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Aos queridíssimos Sofia, Guy

Capítulo 1

Uma aula barulhenta

— O «stôra», isto é de mais! Com tanto barulho, não se consegue trabalhar — reclamou o Zé Maria, pondo-se de pé. A professora, ocupada a dar apoio a um grupo, levantou a cabeça e concordou: — Tens razão! Assim não pode ser... Nas aulas de Ciências gerava-se frequentemente uma grande algazarra. As mesas estavam dispostas para trabalharem em grupos de quatro, o que só por si era propício à conversa. Além disso, a turma das gémeas tinha sempre Ciências a seguir ao intervalo grande, e depois de vinte minutos em correrias, jogos e encontrões na bicha da cantina era difícil retomar a serenidade necessária para o trabalho render. No meio da sala, a professora bateu as palmas para chamar a


atenção. — Vamos lá a ver uma coisa... o trabalho é de grupo, por isso têm de falar. Mas se não falam baixo, daqui a nada não se conseguem ouvir! — É o Joaquim, que tem um vozeirão... Um rapaz arruivado reagiu imediatamente, abanando com força a colega que o tinha acusado de ser responsável pelo barulho. — Larga-me, estúpido! — guinchou a Sofia. Da mesa do lado surgiram socorros na pessoa do Carlos que desde o princípio do ano fazia «olhinhos» à Sofia. — Ôôô! A professora teve de intervir rapidamente, para evitar que a turma toda se envolvesse numa briga monumental. — A-ca-bou! Quero tudo a trabalhar e já! Quando aquela professora dava um berro, toda a gente se calava de imediato porque a relação deles era boa, e a respeitavam. Sabia rir com eles, tolerar uma certa agitação compreensível numa aula onde trabalhavam sempre em grupo, mas ao mesmo tempo era firme e segura. Embora tivessem serenado, permaneceu entre eles uma certa tensão de «história incompleta...». A professora sentiu isso, e disse uma piada para os descontrair: — Isto foi uma ameaça de terramoto, mas felizmente já passou. — Ai, «stôra», que horror! Terramoto é coisa de que nem se deve falar — exclamou a Luísa. — Não sei porquê. Eu até acho que se deve falar — disse a Joana. — Mas não tens medo? — Claro que tenho! E é por isso mesmo que prefiro falar no assunto. O Joaquim interrompeu a conversa: — O ano passado distribuíram aqui na escola um folheto com instruções, para a gente saber o que deve fazer se houver um terramoto. — É verdade — lembrou a professora —, foi uma ideia do Serviço Nacional de Protecção Civil.


Restabelecera-se a calma e o silêncio. O assunto, que era assustador, continha elementos capazes de lhes monopolizar a atenção. — Eu cá parece-me que, se houver um tremor de terra, a única coisa a fazer é fugir! — Claro. Mas fugir para onde? O Joaquim repetiu o que lera no folheto como quem recita uma lição: — «As principais causas de acidentes pessoais, quando há terramotos, são devidas ao pânico. As pessoas precipitam-se, atropelam-se umas as outras... e vão para sítios errados.» — Isso está estudado — disse a professora. — Por exemplo, se estivermos em casa, não devemos enfiar-nos no elevador. Devemos é abrigar-nos onde não haja o perigo de nos caírem objectos pesados em cima. — Mas se cair o prédio... — Bom, nesse caso nada há a fazer. Mas, por exemplo, o vão das portas interiores, os cantos das salas, são os últimos a cair. Podem servir de refúgio. — E de qualquer forma — acrescentou a Teresa —, pode ser um tremor de terra pequeno, e não acontecia nada às pessoas, se tivessem cuidado. O prédio fica de pé, mas a pessoa morre porque lhe caiu o autoclismo em cima e esmagou-lhe a cabeça! — Essa, coitada, estava num momento «crítico» — gozou o Manel. — «Stôra» — perguntou o Carlos —, qual foi o maior terramoto que houve no mundo? — Já houve milhares de terramotos. Mas parece que o maior do mundo, pelo menos que se saiba, foi em Portugal. O silêncio era agora de cortar à faca. Atentos, olharam-na à espera de que continuasse. — No dia 1 de Novembro de 1755 Lisboa ficou quase totalmente destruída. — Que horror! — Pois foi. Impressionou tanto as pessoas que ficaram vivas, que


há imensos textos a contar como foi, pinturas e gravuras com a cidade a cair, veio gente do estrangeiro para ver as consequências do desastre... — Mas foi só em Lisboa? — perguntou a Luísa, com ar aterrado. — Não, toda a Europa tremeu. — Hi! — fez um coro de vozes. — Mas só Lisboa é que caiu? — Não. Houve desabamentos no Algarve, no Sul de Espanha e em Marrocos. Mas o sítio mais afectado foi Lisboa. Para vocês terem uma ideia, havia vinte mil casas nessa altura, e só ficaram de pé três mil. — Então caíram dezassete mil! A campainha assobiou com força, pondo fim á aula de Ciências. No entanto, ao contrário do que era costume, ficaram todos sentados e ninguém arrumou livros e cadernos nas mochilas. — Então? Ficaram colados à cadeira cheios de medo? — gracejou a professora. — Não! — Mas queríamos ouvir mais. — Agora não pode ser. — Oh! Ficamos aqui no intervalo. — Não dá. Tenho de ir para outro pavilhão, e ainda preciso de passar pelo Sr. Osório a buscar umas fichas. — Na próxima aula podia contar-nos o resto — propôs a Teresa. — Mas qual resto? — O resto da história do terramoto de 1755... A professora riu-se e concordou: — Está bem. Amanhã faço uma descrição completa. Até vos posso explicar por que é que há terramotos, querem? — Siiiimm... — gritou a turma em uníssono. — Pronto! Vão-se lá embora que tenho que fazer! Alguns puseram-se de pé, outros pegaram nos livros e na mochila dispostos a arrumar as coisas lá fora. A Sandra retirou do estojo uma pastilha elástica que ali tinha colado, para não ter chatices na


aula, e saiu atrás das gémeas. — Ouçam lá, querem jogar à siruma? — Não há tempo. — Talvez para o próximo intervalo. — Olha quem ali vem! — disse a Luísa. — Pe-dro! Chi-co! — gritou a Teresa. Os dois rapazes, que discutiam animadamente, voltaram-se e sorriram. — Olá! — Que é que estão a discutir? — O teste. Tivemos teste de Matemática. — E correu-lhes bem? — Bâ... — Parece-me que o Chico fez uma borrada! As gémeas olharam para ele de sobrancelhas erguidas. — É o costume — explicou, entre sério e brincalhão. — Na primeira pergunta tento fazer sozinho. Depois olho para o teste do Pedro e já ele vai na terceira ou quarta...começo-me a enervar e zás! Copio tudo. Elas riram-se. O Pedro aborrecido, exclamou: — Estou farto de lhe dizer que é uma estupidez. Primeiro, porque ele é capaz de fazer os testes. E depois, se quer copiar, ao menos que copie bem! — Copiaste mal? — estranhou a Luísa. — Hum... Fiz uma confusão desgraçada e troquei os resultados da segunda pergunta com os da terceira. — Assim vê-se logo que é copiado. — Ah! Isso é o que tu julgas. Ela não topa! — Ai não, que não topa! Passa-te um risco vermelho por cima e já está. — Se for assim, paciência. Vou mas é à cantina, que estes «episódios» abrem-me sempre o apetite! E o Chico virou-lhes as costas, largando a correr.


— Já não tens tempo! — gritou o Pedro, ao ouvir de novo a campainha. — Diz ao «stôr» que eu já vou! — pediu ele, sempre a correr. — Depois de um ponto, tenho de «restaurar forças»! As gémeas e o Pro não puderam deixar de rir. Era tão chanfrado, o Chico!

Capítulo 2

Que tarefa infernal

— Teresa! Luísa! Venham cá! — chamou a mãe, da entrada. As gémeas entreabriram a porta do quarto e espreitaram. — Então? Não me ouviram chamar? A Luísa apareceu contrariada — O que é, mãe? — Preciso que me façam um favor. Esta tarde têm de ir às Finanças receber dinheiro do imposto que paguei a mais.


— Oh! Mas hoje não dá jeito nenhum... — Tem de ser hoje. Isto deve ter um prazo para se receber, e eu não posso lá ir. A Luísa ainda insistiu: — Temos tanto que fazer! — Fazem depois. Venham comigo, que eu deixo-as lá. Depois voltam no metropolitano. A Teresa apareceu por sua vez à porta do quarto e perguntou: — Achas que vire o disco? Já gravei tudo de um lado... A mãe fulminou-as com o olhar. — Então tinham muito que fazer, hã? — É verdade! Emprestaram-nos seis CDs para a gente gravar umas cassetes, mas temos de os devolver amanhã. — Gravam à noite. Agora vêm comigo. Isso não é urgente. — Oh, mãe! Mas à noite queríamos ver uma série policial na televisão... — Deixem-se de coisas, que eu estou com pressa. Tragam os casacos que está um frio de rachar. — Não vale a pena... Do bengaleiro, limitaram-se a tirar o cachecol, que enrolaram à volta do pescoço. A mãe ainda hesitou, mas decidiu deixá-las ir como queriam. — Pronto, está bem. Vão-se constipar de certeza, e eu garanto-vos que não as trato! Elas riram-se, e saíram batendo com a porta. Pelo caminho, a mãe explicou-lhes o que deviam fazer e entregou-lhes um postal e o Bilhete de Identidade, recomendando que perguntassem qual era a secção onde devolviam o dinheiro do imposto às pessoas que pagaram a mais. — Qual foi a sua ideia de pagar imposto a mais? Toda a gente tenta pagar o mínimo possível... — Até há quem tente escapar e não pagar nada, não é? — É, mas eu sou uma estúpida! Fiz um trabalho para um escritório, o escritório pagou logo o meu imposto e eu feita esperta pa-


guei também... já foi há dois anos, e só agora é que me devolvem o dinheiro. — Que bucha! — Bom, paciência. Tratem-me lá desse assunto, que a «massa» dá-me um jeitão para os presentes de Natal. As gémeas ficaram logo com os olhinhos a luzir. Tinham uma lista interminável de sugestões para presentes. Se reouvessem o dinheiro, talvez fosse bem útil! O trânsito estava infernal, e o velhíssimo Fiat 600 avançava aos soluços pela rua abaixo. Um grosseirão passou por elas e gritou da janela: — Chega para lá esse «berloque», ou manda-o para a sucata, que é onde ele devia estar... Pelo vidro lateral, a Teresa deitou a língua de fora e fez uma careta ao homem, que seguiu vociferando. Felizmente a mãe não se apercebeu de nada. — Pronto, é aqui. Saltem depressa! «Piiii»... Uma fila de carros começou logo a apitar, enquanto as gémeas saíam do carro atabalhoadamente. — Bolas! Deixei o cachecol no banco... — queixou-se a Teresa. — Estou cheia de frio. — Deixa lá, vamos embora para não demorarmos muito. A repartição de Finanças era num prédio bastante velho, e com escada de madeira. Havia imensa gente com ar maçado, todos encostados ao balcão do primeiro andar. Umas etiquetas de pael, suspensas do tecto por arames, indicavam:


Em ambos os lados a bicha era enorme. Poucos empregados, e também com ar chateadíssimo, atendiam as pessoas uma a uma, tentando não perder a paciência. Pela sala havia secretárias carregadas de papéis, livros grossíssimos encadernados e forrados de pano, máquinas de escrever abandonadas. Devia ser um frete horrível trabalhar ali. As gémeas esperaram, esperaram, acotovelaram pessoas, receberam encontrões, assistiram a discussões acaloradas e, quando já estavam fartas daquilo tudo, chegou finalmente a sua vez. O rapaz que as atendeu começou com a conversa do costume. — Já vejo que são gémeas. E iguaizinhas, hã? — Pois somos! — respondeu a Luísa enfastiada. — E queríamos ambas a mesma coisa, receber este dinheiro da nossa mãe. Com um gesto decidido colocou o postal em cima do balcão. O homem olhou para o papel, olhou para elas, e, sem qualquer explicação, foi buscar um livro monstro e pôs-se a folheá-lo... — Sim senhor, cá está — disse por fim. — Tem direito a receber, mas não vos posso dar o dinheiro. — Porquê? — Tem de ser a própria pessoa a receber. Aliás, é preciso trazer documentação, ir a outra repartição, voltar aqui, ir lá outra vez... Furiosas, arrancaram-lhe o postal das mãos. — Por que é que não disse logo? Escusávamos de estar à espera!


— E essa conversa toda devia ir escrita no postal — acrescentou ainda a Teresa. — Os senhores julgam que as pessoas não têm mais nada que fazer senão vir para aqui passear? A nossa mãe trabalha! De trombas até ao chão, fizeram meia volta e saíram, perante o olhar compreensivo dos circunstantes. — Isto é que é uma chatice! — A esta hora já podíamos ter tudo gravado... — Vamos! A estação do metropolitano é ali diante. Apesar de irem com pressa, pararam ainda pelo caminho para comprar pastilhas num quiosque. Precisavam absolutamente de «mastigar» a sua própria fúria. Tanto tempo perdido, e para nada! Era bem complicado, aquele «mundo dos impostos e papéis»! Mas, ao porem o pé na escada que conduzia ao túnel do metro, foram envolvidas por uma grande animação. Estavam ali imensos vendedores ambulantes. E vendiam de tudo! Fatos de treino, camisolas, carteiras, lenços... O mais giro eram os tabuleiros cobertos de tecido indiano, com pulseiras, colares e brincos de metal. A Luísa parou a ver. A Teresa reparou que a mulher que vendia aquelas coisas, embora disfarçadamente, não tirava os olhos delas. Se calhar tinha medo que lhe roubassem alguma coisa... — Anda, Luísa! Não vamos comprar nada, por isso não vale a pena estar aqui... — Está bem, mas eu gosto de ver. Um ruído cavo e sugado apressou-as. O metro já lá ia... Juntas, desceram a plataforma apinhada dc gente mesmo a tempo de verem o comboio desaparecer no túnel. — Bolas! Perdemos este. — Deixa lá, com certeza não tínhamos lugar. Ficaram por ali, passeando de um lado para o outro, lendo os anúncios descomunais que cobriam as paredes, à espera do comboio seguinte. «BRUÁÁÁ... BRUÁAA...» Fm sentido contrário uma composição com três carruagens parou uns segundos, e avançou de novo, fazendo vibrar tudo em redor.


uma_aventura_debaixo_da_terra