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no castelo dos ventos

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CapĂ­tulo

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Na serra dos moinhos

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— Eu vou sair desta maldita camioneta e é já — disse o Chico, levantando-se do assento para puxar a mochila da prateleira onde iam as bagagens. — Não aguento mais... — Espera aí — pediram as gémeas. — Ainda estamos longe. — Não estamos, não. Espreitem pela janela, olhem ali para cima. O grupo virou-se na direcção que ele apontava e todos viram uma Àleira de moinhos no alto do monte coberto de verdura que se estendia paralelo à estrada. Uma tabuleta indicava estarem no Vale dos Barris. — Se sairmos aqui e escalarmos o monte a corta-mato chegamos muito mais depressa ao moinho de S. Pedro. — Lá isso é verdade. Mas ninguém nos garante que o moinho de S. Pedro seja um daqueles! — É de certeza. — Porquê? — Porque já quase não há moinhos em parte nenhuma. Se estão ali tantos, um deles tem que ser o nosso, não acham? Os outros riram-se. 8


— Ó Chico, para ti é sempre tudo tão simples! — E para vocês muito complicado! A impaciência começava a transformar-se em irritação. Chico precisava de descarregar energias, mas a camioneta continuava parada no mesmo lugar, porque tinha havido um desastre lá mais à frente. A Àla de trânsito crescia, crescia, e ele fervia. — Daqui a nada rebento! Ou começo a deitar fumo pelo nariz. — Não admira — disse a Teresa. — Com este pivete a gasóleo... A encosta do monte, com seu ar meio selvagem, atraía-os. O espaço apertado onde se encontravam repelia-os. Não foi preciso Chico insistir muito mais para aceitarem segui-lo. João ergueu-se e avançou pela coxia. Levava o Faial na frente, o Caracol debaixo do braço e a mochila às costas. — Venham! — chamou, também já impaciente. — Despachem-se. Os outros passageiros não Àzeram comentários, só trocaram olhares de grande alívio. Eram todos bastante mais velhos, não lhes passava pela cabeça apearem-se e seguir a pé com as malas às costas, mas Àcaram radiantes por se verem livres daquele grupo de rapazes e raparigas que falavam pelos cotovelos. Alguns tinham feito toda a viagem encolhidos com medo do Faial, porque um pastor alemão, mesmo quietinho, mete respeito. E as mulheres que iam de saias estavam fartíssimas do Caracol, que não parava de lhes lamber os tornozelos. O pior é que o motorista não queria abrir a porta. Era um homem bochechudo, ao falar 9


trincava as bordas da língua e as palavras saíam-lhe mastigadas: — Aqui não há paragem e ainda faltam uns quilómetros para chegarmos a Palmela. Querem Àcar no meio do campo? — Queremos — respondeu o grupo em coro. — Querem, querem — responderam também em coro os outros passageiros. — Deixe-os sair! O homem encolheu os ombros, accionou o comando, a porta abriu-se com um psss e eles saltaram um por um, primeiro os cães, atrás os donos, igualmente satisfeitos. Na beira da estrada havia erva, uma erva verde e rija, levemente húmida porque chovera de manhã. Àquela hora, porém, o céu estava limpo e bem bonito, com um sol simpático, de Àm de tarde. — Ainda vamos ter de subir bastante. — Pois é. Visto da camioneta, o monte parecia mais baixo. — Não é muito alto. Chico assobiava contente da vida e os cães acompanhavam-no de língua de fora, a dar ao rabo. Não se viam por ali nem casas nem pessoas. Só os moinhos no topo do monte. — Nunca estive dentro de um moinho. — Nem eu, deve ser giríssimo. — Arranjar um para Àns-de-semana é uma ideia gozada. — Pois é. Equivale aos abrigos de desenho animado, género árvore oca ou cabana de troncos. Galgando sem grande esforço uma zona da encosta suavemente inclinada, conversavam e riam, 10


convencidíssimos de que faltava pouco para chegarem ao seu destino. E a vontade de descobrir que soluções é que os donos tinham arranjado para transformar um espaço pequeno e redondo em casa de habitação redobrava-lhes a elasticidade das pernas. — Como é que serão os quartos? — Redondos. — E as camas, também serão redondas? — Hum... Acho que não. Talvez sejam arredondadas. — Haverá cozinha? — Claro, tem de haver. — Mas não vejo chaminés. — Se calhar são pequenas e estão atrás dos paus que seguram as velas. Pararam um instante a tomar fôlego, sempre de olhos postos no alto do monte. — Foi uma sorte a minha mãe ter alugado este moinho para uma semana de férias — comentou o Pedro. — E maior sorte ainda não poder vir e dizer-te para nos convidares! Os outros riram-se da franqueza do Chico, e as gémeas começaram a imaginar pormenores que tornariam a estadia ainda mais agradável: — Talvez cheire a farinha. — E talvez os donos tenham deixado pão fresco. — De côdea estaladiça. — Com um pacote de manteiga ao lado. — E tigelas de marmelada, tudo incluído no preço. 11


— Hum... Que fome! Já estavam perto. Antes de atingirem o topo foram envolvidos por um vento de Abril fresco e forte que cheirava a plantas e a mar. Logo que venceram o último rebordo estacaram maravilhados. — Que espectáculo! — Nunca pensei, mas vê-se o mar ao longe. — E um castelo a meio caminho. — Só pode ser o castelo de Palmela. É enorme! — Fantástico. — Ou fantasmagórico. Aposto que se ouvem gargalhadas misteriosas naquela torre... — E eu aposto que há um tesouro escondido nas masmorras. — Tem masmorras? — Todos os castelos têm subterrâneos... Pedro, que se afastara ligeiramente dos amigos, voltou para trás e Àlosofou: — Isto parece ser um posto de observação pa-ra amostras do mundo. Ouvem-se os carros lá em baixo e os pássaros cá em cima, vêem-se quintas espalhadas pelo vale e vilas nos montes vizinhos... — E apesar disso tudo, estamos sozinhos — rematou o Chico. — O que é óptimo! Se não fosse a alegria geral teriam sofrido tremenda desilusão, pois o primeiro moinho aonde chegaram estava em ruínas. O seguinte andava em obras e lembrava um depósito de materiais, com tábuas, pregos, sacas de cimento e tijolos empilhados a um canto. Quanto ao terceiro, tinha a única 12


porta fechada a sete chaves e um letreiro pintado à mão onde se lia: «Proibida a entrada.» Todos perceberam que abandonar a camioneta sem perguntar nada a ninguém e meterem-se por atalhos tinha sido um disparate, mas não queriam acusar o Chico, e na verdade não podiam, porque a decisão fora do grupo. — E agora? — arriscaram as gémeas. — Agora, azar. É quase noite, não sabemos onde estamos nem para onde vamos... O Sol desaparecia no horizonte, o vento soprava tão fresco que já se podia considerar frio, as sombras preparavam-se para ocultar a paisagem, e eles assustaram-se um pouco com o isolamento. — O melhor é voltarmos a descer e irmos para a estrada, talvez alguém nos dê boleia — sugeriu a Teresa com um arrepiozinho desagradável. — Ora, ora... Hoje em dia ninguém dá boleia. — E se dessem, eu não aceitava, porque é perigosíssimo. — Calma. Parece-me que ali ao fundo há mais moinhos, um deles pode chamar-se S. Pedro... — Talvez. — Então venham e deixem-se de lamúrias! Vá... Seguiram o Chico em passo acelerado mas o caminho parecia elástico: quanto mais andavam mais comprido Àcava. Os cães mostravam-se vagamente agitados; a certa altura desataram a correr e a ladrar, desaparecendo numa curva coberta de arbustos. No mesmo instante ouviu-se um grito agudo: — Aiii! 14


— Que foi isto? — perguntaram uns aos outros antes de correrem atrás dos cães, pois ao grito inicial seguirem-se insistentes pedidos de ajuda: — Socorro! Socorro! Mesmo depois de contornarem os arbustos não viram ninguém, só os cães ladrando parados à beira de um barranco coberto de vegetação cerrada. — Com certeza caiu alguém por ali abaixo! Inclinaram-se à procura de um corpo, de uma cabeça ou pelo menos de algum movimento entre as folhas que lhes servisse de pista, mas o entrelaçado das plantas ao lusco-fusco era uma barreira impenetrável para os olhos. Os gritos, porém, continuavam, e bem aÁitivos: — Socorro!

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CapĂ­tulo

2

O galopador


— Quem está aí? — berrou o Chico. — Fale! Diga qualquer coisa para a gente se orientar — pediu o Pedro. A resposta não veio; ouviram apenas uns estalidos secos por baixo da verdura. Ajoelharam-se então à beira do precipício e o Chico esticou o braço na ideia de afastar as plantas e espreitar mas as ramagens começavam bastante mais abaixo; por muito que ele se esticasse, não lhes chegava. — Tem cuidado, se não ainda cais também — disse a Luísa enquanto a Teresa o segurava pela camisola. — Porque será que o tipo não responde? — Se calhar desmaiou. — Assim de repente? Estava a gritar e perdeu o pio? — Pode ter escorregado e batido com a cabeça numa pedra. — Ora... Isso fazia barulho. — A gente ouviu uns estalidos... — Vamos chamar outra vez. — Hei... — Fale, diga onde está! 18


Calaram-se à espera de um sinal de vida, mas só o vento reagiu, soltando assobios Àníssimos e prolongados que sugeriam música: Fiu... Fiuuu... Fiu uuu. A luz do dia desaparecera, as estrelas iam-se instalando, umas isoladas, outras em grupo, prontas para passar a noite muito satisfeitas lá no alto. E eles especados à beira de um precipício a olhar para as plantas com cara de parvos. Por um instante ocorreu-lhes que os pedidos de socorro talvez tivessem vindo de longe, trazidos pelo vento. Nesse caso não estava ali ninguém caído à espera de ajuda. Mas a ideia desvaneceu-se porque os cães continuavam agitados a ladrar e a farejar. — Se isto não fosse tão íngreme, o Faial tratava da busca. — Pois tratava, mas assim nem pensem — disse o João, que o mantinha preso pela coleira, receando que os seus instintos de salvador o Àzessem lançar-se no barranco. — Schiu... Ouçam... Não era uma voz, era um gemido ténue, abafado e contínuo: — Hum... — As lanternas, depressa! Bastou o Chico falar em lanternas para provocar remexidas frenéticas nas bolsas das mochilas. Poucos minutos depois cinco focos de luz varriam o manto de verdura, e foi o da Teresa que se imobilizou. — Encontrei! Vejam... Os focos juntaram-se e iluminaram aquilo que só podia ser o corpo de um homem enrolado sobre 19


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