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Capítulo 1

O GATO de VENEZA

— Miolì? — chamou a Anita num fio de voz. — Miolì? A rapariga estava em bicos de pés na erva do prado. Com a boca ligeiramente entreaberta, apurava o ouvido ao mínimo rumor. Voltou-se para o poço de pedra. Um pio de ave? Um gemido? Uma folha pisada? Verificou. Não, nada disso. O gato também não estava atrás do poço. A Anita passou a mão por entre o cabelo, tirando o elástico com que costumava prendê-lo. Tinha cabelos compridos e escuros, lisos como lâminas, que lhe chegavam até aos ombros. Mordeu o lábio, indecisa entre irritar-se e preocupar-se. Já era tarde. Por cima

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dela, o céu de Junho tinha a cor de uma casca de laranja cristalizada. Um vento impertinente soprava da lagoa, fazia ondular as glicínias acabadas de florir e espalhava à volta o doce perfume dos lilases. — Miolì? — chamou Anita uma vez mais, embora soubesse que era inútil procurá-lo ali fora. O gato tinha provavelmente trepado por um dos troncos retorcidos das glicínias, tinha caminhado em equilíbrio pela barra de ferro da ramada e, pela enésima vez, saltara o muro de pedra que delimitava o jardinzinho da casa. E tudo acontecera mesmo à frente dela, uma vez que tinha passado a tarde sentada, a estudar, à mesinha colocada no meio da relva. «Bolas!» O vento fazia estalar as folhas do livro como se fossem velhos leques. «Bolas!», pensou de novo. Quando teria visto o Miolì pela última vez? Foi antes. «Mas antes, quando?», perguntou a si mesma enquanto retorcia o elástico com os dedos. A Anita nunca na vida tivera relógio, de maneira que a sua percepção do tempo era puramente visual. Assim, quando o Sol descia para lá do perfil plano da lagoa e incendiava a água onde vogavam as embarcações a vapor rumo a Mestre e a Chioggia, significava que o dia estava a chegar ao fim.

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Um bando de pombos atravessou, com um bater de asas forte, o retalho de céu por cima dela. Este era outro indício do crepúsculo iminente. Para a rapariga foi como um sinal para agir. Não havia um segundo a perder. Pegou no livro, no caderno e na caneta e enfiou-os rapidamente na mochila, atravessando depois o estreito e comprido pátio da velha casa. Diante dela erguia-se o antigo edifício com os seus três pisos de paredes descascadas, as janelas estreitas e altas emolduradas por ogivas de pedra. Das aberturas negras e vazias sob o telhado sobressaíam os andaimes de ferro das obras. Franqueou a porta de entrada da casa, apoiou-se no corrimão da escada estreita que subia para o primeiro andar e pôs-se à escuta. Ouvia o som, ao longe, do rádio da mãe, sintonizado como sempre numa emissora de música clássica. Os violinos de uma qualquer ária famosa deslizavam como fantasmas pelos degraus de pedra, produzindo ecos melancólicos. As paredes da casa estavam completamente cobertas de frescos: pinturas sombrias, rostos de figuras de pessoas e animais engolidos pelas sombras. O tecto, três pisos acima, era sulcado por uma grande racha escura e brilhava com um dourado incandescente. Aos olhos fantasiosos da Anita, aquela fenda era a raiz de uma árvore. «A árvore do tempo e do abandono, que se alimenta de espaços vazios e de silêncio», murmurava enquanto

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seguia com os olhos o trajecto acidentado da fenda até à mancha escura em que desaparecia. Uma mancha onde ela julgava vislumbrar pequenas folhas de prata. Não podia fazer nada: sempre assim fora. Via as coisas desta maneira. Mesmo que os outros lhe dissessem que estava enganada, que certas coisas não existiam. Naquele fim de tarde, contudo, a única coisa que parecia não existir para a Anita era o seu gato. Pôs-se de joelhos no fundo da escada e voltou a chamar: — Miolì? Responderam-lhe apenas os violinos da rádio e um longínquo vozear vindo de fora. Do armazém. Ou do canal. Anita subiu os degraus dois a dois. Ignorou as caras das pinturas, mantendo-se bem encostada ao corrimão. Uma vez imaginara que aquelas figuras escondidas nas paredes poderiam raptá-la ou, pelo menos, agarrá-la pelo vestido. Desde então, nunca mais conseguiu tirar isso da cabeça. Correu rapidamente, retendo a respiração, até ao segundo andar, onde saltou por cima das barras de metal pousadas no chão. Ali, os quartos estavam atravancados pelos andaimes, que chegavam até ao tecto. A mãe da Anita subira para o mais alto, mesmo sob o tecto. Trazia uma bata de trabalho suja de tinta e de terra, o cabelo louro protegido por uma touca de plás-

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tico e os olhos por uns óculos amarelos que lhe davam o ar de um insecto horrendo. A mãe da Anita era restauradora. Havia poucas semanas que a haviam encarregado de restaurar aquela casa antiga cheia de pinturas, e ela fazia-o com paciência, uma parede de cada vez, armada de cinzéis, facas e algodões embebidos em água destilada. Raspava, esfregava, limpava e, lentamente, voltava a trazer os frescos à luz do dia. Levaria pelo menos um ano a restaurar toda a casa. E a Anita ficaria com ela. Ficara contente por se ter mudado para Veneza e gostava muito de passar as tardes a estudar naquela velha casa. A casa não era deles mas, graças ao trabalho da mãe, a Anita já a sentia um pouco como... a sua casa de família. — Mãe! — gritou ao entrar no quarto. — Viste o Miolì? A mãe, em equilíbrio no andaime mais alto, nem sequer a ouviu. Estava mergulhada no trabalho e absorta na música do rádio. Anita experimentou chamá-la mais uma vez, depois desistiu e resolveu ir sozinha à procura do gato. Deixou a mochila bem à vista ao pé da porta para que a mãe visse que ela se tinha ido embora, depois desceu rapidamente as escadas, voltou ao jardim, dirigiu-se para a porta de saída, levantou a pesada barra de ferro que a trancava e, por fim, saiu para o sol dourado de Veneza.

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A velha casa era conhecida pelos venezianos como Casa dos Borrões, por causa das suas pinturas. Situava-se em Dorsoduro, o bairro mais a sul da cidade, onde viviam os últimos venezianos, como diziam os moradores da zona. A Anita não era veneziana, chegara havia poucos meses àquela mágica cidade aquática. O seu apelido era Bloom. Anita Bloom, de doze anos, filha única e feliz de uma restauradora italiana e de um bancário inglês que ficara em Londres à espera de se lhes juntar. Embora, como dizia sempre o seu pai, convencer um banco a mudar uma pessoa de Londres para Veneza não fosse exactamente uma coisa fácil. «Vais ver que adoras Veneza!», assim lhe disse o pai ao despedir-se dela e da mãe quando estas partiram para aquela cidade. «Agora vai e não chores. Se tiveres saudades de Londres, há um avião de hora a hora!» É tudo verdade, pensava a Anita, correndo ao longo das ruas marginais do canal de Borgo à procura do gato. Sim, era verdade, com a excepção de que não sentia falta nenhuma de Londres e de que tinha sido o seu pai a tomar o avião para vir vê-la. A rapariga agachava-se em cada canto, procurava dentro de todos os portais e entre as plantas de hera, espreitava para os telhados, perto das chaminés retorcidas. Perguntava aos transeuntes se por acaso tinham visto um gato branco e preto, com uma mancha à volta de um olho. Ninguém o tinha visto.

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À medida que se afastava da Casa dos Borrões, Anita foi-se deixando impregnar pelo labirinto de água e luz da cidade. O sol orlava as cumeeiras dos telhados com diademas de fogo e as fachadas dos edifícios tingiam-se de ouro. — Miolì? — chamou a Anita pela enésima vez ao desembocar no Campo San Trovaso. Em Veneza, as praças chamavam-se campos, assim como as ruas eram calli ou fondamenta. O Campo San Trovaso estava magicamente deserto. Ninguém passava pelo espaço branco delimitado pelas árvores, nem pela sombra cinzenta da igreja monumental, nem pelas manchas de luz que alastravam sobre o empedrado. Só ali estava a Anita à procura do seu gato desaparecido. A rapariga parou de repente. Aquele estranho silêncio, impossível de imaginar em qualquer outra cidade do mundo, ajudava-a a pensar. E Anita gostava de pensar. Gostava de se agarrar a um pensamento qualquer e deixar-se levar por ele, cavalgando velozmente em todas as direcções que o pensamento quisesse tomar, para depois acordar, confusa, tentando lembrar-se do que estava a fazer antes. Encontrar o gato. Depressa. Orientou-se: a sua casa era a poucos números dali, ao longo das marginais do canal, à esquerda. Quase

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podia ver o alto da ramada de glicínias do outro lado da igreja. Por isso... se Miolì fugiu saltando o muro, podia ter trepado com facilidade pelas caleiras daquele pequeno edifício amarelo e ter continuado depois pelos telhados do convento velho donde saltou para a rua... — Enfim, pode estar praticamente em todo o lado — concluiu Anita, olhando à sua volta. Recomeçou a torcer o elástico entre os dedos. «Os gatos são animais de rotinas», pensou. Havia, pois, uma possibilidade: um lugar determinado, ali perto, onde poderia ir procurá-lo em primeiro lugar. O Squero di San Trovaso. Era ali o último estaleiro da cidade onde ainda se construíam gôndolas. Três semanas antes, Miolì tinha-se escondido entre as embarcações, sozinho e espavorido, encafuando-se no fundo de uma gôndola. Anita sorriu contravontade. «Sim», concluiu, «deve ter voltado de novo para lá.»

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Ulysses - A cidade escondida