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1 Miúda Modelo Foi tudo ideia minha. — Vamos às compras no Sábado — digo às minhas duas melhores amigas, Magda e Nadine. — Baril — responde Magda, que vive para ir às compras. — Está bem — diz Nadine, mas mostra-se surpreendida. — Pensava que fazias sempre os teus próprios presentes de Natal, Ellie. — Bem, acho que agora ultrapassei essa fase — replico, precipitadamente. A minha família teve sempre essa tradição idiota: eu escolhia um tema e, baseada nele, fazia um presente para cada pessoa. Houve o ano dos cachecóis estreitinhos, tricotados por mim, o ano das periclitantes jarras de barro, na época em que tive aulas de cerâmica, o ano das bolsas bordadas a ponto cruz… Fazia esses presentes para toda a gente, amigos e família, e como os outros eram bem-educados, eu convencia-me de que gostavam realmente daquelas porcarias artesanais mal acabadas. A Nadine conhece-me desde os cinco anos, portanto teve de aturar anos e anos de vestidos esfarrapados para as suas Barbies e de ratinhos de peluche cheios de borbotos. Quando passámos para o secundário, fiz uma pulseira da amizade, preta e prateada, para a Nadine. À Magda ofereci uma cor-de-rosa e púrpura. Deram a impressão de gostar; pelo menos, ambas as usaram por uns tempos. No Natal passado fiz caixas especiais para toda a família, enfeitadas com contas e conchas. Usei alcaçuz sortido na caixa do


12 Miúdas à Beira de Um Ataque de Nervos Eggs, mas ele tentou lambê-lo através do verniz e acabou por magoar a língua. Era de esperar. O Pai e a Anna procedem como se ele fosse um menino-prodígio, mas eu estou convencida de que tem um cérebro de galinha. Reflecti cuidadosamente acerca das caixas que havia de fazer para as minhas amigas. Por fim, dei à Nadine uma caixa prateada, com uma concha pintada, também prateada, e para a Magda fiz uma igual, em dourado. Ela abriu a caixa como se esperasse encontrar alguma coisa lá dentro — e perguntou se, no ano seguinte, lhe faria um colar dourado, para lá meter. Estava a brincar — julgo eu. De repente, senti-me como se tivesse a idade do Eggs. — Vamos ao centro comercial de Flowerfields — continuo, com firmeza. — Compramos juntas os presentes para as respectivas famílias e depois separamo-nos por um bocado, para comprarmos as coisas umas das outras. — E depois vamos à Soda Fountain tomar um batido — diz Magda, cada vez mais entusiasmada. A Soda Fountain é uma lojinha que abriu há pouco tempo na cave do Flowerfields. Parece uma daquelas gelatarias reluzentes que se vêem nos filmes americanos antigos. Transformou-se no lugar da moda — dizem que é do melhor para conhecer rapazes. Se há coisa de que a Magda goste ainda mais do que fazer compras, são rapazes. De preferência, montes deles. A Nadine suspira e olha para mim de sobrancelhas levantadas. Está muito pouco dada ao sexo masculino, desde que se meteu seriamente com o patife do Liam, que estava simplesmente a usá-la. Não quer andar com ninguém. A Magda, em compensação, quer sair com um rapaz diferente todos os dias. Por mim, não sei bem o que quero. Além de que também não tenho assim tantas propostas! Bem, há aquele Dan, que conheci nas férias. É uma espécie de namorado. Não o vejo muito, porque ele vive em Manchester.


1 • Miúda Modelo 13 E é mais novo do que eu. Além de ser um bocadinho esquisito. Não é propriamente o rapaz dos meus sonhos... Mas vou ter de lhe dar um presente de Natal. Só Deus sabe o quê. Para a Magda e a Nadine, tive a ideia brilhante de comprar lingerie da Knickerbox: umas calcinhas em cetim vermelho às flores para a Magda e outras em renda preta para a Nadine. Ao meu pai posso dar uns boxers grandes da Marks and Sparks e à Anna umas calcinhas brancas, bonitas e arrebicadas. Ao Eggs podia oferecer umas cuecas com o Rato Mickey. A ideia de correr tudo a cuecas agrada-me. Mas não é presente que possa dar ao Dan! Embora saiba exactamente quais as cuecas que lhe agradariam: umas todas malucas, com uma mensagem idiota… Decido dar uma boa vista de olhos pelas lojas no Sábado, a ver se tenho mais alguma inspiração. Às dez horas vou ter a casa da Nadine. O pai dela está cá fora, a lavar o carro. É o tipo de homem que adora o carro e gasta horas e horas todos os fins-de-semana a ungi-lo. — Olá, Caracóis! — exclama, quando me vê. Faço um esforço para sorrir e bato à porta. A mãe da Nadine vem abrir, metida num velho camisolão e num par de perneiras. Empunha um pano de pó. É evidente que está pronta para uma séria sessão de limpeza. — Olá, querida. A Nadine está no quarto — diz ela, com uma careta de desaprovação. — Olá, Ellie. Estou a ajudar a mãe — diz a Natasha acenando com um espanador. Está na sala, ainda de pijaminha cor-de-rosa e chinelos. Dança ao som da música de uns desenhos animados idiotas, que estão a dar na televisão, e vai agitando o espanador. — Não é uma menina linda? — comenta a mãe, toda orgulhosa. Tento produzir um novo sorriso. A Natasha corre para mim.


14 Miúdas à Beira de Um Ataque de Nervos — Estás suja, Ellie — declara e põe-se aos saltos à minha volta, espetando as penas do espanador na minha cara. — Pronto, já limpei o pó todo! — Oh, que querida! — diz a mãe dela. — Au! Natasha, isso dói! — exclamo, agora com um sorriso definitivamente amarelo. A Natasha é a única criança de seis anos que consegue ser ainda pior que o meu irmão Eggs. Passo por ela e corro escada acima, rumo ao quarto da Nadine. É um aposento maravilhosamente negro e pálido, depois dos padrões garridos do átrio. A própria Nadine tem um ar elegantemente negro e pálido, com o seu longo cabelo preto solto, os olhos acentuados por lápis negro muito carregado, o rosto empoado, branco como giz. Usa uma camisola preta muito justa, calças de ganga pretas, botas pretas e, quando entro no quarto, veste o seu blusão de veludo preto. — Olá! Que marcas vemelhas esquisitas são essas que tens na cara, Ellie? — A tua encantadora irmã acaba de se atirar a mim com um espanador. — Oh, meu Deus! Desculpa. Não te preocupes. Ela quer uma Barbie nova pelo Natal. Eu vou arranjar-lhe a roupa. Que tal uma Barbie Assassina, com um punhalzinho afiado especial, a saltar de uma elegantérrima bainha? — Lembras-te das nossas brincadeiras com as Barbies, Naddie? A melhor foi quando as transformámos todas em bruxas. — Sim, tu fizeste uns vestidos de bruxa pretos pequeninos e uns narizes aduncos de plasticina. Ficaram supermaldosas. Suspirámos, nostálgicas. — Adorava brincar com plasticina — digo. — Ainda gosto de fazer umas coisas com o estojinho do Eggs, embora as cores estejam todas misturadas.


1 • Miúda Modelo 15 — Ora bem, já sei o que vai ser o teu presente de Natal: um estojo de plasticina só para ti. — diz Nadine. — Mas ainda não sei o que hei-de dar à Magda. Ela tem estado a fazer-se a um verniz novo da Chanel, mas aposto que custa uma fortuna. — Eu sei. Também estou um bocado curta de dinheiro. — A Magda é que está bem. Os pais dão-lhe uma mesada escandalosa. O meu pai dá-me tanto como à Natasha, acreditas? Claro que ela acaba com muito mais do que eu, porque ainda por cima estão sempre a comprar-lhe coisas. É uma porcaria, ter uma irmã manteigueira. — É tão mau como ter um irmão chato. A Magda é uma sortuda: ela é que é o bebézinho mimado da família. E não há dúvida que a Magda exibe óbvios sinais de mimo, quando nos encontramos com ela à porta do Centro Comercial de Flowerfields. Traz um blusão vermelho de pêlo, novo em folha, que lhe fica a matar. — Foi o teu presente de Natal, Magda? — pergunta Nadine. — Claro que não! Fiz um choradinho à minha mãe, porque, embora o meu blusão de cabedal seja superfixe, não é verdadeiramente quente. De modo que ela deu uma palavrinha ao pai, demos uma volta pelas lojas e voilà! Com isto, rodopia, levanta a gola do blusão e posa, como um modelo profissional. — É espectacular, Magda — digo, invejando-a. — Então, e o teu blusão de cabedal? Já não o queres? Há meses que sonho com um blusão de cabedal igual ao dela. Já tentei fazer umas sugestões, lá em casa. Sugestões! Tenho mas é suplicado! Sem resultado. O Pai e a Anna não ligam. Tenho de aguentar-me com o megachato do meu casaco velho, que não me favorece nem um bocadinho. Pelo contrário, faz-me parecer mais atarracada do que nunca. Sei que fica demasiado apertado no traseiro. Era capaz de vender a alma pelo blusão macio, suave


16 Miúdas à Beira de Um Ataque de Nervos e superelegante da Magda — e agora ela aparece com este blusão de pêlo escarlate, que é ainda melhor! A Nadine explora o pescoço da Magda, para ver a etiqueta. — Boa! Whistles! — exclama. O seu próprio blusão de veludo preto foi comprado no mercado de Camden.1 Tem um aspecto ligeiramente gasto e manchado, mas ainda lhe fica bem. Aliás, tudo fica bem à Nadine, por ser tão alta, magra e espectacular. — Vamos lá, meninas. São horas de irmos às compras — intervenho. — Queres mesmo a plasticina, Ellie? — pergunta Nadine, dando-me o braço. Quem me dera ser feita de plasticina! Se assim fosse, poderia moldar o meu corpo, tornando-o comprido e muito, muito fininho. Alongaria os meus dedos gorduchos em mãos esguias e bem tratadas, afilaria o meu pescoço e os meus tornozelos, cortaria grandes nacos das minhas nádegas, arrancaria todo o meu cabelo castanho e encaracolado e faria um penteado longo e louro… — Ellie? — chama Nadine. — Estás a sonhar. Sim. Vai sonhando, Ellie. — Não sei ao certo o que quero — respondo. — Vamos dar uma volta primeiro. — Vamos ver os ursinhos de peluche? — sugere Magda. — Acho-os amorosos. No Natal, o centro comercial de Flowerfields renova a sua exposição de ursinhos de peluche musicais. Espalham neve artificial sobre as flores, vestem os ursos com roupas de lã e convertem o urso maior em Pai Natal, com uma vestimenta vermelha e 1 Mercado de roupa e objectos em segunda mão, em Londres, semelhante à Feira da Ladra.


1 • Miúda Modelo 17 uma barba de algodão branco. Dispõem uns quantos embrulhos, arranjam uma árvore de Natal cheia de luzes e mudam as fitas gravadas dos ursinhos; em vez de cantaram canções infantis, tipo Bananas em Pijama e O Piquenique dos Ursinhos, passam a cantar Jingle Bells, acompanhados com sininhos que tocam sem parar. — Tive de passar mais de meia hora diante dos famigerados ursinhos, da última vez que aqui vim com o Eggs — protesto. — Não aguento outra sessão de tortura destas, Magda. — Pelo menos o Eggs não se põe a dançar — comenta Nadine. — A Natasha espera que se reuna um público razoável e depois põe-se em pontas e desata a rodopiar. É um nojo! — Vocês as duas não passam de um par de morcegos velhos e rabugentos. Eu quero ver os ursinhos — declara Magda. Baixa a cabeça, em ar de birra e faz beicinho. — Qué’ i’ vê’ os ursin’os! — Tu é que pareces um urso, no teu blusão novo — digo-lhe. — Toma cuidado, não vá o pessoal do centro espetar contigo ao lado do Pai Natal Urso e obrigar-te a cantar Rudolph the Red-nosed Reindeer2! Mas deixamos a Magda ver a exposição de ursinhos durante uns minutos, só para mostrarmos boa vontade. A Nadine começa a bocejar e afasta-se. — Vejam, que haverá ali? No último andar? Nadine olha para cima, sobre as fontes, os elevadores envidraçados e a gigantesca árvore de Natal, para a varanda do último andar. Olho também, míope atrás das lentes dos meus óculos. Há lá montes de gente, numa fila enorme. — Devem estar à espera do Pai Natal — o autêntico. — Acreditas no Pai Natal, Ellie? Que querido! — diz Magda, batendo o pé e estalando os dedos ao ritmo de Jingle Bells. 2

Canção de Natal.


18 Miúdas à Beira de Um Ataque de Nervos — Refiro-me ao tipo vestido de Pai Natal, em vez dos ursinhos musicais — replico. — Elas são um bocadinho crescidas de mais para o Pai Natal, não são? — observa Magda. — São raparigas da nossa idade. Montanhas delas. Lá em cima, uma luz acende e apaga constantemente e ouve-se um murmúrio excitado, que corre por todo o átrio. — Será a televisão? — sugere Nadine. — Espero bem que sim — comenta Magda, compondo o blusão e ajeitando o cabelo. — Venham, vamos ver o que se passa. Há muita gente à espera dos elevadores envidraçados, portanto seguimos pelas escadas rolantes. À medida que nos aproximamos do topo começo a ver melhor o ambiente. Centenas de adolescentes comprimem-se no corredor e vêem-se enormes bandeiras com o logotipo Spicy por toda a parte. — Spicy, a revista — diz Magda. — Estarão a fazer alguma promoção? Espero que estejam a dar brindes grátis. Venham lá, vamos para a fila, depresssa. Corre pelos últimos degraus. As botas brilham-lhe nos pés. — Anda, Ellie — grita Nadine, correndo também. — Acho a Spicy uma porcaria — respondo. — Não estou realmente interessada nos brindes deles. — Então podes dá-los como presente de Natal, não? — replica Nadine. Juntamo-nos à fila. O aperto é tão grande, há tal confusão, que temos de nos agarrar umas às outras. Está um calor horrível. A Magda desaperta o blusão e abana-se. A palidez fantasmagórica da Nadine adquire um tom rosado. — Talvez isto não seja grande ideia — digo. Estou tão apertada contra a rapariga que está à minha frente, que o cabelo dela me tapa o rosto. São todas muito mais altas do


1 • Miúda Modelo 19 que eu. Estico o pescoço, mas quanto mais avançamos na fila, mais difícil se torna vermos o que se passa. As luzes continuam a acender e apagar e de vez em quando ouve-se um grito, mas estão a tocar música rock tão alto, que não se consegue ouvir mais nada. — Magda? — chamo, e puxo-lhe pela manga peluda, mas ela está embrenhada na música e não responde. — Nadine? — Ela é suficientemente alta para ver o que se passa lá à frente — e está a olhar, com uma expressão transfigurada. — Que se passa? — grito-lhe. Ela responde, também aos berros, que é um concurso. — Temos de entrar nisso? — pergunto, com um suspiro. Não me parece que me possa sair bem de qualquer tipo de concurso promovido pela Spicy. Não sei grande coisa de música. Nem sequer me dou ao trabalho de ler a New Musical Express. A Nadine vai fazer muito melhor do que eu. Ou talvez seja um concurso de moda. Continuo a não ter a mais pequena hipótese. A Magda fala de costureiros famosos como se fossem todos íntimos dela, mas eu nem sequer consigo pronunciar correctamente os nomes dos italianos e nunca percebo o que significam as iniciais. — Vamos às compras! — suplico, mas há um movimento brusco para diante e, de repente, a Magda desata a empurrar com toda a força, arrastando-nos com ela. Estamos quase na frente. As luzes fortes fazem-me pestanejar. Vêem-se cartazes enormes da Spicy e montes de raparigas, vestidas com T-shirts cor-de-rosa, correm de um lado para o outro, tomando nota de nomes e endereços. Uma de cada vez, as raparigas da fila avançam para um estrado e posam timidamente, enquanto a máquina de um fotógrafo dispara sem parar.


20 Miúdas à Beira de Um Ataque de Nervos O estrado está agora ocupado por uma rapariga muito bonita: cabelo comprido, olhos grandes, figurinha esbelta. Posa com o polegar enfiado nas calças de ganga, com um ar descontraído. Arredonda os lábios, como uma modelo. A rapariga seguinte é igualmente espantosa. Olho à minha volta. Todas aquelas raparigas são espectaculares. E, por fim, compreendo. É um concurso de modelos! — Oh, meu Deus! — exclamo, sufocada. A Magda lança-se para a frente e toma a vez. Despe o blusão e atira-o sobre o ombro, enquanto aconchega o seu brilhante cabelo louro com a outra mão. Sorri, o bâton reluzente, os dentes brancos. Tem óptimo aspecto. Talvez seja demasiado baixa, mas tem um ar verdadeiramente engraçado, verdadeiramente sensual. Volto-me para Nadine: — Olha só para a Magda! — digo. — Anda, vamos embora daqui. Mas a Nadine continua de olhar fixo. Puxo-a. Não se mexe. — Nadine, por favor! Vão pensar que nós também queremos participar nesta estupidez de concurso! — Bem, então e porque não? — replica ela. — O quê? — Vai ser curtido — diz ela e corre para a frente, a dar o nome a uma rapariga de cor-de-rosa. Coloca-se diante da máquina fotográfica e, de súbito, é como se estivesse a olhar para uma desconhecida. Sempre soube que a Magda era realmente sedutora e atraente. Já tinha um aspecto espantoso aos onze anos, quando me sentei ao lado dela pela primeira vez, no secundário. Mas conheço a Nadine praticamente desde que nasci. Para mim, é mais uma irmã do que uma amiga. Nunca olhei verdadeiramente para ela.


1 • Miúda Modelo 21 Mas agora olho. Não está à vontade, não sorri, não irradia a autoconfiança da Magda. Não é verdadeiramente bonita. Mas reparo que as raparigas de cor-de-rosa se mostram interessadas nela e o fotógrafo pede-lhe que se volte, enquanto lhe tira uma série de fotografias. O longo cabelo escuro é tão preto e brilhante, a pele de uma palidez tão etérea. É tão alta, com um pescoço esguio, umas mãos lindas e umas pernas intermináveis. E magra — magra como uma modelo. — Tu és a seguir. Nome? — pergunta uma rapariga de cor-de-rosa, enfiando um boletim de inscrição debaixo do meu nariz. — Como? Não! Eu não! — gaguejo. Viro costas e tento abrir caminho à cotovelada, através da interminável fila de raparigas. — Tem cuidado! — Pára de empurrar! — Qual é o problema dela? — Com certeza que ela não julga que pode safar-se como modelo?! É gorda de mais! Gorda de mais, gorda de mais, gorda de mais. GORDA DE MAIS!


Miúdas à beira de um ataque de nervos  
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