Issuu on Google+

«... Tudo nele e dele era velho, menos os olhos, que eram da cor do mar e ale‑ gres e não vencidos.» E. Hemingway, O Velho e o Mar


1

O Bruno estava desejoso de poder rever o avô, com quem morara, dos seis aos doze anos, antes de ir viver com o pai, em Paris. Havia chegado na véspera, com o pai, a madrasta e o irmão, e todos estavam hospedados em casa de um casal amigo, com o qual iriam, em breve, passar as férias de verão, no Algarve. Agora, finalmente a caminho do Lar da Felicidade, o Bruno sentia um misto de alegria e angústia. Na verdade, não con‑ seguia imaginar o avô, seu companheiro de sempre, a viver num lar para a terceira idade, longe de todos os que lhe eram queridos. Mas aquela era a realidade. Após a morte da avó Lucinda, o pai do Bruno não encontrara melhor alterna­tiva, já que Bento não aceitara ir viver com o filho, em França. Quando atravessaram o portão do lar, o Bruno sentiu o coração bater mais forte e uma tremenda vontade de chorar invadiu­‑lhe a alma. — Eu já não me lembro da cara do avô — comentou o Julien, em voz baixa. — Não faz mal — disse­‑lhe o pai. — Vais ver que ele se lembra de ti. 11


O Julien era fruto do casamento de Alfredo com a segunda mulher, Annette. Da última vez que viera visitar os avós paternos, tinha cinco anos, e agora, com oito, pouco se lem‑ brava do avô. Chegados ao primeiro andar, Alfredo e a família enca­ mi­nharam­‑se para o último quarto do corredor, que Bento partilhava com outro idoso. — Podemos entrar? — perguntou Alfredo, batendo na porta entreaberta. O Bruno, porém, entrou sem pedir licença e foi abraçar o avô, que estava sentado junto da janela. — Até que enfim! — exclamou Bento. — E aquele ali é o francesito? O Julien sorriu e deu um beijo ao avô. Depois, foi a vez de Alfredo e Annette, que já falava português fluentemente. — Como está, senhor Paiva? — perguntou a nora, esten­ dendo­‑lhe a mão. Bento sorriu e, com o olhar, chamou o neto mais velho, de quem tinha muitas saudades: — Puxa aquela cadeira e senta­‑te aqui com o velhote, rapaz! O Bruno assim fez, ainda extremamente comovido por se ver numa situação totalmente nova para ele. Neste momento, Julien não conteve o riso, apontando o velhote que ressonava. Vendo que o pai queria falar com o Bruno, Alfredo aproximou­‑se dele e anunciou: — Nós vamos lanchar qualquer coisa, pai. Não demora‑ mos. — Eu fico com o avô — avisou o Bruno, embora não fosse preciso. 12


— Vão, vão — disse Bento. — Eu quero saber das novi‑ dades aqui do meu neto. — Depois, vendo que poderia ter ofendido o pequeno Julien, corrigiu: — Do meu neto mais velho, bem entendido. Quando a família saiu, o Bruno voltou a abraçar o avô, desta feita, longamente, como se ainda o não tivesse cum‑ primentado. — Tu sabes que não me deixaram vir ao funeral da avó Lucinda... — Sei muito bem, rapaz, e não faças essa cara, que não é caso para isso. — O pai é que não quis que eu viesse... — Ora! Tens dezassete anos e ainda não percebeste que quando se está doente não se pode andar por aí a viajar?! Não pudeste, paciência. — E tu? Estás mesmo bem? — Então não vês que sim? Isto é um luxo, comparado com muitos outros sítios onde estive... Bento referia­‑se aos tempos em que estivera preso, por discordar do regime que vigorava no tempo de Salazar. — Têm­‑te tratado bem? — insistiu o Bruno. — Fazem o que podem. Não se pode dar juventude a um velho, não é? Que é que queres que eles façam? Mas vai­‑se andando. — E eles têm cá médico? — Vem aí um médico, de vez em quando, para passar receitas e mandar­‑nos tossir... — E é competente? — Ora! Os médicos são todos iguais, rapaz. Mas conta lá: como foi a tua vida este ano letivo? 13


— Nada de especial... — Nada de especial?! O teu pai disse­‑me que tiraste notas valentes! — Não acredito que ele tenha dito isso. O pai sempre tirou notas melhores do que as minhas e acha que eu só faço o que é normal. — Estás enganado, mas não adianta eu continuar com esta conversa, não é? O Bruno sorriu. — Exatamente. — Então e as garotas? — Hã? — As francesas, homem! — Ah, isso vai bem. — Quando cá vieste, no verão passado, andavas com uma miúda loira, não era? — Hum­‑hum... — Pelos vistos, já não andas... — Não, mas isso não interessa. Diz­‑me lá outra coisa: como é a comida, aqui? — A comida? Bem, é... olha, deixa­‑se comer. Eu também não sou esquisito. O Bruno pousou a mão no ombro do avô, lembrando os deliciosos petiscos da avó Lucinda. Sabia que o avô deveria estar a pensar na mesma coisa, mas preferiu não tocar no assunto. — E consegues dormir com aquele gajo a roncar como um motor? — E que é que isso tem? Todos os males fossem esses... O homem até é boa pessoa. Fala pouco, como o teu pai... 14


O Bruno deu uma volta pelo quarto e, quando regressou para junto do avô, voltou à carga: — Eu queria mesmo ter vindo, para estar contigo, quando a avó... — Eu sei, filho! Não precisas de te preocupar mais com isso. — E tu foste um casmurro! — Eu? — Porque é que não quiseste ir viver connosco, hein? — Ora! Parece que estás tolo! Então tu querias que eu fosse viver para França, rapaz?! Estás maluco! Eu nem uma palavra sei de francês! Não senhor! Era só o que faltava ir morrer numa terra estrangeira! — Mas quem é que falou em morrer! — Falei eu, agora mesmo. Olha, rapaz, não se fala mais nisso e ponto final. — E eras tu contra a ditadura... — brincou o neto. — Era e sou! E, se queres saber, não me importo de mor‑ rer aqui mesmo, que é um lugar tão bom como qualquer outro. Se bem que... — Se bem que...? — O que eu gostava mesmo era de voltar à minha terra, onde há mais de cinquenta anos que não ponho os pés. Mas isso é um capricho meu, não tem importância. Neste momento, apareceram os restantes membros da família. — Já puseram a conversa em dia? — quis saber Alfredo, com aquele ar pouco à vontade que o caracterizava quando via o pai junto do Bruno. — Não — retorquiu o filho. — Vocês não demoraram nada! 15


— Temos de ir andando — lembrou Annette. — Pois é — concordou o marido. — ­ Mas havemos de voltar, pai. — Quando é a partida para o Algarve? — inquiriu Bento, virando­‑se para o neto mais velho. — Só daqui a três ou quatro dias. Até lá, ainda te venho cá chatear uma data de vezes, fica descansado. Na viagem de regresso a casa dos amigos, o Bruno não se conteve e disse o que lhe ia na alma: — Não sei como é que meteste o avô numa porcaria daque­ las, pai! — O teu pai esforçou­‑se imenso para arranjar um lugar para o teu avô, Bruno — interveio Annette. — Não penses que foi fácil! — Faço ideia... — Estás a ser injusto — tornou a madrasta. — Injusto? Eu é que sou injusto?! — indignou­‑se o Bruno, perante o ar assustado do irmão. — Será que o meu pai não percebeu logo que aquela porcaria de lar, que ainda por cima tem um nome ridículo... — Ai agora é o nome?! — atalhou Alfredo. — O que te incomoda é o nome! Francamente... — Não, pai, não é o nome que me incomoda e tu sabes isso perfeitamente. O que me incomoda é saber que o meu avô tratou sempre de mim o melhor que podia e agora está enfiado num lar de velhos que tossem e ressonam o tempo todo! Achas que ele não merecia melhor?! — Estás a exceder­‑te, Bruno — avisou Annette, tentando evitar que aquela dolorosa discussão se prolongasse. — Claro! Eu é que estou a exceder­‑me — volveu o Bruno, fora de si. — Diz­‑me só uma coisa, se és capaz, pai: gostavas 16


que te metessem num sítio daqueles, gostavas? Vá, diz lá! Ou será que achas que tu, por seres um doutor, um professor universitário, mereces mais?! Alfredo resolveu controlar­‑se para que a conversa ficasse mesmo por ali. O que ouvira bastava­‑lhe, embora soubesse que o Bruno haveria de voltar a atacá­‑lo. Isso era certo. À noite, deitado na cama ao lado da do irmão, o Bruno não conseguia dormir. O que vira no lar transtornara­‑o. Na verdade, tinha exagerado um pouco ao falar com o pai, no regresso a casa de Carlos e Magda. Sabia que exagerara: o lar não lhe parecera uma espelunca, como fizera crer; no fundo, talvez até fosse dos melhores de Lisboa, con‑ forme Annette afiançara. Mas que importava isso, se o avô merecia uma vida bem melhor? Que diferença fazia que aquele lar fosse considerado «bom»? Os lares da terceira idade, por definição, nunca poderiam ser «bons»! E como seria possível que o avô Bento sobrevivesse numa situa‑ ção daquelas? Quem estaria lá para lhe dar uma palavra amiga, para o ouvir, para o levar a dar um passeio, de vez em quando? Fechou os olhos para não pensar mais. Estava exausto. A discussão com o pai deixara­‑o de rastos, mas, pior do que isso tinha sido ver o avô tão só, tão injustamente só, numa casa que não era casa. Não era nada.

17


a viagem do bruno