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na Noite das Bruxas

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Capítulo

1

Café Mistério

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— Aqui há qualquer coisa que não bate certo — disse a Teresa tão baixo que só a irmã ouviu. — Também acho... Os rapazes perceberam que as gémeas cochichavam entre si e voltaram-se para elas. — O que é que foi? Em vez de responderem, fizeram ambas um movimento com os olhos a apontar para um enorme cartaz afixado na parede do café. À primeira vista nenhum deles lhe encontrou nada de especial. As gémeas, porém, insistiram, e então eles pensaram que o sinal se destinava a chamar a atenção para o homem sentado lá ao fundo. Era o único cliente além deles, e de facto destoava, pois fazia um frio de rachar e ele vestia roupa de Verão. Além disso mantinha-se imóvel e, apesar de naquele velho café de aldeia haver pouca luz, usava óculos escuros. De casaco branco, sem mexer um só músculo, lembrava uma estátua de gesso. — Reparem na data — sussurrou a Luísa. — Na data? Qual data? — perguntaram o Chico e o João, admirados. — Do cartaz. 8


— Hã? Num relance, Pedro já captara a ideia das gémeas e sorriu. — O cartaz é antigo, pela data vê-se que anuncia as festas de Verão de há dois anos. E como lá ao pé está aquele tipo muito quieto e vestido à fresca, dá a sensação de que este café ficou parado no tempo. Foi isso que vocês pensaram, não foi? Elas acenaram que sim e voltaram-se outra vez para o estranho indivíduo, observando-o agora com mal disfarçada curiosidade. O homem continuou estático e não tirou os óculos, mas todos sentiram que lhes devolvia o olhar através das lentes fumadas, um olhar cortante e desagradável. Embaraçados, baixaram a cabeça, e só nessa altura lhes saltou à vista que no chão de pedra havia umas manchas esquisitas. Pelo formato concluíram que não podiam ser o resultado de líquidos entornados nem do desgaste provocado pelo uso. Pareciam desenhos ou pinturas sombreadas. Por um momento esqueceram o «homem-estátua» e seguiram as linhas que se estendiam pela superfície da pedra. Não havia dúvida de que os contornos formavam figuras e nenhuma delas fora feita ao acaso. Umas eram maiores, outras mais pequenas, e a maneira como estavam dispostas no chão também parecia ter significado. Se fosse um mapa ou uma mensagem em código não se admirariam. Mas o que representava cada uma delas? Pedro analisou a mais próxima de vários ângulos e declarou: — É um morcego. 9


— E aquelas duas encostadas à asa esquerda são borboletas nocturnas. — Ali adiante está um mocho, mas daqui vêmo-lo de cabeça para baixo. — Mocho ou coruja. — Será por causa destes desenhos que o café se chama Mistério? — Talvez. Se calhar o dono comprou isto em ruínas e gostou do chão, mas como não conseguiu interpretar os riscos inspirou-se neles para escolher o nome. — Pode ser. Entretidos na conversa, não viram o homem do fato branco levantar-se, só se aperceberam de que saía num rompante maldisposto. — O pai deixa-o ir sem pagar? — perguntou de forma brusca a rapariga que lavava chávenas atrás do balcão. — Deixo. Porque se não pagar ele, paga o avô, que é de boas contas. A rapariga não disse mais nada e desatou a remexer na loiça como se a quisesse partir. Resmungava entredentes qualquer coisa que não entenderam. Enquanto isso, o pai aproximou-se deles e colocou em cima da mesa leite com chocolate e pães com fiambre de aspecto divinal. A côdea ligeiramente tostada tinha uma orla de pingos de manteiga fresquíssima e o fiambre sobrava a toda a volta, descaindo no prato como quem diz «devorem-me». Com água a crescer na boca, atiraram-se ao lanche encomendado há quase meia hora. Duran10


te alguns momentos ninguém falou; só mastigavam e engoliam alternadamente nacos de pão e goladas de leite. Tencionavam ir-se embora logo a seguir mas não foram, talvez por causa das cadeiras. Eram de madeira e tinham feitio de molde, onde o corpo se acomodava tão bem que terminada a refeição apetecia continuar ali encaixado, de preferência imóvel. Ocorreu-lhes então que o homem de branco talvez tivesse ficado hirto pelo mesmo motivo. Mas não pensaram mais no assunto porque se distraíram com as atitudes bizarras da rapariga. Mal o pai desapareceu na cozinha, abandonou a loiça, colocou-se muito direita em frente à enorme máquina metálica de tirar cafés e desatou a ensaiar expressões que eles podiam acompanhar porque a cara dela se reflectia na chapa prateada. Primeiro arreganhou os lábios como se quisesse contar os próprios dentes. No minuto seguinte começou a experimentar olhares de alegria exagerada, de pavor, de paixão. Eles estavam pasmados e comentaram em surdina: — É maluca. — Ou entretém-se a fazer caretas nas horas vagas. — Hum... já não tem muita idade para isso. — Que idade é que achas que ela tem? — Não sei. Dezassete ou dezoito. — Agora está quase a chorar. De facto parecia prestes a desfazer-se em pranto, saltaram-lhe duas lágrimas gordas, atrás vieram muitas outras em fio, que deixou escorrer 11


pelas bochechas sem fazer menção de as limpar. Dir-se-ia que lhe agradava ver-se assim triste e chorosa. Acabou por sorrir e acenar à imagem reflectida na chapa, como se a cara não fosse dela mas sim de outra pessoa a quem quisesse consolar. As lágrimas, no entanto, voltavam a inundar-lhe os olhos. — Chegou a altura dos soluços — comentaram as gémeas à sucapa. Um mesmo impulso levou-as a ordenarem-lhe em pensamento: «Vá, soluça!» Ela largou imediatamente aos soluços, o que deixou as gémeas arrepiadas dos pés à cabeça e com o espírito a fervilhar de interrogações. A atmosfera obscura e misteriosa daquele café teria efeitos esquisitos nas pessoas? Facilitaria a transmissão de pensamentos? Entre elas as duas não era novidade, sempre tinham conseguido comunicar uma com a outra sem precisarem de palavras. Agora darem ordens mentais a terceiros nunca lhes tinha acontecido. A rapariga fungava, fungava atrás do balcão, e estiveram quase para tentar uma «contra-ordem». Em vez disso entreolharam-se e, depois de três ou quatro sinalefas, decidiram experimentar o processo com o João, obrigando-o a beber o resto do leite. Não chegaram a saber se a telepatia também funcionava com ele, porque o pai da rapariga, farto de a ouvir choramingar, veio lá de dentro furioso e ralhou-lhe em voz baixa: — Pára-me com essas fitas, Lena. Se julgas que te servem de alguma coisa, tira daí o sentido. 12


Aquelas frases desviaram a curiosidade para outras bandas. Afinal a rapariga não chorava à toa, havia qualquer problema. Namoro contrariado? Entre pai e filha estalou uma discussão surda e agressiva da qual eles só captavam fragmentos, porque o homem tivera o cuidado de ligar a máquina de moer café para abafar o som. Se quisessem ser bem-educados, pagavam a conta e saíam rapidamente, deixando-os discutir à vontade. Mas não resistiram ao desejo de coscuvilhice e resolveram pedir uma segunda dose de lanche na ideia de tirarem o assunto a limpo. Chico levantou o braço num gesto de chamamento. Como não ligaram, aproximou-se. — Faz favor... A briga parou de imediato e ele lá pediu o que lhe veio à cabeça, enquanto observava a rapariga de soslaio. Já tinha reparado que era gira, mas de perto ainda lhe pareceu melhor. Debruçado no balcão, deitou longas miradas ao corpo elegante e só lhe faltou soltar um assobio aprovador. «Sim senhor», pensou, «temos que vir mais vezes a este café para consolar a miúda...» De volta à mesa, levava consigo um prato de bolos secos, rijos e bastante velhos. O homem ia atrás com latas de sumo que na verdade ninguém queria. No entanto, não tiveram outro remédio senão fingir que comiam e bebiam. — Este sítio é mesmo extraordinário — murmurou o Pedro. — Servem sandes fantásticas e bolos horrendos. 14


João roía desconsoladamente um queque que se lhe esfarelava na boca como se fosse de cortiça. — Ainda por cima é enorme — queixou-se, cuspinhando pedaços para dentro de um guardanapo de papel. — Não consigo engolir esta porcaria. — Nem eu. Bâ! Estavam vai não vai para desistir de averiguar as causas do grande desgosto quando entrou uma velhota vestida de escuro. Tal como as outras pessoas que circulavam no Café Mistério, pareceu-lhes um pouco extravagante. Talvez fosse do contraste entre a cara já cheia de rugas e o cabelo tão preto como as penas de um corvo. Trazia um pequeno tabuleiro coberto com panos de cozinha; estendeu-o à rapariga dizendo qualquer coisa sobre empadas de frango, mas não completou a entrega porque apareceu à porta uma miúda que devia ter mais ou menos a idade das gémeas. A velhota, assim que a viu, recuou dois passos, assombrada, e deixou cair o tabuleiro no chão exclamando em voz rouca: — Dona Coruja!

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Capítulo

2

Lucy

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As empadas de frango rebolaram em todas as direcções, e como ainda vinham quentes desmancharam-se, espalhando aqui e além montículos de recheio. Um acertou no pé esquerdo da recém-chegada, deixando-lhe o sapato bastante gorduroso. Ela estacou, admirada por ter provocado tanto alvoroço. Quanto à velhota, engoliu em seco várias vezes sem nunca a desfitar. — Desculpe — disse por fim com a voz alterada pela emoção —, não me leve a mal, mas quando a vi entrar julguei que tinha um fantasma à minha frente! No interior do café ficou tudo em suspenso à espera da frase seguinte. — Chama-se Lucy, não é verdade? — continuou a velhota. — A menina é a cara chapada da sua avozinha e eu gostava muito dela. Impossível dizer se aquele encontro inesperado lhe dava imensa alegria ou se pelo contrário era motivo de tristeza por vir agravar saudades de uma pessoa desaparecida. — A última vez que a sua mãe a trouxe cá à aldeia, a menina ainda era muito pequena, não 18


dava para tirar parecenças. Andei consigo ao colo, sabe? Lucy tentava disfarçar, mas estava atrapalhadíssima. O dono do café e a filha tinham-se encostado ao balcão e assistiam à cena sem abrir a boca. As gémeas e os rapazes também se mantinham mudos e observantes. Então a velhota tomou fôlego e pediu num tom agora singularmente neutro: — Dê cá um abraço à Celeste. Ao inverso do que a assistência esperava, não prolongou as manifestações de carinho. Limitou-se a estreitá-la um segundo de encontro ao peito, para logo a soltar, perguntando: — Como é que aqui me aparece? — Aproveitámos os feriados e viemos passar uma semana, são férias de Inverno — respondeu Lucy, visivelmente aliviada e tentando dar início a uma conversa normal. — Estou cá eu, a minha mãe e o meu padrasto, mas não conseguimos entrar em casa, ou melhor, não conseguimos sequer abrir o portão do jardim. — Talvez seja da ferrugem — sugeriu o dono do café. — Não é, não — ripostou Celeste —, as fechaduras daquela casa sempre tiveram manias. Muitas vezes me vi aflita para entrar. Então depois que a casa ficou vazia, ainda piorou. Quando lá ia arejar as salas e fazer limpezas tinha de pedir ao Valentim que viesse comigo para forçar os malditos trincos. Lucy ia interrompê-la, mas a mulher prosseguiu: 19


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