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Chegou a casa cansada, mas feliz. A tarde, no centro paroquial, tinha sido proveitosa. A dona Marinela faltara, portanto coubera a Sara a tarefa de se ocupar também da sala de estudo com os miúdos da primária, tendo-se seguido a sessão de catequese. No fim, tivera ainda de levar um dos mais novos a casa, de autocarro, uma vez que lhe parecera adoentado. Encontrou o irmão gémeo, Simão Pedro, deitado no tapete da sala, de olhos fechados e headphones colados aos ouvidos. Aproximou-se e abanou-o suavemente: — Simão... O irmão abriu os olhos e libertou uma orelha: — Que horas são? — Sete e meia. — Já?! — Hum-hum. Levanta-te, que o pai deve estar a chegar. — Tenho a cabeça a rebentar! Fartei-me de marrar mate‑ mática. Acho que fiquei com uma infeção no cérebro... Vou tomar uma aspirina ou duas, a ver se isto passa. Ainda tenho uma data de exercícios para fazer logo à noite. Que seca! 11


Sara sorriu. Depois, foi ter com a mãe ao atelier, uma divisão ao fundo do corredor, onde Maria Emília se entre­ tinha a fazer restauros em velharias que pretendia recuperar para vender na sua loja ou para oferecer. A filha encontrou‑ -a, desta feita, de roda de um abat-jour que devia ter andado na guerra... — Boa tarde, mãe. Isso ainda tem alguma hipótese de arranjo?! — Tudo se pode arranjar — e consultou o relógio. — Já é tardíssimo. O pai deve estar a chegar. E eu que me esqueci de pôr a carne a descongelar... Bem, faz-se outra coisa. — Se quiseres, eu dou uma ajuda, mas tu já sabes como eu sou na cozinha... Depois, chovem reclamações dos manos... — Não é preciso. Olha, entrou alguém. Vai ver se é o pai. — Não — respondeu Sara, do corredor. — É o Sal­ vador. — Olá, miúda — cumprimentou-a o irmão mais velho. — Então, já vieste das tuas missas? Rezaste por mim? Ela não ligou ao sarcasmo. O Salvador era assim mesmo, mas, ao contrário do pai, tinha a virtude de não gozar com ela em frente de estranhos. — Jantas em casa? — Não. Vou sair com a Carla. Preciso de ir trocar de camisa. Espero que a Conceição me tenha passado a azul. — Coitada da Conceição... Não vês que já está velhota? Às vezes, esquece-se, é normal. — Pronto, já cá faltava a santa protetora dos des­gra­ çados! — A Conceição não é desgraçada, Salvador. 12


Mas o irmão já não a ouviu, desabotoando-se enquanto entrava no quarto. Logo a seguir, tocaram à porta. Era o mais novo da família, que vinha com um amigo tão mal‑ -encarado que era preferível que o pai não o visse... — Olá, Sebastião. — A mãe? — Está na cozinha. E ele avisou do hall: — Mãe, o Castro janta cá. Depois, seguiu para o quarto com o amigo, sem sequer o apresentar. Quando o telefone tocou, Sara, entretida como estava a procurar na sua estante livros para emprestar às crian‑ ças do centro, não foi atender, o que lhe valeu os maus modos do Sebastião: — Julgas que eu sou teu criado ou quê?! É para ti! — E es­tendeu-lhe o portátil, acrescentando em voz alta: — Que falta de pachorra! Sara pegou prontamente no telefone, embaraçada com a grosseria do Sebastião. — Quem fala? Felizmente era a Lena! Suspirou de alívio. — Não, era o Sebastião. Desculpa lá, mas acho que ele está chateado com qualquer coisa... Sim? Ótimo! Ficaram boas?... Claro, tu és o génio da fotografia!... Está bem... Olha, Lena, queria pedir-te um favor... Não, não é assim tão grande!... Quê? Não. Era se tu podias ir fotografar os miúdos que vão fazer a primeira comunhão... Pois, aqueles a quem dou catequese. Não, ainda falta algum tempo, mas queria pedir-te já, que é para ver se posso contar contigo... 13


Pode ser?... Obrigada, Lena, és um anjo... Está bem... Que ideia! Claro que não precisas de ir vestida com nada de especial! Não é propriamente uma festa chique... Pronto, então depois digo-te o dia e a hora... Claro que quero ver as fotografias da nossa turma! Amanhã? Acho que não vai dar. Fica para segunda, pode ser?... Vou ter de desligar, Lena, o meu pai está a entrar em casa. Tenho de ir jantar... Para ti também. Adeus. — Então, rapariga, já chegaste das rezas? — Já, pai. — E deu-lhe um beijo. — Não se janta nesta casa? — A mãe está na cozinha. O jantar deve estar quase pronto. — E os teus irmãos? — O Salvador saiu. Os outros estão no quarto. O Sebas‑ tião trouxe um amigo simpático para jantar connosco. — Maria Emília! — chamou. — Estou com fome! E a mulher lá apareceu na sala, com uma travessa nas mãos. — Sara, vai chamar os teus irmãos. E põe-me qualquer coisa a prender esse cabelão, filha! Nem se vê a tua cara! Enquanto Sara foi chamar os rapazes, o pai, sentando-se à mesa, comentou para a mãe: — Estás sempre a implicar com a miúda por causa do cabelo, Maria Emília! Que coisa! Que é que tu querias? Que fizesse um daqueles cortes estapafúrdios como aquela amiga dela, a Helena ou lá como se chama a rapariga? Deixa-a lá, que diabo! E, depois, ela tem um cabelo tão bonito! Para quê cortá-lo, hã? Para quê? — Ora, Adolfo, eu sei muito bem que a Sarinha tem um cabelo lindíssimo e sei também que te faz lembrar a tua mãe, mas aquilo já é desleixo, francamente! A Sara não tem 14


cuidado nenhum com ela! E já tem dezassete anos, Adolfo! Quase dezoito! Não é normal! Sempre podia arranjar-se melhor, ser mais feminina! — Feminina? Ela tem três irmãos rapazes, Maria Emília. De qualquer forma, acho-a suficientemente feminina. — Sempre de calças e botifarras! Os filhos entraram na sala de jantar, e a mãe dirigiu-se para a cozinha, de onde faltava trazer a água e o vinho. — Este é o Castro, pai — disse o mais novo, apontando para o amigo. — Pois então senta-te à mesa, rapaz, que eu já não como há quinhentas horas. O serviço no hospital está de doidos! O Castro lá se sentou entre o Sebastião e a Sara, ajei‑ tou o cabelo e colocou o guardanapo de linho no colo, ten­tando pare­­cer civilizado. O pior eram os brincos, o estam­pado da sweat-shirt e as olheiras fundas a denunciar vida pouco saudável. — O esparguete está ótimo, mãe — elogiou a Sara, pedindo mentalmente a Deus que o pai não fizesse obser‑ vações desagradáveis ao amigo do Sebastião. — Por acaso, está — concordou o Castro, entre duas garfadas pesadas de mais. — Por acaso, não, rapaz! A minha mulher é que é uma cozinheira exímia! — Pois, foi isso que eu quis dizer — desculpou-se o que estava na berlinda. — O Castro é uma nódoa em português — explicou o Sebastião com um sorriso. — Afinal aonde é que se meteu o Salvador? — quis saber o chefe de família. 15


— Foi jantar fora com aquela rapariga... — disse a mulher. — Hã? — Com a Carla, pai — atalhou a Sara. — Com a namo‑ rada dele. — Namorada... Pfff! — volveu Maria Emília com cara de poucos amigos. — Que é que tem? — intrometeu-se o Simão. — Não percebo porque é que a mãe desatina com a Carla. Que mal é que ela lhe fez? — Olha lá! Isso são maneiras de falares com a tua mãe?! — exclamou o pai. — Desculpa. Eu só queria perceber porque é que a mãe não a grama! Eu acho que a Carla é uma miúda espetacular. — Tu achas toda a gente espetacular, Simão Pedro — retorquiu a mãe com um sorriso crítico. — Vocês têm a mania de que tudo é espetacular! Ou então não têm vocabulário! — É isso mesmo — anuiu o mais novo com ar de troça. — Vocabulário não é o nosso forte. Aqui o Castro vê-se à rasca com Os Lusíadas, e eu percebo-o perfeitamente, porque aquilo é chinês. Não vejo porque é que a gente tem de andar a marrar tretas que não servem para nada, só se for por causa do vocabulário... — És um ignorante, rapaz! — comentou o pai. — Nem sei se ria ou se chore! Então, no teu douto parecer, estuda‑ -se Os Lusíadas para alargar o vocabulário?! — Não vejo outro motivo — continuou o mais novo, rindo-se para o amigo. — E tu, Sara, ou tu, Simão? Nenhum de vocês é capaz de responder a este cábula? 16


Claro que seriam capazes. Eram alunos razoáveis e já an‑ davam no 12.o, mas nunca colocariam o irmão em cheque. — Ó filho — atalhou então a mãe —, o vocabulário é importante, mas Os Lusíadas são a alma da literatura por‑ tuguesa, a maior obra escrita na nossa língua! — Nossa? — estranhou o Sebastião. — Na tua talvez. Na minha não. De certeza. — Camões viveu no século dezasseis — lembrou a Sara, cuja especialidade também não era a literatura. — Não é fácil ler o que ele escreveu. — Ler até leio — adiantou o Sebastião. — O pior é per­ ceber o que lá está. Ainda por cima em verso! — Estuda! — replicou o pai. — Vai ao dicionário! Con‑ sulta a enciclopédia! Pega na História da Literatura! Pede ao professor que te explique! Não é nada do outro mundo, que diabo! Mas o Sebastião achava que era. De um mundo que em nada tinha a ver com o seu presente ou do que projetava para o seu futuro. E murmurou para o amigo: — Desculpa lá esta seca, Castro. O meu pai está ca­ quético. — E tu, Maria Emília? Já acabaste o teu trabalho de restauro no crucifixo? — Ainda não. Está a dar uma trabalheira! Mas vai ficar bonito. — A minha mulher faz maravilhas em arte sacra — explicou o dono da casa ao amigo do filho, que nunca tinha ouvido falar de tal coisa, mas sorriu aparvalhado. — Eu já vi e acho que vai ficar como novo — observou a Sara, preparando-se para colocar os pratos de sobremesa. 17


— Aposto que gostavas que a mãe to desse para levares lá para a igreja — brincou o pai. — A tua família é bué escanifobética, Sebastião — segredou o Castro virando-se para o amigo. — É. Mas eu não ligo. Já ’tou habituado. No fim do jantar, o Sebastião retirou-se estrategicamente para o quarto e levou o amigo, para mudar de ambiente. — A tua irmã é muita gira, meu — disse finalmente o Castro. — Até me admirava que não dissesses nada! Toda a gente diz isso. Eu cá não acho. Para mim é banal. — Banal?! Tu ainda tens menos vocabulário do que eu! Havias de ver a minha irmã! A tua tem olhos verdes, é ruiva, cabelo muita louco, alta... — Fica por aí, Castro, antes que eu me chateie e te vá à tromba. — Okay, okay, já cá não ’tá quem falou. Não era para ofender. — ’Tá bem. A Sara tem lá as manias dela, um bocado esquisitas, diga-se de passagem, mas é uma irmã muito fixe. Nunca chiba ninguém e, às vezes, ajuda-me com os trabalhos de casa. É cool. — Ganda sorte! A minha irmã é estúpida que nem uma galinha. O único neurónio que lhe resta sente-se tão só que deve estar quase a morrer... Já chumbou duas vezes e, ainda por cima, tem a mania que é boa! Tss... — E acendeu um cigarro. O Sebastião riu-se, colocando um CD na aparelhagem. — Deve haver imensos gajos atrás dela, não? — con‑ tinuou o Castro, sem conseguir largar a imagem que lhe ficara da irmã do amigo. 18


— Acho que sim, mas a Sara não liga. Ela deve ter a mania que é superior ou qualquer coisa do género. Olha aí a cinza, pá. A minha mãe não quer buracos na alcatifa... — Mas nunca andou com ninguém?! — Hã? — A tua irmã... — Sei lá. Acho que sim. Lembro-me de um tipo que andou com ela há uns anos, quando a Sara andava no bás‑ quete. Eu era muito puto nessa altura, devia ter pr’aí doze. — Ah... E nunca mais?... — Que cena, Castro! Que é que tu queres? Se estás a pensar que consegues alguma coisa com ela, esquece. Pra começar és muita mais novo e depois ela é... especial. — Obrigadinho, Sebastião. É um consolo ouvir-te... Fica-se logo animado... — Eu só fui sincero, pá. A Sara é diferente de todas as miúdas que tu conheces, Castro. Não tem nada a ver. Não é só por ser mais velha, meu. Ninguém a compreende muito bem, a não ser o Simão, claro. — Por ser gémeo dela? — Talvez. Eles nem precisam de falar, percebes? É como se fizessem telepatia ou uma cena dessas. Nunca entendi, mas não me faz confusão. — A mim lixam-me essas tretas de telepatias e outras coi‑ sas do género. Não acredito nisso, pá. Só se for no circo... — Mas é verdade! A Sara e o Simão sempre se comuni‑ caram de uma maneira diferente de todos nós cá em casa, apesar de nem sequer serem parecidos um com o outro, até porque o Simão é um gajo marrão e a Sara o que curte mais é desenho e pintura. Só costuma estudar quando tem testes. 19


— Mas como é que é isso de comunicarem por telepatia ou lá o que é? — Não sei, pá. É só a minha opinião. Nunca lhes disse isto, senão riam-se na minha cara. Mas a verdade é que eles não falam muito e percebem sempre o que o outro está a pensar. Às vezes, até o meu pai fica confuso quando está com eles. O Simão está sempre a defender a Sara... — E ela? — Ela está sempre a defender toda a gente, até mete raiva. — Vai para Direito? — Não! Acho que quer ser arquiteta ou pintora ou uma cena dessas. Ela não fala muito disso, aliás, não fala muito de nada. O meu pai está sempre a dizer que ela é de poucas falas e que só se dá com estranhos. E é a queridinha dele, claro... Só que nem com ele a Sara abre o jogo. A verdade é que o meu pai goza por ela trabalhar como voluntária na paróquia. Ele não é religioso e acho que nem acredita em Deus, por isso enerva-se quando ela chega toda entusiasmada com as coisas que os putos lá da catequese fazem e coisas assim... Acho que ele não percebe (e eu também não) porque é que ela anda a perder tempo naquelas cenas. Todas as tardes ela vai lá ao centro! A minha mãe passa a vida a mandar vir com ela por causa disso e porque ela não gosta de vestidos e penteados e essas tretas que as miúdas curtem. Ninguém cá em casa percebe, acho que nem mesmo o Simão. De resto, a Sara quase não abre a boca. Desenha muito e lê que se farta! — Que tipo de livros? — Sei lá! Uns calhamaços velhos a caírem de podres, que a minha avó lhe deu. Acho que são espanhóis. A mãe da minha avó era espanhola. 20


— Isso é realmente um bocado marado. — Os livros? — Tudo. — Era o que eu te dizia. — Só que deves ter exagerado, para variar... — Então acredita no que quiseres, Castro. Não tenho pachorra para te explicar mais. — Nem pachorra nem vocabulário... Riram-se. No seu quarto, a Sara retomava agora a seleção dos livros que pretendia oferecer à biblioteca do centro paroquial. Depois, haveria de pesquisar, pela enésima vez, o guarda‑ -fatos, para ver se encontrava mais alguma peça que já não lhe servisse. Havia muitos que precisavam, e ela tinha tanta tralha! Tanta coisa a mais que a mãe lhe impingia...

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A sara mudou de visual  
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