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Quando Mademoiselle Nadine Fabre entrou para o táxi que a havia de levar ao São Carlos, para a primeira récita de Maria Callas, em Lisboa, estava João Queiroz a enfiar Narcisa para dentro do seu enorme Chrysler preto, ordenando ao chofer que seguisse a caminho da clínica. Mademoiselle Nadine Fabre sorriu ligeiramente para o vizinho, mas ele baixou apenas a cabeça, distraído. Até é possível (o Crispim já deve ter visto uma data de filmes com cenas destas) que os dois automóveis se tenham depois cruzado nalguma esquina, que um deles (talvez o táxi) tenha cedido passagem ao outro (possivelmente ao Chrysler que é muito maior e deve ir a apitar que nem um louco), ou, pelo contrário, que tenham ambos emburrado nalgum cruzamento, «a prioridade é minha, ó seu camelo!», «e eu levo aqui uma grávida, ó seu idiota! », até João Queiroz se decidir a intervir e, como diz o Crispim quando fala dos seus problemas sindicais, «conseguir desbloquear a situação». Mas mesmo que tudo se tivesse passado assim — o que, evidentemente, ninguém hoje consegue garantir — Mademoiselle Nadine Fabre não teria dado por nada. Porque Mademoiselle Nadine Fabre estava muito longe. Mademoiselle Nadine Fabre fechou os olhos, e dentro do táxi transformou-se em Maria, é grega, o avião em que viajou de Madrid para Lisboa acabou de aterrar na Portela, está uma multidão à sua espera. Mademoiselle Nadine Fabre, transformada em Maria, veste um casaco de fazenda vermelha com gola de pele cinzenta, um casaco comprido, tão comprido como a saia do vestido por baixo dele, porque toda a gente diz que tem as pernas muito grossas, e ela não gosta de as mostrar. O táxi dá uma volta imensa porque Mademoiselle Nadine Fabre continua de olhos fechados e não repara, e o homem em vez de descer ao Rato e meter pela Escola Politécnica vai apanhar a Joaquim António de Aguiar, descer até ao Marquês e seguir pela Avenida da Liberdade, enquanto Mademoiselle Nadine Fabre sente o vento a bater-lhe na cara ao sair do avião, e tem de fazer prodígios de equi-


líbrio para dizer adeus e ao mesmo tempo segurar na cabeça «um chapelinho feito do mesmo tecido do casaco», assim o dizem os recortes dos jornais e as fotografias que a mostram ainda a apertar nos braços o caniche preto, Toy de seu nome, garantem os jornalistas, o qual, ao contrário da sua dona, há-de morrer de velho — mas isso nenhum jornalista podia adivinhar. Entra agora o táxi na Praça dos Restauradores, com eléctricos e ainda sem metropolitano, nem parque de estacionamento, nem aquelas palmeiras no meio do Éden, que nessa altura ainda é cinema, com as pessoas na bilheteira para a sessão das nove e meia. Passa diante do Teatro D. Maria II, que dali a três anos vai arder de alto a baixo, atravessa o Rossio com as fontes, as floristas, de novo os eléctricos, a estátua do D. Pedro IV (que o Crispim, que sabe imenso de todas as coisas, garante ser do Imperador Maximiliano do México), mas em nada disso Mademoiselle Nadine Fabre repara, ela continua longe, transformada em Maria, acena à multidão, vai assinar mais autógrafos que as Spice Girls que, evidentemente, ainda nem sonham vir um dia ao mundo, e vai exclamar (assim estou farta de ler nos recortes) «enfim Lisboa!», no momento em que os jornalistas se atiram para cima dela, e querem todos saber tudo, se é verdade que tem mau feitio, se é verdade que o marido tem o dobro da idade dela, se é verdade que perdeu trinta quilos num ano numa cura de emagrecimento, se é verdade que um realizador de cinema («Visconti», encarrega-se logo o Crispim de acrescentar) se apaixonou por ela. Sobe depois o táxi a Rua do Carmo, a seguir a Rua Garrett, ninguém sabe nessa altura que tudo aquilo vai arder dali a trinta anos, e há-de levar imenso tempo a re construir, e se algum horóscopo da altura previsse desgraça tamanha, toda a gente iria rir muito do disparate, «o Chiado arder, olha que ideia!», e a autora ou autor iria imediatamente para o desemprego. Mademoiselle Nadine Fabre, transformada em Maria, sorri para os fotógrafos, resguardando o rosto por trás dos óculos escuros, e assina ainda mais autógrafos, e recebe ramos de flores, e entra fi-


nalmente para o carro que a vai levar ao hotel onde fica por esses dias. «Hotel Avis», dizem os jornais, que lembram tratar-se de um hotel habituado a receber príncipes e princesas, e onde viveu aquele velhote cheio de dinheiro que nos deixou em testamento a Fundação Gulbenkian. Claro que, naquela altura, isso não importava nada, ele já estava morto há três anos e a Fundação, segundo assegura o Crispim, era apenas um projecto. Nas fotografias dos jornais o hotel parece mais um brinquedo, uma moradia no meio de um jardim cheio de árvores («deitaram abaixo essa maravilha para construírem aquele mamarracho do Sheraton!», resmunga a minha mãe), é ali que ela vai ficar bem protegida dos fotógrafos, dos jornalistas, que já andam atrás de toda a gente mas ainda não se chamam «papparazzi» («porque Papparazzo é o nome de um fotógrafo que, em cima de uma vespa, anda atrás de todas pessoas conhecidas num filme do Fellini chamado La Dolce Vita, que só ia ser realizado dois anos depois», esclarece de imediato o Crispim), e dos admiradores, que também ainda não se chamavam fãs, e é ali que depois... — Já chegámos — resmunga o taxista. Mademoiselle Nadine Fabre estremece, sobressaltada. — Desculpe... — murmura, com aquele sotaque que nem os dez anos que então já leva a viver em Portugal conseguem apagar. Procura o dinheiro na carteira, admirada com o preço da corrida, por que ruas terá andado sem dar por isso?, e o taxista refila, porque já ali está parado há um ror de tempo, e ela não lhe deu gorjeta que se visse. O homem não adivinha que, nessa semana, as finanças de Mademoiselle Nadine Fabre sofreram um rombo de todo o tamanho: comprou um saia-casaco novo, deu duzentos escudos por uma plateia para aquela noite e, para chegar com antecedência ao espectáculo, oferecera-se o supremo luxo daquele táxi. O que vale é que o mês está mesmo no fim, e há duas alunas que, na próxima semana, lhe vão pagar lições em atraso. Mademoiselle Nadine Fabre, agora de olhos bem abertos, gosta de sentir o cheiro dos perfumes no foyer do teatro, gosta de olhar


para os espelhos, para as alcatifas, para as pinturas, para os dourados. Senta-se na poltrona de veludo vermelho que lhe coube em sorte e está a minutos, a segundos, da realização do grande sonho da sua vida: ouvir Maria Callas ao vivo, a cantar La Traviata. Quando a orquestra ataca o «Prelúdio» e depois a cortina sobe, Mademoiselle Nadine Fabre voa do seu lugar na plateia para o palco, vestida de tule cinzento-violeta, coberta de diamantes («que faiscavam», dirão os jornais do dia seguinte), no meio da alegria de uma festa onde se canta, se fazem promessas de amor, se bebe champanhe («do verdadeiro! », diz um dos recortes, cheio de pontos de exclamação). No palco, Mademoiselle Nadine Fabre chama-se Violeta e ama Alfredo, vai morrer tuberculosa no último acto, entregando-lhe um retrato para que ele nunca a esqueça. Na sua poltrona de veludo vermelho, Mademoiselle Nadine Fabre canta em surdina exactamente o que ouve no palco, ela sabe todas as árias de cor e está a rebentar de felicidade, agora que a ópera está a chegar ao fim, mas a vizinha do lado não gosta e manda-a calar, que era preciso muito respeito pela divina Callas, mas Mademoiselle Nadine Fabre nem se dá ao trabalho de lhe responder, vai cantando em silêncio, enquanto Violeta, num leito dourado e vestida de rosa-creme, chora por Deus a deixar morrer tão nova, coitadinha. O teatro vem abaixo com palmas e bravos. Maria Callas vem receber os aplausos. Uma vez, duas vezes, dez vezes. Mademoiselle Nadine Fabre conseguiu contar vinte e cinco vezes. A partir daí baralhou-se, era a emoção, era a alegria, e perdeu-lhe a conta. Mas os jornais do dia seguinte garantiram ter havido quarenta e duas chamadas ao palco. Pelo meio dessas quarenta e duas chamadas, Narcisa deu à luz Cacilda.


É claro que eu estou aqui a lembrar-me destas coisas que a Nani me contou, só para ver se o nervoso passa. Eu nem sei bem se é nervoso. Se calhar é apenas aborrecimento, falta de paciência. O Crispim, se tivesse vindo comigo, encontraria já a palavra adequada para, como ele costuma dizer, «desbloquear a situação». Digamos então que não me agrada estar aqui. Não me agrada olhar para o ar infeliz da Rute Isabel quando lhe aparece pela frente uma rapariga que não vê a mãe desde que nasceu, ou um homem que passou a vida paredes meias com uma vizinha, ignorando ser a cunhada da prima desaparecida há dez anos. Rute Isabel fica a olhar para eles sem saber o que dizer, e eles a olharem para ela à espera que ela diga o que hão-de fazer a seguir, o homem de auscultadores berra «corta! », e ela desfaz-se em lágrimas porque já é a sétima vez, nesse dia, que se esquece do que vem escrito nos papéis que lhe deram para decorar. — Ó santinha, nem ao menos sabes ler o teleponto? — berra o homem dos auscultadores, que está farto, como nós todos, e, como nós todos, só deve sonhar com a hora de chegar a casa. Rute Isabel recompõe-se, jura que desta vez é que é. Voltamos ao princípio, mais uma vez. Ainda estou para saber o que faço aqui, sinceramente. Ainda estou para saber por que escrevi a carta. Claro que foi para a Nani e o Crispim deixarem de me atazanar o juízo com a história da viscondessa — mas eu podia ter resistido, podia ter aguentado mais, podia ter feito papel de mártir incompreendida (em que, não é para me gabar, sou muito boa), podia ter batido o pé e deixá-los falar até se cansarem. Não teria escrito a carta, a Rute Isabel não me teria respondido, e eu não estaria agora aqui, a cara cheia de cremes e pinturas já meio esborratadas por causa deste calor infernal. Eles é que me obrigaram. Porque — dizem ambos — pode estar aqui o meu futuro. E eu acabei por embarcar. É o mal de passarmos a vida a ouvir ópera. De repente olhei para mim, e senti-me igualzinha ao Manri-


co, quando descobre que não é filho da cigana mas dos condes. Eu sei que isto, à primeira vista, até parece telenovela mexicana, mas é a história de O Trovador, uma das óperas preferidas da Nani, que se fartou de barafustar quando um dia ouviu uma ária muito importante a servir de fundo à publicidade de uma cerveja na televisão. Eu sabia que a minha mãe tinha sido criada pela Nani — e nunca lhe perguntei mais pormenores, para não a fazer recordar maus tempos. Sempre imaginei que os pais a tinham abandonado, e que Mademoiselle Nadine Fabre a teria encontrado à porta de casa, numa noite em que voltava de São Carlos. Para quê falar-lhe de coisas tristes e que, ainda por cima, não aqueciam nem arrefeciam a minha existência? Mas depois de aqui há dias a Nani ter deixado escapar da boca a referência à minha avó, achei que era mais que tempo de me contarem a história toda. Por uma questão de ficar informada, mais nada. Só que tanto a Nani como o Crispim são uns apressados, e desataram a ver outro filme. Por isso avisei logo a Rute Isabel: comigo, podem perder as esperanças. Sou pouco dada a lágrimas, a não ser quando a pobre da Cio Cio San é abandonada pelo malvado Pinkerton com uma criança nos braços. Rute Isabel — A quem? Eu — A Cio Cio San. Rute Isabel — Não me lembro de ter entrevistado ninguém com esse nome. Tenho de ir ver as minhas fichas. Eu — É a Madame Butterfly. Rute Isabel — No meu programa tratamos toda a gente da mesma maneira. Não há cá madames, nem doutores, nem nada disso. Eu — Esqueça, esqueça. Rute Isabel — Se calhar foi qualquer coisa que você viu na concorrência, e está a confundir. Eu — Deve ter sido.


Mas queria eu dizer que, regra geral, sou de lágrima difícil, e a última coisa que me apetece é que alguém faça espectáculo à minha custa. Se depois os jornais falarem da grande audiência do programa, que seja porque a Rute Isabel se esmerou nas perguntas e, à décima vez, lá conseguiu dizer tudo direitinho, ou porque descobriram casos dificílimos de resolver, ou porque o homem dos auscultadores nos ouvidos enquadrou todos nuns planos artísticos dignos do Fellini ou do Visconti, que são os ídolos do Crispim. Mas que não seja por minha causa. Se durante dezasseis anos todos nós tivemos caminhos diferentes, não será esta emissão do Quem Sabe Deles? que vai alterar seja o que for. Se durante dezasseis anos nós três vivemos felizes (e apertadas, concordo) no nosso rés-do-chão em Campo de Ourique, não vejo razão nenhuma, por muito que o Crispim e a Nani falem de quintas e bibliotecas e mansões e lareiras não sei onde, para desatarmos aqui a fazer declarações de amor ou, pior do que isso, começarmos a invocar as responsabilidades de cada um nesta trapalhada toda. O Crispim é que gosta muito de falar em responsabilidade, eu não. Por isso a minha vontade era sair deste lugar e ir dizer à equipa toda que está nos bastidores a esfalfar-se em telefonemas, contactos com a polícia, hospitais, juntas de freguesia, câmaras municipais, partidos políticos, sindicatos, sociedades recreativas, associações de beneficência, grupos onomásticos, eu sei lá que mais — que desistam, que não vale a pena, que é melhor cada um voltar para o que estava a fazer antes, então muito boa-tarde e desculpem qualquer coisinha. Mas tenho pena deles. Pena da Rute Isabel, que até tem ar de boa rapariga e se comove sempre muito com as desgraças das pessoas e, como toda a gente, deve estar a juntar dinheiro para comprar o segundo automóvel e um monte no Alentejo, e por isso precisa de fazer as figuras que faz. E sobretudo pena desta gente toda aqui sentada, com ar de quem gostaria de nunca ter entrado a porta deste estúdio, mas a vida é assim. E, como repete constantemente o senhor careca da quinta fila, sem televisão não somos nada.


Pelo menos, alguém poderia avisar a viscondessa para não se apressar, para terminar em paz o que tem de fazer, para dar as ordens necessárias ao pessoal de maneira a não haver prejuízos por este dia de desvario (já não tem Mademoiselle Nadine Fabre a velar por ela...), e para não se lançar por aí a mata-cavalos só porque eu, Maria Guilhermina, Mina para os amigos (não para ela, evidentemente) decidi agora procurá-la. Não se apresse, porque não vamos cair nos braços uma da outra, com muito ramo de flores pelo meio, muita lágrima, muita fungadela, muito «desculpa-se-nunca-quis-saber-de-ti-mas-és-a-pessoa-que-mais-amo-neste-mundo». E para ficarmos feitas parvas a olhar para a luzinha vermelha da câmara que o homem dos auscultadores histericamente nos aponta, com a Rute Isabel insistindo «a partir de agora nunca mais se vão separar e vão viver felizes para sempre», como se fosse um filme do Walt Disney, é preferível que ela não deixe as coisas importantes que deve ter para fazer lá nas propriedades, nas mansões, nos quintos do Inferno. Todas as pessoas importantes têm sempre coisas importantes para fazer. É dos livros. E dos filmes, diria o Crispim. E das óperas, diria a Nani. E porque estes dois me moeram o juízo (a minha mãe, honra lhe seja, nunca entrou na história), só para não os ouvir, lá me decidi a escrever a carta, e aqui estou. Quando a Rute Isabel me telefonou para avisar das gravações, disse-me logo que não tivesse muitas esperanças, que tinha sido muito complicado, que ainda estavam a fazer algumas diligências e que, até chegar a minha vez de ser entrevistada, talvez alguém desse sinal de vida. — Por acaso não gosto nada quando isto acontece, mas prontos — disse a Rute Isabel que, para sua felicidade, não conhece o Crispim, senão ouviria logo ali das boas por causa dessa história do «prontos». Ele diz que só os ignorantes é que falam assim. Português é com ele. — Isto o quê? — perguntei eu. — Isto. A gente entrevistar uma pessoa e depois não aparecer nin-


guém. É uma chatice. Ficamos ali pendurados. Não gosto, prontos. A Rute Isabel falava aos soluços. Ou então era de feito do telemóvel dela, que estava sempre a ir abaixo. Devia ter a pilha fraca. Ou então ela estaria a passar por um túnel. Debaixo dos túneis os telemóveis perdem o pio. Pelo menos o do Crispim. — Se quiser eu não vou — arrisquei. —Era só o que me faltava. Já tenho o programa alinhado. Você entra lá para o meio. Ou para o fim. Não estou a ver bem. Mas prontos, quando chegar logo se vê. E prontos, quando cheguei logo se viu. O pior, confesso, é este calor e estas horas todas aqui sentada. Bem fez o Crispim que, por mais que um brasileiro de cabelo verde insistisse, não quis vir comigo e ficou lá fora, na entrada a olhar para o ar, a fingir que não é nada com ele. ‘Cê entra como figurante, viu? No fim ainda recebe uma grana, e se quiser deixa aí a tua morada e o telefone que a gente quando precisar volta a chamar você, tá? O Crispim lançou-lhe um olhar de desprezo e sentou-se num sofá azul na sala da entrada, com cinco televisores à sua frente, cada qual com um programa diferente, três telefonistas, dois seguranças e um porteiro sempre a entrar e a sair — e preparou-se para a grande espera. No balcão das telefonistas, um autocolante anunciava «I LOVE NEW YORK» o que o deixou logo muito maldisposto. Voltei a propor-lhe que viesse comigo, mas ele abanou a cabeça, sentou-se num dos sofás, abriu o Avante e lá ficou em profundas leituras. E assim não teve de passar pelas torturas de uma cadeira parecida com a dos dentistas, com uma brasileira loira a encher-me a cara de cremes e pós, a mascar pastilha elástica e a falar sem parar para outra loira, que fazia o mesmo a outra desgraçada como eu, e que, também como eu, não parecia por aí além interessada em encontrar fosse quem fosse. Pobre Crispim. Só pensa no meu bem.


Para falar com franqueza, ninguém aqui parece muito feliz. De resto, com este calor, e a quantidade de vezes que já repetimos as palmas e as gargalhadas, e a quantidade de vezes que dissemos «ah!» e «oh! », e a quantidade de vezes que nos levantámos dos lugares e nos voltámos a sentar, e a quantidade de vezes que a Rute Isabel já entrou por aquela porta, muito sorridente, a dizer «olá, boa-tarde, eu sou a Rute Isabel!» — não há felicidade que resista. E se calhar vieram todos obrigados, como eu. As famílias são uma coisa terrível! As figuras que nos obrigam a fazer! Se calhar também lhes meteram na cabeça que não podemos sobreviver sem termos os parentes todos reunidos à nossa volta. Treta. Claro que podemos. E nos casos em que, de repente, nos dê jeito ter algum ao pé de nós, podemos sempre inventá-lo. Foi exactamente o que eu fiz. A partir do momento em que Mademoiselle Nadine Fabre se transformou em Nani, nunca mais precisei de avó nenhuma. E quando finalmente a minha mãe se decidir a casar com o Crispim, vou ter um pai às direitas, podem crer. («As esquerdas», diria ele agora, se me ouvisse.) De resto, esta meia dúzia de anos em que ele já a atura tem sido um treino fabuloso. Mas agora é tarde para fugir daqui. Aguentar e cara alegre. A minha ficha já está entre as muitas que a Rute Isabel tem nas mãos — e que já deixou cair não sei quantas vezes — com o meu nome, data de nascimento e «relação com o procurado». Quando ela ao telefone me disse isto, pensei, por momentos naqueles filmes de cobóis, com a cara dos assassinos espetada na parede dos saloons, e a palavra Wanted por baixo. Rute Isabel — Você chama-se... Eu — Maria Guilhermina. Rute Isabel — Que engraçado! É um nome... Eu — Feio. Pode dizer à vontade. Rute Isabel — Não, não... É... fora do vulgar. Eu — Feio. Horrível. Rute Isabel — O meu é bem pior.


Eu — Nem por isso. Não desgosto de Isabel. Rute Isabel — O meu nome é Carmo do Rosário. Eu — Ah. Falando do meu nome, acho que ninguém de bom senso deveria ser capaz de o dar nem à sua pior inimiga. A minha mãe diz que me chamou assim por acaso. — Calhou — é tudo o que ela apresenta em sua defesa. Como se eu acreditasse. Como se eu acreditasse que, por acaso, pura e simplesmente por acaso, entre todos os nomes existentes na lista telefónica, no Prontuário (é um livro que o Crispim às vezes me empresta para eu ver como se escrevem as palavras, e onde estão todos os nomes que existem), ou nos romances, ou nas óperas, ou nos filmes, ou nas revistas, ou nos jornais, ou nas telenovelas — o dedo da minha mãe fosse logo acertar em Maria Guilhermina? Ainda se fosse Cátia Sofia ou Vanessa Alexandra (Rute Isabel, já agora) eu podia perceber. Ia odiar, evidentemente — mas percebia: eram as modas de há dezasseis anos, o que é que eu havia de fazer? Que eu saiba, Maria Guilhermina nunca foi, em tempo algum, nome de moda. Mas pronto. (O Crispim, se me ouvisse agora, ficava possesso. Nem «pronto» ele aceita. «É palavra de quem não sabe a nossa língua», grita ele. O Crispim é fanático do Português.) Mas como sou Mina para toda a gente, até me vou esquecendo do meu nome verdadeiro. O Crispim, para me animar, lá vai dizendo que, há muitos anos, houve uma rainha da Holanda com este nome, parece que avó desta que lá está agora; e a Nani conta-me, dia sim dia sim, a história de Guilhermina Suggia, uma violoncelista portuguesa vraiment géniale (quando se entusiasma ou quando se irrita muito, a Nani só fala francês), com fama internacional e tudo. Eu bem vejo que são eles a tentarem dar-me companheiras de infortúnio e, só por isso, lhes fico eternamente grata. Vistas bem as coisas, até deve haver muito pior. Ou, como costuma dizer a Nani, as pessoas é que fazem os nomes que têm partindo

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