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içã

3. a ed

Secreta

3


Capítulo

1

Zumbidos no ginásio

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— Estamos quase a chegar à última paragem do autocarro, mas depois ainda temos que andar um bocadinho até ao ginásio — informou o Chico com ar descontraído, para ngir que não fazia mal ser tão longe. Os outros encolheram os ombros e as gémeas reclamaram: — Por que é que resolveste praticar karaté em cascos de rolha quando há montes de ginásios e de clubes muito mais perto? — disse uma. — O ano passado andavas num sítio óptimo. Não percebo por que é que queres mudar. — Vocês estão a queixar-se e aposto que ainda se inscrevem em qualquer coisa. — Nem penses! — Penso, penso. Quando virem o espectáculo das salas de treino e conhecerem o professor, aposto que mudam de ideias. — Tu já lá foste? — perguntou o Pedro. — Não. Os outros riram-se. Aquilo eram mesmo coisas do Chico. — Se nunca lá foste, como é que sabes que é tão bom? 10


— Foi o treinador do ano passado que me disse. Este ginásio pertence a um tipo fora de série no karaté, que pode fazer de mim campeão internacional. — Ó Chico, lá estás tu com manias loucas! — Loucas, nada. Daqui a um ano ou dois, já estou nos melhores campeonatos, vocês vão ver. O autocarro deu uma guinada para a direita, travou e depois parou numa pequena praceta onde havia algumas casas velhas. A cidade acabava ali. Para a frente estendiam-se campos em plena transformação, campos cheios de buracos enormes onde apareciam ferros, madeiras, tijolos, uma ou outra coluna de cimento a indicar que se começara a construir um prédio ou um centro comercial. João olhou em volta admirado, e como não viu nada que se parecesse com um pavilhão desportivo virou-se para o Chico. — Olha lá, tens a certeza de que o tal ginásio já está pronto? — Tenho, claro que tenho — respondeu ele sem vacilar. — As inscrições abriram ontem. — Se calhar deram-te a morada errada. — Não deram. — Então onde é? — Deve ser atrás daquele armazém, venham. O armazém de paredes sujas e vidros partidos era o que restava de uma antiga fábrica que agora servia para os operários guardarem sacas de cimento, ferramentas e outros materiais. — Quando estiver tudo pronto deitam aquilo abaixo e fazem um jardim ou qualquer coisa 11


parecida — declarou o Chico. — Este bairro novo vai ter tudo e mais alguma coisa. Já cá está o ginásio, para o terreno ao lado parece que programaram uma piscina olímpica. — Acho um bocado esquisito — atalhou o Pedro. — Esquisito porquê? — Porque começaram ao contrário. Era muito mais normal fazerem primeiro as casas, e quando houvesse pessoas a morar aqui faziam o resto. — Ora, ora! Isso era dantes. Agora fazem assim para facilitar a vida — insistiu o Chico, não porque estivesse muito convencido mas porque não queria que os amigos desanimassem. — Mexam-se, senão quando lá chegarmos já fechou. Acelerando o passo obrigou os outros a acelerarem também, mas os resmungos continuaram: — Que disparate! — Não devíamos ter vindo à toa! Chico não ligou e só se deteve depois de contornar o armazém. — Olhem! O ginásio lá estava. Era um edifício moderníssimo, que no meio de construções meio acabadas e de outras meio começadas parecia realmente sensacional. Naquele momento o Sol descia no horizonte e os últimos raios tocavam nos vidros, fazendo-os brilhar em tons de ouro muito bonitos. A curiosidade invadiu-os, apeteceu-lhes imenso ver por dentro, esqueceram as reclamações e avançaram. Mas João, seguindo o seu impulso natural de amor aos animais, deitou uma olhada 12


em volta à procura de algum gato vadio ou cão abandonado que por ali andasse. Anal deparou com uma abelha, uma estranha abelha que voava sem sair do mesmo lugar. E o mais esquisito era não haver nas imediações uma única or ou planta cheirosa que pudesse interessar-lhe. Pairava sobre terra lisa. Um pouco adiante viu outra exactamente na mesma posição. Tal como a anterior, vibrava e emitia um ligeiro, ligeiríssimo zumbido. Intrigado, chamou os amigos. E eles também se admiraram, porque não eram só duas, eram várias abelhas em la indiana a vibrar e a zumbir como se estivessem pousadas num o invisível e comunicassem entre si. O grupo parou um instante a observar o fenómeno. — Que será que estão a fazer? — Nunca vi uma coisa assim. — Serão mesmo abelhas ou serão vespas? Analisando com atenção as riscas amarelas e pretas, concluíram tratar-se de abelhas. — Deve haver aqui na zona uma colmeia. — E se calhar estão a mandar mensagens à abelha-mestra... — Se eu as enxotasse, a ver o que acontece? — Não faças isso. É melhor deixá-las em paz, senão ainda levas uma ferroada. Retomaram a marcha com a atenção dividida entre o edifício espampanante que tinham pela frente e as misteriosas abelhas que planavam em linha recta mesmo ao lado, sem no entanto atribuírem demasiada importância ao caso. Mas no momento em que entraram no ginásio o caso 13


mudou de gura, porque o único homem que se encontrava lá dentro estava muito quieto, de olhos xos no chão, e os seus lábios entreabertos produziam um ruído suave e contínuo quase igual ao zumbido das abelhas. A cena inesperada deixou-os pasmados e imóveis. O homem não reagiu à presença do grupo, não moveu um só músculo, nem sequer pestanejou, mas o zumbido tornou-se mais suave: — Bzzz... O sol deslizava nos vidros, a sala ia-se enchendo de sombras e o tempo ia passando sem ninguém falar, sem ninguém se mexer. Quem os visse de longe teria dúvidas se eram gente de carne e osso ou estátuas. De repente, porém, ouviu-se um estrondo nas traseiras, logo seguido do tilintar próprio de vidros a partirem-se em estilhaços. O homem então deu um salto incrível, correu para o fundo da sala, empurrou a pontapé uma porta de mola e desapareceu, soltando aquilo que agora lembrava um berro de elefante enfurecido: — Uâáá. — Deve ser o professor! — exclamou o Chico, já excitadíssimo. — No karaté dão-se berros assim. Venham! Vamos ver o que se passa! A porta de mola comunicava com uma outra sala de onde partiam escadas para cima e para baixo. Ali ouviam-se perfeitamente ruídos que só podiam ser de luta. Chico concluiu que se tratava de um assalto e desatou numa correria, orientando-se pelo som. — Venham! Temos que ajudar o professor! Os outros seguiram-no indecisos. Não co14


nheciam aquele homem de parte nenhuma, nem sequer podiam ter a certeza de que fosse ele o professor, e também não sabiam qual o verdadeiro motivo da pancadaria. — Este Chico é de mais! Basta sentir o cheiro de briga e lá vai ele! — Agora resolveu tomar partido por um «maluco zumbidor». Isto só a nossa paciência. A balbúrdia continuava, de vez em quando cortada pelo tal berro tipo elefante raivoso: — Uâáá. — Onde é que eles estão? — perguntou o Pedro à toa. As gémeas, atarantadas, abriram a porta do balneário das senhoras e foram violentamente empurradas por um marmanjo que devia estar escondido lá dentro. Vestia fato de treino, tinha a cara tapada com um pano preto e a cabeça protegida por gorro de lã às riscas amarelas e pretas. — Quem é você? — berrou a Teresa. Em resposta, apanhou um bofetão que a deixou agarrada à cara. Os amigos nem tiveram tempo de reagir porque o tipo grunhiu qualquer coisa incompreensível e pôs-se em fuga, directo para a janela que cara sem vidros. Nesse momento apareceu o Chico, espavorido. — Agarra-o! Dá-lhe uma coça! — pediu a Teresa. Chico obedeceu da melhor vontade e atirou-se contra o intruso. Mas era tarde de mais, porque ele já tinha alçado uma perna para o lado de fora. Vendo que não conseguia segurá-lo, Chico optou por lhe aplicar um murro nas costas que o 15


fez sair disparado pela janela e estatelar-se alguns metros adiante. — Ao menos vai aviado! — exclamou esfregando as mãos. — Transformei-o num míssil e deve ter cado todo partido. Pedro e João debruçaram-se no parapeito a tempo de ver o gorro às riscas amarelas e pretas desaparecer entre pilares de cimento. — Bom, não cou todo partido mas pelo menos as gémeas estão vingadas. — E nós impedimos um assalto. — Achas? — perguntou a Luísa. — Pois eu não tenho a certeza e quero ir-me embora; isto não é um ginásio, é uma casa de doidos. — Espera, deixa-me ao menos falar com o professor. — Qual professor? Eu só vi um «maluco zumbidor» que se pôs aos berros e sumiu. — Talvez seja doido. — Se calhar até foi ele que se meteu no balneário para nos pregar um susto. — Não digam disparates! O professor deve estar para aí aos murros noutro assaltante. — Então fechou-se com ele numa despensa, porque não se ouve nem ai nem ui. De facto assim era. Teresa e Luísa, desconadas com a calmaria, insistiram: — Vamos embora, vamos embora! — E não participamos o assalto? — perguntou o Chico. — É melhor não. Isto deve ter sido um ajuste de contas entre bandidos, ou outra coisa qualquer, e ainda nos metemos em alhadas — disse uma. 16


— Eu também acho — concordou a outra. — Aliás, ninguém assalta ginásios porque não há nada para roubar, e os ladrões sabem isso muito bem. O que é que podiam levar? Os colchões? Os aparelhos, que pesam toneladas? — Pode haver dinheiro na gaveta, dinheiro das inscrições. — Fantasias, Chico! Isto com certeza ainda não abriu ao público. Só tu é que te lembravas de praticar karaté num bairro que ainda não existe! A discussão foi interrompida por uma nova série de pancadas surdas, berros e autênticos guinchos de chimpanzé soando por cima da cabeça deles. — Não sabes o que se passa aqui? — perguntou a Luísa. — Pois eu acho que sei. Vimos um tipo a zumbir, outro que saiu em voo picado e agora estamos a ouvir a cantiga da selva... A frase cou a meio porque viu ela e viram todos através da janela sem vidros um corpo em queda livre. Devia ter sido projectado da janela do andar de cima, esbracejava e esperneava; por sorte estatelou-se num contentor a abarrotar de lixo mole. Encostadas ao parapeito, viram-no endireitar-se e pôr-se imediatamente em fuga na mesma direcção do indivíduo que tinha o gorro às riscas amarelas e pretas. — Talvez seja melhor irmo-nos embora — concordou nalmente o Chico, ainda mal refeito da surpresa. Nesse momento, porém, ouviram passos. Passos que se aproximavam, ao de leve. — Quem será agora? — perguntou o João em surdina. 18


Cap铆tulo

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Sair贸

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O homem que lhes apareceu pela frente era o mesmo que tinham visto a zumbir à entrada do ginásio. Trazia a roupa em desalinho, o cabelo em pé, um olhar inquieto, e caminhava à pressa. — Obrigado, obrigado pela ajuda, vocês são formidáveis — balbuciou sempre a andar. — Eu volto já. Esperem por mim. A maneira de se mexer, muito ginasticada, levou-os a pensar que se tratava do famoso professor. E os agradecimentos pareciam dar razão ao Chico; talvez tivesse havido uma tentativa de assalto. Pensaram então que o professor resolvera ir passar revista a todos os recantos para se certicar de que não havia mais ladrões escondidos, e seguiram-no, já dispostos a ajudarem no que fosse preciso. Mas não o encontraram. — Onde será que ele se meteu? — Não sei, e como estou farto de andar às voltas, vou chamá-lo. — Como é que o chamas, se não sabes o nome? — Há várias hipóteses. Se eu gritar «ó professor», «ó mestre», «ó mister», aposto que ele responde. 20


Enquanto Chico e as gémeas se entretinham a desconversar, Pedro e João preferiram ir dar mais uma espreita e chegaram a uma sala que comunicava com o balneário dos homens. Ambos viram por uma frincha o professor debruçado no lavatório. — Ficou maldisposto com a pancadaria. — Se calhar apanhou um murro no estômago e deu-lhe vómitos. João recuou para não ser indiscreto, mas o Pedro ainda deitou uma última mirada pela frincha. Para seu grande espanto, vericou que o professor já não estava debruçado, estava abraçado ao lavatório. E mais! Tinha a cara encostada à loiça e passeava a palma da mão direita pelo rebordo, como se aquilo não fosse um objecto mas sim um animal ou até uma pessoa a quem desejasse consolar. Tão confuso cou que nem comentou; limitou-se a esfregar os olhos por baixo dos óculos e a pensar de si para consigo: «Talvez eu não tenha visto bem... Ou talvez o homem esteja à procura de qualquer coisa que lhe caiu para o lavatório, um anel ou assim.» Pouco depois o professor apresentava-se ao grupo numa disposição completamente diferente. Ajeitara a roupa, tinha-se penteado, mas não eram esses pormenores que faziam a diferença. Era o ar de alívio e o sorriso a transbordar simpatia. Inclinou a cabeça à maneira dos japoneses e apresentou-se: — Chamo-me Edmundo. Falava com sotaque e usava frases pouco vulgares. 21


— Foi o destino que vos trouxe até mim num momento difícil. Sinto-me feliz porque «quem faz amigos ao entardecer, não mais os poderá esquecer». O seu olhar aveludado deslizou sobre a cara deles e deteve-se nas gémeas com uma expressão de surpresa agradável. Teresa e Luísa pestanejaram envergonhadas, e o Chico, para cortar o embaraço, fez uma pergunta básica: — É o dono do ginásio? — Não. Estou aqui só para fazer um... a... estágio. — Como deu aquele berro, julguei que fosse professor de karaté. — Não te enganaste completamente. Eu não dou aulas mas pratico e já atingi o nível de perfeição que me interessa. — É cinturão negro? — Sou. Não havia a menor vaidade ou gabarolice na sua voz. — Eu vinha inscrever-me — arriscou o Chico. — E fazes bem. Tens físico, músculos e energia suficiente para te tornares campeão. Se te aplicares, depressa te chamam para a selecção nacional. — Acha? — Não acho, tenho a certeza. Os outros caram perplexos com a armação. Se ele nunca vira o Chico mais gordo, não seria abusivo fazer previsões tão optimistas? 22


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