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Livros do Dia e da Noite


Ă?ndice

A lebre e o raminho de salsa ........................... 9 A poesia nĂŁo ĂŠ para borboletas ...................... 17 As moscas ..................................................... 25 A Lebre e a Tartaruga ................................... 33 Bird .............................................................. 43 Prenda de anos ............................................. 53 O crocodilo .................................................. 69 Uma estranha no bosque .............................. 83 7


A lebre e o raminho de salsa

Júlia e a mãe viviam num bosque, numa pequena casa de madeira, escondida por entre as árvores e os arbustos. Era o fim da tarde quando a mãe chamou Júlia. — Júlia, faz-me um favor e vai pedir à vizinha um raminho de salsa. Fresco. E se tiver coentros não digas que não. Cheiram bem e dão sabor. Júlia embrenhou-se pelo bosque. Caminhava devagarinho ouvindo as folhas das árvores estalar por debaixo dos seus pés. Tinha chegado na véspera e não vira ninguém nem casa alguma. 9


Uma lebre passou a tão grande velocidade que Júlia rodopiou e quase se desequilibrou. Viu-a entrar numa toca. “Vou lá ver se tem salsa.” E apressou o passo. Quando chegou, começou a chamar: — Dona lebre! Dona lebre! A lebre apareceu com as orelhas espetadas e cara de poucos amigos. — Boa tarde — cumprimentou Júlia delicadamente. — Chamo-me Júlia, a minha mãe manda perguntar se faz o favor de lhe emprestar um raminho de salsa, não precisa de ser muito grande, apenas fresco, e se tiver coentros também pode ser, a minha mãe diz que cheiram bem e dão sabor — continuou ela sem sequer parar para tomar fôlego. — Ai queres salsa? — guinchou a lebre. — Sim. E coentros, se faz favor. — Ai também queres coentros? — Sim. Se faz favor. Acabámos de chegar e ainda não temos tudo o que precisamos. Somos as novas vizinhas. Viemos morar aqui para o bosque, chegámos ontem. — E queres salsa e coentros, heim? E se calhar uma lebre para acompanhar a salsa e os coentros, não? Aqui eu, por exemplo. 10


E sem esperar resposta desatou aos gritos: — Socorro! Socorro! Inimigo à vista, mesmo à minha frente! Ajudem-me! Querem-me comer! Socorro! Dois patos, um porco, uma perdiz, um gato, uma cabra e uma galinha apareceram a toda a pressa. — Que foi, dona lebre? — É esta miúda. Veio pedir-me salsa. — Salsa!!! — Pois! Quer-me comer! Os animais deram gritos de horror e repúdio. Júlia protestou: — Não quero comer ninguém. A salsa é para deitar nos cogumelos e nos nabos. Eu e a minha mãe somos vegetarianas. — O que é isso? — quis saber a lebre. — Quer dizer que não comemos animais. — Não comem animais?! Olha! Não comem animais. Novas exclamações. A lebre voltou a falar: — E o que há de errado connosco? — São tóx… tóx… tóxicos. 11


— Somos o quê? — A carne tem tox… tox…xinas. — Que calúnia!!! Os animais pasmavam de indignação. Nunca ninguém os tinha rejeitado e menos ainda acusado de coisa tão grave. Só o som da palavra era péssimo e nem sequer sabiam o que queria dizer. — Não somos nada tóxis. Júlia não queria criar má vizinhança. Por isso tentou apresentar uma razão que não os ofendesse. — A minha mãe respeita os animais e acha que não se deve matar nenhum para comer. — Então que comem? — Vegetais. — Ai coitadas das papoilas — exclamou a perdiz muito angustiada. — Não comemos papoilas! — garantiu Júlia. — Disseste vegetais, a papoila é um vegetal — choramingou a perdiz. Ela era amiga das papoilas, ninguém sabia porquê. Havia um segredo entre ela e as papoilas que os animais não conseguiam descobrir. — Mas, criatura — recomeçou a lebre —, que comes? Nada? Por isso estás tão magri12


nha, olha para ti! Olhem para ela! É a mais magra de nós todos. Já viram os bracinhos e as perninhas? Até dão vontade de rir. Não é verdade? E os animais riram-se muito. — São ridículos — concordaram todos. — Nós somos mais rechonchudos — comentavam cheios de orgulho uns para os outros exibindo coxas, patas e dorso. O gato, que ficava a perder neste concurso, manteve-se à parte a fingir ser superior a essas futilidades. “O que conta é a inteligência”, pensava ele. — Sabes que somos muito saborosos? — tornou a lebre. — Não sei, nunca comi carne. Mas já comi peixe. — Ai coitadinhos dos peixes — estremeceu o gato, com medo de que ela comesse todos os que havia no lago e não lhe deixasse nenhum. — Só como peixe quando há uma festa. — Mas és mesmo uma desgraçada! Temos de remediar isso — decidiu a lebre. E sem perder mais tempo propôs: — Meus amigos, como podem ver a situação é grave e exige medidas à altura, por isso proponho que o porco dê a sua vida por 13


esta causa. Menina! Tens de provar o porco. É uma delícia com batatinhas. Os patos bateram as asas. — Ninguém é tão saboroso como o porco, talvez o cabrito, mas o cabrito não está aqui. Vais comer e chorar por mais. O porco chorava baixinho. — Que tens? — perguntou-lhe um ganso abraçando-o com a asa. — Está emocionado com a honra — comentou a perdiz muito assustada com o rumo que as coisas estavam a tomar. Só de pensar que podia ter sido ela a escolhida para dar a sua rica vida provocava-lhe calafrios. Tinha cinco filhotes, cinco lindos perdigotos, que corriam atrás dela, às curvas, em fila indiana. Não podiam ficar sem a mãe, que era a guia e orientadora. Ainda bem que a lebre se lembrara de propor o porco. Mas estava a tremer por dentro. — Não quero dar a vida — soluçou o porco. — Gosto da vida, não quero ficar sem ela. — Tens de te sacrificar! — Não quero! — Tens! — Não quero! Não quero! — soluçou alto. A lebre pensou um pouco. 14


— Está bem. Convenceste-me. Então, como é só para provar, dá uma das tuas patas, deve ser suficiente. Tens tantas! — Tenho quatro!!! E preciso de todas! A lebre virou-se para Júlia e segredou-lhe: — É um egoísta. Não faz nada por ninguém, só pensa em comer. — Mas eu não quero o porco — disse Júlia com veemência. O porco parou de chorar numa confusão de sentimentos e mergulhou em profunda depressão. — Nem a minha mãe deixava — acrescentou. A lebre suspirou. — Essa senhora está a tornar-se um problema. Mas não te preocupes, eu hei de encontrar a solução. Para resolver problemas estou cá eu. Agora leva a salsa que eu vou pensar. Deixem-me só. Foi buscar tanta salsa e tanto coentro que Júlia quase não conseguia levar. — Não era preciso tanto. — Leva, que bem precisas. Ou me engano muito ou é tudo o que tens hoje para jantar. 15


Virou-se para os animais, mexeu a boca fazendo a palavra só com os lábios, sem som, para ela não ouvir: — COI-TA-DI-NHA! Júlia disse adeus, e foi para casa carregada de ervas aromáticas. O porco, que ia atrás, puxou metade do ramo. — Hei! — gritou Júlia. Ele assustou-se, engoliu a salsa à pressa, sem mastigar, antes que ela lha tirasse, e deu uma corrida para longe. Júlia ficou com um raminho pequenino. “Deve chegar”, pensou ela, e entrou em casa onde a mãe já começava a fazer o jantar.

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A poesia não é para borboletas

Júlia lia poesia em voz alta encostada a uma árvore, com o cão deitado em cima das pernas. — Ouve esta: Os passarinhos, tão engraçados, fazem os ninhos Com mil cuidados.* O cão não percebia quase nada do que ela lia e não prestava grande atenção, mas * Excerto do poema “Os Ninhos”

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de Afonso Lopes Vieira.


A lebre e o raminho de salsa