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13.ª 13 edição


Capítulo 1

Tudo começou por uma moeda do tempo de D. Carlos

Se tinha sido exactamente ali ou noutro sítio, talvez apenas ligeiramente mais afastado para a esquerda ou para a direita, quem sabe se junto do local onde pacientes gamos nos olham solitários entre si — parecia não importar muito à primeira vista. Mas nada acontece por acaso, mesmo quando as pessoas se encontram na rua — «olá, tudo bom em casa?» — sem saber como, de repente se vêem diante uma da outra. Nada de mistérios, amigos. Só que uma levou menos tempo a descer a rua e a outra foi parando em todas as montras, chegando exactamente ao mesmo sítio ao mesmo tempo, vindas embora de locais diversos. Ou coisas assim, não importa agora discuti-las. Falei por falar, e porque, no fundo, vão ver que nesta história toda sou eu quem menos tem tempo para dar opiniões, fazer perguntas, procurar respostas. Bem vistas as coisas, eu mal apareço nesta história, por isso me alonguei aqui nestas explicações, talvez inúteis. Queiram desculpar. 7


No entanto Fernando insistia com os outros dois. Ali. Tinha sido ali mesmo. Nem mais um desvio. Fernando sabia sempre como tudo se passava. Ou pensava que sabia, na opinião dos irmãos mais novos. Tinha (ou pensava que tinha) para tudo uma explicação lógica, ou procurava tê-la folheando livros e mais livros, «rato de biblioteca» e «cocabichinhos» sendo as expressões mais carinhosas que para ele guardavam os irmãos em alturas de zaragatas. Além de moedas também gostava de selos, furioso sempre que Mafalda o acusava de «coleccionador de cuspo alheio». — Pois se era aqui mesmo que eu estava, a moeda não pode ter corrido para muito longe! — Ai não que não pode! Redondinha e tudo, a estas horas anda para aí a rebolar por entre as pedras que é um gosto! — disse Mafalda. — Mas também não vamos agora ficar aqui eternamente à procura da tua querida moeda! Ainda se fosse alguma moeda de ouro... — a voz um pouco desdenhosa de Vasco. — Se era ou não era, não tens nada com isso — respondeu o outro, já irritado. — «Era não era / andava lavrando / e tinha um filho / chamado Fernando...» — cantarolou Mafalda, descendo rapidamente caminho abaixo, fugindo às iras do irmão. Mais para o acalmar do que por ter grande certeza do que afirmava, gritou-lhe: — Vejo ali qualquer coisa escura, se calhar é a tua moeda! Eu bem dizia que ela tinha rebolado para aqui, vocês nunca acreditam no que eu digo! Embora Vasco não estivesse lá muito interessado na moeda do irmão, correram os dois por entre as pedras do 8


caminho, talhado na encosta do castelo, até onde Mafalda apontava. Mas nada viram. Ela assegurava que sim. — Ceguetas que vocês são! Precisam de andar sempre com óculos, assim penduradinhos ao pescoço como a prima Leocádia! Ali em baixo! Olhem bem ali para baixo e vejam se não é ela que lá está a brilhar. — Tu é que me parece que estás a ver de mais. Aquilo é uma carica de cerveja, seu cérebro definhado! Alguma vez se pode comparar com a minha rica moedinha, do tempo do rei D. Carlos... — Em primeiro lugar — sentenciou Mafalda, contando pelos dedos —, era tanto do tempo do D. Carlos como eu sou do tempo da Princesa Magalona: compraste-a na semana passada na Feira da Ladra, e havia lá toneladas iguais a ela que eu bem vi. Em segundo lugar, se a estimavas tanto não a devias trazer assim, à balda dentro dos bolsos; e em terceiro lugar, gostaria que me explicasses melhor essa história do cérebro definhado, que não estou a entender... Foi nessa altura que os três irmãos se engalfinharam que nem galos de combate, naquelas lutas que só os irmãos são capazes de manter durante minutos a fio, para de repente ficarem amigos como dantes, e irem ao café da esquina comprar um gelado. Era cabelo puxado, eram beliscões, era «sua miúda de fraldas» por um lado, era «seu cocabichinhos de lata» por outro, era «deixem-se disso, coriscos!, que eu quero ir lanchar», do pobre do Vasco metido por engano naquela batalha campal, assoando-se de cinco em cinco minutos, carregado de uma constipação que nunca mais parava. Por ali o chão era coberto de pedras e erva, e se algum caísse ainda podia fazer o seu estrago, que as ruas 9


e ruelas do Castelo de São Jorge não são propriamente de sumaúma. Os três irmãos, apesar de não morarem perto, costumavam por vezes ir até lá dar uma volta, mas nunca tinham reparado naquele recanto, com um pequeno banco de pedra, longe dos binóculos onde se mete 2$50 e se vê Almada — isto quando os binóculos não estão avariados, claro, e a nossa moeda lá fica dentro, enquanto nós esborrachamos os olhos contra uma lente negra e desfocada. Acabaram por desistir de medir forças e sentaram-se, cansados, olhando em redor. — Este banco é diferente! — disse Mafalda, passando as costas da mão pela testa suada. Mafalda pensava sempre reconhecer todas as coisas pelo lugar que elas ocupavam. Às vezes parecia até que, para ela, as coisas nasciam já no lugar que lhes iria pertencer para o resto do tempo: aquele banco naquele lugar, ela em seu quarto, os óculos da prima Leocádia pendurados ao pescoço. — Cá para mim é um banco como os outros. De pedra — respondeu Fernando. — Se calhar querias que fosse de mogno... — troçou Vasco, depois de espirrar cinco vezes seguidas. — Deixem-se de asneiras! O que eu digo é que este banco é mais branco do que os outros que estão por aí — disse Mafalda. — Fujam, fujam, que vem aí o anúncio da televisão: «ó vizinha, como é que os seus bancos estão sempre tão brancos?» — e as gargalhadas de Vasco lá conseguiram contagiar os outros dois, apesar de Mafalda continuar na sua: — É mais branco, sim senhor! 10


E levantando-se disse para os irmãos: — Uma aposta em como é um banco mais recente do que os outros? Vasco soltou então um prolongadíssimo «ahhhhhhhh», assim mesmo, com muitos «hh», muitos, muitos, uma longa fileira deles, bateu com a mão na testa e disse: — Mas que cabeça a minha, coriscos! Claro, senhora minha irmã! Claro! Tinha-me esquecido de dizer a Vossa Graça que D. Afonso Henriques o mandou cá pôr ontem de propósito, ao saber de vossa visita! Mas por onde anda a minha memória, coriscos! Isto deve ser da constipação. Perdoai, senhora! — Não te caia o dentinho com a graça! — resmoneou Mafalda. — Vais ver se tenho ou não tenho razão. É só irmos ali ao guarda e perguntar. Acabam-se logo as piadinhas... — Rica ideia! — exclamou Fernando, que não se conteve. — Ideia que só podia ter brotado desse teu cérebro... Aí Mafalda, agarrando na primeira pedra que lhe veio à mão: — Deste meu cérebro quê? — Desse teu cérebro privilegiado! Pri-vi-le-gi-a-do, era o que eu ia a dizer! E a rir os três irmãos correram até à entrada do castelo, onde sabiam estar quase sempre um guarda.

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Capítulo 2

Entram em cena D. Bibas, suas trovas, guizos e loucura

Mas de guarda nem rasto. Apenas uma poeira espessa se espalhava no ar, assim como se o nevoeiro que às vezes caía no Tejo e fazia atrasar os cacilheiros tivesse decidido subir ao castelo para de lá ver melhor a cidade. Isto digo eu, claro. Sempre é mais bonito falar de nevoeiro sobre o Tejo do que de poeira levantada por patas de cavalos — e um bocadinho de poesia faz bem a toda a gente. Mas lá estou eu a meter-me na conversa. Adiante. — Coisa estranha — disse Mafalda. — Donde virá esta poeirada toda? Isto não costuma ter assim tanto pó! Haverá obras? — E a algazarra que vai lá por dentro! — notou Fernando intrigado, e já completamente esquecido da moeda perdida. — Haverá banquete? — perguntou Vasco fungando. — Há tempos ouvi dizer que ia abrir aqui um restaurante. Podíamos aproveitar para lanchar, que é bem tempo disso! 13


— Só pensas em comer, caramba! — troçou Mafalda. — Ora essa — protestou Vasco —, penso em muitas outras coisas. Penso, por exemplo, que esta maldita constipação nunca mais passa, apesar da mãe e do médico me encherem de antibióticos. A propósito... Levou rapidamente a mão ao bolso, vasculhou lá por dentro e suspirou aliviado: — Não, não me esqueci. Cá andam os comprimidinhos, metade encarnados, metade azuis, para tomar de duas em duas horas, e tudo continuar como até agora. Eu cá acho que constipações e quaisquer doenças curam-se é com meia dúzia de pastéis de nata tomados em jejum, daqueles bem tostadinhos com açúcar e canela por cima, vindos mesmo de Belém, e dois ou três litros de leite para ajudar tudo a ir para baixo. Se algum dia for médico, estas vão ser as minhas receitas. Antibióticos, nunca! Supositórios, nunca! Injecções, nunca! — E em que mais pensas tu afinal, maninho ranhoso? — Ranhosa será você! A...a...atchim! Coriscos, que isto nunca mais me passa! E agora já sei: são aí mais uns cinco ou seis espirros de seguida. A...a...atchim! — Então, estás ou não estás ranhoso? — Coriscos! Deixa em paz a minha constipação, sim? Ao menos podias ser amável e dizeres «santinho!» Olha, se queres saber o que eu penso, penso que em vez de estarmos aqui todos parados, a olharmos uns para os outros, bem podíamos entrar e ver o que se passa. Que diabo, como costuma dizer o tio João, para alguma coisa há-de servir a democracia! — O que eu não entendo lá muito bem é o que tem a democracia a ver com isto tudo — riu Mafalda. 14


Mas Vasco explicou logo, antes de outro espirro o atacar: — Há aqui algum letreiro que diga «proibida a entrada»? Há aqui alguma tabuleta que diga «passagem reservada» ou coisa parecida? Há guardas? Há portas fechadas? Há trancas? Há grades? Há cordas? Não há, pois não? Então é porque toda a gente pode entrar, ora essa. Vamos lá embora. A...a...atchim! O barulho era muito. Vozes sobre vozes, gritos alguns, escuras aves voando por sobre as suas cabeças como se procurando avidamente algum despojo desconhecido. No entanto elas eram, até àquele momento, as únicas presenças vivas junto dos três irmãos. Ruídos, sim, muitos, mas tudo parecia ainda ao longe ou pelo menos encoberto pela fumarada. — Devem ter morto aqui algum porco — disse Vasco em voz não muito segura. — E tu que não viesses com as comidas... — respondeu Mafalda, num quase murmúrio. — Pelos vistos a constipação não te tirou o olfacto. — Quais comidas! Pareces parva! Olha para o chão e depois diz que são manias minhas. As pedras do chão estavam vermelhas, daquele vermelho que só pode vir do sangue, e aquele devia estar ali há algum tempo. O cheiro começou a não ser agradável. — Vocês acham que a gente avance mais? — Mafalda. — A menina está com medinho, está? — a troça de Fernando. — Não é bem medo, mas não se consegue ver nada com este nevoeiro! 15


— Vai chamar nevoeiro à chaminé da Sacor! Isto é uma fumarada que daqui a pouco nem consigo ver o teu nariz! — Por isso mesmo: se não conseguimos avançar muito, também não conseguimos recuar. Olhem bem para trás das vossas costas — sentenciou Vasco. Mas nesse momento um barulho esquisito de guizos, palavras um pouco loucas lançadas à toa e que nem se conseguia bem saber se vinham da esquerda ou da direita, da frente ou da retaguarda, fê-los calar. Era assim uma cantoria esganiçada: Vinde lá não tenhais medo que mais fajeca tive eu espancado por um Fernando com focinho de judeu Era uma figura estranha, perfeitamente saída dos livros de História, com um barrete cheio de pontas donde pendiam guizos, borlas, sinos, chocalhos, tudo o que fizesse barulho e o pudesse acompanhar na cantilena, que parecia não parar: espancado por um Fernando com focinho de judeu Era de muitas cores o fato, aqui e ali um rasgão de alto a baixo, tal como nos livros, tal qual. Talvez ainda melhor do que nos livros. Acho que nenhum livro teria a coragem de lhe dar assim um aspecto tão berrante, tão feito mesmo para estar ali, tão copiado das gravuras antigas. Bom, mas isto é apenas a minha opinião, que 16

A Espada do Rei Afonso