Page 1

«Para entrar em tua casa, há alguns degraus. Estende a mão!» Michel Quoist, Construir


1

Apesar de ser sábado, a Silvana levantou­‑se à mesma hora de sempre para tomar o pequeno­‑almoço com a mãe, que tinha de sair para a perfumaria La Rose, onde era empregada. Sozinha em casa, foi tomar duche e vestir­‑se. Em seguida, arrumou o quarto à pressa, porque tinha vontade de retomar a leitura de um livro que andava a entusiasmá­‑la muito, o Diário de Anne Frank. Quando o telemóvel tocou, a jovem sobressaltou­‑se por estar tão embrenhada na sua leitura. Era a Joana, sua colega de turma e também a sua melhor amiga desde que entrara para o colégio onde, agora, ambas frequentavam o 9.° ano de escolaridade. — O que é que ‘tavas a fazer? — quis saber a Joana. — A ler... — Ah... Eu só acordei agora... Vais almoçar com o Mateus? — Hum­‑hum... — Tens cá uma sorte! Adorava estar no teu lugar... — Por acaso, apetecia­‑me mais ficar em casa — desaba‑ fou a Silvana. — Só vou a casa dos meus padrinhos para 11


não ficarem tristes comigo. Gostam que eu vá lá sempre almoçar aos sábados. Para não ir tenho de ter um bom motivo, percebes? — O que eu percebo é que és uma sortuda! Tu tens tudo! Vais estar com um gato como o Mateus e ainda dizes que não te apetece! Tomara eu estar no teu lugar! Mas, infelizmente... — Vá, deixa­‑te de cenas, que eu não ‘tou com vontade de chorar! — brincou a Silvana. — Vê se te divertes! — ‘Tá bem... Vou ver se invento alguma coisa interes‑ sante para fazer, senão fico o dia todo a pensar no Mateus e fico neura... Tchau! Bom almoço! Quando a Silvana desligou o telemóvel, ia pegar nova‑ mente no livro, mas vieram­‑lhe à memória as palavras da amiga, que achava que ela tinha «tudo»... De facto, não podia queixar­‑se de nada. Não tinha «tudo», claro, mas ninguém deveria ter. No entanto, a vida corria­‑lhe bem — tanto na família como com os amigos e os estudos. O único senão era o facto de, quando ela tinha dez anos, o pai se ter divorciado da mãe para ir viver, no Algarve, com outra mulher. Isso tinha, realmente, sido duro e difícil de suportar. Desde então, a sua vida, bem como a da mãe, mudara bastante. Era como se, em casa, houvesse sempre um vazio, um lugar­‑fantasma à mesa de jantar, no sofá da sala, na cama da mãe... Claro que, aos poucos, foi­‑se habi‑ tuando àquela ausência e já não lhe doía tanto: pelo menos, já não lhe fazia tanta impressão como nos primeiros tempos. Impulsionada por estes pensamentos e pelas saudades que sentia, a Silvana foi à gaveta da cómoda buscar o último pos‑ tal que recebera do pai, seis meses antes, acompanhado de um cheque atrasado para ela comprar um presente de Natal... 12


O pai só lhe mandava dinheiro pelo Natal, mas isso não era o mais grave, porque a mãe conseguia suportar as despesas da casa, e, por seu turno, os padrinhos ajudavam imenso, porque eram ambos médicos e muito seus amigos. O que lhe custava era saber que o pai trocara a mãe por outra mulher e, além disso, nunca tivera a coragem de lhe contar que tinha outra filha, a Patrícia, apenas um ano mais velha do que ela, que vivia algures, em Lisboa. Fora a mãe quem lhe contara aquilo, no dia em que ela fizera treze anos. Lembrava­‑se bem do choque que tivera ao receber aquela notícia tão inesperada. Contudo, achava que a mãe fizera bem em contar­‑lhe que ela tinha uma meia­‑irmã. Era justo que ela o soubesse e, desde essa altura, nunca mais lhe saíra da cabeça a ideia de poder vir a conhecer a Patrícia. O pai fizera mal em nunca ter feito um esforço para que as duas filhas se conhecessem. Mas, segundo a Silvana, o pai tinha um grave problema de imaturidade, a prova era que, pelo que sabia, passava a vida a construir famílias que, depois, abandonava, trocando de mulher e de vida, dei‑ xando para trás o que também era da sua responsabilidade. Era incrível como o pai se desinteressara tão depressa dela e da mãe! Já nem lhe mandava os parabéns no dia de anos! Nem respondia às suas cartas, quando ela lhe mandava as notas (ainda por cima tão boas!) que recebia! Era possível (ainda que pouco provável) que a última mulher do pai, uma tal Ofélia, o tivesse cativado para sem­ pre. A Silvana não sabia nem queria pensar muito nesse assunto, relativamente ao qual não tinha direito de voto. Tal‑ vez pudesse fazer­‑se convidada para ir, numas férias, visitar o pai a Portimão, mas não estava interessada em conviver com a 13


atual mulher dele, de quem, de resto, nada sabia, a não ser que era também divorciada e tinha um ou dois filhos já crescidos. Releu o último postal do pai e voltou a guardá­‑lo na gaveta. Depois, sorriu com alguma melancolia: bem poderia guar‑ dar sempre todos os postais do pai, que nunca iria encher a gaveta... Olhou para o relógio e esbugalhou os olhos! Já estava a atrasar­‑se para o almoço! Os padrinhos mereciam que ela fosse pontual! Não queria dececioná­‑los. Foi a correr vestir o blusão de camurça e buscar o CD dos Sigur Rós que prometera emprestar ao filho dos padri‑ nhos e saiu para ir apanhar o autocarro que a levaria para a Avenida Elias Garcia. — Conta lá como foi esta semana no colégio, Naná — pediu o padrinho, à mesa do almoço. — O Mateus, como sabes, quase não abre a boca... — E sorriu para o filho, com uma expressão crítica. A Silvana riu­‑se. O Mateus, no colégio, falava pelos coto­ velos! Até havia professores que se queixavam disso, segundo ela ouvira dizer, porque o Mateus frequentava outra turma. Quanto aos seus estudos, não achava conveniente revelar tudo, porque sabia que o Mateus não tinha resultados que pudessem comparar­‑se com os dela e não queria, de maneira nenhuma, dar origem a um ambiente desagradável. Optou por abreviar e escolher outro tema: — Ainda estamos só no primeiro período... Vai indo bem. Mas tenho uma novidade: entrei para o grupo de jovens da minha paróquia! A madrinha, apesar de agnóstica, interessou­‑se: 14


— Ai sim? E como é que tiveste essa ideia? — Foi uma vizinha minha que andou a falar­‑me do grupo de jovens e eu comecei a pensar que seria boa ideia ir até lá para ver se gostava. — E então? — prosseguiu a madrinha. — Acho que eles têm uns projetos interessantes — contou a Silvana, entusiasmada e completamente alheia ao olhar derretido do Mateus, que sonhava acordado na sua presença. — Que projetos? — inquiriu o padrinho. — Têm sobretudo a ver com solidariedade. O centro paro­ quial tem em mãos algumas obras e precisa de pessoas, isto é, de voluntários para darem uma ajuda. É interessante, porque nos sentimos úteis e, além disso, o convívio está a parecer­‑me agradável. Somos todos jovens. O mais novo tem treze e o mais velho tem vinte e cinco, parece­‑me. E o giro é que, com a minha entrada, o número de rapazes é igual ao das raparigas, o que, se calhar, é raro, até porque há mais mulheres do que homens, não é? — E os homens não costumam interessar­‑se muito por «solidariedades» — meteu­‑se a madrinha, rindo. E pergun­ tou, virando­‑se para o filho: — Como é que tu vais em maté­ria de solidariedade? O Mateus, que nem sequer ouvira a pergunta de tão embas­ bacado que estava a olhar para a Silvana, foi repreendido pelo pai: — Estás surdo ou o assunto não te convém? — Hã? — balbuciou ele, procurando disfarçar o seu em­ ba­raço. — Estávamos a falar de solidariedade — volveu Rosinda, continuando a rir­‑se da expressão desorientada do filho. 15


— Ah... Bem... — começou o Mateus, sem a mínima ideia do que iria dizer a seguir. — Ora vejamos, solidariedade... É uma coisa importante, não há dúvida. Faz falta no mundo, que só liga aos bens materiais e cenas assim. Concordo plenamente. Por falar nisto, eu gramava que demonstras­sem alguma solidariedade comigo e me dessem uns trocos para eu trocar a minha prancha de surf. Não sei se ainda estão lembrados de que me fizeram uma promessa, há uns tempos. As promessas são para cumprir e... ainda não vi nada. — Este rapaz é um caso perdido — atalhou Bernardo, abanando a cabeça em sinal de reprovação. — Se pensas‑ ses menos em desporto e mais nos estudos, talvez a nossa solidariedade fosse mais visível para ti... Mas tu estudas o menos possível! Ainda não percebeste que, não tarda muito, vais entrar no secundário... Não dás valor ao que tens! Não sei o que pensas vir a ser na vida! — Uma alma caridosa...? — arriscou o Mateus, que tinha em sentido de humor o que lhe faltava em vontade de estudar. Acabaram por se rir, à exceção de Bernardo, que se preo­ cupava demasiado com a vida académica do filho, incapaz de compreender que o Mateus dedicasse tão pouco tempo ao estudo, ao contrário do que ele sempre fizera desde que entrara para a escola. No fim do almoço, o Mateus levou a Silvana para o seu quarto, ligou a aparelhagem de som e sentaram­‑se confor‑ tavelmente para conversarem. — Desculpa lá a seca do almoço — pediu o Mateus. — O meu pai é um cota bué desgraçado para quem, na vida, só conta o trabalho. Não há nada a fazer. É um caso per‑ 16


dido... — Dito isto, chegou­‑se mais para perto da Silvana, procurando o máximo de intimidade possível. — Ora! O teu pai é normal, Mateus — disse ela, afas­tan­ do­‑se ligeiramente, para se sentir mais à vontade. Depois, pensou que seria muito bom ter um pai assim, mas coibiu­ ‑se de o confessar. Ele mordeu o lábio inferior, incomodado por se ter apro‑ ximado dela ao ponto de a ter feito afastar­‑se. Teria de ser mais discreto, pensou. Nada de precipitações! — Ouve lá, ‘tás mesmo a curtir o tal grupo de solidarie‑ dade ou lá o que é? — Estou. Chama­‑se Grupo Galileia... — Hum­‑hum... Galileia...? Já ouvi esse nome em qual‑ quer lado... Ela sorriu com indulgência. Como ele gostava de vê­‑la sorrir — mesmo com indulgência para com ele! — Deves ter ouvido o nome num aula de Geografia, por‑ que na Missa não deve ter sido — brincou ela. — Quando lá vais, não ouves nada... — Isso é porque me distraio com aquelas imagens todas de santos, as pinturas, os candeeiros, etc... — Pois... — Eu acho que as igrejas deviam ser grutas ou choupa‑ nas, tipo Presépio, ‘tás a ver? — Aí está uma excelente ideia para enviares para o Vati‑ cano, numa carta ou por correio eletrónico — meteu­‑se a Silvana, folheando uma revista do amigo. Depois, retomou o fio da conversa: — Ouve lá, Mateus, tu não te lembras de ouvir falar de Jesus de Nazaré? — Lógico! E o que é que isso tem? 17


— Onde é que julgas que fica a cidade de Nazaré? — Cá em Portugal...? ‘Tou a brincar! Sei que há cá uma terra com esse nome, mas não deve ser essa. Jesus não era português. Não sou assim tão ignorante! Ora bem, deixa cá ver... Nazaré... Nazaré. — Fica precisamente na Galileia... — Ah... Pois... Não ‘tava a lembrar­‑me... Daí o teu grupo chamar­‑se... — Grupo Galileia. — Iá. Nome fixe. Gramei. Galileia... Rima com... geleia. — E com «grande ideia»! Quando a música chegou ao fim, foram até à sala para verem um vídeo onde estava gravado um concerto do grupo Dead Can Dance. Eram ambos adeptos de música «alterna‑ tiva», como o Mateus lhe chamava, embora, para a Silvana, qualquer música fosse uma alternativa às restantes. Já tinham até discutido este termo, mas, como de costume, o Mateus brin­cara com o assunto, porque não gostava muito de se embre­nhar em conversas sérias, menos ainda as que partiam de questões linguísticas, que lhe pareciam quebra­‑cabeças tenebrosos. Depois do concerto, sozinhos na sala, a Silvana teve vontade de contar o que lhe ia na alma: — O que te vou dizer é segredo, pelo menos, por en­­ quanto... Ele rejubilou! Um segredo dela?! Fantástico! Era um sinal de que podia manter a esperança. Mais: poderia sonhar ainda mais alto! — A minha boca só não é um túmulo egípcio, porque tenho horror a múmias. Podes falar à vontade! 18


— É sério, Mateus... — OK. ‘Tou a tomar atenção, não vês? Sou todo ouvidos da cintura pra cima. — Hum... Bem, é que tenho andado a pensar naquele assunto da minha irmã, sabes? — Da tua meia­‑irmã, queres tu dizer... — Sim, mas não gosto dessa cena de «meia», percebes? É irmã, ponto final. — Fixe. E daí? — Daí que decidi que vou fazer os possíveis por con­ tactá­‑la. — O quê?! — estranhou ele. — É isso mesmo! Vou tentar conhecer a minha irmã, não posso?! — Lógico. Se é isso que queres... — Até já tenho um plano... — Já? — Hum­‑hum. Por enquanto, só sei que ela se chama Patrícia, é um ano mais velha do que eu e vive em Lis­boa. — Desculpa o pessimismo, mas acho isso francamente pouco... — Eu sei! Por isso é que tenho um plano, palerma! Ainda não vou falar dele, porque tenho de pensar melhor, mas, depois, logo saberás. — Ouve, Naná, eu não quero ser desmancha­‑prazeres, porque já vi que queres mesmo conhecer a tua irmã e que isso é bué importante para ti, mas... — Mas o quê, Mateus? — Mas e se... ela não quiser conhecer­‑te? É possível, não é? Não ‘tou a dizer que seja provável, mas possível é... 19


O Mateus acabara de levantar uma questão pertinente, na qual a Silvana ainda não tinha pensado. E se a Patrícia não estivesse minimamente interessada em conhecê­‑la? O melhor era não pensar nessa hipótese para não estragar o seu entusiasmo. Não tinha ainda motivos para se desmotivar, nem era pessoa para desistir facilmente de um projeto — menos ainda dos que envolvessem a família ou os amigos. Na ver­dade, nunca tinha desistido de nada que considerasse importante e não era a hora de começar a hesitar! Tinha de repensar o seu plano e pô­‑lo em prática assim que fosse possível. Era só isto que precisava de fazer. Aprendera que a força de vontade era muito poderosa, se assim não fosse, nunca teria conseguido os resultados que, ano após ano, via nas pautas da escola, para grande admi‑ ração da mãe, que nunca fora grande aluna nem chegava a compreender como uma filha sua podia ter tantas ambições, incluindo a de vir a ser convidada para trabalhar na NASA! Já passava das nove quando a Patrícia começou a jantar com a mãe e a avó Lola, com quem vivia. Anabela, a mãe da jovem, era contínua numa escola básica; a avó trabalhava na caixa de um supermercado, pelo que, às vezes, chegava a casa mais tarde, e a filha fazia questão de esperar por ela para jantarem. — Isto de ter mandado arranjar a máquina de lavar a roupa deixou­‑me desgraçada, este mês — queixou­‑se Ana‑ bela, enquanto servia o prato da filha. — E, ainda por cima, tive de te comprar mais o dicionário que me pediste, Cissa! Só espero que me subas as notas a Português... Os preços estão de fugir! 20


— As minhas colegas têm notas melhores, porque fazem os trabalhos no portátil — refilou a Patrícia. — E os profes‑ sores dão logo imensa importância à apresentação e essas cenas... Se eu tivesse um portátil... — Ó filha — interveio a avó materna —, eu já prometi que te compro um portátil quando receber o subsídio de Natal, se conseguir poupar alguma coisa de jeito... Anabela irritou­‑se: — A mãe não tem nada que andar a prometer coisas dessas à miúda! Não vê que a estraga com mimos? E ela, ainda por cima, é mal­‑agradecida! Queixa­‑se por tudo e por nada. Parece que já se esqueceu de que, se não fosse a avó, ainda não teria o telemóvel! Andava sempre a pedinchar, a lamentar­‑se de que todos os colegas tinham telemóvel e não sei que mais e, depois, em vez de se con‑ tentar, desata a pedir portáteis... Isto só visto! Julga que somos ricas! — Portátil — corrigiu a Patrícia, corada de indigna­ção. — Eu só pedi UM portátil, OK? Não pedi portáteis. — Vejam só! — exclamou a mãe. — Ainda por cima fazes troça! Não faltava mais nada! Era preciso muita lata para pedires mais do que um! Pensas que o dinheiro nos cai em cima se abanarmos as árvores, é?! Tens tudo e mais alguma coisa e passas a vida a queixar­‑te, é o que é. Se tives­ses menos, talvez soubesses agradecer. — Se passo a vida a queixar­‑me — volveu a Patrícia —, te­nho a quem sair... Ainda agora refilaste por causa dos preços... Anabela atingiu o ponto de saturação e mandou a filha para o quarto, reclamando da pouca sorte que sempre tivera em tudo, até com o feitio da única filha que tinha. 21


No quarto, a Patrícia mordeu os lábios com força para não chorar. Não era que não lhe apetecesse, mas partilhava o quarto com a avó e só se sentia à vontade na casa de banho, que era a única divisão da casa onde não vinham surpreendê­‑la e fazer­‑lhe perguntas às quais, na maioria das vezes, não queria responder. Gostava muito da avó Lola e não apenas por ser ela quem ajudava a mãe com todas as despesas, mas a verdade é que preferia ter um quarto só para si. Sentou­‑se no divã e pôs­‑se a pensar no episódio que acabara de ocorrer. Sabia que exagerara à mesa: alguns dos seus colegas de escola também não tinham compu‑ tador nem outras coisas que ela considerava igualmente importantes. No entanto, a mãe fora injusta, chamando­‑lhe ingrata. Apesar de tudo, ela procurava ser agradável com a avó e não lhe fazer sentir que, muitas vezes, a sua presença a impedia de ter a privacidade de que necessitava. Suspirou longamente e, depois, pegou numa revista que uma colega da avó lhe tinha cedido, como habitualmente, já que, na sua família, não havia dinheiro suficiente para comprar revistas. Folheou­‑a e, rapidamente, começou a sentir­‑se mais deprimida. Ali estavam retratados alguns dos jovens que apareciam nas telenovelas: bronzeados, bem vestidos, modernos, risonhos, em cenários paradisíacos... Alguns, menos giros do que ela, achou­‑o sinceramente, mas a verdade é que podiam dar­‑se ao luxo de se arranja‑ rem bem, o que lhes dava sempre bom ar. O mesmo não acontecia consigo, infelizmente... Fechou a revista e deitou­‑se sobre o divã a divagar. Quando a mãe e o padrasto eram casados, tinham uma vida melhor, 22


muito mais desafogada. Depois do divórcio, foi um descala‑ bro, apesar dos esforços da mãe e da avó para pouparem em tudo o que podiam. Quanto ao pai, já sabia que não devia ter esperanças vãs. Só lhe mandava um cheque pelo Natal e nunca quisera saber dela. Por seu turno, ela também não queria saber de um homem que tinha sido capaz de a abandonar e à mãe, quando ela tinha apenas um ano de idade, para trocar a mãe por outra mulher de quem teve outra filha que ela não conhecia nem queria conhecer, aliás, a mãe nem permitia que se falasse daquele assunto lá em casa. Depois, soubera que o pai se mudara para o Algarve, onde vivia com uma terceira mulher, que ela também não queria conhecer. Seria que os homens eram todos assim ou era só azar seu ter­‑lhe calhado um pai daqueles? Os homens que apareciam nos filmes pareciam diferentes, exceto os que, indubitavel‑ mente, faziam de «maus da fita». De resto, havia­‑os muito carinhosos, atentos aos filhos, a debitarem prendas a torto e a direito e a despedirem­‑se dos filhos com um beijo, à noite, depois de lhes dizerem «Amo­‑te», em inglês... A avó veio interromper as suas divagações, aproximando­ ‑se ternamente para lhe dizer baixinho: — A tua mãe faz muitos sacrifícios por ti, Cissa... Ela sorriu para a avó. Não valia a pena dizer­‑lhe que estava farta de ouvir falar em sacrifícios, sobretudo dos que se faziam por causa dela...

23

entre irmãs  
Advertisement