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Faltava apenas uma semana para acabar o ano letivo. No bar da secundária de Vila Velha do Pastor, David e os melhores amigos da sua turma do 10.º ano, Paulo e Luciano, conversavam, enquanto procuravam refrescar-se com uns goles de refrigerante. — Isto está de mais! — queixava-se o Paulo, encostando o copo frio ao rosto para aliviar a sensação de calor. — Esta brasa não é normal para este mês! Ainda só estamos na primavera! Isto vai ser cá uma seca... — Podes crer — corroborou o Luciano, arregaçando ainda mais as mangas da camisa que trazia por fora das calças. — Não me lembro de termos tido tanto calor aqui na vila. — É normal — interveio o David, em jeito de piada. — A tua memória nunca foi grande espada... — Não dá para aguentar ficar sentado naquela sala de aula — desabafou o Paulo. — Aquilo parece um forno crematório nazi! Nunca tive tanto calor na vida! Quando ’tou lá dentro, sinto-me a ferver na panela do cozido que a minha mãe faz aos sábados... Fogo! — Por falar nisso — atalhou o David, pousando o seu copo na mesa —, não tarda muito começa a época dos 11


incêndios... Até estou um bocado admirado de ainda não ter havido nenhum... — Iá — assentiu o Paulo, com um gesto de cabeça. — Também já pensei nisso. Com esta brasa, até dá para  ficar intrigado: onde é que os pirómanos de ser­ viço estarão metidos? Ainda devem estar a hibernar, na Sibéria... — Vocês estão é bué mal informados — declarou o Luciano. — Já houve dois ou três fogos no distrito, na semana passada, parece-me. E julgo que também já houve um ou dois para os lados de Vila Branca. O David surpreendeu-se: — Andas a ver o noticiário das oito, ó cromo?... Pensei que só gramavas o Cartoon Network... Neste momento, os três rapazes viram aparecer a Mar‑ lene, uma colega que morria de amores pelo David desde o 7.º ano e que só se inscrevera no 2.º agrupamento para ficar perto do seu príncipe encantado. — O que é que vocês ’tão a fazer? — perguntou a rapa‑ riga, sentando-se junto dos colegas. — A tratar de assuntos quentes — replicou o Paulo, piscando o olho ao David com a cumplicidade do cos­tume. — Okay. Se é particular, vou-me já embora — disse a Marlene, sem a menor vontade de perder de vista o seu mais que tudo. — Não, não é particular — esclareceu o Luciano, sor‑ rindo para os amigos. — Podes ficar à vontade. Afi­nal, já há prà í dez minutos que não vias o David... O gajo até já cresceu e tudo. Repara, nasceu-lhe outro pelo no queixo! Só que é loiro, tens de pôr óculos se o quiseres ver... 12


— És um idiota, Pavarotti de meia-tigela — abespinhou‑ -se a Marlene, perante a gargalhada dos rapazes. O David, que não gostava de ambientes tensos, resolveu pôr água na fervura: — E os teus pais, Marlene? Tens tido notícias de França? — A minha irmã e eu recebemos carta deles, on­­ tem — animou-se a jovem. — Vêm cá passar o mês de julho! Desta vez, vão ficar um mês inteirinho! E tu, David? Quando é que os teus pais vêm da Suíça? — Só em agosto; pelo menos foi o que o meu pai disse à minha avó, no último telefonema. Mal o David acabou de falar, viram passar, um pouco distante deles, a Benedita, que era a melhor aluna — não só da turma como de todo o 10.º ano da escola. — Vai ali a marrona — sussurrou o Paulo. — Por acaso, vi ontem o irmão da Benedita, quando passei na rua do hospital. Aquele gajo ’tá cada vez com pior aspeto... Até mete mede ao susto... — comentou o Luciano. — Ouvi dizer que o Xavier se andou a tratar com um psiquiatra, na Guarda — informou a Marlene. — Foi a dona Irene quem contou isto à minha irmã. Coitada da mãe dele... O que vale é que a Benedita não lhe dá pro‑ blemas! — Não acredito que haja um psiquiatra suficientemente competente para dar a volta aos miolos do Xavier — conti‑ nuou o Luciano. — Ele já é maluco desde puto! As broncas que ele arranjou nem têm conta... Eu cá confesso: o gajo mete-me um cagaço dos diabos, palavra! A Benedita deve ser apanhada por ter um irmão assim... 13


— Eu não acho que a Benedita seja apanhada, Lucia­ n­ o — interveio o David, com seriedade. — Não é pelo facto de ela ser excelente aluna que se pode chamar maluca. — Mas que ela é bué da estranha, lá isso... — insistiu o Luciano, com um sorriso meio trocista. — Não fala a ninguém, nunca chegou atrasada a uma aula, tira sempre altas notas, ouve elogios dos profes a torto e a direito e nem isso a deixa contente... Além disto, deve ter inventado uma regra: não há rapaz que possa estar a uma distância dela que seja inferior a dois metros. Se isto não é estranho... — Iá — anuiu o Paulo, com cara séria. — A miúda tem pancada. Eu sempre disse isto. Aliás, é o que toda a gente pensa, julgo. — Julgas mal — volveu, pausadamente, o David. — Pri­ meiro, não sabes o que pensa toda a gente, grunho; segun­ do, não acredito que haja alguém que conheça realmente a Benedita... — E rematou, em voz baixa: — Eu cá não conheço. — E será que achas normal não conheceres uma miúda que é tua colega de turma há quatro anos, ó mocho sabi‑ chão?! — meteu-se o Paulo. — Bem, pessoal — interrompeu o Luciano, levantando‑ -se —, a conversa ’tá interessante pra intelectuais como eu, mas, com este calor, vou mas é bazar pra casa e tomar um duche frio, que ’tou a escorrer, tipo lagosta suada. — Tchau, lagosta — respondeu o David. — Eu também vou andando. ’Tava-se bem era na praia, no Rio de Janeiro, no meio das cariocas, mas a vida é dura... E o David lá saiu para o pátio, em direção à sua bici‑ cleta, sempre seguido pela Marlene, que não descolava, 14


apesar das piadas que ouvia quase diariamente sobre a sua conduta. — Bom fim de semana, Marlene. Diverte-te! — disse‑ -lhe o David, em jeito de despedida. — Vais ficar em casa, esta tarde? — quis saber a colega, com um sorriso dengoso, enquanto encaracolava nervosa‑ mente uma madeixa de cabelo. — Não sei. Logo vejo. Com este calor, quero é ficar nu. — E saiu a pedalar, bem-humorado como habitualmente. A Marlene corou um pouco e ficou a dizer-lhe um adeus prolongado, suspirando e divagando sobre as últimas pala‑ vras que ouvira.

d Passava pouco das três da tarde quando o David estacio‑ nou a bicicleta em frente da biblioteca municipal. Na rua, estava um calor desusado para aquela época do ano. Talvez no interior do edifício a temperatura fosse mais suportável, pensou o jovem, dirigindo-se para a porta. Na biblioteca, apenas se encontrava o senhor Matias, um reformado da função pública que ali ia diariamente para ler jornais e revistas, e a cliente mais habitual, a Benedita, que, dadas as fracas posses, só ali podia dispor dos livros e de outro material de estudo que a ajudavam a ser a aluna brilhante que era. O David foi requisitar o livro que pretendia para aprofun‑ dar uma matéria de Biologia e, em seguida, foi sentar-se a uma mesa, lamentando em silêncio o calor que ali estava. Foi então que a bibliotecária, a dona Armanda, resolveu 15


ligar a ventoinha, para alívio dos presentes, que, por breves instantes, se distraíram da leitura. Era bom estar ali. De facto, a seguir à casa dos avós, onde vivia desde que nascera, e à serra por onde frequen‑ temente passeava, a biblioteca era o espaço favorito do David. Já a colega preferia aquele lugar a qualquer outro, visto que, em sua casa, raramente podia sossegar ou ter a privacidade de que necessitava. O rapaz abriu o livro que requisitara, mas, antes de dar início à leitura, levantou discretamente o olhar na direção da colega de turma, que nem sequer lhe sorrira ao vê-lo entrar. Como parecia triste, a Benedita! Era a pessoa mais triste que ele conhecia. Nunca a vira revoltada ou zangada e não se lembrava de alguma vez ter visto nascer algo parecido com um sorriso no seu rosto frágil e muito branco, con‑ trastando com a farta cabeleira quase negra, que costu‑ mava prender atrás, com um elástico vulgar. E continuou a observá-la, o mais discretamente que podia, sabendo, no entanto, que ela não deveria estar a notar, visto que parecia sempre muito concentrada em tudo o que fazia, como se o mundo não existisse e nada pudesse perturbá-la. A certa altura, a Benedita puxou para trás da orelha uma madeixa que se soltara do elástico e, numa fração de segundo, o seu olhar cruzou-se com o do colega, que ime‑ diatamente mergulhou na leitura. Porém, passados alguns minutos, ele voltou a olhar para ela e foi então que se lem‑ brou de lhe ter visto um penteado diferente, no dia do fune‑ ral do pai, quando ambos tinham 10 anos e frequentavam o 5.º ano, na escola velha. Nesse dia, a Benedita usara uma 16


trança. Sim, uma trança, ele lembrava-se bem. Uma trança muito negra, com um laçarote branco na ponta. Que bem lhe ficava! Desejou até tocar-lhe na trança, brincar com ela, tomar-lhe o peso, sentir-lhe a espessura. O pai da colega viera de férias, da Alemanha, e sofrera um acidente fatal, na estrada. Na altura, todos diziam que ele deveria ter adormecido ao volante, já que conduzira horas a fio sem descanso, como era seu costume. A vila em peso acorreu ao cemitério. Vendo bem, talvez aquele tivesse sido o único dia em que a Benedita e a família puderam contar com uma expressão sentida de solidarie‑ dade dos conterrâneos. Depois, a pouco e pouco, todos se foram afastando. Na verdade, o Xavier, irmão da jovem, começara a des‑ cambar pouco depois da morte do pai e era essa a principal razão pela qual a família vivia quase divorciada do resto da vila. O Xavier começara a meter-se em sarilhos aqui e ali, que lhe granjearam fama de maluco: zaragatas por dá-cá-aquela-palha, no café, junto dos matraquilhos ou da mesa de bilhar; pequenos furtos no mercado de quinze e na mercearia do Castanheira; cerveja atrás de cerveja, desde que se levantava da cama; noitadas ao relento, no Largo, a apedrejar os cães vadios e a assobiar para o vento; mau comportamento na escola... Quando tinha 16 anos e abandonara os estudos, chegara mesmo a pegar fogo a um monte de tábuas de pinho empilhadas no pátio da serração do Almeida, à entrada da vila, pelo facto de o homem o ter levado à esquadra ao vê-lo a arrastar a asa à Esperança, sua filha mais nova. O prejuízo foi calculado e lá teve a mãe de pagar tudo, a custo, recorrendo às magras economias que 17


possuía e maldizendo a sua sorte por não poder contar já com um marido que a ajudasse a endireitar o rapaz. Sim, havia razões de sobra para a tristeza da Benedita, pensou o David. Como seria a vida dela, naquela casa tão pequena e, certamente, tão desconfortável, ao lado de uma mãe sempre queixosa e doente e de um irmão que não segurava um emprego e se embebedava constantemente? Ninguém podia sondar o que se passava na cabeça e na alma daquela rapariga. Na escola, apesar da admiração que sentiam ao ver as notas que apareciam nas pautas em frente do seu nome, nenhum dos colegas ousava aproximar‑ -se dela. Por outro lado, a Benedita era um ser solitário, parecendo incapaz de comunicar fosse com quem fosse. Nas aulas, mal se lhe ouvia a voz, embora ela tivesse sem‑ pre uma resposta acertada para dar aos professores que a interpelavam. «Fala mais alto!», gritavam-lhe, nos primei‑ ros anos; depois, pouco a pouco, todos desistiram de lhe pedir que se fizesse ouvir. Até os professores se haviam acostumado àquele jeito de falar, que se assemelhava a um sussurro. Contudo, ela não corava nem quando ouvia um elogio a propósito de um teste ou de uma resposta dada oralmente. Parecia que uma capa misteriosa a envolvia, separando-a dos outros; uma capa invisível que a tornava imune aos outros! Como seria morar debaixo daquela capa?, interrogava-se o David. A bibliotecária tossicou. O David acordou das suas diva‑ gações e resolveu, então, concentrar-se no objetivo que ali o levara. Mais tarde, haveria de pedir para ir sentar-se em frente do computador para uma pesquisa através da Inter‑ 18


net. O pai prometera trazer-lhe um computador, quando viesse de férias. Mal podia esperar! Até lá, teria de usar o da biblioteca municipal.

d Cerca das cinco horas, a Benedita chegou a casa e foi imediatamente ao estendal de arame, que havia no quintal. Tirou a roupa seca e levou-a para passá-la a ferro, na sala. O irmão estava deitado no sofá, em frente da televisão, com um cigarro numa mão e uma garrafa de cerveja na outra. — Almoçaste, Xavier? — perguntou ela, depois de ligar o ferro. Ele balbuciou um não e ela foi rapidamente preparar-lhe um lanche. Depois, foi retomar o seu lugar junto da tábua de passar a ferro, enquanto o irmão comia ruidosamente o pão com queijo. — Não sei o que me deu — disse ele, a certa altu­ra —, mas resolvi passar pela serração, pra ver se o lugar deixado pelo Cajó ainda estava vago... — E exaltou-se: — Não sei o que me deu! — Julguei que estavas a tentar que o Carvalho da carpin‑ taria te desse emprego — atalhou a Benedita, timidamente, enquanto dobrava um lençol. — Oh! Esse é outro que tal! Disse-me que, por agora, não precisam de mais ninguém, que não podem pagar mais ordenados, blá, blá, blá... — E... o Almeida? — arriscou a rapariga. — Esse gajo nunca me gramou! Ainda não se esqueceu! — Elevou o tom de voz para prosseguir: — O sacana deve 19


julgar que ainda ’tou interessado na sonsa da filha! Quero lá bem saber da palerma da Esperança! Fogo! — Deu uma gargalhada e continuou, num tom irónico: — Nem vai haver nenhum anjinho que lhe pegue, com um pai daqueles... — Mas não desistas — pediu a irmã, com doçura. — Tenta outro emprego qualquer. O Almeida já se sabe que não te vai arranjar nada. Mas é uma questão de conti‑ nuares a procurar... — Fez uma pausa breve e encheu-se de coragem para sugerir: — Mete-te na camioneta, vai até à Guarda, pode ser que tenhas sorte. Na Guarda, vai ser mais fácil. Lá há mais trabalho, Xavier. Ele encolheu os ombros. Depois, deu o último gole na cerveja e confessou: — O que eu gramava era que me saísse a porcaria do Totoloto... Comprava logo um terreno, que os há a bom preço para os lados da Matinha, e cultivava-o. — Voltou a exaltar-se, erguendo os punhos cerrados: — Depois, havia de esfregar um molho de nabos nas trombas do Almeida e dizer-lhe que me estou a lixar para a serração do gajo, para a filha do gajo e para tudo o que é do gajo! — Calou-se por uns instantes antes de rematar: — Não sei o que me passou pela mona para ter lá ido à porcaria da serração! E nem sequer estava bêbado!... A roupa estava passada a ferro. Como fazia desde os 12 anos, a Benedita foi arrumar cada peça no respetivo lugar. Ao chegar ao pequeno armário que lhe estava destinado, deparou-se-lhe a coleção de roupas que a madrinha Glória lhe ia mandando de Coimbra, todas já usadas pela filha que tinha a sua idade, a Susana. Suspirou, olhando os sapatos, na prateleira inferior do armário: tortos, baços, sem cor... 20


Fazia-lhe jeito um par novo, para usar na festa de fim do ano, na escola, mas nem pensar em pedir dinheiro à mãe, cujo ordenado que recebia por trabalhar no Café O Serrano mal dava para as despesas da casa e para os medicamen‑ tos para si e para o filho (e eram tantos!). Além disso, a mãe também precisava de renovar o seu guarda-roupa e não se decidia a fazê-lo, mantendo-se de luto desde que enviuvara. Não, não podia pedir dinheiro à mãe. Não tinha esse direito. Fechou o armário e saiu do quarto, afastando aqueles pensamentos que não a levavam a bom porto. Em seguida, foi ao quintal dar o milho às galinhas, tarefa que também lhe competia e que, ao contrário das restantes, não lhe desagradava. Consultou o relógio de pulso, que a madrinha lhe dera pelo décimo aniversário e já tinha a correia muito gasta. Ainda havia tempo para fazer os trabalhos de casa antes de a mãe chegar do trabalho. Sentou-se à mesa da sala, abriu o caderno de Matemática e pôs-se a trabalhar. O ruído da televisão já não a incomo‑ dava: cedo se habituara àqueles excessos do irmão e sabia que o melhor era não fazer ondas, que o Xavier fervia em pouca água e ela não queria provocar desacatos. Estudar era, para a Benedita, como fazer uma viagem para bem longe; como se o seu corpo se afastasse, por um tempo, para parte incerta e ali deixasse apenas a parte pensante do cérebro, habituado a raciocinar, a associar o que já sabia ao que estava a aprender, a procurar o fio condutor das mensagens ocultas no código das palavras e dos números.

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David, um herói entre chamas  
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