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Porquê uma aventura na Quinta das Lágrimas

A Quinta das Lágrimas está ligada ao romance de amor mais forte e mais trágico da História de Portugal. Por isso mesmo foi escolhida para cenário de uma aventura. Mas quando tomámos a grande decisão, pareceu-nos indispensável pedir autorização aos donos, pois o mais certo era termos que «introduzir bandidos» naquela linda casa e dar vida a peripécias que envolveriam pancadaria e talvez até tiroteios. Apresentámos o problema a um dos donos, José Miguel Júdice, que nos recebeu de braços abertos e adorou a ideia porque, segundo nos contou, passou ali parte da infância e viveu com os irmãos e os primos as mais fantásticas aventuras no jardim, na mata, nos esconderijos secretos que existiam na casa. Além disso, tanto ele como os outros elementos da família se sentem especialmente ligados à vida e à morte de Inês de Castro. Tudo o que contribua para que os episódios do romance continuem inesquecíveis lhes parece bem. Foi com grande entusiasmo que apoiou o projecto, fazendo questão de ser ele próprio a levar-nos lá em visita guiada. E assim foi. Passeou-nos pelo jardim e pela mata chamando a atenção para recantos que 7


podem passar despercebidos. De vez em quando parava e fazia o relato das cenas divertidas que lhe ficaram mais nítidas na memória, contente de as reviver. Depois levou-nos a ver a casa e aí as suas recordações eram tão fortes que nós quase ouvíamos vozes e risos de outros tempos. Amavelmente abriu-nos as portas de zonas interditas ao público. Vimos cozinhas, despensas, os esconderijos da biblioteca, o sótão... Ainda não tínhamos saído da Quinta das Lágrimas e já as nossas cabeças fervilhavam de personagens exóticas a pedir lugar nesta aventura.

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CapĂ­tulo

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A mancha vermelha

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— Achas que deixam entrar os cães? — Não sei. O melhor é não perguntarmos e irmos entrando. A Luísa pegou no Caracol e falou com voz meiga enquanto lhe afagava as orelhas. — Porta-te bem, hã? Nada de latidos. Quanto ao João, segurou firmemente a coleira do Faial e ordenou-lhe: — Não te afastes de mim nem ladres. O cão resfolegou e, agitando o enorme corpo peludo, acertou o passo com o dono de modo a formarem um conjunto perfeito de quatro patas e duas pernas. Avançaram então pela beirinha da estrada, todos tão perto do muro que roçavam os braços na pedra. Quando chegaram ao portão, pararam um instante, encantados. — Eh pá! Esta quinta é um espectáculo! — A casa parece um palácio. Teresa foi a primeira a pisar o caminho que corria entre duas filas de árvores acolhedoras. Sentindo o saibro ranger debaixo das solas, estremeceu de prazer. — Isto dá a sensação de que vamos atravessar um sonho. 10


— E vamos mesmo — disse a irmã. — Só encontramos o que viemos procurar se atravessarmos o mundo da fantasia. Os rapazes riram-se. — Resolveste armar em poeta ou não acreditas na história da mancha vermelha? — perguntou o Pedro. — Acredito e não acredito. Quer dizer, apetece-me acreditar... Prático como de costume, Chico interrompeu-a: — Não se trata de apetites. Cá por mim, só vendo. — Achas que o monitor-chefe inventou a história da mancha vermelha para se divertir à nossa custa? — Não. Mas pode ter sido brincadeira. Aquele monitor era um gozão. — Lá isso é verdade. — Ele, além de monitor, serviu de animador porque animou imenso o festival desportivo. — Foi fantástico! — Ainda bem que viemos, divertimo-nos tanto! — Eu nem sei dizer do que gostei mais. — Sei eu. A festa de ontem à noite. Todas concordaram, e seguiram em frente, agora em silêncio para melhor saborearem as recordações. O grupo tinha participado num festival desportivo que terminara na véspera com provas de canoagem no rio Mondego, junto à cidade de Coimbra. À noite, para despedida, os monitores 11


organizaram um fogo de campo. Depois de assarem nas brasas uma inacreditável quantidade de frangos e de se banquetearem alegremente, as equipas sentaram-se à volta da fogueira e a festa continuou pela noite fora em boa conversa e boa risota. A meio da festa o monitor-chefe resolveu divertir-se e garantiu-lhes que tinha registado por escrito todos os namoros começados e acabados durante o encontro. — Houve trinta e sete rapazes que se declararam e tiveram sorte. Mas as raparigas não ficaram atrás. Pelas minhas contas, foram pelos menos quarenta e duas a tomar a iniciativa, só que... levaram todas tampa. Respondeu-lhe uma gritaria de protesto: — Úúúú... — Pronto, pronto, não se zanguem. Afinal enganei-me, foram só quarenta e uma. A pateada cresceu ainda mais e ele sempre a dizer piadas: — Aqui o amigo Chico, à força de músculo e de capacidade atlética, ganhou uma prova por dia e catrapiscou duas apaixonadas por hora. As famosas gémeas Teresa e Luísa confundiram meio mundo porque são iguais e namoraram vários rapazes a meias porque são... infernais! — Ê ê ê... — Mas quem provocou uma paixão realmente fulminante, realmente estonteante, foi um certo rapaz de óculos mais conhecido por «cabecinha pensadora». Antes que terminasse a frase, já um coro gritava: 12


— Pedro! Pe-dro! Ele sorria, entre satisfeito e embaraçado, enquanto três raparigas coravam até à raiz dos cabelos. — Olha lá — disse outro monitor, fingindo-se chocado —, não serão romances a mais para uma semana só? — Qual quê? Nunca ouviste falar dos fluxos de amor que se desprendem das águas do rio Mondego? Quem passeia por estas margens não escapa. Apaixona-se quer queira quer não. E é assim há séculos. Dera à voz um tom que exigia silêncio. Suspenderam-se os risos, suspenderam-se os gestos, ele próprio fez uma breve pausa para que os estalidos mágicos da fogueira ajudassem a criar ambiente. Quando sentiu a assistência presa, declarou muito sério: — Quem for sensível consegue captar o sussurro de beijos antigos que ficaram pairando para sempre por entre a folhagem dos choupos. Ora fechem os olhos, concentrem-se... A ideia seduziu-os. Uns fecharam os olhos, outros limitaram-se a semicerrar as pálpebras, e a leve brisa nocturna encarregou-se do resto. Todos, sem excepção, julgaram ouvir o rumor de palavras ternas e de beijos flutuando no ar. — Prestem atenção — disse o monitor-chefe —, porque entre estes sussurros também vagueiam as marcas de um grande desgosto de amor... A afirmação inesperada fez com que todos os olhares convergissem para ele na maior expectativa. 13


Então ergueu-se e começou a contar a história verdadeira do príncipe D. Pedro e dos seus amores proibidos com Inês de Castro. — Ela era linda, sabem? Muito loira, de olhos doces, virou a cabeça ao príncipe desde o dia em que chegou à corte. Foi amor à primeira vista. Mas o príncipe tinha de casar com outra, com a noiva que o pai lhe escolhera. Toda a gente se esforçou por impedir o romance entre Pedro e Inês. O pior é que quanto mais tentavam separá-los, mais eles gostavam um do outro. Apaixonaram-se loucamente e teimaram em viver juntos contra a vontade do rei. Aquela teimosia provocou tantas raivas e tantos ódios na corte que se fizeram planos secretos para matar Inês. O príncipe não sonhava o perigo que corria. Tinha-se instalado com ela aqui perto, num pavilhão de caça, e saía cavalgando pelas matas atrás de veados e javalis. Nessas alturas Inês costumava passear pelo campo sozinha. Os assassinos souberam, decidiram aproveitar a oportunidade e foram procurála dispostos a matá-la onde a encontrassem. Por acaso, encontraram-na à beira de uma fonte e ali mesmo lhe espetaram um punhal no peito sem vergonha nem remorsos por assassinarem uma mulher só e desprotegida que nunca tinha feito mal a ninguém. Um crime assim injusto e traiçoeiro podia ser esquecido? Não! A própria fonte ainda hoje serve de testemunha porque o sangue de Inês ficou para sempre agarrado às pedras. Quem se debruça sobre as águas vê lá no fundo uma mancha vermelha que nada nem ninguém conseguiu apagar. Já passaram setecentos anos, 14


mas a fonte continua no mesmo lugar e a mancha vermelha também. Quem lá for vê a marca do crime (1). Era por causa dessa mancha vermelha que estavam agora ali, na Quinta das Lágrimas. Queriam verificar com os seus próprios olhos se fora tudo invenção do monitor ou se era verdade. Depois de atravessarem o portão, tinham contornado a grande casa amarela e caminhavam através do jardim, onde cresciam árvores enormes de troncos grossíssimos e copas espessas. Os raios de sol, coados através da folhagem, criavam uma atmosfera de sombras ondulantes, muito misteriosa. E as canas-da-índia, embaladas pela brisa suave do entardecer, iam espalhando em volta memórias de uma terra longínqua. — Que bonito! — Parece um jardim mágico. Passaram por uma estufa de vidro e a seguir depararam com uma árvore que se diria pertencer ao país dos gigantes, pois seriam necessários sete homens para lhe abraçarem o tronco. As raízes estavam à vista e estendiam-se pelo chão com feitio de garras e aspecto de poderem crescer e alongar-se por vontade própria. Se do interior saltasse um gnomo ou se vissem rebrilhar entre os nós (1) A história do príncipe D. Pedro e de D. Inês de Castro está contada com mais pormenores na parte final deste livro (p. 217). 15


um pote com moedas de ouro, não se admirariam. Mas ficaram pasmados quando o Faial avançou para o meio das raízes e desapareceu. João seguiu-o imediatamente e os outros também, verificando atónitos que naquele esconderijo natural cabiam pelo menos dois corpos. Todos quiseram enfiar-se entre as raízes, e o contacto directo com a casca rugosa despertou-lhes um imenso desejo de amarinharem pelo tronco. Só não o fizeram porque as gémeas não deixaram: — Os equilibrismos ficam para outra vez. — Vamos procurar a fonte. — Pelas indicações do monitor, acho que é ali ao fundo. Venham! Não tiveram que andar muito mais. Logo adiante havia um lago amplo cheio de musgos, uma placa a indicar «Fonte das Lágrimas» e a tal nascente de águas límpidas que brotava da rocha cantando baixinho. Precipitaram-se a examinar o fundo, e a mancha vermelha lá estava bem nítida sobre a pedra. A forma e os contornos sugeriam líquido derramado. — Fantástico! — exclamaram as gémeas em coro e prontas a aceitar que fosse o sangue da princesa. — É impressionante! Os rapazes dividiam-se entre o acreditar e o duvidar: — Será tinta? — Com a água sempre a passar-lhe por cima já tinha desbotado e desaparecido. — Hum... Pode vir cá alguém de vez em quando pintar as pedras para manter a lenda. — Como é que se pinta debaixo de água? 16


Pedro pôs-se de cócoras e quase enfiou a cabeça na fonte. — Tinta garanto-vos que não é. Os outros também se debruçaram, e tinham as cabeças bem juntas quando lhes pareceu ouvir um sussurro de beijos através dos arbustos que enquadram a fonte. No mesmo movimento ergueram o queixo e ficaram à escuta. Faial, bem seguro pela coleira, cumpria a ordem de não ladrar, mas farejava. Caracol, nos braços da Teresa, remexia-se de orelhas espetadas. — Vocês ouviram o mesmo que eu? — perguntou a Luísa perplexa. — Ouvimos — respondeu-lhe a irmã. — Pelos vistos ainda aqui andam os espíritos de Pedro e Inês. Gargalhadas demasiado fortes para serem espirituais cortaram-lhe a palavra. — Está ali alguém. — Vamos ver quem é. Transpuseram o maciço de verdura e foram encontrar um parzinho de namorados com ar divertidíssimo. Ela era muito bonita e muito loira, ele era muito bonito e muito moreno; estavam sentados num banco de pedra, riam felizes e chamaram-nos. — Venham cá! — Então julgaram que éramos fantasmas de príncipes? — E somos — disse o rapaz na brincadeira. — Acabámos de descer das nuvens! Passando o braço à volta dos ombros da namorada, perguntou: 18

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