Issuu on Google+


Otília enterra as mãos na areia, deixando-a depois cair por entre os dedos. Olha para Paulina e diz: — Palavra que não percebo para que te serve um piano. Ainda se fosse uma viola... Paulina sente, de repente, muitas saudades do piano, das notas fininhas («agudas, menina!») e das notas gordas («graves, menina!»). Saudades até do lápis de D. Francisca e do Nini e Bebé. Olha para Otília e sabe que não gosta dela. Tem mesmo a certeza de um dia, dali a muitos anos, quando já for mulher, recordar estes momentos na praia e sentir a raiva com que detestou Otília. A mãe repete-lhe muitas vezes que não se deve detestar ninguém, que é sempre preciso tentar compreender os outros. Mas a mãe está na esplanada a conversar com a mãe de Otília. A mãe só conhece a mãe de Otília. A mãe nunca ouviu a voz de Otília, as palavras de Otília. E Otília atira as palavras de encontro às pessoas, como os índios atiram as setas nos filmes que Paulina vê às vezes na televisão. Paulina olha para Otília e não diz nada. Recorda, apenas.


O piano era um objecto grande de mais para a casa. — Enche a sala toda — dizia a mãe. — Raio de ideia — dizia o tio António. Paulina não dizia nada. Olhava, com aqueles olhos redondos, que iriam fazer D. Francisca repetir, batendo-lhe com o lápis nos dedos: — Anda sempre na Lua, esta criança! A Lua era tão longe, tão lá em cima de tudo, que Paulina começava a rir sempre que ouvia isto. Como seria, exactamente, andar na Lua? E como seria a Terra, de lá tão alto? Um dos astronautas tinha garantido que era azul, mas Paulina não estava tão certa como isso, sobretudo quando olhava as ruas e os prédios tão cinzentos e sujos... Seria que da Lua as pessoas (ri-se: chamam-se pessoas aos habitantes da Lua?) estavam agora a vê-la? Seria que lá, na Lua, os pais diziam aos filhos «andam sempre na Terra, estas crianças?». E Paulina começava a rir. E também ria quando olhava para o piano, mancha negra a transbordar da casa. — Enche a sala toda — dizia a mãe. — Raio de ideia — dizia o tio António. — Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si... — dizia o piano. Paulina recorda todos os momentos desse dia. Os homens tocaram à campainha logo de manhã cedo, ela sentia ainda os olhos piscos de sono por dormir. A mãe abriu a porta e disse: — É o piano. Só isso: — É o piano. Como se a chegada de um piano, às oito da manhã, a uma casa de três assoalhadas num terceiro andar, fosse a coisa mais natural do mundo. Paulina olhou espantada para a mãe, mas esta continuava a sorrir e, mais uma vez, disse apenas: — É o piano.


Como se dissesse: — É o merceeiro. Ou: — É o padeiro. Ou outra coisa assim tão natural. — Qual piano? — perguntou Paulina, o sono dos olhos rapidamente substituído por uma curiosidade sem limites. Nesta altura ouviram-se as vozes dos homens, ao fundo da escada: — Por onde é que isto sobe até ao terceiro andar? A mãe ficou, de repente, muito pensativa, sem vontade de sorrir, e esqueceu-se da pergunta de Paulina. Ao fundo da escada, os homens insistiam: — Por onde é que isto vai? Isto era, evidentemente, o piano. O Sr. Adriano, no seu brio de porteiro fardado com botões prateados no casaco (embora fossem oito horas e o regulamento só o mandasse estar ao serviço a partir das nove), garantia que pelo monta-cargas é que era. Nem pensar em ser de outro modo. O elevador principal — lá dizia o regulamento, e um porteiro fardado tem de cumprir o regulamento, mesmo fora das horas de serviço — era para pessoas. O piano não era uma pessoa. Logo, tinha de subir pelo monta-cargas. E ponto final. Mas o Sr. Adriano era apenas especialista em escadas, elevadores, monta-cargas, fardas e regulamentos: o que se passava portas adentro da casa de cada um já não era da sua conta. Por isso encolheu os ombros quando a mãe, então já sem vontade nenhuma de sorrir, lhe lembrou que o piano não cabia na cozinha, e se fosse pelo monta-cargas era por essa porta que teria de entrar. «A cozinha é que vai caber inteirinha dentro do piano», pensou Paulina nessa altura, mas não disse nada para não complicar mais as coisas. E todos ficaram a olhar, pensativos, para o piano. Depois de alguns momentos de conversações, o Sr. Adriano olhou


para o relógio e lá deixou que o piano, infringindo o regulamento, entrasse no elevador principal. — Ainda não é a minha hora de entrar ao serviço... — resmungou como que a justificar-se. Só que no elevador principal, feito para gente, o piano não cabia. Tentaram que entrasse ao alto, ao baixo, de lado e de frente — mas nada a fazer. — Esta coisa vai escaqueirar-se toda — disse um dos homens. Esta coisa era, evidentemente, o piano. Foi então que decidiram desarmá-lo, com a garantia dada por um deles, em voz sábia e conhecedora, de que «lá em cima há com certeza quem saiba pôr esta porcaria toda como deve ser». Esta porcaria era, evidentemente, o piano. Mas, por mais que desarmassem, havia sempre piano a mais e elevador a menos. Por mais voltas que dessem àquilo não poderia haver outra solução senão distribuir os bocados de piano pelos ombros de cada um e chegar, o mais inteiro possível, ao terceiro andar. O Sr. Adriano suspirou de aliviado: os regulamentos tinham sido cumpridos. Apesar de ainda não serem nove horas da manhã. E foi assim que o piano chegou diante dos olhos, cada vez mais espantados, de Paulina: um monte de tábuas de madeira preta envernizada e um corpo central todo esventrado cheio de compridas e estreitas tabuinhas de madeira, que produziam sons ao menor movimento. Os homens encostaram tudo aquilo a um canto da sala, limparam o suor às costas das mãos e disseram: — Pronto, cá está o pianinho! Três andares tinham bastado para transformarem em «pianinho» aquilo que tinha sido «isto», «esta coisa» e «esta porcaria». Os homens estavam muito encarnados do esforço e diziam: — Este terceiro andar é alto que se farta! Paulina pensava que todos os terceiros andares deviam ser mais ou menos da mesma altura, porque se fossem mais baixos eram segundos andares e se fossem mais altos eram quartos andares. Mas,


pelos vistos, não devia ser assim tão simples. Os homens, que tinham aguentado com o piano às costas, é que eram especialistas em andares altos e baixos. Tal como o Sr. Adriano era especialista em regulamentos, fardas e elevadores. Quando os homens saíram, a mãe olhou para aquele objecto partido em vários («temos um piano em fascículos!», exclamaria o tio António, mais tarde, ao chegar a casa) e repetiu: — É o piano. E finalmente a chave do mistério: — Foi a avó Celeste que o mandou.


Uma gaivota vem poisar ao de leve na areia da praia. — Sinal de tempestade — murmura Paulina, quase sem dar por isso. — Sinal de quê? — pergunta Otília. — Nada, tolice minha... — murmura Paulina. — Só dizes tolices... — murmura Otília, deixando escorrer a areia por entre os dedos.


Paulina recordava-se do piano, bem ao centro do salão da avó Celeste. Só que ali, na sua casa, partido em tantas tábuas e tabuinhas, encostado à parede da sala onde se comia e se via televisão, nem parecia o mesmo. Para dizer a verdade, nem sequer parecia um piano. Fosse ele o da avó Celeste ou outro qualquer. A avó Celeste vivia numa casa cheia de salões. E os salões estavam cheios de tapetes, sofás, cadeiras, maples, biombos, mesas, escrivaninhas, tamboretes, jarrões de louça, arcas, candeeiros de pé alto e de pé baixo, cómodas de laca. E as cómodas estavam cheias de jarras e jarrinhas, copos de cristal colorido, estatuetas de porcelana, leques, caixas de música, pratos de louça chinesa e muitas fotografias amarelecidas de meninos de bibe e de caracóis compridos. As fotografias eram, de tudo aquilo, o que Paulina mais gostava de ver, nas tardes de domingo em que ia visitar a avó Celeste. E os meninos de bibe e de caracóis compridos eram todos tios e primos de Paulina, que já tinham morrido há muito tempo. E a avó Celeste suspirava de cada vez que dizia os seus nomes. E as meninas ficavam sempre nas fotografias de cabeça ligeiramente inclinada sobre a boneca que tinham nos braços. Ou sentadas em cadeiras, de pés cruzados e mãos caídas no colo, um caracol a tombar para a testa, os olhos muito tristes. E tinham nomes como Maria das Dores, Maria da Piedade, Maria da Purificação, Maria do Rosário. E os meninos ficavam nas fotografias quase sempre com um arco a seu lado ou montados em cavalos de pau. Tinham o cabelo aos caracóis ou então cortado muito rente. Os bibes eram iguais aos das meninas, só que sem folhos. E igual era também a tristeza dentro dos seus olhos. E tinham nomes como Gastão, Timóteo, Sebastião, Norberto. Paulina olhava para eles e sentia muita pena. Nem sabia ao certo porquê. Olhava e sentia pena.


Só isso. — Na Lua! Sempre na Lua, esta criança! — repetia D. Francisca, batendo com o lápis («um, dois, um, dois, um dois...»), na parte de cima do piano, para marcar o compasso. — Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si — dizia o piano, sob os dedos ainda incertos de Paulina. Às vezes D. Francisca batia, ao de leve, com o lápis nos dedos de Paulina e gritava: — Dedos curvos, menina! Onde é que já se viu tocar piano com os dedos todos estendidos nas teclas! Paulina gostava de lhe responder que já tinha visto tocar assim, com a mão espalmada no teclado, num programa de televisão. Mas com D. Francisca não se podia brincar nem dizer nada. Pelo menos durante o tempo da lição. A lição não era para se conversar, era para aprender. — Para isso é que a sua avozinha me paga — dizia sempre D. Francisca, muito direita e muito séria, o lápis («um, dois, um, dois...») a marcar o compasso certo. — E se a menina estudar como deve ser — continuava ela — lá para o Natal já deve ser capaz de tocar o Nini e Bebé sem se enganar. Nini e Bebé era o nome de uma música que vinha num dos muitos livros que a avó Celeste enviara juntamente com o piano. Um dia, há muitos anos, com certeza que a avó Celeste devia ter tocado o Nini e Bebé. Talvez que os meninos de bibe, caracóis e olhos tristes estivessem então ainda todos vivos. — Avó Celeste, posso tocar piano? — perguntara Paulina, uma tarde, há muito tempo já. Porque em casa da avó Celeste era preciso muito cuidado com todas as coisas e não se podia mexer em nada sem pedir licença. E, mesmo depois de pedir licença, era preciso olhar tudo ao de leve para não partir nada nem tirar nada do seu lugar. Às vezes Paulina tinha a sensação de que bastaria respirar um pouco mais fundo para logo uma jarra se desfazer em pequenos cristaizinhos brilhan-


tes e inúteis. Em casa da avó Celeste vivia-se como num museu — só que as pessoas estavam lá dentro, e bebiam chá e comiam torradas, falavam do tempo e de doenças, e a Emília aparecia quando se tocava à campainha. Foi exactamente nessa tarde, enquanto Paulina se divertia a tirar sons desgarrados do piano, que a avó Celeste se virou para a mãe e disse: — É preciso cuidar da educação musical desta criança. A avó Celeste falava sempre assim, como se estivesse a fazer discursos em sessões solenes. A mãe sorriu, acenou ligeiramente com a cabeça e não pensou mais no assunto. Quer dizer: só voltou a pensar quando a avó Celeste telefonou a avisar que ia mandar o piano lá para casa no dia seguinte. — Se havia de lho deixar em testamento, sempre é melhor dar-lho já — disse a avó, com ar ainda mais solene que o habitual. A mãe suspirou levemente e disse apenas: — Muito obrigada. Desde esse dia Paulina aprendeu a falar com o piano. E era bom falar com ele. E tinha a certeza de que o piano também gostava de falar com ela. Entendiam-se bem — era isso. — Hoje entrou um pardal para dentro da nossa sala de aula. Batia com a cabeça pelos cantos da casa, batia, batia, até que acabou por dar outra vez com a janela e lá voou para o pátio — contava Paulina ao piano. — Dó, mi, sol, sol... — respondia o piano, em ar de valsa. E Paulina sabia o que isso queria dizer: — Gosto tanto de te ouvir contar essas histórias! Quando estava no salão da avó Celeste, ninguém falava comigo, a não seres tu, ao domingo. Dantes, o teu pai também falava assim comigo, mas já foi há tanto tempo... Já quase nem me lembrava como isso era bom...


Vá, conta lá mais, conta! E Paulina contava: — Olha... E o piano ria, ria: — Dó, mi, sol, sol...

Raiva, uma raiva tão grande.


Olha para a gaivota, branca e fugidia sobre a areia. E olha para Otília, o seu cabelo loiro, a areia que se lhe escapa por entre os dedos. — A Gabriela no outro dia contou-me uma história muito interessante... — diz Otília, os lábios num meio sorriso que se espeta no coração de Paulina como seta de índio. Paulina olha para a gaivota. — Não estás interessada em ouvir o que contou a Gabriela? — pergunta Otília. — Não — responde Paulina.


paulina ao piano