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CAPÍTULO 1 O autocarro da escola, todo lavadinho de fresco, reluzente que nem um espelho, parou junto à estação dos caminhos de ferro com um chiar dos travões e um ligeiro cheiro a borracha quei­mada. Não que o problema fosse imputável ao autocarro, que ainda só tinha um ano. Devia­‑se, sobretudo, ao entusiasmo de Manfred na condução e «testagem para que tudo funcione antes de deixarmos entrar os alunos». Como explicou Manfred aos dois passageiros, só era possível testar devidamente o motor fazendo­­‑o acelerar bastante e carregando depois a fundo nos travões. — Mas isso não é um pouco perigoso? — perguntou Stephanie, olhando para o alto edifício de tijolo da estação. — Quero dizer, e se descobre que afinal os travões não funcionam, precisamente quando vai a 100 km por hora contra uma parede de tijolo? Manfred sorriu com o seu ar muito superior. — Nesse caso, damos graças a Deus por não termos crianças a bordo — retorquiu. E parecia que não havia mais nada a dizer. Por acaso, o autocarro parou (mesmo) antes da parede de tijolo e assim a King Arthur’s English Academy foi poupada a ter de encontrar um novo motorista e substituir dois professores logo no início do trimestre. Brandon Leddan (Desportos e Lazer) e Stephanie Harvey ­(Línguas) apearam­‑se do autocarro, muito aliviados por terem sobrevivido à viagem, e saudaram Fred, o chefe da estação. — Cinco minutos. — Fred esboçou um sorriso, consultando o reló­gio. — E depois acabaram­‑se­‑lhes as férias. — Só espero que a Letty tenha conseguido apanhar o comboio em Londres e os tenha impedido de se baralharem todos — co­men­ tou Stephanie.


10 a minha escola é muito louca! — Se queria que eles chegassem aqui calmos e compostos, devia era desejar que ela perdesse novamente o comboio este ano — disse Fred, com um sorriso de sarcasmo. Letty Domingo (Artes e Drama) não era conhecida pela sua pontualidade ou a sua capacidade de controlar grupos de alunos. Mas tinha um sorriso maravilhoso, um ar arrebatador e era uma artista de certo renome. Charles Asquith, o diretor, contratara­‑a na esperança de que, algures no percurso, ela pudesse também aprender a lecionar. Quando o comboio entrou na estação de Morton Gipping, Fred ergueu­‑se em toda a sua altura e endireitou o boné. Muito poucas pessoas vinham a Morton Gipping de comboio, a não ser o pessoal do colégio; fora um verão muito morto. Agora ansiava pelo tráfego constante de alunos que iam e vinham da estação, e queria começar por marcar posição e certificar­‑se de que todos ficavam com a impressão de que ele não era para brincadeiras. Lá porque vinham de famílias ricas e famosas, isso não significava que Frederick Arthur Potter fosse homem para sofrer desconsiderações. Stephanie e Brandon trocaram olhares nervosos. — Vamos a isto — disse Stephanie. As portas do comboio abriram­‑se e, conversando e tagarelando, um conjunto de corpos vestidos com casacos às riscas azuis e pretas foi depositado na gare da estação. Vinham cerca de cinquenta neste comboio, estando previstos mais três comboios naquele dia e outros quatro na manhã seguinte. Nem sinal de Letty, que prometera fielmente vir no primeiro comboio e dar uma mãozinha na instalação da rapaziada. Nenhum dos outros professores chegaria senão à noitinha. — Ora bem — anunciou Brandon. — Os novos alunos aqui ao pé de mim, por favor. Todos os demais rapidamente para dentro do autocarro. Obrigado.


capítulo 1 11 Os já familiarizados com a rotina empurraram­‑se e acotovelaram­ ‑se até ao parque de estacionamento, onde trocaram afetuosos insultos com Manfred, que, para além de guarda do colégio, acumulava as funções de motorista. (Ministrava também um pequeno curso de manutenção de motorizadas aos sábados de manhã, em troca da serventia de uma das garagens onde ele e alguns alunos do 11.o ano estavam a «reconstruir» um velho Bentley.) Quando passaram pela saída da estação, Stephanie levou a reboque os novos alunos que tinham compreendido mal as instruções e seguido o grupo. Charles Asquith, o diretor da King Arthur’s, tinha muito orgu­ lho em Stephanie, que fora a primeira professora a contratar. Não só era extraordinariamente atraente (o que constituía uma condição fundamental quando se tratava de nomear professores para a King Arthur’s), como falava seis línguas e era também extremamente organizada. Além disso, era mesmo boa profes­sora. Charles nem quisera acreditar na sua sorte. Uma professora como Stephanie podia trabalhar em qualquer sítio, mas ela escolhera a tranquilidade e o isolamento, pois tencionava escrever um romance no seu tempo livre. Pelo menos fora o que dissera ao painel da entrevista. Charles desconfiava que havia outro motivo, especialmente porque do romance nem sinal. Mas em cinco anos nunca chegara a apurar o que poderia ser. Calmamente, Stephanie indicou aos alunos onde se deveriam juntar, o que estava a acontecer, quem ela era, etc., em qualquer língua que fosse entendida. Seguidamente, foi ajudar Brandon a identificá­‑los, e a marcar uma pica na lista. Brandon estava profundamente absorto numa tentativa de conversa com uma rapariga chinesa sorridente. — Como te chamas? — perguntou ele, falando muito devagar. A rapariga sorriu. Stephanie repetiu a pergunta, em francês. Depois tentou em espanhol, português, alemão e holandês.


12 a minha escola é muito louca! O sorriso da rapariga pareceu vacilar e depois voltou. Aguar­ dou pacientemente que dissessem algo que ela pudesse compreender. — Lamento, já não sei mais línguas — disse Stephanie a Brandon. — É suposto eles passarem num teste de inglês básico, não é? — protestou Brandon. — Apenas se o Lorde Lunático não estiver muito interessado em que frequentem o seu colégio — respondeu Stephanie, referindo­­ ‑se ao diretor pelo habitual título carinhoso que os professores lhe davam. — Os pais dela devem ter um peso considerável. Brandon observou a lista. — Ela tem de ser uma destas duas pessoas — disse. — Repara, estão aqui os nomes chineses. — Chen See Lee? — perguntou Stephanie. A rapariga sorriu e anuiu. — Que bom. Tinha de ser esse ou Han Pwee Lah. A rapariga sorriu e anuiu. — Ah. Certo. Então és a Han Pwee Lah? — confirmou Brandon. A rapariga anuiu e fez uma ligeira vénia. — Ou és a Chen See Lee? — perguntou Stephanie, subitamente desconfiada. A rapariga anuiu e voltou a fazer uma ligeira vénia. O sorriso começava a irritar Brandon. Olhou para o bloco onde tinha a lista de admissões. O seu olhar captou a coluna nada­dor/não nadador. Todos os pais eram inquiridos a este respeito, já que o colégio se situava próximo do rio e os que não sabiam nadar tinham prioridade nas aulas de natação durante as primeiras semanas. Chen See Lee sabia nadar, mas Han Pwee Lah não sabia. Resolvido o problema, pensou Brandon, com ar satisfeito. — Sabes nadar? — perguntou. Apontou para a rapariga e executou o movimento de bruços com os braços. Teve, sem dúvida, o efeito de apagar o sorriso do rosto da ­chinesita. Inclinou a cabeça para um lado e fitou­‑o, curiosa. Brandon


capítulo 1 13 não se deixou intimidar. Mudou o movimento para o crawl frontal, com os braços esticados a cortar a água imaginária e movendo a cabeça de um lado para o outro, respirando em breves intervalos. A rapariga recuou um passo e olhou nervosamente para o comboio atrás de si, que se preparava para partir. — Oh, por amor de Deus — disse Brandon, com a sua pa­ciência já esgotada, como sempre. — Sim, bem podes estar ­preocupada. Volta para o comboio, menina. Apanha um barco lento que te leve de volta à China e far­‑nos­‑ás a todos um favor. — Ora bem, vamos lá a ver se a gente se entende... — disse uma voz. Brandon voltou­‑se e viu uma das raparigas novas com um monte de caracóis escuros em desalinho e uma expressão muito séria. Acenou à rapariga chinesa e apontou para si. — Annie — disse. — Olá. A rapariga retribuiu o aceno, apontou para si e disse algo que ninguém conseguiu compreender. Annie procurou no bolso do casaco um envelope onde estava escrito o seu nome e morada. Lá dentro vinham os pormenores que o colégio lhe enviara, com as normas para o primeiro dia do trimestre. Entregou o envelope à rapariga, que pegou nele e olhou para o nome no exterior. Depois a rapariga tirou do seu próprio bolso um envelope idêntico e estendeu­‑o a Annie. Com um sorriso vitorioso, Annie entregou o envelope a Brandon. — Chama­‑se Sonja Tapone. Vem da Finlândia. — Finlandesa! — Brandon pegou na sua lista. — Sim. Cá está. Também não sabe nadar. Finlandesa! Quem diria... muito bem. És uma rapariga inteligente. Annie sorriu com ar malicioso. — Na minha pequena e in­signi­ ficante escola em Bradford — respondeu com mordacidade —, antes de o meu pai ganhar a lotaria e decidir que eu precisava de aprender a falar corretamente e a melhorar as minhas maneiras, ensinaram­‑nos que não devíamos presumir as coisas. Ensinaram­‑nos


14 a minha escola é muito louca! a não fazer juízos olhando apenas para as pes­soas. Mas isso era em Bradford. Calculo que não soubéssemos fazer melhor, hein? Sorriu e deu o braço a Sonja. — Eu acompanho­‑a ao autocarro, está bem? E pode marcar a pica em mim, e isso. Annie Tompkin. Pronto, vem comigo, miúda. — Conduziu Sonja até ao autocarro. — Isto é o que eu chamo Desenrascanço com «D» maiúsculo — comentou Brandon. — Esta rapariga é cá das minhas. — Stephanie soltou uma gargalhada e deu­‑lhe uma palmadinha no braço. — Pronto, pronto, Brandon. Já estava na altura de alguém te dar uma lição. Ela está coberta de razão, tu és presunçoso, quando não devias. Brandon resmungou e voltou à marcação de picas nos nomes. Por fim, estava toda a gente no autocarro e Stephanie fez sinal a Manfred que estava na hora de partir. Annie e Sonja estavam já a tentar estabelecer uma conversa através de linguagem por gestos e o auxílio de um pequeno bloco de apontamentos. — Posso juntar­‑me a vocês? Annie levantou os olhos do bloco e viu uma rapariga alta, de ar gracioso mais ou menos da mesma idade, que a olhava com um sorriso tímido. — Claro. Sou a Annie e esta é a Sonja. — Sim, eu sei. Ouvi­‑te enquanto falavas com o professor. Sou a Carin Kemp. Carin disse algo a Sonja numa língua impenetrável, e logo a rapariga se animou bastante e começou a soltar uma torrente de palavras estranhas e gestos complicados com as mãos. — Também és finlandesa? — indagou Annie. — Não, inglesa. Mas vivemos na Suécia até eu fazer dez anos. A minha mãe é sueca, o meu pai era lá embaixador. Os Finlan­deses e os Suecos compreendem­‑se muito bem. Na verdade, muitos finlandeses falam sueco.


capítulo 1 15 — O que estava a Sonja a dizer? — perguntou Annie. Carin riu. — Está muito aborrecida com o homem desconhecido que a abordou na gare. Ele não se apresentou e ela recebeu recomendações dos pais para não falar com estranhos. Depois, como ela não respondeu, ele tratou­‑a como uma idiota que não percebia nada. — Não creio que o fizesse por mal — disse Annie. — Viu que ela não falava inglês e estava a tentar saber quem era. Ele ficou um pouco descontrolado, nada mais. Sonja voltou a falar. Carin escutou com atenção, depois soltou uma gargalhada e olhou para Annie. — O que foi que ela disse agora? — inquiriu Annie. — Esta conversa a três está a tornar­‑se extremamente frustrante. — Concordo — pronunciou Sonja subitamente, num inglês quase perfeito. — Portanto, vou explicar. Não suporto nada pessoas que pensam que sabem coisas a meu respeito quando não sabem. Ele pensou que eu não falava uma palavra de inglês e que eu era chinesa. Se ele tivesse sido educado, eu tê­‑lo­‑ia corrigido em ambas as questões. Mas ele foi grosseiríssimo. Carin riu. — Os Finlandeses são pessoas muito educadas, sabes, Annie. A pobre Sonja irá ver que os modos ingleses são um pouco complicados, hein? Annie esboçou uma careta. — Sim. Bem, lamento também ter pre­su­mido que tu não falavas inglês, fui atrás do Cara de His­té­rico na gare três. Vamos recomeçar, desta vez sem nos exprimirmos por gestos? Sou Annie Tompkin. Uma miúda do Yorkshire, apesar de saber falar a língua completamente diferente do Sul do país quando me apetece. Tudo bem? Annie estendeu a mão e Sonja apertou­‑lha com um grande sorriso. — Tudo bem? — disse imitando tão bem a pronúncia de Annie que tanto esta como Carin se riram com gosto. — Sou Sonja Tapone, de Helsínquia, na Finlândia.


16 a minha escola é muito louca! Annie recostou­‑se no seu banco e suspirou de alívio. — É fixe fazer amigas com tanta facilidade. Estava com um certo receio de que fossem todos uns emproados... — Emproado não consta do meu vocabulário — referiu Sonja. — Por favor, explica. Carin disse­‑lhe, em sueco, que emproado significava snobe. — Não temos snobes na Finlândia — respondeu Sonja afetadamente. — Há muito que se mudaram todos para a Suécia. Ela e Carin começaram a rir. Annie acabaria por descobrir que os Finlandeses e os Suecos são um pouco como as gentes do Yorkshire e do Lancashire — sempre prontas a insultarem­‑se, mas, principalmente, levando o caso para a brincadeira. O resto da viagem passou­‑se em animada sessão de perguntas e respostas entre as três raparigas. Quando chegaram ao colégio já sabiam bastante sobre as respetivas famílias e preferências e aversões, e todas prometeram que andariam juntas sempre que possível. Nunca pensei que fosse fazer amigas tão rapidamente, pensou Annie. E são pessoas normais que gostam de se divertir, como eu. Annie sempre fizera amizades facilmente, mas preocupava­‑a que pudesse revelar­‑se muito diferente do tipo normal de aluno da King Arthur’s. Como se não bastassem as saudades que iria sentir de casa, não ter com quem falar seria algo insuportável para alguém como Annie. Naquele momento, Sonja fez eco dos pensamentos de Annie. Sorriu às outras duas raparigas e disse baixinho: — Foi um alívio encontrar ingleses que não são frios e formais, como a minha mãe me avisara. Estou muito satisfeita por nos termos conhecido. — Claro que eu só sou meio inglesa — respondeu Carin. — Mas percebo­‑te. Estava apavorada com o primeiro dia. A gente sente­‑se deslocada, não é? Tenho mudado imenso de colégios, mas nem por isso é mais fácil.


capítulo 1 17 O autocarro parou em frente ao edifício do colégio. Construído como a residência do Lorde Almirante no século xvii, o edifício principal do colégio parecia saído de um livro de histórias, sem faltarem os torreões, as torres e as janelas com caixilhos de chumbo que refletiam a luz do Sol da tarde. De pé na imponente escadaria de pedra, ladeada por grifos em cada balaustrada, encontrava­­‑se um homem envergando um fato de três peças muito caro e uma bela mulher com um ar um pouco excêntrico e uma túnica comprida em tons de azul e roxo. Os dois estavam de mão dada. Annie observou­‑os pela janela do autocarro. — Que estranho casal — comentou. — Mas quem serão? Carin inclinou­‑se sobre o ombro dela. — Bem, a mulher de azul é Petal Butterkiss, a famosa estrela de cinema. Reconhecê­‑la­­‑ia em qualquer lado. Deves ter visto alguns filmes dela, hoje passam­‑nos aos sábados à tarde, na televisão. Na sua época foi realmente famosa. O meu pai ainda tem cartazes dela no seu escritório. E o homem que está com ela deve ser o diretor, Mr. Asquith. Ela abandonou a carreira artística para casar com ele, não imagino porquê. Ele tem um ar tão... normal. — Talvez seja precisamente a sua normalidade que a atrai — comentou Sonja. — Parece­‑me simpático e bom. A única coisa que não gosto nele é do fato. Demasiado elegante. Um diretor deve usar calças largas e casaco com cotoveleiras. Se não como é que nos vai convencer de que o mais importante é o ensino? Quando desceram do autocarro, os novos alunos foram agrupados para serem apresentados ao diretor. Este avançou para eles com um sorriso largo e genuíno. — Bem­‑vindos, bem­‑vindos à King Arthur’s English Academy — disse. — Terei muito prazer em cumprimentá­‑los pessoalmente daqui a pouco. Mas sei que muitos de vós fizeram uma longa viagem e desejam tomar algo. O lanche será servido na sala de jantar, Miss Harvey indicar­­‑vos-á o caminho. Ver­‑nos­‑emos de novo às cinco horas e explicar­‑vos­‑ei o que a King Arthur’s tem para vos oferecer.


A minha escola é muito louca