Havia pela certa uma mancha negra no passado de Kachkine e o seu trabalho em Espanha era para comprar o esquecimento. Nunca lhe tinham dito o que era, mas talvez agora que Kachkine estava morto lho dissessem. Fosse o que fosse tinha ficado amigo de Karkov assim como da espantosa mulher trigueira, magra, cansada, amorosa, nervosa, sem enfeites e sem amargura, esta 224 mulher de corpo descarnado, descuidado, de curtos cabelos pretos, com laivos cinzentos, que era a mulher de Karkov e agia como intérprete no serviço de tanques. Era também o amante da amante de Karkov, que tinha olhos de gata, cabelos ouro-ruivos (rn£s ruivos ou mais dourados conforme o cabeleireiro), um corpo indolentemente sensual, feito para se amoldar agradàvelmente a outros corpos, uma boca feita para se adaptar a outras bocas e uma alma estúpida, ambiciosa e extremamente leal. Esta mulher gostava de mexericos e dt ligações passageiras que pareciam divertir Karkov. Dizia-se que Karkov tinha outra mulher, além da que trabalhava nos tanques, talvez duas, mas ninguém tinha a certeza. Robert Jordan gostava tanto da mulher como da amante de Karkov. E pensava que também gostaria da outra se a encontrasse, admitindo que havia uma outra. Karkov tinha bom gosto para escolher mulheres. Havia sentinelas com baionetas à porta principal do Gaylord e nessa noite devia ser lá o lugar mais confortável de todo o Madrid cercado. Gostaria de lá estar nessa noite, mais do que ali, ainda que tudo ali estivesse bem, agora que tinham parado a roda. A neve parara -e a roda também. Gostaria de mostrar a sua Maria a Karkov, mas não podia levá-la ao Gaylord sem ter pedido autorização e era preciso ver, também, como o receberiam depois desta expedição. Depois de acabado o ataque, Golz estaria lá e, se tivesse trabalhado bem, já toda a gente o saberia pela boca de Golz. Golz ia brincar com ele por causa de Maria, depois de tudo o que Jordan lhe dissera A


respeito das mulheres. Debruçando-se sobre o cangirão de vinho Jordan mergulhou nele uma caneca que encheu, com um: «com licença.» Pablo consentiu com a cabeça. «Está preocupado com os seus problemas militares, - pensou consigo Jordan. - Não procura a glória na boca do canhão, mas a chave do problema neste vinho. Apesar de tudo o homem deve ter uma grande capacidade para ter sido capaz de comandar este bando com êxito durante tanto tempo.» Com os olhos em Pablo, Jordan começou a pensar que chefe de guerrilha ele poderia ter sido na guerra civil americana. «Houve-os em grande número, -Pensou,-mas poucos soubemos deles. Não se tratava dos QuantrilI, nem dos Mosby, nem do seu próprio avô, mas dos pequenos, dos corredores de bosques. E quanto a beber, Grant teria sido, de facto, um bêbedo? O seu avô jurava que sim. Que Grant estava sempre um pouco bêbedo lá pelas quatro da tarde. Numa altura do cerco de Vicksburg tinha estado 225

completamente bêbedo durante dois dias. Mas o avô afirmava que sempre conduzia tudo normalmente ainda que tivesse bebido; só às vezes era muito difícil acordá-lo. Mas se conseguiam acordá-lo, tudo corria bem. . «Até ao presente não havia nesta guerra e fosse onde fosse nenhum Grant, nem Sherman, nem Stonewall Jackson. Não. Nem Jcb Stuart tão-pouco. Nem Sheridan. Mas havia uma profusão de McCIellans. Os fascistas tinham muitos McCIellans e nós pelo menos três. «Não tinha ainda encontrado, nesta guerra' é certo, nenhum g~ n' militar. Nenhum. Nem coisa que com isso se parecesse. 'O ~ber, Lucas e Hans fizeram um belo trabalho na partee relativa à defesa de Madrid com as Brigadas Internacionais. E Miaja, o velho calvo de lunetas, vaidoso, estúpido como uma coruja, que sabia conversar, valente e obtuso como um touro' que uma hábil propaganda tinha apresentado como o defensor de'Madrid, Miaja tinha-se tomado de tais ciúmes com a pro páganda feita à volta de Kleber que tinha forçado os russos a tirarem-no do seu comando para o enviarem para Valência. Kleber era bom soldado, mas limitado, e falava de mais, na verdade, para a posição que tinha. Golz era bom general, bom soldado, mas sempre fora mantido em plano secundário, nunca lhe deixando liberdade de movimentos. Este ataque era a sua m . aior acção até agora, e Robert Jordan não gostava muito do que conhecia dele. Havia também o húngaro GalI, que a ser verdade metade do que se dizia no Gaylord, devia ser fuzilado. Mesmo se o fosse só dez por cento»-disse Robert Jordan consigo. , . Gostaria de ter visto a batalha onde tinham sido derrotados o . s italianos no planalto atrás de Guadalajara. Mas nessa ocasião


estava na Estremadura. Hans fizera-lhe um relato certa noite no Gaylord, quinze dias antes e tinha-lhe explicado tudo. Houve um momento desesperado, quando os italianos conseguiram romper a linha perto de Trijueque. Se a estrada de Torija -B,rihuega tivesse sido cortada, a Décima Segunda Brigada teria sido cercada. «-Mas sabendo que lutávamos contra os italianos- tinha dito Hans-fizemos uma manobra que seria injustificada contra outras tropas. E que resultou.» Hans explicara-lhe tudo diante dos mapas da região onde se tinha realizado a batalha. Trazia-os sempre consigo, numa .pasta, e parecia maravilhar-se sempre com este milagre. Hans era bom soldado e excelente companheiro. Tinha contado que as tropas espanholas de Lister, Modesto e El Campesino se tinham portado bem nesta batalha. O mérito era dos chefes e 226 da disciplina que impunham. Mas Lister, El. Campesino e Modesto, tinham, porém, executado várias manobras sob os seus conselhos russos. Eram como alunos-pilotos que voam num avião de comandos duplos, de forma ao professor poder intervir se o aluno comete algum erro. Bem, esse ano poderiam mostrar o que tinham aprendido. Dentro de pouco tempo a de existir o duplo comando e ver-se-ia então como, deixari, entregues a si próprios, dirigiriam divisões e corpos de exército. Eram comunistas e tinham o sentido da disciplina. A disciplina que impunham dava bons resultados. Lister mostrava-se feroz em matéria de disciplina. Verdadeiro fanático, com a peculiar falta de respeito pela vida humana, dos. espanhóis. Em poucos exércitos, desde a primeira invasão dos tártaros, foram suniàriamente executados tantos homens por motivos tão insignificantes, como sob o seu comando. Mas conseguia transformar uma divisão numa unidade de combate. Uma coisa é manter posições. Outra, atacá-las e tomá-las. E é muito diferente manobrar um exército em campo aberto, reflectia Jordan sentado ali à mesa. Pelo que dele pude ver, pergunto a mim próprio o que fará Lister quando tiver nas mãos a responsabilidade exclusiva da manobra. Mas talvez não eliminem os duplos comandos. E se os reforçarem? Gostaria de saber qual é a posição russa no meio de tudo. isto. «É ao Gaylord que preciso de ir-pensou. -Há uma porção de coisas que necessito de saber e só no Gaylord as poderei saber. Ao mesmo tempo, Jordan achava que a estada no Gaylord lhe tinha sido prejudicial. Era justamente o oposto do comunismo puritano da rua Velasquez, 63, o palácio de Madrid transformado em Quartel-General da Brigada Internacional. No Velasquez 63 havia o ambiente das ordens religiosas. Mas o Gaylord afastava-se muito do sentimento ~ que o Quinto Regimento inculcara antes de ser dissolvido e-. de os seus elementos serem incluídos nas brigadas do novo exército. Nos dois lugares tinha-se a impressão de estar numa cruzada. É o único termo exacto, apesar de usado até ao abuso e gasto a ponto de haver perdido a sua verdadeira significação. Mau grado toda a burocracia e querelas partidárias, havia lá algo do sentimento que se espera ter e não se tem quando se faz a primeira comunhão. Um sentimento de. consagração a um dever para com todos os oprimidos do mundo, tão difícil de definir como uma qualquer experiência religiosa. E no entanto este sentimento era tão verdadeiro como o de quem ouve Bach, ou de quem penetra na catedral de Chartres ou de Lion e vê a luz penetrando pelos vitrais; ou de quem pára diante de um quadro de Mantegna ou Greco ou Breughel no Museu do Prado. Integração da


criatura em algo em que podia acreditar inteiramente, completamente, e onde existia um rofiundo sentimento de fraternidade por todos os que partiavam do mesmo credo. Era algo jamais sentido antes e que, experimentado agora, adquiria uma importância suprema diante da qual a morte nada significava; a morte passava a ser evitada apenas porque podería interferir no cumprimento do dever. Mas o melhor era o poder obedecer-se a este sentimento e a esta necessidade. Podia-se lutar. «Portanto entraste na luta»-pensava ele. Com o combate, esta pureza de sentimentos desaparecia em breve nos sobreviventes e nos vencedores. Que restava depois de seis meses de luta ? A defesa de uma posição ou de uma cidade é a parte da guerra--ejrn que aquele sentimento pode revelar-se melhor. A luta na Sierra tinha sido assim. Lá tinham-se batido com a verdadeira camaradagem da revolução. Lá quando tinha sido necessário reforçar a disciplina, tinha compreendido e aprovado. Sob os obuses os homens acovardavam-se e fugiam, e ele viu esses homens serem fuzilados e abandonados à beira dos caminhos, sem que ninguém se preocupasse com eles senão para lhes tirar os cartuchos e tudo o que tivessem que valesse alguma coisa. Tirar os cartuchos, as botas e os casacos de couro, era coisa normal. Tirar os valores era apenas realista, o meio de impedir que os anarquistas o fizessem. A Jordan parecia justo, normal e necessário que os homens que fugiam fossem fuzilados. Nada de errado havia nisso. A fuga era um acto de egoísmo. «Os fascistas tinham atacado e tínhamos conseguido detê-los nas encostas pedregosas, nos pinhais e carrascais da serra de Guadarrama. Ao longo das estradas suportámos os bombardeamentos aéreos e terrestres quando eles conseguiram trazer a artilharia para cima. À noite os sobreviventes tinham contra-atacado e forçado os fascistas a retirarem. Depois, quando tentaram descer pela esquerda, esgueirando-se por entre as árvores e as rochas, enfrentámo-los no sanatório, atirando das janelas e dos telhados, e, apesar de cercados por dois lados, aguentámo-nos firmes até que o contra-ataque os afastou da estrada. «Em. tudo aquilo, no medo que resseca a boca e a garganta, quando a caliça e o súbito pânico perante uma parede que abate, desabando dentro do clarão e do estrondo da explosão de um ob * us, liberta-se a metralhadora, afastam-se os corpos dos serventes deitados de barriga e cobertos de destroços, tira-se o carregador partido, emenda-se a cinta, estendemo-nos ---228 atrás da blindagem de protecção e a metralhadora recomeça a metralhar de novo a estrada; faz-se o que se tem a fazer e sabe-se que se tem razão. Tu conheceste a boca seca, a exaltação santificadora, purificada pelo medo que o combate dá, e bateste-te~ este Verão e este Outono em prol de todos os pobres do mundo, contra todas as tiranias, e a favor de todas as coisas em que acreditas e pelo novo Mundo para o qual a tua educação te preparou. Aprendeste este Outono, -dizia,-se ele,-como sofrer e desprezar o sofrimento, os longos períodos de frio e de lama, nos trabalhos de terraplenagem e de fortificação. E a sensação do Verão e do Outono estava profundamente enterrada sob a fadiga, o sono, a impaciência, o desconforto. Mas a sensação persistia e tudo o que se tinha sofrido apenas a confirmava. Foi nesses dias,-pensava ele,que experimentaste um certo orgulho profundo, são e sem egoísmo... e que, no Gaylord, te terias tornado indesejável, -acrescentou de súbito. «Sim, eu não podia estar bem lá nesse tempo, -disse consigo.-Eras muito ingénuo. Estavas numa espécie de estado de graça. Mas o GayIord podeter mudado e já não ser hoje o que era naqueles tempos. Não, não é isso, -repetiu-se. -Não é isso, de facto. Nessa altura não havia Gaylord.»


Karkov tinha-lhe falado dessa época em que os russos que se encontravam em Madrid viviam no Palace. Jordan não os conhecera então. Tinha sido antes dos primeiros grup~s de partizans serem organizados, antes de ele ter encontrado Kachkine ou qualquer dos outros. Kachkine tinha estado no Norte, em Irun, em San Sebastian e na malograda marcha sobre Victória. Só fora para Madrid em janeiro; e enquanto Jordan lutava em Carabanchel e em Usera, naqueles três dias em que travaram a marcha da ala direita dos fascistas que atacavam Madrid e- - repelido os mouros e a gente do Tércio, de casa em casa, para limpar o subúrbio asfaltado junto do planalto cinzento devorado pelo sol e estabelecer uma linha de defesa que protegesse aquele recanto da cidade, Karkov permanecera em Madrid. Até Karkov falava sem cinismo dessa época. Era uma época que pertencia a todos, em que tudo parecia perdido, e cada homem guardava hoje, mais preciosa que uma citação, ou uma condecoração, a recordação de como se tinha conduzido quando se considerava tudo perdido. O Governo tinha abandonado a cidade, levando todos os automóveis do ministério da guerra, e o velho Miaja teve que inspeccionar, de bicicleta, as posições defensivas. 229 Robert Jordan aceitava dificilmente esta história. Mesmo utilizando o melhor da sua imaginação patriótica não conseguia visualizar o velho Miaja de bicicleta, apesar de Karkov garantir que tinha sido verdade. Mas como ele tinha declarado isso em correspondência para um jornal russo, era provável que o estivesse asseverando para melhor se convencer do que escrevera. Mas Karkov tinha-lhe contado uma outra história que não tinha escrito. Havia três russos feridos no Hotel pelos quais era responsável: dois condutores de tan ues e um piloto da aviação em estado muito grave para po~'ercm ser removidos dali, e como naquele tempo era da maior importância que não aparecessem provas da cooperação russa com os republicanos, o que justificaria a intervenção aberta dos fascistas, Karkov tinha sido encarregado de proceder de forma a que os feridos não caíssem nas mãos dos fascistas no caso da cidade ser evacuada. Caso a cidade fosse abandonada, Karkov teria que os envenenar para lhes destruir a identidade russa, antes de deixar o hotel. Mortos, ninguém poderia provar a identidade dos três homens, um com três balas no abdómen, outro com o queixo rebentado e as cordas vocais à mostra e o terceiro com o fémur esmagado e as mãos e a face tão queimadas que o rosto era uma chaga sem cílios, sem sobrancelhas, sem cabelos. Ninguém podia provar que os cadáveres destes feridos que deixaria para trás nos leitos do Pálace, eram russos. Ninguém pode provar que um cadáver nu é russo. Ninguém pode provar a nacionalidade e a política de um corpo morto. Jordan perguntara a Karkov qual a sua impressão quanto a ter de cumprir uma ordem destas; Karkov respondera que uma tal perspectiva não era muito divertida. - E como a teria executado? E tinha acrescentado: «-Sabe bem que não é uma coisa simples envenenar uma pessoa de um momento para o outro.» E Karkov respondera: « -Não é difícil para quem sempre traz veneno consigo, destinado a uso pessoal.» E abrindo a cigarreira mostrou o que guardava num dos lados. «-Mas a primeira coisa que praticarão se o fizerem prisioneiro é tirar-lhe a cigarreira -tinha notado Robert Jordan. -As mãos irão logo para o ar.»


«-Mas ainda tenho aqui uma boa dose-díssera Karkov sorrindo e indicando a lapela do dólman. Basta levar a lapela à boca assim, morder e~ engolir.» -«-Isso já é menos mau.- Diga-me: cheira a amêndoas amargas, como em todos os romances policiais?» 230 «- Ignoro -respondera Karkov divertido. -Nunca i~ heirei. Quer que parta um tubo para vermos?» «-É preferível guardá-lo intacto.» «-Sim - e Karkov guardou a cigarreira. - Não sou nenhum derrotista, mas é sempre possível que a coisa se torne de novo feia e não haja maneira de obter.isto seja,onde for. já leu o comunicado dofront de Córdoba? E lindo. E o comunicado que prefiro entre todos os outros.» «-E que diz?-Jordan acabava de chegar do front: de Córdoba e sentira-se melindrado, como quando alguém zomba de alguma coisa da qual se tem o direito de zombar, mas não os outros. Conte-me lá isso.» «-Nuestra gloriosa tropa sigue avanzando sin perder ni una sola palma de terreno -repetira Karkov no seu espanhol estrangeirado.» « - Não é possível que diga tal coisa» - murmurara Jordan dubitativo. «-Nossa gloriosa tropa continua a avançar sem perder gm unico palmo de terreno-repetiu Karkov em inglês.E o que reza o comunicado. Você pode verificar.» Jordan reviu mentalmente os homens seus conhecidos que morreram no combate de Pozoblanco, mas aquilo ali no Gaylord era apenas um tema para brincadeiras. Tal era agora o Gaylord. Mas nem sempre tinha existido um Gaylord, e se a situação actual era daquelas que faze~1 nascer coisas como o Gaylord entre os sobreviventes dos primeiros dias, bem, estava contente por- ter visto e conhecido o Gaylord. «Estás longe do que pensavas na Sierra e em Carabanchel e em Usera,-ponderou jordan.-Corrompemo-nos fàcilmente. Mas será corrupção ou apenas perda da ingenuidade inicial? E não será assim em tudo o mais? Quem mantém até ao fim aquela castidade de espírito com que os jovens médicos, os jovens sacerdotes e os jovens soldados iniciam geralmente a carreira? Talvez só os padres, porque de contrário têm que mudar de vida. Talvez também os nazistas e os ~omunistas, que se mantêm dentro de uma severa disciplina interior. Mas veja-se Karkov.» Jordan não se cansava de considerar o caso de Karkov. Da última vez que estivera no Gaylord, achara-o maravilhoso, no caso de certo economista inglês que passara muito tempo na Espanha. Jordan conhecia desde há muito os escritos desse homem e respeitava-o mas nada sabia dele pessoalmente. Gostava particularmente do que -ele dissera sobre Espanha. Era tudo muito claro e simples, muito preto no branco, com 221 muitas estatísticas que estavam falseadas, como sabia, por uma visão optimista. Mas repetia-se que era muito raro gostarmos das obras dedicadas a um país que conhecemos bem e estimava o homem pelas suas intenções. E depois tinha acabado por encontrá-lo, uma tarde, durante a ofensiva de Carabanchel quando Jordan e os seus companheiros se tinham instalado na praça de touros. Disparava se nas duas ruas e todos se sentiam nervosos, à espera do atac~é. Tinham promessas de um tanque que não chegava nunca, e Montero, sentado, com a cabeça entre as mãos, repetia: «-O tanque não vem. O tanque não vem.»


Dia gelado, com um pó amarelo a encher a rua. Montero, ferido no braço esquerdo, sentia-o entorpecer. «-Nós precisamos do tanque-dizia ele-temos que esperar pelo tanque e não podemos esperar.»-O ferimento tornava-o irritadiço. Jordan saiu em busca do tanque que, segundo Montero, devia estar parado atrás do grande imóvel que fazia ângulo com os carris dos «eléctricos». De facto lá estava. Só que não era um tanque. Naqueles dias os espanhóis chamavam a tudo um tanque. Tratava-se simplesmente de um velho automóvel blindado. O condutor recusava-se a sair dali e levá-lo para a praça de touros. De pé, atrás do carro, tinha os braços cruzados apoiados na chapa da blindagem do tanque e a cabeça, metida num capacete de couro, apoiada nos braços. Quando Robert Jordan se lhe dirigiu limitou-se a abanar a cabeça entre os braços. Depois endireitou-se sem olhar para Robert Joi-dan. «-Não tenho ordens para levá-lo para lá»-disse com ar sombrio. Robert Jordan tinha tirado a pistola do coldre e apoiado o cano contra o casaco de couro do condutor. «-Aqui, estão as tuas ordens»-respondera-lhe. O homem sacudiu a cabeça coberta com um capacete de couro, que mais parecia o de um jogador de raguebi e disse: «-Já não há munições para a metralhadora.» «_Na praça de touros temos munições -respondeu Jordan.-Anda-me com isso. Lá trataremos das fitas.» «-Não há ninguém para disparar» -volveu o condutor. «-Onde está ele? Onde está o teu companheiro?» «-Morto-tinha respondido o condutor.-Lá dentro.» «-Tira-o. Tira-o para fora»-ordenou Jordan. «-Não quero tocar-lhe-~etrucou o condutor.-E para mais está dobrado em dois, apertado entre a metralhadora e o volànte e não posso saltar-lhe por cima.» 232 «-Vamos-disse Jordan.-Nós dois o tiraremos de lá.» Ao entrar no carro blindado bateu com a cabeça, abrindo um golpe num dos supercílios, que começou a sangrar. O morto estava tão pesado e rígido que foi difícil arrancá-lo dali; tivera de lhe bater com a cabeça para a tirar do sítio onde ficara presa, de cara para baixo, entre o assento e -a direcção. Tinha finalmente conseguido meter o joelho sob a cabeça do cadáver e depois, agarrando-o pelas roupas, enquanto tinha a cabeça levantada, tinha-o arrastado para a porta. «-Ajuda-me aqui»-disse Jordan. «-Não quero tocar-lhe»-foi. a resposta, e Jordan viu que o homem chorava. As lágrimas corriam-lhe pelos sulcos ao longo do nariz, naquela cara suja de pólvora e o nariz também pingava. De pé ao lado da porta, tinha arrastado o cadáver que ficara tombado no passeio, ao lado dos carris, dobrado na mesma posição. E lá ficou, com a cara de uma lividez acinzentada no cimento e as mãos dobradas debaixo dele, como no carro. «-Entra, com todos os diabos!-intimou Jordan, apontando de novo o revólver para o condutor. -Trata de entrar já.» Nesse instante viu sair do lado do imóvel um homem. Trajava sobretudo comprido, não tinha chapéu sobre os cabelos grisalhos; maçãs do rosto salientes e olhos encovados. Trazia na mão um maço de cigarros Chesterfield do qual tirou um para o oferecer a Jordan que, de arma em punho,


obrigava o condutor a entrar no carro. «-Espere um momento, camarada-disse o homem em espanhol.-Pode dar-me qualquer informação sobre a luta?» Jordan enfiou o cigarro no bolsinho do seu «macaco» de mecânico. Tinha reconhecido aquele tipo pelas fotografias. Era o economista britânico. «-Vai bugiar -respondeu em inglês; e em espanhol para o condutor:-Vamos 14 com isso. Para a praça de touros. Entendido?» A porta do carro fechou-se com estrondo e o veículo pôs-se em marcha pela comprida ladeira abaixo, enquanto as balas começavam a chover-lhe em cima, retinindo como seixos atirados contra urna panela de ferro. Depois as metralhadoras abriram fogo, e era como marteladas penetrantes. Foram parar num ponto abrigado da praça de touros, onde ainda se viam nas paredes os últimos cartazes de Outubro, ao lado da bilheteira, e havia caixas de munições abertas. Os camaradas, armados com espingardas, com granadas à 233 cintura e nos bolsos, esperavam-nos. Montero tinha dito: «-Bem, aí está - o tanque. Agora podemos atacar.» Mais tarde, naquela noite, depois de se terem apoderado das últimas casas da colina, Jordan deitou-se confortàvelmente junto a uma parede de tijolo e por um buraco olhou para o belo campo de tiro que se estendia entre aquele ponto e o ponto para onde se tinham retirado os fascistas. Pensou, com quase voluptuosa satisfação, na elevação da colina coberta de «villas» destruídas que protegiam o flanco esquerdo. Com as roupas empapadas de suor e enrolado num cobertor, deitou-se num monte de palha, à espera de secar. Lembrou-se então do economista e pôs-se a rir, mas já com o remorso de ter sido grosseiro. Naquele momento, porém, quando o homem lhe ofereceu um cigarro em troca de uma informação, o ódio do combatente pelo não-combatente fora mais forte que tudo. Jordan pôs-se a recordar o que Karkov lhe dissera do sujeito no Gaylord: «-Com que então foi assim que ambos se encontraram! Eu não passei muito além da Puente de Toledo nesse dia. Ele estava muito próximo dofront. Creio ter sido esse o último lance da sua famosa bravura. No dia seguinte saiu de Madrid. Toledo foi onde se mostrou mais bravo, creio eu. Em Toledo foi formidável. Foi um dos que arquitectaram a nossa tomada do Alcazar. Queria que o visse em Toledo! Estou convencido de quç foi em boa parte devido aos seus esforços e conselhos que o nosso assédio deu resultado. Ah, aquilo afigurou-se-me a parte mais absurda da guerra. Atingiu o cúmulo da idiotice, mas diga-me o que pensam dele na América?» «-Na América -respondeu RobertJordan-têm-no como muito ligado a Moscovo.» «-Mas não é verdade -contestou Karkov.-Ele possui um rosto maravilhoso com o qual, acrescentadas as boas maneiras, conquista o mundo. Eu, com esta minha cabeça, não consigo nada. O pouco que realizei tem sido a despeito da minha cabeça, que não inspira confiança, nem simpatia, nem amor a ninguém. Mas a cabeça deste Mitchell vale por si só uma fortuna. E uma cabeça de conspirador. Todos os que leram alguma coisa sobre conspiradores confiam nele imediatamente. Também te-m os modos de um conspirador. Quem quer que o veja entrar numa sala adivinha imediatamente que está diante de um conspirador de primeira ordem. Todos os americanos ricos que por mero sentimentalismo querem ajudar a União Soviética, ou procuram guardar um


234 trunfo na mão para a eventualidade de bom êxito do Partido, percebem imediatamente, na cabeça deste homem e nas suas maneiras, que ele não pode deixar de ser um homem de confiança do Konúntern. «-Mas não tem realmente ligação com Moscovo?» «-Nenhuma. Ouça, camarada Jordan. Conhece a história das duas espécies de malucos?» «-Mansos e furiosos?» «-Não. As duas qualidades de loucos que temos na Rússia-e rindo, Karkov começou:-Temos primeiro o louco de Inverno. O louco de Inverno chega à sua porta e bate com força. Você abre e dá com uma figura que nunca viu antes. O seu aspecto geral impressiona. É um sujeito'-de avantajada estatura, com botas de cano alto, casaco de peie,,gorro de pele e todo coberto de neve. A primeira coisa que faz é sacudir a neve das botas batendo com os pés no chão. Depois tira o casaco, sacode-o e cai mais neve. Em seguida tira o gorro de pele e bate-o de encontro à porta, fazendo cair mais neve. Depois bate outra vez com as botas e entra por fim em casa. Então você olha e verifica que se trata de um louco. Esse é o louco de Inverno. O louco de Verão é o que aparece na rua agitando os braços e comportando-se de tal maneira que a duzentos Metros de distância toda a gente vê que se trata de um louco. E o louco de Verão. Este economista britânico é um louco de Inverno.» «-Mas porque confiam tanto nele?» «-Por causa da cabeça. A sua formosa gueule de conspirateur. E pelo admirável truque de estar sempre a regressar de algum lugar onde é muito considerado e importante. Naturalmente tem que viajar muito para manter o truque com eficiência. Mas você sabe como são bizarros os espanhóis, -comentou Karkov sorrindo. - Este governo teve muito dinheiro. Ouro em quantidade. Aos amigos, porém, não dava nada. Porquê? Porque eram amigos. Os amigos trabalhavam sem esperar recompensa, e por isso não eram recompensados. Mas os que representavam uma firma importante ou um país que não era simpático e que era preciso influenciar, a esses abriam-se largamente os cordões à bolsa. É muito interessante observar-se isto de perto.» «-Mas não gosto. Esse dinheiro pertence aos operários espanhóis.» «-Não se trata de.gostar ou não. E preciso compreender -atalhou Karkov.-Cada vez que nos encontramos procuro -O35 completar a sua educação, explicando-lhe as coisas. Deve ser muito interessante para um professor o poder instruir-se.» «-Não sei se continuarei a ser professor quando voltar. Vão provàvelmente expulsar-me como vermelho.» «-Se assim for poderá ir para, a União Soviética continuar os seus estudos. Talvez sejo o melhor que tem a fazer.» «-Mas o meu campo de acção é o espanhol.» «-Há muitas terras onde se fala o espanhol - sugeriu Karkov.-Não podem ser todas de vida tão difícil como a Espanha. E lembre-se de que há quase nove meses que não é professor. Em nove meses pode ter aprendido um novo ofício. Quantas dialécticas já leu?» «-Li o Manual do Marxismo editado por Emil Burns, E é tudo.» «-Se o leu todo é um bom começo. São mil e quinhentas páginas e cada uma delas toma o seu


tempo. Mas há outras que cumpre ler.» «-Não há tempo para leituras.» «-Bem sei-respondeu Karkov.-Estou a dizer, quando tiver tempo. É preciso ler muito para compreender alguma coisa do que se está a passar. E ~um livro anda a impor-se. Talvez eu o escreva.» «-Não conheço ninguém que à possa fazer melhor.» «-Nada de lison as. Sou jornalista, mas como todo o jornalista desejo fazer literatura. Neste momento estou muito ocupado num estudo de Calvo Sotelo. Era um excelente fascista; um verdadeiro fascista espanhol. Franco e os outros não o são. Tenho estado a estudar todas as obras e discursos de Sotelo. Muito inteligente, e foi acto de muita inteligência o terem-no matado.» «-Pensei que não fosse partidário dos assassínios políticos... «-É uma prática muito usada -respondera Karkov -muito, muito usada.» «-Mas ... » «-Não acreditamos nos actos de terrorismo individual - observou Karkov sorrindo. - Nem naturalmente nos praticados por criminosos terroristas e organizações contra-revolucionárias. Detestamos com horror a vilania e a duplicidade das hienas bukharinistas e de escória humanas como Zinoviev, Rykov, Kamenev, e seus associados. Odiamos estes tipos verdadeiramente demoníacos - disse sorrindo novamente. Mas creio poder dizer de novo que o assassínio político é uma coisa muito usada.» 236 «-Quer então dizer ... » «-Nada. O que se dá é que executamos e destruímos esses verdadeiros demónios, esses rebotalhos da humanidade, esses cães de generais traidores e os miseráveis almirantes falsos à sua fé. São suprimidos. Não são assassinados. Compreende a diferença?» «-Pois a mim pouco se me dá. Também não gosto, mas hoje pouco se me dá.» «-Sei disso -respondera Karkov.-já mo disseram.» «-Tem alguma importância? -Estava apenas a procurar ser sincero.» «-É pena-continuara Kaxkov.-Mas é uma das coisas que fazem considerar de confiança pessoas que de ordinário teriam que esperar muito mais tempo para merecerem tal juízo.» «-Eu sou dos que podem considerar-se como seguros?» «-É, no que se refere ao seu trabalho. Precisamos conversar mais vezes para melhor conhecimento mental. É pena que falemos a sério tão raras vezes.» «-Os meus pensamentos ficarão em suspenso até ganharmos a guerra» -respondera jordan. «-Então talvez fiquem muito tempo sem trabalho. Mas será bom que os vá treinando.» «-Eu leio o Mundo Obrero-dissera Robert jordan, e .Karkov tinha respondido: -Muito bem. Perfeito. Eu também sei brincar. Mas há coisas muito inteligentes no Mundo Obrero. As únicas coisas inteligentes que se escreveram sobre esta guerra.» «-Sim. Estou de acordo. Mas paxa ter um quadro perfeito dos acontecimentos não podemos ler exclusivamente o órgão do partido.» «-Mas quadro perfeito não o poderá formar nem lendo viníe jornais, e se o formar não sei o que faxá dele. Eu tenho-o quase constantemente sob os olhos, e tudo o que faço é procurar esquecê-lo.» «-Acha-o assim tão mau?» «-Agora está um pouco melhor. O péssimo foi alijado. Mas a corrupção é profunda. Estamos a


formar um grande exército em que alguns dos elementos -os de Modesto, El Campesino, Lister e Durán-são de confiança. Mais do que isso. São magníficos. Mas um exército composto por uma parte boa e outra má não pode vencer uma guerra. Todos devem ser levados a um certo desenvolvimento político. Todos devem saber por que estão a lutar e qual o significado da luta. É preciso 237 que todos acreditem na luta e se curvem à disciplina. Estamos a formar um grande exército de recrutados, sem termos tempo de criar a indispensável disciplina. Denominamo-lo exército do povo, mas não tem as bases fundamentais para ser um exército do povo, nem a disciplina de ferro que é necessária. Você vai verfficar isso. É um sistema perigosíssimo.» «-Você hoje não está muito animado.» «-É verdade. Acabo de chegar de Valência--onde vi muita gente. Ninguém regressa animado de ' Valência. Em Madrid sente-se que tudo corre bem e há a certeza de vencer. Em Valência é o contrário. Os covardes que fugiram de Madrid continuam a governar lá. Ajeitaram-se ao rcgime da indolência e da burocracia. Eles só têm desprezo pelos de Madrid. A sua obsessão exclusiva é o enfraquecimento do comissariado da guerra. E Barcelona. Ali, você precisa de ver Barcelona.» «-Que tal é?» «-Continua a mesma ópera-cómica. Primeiramente foi o paraíso dos doidos e dos revolucionários românticos. Agora é o paraiso dos soldados de brincadeira. Heróis que adoram usar uniformes, pavonear-se, fazer bravatas e trazer o lenço vermelho e preto ao pescoço. Que adoram tudo quanto está ligado à guerra, menos tomar parte na luta. Valencia enoja, Barcelona faz rir.» «- E quanto ao putsch do P. O. M. U.?» «-O P. O. M. U. nunca foi coisa séria. Foi uma heresia dos doidos e dos exaltados e na realidade apenas uma infàntilidade. Havia entre eles alguns homens honestos, porém, mal orientados. Havia um cérebro realmente bom e algum dinheiro fascista. Não muito. O pobre do P. O. M. U.!» «-Mas morreu muita gente no putsch, não?» «-Não tanta como a que foi fuzilada ou ainda o vai ser. O P. O. M. U. é, como o seu nome, pouco sério. Eles bem o poderiam ter designado M. U. M. P. S. (Logro), ou M. E. A. S. L. E. S. (Sarampo). Mas não. O sarampo é mais perigoso. Pode atacar a vista e os ouvidos. Eles tramaram uma conspiração para eliminar Walter, _Modesto, Prieto e a mim. Está a ver como confundem tudo. E uma salsada, porque não somos todos do mesmo bordo. Pobre P. O. M. U. Nunca mataram ninguém nem no front, nem em parte alguma, excepto em Barcelona.» «-Esteve lá?» «-Estive. Mandei um telegrama que descrevia a maldade -daquela infame organização de assassinos trotskistas e as suas 238 maqumações fascistas, tudo com o maior desprezo, mas, aqui para nós, esse tal P. O. M. U. não vale nada. Só tem uma cabeça, que é Nin. Tivemo-lo nas unhas mas conseguiu sa£~x-se.» «-E onde anda agora?» «-Em Paris. Nós dizemos que ele está em Paris. Era um tipo muito agradável, mas com algumas aberrações no domínio político.» «-Estava em comunicação com os fascistas?»


«-E quem não está?» «-Nós não estamos.» «-Quem o garante? Eu espero que não estejamos. Você vai muitas vezes para a retaguarda das linhas fascistas, não é assim? Mas o irmão de um dos secretários da embaixada republicana em Paris fez uma viagem a S. Juan de Luz, para se encontrar com a gente de Burgos.» «-Prefiro o front. Quanto mais perto do front, melhor é a gente.» «-E que tal a retaguarda dos fascistas?» «-Excelente. Temos lá gente de primeira.» «-Eles também devem ter gente de primeira atrás das nossas linhas. Eles encontram-nos e fuziJam-nos. Nós fazemos o mesmo. Quando estiver na zona fascista, procure saber o número de homens que eles poderão infiltrar na nossa retaguarda.» «-Já pensei nisso.» «-Bem - resDondera Karkov. - Por hoie iá você tem o que é muito raxo., Por isso gostaria de o pôr a par de certas coisas ... » «-Está bem. Quando a guerra terminar, hei-de escrever um livro. Mas só sobre as coisas que realmente souber ou tenha visto. Tenho, porém, que tornar-me um escritor muito melhor do que sou para poder tratar todo este material. As coisas que aprendi nesta guerra não são tão simples como parecem.» 240 possibilidade. Eu nem sei quantas vezes tive que prometer-lhe que faria isso. Que coisa extraordinária! -repetiu, abanando a cabeça. -Era um homem muito esquisito -opinou Primitivo. - Muito original. -Dize-me-pediu Andrés, um dos dois irmãos-tu que és professor e tudo o mais: acreditas que um homem possa saber com antecedência o que lhe vai acontecer? -Estou certo de que não-respondeu Jordan. Pablo fitava-o espantado e curioso, enquanto Pilar o observava de rosto impassível. - Esse camaxada russo estava nervoso por ter ficado muito tempo nofront. Combateu em Irun, onde vocês sabem que a coisa foi muito feia. Muito feia. Depois foi combater no Norte. E, desde que os primeiros grupos de guerrilheiros se organizaram, trabalhou aqui, na Estremadura e na Andaluzia. Acho que o cansaço e o nervosismo o faziam imaginar coisas horríveis. -É que sem dúvida viu coisas horríveis -volveu Fernando. -Como aliás toda a gente-observou Andrés.-Mas ouve cá, Inglês. Parece-te que há mesmo homens que conseguem ver o futuro ? -Não -respondeu RobertJordan. - É ignorância e superstição acreditar nisso. -Vá, continua-disse Pilar.-Quero conhecer o ponto de vista do professor. Ela falava'como se se dirigisse a uma criança precoce. -Eu acreffito, que o medo provoque visões más -confessou Jordan.--Vendc, sinais maus... -Como os aviões de hoje-precisou Primitivo. -Como a'tua vinda para aqui-murmurou suavemente Pablo do outro lado da mesa. Jordan encaxou-o, mas não notou qualquer provocação, apenas a expressão de um pensamento, e continuou: -Ao ver maus sinais, a pessoa, devido ao medo, imagina um fim para si e acaba por se convencer de que adivinhou; na realidade houve apenas imaginação e nada mais. Não acredito em fantasmas, nem em feiticeiros, nem em nada sobrenatural,


-Mas aquele do tal nome atrapalhado viu claramente o seu destino -insistiu o cigano.-E tudo sucedeu como ele tinha previsto. - Ele não viu coisa nenhuma - contestou Jordan. - Tinha medo do que viesse a acontecer e o medo acabou por se tomar 242 obsessão. Ninguém pode provar-me que ele viu qualquer coisa. -Nem eu? - duvidou Pilar tomando uma pitada de cinza e soprando-a na palma da mão.-Nem eu posso dizer alguma coisa do futuro? -Não. Com toda a tua bruxaria, feitiçaria e o resto, não podes dizer nada do meu futuro. -Porque tu és um assombro de surdez-tornou Pilar, com o seu rosto grande e duro batido pela luz das candeias. -Não quero dizer que sejas estúpido. És apenas surdo. As pessoas surdas não podem ouvir música, nem ouvir rádio. E se não podem ouvir, como dizer que tais coisas existem? Quê va, Inglês! Eu vi a morte na cara daquele homem de nome esquisito. Vi-a como, se estivesse marcada a fogo. -Não viste coisa nenhuma -teimou Jordan. -O que havia no rosto dele era medo, receio. Medo, devido às coisas a que tinha assistido. Receio, pela possibilidade do mal que imaginava. -Oué va! - exclamou Pilar. - Eu vi a morte nele tão nitidamente como se ela estivesse sentada no seu ombro. E o que é mais, ele até cheirava a defunto. -Cheirava a defunto! - escarneceu Jordan. - A medo talvez. O medo tem cheiro. -De la muerte -reafirmou Pilar. - Ouve. Quando Blanquet, que foi o maior peon de brega que jamais existiu, estava a trabalhar sob as ordens de Granero, contou-me que no dia da morte de Manolo Granero, ao entrarem na capela, antes de seguirem paxa a arena, o cheiro de morte era tão sensível em Manolo que chegou a incomodar Blanquet. E ele tinha estado junto de Manolo quando Manolo tomou banho e se vestiu no hotel, antes de partir para a praça. O tal cheiro ainda não se tinha manifestado no automóvel pe os levou a todos para lá. Só foi percebido na capela por j uan Luís de Ia Rosa. Nem Marcial, nem Chicuelo sentiram nada, nem então nem quando os quatro se detiveram no passeio. Mas juan Luís estava terrivelmente pálido, contou-me Blanquet, e então Blanquet perguntou-lhe: «-Tu também?» «-Estou que nem posso respirar - disse-lhe Juan Luís. -E vem do teu matador.» «-Pues nada - respondeu Blanquet. - Não há nada a fazer. Só nos resta esperar que estejamos enganados.5> «-E os outros ?» -perguntou Juan Luís. « -Nada -respondeu Blanquet.-Mas este fede mais do que José em Talavera.» 243 -E foi naquela mesma tarde que o touro Pocapena, da ganadaria de Veragua, esborrachou Manolo Granero de encontro à barreira, diante do tendido dois, na Plaza de Toros de Madrid. Eu estava lá com Finito e vi. O chifre esmigalhou-lhe o crânio. A cabeça de Manolo ficou esmagada debaixo do estribo, na base da barrera onde o touro o lançou. -E sentiste algum cheiro? -perguntou Fernando. -Nenhum -respondeu Pilar.-Eu estava muito longe. Estávamos na sétima fila do tendido três. Foi assim que estando mesmo de ângulo, pude ver muito bem o que aconteceu. Naquela mesma noite Blanquet, que também trabalhara sob as ordens de Joselito no dia em que este foi morto, contou o caso a Finito em casa de Fornos. Finito perguntou a Juan Luís de Ia Rosa, que não quis dizer nada. Apenas acenou que sim com a cabeça. Eu estava presente. Por isso, IngIés, pode ser que tu


sejas surdo para estas coisas, como Chicuelo e Marcial Lalanda, e todos os banderilleros e picadores dele, e toda a gente de Juan Luís e Manolo Granero, estavam surdos para aquilo naquele dia. Mas Juan Luís e Blanquet não estavam surdos, assim como hoje eu não o estou. -Porque dizes tu surdo, quando se trata de uma coisa .do nariz? -perguntou Fernando. -Leche!-gritou Pilar.-Tu é que devias ser professor em lugar do Inglês. Mas eu ainda podia dizer outras coisas, Inglês, e não duvido que tu não as possas ver nem ouvir, muito simplesmente. Tu não ouves o que um cão ouve. Não cheiras o que um cão cheira. Mas já tens um pouco de experiência no que se refere ao que pode acontecer a um homem. Maria pousou a mão no ombro de Jordan, que reflectiu consigo: acabemos com estas baboseiras e aproveitemos o tempo que nos resta. Mas como ainda era muito cedo e tinham que matar aquele resto da noite, continuou: -E tu, Pablo, acreditas em bruxarias? -Não sei-respondeu Pablo.-Sou mais da tua opinião. A. mim nunca me aconteceu nada de sobrenatural. Medo, sim, pois. E como! Mas creio que Pilar pode ver o futuro pela leiturà das mãos. Se ela não está a mentir, talvez seja verdade que tenha sentido o tal cheiro. . Q_ué va que eu possa mentir! -retorquiu Pilar.-Isso não é: coisa inventada por mim. Esse sujeito, Blanquet, era um homem muitíssimo sério e além disso muito devoto. Não tem pinga de sangue cigano, é um burguês de Valência. Nunca o viste ? 244 -Sim. Vi-o várias vezes. Um tipo baixo, cara lívida e não havia quem trabalhasse melhor com a capa do que ele. Tinha nos pés uma velocidade de coelho. -Isso mesmo-concordou Pilar.-Ele tinha aquele ar lívido porque sofria do coração, e os ciganos diziam que ele carregava a morte consigo, mas que podia toureá-Ia com a capa como tu podes limpar o pó de cima de uma mesa. E, no entanto, ele, que também não era cigano, sentiu o cheiro em Joselito de Talavera, apesar de eu não perceber como pôde sentir esse cheiro acima do cheiro da manzanilla. Blanquet falou disso muito desconfiado, e as pessoas a quem ele o contou diziam que era tudo uma fantasia e o cheiro que ele sentiu naquele momento era a vida que José levava naquela altura e que lhe saía juntamente com o suor dos sovacos. Mas depois veio a acontecer o mesmo com Manolo Granero, e Juan de Ia Rosa também o testemunhou. É certo que Juan Luís era um trampolineiro, mas muito sensível para o seu trabalho e também muito mulherengo. Mas Blanquet era um homem sério, muito calmo, e absolutamente incapaz de mentir. Pois eu garanto que senti esse cheiro no teu camarada russo quando ele esteve aqui. -Não acredito - declaxou Jordan. - No caso que contaste Blanquet sentiu o cheiro ao começar o passeio. justamente antes de começar a tourada. Já no caso de Kaclikine o que veio depois foi o feliz negócio do comboio. Não foi nesse comboio que ele morreu, e, portanto, como poderias tu sentir o cheiro de defunto nessa ocasião? -Uma coisa nada tem com a outra-explicou Pilar.Na sua última temporada, Inácio Sanchez Mejias cheirava tanto a defunto que muita gente se recusou a sentar-se com ele no café. Todos os ciganos souberam disso. -Essas coisas são sempre inventadas depois da morte -arguiu Jordan.-Toda a gente sabia que Sanchez estava na iminência de uma cornada, porque não se treinava há muito tempo, porque o seu estilo era pesadão e perigoso e porque tinha perdido a força e a agilidade das pernas, de modo que os seus reflexos não eram os de anteriormente. -Certamente. Tudo isso é exacto -respondeu Pilar.Mas todos os ciganos sabiam que ele cheirava


a defunto e quando ele entrou na Villa Rosa, tu havias de ver pessoas como Ricardo e Filipe Gonzalez esgueirarem-se pela porta traseira do bar. -Talvez lhe devessem dinheiro -sugeriu Jordan. 245 -É possível. Mas também sentiram o cheiro e sabiam o que . dizer. é pura verdade, Inglês -confirmou Rafael. c. entre É , nós, ciganos. -Pois. eu não acredito em nada-insistiu Jordan. -Ouve, IngIés. Eu sou contrário a. todas as bruxarias, mas Pilar tem fama de ser perita na matéria - interveio Anselmo. -Afinal de contas que espécie de cheiro é esse?-quis saber Fernando.-Cheira a quê? Se existe um cheiro deve ser bem definido. -Queres saber, Fernandito ?-perguntou Pilar, sorrindo-lhe.-Achas que és capaz de perceber esse cheiro? -Se de facto existe porque não hei-de senti-lo, como sinto qualquer outro? -Porque não? - Pilar falava sarcàsticamente, com as mãos enormes cruzadas sobre os joelhos.-Já fizeste alguma viagem de barco, Fernando? -Nunca. Nem quero. -Então não podes reconhecer o cheiro. Parte desse cheiro lembra o que vem do porão do navio quando.há, tempestade e as escotilhas estão fechadas. Metes o nariz na abertura de uma escotilha quase fechada de um navio que está balançando a ponto de sentires que vais desmaíar e que tens um buraco no estômago e conhecerás uma parte desse cheiro. -Então não o reconhecerei nunca, porque nunca hei-de entrar em navio nenhum -respondeu Fernando. -Pois eu tenho estado a bordo várias vezes - continuou Pilar. - Tanto para ir à Venezuela, como para ir ao México. -E como é o resto do cheiro? -inquiriu Jordan. Pilar olhou-o com ar envaidecido ao recordar-se das viagens que fizera. -Está bem, Inglis. Aprende. Aprender, é o que precisas. Está certo. Depois de conhecer o cheiro de bordo, é preciso descer de madrugada ao matadero da Puente de Toledo, em Madrid, ficar lá na calçada molhada, quando o nevoeiro sobe do Manzanares, e aguardar as velhas que vêm antes da madrugada beber o sangue dos animais degolados. Quando uma destas velhas sai do matadero, embrulhada no xale, cara lívida e olhos encovados, com às barbas da velhice no queixo e nas faces, barbas que saem do seu rosto de cera como os grelos que crescem nas sementes germinadas do feijão, não 246 depóis à gruta, abaixando-se para entrar, e tinha deixado a tábua e omachado contra a parede. -Que fazes tu lá fora? -perguntara Pilar. - Uma cama. -Não te ponhas a cortar a tábua da minha prateleira para a tal çama. -Desculpa. Não a estraguei.


-Não tem importância. Não faltam tábuas na serração. Que espécie de cama fizeste? -Uma como as que se usam na minha terra. -Oxalá durmas bem nessa tal cama - desejou Pilar, enquanto Jordan, abrindo um dos sacos, tirava o saco acolchoado e safa com ele. Lá fora estendeu-o sobre o acamado dos ramos de modo a que a parte fechada do saco ficasse de encontro às estacas cruzadas que fincaxa nos pés da cama. A abertura do saco estava protegida pela parede da rocha. Quando voltou para a gruta a fim de trazer os sacos, Pilar dissera-lhe: -]Podem dormir comigo, como ofitem. -Não vais postar sentinelas? A noite está clara e a tempestade passou. -Fernando vai ficar de guarda -respondera Pilar. Maria estava no fundo da caverna e Jordan não a pôde ver. -Boa-noite paxa todos -dissera. -Vou-me deitar. Entre os outros que estendiam os cobertores e os travesscíros diante da lareira, afastando mesas e tamboretes de couro para arranjar campo, Primitivo e Andrés ergueram as cabeças e deram: -Buenas noches. Enrolado no seu cobertor e na capa, nem mostrando o nariz, Anselmo dormia profundamente. Pablo tinha adormecido na cadeira. -Não queres uma pele de carneiro para a tua cama? -perguntara Pilar em voz baixa. -Obrigado, mas não é preciso. -Dorme bem. Eu responsabilizo-me pelo material. Fernando saíra com ele e parara um momento no lugar em que Robert Jordan tinha armado a cama. -Estranha ideia a tua de dormir ao relento, Don Roberto -dissera ele, de pé, no escuro, enrolado na manta de lã, com a espingarda a tiracolo. -Estou habituado a isto. Boa-noite. -Desde que estás habituado... -A que horas vais ser rendido? -Às quatro. 251 -Vai haver muito frio, daqui até lá. ;--Estou habituado. -Então desde que estás habituado... -respondera Jordan cortêsmente. -Sim - tinha respondido Fernando. - Agora tenho que ir lá para cima. Boa-noite, Don Roberto. -Boa-noite, Fernando. Depois Robert Jordan tinha. feito um travesseiro, com as roupas que despira, metera-se no saco e, deitado, começara a esperar. Sentia a elasticidade dos ramos sob o calor amolecedor e suave do saco; sentia o coração bater forte, os olhos postos na entrada da gruta, para além da neve, esperando. A noite estava límpida e ele sentia a cabeça tão desembaraçada e fresca como o ar. Aspirou o cheiro das agulhas de pinheiro esmagadas sob o seu peso e o perfume mais vivo da resma que emanava dos ramos cortados. Pilar, pôs-se ele a reflectir. Aquela Pilar e o cheiro da morte! Aqui tenho o cheiro de que gosto. Este e o do trevo recém-cortado e o do feno esmagado quando corremos a cavalo pelo campo; e o fumo de lenha e o da queima das folhas do Outono. Deve ser este o cheiro da saudade, o cheiro que se eleva da queima das folhas secas das ruas, em Missoula, no Outono. Qual preferes? O das fibras cheirosas que os índios metem nos seus parieiros? O do


couro curtido? O da- terra molhada. pelas chuvas da Primavera? O da maresia, quando atravessamos o tojo de um promontório na Galiza? O do vento de terra quando nos aproximamos de Cuba à noite?, esse cheiro das flores de cacto, das mimosas e das algas? Ou preferes o do presunto ffic, pela manhã, quando estás com fome? Ou o de maçã ácida mordida em jejum? Ou o de um lagar de cidra? Ou o de pão recém-saído do forno? Tu deves é estar com fome, amigo Jordan; e quedou-se de olhos na gruta, no revérbero das estrelas que se reflectiam na neve. Um vulto entreabriu a cortina e Jordan distinguiu uma silhueta de pé, próximo da abertura do rochedo. Ouviu um ruído sobre a neve, depois a silhueta curvou-se e entrou de novo. «Suponho que ela não virá enquanto não estiverem todos a dormir, - pensou ele. - Quanto tempo desperdiçado! Metade da noite já se foi. Oh, Maria! Vem depressa, Maria, pois o tempo que temos é pouco.» Jordan distinguiu o som abafado de uma pouca de neve que cala de um pinheiro. A brisa bafejava-lhe o rosto. Súbito surgiu-lhe o terror de que ela não aparecesse. A alvorada de um novo dia já estava próxima. 252 Mais e mais neve caía dos ramos e o vento agitava o tope dos pinheiros. «N"Cm agora, Maria. Peço-te que venhas depressa, - pensava. - W, vem, vem já. Não esperes. Não vale a pena esperar que estejam todos a dormir. Então viu-a erguer a cortina e sair e ficar lá, de pé, um momento; sabia que era ela, mas não podia ver o que ela fazia. Jordan deu um assobio em surdina; mas ela continuava ocupada a fazer qualquer coisa na sombra do rochedo. Em seguida desatou a correr, trazendo nas mãos uma trouxa; veio a correr com as suas pernas compridas através da neve. Depois ajoelhou-se perto do saco de campanha, a cabeça apertada contra a sua, limpando a neve dos pés. Beijou-o e entregou-lhe a trouxa que trouxera. -Põe isto debaixo do teu travesseiro. Fiz assim para não perder tempo. -E vieste descalça pela neve? -Vim e só tenho sobre a pele a minha camisa de noivado. jordan apertou-a nos braços, esfregando o queixo nos seus cabelos. -Não me toques nos pés. Estão gelados, Roberto. -Põe-os aqui para os aquecer. -Não-disse ela.-Aquecem num instante. Mas díz-me depressa que me amas. -Amo-te. -Bom. Bom. Bom. -Amo-te, coelhinha. -E também gostas da minha camisa de noivado? -É a mesma de sempre. -Sim. A da noite passada. E a minha camisa de noiva. -Põe aqui os pés. -Não, seria abusar da tua confiança. Eles aquecem já. Para mim não estão frios. 86 para ti é que estão frios por causa da neve. Diz outra vez. -Amo-te, minha coelhinha. -Eu também te amo e sou a tua mulher. -Estão todos a dormir, lá? -Nem todos, mas não pude mais. Qic nos importa? -Nada, realmente -respondeu ele, sentindo aquele corpo cálido e esguio e delicioso de encontro


ao seu.-Nada mais tem importância. -Põe a mão na minha cabeça-disse cla-e deixa-me ver se te posso beijar. -Acertei 9 -perguntou depois. 253 -Sim. Agora tira a camisa de noivado. -Achas que posso? -Sim, se não tens medo do frio. -Qué va, frio! Estou um fogo... -Eu també as depois não te irás resfriar? is da -Não. Depois ficaremos os dois como os amma floresta,*e tão unidos que ninguém pode dizer quem é um e quem é o outro. Tu não sentes que o meu coração é o teu coração ? -Sinto. Não há a menor diferença. -Agora apalpa. Eu sou tu e tu és eu e nós somos um só. Eu amo-te, oh! Eu amo-te muito. Tu não sentes que os dois somos um só? -Sim. E a pura verdade. -Vê agora. Tu tens só o meu coração. -E só tenho as tuas pernas, OS teus pés, O teu corpo. -Entretanto somos distintos. Eu queria que fôssemos exactamente um só. -Querias de facto? Não acredito. -Talvez não-disse ela falando meigamente com a boca encostada ao seu ombro. -Mas eu desejava dizer isto. Sinto-me contente por sermos diferentes, por tu seres Roberto e eu ser Maria. Mas se um dia tu desejasses mudax eu gostaria de mudar. Eu seria tu, porque te amo muito. -Mas eu não quero mudar. O melhor é cada um continua.r a ser o que é. -Havemos de ser um só e de nunca nos separarmos. -E, depois de uma pausa: -eu ainda serei mais tu quando não estiveres aqui. Oli, eu amo-te e hei-de cuidar muito bem de ti. -Maxia. -sim. -Maxia. -Sim. -Maxia. -Oh, sim. Por favor. -Não estás com frio? -Oh, não. Puxa a manta para cima dos ombros. -Maxia. -Eu não posso falar. -Oh, Maxia. Maria. Maria. Minutos depois, unidos, com a noite gelada lá fora e ali dentro aquele calor do edredão~ a cabeça dela tocando o queixo dele, Maxia quedava-se em doce e feliz lassidão; e perguntou-lhe meigamente: 254 O grande cavalo baio galopava pelo pinheiral fora.Uma larga faixa se abria na neve, com um


filete de sangue ao lado, marcando a passagem do ferido. Gentes saíam da gruta. Robert Jordan dobrou-se, desenrolou as calças que lhe tinham servido de travesseiro e começou a enfiá-las. -Veste-te -ordenou a Maria. Acima da sua cabeça ouviu o barulho de um avião a grande altura. Por entre as árvores pôde ver que o cavalo se detivera, com o cavaleiro ainda preso ao estribo, a cara no chão. -Vai buscar aquele cavalo-disse a Primitivo, ao vê-lo aparecer. Depois perguntou Quem estava de sentinela no alto ? -Rafael! - gritou Pilar da entrada da caverna, onde estava de pé, com os cabelos arranjados para a noite em duas tranças pendentes. -Há cavalaria nos arredores -observou Jordan.-Tratem de pôr o diabo dessa metralhadora lá em cima. Ouviu-a gritar para dentro: -Agustin!-E logo a seguir apareceram dois homens a correr, trazendo um a metralhadora com o tripé a balançar-lhe nas costas e o outro um saco de munições. -Vai com eles-gritou Jordan para Anselmo.-Deita-te e fica para aguentares firme as pernas da tripeça. Os três, correndo, meteram-se pela trilha que mergulhava no pinhal. O Sol ainda não aparecera sobre as montanhas. Jordan, de pé, abotoou as calças e apertou o cinturão, com a pistola ainda presa no pulso com a correia. Pô-la depois no coldre. Em seguida, fez deslizar o nó corredio da correia que passou pela cabeça. «Ainda um dia te estrangularão com isto, -disse-se. - Enfim, ainda bem que a tinhas. Tirou a pistola do coldre, extraiu o carregador, meteu-lhe uma bala que tirou da cartucheira do coldre e repôs o carredor no lugar. Através das árvores viu Primitivo segurar o cavalo pelas rédeas e desanganchar do estribo o pé do cavaleiro. O corpo lá estava de bruços na neve. Primitivo revistava-lhe os bolsos. -Vem!-gritou Jordan.-Traz o cavalo. Ao ajoelhar-se para calçar as alparcatas, sentiu contra as pernas o movimento de Maria que se vestia dentro do saco de campanha. Não havia lugar para ela na sua vida, naquele momento. 17- S. D. 257 - Quê caballo mds bonito -exclamou acariciando-o de novo. - Quê caballo mds hermoso. Vamos. Quanto mais depressa ele sair daqui, melhor. Dobrou-se e tirou do estojo a pistola-metralhadora que era uma autêntica metralhadora que se podia carregar com projécteis de nove milímetros; examinou-a. Exclamou: -Olhem-me como eles estão armados. Isto é que é cavalaria moderna. -Olha a cavalaria moderna, além, com a cara no chãó -disse Robert jordan.-Vamonos. -Tu, Andrés, sela os cavalos e prepara-os. Se ouvires tiros, mete-os no bosque, atrás da garganta e vem ter connosco com as tuas armas e deixa as mulheres a tomar conta dos animais. Tu, Fernando, ficas encarregado de me levar os dois sacos. E, sobretudo, carrega-os com precaução. Confio-os a ti também, Pilar. E faz que venham com os cavalos. Vamonos. -A Maria e eu vamos preparar tudo para a partida - disse Pilar. E mais perto de Robert Jordan: Olha para ele. -Designava Pablo sobre o cavalo que montava à maneira típica dos guardadores de rebanhos; as narinas do cavalo dilataram-se enquanto Pablo substituía o carregador da metralhadora. -Vê o efeito causado por um cavalo. -Ah, se eu tivesse dois cavalos! -exclamou Jordan com ardor.


- O teu cavalo é o perigo. -Então dá-me uma mula-disse Jordan a rir. -Despe-me aquilo-úisse a Pilar voltando a cabeça para o homem que estava de bruços na neve.-E tira-lhe tudo, cartas e papéis, e mete-os no bolso de fora do meu saco. Tudo, entendeste ? -Entendi. - Vamonos! -exclamou. Pablo cavalgava à fn~nte e os dois homens seguiram, um atrás do outro, para que ficassem poucas pegadas na neve. Jordan carregava a metralhadora com o cano voltado para baixo. Muito gostaria eu que se pudesse carregar com as mesmas munições que esta arma de cavalaria, pensava. Mas não pode. É uma arma alemã. Era a arma do velho Kachkine. O Sol ia aparecendo sobre o cume das montanhas. Soprava um vento tépido e a neve derretia. Estava uma linda manhã de Primavera atrasada. -Ouve. Não poderei ir contigo? -sugeriu a rapariga. -Não. Fica para ajudares Pilar. 259 as metralhadoras se perdessem, mas o Anselmo, trouxe-os sãos e salvos. -E tu? Sabes trabalhar com ela? -Sei. já experimentei. Pablo também sabe. E Primitivo e Fernando. Treinámo-nos a montá-la e a desmontá-la em cima da mesa da gruta para a estudarmos. Uma vez em que a desarmámos não houve maneira, durante dois dias, de a acertar de novo. Depois disso nunca mais mexemos nela-Mas agora funciona? -Sim. Não deixámos que o cigano e outros mexessem nela. - Estás a ver? Daqui não serve para nada-disse Robert jordan.-Olha. Estas rochas que deviam proteger o nosso flanco, só protegem o inimigo. Com uma arma como esta precisa-se um espaço livre diante dela. E depois é preciso atacá-los de flanco. Vês? Olha agora. Agora dominamos tudo. -Vejo, sim. Mas nós nunca combatemos na defesa, a não ser quando a nossa cidade foi tomada. No comboio havia soldados com a máquina. -Todos precisamos de aprender-disse Jordan.-Há uns pormenores a observar. Por onde anda o cigano que devia estar aqui ? -Sei lá! -Onde te parece que possa estar? -Não calculo. Pablo atravessara o desfiladeiro e fizera uma volta circular no espaço abrangido pelo campo de fogo da metralhadora. Agora Robert Jordan via-o descer a encosta seguindo ao longo do rasto que o cavalo tinha deixado ao subir. Desapareceu por entre as árvores, para a esquerda. Espero que não se vá chocar com a cavalaria, pensou Robert Jordan. Tenho muito medo que nos caia nos braços. Primitivo apareceu com os ramos de pinheiro e Robert Jordan espetou-os na terra através da neve, que não estava gelada, e curvou-os em arco acima do cano. -Traz mais-ordenou.-É preciso que cubram completamente os dois homens postados aqui. Não ficará grande coisa, mas sempre serve até à chegada do machado. Ouçam-me. Se ouvirem ruído de algum avião, deitem-se onde estiverem, mas à sombra das pedras. Eu fico aqui com a metralhadora.


Agora que o Sol estava já alto e um vento quente soprava, era agradável ficar do lado do sol na montanha. «Quatro, cavalos,-pensou consigo Robert Jordan.-As duas mulheres, Anselmo, Primitivo, Fernando, Agustin, eu e o outro irmão 263 que não sei como diabo se chama. Somos oito, sem contar o cigano. Com ele, nove. Mais Pablo que partiu com um cavalo, são dez. Ah! Sim, chama-se Andrés, o outro irmão. Mais outro, Eladio. São onze. Nem chega a meio cavalo por cabeça. Três pessoas podem aguentar o fogo aqui e quatro podem salvar-se. Cinco, se incluirmos Pablo. Sobram duas. Três, com Eladio. Onde diabo se terá ele metido? «Deus sabe o que poderá acontecer a El Sordo hoje, se eles seguirem a pista dos cavalos na neve. Diabo de neve esta que pára assim. Mas hoje funde e as coisas melhoram. Mas não para Sordo. Receio que seja muito tarde para que as coisas se arranjem para Sordo. «Se conseguirmos passar o dia inteiro sem combater, podemos tratar o grande negócio com o que temos. Disso estou certo. Talvez com alguma dificuldade. Não como seria necessário para nos sairmos bem, nem como desejaxíamos que fosse, mas utilizando toda a gente, podemos tentar o golpe. Se nffo tivemos de combater hoje. Deus nos ajude se formos obrigados a isso! «O melhor lugar paxa a espera ainda é este. Se partirmos hoje, deixaremos rasto na neve. Se tudo correr da pior maneir~ possível, ainda rios ficaxão três caminhos paxa sair daqui. E há ainda a escuridão que virá em nosso auxílio. De qualquer ponto das montanhas onde eu esteja, posso alcançar a ponte a tempo de a fazer saltar antes do amanhecer. Não sei porque me preocupei tanto com uma coisa que me parece agora tão fácil. Espero que os aviões levantem voo a tempo, ao menos por esta vez. Desejo-o sinceramente. Amanhã vai ser dia muito complicado. «O dia de hoje ou será monótono ou muito interessante. Mesmo que eles cheguem aqui, não creio que sejam capazes de reconhecer os rastos, tão embrulhados estão. Pensarão que o extraviado parou, andou à roda e seguirão o rasto de Pablo. Fico sem saber para onde os vai levar aquele patife. Provàvelmente deixará rastos a granel por toda a região e só voltará quando a neve derretida os tiver apagado. Talvez que tenha simplesmente aproveitado para se safar. Bah! Isso é lá com ele. Já deve começar a saber desembaxaçar-se, desde há muito! E não obstante, continuo a não ter confiança nele. Parece-me mais fácil aproveitax estas pedras e fazer uma boa camuflagem para a metralhadora do que construir um verdadeiro abrigo. Teríamos de cavar a terra e podíamos ser apanhados com as calças na mão, se eles, ou os aviões aparecc.3se~:m. Tal como está, a metralhadora aguentará a passagem, 264 enquanto for necessário. Mas eu, de qualquer forma, não posso ficar para combater. Tenho de sair daqui com a minha traquitana e levar Anselmo comigo. Quem ficará para cobrir a nossa retirada, se tivermos de combater aqui?» Nesse momento, enquanto observava a posição, viu o cigano chegar pela esquerda, entre os rochedos, caminhando sem pressas e balançando os quadris. Trazia a espingaxda a tiracolo e o rosto moreno sorria; em cada uma das mãos trazia uma lebre, de cabeça para baixo. -Hola, Roberto-gritou jovialmente. Jordan levou o dedo à boca em sinal de silêncio e o cigano pareceu espantado. Esgueirou-se por entre as pedras até ao lugar onde Robert estava acocorado ao lado da metralhadora escondida


pelos ramos e acocorou-se ao lado dele, pousando as lebres na neve. Jordan olhou para ele. -Hijo de la gran vaca! - sussurrou. - Por onde diabo andaste ? -Fui atrás delas-disse o cigano-e apanhei as duas; estavam a fazer amor no meio da neve. -E o teu posto ? -Não demorei muito -justificou-se Rafael.-Que aconteceu? Algum alaxme? -Há cavalaria para estes lados. -Rediás! -exclamou o cigano.-Quem viu? -No acampamento ficou um estendido. Veio para o pequeno almoço. -Bem me pareceu ter ouvido um tiro ou coisa que o valha - disse o cigano. - Me cago en la leche! E veio por aqui? _ Por aqui, pelo teu posto. -Ay mi madre! -exclamou o cigano.-Sou um pobre-diabo sem sorte. -Se tu não fosses cigano levavas já um tiro. -Não, Roberto, não digas semelhante coisa. Desculpa. Foi por causa das lebres. Antes de nascer o dia, ouvi o macho saltar na neve. Tu não podes imaginar o estardalhaço que faziam. Quando me aproximei, fugiram. Segui a pista na neve e, subindo, encontrei-as juntas e acabei por matar as duas. Vê como estão gordas para esta época do ano! O que Pilar não vai fazer com elas! Estou contrariado, Roberto, tão contrariado como tu. E mataram o cavaleiro? -Matámos. -Foste tu ? -Fui. - Qud tio!-exclamou o cigano num tom de descarada lisonja.-És um autêntico fenômeno. -Tua mãe!-respondeu Jordan, que não pode deixar de rir para o cigano.-Leva as lebres para o acampamento e traz qualquer coisa que se coma. E a sua mão apalpou os anÍma~zinhos estendidos sobre a neve, imóveis, pesados, peludos, de longas orelhas rosadas e tendo ainda abertos os olhos sombrios. -De facto estão gordas. -Gordas! -exclamou o cigano.-Há nada menos de um palmo de gordura no lombo de cada uma. Nunca vi na rainha vida lebres iguais, nem em sonhos. -Bem. Desaparece e trata de voltar já com a comida e com os documentos daquele requeté. Pede-os à Pilar. -Não estás zangado comigo, Roberto? -Zangado não. Aborrecido sim, por teres abandonado o posto. Imagina que tem sido um batalhão de cavalaria? -Rediós! Bem pensado! -Ouve. Tu não podes abandonar um posto desta maneira. Nunca. Não foi a brincar que falei em te meter uma bala na cabeça. -Certo que não volto a fazê-lo. Além de que a oportunidade de apanhar duas lebres de uma vez não se apresenta duas vezes na vida de um hornem... -Anda!-rematou Jordan-e trata de voltar depressa. O cigano pegou nas duas lebres e esgueirou-se por onde viera enquanto Jordan se punha a observar a brecha e a descida. Um corvo voava em círculo abaáxo dele e foi depois pousar num pinheiro mais abaixo. Um outro corvo juntou-se ao primeiro e Robert Jordan pensou: «lá estão as minhas sentinelas. Enquanto ali ficarem quietas é sinal de que não vem ninguém pela mata. «Quanto ao cigano não presta na verdade para nada. Nenhum espírito político, nenhuma


disciplina; é impossível confiar nele. Mas vou precisar de Rafael amanhã. É estranho encontrar um cigano na guerra. Eles deviam ser dispensados, como os que por questão de pensamento objectam contra a guerra. Mas nesta guerra até os objectores conscientes foram obrigados a lutar. A guerra veio e enrolou toda a gente. Sim, desta vez até alcançou os vadios. Agora têm que aguentá-la.» Agustin e Primitivo vieram com os ramos e Jordan construiu uma óptima camuflagem para a metralhadora, que a ocultava dos aviões e parecia natural vista da floresta. Mostrou depois a posição que cada qual devia ocupar. Um 266 no alto da pedreira, de onde podia doíninar toda a região em baixo, à direita outro, num ponto dominando a única passagem por onde podia ser vencida aquela muralha de pedra. -Não farás fogo se vires aparecer alguém-disse a Prin-útivo.-Atira uma pedra para baixo, para avisares, pedra pequena e com a espingarda faz assim-e levantou-a acima da cabeça como se a estivesse a pôr numa prateleira. Para indicar quantos são faz assim-e levantou e abaixou a arma. Se estiverem desmontados, vira o cano para baixo, assim. Não atires enquanto não ouvires a máquina fazer fogo. Se tiveres de atirar lá do alto, faz pontaria à altura dos joelhos. Se me ouvires assobiar três vezes assim, trata de descer, procurando dissimular-te e vem para aqui para junto da máquina. Primitivo ergueu a espingarda. -Compreendo -disse ele.-É muito simples. -Primeiro atira a pedra, como aviso e indica a direcção e o número. E trata de não te mostrares. -Sim-respondeu Primitivo.-E não posso lançar uma granada? - Enquanto a máquina não falar, não. É possível que a cavalaria ande a procurar o camarada extraviado, mas não entre po~ aqui. Pode estar a seguir os rastos deixados por Pablo. E preferível evitarmos combates, se for possível. Agora vai. -Me voy-e Primitivo lá se foi, de arma ao ombro, para o alto da pedreira. -E tu, Agustin, que sabes fazer com a metralhadora? -perguntou Jordan. Agustin, alto, moreno, de barba cerrada, olhos cavos, lábios finos e rudes mãos de trabalhador, acocorou-se. -Pues, carregar, apontar, atirar e nada mais. -Não atires antes de eles estarem a menos de cinquenta metros e só quando tiveres a certeza de que se dirigem para o desfiladeiro que conduz à caverna - determinou Jordan. -Está bem. E onde fico? -Naquela pedra. Se vires um oficial atira primeiro sobre ele. Depois faz pontaria aos outros. Move a arma vagarosamente. Hei-de ensinar a Fernando como se faz. Segura-a com força para que não dê saltos e, se for possível, não dês mais de seis tiros seguidos. Mas atira a um homem de cada vez e depois aponta a outro. Num homem a cavalo atira para a barriga. -Bem. 267 Anselmo chegou com o machado. -Queres mais galhos? A coisa já me parece bem escondida. - Chega de galhos - disse Jordan. - Mas quero dois arbustos para enterrar aqui e ali para dar uma impressão mais natural. Há poucas árvores neste bocado para que esta moita pareça natural.


-Vou buscá-los. -Corta-os bastante longe para que se não vejam os tocos. Robert Jordan ouviu o machado bater na mata atrás dele. Olhou paxa Primitivo no alto da pedreira e olhou para o pinhal em baixo, para lá da clareira. Um dos corvos ainda continuava imóvel. Ouviu os primeiros sons de um avião que se aproximava. Levantou a cabeça e viu-o muito alto, minúsculo e prateado sob o Sol. Parecia mover-se com custo no céu. -Eles não podem ver-nos-disse a Agustin.-Mas é bom estarmos de atalaia. -E os de ontem?-lembrou Agustin. -Sabem-me agora a pesadelo -retrucou Jordan. -Devem estar em Segóvia. É lá que o pesadelo espera para se tornar realidade. O avião já não se avistava da montanha, mas o som dos motores ainda era perceptível. Quando Jordan voltou a olhar para o corvo viu-o levantar voo. Voava em linha recta, sobre os pinheiros, sem grasnar. .-69 Robert Jordan via-os perfeitamente por cima do cano azulado da arma. Distinguia os rostos dos homens, os sabres pendentes, as manchas escuras do suor na anca dos animais, o cone das suas capas de caqui, a inclinação navarrina das gorras de caqui. O comandante deu volta ao cavalo, dirigindo-o para a garganta onde estava colocada a metralhadora e Jordan distinguiu-lhe nitidamente as feições juvenis, a pele tostada pelo vento e pelo sol, os olhos apertados, o nariz aquilino e o queixo voluntarioso. Colocando-se de frente, com o peito do animal diante da mira de Jordan, a cabeça erguida, a coronha da espingarda automática projectada fora do arção da sela, o comandante como que se oferecia àquela metralhadora. Jordan ergueu-se nos cotovelos e atentou nos quatro cavaleiros parados na neve. Três dentre eles tinham pegado nas armas. Dois tinham-nas deitado sobre o arção e um tinha a sua à direita, a coronha apoiada na anca. «É raro vê-los de tão perto, -pensou ele. -Assim na mira. Em geral vênio-los de tão longe que parecem homens em miniatura e é um chinchorro atirar até lá. Ou investem em disparada e martelamos uma ladeira, ou atiramos para as janelas; ou ainda os vemos desfilar numa estrada de muito longe. Só nos comboios é que os vemos assim. E só lá que aparecem como agora e com quatro metralhadoras como estas acabamos com eles num rufo. Através da mira, a esta distância, parecem duas vezes maiores que o tamanho natural. «Tu, -pensou ele olhando através da mira, apontando para o peito do chefe, um pouco à direita da insígnia vermelha luzindo no solda manhã, no fundo caqui da capa. -Tu, -pensou ele, em espanhol, apertando o guarda-mato da metralhadora-. Tu, -pensou ainda outra vez, -aí estás morto em plena juventude. E tu, - continuou, - e tu. Mas não é necessário que isso aconteça. Não é preciso.» Sentiu que Agustin a seu lado ia começar a tossir. Viu-o esforçar-se por reter o ataque, sufocar e engolir. Sempre na pontaria, com o cano oleoso e azulado entre os interstícios da ramaria e o dedo no gatilho, viu o chefe voltar o animal e seguir o rasto deixado por Pablo. Os outros seguiram-no pelo pinhal fora. Agustin exclamou: -Cabrones! Voltando-se Robert Jordan olhou para o ponto onde Aliselmo tinha deixado o pinheirinho. Rafael aproximava-se por entre as pedras da encosta, carregado com um par de bolsas de lona,


com a espingarda a 271 A necessidade que o obrigava a conversar era nele prova de que o perigo tinha sido grande. Jordan media os perigos por que passava pela premência do desejo de falar que lhe vinha depois. _A camuflagem foi boa, hem? -Boa!-exclamou o cigano.-Muito boa e os fascistas que vão para as profundas que os confundam. Nós podíamos ter morto quatro. Viste? -perguntou a Anselmo. -Vi, sim. -Anselmo-disse Jordan-tu terás que ir para o mesmo posto onde ontem estiveste, ou para qualquer outro que queiras, vigiar a estrada e relatar todo o movimento. já estamos atrasados nesse ponto. Fica até ao escurecer. Volta então para mandarmos outro. -Mas as pegadas que vou deixar? -Vai para baixo depois da neve derreter. A estrada ficará transformada num lamaçal. Repara se há muitos sulcos de camiões e rastos de tanques na lama da neve fundida. É tudo o que podemos saber antes de ires para o teu posto. -Com tua licença... -começou o velho. -Dize. -Com tua licença. Não será melhor ir eu até La Granja averiguar o que se passou por lá ontem à noite? Qualquer outro vigiaria em meu lugar, e podia vir entregar o seu relatório à tarde, ou mesmo eu podia voltar de La Granja para o ir substituir. -Não receias encontrar-te com a cavalaria? -Depois de passada a neve, não. -E há em La Granja alguém capaz de te informar? -Há. Para isso há. Uma mulher. Há muitas mulheres de confiança em La Granja. -Creio-disse Agu3tin-ou melhor sei que há, e capazes não só disso como de outras coisas. Não queres que vá eu? -Quem vai é o velho. Tu sabes da metralhadora e o dia. ainda não acabou. -Irei assim que a neve se tiver derretido - declarou Anselmo.-E agora ela está a desaparecer depressa. -Que pensas das possibilidades de eles apanharem Pablo? -perguntou Jordan a Agustin. -Pablo é ladino. Sem bons cães o caçador não apanha o veado cauteloso. -Às vezes acontece. -Mas não com Pablo-insistiu Agustin.-Apesar de ser apenas um refugo do que foi noutros tempos, não é por acaso 18-S. D. 273 -Mas ouve, Roberto-disse Agustin.-Rosnam que o Governo se aproxima cada vez mais da direita. Que na República já não dizem «camarada», mas sefior e seftora. Não te parece que deves mudar os bolsos dos papéis? Q uando eles se chegarem de mais para a direita, ponho os papéis no bolso de trás das calças e coso-o bem no centro. - Esperemos que continuem na tua camisa -disse Agustin. -Então vamos ganhar esta guerra e perder a revolução?


-Não-respondeu jordan.-Mas se não ganharmos esta guerra não vai haver nem revolução, nem República, nem tu, nem eu, nem nada a não ser um grande carajo. -E o que eu digo - comentou Anselmo. - Precisamos de ganhar a guerra. -E depois fuzilar os comunistas, os anarquistas e toda esta canalla, exc,-pto os bons republicanos -volveu Agustin. --Devemos é tratar de ganhar a guerra e não fuzilar ninguém-opinou Anselmo. -Devemos é governar corajustiça, comparticipando todos das vantagens, de acordo com o sacrifício feito. E os que nos combatem devem ser educados de modo a reconhecerem os seus erros. -É preciso fuzilar muitos - insistiu Agustin. - Muitos, muitos, muitos - e com o punho direito batia na palma da mão esquerda. -Não devemos fuzilar ninguém. Nem mesmo os chefès. O que cumpre é reformá-los pelo trabalho. -Eu cá sei o trabalho que lhes vou dar -ameaçou Agustin, apanhando um punhado de neve e metendo o na boca. -Qual é, coisa ruim? -Dos serviços de maior beleza. -Quais? Agustin tornou a meter na boca outro punhado de neve e olhou para o lugar por onde passara a cavalaria. Depois cuspiu a neve derretida: Vaya! Que almoço! -exclamou. -Por onde anda aquele Rafael imundo? -Que trabalhos? Fala, meu boca suja-insistiu Robert Jordan. -Saltar de aviões sem pára-quedas -respondeu Agustin com olhar faiscante.-Isso para os que valerem a pena. Para os outros pregá-los no alto de postes. -Essa maneira de falar é ignóbil-volveu Anselmo. -Assim nunca teremos uma República. -Eu gostaria de nadar dez léguas numa sopa feita com os cojones de todos eles-continuou Agustin.-E quando vi 275 aqueles quatro entre os pinheiros e pensei que os íamos matar, senti-me como uma égua no cio à espera do garanhào. -Mas sabes bem por que os não matámos, não sabes? -disse serenamente Jordan. -Sei, sim. Mas tinha esse desejo como uma égua no cio. Tu não podes saber porque nunca o sentiste. -Vi-te a suar que não foi graça, e pensei que fosse medo. -Era medo, sim-declarou Agustin.-Medo e a outra coisa. E, nesta vida, não há nada mais forte que essa outra coisa. «Sim, -pensou consigo Jordan. -Nós fazemo-lo a sangue-frio, mas eles não. Nunca o fizeram. Matar é para eles uma espécie de sacramento. O velho sacramento que tinham antes da nova religião vir dos confins do Mediterrâneo, esse impulso que eles nunca destruíram, apenas dissimularam e esconderam para que irrompesse violentamente nas guerras e na Inquisição. São o mesmo povo dos autos-de-fé. Matar é algo que deve fazer-se, apenas a nossa maneira é diferente da deles. E tu mesmo, perguntou Jordan a si próprio, nunca te sentiste corrompido pelo impulso espanhol ? Nunca o sentiste na Sierra? Nem em Usera? Nem durante todo este tempo na Estremadura? Nem em nenhum outro momento? Quê val Sentiste-o de cada vez que tiveste de destruir um comboio.


«Pára com essa literatura facciosa acerca de berberes e dos primitivos iberos e concorda que gostaste de matar, como todos os que são soldados por escolha e têm prazer na morte, quer o confessem quer não. Anselmo, não gosta de matar porque é caçador e não soldado. Os caçadores matam animais e os soldados matam homens. Não mintas a ti próprio, Jordan. Não Lças, literatura. Hájá muito tempo que estás contaminado. E não julgues mal o Anselmo. Ele é um cristão, coisa muito rara nos países católicos. «Mas no caso de Agustin eu julguei que fosse medo. O medo natural, normal, que precede a acção. Mas também era o outro, o instinto primitivo. Naturalmente está agora a gabar-se. Ele tinha medo e muito. Senti o medo de Agustin sob a minha mão. Bem, já é tempo de acabar com este monólogo. -Vai ver se o cigano traz a comida-disse para Anselmo. -Não o deixes subir até cá. É um tonto. Trá-la tu mesmo. E seja qual for a quantidade que traga manda-o buscar mais. Tenho uma fome espantosa. 276 CAPITULO XXIV A GORA era bem uma manhã dos fins de Maio, céu límpido c alto. Um vento tépido aquecia os ombros de Jordan. A neve derretia-se ràpidamente enquanto almoçavam. Vieram duas grandes sanduíches de carne e uma boa fatia de queijo de cabra para cada um, e Robert Jordan tinha cortado com a navalha grossas fatias de cebola que tinha posto de cada lado da carne e do queijo entre os pedaços de pão. -Vais ficar com um hálito capaz de atravessar a floresta e denunciar-nos aos fascistas - observou Agustin, com a boca cheia. - Dá-me o couro para lavar a boca -disse Robert Jordan co- i a boca cheia de carne, de queijo, de cebola e de pão mastigado. Nunca tinha tido tanta fome. Encheu a boca de vinho ao qual o couro dava um vago gosto de alcatrão; ergueu o couro para deixar o fio de vinho bater-lhe na garganta, o couro tocava as agulhas de pinho da camuflagem e ele inclinava a cabeça entre os ramos de pinheiro para beber melhor. -Queres mais esta sanduíche ?-perguntou Agustin, passando-lha por cima da metralhadora. -Não, obrigado. Come-a tu. -Não posso. Não estou habituado a comer de manhã. -Então não queres mesmo? -Não. Podes comê-la. Robert Jordan pegou nela e pousou-a no joelho enquanto tirava uma cebola do bolso onde estavam as granadas, e abriu a navalha para a cortar. Tirou uma fina película prateada que se tinha sujado no bolso, depois cortou uma fatia grossa. Uma rodela exterior caiu, ele apanhou-a, pô-la na fatia e pos tudo na sanduíche. -Comes sempre cebolas ao pequeno almoço? -perguntou Agustin. 277 -Mas agora tens a Maria. -Tenho. -Uma coisa esquisita-disse Agustin.-Desde que veio para cá, depois do comboio, Pilar tomou


conta dessa menina, com tanto cuidado como se ela estivesse num convento de carmelitas. Não podes fazer uma ideia de como Pilar a defendia e guardava. Mas afinal chega o Inglís e ela dá-lhe a rapariga de presente. Que te parece isto? -Não foi assim. -Como foi, então? -Pilar colocou-a debaixo da minha protecção. -Proteger para dormir com ela toda a noite... E uma maneira esquisita de proteger quem quer que seja! -Não compreendes que se pode proteger assim, e bem, uma pessoa? -Sim, mas essa maneira de tomar conta, qualquer de nós o poderia ter feito. -Vamos mudar de assunto-pediu Jordan.-Eu gosto dela de verdade. -Sério, sério? -Não pode haver nada no mundo de mais sério. -E depois? Depois do negócio da ponte? -Levo-a comigo. -Então não falemos mais nisso e que sejam ambos muito felizes. Ergueu o couro e depois de beber um golo passou-o ao companheiro. -Uma coisa ainda, Inglês. -O que quiseres. -Eu também gostei muito dela. Robert Jordan pôs-lhe a mão no ombro. -Muito-repetiu Agustin.-Mais do que se pode imaginar. -Eu posso imaginar, sim. -Ela causou-me uma impressão que não se apaga. =Calculo. -Tu sabes. Falo muito a sério. -Eu sei. -Nunca lhe toquei e nunca tive nada com ela, mas gosto muito dela. IngIés, não a trates com leviandade. Não é por dormir contigo que ela é uma mulher qualquer. -Tratarei dela muito bem. -Acredito. Mas ouve. Tu não compreendes o que seria uma rapariga como ela se não tivesse havido a revolução. 279 -Seja o que for que houver entre hoje e amanhã a respeito do combate confia em mim, Agustin, e obedece-me, mesmo que as minhas ordens pareçam absurdas. -Tens todo o meu apoio, depois deste negócio da cavala.ria e de teres mandado embora o cavalo. -Isso não foi nada. Tu bem vês que trabalhamos para um fim, ganhar a guerra e enquanto não a vencermos, tudo o mais não tem importância. Também teremos de combater. Na luta é preciso haver disciplina. Há muita coisa que não é como parece. A diáciplina deve basear-se na confiança absoluta. Agustin cuspiu para o chão. -A Maria está à parte dessas coísas-disse ele.-Que tu e a Maria aproveitem o que puderem do vosso tempo, como criaturas humanas que são. Eu estou às ordens para te ajudar no que for possível. E no que diz respeito ao dia de amanhã, obedecerei cegamente. Se for necessário morrer


pelo «negócio», morrerei de boa vontade e alegremente. -Também sinto da mesma forma-dísse Jordan-, mas muito me alegra ouvir-te falar dessa maneira. -E há mais-contínuou Agustin.-Aquele que está lá no alto-e apontou para Primitivo-é um tipo de confiança. A Pilar também é, mais do que podes imaginar. O velho Ansclino também. Andrés também, Eládio também. Muito sossegado mas elemento de toda a confiança. E Fernando. Não sei como o julgas. É verdade que é mais pesadão que o mercúrio. E mais cheio de complicações e dificuldades que um novilho puxando um- carro na estrada real. Mas para combater e fazer o que lhe mandam, os muy hombre! Vais ver. -Tudo bom, hem? -Não. Temos dois elementos fracos. O cigano e Pablo. Mas o bando de El Sordo é melhor que o nosso, tanto como nosso é melhor que estrume de cabrito. -Então está tudo bem. -Sim, mas eu preferia que a coisa fosse para hoje. -Também eu. Acabar com isto de uma vez. Mas não é. -Pensas que a coisa vai ser séria? - Pode ser. -Não estás muito animado agora, IngUs. - Estou, sim. -Também eu. Apesar desse assunto da Maria e de tudo mais. -E sabes porquê? -Não. -Nem eu. 281 CAPITULO XXV ROBERT Jordan olhou para Primitivo que, de pé no seu posto, levantava a espingarda e apontava, indicando uma direcção. Acenou-lhe com a cabeça para lhe dizer que tinha compreendido, mas o homem continuou a fazer-lhe sinal, com a mão na orelha, insistindo. -Fica aqui com a metralhadora e não atires senão quando tiveres a certeza, mas a certeza absoluta, de que eles se dirigem para nós. E então não antes de atingirem aquela moita - indicou Robert Jordan. designando-a. - Compreendes ? -Sim. Mas... -Não há mas nem meio mas. Depois te explicarei as minhas razões. Vou ver o Primitivo. E para Anselmo que estava perto: -Viejo, fica aqui com Agustin e a metralhadora. Ele não deve atirar a não ser que a cavalaria esteja de facto a entrar. Se apenas aparecer que faça como eu fiz da outra vez. E se tiver que abrir fogo, segura com força os pés do tripé e vai-lhe passando as munições. -Está bem-assentiu o velho.-E La Granja? - Mais tarde. Jordan escalou e rodeou as rochas cinzentas, molhadas sob as mãos que apoiava para subir. O sol fundia ràpidamente a neve. Os cimos dos grandes blocos estavam secos. Ã medida que subia ia


vendo o pinhal, a encosta descoberta e o fundo do vale que aparecia ao longe, no sopé das montanhas. Primitivo virou-se quando o alcançou; estavam numa cavidade atrás de duas rochas e o homenzinho de rosto queimado disse-lhe: -Estão a atacar El Sordo. Que vamos fazer? -Nada-respondeu Jordan. 283 -Para morrerem lá? Olha para o sol. O dia é longo. O céu estava alto e sem nuvens, o sol queimava-lhe as costas. Na parte sul da clareira havia largas manchas de neve derretida e a neve acumulada nos ramos dos pinheiros já caíra toda. Erguia-se acima deles uma fina névoa causada pelos quentes raios de Sol batendo nos rochedos onde a neve se fundia. -Hay que aguantarse -disse Robert Jordan. Não vejo outra maneira. A guerra tem destas coisas. -Mas não podemos fazer nada por eles?-Primitivo olhou para Jordan e viu que podia ter confiança nele.-Não me podes mandar a mim e a mais outro com a metralhadora pequena? -Não adiantaria coisa nenhuma. Nesse momento pareceu-lhe ver o que esperava, mas era um falcão que planava ao sabor do vento, para depois se erguer acima da linha mais afastada do pinhal. -Nada adiantaria, nem que lá fôssemos todos-concluiu. O tiroteio redobrou de intensidade, pontoado pelo estourar pesado das granadas. -Oh, me cago! - exclamou Primitivo com uma espécie de fervor na grosseria, as lágrimas nos olhos e as faces trémulas. - Oh, Deus e a Virgem, mergulhai aqueles cabrones no leche da sua ordinarice. -Acalma-te -implorou Jordan.-Muito em breve estarás a combatê-los. Aí vem Pilar. Com grande esforço, Pilar subia pelos blocos de pedra. Primitivo continuava as suas blasfémias pedindo a Deus e à Virgem para cagalos, cada. vez que o vento trazia uma rajada de tiros. Robert Jordan desceu para ajudar Pilar a subir o último pedaço. -Quê tal, mulher - disse segurando-a pelos pulsos e guiando-a. -Vim trazer o binóculo. Então é a conta de El Sordo? -É. -Pobre! - murmurou comiscrada. - Pobre El Sordo... Ofegando do esforço da subida, pegou na mão de Jordan, apertou-a fortemente, enquanto olhava ao longe. -Como te parece que marche o combate? -Mal, muito mal. -Está lixado. -Creio que sim. -Pobre-repetiu ela.-Por causa dos cavalos, não? - Provàvelmente. 285 Quanto a imaginação o cigano tem-nA por nós todos. Que romance ele me contou!... -Se tu tivesses visto não falarias de romance - disse Primitivo. -Escapámos de boa. -Quê va-retorquiu Pilar.-Vieram cavaleiros que se foram embora. E vocês julgam-se heróis. É a isso que conduz a força da inacção. -E também achas que o caso de El Sordo não é grave? -interpelou ele com desprezo. Primitivo


sofria visivelmente cada vez que o vento trazia o som dos tiros, e desejava ir combater, ou que Pilar o deixasse sózinho, pelo menos. -Total, qué?-disse Pilar.-Não percas os coJones por causa das desgraças alheias. -Vamos, vai cagarte-intimou ele.-Há mulheres de uma estupidez e de uma brutalidade insuportáveis. -É para completar os homens pouco dotados para a procriação -respondeu Pilar.-Mas se não há nada para ver, vou-me embora. Nesse momento Robert Jordan ouviu o rumor de um avião muito alto. Olhou. Pareceu-lhe o mesmo que passara em observação pela. manhã. Voltava agora às linhas, sobrevoando o local onde El Sordo estava a ser atacado. -Lá está a ave de mau agouro-disse Pilar.-Poderão eles ver o que se passa lá em baixo ? -Na certa--afirmou Jordan. -Só não vêem se os pilotos forem cegos. Quedaram-se a acompanhar com os olhos o avião que se movia na altura, prateado e firme, brilhando ao Sol. Vinha em direcção ao front e podiam-se distinguir os círculos feitos pelas duas hélices. - Deitem-se -ordenou Jordan. O avião passou-lhes por cima da cabeça, com a sombra a deslizar pela superfície da clareira; rumou depois para o alto do vale. Viram-no continuar a rota, até quase se perder de vista; depois traçou um largo círculo, deu duas voltas e desapareceu com rumo a Segóvia. Jordan olhou para Pilar. Viu-a com a fronte banhada em suor e abanado a cabeça. Prendia nos dentes o lábio inferior. - Cada qual tem a sua fraqueza. A mim são os aviões que me dão cabo dos nervos. -Será que apanhaste o meu medo? - volveu Primitivo com sarcasmo. -Não - respondeu Pilar pondo-lhe a mão no ombro. -Tu não tens medo para fornecer aos outros. Sei bem disso. 287 CAPITULO XXVI ERAm três horas da tarde quando os aviões voltaram. Ao meio~dia já desaparecera toda a neve e as pedras estavam quentes do sol. No céu nem urna nuvem. Jordan tirara a camisa para um banho de sol, enquanto lia os papéis encontrados no bolso do cavaleiro. A espaços interrompia a leitura para inspeccionar a orla da floresta e o alto das montanhas. Mas a cavalaria não voltaxa a aparecer. De longe em longe ouvia-se um tiro na direcção do acampamento de El Sordo. Mas a fuzilaria tinha acabado. Por aqueles papéis soube Jordan que o rapaz era de Tafalla, na Navarra, solteiro, vinte e um anos de idade, filho de um ferreiro. O seu regimento era o nono de Cavalaria, o que espantou Jordan, po~s julgava o regimento no Norte. Era carlista e tinha sido ferido no combate de 1rim no começo da guerra. «Com certeza já o vi correr pelas ruas, à frente dos touros, na feira de Pamplona, -pensou Robert Jordan. -Numa guerra a gente nunca mata as pessoas que gostaria de matar. Ou pelo menos quase nunca,»-emendou continuando a leitura das cartas. As primeiras cartas que leu eram muito convencionais, caprichosamente escritas e tratavam exclusivamente de assuntos locais. Eram da irmã. Jordan ficou a saber que em Tafalla tudo corria


bem, o pai estava de saúde e a mãe como sempre, embora a queixar-se de dores nas costas, e quanto a ele, ela, a irmã, esperava que estivesse bom e não corresse grandes perigos. Confessava-se satisfeita por o ver tomar parte activa na libertação de Espanha do domínio das hordas marxistas. A seguir mandava uma relação dos rapazes de Tafalla moi-tos ou gravemente feridos desde a sua última carta. Menc~onawi dez mortos.-«É muito para uma cidadezinha do tamanho de Taf~Llla,» - pensou Robert Jordan. 19-S. D. 289 Havia na carta vários períodos sobre religião. Ela pedia a Santo Antônio, à Santíssima Virgem do Pilar e a outras Virgens para que o protegessem e advertia-o de que nunca esquecesse que também estava sob a protecção do Sagrado Coração de Jesus; e que ela tinha a certeza de que ele continuava a usar esse coração sobre o seu próprio coração, pois estava provado (e sublinhou a afirmativa) que o Sagrado Coração gozava do poder de não deixar entrar as balas. Continuava a ser a mesma irmã amiga. de sempre. Concha. Esta. carta estava suja nas margens e Robert Jordan voltou a colocá-la. cuidadosamente junto dos papéis militares e abriu uma carta de caligrafia menos aplicada. Era da novia do rapaz, absolutamente louca quanto aos perigos que ele corria. Robert Jordan leu-a e meteu os papéis e as cartas no bolso das calças. Não tinha vontade de conhecer as outras cartas. «Penso que fiz hoje uma boa acção,»-disse consigo. «Penso que sim» - repetiu. -Que estavas aí a ler?-perguntou Primitivo. -Os documentos e cartas daquele requeté que matámos hoje pela manhã. Queres ver? -Não sei ler. Algo de interessante? -Não. Cartas particulares. -Como andam por lá as coisas? As cartas dizem? -Parece que tudo vai bem-respondeu Robert Jordan. A cidade so-freu muitas baixas. - Examinou a camuflagem que tinha sido um pouco modificada e melhorada, depois da neve ter desaparecido, e que parecia muito natural. Olhou ao longe. -De que cidade é ele?-perguntou Primitivo. -Tafalla. «Está bem- disse Jordan de si para si. -Lamento muito, se isso adiante alguma coisa.» «Mas não adianta. Está bem, da mesma forma. E agora é não pensar mais nisso. Está bem, não penso. «Mas não é assim tão fácil. Quantosjá mataste? - perguntou-se.-Não sei. Achas que tens o direito de matar alguém? Não. Mas é preciso. Quantos dos que tu mataste eram verdadeiros fascistas? Muito poucos. Mas eram todos inimigos a cuja força estamos a opor a nossa força. Mas tu gostas mais dos navarrinos do que de quaisquer outros espanhóis. Sim. E máta-los? Sim. E se não acreditas vai ver ao acampamento. E não sabes que é mau matar? Sim, sabes. Mas continuas? Sim. E continuas a acreditar que a tua causa é justa? Sim. «É justa - continuou Jordan - não para se animar, mas com orgulho. -Eu creio no povo e no direito que o povo tem de se 290 governar como entende. Mas não se deve acreditar no direito de matar. E preciso admitir que se mata por necessidade, mas é preciso não julgarmos que se trata de um direito. Porque se admitimos este conceito, está tudo corrompido. «E quantos pensas que já mataste? Não sei, porque não quero tomar nota. Mas sabes? Sei.


Quantos? Tu não podes ter a certeza de quantos foram. Isso de fazer voar comboios mata muitos. Muitos... mas não se pode saber ao certo. E dos que tens a certeza? Mais de vinte. E desses, quantos eram verdadeiros fascistas? De dois, tenho a certeza, porque tive que os abater quando os aprisionámos em Usera. E não tiveste escrúpulos de fazer semelhante coisa? Não. Sentiste prazer nisso? Decidi nunca mais o fazer. Evitei. Evitei matar os que estavam desarmados. «Olha, o melhor é acabares com isto. É mau para ti e para o teu trabalho. Estás a ouvir-me, Jordan? Estás em véspera, de fazer uma. coisa muito importante e é preciso estares certo de que compreendes. É preciso que te faça compreender isto claramente. Porque se a coisa não está clara no teu espírito, tu não tens o direito de fazeres as coisas que fazes, porque são todas criminosas, e nenhum homem tem o direito de tirar a vida a outro, a menos que seja para evitar que aconteça qualquer coisa pior a outras pessoas. Portanto, examina-te bem e trata de não mentires a ti próprio. «Mas eu não vou guardar a lista das pessoas que matei como se coleccionam trofms, ou como se fazem ignóbeis marcas na coronha da espingarda, -pensou. -Tenho o direito de não saber a conta e tenho o direito de os esquecer. «Não! Tu não tens o direitc, de esquecer coisa alguma... Não tens o direito de fechar os olhos a nada, nem o direito de esquecer... nem de ajeitares... nem de alterar nenhum dos teus actos. «Cala-te!-impôs asipróprio.-Estás a tornar-te pomposo. «Está bem. Muito agradecido pelos bons conselhos. E faço bem em amar Maria? «Sim, - respondeu a outra parte de si próprio. «Mesmo que não exista a coisa a que chamam amor, numa sociedade de concepção puramente materialista? «E desde quando tens tu essa concepção? -perguntou a outra parte do seu eu. -Nunca a tiveste e nunca a poderás terresponde a a si próprio. -Marxista sincero não o és, e bem sabes disso. Acreditas em Liberdade, Igualdade e Fraternidade, acreditas na Vida, na Liberdade e na Procura da Felicidade. Não te enleies muito em dialécticas. Elas são para muitos, 291 mas não para ti. Deves conhecê-las para não teres um ar de ludibriado. E preciso aceitar muitas coisas para ganhar uma guerra. Se perdermos esta guerra, tudo estará perdido. «Mas depois poderás pôr de lado aquilo em que não acreditares. Há muita coisa em que acreditas e muita coisa em qilr não acreditas... «E ainda mais. Não dês cabo da cabeça por causa do teu amor por qualquer. É que a maior parte das pessoas não têm a sorte de o ter. Tu nunca pensaste em amar ninguém. Nunc?, soubeste o que isso era, e agora sabes. O que sentes por Maria quer dure apenas hoje e parte de amanhã, quer dure uma vida inteira, é a coisa mais importante que pode acontecer a um ser humano. Sempre haverá pessoas que neguem o amor, porque são pessoas que nunca o sentiram. Mas eu garanto que existe e que tu o sentes e que és feliz mesmo que morras amanhã. «Vamos pôr de parte esta coisa de morrer, porque não é maneira de conversar. É a maneira de falar dos nossos amigos anarquistas. Sempre que alguma coisa não corre bem, eles querem pegar fogo a tudo para morrer. É uma mentalidade muito estranha, a deles. Muito estranha. Bom, já são perto de três horas e a comida não deve demorar. Ainda estão a atirar no acampamento de El Sordo; quer dizer que o cercaram e estão provàvelmente à espera de reforços. Mas é preciso que os recebam antes da noite. «Eu queria saber o que se está a passar com eles. É talvez o que nos espera a todos nós, mais


cedo ou mais tarde. Imagino que não devem estar muito alegres lá em cima. E fomos nós que metemos El Sordo nesta embrulhada, com a ideia de roubar cavalos. Como dizê-lo em língua espanhola? Un calleján sin salida. Eu acho que me teria saído muito bem da situação. Mas é preciso acabar com isto de urna vez, o mais rápido possível. Mas que luxo não será tomar um dia parte numa guerra em que nos possamos render depois de cercados! Porque estamos cercados. Estamos copados. Foi esse o grande grito de terror desta guerra. Depois era-se abatido; e se não havia nada antes, tinha-se sorte. El Sordo não terá essa sorte, nem a teremos nós aqui, quando chegar a nossa vez.» Deram três horas. Jordan ouviu um rumor longínquo. Erguendo a cabeça viu os aviões no céu. 292 CAPITULO XXVII A luta de El Sordo era num cume. Num cume de que ele não gostava, por lhe dar a ideia de um tumor. Mas não tivera oportunidade de escolher; e tinha-o assinalado de tão longe quanto o pudera perceber. Tinha galopado para ele, esporeando o cavalo que sentia ofegar entre as pernas, a metralhadora a pesar-lhe nas costas, o saco de granadas balançando de um lado e o saco dos carregadores do outro, enquanto Joaquim e Inácio paravam e atiravam. Paravam e atiravam, para lhe dar tempo a colocar a metralhadora em posição de fogo. Ainda havia neve, então, a neve que os tinha perdido e quando o cavalo foi atingido e, arquejando, começou a subir * passos lentos, vacilantes, na última parte do caminho, regando * neve com um jacto vermelho e sacudido, El Sordo tinha subido a pé, arrastando-o pelo freio. Tinha subido tão depressa quanto lho permitiam os dois sacos que levava aos ombros, enquanto as balas ricocheteavam nas pedras; depois, segurando o cavalo pela crina, pesaroso, abateu-o ràpidamente. Fê-lo, de modo que ao tombar ficasse entalado entre duas grandes pedras, de cabeça para diante. El Sordo colocou a metralhadora de forma a poder atirar por cima do espinhaço do cavalo e disparou dois carregadores, em rajadas precipitadas, e as cápsulas vazias amontoavam-se na neve e um cheiro de pêlo queimado vinha do cavalo, do sítio onde se apoiava o cano quente da metralhadora. Disparava sobre os que subiam a encosta, obrigando-os a dispersarem-se para procurarem abrigos. E durante todo esse tempo sentiu arrepios de frio porque não podia saber o que se passava atrás dele. Logo que o último dos seus homens atingiu o cunie, decidiu poupar as munições para o momento em que precisasse delas. 293 Havia mais dois cavalos mortos na. encosta e três ali no alto. Na noite anterior El Sordo só conseguira roubar três animais, um dos quais fugira quando tinham tentado cavalgá-lo em pêlo num curral, no momento em que o tiroteio irrompeu. Dos cinco homens que alcançaram o cume, três estavam feridos. El Sordo também fora atingido na barriga. da perna e em dois lugares do braço esquerdo. Sentia uma sede devoradora e as feridas inteiriçavam-lhe os músculos e uma das do braço era muito dolorosa. Além disso sentia a cabeça estalar-lhe com dores. Enquanto estava deitado, esperando os aviões, lembrou-se de uma


piada espanhola: Hay que tomar la muerte como si Juera aspirina. Mas não a disse em voz alta. Fez uma careta por causa das dores de cabeça e da náusea que o acometia a cada movimento do braço e olhou em torno para o que restava do bando. Os cinco homens estavara espalhados como as cinco pontas de uma estrela. Ajoelhados tinham cavado com as mãos e levantado diante de si montículos de lama e pedras que lhes defendiam o corpo. Assim abrigados procuravam ligar os montículos individuais com um parapeito de pedra e terra. Joaquim, o adolescente, tinha um capacete que lhe servia para cavar e transportar a terra. Tinha encontrado o capacete quando do ataque ao comboio, furado por uma bala e toda a gente se tinha rido dele. Mas tinha batido com um martelo as rebarbas do furo para depois lhe espetar um tampão de madeira que aparara ao nível do metal. No início do tiroteio enterrara o capacete na cabeça com tanta força que pelo som se julgaria ter enfiado uma caçarola e depois da infernal subida até ali, as balas chovendo em redor, as pernas dormentes, os pulmões a arderem, o capacete começou a pesar-lhe terrivelmente, rodeando-lhe a cabeça enturnecida como um anel de ferro. Mas não o tinha tirado. Agora cavava com ele com uma regularidade desesperada e quase maquinaL Ainda não tinha sido ferido. -Afinal sempre serviu para alguma coisa-disse El Sordo, na sua voz forte e gutural. -Resistir y fortificar es vencer- respondeu o rapaz, com a boca rígida por força de uma secura de medo que excedia a sede normal dos combates. Era um dos lemas do partido comunista. El Sordo olhava ao longe o ponto onde um cavaleiro se escondera atrás de uma pedra. Gostava muito de Joaquim, mas de momento não estava disposto a apreciar os lemas. -Que disseste tu?-perguntou, uma voz. 294 Era um dos homens deitados de barriga no chão e que interrompera o trabalho para arranjar cuidadosamente uma pedra, sem tirar a cara do chão. Joaquim com a sua voz de menino na muda, repetiu a frase sem interromper o trabalho. -Qual é a última palavra dessa aldrabice ?-perguntou o homem de cara no chão. -Vencer-repetiu o rapaz. - Mierda- exclamou o homem de cara no chão. -Há um outro lema que se aplica ao nosso caso-continuou Joaquim, e dir-se-ia que repetia as palavras de ordem uma a uma, como talismãs.-A Passionária diz que é melhor morrer de pé do que viver de joelhos. -Mierda outra vez-disse o que falara. E um terceiro lançou por cima do ombro: -Estamos de barriga para baixo e não de joelhos. -Tu, meu comunista! Sabes que desde o início do movimento a tal Passionária tem um filho da tua idade na Rússia? -Isso é mentira- protestou Joaquim. -Qzíé va, mentira! Foi o dinamitador de nome esquisito que mo contou. Ele também era do teu partido. Porque havia ele de me mentir? -É mentira, pela certa- teimou Joaquim. -A Passionária não faria uma coisa dessas, esconder um filho na Rússia, longe da guerra! -Pois eu é que desejava estar na Rússia neste momento -disse outro homem do grupo. -A tua Passionária não poderá mandar-me para lá agora, comunista? -Se acreditas tanto na Passionária, arranja maneira de ela nos tirar desta colina-disse um que


tinha a coxa amarrada. -Os fascistas se encarregarão disso-rosnou o de cara no chão. -Não fales assim-murmurou Joaquim. -Ainda tens a boca a saber a leite da mãe. Limpa os beiços e dá-me um capacete de barro-pediu o homem da cara no chão.-Nenhum de nós verá hoje o pôr-do-sol. E El Sordo raciocinava: «tem o feitio de um tumor. Ou de um seio de menina, sem bico. Ou de um cone de vulcão. Tu nunca viste um vulcão, homem. Nem verás nunca. E este monte parece um tumor. Deixa lá os vulcões. Agora é tarde para vulcões, homem». Examinou minuciosamente o que tinha em volta, por sobre as ancas do cavalo morto. Ouviu um rápido matraquear de tiroteio que partia de um bloco de pedra no sopé da encosta 295 e balas de metralhadoras vieram espetar-se no cavalo morto. Arrastando-se para trás dele, espiou por uma nesga. justamente abaixo dele, na encosta, havia três cadáveres de cavaleiros, mortos no momento em que tentavam o assalto à colina, protegidos por um nutrido fogo de armas automáticas. El Sordo e os companheiros tinham anulado o ataque atirando granadas pelo monte abaixo. Havia mais cadáveres, noutros lados da colina, que não podia ver. Não havia sítio por onde os assaltantes se pudessem aproximar fàcilmente do cume e El Sordo sabia que enquanto dispusesse de cartuchos e de granadas e de quatro homens válidos, não os conseguiriam arrancar dali, a menos que trouxessem um morteiro de trincheira. Ignorava se o tinham mandado buscar a La Granja. Talvez não, porque, pela certa, os aviões não tardariam. Havia umas quatro horas que tinha aparecido, voando por cima deles, um avião de reconhecimento. «Sim, esta montanha é de facto um tumor, -reflectiu El Sordo; -e nós somos o pus. Mas matámos muitos quando fizeram esta estupidez. Imaginaram então que nos apanhavam assim? Eles dispõem de tanto armamento moderno que a confiança os enlouquece. Tinha morto o jovem oficial que conduzia o ataque, com uma granada de mão quando subiam a correr, dobrados. Através do clarão amarelo e da fumarada cinzenta vira o oficial tombar para a frente. Agora lá estava, como uma trouxa de roupa velha, marcando o ponto ex+remo atingido pelos assaltantes. El Sordo olhou para o cadáver e depois para os outros que estavam mais abaixo. Soldados valentes mas estúpidos, -pensou. -Mas ainda com bastante bom-senso para não se atreverem a atacar antes de chegarem os aviões. A menos que estejam à espera de um morteiro. Com um morteiro é facílimo. O morteiro era o método normal, e ele sabia que a chegada de um morteiro significaria a morte dos cinco, mas quando pensava na chegada dos aviões sentia-se tão desprotegido naquele cume como se lhe tivessem tirado não só a roupa, como a própria pele. «Ninguém se pode sentir mais nu do que eu me sinto agora, - pensou. - Comparativamente um coelho esfolado está tão coberto como um urso. Mas por que razão hão-de trazer aviões? Podem fazer-nos sair daqui fàcilmente com um morteiro de trincheira. Mas andam tão cheios de orgulho com os seus aviões que é muito provável que os tragam. Assim como estavam tão envaidecidos com as suas axmas automáticas que fizeram esta burrice. Mas devem ter mandado vir, sem dúvida, um morteiro também. 296 Um dos homens fez fogo. Depois voltou a atirar rápidamente. -Poupa os cartuchos-disse El Sordo. -Um dos filhos de uma cabra tentou trepar para aquela pedra-explicou o homem, apontando.


-E atingiste-o ?-perguntou El Sordo mexendo a cabeça com dificuldade. -Nada. O cabron abaixou-se. -Cabra das cabras é a Pilar-volveu o homem de cara no chão.-Aquela cabra bem sabe que estamos a morrer aqui. -Ela não pode fazer nada-disse El Sordo, que tinha ouvido, porque o homem falara do lado do seu ouvido bom. -Que poderia ela fazer? -Atacar estes porcos pelas costas. -Quê va!-exclamou El Sordo.-Eles cercaram a colina. Como poderia ela atacá-los? São uns cento e cinquenta homens e agora talvez já sejam mais. - Mas se nós aguentarmos até à noite ? - sugeriu Joaquim. -E se o Natal vier antes da Páscoa?-disse o de cara no chão. -Se a tua tia tivesse cojones, seria teu tio-volveu outro. -Manda buscar a Passionáría. Só ela nos poderá ajudar. -Eu não acredito nessa história do filho dela - disse Joaquim.-Ou então está-se a treinar na Rússia para aviador ou qualquer coisa assim... -Está lá mas é para ficar no seguro. -Ou a estudar dialéctica. A Passionária também lá esteve. E Lister e Modesto e os outros. Foi o de nome esquisito iue me contou. Vão aprender lá para nos virem ajudar-disse oaquim. -Então que nos ajudem já-disse outro.-Essa cambada de trapaceiros russificados agora é que nos devia vir ajudar. -Atirou e disse:-Me cago en tal. Falhei outra vez. -Poupa as munições e não fales tanto, se não queres sentir muita sede-avisou outra vez El Sordo.-Nesta montanha não há água. -Toma isto-disse o homem empurrando-lhe um odre de couro que trazia a tiracolo. - Bochecha com ele, velho. Deves ter muita sede com esses ferimentos todos. -Dá aos outros. -Então bebo eu primeiro-disse o dono, tomando um largo trago antes de passar o odre aos companheiros. - El Sordo, quando pensas tu que podem chegar os aviões? -perguntou o do queixo metido na terra. 297 -A qualquer momento. já deviam ter chegado. -Pensas que esses filhos de uma cabra nos vão atacar outra vez ? -Só se os aviões não vierem. El Sordo não julgou conveniente falar do morteiro. Quando o morteiro chegasse, depressa se dariam conta. -Deus sabe que eles têm aviões de sobra, a julgar pela amostra que vimos ontem. -De mais até-disse El Sordo. Doía-lhe muito a cabeça, agora, e o braço estava tão rígido que era com horrível sofrimento que o mexia. Olhou para o céu límpido, de um azul diáfano, enquanto erguia o odre com o braço bom. El Sordo tinha cinquenta e dois anos e estava certo de que via aquele azul pela última vez. Medo da morte, não; apenas o irritava ver-se encurralado naquele cume, sem outra saída senão preparar-se para morrer. «Se tivéssemos podido fugir, - pensava ele. - Se pudéssemos ter feito com que eles viessem pelo vale acima ou se tivéssemos escapado atravessando a estrada, estaria


certo. Mas aqui neste cume, neste tumor... Temos, porém, de aproveitá-lo como pudermos, e foi o que fizemos até agora, da melhor maneira possível. Se tivesse sabido o número de homens que tinham morrido assim num& colina, não se sentiria consolado, pois em apertos como aquele os homens não se importam com o que aconteceu a outros em idênticas circunstâncias, do mesmo modo que uma viúva recente não se consola com a ideia de que outros maridos amados tivessem também morrido. Com ou sem medo, o homem aceita com relutância a sua própria morte. El Sordo aceitara-a, mas não com satisfação, mesmo aos cinquenta e dois anos, com três ferimentos e numa montanha sitiada. Caçoava consigo mesmo a esse respeito, mas olhando o céu e as montanhas ao longe e engolindo o vinho verificava que não desejava morrer. «Se a gente tem de morrer, o que é natural, -pensava ele,-eu posso morrer. Mas odeio a morte. Morrer não era nada e não fazia da morte nenhuma ideia terrificante. Mas viver era um campo de trigo ondulando ao vento no flanco de uma colina. Viver era um gavião no céu. Viver era uma bilha de água fresca na poeira do grão batido pelo mangual e da palha voando. Viver era sentir um cavalo entre os joelhos, uma espingarda no coldre, e uma colina, e um vale, e um ribeiro marginado de árvores e o outro lado do vale com colinas perdidas na. distância. 298 El Sordo restituiu o odre de vinho e agradeceu com a' cabeça. Debruçando-se bateu no pescoço do cavalo morto, no lugar onde o cano da metralhadora chamuscara o couro. Pensou em como tinha trazido o cavalo até ali, a tremer, com as balas silvando e estalando por cima e em volta, corno uma cortina; e depois como tinha procurado cuidadosamente o ponto próprio, justamente na intersecção das línhas unindo cada. uma das orelhas ao olho oposto. Em seguida, depois do corpo do cavalo, molhado de suor, ter caído entre as duas pedras, recordou como se tinha estendido atrás do espinhaço quente e húmido para disparar sobre os assaltantes que subiam a colina. -Eras mucho caballo, amigo-disse. El Sordo estava agora estendido sobre o seu lado válido e olhava o céu. Estava deitado num monte de cápsulas vazias, com a cabeça protegida pelas pedras e o corpo estendido contra o flanco, do cavalo. Os ferimentos contraíam-lhe dolorosamente os músculos, sofria muito e sentia-se muito fatigado para se agitar. -Que tens tu, meu velho? -perguntou o homem que estava a seu lado. -Nada. Estou a descansar um pouco. -Dorme - retrucou o outro. - Quando chegarem, eles acordam-nos. Nesse instante alguém gritou do fundo da encosta. -Ouçam, bandidos!-A voz vinha detrás do rochedo que abrigava a arma automática que estava mais perto deles. -Entreguem-se antes que os aviões os reduzam a pedaços. -Que está ele a dizer? -perguntou El Sordo. Joaquim repetiu a intimação. El Sordo virou-se e arrastou-se até ficar de novo atrás da sua arma. -Talvez os aviões não venham-disse ele.-Não respondam, nem atirem. Talvez possamos forçá-los a atacarem-nos outra vez. -E se os insultássemos também? - lembrou o homem que falara a Joaquim do filho da Passionária escondido na Rússia. -Não-volveu El Sordo.-Uma pistola grande! Quem tem aí uma pistola grande? -Aqui está uma.


-Dá cá. Ajoelhando-se, pegou na grande «Star» de nove milímetros e deu um tiro no chão, ao lado do cavalo morto, esperou e depois atirou de novo quatro vezes com intervalos regulares. 299 comandava o destat,~tr,,,(,i ,fo, estão cercados. Não têm outra coisa a esperal, a MIO Sei* ;.L O soldado não respoiideu. -Que pensas tu?-pcrgurI;~._ ,~ o oficial. -Nada-foi a resposta (10 soI~ado. -Observaste algum i-novíi-,, e-uto &-pois dos tiros de pistola? -Nenhum. O oficia.1 olhou para o pulso, Eram três menos dez. -Os aviões iá cá deviam esla-r há uma boa hora-disse ele e, nesse mon~ento, outro veio colocar-se atrás do rochedo. O atirador afiastou-se ,,ii-a lhe dar lug~,r. -E a ti, Paco -perguntou o lp- 1:.inÁro ofi--ial-qie te parece? O segundo oficial respone~--_u com dificuldade, por ter vindo a correr da pedra onde e,,~í',ava para aquele ponto. -Para mim isto não pass"L de um estraiageraa-opinou ele. -E se não for? Que coisa. r»ciícul---~ ficarmos aqui ~-'t espera a cercar cadáveres! --Já fizer.,).os coisa pier que c.~te ridículko. Olhe para aquela encosta. Ergueu os olhos para os cad1`.veies que , jaziam perto do cume. Do seu, observatório, a iii)lia do cume rrostrava os rochedos esparsos, a barriga, a,, dobradas e os cascos do cavalo de 1`À Sordo e a atinula pelos que tiriha.m construído o p---rapeito. -E -) morteiro?-quis sabcj o segundo -Deve cstar aqui dentro c~- uma hoia, o mais tardar. -Pois então esperemos. ja, 1Íz~,jr,,os muitas a~,nciras como esla. -BaiidIdO_,.~ -gritou súbitaii)c--,te o primeiro oficial pondo-se de pé, com a cabeça ~p_i.recendo acima do bloco de pedra.-Porcos vermelhos! Covardes! O segui)do oficial olhou pu~,t o atirador e abanou a cabeça. O atirador desviou o~ (,Ihcs contraindo os lábios. O primeiro oficial continuava de pe, com ~,. cabeça exposta e a mão na coronha da pistola. Praguej,iva e insuítav,-, com veemência o cuine da colina. Mão ~,.co.itec,~u nada, Então afá tou-sedeliberadamente do rochedo e ficou de pé, olhandoocuiw, ': -Atirem, covardes, se é que est "O vivos! - gritou, -- Atirai sobre um homem que não tem medo de nenhum vcrtitcí!,n, saído da barriga da Grande Porca. A última frase era comprida de mais para ser gritada ao terminá-la o oficial tinha o rosto congestionado. qoj Tenha razão de declarar que tem medo? Tenha razão de dizer que não lhe apetece obedecer a uma ordem?


-Nada disso. Tem razão em acreditar numa armadilha. -Estão todos mortos. Não me ouviu dizer que estão todos mortos? -Se se refere aos nossos camaradas espalhados aí pela encosta, estou de acordo. -Paco-disse o capitão-não faça de tolo. Você pensa que era o único amigo de Julian? Garanto que os vermelhos estão mortos. Olhe! Ergueu-se e apoiando as duas mãos sobre a pedra, içou-se arrastando-se desajeitadamente sobre os joelhos, para se pôr de pé, no alto da pedra. -Atirem!-gritou ele, de pé sobre o rochedo cinzento e agitando os braços.-Atirem! Atirem! Matem-me! No alto da colina, El Sordo continuava estendido atrás do cavalo morto e sorria. Que povol,-pensava ele. E começou a rir, tentando conter-se, porque o rir abanava-lhe o braço e fazia-lhe dores. -Vermelhos! -berravam de baixo.-Canalha vermelha! Atirem! Matem-me! Sordo, o peito sacudido pelo riso, lançou um rápido olhar por cima das ancas do cavalo e viu o capitão agitando os braços, de pé no alto do rochedo. Viu outro oficial a seu lado e viu também o atirador. Sordo continuou a olhar nesta direcção e abanou a cabeça, cheio de felicidade. «Atirem!, -repetiu muito baixo. - Matem-me!»- Depois os seus ombros foram de novo sacudidos pelo riso. Rir fazia-lhe mal ao braço e cada vez que ria tinha a impressão que lhe ia estalar a cabeça. Mas o riso sacudiu-o de novo como um espasmo. O capitão Mora desceu da pedra. -Acredita agora, Paco? - perguntou ao tenente Berrendo. -Não-respondeu este. - Cojones! -exclamou o capitão.-Aqui só há idiotas e covardes. O atirador escondera-se cautelosamente atrás da pedra e o tenente acocorou-se a seu lado. O capitão de pé, na encosta, completamente exposto, recomeçou a gritar insultos para o cume da colina. Não existe língua mais imunda que a espanhola; tem palavras correspondentes a todas as obscenidades do inglês e ainda uma imensidão de expressões intraduzíveis, só empregadas em 303 países onde a blasfémia anda de mãos dadas com a austeridade da religião. O tenente Berrendo era católico e muito devoto. O atirador também. Ambos carlistas da Navarra, e conquanto praguejassem e blasfemassem quando enfurecidos, não deixavam de considerar tal coisa como um pecado e confessavam-se regularmente. Naquele momento, porém, ali escondidos atrás da pedra, vendo e ouvindo o que o capitão fazia e dizia, não o acompanhavam, sentiam-se desolados com os seus gestos e as suas palavras. Não queriam ter esse pecado na consciência justamente num dia em que estavam arriscados a morrer. «Estas blasfémias não nos podem trazer sorte,-pensava o atirador. Falar assim na Virgen dá azar, e o capitão tem uma linguagem ainda pior do que a dos vermelhos». «Julian está morto,-pensava por sua vez o tenente Berrendo.-Morto ali naquela escarpa, num dia como este. E esta boca imunda a atrair mais desgraças com as suas blasfémias». Quando o capitão acabou de praguejar, voltou-sc para, o tenente. Os seus olhos pareciam mais estranhos do que nunca. -Paco-disse satisfeito -vamos nós os dois lá cima. -Eu não. -O quê?-E pegou de novo na pistola.


«Detesto estes tipos que andam sempre de pistola na mão, -pensou consigo Berrendo. -Não são capazes de dar umaordem sem brandir uma arma. Tenho a certeza de que tiram a pistola quando entram numa retrete e ordenam que sala qualquer coisa». -Se me ordenar irei. Mas sob protesto -declarou Berrendo. -Pois então irei sózinho. Não suporto o cheiro da covardia. E com a pistola. na mão direita começou a subir a encosta. Berrendo e o soldado acompanhavam-no com os olhos. Mora não procurava abrigar-se e olhava para a frente, para os rochedos, para o cavalo morto e para a terra mexida de fresco. El Sordo, atrás do cavalo, acompanhava a subida do capitão pela encosta acima. «Um só, -pensava.-Só apanharemos um. Mas pela maneira de falar, é caza mayor. Vejam como sobe! Este é para mim. Este vou eu levar comigo na viagem. Este que se aproxima vai fazer a mesma viagem que eu. Vamos lá, camarada viajante. Vamos, sobe. Vamos, vem para aqui. Vamos. Avança. Nada de demoras. Continua assim, desempenado. Não pares para atender ninguém. Está certo. Não olhes também para baixo. 304 Continua a avançar firme, os olhos na frente. Vejam, ele tem ~igode. Que dizes tu? Tem um bigode, o Camarada Viajante. E capitão. Vejam-lhe a manga. Bem dizia eu que era caza mayor. De cara parece um Inglês. Vejam. Rosto corado, cabelos louros e olhos azuis. Sem bivaque e o bigode é amarelo. Olhos azuis. Mas naqueles olhos há qualquer coisa que não me parece bem. Olhás azuis que não conseguem fixar. já estás perto. Muito perto. Sim, Camarada Viajante. Apanha lá isto, Camarada Viajante. Premiu docemente o gatilho da metralhadora que pulou três vezes contra o seu ombro, com o jeito sacudido das armas automáticas. O capitão caiu de bruços, o rosto no chão, no flanco da colina. O braço esquerdo estava dobrado debaixo dele. O braço direito, a pistola na mão, estendia-se em frente da cabeça. Do fundo da encosta recomeçaram a metralhar o cume. Acocorado atrás da pedra, vendo que teria agora de atravessar o espaço desabrigado sob o fogo do inimigo, o tenente Berrendo ouvia lá em cima a voz grossa de El Sordo imitar os insultos do capitão morto: -Bandidos! - gritava a voz. - Bandidos! Atirem! Matem-me! No cume, El Sordo estava estendido atrás da sua arma e ria tão desabaladamente que o peito lhe doía enormemente e sentia a cabeça estalar-lhe. -Bandidos! -gritou de novo, radiante. -Matem-me, bandidos!-Depois sacudiu a cabeça, satisfeito, reflectiu consigo que teria muitos companheiros para a viagem. Bom, agora era fazer o mesmo ao outro oficial, quando ele deixasse o abrigo da pedra. Mais cedo ou mais tarde teria de se expor, pois dali não poderia comandar os assaltantes. A oportunidade de o apanhar era excelente. Nesse momento chegaram até ali os primeiros roncos dos aviões que se aproximavam. El Sordo não ouviu nada, todo ocupado em manter sob a mira da metralhadora o bloco de pedra. E pensava lá consigo: quando eu o vir, ele já estará a correr e posso não o atingir. Posso atirar durante o tempo que levar a atravessar entre as duas pedras. Ou atirar para a frente, para onde ele vai passar. Vou ver se consigo obrigá-lo a levantar-se para trepar para a pedra, para então atirar. Mas um toque no seu ombro fê-lo voltar a cabeça; deu com Joaquim, lívido e com uma expressão de pavor estampada. na fisionomia, apontando para os três aviões que se


aproximavam. 20- S. D. 305 Nesse instante o tenente Berrendo saltou de trás da pedra e, cabeça e tronco dobrados, atravessou o campo em direcção à metralhadora. Com os olhos nos aviões, El Sordo não deu pela escapadela. -Ajuda-me a tirar isto-disse ele a Joaquim, e o rapaz tirou a metralhadora do seu nicho entre o cavalo e o rochedo. Os aviões aproximavam-se regularmente. Vinham escalonados e, segundo a segundo, cresciam e o ruído era mais forte. -Deitem-se de costas para atirar sobre eles-ordenou El Sordo.-Atirem para a frente deles quando chegarem. Os seus olhos não se despregavam dos aviões. -Cabrones! Cabrones!-disse ràpidamente. -Inácio, põe a metralhadora no ombro do rapaz. E tu, Joaquim, senta-te aqui e não te mexas. Agacha-te. Mais. Não! Mais. El Sordo deitou-se de costas e apontou a arma para os aviões que se aproximavam. -Tu, Inácio, trata de manter firmes os pés da tripeça. Os três pés batiam nas costas do rapaz e o cano da metralhadora era agitado pelos estremecimentos que o rapaz não conseguia evitar, enquanto continuava dobrado, a cabeça baixa, analisando o ronco que crescia sempre. Deitando-se de barriga para baixo, a cabeça levantada para o céu para os ver chegar, Inácio firmou os pés do suporte com as duas mãos e endireitou a arma. -Baixa a cabeça-disse para Joaquim. -Estende a cabeça para a frente. «A Passionária diz «mais vale morrer de pé ... »-repetie~ Joaquim enquanto o roncar se aproximava. De repente mudou para: -«Avé Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte, ámen. Santa Maria, mãe de Deus»,-começou ele de novo, muito depressa e como o ronco dos aviões se tornasse intolerável, passou ao acto de contrição: «pesa-me, Senhor, de todo o meu coraçao, vos ter ofendido porque sois digno de todo o meu amor ... » Depois o martelar das detonações entrou-lhe nos ouvidos e o cano da metralhadora queimava-lhe as costas. O matraquear recomeçou e ficou surdo. Inácio segurava firmemente o tripé e o cano queimava-lhe as costas. O matraquer subia acima do roncar dos motores e não conseguia recordar-se do acto de contrição. 306 Apenas se conseguia lembrar: «na hora da nossa morte, assim seja, na hora da nossa morte, assim seja. Na hora. Na hora. Assim seja.» Os outros estavam todos a fazer fogo. «Agora, e na hora da nossa mort~-. Assim seja.» E então, cortando o matraquear da metralhadora, ouviu-se um silvo rasgando o ar; e a terra, num bramido vermelho e negro, abriu-se sob os seus joelhos e depois ergueu-se violenta para lhe inundar o rosto; depois começaram a cair pedaços de pedra e terra e Inácio caiu-lhe em cima e o cano da metralhadora também. Mas não estava morto porque ouviu novo assobio e sentiu novo terremoto à sua volta. E depois recomeçou e sentiu a terra desaparecer e um lado do cume ergueu-se no ar e tombou lentamente sobre os corpos estendidos. Os aviões tinham voltado três


vezes para bombardear o cume, mas ninguém do grupo se deu conta disso. Por fim metralharam os destroços e foram-se. Picaram uma última vez, as metralhadoras martelaram, depois o primeiro avião subiu e afastou-se e os outros aparelhos fizeram o mesmo; passaram da formação em linha à formação em V e afastaram-se no céu com rumo a Segóvia. Abriu-se um nutrido fogo contra o cume e o tenente Berrendo conduziu uma patrulha até uma das crateras das bombas de onde podiam atirar granadas para o cume. Não queria correr o risco de deixar um homem vivo a aguardá-los no cume devastado; antes de abandonar a cratera aberta pela bomba, atirou quatro granadas para aquela barafunda de cavalos mortos, pedaços de rochedo e montículos de terra amarela que cheiravam a pólvora. Apenas o jovem Joaquim vivia ainda, desmaiado sob o cadáver de Inácio. Joaquim sangrava pelos ouvidos e pelo naríz. Não tivera noção de coisa nenhuma desde o instante em que se tinha encontrado mesmo no centro da tempestade e em que o fôlego lhe tinha sido arrancado do corpo quando esta bomba tinha caído tão perto. O tenente Berrendo fez o sinal da cruz e deu-lhe um tiro na nuca com a mesma perícia, rapidez e delicadeza com que El Sordo atirara sobre o cavalo ferido. De pé no cume, o tenente Berrendo olhou para a encosta, onde se encontravam os seus mortos; depois observou a região onde tinham perseguido El Sordo antes de ele se ter refugiado ali. Observou as posições e depois deu ordem para trazerem os cavalos dos mortos e pôs estes atravessados nas selas paxa serem levados para La Granja. -Levem também este -ordenou. ~ Esse que tem as mãos na metralhadora. Deve ser El Sordo. É o mais velho e o que 307 CAPITULO XXVIII DEPois da retirada dos aviões, jordan e Primitivo ouviram de novo tiros e tiveram a impressão de que os seus corações voltavam a bater nesse momento. Uma nuvem de fumo erguia-se acima da última linha visível do alto planalto e os três aviões eram três pontinhos a sun-~xem-se no céu. «Provàvelmente bombardearam a sua própria cavalaria e não conseguiram atingir El Sordo e o seu bando, - dissejordan consigo. -Os malditos aviões assustam pavorosamente, mas não matam ninguém.» -O combate prossegue - disse Primitivo, muito atento ao tiroteio. Tinha piscado a cada explosão das bombas e agora passava a língua pelos láhios secos. -E porque não?-tornou jordan.-Aquelas coisas nunca matam ninguém. Mas o fogo cessou por completo e ele não ouviu nada. O tiro de pistola do tenente Berrendo não podia chegar até alL No primeiro instante não se impressionou. Mas como o silêncio se prolongasse, começou a sentir um buraco no estômago. Ao ouvir o estrondo das granadas, o seu coração reanimou-se. Mas quando de novo se fez silêncio e esse silêncio se prolongou, soube que tudo estava acabado. Maxia subia do acampamento com uma marmita de ferro com o guisado de lebre com cogumelos mergulhados num molho espesso, um saco de pão, um odre de vinho, quatro pratos de estanho, duas canecas e quatro colheres. Parou perto da metralhadora e entregou dois pratos a Agustin e Eládio, que substituíra Anselmo; deu-lhes o pão e tirou rolha do couro e encheu duas canecas de vinho. Robert jordan viu-a subir, ligeira, até ao seu posto de observação, o saco ao ombro, a marmita na


mão, a cabeça 309 E pelo tom de voz ambos viram que ainda se não tinha refeito. -Salud, velho. -Ouve-disse Primitivo.-Eu não tenho medo de morrer, mas deixá-los assim sózinhos...-e a sua voz quebrou-se. -Não havia outro jeito-murmurou Jordan. -Eu sei. Mas apesar disso... -Não havia outro jeito-repetiu Jordan.-E mais vale não voltar a falar nisso. -Mas lá, sózinhos, sem nenhum auxílio nosso... -insistiu Primitivo. -E melhor não falar mais nisso - rematou Jordan. -E tu, guapa, põe-te a andar para a tua instrução. Viu-a descer através dos rochedos. Depois ficou muito tempo sentado a pensar e a observar a região. Primitivo falou-lhe sem obter resposta. O Sol estava quente, mas o rapaz não o sentiu enquanto esteve a olhar para a encosta da montanha e para os grandes bosques de pinheiros que cobriam o alto do declive. Passou uma hora e o Sol estava já longe, à sua esquerda, quando se deu conta dos cavaleiros na colina. Servindo-se do óculo seguiu a dupla coluna de homens e de cavalos que se deslocava e que podia ver perfeitamente. Enquanto os observava sentiu o suor correr das axilas. Um homem cavalgava na frente da coluna. Depois vinham outros cavaleiros. A seguir, os cavalos sem cavaleiros e com fardos postos de través nas selas. Depois mais dois cavaleiros. E os feridos, a cavalo, rodeados por homens a pé. Outros cavaleiros fechavam a coluna. Robert Jordan viu-os descer a encosta e perderem-se no pinhal. Não podia ver daquela distância o fardo atado a uma das selas, um comprido poncho enrolado, atado pelas pontas, de maneira que aparecia entre as cordas como uma vagem de ervilhas. Estava colocado de través na sela e as pontas estavam presas aos estribos. Ao lado do fardo, a metralhadora de El Sordo, amarrada à sela, erguia-se orgulhosamente. O tenente Berrendo, que vinha à frente da coluna, sentia aquele vácuo que se segue à acção. E pensava consigo que trazer aquelas cabeças era. algo de bárbaro. Mas a identificação é indispensável. «Isto vai-me dar aborrecimentos e Deus sabe que mais. A ideia de trazer as cabeças talvez agrade lá. É possível que as mandem todas para Burgos. Coisa bárbara. Aviões? Muchos! Muitos. Muitos. Poderíamos conseguir o mesmo resultado com um morteiro Stokes. Duas mulas para carregar os obuses e uma com um morteiro de cada lado. E que exército seríamos então! Com o fogo destas armas automáticas! E mais outra mula. Não, duas para carregar as munições. Deixa-te disso, Berrendo. já não se trata de simples cavalaria. Estás a formar um exército. Daqui a pouco até queres um canhão de montanha ... » Depois pensou em Julian, tombado na encosta, agora morto, amarrado na sela de um cavalo, na frente da coluna. E quando meteu a montada pelo escuro pinhal adentro, deixando atrás de si a encosta batida pelo sol, começou de novo a rezar por ele. «Salvé, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa. A vós bradamos os degradados filhos de Eva ... » Ia dizendo a oração enquanto os cascos dos cavalos pisavam surdamente a caruma do pinhal. A


luz filtrava-se por entre os troncos como entre as colunas de uma catedral e, rezando, via os raios passar entre os troncos. Transposto o pinhal, desembocaram na estrada de La Granja, onde as patas dos cavalos ergueram uma nuvem de pó. Pó que se acamava sobre os mortos amarrados de cabeça para baixo nos arções das selas e sobre os feridos e sobre os que os acompanhavam a pé. Foi assim que Anselmo os viu desfilar diante dele. O velho contou os mortos e os feridos e reconheceu a arma de El Sordo. Não percebeu, porém, o que leva-a a trouxa do poncho, a trouxa que balançava contra o flanco do cavalo conforme balançavam os estribos. Mas quando à noite atravessou a colina onde El Sordo se tinha batido, viu logo o que continha o fardo do poncho. A escuridão impediu-o de reconhecer os que estavam no cume. Mas contou os corpos e depois dirigiu-se para o acampamento de Pablo. Caminhando so'zinho nas trevas, com um medo que lhe gelava a alma, tal a impressão que lhe tinham produzido as crateras abertas pelas bombas e tudo o mais que vira no cume da colina, não voltou a pensar no dia seguinte. Pôs-se a andar o mais depressa que podia para dar a notícia. E enquanto andava rezava pela alma de El Sordo e de todo o seu bando... Era a primeira vez que rezava desde o início do movimento. «O clemente, 6 piedosa, ó doce Virgem Maria ... » ia ele murmurando. Mas ao cabo de algum tempo não pôde fugir de pensar no dia seguinte e monologou: «vou fazer tudo quanto o Inglês me mandar e como ele me mandar. Mas que eu fique perto dele, ó Senhor! E oxalá as suas instruções sejam claras, porque não 312 sei se poderei controlar-me sob um bombardeamento de aviões. Ajudai-me, Senhor, a portar-me como se deve portar um homem nas suas últimas horas. Ajudai-me, Senhor, a compreender com claxeza as ordens do dia. Ajudai-me, Senhor, a dominar as minhas pernas para não fugir quando a coisa começar a ficar feia. Ajudai-me, Senhor, a portar-me como um homem durante o combate de amanhã. E assim como eu pedi o Vosso auxílio, concedei-me essa graça, Senhor, porque sabeis que eu não a imploraria se o caso não fosse sério, e não voltarei a pedir mais nada ... » Continuou a caminhar, só, na escuridão, mas sentia-se melhor depois de ter rezado, e tinha agora a certeza de se ir portar dignamente. Começou a rezar pelos homens de El Sordo e dentro em pouco atingiu o posto mais elevado, onde Fernando o deteve. -Sou eu-respondeu Anselmo. -Bem. -Sabes o que aconteceu a El Sordo, meu velho?-perguntou Anselmo a Fernando. Estavam ambos de pé, na sombra dos grandes rochedos. -Sei, sim. Pablo contou-nos. -E ele foi lá? -Como não? Pablo foi inspeccionar a pedreira assim que a cavalaria desceu. - E contou-vos... -Contou-nos tudo - respondeu Fernando. - Como são bárbaros estes fascistas! Precisamos de acabar com tais monstros em Espanha.-Interrompeu-se e depois continuou, amargamente:-Eles não têm a menor noção de dignidade. Anselmo sorriu nas trevas. Uma hora antes não teria imaginado que voltaria a sorrir. Que maravilha este Fernando, pensava. -Sim. Nós precisamos de lhes dar uma lição. Precisamos de lhes tirar os aviões, as armas


automáticas, os tanques, a artilhaxia, e ensinar-lhes a dignidade. -Isso mesmo - apoiou Fernando. - Estou satisfeito por concordares comigo. Anselmo deixou-o ali, de pé, em companhia da sua dignidade e desceu para a caverna. 313 Depois olhou para Robert Jordan e disse: -Posso beber mais? -E porque não? E Jordan encheu-lhe de novo a caneca que lhe deu, em vez de a empurrar. Anselmo já não sentiu a sensação de ardor, mas a de um maior bem-estar. O whisky estimulava-o como uma injecção de soro estimula um homem que teve uma grande hemorragia. Olhou de novo paxa o frasco. - O resto é para amanhã - disse Jordan. - Que aconteceu na estrada, velho ? -Houve muito movimento -começou Anselmo.-Marquei tudo, conforme as instruções. Deixei lá uma mulher a tomar nota. Depois vou descer para ir buscar os apontamentos. -Viste canhões antitanques? Daqueles com pneus nas rodas e canos muito compridos? -Vi. Passaram quatro camiões. E em cada um havia um desses canhões com ramos de pinheiro a esconder o cano. Nos camiões havia seis homens para cada canhão. -Quatro canhões, dizes tu? -Quatro -confirmou Anselmo, sem olhar para as notas. -E que mais viste passar pela estrada? Anselmo contou o que tinha visto e Robert Jordan tomava nota. Contava tudo desde o princípio e na ordem, com essa estupenda memória dos que não sabem ler nem escrever. Enquanto falava, Pablo encheu e bebeu duas canecas de vinho. -Passou também a cavalaria que foi para La Granja, vinda da colina onde se bateu El Sordo-continuou AnsèImo, Disse depois o número de feridos que tinha visto e o número de mortos atravessados nas selas. -Havia uma trouxa amarrada a uma sela, que no começo não fui. capaz de saber o que era. Depois verifiquei que eram as cabeças. -Continuou imediatamente: -Era um esquadrão de cavalaria. Ficou só com um oficial. Mas não era aquele que esteve aqui de manhã quando tu estavas na metralhadora. Esse deve estar entre os mortos. Dois-dos mortos, vi pelas mangas que eram oficiáis. Estavam de borco sobre as selas, com os braços caídos. Levavam também a máquina de El Sordo amarrada à sela onde levavam as cabeças. O cano estava torcido. E é tudo-concluiu. -E é bastante - disse Jordan, enchendo a caneca de vinho.-Mas além de ti quem -atravessou já as linhas para o lado da República? -Andrés e Eládio. 315 É provàvelmente numa cave ou num abrigo, com fios telegráficos conduzindo para lá. Andrés tem de perguntar pelo general e pelo Estado-Maior da Divisão; tem de entregar isto ao general ou ao chefe do seu Estado-Maior, ou a outro cujo nome vou escrever. Deve haver lá um pela certa, ainda que os outros tenham saído para inspeccionar os preparativos do ataque. Compreendes agora? - Sim.


- Então vai buscar o Andrés. Eu vou escrever e depois vou carimbar o sobrescrito com isto.-Mostrou o pequeno carimbo de borracha, com punho de madeira, e o pequeno frasco de tinta na sua caixa de ferro que não era maior que uma moeda de cinquenta cêntimos e trazia no bolso.-Eles darão muita importância a este carimbo. Traze o Andrés para eu lhe explicar tudo. Ele tem de ir depressa, mas antes do mais é necessário que ele entenda. -Ele entenderá, porque eu também entendo. Mas tens de lhe explicar tudo muito bem. Essas histórias de Estado-Maior e de divisões são um enigma para mim. Estive sempre em lugares bem definidos, uma casa, em geraL Em Navacerrada, o posto de comando está num velho hotel. E em Guadarrama, é numa casa que tem um jardim. -Com este general-disse Jordan-deve ser num lugar muito perto das linhas. Deve ser um subterrâneo, por causa dos aviões. Andrés pode encontrá-lo Iàcilmente, se souber o que há-de perguntar. Só terá que mostrar o que vou escrever. Mas vai procurá-lo porque é preciso que ele chegue lá abaixo muito depressa. Anselmo retirou-se, mergulhando sob a cortina da entrada e Jordan começou a escrever no seu caderno. -Ouve, -Inglis-disse Pablo que não tirava os olhos do pichel de vinho. -Estou a escrever-disse o rapaz sem levantar os olhos. -Ouve, Inglés-tornou Pablo, como se se dirigisse ao pichel de vinho.-Não há razão para desanimar. Mesmo sem El Sordo ainda temos gente suficiente para tomar os postos e fazer saltar a ponte. -Tanto melhor-disse Jordan, sem deixar de escrever. -Muita gente. Hoje admirei o teu critério, Inglés-continuou Pablo dirigindo-se ao pichel.-Acho que tens muita Picardia. És mais hábil do que eu. Tenho confiança em ti. Atento ao relatório dirigido a Golz, tentando empregar o menor número de palavras e tentando dax convicção ao que escrevia, tentando apresentax a coisa de modo a fazer renunciar 317 CAPITULO XXX A ssim, tudo quanto deveria ser feito naquela noite foi feito. Foram dadas todas as ordens. Cada um sabia exactamente o que lhe cumpria fazer na manhã seguinte. Andrés tinha partido havia umas duas horas. Portanto ou seria ao nascer do dia, ou não seria. «Tenho a impressão de que se vai fazer o ataque,»-pensou RobertJordan descendo do posto do alto, onde tinha ido falar a Primitivo. «Golz organiza o ataque, mas não tem poder para o cancelar. Essa ordem só pode ser dada por Madrid. As probabilidades são de que eles não conseguirão acordar ninguém por lá e, se o conseguirem, vão encontrá-los tontos de sono, incapazes de raciocinar. Deveria ter avisado Golz mais cedo, antes de estarem feitos todos os preparativos para o ataque, mas como se pode dizer uma coisa antes dela ter acontecido? Eles só trouxeram esses engenhos depois de ser noite. Não querem que os seus movimentos na estrada sejam observados p~1.os aviões. Mas os aviões deles? Sim, onde se meteram os aviões fascistas ? «É possível que a nossa gente já esteja prevenida. Mas talvez os fascistas estejam a camuflar uma outra ofensiva sobre Guadalajara. Dizia-se que havia tropas italianas concentradas em Soria e de novo em Siguenza, além das que operam no Norte. Mas eles não têm tropas nem material bastante para duas grandes ofensivas simultâneas. É impossível, portanto deve tratar-se de um


«bluff». «Sabemos, porém, das muitas tropas desembarcadas em Cádis no mês passado e no anterior. É sempre possível que eles tentem, que tentem de novo atacar Guadalajara, não tão estúpidamente como da primeira vez, mas com três cunhas que se alarguem e se dirijam pelo caminho de ferro para oeste do planalto. Há uma maneira de o conseguir. Hansjá o demonstrou. Da primeira vez fizeram muitos erros. O plano estava cheio de falhas. Não tinham empregado na ofensiva de Arganda, contra a estrada de Madrid-Valência, nenhuma das tropas que tinham utilizado em Guadalajara. Porque não teriam feito simultâneamente aquelas duas ofensivas? Porquê? Porquê? Viremos algum dia a sabê-lo? «Todavia, com as mesmas tropas conseguimos detê-los as duas vezes. Nunca o teríamos conseguido se eles tivessem atacado ao mesmo tempo pelos dois lados. Não te apoquentes, amigo Jordan. Vê os milagres que aconteceram depois. Ou terás que fazer saltar a ponte de madrugada, ou não terás. Mas não tentes convencer-te de que não terás. Terás que a fazer saltar um dia ou outro. E se não for esta ponte, será outra qualquer. Tu não decides nada. Obedeces apenas às ordens. Executa-as e não tentes saber o que há atrás delas. «As que recebeste neste caso são muito claras. Claras de mais. Mas não te atormentes, nem te assustes. Se te deres ao luxo de um medo, legítimo todavia, esse medo pode propagar-se aos que devem trabalhar contigo. «Mas este caso das cabeças é deveras impressionante. E o velho que caiu na colina, sózinho? Gostarias de cair sobre eles desta maneira? Isto impressionou-te, hem? Sim, isto impressionou-te, Jordan. Hoje impressionaste-te muito, mais de uma vez. Mas portaste-te muito bem. Aguentaste-te muito bem. «Nada mal para um professor de espanhol da Universidade de Montana,-disse brincando consigo mesmo.-Nada mal. Mas não comeces a imaginar que és algo de extraordinário. Não és ainda nenhuma notabilidade nestes assuntos. Lembra-te de Durán que nunca teve a menor instrução militar e que era compositor e agora é um formidável general. Durán, aprendeu a arte da guerra com a mesma facilidade com que um menino prodígio aprende xadrez. Quanto a ti, lês e estudas a arte da guerra desde a infância, desde que o teu avô te começou a contar a guerra civil americana. Com a diferença de que teu avô dizia sempre a guerra da Rebelião. Mas ao lado de Durán és apenas um bom jogador de xadrez, muito razoável, em face de um menino prodígio. Velho Durán. Gostaria de o rever. Hei-de procurá-lo no Gaylord depois de terminada a guerra. Sim. Quando a guerra acabar. Não é verdade que se estava a portar bem? «Hei-de vê-lo no Gaylord,-repetiu-se, -depois de tudo acabado. Não procures enganar-te, Jordan. Estás a aguentar-te perfeitamente. Friamente. Nunca mais voltas a ver Durán 320 e isso não tem importância. Não sejas assim. Deixa-te desses luxos. «Resignação heróica também não. Não precisamos nestas montanhas de cidadãos cheios de resignação heróica. O teu avô combateu quatro anos na nossa guerra civil e tu estás apenas a terminar o teu primeiro ano. Tens ainda muito tempo à tua frente e estás bem aparelhado para aguentar o golpe. E agora também tens a Maria. Nesse caso, tens tudo. Não te impressiones. Que significa uma pequena escovadela entre um bando de guerrilheiros e um esquadrão de cavalaria? Não é nada. E mesmo cortando as cabeças? Isto altera alguma coisa? Absolutamente nada. «Quando o avô estava em Forte Kearny, depois da guerra, os peles-vermelhas ainda escalpelavam as vítimas e levavam a calota de couro e cabelo como troféu. Lembras-te do gabinete de trabalho


do velho, com as flechas arrumadas numa estante e as penas de águia dos cocares de guerra pendurados nas paredes, e o cheiro das polainas e blusas de cour o defumado e os mocassins de pele de gamo bordados com contas? Lembras-te do arco grande, num canto da sala e das duas aljavas com flechas de caça e guerra e do que sentias quando apertavas com as mãos o feixe de flechas? «Procura lembrar-te de qualquer coisa assim. De algo prático e concreto. Lembra-te do sabre do teu avô, brilhante e bem oleado na sua bainha recortada e de quando o velho te mostrou como a lân-úna estava já estreita de tanto ter sido afiada. Lembra-te da Sniifh e Wesson do teu avô. Era a pistola regulamentar, de um tiro, calibre,7,65 e não tinha guarda-mato. Tinha o gatilho mais macio que jamais sentiste, e estava sempre bem oleada. e pronta, mas as estrias estavam quase apagadas pelo uso, e o metal castanho da culatra e o cano estavam polidos pelo couro do coldre. Um coldre com um U. S. no fecho, &ardado numa gaveta da secretária, com os aprestos da limpeza e duzentas balas. As caixas de cartão das balas estavam cuidadosamente embrulhadas e amarradas. «Podias tirar a pistola da gaveta e pegar nela. «-Pega nela sempre que queiras-dizia o avô.» «Mas não podias brincar com ela, porque era uma arma perigosa. «Um dia perguntaste ao avô.,se tinha matado alguém com ela e ele respondeu: «-Sím.» «Então voltaste a perguntar: «-Quando, avô?» 21 -S. D. 321 «E ele respondeu: «-Na guerra da Rebelião e depois.» «Tu pediste: «Conta, avô.» «E ele respondeu: «-Não tenho vontade de falar no assunto, Robert.» «E depois o teu pai suicidou-se com essa pistola. Vieste da escola, houve o enterro e o «coroner» entregou-te a pistola depois do inquérito, dizendo: «-Bob, suponho que desejas ficar com esta pistola, que legalmente devia ficar comigo. Mas sei que o teu pai a estimava muito, porque o pai dele a usou durante a guerra toda, quando estava na cavalaria e é ainda uma arma de primeira classe. Experimentei-a esta tarde. De um tiro só mas com bom alcance.» Ele guardara a pistola na gaveta, no lugar habitual, mas no dia seguinte tinha saído a cavalo com Club, até ao cume da montanha, acima de Red Lodge, onde agora construíram uma estrada através da garganta e do planalto do Dente de Urso. O vento é sempre lresco lá no alto e há neve todo o ano nos picos. Tinham parado perto do lago, que dizem ter oitocentos pés de profundidade, o lago de um verde sombrio, e Club tinha segurado os cavalos. Robert tinha trepado para cima de uma rocha. Debruçou-se e viu o rosto reflectido na água imóvel; viu reflectir-se o braço com a pistola, depois tomara-a pelo cano e deixara-a cair para a ver mergulhar no meio de salpicos, até que se reduziu a um brinquedo, na água clara e desapareceu por fim. Descera da rocha e quando montou deu uma tal esporada na velha Bess que ela tinha encabritado. Fê-la rodear o lago e logo que a teve amansada tinha voltado para o atalho. «-Eu sei por que fizeste isso com a velha pistola, Bob -disse Club.»


« - Bem, então não falemos mais nisso - tinha respondido.» Nunca mais falaram no assunto e foi assim que acabaram as armas do avô, excepto o sabre.- O sabre ainda estava numa velha mala, em Missoula, com o resto das suas coisas. «Muito gostaria de saber o que o avô pensaria desta situação,-pensou ele.-Toda a gente dizia que tinha sido um soldado a valer. Toda a gente dizia que se tivesse estado com Custer nesse dia o teria,impedido de ser cornigo daquela maneira. Como não viu ele o fumo, nem a poeira de todas as cabanas aolongo de Little Big Horn a não ser que houvesse um espesso nevoeiro matinal? Mas não havia nevoeiro., 322 «Gostaria muito de. que meu avó estivesse aqui nomeu lugar. Bem, talvez estejamos reunidos amanhã à noite. Se existisse na verdade uma patetice como o além, e estou certo d? que não existe, gostaria muito de falar com ele. Porque há uma quantidade de coisas que me interessa saber. Tenho o direito de lhe fazer ~erguntas, já que tive que repetir muitas das coisas que ele fez. Tenho a impressão de que não lhe desagradaria se as fizesse agora. Naquele tempo eu não tinha esse direito. Compreendo que ele não me contasse, pois ainda não me conhecia. Mas agora creio que nos entenderíamos perfeitamente. Gostaria de lhe poder falar agora e pedir-lhe conselhos. E mesmo sem conselhos gostaria muito de falar com ele. Que pena haver.um tamanho lapso de tempo entre dois tipos como nós.» «Depois, continuando a pen-sar no além, deu-se contá de que se existissem esses encontros no além, ele e o avô se sentiriam extremamente embaraçados com a presença do pai«Toda a gente tem o direito de fazer o que ele fez,-pensou. -Mas não é um gesto louvável. Compreendo, mas não aprovo. Covarde, é o termo. Mas compreenderás mesmo? É certo que compreendo, mas... Sim, mas... E preciso estar completamente encerrado em si mesmo para poder fazer uma coisa assim. «Em todo o caso, eu bem desejaria que o avô estivesse aqui. Ao menos por uma hora. Talvez me tenha transmitido o pouco que tenho, através do outro, que tão mau uso fez da pistola. Talvez seja esta a nossa única comunicação. E depois, mierda. Sim, mierda, mas lamento que tantos anos nos tivessem sepa rado, impedindo que ele me pudesse ensinar o que nunca aprendi com o outro. Suponho, porém, que o medo que ele sentiu e teve de dominar, e do qual se libertou com os quatro anos de lutas contra os peles-vermelhas -mas no fundo não devia ter tanto medo como isso-foi o que fez do outro um covarde, como acontece quase sempre com a segunda geração dos grandes toureiros. Será isso? Talvez a fibra só volte a ser boa depois de ter conhecido este in * terregno. «Nunca esquecerei a dolorosa impressão que tive quando soube o que era um covarde. Vá, di-lo em inglês: Coward. P, mais fácil de dizer e não serve para nada falar de um porco numa língua estrangeira. Mas não era um porco. Era um covarde, a maior infelicidade que pode acontecer a um homem. Porque se não fosse um covarde, não teria ficado amarrado àquela mulher e não se teria deixado dominar por ela...Fico a pensar como teria ele sido se tivesse casado com outra mulher. Mas


323 é coisa que nunca poderás saber, - disse sorrindo. - TalveL, o espLito autoritário que havia nela tivesse suprimido o que lhe faltava. E tu. Vamos. Não te ponhas a falar de boa seiva antes de ter passado amanhã. Não te envaideças de mais. Amanhã se verá de que fibra és realmente feito.» Recomeçou a pensar no avô. «-George Custer não era um comandante de cavalaria inteligente, Robe'rt-dissera o velho.-Nem era mesnio um homem inteligente.» Lembrava-se de que, ouvindo o avô dizer isto, tinha fic~do impressionado por serem capazes de criticar um personagem em blusão de couro, cabelos louros ao vento, de pé numa montanha, pistola na mão, cercado de Sioux, tal como estava representado na velha litografia de Anheuser-Busch, pendurada em Red Lodge. «-O que tinha era uma habilidade danada para se enrascar e sair das enrascadas -continuara o avô-mas em Little Big Horn não foi capaz de sair dela.» «Já Phil Sheridan era um homem inteligente, assim como Jeb Stuart. Mas John Mosby foi o melhor comandante de cavalaria que jamais existiu.» Robert Jordan tinha entre as suas coisas, na mala, em 1ffissoula, uma carta do general Phil Sheridan ao velho Kilpatrick, dizendo que o avô era um comandante de cavalaria irregular melhor que John Mosby. «Devia falar a Golz do meu avô, -ponderouJordan. -Mas pela certa nunca ouviu falar dele. E naturalmente nunca ouviu, falar de John Mosby. Todos os ingleses o conhecem, porque devem estudar a nossa guerra civil mais do que as gentes do continente. Dizia Karkov que quando isto terminasse eu podia ir para o Instituto Lenine de Moscovo' se quísesse. Disse-me também que poderia ingressar na Escola Militar doExército Vermelho. E que pensaria disto meu avô que em toda a sua vida nunca se quis sentar à mesa com um democrata? «Não, não quero ser soldado, -pensou. -Eu sei. Portanto é assunto arrumado. Quero apenas que vençamos esta guerra. Estou realmente convencido de que os soldados realmente bons não prestam para mais nada. Não é evidentemente verdade. Vejam-se Napoleão ;c Wellington. Estás parvo esta noite, Jordah.» ' Habitualmente os pensamentos faziam-lhe boa companhia, como nessa noite enquanto pensou no avô. Mas pensar no pai tinha-o descontrolado. Compreendeu o pai, perdoou-lhe tudo, lamentou-o, 'mas envergonhava-se dele. 324 «O melhor é não pensar em coisa nenhuma, -repetiu-se. - Daqui a pouco estarás com Maria. É o melhor que tens a fazer, já que está tudo arrumado. Quando se reflecte muito sobre um assunto, não podemos mais parar e o cérebro continua a correr como um pêndulo doido. Farias melhor não pensando. «Mas vamos imaginar. Imagina só que os aviões aparecem e esmagam estes canhões antitanques, fazem voar as posiçõese que os velhos carros de assalto galgam as montanhas e que' Golz atira para a frente este bando de bêbedos, clochards, vagabundos, fanáticos e heróis que formam a Décima Quarta Brigada, e eu sei como a gente de Durán é boa, na outra brigada de Golz, e imagina que amanhã'à noite estamos em Segóvia 1 «Sim, imaginemos. Eu irei a La Granja, -pensou. -Mas é preciso fazer saltar esta ponte;-deu-se conta disso de uma maneira absoluta.-Não haveria contra-ordens. Porque o que tu pensavas há bocado é mesmo o aspecto do ataque para os que o estudaram. Sim, é preciso rebentar a ponte.


-Tinha a certeza. -O que pode acontecer a Andrés não tem importância.» Descendo o atalho no escuro, só, dominado pelo agradável pensamento de que tudo estava preparado para as poucas horas a vir, com ã--çonfiança que tinha adquirido pensando em coisas -concretas, a certeza de que -iria fazer voar a ponte apoderou-se dele e sentiu---se quase reconfortado. A incerteza -as preocupações, como quando, por uma confusão de datas, nos interrógamos sobre se teremos a compa rência dos convidados para uma assembleia, --7-a sensação que o acompanhava desde a partida deAndrés, cessou. Agora tinha a certeza e_ que a festa não seria cancelada. Não há nada como a certeza - e uma coisa. É sempre melhor ter a certeza. 325 -Quê va! Isso não é para todos os dias. E para mim é-me indiferente ser como está a ser agora, ou como foi da outra vez-mentiu Jordan ocultando o seu desapontamento. -Ficaremos quietinhos e vamos dormir. Ou melhor, vamos conversar. Tu falaste-me ainda tão pouco. -E se falássemos de amanhã e do teu trabalho? G<~staria de saber falar do teu trabalho. -Não -- disse ele completamente estirado no saco de campanha, com o rosto apoiado no ombro da rapariga, o braço esquerdo debaixo da. cabeça dela.-O melhor é não falar de amanhã, nem do que se passou hoje. Não regateemos nesta guerra. Amanhã faremos o que temos a fazer. Não tens medo? - Quê va ?-disse ela. -Estou sempre com medo mas agora o meu medo por ti é tão grande que nem penso em mim. -Não é preciso, coelhinha. já passei por outras coisas. E piores que esta-continuou, n-ientindo. Depois, cedendo súbitamente à necessidade de se evadir, começou: -Falemos de Madrid e de nós dois em Madrid. -óptimo - exclamou Maria. E em seguida Gh! Roberto, estou triste por estar assim. Não posso fazer inais nada por ti? Jordan amimou-lhe a cabeça e beijou-a, depois estendeu-se de novo ao lado dela, ouvindo o silêncio nocturno. -Podes falar de Madrid comigo-disse. E pensava: «conservarei toda a minha energia para amanhã. Não será de mais, amanhã. As folhas do pinheiro não têm tanta necessidade de seiva como eu, amanhã. Quem era que, na Bíblia, derramava o seu sénien na terra? Onan. Como acabou Onan? Nunca mais ouvi falar de Onan.» E sorriu no escuro, Depois deixou-se arrastar de novo para a evasão, tentando ceder a uma ilusão voluptuosa que se assemelhava à aceitação sexual de uma alegria oferecida pela noite, quando não há mais questões, quando fica apenas a delícia de aceitar. -Minha amada-disse Jordan num beijo.-Ouve. Na outra noite estive a pensar em Madrid e imaginei que irias comigo e que ficarias no hotel enquanto eu ia falar com os conhecidos, ao hotel dos russos. Mas era tudo mentira. Não te deixarei num hotel. Porquê ? -Porque quero ocupar-me de ti. Nunca mais de deixarei. Irei contigo à Seguridad arranjar os papéis. Depois iremos comprar as roupas necessárias.


327 1. pouca coisa, posso bein fazer as compras sozinha. -Não, senhora, são muitas enós iremos comprá-las juntos, comprar coisas boas, e vais ficar linda Com elas. -Pois eu preferia que ficássemos no hotel e mandássemos buscar as roupas. Onde fica o hotel? -Fica na Plaza del Callao. Passaremos muito do nosso tempo nesse quarto. Há uma cama larga com lençóis limpos, quarto de banho com água quente e dois armários. Eu guardarei as minhas coisas num deles e tu tomarás conta do outro. E também há janelas altas e largas, e lá fora na rua é Primavera, E conheço bons lugares para comer; é ilegal, mas muitó bom; e conheço lojas onde ainda se encontra vinho e whisky. E guardaremos coisas para comer no nosso quarto, quando tivermos fome e também whisky para quando eu quiser beber e comprarei manzanilla para ti. --Eu gostaria de experimentar o whisky. -O whisky é difícil de obter, além de que tu gostas ma=i de manzanifla. -Guarda o whisky para ti, Roberto - disse ela. - Oh! Eu amo-te muito. Amo-te a ti e ao whisky que não posso beber. Tu és ignóbil. -Nada, tu hás-de prová-lo. Mas não é bebida para mulheres. -E eu tive sempre só o que é bom para mulheres? Mas continuarei a usar a minha camisa de noivado? -Não, vou-te comprar camisas de noite e pijamas també, se preferires. -Hei-de comprar sete camisas de noivado. Uma para cada dia da semana. E uma camisa de noivado para ti também, uma camisa limpa. Nunca lavas a tua? -As vezes. -Eu hei-de trazer tudo muito asseado e hei-de servir-te whisky e despejar água nele, como fizeste no acampamento de El Sordo. Hei-de arranjar azeitonas e bacalhau salgado e avelãs para comeres enquanto bebes, e ficaremos no quarto um mês inteirinho sem sair. Se já puder receber-te -disse ela, sentindo-se de repente desolada. -Não é nada-disse Robert Jordan.-Na verdade não é nada. É possível que te tenham ferido da outra vez e haja uma cicatriz que te incomoda agora. É muito possível. São coisas que sempre acontecem. E se na verdade é qualquer coisa, há bons médicos em Madrid. -Mas eu nunca tive nada-disse ela defendendo-se. -Mais uma razão para não temer coisa alguma. 323 -Vamos falar de Madrid. - Meteu as pernas entre as de Robert Jordan e esf'r(gou'a cabeça contra o seu ombro. -Mas não irei ficar muito feia com esta cabeça tosquiada? Não vais envergonhar-te de mim lá? -Nada. Tu és encantadora. Tens um lindo rosto e um corpo muito bonito, longo e elástico, a tua pele é macia e da cor do ouro velho, toda a gente vai tentar roubar-te a mim. -Quê va! roubar-me a ti! Nenhum outro homem tocará em mim enquanto eu viver. Roubar-me a ti! Quê va! -Mas não faltará quem o tente. Vais ver. - Mas eles verão que te amo tanto que será tão perigoso tocar-me como enfiar as mãos dentro de um caldeirão de chumbo derretido. E tu? Quando encontrares mulheres bonitas que tenham uma educação igual à tua? Não vais ter vergonha de mim?


-Nunca. E hei-de casar contigo. Se quiseres-disse ela.-Mas como deixámos de ter Igreja, acho que isso não tem grande importância. -Eu gostaria de que nos casássemos. -Como quiseres. Se formos um dia para uma terra onde ainda haja Igreja, talvez possamos casar-íios. -Na minha terra ainda há Igreja. Podemos casar-nos lá, se isso te diz alguma coisa. Como eu nunca fui casado, não há a menor dificuldade. -Estou muito satisfeita por nunca teres sido casado -disse ela.-Mas estou contente por conheceres essas coisas de que me falaste, o que prova que conheceste muitas mulheres. Pilar disse-me que são esses os únicos homens que dão bons maridos. Mas não andaxás atrás de outras agora? Porque então eu matar-me-ia. -Nunca corri atrás de muitas mulheres -respondeu ele sinceramente. -Até te ter conhecido nunca pensei que pudesse amar profundamente alguma mulher. Maria acaxiciou-lhe o rosto e segurou-lho entre as duas mãos: -Tu deves ter conhecido muitas. -Sem as amar. -Ouve. A Pilar disse-me urna coisa... Fala. -Não. É melhor não dizer. Vamos conversar sobre Madrid. -Mas que ias tu a dizer? -Não quero dizer. -Talvez seja melhor, se é importante. 329 -Acreditas que é importante? -SIM. -Mas como o sabes tu se não sabes o que é? -Pelo teu jeito. -Então eu conto. A Pilar disse-me que vamos morrer todos amanhã e que tu o sabes tão bem como ela, mas que não te importas. Ela não disse isso para criticar, mas por admiração. -Ela disse isso ? - exclamou Jordan. «A velha lot~, pensou: depois recomeçou:-Mais uma das suas porcarias ciganas. Bom para as velhas comadres e para os palradores de «café». É uma porcaria. Jordan sentia o suor correr-lhe das axilas para o braço e das costas e disse consigo: estás com medo, hem? E acrescentou em voz alta: -Ela é uma velha maluca supersticiosa. Vamos falar de Madrid. -Entào não é verdade que tu sabes? -Claro que não. Não fales dessas asneiras. Mas desta vez, falando de Madrid, o clima da ilusão não se fez. Agora mentia muito simplesmente à sua amiga e a si próprio para passar a noite antes da batalha e sabia-o. Coisa que sempre o divertia, mas toda a volúpia da aceitação tinha desaparecido. Mas apesar de tudo continuou: -Tenho pensado no teu cabelo e no que poderemos fazer. Tu vês que ele está a crescer uniforme em toda a cabeça, como o pêlo de um animal; é agradável mexer nele e gosto muito de o fazer;


são bonitos os teus cabelos que se abaixam sob a mão para se levantarem como o trigo na boca do vento. -Então passa, passa a tua mão pelo meu cabelo. Ele fê-lo e deixou ficar a mão pousada e continuou a falar encostado à garganta da rapariga; sentia a sua própria garganta apertar-se. -Mas em Madrid podemos ir a um cabeleireiro para que o apare dos lados e na nuca, como fazem ao meu e assim vais parecer bem na cidade, enquanto não crescer de todo. -Ficarei parecida contigo - disse ela encostando-se ao peito dele-e nunca mais quererei mudá-lo. -Não. Ele há-de crescer, mas é o único penteado que ficará bem até que os cabelos estejam bastante compridos. Quanto tempo levará para crescer? -Muito comprido? -Não. Até aos ombros. É assim que eu desejo que o uses. -Como a Greta Garbo no cinema? 330 -Sim-respondeu ele enrouquecido. A imaginação voltava, opulenta e em breve o empolgou: -Sim, esse cabelo há-de cair pelas costas, liso, com uma onda na extremidade, uma onda como as ondas do mar, e será da cor do trigo maduro e o teu rosto terá a cor do *ouro queimado, e os teus olhos serão da única cor que vai bem com os teus cabelos e a tua pele: dourados com manchas sombrias e eu inclinarei para trás a tua cabeça para olhar para esses olhos enquanto tu ficas agarrada a mim. -Onde? Seja onde for. Onde estivermos. Quanto tempo levarão os teus cabelos a crescer? -Não sei, porque nunca os tinha ~ado antes. Mas parece-me que em seis meses estarão tão compridos que cobrirão as orelhas e, num ano, tão compridos como quiseres. Mas sabes o que vai acontecer antes disso? -Dize. -Vamos ficar na cama limpa, no famoso quarto do nosso famoso hotel e sentamo-nos na famosa cama para olharmos para nós no espelho do armário, e no espelho estarei eu, e depois volto-me assim para te prender assim nos meus braços e depois hei-de beijar-te assim. Depois calaram-se os dois, encostados um ao outro na noite e Robert Jordan, tomado por um calor quase doloroso, apertou-a com força nos braços. Robert Jordan apertava contra ele todas as coisas que sabia nunca chegariam a acontecer e continuando disse: -Coelhinha, não havemos de viver a vida inteira naquele hotel. -Porque não? -Podemos obter um apartamento em Madrid, naquela rua ao lado do Parque del Buen Retiro. Eu conheço uma americana que alugava apartamentos lá, antes do movimento, e sei como hei-de encontrar um apartamento assim pelo preço de antes do movimento. Há uns que ficam em frente do parque, e ve-se o parque todo pela janela; a vade de ferro, os jardins, as alamedas com passeios de saibro bem cuidado, as ervas dos canteiros, que ladeiam os passeios, e as árvores que dão profundas sombras e todas as fontes. Os castanheiros devem estar agora em flor. Em Madrid poderemos passear no parque e remar no lago se já estiver outra vez com água. -E porque, não há-de ter água? -Secaram-no em Novembro por se ter tornado um ponto de referência para os bombardeamentos


aéreos. julgo que 331 já ' deve estar agora cheio de água, mas não tenho a certeza. M~s mesmo que não esteja podemos passear no parque para alem do lago. Há nele um trecho que é uma verdadeira floresta com árvores de todos os países do Mundo: têm o nome escrito em tabuletas que dizem que árvores são e de que país vêm. -Gostaria muito de ir ao cinema-disse Maria.-Mas as árvores devem ser interessantes e fixá-las-ei todas contigo se for capaz de me lembrar. -Não estão ali como num museu. Crescem naturalmente, e há colinas no parque e um pedaço que parece uma floresta virgem. E mais abaixo há a feira do livro, com centenas de tabuleiros de alfarrabistas ao longo dos passeios e, agora, desde que começou o movimento, encontram-se ali muitos livros que vêm das casas demolidas pelos bombardeamentos e da§ casas dos fascistas. Os livros são levados para a feira pelos que os roubam. Se tiver tempo em Madrid posso passar o dia inteiro, todos os dias, nos alfarrabistas, como fazia. antes do movimento. - Enquanto estiveres na feira dos livros posso ocupar-me do apartamento. Teremos dinheiro para uma criada? -Com certeza. Eu posso arranjar a Petra que trabalha no hotel e se te agradar. Cozinha muito bem e é asseada. Sei disso porque comi lá em companhia dos jornalistas, para quem ela cozinhava. Têm fogões eléctricos nos quartos. -Se quiseres - respondeu Maria. - Ou encontraremos outra. Mas o trabalho não te terá muito tempo fora? Não me deixarão ir contigo para um trabalho como este. -Talvez eu encontre trabalho em Madrid. já estou. a trabalhar nisto há muito tempo e bato-me desde que começou o movimento. É possível que me dêem qualquer coisa a fazer em Madrid. Eu nunca pedi nada. Tenho estado sempre no front ou a fazer trabalhos como este. Sabes que até te ter encontrado nunca pedi nada? Nem desejado nada? Nem pensado noutra coisa que não fosse o movimento e em ganhar a guerra? Tenho sido muito puro ~as ambições. Trabalhei muito e agora amo-te - disse ele num abandono total. - Amo-te tanto como às coisas por que nos batemos. Amo-te como amo a liberdade, a dignidade, e o direito de todos os homens ao trabalho e ao alimento. Amo-te como amo o Madrid que defendemos e como amo os companheiros que morreram. E foram muitos os que morreram. Muitos. Muitos... tu não podes imaginar. Amo-te como auio as coisas que mais amo no mundo. E amo-te mais ainda, coelhinha. Mais do que posso dizer. Mas digo isto para tentar dar-te uma ideia. Eu nunca tive mulher e hoje tenho-te a ti e sou feliz. ~?2 -E eu serei para ti a melhor mulher possível- murmurou Maria.-Não me ensinaram grande coisa, é verdade, mas farei por me aperfeiçoar. Se vivermos em Madrid, está bem. Se vivermos em qualquer outro sítio, está bem. Se não morarmos em lado nenhum e eu puder ir contigo, melhor ainda. Se formos para a tua terra, hei-de aprender a falar inglês como o que há de mais inglês no Mundo. Hei-de estudar as maneiras das pessoas e fazer como elas. -Vai ser muito cómico.. -Pois é. Hei-de fazer muita coisa errada, más tu corriges-me e eu não repetirei o erro, ou talvez erre duas vezes, mas não mais. Na tua terra, se tiveres saudades das nossas comidas, fá-las-ei para ti. Hei-de ir para uma escola a fim de aprender tudo para ser boa dona de casa, se há escolas


para isso e estudarei com afinco. -Há escolas para isso, mas não terás necessidade. -Pilar disse-me que há dessas escolas na tua terra. Leu-o num artigo de uinjornal ilustrado. Disse-me também que devia aprender a falar inglês, e falá-lo bem, para não teres vergonha de mim. -E quando foi que ela te disse tudo isso? -Hoje, enquanto arrumávamos as coisas, ela esteve sempre a falar-me do que eu tinha a fazer quando fosse tua mulher. «A sua maneira de ir a Madrid», pensou Robert Jordan, que perguntou: -Que mais te disse ela? -Que. devo tomar cuidado com o meu corpo para consérvar a linha, como se fosse um toureiro. Disse que era o ponto mais importante. -E é-confirmou jordan.-Mas não terás que te preocupar com isso nestes anos mais próximos. -Não. Ela disse-me que as mulheres da nossa raça precisam de estar sempre alerta, porque a gordura aparece de repente. Pilar também era magrinha quando rapariga, mas naquele tempo não se faziA ginástica. Ula ensinou-me os movimentos que devo fazer e disse que não comesse muito. Disse o que não devia comer, mas já me esqueci e tenho que lhe voltar a perguntar. -Batatas -sugeriu Jordan. -Sim. Batatas e fritos. E depois quando lhe disse que me sentia mal, disse-me para não te falar disso e suportar a dor sem te dizer nada. Mas eu disse-to porque não te quero mentir nunca; e tive também medo de que tu pensasses que não 333 partilhávamos o mesmo prazer, e que o que -aconteceu no vale não tinha acontecido. -Fizeste bem em mo dizer. -Verdade? Mas estou desolada e farei tudo o que quiseres por ti. Pilar falou-me de coisas que podemos fazer por um marido. -Não vale a pena fazer seja o que for. O que temos, temo-lo juntos e guardamo-lo bem. Amo-te assim, gosto de estar deitado a teu lado e tocar-te, e saber que estás realmente aqui e quando tu puderes outra vez faremos tudo. -Mas não tens desejos que eu possa -~satisÍazer? Ela explicou-me isso. -Não. Os nossos desejos são para ambos. Só tenho os teus desejos. -Assim parece-me muito melhor. Mas quero que saibas que farei tudo o que quiseres. Só tens que mo dizer, porque sou muito ignorante e não compreendi claramente tudo o que ela me explicou. Porque tenho vergonha de perguntar e ela sabe tanta coisa. - Coelhinha -disse ele.-tu és maravilhosa. - Quê va! - exclamou Maria. - Mas aprender num dia tudo o que uma mulher precisa de saber e isso mesmo enquanto levantamos a tenda, fazendo os preparativos para uma batalha, enquanto outra batalha se desenrola acima de nós, é uma coisa difícil e se cometer erros, é preciso que mo digas, porque te amo. Talvez me lembre das coisas às avessas, e muitas das coisas que ela me disse eram complicadas. -E que mais disse ela? -Pues ... foi tanta coisa que já me esqueci de metade. Disse que se eu voltasse a pensar nas coisas que me fizeram, te contasse tudo, porque tu és um homem bom e compreendes. Mas que era melhor não falar nunca mais nisso, a não ser que me voltasse a torturar, como no começo; e que


então contando-te tudo, eu ficaria boa de todo. -E isso,ainda pesa no teu coração, Maria? -Não. E como se nunca tivesse acontecido. O que tenho é saudades de meus pais e tristeza, coisa que me há-de ficar sempre. Mas eu quero que tu saibas tudo para ficares orgulhoso de mim se eu tiver de ser tua mulher. Eu nunca me submeti a nenhum deles. Sempre lutei e debati-me tanto que eram precisos dois ou mais segurarem-me quando um me vinha fazer mal. Um sentava-se em cima da minha cabeça para me dominar. Eu digo tudo para que te possas orgulhar de mim. 334 -Eu tenho orgulho de ti, coelhinha. Não toques mais no assunto. -Não, Wo do orgulho que é preciso que tu tenhas da tua mulher. E outra coisa. Meu pai era o alcaide da aldeia e um homem de bem. Minha mãe era uma mulher honesta e boa cat-ólica. E eles fuzilaram-na j untamente com meu pai por causa ,-das ideias políticas de meu pai, que era republicano. Vi quando mataram os dois. Meu pai gritou: Viva la República! quando o ^fuzilaram, de pé, encostado à parede do matadouro da nossa aldeia. A minha mãe de pé encostada à mesma parede gritdu: «-Viva o meu marido que era o alcaide desta aldeia!» Eu contava que eles também me matassem e ia gritar: «Viva ,Ia República y vivan mis padres!» Mas não me mataram. Em vez disso fizeram-me coisas. «Ouve, vou contar-te uma das coisas, porque nos atinge. Depois da matança. no matadero, levaram-nos a todas, às que tinham assistido a isto, mas que não tinham morto, para fora do inatadero para a grande praça da aldeia. Quase toda a gente chorava mas havia algumas que estavam de tal modo espantadas com. o que tinham visto que já não deitavam lágrimas. Eu não podia chorar. Não dei conta do que houve porque só via uma cena: meu pai e minha mãe no momento em que disparavam sobre eles; minha mãe gritando: «Viva o meu marido, que era o alcaide desta aldeia!» E isso entrou na minha cabeça como um grito que nunca hei-de esquecer. Porque n-únha mãe não era republicana, ela não tinha dito Viva a República mas apenas viva meu pai que estava morto, de bruços, a seus pés. Mas o que ela disse, disse-o muito alto, num grito agudo e então eles dispararam e ela tombou; eu quis sair da fila. para ir ao encontro de n-iLinha mãe mas estávamos todas amarradas. Foram os guardias civiles que os mataram e eles estavam ainda lá para matax outros, quando osfalangistas nos arrebanharam e levaram encosta acima, deixando os guardia civiles encostados às espingardas e todos aqueles corpos caídos junto da parede. Todas nós, raparigas e mulheres, estávamos amarradas pelos pulsos, numa fileira e assim fomos pelas ruas da aJdeia, até à praça. Na praça pararam diante da barbearia que ficava em frente da alcaidaria. Então dois homens olharam-me e um disse: «-Esta é a filha do alcaide.» O outro respondeu: «-Começa por ela.» Cortou a corda que me prendia os pulsos e um disse: «-Emendem a corda.» Depois tiraram-me da fila e dois levaram-me agarrada pelos braços e fizeram-me entrar na barbearia e levantaram-me para me porem numa cadeira onde me prenderam à força. Via-me no espelho e via também as 335 caras dos que me seguravam e de mais três outros que se debruçavam em cima. de mim. Eu não conheci nenhum deles, mas via-me no espelho e via-os a eles também. Tinha a impressão de estar numa cadeira de dentista, com muitos dentistas em volta, todos loucos. Eu nem reconheci a minha cara, tanto a tinha alterado o desespero, mas sabia que era eu. O meu sofrimento era tanto que eu não tinha medo de nada, só tinha o meu sofrimento. Naquele tempo eu usava o cabelo em


duas tranças. Um dos homens ergueu uma com tanta força que me doeu, bruscamente, através do meu desespero e cortou-a com a navalha, rente ao couro. Por um instante vi-me com uma trança só e um tufo de cabelos no lugar da outra; depois cortou a outra, mas sem puxar, e a navalha fez-me um pequeno golpe na orelha, e vi o sangue correr. Não sentes aqui a cicatriz com o teu dedo? -Sim. Mas não falemos mais nesse horror, Maria. -Isso não foi nada. Não te falarei do pior. Quando ele me cortou as tranças rente à cabeça com a navalha, os outros riram-se e eu nem sentia. o ferimento da orelha, e então ele ficou diante de mim e bateu-me na cara com as duas tranças, enquanto os outros dois me seguravam e disse: «-E assim que produzimos freiras vermelhas. Isto vai-te ensinar a unir-te aos teus irmãos proletários. Noiva do Cristo Vermelho!» E continuou a bater-me na cara com as tranças e depois meteu-mas na boca e apertou-as atrás do meu pescoço e fez com elas uma mordaça e os dois que me seguravam riam-se. Então o que me tinha amordaçado passou a máquina sobre a minha cabeça em todos os sentidos, da. testa à nuca, depois de uma orelha à outra. e obrigou-me a olhar para o espelho durante todo o tempo em que ele fazia isto e eu não podia acreditar no que via, e chorava e chorava, mas não podia tirar os olhos do horror da minha figura, com a boca aberta e as tranças que saíam e a cabeça que saía nua da máquina. Quando o da tesoura acabou o serviço tirou um frasco de tintura de iodo da prateleira da barbearia (eles também tinham fuzilado o barbeiro porque pertencia a um sindicato e o corpo estava ali diante da porta da barbearia, e tinham-me feito saltar por cima dele quando entrei) e pôs tintura no ferimento da orelha e senti a queimadura através do meu desespero e do meu horror. Então o homem ficou diante de mim e escreveu com iodo U. H. P., na minha testa, letra a letra, com todo o cuidado, como se fosse um artista, e eu via tudo isto no espelho e não chorava porque tinha o coração gelado de novo por causa do meu pai e da minha mãe, e o que me acontecia agora não era nada 336 e eu sabia-o. Quando acabou de pintar as letras o falangista recuou e olhou-me para analisar o seu trabalho; depois repôs o frasco da tintura de iodo e retomou a máquina e disse: «-A que se segue» e levaram-me da barbearia sempre presa pelos braços, tropecei no barbeiro que continuava diante da porta, deitado de costas, a cara lívida e quase fomos de encontro a Concepcióri Garcia, a minha melhor amiga, que era arrastada por dois homens. Quando me viu não me reconheceu, mas ao reconhecer-me gritou, e ouvia-a gritar durante o tempo que levaram a arrastar-me através da praça, pelo portão, pelas escadas da municipalidade acima, até ao gabinete de meu pai, onde me atiraram para cima de um sofá. Foi lá que aconteceu o pior. -Minha coelhinha - disse Robert Jordan e apertou-a contra si tão forte e tão docemente quanto pôde. Mas estava cheio de ódio.-Não me fales mais disso porque não poderei conter a cólera que sinto. Ela estava entre os seus braços, fi-ia e dura e disse: -Não falarei, mas eles são maus e eu gostaria de matar ;~lguns deles a teu lado, se fosse possível. Contei-te isto, para que compreendesses e pudesses orgulhar-te de mim, se eu vier a ser tua mulher. -Estou satisfeito com a tua confissão porque se amanhã tivermos sorte, mataremos uma porção deles. -Mas vamos matar falangistas? Foram eles que me fizeram isto. -Esses não combatem -murmurou Jordan com ar sombrio-matam na retaguaria. Não são eles que


nós encontramos nos combates. -Mas não há maneira de a gente os matar? Eu tinha muita vontade de o fazer. -Eu já liquidei muitos-disse Jordan.-E ainda mataremos mais. Nos comboios morreram muitos. -Eu queria ir contigo para fazer saltar um comboio. Quando Pilar me trouxe do comboio eu estava meio maluca. Ela disse-te o estado em que eu estava? -Sim. Mas não fales mais nisso. -Eu estava morta dentro de mim, atordoada, e só podia chorar. Mas há outra coisa que é necessário que eu te diga. Preciso, porque por causa disso talvez não queiras casar comigo. Mas, Roberto, se não nos casarmos, não poderemos continuar a viver juntos? -Eu quero casar, Maria. -Não. Eu tinha-me esquecido, mas talvez tu não esqueças. possível que não possa vir a dar-te filho ou filha. Pilar disse-me 22- S. D. 337 que se eu tivesse que ter filhos, já teria tido um com o que eles me fizeram.Era preciso contar-te isto e nem sei como me esqueci. -Isso não tem importância, coelhinha, além de que talvez não seja assim. O médico é que o pode dizer. Além do mais, não tenho o menor desejo de dar vida a um filho ou filha num mundo como este. E também porque te dei todo o amorque existe dentro de mim. -Mas eu queria gerar um filho teu-disse ela.-Depois, como pode o mundo tornar-se melhor ~e pessoas como nós não tiverem filhos para combater os fascistas ? -Tu é que me interessas -disse ele.-Amo-te. Compreendes ? E agora precisamos de dormir, coelhinha, porque me. devo levantar muito antes de nascer o dia e, nesta época, amanhece cedo. -Então, apesar de tudo o que eu disse, ainda queres casar comigo ? -Nós já estamos casados, Maria. Eu casei-me contigo agora. Tu és minha mulher. Mas é preciso dormir, minha coelhinha, porque não temos muito tempo. -E vamos casar de verdade? -Verdade! -Então vou dormir e, se acordar, vou pensar nisso. -Eu também. -Boa-noite, meu marido. -Boa-noite -disse ele.-Boa~noite, minha mulher. A respiração de Maria foi-se tornando regular e ritmada, até que Jordan percebeu que ela tinha adormecido; ficou estendido, acordado e imóvel para não a acordar. Reflectia na parte que ela não contara e esse pensamento enchia-o de ódio, fazendo-o considerar com prazer a matança projectada para o dia seguinte. «Mas não devo tomar as coisas de um modo tão pessoal», disse consigo. «Como evitá-lo, porém? Bem sei que praticámos coisas pavorosas contra os fascistas, mas foi porque a nossa gente era menos educada e não sabia proceder de outra maneira; já os fascistas agem expressa e deliberadamente. Os que fizeram isto são a última floração de toda uma civilização. Eram a fina flor da Espanha cavalheiresca. Que povo este! Que bestas, desde Cortez, Pizarro, Menendez de Avila a Henrique Lister e a Pablo! E que povo admirável o espanhol! Não há melhor nem pior no mundo. Nem capaz de tanta bondade, nem de tanta crueldade. E quem o compreenderá? Eu é que hão, e se o compreendesse perdoaria. Compreender é perdoar. Não é verdade. Tem-se abusado do perdão. O perdão é uma ideia


338 cristã e a Espanha nunca foi um país cristão. Sempre teve os seus ídolos próprios, dentro da Igreja. Otra Virgen más... Talvez por isso curem tanto de destruir as virgens dos seus inimigos. Na certa que a coisa é mais profunda entre os fanáticos da religião espanhola que no povo. O povo afastou-se da Igreja, porque a Igreja era o governo e o governo foi sempre corrupto. A Espanha foi o único país onde a Reforma nunca penetrou. E agora estão a pagar o crime da Inquisição! E como! «Bem, está aqui matéria para muita cogitação, algo para distrair o pensamento do teu.trabalho. É melhor assim do que estar a fingir. Deus, como tinha fingido nessa noite. E Pilar fez o mesmo durante todo o dia. Pela certa! E se todos estivessem mortos no dia seguinte? Que importância podia ter isso se a ponte saltasse como devia ser? Era tudo o que tinham a fazer no dia seguinte. «Não se fica a fazer semelhante coisa indefinidamente. Também ninguém vive eternamente. Talvez eu tenha de viver toda a minha vida nestes três dias. Se isto é verdade, gostaria de passar a minha última noite de outra maneira. Mas as últimas noites nunca são completas. As últimas coisas, quaisquer que sejam, nunca são completas. Sim, as últimas palavras são-no às vezes: «Viva o meu marido, que foi o alcaide desta aldeia!» Sim, Jordan achou boas estas últimas palavras porque sentiu um arrepio atravessá-lo ao repeti-la:s para si mesmo. Inclinou-se e beijou Maria, sem a acordar. E murmurou muito baixo em inglês: «casarei contigo, sim, coelhinha. Estou ,orgulhoso da tua família». 339 CAPITULO XXXII HAViA naquela noite muita gente no Hotel Gaylord, em Madrid. Um automóvel parou à entrada, com os faróis velados com tinta azul e um homenzinho trazendo botas de montar, calções cinzentos e um dólman curto abotoado até ao pescoço, saiu, retribuindo a continência às sentinelas ao mesmo tempo que abria a porta e fazia um sinal de cabeça ao homem da polícia secreta que estava sentado na mesa do porteiro e entrava no elevador. Havia dois funcionários sentados em cadeiras, em cada uma das extremidades do vestíbulo de mármore; contentaram-se em levantar os olhos quando o homenzinho passou diante deles para se dirigir ao elevador. A sua missão era apalpar todas as pessoas que não conheciam, nas costas, nas axilas, e nas algibeiras, para verificarem se o recém-vindo não trazia uma pistola e, no caso afirmativo, obrigá-lo a deixá-la na portaria. Mas conheciam o homenzinho com calções de montar e apenas o olharam de passagem. O apartamento que ele ocupava no hotel estava cheio de gente quando entrou. Gente sentada ou de pé, falando entre eles como se estivessem em não importa que salão; estes homens e estas mulheres bebiam vodka, whisky com soda ou cerveja, em copos pequenos que enchiam em grandes, canecas. Havia quatro homens faxdados. Os outros vestiam casacões de «sport» ou casacos de couro e três das quatro mulheres vestiam trajes de passeio. A quarta, muito magra e morena, usava um severo uniforme miliciano, e calçava botas altas cobertas em parte pela saia. Quando penetrou no recinto, Karkov dirigiu-se a esta última, curvou-se e apertou-lhe a mão. Era sua mulher, a quem disse algumas palavras em russo, que mais ninguém ouviu; a insolência que, ao entrar, se lhe via nos olhos desa-


340 pareceu por um momento. Mas surgiu de novo quando viu a bonita rapariga de cabelos cor de mogno e rosto preguiçosamente amoroso que era a sua amante; dirigiu-se a ela em passos firmes, curvou-se e apertou-lhe a mão de um modo que parecia cópia intencional da saudação feita à mulher. Esta não o tinha seguido com os olhos quando ele a deixou; estava de pé, atenta a um alto e bem parecido oficial espanhol, com o qual falava em russo. -O teu grande amor está a engordar-disse Karkov para a rapariga.-Todos os nossos heróis estão a engordar, agora que a guerra se aproxima do segundo ano. -Falava sem olhar para o homem a quem se referia. -Tu és tão feio que terias ciúmes até de um sapo-respondeu ela jovialmente, em alemão.-Posso assistir à ofensiva de amanhã? -Não. Nem vai haver ofensiva. -Toda a gente sabe que vai haver. Não estejas com mistérios, A Dolores vai. Eu irei com ela ou com a Carmen. Vai muita gente. -Vai com quem quiseres, menos comigo -rosnou Karkov. E dirigindo-se a ela sèriamente: -Quem te contou isso? Diz francamente. - Richard -respondeu a rapariga, também séria. O russo encolheu os ombros e afastou-se. -Karkov!-chamou com voz de dispéptico um homem de meia-idade, grisalho, de rosto flácido, olhos empapuçados e lábio inferior pendente:-Já sabe a boa notícia? Karkov aproximou-se e o homem continuou: -Acabo de o saber. Ainda não há dez minutos. Os fascistas passaram o dia a guerrear-se em Segóvia. Foram qbrigados a aquiétar os amotinados com metralhadoras. A tarde estavam a lançar bombas dos seus aviões contra as suas próprias tropas. -Sim?-perguntou Karkov. -É a pura verdade-volveu o homem de olhos empapuçados.-Quem trouxe a notícia foi a Dolores. Esteve aqui num estado de exultação sem igual. A verdade do que ela dizia brilhava-lhe no rosto. Esse magnífico rosto-repetiu o homem absorto. -Aquele magnífico rosto-repetiu Karkov sem qualquer expressão na voz. -Se você a tivesse ouvido!-tornou o dos olhos empapuçados. - A notícia irradiava do seu intimo com uma luminosidade que não é deste mundo. Pela entonação, nós sen341 tíamos a verdade das suas palavras. Estou a narrar o caso num artigo para o Izvestia. Quanto a mim, foi um dos momentos culminantes da guerra ouvi-la transmitir a notícia com aquela voz admirável em que a piedade, a compaixão e a verdade se confundem. A bondade e a verdade irradiam nela como de uma verdadeira santa do povo. Não é sem razão que lhe chamam La Passionân*a. -Sim, não é sem razão-concordou Karkov com voz apagada.-Trate de escrever já isso para o Izvestia antes de esquecer este belo traço final. -Dolores não é mulher de quem se escarneça. Nem mesmo um cínico como você-disse o de olhos papudos.-Queria que estivesse cá para a ouvir e ver-lhe o rosto. -Aquela magnífica voz-tornou Karkov.-Aquele rosto magnifico. Escreva-o, não perca tempo a contar-mo. Não gaste parágrafos inteiros comigo. Vá e trate de escrever o artigo quanto antes.


-Agora já, não. -Pois é o melhor que tem a fazer-murmurou Karkov olhando para ele e desviando logo os olhos. O homem demorou ainda alguns minutos com o copo de vodka na mão. Os seus olhos, apesar de papudos, estavam mergulhados na beleza do que tinha visto e ouvido e abandonou depois o compartimento para ir escrever. Karkov dirigiu-se a outro homem, de cerca de quarenta e oito anos, baixote, pesadão, aspecto i ovial, olhos azuis claros, cabelo de estopa e ralo, boca risonha, sob um bigode louro e hirsuto. Vestia uniforme. Era general de divisão e húngaro. -Estava aqui quando a Dolores apareceu? -perguntou-lhe Karkov. -Estava. -Que aconteceu? -Qualquer coisa de fascistas batendo-se entre eles, Belo, se for verdade. -Fala-se muito de amanhã. -É escandaloso. Todos os jornalistas deviam ser fuzilados, assim como a maioria da gente que está aqui dentro ' p~ncipalmente o tal intrigante alemão que se chama Richard. uem quer que seja que deu àquele fuggler de donuingo o comando de uma brigada devia ser fuzilado. Talvez até você e eu devêssemos ser flazilados -disse o general a rir-se.-Mas não sug a isso a ninguém. Êrtima coisa em que não gosto nunca de falar-respondeu Karkov -O americano que às vezes aparece por aqui 342 anda por aqueles lados. Você conhece o Jordan, que anda com um grupo de partizans. Está lá para baixo, onde o negócio de que se fala deve realizar-se. -Bem, ele deve ter mandado notícias esta noite-disse general. -Não gostam de mim no comando, senão iria saber que há de verdade. Jordan trabalha nisso com Golz. Suponho eu. Você deve ir ver Golz amanhã. -Amanhã cedo. -Deixe-o à vontade até que as coisas marchem bem -disse o general.-Ele detesta-vos, tal como eu. Mas tem melhor gênio. -Mas a respeito do... -Talvez tudo não passe de manobra dos fascistas -volveu o general a rir. Vamos aguardar e ver se Golz consegue manobrá-los um pouco. Deixe Golz provar a sua competência. Nós manobrámo-los rijamente em Guadalajara. -Ouvi dizer que você também vai viajar-disse Karkov mostrando numa risada os seus péssimos dentes. O general encolerizou-se. -Ah! Eu também. Agora é de mim que andam a falar. E de todos nós. Este maldito ninho de intrigas. Um homem que fosse capaz de se calar podia salvar o país se acreditasse nessa salvação. -O seu amigo Prieto sabe ficar calado. -Mas não tem a certeza de vencer. Como é possível vencer sem ter confiança no povo? -Resolva lá esse caso-bocejou Karkov.-Quanto a mim vou ver se consigo dormir um bocado. E saindo da sala enfumarada, cheia de conversas, entrou no quarto, sentou-se na cama e tirou as botas. Para não ouvir o rumor do falatório fechou a porta -e abriu a janela. Não se deu ao trabalho


de se despir, porque pouco depois devia ir, por Colmenar, Cerceda e Navacerrada, para o front onde Goiz iniciaria o ataque, de madrugada. 343 cortina. A cama cheirava a suor seco, um cheiro adocicado e um pouco enjoativo como as camas dos peles-vermelhas. Robert Jordan ajoelhou-se na cama e dirigiu a luz da lanterna para os dois sacos. Em ambos havia um longo corte de alto a baixo. Com a lanterna na mão esquerda, Robert Jordan revistou o primeiro saco com a mão direita. Era o que trazia o saco de campanha e não devia estar muito cheio. E não estava muito cheio. Ainda tinha um pouco de arame, mas caixa quadrada tinha desaparecido. Também não estava caixá dos charutos com os detonadores, cuidadosamente embrulhados e arrumados. Nem tão-pouco a caixa de ferro com tampa de rosca que tinha o estopim e as cápsulas. Jordan revistou o outro saco. Estava ainda cheio de explosivo. Talvez faltasse um pacote; Virou-se então para a mulher. Ele era um homem que tinham acordado muito cedo para experimentar uma sensação de vácuo que é quase a sensação que se tem frente a um desastre; e esta sensação dorninava-o multi&cada por mil. -Então é a isto que tu chamas tomar conta do meu material? -Dormi com a cabeça encostada nos sacos e uma das núnhas mãos pousada em cima deles-respondeu Pilar. -Estavas bem ferrada no sono. -Ouve: Pablo levantou-se de noite e eu perguntei-lhe o que ia fazer. «-Urinar, mulher», respondeu e eu tornei a dormir. Quando voltei a acordar, não muito tempo depois, ele ainda não tinha regressado e pensei que tinha ido ver os cavalos, como de costume. Mas como não voltasse, assustei-me e passei a mão pelos sacos para ter a certeza de que tudo ia bem e encontrei estes golpes e fui procurar-te. -Vem comigo-disse Jordan. Estavam fora, agora, e era ainda tão perto do meio da noite que se não sentia a manhã aproximar-se. -Ele pode sair com os cavalos sem passar pelo atalho? -Sim, há mais dois caminhos. -Quem está no alto? -Eládio. Robert Jordan não disse mais palavra até entrarem no prado onde punham os cavalos. Havia três a pastarem. O baio e o alazão tinham desaparecido. -Há quanto tempo dizes tu que ele partiu? -Mais ou menos uma hora. -Então é isso-disse Jordan. Vou apanhar o que me deixou nos sacos e deitar-me. 345 -Eu tomo conta deles. -Quê va, tomas conta deles... Como tomaste desta vez? -Iitglés-disse a mulher-lamento tanto isto como tu. Não há nada que eu não seja capaz de fazer para reaver os apetrechos. Não há necessidade nenhuma de me insultar. Pablo enganou-nos aos dois. O tom sincero de Pilar fez sentir a Jordan que não podia dar-se ao luxo de ser áspero nem de brigar com aquela criatura. Tinha de continuar a trabalhar com ela naquele dia, do qual apenas


duas horas tinham passado. Pôs-lhe a mão no ombro e disse: -Não é nada, Pilar. O que desapareceu não tem grande importância. Havemos de arranjar maneira de suprir a falta. -Mas que foi que ele levou? -Nada mulher. Coisas supérfluas. -Era parte do mecanismo para a explosão? -Sim. Mas há outras maneiras de provocar a explosão. Diz-me uma coisa: - Pablo não tem cápsulas e mechas? Devem tê-lo equipado com isso. -Também as levou-respondeu ela desolada.-Fui logo procurá-las. Mas também não estavam lá. Os dois retrocederam pelo meio da mata para a boca da caverna. -Vai dormir um pouco - disse ele - estamos melhor sem Pablo. -Vou procurar Eládio. -Ele pode ter saldo por outro caminho. -Vou de qualquer jeito. já te traí com a minha falta de tento. -Não - respondeu Jordan. - Trata de dormir, mulher. Devemos por-nos em marcha às quatro horas. Entrou com ela na gruta e *tiraram os sacos para fora, de modo a não deixar que caísse qualquer coisa pelos rasgões. -Deixa-me coser isso-propôs Pilar. -Quando estivermos para partir - volveu gentilmente Jordan. - Levo-os, não por falta de confiança em ti, mas para poder dormir tranquilo. -Preciso deles cedo para os coser. -Tê-los-ás cedo-respondeu ele.-Vai dormir, Pilar. -Não, não. Faltei ao meu dever, para contigo e para com a República. -Vai dormir, Pilar-disse Jordan afectuosamente. -Vai dormir, criatura. 346 'Ir CAPITULO XXXIV Os fascistas dominavam os cumes naquele ponto. Depois havia um vale que ninguém guardava, excepto um posto fascista instalado numa quinta a que tinham fortificado as dependências. Na sua ida a Golz; com a mensagem de Jordan, Andrés descreveu um largo círculo na noite para evitar o posto. Sabia o local onde tinham instalado uma mola que desencadeava um fogo de barragem. Encontmu-a na obscuridade, saltou por cima e pôs-se a seguir o ribeiro, marginado de salgueiros a que o vento nocturno agitava as folhas. Um galo cantou na quinta onde estava instalado o posto fascista e como se virasse para olhar para trás, viu, através dos troncos dos salgueiros, uma linha de luz na parte infêrior de uma janela. Noite silenciosa e calma. A certa altura abandonou o ribeiro e pôs-se a atravessar a veiga. Havia quatro medas de feno na veiga. Estavam ali desde os combates de julho do ano anterior. Ninguém tinha aproveitado o feno que, abatido pelas quatro estações que tinham passado, apodrecia ao relento. Andrés pensou no prejuízo que isto representava enquanto saltava um arame esticado entre duas


medas. Mas os republicanos teriam sido obrigados a subir o feno pela encosta abrupta do Guadarrama, que se erguia atrás da veiga; quanto aos fascistas devia-se acreditar que não precisavam dele. «Essa gente dispõe de quanto feno e trigo quer. Têm muitas coisas,»-pensou ele.-Mas amanhã de manhã vamos armar-lhe uma destas ratoeiras! Mas amanhã de manhã vão pagar o que fizeram a El Sordo. Que bárbaros! Mas amanhã de manhã vão saber como elas mordem!» Andrés queria entregar a mensagem e voltar a tempo de tomar parte no ataque aos postos, na manhã seguinte. 347 Queria realmente voltar ou estava a fingir? Conhecia o sentimento de satisfação que o tinha invadido quando o Inglês lhe dissera para levar a mensagem. É certo que encarava com calma a perspectiva da manhã. Era isso que era necessário fazer. E tinha-se comprometido a participar. A maneira como Sordo tinha desaparecido impressionara-o profundamente. Mas, enfim, tratava-se de El Sordo. Não do seu bando. O que eles tinham a fazer, fá-lo-iam. Mas quando o IngIés lhe falara da mensagem, sentiu-se como quando era adolescente e acordava, na manhã da festa da sua aldeia e ouvia a chuva cair tão forte que ele sabia que a praça ficaxia inundada e tornaria impossível a corrida de touros. Gostava destas corridas e pensava nelas muito tempo antes; imaginava o momento em que estaxia na praça ao sol e à poeira, com as carretas arrumadas de maneira a formar uma arena onde o touro entraria, saltando de lado para fora da gaiola, depois travava com as quatro patas quando tirassem a grade. Pensava antecipadamente com delícia, e também com um suor angustiado, no momento em que, na praça, ouviria as comadas do touro contra as tábuas da gaiola de viagem; no momento em que o via precipitar-se para depois parar no meio da arena, a cabeça levantada, as narinas dilatadas, as orelhas trémulas, a pelagem negra coberta de poeira e de bosta seca, os olhos afastados, os olhos que não pestanejavam abaixo dos cornos, tão lisos e unidos como pedaços de destroços polidos pela areia, chifres aguçados curvados de tal modo que só o vê-los fazia estremecer o coração. Pensava todo o ano no instante em que o touro entraria na praça e o magnetizaria ao correr os olhos pela assistência, antes de arremeter de súbito, cabeça baixa, cornos em riste, num ímpeto felino que fazia parar o sangue no coração. Pensava nisso durante todo o ano, quando era adolescente; mas quando o IngIés lhe tinha ordenado que levasse aquele sobrescrito, tinha sentido a mesma coisa que quando acordava com o barulho da chuva correndo no telhado de ardósias, contra a parede de pedra e nas goteiras da aldeia. Sempre fora valente com o touro . naquelas capeas de aldeia, tão valente como qualquer outro e não faltaria a nenhuma delas nem por todo o ouro do Mundo; se bem que nunca fosse às capeas das outras aldeias. Sabia esperar o momento propício quando o touro investia e só saltava para o lado no último instante. Abanava um saco diante do focinho do animal quando o queria afastar de alguém que tinha 348 caído e muitas vezes, nessas circunstâncias, tinha-o pegado pendurando-se-lhe nos cornos, virando-lhe a cabeça, esmurrando-o até o obrigar a deixar a vítima para se atirar para outro lado. Sabia agarrar a cauda do touro para o desviar de um homem caído, segurando-a com força, puxando-a e torcendo-a. Uma vez tinha-a puxado com uma das mãos, virando-se de modo a


poder agarrar o corno com a outra mão, e quando o touro tinha levantado a cabeça para axremeter contra ele, correu de costas, girando com o touro, agarrando o rabo com uma mão e o corno com outra, até que a multidão avançou para o animal para o ferirem com as navalhas. No meio da poeira. e do calor, dos gritos, do cheiro do touro, dos homens e do vinho, tinha sido dos primeiros a precipitar-se para o bicho; conhecia a sensação de balanceio e de desmoronamento do touro que se abatia debaixo dele, enquanto estava deitado sobre o garrote, rodeando a base de um dos cornos com um braço, a outra mão agarrada ao outro corno, os dedos crispados, o corpo torcido e sacudido, o braço esquerdo a despegar-se do ombro, enquanto se agarrava a esta montanha de músculos e carne, poeirenta, rugosa e movediça, mordendo-lhe na orelha, enfiando a faca, uma vez e outra, e outra e outra, na massa entumecida do pescoço de onde safa agora um jacto súbito e quente que lhe inundava a mão, enquanto fazia pressão sobre o garrote e mergulhava a faca no pescoço. A primeira vez que tinha mordido daquela forma a orelha do touro, o pescoço e as maxilas crispadas para a segurar nos dentes, por mais sacudido que fosse, todos escarneceram dele. Mas conquanto zombassem, tinham-no em grande consideração. E todos os anos, depois disso, era forçado a repetir a façanha.. Chamavam-lhe o buldogue de Villaconejos e caçoavam dizendo que ele comia carne crua. Não havia, -porém, na aldeia quem não se preparasse para ir vê-lo fazer o mesmo todos os anos. Logo que o touro aparecia, e depois dos passes, quando toda a gente se precipitava para a morte, tinha que se escapulir entre os outros para garantir a façanha. Depois de terminada, o touro dominado e caído sob os golpes dos matadores, Andrés aprumava-se e retirava-se envergonhado com a hístória da orelha, mas tão orgulhoso quanto se podia sentir um homem. «-Viva o buldogue! Viva a tua mãe!» Ou então diziam: «-Isso é que é possuir um par de cojones! Todos os anos!» 349 Andrés envergonhado, envaidecido, orgulhoso e feliz, afastava toda a gente aos empurrões, para lavar as mãos, o braço direito e a faca; depois pegando num dos couros, bochechava para tirar da boca o sabor da orelha por todo aquele ano, escarrando o vinho nas lajes de pedra da praça antes de erguer ao alto a bota para deixar correr o vinho na garganta. Certamente que era ele o buldogue de Villaconejos e por coisa nenhuma do mundo faltaria à corrida anual da sua aldeia. Mas sabia que não havia sensação mais agradável que a dada pela chuva no momento em que compreendia que não teria que comparecer. «Mas tenho de voltar,-disse desiparasi.-Não posso deixar de voltar para o negócio dos postos e da ponte. Meu irmão Eládio está lá, e é da minha carne e do meu sangue. Anselmo, Primitivo, Fernando, Agustin, Rafael, apesar de não valer grande coisa, as duas mulheres, Pablo e o Inglês, embora o Inglés não conte porque é estrangeiro e cumpre ordens. Todos estão lá para isso. E impossível que eu escape a esta prova pelo facto acidental deste sobrescrito. Devo entregar o sobrescrito o mais depressa possível e muito bem, para voltar a tempo de assaltar os postos. Seria ignóbil da minha parte não tomar parte no ataque, só por causa de um sobrescrito. Nada mais claro. E, por outro lado, -murmurou como alguém que se lembra súbitamente da parte agradável de uma coisa a que só tinha considerado os inconvenientes, -e, por outro lado, terei muito prazer em matar fascistas. Há muito tempo que não matamos fascistas. Amanhã vai ser um dia de factos substanciais. Amanhã talvez seja um dia que valha a pena. Que chegue o dia de amanhã e que eu


esteja lá.» Nesse momento, subindo a encosta íngreme que conduzia às linhas republicanas, metido no tojo até aos joelhos, uma perdiz levantou-se a seus pés, com um batimento de asas tumultuoso no ventre da noite, e sentiu um tal terror que lhe parou a respiração. «Foi o inesperado, -pensou consigo. -Como pôde agitar as asas com tal rapidez? Deve estar a chocar agora. Provàvelmente passei muito perto dos ovos. Se não fosse a guerra, eu atava um lenço nesta moita e vinha procurar o ninho amanhã, de dia, levava os ovos para os pôr debaixo de uma galinha choca e quando saíssem tefia perdizezinhas no galinheiro e acompanhava o crescimento delas é- quando estivessem grandes servir-me-ia delas como chamariz. Não seria preciso cegá-las porque haviam de crescer mansas. Ou abririam voo para longe? Então teria de as cegar, apesai% de tudo. '350 «Mas eu não gosto de fazer isso às que crio. Podia cortar-lhes as asas ou prendê-las por uma pata enquanto me servissem como chamariz. Se não houvesse guerra iria com Eládio, pescar caranguejos naquele riacho atrá. do posto fascista. Um dia apanhámos quatro dúzias, naquele riacho. Se formos para a serra de Gredos, depois desse negócio da ponte, há lá óptimos ribeiros para a truta e para os caranguejos. Tenho e~perança de conseguirmos ir para os Gredos. Podemos levar uma vida nruito agradável ali durante o Verão e o Outono, mas no Inverno o frio é desgraçado. Mas pode ser que já tenhamos vencido a guerra no Inverno. «Se meu pai não tivesse sido republicano, tanto Eládio como eu seríamos agora soldados fascistas; e se fôssemos soldados fascistas as coisas não seriam tão complicadas. Obedeceríamos às ordens, viveríamos ou morreríamos, e, no fim de contas, aconteceria o que acontecesse. É mais fácil a gente sujeitar-se a um regime do que combatê-lo. «Mas esta luta clandestina é uma coisa onde há muitas responsabilidades. Há muita coisa séria e grave quando a gente pensa nisso. Eládio pensa mais do que eu. Por isso vive preocupado. Eu creio piamente na causa e não me preocupo com coisa nenhuma.É uma vida em que há muitas responsabilidades. «Acho que nascemos num tempo muito difícil. Acho que qualquer outra época foi melhor do que esta. A gente já não sofre muito porque nos fomos habituando a resistir ao sofrimento. Os que mais sofrem são os que se não adaptam a este clima. Mas é um tempo de decisões difíceis. Os fascistas atacaram e obrigaram-nos a isto. Temos de combater para,viver. Mas eu gostaria de atar um lenço naquela moita, lá atrás, e voltar de dia para apanhar os ovos, para os fazer chocar por uma galinha e ver as perdizezinhas no galinheiro. Gosto de fazer estas coisas pequenas e banais. «Mas tu não tens casa, nem galinheiro na casa que não tens, -pensou.-Tu não tens mais família que este irmão que vai combater amanhã e não tens mais nada que o vento e o Sol e uma barriga. vazia. O vento é pouco e não há Sol. Tens quatro granadas no bolso, que só servem para ser lançadas. Tens uma espingarda às costas, que só serve para atirar balas. Tens um sobrescrito que tens que entregar. E tens os intestinos cheios para despejar na terra. Tudo quanto- tens é para dar. Tu és um fenómeno de filosofia e um homem desgraçado», -concluiu Andrés para si próprio, sorrindo de novo. Mas, apesar de todos os seus nobres pensamentos, há muito tempo que não sentia a satisfação que vinha sempre 35 com o ruído -da chuva na aldeia, na madrugada da festa. Diante dele, no cume, ficavam agora as


posições governamentais onde sabia que lhe iam exigir os papéis. Robért Jordan estava no conchego do saco de campanha ao lado de Maria que continuava a dormir. Virou-se para o outro lado e sentiu nas costas o corpo esbelto da rapariga e aquele contacto era agora uma ironia. «Tu, tu, -começou increpando-se a si próprio.-Sim, tu. Tu tinhas dito qug quando Pablo se mostrasse camarada a traição estava proxima. Tu, raio de imbecil. Tu, cretino de uma gaita. Basta. Tens outras coisas a fazer «Que fez ele ao que roubou? Guardou-o para aí, destruiu-o ou deitou-o fora? O mais provável é que o tenha guardado. Levou também um bocado de dinamite. Oh! O estupor! O estupor imundo! Não se podia ter contentado em deixar o acampamento sem levar o estopim e os detonadores? Por que diabo fui tão imbecil que confiei tudo àquela maldita mulher? Aquele finório e horrível bastardo traidor! Aquele cabron! «Acaba com isso e conforma-te. Tu tinhas que correr o risco e tudo f-oi pelo melhor. Estás apanhado. Apanhado como um rato. Vê se aguentas calma no diabo dessa cabeça; acaba com essa cólera e acaba com essas lamúrias de muro das lamentações. Foi-se. Com todos os diabos! Raios o partam! Maldito porco imundo! Tu tens de arranjar maneira de sair deste buraco. Seja como for. Arranja-te. Tens de fazer saltar a ponte; seja lá como for. Sabes que tens de a fazer saltar se não devias tu mesmo... Não, isso também não. Porque não consultas o teu avô ? «Oh! Mierda para o meu avô e mierda para este país de traidores, e mierda para os espanhóis de todos os partidos, e que vão todos espernear para as profundas dos infernos. Que vão todos para o raio que os parta, Largo, Prieto, Asensio, Miaja, Rejo, todos. Que morram todos e que vão para o diabo! Mierda para a porcaria deste país de traidores! Mierda para o seu egotismo e orgulho; o seu egoísmo, o seu egotismo, a sua vaidade, a sua traição! Bardamierda, antes de morrer por eles. Que se enterrem na mierda até ao pescoço e que vão para o diabo. Grande Deus, mierda para Pablo. Pablo, e eles todos. Deus tenha piedade dos espanhóis. Podem ter o chefe que tiverem que são sempre a mesma porcaria. Um Pablo Iglesias em dois mil anos e os outros são uma porcaria. E saber como ele se teria aguentado nesta guerra? Lembro-me de ter considerado Largo muito bom. Durruti era 352 bom e os seus mataram-no lá para baixo, na Puente dos Franceses. Fuzilado porque queria atacar. Fuzilado pela magnífica disciplina da indisciplina. Os covardes e os traidores. Mierda para eles todos e que vão arder para as profundas dos infernos. E este porcalhão do Pablo que foge com o meu explosivo e a minha caixa de detonadores! Raios o partam nas profundas do inferno! Mas não. Quem vai para o inferno somos nós. São sempre eles que nos emporcalham, desde Cortez e Menendez de Avila até Miaja. Vejam o que Miaja fez a Kleber. Este porco calvo. Este estúpido bastardo com cabeça de ovo! Diabos carreguem esses loucos insensatos, egoístas, traidores que sempre governaram a Espanha e comandaram os seus exércitos. Mierda para todos, excepto para o povo, mas desconfia muito do povo quando alcançar o Poder.» À medida que exagerava, despejando o ódio e o despeito, e insultos a torto e a direito, a ponto de já não levar a sério o que dizia, a sua paixão foi diminuindo. Se tudo aquilo era verdade, que estava ele a fazer ali? «Mas olha também para os que prestam, que os há.» Não suportava a injustiça. Odiava a injustiça e a crueldade, mas a cólera cegara-o. Mergulhou na raiva que lhe cegava o espírito até que a sua cólera morreu progressivamente, até que a cólera vermelha, negra, cega e assassina se dissipou, deixando-lhe o espírito tão calmo e agudo, tão lúcido como o do


homem que acaba de ter relações sexuais com uma mulher que não ama. -E tu, minha pobre coelhinha -murmurou debruçando-se sobre a jovem, que sorria meio adormecida e se chegara a ele.-Eu há pouco também te teria batido se tivesses falado! Que animal horrível é um homem encolerizado. Encostou-se todo à rapariga e tornou-a nos braços, encostou o queixo ao seu ombro e tentou pensar exactamente no que tinha a fazer e como o faria. «A situação não é assim tão trágica-pensou consigo.-Não é assim tão trágica como isso. Não sei se alguémjá fez como eu vou fazer. Mas sempre aparecerá quem o faça desta maneira, de agora em diante, num caso destes. Se o fizermos e se eles o souberem. Se souberem como, pois. Se não eles ficarão na incerteza quanto à maneira como o fizemos. O que nos falta é gente que chegue. Mas não nos devemos preocupar com isso. Mesmo com a gente que há, hei-de fazer saltar a ponte. Por Deus que me sinto satisfeito por me ter passa40 -- raiva. Era como não poder respirar no meio de uma tormenta. Essa raiva é outro maldito luxo que não nos podemos permitir. 23- S. D. 353 - Está tudo resolv i_), guapa - murmurou jordan baixinho nó ombro de Maria.--'1'u não te aborreceste com isso. Não tiveste noção de coisa nenhuma. Vamos morrer, mas a ponte há-de saltar. Não te, preocupes com isso. Como presente de núpcias não é dos melhores. Mas não dizem que uma noite de sono é um tesouro? Tu tiveste uma boa noite de sono. Trata de a usar no dedo como um anel. Dorme, guapa. Dorme bem, minha adorada. Não te vou acordar. É tudo quanto posso fazer agora por ti. Estava deitado e tinha-a suavemente nos braços e sentia-a respirar, sentia bater-lhe o coraçao e seguia as horas pelo relógio de pulso. 354 CAPITULO XXXV CHEGADO às posições das tropas governamentais, Andrés tinha chamado. Quer dizer tinha-se deitado no chão, onde o terreno descafa abaixo da tríplice cintura de arame e gritara para o parapeito de pedra. A linha de defesa não era contínua e poderia ter passado naquele ponto aproveitando-se da escuridão e penetrado bastante em território governamental antes de ser detido por qualquer sentinela. Mas pareceu-lhe mais seguro e firme apresentar-se já ali. -Saludi -gritou. -Salud, milicianos! Ouviu o barulho da culatra e depois, um pouco mais baixo, um tiro. Houve um estalido seco e um pequeno clarão amarelo na trincheira. Andrés estava lieteralmente colado ao chão. - Não atirem, camaradas! - gritou. - Não atirem! Eu quero entrar. -Quantos são?-perguntou alguém por trás do parapeito. -Um. Eu. Sózinho. -E quem és tu? -Andrés Lopez, de Villaconejos. Do bando de Pablo. Trago um sobrescrito. -Tens a espingarda e munições? - Sim, homem. -Não podemos deixar passar ninguém com espingarda e munições- disse a voz.-Nem grupos de mais de três.


-Estou so'zinho - bradou Andrés. - É importante. Deixa-me entrar. Podia ouvi-los trocar palavras, mas não percebia o que diziam. A voz tornou a bradar: -Quantos são Vocês? -Um. Eu. Só. Pelo amor de Deus. A discussão continuou por detrás do parapeito. Depois uma voz: 355 -Ouve, fascista. -Não sou fascista-berrou Andrés.-Sou um guerrillero do bando de Pabio. Trago uma carta para o Estado-Maior. -Está maluco. Atira-lhe uma bomba-propôs alguém. -Ouve-tornou Andrés.-Estou sózinho. Inteiramente só. Juro. Me cago nos santos mistérios como estou só. Deixa-me entrar. -Ele está a falar como um cristão-volveu alguém a rir. -O melhor que há a fazer é atirar a bomba-teimou o outro. -Não-bradou Andrés.-Seria um erro enorme. O caso é grave. Deixem-me entrar. Era por essas e outras que nunca lhe agradavam as idas e vindas entre as linhas. Às vezes não acontecia nada. Mas era sempre perigoso. -Tu estás mesmo sózinho? -Me cago en la leche!-gritou, Andrés.-Quantas vezes tenho de repetir que: «Estou so'zinho?» -Então se estás sózinho põe-te de pé e levanta a espingarda com as duas mãos acima da cabeça. Andrés fez como lhe mandavam. -Agora passa pelos arames. Estamos com a máquina apontada para ti-disse a voz. Andrés estava na primeira cintura de arame em zigue-zague. -Preciso das mãos para atravessar o arame-bradou ele. -Teria sido mais simples atirar-lhe uma bomba-repetiu a outra voz. -Continua com as mãos no ar-ordenou a voz. -Estou preso pelos arames. -Deixem-no abaixar a espingarda - volveu outra voz. -Ele não pode atravessar os arames com as mãos acima da cabeça. Raciocinem um pouco. -Todos estes fascistas são os mesmos-tornou a primeira voz.,-Põem uma condição depois de outra. -Ouçam-bradou Andrés.-Não sou nenhum fascista, sou um guerrillero do bando de Pablo. Nós já matámos mais fascistas que o tifo. -Nunca ouvi.falar.do bando de Pablo-disse o homem que, evidentemente, comandava o posto.-Nem de Pedro, nem de Paulo, nem de nenhum dos outros santos e apóstolos. Nem dos bandos deles. Põe a espingarda ao ombro e serve-te das mãos para atravessar oarame. -Antes que despejemos o carregador -gritou outro. 356 -Quê poco amables sois!-disse Andrés abrindo caminho por entre os arames. -Amables? Estamos em guerra, amigo. -Bem me parece. -Que foi que ele disse? Andrés ouviu de novo estalar a culatra.


-Nada-gritou.-Não disse nada. Não atirem enquanto eu não atravessar esta porcaria do arame. -Não fales mal do nosso arame, ou atiramosjá uma bomba. -Quiero decir, quê buena alambrada -berrou Andrés.-Que lindo arame. Bom Deus de mierda! Que filhos maravilhosos. já vou, já vou, irmãos. -Atirem-lhe uma bomba - continuou a insistir a voz. -já lhes disse que é a melhor maneira de acabar com esta história. -Irmãos-bradou André& banhado em suor, sabendo que o advogado da bomba era muitíssimo capaz de atirar uma granada a qualquer momento.-Eu não tenho a menor importância. -Estou convencido disso-declarou o da bomba. -E tens toda a razão-respondeu Andrés atravessando cautelosamente a terceira rede de arames, agora muito perto do parapeito.-Eu não tenho importância nenhuma. Mas o negócio é sério. Muy, muy serio. -Não há nada mais sério que a liberdade -gritou o da bomba.-Achas que h« alguma coisa mais séria que a liberdade?-perguntou desafiando-o. -Não, homem-respondeu Andrés aliviado. Sabia que agora estava a salvo dos malucos, dos que usavam lenço vermelho e preto. -Viva Ia Libertad! - Viva Ia F. A. L! Viva Ia C. N. T.! -urraram em resposta os do parapeito. - Viva el anarco-sindicalismo e a Liberdade! V - iva nosotros! -gritou Andrés em resposta. -Ele é nosso correligionário e não obstante quase o matei com isto - murmurou o da bomba, olhando para a granada que tinha na mão, muito emocionado, quando Andrés saltou por cima do parapeito, Abraçando-o, sempre com a granada na mão, de modo a encostá-la no ombro de Andrés, abraçou-o e beijou-o em ambas as faces. -Estou contente por não ter acontecido nada, irmão -disse ele ainda.-Estou muito contente. -Onde está o oficial? -perguntou Andrés. -Quem comanda aqui sou eu-disse um homem.-Deixa-me ver os papéis. 357 Levou-os para um abrigo cavado na rocha e examinou-os à luz de uma vela. Lá <_stava o pequeno quadrado de seda dobrada com as cores da República e o selo do S. I. M., ao centro. Estava também o salvo-conduto com o nome, idade, altura, lugar de nascimento e a missão que jordan escrevera numa folha do seu caderno para o marcar com o carimbo húmido do S. I. M.; e por fim a nota para Golz: quatro folhas dobradas, presas com um fio selado com um sinete de cera marcado pelo selo de metal do S. 1. M., que estava fixado na outra extremidade do selo húmido. -Isto já eu vi-disse o que comandava o posto devolvendo o pedaço de seda.-Isto todos trazem, eu sei. Mas não prova nada sem isto - e tomando o salvo-conduto releu-o. - Onde nasceste ? -Villaconejos -respondeu Andrés. -E que cultivam lá? -Melões, como toda a gente sabe. -Quem conheces tu lá? -Porquê? Tu és de lá? -Não. Mas andei por lá. Sou de Aranjuez. -Pergunta-me por alguém. -Dize-me como é José Rincon.


-O dono da taberna? -Naturalmente. -É calvo, barrigudo e tem uma belida num olho. -Então isto é autêntico-disse o homem devolvenelo-lhe o documento.-Mas que fazes do lado deles? -Nosso pai tinha-se instalado em Villacastin antes do movimento - explicou Andrés. - Lá longe, para além das montanhas, na planície. Lá é que fomos surpreendidos pelo movimento. Desde então tenho combatido com o bando de Pablo. Mas tenho muita pressa, homem, de entregar este despacho, -Como vão as coisas na zona dos fascistas? -perguntou o que comandava e não estava nada apressado. -Hoje tivemos muitos tomates-disse Andrés com orgulho. -E houve muita poeira na estrada durante todo o dia. Eles dizimaram o bando de El Sordo. - E quem é El Sordo? - perguntou o outro em tom pejorativo. -Era o chefe de um dos melhores bandos das montanhas. -Vocês todos deviam vir para as fileiras do exército da República-disse o oficial.-Há muita porcaria de guerrilhas por aí. Todos deviam vir submeter-se à nossa disciplina liber358 tária. Então, quando precisássemos de uma guerrilha em certo ponto, mandaríamos para lá uma. Andrés era homem dotado de uma paciência sublime. Aceitara com calma o longo debate do arame. Todos aqueles exames não o alteraram. Achara natural que o homem não soubesse nada a respeito deles e do que estavam a fazer. Que só dissesse tolices era de esperar. Que tudo se fizesse na maior moleza, tambéiri esperara; mas aggra queria prosseguir. - Ouve, compadre - disse ele. - E possível que tenhas razão. Mas recebi ordem de entregar este despacho ao general-comandante da 3,5.a Divisão que deve atacar nestas colinas ao amanhecer, e a noite já vai alta e preciso ir-me. -Que ataque? Que sabes tu de um ataque? -Nada. Eu não sei nada. Mas tenho de ir daqui para Navacerrada. Manda-me ao comandante, que tem de me facilitar o transporte para lá. Manda alguém comigo que lhe faça ver que não pode haver demoras. -Isso não me agrada nada - disse o outro. - Talvez tivesse valido mais abater-te quando te aproximaste dos arames. -já viste os meus papéis, camarada, e expliquei-te a minha míssão-replicou Andrés pacientemente. -Os documentos podem ser falsificados. Não sou tolo. Qualquer fascista pode inventar uma missão semelhante, Vou eu mesmo levar-te ao comandante. -Bem-disse Andrés-assim é melhor. Mas ternos de andar ligeiros. -Tu, Sanchez, ficas a substituir-me. Conheces os deveres tão bem como eu. Vou levar este suposto camarada ao comandante. E desceram a trincheira pouco profunda atrás da crista da colina, e Andrés sentiu no escuro o fedor dos detritos que os defensores do cume deixavam ao longo da encosta. Não gostava daqueles homens que eram como crianças perigosas; sujos, grosseiros, indisciplinados, bons, afectuosos, ineptos e ignorantes, mas sempre perigosos porque andavam armados. Ele, Andrés, não tinha opiniões políticas e sabia apenas que era pela República. Ouvira muita vez falar estas


gentes e achara bonito o que diziam, mas não gostava deles. «Não se chama liberdade isto de não enterrar as porcarias que a gente faz», - pensou consigo. - Não há animal mai s livre que o gato, mas nunca deixa de enterrar os seus detritos. O gato é o melhor anarquista. Enquanto eles não aprenderem isso com os gatos não os posso respeitar.» 359 Adiante o oficial deteve-o. -Ainda trazes a espingarda ? -Trago -respondeu Andrés.-E porque não? -Dá-ma. Podes atirar-me pelas costas. -Porquê? Porque havia de atirar-te pelas costas? -A gente nunca sabe. Eu não confio em ninguém. Dá-me a espingarda. Andrés tirou-a do ombro e entregou-lha. -Se te agrada carregá-la. -É melhor, assim estamos mais garantidos. E desceram a encosta na escuridão. 360 CAPlTULO XXXVI DEiTADo com a rapariga, Robert jordan via as horas passayem no relógio de pulso, no qual o tempo decorria lenta, imperceptivelmente, porque era um relógio pequeno e não podia ver os movimentos do ponteiro menor. Mas como fixava o dos minutos, deu-se conta de que quase parava quando fixava tão intensamente. A cabeça de Maria ficava-lhe sob queixo e quando se mexia para olhar o relógio sentia na pele roçar macio daqueles cabelos rapados. Era tão doce, tão vivo, tão movediço e sedoso como a pelagem da marta quando, depois de se abrir a armadilha, se tira o animal para fora e o apertamos acaric ando a pelagem eriçada. A garganta de Robert jordan apertava-se quando o rosto roçava os cabelos de Maria e sentia um vácuo doloroso em todo o seu ser, enquanto a apertava nos braços; inclinava a cabeça, os olhos chegados ao relógio onde o ponteiro luminoso, em forma de seta, subia lentamente no lado esquerdo do mostrador. Dava-se nitidamente conta do seu movimento uniforme, agora, e abraçava Maria para o afrouxar. Não a queria acordar, mas não a podia deixar tranquila, agora que se aproximava o fim da noite. Beijou-a atrás da orelha, subindo ao longo da nuca, sentindo a pele lisa e o doce contacto dos cabelinhos que cresciam ali. Via o ponteiro deslizar no mostrador e apertou-a com força contra si, passando a ponta da língua no rosto, no lóbulo da orelha, seguindo as suaves circunvolações até à margem doce e firme e a sua língua tremia. Sentia este estremecimento invadir o vácuo doloroso do seu corpo e via o ponteiro do relógio subir em ângulo agudo até ao ponto que marca a hora exacta. Como ela continuava a dormir, virou-a e encostou-lhe: os lábios aos lábios. Deixou os lábios encostados aos dela, roçando de leve a boca, contraída de sono, que 3* depois beijou muito de leve. Virou-se paxa ela e sentiu-a fremir ao longo de todo o seu corpo ligeiro e doce. Sentiu-a suspirar e depois, com ela sempre adormecida, abraçou-a. Acordando então, ela beijou-o com força, ardentemente e Jordan disse: -Mas tu estás doente. E ela respondeu: -Não, já não estou doente. -Coelhinha. -Não, não fales. - Minha coelhinha.


-Não fales. Não fales. Enquanto o ponteiro, que deixara de olhar, deslizava no mostrador, sabendo que nunca poderia acontecer nada a um que não acontecesse também ao outro, e que não poderia acontecer mais do que isto; que isto era tudo e sempre: o passado, o presente, esse futuro desconhecido! O que nunca mais voltariam a ter, tinham-no agora. Tinham-no no presente e para o passado e para. sempre e agora, e agora e agora! Agora, agora mesmo, este presente, o único presente, e o presente é o teu profeta! O presente é para sempre o presente. Vem agora, presente, porque não há outro presente que este de agora. Oh, agora, agora, peço-te, agora, nada mais que este presente. E onde estás tu, e onde estou eu, e onde está o outro... mas nunca o porquê, nunca o porque, nada mais que este presente, agora e para sempre, peço-te, sempre presente, sempre presente, agora. e sempre um prçsente; um único, um único, não há outro, não há outro presente; um único presente que passa, agora, que sobe agora, que flutua agora, que passa agora, que rola agora, que se evola agora, e partiu agora, está ao longe agora, muito longe agora; um mais um igual a um, igual a um, igual a um, um ainda, um sempre... igual a um apaziguadoramente, igual a um docemente, igual a um com desejo, igual a um com bondade, igual a um com felicidade, igual a um com ternura, igual a um para amar, igual a um na terra, agora, os cotovelos fincados nestes galhos de pinheiro cortados, orvalhados, na obscuridade e no cheiro da resina; na terra definitivamente, agora, e na madrugada do dia a vir. Depois ele disse, porque o resto se passava na sua cabeça e não tinha falado: -Oh Maria, amo-te e agradeço-te. -Não fales. É melhor não falarmos -respondeu Maria. -Mas devo dizer, porque é uma grande coisa. -Não. - Coelhinha.. . 362 Mas ele apertou-a e virou-lha a cabeça e perguntoxi-lhe com ternura: -É a dor, coelhinha? -Não, é que estou agradecida por estar outra vez en la gloria. Quedaram-se imóveis, lado a lado, unidos em toda a sua altura, tornozelos, coxas, ancas, ombros e Robert Jordan podia olhar de novo para o relógio. Maria disse: -Temos muita sorte. -Sim-respondeu ele. Tivemos muita sorte. -Ainda temos tempo de dormir? -Não. Temos de começar agora, cedinho. -Se é assim, tratemos de comer alguma coisa. -Está bem. -E tu não estás preocupado? -Não? -Verdade? -Não. Agora não. -Mas já estiveste muito preocupado. -Durante algum tempo. -Posso ajudar-te nalguma coisa? -Não. Já me ajudaste bastante.


-Aquilo? Aquilo foi por mim. -Foi por nós dois-disse ele.-Nenhum de nós está só. Vamos, coelhinha. já é tempo de nos vestirmos. Mas o seu cérebro que era o seu melhor companheiro, pensava: «La Gloria. Ela disse La Gloria. Nào tem nada a ver com o inglês gloiy, nem com la gloire de que fálani os franceses. Mas a que existe no Canto Hondo e nas Sactas. Em Greco e em San juan de Ia Cruz e em outros, Eu não sou nenhum místico, mas ignorar isso é dar prova de tanta ignorância corno negando o telefone ou o movimento da Terra à volta do Sol, ou que existam outros planetas além deste. «Que pouco sabemos de tudo quanto há para se saber! Eu gostaria de ter diante de mim uma longa existencia, em lugar de morrer hoje, porque aprendi muito da vida nestes quatro dias. Mais, julgo eu, que durante toda a minha vida! Gostaria de ser velho e de saber realmente. E pergunto-me se continuamos sempre a aprender ou se há uma determinada quantidade de coisas que um homem pode alcançar. julguei que sabia muito acerca de uma porção de coisas e verifico agora que não sei. Eu queria dispor de mais tempo.» -Tu ensínaste-me muita coisa, guapa - disse ele em -Que dizes tu? - Que aprendi muito contigo. - Q_u1 Va! tu é que és instruído. «Instruído, - pensou ele. - Tenho apenas os mais rudimentares princípios de uma instrução. Os princípios apenas. Mas se eu morrer hoje é um desperdício; porque sei agora muitas coisas. Será que as aprendi agora por estar hipersensibilizado pela brevidade do tempo? Mas o tempo não existe! Tu devias ser suficientemente inteligente para o saberes. Vivi toda a experiência da minha vida desde que estou nestas montanhas. Anselmo é o meu mais velho amigo. Conheço-o mais a fundo do que conheço Charles, do que conheço Club, do que conheço Guy, do que conheço Mike, e conheço-os a todos muito bem. Agustin com o seu palavriado imundo é meu irmão. E nunca tive irmãos. Maria é o meu amor verdadeiro e a minha mulher. E nunca tive um amor verdadeiro. Nem tive mulher. Também ela é minha irmã, e nunca tive irmã, e minha filha e nunca hei-de ter filha. Odeio a ideia de ter de abandonar uma situação tão boa.» Jordan acabava de atar as alparcatas. -Acho a vida muito interessante, Maria. Ela estava sentada a seu lado sobre o saco de campanha, as mãos cruzadas prendendo os tornozelos. Alguém afastou o cobertor da entrada da gruta e ambos viram a luz. Ainda era noite, e o dia não dava sinais de si, apenas, levantando a cabeça, ele reparou, através dos pinheiros, que as estrelas estavam muito baixas. Amanhecia cedo nesta estação. - Roberto -murmurou Maria, - Sim, guapa. -Estaremos juntos nisto de hoje? -Só depois da primeira parte. -E durante a primeira parte não? -Não. Ficarás com os cavalos. -Não posso ficar contigo? -Não. Vou fazer um trabalho que só eu posso fazer e a tua presença inquietar-me-ia. -Mas virás logo depois de acabares? -Imediatamente -respondeu Jordan rindo-se na escuridão.-Vamos, guapa, vamos comer. -E o saco?


-Enrola-o se queres. - Quero, pois. -Eu ajudo-te. -Não. Eu arrumo-o sàzinha. 364 Ela ajoelhou-se para estender e enrolar o saco de campanha, depois mudou de ideias, levantou-o e sacudiu-o no vento. Depois ajoelhou-se de novo para o alisar e enrolar. Robert Jordan apanhou os dois sacos, levando-os com precaução para que não caísse nada pelos rasgões e caminhou através dos pinheiros para a entrada da gruta onde levantou a cortina suja. Eram três* menos dez no seu relógio quando afastou a co~tina com o cotovelo e penetrou ali. i 365 CAPITULO XXXVII NA gruta, os homens estavam de pé diante do lume que Maria abanava. Pilar, que não tinha voltado a dormir depois de ter acordado Robert Jordan, tinha feito café numa panela. Estava agora sentada num mocho, naquela caverna fumarenta e cosia o rasgão de um dos sacos de Robert Jordan. O outro já estava arranjado. A luz da lareira iluminava-lhe as feições. -Serve-te de mais ensopado - disse ela a Fernando. -Que diferença faz que tenhas a barriga cheia? Não há doutor para te operar, se te estriparem. -Não fales assim, criatura -protestou Agustin.-Tu tens a língua da Grande Porca. Estava encostado à metralhadora, que tinha os pés dobrados contra o cano e tinha os bolsos cheios de granadas, um saco de cartuchos pendurado no ombro, e trazia a tiracolo um bornal cheio de munições. Fumava um cigarro e tinha na mão uma tigela de café para a qual soprava o fumo do cigarro, ao levá-la aos lábios. -Tu és um verdadeiro arsenal ambulante - observou Pilar. Com essa carga toda nem vais ser capaz de andar cem metros. - Quê va, mulher! É a descer. - Mas há a subida para o posto - disse Fernando, - antes de começar a descida. -Hei-de subir como um cabrito - respondeu Agustin. -Que fim levou o teu famoso irmão? -- perguntou a Eládio.-Terá desertado? Eládio estava de pé, encostado à parede. -Cala a caixa. Eládio estava nervoso e sabia que todos o notavam. Ficava sempre nervoso e irritável, antes de entrar em acção. 366 Dirigiu-se para a mesa, junto da parede e começou a encher os bolsos com granadas que tirava de dois grandes cestos, cobertos de couro cru pousados, abertos, ao pé da mesa. Jordan abaixou-se ao lado dele e tirou quatro. Três eram ovais, tipo MilI, dentadas, de ferro pesado, com uma alavanca mantida em posição por uma chaveta de pino e argola.


-De onde vieram estas? -perguntou a Eládio. -Estas são da República. Foi o velho que as trouxe. -E que tal são? -Valen m& que pesan - respondeu Eládio. - Cada uma vale um tesouro. -Fui eu que as trouxe-disse Anselmo. -Sessenta por saco... Noventa libras, Inglês. -já as experimentaram aqui? -perguntou Jordan a Pilar. -Quê va, se já as empregámos! Foi com elas que Pablo massacrou o posto de Otero. Ouvindo-a mencionar o nome de Pablo, Agustin começou a praguejar. Robert Jordan viu a expressão do rosto de Pilar à luz da lareira. -Pára com isso-rosnou àsperamente a mulher.-Não adianta falar. - E explodiram sempre? -perguntou Robert Jordan que tinha na mão a granada pintada de cinzento e procurava mover o pino com a unha do polegar. - Sempre -respondeu Eládio.-Não houve uma só que não explodisse, de todas as que empregámos. -Explosão rápida? -O tempo de as atirar. Rápido. Muito rápido. -E estas? Apanhou uma granada em forma de lata de conservas, com uma mecha enrolada à volta de uma argola de arame. -Essas são refugo -respondeu Eládio. -Estouram, sim, mas é s6 barulho, não fazem estilhaços. -Mas explodem sempre? -Quí vai-exclamou Pilar.-Não há sempre, nem com as nossas munições nem com as deles. -Mas tu disseste que explodiam sempre. -Eu não-contestou Pilar. -Perguntaste a outro e não a mim. Por mim eu nunca vi um sempre em nada dessas coisas. -Elas estouram sempre - insistiu Eládio.-Diz a verdade, mulher. -E como sabes tu que elas estouram sempre-interpelou Pilar - se foi Pablo quem as atirou? Tu não mataste ninguém em Otero. 367 -Aquele grandecíssimo patife... -começou Agustin. -Fecha essa boca -interrompeu vivamente Pilar. Continuou depois:-São todas iguais, Inglés. Mas as dentadas são mais simples. «O melhor é empregar uma de cada qualidade, -pensou Jordan. -Mas as dentadas devem explodir mais depressa e com mais certeza.» -Vais atirar bombas agora, IngIés ?-perguntou Agustin. -E porque não? Mas ali agachado a escolher granadas, o pensamento de Jordan era um só: a impossibilidade daquela empresa. «Como conseguiste enganar-te a ti próprio é que não posso comprecrider. Sim, porque estamos liquidados desde que eles atacaram El Sordo como este já o estava quando a neve deixou de cair. E foi isso que tu não admitiste. Puseste-te a refazer um plano que sabias ser impossível executar. Fizeste o plano e agora sabes que não presta. Agora, de dia, é que se vê como é mau. Podes perfeitamente tomar um dos postos com a gente que tens. Mas não podes tomar os dois. Não podes ter a certeza, quero dizer. Não te iludas. Pelo menos à luz do dia. «Tentar ocupar os dois é impossível, Pablo soube-o sempre. Penso que sempre teve com ele a


ideia de desertar, mas só se firmou nessa ideia depois do desastre de El Sordo. Tu, Jordan, não podes basear uma operação na esperança de que sobrevenha algum milagre. O que realmente vais fazer é sacrificá-los a todos e não fazes voar a ponte se não tens nada melhor que isto. Matarás Pilar e matarás Anselmo, Agustin, Primitivo, o irrequieto Eládio, o cigano que não presta para nada, o velho Fernando, e a ponte não irá pelos ares. Pensas que haverá um milagre e Golz receberá a tempo o aviso de Andrés e suspenderá a ofensiva? Se não houver um milagre, vais fazê-los matar sob as tuas ordens? Maria também. .De que maneira podes tu colocá-la fora de perigo? Ah, maldito Pablo! «Não. Nada de te encolerizares. A cólera é coisa tão má como o medo. Mas em vez de dormires com a rapariga devias ter montado a cavalo e percorrido aquelas montanhas, de noite, com, a mulher, e tentar arranjar gente para triunfar. Sim, mas se me acontecesse qualquer coisa, não estaria aqui para a fazer saltar. Sim. Aqui está. Aqui, está porque o não fizeste. E tu não podias mandar qualquer outro, porque não podias arriscar-te a perdê-lo, ficando com um de! menos. Precisavas de guardar o que tinhas : e imaginar. um novo plano. 368 «Mas o teu plano, Jordan, já cheira mal. Fede, é o que te digo. Foi um plano concebido à noite e a manhã já rompeu. Os planos nocturnos não valem nada de manhã. A maneira nocturna de pensar não presta para nada de manhã. Estás a ver agora, que é de facto assim? «E John Mosby não fazia coisas tão impossíveis como esta? É certo que Mosby passou por situações bem más e talvez ainda mais dificeis do que esta. E nÃo te esqueças, Jordan, de tomar em linha de conta o elemento surpresa. O ataque de surpresa é uma grande vantagem e essa vantagem pertence-nos. Mas isso não é solução. É possível tornar a coisa não só possível como segura. Repara como tudo se foi por água abaixo. É que tudo estava errado desde o início e foi-se agravando, como bola de neve que rola sobre neve fresca.» Acocorado pçrto da mesa, Jordan ergueu os olhos e viu Maria que lhe sorriu. Retribuiu-lhe o sorriso, que apenas lhe saía da superfície da pele, e escolheu mais quatro granadas que meteu no bolso. «Posso retirar os detonadores e usá-los, muito simplesmente -pensou. -Mas não creio queafragmentação estrague as coisas. Far-se-á imediatamente, paralelamente à explosão da carga e não a poderá dispersar. Espero-o pelo r~enos. Não, tenho a certeza. Um pouco de confiança, -repetiu-se. - E.tu que pensavas ontem à noite em que tu e o teu avÔ eram corajosos e o teu pai era um covarde. Mostra agora um bocado de confiança.» Sorriu de novo para Maria, mas era um sorriso que não passava de um mero !repuxar dosmúsculos faciais; vazio de conteúdo. «Ela acha-te um portento e a mim parece-me que não vales coisa nenhuma, como nada vale a gloria e todas estas porcarias. Ideias maravilhosas andaram a crescer-te no cérebro, não é assim? Construíste bem o teu pequeno universo, hem? Para o diabo tudo isto. «Acalma-te, amigo Jordan. Nada de raivas inúteis. Isso é um pretexto para escapares aos apuros. Para tudo há saídas e essa é uma. Mas precisas segurar-te. Não faças como a cobra de espinha partida que morde a própria cauda, porque ainda não tens a espinha partida. Espera que te firam para começares a gritar. Espera que o combate principie para te encolerizares. Há um milhão de oportunidades para isso durante um combate. Num combate a cólera pode ser útil.» Pilar aproximou-se dele com o saco remendado. -Agora está forte, cosi-o. Aquelas granadas são muito boas, Inglés, podes confiar nelas.


24-S. D. 369 -Qual é a tua ínipressão, mulher? Pilar encarou-o, abanou a cabeça e sorriu. Jordan ficou a pensar na sinceridade que poderia haver naquele sorriso. Pareceu-lhe bastante profundo. -Bem-disse ela.-Dentro de Ia gravedad. Depois agachando-se a seu lado: -E a ti que te parece, agora que a coisa está a começar? - Que somos muito poucos - respondeu imediatamente Jordan. -Também penso da mesma maneira -confessou elasomos muito poucos. Depois acrescentou: -A Maria pode tomar conta dos cavalos sézinha. Não faço falta para isso. Podemos peá-los. São cavalos do exército que não se espantam com detonações. Eu vou para o posto de baixo, fazer o que Pablo devia fazer. Assimjá temos mais um, -Bem-disse ele-tinha admitido essa hipótese. -Vamos, Inglês - disse Pilar examinando-o de perto. -Não te atrapalhes. Tudo vai correr bem. Lembra-te de que eles não esperam ser atacados. A surpresa será completa. - Lá isso é. -Outra coisa, IngIés-disse Pilar com a suavidade que lhe permitia a sua voz rouca. - Naquela história da mão... -Que história da mão?-agastou-se Jordan. -Ouve e não te zangues, menino. Naquela história da mão... foram tudo invenções de cigana, para me dar importância. Mas não há nada disso. -Não interessa -respondeu ele friamente. -Não-insistiu ela com a voz rouca e suave.-Menti. Não quero que estejas nervoso num dia de combate. -Não estou nervoso -asseverou Jordan. Ela sorriu-lhe de novo, um sorriso encantador e leal, com aquela boca larga, de lábios firmes e afirmou: -Eu gosto muito de ti, Inglés. -Não quero saber disso agora. iVi tu, ni Dios. - Sim - disse Pilar no seu sussurro rouco. - Eu sei. Apenas quero dizer que não te preocupes. Havemos de fazer tudo muito bem. -E porque não?-tomou Robert, mas apenas a parte mais superficial da pele do rosto sorriu. - Pela certa que faremos. Tudo há-de sair bem. -Quando partimos? -perguntou Pilar. Jordan lançou um olhar ao relógio: -Imediatamente. 370 Entregou a Anselmo um dos sacos. -E como te sentes, meu velho ? O velho acabava de aguçar uma pequena cunha, copiada de um modelo que Robert jordan lhe tinha dado. Eram cunhas de reserva para o caso de serem necessárias. -Bem-disse o velho abanando a cabeça.-Até agora óptimo.-E estendeu a mão sorrindo. -Vê! -tinha as mãos absolutamente firmes.


-Bueno y qué?-retrucou jordan. Também posso manter a mão inteira firme... Aponta só um dedo... Anselmo apontou. O dedo tremia. Ele olhou para Robert Jordan. e abanou a cabeça. - O meu também treme - disse jordan mostrando. Sempre. O normal é isso. -Não para mim-volveu Fernando e esticou o indicador da mão direita para mostrar. Depois fez o mesmo com o da esquerda. -E podes cuspir? -perguntou-lhe Agustin piscando para Jordan. Fernando pigarreou e escarrou orgulhosamente para o chão da gruta, depois com o pé desfez o escarro na poeira. -Seu porcalhão -ralhou Pilar.-Cospe no lume se queres gabar-te da tua coragem. -Eu não teria cuspido no chão, Pilar, se não estivéssemos de mudança- respondeu Fernando afectadamente. -Pois trata de ver onde escarras hoje, 'pois pode ser nalgum sítio de onde não voltes a sair. -Esta mulher fala como um gato preto-disse Agustin sentindo a necessidade nervosa de fazer graça, o que era uma maneira de disfarçar o que todos sentiam. -Estou a brincar-disse Pilar. -Também eu-tornou Agustin.-Mas mp cago en la leche! Gostaria de ver isto- começado. -Por oxide anda o cigano? -Junto dos cavalos. Podes vê-lo da entrada da gruta. E que tal está ele ? -Cheio de medo-respondeu Eládio, consolando-se ao falar do medo de um companheiro. -Ouve, Inglés-começou Pilar, mas interrompeu-se. Robert Jordan virou os olhos para ela e viu-a abrir a boca e tamanha expressão de assombro se lhe desenhou no rosto que ele se voltou vivamente para a entrada da gruta com a mão na pistola. De pé, afastando com uma das mãos a cortina, a coronha da pequena metralhadora aparecendo acima do ombro, 371 estava Pablo, baixo, largo, hirsuto. Os olhos estreitos debruados de vermelho, não se fixavam em ninguém. -Tu! - exclamou Pilar dirigindo-se a ele, espantada. - Tu! -Eu-disse naturalmente Pablo ingressando na caverna. E para Jordan: -Hola, Inglês, tenho cinco homens trazidos dos bandos do Elias e do Alejandro; estão lá em cima com os seus cavalos. -E as espoletas e os detonadores? -perguntou Jordan. -E o resto do material? -Atirei tudo para dentro do rio-declarou com firmeza Pablo, continuando a não fixar ninguém.-Mas pensei numa maneira de provocar a explosão com granadas. -Também eu-disse Jordan. -Há alguma coisa que se beba? - perguntou Pablo, muito fatigado. Jordan passou-lhe o whisky, que ele bebeu com avidez; enxugou depois a boca, com as costas da mão. -Que se passa contigo, Pablo ?-interpelou Pilar. -jVada-tornou ele enxugando de novo a boca.-Nada. Voltei. -Mas que foi? -Nada. Tive um momento de fraqueza. Fugi mas voltei.


E dirigindo-se a Jordan: -En elfondo no soy cobarde. «Mas és muitas outras coisas,-pensou consigo Jordan. -Sacripanta! Apesar de tudo estou contente em ver-te aqui, crápula de um raio! -Cinco foi tudo o que pude encontrar no Elias e no Alejandro-disse Pablo.-Não desci do cavalo desde que saí daqui. Com nove, vocês nunca poderiam dar o golpe. Nunca. Compreendi-o ontem à noite, quando o IngIés explicou tudo. Nunca. No posto de baixo são sete e um cabo. Imaginem que eles dão o alarme ou que resistem? Pablo encarou RobertJordan: -Quando sal daqui imaginei que tu irias desistir. Depois, entretanto, de ter atirado ao rio todo aquele material, comecei a encarar as coisas de outra maneira. -Estou contente em ver-te por aquí-declarou Jordan. adiantando-se para ele.-Vamos arranjar-nos bem com as granadas. Vão servir. Aquele material não tem importância, agora. -Sim-concordou Pablo.-Mas fica sabendo que não é por ti que estou a fazer isto. Tu não me mereces nada. Não 372 passas de uma ave de mau agouro. És a causa de tudo quanto está a acontecer e também do que aconteceu a El Sordo. Mas depois de ter deitado fora aquele material, senti-me demasiado só. -Tua mãe...-rosnou Pilar. -Por isso fui buscar um reforço que nos permitisse ser bem sucedidos. Arrebanhei a melhor gente que pude encontrar. Deixei-os no alto para poder falar contigo primeiro. Eles pensam que eu sou o chefe. -Es tu-disse Pilar.-Se quiseres. Pablo não disse palavra, limitando-se a olhar para ela. Depois murmurou simples e calmamente: -Tenho pensado muito depois do que aconteceu a El Sordo. já que vamos ser liquidados, o melhor é acabarmos todos juntos. Mas a ti, Inglês, odeio-te, porque foste a causa de tudo isto. -Mas, Pablo... - começou Fernando, com os bolsos recheados de granadas, um bornal de cartuchos a tiracolo, ainda a enxugar o seu prato com um pedaço de pão.-Não acreditas que.a operação possa ser bem sucedida? Não disseste, a noite passada, estares certo de que daria resultado? -Dá-lhe mais ensopado - ordenou irónicamente PiJar, dirigindo-se a Maria. Depois para Pablo, com o olhar.mais brando:-Então voltaste, hem? -Sim, mulher. -Pois sê bem-vindo ' . Eu não podia conceber que estivesses reduzido à ruína que parecias. -Fazer o que eu iii traz uma solidão que ninguém pode aguentar-disse Pablo. com a maior calma. -Que ninguém pode aguentar -repetiu ela com escárnio. -Que tu não aguentas um quarto de hora. -Não zombes*, mulher. Aqui estou de volta. -E és bem-vindo - disse ela. - Não ouviste dizer-to? Toma o teu café e deixa correr o barco. Esta representação já me está a cansar. -Isso é café?-perguntou Pablo. -Certamente -respondeu Fernando. -Dá-me um pouco, Maria-pediu Pablo.-Como estás tu?-indagou, mas sem olhar para ela. --Bem - respondeu Maria entregando-lhe uma caneca de café.-Queres um pouco de ensopado? Pablo abanou a cabeça.


-No me gusta estar solo, Pilar-continuou ele, dirigindo-se à mulher como se estivessem sós.-Sabes? Ontem, trabalhando 373 sózinho o dia inteiro para o bem de todos, não me senti só... Mas esta noite... Hombre! Quê mal lo pasé! -O teu predecessor, o famoso Judas Iscariotes, enforcou-se. -Não fales comigo dessa maneira, mulher-disse Pablo. -Então não estou de volta? Não me fales de Judas, nem de nada assim. Estou de volta. -Que tal essa gente que trouxeste? --quis saber Pilar. -Vem algum que valha a pena? -Son buenos -respondeu Pablo aproveitando a ocasião para a espiar de soslaio; depois desviou os olhos. -Buenosy bobos. Dispostos a morrer e a tudo. A tu gusto. O género de que tu gostas. Pablo encarou Pilar e fitou-a bem nos olhos mas desta vez não desviou os seus. Continuou a encará-la com aqueles olhinhos de porco, debruados de vermelho. -Tu! - exclamou Pilar cuja voz áspera já se fizera meiga.-Tu! Um homem que foi gente nunca deixa de conservar alguma coisa. -Listo-murmurou Pablo, encarando-a desassombradamente.-Estou pronto-para o que der e vier. -Acredito -volveu Pilar. -Acredito. Mas, hombre, como demoraste. -Um gole más desse frasco, Inglês-disse Pablo voltando-se para Jordan. -E depois toca a andar! 374 CAPITULO XXXVIII PUSERAM-SE a galgar a encosta no escuro, através do pinhal, rumo à estreita passagem do cume. Seguiam lentamente sob o grande peso da carga. Os cavalos estavam carregados também, com fardos presos às selas. -Podemos soltá-los se for preciso -observou Pilar.-Mas se conseguirmos conservá-los até ao fim, podemos montar outro acampamento com o que levamos aqui. -E o resto das munições? - tinha perguntado jordan quando arrumaram aquela bagagem. -Está nos embornais, nas selas. Robert jordan sentia o peso do seu saco, e a gola do casaco apertar-lhe a nuca sob o peso das granadas que levava no bolso, o peso da pistola contra a coxa, e o inchaço dos bolsos das calças onde levava os carregadores da metralhadora, e, com a mão esquerda, puxava a gola do casaco para aliviar a tracção das correias do saco. -Inglês- murmurou a seu lado Pablo, no escuro. -Que há, velho? -O pessoal que eu trouxe está convencido de que vamos vencer. Não digas nada que os possa desiludir. -Está bem. Resta que obtenhamos a vitória. -Eles têm cinco cavalos, sabes?-proferiu Pablo timidamente. -óptimo. Vamos conservar todos os cavalos juntos. «Bem pensava eu que não tinhas tido uma conversão completa no caminho de Damasco, velho Pabl-o,-pensou Robert jordan. -O teu regresso basta como milagre. Suponho que nunca farão um processo para a tua canonização.»


-Com esses cinco homens -continuou Pablo-poderemos lidar com o posto de baixo tão bem como o faria El Sordo 375 com o seu bando. Eu cortarei os fios e defenderei a ponte, como foi combinado. «Já assentámos isso há dez minutos, pensoujordan. Admiro-mc deste patife estar a voltar ao assunto ... » -Há uma possibilidade de irmos para os Gredos-tornou Pablo.-Tenho reflectido muito nesse ponto ' . «Penso que tiveste uma nova crise há alguns minutos, -pensou Robert jordan. - Uma nova revelação. Mas não me vais convencer de que sou um convidado. Não, Pablo. Não me peças tanto.» Desde que Pablo tinha reaparecido na caverna com a notícia dos cinco homens de reforço, jordan sentia-se imensamente aliviado. Aquilo tinha dissipado a aura de tragédia que começara a envolver a operação a partir da intempestiva nevada. O retomo de Pablo fê-lo ver que o destino não se voltara contra ele, como no primeiro momento supusera; não acreditava na sorte, mas evidentemente tudo mudara para melhor e o negócio da ponte voltava a ser possível. Em vez da certeza do desastre, sentia a confiança crescer nele, como uma câmara de ar que começa a encher. No princípio tinha sido quase imperceptível, se bem que tivesse havido um princípio, como quando uma bomba começa a trabalhar e a câmara de ar se torce ligeiramente, mas, agora, isto assemelhava-se à subida regular da maré, ou à da seiva numa árvore, até ser invadido por esta falta de apreensão que se tornava uma autêntica felicidade precedendo a acção. Era esse o seu grande dom, o talento que o adequava para a guerra, a capacidade de, sem ignorar a possibilidade de um desastre, desprezar essa possibilidade e atirar-se. Essa qualidade, porém, ressentia-se dos maus efeitos da muita responsabilidade para com terceiros ou do facto de ter de levar por diante um plano mal concebido. Porque em tais casos o mau resultado final, o desastre, não pode ser ignorado. Não era apenas a possibilidade do desastre para si mesmo; isso era coisa que se podia desprezar. Sabia que não era nada, e sabia também que a morte não era nada. Sabia-o autênticamente, com tanta autenticidade como tudo o que sabia. Mas nestes últimos dias tinha aprendido que ele e outro podiam ser tudo numa situação. Mas sabia também ser isso uma excepção. «Tivemos aquilo, -pensou. -Nisso fomos muito felizes. Nisso estivemos três horas. E foi-me dado porque nunca o pedi. É coisa que não pode ser tirada nem pedida. Mas passou e completou-se esta manhã e só resta o nosso trabalho para fazer. 376 «E tu, -repetiu para consigo, -estou contente por verificar que encontraste uma pequena coisa que deixáste fugir por um momento. Fizeste uma bonita figura! Tive vergonha de ti durante um bom pedaço de tempo. Mas estavas só. Não havia eu para te julgar. Estávamos todos em maus lençóis. Tu e eu, ambos. Ambos. Agora já estás bem. Mas ouve, é preciso deixares de pensar continuamente na rapariga. Não podes fazer nada: para a proteger, excepto mantê-la afastada da acção, e é o que estás a fazer. Parece que não faltarão cavalos. A melhor coisa que podes fazer por Maria é realizar da melhor maneira a missão da ponte e escapar, e para isso muito te ajudará o não pensar nela até que tudo esteja concluído. Logo, nada de pensar na rapariga.» Estava nestes pensamentos quando Maria apareceu com Pilar, Rafael e os cavalos. -Olá, guapa!-exclaniou ele no escuro.-Como vais tu?


-Muito bem, Roberto. -Não te aflijas com coisa nenhuma-disse ele mudando a espingarda para a mão esquerda e pousando-lhe a direita no ombro. -Pretendo não me afligir. -Está tudo bem organizado. Rafael ficará contigo junto dos cavalos. -Gostaria mais de estar contigo. -Não. É com os cavalos que podes ser mais útil. -Então está bem. Ficarei junto deles. Nesse momento um cavalo relinchou e da clareira acima da brecha, entre os rochedos, respondeu outro cavalo, o relincho erguendo-se como um trilo agudo abruptamente cortado. Robert Jordan. divisou na escuridão a massa dos cavalos dos recém-vindos. Apertou o passo e alcançou Pablo. Os homens estavam de pé junto dos cavalos. -Salud-saudou Jordan. - Satud- -responderam eles dentro da escuridão, sem que o rapaz conseguisse ver-lhes os rostos. -Este é o IngUs que veio connosco, o dinanútista-foi a apresentação de Pablo. Nenhum disse nada, talvez acenassem a cabeça no escuro. -É bom que nos ponhamos a caminho, Pablo-sugeriu depois um deles.-A alvorada está prestes. -Trouxeste mais granadas ?-perguntou outro. -Temo-Ias em abundância. Vocês poderão municiar-se à vontade quando nos separarmos dos cavalos. 377 -Pois toca a andar - disse um terceiro. - Gastámos metade da noite à espera. -Hola, Pilar!-exclarnou um deles quandG a mulher se aproximou. -Quê me maten se não é Pepe-murmurou. ela.-Como vai isso, pastor ? -Bem, dentro de la gravedad. -Que cavalo é o teu? -O baio de Pablo, um excelente animal. -Vamos, vamos-insistiu o que falara primeiro.-O momento não é para paleio. -Como vais tu, Elias? - disse-lhe Pilar quando ele montava. -Como queres tu que eu vá?-perguntou com aspereza. -Toca a andar, mulher. Temos muito que fazer. Pablo montou o outro baio, o grande. -Tenham essas bocas fechadas e sigam-me-disse ele. -Vou levá-los ao ponto onde deixaremos os animais. 378 CAPITULO XXXIX ENQUANTo Robert Jordan dormia e reflectia na destruição da ponte e esteve com Maria, Andrés não tinha avançado nada. Até alcançar as linhas republicanas caminhara através da zona fascista tão depressa como o pode fazer na escuridão um camponês em boa forma, conhecendo a região. Mas as dificuldades começaram assim que entrou nas linhas da República. Teóricamente bastar-lhe-ia mostrar o salvo-conduto dado por Jordan e devidamente carimbado


com o S. I. M., e o sobrescrito que tinha o mesmo timbre, para que o deixassem continuar tão depressa quanto possível. Mas tinha encontrado o comandante de companhia da primeira linha que tinha tomado conhecimento da missão com um ar grave e desconfiado. Andrés foi levado por esse oficial ao comandante do batalhão, que antes do movimento era barbeiro e se encheu de entusiasmo ao ouvir contar-lhe a história da missão. Esse comandante, de nome Gomez, amaldiçoou a desconfiança e a estupidez do oficial, deu palmadinhas nas costas de Andrés, deu-lhe um copo de aguardente e disse-lhe que sempre tinha desejado ser guerrillero. Depois acordou um dos seus oficiais, entregou-lhe o comando do batalhão e mandou um plantão acordar o seu motociclista. Mas em vez de mandar o motociclista levar Andrés ao quartel-general da brigada, Gomez decidiu levá-lo ele mesmo para activar as coisas. Enquanto Andrés se agarrava ao wsento, a motocicleta precipitou-se roncando pela estrada esburacada pelos obuses, entre a dupla fila de grandes árvores ma ~nais. O farol da moto ilun-únava os troncos pintados de bra~ e os lugares em que a pintura e a casca tinham sido arrancadas pelos estilhaços das bombas e pelas balas nas batalhas que -tinha havido ali no primeiro 379 Verão do movimento. Numa aldeia em ruínas, onde a brigada instalara o seu quartel-general, Gornez travou como um corredor de motocicletas e encostou a máquina à parede de um prédio, onde uma sentinela sonolenta se pôs em sentido, enquanto Gomez a afastava para entrar na grande sala, cheia de mapas nas paredes, onde um oficial cabeceava, uma pala verde sobre os olhos, sentado a uma secretária onde havia um candeciro,.dois telefones e um exemplar do Mundo Obrero. O oficial ergueu os olhos para ele e disse: -Que vens fazer aqui? Não sabes telefonar? -Preciso de falar com o tenente-coronel - respondeu Gomez. -Está a dormir-declarou o oficial.-Vi o teu farol a mais de um quilómetro, Queres que nos bombardeiem? -Faz o favor de acordares o tenente-coronel - tornou Gomez.-Trata-se de um assunto da maior gravidade. -Está a dormir, já disse. Que espécie de bandido é esse que vem contigo?-disse designando Andrés com o queixo. -Um guer~i11ero que opera para lá das linhas e traz um d-espacho extremamente importante para o general Golz, que comanda a ofensiva que deve ser desencadeada de madrugada do outro lado de Navacerrada - explicou Gomez, grave e excitado, a um tempo.-Acorda o Teniente-Coronel, pelo amor de Deus. O oficial fixou-o com as pálpebras semicerradas, na sombra do celulóide verde: -Estás louco, homem? Não sei de nenhum general Golz, nem de nenhum ataque. Leva esse atleta e volta para o teu batalhão. -Acorda o Teniente-Coronel, já te disse-tornou Gornez com energia, e Andrés viu-lhe nos lábios um começo de tremor. -Vai para o raio que te parta-disse displicentemente o oficial, virando-se. 1 Gomez tirou do coldre a sua pistola Star de nove milímetros e apoiou-a contra as costas do oficial. -Acorda-o, fascista miserável! Acorda-o ou mato-te aqui já!


-Calma, calma - volveu o ofi~cial. - Os barbeiros são gente exaltada. O rosto de Gomez contraiu-se de cólera, mas limitou-se a dizer um novo: -Acorda-o já, já! -Plantão-chamou o oficial com voz desdenhosa. Um soldado apareceu na porta, e fez a continência. 380 -A noiva do coronel está com ele-explicou o oficial já com os olhos no Mundo Obrero.-Ele vai ficar encantado ao ver-te, capitão. -São homens da tua laia que inutilizam todos os esforços para vencer esta guerra-disse Gomez ao oficial do Estado-Maior. O oficial fingiu não ter ouvido e continuou a ler. Depois observou falando consigo mesmo: -Que curioso jornal e~te! -Por que não lês El Debate ?-interpelou Gomez.-Aí está um jornal para ti. E Gomez referia-se ao principal órgão conservador e católico que se publicava em Madrid antes do movimento. -Não te esqueças de que sou teu superior e que uma nota minha acerca da tua conduta tem peso reagiu o oficial sem erguer os olhos. Eu nunca li El Debate. Não venhas com falsas acusações. -Não. O que tu lias era o A B C. O exército está cheio de homens da tua marca. Mas não será sempre assim. Se andamos entalados entre os ignorantes e os cínicos, havemos de educar uns e eliminar outros. -Depurar é o termo-sussurrou o oficial sempre com os olhos no Mundo Obrero. Aqui vem a notícia de uma depuração dos teus famosos russos. Depuração, purga... purgam-se mais que os sais de Epsom. -Não importa a palavra - respondeu Gomez furioso. ,A palavra não tem importância desde que os maus elementos sejam liquidados. -Liquidados -disse o oficial insolentemente- e como se falasse consigo.-Outra palavra bem pouco castelhana. -Fuzilamentos, então. Isto é castelhano. Compreendes? -Sim, homem, mas não fales tão alto. Há mais gente além do Teniente-Coronel a dormir a~aurb~ a tua exaltação cansa-me. E por isso que sempre me cio a mim próprio. Não gostei nunca de falatório. Gomez olhou Andrés e abanou a cabeça. Os olhos brilhavam-lhe com a humidade criada pela cólera e pelo ódio. Mas abanou a cabeça e não disse nada, reservando as suas opiniões para um dia a vir. Tinha reservado muito, nos dezoito meses em que tinha alcançado o posto de comandante de batalhão. Como chegasse o tenente-coronel, em pijama, Gomez endireitou-se e fez a continência. 281 O tenente-coronel Miranda, um-homem de baixa estatura, já grisalho, que gastara a vida no exército, que perdera o amor da esposa em Madrid enquanto estragava o estômago em Marrocos e que se fizera republicano ao ver que não se podia divorciar (em restaurar o estômago não pensara), tinha entrado na guerra civil como tenente-coronel e só tinha uma ambição, chtgar ao fim da luta com o mesmo posto. Tinha defendido muito bem a Sierra e desejava que o deixassem tranquilo para continuar a defendê-la. A guerra beneficiava-lhe a saúde, talvez pelas restrições


alimentares que existiam; tinha uma grande reserva de bicarbonato de sódio, bebia o seu whisky todas as tardes; a sua amante de vinte e três anos ia ter um filho, como quase todas as raparigas alistadas como milicianas em Julho do ano anterior. O tenente-coronel Miranda correspondeu à continência de Gomez e estendeu-lhe a mão. -Que te traz aqui, Gornez ? -perguntou; e para o oficial sentado na secretária, que era o comandante do seu Estado-Maior:-Um cigarro Pepe, por favor. Gornez exibiu os papéis de Andrés e o sobrescrito. O tenente-coronel examinou ràpidamente o salvo-conduto, olhou para Andrés, fez-lhe um sinal com a cabeça, sorrindo, depois examinou àvidamente o sobrescrito. Premiu o selo, apalpou-o com o indicador, depois devolveu o salvo-conduto e o sobrescrito a Andrés. -A vida é dura lá pelas montanhas? -perguntou. -Não, meu tenente-coronel -respondeu Andrés. -Disseram-te o ponto mais próximo onde podes encontrar o quartel-general do general Golz? -Navacerrada, meu tenente-coronel. O IngIés disse que devia ser em qualquer parte perto de Navacerrada, atrás das linhas, à direita daqui. -Que IngIés ? - perguntou suavemente o tenente-coronel. -O Inglês dinamítista que está connosco. O tenente-coronel meneou a cabeça. Tratava-se de um dos fenômenos inesperados, inexplicáveis desta guerra. «O Inglís dinamítista, que está connosco». -O melhor, Gornez, é levá-lo tu mesmo na moto. Redige um enérgico salvo-conduto para o Estado Mayor do general Golz para eu assinar-disse ao oficial com pala de celulóide verde. -Escreve-o à máquina, Pepe. Aqui tens a sinalização. -E pediu a Andrés o salvo-conduto. -E põe dois selos.-Virou-se para Gomez: -Também precisas de um documento em regra, esta 38.noite. É normal. É'preciso ser prudente quando se prepara uma ofensiva. Vou-te dar uma coisa tão imperativa quanto possível. -Depois a Andrés, cordialmente: -Queres alguma coisa? Comer? Beber? -Não, meu tenente-coronel. Não tenho fome. Deram-me aguardente no último posto e se bebo mais faz-me mal ao coração. -Observaste movimentos, actividade, em frente do meu «front» quando atravessaste? - perguntou delicadamente o tenente-coronel a Andrés. -Estava tudo como de costume, meu tenente-coronel. Tudo calmo. -Não te encontrei em Cercidilla há uns três meses? -perguntou o tenente-coronel. -Sim, meu tenente-coronel. -Era o que eu pensava - disse IvEranda batendo-lhe no ombro. - Tu estavas com o velho Anselmo. Como vai ele ? -Vai bem, meu tenente-coronel. -óptimo. Isso dá-me grande satisfação. O oficial mostrou-lhe o salvo-conduto que tinha dactilografado e Miranda assinou-o. -Bem, Gomez, é preciso despacharem-se. Cuidado com a moto. Usa os faróis. Não há perigo nenhum com uma moto sózinha e é preciso ter prudência. Os meus cumprimentos ao camarada general Golz. Estive com ele depois de Peguerinos. Ao apertar a mão de Andrés disse ainda: -Guarda bem os papéis no bolso da camisa e abotoa-te. Há muito vento nas corridas de


motocicleta. Depois de partirem foi a um armário e tirou um copo e uma garrafa, deitou o whisky e acabou de encher o copo com a água que deitou de uma bilha encostada à parede. Depois, com o copo na mão, bebendo em pequenos sorvos, aproximou-se do mapa grande pendurado na parede e estudou as possibilidades de ofensiva na região ao norte de Navacerrada. -Estou contente por ser Golz e não eu-disse por fim para o oficial sentado na secretária. O oficial não respondeu e 1~Jiranda voltou-se para o ver adormecido, com a cabeça apoiada nos braços. O tenente-coronel aproximou-se da secretária e pôs um telefone de cada lado da cabeça do oficial. Voltou ao armário, serviu-se de mais whisky e continuou a examinar o mapa. 383 Agarrado ao assento dianteiro ocupado por Gomez, Andrés baixava a cabeça contra o vento, enquanto a moto estrondeava pela estrada. A faixa de luz traçada pelos faróis abria-se, radiosa, na sua frente entre as grandes massas de salgueiros e tornou-se difusa e de um amarelado suave quando a estrada mergulhou no nevoeiro, ao longo de um ribeiro, e acendeu-se de novo quando a estrada começou a subir, e à sua frente, o farol iluminou a forma cinzenta dos camiões vazios que desciam da montanha. 384 CAPITULO XI, PABLO parou e apeou-se no escuro. Robert jordan onviu o ranger das selas e o pesado resfolegar dos que desnkontavam e o tinir dos freios de um cavalo que sacudia a cabeça. Sentia o cheiro dos cavalos, o cheiro dos homens, cheiro de pessoas mal lavadas, habituadas a dormir vestidas, e o odor dos seus companheiros de caverna tresandando a fumo e a ranço. Pablo estava a seu lado. Cheirava a vinho azedo, dando-lhe a impressão de ter na boca uma moeda de cobre. Acendeu um cigarro, escondendo entre as mãos a chama em concha e ouviu Pablo dizer amistosamente à mulher: -Toma conta do saco das granadas, Pilar, enquanto peamos estes animais. -Agustin-disse jordan num sussurro-tu e o Anselmo vão comigo para a ponte. Tens o saco das muniçoes e a máquina -Sim, e como não? Robert Jordan dirigiu-se para o sítio onde Pilar, auxiliada por Primitivo, descarregava um dos cavalos. -Ouve, mulher-disse ele brandamente. -Que há?-perguntou ela numa voz rouca e afrouxando uma correia sob a barriga do cavalo. -Compreendeste bem que não haverá nenhum ataque ao posto enquanto não ouvirmos cair as bombas? -Quantas vezes precisas dizer a mesma coisa? Estás mais rezingão que uma mulher velha, Inglês. -Para que tudo saia certo -respondeu jordan. -E depois da destruição do posto, volta para a ponte a fim de cobrir a estrada pelo lado de cima e também o meu flanco esquerdo. -A primeira vez que explicaste isso compreendi-o muito bem, senão nunca chegaria a compreendê-lo -sussurrou Pilar. -Trata do que tens a fazer. 25-S. D.

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' -Que ninguém f- . um movimento, nem dispare nem atire uma bomba antes de começar o bombardeamento-recomendou Robert Jordan em voz baixa. -Não me aborreças mais - murmurou Pilar irritada. -Compreendi isso desde que falamos com El Sordo. Joidan encaminhou--se para o sítio onde Pablo estava a amarrar os cavalos. -Só peei os que podiam espantar-se -disse Pablo.-Estes estão amarrados de modo que basta um puxão na corda para os soltar, estás a ver? -Bem. -E agora vou ensinar à rapariga e ao cigano a maneira de lidar com eles.-Os novos homens formavam um grupo à parte, encostados às suas espingardas. -Compreendeste tudo? -perguntou Jordan. a Pablo. -Como não~' Destruir o posto. Cortar os fios. Voltar para a ponte. Proteger a ponte até ao momento da explosão. -E não fazer nada antes de começar o bombardeamento. -E isso. -Então, muita sorte para todos! Pablo grunhiu. Depois: -E vais proteger-nos com a máquina grande e com a máquina pequena, quando voltarmos para a ponte, hem, Inglês ? -De la primera-volveu Jordan. -Então está bem. Nada mais. Mas nessa ocasião deves ter muito cuidado, IngIés. Não será coisa simples de fazer e exigirá muita cautela. -Eu mesmo tomarei conta da máquina- prometeu Jordan. -Tens experiência bastante? Por mim não estou disposto a levar tiros de Agustin, por mais que ele traga a barriga cheia de boas intenções. -Tenho muita experiência. Realmente. E se Agustin. tiver de manejar uma das máquinas, tomarei cuidado em que ponha a mira alta, muito acima de ti. -Então está certo-disse Pablo. Depois em voz baixa e confidencial: -Apesar de tudo ainda não temos cavalos que cheguem. «Este filho de uma cadela!, -pensou consigo RobertJordan. -Ou julgará que não o percebi desde o princípio?» -Eu vou a pé. Os cavalos são lá contigo. -Não, Inglés, também haverá um cavalo para ti-disse Pablo baixinho. -Haverá cavalos para todos nós. 386 -Esse problema é teu-declarou Jordan.-Eu não entro na conta. Tens munições que cheguem para a tua nova rnáquina ? -Tenho - respondeu Pablo. - Todas as que tinha o cavaleiro. Só dei quatro tiros para experimentar, ontem, no alto da montanha. -Agora vamos-disse Jordan. -Precisamos chegar cedo e despercebidos. -Pois vamos-respondeu Pablo.-Suerte, Inglês. «Que estará este bastardo a planear? -pensou Jordan. -Desconfio muito que sei. Bem, isso é com ele, não comigo. Dou graças a Deus por não conhecer os homens que ele arranjou.» Estendendo a mão disse:


-Suerte, Pablo - e as duas mãos apertaram-se nas trevas. Quando Robert Jordan estendeu a sua, ia certo de ir apertar alguma coisa que se parecesse a um réptil ou a um leproso. Não poderia imaginar o que seria um aperto de mão de Pablo. Mas na obscuridade a mão de Pablo apertou a sua franca e lealmente e Jordan retribuiu a pressão. A mão de Pablo no escuro era firme e deu-lhe a mais estranha sensação daquela manhã. «Devemos estar aliados agora,-pensou ele.-Há sempre muita troca de apertos de mão entre aliados, actualmente, sem falar nas condecorações e nos beijos em ambas as faces. Ainda bem que não há beijos por aqui. Parece-me que todos os. aliados são desta espécie. Au fond detestam-se cordialmente. Mas este Pablo, é um homem esquisito.» -Suerte, Pablo - disse Jordan apertando aquela mão estranha, firme, resoluta e áspera.-Hei de cobrir bem a tua retirada. Não te preocupes. -Estou arrependido de ter tirado o teu material-confessou Pablo.-Foi um erro. -Mas trouxeste o que precisávamos. -já não sou contra o negócio da ponte, IngIés. Prevejo resultado favorável no fim. -Que estão os dois aí a fazer? Estais a ficar maricones? -gritou Pilar surgindo de repente no escuro.-Só te faltava isto-disse para Pablo.-Vai-te embora, IngIés, e acaba com estas despedidas antes que este sujeito te roube o resto do explosivo. -Tu não compreendes, mulher-disse Pablo.-O Inglês e eu compreendemo-nos. -Ninguém te enteime. Nem Deus, nem a iiia mãe -volveu Pilar.-Nem eti tào-pouco. Vai-te embora, hw16. Despede-te da cabeça rapada e parte. Ale cago eii lu padre, mas começo a pensar que estás com medo de ver o touro sall'. -Tua mãe-rosnou Robert Jordan. -Foi uma coisa que tu nunca tiveste -retorquiu Pilar jovialmente. -Agora vai. Estou com uma vontade louca de ver isto começado e acabado de uma vez. Vai com o teu pessoal-disse ela a Pablo.-Quem sabe lá o tempo que durará a firmeza deles? Tu tens ali uns dois que eu não queria por coisa nenhuma. Anda com eles de uma vez. Robert Jordan pôs a trouxa às costas e dirigiu-se para perto dos cavalos, onde estava Maria. -Adeus, guapa. Voltarei depressa. Experimentava agora um sentimento de irrealidade; parecia-lhe ter dito tudo isto muito antes, e parecia-lhe estar na partida de um comboio, enquanto ficava na estação. -Adeus, Roberto-volveu ela.-Toma muito cuidado. -Certamente. - Inclinou a cabeça para a beijar, e o saco escorregou-lhe para a frente e bateu-lhe na nuca, fazendo com que as duas cabeças chocassem com força. Coisa que sabia já ter também acontecido. -Não chores-disse ele, desajeitado e não só por causa da trouxa. -Não chorarei. Mas volta depressa. -Não te assustes quando ouvires os tiros. Vai haver muito tiroteio. -Mas não te demores. -Adeus, guapa-disse ele apressadamente. -Salud, Roberto. Robert Jordan nunca se tinha sentido assim tão jovem, desde que tomara o comboio em Red Lodge para Billings, onde faria transbordo para o que o levaria à escola pela primeira vez. Tinha medo de ir e não queria que ninguém o percebesse; e na gare da estação, no momento em que o carregador lhe pegava na mala, tinha subido para o estribo e o pai beijou-o dizendo: «-Possa o Senhor velar por ti e por mim enquanto estivermos longe um do outro». O seu pai era um homem


muito religioso e falara com sincera singeleza, Mas tinha o bigode humedecido pelas lágrimas e os olhos cheios de emoção e tudo isso perturbara Robert Jordan: pelo tom comovido e religioso da prece, pelo beijo paterno e sentira-se mais velho que o pai e tão desolado por vê-lo suportar tudo aquilo, que o momento foi quase intolerável. Depois da partida do comboio, deixou-se ficar na plataforma de trás, olhando para a estação e para o reservatório da água que iam ficando cada vez mais pequenos, os carris, riscados pelas travessas, pareciam convergir para a gare e para o reservatório que se reduziam a um ponto minúsculo, no barulho monótono que o arrastava. O revisor disse-lhe: «-O papá parece que sentiu muito a tua partida, Bob». «-Sim-respondera olhando os bosques de salvas que deslizavam na corrente poeirenta da linha, entre os postes telegráficos. «-Não te faz impressão ires para a escola?» «-Não-fora a sua resposta. E era verdade». Não tinha sido verdade um momento mais cedo, mas cra-o agora, e reencontrava-se tão jovem, nesta separação, como antes da partida do comboio para a escola. Sentia-se súbitamente tão jovem e tão desajeitado e dizia adeus com o embaraço do menino de escola que se despede da linda namorada e não sabe se deve ou não beijá-la. Compreendeu depois que não eram as despedidas que o embaraçavam. Era o reencontro que precediam. As despedidas apenas aumentavam a perturbação que lhe causavam estes encontros. «Cá está, -repetiu-se ele. - Mas suponho que não haverá ninguém que num momento destes não sinta o que tu sentes. Não se dizia porquê. Vamos, -repetiu-se. -Vamos, é ainda muito cedo para a segunda infância.» -Adeus, guapa. Adeus, coelhinha. Adeus, meu Roberto-disse ela, e ele dirigiu-se para onde Agustin e Anselmo o aguardavam.Vamonos. Anselmo ergueu o pesado saco da bagagem. Agustin, que se tinha equipado completamente na gruta, estava encostado a uma árvore e o cano da sua metralhadora aparecia acima da sua carga. -Bem-disse ele.-Vamonos. Os três encetaram a descida da colina. - Buena suerte, Don Roberto - saudou Fernando, agachado quando os três passaram por ele, a um de fundo, por entre as árvores. Apesar da sua postura, falou com muita dignidade. - Buena suerte para ti, Fernando -retribuiu Jordan. - Em tudo o que faças-ajuntou Agustin. -Muito obrigado, Don Roberto - disse Fernando, sem dar atenção às palavras deste último. -Esse sujeito é um fenómeno, Inglés-murmurou Agustin. 389 -Acredito - concordou Jordan. - Posso ajudar-te? Tu estás carregado como uni burro de carga. Estou muito bem-volveu Agustin.-E bastante contente por termos começado. -Fala baixo - sussurrou Anselmo. - Daqui por diante pouco e baixo. Desciam atentos a encosta, Anselmo à frente, depois Agustin; Robert Jordan. plantava os pés com cuidado, para não escorregar, sentindo as agulhas secas dos pinheiros sob a sola de corda das alparcatas; deu uma topada contra uma raiz e ao estender as mãos para a frente, sentiu o metal frio do cano da metralhadora e os pés dobrados do suporte, depois pôs-se a descer de lado, as alparcatas escorregando e raspando o solo da floresta, levando a mão esquerda à casca rugosa


do tronco; quando se endireitava levou a mão a um pedaço liso e recolheu-a peganhenta de resina. Acabaram de descer a encosta abrupta e coberta de mato que levava ao posto, acima da ponte, onde Robert Jordan e Anselmo tinham estado a observar, no primeiro dia. Anselmo deteve-se junto a um pinheiro, na obscuridade; agarrando o pulso de Robert Jordan murmurou tão baixo que ele mal ouviu: -Repara. Lá está o lume no fogareiro. Era um ponto de luz abaixo do qual Jordan sabia que a ponte se juntava à estrada. -Foi aqui que nós ficámos-disse Anselmo. Puxou a mão de Robert Jordan para o obrigar a apalpar um pequenino corte ainda fresco num tronco.-Fiz esta marca enquanto tu observavas a ponte. À direita é que tu me disseste que devíamos colocar a máquina. -Pois vamos pô-la aí. -Bem. Arriaram a carga junto da base de um tronco e seguiram até um grupo de pinheiros. -E aqui-disse Anselmo. -Exactamente aqui. -Daqui, à luz do dia - explicou Jordan a Agustin, estendido atrás dos arbustos, -poderás ver um pequeno trecho da estrada e a entrada da ponte. Podes ver a ponte toda e um pequeno trecho da estrada do outro lado, antes da curva em volta do rochedo. Agustin, ouvia com atenção. -Ficas aqui de guarda enquanto colocamos o explosivo, e faz fogo sobre quem aparecer, quer em cima, quer em baixo. -Onde é aquela luz?-perguntou Agustin. 390 -Na guarita da sentinela do lado de cá -explicou Jord an. -Quem trata das sentineras? -O velho e eu como já determinei. Mas se não agirmos, tu deves atirar sobre as guaritas e sobre os homens, se os vires. -Sim, já sei disso. -Depois da explosão, quando o pessoal de Pablo aparecer naquela curva, tem de atirar acima da cabeça deles, caso surjam perseguidores. É preciso atirar bem acima da cabeça deles e impedir seja quem for de os alcançar. Compreendes? -Porque não? Foi o que disseste ontem à noite. -Mais alguma coisa a perguntar? -Não. Tenho dois sacos. Posso enchê-los de terra lá em cima e trazê-los sem que ninguém se dê conta. - Mas não caves aqui. Deves ficar tão bem escondido como estávamos lá em cima. -Vou trazê-los aproveitando a escuridão. E vão ficar de tal modo que ninguém os verá. -Tu estás muito perto, sabes? De dia este grupo de árvores vê-se muito bem lá de baixo. -Não te impressiones, Inglés. E tu para onde vais? -Vou lá para baixo com a minha máquina pequena. O velho atravessará a garganta para tomar conta da guarita do lado de lá. Fica em frente, nesta direcção. -Então está bem-volveu Agustin.-Saffid, IngIés. Tens por aí cigarros? -Tu não podes fumar aqui. É perto de mais. -É só para os ter na boca. Fumarei depois. Robert Jordan apresentou-lhe a cigarreira; Agustin tirou três cigarros que meteu no forro do seu


gorro de guardador de rebanhos. Abriu as pernas da tripeça e colocou a metralhadora em posição, dissimulando-a entre os pinheirinhos. Começou depois a desfazer os pacotes às apalpadelas e a colocar as munições no lugar onde as queria. -Nada mds-disse ele. Anselmo e Robert Jordan voltaram para o ponto onde tinham largado os sacos de dinamite. -Onde será preferível deixar isto?-sussurrou. o rapaz. -Acho que aqui. Mas estás certo de poderes dar cabo da sentinela daqui com a tua máquina pequena? -Não é este exactamente o ponto onde estivemos outro dia? -A mesma árvore - disse Anselmo tão baixinho que Jordan mal o ouviu. Falava sem mover os lábios ' como no primeiro dia.-Marquei-a com a minha navalha. 391 Jordan teve de novo a sensação de que tudo aquilo já acontecera antes, mas desta vez a causa estava na repetição de uma pergunta e da resposta do velho. O mesmo com Agustin, que tinha feito uma pergunta acerca das sentinelas, embora já conhecesse a resposta. -E muito perto. Mesmo até de mais. Mas temos a luz pelas costas. Ficamos muito bem aqui. -Então vou atravessar a garganta e tomar posição no outro lado. Depois... desculpa-me, Inglés. Para não haver enganos. Eu sou muito estúpido. - Quê? -Quero que repitas tudo, para que tudo seja exactamente cumprido. -Quando eu fizer fogo, tu fazes fogo também. Eliminado o teu homem, atravessa a ponte na minha direcção. Eu terei as cargas comigo e tu vais fazendo como eu disser. Tudo como eu disser. Se me acontecer alguma coisa, farás como te mostrei. Devagar e bem, apertando tudo, apertando firmemente com as cunhas de madeira e amarrando sólidamente as granadas. -Tudo isto é muito claro para mim-disse Anselmo. -Não esqueci nada. Agora vou-me. Trata de te esconderes bem quando raiar o dia, Inglés. -Quando atirares - insistiu Robert Jordan - fá-lo descontraído e com firmeza. Não penses num homem, mas num alvo, de acuerdo? Não atires no homem todo '. mas só num ponto. Se ele estiver de frente, atira bem à barriga. Se estiver de costas, atira ao meio das costas. Ouve, meu velho. Se quando eu atirar, o teu homem estiver sentado, há-de levantar-se para correr ou atirar-se ao chão. Se ele continuar sentado, atira. Não esperes. Mas atira com firmeza. Atira a uns cinquenta metros. Tu és um caçador. Para um caçador da tua marca é fácil. -Farei como tu ordenas-disse Anselmo. -Sim, são essas as minhas ordens - assentiu Robert Jordan. «Estou satisfeito por ter reduzido tudo a ordens, pensou ele. Isso vai ajudar o velho. Diminui-lhe um pouco os remorsos. Espero-o pelo menos. Eu já me tinha esquecido do que ele me tinha dito no primeiro dia a propósito de matar.» -São as minhas ordens -repetiu. -Agora vai-te. -Me voy-disse Anselmo.-Até breve, Inglés. Robert Jordan lembrou-se do pai na estação do caminho de ferro e da emoção daquele adeus. E não quis dizer Salud, nem adeus, nem boa sorte, nem nada assim. 392 -Limpaste o óleo do cano da meiralhadora ' meu velho, -sussurrou-para que a bala não sofra


desvios? bem. -Na caverna-disse Anselmo.-Limpei-as todas muito - Então até breve-disse jordan. E o velho partiu, sem fazer rumor, esgueirando-se por entre as árvores. Robert jordan deitado sobre a caruma que atapetava o solo, ficou atento ao primeiro agitar das brisas que precedem a madrugada. Tirou o carregador da metralhadora e experimentou a culatra para trás e para diante. Virou depois a arma, a culatra aberta e, na sombra, pôs o cano nos lábios e soprou para dentro e sentiu o sabor gordo e oleoso do metal, enquanto a língua se apoiava no aço. Pousou a arma atravessada no braço, a culatra aberta, de maneira que não entrasse nenhuma agulha nem qualquer detrito; depois tirou as balas do carregador usando o polegar e pô-las num lenço que tinha aberto na sua frente. Então, tacteando as balas na obscuridade, fazendo-as girar entre os dedos, repô-las uma a uma no carregador. Agora sentia de novo o carregador pesado; meteu-o na arma e sentiu o ligeiro estalo que lhe indicava estar no seu lugar. Deítou-se de bruços, com a metralhadora apoiada no antebraço esquerdo. Olhos fitos no ponto luminoso lá em baixo. De vez em quando perdia-o de vista e sabia então que a sentinela da guarita estava diante do fogareiro aceso. E Robert jordan imobilizou-se aguardando o amanhecer. 393 CAPITULO XLI ENQUANTO Pablo ia a cavalo da montanha à caverna e o, bando se reunia no ponto em que tinha deixado os animais, Andrés e Gomez progrediam na direcção do quartel-general de Golz. Quando chegaram à estrada real que conduz a Navacerrada e pela qual desciam da montanha os camiões, encontraram um posto de controle. Gomez mostrou o salvo-conduto do tenente-coronel Miranda; a sentinela observou o papel à luz da lanterna e mostrou-o ao companheiro. -Siga-ordenou depois.-Mas de luzes apagadas. A motocicleta roncou de novo. Andrés segurava-se no assento dianteiro com quanta força tinha e Gornez dirigia cautelosamente. Nenhum dos camiões trazia luz, e desciam formando um longo comboio. Outros, carregados, subiam, e cada um levantava uma poeira que Andrés não podia ver na escuridão, mas sentia no rosto e na boca. Estavam agora atrás de um can-úão; a moto afrouxou; depois Gomez acelerou e passou um camião, outro, e outro, e outro, enquanto a fila da esquerda roncava ao cruzá-los. Havia um carro atrás deles e buzinava entre o barulho dos camiões e a poeira; depois acendeu os faróis que iluminavam poeira levantada como uma nuvem amarela e sólida; por fim viatura ultrapassou-os a toda a velocidade, num mugido do motor e gritos insistentes, ameaçadores, triunfantes da buzina. Depois, todos os camiões pararam à sua frente, enquanto continuavam o seu caminho, ultrapassando as ambulâncias, carros do Estado-Maior, um carro blindado, outro e um terceiro, todos parados como imensas e pesadas tartarugas de metal, eriçadas de canhões, na poeira que nunca desaparecia; chegaram a outro controle, onde se tinha dado um desastre. O condutor de um camião não tinha visto parar o veículo 394


que seguia na sua frente e deu-se o choque, espalhando-se na estrada caixas de munições para armas ligeiras. Uma das caixas tinha rebentado na queda e quando Gomez e Andrés pararam levaram a moto à mão, entre veículos imobilizados, para mostrar os salvo-condutos. Andrés patinou sobre milhares de cartuchos espalhados na poeira como sobre um tapete de balas. segundo camião tinha o radiador completamente esmagado. que vinha logo a seguir estava encostado à sua traseira. já tinha parado uma centena de carros, e um oficial com botas altas corria subindo ao longo da fila e gritava aos condutores que recuassem, de modo a permitir a remoção do veículo escangalhado que interrompia o trânsito, Eram muitos os carros que impediam a manobra, e a menos que o oficial alcançasse o último do comboio que subia e o fizesse parar, a coisa não teria arranjo. Andrés via-o correr e tropeçar, com a lanterna eléctrica na mão, a gritar e a praguejar no escuro, enquanto os veículos continuavam a subir. O homem do controle não queria devolver o salvo-conduto. Eram dois, com espingarda a tiracolo e gritavam também. O que tinha na mão o documento atravessou a estrada para ordenar a um carro que descia que avisasse no outro posto para não deixarem passar nenhum carro antes de desfeito aquele engarrafamento do trânsito. O motorista ouviu e continuou o seu caminho. Depois, sempre com o salvo-conduto na mão, o homem do controle voltou, gritando ordens ao motorista do veículo sinistrado, cuja carga se espalhara pelo chão. -Deixa isso e sai do carninho, pelo amor de Deus, a fim de podermos abrir passagem-urrava ele. -A minha transmissão está esmigalhada - respondeu o motorista inclinado para a retaguarda do camião. -Me cago na tua transmissão! Segue, é o que te digo. -Não se pode avançar com a transmissão esmigalhada -respondeu o motorista sempre inclinado. -Arruma-te de qualquer maneira. É preciso tirar essa porcaria do caminho! O motorista estava zangado, enquanto o homem do controle projectava a luz da lanterna eléctrica sobre a traseira esmagada do camião. -Segue, segue-gritou o homem, sempre com os documentos na mão. -E os meus papéis? -reclamou Gomez.-O meu salvo-conduto? Estamos com muita pressa. 395 que seguia na sua frente e deu-se o choque, espalhando-se na estrada caixas de munições para armas ligeiras. Uma das caixas tinha rebentado na queda e quando Gomez e Andrés pararam levaram a moto à mão, entre veículos imobilizados, para mostrar os salvo-condutos. Andrés patinou sobre milhares de cartuchos espalhados na poeira como sobre um tapete de balas. segundo camião tinha o radiador completamente esmagado. que vinha logo a seguir estava encostado à sua traseira. já tinha parado uma centena de carros, e um oficial com botas altas corria subindo ao longo da fila e gritava aos condutores que recuassem, de modo a permitir a remoção do veículo escangalhado que interrompia o trânsito. Eram muitos os carros que impediam a manobra, e a menos que o oficial alcançasse o último do comboio que subia e o fizesse parar, a coisa não teria arranjo. Andrés vía-o correr e tropeçar, com a lanterna eléctrica na mão, a gritar e a praguejar no escuro, enquanto os veículos continuavam a subir. O homem do controle não queria devolver o salvo-conduto. Eram dois, com espingarda a tiracolo e gritavam também. O que tinha na mão o documento atravessou a estrada para ordenar a um carro que descia que avisasse no outro posto para não deixarem passar nenhum carro antes de


desfeito aquele engarrafamento do trânsito. O motorista ouviu e continuou o seu caminho. Depois, sempre com o salvo-conduto na mão, o homem do controle voltou, gritando ordens ao motorista do veículo sinistrado, cuja carga se espalhara pelo chão. -Deixa isso e sai do caminho, pelo amor de Deus, a fim de podermos abrir passagem-urrava ele. -A minha transmissão está esmigalhada - respondeu o motorista inclinado para a retaguarda do camião. -Me cago na tua transmissão! Segue, é o que te digo. -Não se pode avançar com a transmissão esmigalhada -respondeu o motorista sempre inclinado. -Arruma-te de qualquer maneira. É preciso tirar essa porcaria do caminho! O motorista estava zangado, enquanto o homem do controle projectava a l~z da lanterna eléctrica sobre a traseira esmagada do camião. -Segue, segue-gritou o homem, sempre com os documentos na mão. -E os meus papéis? -reclamou Gomez.-O meu salvo-conduto? Estamos com muita pressa. 395 -Leva o teu salvo-conduto para o inferno -respondeu o homem, entregando-o e correndo a deter um carro que descia. -Pára, vira e põe-te em posição de puxar esse trambolho escangalhado que está a impedir o caminho. -As ordens que tenho são de... -Me cago nessas ordens. Faz o que te digo. O condutor carregou no acelerador e desapareceu numa nuvem de poeira. Quando Gomez repôs a moto em movimento tomando o lado direito na estrada agora livre, passando diante do camião sinistrado, Andrés, agarrado de novo ao seu assento, viu o homem do controle fazer parar um outro camião e o condutor debruçar-se para o ouvir. Avançavam agora velozmente, vencendo a estrada que subia regularmente para a montanha. Todo o trânsito para a frente estava impedido no controle e só tinham à esquerda os camiões que desciam e desfilavam, desfilavam, desfilavam, à sua esquerda, enquanto a motocicleta subia veloz e regularmente até alcançar a fila ascendente que tinha passado no controle antes do acidente. Sempre com as luzes apagadas, deixaram para trás quatro carros blindados e uma longa fila de camiões repletos de tropas. Os soldados iam silenciosos nas trevas. A seguir outro carro do Estado-Maior chegou atrás deles, buzinando fortemente e com os faróis a acender e a apagar intermitentemente, e Andrés pôde ver com esta luz os soldados com capacetes de aço, as espingardas a prumo, recortando-se nitidamente na noite onde mergulhavam de novo quando os faróis se apagavam. Num momento em que passava mais perto de um camião de soldados, Andrés viu-lhes os rostos, tristes e parados àquela luz inesperada. Sob os capacetes de aço, rolando em camiões, na escuridão, para qualquer coisa que apenas sabiam ser um ataque, os seus rostos deixavam transparecer as suas preocupações pessoais, e a luz revelava-os como nunca poderiam aparecer de dia, porque teriam vergonha de se mostrar assim uns aos outros, até que o bombardeamento e o ataque começassem e ninguém pensasse mais no seu rosto. Andrés passava por eles, camião depois de camião; Gornez sempre à frente da viatura do Estado-Maior, não fazia reflexões acerca dos rostos. Pensava apenas: «Que exército. Que equipamento. Que mecanização. Vaya gente! Vejam-me estas tropas. Aqui está o exército da República. Vejam-me isto. Camião depois de camião. Todos com o mesmo uniforme.


396 Todos com capacetes de aço na cabeça. Olhem-me para estas máquinas preparadas para receber os avi&s. Vejam o exército que organizámos!» A motocicleta passava diante dos altos carniões cinzentos cheios de soldados, camiões cinzentos de caixas quadradas, com motores quadrados nada elegantes, subindo regularmente a estrada na poeira e na luz intermitente da viatura do Estado-Maior que os seguia; a estrela vermelha do exército revelava-se quando a viatura acendia os faróis, e a luz atingia os lados empoeirados dos camiões que rolavam, subindo regularmente, na atmosfera que tinha esfriado, na estrada que começava a desenhar curvas e ziguezagues, os camiões resfolegavam e rangiam, e alguns deitavam uma fumarada que os faróis iluminavam, a moto rangia também; Andrés agarrava-se ao assento dianteiro e ia pensando que andar de motocicleta era mucho, mucho. Nunca andara naquilo em toda a sua vida e agora, galgando a montanha, no meio de todo este movimento para o ataque, subindo, reconhecia que nunca poderia estar de regresso a tempo de tomar parte no ataque aos postos. Naquele movimento e confusão ainda teria sorte se conseguisse estar de regresso na noite seguinte. Nunca vira uma ofensiva, nem preparativos de ofensiva antes disso, e enquanto subia a estrada, maravilhava-se do tamanho e da força do exército que a República organizara. Rodavam agora numa extensa estrada que se elevava ràpidamente no flanco da montanha e aproximando-se do cume, a encosta tornou-se tão íngreme que Gomez lhe disse para descer e ambos empurraram a motocicleta até ao fim. No cume, à esquerda, a estrada formava um círculo onde os carros podiam virar, e havia luzes de sinalização diante de um grande edifício de pedra que se erguia, grande e negro, no céu nocturno. -Vamos perguntar onde é o Quartel-General - disse Gomez a Andrés. Empurraram a moto para as duas sentinelas postadas diante da porta do grande edifício. Gomez encostava a moto contra a parede quando um motociclista com indumentária de couro se perfilou no enquadramento da porta que se abria sobre o interior luminoso do edifício. Saiu, uma bolsa de couro pendurada no ombro e uma pistola Mauser à ilharga. Logo depois de fechada a porta sobre a luz, procurou a sua motocicleta no escuro, ao lado da entrada, montou nela, empurrou-a até pegar e depois partiu fragorosamente pela estrada acima. Gomez anunciou-se a uma das sentinelas: 397 -Sou o capitão Gomez da 65.a Brigada. Podes dizer-me onde está o Quartel-General do general Golz, comandante da 35.a Divisão? -Aqui não é. -O que é aqui então? -A Comandancia. -Que comandancia ? -Ora essa, a Comandancia. -A comandancia de quê? -Quem és tu para me fazeres tantas perguntas? -disse a sentinela no escuro. Ali, na grimpa do desfiladeiro, o céu estava muito estrelado e límpido e Andrés conseguia ver no escuro. Distingia nitidamente em baixo, recortando-se na linha do horizonte, os camiões e mais autos que passavam.


-Sou o capitão Rogélio Gomez do primeiro batalhão da 65.a Brigada e quero saber onde é o Quartel-General do general Golz. A sentinela entreabriu a porta e gritou para dentro: -Chamem o cabo da guarda. Nesse momento um carro do Estado-Maior surgiu e deu volta no círculo, parando à frente do grande edifício de pedra onde Andrés e Gomez aguardavam o cabo da guarda. Um velho alto e pesadão, com enorme boina de caqui na cabeça, como as usadas pelos chasseurs à pied do exército francês, desceu do assento de trás, seguido de mais dois homens com o uniforme das Brigadas Internacionais; vestia capote militar sobre o qual se desenhava uma pistola, e trazia na mão um mapa enrolado. Falou em francês (que Andrés não entendia, mas de que Gomez, que tinha sido barbeiro, percebia algumas palavras), ordenando ao motorista que abrigasse o automóvel. Quando o velho entrou, acompanhado pelos dois oficiais, Gomez, viu-lhe a cara e reconheceu-o. já o encontrara em meetings políticos e lera no Mundo Obrero artigos daquele homem, traduzidos do francês. Reconheceu-lhe as sobrancelhas hirsutas, os olhos cinzentos aquosos, o duplo queixo, e sabia ser uma das maiores figuras entre os modernos revolucionários franceses, tendo organizado a revolta da marinha francesa no Mar Negro. Gomez sabia a alta situação política que o homem ocupava nas Brigadas Internacionais, e sabia que este homem saberia onde estava o Quartel-General de Golz e podia orientá-lo. Não sabia que este homem se tinha transformado, com o tempo, as desilusões, os desgostos políticos e domésticos e a ambição derrotada e que dirigir-se a ele era uma das coisas 398 mais perigosas que uni homem podia fazer. Desconhecendo tudo isso, Gomez deu um passo em frente, saudou-o corri o punho lechado e disse: -Camarada Marty, somos portadores de um despacho para o general Golz. Pode indicar-nos onde é o seu Estado-Maior? O caso é urgente. O velho, grande e pesado, fixou Gomez estendendo o pescoço e observou-o atentamente com os olhos lacrimejantes. Mesmo aqui, no «front», à luz crua de uma lâmpada eléctrica, e saído de um carro descoberto onde correra na noite fria, o seu rosto pálido era uma ruína. Era um rosto que parecia modelado com os restos que se encontram nas patas dos leões velhos. -Que traz você, camarada? - perguntou ele a Gomez em espanhol com forte sotaque catalão. Os seus olhos voltaram-se de esguelha para Andrés, deslizaram-lhe por cima e pousaram novamente em Gomez. -Um despacho para o general Golz, para ser entregue no seu Estado-Maior, camarada Marty. -E isso vem de onde, camarada? -Da retaguarda das linhas fascistas -respondeu Gomez. André Marty estendeu a mão para o despacho e demais documentos. Relanceou-os e meteu-os ao bolso. -Prenda os dois-disse para o cabo da guarda. Reviste-os e traga-os à minha presença quando eu ordenar. E com o despacho no bolso entrou no enorme edifício. Na sala da guarda revistaram Gomez e Andrés. -Que se passa com esse homem? - perguntou Gomez a um dos guardas. -Está loco-foi a resposta.


-Não. Ele é uma figura política de grande importância -disse Gomez.-É comissário das Brigadas Internacionais. -Apesar de eso, está loco -tornou o cabo da guarda. E vocês que andam a fazer atrás das linhas fascistas? -Este camarada é um guerrilheiro de lá-disse Gomez enquanto era revistado.-Traz um despacho para o general Golz. Guarda bem os meus documentos. Toma cuidado com a uele dinheiro e com aquela bala amarrada num barbante. ,q E do meu primeiro ferimento em Guadarrama. -Não te preocupes- tornou o cabo.-Vou meter tudo nesta gaveta. Porque não me perguntaste a mim onde estava o general Golz? -Eu quis perguntar. Perguntei à sentinela e ela chamou-te. 399 -Mas o doido apareceu e tu dirigiste-te a ele. Ninguém lhe pergunta coisa nenhuma. Ele é realmente louco. O teu Golz está a três quilómetros daqui, mais acima, na estrada, à direita, nos rochedos da floresta... -Tu não podes deixar-nos ir agora? -Não. Arrisco a cabeça. Preciso levar-te ao louco. E além disso ele tem o teu sobrescrito. -E não será possível falar com alguém? -Sim, volveu o cabo. Vou falar com a primeira pessoa de responsabilidade que aparecer. Toda a gente sabe- que ele é louco. -Eu sempre o considerei uma figura importante -disse Gomez.-Uma das glórias da França. -Ele pode ser glória e tudo o que quiserem- observou o cabo, pondo a mão no ombro de Andrés-, mas é ultralouco. A sua mania é fuzilar gente. -Fuzilar de verdade? -Como lo oyes-disse o cabo.-Mata mds que la peste bubonica. Mas não mata fascistas, como nós fazemos. Quê vai Nem brincar. Mata bichos raros. Trotzkystas. Divisionistas. Toda espécie de animais raros. Andrés não percebia nada daquilo. -Quando estávamos no Escurial, matámos nem sei quantos por conta dele-continuou o cabo.-Nós é que fornecíamos o pelotão de execução. Os homens da Brigada nunca atiram sobre os colegas. Principalmente os franceses. Para evitar dificuldades, somos sempre nós que fazemos o serviço. Fuzilamos franceses. Fuzilamos belgas e outros de outras nacionalidades. De todos os tipos. Tiene la mania defusilar gente. Sempre por motivos políticos. Ele é louco. Purifica más que el Salvarsán. -Mas tu podes falar a alguém deste despacho? -Sim, homem. Certamente. Eu conheço toda a gente das duas Brigadas. Conheço até mesmo os russos, apesar de poucos falarem espanhol. Vamos impedir este louco de fuzilar espanhóis. -Mas o despacho? -O despacho também. Não te preocupes, camarada. Nós sabemos como lidar com o louco. Ele só é perigoso para os seus compatriotas. Agora já o conhecemos. -Tragam cá os dois prisioneiros -ordenou a voz de André Marty. -Quereis echar un trago ?-perguntou o cabo. -Porque não?


40O O cabo tirou do armário uma garrafa de anis e Gomez e Andrés beberam. O cabo também. Limpou a boca com a mão. - Vamonos- disse. Saíram da sala da guarda com o calor do anis a queimar-lhes a garganta, o estômago e o coração, e caminhando pelo vestíbulo entraram no aposento onde Marty estava sentado junto de uma mesa comprida, diante de um mapa desenrolado, tendo na mão um lápis vermelho e azul com o qual brincava aos generais. Para Andrés aquilo era apenas mais uma novidade. já tinha ouvido muitas durante a noite. Havia-as sempre. Mas com o coração normal e papéis em ordem não se corre perigo. Acabam por pôr um honiem em liberdade e segue-se o caminho. Mas o Inglês tinha recomendado pressa. Andrés sabia entretanto que nunca poderia ter voltado a tempo para a ponte, mas tinha uma mensagem a entregar e este velho tinha-a metido ao bolso. -Entrem-disse Marty sem levantar os olhos. -Ouça, camarada Marty - explodiu Gomez a quem o anis estimulara a ira. -já uma vez esta noite fomos atrasados pela ignorância dos anarquistas; depois pela indolência de um burocrata fascista. Agora somo-lo pela exagerada desconfiança de um comunista. Cala essa boca-disse Marty sem olhar para ele.-Isto não é nenhum meeting. -Camarada Marty, trata-se de coisa da maior urgência -insistiu Gomez.-Da maior importância. O cabo e o soldado ali presentes estavam a tomar o mais vivo interesse, como se estivessem a assistir a uma peça já muito conhecida, mas cujas peripécias apreciavam sempre. -Tudo é urgente-disse Marty.-Todas as coisas têm importância. -Levantou os olhos, sempre de lápis na mão.Como sabias que Golz: estava aqui? Compreendes o perigo de perguntar por um general, desigtiando-o pelo seu nome, antes de um ataque? Como soubeste que tal general estaria aqui? -Fala tu-disse Gomez para Andrés. -Camarada general --começou Andrés (e André Marty não corrigiu o engano de patente). -Entregaram-me aqueles papéis do outro lado das linhas... -Do outro lado das linhas? - repetiu Sim, ouvi dizer que vinhas do campo fascista. -Quem me encarregou da missão, camalrac ., general, foi um IngUs chamado Roberto, que foi para lá c(,i~:,) dinamitista para o negócio da ponte. Está a compreendei ? 26-S. D. 401 -Continua a tua históría-disse Marty, empregando a palavra história como se dissesse mentira, falsidade, invenção. -Bem, camarada general, o dito _IngIés mandou-me entregar isso ao general Golz com a maior brevidade. Golz vai fazer um ataque nestas montanhas hoje de manhã e tudo o que nós pedimos é para entregar isso o mais depressa possível, se é da sua vontade, camarada general. Marty abanou a cabeça. Estava a olhar para Andrés, mas sem o ver. Golz, pensou ele num misto de horror e triunfo, sensação semelhante à que experimenta o homem que vem a saber que um inimigo comercial foi morto num tremendo desastre de automóvel, ou que alguém que ele sempre detestou, mas cuja probidade nunca foi posta em dúvida, acaba de ser acusado de fraude. Aquele Golz, deveria ser um deles também. Aquele Golz devia óbviamente estar em comunicação com os fascistas. Golz, que era seu conhecido havia


quase vinte anos, Golz, que na Sibéria, com Lucacz, tinha capturado o comboio com o carregamento de ouro naquele Inverno. Golz, que se tinha batido contra KoIchak e na Polónia. E combatera no Cáucaso, na China e aqui desde o primeiro de Outubro. Mas tinha sido íntimo de Tu.kachevsky. De Voroshilov também. Mas sobretudo de Tukachevsky. E de quem mais? Aqui de Karkov, naturalmente. E de Lucacz. Mas todos estes húngaros eram intriguistas. Ele odiava Gal1. Golz odiava Gall. Lembre-se disso. Tome bem nota disso. Golz sempre odiou Gall. Mas favorece Putz. Lembre-se também disso. E Duval é o comandante do seu Estado-Maior. Veja as ligações emergentes. Você já ouviu dizer que Copic é um imbecil. Isto é definitivo, Isto é um facto. E agora este despacho que vem das linhas fascistas. É cortando os galhos podres que se conserva a árvore sã e vigorosa. É preciso descobrir a podridão para a podermos destruir. Mas Golz! Golz devia ser um dos traidores. Ele bem sabia que não podia fiar-se em ninguém. Nunca. Nem na sua mulher. Nem no seu irmão. Nem no seu mais antigo camarada. Em ninguém. Nunca. -Leva-os-disse ao guarda-e guarda-os bem.-O cabo olhou para o soldado. Aquilo tinha-se passado muito calmamente desta vez. -Camarada Marty-insistiu Gomez.-Não seja louco. Ouça-me, sou oficial leal e camarada. Este despacho tem que ser entregue. O camarada aqui presente trouxe-o através das linhas fascistas para o entregar ao camarada general Golz. 40-2 -Tire-os daqui-disse Marty ao guarda, mansamente. Ele lamentava-os corno criaturas humanas, pois tornava-se necessário liquidá-los. Mas era a tragédia de Golz que o oprimia. Que seja Golz, pensava ele. Era preciso levar- imediatamente a comunicação fascista a Varloff. Não, o melhor era levá-la ao próprio Golz e observar as inevitáveis reacções. Como poderia ter a certeza, atraves de Varloff, de que GoU fosse um deles? Não. Aquilo era uma coisa que exigia muitas precauções. Andrés voltou-se para Gomez: -Parece-te que ele não vai mandar o despacho?-perguntou incrédulo. -Não estás a ver o jeito? -Me cago en su madre!-gritou Andrés.-Estd loco. -Sim-concordou Gornez-ele está louco.-Você está louco! Ouça! Louco!-gritou para Marty, que se tinha inclinado novamente sobre o mapa com o seu lápis azul e vermelho. -Ouviu, assassino? Louco! -Leva-os - repetiu Marty ao guarda. - Estão com o cérebro transtornado pela imensidão da culpa. O cabo reconheceu a frase. já a tinha ouvido antes. -Louco, assassino! -gritava Gomez. -Hijo de Ia gran perral-berrou Andrés.-Loco! A estupidez daquele homem alucinava-o. Se era um louco que o prendessem e lhe tirassem o despacho do bolso. Caramba, como era louco 1 A pesada cólera espanhola tinha-se apoderado da sua calma habitual e do seu bom humor. Mais algum tempo e ficaria cego por ela. Marty olhando para o mapa abanou tristemente a cabeça, enquanto os guardas levavam Gomez e Andrés. Os guardas divertiam-se com os insultos, mas a cena no conjunto tinha-os desiludido pois já as tinham visto muito mais movimentadas. Marty não dava importância a insultos. Tantos homens tinham acabado por injuriá-lo! Lamentava-os a todos como seres humanos. Dizia-o sempre e era unia das poucas ideias autênticas que lhe restavam. Marty sentava-se ali com a bigodeira e os olhos caídos sobre um mapa que ele realmente nunca


entendeu, perante o traço castanho dos finos contornos concêntricos como uma teia de aranha. Via a indicação das elevações e dos vales, sem perceber por que ali era vale e ali elevação. Mas no Estado-Maior onde, devido ao regime de Comissários Políticos, tinha o direito de intervir, punha o dedo em tal ou tal lugar numerado rodeado de um circulo castanho no meio das manchas 403 Aerdes das matas, cortadas pelas linhas das estradas que acompa4ihavam os rios e dizia: -E aqui. Aqui é que está o ponto fraco. Gall e Copic, homens políticos e ambiciosos, concordavam; em seguida inúmeras criaturas que nunca tinham visto aquele mapa, mas a quem tinham dito o número da colina antes de se porem em marcha, galgavam a colina para ficarem pelas encostas a não ser que fossem travados pelas metralhadoras escondidas nos olivais que nunca chegavam a atingir. Ou então, nalguns «fronts», conseguiam galgá-las e não ficavam em melhor posição do que antes. Mas quando Marty punha o dedo no mapa de Golz, o rosto pálido do general contraía-se e pensava: prefiro meter-te uma bala na cabeça, André Marty, a deixar que esse dedo sujo determine qualquer coisa no meu sector. Maldito sejas pela legião de homens que já fizeste morrer metendo-te em assuntos de que não percebes nada. Maldito seja o dia em que deram o teu nome a fábricas de tractores e a aldeias e a cooperativas, de modo a tomar-te um símbolo intangível. Vai, suspeita, exorta, intervém, denuncia e fuzila a quem quiseres, mas deixa em paz a minha zona. Mas em vez de dizer isto, Golz contentava-se em afastar-se da grossa silhueta debruçada, dedo estendido, os olhos cinzentos aquosos, o bigode de um branco grisalho e mau hálito e dizer:-sim, camarada Marty, compreendo o seu ponto de vista. Mas não está completamente justificado e não concordo. Pode passar por cima da minha cabeça, se quiser. É verdade. Pode fazer disto um assunto da linha partidária, como costuma dizer. Mas não concordo. E agora ali estava André Marty, sentado, trabalhando no mapa estendido sobre a mesa nua, sob a luz crua da lâmpada eléctrica, sem quebra-luz, que pendia sobre a sua cabeça; tinha diante de si um exemplar mimeografado das ordens para o ataque; estudava-o lenta e meticulosamente, como faria um jovem oficial com um problema na escola de guerra. Ele estava empenhado na guerra. Na sua imaginação, comandava tropas; tinha o direito de intervir e isso significava comandar. E ali estava sentado, com a carta de Robert Jordan para Golz no bolso, e Gomez e Andrés esperavam na sala da guarda e Robert Jordan estava deitado na mata acima da ponte. Era, entretanto, duvidoso que o êxito da missão de Andrés tivesse sido diferente, ainda que ele e Gomez pudessem ter agido sem a interferência de André Marty. Não havia ninguém no «front» com autoridade suficiente para cancelar o ataque. 404 O maquinismo tinha sido posto em acção há muito tempo para poder ser agora detido de súbito. Em todas as operações militares há muita inércia. Mas vencida esta inércia e posta a máquina em movimento, é quase impossível detê-la. Mas, naquela noite, o velho, de boina calda sobre os olhos, continuava ocupado com o seu mapa quando a porta se abriu e Karkov, o jornalista russo, entrou acompanhado de dois outros compatriotas, com casacos de couro e bonés. O cabo da guarda fechou com relutância a porta ao sair. Karkov fora o primeiro homem de responsabilidade com quem tinha podido comunicar. - Tovarich Marty - saudou Karkov na sua voz polidamente desdenhosa, ciciante, mostrando os dentes estragados.


Marty levantou-se. Não gostava de Karkov; mas Karkov, enviado do Pravda e em comunicação directa com Estaline, era no momento um dos três homens mais importantes da Espanha. -Tovarich Karkov -retribuiu Marty. -Está a preparar o ataque ou isso cabe a Golz?-inquiriu o russo com insolência, apontando para o mapa. -Estou apenas a estudá-lo - respondeu Marty. - Sou apenas um Comíssário, como bem sabe. -Não-volveu Karkov.-Isso é modéstia sua. Você é na realidade um grande general. Possui o mapa e óculos de alcance... Creio até que já foi almirante, não, camarada Marty ? -Fui ajudante de artilheiro -disse este, e mentiu. Tinha sido na realidade despenseiro chefe por ocasião do motim. Mas agora tinha a certeza de ter sido ajudante de artilheiro. -A,h! julguei que tivesse sido marinheiro de primeira classe-volveu Karkov.-Recebo sempre informações erradas. É um dos privilégios dos jornalistas. Os outros russos não tomaram parte na conversa. Olhavam para o mapa por cima dos ombros de Marty, fazendo ocasionalmente uma ou outra observação na sua língua. Marty e Karkov falavam francês, desde o cumprimento inicial. -É melhor não mandar informações erradas ao Pravda -disse Marty bruscamente, para se refazer. Karkov arrasava-o sempre. A palavra em francês é dégonfler. Karkov enervava-o e punha-o de sobreaviso. Era difícil, quando Karkov falava, ver em Adré Marty um importante emissário do Comité Central do Partido Comunista Francês. Era também difícil considerá-lo como intangível. Karkov parecia sempre atingi-lo com os seus golpes, e sempre que o desejava. 405 -Eu costumo revê-Ias muito bem antes de as mandar ao Pravda. Sou muito minucioso com o Pravda. Diga-me, camarada Marty, ouviu alguma referência a qualquer mensagem remetida para Golz; por um dos nossos partizans do grupo que opera em Segóvia? Há lá um camarada americano, chamado Jordan, de quem devíamos ter notícias. Têm chegado boatos de combates na retaguarda das linhas fascistas. Ele ficou de mandar uma mensagem a Golz. -Um americano? -repetiu Marty. Andrés tinha falado num Inglés.-Então era isso. Houve engano. Por que razão aqueles dois idiotas se tinham dirigido a ele? -Sim-e Karkov olhou-o com arrogância.-Um jovem americano de pouco desenvolvimento político mas de muito prestígio junto dos espanhóis e óptimo partizan. Entregue-me o despacho, camarada Marty. A demora já foi excessiva. -Que despacho? -perguntou Marty. Era muito estúpido da sua parte dizer aquilo, mas não queria confessar tão depressa o seu erro e assim protelava o momento da humilhação. -E o salvo-conduto? -continuou Karkov através dos seus maus dentes. André Marty meteu a mão no bolso e pôs o despacho sobre a mesa. Olhou Karkov nos olhos. Bom. Tinha errado, não o podia negar, mas não aceitava a humilhação. -E o salvo-conduto? -acrescentou Karkov, conciliador. Marty colocou-o ao lado do despacho. -Camarada cabo-chamou Karkov em espanhol. O cabo abriu a porta, entrou e dirigiu um rápido olhar para o francês que o fitava como um velho javali acossado pelos cães. Na fisionomia de Marty não havia medo nem humilhação. Estava apenas colérico e momentâncamente derrotado. Sabia, porém, que aqueles cachorros nunca o agarrariam. -Leva isto aos dois camaradas que estão na sala da guarda e indica-lhes onde é o Quartel-General


do general Golz -disse Karkov.-já houve excessiva demora. O cabo saiu e Marty acompanhou-o com o olhar; depois, voltando-se, olhou para Karkov. - Tovarich Marty-disse este-vou tratar de saber até que ponto você é intangível. Marty continuou a olhar para ele, em silêncio. -Não comece também a ruminar planos sobre o cabo, pois não foi o cabo quem me avisou. Eu vi os dois homens na sala da guarda e eles falaram comigo (era mentira). Agrada-me 406 que os homens em apuros falem comigo (era verdade, conquanto tivesse sido o cabo quem lhe tinha falado). Karkov acreditava no bem que poderia advír da sua acessibilidade e da humanização decorrente da sua intervenção benévola. Foi a única coisa acerca da qual nunca se mostrou cínico. -Sabe?, quando estou na U. R. S. S. os homens escrevem para o Pravda.quando se comete uma injustiça numa cidade do Azerbaijan. Não sabia? Eles dizem: «Karkov há-de ajudar-nos nisto». André Marty olhava-o corri expressão de cólera e aborrecimento. No seu pensamento tinha apenas a consciência de que Karkov tinha agido contra ele. Muito bem. Karkov, poderoso e tudo, que esperasse pelo troco. -Isto e mais alguma coisa-continuou Karkov-mas o princípio é o mesmo: conhecer até que ponto você é intangível, camarada Marty. Gostaria de saber se não é possível mudar o nome daquela fábrica de tractores. André Marty desviou os olhos e fixou-os no mapa. -E que dizia o jovem Jordan? -perguntou Karkov. -Não li o despacho - respondeu André Marty. - D maintenant fiche-moi Ia paix, camarada Karkov. -Muito bem. Vou deixá-lo entregue aos seus labores militares. Saindo dirigiu-se à sala da guarda. já Andrés e Gomez tinham partido. Karkov ficou ali parado um momento, olhando para a estrada que subia e para os cumes das montanhas além, sob um céu que já mostrava o primeiro palor da alvorada. «Tenho que ir até lá», pensou. Andrés e Gomez estavam de novo na estrada e o dia começava a aparecer. Andrés agarrava-se ao assento dianteiro da motocicleta, enquanto a moto subia a estrada cheia de curvas no meio duma neblina que se formara no topo da montanha, sentindo a máquina estremecer debaixo dele. Sentiu-a depois fremir e parar e encontraxam-se ambos a pé ao lado da máquina, numa longa descida e na mata, à sua esquerda, havia tanques cobertos de galhos de pinheiro. Em todas as matas havia tropas. Andrés viu homens carregando varais de macas sobre os ombros. Três carros do Estado-Maior estavam alinhados à direita, debaixo das árvores, afastados da estrada, também escondidos com ramos de pinheiro. Gomez empurrou a motocicleta para um deles; encostou a máquina a um tronco e falou ao condutor, que estava sentado ao lado do carro, de costas para uma árvore. 407 -Eu levo-te ao general. Põe a moto fora de vistas e cobre-a com isto-dísse o homem apontando para um monte de ramos cortados. Com o Sol nascente já a filtrar-se pelo meio dos troncos, Gomez e Andrés seguiram o motorista, que se chamava Vicente, entre as árvores, e atravessando a estrada chegaram até à entrada de um abrigo na floresta, aonde chegavam e de onde partiam fios telefónicos que seguiam através da


encosta. Ali se detiveram enquanto o motorista entrava e Andrés admirou a construção do abrigo subterrâneo, o qual parecia um simples buraco no fianco da montanha, sem terra solta espalhada perto, mas que podia ver, da entrada, ser profundo e espaçoso, e onde os homens se moviam livremente, sem necessidade de baixar a cabeça. Vicente voltou. -O general está lá em cima, onde estão a preparar o ataque-disse ele.-Entreguei a coisa ao comandante do seu Estado-Maior. Aqui está o recibo. Devolveu a Gomez o envelope com o recibo. Gomez passou-o a Andrés, que olhou para o papel e o meteu no bolso de dentro. -Qual é o nome do homem que assinou? - Duval -respondeu Vicente. -Está bem-disse Andrés.-É um dos três a quem eu podia entregar o despacho. -Vamos esperar a resposta? -perguntou Gomez. -Acho melhor. Apesar de que, depois daquele neg6cio da ponte, nem Deus sabe onde poderei encontrar o InglIs e os outros... -Espera no meu canto até que o general chegue-convidou Vicente. -Tomaremos café. Devem ter fome. -Tantos tanques! -exclamou Gomez. Passavam ao lado de tanques cor de lama, camuflados com ramarias; os sulcos profundos deixados na camada da caruma mostravam o trajecto percorrido para se afastarem da estrada. Canhões de 45 mm. apareciam horizontais sob os ramos e condutores e artilheiros, com casacos de couro e capacetes de aço, estavam sentados, encostados às árvores ou dormiam, estendidos no chão. -Estes são da reserva- explicou Vicente.-Estas tropas também são da reserva. As que vão começar o ataque estão lá em cima. -São muitos-observou Andrés. -Sim. Uma divisão completa. 408 Dentro do abrigo, Duval, com o despacho de Robert jordan aberto na mão esquerda, olhava o relógio que tinha no pulso e lia aquilo pela quarta vez, sentindo de cada vez o suor brotar copioso das axilas e dizia ao telefone: -Então dê-me a posição Segóvia. já não está? Ligue para a posição Ãvila. Continuou a telefonar. Não servia de nada. Falara com as duas brigadas. Golz tinha subido para inspeccionar os preparativos do ataque e estava a caminho de um posto de observação. Duval chamou esse posto, mas Golz também lá não estava. -Dê-me a base aérea n.o i-disse Duval, assumindo de repente toda a responsabilidade de suspender o ataque. Era o que havia a fazer. E imediatamente. Impossível lançar aquelas tropas num ataque de surpresa contra um inimigo que estava à espera. «Não se pode fazer semelhante coisa. Não se pode permitir isso. Seria um autêntico assassínio. Não, não pode. Não deve. Aconteça o que acontecer. Tens de impedir, nem que te fuzüem.» Ia telefonar directamente para o campo de aviação paxa fazer suspender o bombardeamento. Mas se fosse apenas um ataque de diversão? Se fosse apenas para atrair todo este material e todas estas tropas? Se era para isso? Nunca dizem se é um ataque de diversão, quando nos mandam atacar. -Desista da chamada para a base n.o i-disse ao telefonista.-Quero agora o posto de observação da


69.a Brigada. Estava ainda a esperar a resposta quando ouviu o primeiro ronco dos aviões. Nesse momento o posto de observação respondeu. -Sim-respondeu calmamente Golz. Golz estava sentado, encostado aos sacos de areia, com os pés apoiados numa pedra, cigarro colado ao lábio inferior e olhava para o ar, enquanto falava. Via avançar três aviões prateados, que roncavam no céu, surgindo por sobre a montanha distante, iluminada pelos primeiros raios de Sol. Olhava-os e eram magníficos rebrilhando ao Sol. Via os círculos gêmeos das hélices, luminosos no Sol. -Oui-disse ao telefone, em francês, porque era Duval 3ue estava no fio. - Xous sommes foutus. Oui. Comme toujours. ui. C'est dommage. É uma pena que tenha chegado tão tarde. Os seus olhos, seguindo o voo dos aviões que se aproximavam, traduziam orgulho. já distinguia as marcas vermelhas das asas e atentava no roxico firme e imponente que aumentava. Eram como deviam ser. São estes os nossos aviões. Chegaram 409 engradados do mar Negro em navios, através dos estretios de Mármara, dos Dardanelos, através do Mediterrâneo e aqui foram carinhosamente descarregados em Alicante, hàbilmente montados, experimentados; tinham-nos achado perfeitos e agora voavam, formando com uma minuciosa precisão VV agudos e puros, altos e prateados no sol matinal, para destruir as fortificações, arrasá-las, para nos abrir caminho para o ataque. Golz sabia que assim que os aviões sobrevoassem aquela cordilheira, as bombas seriam despejadas, semelhantes a marsuínos. E os cimos e as grimpas troariam e jorrariam para se desfazerem em nuvens, com grande estrondo e por fim formariam uma -~nica e espessa nuvem. Depois os tanques triturariam todos os obstáculos, subindo por aquelas encostas, logo seguidos pelas duas brigadas. E se isto tivesse sido uma surpresa, poderiam avançar, e descer, e passar, e atravessar, parando, limpando, fazendo o que era necessário (e havia muito a fazer) inteligentemente, com o auxílio dos tanques, com os tanques indo e vindo, fornecendo o fogo de cobertura, e outros protegendo as tropas de ataque até ao alto, depois caminhando para a frente e por cima, e descendo. Isso era como tudo se realizaria, se não houvesse traição e cada um cumprisse o seu dever. Havia ali duas colinas e adiante estavam os tanques e as duas brigadas prontas para deixar a floresta, e agora chegavam os aviões. Tudo quanto lhe competira fazer, tinha sido feito dentro das regras. Mas ao olhar para os aviões, agora quase por cima dele, sentiu uma espécie de náusea por ter ouvido telefónicamente a comunicação de Jordan, anunciando que não haveria ninguém em nenhuma das colinas. Estariam um pouco mais abaixo, em trincheiras estreitas para se livrarem do bombardeamento; ou escondidos atrás das árvores e quando os bombardeiros passassem subiriam com as suas metralhadoras, as suas armas automáticas e os canhões antitanques que Jordan dizia terem subido a estrada. Mas os aviões que passavam agora com ruído ensurdecedor eram o que deviam ser e Golz, a cabeça levantada, sempre de olhos neles, disse ao telefone: -Non. Rien à faire. Faut pw penser. Faut accepter. Com o olhar altivo e firme, Golz que sabia como as coisas poderiam ter sido e como seriam; orgulhando-se do que poderiam ter sido, confiando no que elas poderiam ser, mesme, que isso


nunca viesse a acontecer, disse ainda: 410 -Bon. Nous ferons notre petit possible-e desligou. Mas Duval já não o ouviu. Sentado à mesa e ainda com o receptor na mão tudo quanto ouvia era o fragor dos aviões e pensava: «agora, é talvez desta vez! Ouve-os vir, talvez os bombardeiros destrocem tudo, talvez axrasem tudo, talvez ele consiga as reservas que pediu, talvez, talvez, aí está, talvez seja desta vez... Vamos! Vamos a isso! Vamos!» Mas o troar aéreo tornou-se tão intenso que nem sequer conseguiu continuar a ouvir o seu próprio pensamento. 411 CAPITULO XLII DEITADO junto de um grosso tronco, na encosta a cavaleíro da estrada e da ponte, Jordan aguardava o amanhecer. Sempre gostara daquela hora do dia e esperava-a com encanto; sentia o guisalhar da madrugada dentro de si, como se ele fosse parte da lenta ilurninação do mundo que antecede o nascer do Sol, quando as massa-s. sólidas escurecem, o espaço clareia e as luzes nocturnas amarelecem e desaparecem à medida que o dia nasce. Os pinheiros que tinha abaixo de si iam-se destacando e a estrada desenhava-se toucada de neblina. O orvalho tinha-o molhado; o solo da floresta estava macio; a caruma cedia à pressão dos seus cotovelos. Através da cortina do nevoeiro, via lá em baixo * ponte metálica, direita e rígida, lançada sobre o abismo * em cada extremidade as guaritas das sentinelas. E, olhando com mais atenção, via a arquitectura da ponte, fina, araenídea, no nevoeiro que flutuava por cima da torrente. A sentinela, de pé na guarita, o capote sobre os ombros e o capacete de aço na cabeça, aquecia as mãos no bidão cheio de buracos que lhe servia de fogareiro. Robert Jordan ouvia a corrente, muito mais abaixo nos rochedos e via uma ligeira e leve fumarada cinzenta sair do posto da sentinela. Jordan olhou o relógio e pensou: «teria Andrés alcançado Golz ? Se vamos rebentar a ponte, quero antes respirar lentamente esta aragem matutina, respirá-la com gosto. Parece-te que ele o encontrou? Andrés? E se o encontrou teria Golz aceitado a minha sugestão? Teria tempo para voltar atrás? Quê vai Nada de te preocupares. Golz ou faz uma coisa ou faz outra. Tu não podes decidir. Dentro em pouco o saberás. Suponhamos que o ataque seja bem sucedido; Golz admitia que pudesse ser. Que havia uma possibilidade, com os nossos tanques vindos pela estrada e as brigadas avançando pela 412 direita e pela esquerda contornando a montanha desse modo. Porque não pensas tu no que deve ser, em vencer? É que estivemos tanto tempo na defensiva que não sabemos pensar senão na defensiva. Pela certa. Mas isso foi antes desse material ter subido a estrada. Antes de virem os aviões. Não sejas ingénuo. Mas lembra-te de que enquanto os pudermos manter aq s fascistas estarão amarrados. Não poderão atacar em ne2u< m outro ponto, enquanto não derem cabo de nos aqui. Se os franceses nos ajudassem, se nos abrissem as fronteiras para a entrada dos aviões da América, eles nunca poderiam connosco. Nunca, se recebêssemos armas de fora. Este povo lutará eternamente, se estiver bem armado.


«Não contes com vitórias aqui, talvez nem mesmo dentro de muitos anos. Isto é um ataque de diversão. Não tenhas ilusões a esse respeito. E se hoje conseguíssemos abrir caminho? É o nosso primeiro ataque em massa. Conserva o senso das proporções. E se vencermos? Não te excites. Lembra-te do que passou pela estrada. Tu fizeste tudo quanto te era possível fazer. Devíamos ter transmissores portáteis de ondas curtas. Havemos de os ter, com o tempo. Mas ainda não os temos. Agora só tens que esperar e fazer o que tens a fazer. «Hoje é um dia único entre todos. Mas o que acontecerá em todos os outros dias que virão depois, pode depender do que fizeres hoje. Foi assim em todo este ano. Tem sido assim tantas outras vezes. Toda esta guerra tem sido assim. Tu estás a tornar-te muito pomposo com o romper do dia, meu caro Jordan. Olha lá para aquilo.» Dois homens encapotados e de capacetes de aço apareceram na estrada, em direcção à ponte, com as espíngardas às costas. Um parou na extremidade de lá da ponte e desapareceu dentro da guarita. O outro atravessou a ponte, caminhando devagar e pesadamente. Parou a meio do caminho e cuspiu na água, depois avançou lentamente para o extremo da ponte mais próximo de Robert Jordan, trocou algumas palavras com a sentinela que vinha render, e esta partiu para o outro lado da ponte. A sentinela que tinha sido rendida caminhava mais depressa que a outra (é que vai tomar o café, pensou Robert Jordan), mas também parou para cuspir para o rio. «Será alguma superstição? Eu também tenho de dar uma euspidela naquele rio. Se na altura for capaz de cuspir! Não. Não deve ser um remédio muito eficaz. Não pode fazer efeito. Terei de experimentar a sua eficácia antes de sair daqui.» 413 A nova sentinela entrou na guarita e sentou-se. Encostou a espingarda, de baioneta calada, contra a parede. Robert tirou o binóculo do bolso da blusa e ajustou-o até que a ponte surgiu clara e nítida, pintada de cinzento. Depois dirigiu-o para a guarita. O guarda estava sentado encostado à parede. Pendurara o capacete num gancho e tinha o rosto perfeitamente visível. Jordan reconheceu o mesmo homem que estava de sentinela dois dias antes. Usava o mesmo gorro de malha, feito de ponto de meia. Não fizera a barba. Bochechas flácidas e queixo proeniinente. Sobrancelhas arrepiadas. Estava sonolento, bocejante, enquanto Jordan o observava. Depois tirou a bolsa do tabaco e enrolou um cigarro. Dirígindo-se ao fogareiro, debruçou-se, tirou uma brasa e fê-la saltar na mão enquanto lhe ia soprando, depois acendeu o cigarro e tornou a deitá-la no fogareiro. «Nâo quero olhar mais para esta criatura,» disse Jordan de si para si. Robert Jordan observava as feições do homem através do seu Zeiss 8, quando ele se encostou à parede da guarita para fumar o cigarro. Depois, descendo o binóculo, fechou-o e meteu-o novamente no bolso. «Não quero olhar mais para esta criatura,» repetiu Jordan. Ali deitado e com os olhos na estrada, fazia esforços para não pensar em coisa nenhuma. Um esquilo dava pequenos gritinhos num pinheiro atrás dele, e Robert Jordan viu-o descer ao longo do tronco, parando no caminho para voltar a cabeça e olhar o homem que o observava. Os seus olhinhos brilhavam e a fofa cauda tremia de excitação. Desceu da árvore e encaminhou-se para outra, atravessando a distância em grandes pulos com o pequeno corpo de patas curtas, de cauda desproporcionada, voltou-se de novo para Robert Jordan, subiu o tronco e desapareceu. Momentos depois o esquilo começou aos gritinhos num dos ramos mais altos do pinheiro e viu-o, estendido no ramo, o rabo no ar.


Jordan voltou os olhos para a guarita, mas com o pensamento ainda no esquilo. «Gostaria de o ter no bolso. Gostaria de ter comigo qualquer coisa em que pudesse tocar.» Esfregou os cotovelos no monte de caruma mas não era a mesma coisa. «Ninguém imagina como um homem se sente só, quando faz isto. Mas eu imagino e sei,-pensou ele consigo.-Ah, como desejo que a coelhinha saia desta emergência sem nada de mau. Alto lá! Nada de pensar nisso. Mas eu queria, sim, que nada lhe acontecesse, e posso esperar que assim seja, e espero que 414 assim seja. Espero que a ponte vá pelos ares e tudo corra bem e nada aconteça à Maria. Sim, só isso. No momento, nada mais quero da vida.» Continuava deitado de bruços, a olhar para a estrada, paxa a guarita da sentinela e para as montanhas distantes. «Não penses em nada,» repetiu-se. Estava estendido, imóvel, e via nascer o dia. Era uma bela manhã de princípios de Verão e nascia depressa como todas as manhãs de fins de Maio. Um motociclista de casaco e capacte de couro, com a pistola metralhadora num coldre, contra a sua perna esquerda, surgiu na ponte e em breve desapareceu na curva da estrada. Uma ambulância atravessou a ponte, passou acima dele e subiu * estrada. Mas foi tudo. Jordan sentia o odor dos pinheiros * ouvia o murmúrio das águas e a ponte aparecia agora nitidamente, muito bela na luz da manhã. Lá continuava ele de bruços, com a metralhadora atravessada no antebraço esquerdo, mas não olhava para a guarita da sentinela até ao momento em que,-e então parecia que aquilo nunca mais aconteceria, que nada podia acontecer numa tão bela manhã de Maio,-ouviu o estrondo distante das bombas. Ao ouvir o primeiro estrondo e antes que o eco se repercutisse por aquelas serranias, Jordan respirou profundamente e levantou a arma. Tinha o braço esquerdo adormecido e os dedos pesados da inamição. A sentinela, na guarita, levantou-se ao ouvir as bombas e Robert Jordan viu o homem pegar na espingarda e sair com o ouvido atento. Estava de pé na estrada iluminada pelo sol. O gorro de malha estava caído de banda e o sol batia em cheio naquele rosto de barba crescida, agora voltado para o céu, na direcção do bombardeamento. A estrada estava livre do nevoeiro e Robert Jordan viu claramente o homem, via-o nitidamente, de pé na estrada, olhando o céu. O sol brilhava através das árvores Jordan sentia-se oprimido, respirando com àiculdade, como se tivesse os pulmões amordaçados com arames. Firmando-se nos cotovelos, sentindo as saliências do gatilho contra os dedos, fez pontaria ao peito do homem e deu mansamente ao gatilho. Sentiu o movimento rápido, líquido, espasmódico da arma contra o ombro e na estrada, o homem, ferido de surpresa, tombou para a frente sobre os joelhos e sobre a cabeça, A espingarda caiu-lhe ao lado e ficou na estrada a baioneta apontada para a frente, um dos dedos do homem apoiado no guarda-mato, o pulso dobrado. Jordan desviou os olhos do F5 homem dobrado em dois e olhou para a outra sentinela. Não podia ver a outra sentinela e olhou mais para baixo, à direita, onde sabia que estava escondido Agustin. Nesse momento ouviu Anselmo atirar; o tiro ecoou por aquelas penedias. Depois ouviu atirar de novo. Quando soou o segundo tiro ouviu o ruído de explosões de granadas abaixo da ponte. Depois houve explosões de granadas acima da estrada, à esquerda. Depois uma fuzilaria na estrada e o ruído da metralhad9:ra de cavalaria de Pablo, soando tac-tac-tac no barulho das granadas. E viu


aparecer Anselmo, descendo a encosta aos pulos, rumo à ponte. Jordan pôs a metralhadora às costas, tirou os sacos de trás dos pinheiros e, um em cada mão, a carga esticando-lhe os braços de t~,,J modo que pensou que eles se iam despegar dos ombros, desceu correndo, escorregando, a encosta íngreme que conduzia à estrada. A meio caminho ouviu Agustin gritar: -Buena caza, IngIés. Buena caza. E pensou: bela caçada para o inferno! E foi quando soou novo tiro de Anselmo no outro lado da ponte, um tiro que ressoou na ferragem. Jordan passou pela sentinela que tinha abatido e foi ao encontro do velho. O velho corria ao seu encontro, de espingarda na mão. -Sin novedad-gritou ele.-Tuve que rematarlo. Tive que lhe dar o tiro de misericórdia. Jordan ajoelhou-se, abriu os dois sacos e começou a tirar o que havia dentro. Como visse as lágrimas a correr pelo rosto de Anselmo, através da curta barba branca, disse: -.Yo maté uno tambien-e com a cabeça indicou a sentinela que jazia, dobrada, na extremidade da ponte. -Sim, homem, sim-volvtu Anselmo.-Nós tínhamos de os mkLtar e matámo-los. Jordan começou a descer pela ferragem da ponte, sentindo nas mãos o frio do metal orvalhado pela neblina; e descia cautelosamente, com o sol a bater-lhe nas costas e a ouvir o rumor das águas e instalou-se numa travessa, e ouvia os tiros, muitos tiros na estrada, no posto de cima. Suava copiosamente apesar da frialdade ali existente e trazia um rolo de arame no braço e um par de alicates pendentes de correias atadas ao pulso. --Passa-me as cargas uma a unia, viejo-gritou para Anselmo. O velho debruçou-se na ponte, estendendo os pacotes oblongos de explosiios e Robert Jordan esticou-se para os apanhar.-Agora as cunhas, viejo! Venham as cunhas-e as 416 cunhas ainda com o cheiro da madeira cortada de fresco foram descendo e com elas apertou as cargas contra as travessas. Enquanto trabalhava, colocando, endireitando, apertando, atando com o arame, pensando úrlicamente na demolição, trabalhando rápido e com a habilidade de um cirurgião, ouviu uma série de tiros mais abaixo na estrada. Depois o estouro de uma granada; depois uma outra, misturando-se ao rumor das águas. Em seguida fez-se o silêncio naquela direcção. «Diabo! Gostaria de saber o que aconteceu por lá.» O tiroteio continuava no posto de cima. Atirava-se coffio o diabo e ele estava a amarrar duas granadas lado a lado em cima dos pacotes de explosivos enrolando o arame nas ranhuras para apertar bem, torcendo o arame com os alicates. Apalpou o conjunto, depois para o tornar mais sólido meteu uma cunha por cima das granadas, para apertar bem a carga contra as travessas. -Do outro lado agora, viejo - gritou para Anselmo. E atravessou a ponte pelo vigamento. «Como, um falso Tarzan numa floresta de aço», pensava, saindo da ponte escura, a torrente espumejando por baixo dele. Levantou a cabeça e viu o rosto de Anselmo que lhe passava as cargas de explosivo. «Que diabo de cara ele tem 1» pensoujordan. «Deixou de chorar. Tanto melhor. Um lado já está feito. Agora este lado e acabou. Isto vai saltar que é uma beleza! Vamos. Não te emociones. Faz o trabalho. Limpo e rápido como o outro lado. Não te atrapalhes. Não procures andar depressa de mais. Não.podes falhar agora. Ninguém te pode impedir de a fazer saltar de um lado. Tu estás a fazer o que deves fazer. Este lugar é fresco. Cristo, está frio como ^numa adega,


mas não há mofo. Isto é uma ponte de pesadelo. Mas o velho que está lá em cima é que corre um perigo estuporado. Não procures andar mais depressa do que podes. Eu queria que aquele tiroteio lá no alto acabasse. » - Passa-me mais algumas cunhas, viejo.-«Estes tiros não me agradam. Pilar deve estar em apuros. Alguém deve ter saído do posto. Pelos fundos; ou por trás da serração. Continuam a atirar. Quer dizer Sue há gente na serração. E o raio desta serração de madeiras. Estes malditos montes de serradura. A serradura quando velha e compacta é óptima como trincheira. Mas ainda deve haver muitos por lá. Em baixo, com Pablo, tudo está calmo. Estou sem saber o que teria sido aquela segunda escaramuça. Devia ser um automóvel ou uma motocicleta. Deus permita que não haja por lá carros blindados ou tanques. Continua. Põe isso o mais depressa que puderes, firma bem e amarra logo. Estás a tremer como uma 27 - S. D. 417 mulher . Que diabo é isso? Tu estás a querer andar depressa de mais. Aposto que aquela danada mulher não treme lá em cima. Aquela Pilar. Ou talvez trema também. Parece-me que está muito atrapalhada. Se a coisa for demasiada, há-de tremer também. Como toda a gente.» Jordan saiu de baixo da ponte, ergueu-se e estendeu a mão para apanhar o que o Anselmo lhe ia dando e com a cabeça fora do fragor da água, ouviu o tiroteio aumentar na estrada, depois as granadas recomeçaram a estourar. E mais granadas. -Devem ter atacado a serração. «Foi uma sorte termos estes explosivos em blocos»-pensou ele.-Em vez de ser em bastões. Que pode isto fazer melhor? É mais limpo, eis tudo. Mas um saco cheio de puré seria mais rápido. Dois sacos. Não. Um bastaria. E se tivéssemos os detonadores e as espoletas! Aquele filho de uma cadela ue deitou tudo à água. Esta caixa e os sítios onde já esteve. Toi neste ribeiro que ele a deitou. Aquele bastardo do Pablo. Está a fazê-los dançar na corda bamba.» -Dá-me mais, viejo. «O velho está a ir muito bem. E está em ponto perigoso lá em cima. Ressentiu-se por ter sido obrigado a disparar contra a sentinela. Eu também, mas nunca pensei nisso. E agora também não penso. É preciso fazer isto. Sim. Mas o Anselmo feriu o tipo. Conheço isso. Parece-me que matar um homem com uma arma automática é mais fácil. Para o que mata, é claro. É diferente. Depois do toque no gatilho é a arma que faz o resto. Não a gente. Bem, reflectirás nisso depois. Tu e a tua cabeça. Boa cabeça para pensar tens tu, velho Jordan. Corre, Jordan, corre! Era o que gritavam no futebol quando tinhas a bola. Tu sabes que na realidade o rio Jordão não é muito maior que este ribeiro que corre lá em baixo. Na nascente, queres tu dizer. Tudo é assim no começo. Está-se muito bem debaixo desta ponte. Está-se como em casa. Vamos, Jordan, coragem. É grave, Jordan. Tu não compreendes? Grave. Cada vez menos. Olha para o outro lado. Para quê? Agora estou preparado, aconteça o que acontecer. Assim vai o Maine, assim vai a nação. Assim vai Jordan, o Jordão, assim vai o diabo dos israelitas. A ponte quero dizer. Assim vai Jordan, assim vai o diabo da ponte e vice-versa.» -Dá-me mais um bocado disso, Anselmo, meu velho. -E o velho passou-lhe mais material. Quase acabado volveu Jordan e o velho concordou com a cabeça. 418 Quando acabou de amarrax as granadas já não ouvia a fuzilaria na estrada. Só lhe chegava aos ouvidos o rumor da água, Olhou para baixo, viu-a espumejar por entre as pedras, precipitar-se para uma lagoa clara, com seixos no fundo e lá foi parar uma das cunhas que tinha caído e a


corrente arrastou. Quando olhava, uma truta saltou, certamente para apanhar algum insecto e uma série de círculos concêntricos quebrou a superfície líquida perto da cunha que boiava. Ao torcer com o alicate o arame que prendia as granadas contra as cargas, viu, por entre a ferragem, a luz do Sol estendida sobre o verde da encosta. «Três dias atrás estava castanha»,-pensou. Saindo do escuro da ponte, Jcrdan ficou exposto ao sol claro e gritou para o velho de bruços lá em cima: -Passa-me agora o rolo grande de arame. Anselmo obedeceu. «Pelo amor do Céu não afrouxes nada, agora. Este aramevai puxá-las. Gostaria de as enlear profundamente. Mas com o arame que tens está bem»- pensou Robert Jordan apalpando as cavilhas das granadas. Certificola-se de que as granadas postas de lado tinham o espaço suficiente para. permitir que os pinos se levantassem quando se tirassem as cavilhas (o arame que as prendia passava dabaixo dos pinos), depois atou um pedaço de arame a um anel, ligou-o ao arame principal que passava no anel da granada exterior, desenrolou alguns metros de arame e passou-o em volta de uma travessa e estendeu o rolo a Anselmo. -Segura isso com cuidado, não estiques. Subiu para a ponte, pegou no rolo e caminhou de costas com a pressa que lhe ia permitindo o desenrolar do arame na direcção da sentinela caída na estrad a; e foi assim estendendo o arame. -Traz os sacos -- gritou para Anselmõ continuando a caminhar. Ao- passar pela metralhadora abaixou-se, apanhou-a e pô-la ao ombro. ~. Foi nesse momento que desviando o olhar do. arame que desenrolava, avistou bem no alto da estrada os que voltavam do ataque ao posto. Distinguiu quatro vultos, mas teve ci-- voltar a atenção para o arame para que não se enrolasse numa das trav'~-'~_-:._;3 exteriores da ponte. Eládio não vinha com eles. Jordan chegou com o arame à cabeça da ponte, prendeu-o com uma laçada no último pontalete e correu pela estrada dese nrolando o resto do rolo; foi deter-se longe, junto 4i9 de um marco de pedra. Cortou a parte que sobrava e entregou a ponta a Anselmo. -Segura isto, viejo. Agora volta à ponte comigo. Enrola-o enquanto caminhas. Não. Eu faço. Na ponte soltou o arame do pontalete e verificou se não havia obstáculos no percurso e entregou a ponta a Anselmo. -Fica atrás desta pedra e segura o arame. Agarra-o bem, mas não o estiques antes de tempo. E quando chegar * momento estica com força, com um puxão. Assim que o fizeres * ponte vai pelos ares. Compreendes ? -sim. -Agarra-o de leve mas não o deixes arrastar nem prender-se. Agarra-o de leve e com firmeza e não puxes antes de tempo. Compreendes ? - Sim. -E quando puxares, puxa de verdade. Jordan falava com os olhos na estrada, por onde desciam os remanescentes do bando de Pablo. Estavam já perto. Pôde ver que Primitivo e Rafael caminhavam escorando Fernando; devia estar ferido -no ventre, porque o apertava com as duas mãos enquanto os dois homens o.aguentavam, um de cada lado. Arrastava a perna direita e a sola da alparcata raspava a estrada enquanto o arrastavam. Pilar apareceu na direcção dos pinheiros carregando três espingardas. Robert Jordan


não lhe podia ver a cara, pois vinha com a cabeça levantada. e carninhava a passo acelerado. -Como vai isso aí?-perguntou Primitivo. -Bem. Quase acabado -respondeu Jordan. Não era preciso perguntar o que lhes tinha acontecido. Os três sobreviventes pararam à beira da estrada e Fernando, abanou a cabeça quando o quiseram carregar para a margem do rio. -Deixem-me uma espingarda -murmurou ele com voz arquej ante. -Não, hombre, vamos levar-te até aos cavalos. -E que vou eu fazer a cavalo? Estou muito bem aqui. Robert Jordan não ouviu o resto porque estava a falar com Anselmo. -Puxa o arame se aparecerem tanques, mas só quando estiverem em cima da ponte. A mesma coisa se vires carros blindados, quando passarem por cima dela.- De fazer parar o resto encarrega-se Pablo. -Contigo tão exposto não a posso fazer saltar. 420 - Não te incomodes comigo. Se for preciso fá-la saltar assim mesmo. Vou prender o outro arame e volto. E então fazemo-la saltar os dois juntos. E largou a correr pela ponte fora. Anselmo viu Jordan correndo pela ponte, o rolo do arame enfiado no braço, os alicates a balançarem-lhe no pulso e a metralhadora a tiracolo. Viu-o descer pela ponte abaixo e perdeu-o de vista. Sustendo a ponta do arame com a mão direita, Anselmo agachou-se atrás do marco de pedra, com os olhos na estrada e na ponte. A meio caminho estava a sentinela caída, agora achatada contra a estrada, mais colada à superfície lisa, enquanto o sol lhe pesava nas costas. A espingarda estava caída na estrada e a baioneta apontava na direc-, ção de Anselmo. O velho olhou para diante, para além da ponte riscada pela sombra das montanhas, no sítio em que a estrada virava à esquerda, seguindo a garganta. Olhou a guarita mais afastada, iluminaffiL pelo sol, sempre consciente do arame que sustinha na mão e voltou a cabeça para onde Fernando falava com Primitivo e com o cigano. -Deixa-me aqui-dizia Fernando.-Dói-me muito e hemorragia interna é muito grande. Eu sinto a hemorragia cada movimento. -Podem ' os levar-te pela ribanceira acima-volveu Primitivo.-Passa os braços pelos nossos pescoços e vamos levar-te de cadeirinha. -Inútil - murmurou Fernando. - Ponham-me atrás de uma pedra. Sou tão útil aqui como lá. -Mas quando nos formos embora? -interpelou Primitivo. -Deixem-me aqui. No estado erft que estou ninguém pensa em viajar. Ficará mais um cavalo. Eles não tardarão a vir, certamente. , -Mas podemos caxregax-te fàcilmente para a montanha -insistiu o cigano. Estava evidentemente morto por se ir, embora, tal como Primitivo. Mas já o tinham trazido de tão longe... - Não - respondeu Fernando. - . Aqui fico muito bem. Que aconteceu a Eládio? O cigano pôs o' dedo na cabeça para mostrar onde fora férido. -Aqui-disse ele.-Depois de ti. Quando atacámos. - Deixem-me -pediu Fernando. Anselmo pôde ver que ele estava a sofrer muito. Tinha as duas


mãos no ventre e encostava a cabeça no barranco, com as pernas estiradas. Rosto lívido, lavado em suor. -Deixa-me agora, por favor-pediu ele, com os olhos fechados pela dor e os: lábios apertados. -Estou a sentir-me muito bem aqui. -Ficam-te aqui uma espingarda e balas-disse Primitivo. -E a minha? -perguntou Fernando sem abrir os olhos. -Não, Pilar tem a tua. Esta é a minha. --Eu preferia a minha. Estou mais habituado a ela. -Vou buscá-la-mentiu o cigano.-Fica com esta até eu voltar. -Aqui estou numa óptima posição - disse Fernando. -Tanto para a estrada como para a ponte. Abriu os olhos, virou a cabeça e olhou para a ponte e depois, com a dor, voltou a fechá-los. O cigano fazia sinais a Primitivo, chamando-o -Voltaremos daqui a-pouco-disse este, e começou a galgar a encosta atrás ~o cigano que subia a correr. Fernando ficou encostado ao barranco. Diante dele havia uma das pedras pintadas de branco que marcavam a margem da estrada. A cabeça ficara na sombra, mas o sol batia em cheio no ferimento enfaixado, sobre o qual ele tinha as mãos cruzadas. As pernas e os pés também estavam ao sol. A espingarda jazia a seu lado, e três carregadores brilhavam ao sol junto da espingarda. Uma mosca pousou-lhe na mão, mas o pequeno cocegar não conseguiu penetrar através das suas dores. -Fernando! -gritou Anselmo, de onde estava agachado com o arame na mão. Tinha feito um laço na ponta para o prender ao pulso. -Fernando!-tornou a gritar. O ferido abriu os olhos e olhando para ele indagou: -Que tal vai isso? -Muito bem - respondeu Anselmo. - Dentro de um minuto faremos saltar a ponte. -Estou satisfeito. O que precisares de mim, diz-continuou Fernando, já com os olhos fechados pelo sofrimento. Anselmo desviou os olhos dele e fixou-os na ponte. Esperava ver emergir de repente o rolo de arame, seguido pelo aparecimento da cabeça e da cara do Inglês ueimada pelo sol. Estava também atento ao trecho para lá 3a ponte, vigiando o que pudesse surgir na curva da estrada. Não sentia o menor medo, como não o sentira durante todo aquele dia. «Tudo vai rápido e normal, -pensou consigo. -Aborreceu-me ter de matar a sentinela; isso causou-me uma impressão muito grande, mas já passou. Como pode o IngIés dizer que atirar 422 sobre um homem é o mesmo que matar um animal? Em todas as minhas caçadas sempre senti prazer, mas nunca tíve a impressão de estar a fazer mal. Mas atirar contra um homem dá a sensação de estar a bater num irmão quando já se não é criança. E ter de atirar contra ele várias vezes para o matar... Não, não quero pensar nisso. Isso emocionou-me tanto que corri para a ponte a chorar como uma mulher. «O mal está feito, -ponderou ainda Anselmo de si para sie tu não podes tentar a expiação por mais esta morte, mais esta... Tu obtiveste tudo o que pediste na última noite quando voltavas para a gruta pela colina. Estás no combate, não tens outros problemas. Se morreres esta manhã, tudo estará bem.


E olhou para Fernando estendido junto do barranco, as mãos cruzadas sobre o ferimento, os beiços roxos, os olhos fechados, a respiração espaçada e difícil, e pensou: «se eu morrer, oxalá seja depressa. Não. Eu disse que não pediria mais nada, se tivesse o que pedi para hoje. Por isso não hei-de pedir. Entendido? Eu não peço coisa nenhuma. Nada de nada. Seja-me dado aquilo que pedi, e fica o resto à Tua vontade.» Ao ouvir o rumor que vinha de muito longe, do combate no desfiladeiro, disse de si para si: «na verdade é um grande dia. Devo compreender e convencer-me de que é um grande dia.» O seu coração estava, porém, calmo. Toda a excitação desaparecera por completo. E agora, ali agachado atrás do marco com um laço de arame no pulso e outro laço na mão e ajoelhado na estrada, -não se sentia isolado, não se sentia absolutamente só. Sentia-se integrado no arame que tinha na mão, na ponte e nas cargas que o Inglés colocara. Sentia-se unido ao Inglés que ainda trabalhava debaixo da ponte; sentia-se unido a todos os que lutavam pela República. Não havia excitação nenhuma. A quietude era absoluta' e o sol queimava-lhe o pescoço e os ombros; quando levantou os olhos, viu o céu distante e sem nuvens, as encostas da montanha subindo do outro lado do rio; ali acocorado, não se sentia feliz, mas também não se sentia abandonado e com medo. Por trás de uma árvore, no alto, Pilar observava a estrada que descia do desfiladeiro. Tinha na mão três espingardas carregadas e deu uma a Primitivo quando este se sentou a seu lado. -Fica ali em baixo-disse ela.-Por trás daquela árvore -e apontou para uma árvore mais em baixo.-Já morreu? -Ainda não. 423 -Foi pouca sorte-disse Pilar.-Se tivéssemos atacado com mais dois, isso não teria acontecido. Ele ter-se-ia arrastado 'por trás dos montes de serradura. Estará bem onde ficou? Primitivo abanou a cabeça. -Quando o Inglês fizer voar a ponte os fragmentos não chegarão até cá?-perguntou o cigano oculto por uma árvore. -Não sei - disse Pilar. - Agustin com a máquina está mais perto do que nós. O IngUs não o teria colocado lá se houvesse perigo. -Mas eu lembro-me bem que na explosão do comboio a lâmpada da máquina me rebentou por cima da cabeça e os pedaços de ferro voavam como andorinhas. -Tu tens recordações poéticas - volveu Pilar. - Como andorinhas! Ora bolas. Eram grandes pedaços de caldeira. Tu h . e portaste-te bem, cigano. -Agora não te deixes apanhar poeio medo. _ Eu só perguntei se os cacos chegam até cá para me esconder melhor atrás deste tronco-explicou o cigano. -Pois fica aí. Quantos matámos? -Pues, cinco para nós. Dois aqui. Não vês o outro na outra ponta? Olha lá para baixo! Estás a ver a guarita? Olha! Vés?-E apontou com o dedo.-Há ainda os oito de baixo para Pablo. Eu vigiei este posto na defesa do Inglés. Pilar resmungou. Depois violenta e colérica: -Que se passa com o Inglês? Por que diabo não sai de baixo da ponte? Vaya mandanga! Ele está a construir a ponte ou vai fazê-la saltar? Abanou a cabeça e olhou para Anselmo, acocorado atrás do marco. -Olá, viejo!-gritou ela.-Que fim levou o diabo do Ingiés ?


-Tem paciência, mulher -' respondeu Anselmo, segurando o arame ao de leve, mas com firmeza.-Está a acabar o trabalho. -Mas por que maldição dos infernos está a demorar# tanto ? -Es muy concienzudo! -gritou Anselmo.-É um trabalho científico. -Me cago en Ia leche de la ciencia-rosnou Pilar para o cigano, cheia de raiva.-Que esse cretino a faça voar de uma vez. Maria!-gritou na sua voz cheia para o alto da colina. -O teu Inglés--e berrou uma série de obscenidades sobre o -que Jordan estaria a fazer debaixo da ponte. 424 -Acalma-te, mulher-gritou Anselmo da estrada.-Ele já está quase no fim de um trabalho formidável. -Com todos os diabos do inferno -explodiu Pilar furibunda.-A rapidez é a coisa que vale numa altura destas. . justamente nesse instante todos ouviram recomeçar o tiroteio na estrada do posto que Pablo tinha assaltado. Pilar deixou de injuriar para ouvir. -Ay-exclamou ela.-Ay. Ay. Aí está. Robert Jordan também o ouviu quando atirou o rolo de arame com uma das mãos e se içou com a outra para o pavímento. Os joelhos pousaram na borda de ferro e as mãos já estavam em cima, quando ouviu o matraquear da metralhadora na curva próxima. O som era diferente do da metralhadora de Pablo. Pôs-se de pé, debruçou-se, passou o rolo de arame e começou a andar de costas desenrolando-o pela ponte fora. . Ouviu a fuzilaria e caminhava e sentia-a na boca do estômago como se ecoasse no seu próprio diafragma. Era coisa que se aproximava à medida que caminhava e olhou -para a curva da estrada. Mas não havia automóveis, carros ou homens. Não havia ninguém quando completou metade do caminho. Estava ainda vazia quando fez três quartos do caminho, o fio a desenrolar-se sem se enredar, e estava ainda vazia 'quando subiu virando atrás da guarita da sentinela, afastando o arame para que não se prendesse nos pontaletes. Encontrou-se na estrada e estava sempre vazia; depois atravessou ràpidamente a valeta que marginava a estrada, desdobrando o arame e estava quase em frente do marco onde estava Anselmo e a estrada continuava vazia abaixo da ponte. S úbito ouviu um camião que descia a estrada e por cima do ombro viu-o passar pela longa rampa; deu mais uma volta ao arame em redor do pulso e gritou para AnselmQ: ,-Agora! - e firmando-se nos calcanhares, inclinou-se para trás para esticar o arame que prendera no pulso, e o roncar do camião aumentava atrás dele e, na frente, tinha a estrada,co~m a sentinela morta e a ponte, e o bocado de estrada descendente sempre vazia; depois um estrondo de explosão e.o meio da ponte levantou-se no ar como uma onda que rebenta; sentiu o choque da explosão rolar por cima dele, fazen.do-o cair de bruços com a cara no pavimento pedregoso e-as mãos cobrindo a cabeça. Um cheiro fanúliar envolveu-o numa nuvem de fumo acre e amarelado, e os estilhaços começaram a chover. Quando o chuveiro acabou, estava ainda vivo. Levantou a cabeça e olhou para a ponte. A parte central tinha, desaparecido. Pedaços de ferro juncavam a ponte. O que ficara era um emaranhado de ferros contorcidos. O camião tinha parado uma centena de metros acima. O motorista e os homens que o acompanhavam corriam para um boeiro. Fernando continuava apoiado no barranco e ainda respirava. Tinha os braços estirados ao longo do corpo e as mãos espalmadas.


Anselmo jazia de borco atrás do marco de pedra, o braço esquerdo dobrado sob a cabeça e o direito esticado para a frente. O laço do arame ainda estava preso no seu pulso. Jordan pôs-se de pé, atravessou a estrada e ajoelhou-se ao lado do velho para ter a certeza de que ele estava morto. Mas não virou o cadáver para verificar os estragos que os estilhaços tinham feito. Estava morto e era tudo. Morto, parecia muito pequeno. Pequeno e grisalho. Era admirável como sendo tão pequeno pudesse carregar pesos tamanhos. Jordan atentou no formato da barriga da perna e das coxas desenhado pelas apertadas calças de pastor, nas solas gastas das alparcatas de corda e pegou na espingarda e nos dois sacos pràticamente vazios; subiu e apanhou a espingarda que estava ao lado de Fernando. Deu um pontapé num pedaço de ferro que estava no meio da estrada. Depois pôs as duas armas ao ombro, segurando-as pelo cano e começou- a subir a encosta em direcção à mata. Não olhou para trás nem para a ponte. O tiroteio continuava lá na curva da estrada, mas isso já não lhe importava em absoluto. Tossia amiude por efeito da fumarada de TNT e sentia-se entorpecido. Pôs uma das espingardas ao lado de Pilar, deitada atrás da árvore. Ela olhou e viu que tinha outra vez três armas. -Estás mal situada aqui-disse Jordan.-Na estrada há um camião que se não vê daqui. Atribuíram o desastre aos aviões. É melhor colocares-te um pouco mais abaixo. Vou agora com Agustin ajudar Pablo. -E o velho? -perguntou Pilar, encarando-o. - Morto. Jordan tossiu outra vez desesperadamente e escarrou no chão. -A tua ponte saltou, Inglés-disse Pilar continuando a encará-lo.-Não te esqueças disso. 426 -Não esqueço coisa nenhuma -respondeu ele.-Tu tens uma voz muito forte. Ouvi-te lá em baixo. Grita por Maria e diz-lhe que estou bem. -Perdemos dois na serração -informou Pilar procurando fazê-lo compreender. -Eu sei. Fizeram alguma asneira? -Vai para o diabo que te carregue, Inglés-e Pilar atirou-lhe obscenidades antes de declarar que Fernando e Eládio também eram homens. -Porque não vais para cima com os cavalos?-disse jordan.-Eu posso defender melhor isto aqui. -Tu vais cobrir a retirada de Pablo. -Pablo que vá para o inferno! Que se cubra de mierda... -Não, Inglês. Ele voltou. Ele combateu muito lá em baixo. Está ainda a bater-se com qualquer coisa séria. Aqueles tiros são dele. -Bem, vou protegê-lo, Mas me cago em todos. Em ti e em Pablojuntos. i -Inglês, acalma-te -aquietou Pilar.-Estive a teu lado neste negócio como ninguém era capaz de estar. Pablo prejudicou-te mas voltou. -Se não me tivesse tirado as minhas ferramentas o velho não teria morrido. Eu poderia ter feito saltar a ponte daqui. -Se, se, se...-murmurou Pilar. A cólera, a sensação de vácuo e ódio que o tinham empolgado quando, depois de explodir a ponte, deu com Anselmo morto, dominavam-no ainda. Também estava empolgado pelo dese ero resultante da amargura que os soldados transformam em 50 para poderem continuar soldados.


Agora que tudo tinha acabado, encontrava-se só, desapegado e sem entusiasmo, detestando a todos quantos via. -Se não tivesse sido a neve... -disse Pilar. E jordan tão súbitamente como teria acontecido com um alívio físic6 (como se Pilar lhe tivesse passado o braço pelo pescoço, por exemplo) mas aos poucos e raciocinando, começou a conformar-se e a deixar passar a raiva.-Certo, a neve. Foi ela que fez isto. A neve estragou tudo. Uma vez que via as coisas como apareciam aos outros, uma vez que se tinha desembaraçado de si mesmo, esse egocentrismo de que é preciso libertar-se constantemente na guerra... Na guerra! Na guerra não podia haver o eu. Ou então o indivíduo devia acabar. Depois, tendo-w Perdido, ouviu Pilar dizer:-Sordo... -O quê?-perguntou. -Sordo... 427 -Sim-disse RobertJordan. e riu com uni riso seco, duro, de músculos faciais distendidos. -Esquece. Foi um erro que cometi. Estou triste, mulher. Vamos acabar com isto bem e todos juntos. E a ponte foi pelos ares, como tu disseste. -Sim. Devemos pensar nas coisas como elas são. -Então vou agora para junto de Agustin. Manda o cigano lá para baixo, onde ele possa ver a estrada toda. Dá estas espingardas a Primitivo e fica com esta máquina. Deixa-me mostrar-te como funciona. -Guarda a máquina-disse Pilar.-Não vamos demorar-nos aqui. Pablo não deve tardar e partiremos logo. -Rafael!-chamou Jordan.-Vern cá. Bem. Estás a ver aqueles homens saindo do boeiro, ali perto do camião? Atira sobre um deles. Senta-te. Com calma. O cigano fez cuidadosa pontaria e atirou, e quando foi sacudido pelo coice da espingarda e a bala partiu, Jordan. comentou: -Muito alto. Acertaste na pedra. Estás a ver a poeira que levantaste? Uns sessenta centímetros mais abaixo. Agora, cuidado. Estão a correr. Correram a meter-se no abrigo. «Não atires mais-continuou Jordan. - Atira agora para uma das rodas da frente. De maneira que se falhares acertes no motor. Bem.Jordania acompanhando como binóculo. Um pouco mais abaixo. Bem. Tu atiras como um diabo. Mucho! Mucho! Agora no alto do radiador. Em qualquer parte do radiador. Tu és um campião. Olha. Não deixes passar ninguém daquele ponto. Estás a ver? -Espera para me veres desfazer o pára-brisas -disse o cigano satisfeito. -Não. O carro já está bem doente. Poupa as munições para quando vires alguma coisa pela estrada abaixo. E começa a atirar quando o alvo estiver em frente do abrigo. Procura atingir o motorista. Nesse momento atirem todos-disse à mulher que tinha descido o barranco acompanhada de Primitivo.-Vocês estão adn-úràvelmente colocados. Vejam como esta escarpa nos defende os flancos. --Vai tratar do teu negócio com Agustin-gritou Pilar. -Desisto da lição. já não sou nenhuma principiante. -Põe PrinÚtivo mais acima - disse Robert Jordan. Além. Estás a ver, meu velho? Lá em cima, onde é mais íngreme. -Deixa-me -tornou Pilar.-Some-te, Inglês, tu e a tua perfeição. Aqui não somos complicados. Nesse instante ouviram o ronco dos aviões.


428 Maria tinha ficado com os cavalos, mas isso não fora consolo nem para ela nem para os animais. Do ponto da floresta onde estava não podia ver a estrada, nem a ponte e quando o tiroteio irrompeu passou o braço pelo pescoço do grande cavalo baio, de focinho branco que tinha acariciado e ao qual tinha dado gulodices quando os cavalos estavam no antigo cercado entre as árvores, abaixo do acampamento. O nervosismo da rapariga, porém, contagiava o animal fazendo-o sacudir a cabeça e farejar o ar com as ventas dilatadas, inquieto com aquelas explosões e tiros distantes; Maria não conseguia estar quieta e girava em volta dos cavalos, acariciando-os o que apenas conseguia aumentar-lhes o nervosismo. Maria procurava pensar no tiroteio não como algo terrível que estivesse acontecendo mas como a acção de Pablo em baixo com os seus novos homens e a de Pilar com os outros do lado de cima; era preciso escapar ao pânico e ter confiança em Roberto. Não conseguia, porém, comportar-se assim; o tiroteio acima e abaixo da ponte e o fragor distante da batalha que ecoava pela montanha como urna tempestade longínqua com um martelar seco, e o estouro irregular das granadas eram uma coisa horrível que lhe perturbava a respiração. Mais tarde, quando ouviu Pilar, com a sua voz grossa, gritar-lhe da base da colina umas obscenidades que não conseguiu entender, ela murniurou:-Oh, Deus, não, não. Não fales.assim, quando ele está em perigo. Não ofendas ninguém, não corras riscos inúteis. Não provoques. Então começou a rezar por Jordan, depressa e automàticamente, como quando estava no colégio; dizia a mesma oração dezenas de vezes, contando-as pelos dedos da mão esquerda. Quando a ponte foi pelos ares, um dos cavalos rebentou a peia e disparou pela floresta. Com muito esforço ela conseguiu apanhá-lo e trazê-lo nervoso, agitadíssimo, todo estremecimentos, o peito escuro de suor, a sela dependurada; e quando vinha com ele por entre as árvores e ouviu o tiroteio lá em baixo, Maria pensou que lhe era impossível aguentar aquilo. -Não posso continuar a viver nesta incerteza. Não posso respirar. Tenho a boca seca. Estou cheia de medo e não presto para nada. Assusto os cavalos e apanhei este por sorte, porque a sela se prendeu num ramo de árvore e caiu e se emaranhou nos estribos e agora enquanto ajeito a sela, oli Deus!, não sei. Não aguento mais isto. Por favor faz com que não lhe aconteça nada, porque todo o meu coração e toda eu estamos na ponte. A República é uma coisa e o termos de vencer 429 é outra. Mas, oh doce, oh sempre Virgem Maria, trá-lo de novo da ponte para mim e eu hei-de fazer tudo o que sempre disseste. Porque eu não estou aqui. Eu já não existo. Eu estou lá com ele. Guarda-o para mim e eu hei-de fazer tudo por ti e ele não se há-de importar. Nem isso é contra a República. Eu estou tonta de mais. Mas se tomares conta dele, heí-de fazer tudo o que for necessário. Hei-de fazer o que ele disser e o que tu disseres. Com os meus dois eus juntos hei-de fazer tudo. Mas continuar assim na ignorância, não, eu não- posso. Eu não aguento mais! Então já com o cavalo amarrado, a sela no seu lugar, a manta posta, ouviu a voz grave e grossa subir entre as árvores: -Maria! Maria! O teu IngIés está bem. Estás a ouvir? Sin novedadi Segurando a sela com ambas as mãos, Maria apoiou nela a cabeça rapada e chorou. Depois ergueu-a para o céu e entre soluços exclamou:-Oh, obrigada. -Depois ainda a chorar: -Obrigada! Muito obrigada!


Ao ouvirem os aviões todos ergueram os olhos e notaram que vinham de Segóvia, a grande altura, prateados no céu, com o ronco abafando todos os outros barulhos. . Aqueles!-disse Pílar.-Só nos faltavam aqueles! Pousando-lhe a mão no ombro, enquanto os observava, Jordan murmurou: -Não, mulher. Aqueles não vêm para nós. Não perdem tempo connosco. Tranquiliza-te. -Odeio-os. -Também eu. Mas agora tenho de ir - procurar o Ag.ustín. Descendo pelo meio dos pinheiros entre o -ronco dos aviõesque crescia enquanto do outro lado da ponte destruída, mais abaixo na estrada, na curva, se erguia o intermitente martelar de uma metralhadora pesada, Robert Jordan deixou-se cair perto de Agustin que estava deitado no meio de uma moita de pinheirinhos, atrás da metralhadora, e entretanto os aviões continuavam a chegar. -Que se passa lá em baixo? -perguntou Agustin.-Que está o Pablo a fazer? Então ele não sabe que a ponte já se foi? -Talvez não se consiga safar. -Então partamos. Tanto pior para ele. 430 -Se puder deve estar a chegar - disse Jordan. - Não tardaremos a vê-lo. -Há cinco minutos que não ouço nada lá. Espera!... Olha!... Lá está ele. E elemesmo. Ouvia-se o fogo da metralhadora da cavalaria. Uma rajada, outra, e outra ainda. -É esse pulha-exclamou Robert Jordan. Mais aviões passavam a grande altura no-céu sem nuvens; Jordan pousou os olhos na cara de Agustin voltada para eles. Depois baixou-os para a ponte em ruínas e para a estrada que continuava vazia. Tossiu e cuspiu e ouviu a metralhadora pesada matraquear outra vez para lá da curva. Parecia ser no mesmo sítio onde matraqueava anteriormente. -Que será isto agora? -perguntou Agustin.-Que será esta porcaria? -Essa metralhadora começou antes de destruirmos a ponte-disse Jordan. Olhava agora a ponte e via a corrente através da brecha, no centro onde aparecia um ninho de ferro amassado. Ouviu os primeiros aviões que tinham ido bombardear a garganta e outros continuavam a chegar. O barulho dos motores enchia o céu e, levantando a cabeça, viu os caças que os acompanhavam, minúsculos e delicados, voando em círculo acima deles. -Não me parece que tenham atravessado as linhas ontem de manhã-observou Agustin.-Devem ter voado para leste e depois voltado. Os nossos não teriam atacado se os tivessem visto. -A maior parte são novos-observou Jordan. Ele tinha a impressão de alguma coisa que se iniciara normalmente e agora provocava repercussões enormes, despropoxcionadas, gigantescas. Como se atirasse uma pedra na água, e a pedra criasse um círculo e esse círculo voltasse mugindo e inchando como uma barragem de vagas. Ou como quando alguém grita e o eco volta em rolos de trovoada e a trovoada se torna mortal. Ou quando se atira a um homem e ele cai e logo se erguem legiões de homens armados. Jordan. sentiu-se feliz por não estar entre as tropas de Golz. Deitado ali perto de Agustin, observando a passagem dos aviões, ouvindo o tiroteio nas suas costas, espiando a estrada em baixo onde esperava que algo acontecesse, embora não sabendo o quê, ainda se sentia tonto pela surpresa de não


ter morrido na explosão. Tinha aceitado tão completamente a ideia de ser morto que tudo agora Ibe ~'p_,7a uma nítida impressão de irre2t11dade. «Atira isso forr.,consigo. 431 -Liberta-te disso. Há ainda muito, muito e muito que fazer hoje.» Mas a impressão não o abandonava e conscientemente sentia como se tudo se estivesse transformando em sonhQ. «Tu engoliste fumo de mais», disse de si para si. Mas Jordan sabia que não era isso. Sentia sólidamente a irrealidade de tudo através da realidade dos factos e olhou para a ponte, depois para a sentinela caída na estrada, não longe do sítio onde Anselmo estava estendido e depois Fèrnando encostado ao barranco, depois de novo para a estrada até ao camião inutilizado e tudo continuava a ser irreal. «É melhor acabar com a tua parte nisto, -sussurrou de si para si. -Tu és como estes galos de combate a que ninguém vê a ferida recebida, e não se vê sangue e já estão frios. «Tolices, -respondeu a si mesmo. -Tu estás meio atordoado, e tiveste uma depressão depois de te veres livre da res-. pon-sabilidade. É isso. Vê se te acalmas.» Agustin pegou-lhe no braço e apontou qualquer coisa; olhou para o lado da garganta e viu Pablo. Pablo vinha a correr pela curva da estrada. No ângulo do roefledo em que a estrada desaparecia, viram-no parar, encostar-se à rocha e disparar com a pequena metralhadora de cavalaria, e podiam ver o sol dardejar nas cápsulas de metal polido. Viram Pablo acocorar-se e voltar a disparar., Depois, sem olhar para trás, deitou a correr em direcção a ponte, baixo, pernas arqueadas e cabeça descaída. Jordan empurrou Agustin, meteu o ombro à coronha da nietralhadora grande e fez pontaria para a curva da estrada. A sua metralhadora pequena estava no chão, à esquerda; não era apropriada para aquela distância. Enquanto Pablo vinha na direcção deles, Jordan conservou a arma apontada para a curva da estrada, mas nada apareceu. Chegando perto da ponte, Pablo olhou para trás por cima do ombro, para os destroços depois, dobrou à esquerda e desapareceu no desfiladeiro. Na curva ainda não tinha aparecido ninguém. Agustin ergueu-se num dosjoelhos. Pôde ver Pablo trepar como uni cabrito pela encosta. Depois de o terem avistado não ouviram nenhum barulho de tiroteio. -Estás a ver alguma coisa lá em cima? Nas rochas lá de cima?-perguntou Jordan. -Nada. Jordan continuou de olho na curva da estrada. S - abia que naquela parte a encosta era íngreme de mais para que a pgdes sem galgar, mas mais abaixo era mais suave e podia-se subir com alguns rodeios. 432 Se até ali as coisas tinham parecido irreais, tornaram-se de repente intensamente reais. Era como se as lentes de um aparelho fotográfico tivessem sido focadas de súbito. Foi então que viu aparecer na curva o vulto baixo, de focinho anguloso, torre quadrada, manchado de verde, cinzento e castanho, com a metralhadora apontada. jordan atirou contra ele e ouviu o retinir das balas na blindagem. O pequeno tanque recuou a cobrir-se com a pedreira. Atento à manobra, jordan viu aparecer de novo o focinho chato, depois a torre blindada que se moveu de forma a apontar a metralhadora para a estrada.


- Parece um rato a sair do buraco - disse Agustin. - Olha para aquilo, Inglês. -Não está muito confiado -observou jordan, -Foi esse «insecto» grandalhão que Pablo esteve a metralhar. Fogo nele, IngIés. -Não. As balas não podem penetrar e não quero que perceba onde estamos. O tanque começou a atirar sobre a estrada. A balas batiam no pavimento e ricocheteavam e agora estavam a estralejar contra o metal da ponte. Era a mesma metralhadora que tinham ouvido no princípio. - Cabron! -exclamou Agustin.-Este é que é o famoso tanque, Inglês ? -Sim. Mas este é dos pequeninos. -Cabron! Se eu tivesse aqui uma garrafa de gasolina dava um pulo até lá e ]ptgava fogo àquela coisa. E que irá ele fazer, Inglês? -Daqui a pouco vai voltax para espreitar de novo. -E é disso que temos medo - disse Agustin. - Olha, Inglés. Está a matar outra vez as sentinelas! -É natural desde que não tem outro alvo - advertiu jordan.-Não o censures. Mas pensava: «vamos faz troça dele. Mas imagina-te no seu lugar, de volta à tua terra e barrado no meio do caminho pelo tiroteio de um desconhecido. Depois uma ponte completamente espatifada. Não era natural que pensasses em minas por ali ou em qualquer outra armadilha? Decerto. Ele está a pensar bem. Está à espera de que apareça mais alguma coisa. Está a provocar o inimigo. O inimigo somos nós apenas. Mas ele não o pode adivinhar. Olha-me para aquele infame!» O tanque avançou um pouco mais na estrada. Nesse momento Agustin. viu Pablo galgando a encosta, 28 - S. D. 433 servindo-se das mãos e cios joelhos, com a cara barbuda empapada de suor. --Lá vem aquele filho de uma cabra-exclamou. -Quem? - Pablo. Jordan olhou e viu Pablo e então começou a fazer fogo sobre a parte camuflada da torre do tanque onde sabia existir uma fenda por cima da metralhadora. O pequeno tanque fez marcha atrás, escondendo-se apressadamente. Jordan pegou na metralhadora, ajustou a tripeça contra o cano quente e pô-la ao ombro. Estava tão quente que o queimou. Jordan. empurrou-a para trás, apertando a coronha na mão. -Traz o saco das muniçóes e a minha máquina pequena -gritou-nias depressa, Jordan esgueirou-se pela colina acima por entre os pinheiros. Agustin seguia colado a ele e Pablo seguia-os um pouco mais longe. --Pilar! - gritou Jordan de longe. - Depressa, mulher! Os três galgavam a colina a passo rápido. Não podiam correr porque era íngreme de mais e Pablo, que só carregava a metralhadora ligeira de cavalaria, em breve os alcançou. -E a tua gente? -perguntou Agustin com a boca seca. -Todos mortos -respondeu Pablo arquejando. Agustin -voltou-se e encarou-o. -Agora temos muitos cavalos -arquejou Pablo. -Bem - respondeu Jordan e pensou: «este bandalho.» Que vos aconteceu? -Tudo-respondeu Pablo, respirando a largos haustos. -Que aconteceu a Pilar? -Perdeu Fernando e o irmão...


-Eládio--clucidou Agustin. -E tu>-perguntou Pablo ajordan. -Eu perdi Anselmo. -Há cavalos de sobra - volveu Pablo. - Até para as bagagens. Agustin. mordeu os lábios, olhou para Jordan e abanou a cabeça. Em baixo, já fora de vista, por entre o arvoredo, i ouviram o tanque recomeçar a metralhar a estrada e a ponte. Robert Jordan virou a cabeça: -Que aconteceu por lá?-Não queria olhar para Pablo, nem sentir-lhe o cheiro, mas queria ouvi-lo. -Eu não podia partir com aquela máquina lá-respondeu Pablo. -Estávamos entrincheirados no posto. Finalmente o tanque recuou para ver não sei o Ta8 e escapei-me. 434 -Contra quem atiravas tu lá em baixo? - pergunto brutalmente Agustin. Pablo olhou para ele, ia começar a rir mas reflectiu não disse nada. -Foste tu que os mataste? -continuou Agustin. Jordan conteve-se. Disse a si mesmo: «fecha a boca. Tu não tens nada a ver com o caso. Eles que se entendam. Fizeram tudo o que podias querer deles e mais ainda. Isto é um assunto interno do clã. Não venhas com julgamentos morais. Tu estás a trabalhar com um assassino. Fecha a boca. Bem sabias com quem lidavas. já lhe conhecias a crónica. Não é novidade nenhuma. Mas que grande bandalho! Que grande bandalho!» Doía-lhe o peito como se fosse rebentar no esforço da ascensão; por fim, diante dele, entre as árvores, apareceram os cavalos. -Continua-dizia Agustin.-Porque não confessas que os matastes ? -Cala-te-rosnou Pablo.-Hoje bati-me muito e bati-me bem. Pergunta ao Ingiés. -E agora tira-nos daqui-disse Robert Jordan.-Tu que tens um plano para isso. -Tenho um bom plano-volveu Pablo.-Com alguma sorte tudo irá bem. Começava a respirar melhor. --Mas não vais matar nenhum de nós, não é verdade? -insinuou Agustin-porque nesse caso sou eu que te mato já. -Cala-te-rosnou Pablo.-Eu tenho de tratar dos teus interesses e dos interesses do bando. A gente faz o que pode, não o que deseja. - Cabron! -exclamou Agustin.-Tu misturas tudo. -Diz-me o que aconteceu - perguntou Robert Jordan a Pablo. -Tudo-repetiu Pablo. Arquejava ainda, mas já podia falar com gravidade; a cabeça e a cara estavam alagadas em suor. Observou prudentemente a exprcqqão de Jordan para ver se não havia hostilidade e depois sorriu. -Tudo -voltou a repetir. -Primeiro tomámos o posto. Depois veio um motociclista. Depois outro. Depois uma ambulância. Depois um camião. Depois o tanque. Precisamente no momento em que a ponte saltou. -E depois... - O tanque não nos podia fazer mal, mas não conseguíamos sair porque dominava a estrada. Depois afastou-se. E vim. 435 -E a tua gente? -perguntou Agustin. sempre a tentar ~a provocação. -Cala-te-rosnou Pablo, olhando-o de frente e o seu ar era o de um homem que se tinha batido


bem, antes de mais nada.-Eles não eram do nosso bando. Agora viam os animais amarrados aos troncos das árvores, manchados pelo sol que se coava entre as copas dos pinheiros, sacudindo as cabeças e escoiceando contra as peias. Robert Jordan avistou Maria e, logo a seguir, apertou-a nos braços, estreitamente, tão estreitamente que a metralhadora lhe feriu as costas. Maria murmurava: -Tu, Roberto! Oh, tu! -Sim, coelhinha. Minha boa, querida coelhinha. Agora já poderemos fugir. -É verdade que estás de facto aqui? -Sim. Sim. De verdade. Oh, tu! -Nunca tinha imaginado que uma mulher existisse durante um combate; nem que qualquer parte do seu ser o pudesse saber ou reagir; nem que, se tivesse uma mulher, ela tivesse seios pequeninos e duros e a pressão lhe chegasse através da camisa; nem que tivesse consciência dos seios em pleno combate. Mas era assim e era bom que fosse assim. Bom. Nunca acreditaria nisto! E apertou-a contra ele, muito, muito, mas sem olhar para ela e depois deu-lhe uma palmada em lugar onde nunca o fizera e disse: -Vamos, monta. Sobe para esta sela, guapa. Os homens soltaram os cabrestos; Robert Jordan entregara a automática a Agustin e pôs a sua arma ligeira às costas. Tirou as granadas dos bolsos para as meter nos embornais presos às selas, fez um pacote com vários sacos vazios e atou-o à sela. Nesse momento apareceu Pilar, tão arquejante da subida que só podia falar por sinais. Pablo meteu num saco três peias que tinha na mão, voltou-se e disse: -Quê tal, mulher? - e ela respondeu apenas com um movimento de cabeça e todos montaram. Robert Jordan montou no grande cavalo baio que vira4 pela primeira vez na neve, na manhã anterior e sentia entre as pernas e sob as mãos que era um magnífico cavalo. Calçava alparcatas de corda e os estribos eram um tanto curtos, a metralhadora pendia-lhe no ombro e tinha os bolsos cheios de munições. Uma vez bem assente na sela, as rédeas debaixo do braço, mudou o carregador já utilizado e olhou para Pilar, montadâ num estranho assento, no cimo de uma pirâmide de mantas e de fardos atados à sela. 436 -Pelo amor de Deus desiste disso, mulher. Vais cair e não há cavalo que aguente semelhante caranguejola. -Cala-te-tornou Pilar.-Vamos organizar a vida com tudo isto. -Tu podes aguentar-te assim, mulher?-indagou Pablo, já sobre a sela de guardia civil com que tinha aparelhado o cavalo. -Como qualquer leiteiro -respondeu Pilar.-E agora, velho, para onde vamos? -Descemos a direito. Atravessamos a estrada. Subimos a outra encosta e entramos na mata, lá para cima onde o can-iinho estreita. -Cruzar a estrada? -repetiu atrás dele Agustin fincando as alparcatas contra a barriga esticada, e sem reac~ão, de um dos cavalos que Pablo tinha obtido na véspera. -Sim, homem. É o único caminho-afirmou Pablo e entregou-lhe a rédea de um dos cavalos que levavam a bagagem. Primitivo e o cigano levavam os outros dois. -Tu podes vir atrás, se quiseres, L~g1és-dissc Pablo. -Atravessamos bastante acima para estar fora do alcance desta mdquina. Mas iremos separados uns dos outros para só nos reunirmos onde o caminho estreita. -Muito bem-concordou Jordan.


Começaram a descer por entre as árvores em direcção à estrada. Jordan cavalgava atrás de Maria. Não podia carninhar ao lado dela por causa das árvores. Acariciou o cavalo baio com as pernas, depois apertou as rédeas enquanto desciam ràpidamente, caminhando entre os pinheiros, indicando ao baio com as coxas, enquanto desciam, o que as esporas lhe teriam indicado em terreno plano. -Tu-disse ele a Maria.-Passa para o segundo lugar quando atravessarmos a estrada. Ir em primeiro não é tão mau como pode parecer. Mas o segundo é bom. São os que vão a seguir que estão mal colocados. -Mas tu... -Eu aparecerei de repente. Não é problema. O perigo são as fileiras. Jordan não tirava os olhos da cabeça hirsuta de Pablo; lá ia ela afundada nos ombros, rente à metralhadora. Também observava Pilar, de cabeça nua, ombros largos, os joelhos mais altos que as coxas por ter os pés sobre os pacotes que conduzia. Em certo momento ela olhou para trás e abanou a cabeça. -Passa à frente da Pilar antes de atravessar a estrada -disse Robert Jordan a Maria. -137 Depois olhando por entre as árvores mais i-alas, pôde ver a superfície escura e luzidia da estrada, acima deles e, para além, a verde encosta da montanha. Estamos acima do bosque, notou, e justamente abaixo do sítio onde a estrada desce em linha recta para a ponte. A cerca de oitocentos metros acima da ponte. Não escamos fora do alcance do pequeno tanque Fiat. -Maria-tornou a dizer Jordan-passa à frente de Pilar antes de chegarem à estrada e depois de a atravessares marcha depressa pela encosta acima. Maria voltou a cabeça para ele, mas não disse nada. E Jordan. apenas a olhou para se assegurar de que ela tinha compreendido. -Comprendes ?-insistiu ele. Maria acenou que sim. -Avança, então. Ela abanou a cabeça. -Vamos, avança. -Não-respondeu ela virando-se para ele e abanando a cabeça.-Fico onde estou. Nesse momento Pablo meteu as esporas ao grande cavalo baio e venceu o último pedaço de terreno daquela descida atapetada de caruma e Jordan ouviu ressoar as ferraduras do animal no pavimento da estrada. Os outros seguiram-no e Robert Jordan viu-os atravesar a estrada e subir a encosta verdejante e ouviu a metralhadora martelar a ponte. Depois ouviu um ruído zzzz-crak-bum! E na encosta apareceu uma p~equena fonte de terra que se dispersou numa nuvem de fumo cinzento. Zzzz-crak-bum! Outra vez. O zzzz parecia o silvo de um foguetão; apareceu outra nuvem de poeira e fumo mais acima na encosta. À sua frente o cigano tinha parado ao lado da estrada, abrigado pelas últimas árvores. Olhou a colina e depois voltou-se para Robert Jordan. -Para a frente, Rafael-gritou este.-Galopa, homem! O cigano puxava pelas rédeas do cavalo carregado de bagagens, empacado e transido de medo. -Larga esse animal e a galope! -insistiu Robert Jordan. A mão do cigano estendeu-se para trás, para subir cada vez mais alto, mais alto, parecendo não acabar, enquanto fincava os calcanhares na sua montada; as rédeas do outro esticaram-se e


súbitamente bambearam. Estava ao lado da estrada, e Robert Jordan estava ao lado do cavalo das bagagens, que, aterrorizado, foi de encontro a ele, enquanto o 438 cigano atravessava a estrada dura e sombria. Jordan ouviu as ferraduras do cavalo subindo a. encosta. Zzzz-crak-bum! O projéctil traçou uma trajectória baixa e viu o cigano fazer uma volta rápida, como um javali em fuga, enquanto adiante dele a terra se levantava. num pequeno géiser vermelho e cinzento. Viu-o subir, agora mais lentamente, a vasta encosta verde, e a metralha caía-lhe à frente e atrás, até que alcançou uma dobra de terreno onde se juntou aos outros. Não posso levar comigo este cavalo das bagagens, pensou Robert Jordan. e bem gostaria de o levar a meu lado e tê-lo entre mim e este 47 mm. que nos está a bombardear. P()IiDeus, vou tentá-lo. Encaminhou-se para ele e pegou-lhe nas rédeas e o cavalo trotou atrás de si, uns cinquenta metros, entre as árvores. Na margem do bosque, olhou a estrada, para além do camião, para a pontei Via homens nesta e atrás, na estrada, havia um engarrafamento. Robert Jordan olhou em volta e acabou por ver o que queria. Pondo-se de pé nos estribos, quebrou um galho morto. Deixou cair as rédeas do segundo cavalo, dirigiu-se para a estrada e bateu-lhe rijo na anca com o galho. -Vamos, bandalho!,disse e, acabou atirando-lhe com o galho e o cavalo atravessou a estrada e começou a subir a encost~i O ramo atingiu-o e o animal começou a galopar. Robert Jordan avançou mais trinta metros sobre a estrada; o talude era muito áspero ali. O canhão continuava a atirar enchendo o ar de silvos e explosões, fazendo voar terra por todos os lados. - Vamos, bandalho fascista - gritou Robert Jordan ao cavalo baio e precipitou-se para a encosta. Depois achou-se a descoberto na estrada tão dura que o bater das ferraduras se lhe reflectia nos ombros, pescoço e dentes, depojs na moleza da encosta onde os cascos se enterravam, esmaga-vam, subiam e olhou para baixo e via a ponte de um ângulo em que a não vira ainda. Aparecia de perfil sem efeitos de perspectiva, com a parte central destruída e para aléni da ponte, na estrada, estava o tanque pequeno e atrás do tanque pequeno estava um grande, armado com um canhão; atirou um jacto amarelo, brilhante como um espelho, e o clarão que fulgurou quando o ar se rompeu quase parecia tocar o pescoçG, cinzento do cavalo que se alongava à sua frente. Robert Jordan virou a cabeça para evitar a chuva, de terra que foi projectada na encosta. O cavalo carregado de bagagens ia à frente, mas afastava-se muito para a direita e diminuía o passo. Robert Jordan, a galope, virou a cabeça para a ponte; viu a fila de 439 camiões detidos antes da curva, que surgia agora claramente. Como ia ganhando altura viu o clarão amarelo que anunciava o zzzz e o bum; a bomba caiu perto dele e pôde acompanhar com os olhos o leque de terra e estilhaços projectados. Adiante de si, a certa distância, na beira da floresta, estavam todos os seus companheiros a observá-lo e ele disse: --Arre caballo! Sentiu o peito do cavalo arquejar sob o efeito da rudeza da encosta e viu o pescoço cinzento esticar-se e as orelhas cinzentas à sua frente. Estendeu a mão e bateu no pescoço molhado e olhou para trás na direcção da ponte, viu o clarão de mais um disparo do tanque grande; não ouviu o silvo mas sentiu o cheiro acre e como que a explosão de uma caldeira e encontrou-se debaixo do cavalo que esperneava enquanto ele se esforçava por se safar daquela posição.


Podia mover-se. Podia mover-se para a direita. Mas a perna esquerda estava achatada debaixo do cavalo enquanto ele se mexia para a direita. Era como se tivesse aparecido uma nova articulação, não a da coxa, mas uma outra, lateral. Então compreendeu muito bem o que tinha sucedido e nesse momento o cavalo levantou-se sobre as patas dianteiras e a perna direita de Robert Jordan, que se tinha libertado do estribo como era necessário, escorregou sobre a sela e veio colocar-se ao lado da outra. Apalpou com as mãos o osso da coxa esquerda e ambas as mãos sentiram o osso agudo no ponto em que prenua a pele. O cavalo estava de pé quase em cima dele e Jordan. via-lhe as costelas tremerem, arquejantes. A erva em que estava sentado era verde e havia flores silvestres; olhou o fundo da encosta, a estrada, a ponte e a garganta; viu o tanque e ficou à espera de um novo disparo. Veio quase a seguir, sempre sem silvo. Quando da explosão viu saltarem os torrões de terra e o aço voar em estilhaços e viu o cavalo sentar-se a seu lado, tranquilamente, como um cavalo de circo. E então, olhando o cavalo sentado, percebeu o som estranho da respiração do animal. Logo a seguir, Primitivo e Agustin agarraram Robert Jordan pelas axilas para o arrastarem até ao alto da encosta. A sua nova articulação fazia com que a perna se movesse conforme as irregularidades do solo. Um obus silvou por cima deles e deitaram-se por terra esperando; a chuva de terza caiu sobre ele e os estilhaços dispersaram-se; puseram-se a arrastar novamente Robert Jordan. Colocaram-no ao abrigo das árvores, perto dos cavalos e Maria, Pilar e Pablo estavam de pé à.sua volta. 140 Maria ajoelhou-se a seu lado dizend(~: ~Roberto, que tens tu? Jordan, alagado em suor, respondeu: -Tenho a perna esquerda partida, guapa. -Vamos amarrá-la-disse Pilar-e assim poderás marchar a cavalo;-e apontando para um dos cavalos carregados: -desçam aquela trouxa. Jordan viu Pablo fazer um movimento de cabeça significativo de desânimo e murmurou: -Sigam o seu caminho. - Depois, acrescentou: - ouve, Pablo. Vem cá. A face barbuda, suarenta, inclinou-se para ele e Robert Jordan. sentiu nas narinas o cheiro de Pablo. -Deixem-nos conversar a sós - murmurou o ferido. Tenho de falar com Pablo.-Pilar e Maria afastaram-se. -Dói-te muito?-indagou o guerrilheiro, achegando-se ainda mais. -Não, creio que o nervo está esmagado. Ouve. Quero que partam. Estou liquidado, como estás a ver. Só desejo falar com a Maria. Quando eu fizer sinal para a levarem, exijo que a levem. Ela há-de querer ficar, mas não é possível. Tenho pouco para dizer. Apenas meia dúzia de palavras. -Sim, é claro que não dispomos de muito tempo-concordou Pablo. -É claro. Penso que vocês estariam melhor no exército da República, Pablo -Não. Prefiro internar-me nos Gredos. - Pensa nisso. -Bem. Fala com ela. Não temos muito tempo. Lamento muito o que te aconteceu, IngIés. -O que aconteceu tinha que acontecet. Não falemos mais nisso. Mas pensa. Tu tens boa cabeça. Precisas servir-te dela. - Claro que me servirei dela-volveu Pablo.-Agora fala depressa, LigIés. Temos muito pouco


tempo. Pablo afastou-se e encostado a uma árvore começou a vigiar a encosta, o outro lado da estrada e.a garganta. Olhou com verdadeira tristeza para o ponto onde se entrevia o cavalo morto. Pilar e Maria rodeavam o ferido que tinham sentado com as costas apoiadas a um tronco. -Podes cortar-me as calças, Pilar? -perguntou. Maria, acocorada ao lado dele, estava muda. O sol batia nos seus cabelos cortados e no seu rosto contorcido como o de uma criança prestes a chorar. Mas não lhe vinham lágrimas. 441 Pilar tirou do bolso a navalha e cortou a perneira da calça abaixo do bolso esquerdo. Jordan afastou o pano com as mãos e olhou para a coxa. Quinze centímetros abaixo da virilha uma saliência pontuda, roxa, lembrando um pequeno tumor, e quando tocou naquilo sentiu a fractura do osso da coxa de encontro à pele. A perna estendida formava um ângulo bizarro. Jordan olhou para Pilar. A expressão do rosto era a mesma do de Maria. -.4nda-disse-lhe ele.-Vai-te. Pilar afastou-se de cabeça baixa, sem dizer palavra nem olhar para trás e Jordan pôde ver que os seus ombros estremeciam. -Guapa-disse a Maria tomando-lhe as duas mãos. -Ouve. Não iremos a Madrid... Então ela começou a chorar. -Não, guapa, não chores. Ouve. Nós não iremos agora a Madríd, mas estarei sempre onde tu estiveres. Compreendes? Maria não respondeu, apenas encostou o rosto à cabeça de Jordan e passou-lhe os braços pelo pescoço. -Ouve, minha coelhinha- murmurou Jordan. Sabia que se devia apressar e suava. abundantemente, mas tinha de falar e ser compreendido. -Agora tu vais partir, coelhinha. Mas eu vou contigo. Enquanto um de nós existir estaremos os dois juntos. Estás a perceber? -Não. Eu fico contigo. -Não, coelhinha. O que eu faço agora, faço-o sózinho. Contigo não o faria tão bem como sózinho. Não sentes isso também? Mas seJa qual for aquele que ficar, ficaremos os dois. -Eu vou ficar aqui contigo. -Não, coelhinha. Ouve. Isto é coisa que as pessoas não podem fazer juntas. Cada um deve fazê-lo sózinho. Mas se tu fores, eu irei contigo. É dessa maneira que eu também irei. Tu agora vaís-te embora, eu sei. Porque tu és boa e meiga. Irás por causa de nós dois. -Mas é muito mais fácil ficar contigo-disse ela.-É o melhor para mim. --Sim. Mas é por mim que deves partir. Faz isso, que é a única coisa que podes fazer por mim. -Mas tu não me compreendes, Roberto. Que vai ser de mim? Ir é justamente o pior para mim. -É certo-disse ele.-É o mais duro para ti. Mas agora eu também sou tu. 442 Ela não respondeu. Jordan, a transpirar copiosamente, olhou para Maria. E recomeçou, desejando ardentemente convencê-la, como nunca tinha desejado antes fosse o que fosse. -Agora é preciso que tu vás, por nós dois - disse ele. -Não sejas egoísta, coelhinha. Tens de cumprir o teu dever.


Ela abanou a cabeça. -Tu agora és eu-disse ele.-Tu deves sentir isso, coelhinha. Ouve, coelhinha. Na verdade é assim que irei contigo. juro-te. Ela não disse palavra. -Estás a entender?-disse ele.-Agora estou a ver que tu compreendes. Agora tu vais, sim. Bem. Agora tu vais-te. Agora tu disseste que ias. Ela não tinha dito coisa nenhuma. -Bem, e agora agradeço-te. Vai-te amorosamente e depressa, depressa e nós dois vamos juntos em ti. Agora põe aqui a tua mão. Agora abaixa a cabeça. Não, assim. Está bem. Agora eu pon ho nela a minha mão. Bem. Tu és tão boa. Agora não penses mais. Agora estás a fazer tudo o que podias. Agora obedeces. Não a mim, mas a nós dois. Ao eu que está em ti. Agora vai-te, por nós dois. Verdadeiramente. Agora vamos ambos em ti. Foi isso o que prometi. Tu és muito boa em ir e muito carinhosa. Jordan fez um sinal de cabeça a Pablo que o observava a distância e Pablo aproximou-se, fazendo a Pilar um sinal com o polegar. -Iremos a Madrid noutra ocasião, coelhinha. Verdade. Agora levanta-te e vai-te, e vamos-nos os dois. Levanta-te. Estás a ver? -Não-diwb ela e conservou-se agarrada a ele, jordan falava calma e ponderadamente, porém com grãnde autoridade. -Levanta-te -disse ele.-Tu e eu, agora. Tu és tudo o que resta de mim. Levanta-te. Lavada em lágrimas, Maria levantou-se de cabeça pendida; mas atirou-se de novo a ele, para se erguer pela segunda vez, vagarosamente, aniquilada, enquanto Jordan dizia: -Levanta-te, guapa. Pilar, ao lado, aniparava-a. - Vamonos. Não precisas de nada, Inglês ?- Olhou-o e abanou a cabeça. -Não-respondeu Jordan, e continuou a dirigir-se a Maria. 443 -Não há despedida, guapa, porque não estamos separados. Espero que tudo corra bem nos Gredos. Agora vai. Vai. Não - ele continuava a falar tranquilamente, gravemente, enquanto Pilar levava a rapariga.-Não te voltes para mim. Põe o pé no estribo. Sim. O teu pé. Ajuda-a, Pilar. Aguenta-a. Põe-na na sela. Jordan lavado em suor voltou a cabeça e olhou pela encosta abaixo; depois voltou a olhar para a rapariga já na sela, com Pilar ao lado e Pablo atrás. -Agora vai-disse. Vai. Maria ia virar a cabeça. -Não olhes para trás-murmurou Robertiordan.-Vai. -Pablo espertou-lhe o cavalo com uma chibatada e Maria pareceu tentar deixar-se cair da sela ' mas Pilar e Pablo cavalgavam ao lado e Pilar amparava-a; os três cavalos subiram o atalho. -Roberto-gritou Maria voltando-se.-Deixa-me ficar! Deixa-me ficar! -Como ficar se eu vou contigo? - respondeu Jordan. -Agora estou contigo. Estamos ambos aí. Vai.-Uma curva. O grupo desapareceu da vista de Jordan que, lavado em suor, ficou a olhar para coisa nenhuma. Agustin estava de pé a seu lado. -Queres que te mate, Inglês ?-perguntou, inclinando-se para ele.-Quieres? Não custa nada.


-jVo hace falta - respondeu Jordan. - Acompanha os outros. Estou bem aqui. -Me cago en la leche que me han dado!-blasfemou Agustin, com tanta lágrima nos olhos que via o ferido como através de uma nuvem.-Salud, Inglés. -Salud, meu velho - volveu Jordan, com os olhos no ponto onde Maria desaparecera. -Olha pela cabeça rapada, sim? -Claro que olharei. Tens aqui tudo o que precisas? -Há muito poucas munições para esta máquina e por isso fico com ela - disse Robert Jordan. - Tu não as poderias arranjar. Para a outra e para a de Pablo é fácil. -já limpei o cano. Sujou-se com lama quando caiu -disse Agustin. -Que aconteceu ao cavalo carregado? -O cigano conseguiu apanhá-lo. Agustin estava já a cavalo, mas não tinha vontade de se afastar. Inclinou-se para a árvore a que estava encostado Robert Jordan. 444 - Vai, viejo-disse-lhe Robert Jordan. Na guerra acontecem muitas coisas como esta. -Quê mierda es la guerra! -exclamou Agustin. -Sim, meu velho, sim. Mas vai-te. -Salud, Inglés-disse Agustin cerrando o punho direito. - Salud- retribuiu Jordan. -Mas vai-te embora, homem. Agustin fez o cavalo voltar-se, abaixou o punho direito como para praguejar e subiu o atalho. Os outros já tinham de saparecido há muito tempo. Voltou-se para trás no ponto em que o atalho virava sob as árvores e agitou o punho. Robert Jordan agitou o seu e depois também Agustin desapareceu. Robert Jordan olhou para a base da encosta verde, para a estrada e para a ponte. «Estou tão bem aqui como noutro sítio qualquer. Não vale a pena estar a arrastar-me de bruços, não, o osso está muito perto da pele e daqui vejo melhor.» Sentia-se vazio, esgotado pela ferida e pela perna partida e na língua tinha uni travo de bílis. Agora finalmente não havia mais problemas. De qualquer forma que tudo se tivesse passado e qualquer que fosse a maneira como as coisas se iriam passar, para ele não haveria mais problemas. Todos tinham partido e estava só, encostado a uma árvore. Olhou ao longo da encosta e viu o cavalo que Agustin tinha acabado de matar. Mais abaixo na encosta olhou para a estrada com a floresta ao fundo. Depois olhou para a ponte e para a outra margem; vigiou o movimento na ponte e na estrada. Via agora os camiões na parte inferior da estrada. O cinzento dos camiões aparecia entre as árvores. Olhou depois para o alto da estrada, onde ela atingia a colina. «Deveni estar a vir», pensou. «Pilar tomará conta dela melhor do que ninguém. Tu bem o sabes. O plano de Pablo deve ser bom, pois de contrário ele não o tentaria. Não vale a pena ralares-te com Pablo. Não serve de nada pensar em Maria. Procura acreditar no que lhe disseste. É melhor. E quem te garante que não seja a verdade? Tu não. Tu não o dizes, da mesma forma que não dirias que as coisas que se passaram não se passaram. Agarra-te agora àquilo em que acreditas. Não sejas cínico. O tempo é muito pouco e tu acabas de a mandar embora. Cada um faz o que pode. Tu já não podes fazer nada por ti, mas talvez possas fazer alguma coisa pelos outros, Bem, aproveitámos bem os quatro dias que tivemos. Não foram quatro. Nem quatro porque cheguei à caverna de tarde e ainda não é meio-dia. Não foram bem três dias e três noites completas. Sê preciso, disse ele. Absolutamente


exacto. 445 «Parece-me que farias melhor em te deitares. Farias melhor procurando encontrar um buraco onde possas ser útil a contínuar encostado a esta árvore como um vagabundo. Tiveste muita sorte. Há coisas muito piores que esta. 1sto toca a todos, mais cedo ou mais tarde. Não estás com medo, pois sabes que é preciso, não é ? Não, - disse com sinceridade. - E ainda é ter sorte estar com o nervo esmagado. Nem chego a sentir que haja qualquer coisa além da 1'ractura». E tocou na parte in£~ríor da perna, como se não fizesse parte do seu corpo. Jordan olhou de novo para o declive da encosta e pensou: «dói-me deixar isto, é tudo. Dói-me mesmo muito e espero ter feito algum bem por aqui. Procurei fazê-lo com toda a inteligência que possuía. Tudo o que tenho, é o que queres dizer. Está certo. Tudo o que possuo. «Há uni ano que combato pelo que julgo certo. Se vencermos aqui, vencerenios por toda a parte. O mundo é belo e merece que se lute por ele, e dói-me deixá-lo. E no entanto tu tiveste tanta sorte em ter uma vida tão boa. Sim, foi uma vida tão boa como a do teu avô, se bem que seja mais curta. Sim, foi uma vida como as melhores, graças a estes últimos dias. Não te queixes, já que tiveste tanta sorte. Mas gostaria que houvesse um meio de transmitir o pouco que aprendi. Cristo! Como aprendi coisas nestas últimas horas! Gostaria de trocar impressões com Karkov. Está em Madrid. Para lá daquelas montanhas, para lá da planície. Descendo, deixando a penedia cinzenta e os pinheiros, as urzes, o mato, através do alto planalto amarelo, levanta-se branca e bela. E tão verdade como as velhas de Pilar que bebiam sangue no matadouro. Não há uma coisa que seja verdadeira. Tudo é verdadeiro. Da mesma forma que os aviões são belos, sejam os nossos ou os deles. E são o inferno. «Sossega agora. Ajeita-te em boa posição enquanto é tempo. Ouve. Lembras-te? Pilar e a mão? Acreditas nesta porcaria? Não. Nem mesmo depois do que aconteceu? Não, não acredito. Pilar foi muito gentil neste ponto, esta manhã, antes de começar a festa. Parecia ter medo de que eu acreditasse. Mas não acredito. Ela acredita. Parece que os ciganos vêem qualquer coisa. Ou pressentem. Como os cães de caça. E as percepções extra-sensoriais? E quanto às blasfémias? Ela não me quis dizer adeus porque sabia que fazendo-o a «coelhinha» não se afastaria. Aquela Pilar! Ajeita-te, Jordan». Mas não tinha ânimo para o fazer. Lembrou-se de que tinha no bolso um frasco e pensou: vou tomar uma dose deste matador de gigantes e depois expe446 rimento. Mas o frasco não estava no bolso. Sentiu-se então muito mais só ao verificar que nem aquilo poderia ter. «Desconfio muito que contava com ele», murmurou. «Julgas que foi o Pablo que o levou? Não digas absurdos. Deves tê-lo perdido na ponte. Vamos lá, Jordan. É preciso agir». E segurando a perna esquerda com ambas as mãos, encolheu-a com força, sempre encostado à árvore. Depois deitou-se e fazendo força para que a parte quebrada do osso não se movesse e dilacerasse a coxa, virou-se devagarinho sobre os rins até ficar de face para a descida da encosta. Depois segurando a perna partida com ambas as mãos, no sentido ascendente da encosta, conseguiu meter a sola do pé direito na parte interna do pé esquerdo e aumentou a pressão até que, banhado em suor frio, se virou de bruços. Apoiou-sc então nos cotovelos, esticou a perna esquerda para trás com ambas as mãos e com um empurrão do pé direito, encostou-se onde


queria, banhado em suor. Apalpou com os dedos a coxa esquerda: tudo ia bem. A ponta do osso não tinha rasgado a pele e a extremidade partida estava mergulhada no músculo. «O nervo principal deve ter-se estraçalhado quando aquele maldito cavalo me ca~'u em cima. Não sinto a menor dor. Só quando me mexo. E quando o osso vai de encontro a qualquer coisa. Estás a ver?-disse ele.-Estás a ver o que é sorte. Nem sequer precisas do matador de gigantes». Apanhou a metralhadora, tirou o carregador que estava no depósito, tirou outros do bolso, examinou o cano, meteu um carregador e olhou para a encosta. Talvez uma meia hora, pensou. Agora não te preocupes. Olhou o fi~>nco da montanha, os pinheiros e tentou não pensar em nada. Olhou o ribeiro e lembrou-se de como corria debaixo da ponte, e a frescura da sombra. «Desejo que venham, -reflectiu. -Não quero que venham quando eu estiver fora de mim. «Quem aceitará melhor este momento? Os religiosos ou os que encaram a morte de frente? A religião conforta muito, mas nós sabemos que não há nada a temer. A saudade é que é o pior. Morrer só é mau quando demora muito tempo e faz sofrer tanto que nos oprime. E nisto tu tiveste muita sorte, vês? Nada desse género acontece contigo. «É extraordinário que eles tenham fugido. Agora já não me importo, porque já não estão aqui. Era o que eu tinha previsto. É verdadeiramente assim. Imagina que eles estivessem todos por aí, espalhados pela colina, mortos como o meu 447 cavalo. Ou se estivessem todos agrupados, à espera do fim. Não. Partiram. Estão longe. Se o ataque resultasse! O que é preciso? Tudo? -Quero tudo e tomarei o que tenho. Se este ataque falhar, outro resultará. Eu não percebi quando foi que os aviões voltaram. Deus, que sorte ter podido rebentar a ponte! «Gostaria de falar disto ao avô. Aposto que ele nunca atravessou uma estrada, para encontrar a sua gente e fazer uma coisa igual. Mas como o sabes tu? Talvez tenha feito mais de cinquenta. Não. Não exageres. Ninguém fez cinquenta coisas iguais a esta. Nem mesmo cinco. E talvez ninguém a tenha feito igualzinha a esta. No fundo estou certo que não. «Eu queria que eles chegassem. Que viessem já, porque a perna me está a começar a doer. Deve ser o inchaço. «Nós íamos admiràvelmente bem quando a granada me atingiu. Mas foi sorte não ter acontecido quando eu estava debaixo da ponte. Quando uma coisa está errada, pode acontecer uma coisa assim. Tu estavas perdido quando Golz deu aquelas ordens. Tu sabia-lo e foi provàvelmente o que Pilar sentiu. Mais tarde, as coisas hão-de ser melhor organizadas. Havemos de ter emissores de ondas curtas. Sim, há uma porf&q de coisas que deveríamos ter. E devias ter uma perna sobressalente, também.» Riu-se. Mas suava muito porque a perna lhe começava adoer.«Oxalá cheguem, -pensou. -Não tenhovontade de fazer como meu pai. Se for preciso, fá-lo-ei, mas prefiro não o fazer. Sou contrário a isso. Não penses nisso. Não penses em nada. Porque não aparecem estes bandalhos? Gostaria tanto que viessem!» A perna estava, agora, a doer-lhe muito. A dor viera súbitamente com o inchaço, quando se mexera e fê-lo dizer consigo que o melhor era pôr fim àquele sofrimento. «Creio que não tenho a têmpera necessária para resistir às grandes dores. Ouve, se eu fizer isso agora não vais interpretar mal? hem? Com quem estás afalar? Com ninguém. Talvez ao meu avô. Não. Com ninguém. Oh! Mierda. Porque não chegam eles agora ?


«Ouve, talvez me convenha fazê-lo, porque-se desmaio, ou me sucede qualquer coisa deste género, deixo de ter préstimo, e eles fazem-me recobrar a consciência para me virem com um mar de perguntas e far-me-ão coisas pouco agradáveis. Mais vale que eles não te possam fazer nada. Nesse caso porque não acabar com tudo de unia vez e então tudo estaria acabado? Porque, olí, escuta, sim, ouve, deixa-os vir agora. 448 «Tu não és muito bom para isto, Jordan. Não és bom. E quem o é? Não sei nem me importa sabê-lo. Mas tu não o és. É verdade. Em absoluto não o és. Oli, nada, mesmo nada. Creio que é agora o momento de tomar a decisão. Porque não a tomas? «Não, não é ainda. Porque há ainda qualquer coisa que tu podes fazer. E tanto como sabes o que é, deves fazê-lo. Enquanto pensas assim tens de esperar para o fazer. Que venham, que venham. Deixa-os vir! «Pensa nos companheiros em marcha. Pensa neles varando a floresta. Pensa neles atravessando um ribeiro. Pensa neles cavalgando pelo meio das urzes. Pensa neles subindo uma encosta. Pensa neles viajando a noite inteira. Pensa neles a ocultarem-se pela manhã. Por Deus! Pensa neles. É tudo o que Posso fazer Para Pensar neles,»-disse consigo. «Pensa em Montana. Não posso. Pensa em Madrid. X6 posso. Pensa num copo de água fria. óptimo. É assim que será. Como um copo de água fria. És um mentiroso. Será igual a nada. É assim que será. Nada, nada. Então suicida-te. Suicida-te. Vamos, agora. O bom momento é agora. Não precisas esperar. Para quê? Sabes muito bem. Então, espera. «Não posso esperar muito tempo, agora. Se esperar mais tempo, desmaio. Sei disso porque já por três vezes me senti desmaiar e segurei-me. Segurei-me bem. Mas não sei se posso aguentar-me mais. O que me parece é que tenho uma hemorragia interna no local da fractura interna. Sobretudo quando te mexeste para te pores de bruços. Veio daí o inchaço e a fraqueza e o princípio de desmaio. Agora é que o devias fazer. É na verdade o mais certo. «Mas se tu esperares e os puderes retardar um pouco e se abates o oficial, a diferença pode ser grande, uma coisa bem feita pode... «Está bem, sentenciou. - Deixou-se ficar estendido, imóvel, procurando reter o que sentia fugir-lhe, como acontece quando a neve começa a escorregar no declive de uma montanha e disse: -agora calma; depois: oxalá aguentes até eles chegarem.» A sorte de Robert Jordan era de boa qualidade porque nesse momento viu a cavalaria sair da floresta e cruzar a estrada. Ficou a vê-la subir a encosta. Viu um soldado deter-se junto do cadáver do cavalo baio e gritar para o oficial, que se dirigiu a ele. Ambos ficaram a olhar o cavalo. Sem dúvida o reconheceram porque aquele animal e o seu cavaleiro tinham desaparecido na madrugada da véspera. Robert Jordan via-os na encosta, perto dele agora; e mais abaixo via a estrada e a ponte e as compridas filas de veículos. 449 Sentia-se perfeitamente consciente e absorveu com os olhos tudo quanto tinha diante de si, Ergueu-os para o céu. Boiavam no alto grossas nuvens brancas. Com a mão apalpou as agulhas de pinheiro que atapetavam o chão e depois a casca do pinheiro atrás do qual se deitara. Depois arrumou-se o melhor que pôde, os cotovelos fincados na caruma e encostou o cano da metralhadora ao tronco da árvore. O oficial pusera-se a seguir o rasto dos animais do bando; iria passar uns vinte metros acima de


Jordan. Àquela distância um tiro não era problema. O oficial era o tenente Berrendo. Tinha vindo de La Granja depois de lá terem recebido as primeiras notícias do assalto ao posto de baixo. Tinham galopado duramente e tiveram que voltar para trás quando encontraram a ponte destruída; voltaram para atravessarem a vau mais acima e regressar através dos pinheiros.. Os cavalos estavam estafados e suarentos e tinham que ser esporeados para se conservarem no trote. O tenente Berrendo subia com os olhos nos rastos dos cavalos; o seu rosto magro estava sério e grave. Trazia a metralhadora atravessada na sela, a coronha apoiada no braço esquerdo. RobertJordan estava deitado atrás da árvore, esforçando-se por conservar as duas mãos firmes. Esperava que o oficial passasse naquela aberta batida pelo sol, onde os pinheiros da mata marginavam o prado. Sentia o coração pulsar contra o solo da mata, coberto de caruma.

Por Quem Os Sinos Dobram (Ernest Hemingway)  

Nenhum homem é uma ILHA isolada; cada homem é uma partícula do coNTineNTE, uma parte da TERRa; se um torrão é arrastado para o MAR, a EUROPA...

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