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BORBOLETAS NA BARRIGA Quando Gabriela o viu, ao longe, sentado na esplanada, o seu coração deu um salto. Ainda meio atordoada, caminhando em câmara lenta na sua direção, questionava­‑se sobre o estranho fenó‑ meno da deslocação do coração ao longo do corpo. Saberiam os médicos que isto acontecia? Ela já tinha sentido o coração a pulsar na cabeça, quando corria muito nas aulas de Educação Física. Se batia com o pé na cómoda do seu quarto ou entalava um dedo numa porta, era como se tivesse o órgão mais emocional do seu corpo a saltar nas extremidades magoadas. Neste momento, parecia­‑lhe que o coração estava a latejar na garganta, quase a querer sair pela boca, para anunciar ao mundo a paixão que a sua dona sentia. À medida que se aproximava da esplanada do Bar­‑Na­‑Bé, Gabriela começou a sentir «borboletas na barriga». Era assim que chamava àquela sensação que misturava excitação com medo, salpicado com gotinhas de ansiedade. Quando tinha algum teste ou exame, sentia quase sempre aquilo, mas desta vez era diferente. Depois veio a impressão de que ia desfalecer, e tudo isto em pou­ cos segundos. Quando viu a amiga Carolina sentada na mesa mais próxima do rio, soltou um suspiro de alívio e encaminhou­‑se a passos deci­didos para lá, evitando firmemente o olhar em tons verde­­‑água do Alexandre. — Olá, Gabi, chegaste atrasada! — resmungou a Carolina. — Não me digas nada — disse a Gabriela entredentes. — Já viste quem está sentado na ala dos intelectuais? — Oh, sim! Achei que ias gostar de o ver — respondeu a amiga, soltando uma risada.


12 NÃO QUERO CRESCER MAIS! — Estás a gozar? O meu coração quase caiu ao chão quando o vi — confessou a Gabriela. — Não sei o que espera para se declarar. Está sempre a olhar para ti, mas nada! Também te apaixonas por cada cromo! — des­de­ nhou a Carolina. — Desculpa lá, Carol, mas o Alexandre não tem nada de cromo. É  absolutamente lindo... Ainda por cima é mais alto do que eu, o que é inédito na nossa cidade — retorquiu a Gabriela. — Nisso tudo tens razão, mas tens consciência de que ele é tão tímido que nem aos cinquenta anos vai arranjar coragem para se declarar? — zombou a Carolina. — Ei, aposto que estão a falar do príncipe encantado da Gabi — disse a Bruna, juntando­‑se às amigas. — Olá, Bruna, pensei que não ias poder vir lanchar connosco hoje  — saudou a Carolina. — Sabes, a Gabriela parece um pas­ sarinho enamorado, não vê mais nada à frente. — Confesso que estou loucamente apaixonada por ele — admi­tiu a Gabriela revirando os olhos. — Mas até vocês concordam que ele é lindo de morrer, não? — Sim! — responderam as duas em uníssono. Gabriela suspirou e deixou as amigas explorarem outros temas de conversa, enquanto olhava embasbacada para o seu apaixo­nado. Mais do que os seus encantadores olhos verde­‑água, a pele morena e o cabelo negro e sedoso, ela gostava da sua altura de gigante, da  sua forma de vestir diferente dos outros e, prin­cipalmente, da sua  maneira de ser. Parecia ser calmo, tímido e solitário, ou seja, estava no polo oposto da maior parte dos rapazes que ela conhecia: uns gabarolas insuportáveis. A única desvantagem desta personalidade reservada e inte­lectual é que o fantástico Alexandre parecia não querer saber de raparigas ou namoros. Fitava­‑a até a deixar completamente hip­no­tizada, mas nunca lhe dirigira a palavra.


BORBOLETAS NA BARRIGA 13 Gabriela contava com um curto historial de paixões. Tinha gos­­ tado de alguns rapazes mas nunca tivera coragem para se decla­ rar. A verdade é que uma das razões para isso acontecer era, sem dúvida, a sua altura. Gabriela era uma rapariga alta, mas mesmo muito alta! Fora a mais crescida de todas as turmas que frequentara desde o primeiro ano da escola básica. Com apenas treze anos, já media um metro e setenta centí­ metros, facto que a tornava complexada, além de lhe dificultar a escolha do par amoroso. — Oh, mãe, já não bastava ser magra que nem um palito, ainda tinha de ser tão alta! — costumava queixar­‑se. — Um dia ainda vais agradecer a tua constituição, rapariga! Já viste que todas as modelos são altas e magras? — consolava­‑a a mãe. — Mas eu não quero ser modelo, só quero ser normal! — recla­ mava a Gabriela. Na escola, os rapazes gozavam com ela. Chamavam­‑lhe Gabriela Gazela e, nos dias de muito vento, lá vinham com a piadinha do costume: — Gazela, toma lá duas pedras para pores no bolso, senão voas! — troçavam os sacaninhas. Apesar de lhes responder à letra, Gabriela ficava magoada e triste. Contudo, naquele dia de primavera, o primeiro dia das férias da Páscoa, sentia­‑se feliz e entusiasmada por estar na sua esplanada preferida, junto ao maravilhoso rio da sua cidade, Duas Margens, com as melhores amigas e o seu querido Ale­ xandre,  que, por uma coincidência feliz do destino, era mais alto do que ela! Assim o tinha garantido Ana, outra grande amiga de Gabriela, que os tinha visto próximos um do outro na fila para a cantina e reparou que o Alexandre era mais alto do que ela. «Uma previsão dos deuses de que temos de ficar juntos», pensava Gabriela.


14 NÃO QUERO CRESCER MAIS! As amigas faziam troça dela, porque, de cada vez que se apai­ xo­nava, Gabriela garantia que aquele era o rapaz da sua vida, o príncipe encantado, o deus grego, o tal... e passadas algumas sema­­ nas ou meses nada acontecia e lá se ia o encantamento. Desta vez, porém, Gabriela sentia que tudo ia ser diferente, por­que este não era um rapaz qualquer. Embora ele não tivesse, na realidade, dado ainda qualquer sinal de que estava interessado nela, olhava­‑a longamente com uma inten­­sidade que a deixava sem fôlego. Podia ser apenas um reflexo por se sentir observado por ela, mas, ainda assim, Gabriela não resis­tia a fitá­‑lo, num misto de vergonha e do desejo incontrolável de o ver. Estava a pensar que não imaginava encontrá­‑lo naquele bar e na sorte que tinha tido quando recebeu um ficheiro de música no seu telemóvel via bluetooth. «No One» da Alicia Keys! Olhou à sua volta e não viu ninguém, a não ser o Alexandre, a olhar para o telemóvel. Finalmente um sinal! — Meninas, acho que o Alexandre acabou de me enviar uma música por bluetooth — revelou. — O quê? Qual? — perguntaram desordenadamente as ami­gas, histéricas e ansiosas. — Chiu! Daqui a pouco ele ouve­‑nos, suas malucas — quei­xou­‑se a Gabriela. — Mas qual foi? Ele tem ar de gostar de música alternativa — opinou a Bruna. — Sim, e como sabes que foi ele? — perguntou a Carolina, com sofreguidão. — Bem, daqui Terra. Posso falar, over? — brincou a Gabriela. — Conta lá — pediu a Bruna. — É aquela mais conhecida da Alicia Keys — revelou a Gabriela. — Ui, ui! You and me together...Through the days and nights... Isto promete — zombou a Carolina.


BORBOLETAS NA BARRIGA 15 — Ó minhas tontas, por acaso não foi nenhuma de vocês? — quis saber a Gabriela, olhando naquele momento para Alexandre, que lhe devolveu o olhar com um esboço de sorriso. — É claro que não! — garantiu a Bruna, enquanto a Carolina abanava a cabeça em jeito de negação. — Meu Deus, ele sorriu para mim! Acham que posso con­siderar isto um sinal? — perguntou a Gabriela. — Sim, sim. Amanhã vai pedir­‑ te em casamento — gozou a Bruna. — Cala­‑te, Bruna! Isto pode ser mesmo um sinal. Viste alguma identificação do número que te enviou a música? — lembrou­‑se a Carolina. — Deixa ver — disse a Gabriela, olhando para o telemóvel. — Sim, aqui diz «Green Eyes»! — Pronto, nesse caso acho que há noventa por cento de hipó­ teses de ter sido o Alexandre. Afinal não estou a ver aqui mais ninguém com olhos verdes, só se for o Barnabé — garantiu a Bruna, percorrendo a esplanada com o olhar. — Estás maluca? O Barnabé tem a idade dos nossos pais e só percebe de gerir bares e esplanadas. Achas que sabe enviar músi­ cas por bluetooth? — duvidou a Carolina.

Nesse dia, Gabriela sentia­‑se com muita paciência e a maior boa vontade do mundo quando chegou a casa. Nem lhe custou que a mãe lhe pedisse para pôr a mesa, enquanto os irmãos impli­cavam um com o outro no sofá. Normalmente teria protestado: — Ó mãe, mas porque é que o Martim e o Daniel não fazem nada? Quem me dera ter nascido rapaz! Ao que a mãe teria respondido: — Não te queixes, rapariga. Os teus irmãos fazem outras tarefas.


16 NÃO QUERO CRESCER MAIS! Gabriela ficava irritada com esta resposta, porque, por mais que se esforçasse, não conseguia lembrar­‑se de mais do que duas ou três tarefas que os irmãos faziam. O Daniel tinha apenas oito anos e era o seu bebé, pelo que não exigia muito dele e ainda o ajudava nos trabalhos de casa. Mas o mesmo já não se podia dizer do Martim, que, com mais dois anos do que ela, tinha obri­gação de fazer muito mais do que levar preguiçosamente o Freddy à rua e arrastar­‑se até à padaria para comprar pão. Hoje era um dia especial. Foi tratando das suas tarefas, sempre com um ar sonhador e despistado. A mãe parecia demasiado ocupada a tratar do jantar para se aperceber. Os irmãos só esta­vam preocu­pados sobre quem se apoderava do comando da tele­visão. Mas quando o pai chegou a casa, com a sua boa disposição habi­ tual, bas­taram poucos minutos para perceber que algo de bom se passava com a filha. — O que se passa, Gabriela? Essa felicidade toda é só por teres entrado de férias? — quis saber. — Sim, acho que deve ser — respondeu ela enigmaticamente. — Mmm, parece­‑me que apanhaste um peixinho na tua rede... — troçou ele. — O quê, mana? Andaste a pescar no rio? E não me levaste con­ tigo? — perguntou o Daniel, sem perceber a piada. — Nada disso, meu totó, o que o pai quer dizer é que ela está apaixonada — traduziu o Martim. — O pai acertou, filha? Queremos saber todos os pormenores... — pediu a mãe, piscando­‑lhe o olho. — Bom, calem­‑se todos! Não há nada para saber. Uma pessoa não pode estar bem­‑disposta e alegre que parece que tem logo de dar explicações — queixou­‑se a Gabriela. A refeição decorreu animada como de costume. O pai contava as aventuras dos treinos de futebol. Além de ser professor de Edu­ cação Física, Filipe Mourão dedicava­‑se a treinar o clube de Duas


BORBOLETAS NA BARRIGA 17 Margens, que, pelas suas mãos, de vitória em vitória, já tinha lugar assegurado na Liga de Honra. A doutora Susana falava menos do que o marido, mas ainda assim contava um ou outro epi­sódio cómico das consultas que dava no centro de saúde. O gozão do Martim arranjava constantemente maneira de comen­tar tudo o que os outros diziam, quase sempre para tro­çar e ridiculari­zar os pais e os irmãos, com o objetivo único de se vangloriar. O pequeno Daniel também tinha sempre uma opinião para dar e uma questão para colocar a propósito de tudo e de nada, mas a refeição come‑ çava invariavelmente com um relato completo do seu dia, incluindo as idas à casa de banho. No meio de tanta animação, ninguém pareceu reparar que Gabriela comia em silêncio e parecia perdida nos seus pensa­ mentos. Repetindo pela segunda vez o delicioso arroz da mãe, que era tão boa médica como cozinheira, Gabriela recordava­­‑se da pri‑ meira vez que tinha visto Alexandre. Em setembro do ano anterior, durante as famosas Festas do Rio, que arrastavam cen­tenas de pessoas para a pequena cidade minhota, Gabriela cami­­nhava por entre as barracas da feira, quando os seus olhos des­cobriram o que lhe pareceu ser uma alucinação. No meio do nada, viu aparecer um rapaz alto e magro, com os cabelos negros um pouco rebeldes e ligeiramente compridos. Vestia uns jeans de ganga clara e uma T­‑shirt preta lisa e larga, e calçava umas botas pretas. Nada de roupas coçadas ou rasgadas, piercings ou brincos, como os outros rapazes que conhecia. Cha­mou­‑lhe a atenção pelo seu ar um tanto ou quanto perdido. Nunca tinha visto aquele rapaz em Duas Margens, pelo que lhe dedicou toda a atenção, mas, com a distração, bateu com o pé numa bancada da feira, cheia de cuecas e meias. Por sorte, conseguiu equilibrar­‑se e não caiu, mas o solavanco que o seu pé provocou na mesa fez voar uns quantos pares de cuecas, que aterraram por cima das meias coloridas.


18 NÃO QUERO CRESCER MAIS! — Ó menina, veja lá se me desarruma a roupa toda! Não vê onde põe os pés? — ralhou a dona da banca, alto e bom som. Envergonhada, Gabriela levantou a mão em jeito de desculpa, mas desajeitadamente deitou ao chão um par de cruzetas que exibiam os vestidos mais horrorosos que já tinha visto. Nessa altura, já nem se lembrava de ter ouvido a nova e ainda mais incisiva reprimenda da velhota, porque o rapaz desco­nhe­cido levantou o olhar do chão e Gabriela ficou absolutamente fascinada pelos mais belos e surpreendentes olhos verdes que alguma vez vira. Quando os seus olhos se cruzaram com os dele, ficou tão embasbacada que até se esqueceu de respirar. Isto tinha acontecido há seis meses e, por incrível que pudesse parecer, Gabriela ainda não trocara uma só palavra com ele. Inicialmente, tinha ficado convencida de que aquele rapaz não morava em Duas Margens e apenas viera às Festas do Rio, mas, quando as aulas começaram, acabou por descobrir que frequen­tava a mesma escola que ela. Com a ajuda das amigas, soube que ele se chamava Alexandre Guedes, que era filho de um músico e de uma pintora e que tinha quinze anos como o Martim. Logo que descobriu que o seu apai­xonado frequentava a turma do irmão, obrigou as amigas a pro­meterem que nunca falariam do rapaz dos seus sonhos ao rapaz dos seus pesa­ delos, que não perdia uma oportunidade para a enver­gonhar. Em meio ano, Gabriela e Alexandre tinham­‑se limitado apenas a trocar olhares, mas o facto de saber que ele não namorava com ninguém enchia­‑a de esperança. Hoje, então, havia mais do que esperança no seu infatigável e acelerado coração. Pela primeira vez, o espetacular Alexandre tinha­‑lhe dado um sinal. Sem que­rer ser demasiado otimista, Gabriela ousava considerar até dois sinais, pois se o envio da música ainda não era um facto completa­mente indubitável, o sorriso que ele lhe lançou tinha sido mesmo real, apesar de só ela o ter visto.


BORBOLETAS NA BARRIGA 19 Estava tão entusiasmada e agitada que decidiu navegar um pouco pela Internet, para ver se conseguia acalmar­‑se e dormir o sono dos justos. Mal se ligou ao Messenger, foi logo bombar­deada por mensagens das amigas. Estava a ver as últimas novi­dades da sua revista favorita de música e aborrecia­‑se com as janelas a sal­ titar constantemente no ecrã do computador. «Nem me deixam ler um artigo em paz», queixou­‑se em voz alta, sen­tindo os olhos can­sados. Ao terceiro bocejo decidiu fechar as janelas de diálogo, uma a uma. Com grande admiração reparou que, numa outra janela que apareceu entretanto, alguém de nome «Green Eyes» pedia para ser aceite como amigo. Com o coração aos pulos aceitou. Green Eyes says: Estavas linda hoje na esplanada...

Não quero crescer mais