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Olhar o Concelho

À Roda do Monte I Na década de sessenta apareceram as ceifeiras-atadeiras que cortavam os cereais encaminhando-os num estrado de lona onde os ajeitava em molhos que eram atados com cordel, substituindo o trabalho manual da foice e o dobrar da espinha durante horas sob sol escaldante. Esse cordel que era feito de sisal era comprado no Grémio da Lavoura aos rolos. Esses molhos de “pão” eram de pois carregados em carretas de bois ou parelhas de muares ou mais tarde em roulottes de tratores para as eiras onde esperavam em frascais que fossem debulhados na debulhadora-fixa. Ao entrarem na debulhadora o homem-alimentador recebia os molhos e com uma foice cortava o cordel, que depois os unia, e punha-os de lado ou entregando-os a outro homem que os metia em sacos de juta vazios de semente. Mais tarde quando a faina da debulha e do carrego das palhas e sementes terminava, aparecia um homem perguntando por cordel. Esse homem – o cordeiro – nego­ ciava o valor da sua mão-de-obra e depois instalava uma roda de madeira, que transportava às costas de uma muar ou num carro de varais, numa posição perpendicular ao caminho e atando cordéis a uma argola de prender os burros à parede ou a um chaparro e, num movimento lento mas certo, começava a rodar a roda sempre no mesmo sentido e ia metendo os cordéis unidos uns aos outros. Com o deslocar da roda ia esticando uma corda que saía da referida junção dos cordéis que se enrolavam. Essas cordas iriam servir para fazer cabrestos e arreatas para as muares as mais estreitas, e para atar as cargas nas carroças ou para as cegonhas ou picotas as mais grossas e os bocados das finas serviam para remendar os bardos das ovelhas. Com o aparecimento das ceifeiras – debulhadoras foram

postas de parte as ceifeiras – atadeiras e como tal desapareceu o uso dos cordéis de sisal e por consequência os cordoeiros não mais foram vistos no Alentejo. As cordas de sisal foram substituídas por cordas de plástico. Nos montes com alguma dimensão tinham uma ou duas mulheres, com mais idade, que pacientemente aplicavam remendos nas sacas de semente, que devido ao ataque dos ratos lhes tinham feito buracos. Esses sacos eram feitos de juta e vinham com adubo (o célebre 18) para ser aplicado antes da sementeira e tinham uma capacidade para cem quilos e que iriam receber semente depois da debulha e ficavam com oitenta quilos de trigo e um pouco menos de cevada e de aveia. Mais tarde apareceram as sacas de adubo de cinquenta quilos feitas em plástico, tendo as de juta lentamente desaparecido. Nos montes também havia quem ocupasse o tempo fazendo cestos – os cesteiros – com canas cortadas com afiadas facas; ou cirandas e cabanejos de varas de oliveira entrelaçadas e que eram muito usadas na azeitona ou na vindima. Mulheres mais velhas entretinham-se a “abrir” a lã dos colchões ou a palha de milho dos mesmos ou a preparar novos com material do ano pois os anteriores já estavam a apodrecer com a humidade das casas de telha-vã. Ninguém ficava parado nos montes salvo na hora da sesta que era sagrada pois até os galináceos dormitavam à sombra das carroças ou da pipa ou da latada de vinha que estava à frente da porta do monte sobre os poiais. Por Gonçalo J. Cabral Engenheiro e investigador local

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Boletim Municipal de Viana do Alentejo Setembro 2013  

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