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Caríssimos Leitores, Escrevo­‑lhes, depois de um longo período de silêncio, para tentar desimpedir o terreno de alguns possíveis equívocos. Para começar, perguntaram­‑me qual teria sido a reação de Ulysses Moore à publicação dos seus diários. A res‑ posta é que não sei, uma vez que nunca tive a sorte de o encontrar. Depois chamaram­‑me a atenção para o facto de o endereço da sede dos Incendiários, em Londres, não corresponder à verdade. Saibam esses preciosistas que utilizei propositadamente um endereço fictício, por motivos óbvios de segurança. Gostaria ainda de salientar que não habito, nem habitei nunca, nos lugares de que se fala nos livros precedentes. Por esta razão, também as descrições de um hipotético encontro meu com a senhora Bloom devem considerar­‑se puramente literárias. Por fim, quero aproveitar estas páginas para comunicar a Fred Dormempé que se esqueceu em minha casa do pijama e da escova de dentes. Convido­‑o por isso a apre­ sentar­‑se quanto antes «onde ele sabe», para recuperar os seus objetos pessoais. Cordialmente, o vosso editor Pierdomenico Baccalario


Capítulo 1

O NÁUFRAGO

Havia só mar, a perder de vista. Uma extensão plana, cin­zenta e gélida como a lâmina de um punhal, mas não tão rígida. O mar oscilava num movimento rítmico, sem fim. Para baixo e para cima, para baixo e para cima... A monotonia do cenário foi quebrada por um movi‑ mento rápido e repentino. Qualquer coisa branca. Uma gaivota, com o seu grito estridente e com as asas abertas para aproveitar as correntes do ar. Depois, um baque surdo: a gaivota lançara­‑se à superfície da água para apanhar um peixe de reflexos prateados. O céu continuava imóvel, cinzento e azul, com a pálida luz diurna abrindo grandes rasgões no manto de nuvens, como através dos vitrais de

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uma catedral. Tommaso Ranieri Strambi levou alguns minutos até se aperceber de que não estava a observar aquele cenário de fora. Estava imerso nele. No mar cinzento e gélido. Entre as ondas, que o embalavam lentamente, para baixo e para cima. Ouviu de novo o grito estridente, desta vez mais dis­ tante, e viu a gaivota a afastar­‑se em voo com um peixe atravessado no bico. Depois acordou bruscamente daquela espécie de sonho algodoado e as imagens que o rodeavam quebraram­‑se, como uma camada de gelo despedaçada de repente. Tommaso viu­‑se debaixo de água. Em vez do céu, tinha por cima uma massa líquida de cor verde intenso. O peso da roupa ensopada estava a puxá­‑lo para baixo. Como que paralisado pela mordedura daquele gelo líquido que lhe apertava as têmporas como uma tenaz, olhou para cima e... viu uma série de ilhas minúsculas que flutuavam na superfície do mar. Livros. Uma mala. Uma cadeira de baloiço. Uma mesinha. Via que se tor­ navam cada vez mais pequenos à medida que ele se afundava. Um peixe deslizou a poucos metros dele e desceu a pique para as profundezas do oceano. Só que talvez não

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fosse um peixe. Era grande de mais para ser um peixe. Parecia... um piano de cauda? No meio do mar? As recordações chegavam­‑lhe uma após outra, como descargas elétricas. Tommaso reviu a vaga da cheia que o enrolava na livraria de Calypso, a montanha de água que o arrastava para fora. Um momento antes estava a ten­tar convencer os Flint a não utilizarem a chave com a pega em forma de baleia. Em vão. Decidiu tentar mexer os braços. Com um golpe de rins conseguiu subir meio metro. Os objetos que boiavam naquela fina película movediça suspensa sobre a sua cabeça deixaram por um instante de ficar mais pequenos. Fez mais uma braçada e, ao memo tempo, deu um impulso com as pernas. Foi repetindo este movimento, primeiro mecanicamente, depois de uma maneira cada vez mais fluida. Sentia a urgência de voltar a encher novamente os pulmões de ar. Enquanto nadava, lembrou­‑se de que a água o tinha levantado do chão e o fizera rodopiar sobre si mesmo. Lembrou­‑se do emaranhado de braços e mãos, recor‑ dou que não estava sozinho naquele turbilhão. Também estavam lá os primos Flint. E a rapariga que trabalhava no banco. Como se chamava? Nunca tinha lido o nome dela nos livros de Ulysses Moore. Subiu lentamente à superfície e viu os raios de sol a filtrarem­‑se até ele, mas sem sentir ainda o seu calor.

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Os pulmões, agora, ardiam­‑lhe atrozmente e os olhos doíam­‑lhe. Como tinha ido parar ao meio do mar? Apenas podia imaginá­‑lo: a vaga da cheia devia tê­‑lo arrastado através das ruas de Kilmore Cove juntamente com os objetos que via a boiar por cima dele. À medida que se aproximava, reconheceu as pequenas mesas do café da praia, as cadeiras, os toldos. E coisas ainda mais estranhas: um chapéu de coco, duas cómodas, um can‑ deeiro, carcaças de móveis, cobertores. Tommaso Ranieri Strambi chegou à superfície emi‑ tindo qualquer coisa semelhante a um grito. Abriu a boca e, finalmente, respirou com avidez, com fúria. Depois deixou­‑se ficar a boiar com as pernas e os braços abertos, a cara voltada para o sol. Por fim, quando teve a certeza de que ainda estava vivo, desatou a rir­‑se. Olhou à sua volta e só viu mar. Nem uma nesga de costa, nem sequer um barco no horizonte, nada de nada. A poucos metros, contudo, apercebeu­‑se da maciça mala de pele que, como uma boia, flutuava meio mergulhada na água e meio de fora. Pareceu­ ‑lhe reconhecê­ ‑la. Lembrou­ ‑se de que, na escuridão dos últimos instantes, se tinha agarrado a qual‑ quer coisa macia e, ao mesmo tempo, sólida, que o prote‑ gera dos choques e o mantivera à superfície quando todas as forças à sua volta tentavam empurrá­‑lo para o fundo.

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Com duas braçadas chegou junto do objeto que, pro­ vavelmente, lhe tinha salvado a vida. Era mais ou menos do seu tamanho. Subiu para cima da mala e esta, depois de se afundar alguns centímetros, voltou a flutuar como dantes na água, mantendo­‑o a navegar como uma jangada. «Que grande desastre», pensou Tommaso, olhando para a desolação dos destroços espalhados à superfície. Observan‑ do a cor da água, conseguiu determinar de que lado deveria ser a costa: onde estava mais suja e mais cheia de im­­purezas à deriva. Depois, como um escuteiro que se pre­­za, tentou determinar a altura do sol. Sem êxito, diga­‑se. Então, forçou a memória a voltar a tudo o que lhe tinha acontecido nos últimos dias. Pensou fugazmente nos pais que, em Veneza, deveriam estar muitíssimo preocupados. Depois pensou em Anita, perdida algures no meio dos Pirenéus. Por fim pensou que Julia Cove‑ nant, irmã gémea de Jason, era muito mais alta do que ele imaginara. Esperou que um cabide passasse ao lado da sua mala­ ‑jangada, agarrou­‑o e começou a servir­‑se dele como remo. Procurou aproveitar a corrente que se dirigia para a parte do horizonte onde, na sua opinião, devia encontrar­‑se a costa. Enquanto remava desajeitadamente, descobriu que fazê­‑lo no mar alto era muito mais cansativo do que na laguna de Veneza. Bastava parar alguns segundos para retomar o fôlego e voltava logo ao ponto de partida.

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De vez em quando ouviam­‑se barulhos surdos, de cada vez que alguma coisa se afundava na água. Por um instante, perguntou a si próprio se aquela coisa que um pouco antes lhe parecera um piano não poderia ser, na realidade, uma criatura marinha. Uma baleia. Ou um tubarão. «Não há tubarões neste mar», disse de si para si. Depois lembrou­‑se, contudo, que o guarda do farol de Kilmore Cove tinha sido atacado por um tubarão precisamente naquele mar. Fechou os olhos e sacudiu da testa o cabelo molhado e cheio de areia. Então voltou a inclinar­‑se sobre o seu remo improvisado e recomeçou teimosamente a remar. Andou em frente dez minutos, um quarto de hora no máximo, até se dar conta de que estava completamente exausto. Sentia os ouvidos a assobiar e era como se a cabeça lhe estivesse prestes a explodir. O remo caiu­‑lhe para a água. Tentou desesperadamente agarrá­‑lo, mas era como se o seu cérebro já não conseguisse dar ordens ao corpo. Estendeu­‑se na mala, abraçou­‑se a ela para não cair à água e disse para si próprio: «Só um instante. Vou descansar só um bocadinho, e depois...» Logo depois perdeu os sentidos e, agarrado à sua jangada de pele negra, foi arrastado pela corrente.

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Ulysses - a terra do gelo