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O COLÉGIO DAS ARTES Era o primeiro dia de aulas no Colégio das Artes. O edifício, um velho palácio recuperado e transformado em escola, erguia­‑se ao fundo da rua larga. Pelos passeios viam­‑se vários jovens, uns sozinhos, outros em grupo, caminhando com uma disfarçada tran­ quilidade por entre as árvores frondosas. As pessoas do bairro sorriam ao ver tanta agitação. Afinal, esta rua outrora tão sossegada iria transformar­‑se no caminho de acesso à escola. Claro que tam‑ bém havia quem praguejasse, quem dissesse que a paz daquele bairro estava comprometida, mas isso eram os mais resmungões e, desses, não interessa contar grande coisa... Joaquim vinha com um ar apreensivo, enquanto ajeitava a mo­ chila vezes sem conta. De repente, ao reparar que tinha um dos ténis desapertados, parou e apertou­‑o. Mais uns passos e os atacadores já estavam de novo a cair. Irritado, voltou a apertá­‑los com força e deu um passo decidido, tão decidido que uma pedra que ali estava resolveu atrapalhá­‑lo. Furioso, virou­‑se, olhou para a pedra que o tinha feito tropeçar, num movimento brusco, fazendo com que Madalena se desviasse rapidamente do seu caminho, pondo os olhos no chão. Não sabiam, mas estavam a caminhar para o mesmo curso — o de Dança. O grande portão de ferro forjado estava aberto de par em par, com um aspeto imponente. As janelas de guilhotina davam à fa­ chada um certo ar de mistério. Duarte e Pedro vinham juntos, en­quanto observavam a agitação circundante. Pedro respirava com dificuldade por ter de carregar o contrabaixo. Duarte não podia dei­xar de comentar...


10 O PRIMEIRO ANO DE UMA ESCOLA FANTÁSTICA — Não sabias escolher um instrumento mais pequeno, pá? — Que gracinha... Vê lá se queres ir para palhaço... — Palhaço? — Sempre ganhavas umas coroas a tocar no circo... No circo, há sempre palhaços a tocar saxofone... Já no átrio, Pedro encostou o contrabaixo à parede. Esfregou os braços, cansados do esforço, enquanto Duarte se entretinha a ver o que se passava à volta. — Bem, falta de colegas não temos... — comentou. — É... — Julguei que aparecesse menos gente. — Se não houvesse alunos suficientes, eles não abriam a escola. — Olha, aquela ali é de Dança de certeza — comentou Duarte. Olharam os dois para Marisa, que entrava nesse momento na escola. Tinha o cabelo apanhado num carrapito e um andar ele‑ gante, mas muito altivo. — Tem cá um arzinho... Joaquim também a tinha visto entrar e seguia­‑a com os olhos. Num leve movimento de cabeça, desaprovou o ar convencido. Mas Marisa olhou precisamente nesse momento para ele, o que o obrigou a disfarçar, como se cumprimentasse alguém ao longe. Teresa estava sentada num banco. As suas partituras eram gran‑ des e antiquadas. As mãos, a esfregar nervosamente uma na outra, num gesto típico de quem toca, denotavam um intenso nervosismo. Cláudia veio sentar­‑se ao seu lado. Ao olharem uma para a outra, troca­ram um sorriso tímido. — Sou a Cláudia. — Teresa. Cláudia estava a tentar pôr o cabelo dentro de uma rede, en‑ quanto se esforçava para não cair do banco, com o seu corpo bem desenhado mas roliço. — Para que curso vens? — perguntou.


1 • O COLÉGIO DAS ARTES 11 — Música. Piano. E tu, Dança? — Hum, hum... Olha, vem ali um que parece pouco entusias‑ mado — disse Cláudia, apontando para Hugo. Teresa não podia deixar de concordar. Hugo entrou contrariado e olhou com desinteresse para todos. Apenas os olhos de António Grade, professor de História do Teatro, o seguiam atentamente. Só nessa altura Teresa e Cláudia se aperceberam que, debruçados na varanda do primeiro piso que dava para o átrio, estavam os professores das várias disciplinas. Teresa não conseguiu evitar um arrepio. Mas Cláudia chamou­ ‑a para que reparasse noutra aluna que entrava. Maria João. Tinha um ar bem­‑disposto, seguro. A roupa, de ganga, muito larga e em desalinho, dava­‑lhe um toque original. Não sendo bonita, irradiava energia. — Uma aposta que aquela vem para Teatro! — arriscou. — Só pode... — Teresa estava a ficar divertida com aquela co­lega. Os professores continuavam a observar os novos alunos do patamar da escada do andar superior. Estavam curiosos e pres‑ tavam atenção às suas várias reações. Fátima Guedes, profes­sora de Dança Clássica e diretora da escola, estava perto de Rute Sales, a professora de Treino Auditivo. Eram duas figuras contras‑ tantes. Enquanto Fátima Guedes tinha uma postura impecável e um ar severo, Rute era gordinha, bem­ ‑disposta e descontraída. Comentavam as dificuldades do projeto, sobretudo a de manter todos os professores em sintonia. Bem se lembravam de como tinha sido difícil convencer António Grade de que iria haver aulas comuns a todos os alunos. Só assim fazia sentido uma Escola de Artes, onde todas as disciplinas seriam lecionadas em paralelo. Mas, para António Grade, essas aulas eram um desperdício de tempo e um problema sério — não eram avaliáveis! — Ainda me sinto agoniada quando me lembro da conversa sobre as aulas comuns — desabafou Fátima Guedes.


12 O PRIMEIRO ANO DE UMA ESCOLA FANTÁSTICA — A quem o dizes! Quando se começou a falar naquilo da ava‑ liação, fiquei possessa! Não é evidente que não os devemos ava­liar nessas aulas?! A ideia é enriquecer os alunos, não é blo­queá­‑los com notas e objetivos! — Mas o que é evidente para nós, que sonhámos com este pro‑ jeto, pode não ser para os outros. Lembra­‑te que até o João Bastos perguntou como seria. — Mas é natural perguntar. Para mais, ele é professor de Portu­ guês, percebe­‑se a dúvida. Agora os outros... — disse Rute. — O que é que estão estas meninas a cochichar? Era o professor de Cenografia, Manuel Sousa. Estava a tentar que a conversa não se espalhasse para os outros colegas, pelo menos para os mais renitentes... — Ora... Olha, eu só espero que o tal pintor... Como é que ele se chama? — Ai, Fátima! Já te disse mil vezes que é Bernardo... — Isso, Bernardo Coimbra, desculpa. É da confusão... — Não te fies no que diz o Grade, ouviste? Ele é mesmo bom. — O professor de Desenho, não é? — perguntou Rute. — Pare­ ceu­‑me ótima pessoa... — Sabem o que me custa? — Fátima Guedes baixou a voz. — É que o Grade é um homem influente. E se ele não consegue que nos deem autorização...? — Credo! Não penses nisso! Há só um atraso no processo... — confortou Rute. — Espero que sim... Mas Fátima Guedes já estava a preparar­‑se para fazer o seu discurso de boas­‑vindas. Manuel Sousa tocou­‑lhe no braço. Ainda havia muitos alunos a entrar. Tinham de esperar só mais um pouco. Chegavam, nessa altura, quatro alunos. Vinham juntos e eram muito ruidosos. Todos olhavam para eles sem que Mercedes, Tiago, Luís e Rita se apercebessem. Nas mãos, as pastas de desenho


1 • O COLÉGIO DAS ARTES 13 denunciavam o curso — Artes Plásticas. De repente, Mer­cedes reparou que estavam a ser alvo dos olhares de todos. Calaram­‑se envergonhados. A razão era simples — a diretora queria começar o seu discurso. Fátima falava apoiando­‑se no corrimão, depositando ali o peso, não do corpo, mas da responsabilidade. Manuel Sousa estava ao lado dela e Rute Sales logo atrás. — Quero dar­‑vos as boas­‑vindas ao Colégio das Artes. O meu nome é Fátima Guedes, sou a diretora da escola. Como todos sabem, este é um projeto inovador e nunca antes experimentado em Portugal. Com um sorriso calmo, Manuel Sousa encorajou­‑a a pros­ seguir. — A nossa ideia, a nossa batalha, é fazer do ensino artístico uma aprendizagem integrada, onde os alunos passem por todas as formas de expressão. Tivemos a ajuda de várias pessoas, que nos aconselharam e incentivaram, e o apoio financeiro da nossa Câmara Municipal. Um mecenas, que deseja ficar incógnito, também nos concedeu um apoio especial — foram atribuídas algumas bolsas de estudo a alunos nossos. Tiago, um dos alunos de Artes Plásticas a quem tinha sido atri‑ buída uma bolsa, ficou a olhar em volta. Mas não conseguiu des­ cobrir se mais alguém receberia a bolsa. Voltou a olhar para a diretora. — Nesta escola terão não só as cadeiras do currículo geral, como também as da área vocacional. Para proporcionar a todos uma visão artística diferente, decidimos criar uma aula semanal, obrigatória e comum a todos. Os alunos começaram a agitar­‑se, comentando baixinho. Não sabiam de que disciplina se tratava e as suas caras exprimiam vá­rias sensações, que iam da alegria ao susto.


14 O PRIMEIRO ANO DE UMA ESCOLA FANTÁSTICA — Ora, isso quer dizer que todos terão uma aula conjunta todas as semanas — um workshop, um seminário, sobre qualquer tema, seja do seu curso ou não. É uma maneira de experimentar outras formas de sentir a arte, para que saiam daqui com uma formação mais abrangente. Só faltava dizer o que mais a preocupava. Rute Sales deu­‑lhe uma leve cotovelada nas costas, meio a brincar. Não valia a pena recuar agora. — No entanto, e isto é difícil de dizer, temos um problema grave por resolver. Falta a autorização ministerial. Os alunos entreolharam­‑se, sem perceber. Ouviram­‑se mur­ múrios aqui e ali. Embora já o soubessem, todos achavam que, no primeiro dia de aulas, esse problema estaria resolvido. Foi Manuel Sousa quem resolveu quebrar o gelo. — Como disse a nossa diretora, é um problema com alguma gravidade. O Ministério da Educação tem um papel importante neste projeto. E, como devem calcular, precisamos que o curso seja aprovado e aceite pelo governo. Estamos convencidos de que é apenas uma questão de tempo... — Temos a certeza de que o ministério não irá boicotar uma experiência deste tipo — continuou Fátima Guedes. — Estamos à espera que a autorização chegue a qualquer momento. Deve ser uma questão de dias porque já foi garantida verbalmente pelo pró­ prio ministro. No átrio, Maria João olhava em redor. Não mostrava qualquer preocupação. Por fim, encolhendo os ombros, pediu para falar. — Professora, nós sabemos como funcionam as outras escolas e preferimos esta. Os outros alunos, depois de um breve instante de assombro, irrom‑ peram a bater palmas. O ambiente no patamar superior desanuviou. — Vejo que temos todos muita vontade de começar — rematou Fátima. — Um ótimo ano para todos!!


1 • O COLÉGIO DAS ARTES 15

* * * E assim começaram as aulas. Por toda a parte se ouvia o som dos instrumentos e dos pianos de acompanhamento. Alexandre Pires era o professor de Música de Conjunto. Tinha na sua frente os alunos de Música e era necessário começar a agrupá­‑los. Os seus rostos estavam expectantes. — Vamos definir os grupos. Ora... dois violinos, um piano... e um violoncelo. Agora... Saxofone, contrabaixo, flauta. Duarte e Pedro estavam satisfeitos por ficarem juntos. Nesse momento, o professor foi até junto do piano, coçando a cabeça. Vários alunos de piano esperavam colocação... — Mas por que é que há sempre tantos alunos de piano?!... Tan­ tos pianos...?! Olhando para os alunos e pegando no braço de Teresa, levou­­­­‑a até junto de um violoncelista. — Pronto, um duo. Menos uma pianista... Teresa olhou desconsolada para o colega. Mas tanto fazia, um ou outro, o que ela queria mesmo era perder o medo que sentia de tudo aquilo! Na aula de Interpretação para os alunos de Teatro, que tinha lugar no palco do auditório, estavam todos sentados em cadeiras de madeira dispostas em semicírculo. Rui Rodas estava diante dos alu‑ nos, esfregando as mãos como se estivesse a medir o que ia dizer. Quando começou a falar, a voz saiu­‑lhe seca, quase sem infle‑ xões. Os seus olhos varreram os alunos, um a um. — Bom, estamos perante uma grande responsabilidade. Neste nosso projeto, nada pode falhar. Não nos podemos dar ao luxo de perder esta cruzada no mundo da educação. — Parou para avaliar o impacte das suas palavras. — Um passo em falso... e todo este maravilhoso sonho fica por terra. Cada curso tem o seu qui­ nhão neste processo. O curso de Teatro não foge à regra. É pre­­ ciso que o resultado deste ano seja verdadeiramente assombroso.


16 O PRIMEIRO ANO DE UMA ESCOLA FANTÁSTICA Começou a sentir­‑se um ambiente tenso. Miguel e Sofia entreolharam­‑se. Com um levantar de sobrancelhas, Miguel deu a entender que estranhava o discurso. Sofia estava com uma cara assustadíssima. Maria João acomodou­‑se melhor na cadeira, recostando­‑se. Parecia ser a única a manter o sangue­‑frio. Mas o professor continuava. — Aqui não entram falhados. Não queremos fracos neste projeto. Quem entrou por aquela porta, terá de sair de cabeça levantada e com a certeza de que está a fazer Teatro. Já nada podia ser feito. O pânico tinha tomado conta dos alu‑ nos. Os corpos remexiam­‑se nas cadeiras, os lábios torciam­‑se e os cora­ções, esses, batiam com força. — Desta turma terão de sair exemplos para o futuro. Foi então que Maria João se endireitou na cadeira e o interpelou. — Desculpe, professor, eu... — Sim...? — Eu não sei se estou à altura. Rui Rodas levantou­‑se, caminhou por trás das cadeiras, abrindo e fechando os braços como se estivesse desesperado. — Não!! Não pode ser!! Como é que a menina... Como é que se chama? — Maria João... — Maria João, seja. Como é que a menina pode dizer que não está à altura se ainda nem experimentou?! Esse é o primeiro passo para o insucesso!! Todos os alunos se mostraram aterrados. Mas Rui Rodas continuou. — Quem não acredita em si mesmo, nunca será um ator!! Quem arranca sem autoestima, quem duvida do seu trajeto, está perdido logo de início!! Por que é que se inscreveu? — Eu julguei... — balbuciou Maria João. — Julgou?! Ninguém vem para aqui sem ter certezas. Este é um curso para vencedores! Não para vencidos!


1 • O COLÉGIO DAS ARTES 17 Fez­‑se um silêncio horrível. Muitos alunos tinham o olhar posto no chão. Sofia estava à beira do choro. Hugo, estranhamente atento, parecia incomodado. Foi então que, de repente, Rui Rodas mudou de expressão e se dirigiu a Maria João, de mão estendida, com um sorriso afável no rosto. — Rui Rodas! Muito prazer, Maria João. — O prazer foi todo meu, acredite. — Acho que o ano promete! — disse Rui Rodas, sem lhe largar a mão. Os outros alunos estavam perplexos. Não tinham entendido que se tratava de uma cena improvisada pelos dois. Aos poucos, come‑ çaram a sorrir, a medo. Foi então que o professor lhes dirigiu o primeiro grande sor­riso, o primeiro de muitos. — Meus caros, teatro é teatro. E nada melhor que sentir na pele até que ponto ele pode ser arrebatador. — Os alunos riram. — Para quem não tiver dúvidas, a porta está aberta. A arte é uma dúvida permanente, um procurar constante. Todos nós, eu também, vamos ter momentos bons e momentos maus, semanas fáceis e semanas difíceis. Mas quero que saibam que só assim se aprende. Vivam cada bocadinho deste curso, é essa a minha única exigência. Quando a aula terminou, apenas Maria João ficou para trás. Tinha uma pergunta atravessada... — Professor, desculpe lá. Mas como é que vai ser esta história das aulas comuns? Vamos ter aulas de outras coisas? Eu vou ter aulas de Música?! É que eu não percebo nada... — Sim, o objetivo é esse, é que todos os alunos tenham a opor‑ tunidade de experimentar todas as áreas. O artista tem de ser inte­ gral... como o pão! — Estou tão entusiasmada! — Vê­‑se!


18 O PRIMEIRO ANO DE UMA ESCOLA FANTÁSTICA Quando o átrio se encheu de estudantes, o ruído era ensurde­ cedor. Todos comentavam as aulas que tinham tido. Cláudia lutava com o seu cacifo. Não conseguia convencê­‑lo a abrir­‑se! Mas outras mãos se vieram juntar, eram as de Miguel. Mostraram ser bastante mais ágeis naquele processo. Assim que conseguiu, sorriu para ela e afastou­‑se, imitando um equilibrista. Todos se des­via­ ram do seu caminho, rindo, até a diretora, agora vestindo um maillot de dança. O segundo tempo trazia novas caras, novas surpresas. Na aula de Dança Moderna, Rosa Teves estava sentada no chão, numa posição enroscada sobre si mesma que parecia impossível. Conversavam sobre as motivações de cada um. — É mais ou menos isso — dizia Cláudia —, queria ir para uma escola onde pudesse fazer algo mais para além da Dança. — Já fizeste Teatro, Música, alguma coisa? — perguntou a professora. — Não, não. Nunca experimentei nada. Tenho curiosidade... Foi a vez de Joaquim ser ouvido. — E tu, queres contar­‑nos um pouco da tua história? — Bom, eu não tinha muitas hipóteses. Para os meus pais... Quer dizer... para o meu pai, ver­‑me a estudar dança é uma coisa horrível. Se calhar, isso acontece com todos os rapazes. — Mas conseguiste convencê­‑lo... — Só porque esta escola tem outras áreas... Ele achou que assim talvez eu mudasse para outra coisa menos... menos perigosa. — Riu­ ‑se, envergonhado. — E tu? — perguntou Rosa. — Marisa, não é? Tiveste problemas em vir para esta escola? — Não, que disparate! Eu queria vir e foi o que fiz. Fez­‑se um silêncio incómodo na sala. Joaquim pousou a cabeça nos joelhos, olhando o chão. Cláudia e Madalena trocaram olhares. A professora levantou­‑se de repente, desfazendo o mau ambiente. — Bom, vamos trabalhar. A conversar não vamos longe.


1 • O COLÉGIO DAS ARTES 19 Todos se levantaram, esticando e sacudindo as pernas. Rosa Teves dirigiu­‑se para a aparelhagem de som e pôs um CD. O tra­ ba­lho ia começar. Mais tarde, na cantina, Madalena e Cláudia comentavam o dia. Cláudia não pôde deixar de reparar que Madalena tinha deixado metade da comida no prato. — Só comes isso?! — Não tenho muita fome. Como sempre muito ao pequeno­­­ ‑almoço. — Eu estou esganada de fome! Estou sempre... Que pinta de professora, não achaste? — A Rosa Teves? Achei. Tem muita garra. — Isto promete! Madalena sorriu. Estava entusiasmada. Levantou as sobrancelhas quando, por trás dela, passou Marisa. Cláudia fingiu vomitar... Depois do almoço, na aula de Desenho, Bernardo Coimbra ia dando as suas ordens. Os alunos seguiam­‑no com o olhar. — Percebido? A borracha é proibida. Não vamos precisar dela nunca. — Nunca?! — perguntou Mercedes, com o seu sotaque es­panhol. — Bom, nunca, nunca, é exagero... Digamos que vamos tentar passar sem ela, pode ser? Acreditem no vosso traço, na ideia que têm na cabeça. Se fizerem isso, o desenho surge naturalmente. Tiago olhou desconsolado para o lápis. Suspirou, pensando: «Que traço?... Que traço...?!» — A primeira proposta é que desenhem a um canto do papel, num espaço muito pequeno, uma folha de árvore. — Todos come‑ çaram a seguir as indicações do professor. — Pode ser no canto superior esquerdo. Uma folha pequena. Agora! Rápido! Todos se debruçaram sobre o papel e desenharam. Tiago dese‑ nhou no canto superior direito. Quando acabou, deu um murro na mesa ao ver que se tinha enganado.


20 O PRIMEIRO ANO DE UMA ESCOLA FANTÁSTICA — Uma das coisas mais importantes é ter bom ouvido — brincou Bernardo Coimbra, dando­‑lhe uma palmada amigável nas costas. — Vira o papel e recomeça. Tiago apressou­‑se a corrigir, já que a turma esperava por ele. — Ora bem. Agora o ramo. Imaginem o ramo onde está presa a folha. Desenhem esse ramo. Tiago olhou desesperado para o seu desenho — o pé da folha começava exatamente na margem do papel... * * * Ao fim do dia, na sala de professores, todos tomavam café e conversavam. Bernardo Coimbra, professor de Desenho e Pintura, entrou sem ser notado. A professora de Treino Auditivo foi buscá­ ‑lo e, com grande alarido, apresentou­‑o aos colegas. Tinha sido o último a ser integrado na equipa. Nem todos o conheciam. Sentaram­‑se para começar a reunião. Estavam apreensivos quanto a esta nova experiência. O projeto estava bem definido — interligar as artes para uma aprendizagem mais abrangente e rica. Mas, sendo a primeira experiência em Portugal a enveredar por tal caminho, este ano letivo seria crucial para a realização do sonho. António Grade mantinha­‑se descrente. Falava em voz baixa, mas de forma a que todos o ouvissem. — Cá estamos nós... Nesta aventura louca... Rute Sales ficou furiosa e olhou para os colegas abanando negativamente a cabeça. João Bastos fez­‑lhe sinal para não ligar. António Grade apercebeu­‑se deste sinal e voltou a baixar os olhos, desinteressado. Foi Fátima Guedes quem rompeu o silêncio. — O dia correu bem, parece­‑me. Alguém tem alguma coisa para contar? — Tirando a autorização que devia ter chegado e que não chegou — disse António Grade, novamente provocador —, aquela tal autori‑


1 • O COLÉGIO DAS ARTES 21 zação que viabiliza o curso mas que não parece estar escrita, correu tudo muito bem! Estamos felizes por este dia passado a enganar adolescentes. — Eu só não percebo por que é que... — atalhou Rute Sales. — Por que é que estou aqui? Eu explico. Para ver se isto é alguma coisa que valha a pena, só isso. E porque fui escolhido pelo presi‑ dente da Câmara para fazer parte do corpo docente. Só por isso. O resto da reunião desenrolou­‑se sem mais piadas de mau gosto. António Grade parecia realmente distante, indiferente ao rumo das coisas. No final da reunião, a diretora chamou de parte Manuel Sousa, de Cenografia. — Não quero ter problemas contigo, Manuel. — Eu sei. Julgas que não sei? — Mas estás como? Bem?... — Sim, claro. Estou controlado — respondeu ele. — Detesto quando me respondes isso... Calaram­‑se quando Bernardo Coimbra passou e se despediu. Fátima Guedes tinha a certeza de que ele tinha ouvido a con­versa. Saberia de alguma coisa? Talvez... Eram amigos, ou simplesmente conhecidos. Suspirou e despediu­‑se de Manuel Sousa. * * * O final da semana trouxe uma surpresa especial aos alunos — o espetáculo oferecido pelos professores da escola. Pelo palco desfilaram os professores de instrumento, bailarinos e atores. Os cenários e figurinos estavam a cargo dos professores de Artes Plásticas. Os do Curso Geral encarregaram­‑se dos programas, da parte técnica, enfim, de tudo um pouco. O ambiente no auditório era muito alegre. Os alunos estavam deliciados com o que viam. Cláudia e Madalena, sentadas lado


22 O PRIMEIRO ANO DE UMA ESCOLA FANTÁSTICA a lado na plateia, com as cabeças a acompanhar a música que ou­viam, falavam uma para a outra sem desviarem os olhos do palco. Achavam tudo fantástico. Maria João, Teresa e Joaquim estavam um pouco mais à frente. Teresa parecia menos tensa, ao fim da primeira semana. — Esta escola parece um sonho, pá! — comentou Joaquim. Maria João riu­‑se e levantou­‑se. Começou a dançar e a bater palmas ao mesmo tempo. — Qual sonho!! Isto é mesmo a sério!! Entretanto, assim que acabou o número, Fátima Guedes veio até ao palco. Na mão, tinha um papel. Na cara, um sorriso rasgado. Estava ofegante. Pediu silêncio, mas não foi escutada. João Bastos apro­ximou­‑se com um microfone, ao que Fátima Guedes reagiu fa­zendo uma careta. João Bastos ficou ao lado dela no palco, sor‑ ridente. — Interrompemos só para vos dar uma notícia. — Quase a gritar, não medindo a intensidade sonora que o microfone proporcionava, agitou o papel. — A autorização chegou!! Só os colegas aplaudiram. Os alunos entreolharam­‑se sem per­ ceber. — Desculpem, eu explico melhor! O faxe com a autorização para que o curso continue acabou de chegar. Esta escola é uma reali‑ dade!!! A sala estoirou de aplausos. A alegria foi contagiante e o con‑ certo acabou debaixo de uma energia intensa. Só António Grade se mantinha impávido. Mas ninguém notou...


O primeiro ano de uma escola fantástica