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15 .a ed içã o

no estádio


CapĂ­tulo

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Um feriado chatĂ­ssimo

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— Teresa! Luísa! Venham cá! A mãe acabava de se arranjar à pressa, e circulava pela casa de banho, às voltas com as pinturas e a laca. — Está muito bonita! — exclamaram as gémeas. — Onde é que vai? — Vou ao aeroporto esperar a minha maior amiga dos tempos do liceu. — De onde é que ela vem? — Do Brasil. Casou com um brasileiro e há uma data de anos que não vem cá. Agora está aí para passar férias. — Férias nesta altura? — estranhou a Luísa. — Claro! Cá é Inverno, mas lá é Verão. Vem com o marido e o filho, para aproveitar as férias grandes. — E o filho que idade tem? — Não sei ao certo. Mas se julgam que é algum borracho para namoriscarem, tirem daí o sentido — brincou a mãe. — Ela casou muito depois de mim. O rapaz é mais novo que vocês. — Azar! — disse a Teresa. — Estávamos muito precisadas de amigos novos! 8


— Porquê? Zangaram-se com os vossos companheiros? — Não! Mas eles estão chatíssimos. O Chico inscreveu-se em não sei quantas modalidades desportivas, e ninguém lhe põe a vista em cima... — E o Pedro resolveu subir as notas. Não faz outra coisa senão estudar — Sobra o João... — O João? Esse anda sempre atrás do Chico. Vai assistir aos treinos e está à espera de vaga para se inscrever também não sei em quê. — Bom, o melhor que vocês têm a fazer é arranjar mesmo outros amigos. — Ah! Pois! É muito fácil... não haja dúvidas. — Esforcem-se, meninas! Na escola deve haver para aí mil e quinhentos rapazes e raparigas, alguém há-de servir! Admiradas, as gémeas olharam para a mãe. Os adultos às vezes dizem cada uma! Ela terminava o penteado; com um borrifo de laca, olhou-se no espelho, pareceu ficar satisfeita com o aspecto e despediu-se: — Até logo! E não desanimem! — acrescentou ainda, antes de bater com a porta. As gémeas arrastaram-se para a sala, mergulhadas no mais profundo tédio. Não sabiam o que haviam de fazer, e o pior de tudo é que não lhes apetecia fazer nada. A Teresa acendeu a televisão, mas o programa era sobre desporto. O desporto, que de momento lhe roubava os amigos. Irritada, deixou ficar a imagem mas tirou o som. 9


— Que estucha de feriado! — queixou-se à irmã. — Queres jogar às cartas? — perguntou a Luísa. — Não, não me apetece. — E se fôssemos fazer os trabalhos de casa? — Nem penses! Hoje é feriado, não tenciono estudar. — Mas amanhã temos aulas. — Quero lá saber! — Então vem comigo passear o Caracol. — Vai tu sozinha. Agora não estou para ir à rua... — Francamente! Já não basta o dia estar tão chato, ainda resolves armar em parva! A Teresa, amuada, não respondeu. — Pois vou mesmo à rua sozinha com o Caracol. Não estou para ficar aqui a aturar-te! E, prendendo a trela na coleira do cão, a Luísa saiu de casa batendo a porta com força desnecessária. A Teresa ficou sozinha, cheia de pena de si mesma. Uma raivinha surda crescia-lhe no peito. De certo modo, culpava o mundo inteiro por estar ali sem nada que fazer. O Chico e o João, porque nunca queriam combinar nada, sempre a correrem para o estádio. O Pedro parecia parvo, com a mania dos cincos! Para que é que lhe serviam tantos cincos? Se tivesse quatros, ou mesmo três, passava de ano na mesma... «Está-se a fazer um peneirento», pensou, sem a consciência da sua injustiça. O Pedro tinha sido sempre bom aluno, e nunca se armava em bom. 10


Pelo contrário, era discreto com os sucessos que obtinha e procurava, sempre que possível, ajudar os outros. — A mãe podia ter-nos levado ao aeroporto — disse em voz alta. — Sempre era melhor do que ficar para aqui a pasmar! Ou então dava-nos dinheiro para ir ao cinema. Afinal de contas, nunca vamos ao cinema. Nem ao cinema, nem a parte nenhuma! Quanto mais pensava mais a fúria crescia. Num gesto automático, pegou numa almofada do sofá e arremessou-a à televisão. Para seu grande espanto, no écran estava a cara risonha de um rapaz igualzinho ao Chico. De um salto, levantou-se e premiu o botão do controlo remoto. Sem querer enganou-se e apagou tudo quando queria ouvir-lhe a voz. — Bolas! Corrigiu rapidamente o engano, e lá estava outra vez a imagem do Chico! Era mesmo o Chico! Visivelmente satisfeito, respondia às perguntas do repórter sobre a preparação de um jogador de voleibol. — O essencial é o treino — explicava. Precisamos de muita elasticidade e espírito de equipa. — E treinam todos os dias? — Agora temos treinado todos os dias, porque estamos a preparar-nos para um campeonato... — E isso não prejudica os estudos? O Chico e os que estavam à volta riram-se, encolhendo os ombros. Um rapaz alto, muito louro, tomou a palavra. 11


— A questão não se pode pôr assim. O vóleibol é essencial na nossa vida. — Mas vocês querem ser todos desportistas profissionais? — perguntou o repórter. — Não, nem todos. O rapaz louro voltou a tomar a palavra. — Eu, por exemplo, tenciono tirar um curso de design. Mas o desenvolvimento físico é fundamental para qualquer pessoa. — Mas quando é exagerado não vos prejudica? Foi a vez de o treinador responder. — É evidente que é preciso senso. Mas aqui não há esse problema do exagero, porque eles estão enquadrados num clube, recebem uma orientação correcta. A reportagem sobre os juniores ficou por ali. No écran apareceu só a cara do repórter, com um sorriso afivelado, a dizer: — Esperamos assim ter contribuído para aumentar o entusiasmo por esta modalidade, e que muitos rapazes e raparigas procurem nos clubes uma orientação para a prática desportiva. Mas vamos agora passar aos estúdios do Porto... A Teresa ficou agitadíssima com o que vira. Não é todos os dias que os amigos chegados aparecem na televisão! Habituada a comunicar imediatamente as suas impressões à irmã, sentiu uma ânsia quase sufocante de falar com alguém. Assim, primeiro correu para a janela, tentando avistar a Luísa e o Caracol. Mas nem sombras! Talvez já viessem no elevador... foi à porta, espreitou. O elevador estava parado. Tentou então 12


o telefone. E discou para o Pedro. Nada! Ninguém respondeu. Depois seguiu-se o número do João. Só estava a avó em casa. Não tinha visto nada na televisão pois andava lá fora a jardinar. Já desesperada, ligou para casa do Chico, talvez o programa não tivesse sido transmitido em directo... mas tinha. Em casa só estava a mãe do Chico, que a recebeu «de braços abertos»! Também ela vira, com emoção, o filho a ser entrevistado. Também ela estava ansiosa por falar no assunto com alguém. E assim, duas pessoas que mal se conheciam conversaram um bom bocado porque tinham um interesse comum: o Chico feito vedeta. Só desligaram porque as vizinhas começaram a tocar à porta da mãe do Chico, para lhe dar os parabéns.

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Na escola foi uma loucura. A professora Teresa, a mais nova e mais gira de todas as professoras de Educação Física, estava satisfeitíssima e fez um alarido no ginásio. Tinha sido ela a iniciar o Chico no vólei e, quando apanhava alguns vocacionados para o desporto, incentivava-os muito a irem inscrever-se num clube. Tinha mesmo afixado no ginásio a lista dos clubes possíveis, as modalidades, os horários e os preços. Além disso, o grupo de professores de Educação Física, em colaboração com os professores de Português, tinham lançado um jornal desportivo na escola, para o qual os alunos eram convidados a escrever artigos, notícias, etc. Naquele dia, a professora Teresa apareceu de máquina fotográfica em punho e mandou os outros alunos afastarem-se, numa berraria gesticulante. — Cheguem-se todos para lá! Hoje só quero aqui o Chico na minha frente! Vou-lhe tirar uma fotografia para o Meia Bola e Força. O Meia Bola e Força era o jornal desportivo escola. 16


— Vais sair na primeira página! — disse ela, antes de disparar. «Clic... Clac... Pzzzz...» A máquina era polaroid, ou seja, revelava as fotografias no mesmo minuto. Foi um êxito! Assim que a fotografia saiu por uma frincha, todos queriam ver. Por pouco não a rasgavam. — Quietos! Que chatice! — Ó «stôra», tire-me uma também a mim... A nós as duas! — À turma! À turma toda! — Não tiro nada! Vocês não merecem! São uns sornas... — disse ela de brincadeira. — Oh, «stôra»! Vá lá! Tire! Tire! — Então só se for à turma toda junta, estas fotografias são caríssimas... — Êêêê! — Pouca barulheira! Ponham-se lá a jeito! A jeito, foi uma confusão enorme! Uns queriam ficar de pé, outros queriam ficar sentados, outros queriam ficar ao pé de uns outros que estavam do lado de lá... Finalmente arrumaram-se como as equipas de futebol. O Chico ao meio, ajoelhado entre as meninas. No momento exacto do disparo, o Zé Manel não resistiu e levantou a mão direita sobre a cabeça do Chico, com dois dedos a fazer «corninhos». E quando a fotografia ficou pronta, foi de novo um alarido! — Estou a ver que hoje não consigo dar aula! Vamos lá embora ao aquecimento. Correr à volta do ginásio! 17


«Pam... Pam... Pam...» A fúria com que se lançaram na corrida até ressoou pelas paredes. Era sempre assim! A excitação não impediu o bom funcionamento da aula, pelo contrário! Com a professora Teresa, de resto, quanto maior era o entusiasmo melhor trabalhavam. As gémeas só conseguiram ver o Chico no intervalo grande. Deram-lhe os parabéns e quiseram saber pormenores. Por que motivo tinham ido entrevistá-lo? — É que está a haver uns campeonatos de vólei — explicou ele —, e nós estamos muito bem classificados. De certeza que vamos ganhar! — Ei! Lá estás tu! — Estou-te a dizer! Somos os melhores! — Quem? — perguntou o Pedro, que chegara naquele momento. — Nós, claro! Lá do vólei. No sábado, vamos jogar a Beja. — Sábado para Beja. E domingo para onde? Agora estás ocupado todos os fins-de-semana, é? — Estou a ver que as gémeas têm ciúmes das minhas actividades desportivas — riu-se o Chico. — Ciúmes, não. Mas estás a exagerar. Assim, nunca mais na vida fazemos um programa juntos. — Nunca mais na vida? Ó Teresa, espero não morrer amanhã... — «Se não podes vencê-los, junta-te a eles» — atalhou o Pedro. — Eu cá por mim já me inscrevi na ginástica, O João conseguiu vaga no futebol de salão. Só faltam vocês! Com tanta 18


preparação física, quando tornarmos a ter uma aventura seremos praticamente invencíveis! — Não! Nós não queremos — responderam as gémeas em coro. — Mas não querem por que razão? Verdade se diga, elas não sabiam por que é que não queriam. Às vezes é assim mesmo. Quando os outros se entusiasmam muito por uma coisa, a gente rejeita-a sem saber porquê. — Temos muito que fazer — balbuciou a Teresa, desviando a vista. — É isso. Não temos tempo — corroborou a irmã. — Mas que afazeres são esses, afinal? — Hã... temos de estudar — mentiu a Teresa. — Ora, ora! Deixem-se de tretas! O Pedro é o melhor aluno da aula, estuda que se farta, mas foi para a ginástica... As gémeas encolheram os ombros, sem responder. A campainha estridente, chamando para as aulas, interrompeu a conversa. Iam a separar-se, quando um grupo de barraqueiras do 2.° ano avançou para eles trazendo pequenos livros de autógrafos na mão. — Olhe, faz favor — disse uma delas, fingindo-se muito formal. — Pode dar-nos um autógrafo? — Quem? Eu? — perguntou o Chico admirado. — Sim disse outra, disfarçando um sorriso de gozo. — Não é o campeão de vólei que foi ontem à televisão? 20


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