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10 .a ed içã o

no Teatro

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CapĂ­tulo

1

Uma vaga de assaltos


— Teresa! Olha! Olha para ali! A Luísa abriu a janela do carro para ver melhor, e a irmã inclinou-se para espreitar também. Uma barafunda inexplicável desencadeara-se subitamente na bomba da gasolina, onde o pai tinha enfiado o carro à espera de vez. — Socorro! Socorro! Salvem-me! O pai das gémeas saiu do automóvel disposto a ajudar, embora não soubesse quem. Uma voz de mulher gritava freneticamente, e vários automobilistas apearam-se movidos pela curiosidade. Naquelas bombas não havia empregado. O sistema era muito moderno, cada condutor servia-se a si próprio e depois ia pagar a uma casota de vidro onde uma empregada recebia o dinheiro e ainda vendia bolachas, chocolates, pastilhas e acessórios de automóvel. Além dela, só ali trabalhava um homem, na lavagem automática. — O que foi? O que foi? — Estão a atacar a mulher? Dos carros saíam já famílias inteiras, fazendo perguntas e comentários acerca do estranho comportamento da funcionária, que finalmente apare10


ceu a correr, desgrenhada e aflita! Atrás dela, um cão, nem muito grande nem muito pequeno, todo malhado e com um ar feroz, saltava, ora aproximando-se ora afastando-se, e sempre que a conseguia atingir arrancava-lhe um bocado da saia. — Ai! Ai! Ajudem-me... Dois ou três homens tentaram interferir, mas não foi possível porque o cão parecia louco! Ladrava, rosnava, arreganhando o focinho já coberto de baba. E sempre aos saltos! — Achas que o cão está raivoso? — perguntou a Luísa, empalidecendo. — Não sei... Não tem coleira, se calhar não está vacinado... — Pai! — gritaram em coro. — Venha para dentro! Olhe que a raiva não tem cura. O pai riu-se. — Não tem cura, não é bem assim! Se se fizer o tratamento dentro do prazo... — Mas é um tratamento horrível! — Deixem-se de tragédias. Eu vou ajudar aquela infeliz! Mas não foi possível. A pobre mulher, na sua aflição, não viu bem para onde ia e meteu-se pela zona da lavagem automática que estava a funcionar... Um magote de gente acorreu, para a verem sair do outro lado... e tiveram de se conter para não rir quando ela apareceu a esbracejar, encharcada, com flocos de espuma no cabelo e na roupa. — Agarrem-me essa fera! Salvem-me... Um rapaz mais expedito acotovelou os outros, 12


empunhando uma rede de campismo com que tencionava imobilizar o cão. Mas mais uma vez não foi possível, porque o animal pura e simplesmente desaparecera. — O cão? — Onde está? — Cuidado que ele é perigoso... Algumas pessoas regressaram aos carros apressadamente, receando-o mais agora, que não sabiam onde ele estava, do que quando o tinham debaixo de olho! Precaução desnecessária. O bicho sumira-se sem deixar rasto. A Teresa e a Luísa já se instalavam confortavelmente no banco de trás, enquanto o pai enchia o depósito, quando os gritos recomeçaram, mas agora de outra ordem. — Roubaram-me! Iiui... estou desgraçada! Roubaram o dinheiro todo que eu tinha na caixa! Oh, sorte maldita! — Só faltava mais esta para perdermos tempo! — resmungou o pai das gémeas. — Hoje não há maneira de chegarmos a casa. Primeiro um cão raivoso, depois um ladrão... oh, que maçada. — Ó pai! Francamente! Coitada! — Coitado mas é de mim que estou aqui a secar há horas, depois de um dia de trabalho! — Isto nem parece seu! — Não tem pena dela? — Claro que tenho, mas estou farto deste programa, pronto! Com um encolher de ombros impaciente, 13


atirou com a porta e foi tentar pagar. Claro que a mulher nem para ele olhou, continuando a lamentar-se à volta da caixa registadora, como se os seus gritos pudessem fazer reaparecer o dinheiro. Só quando, nessa noite, as gémeas e o pai comentavam com a mãe o sucedido é que se lembraram de que o roubo só tinha sido possível graças à acção daquele cão vadio. — Foi com certeza alguém que estava por perto e aproveitou a oportunidade! — Mas não é estranho que ninguém tenha visto? Estava ali tanta gente! — Isso é verdade, mas, com a mulher aos gritos e o cão aos saltos, o tipo deve-se ter apercebido de que não estava ninguém a reparar nele, e zás! — disse o pai. — Foi-se à caixa e limpou-a de uma penada. — Anda para aí uma ladroagem infernal! — queixou-se a mãe. — Olha que o lucro não deve ter sido pequeno, hã? — Pois não. As bombas da gasolina recebem dinheiro constantemente! A Luísa riu-se. — Já viste, Teresa? Toda a gente ganha dinheiro ao mês, ou então à hora. Mas as bombas de gasolina ganham ao minuto! — Ganham as bombas, mas não ganham as pessoas que lá trabalham. — Pois não. 14


A Luísa virou-se para o pai: — Ó pai, nunca tinha pensado nisto. Quem é que fica com o dinheiro das bombas de gasolina? — Se calhar cada uma tem o seu dono, é? — perguntou a Teresa. Os pais riram-se, mas não puderam esclarecê-las porque tocou o telefone. — É para vocês. A Teresa e a Luísa saltaram ao mesmo tempo, radiantes. Como era costume brigarem para atender quem lhes telefonava, o pai trouxera de surpresa um telefone com um auscultador normal e mais outro suplementar. Assim podiam as duas ouvir, embora só uma falasse. — Está? — disse a Luísa. Do outro lado do fio a voz do João soou excitadíssima. — Vocês não vão acreditar — disse ele. — Mas sabem o que eu vi? — Não. — Um assalto. — Também nós! — berraram as gémeas. — Oh! Não acredito. Vocês estão a gozar! — Palavra! O nosso foi numa bomba de gasolina. E o teu? — O meu? Eu não assaltei ninguém — brincou o João. — Claro, não sejas parvo! Diz lá o que é que viste? — Foi incrível — começou ele. — Eu ia com o Faial pela rua e, de repente, vi um cão entrar numa ourivesaria... 15


— Um cão? Como era o cão? — perguntou a Luísa, já de orelhas no ar. — Era pequeno. — Tinha o pêlo malhado? — Não. Era preto retinto. — Ah! Então não era o mesmo! — Por que é que estás a dizer isso? — Porque no «nosso assalto» também apareceu um cão, mas tinha o pêlo às manchas. A Teresa aproximou a cara do bocal: — Deixa lá, João! Conta tudo o que viste, e depois contamos nós. — Olha, fartei-me de rir — confessou ele. — O cão entrou numa ourivesaria pequenina, aquela da esquina, sabem? — Sim, e depois? — Depois mordeu em toda a gente, atirou-se ao dono da loja, entrou na montra... uma barracada! E, quando finalmente o enxotaram, tinha desaparecido um molho de fios de ouro! As gémeas entreolharam-se, murmurando: — Estranha coincidência! Iam elas a começar o seu relato, quando o pai se endireitou na cadeira e gritou: — Meninas! Venham! Venham ver isto! No ecrã, a locutora informava os telespectadores com um meio sorriso profissional. «...hoje, ao fim da tarde, todas as caixas registadoras de um supermercado da capital foram assaltadas simultaneamente. Os ladrões aproveitaram um momento de grande balbúrdia, 16


quando um pequeno cão branco deitou abaixo uma pirâmide de garrafas de cerveja! O estrondo, os vidros partidos e o líquido entornado atraíram a atenção de empregados e clientes que assim deixaram campo aberto para os meliantes actuarem à vontade».

Pai, mãe e gémeas entreolharam-se espantados. E após um instante de silêncio, a Luísa exclamou: —Sabem o que me passou pela cabeça? Talvez se trate de uma quadrilha de cães! A família largou à gargalhada.

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Capítulo

2

Na SORECAL


Na manhã seguinte, o Pedro foi acordado pelo seu rádio-despertador e, ainda com um olho fechado e outro aberto, ouviu o relato detalhado da vaga de assaltos a que os amigos na véspera tinham assistido em parte. E o facto de tudo se passar com a intervenção de uma série de cães chamou-lhe a atenção e obrigou-o a acordar completamente. De um pulo pôs-se de pé, espreguiçou-se com volúpia e encavalitou os óculos no nariz. A seguir às notícias entrevistaram o dono da ourivesaria, que estava desesperado: — Já não nos bastava tanto malandro à solta — queixava-se o homem —, que agora até os cães vêm ajudar! Se não fosse aquele maldito rafeiro, posso garantir que ninguém punha a mão nos meus cordões de ouro, que a mim não me enrolam de qualquer maneira! O Pedro sorriu. A ideia de um grupo de cães treinados para assaltar lojas dava um título estupendo para um livro ou uma série televisiva: A Quadrilha Era Uma Matilha. Divertido com a ideia, foi-se meter debaixo do 20


duche com aquele slogan a matraquear-lhe o juízo. E, para grande espanto da mãe, acabou mesmo a cantar em tom de ópera: — «A matilha era uma quadrilha... A quadrilha era uma matilhaaa...» — Pedro! Estás doido? — perguntou, batendo à porta. — Despacha-te, que tenho de me ir arranjar! Ele saiu logo, enrolado num toalhão e sacudindo o cabelo com força. O telefone tocou naquele instante. Era o Chico. — Olá, pá! Bom dia... O que é que aconteceu para telefonares tão cedo? O Chico queria pedir ajuda. Um primo dele, que era carpinteiro de teatro, estava a montar um cenário e precisava de pessoas que lhe dessem uma mãozinha. As gémeas e o João tinham aceitado imediatamente o convite, porque a ideia de trabalhar na montagem de uma peça era aliciante. Talvez ele, Pedro, também quisesse ir. — Claro que vou. Espera por mim, que eu arranjo-me num instante! Tinham combinado encontrar-se no largo ao pé da papelaria. Quando o Pedro assomou ao fundo da rua, viu logo as gémeas a esbracejar. — Despacha-te! — Estamos fartos de estar aqui... — Não costumas ser tão molenga! — Ora esta! — resmungou o Pedro. — O Chico telefonou-me ainda agora, e eu nem sequei o cabelo e vim a correr todo o caminho! 21

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