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viana do alentejo | boletim municipal

Olhar o Concelho

Gadanha A partir do início de Fevereiro, quando a temperatura aumenta e há normalmente menos geadas, costuma-se guardar ou reservar área da propriedade onde o gado de pastorícia não entra mais. Há quem lhe chame coutada. Sempre que possível ocupam várzeas ou vales que é onde os solos são formados por terra limosa proveniente de escorrências e portanto com propensão a manter-se húmido por muito tempo. Nessa área as ervas espontâneas, formadas por um número enorme de variedades, crescem à vontade e proporcionam uma grande quantidade de alimentos de bom “prôvo”. Estes alimentos deverão ser guardados e distribuídos aos animais em épocas de difícil obtenção no campo. Em finais de Abril contrata-se um grupo de homens para irem gadanhar ou cortar essa área de ervas guardadas. Cada homem leva a sua gadanha que é composta por uma folha semi-circular de aço com cerca de 90 cms de comprimento terminando em bico. No outro extremo da folha é fixado um pau com 1,5 m o qual termina num pequeno apoio para a mão; tem a meio outro apoio para a outra mão, ficando a mão esquerda no da ponta e a direita no do meio (se não for canhoto). O gadanheiro deve levar, além da gadanha propriamente dita, o material inerente à sua conservação. Como é um instrumento cortante que funciona a uma certa distância dos olhos do operador, são inúmeras as vezes que bate numa pedra ou num cepo de árvore cortada que se ocultam na erva. A folha fica ofendida e há que repará-la. Esta operação é feita no local com a ajuda de uma pedra de amolar (xisto ou lage), um martelo e uma safra. Esta é um pedaço de ferro com um palmo de comprimento afilado o suficiente para penetrar na terra até 2/3, local onde tem umas orelhas que a impedem de maior penetração. No topo superior, que é liso, coloca-se a folha e com o martelo bate-se

de maneira a que a folha fique afiada transformando-a numa linha irregular e fraturada (como que serrilhada). Com a pedra de afiar (que está metida numa bolsa – que pode ser corna – com um pouco de óleo) dá-se os últimos retoques. O gadanheiro com movimentos semi-circulares, movimentando a gadanha da esquerda para a direita – de revés – como que deita a erva com as costas da folha e imediatamente num movimento em sentido contrário (e com a perna direita mais à frente) corta a erva que fica tombada sobre o solo, ao mesmo tempo que avança um passo para novo ataque na operação do corte. Entretanto, a erva gadanhada vai secando e quando se achar que está capaz de se enrolar, far-se-á molhos que irão seguidamente ser transportados em carretas ou carros de varais para formar medas de feno junto das arramadas. Com o aparecimento das gadanheiras mecânicas o rendimento é enorme, sendo depois seguido de enfardadeiras que proporcionam uma melhor acomodação (economia de espaço) e rápido transporte, correndo-se num risco menor de se estragar o feno com as chuvas que são normais nesta época do ano, que mais não sejam as trovoadas. Há máquinas modernas que utilizando o vapor de água, além de cortarem a erva, comprimem-na ficando em “rolhas” de pequenas dimensões e apetecíveis para os animais. Por Gonçalo J. Cabral Engenheiro e investigador local

*Este artigo não utiliza as normas do novo acordo ortográfico

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Setembro 2014  

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