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ÍNDICE Três bolas de fogo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Pressentimentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

15

Até que enfim! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

23

“Vim de uma estrela distante…” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

33

A um passo da glória . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

41

O Sol Negro e a Besta de Duas Cabeças . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

51

Pela hora da morte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

61

Estamos vivos? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

71

Em Novembro será tarde! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

81

A segunda pedra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

91

Onde está o Gil? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101 Notícias do futuro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 Esta pedra é minha! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123 Pedra vem, pedra vai… . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 O salva-vidas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149 Irmãos de sangue . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159 Esperando a morte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 171 A cabeçuda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 181 Um acidente, um leilão e uma perseguição . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193 Duelo de irmãos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205 Olha que dois! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 215 Grandes novidades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 227


Almoçando com o inimigo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 237 Adivinha o que é o jantar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 247 A “pedra do céu” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 259 Mais três “pedras do céu” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 271 Outra vez a um passo da glória . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 283 A erva do diabo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 293 O livro que se lê de olhos fechados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 305 O psiconauta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 315 O dia do fim do mundo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 327 O “olho de Deus” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 339 Mais notícias do futuro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 351 O princípio do fim . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 363 Correndo contra o tempo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 375 A cidade do pó . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 385 A hora da verdade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 395 Últimas notícias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 405


TRÊS BOLAS DE FOGO

A

Joana debruçou-se na janela do quarto e respirou fundo, mas não havia ar no ar e era preciso muito esforço para o fazer chegar aos pulmões. Ninguém se lembrava de um calor assim, com as temperaturas durante o dia a chegarem aos 45 graus. Mesmo àquela hora da madrugada, não corria a mais leve brisa. – Passa, noite! – disse ela baixinho para ninguém. Não era só o calor que não a deixava dormir. Quando aquela noite chegasse ao fim e nascesse o novo dia, ela ia voltar a ver o Gil, o rapaz que continuava guardado no seu coração. Naquele momento ele estava ainda nos Estados Unidos, onde vivia com o pai, mas faltava pouco para entrar no avião que iria aterrar a meio da tarde do dia seguinte no aeroporto de Sá Carneiro, no Porto. Por isso a Joana estava ali, em casa dos tios, a contar cada minuto que faltava para esse momento. É certo que trocava correspondência com ele desde que ele partira, logo a seguir a uma das mais extraordinárias aventuras do “Triângulo Jota”, e que também falavam ao telefone muitas vezes e que era raro o dia em que não trocassem mails e SMS; mas agora ela ia poder tocar-lhe, abraçá-lo, beijá-lo. O Gil ia passar o resto do Verão no Porto com o pai, que vinha trabalhar durante uns meses na concepção acústica da 7


Casa da Música, e a Joana não sabia como nem a quem agradecer semelhante promessa de felicidade. – Passa, noite, passa! – voltou ela a dizer quase sem mexer os lábios, como se rezasse. Tinha os olhos pregados nas estrelas distantes, o pensamento voando e não viu que nesse momento três bolas de fogo desceram do céu a grande velocidade, como pequenos cometas fumegantes, e abateram-se velozmente sobre a cidade em três direcções diferentes. Uma dessas bolas passou mesmo diante do nariz da Joana e deixou no ar um fio de fumo que se desfez logo a seguir. Não faltou, porém, quem visse as três bolas de fogo que nessa madrugada de Junho riscaram o céu da cidade. Ninguém diria que às cinco da manhã estivesse tanta gente com o nariz no ar a olhar o céu. Algumas pessoas que as viram mais de perto diziam também ter sentido uma onda de calor abrasador que lhes queimou a pele como um ferro em brasa, embora não deixasse qualquer marca. Outras diziam que também sentiram uma espécie de formigueiro eléctrico, dores de cabeça, tonturas fortes e ainda que, ao voltarem ao sono, tiveram sonhos estranhos e aterradores. Quem mais sentiu esses estranhos sintomas foram dois homens que jogavam às cartas dentro de um barracão de obras na Rua de 5 de Outubro, perto da Rotunda da Boavista. O Saturnino era o guarda-nocturno da obra e o outro, o Horácio, um trolha que entrava ao serviço às oito da manhã e, às vezes, ajudava o amigo a passar a noite acordado e a esvaziar a garrafa da aguardente. Beber era o desporto favorito daqueles dois. O Horácio jurava ter visto uma luz estranha que caiu a grande velocidade ao lado da barraca e que fora essa a causa de a barraca ter abanado com o sopro do calor. O Saturnino só se ria e foi a rir que acompanhou o amigo na primeira pesquisa que eles fizeram nos terrenos da obra, à procura de um sinal da bola de fogo. Não encontraram nada e regressaram ao barracão, onde continuaram a jogar às cartas e a beber, sempre com o Saturnino a rir e a gozar o parceiro. Porém, quando ouviram a notícia das 8


bolas de fogo na rádio e o testemunho de um homem que garantia que uma dessas bolas tinha caído na zona da Boavista, relacionaram as coisas e foram examinar melhor o terreno. Armaram-se de uma lanterna potente e ao fim de pouco tempo depararam com um círculo de terra queimada ao fundo do terreno. Começaram a cavar naquele sítio com a curiosidade cada vez mais espicaçada, até porque o círculo da queimadura começara a desaparecer. Como se fosse apenas um desenho a lápis que estava a ser apagado por uma borracha invisível. – Estás a ver isto? – disse o Horácio. – Parece bruxedo. Ou será que bebemos de mais? Estavam ambos bastante bebidos: quase uma garrafa de aguardente. Fora as cervejas. E três bagaceiras e o vinho do jantar. Mas esse era o estado normal deles e nunca lhes acontecera verem coisas. Pelo contrário, se não bebessem é que as viam. Entretanto, o círculo da queimadura desapareceu completamente diante dos olhos deles e o Horácio marcou o sítio com uma cruz gravada na terra. Mesmo ali ao lado havia uma vala onde era depositado entulho das obras e eles removeram tudo e cavaram, cavaram, cavaram. Meia hora depois já não havia mais forças nem mais aguardente e eles já se preparavam para desistir, quando a ponta da pá do Horácio bateu numa pedra. Escavaram mais e destaparam então um degrau do que se revelaria ser uma escada de pedra. O entusiasmo da descoberta fê-los escavar freneticamente durante mais meia hora. Mas então já estavam sem forças e ainda só tinham descido mais cinco degraus na escada. Passava pouco das seis da manhã e o novo dia começava a nascer. – Isto só vai com a escavadora eléctrica – disse o Horácio. – Vou buscá-la! – A esta hora? – estranhou o Saturnino. – E então? As da Casa da Música também trabalham durante toda a noite. Ninguém dá por nada. Era verdade. Ali perto, na Casa da Música, as obras nunca paravam e as pessoas que moravam nas redondezas já não estranhavam o barulho das máquinas a qualquer hora do dia ou da noite. 9


O Saturnino não era um especialista na escavadora e fez algumas asneiras, mas a escavação avançou rapidamente e meia hora depois tinham chegado ao fim da escadaria, que descia no terreno ao longo de dezasseis degraus. No fim dessa escadaria havia uma porta de madeira velha parcialmente apodrecida, que abriu um rombo à primeira pancada. À segunda, desfez-se completamente e deixou ver um corredor baixo de terra que a primeira luz da manhã iluminou. – Vamos ver o que é isto? – disse o Horácio, ainda hesitante. – Não é melhor esperar que chegue o pessoal da obra? – És doido? Nós é que tivemos o trabalho e eles é que vão passar por descobridores. Isto é uma coisa muito antiga. Um túmulo, um templo ou coisa assim. Pode ter ouro, coisas de valor. O que é muito antigo vale sempre muito dinheiro. – Pode ser perigoso. Ter vírus, micróbios, bicharada. E já não há tempo para isso. Daqui a meia hora começa a chegar gente. Sai mas é daí. – Estás com medo, vou lá eu – insistiu o Horácio. – Não te metas nisso – insistiu o Saturnino. – Pode estar aí a bola de fogo que caiu do céu. Não viste o abanão que nós sentimos? Não viste a terra queimada a desaparecer? Isto é esquisito. O Horácio sorriu. Coisas esquisitas tinha ele visto a vida inteira. Era um homem vivido, com quase cinquenta anos, que odiava trabalhar e sonhava com o dia em que achasse o dinheiro de que precisava para ficar na tasca da rua onde morava a beber e a discutir futebol o dia inteiro. Era só isso que ele via naquele momento. E foi esse desejo que o fez enfiar a cabeça na abertura da porta e deslizar através do pequeno túnel com a lanterna na mão. – Está tudo bem? – perguntava o Saturnino. O Horácio já tinha percorrido o túnel e chegado a uma pequena sala quadrada que ele iluminou. Não havia ali nada; só uma grande estátua de pedra ao lado de uma porta também de pedra que ele não conseguiu mover. – Então? – perguntou o Saturnino à entrada do túnel. E a voz dele ecoou na sala quadrada. 10


– Traz-me uma picareta – respondeu o outro. – E um pé-de-cabra. – E a bola de fogo? Está aí? – Não há aqui nada disso. Só uma porta que dá para qualquer lado. E um matulão de pedra que está a guardar a porta. Deve ser o porteiro. E parece que está a olhar para mim. O Horácio reparara que o guardião de pedra parecia fitá-lo com os seus dois olhos redondos e vivos. Pelo menos, assim parecia. Aproximou-se e examinou-o melhor. Era todo de pedra, com formas toscas e grosseiras, mas os olhos tinham cores e formas reais. Viu também que os olhos eram feitos de uma espécie de vidro e tinham sido incrustados na pedra. Com a ponta do canivete conseguiu deslocar o olho esquerdo do guardião e rolou-o na mão, divertido. Depois, guardou-o no bolso a sorrir, veio até meio do túnel e gritou cá para fora: – Então, pá? É para hoje? O Saturnino não respondeu. Ainda estava no barracão das ferramentas à procura de um pé-de-cabra. Ouviu então barulhos estranhos na obra e ficou à escuta. Mas os barulhos só se ouviam quando ele não estava à escuta. Depois, ouviu a voz do Horácio a chamá-lo e agarrou num pé-de-cabra, duas picaretas e olhou o relógio. Passava das seis e meia e era melhor apressar-se. Daí a pouco estava a obra cheia de gente. – Tanto tempo… – queixou-se o Horácio quando o viu chegar. – Que queres? Ouvi barulho na obra. – Deixa lá agora a merda da obra! – Eu sou o guarda, pá. E se são gatunos? Ou então alguém chegou mais cedo. – Primeiro abrimos esta porcaria. Vá lá, toca a atacar. Atacaram os dois a porta com o resto das forças, que já não eram muitas, e a porta de pedra continuou intacta. – Isto é pior que rocha. Só com dinamite – concluiu o Horácio dez minutos depois. 11


– Vamos embora – pediu o Saturnino. – Tapamos tudo outra vez e amanhã à noite arranjamos maneira de abrir a porta. Pode haver um truque, uma alavanca. O Horácio concordou. Já não podia mais. Encobriram a escadaria com tábuas e entulho e às sete horas, quando chegou o primeiro trolha, tinham acabado o serviço. Estavam a suar, completamente extenuados. – Bom dia! – disse o trolha que chegou. – Onde é que vocês estavam? – Porquê? – disse o Saturnino. – É que já fui ver à barraca. O encarregado anda à vossa procura. – O encarregado? – espantou-se o Saturnino. – Porquê? – Porquê? Que rico guarda você me saiu. A obra foi assaltada. Ainda não viu? O Saturnino engoliu em seco. E ele que tinha ouvido o barulho dos assaltantes. – Onde é que vocês estavam? – gritou o encarregado assim que o viu. – Fui comprar tabaco – gaguejou o Saturnino. – E matar o bicho ao tasco, já estou a ver. Apanha-se uma bebedeira só com o seu hálito. Está despedido! Daqui a meia hora já não o quero ver aqui. Vá receber ao escritório e desapareça. Leve já as suas coisas. E passe para cá as chaves todas. O Saturnino enfiou a mão no bolso das calças e, em vez de tirar de lá o porta-chaves, tirou o olho de vidro que o Horácio trouxera do túmulo e, por brincadeira, lho enfiara no bolso sem ele dar conta. Certo de que a sua mão segurava a bolinha redonda do porta-chaves, pousou o olho na mão estendida do encarregado, que soltou um grito abafado e lançou o olho pelo ar. O olho de vidro rolou no chão entre as pernas dos trabalhadores, que se desviaram dele cuidadosamente. À primeira vista aquilo parecia mesmo um olho verdadeiro. – Que merda é esta? Você ainda por cima está a gozar comigo? – gritou o encarregado a abanar o Saturnino. 12


– Isso não é meu – disse ele. – Não sei como veio parar ao meu bolso. – Fui eu – acusou-se o Horácio a apanhar o olho, que voltou a guardar. – Foi para o assustar. Era uma brincadeira de Carnaval. – Ai tu estavas aqui também na brincadeira? – disse o encarregado. – Por isso é que ninguém viu os gatunos. Também estás despedido. – Mas eu ia pegar agora às sete. – Agora só pegas no Carnaval. Também podes ir andando. Os dois homens afastaram-se de cabeça baixa a resmungar e o encarregado voltou a ver as horas. Ao tempo que eram sete menos cinco no relógio dele. – Ó chefe, que horas tem? – perguntou um dos homens. – O meu relógio parou às sete menos cinco. – E o meu. – E o meu – E o meu. Os relógios estavam todos parados. E nalguns os ponteiros balançavam freneticamente para a frente e para trás, como os ponteiros das bússolas. – Mau! Aqui há coisa – disse o encarregado. E havia. Porque não eram só os relógios que se recusavam a trabalhar. Puseram-se a experimentar as máquinas e poucas funcionavam, e as que funcionavam, como uma lixadeira que foi ligada, pareciam ter enlouquecido. Foi preciso cortar a corrente para a fazer parar. – Aqui há merda! E da grossa! – disse o encarregado a olhar em volta e a cheirar o ar, como um cão que fareja um problema. – Parece que há electricidade no ar – disse um pedreiro magrinho de bigode. – São radiações – disse outro. Também havia os que se riam daquilo, muito divertidos, quando o encarregado não estava a olhar, mas mesmo esses começaram a preocupar-se quando a camioneta que estava parada, para 13


descarregar areia, começou a andar sozinha, sem condutor. A rua descia ligeiramente e a camioneta subiu-a sem condutor durante dois ou três metros e depois ficou a balançar como se estivesse a ser batida por ventos fortes. – Aqui há coisa – voltou o encarregado. – Mas o quê? – É electricidade no ar – voltou o pedreiro. – Cale-se com essa treta, homem! Vou chamar o patrão e até ele chegar ninguém se mexe nem toca em nada. Ouviram? O Saturnino e o Horácio já não assistiram a nada disto. Tinham chegado à Rotunda da Boavista e sentaram-se a descansar num banco de jardim. – E agora? – lamentou-se o Saturnino. – Tenho de voltar à minha barraca de lata nos Guindais. – Deixa lá – animou-o o amigo. – Logo à noite voltamos aqui e ainda apanhamos o resto das coisas. Depois, tapamos tudo outra vez e eles que o voltem a descobrir. – Era um emprego tão jeitoso – queixou-se o outro, inconsolável. – E foi por causa da porcaria do olho que fui despedido. O Horácio não estava de acordo. – Já tinhas sido, pá. E assim ao menos pregaste-lhe um susto. Viste o salto que ele deu? Anda, vamos beber qualquer coisa… – Só me apetece matar-te. É verdade, e se eu te matasse? O Horácio, quando ouviu aquilo, olhou para o amigo pelo canto do olho, desconfiado. Não era caso para tanto, mas havia cada maluco! Levantaram-se os dois e caminharam em silêncio. A primeira tasquinha a que chegaram ainda estava fechada. – Que horas são? – perguntou o Horácio. – Não sei – disse o Saturnino. – Mas o meu relógio começou a trabalhar outra vez. – E o meu também. É estranho, não é?

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PRESSENTIMENTOS

N

a manhã seguinte, não se falava de outra coisa na cidade. As muitas testemunhas garantiam que uma das bolas de fogo caíra no rio Douro, mesmo em frente à Ribeira, enquanto outra caíra na zona das Antas e a terceira, na zona da Boavista. Eram meteoritos, diziam uns. Sempre haviam caído meteoritos na Terra. Outros diziam que se tratava de pedaços do lixo espacial que circula em volta da Terra ou então de restos de satélites de comunicações desactivados. Podia ser, mas então por que razão não havia em toda a cidade uma única marca desses impactos? Alheia a tudo isso, a Joana acabara de tomar um longo banho com sais perfumados e preparava-se para um dia especial. E não sonhava sequer que o dia que se seguiria lhe iria proporcionar muito mais do que um encontro com o seu namorado. Secou-se e pôs-se em frente ao espelho, mas sentia-se feia. A pele estava baça, sem brilho, as pálpebras inchadas e até os cabelos, acabados de lavar com um champô especial, se enrodilhavam inexplicavelmente. E tudo isto acontecia logo no dia em que ela mais precisava de estar bonita. “E agora?”, pensou ela, a olhar para a sua imagem no espelho, enquanto tentava desenriçar os cabelos. E a roupa? Levava jeans e um top branco que lhe deixava parte da barriga à mostra? O vestido de alças? A t-shirt da “Donovan” com as calças largas 15

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