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Capítulo 1

Estava em frente da cerca dos lobos e apareceu logo um, seguindo a linha da vedação. A princípio parecia desajeitado. Tinha a cabeça baixa e as pernas brancas e magras moviam-se de maneira hirta e sem graça. No entanto, isso era ilusório. Um lobo mostra apenas cinco por cento do que é capaz. O resto esconde-o até precisar. Depressa este lobo mostrou mais interesse. Ao aproximar-se de mim, levantou a cabeça e acelerou para um trote ágil e elástico. O pêlo era espesso, em torvelinhos de tons brancos e castanhos como a espuma de um cappuccino. Parecia estar a sorrir. Vinha ofegante, com a boca aberta e a língua enrolada como uma fatia de fiambre entre as pontas das presas inferiores. Mas não estava a sorrir. Os lobos não sorriem para os humanos. Normalmente, nem sequer se dão ao trabalho de olhar para nós, porque os humanos são enfadonhos para um lobo. Somos muitos, todos parecidos e fazemos as mesmas coisas, como parar para olhar para eles, estalar os dedos e imitar rosnadelas. Depois vamo-nos embora, regressando às nossas vidas humanas, que nunca conseguem ser nem de longe invejáveis para um lobo. Mas eu não fiz essas coisas. Fiquei completamente imóvel e concentrei-me, tentando falar-lhe com a mente. E o lobo olhou para mim. Tenho de admitir, não mostrou mais interesse por mim do que eu mostraria por um papel de rebuçado que visse no passeio. Ainda assim, durante uma fracção de segundo, 9


ele olhou de facto para mim. Os olhos amarelos e opacos brilhavam como se tivessem uma chama a arder por trás, no centro da cabeça. Aqueles olhos transmitiam coisas. Não vos poderia dizer exactamente que coisas, porque eram pensamentos de lobo, que não se traduzem facilmente em pensamentos humanos, mas eu sentia-os. Às vezes os pensamentos de lobo acalmavam-me, outras vezes deixavam-me agitado. Naquele dia, acalmaram-me. Eu precisava de me acalmar. Dez minutos antes, tinha espancado seriamente um miúdo e tinha ainda a sensação dele a vibrar-me nos punhos. Mas não o espanquei sozinho, atenção. Nem quero com isso dizer que os meus amigos, o Vernon Crottall e o Barry Lunc, também estiveram envolvidos. O que quero dizer é que houve qualquer coisa dentro de mim que assumiu o controlo e me levou a fazê-lo, apesar de não o querer. Isso nunca me tinha acontecido e foi assustador. A minha mãe ficou a saber, mas ao mesmo tempo não soube de nada. Viu a minha cara inchada e o sangue seco pendurado de uma das narinas, no qual eu não tinha reparado, e tirou logo a conclusão errada: que eu tinha sido vítima de um ataque aleatório e sem provocação por parte de um dos muitos tarados de argola nos lábios que na ideia dela vagueavam pela zona do Lock. Talvez ela até tivesse ficado contente, de certa forma, porque aquilo era mais uma razão para sair de Londres. — Por mim, já tínhamos saído daqui — queixou-se. — Vais adorar viver no campo, amor, prometo. Vamos para bem longe desta loucura toda. — Ela não sabia que a loucura era eu.

* * * 10


O caminho dos rebocadores do Regent’s Canal, entre o Camden Lock e o Regent’s Park, numa tarde de Julho. Eu, o Vern e o Barry tínhamos descido até lá com umas latas de sidra. É verdade, há muitos anormais a deambular por ali — vagabundas de cabelo cor de tangerina, pedófilos de faca Stanley no bolso de trás das calças —, mas nós sabíamos lidar com isso, éramos de Camden. Estávamos sentados no banco junto ao local onde os barcos estreitos eram amarrados. O barco imediatamente à nossa frente, chamado Bilbo Baggins, era foleiro quanto baste, com flores pintadas em volta das janelas. Tinha as cortinas corridas, excepto numa janela onde havia uma pequena abertura através da qual talvez fosse possível espreitar se nos aproximássemos do barco e nos ajoelhássemos. O Vern disse que talvez houvesse uma mulher no barco a despir-se. Desafiou-me a ir espreitar, mas eu recusei. Continuámos a observar as pessoas que passavam e a fazer pouco das mais foleiras. Por exemplo, passou um código de barras — isto é, um tipo que tenta disfarçar a calvície penteando alguns fios de cabelo sobre a careca —, seguido de um bando do que Vern chamava cabras cancerosas: mulheres gordas de calças elásticas demasiado justas, fumando boquilhas. E eu pensava para comigo como o Barry e o Vern eram porreiros. Quando nos encontrávamos costumávamos entrelaçar os braços e os dedos e apertar com muita força enquanto batíamos com a testa uns nos outros e franzíamos o sobrolho. Era uma cópia do novo festejo de golo que os jogadores do Arsenal tinham começado a fazer. A minha mãe às vezes podia ser muito esquisita: ela não gostava do Barry, mas achava que o Vern era boa pessoa. O meu pai uma vez discutiu com ela sobre isso. Foi depois de ela ter dito que 11


não queria que eu fosse a uma festa na casa do Barry porque a mãe dele não ia estar presente, deixando apenas o irmão mais velho do Barry a tomar conta de todos aqueles rapazes de doze anos. O meu pai disse: — Sê sincera, Clare, estás só a arranjar desculpas. Não gostas do rapaz e é disso que se trata. — Não é que não goste dele — respondeu a mãe. — Só não acredito que o irmão dele seja responsável. — Porque não? — interrogou o pai. — Que idade é que ele tem, puto? — Puto era o que o meu pai me chamava quando não usava o meu nome verdadeiro. Era muito melhor do que Mongo, como o Vern e alguns outros por vezes me chamam, ou Abóbora, devido à minha falta de lóbulos nas orelhas. — Uns vinte — respondi. — Parece-me ter idade suficiente — concluiu ele — para meter dez gandulos pré-adolescentes na ordem. — Apoiado! — exclamei. Era divertido ser insultado pelo meu pai. — Porque está ele a viver em casa dos pais com vinte e tal anos? — perguntou a mãe. — Porque não pode pagar as malditas rendas desta nossa metrópole caríssima — respondeu o pai. — Porque está a viver do subsídio e a consumir drogas — ripostou a mãe. — E a ensinar os mais recentes truques perigosos nas bicicletas de montanha. Que anda ele a fazer com bicicletas naquela idade? A minha mãe é bastante conservadora, a propósito. — Ah, sim, e a mãe do Barry, já agora! — desafiou o pai. — Que tem ela? — perguntou a mãe. 12


— A verdade, Clare, é que tu gostas do Vernon Crottall porque a mãe dele é médica em Highgate e o pai dele aparece na televisão, e não gostas do Barry não-sei-quantos... — Lunc — ajudei. — Lunc, porque o pai dele não mora em casa e a mãe dele é... que faz ela, puto? — É assistente social da Câmara de Camden. Estive quase para dizer alguma coisa, mas não queria trair os meus amigos. A verdade é que a minha mãe nem imaginava como o Vern era marado, apesar da sua mãe curandeira e do pai enviado especial da televisão no estrangeiro de colete à prova de bala. Foi o Vern que me convenceu a lamber uma lata de cerveja que estava no frigorífico. Foi o Vern que gamou um copo do McDonald’s cheio de moedas a um mendigo com um taco de basebol à saída da estação de metro de Chalk Farm. Foi o Vern que fumou droga aos treze anos e tirou dinheiro da carteira da mãe e preservativos da mala do computador portátil do pai e tentou convencer-me e ao Barry a ir com ele engatar uma prostituta por trás da estação de King’s Cross. E foi o Vern que decidiu que seria uma bela ideia dar uma coça àquele miúdo que ia a passar quando estávamos sentados no banco junto ao canal naquela tarde, a beber sidra, enquanto eu olhava para o espaço e pensava no par de amigos porreiros que tinha e em como iria sentir a falta deles quando saísse de Londres. Eu conhecia o miúdo. Era um pouco atrasado e eu costumava vê-lo no Camden Lock, parado e a abanar a cabeça a maior parte das vezes, embora às vezes lhe pagassem uns cinco pence por dia para distribuir folhetos de publicidade a um 13


estúdio de tatuagens e piercings chamado The Damage Done. Lembrei-me dele porque duas semanas antes ele tinha escarrado para cima do meu ténis. De propósito. Eu estava num quiosque de comida à espera de um prato de papel de croquetes de peixe e macarronete e, trás, lá veio ele, um fio viscoso e horrível que se deteve no ar ligando o meu ténis e a boca dele durante um segundo, como uma ponte suspensa de escarro amarelo. Ele ficou a olhar para aquilo, abanando a cabeça, depois disse: «Betinho de merda», e zarpou. Eu não andava numa escola queque. Era uma escola pública, embora não do mesmo tipo que a pública do Escarrador. Na nossa escola muitos dos pais eram como os meus: bem na vida mas não podres de ricos. Podre de rico era um pai que usava fato e conduzia um Bentley e enviava os filhos para um colégio interno, onde usavam uniformes que não tinham mudado há uns trezentos anos. Os pais podres de ricos não usavam colete de cabedal e sapatos George Cox de pele de leopardo e solas de borracha, comprados na loja Doc Marten ao virar da esquina da estação de metro de Camden. Os meus pais por acaso até eram bastante porreiros, ou pelo menos o meu pai. Mas o Escarrador mesmo assim odiava-me, ou as pessoas que se pareciam comigo. E eu odiava o Escarrador, não só porque ele tinha cuspido no meu ténis (a minha mãe teve de o meter na máquina de lavar e depois ficou tão desbotado que ela teve de pôr o outro também), mas porque fez de mim demasiado cobarde para ripostar. Confesso que me sentia um nada chateado: estava quase a acabar a minha lata de Strongbow. Mas, adiante, vi um tipo a aproximar-se pelo passeio vindo do Camden Lock. Caminhava de cabeça baixa, dando pequenos passinhos que lhe davam um 14


ar de idiota. Fiz sinal com o cotovelo ao Vern para que pudéssemos gozar com ele. Depois percebi quem era: o Escarrador. Estendi as mãos, colocando uma no braço de Vern e a outra no do Barry para que eles percebessem que se passava algo e que queria que não fizessem barulho. E observámos o Escarrador passar por nós. Depois fiz o ruído dos idiotas, o grunhido de porco/vaca/chimpanzé que fazemos para indicar que alguém é atrasado mental: ner, ner, neerrrrrr. Pensei que fosse correr tudo bem. O Escarrador continuou a andar. — Quem é? — perguntou o Vern. — Digo-te depois — respondi. Mas então o Escarrador parou. A princípio não se voltou, parou de andar mas continuou a olhar em frente, em direcção ao parque, abanando ligeiramente a cabeça. Eu pensei: «Ah, merda.» Depois pensei: «Mas não há problema. Tenho o Vern e o Barry comigo. Ah, sim?» O Escarrador deu meia-volta e avançou até se encontrar diante do banco. Continuava de cabeça baixa, como se estivesse à procura de algo minúsculo que tivesse deixado cair na lama (o cérebro, por exemplo). Não olhou para nós, mas perguntou, por debaixo do cabelo: — Quem fez aquele barulho? Noutras circunstâncias aquilo teria sido cómico, porque a voz dele era muito parecida com o ruído de porco/vaca/chimpanzé de que ele se estava a queixar. Mas eu não me estava a rir, nem o Vern nem o Barry. Na realidade, o que o Vern e o Barry estavam a fazer era afastar-se de mim, deslizando ao longo do banco até eu ficar sozinho no meio. E tornou-se evidente quem tinha feito o barulho. 15


Eu também queria deslizar para a direita ou para a esquerda, para não ficar ali sozinho. Sentia-me estúpido e exposto ali sentado, sem dizer nada, com o Escarrador mesmo à minha frente, também sem dizer nada, nem a olhar para mim, mas apenas abanando a cabeça como se tivesse um parafuso solto no pescoço. Foi um momento embaraçoso e estúpido que depressa se transformou em montes de momentos embaraçosos e estúpidos e eu já sabia que o Vern e o Barry iam chatear-me por causa disso mais tarde, por ter começado uma coisa que não podia acabar, por fazer um ruído de idiota e não saber até onde ir com ele. Reparei nos ténis do Escarrador e isso fez-me sentir triste, porque pareciam feitos de cartão e eu sabia que os vendiam em caixas à porta das sapatarias na rua principal por cerca de sete libras. Alguém passou por trás do Escarrador no passeio. Desejei que fosse um adulto mandão que metesse o nariz e nos mandasse sair dali, e o Vern, o Barry e eu podíamos abalar para o parque e esperar junto à cerca dos lobos algum movimento, uma faísca daqueles olhos amarelos que me faziam lembrar os berlindes antigos que vendiam no Lock. Mas a pessoa continuou a andar e deixou-nos sozinhos com o problema. E depois o Escarrador fez o que ele sabia fazer melhor. Zás! Não precisava de olhar nem de fazer pontaria, levantava apenas o queixo e lançava uma chama horrível de escarro amarelo e viscoso. Ele podia ser atrasado mas era um escarrador de primeira ordem. Desta vez não caiu no meu ténis. Quem me dera. Caiu simplesmente na minha cabeça, só isso. Mas não reagi. Na minha mente eu corria às voltas com o cu em chamas e uma luz azul presa à cabeça, a berrar «Que nojo» e «Filho da puta» e «Aaagghh». Mas por fora: nada. 16


O Escarrador já se voltara e dirigia-se para o parque. Talvez até já se esquecera do que tinha acabado de acontecer. Talvez o cérebro dele fosse incrivelmente lento, como o de um dinossauro, o que explicava por que razão demorou tanto tempo a parar e a avançar para mim depois de eu ter feito o barulho que depois desejei realmente não ter feito, porque estava numa situação de perdedor e sabia que o Vern e o Monster não se iriam esquecer daquilo durante muito tempo. Talvez nunca. O Barry saiu-se com uma gargalhada chorosa, dando a entender que não conseguia acreditar no que acabara de ver. Eu senti o escarro escorregar-me pelo cabelo e durante uma fracção de segundo pensei que fosse vomitar. Encontrei um bocado de papel higiénico antigo no bolso e tentei limpar o escarro descontraidamente, para que os meus amigos não reparassem. Mas o Vern viu e disse: — Não ponhas isso perto de mim, ele provavelmente é seropositivo. — Depois deu-me um encontrão no braço e instou: — Vai lá. — O quê? — Vai atrás dele. Ele está a fugir. Dá-lhe uma sova. Empurra-o para o canal. O que quiseres. — Ná. Não vale a pena. O Vern ficou mesmo passado. — Estás a brincar? — interrogou. O Barry intrometeu-se: — Deixa, Vern. Se é isso que ele quer... — Eu trato dele então — afirmou o Vern. E levantou-se. — Queres que eu dê cabo dele? 17


— Não. Ouve — implorei —, vamos esquecer isto, OK? O gajo é atrasado mental. Não sabe o que está a fazer. — Ele está a fugir — repetiu o Vern. Apontou para o fundo do passeio, onde, ao longe, ainda se via a figura do Escarrador passar por baixo da ponte. O Vern estava irritado. — Claro que sabe o que está a fazer. Ele não te cuspiu para a cabeça acidentalmente, pois não? O gajo precisa de uma lição. — Vamos voltar para o Lock — insisti. — Descontrair. Ver uns CD. Eu compro-te um CD. Ou um vinil antigo. Tens gira-discos, não tens? A história podia ter acabado por ali, com os três bons amigos voltando para o Lock para gastar dinheiro em música. Mas depois o Vern fez o comentário e abordou o assunto que mudou tudo. — É por causa do teu pai, não é? — perguntou. O meu pai tinha morrido a meio do Inverno. Já tinham passado quase cinco meses e o Vern e o Barry nunca tinham falado nisso, não desde o dia seguinte ao ocorrido. — De que é que estás a falar? — protestei. Não me senti zangado, não imediatamente. Foi mais uma sensação de entorpecimento. O Vern não largava o assunto. — É por causa do teu pai ter morrido que te estás a acagaçar? É por causa do teu pai ter morrido que não te estou a reconhecer como o tipo de amigo com quem eu sairia, que se mete em situações pesadas e não aguenta porque de repente são atrasados mentais, sua abóbora mongolóide? Naquele momento a raiva estalou. 18


— Vai à merda, Vern — gritei, e comecei a correr. Corria para que ele e o Barry não pudessem ver que eu estava a chorar. Mas corria também porque de repente, mais do que tudo, apetecia-me ver os lobos do jardim zoológico do Regent’s Park. O que significava que estava a correr em direcção ao parque. O que queria dizer que estava a correr atrás do Escarrador. Dava para perceber que eu não estava bom da cabeça. O Vern e o Barry vieram atrás de mim. O Vern apanhou-me primeiro e deu-me uma palmada nas costas enquanto corríamos. — Vai, OK? — gritou. Ele não sabia o que eu estava a fazer, porque é que eu estava a correr. Eu não tinha qualquer intenção de bater no Escarrador. Só que de repente passei a ter. Tinha de o fazer, embora não fosse o que eu quisesse fazer. Como a vida é estranha, pois muitas vezes acabamos por fazer a última coisa no mundo que tínhamos intenção de fazer. Como mudar para uma aldeia morta no meio do campo ou agredir por trás um pobre miúdo com o cérebro de um dinossauro. Eu não quis acreditar mas o Escarrador não se voltou quando ouviu os nossos passos no caminho lamacento. A única coisa que eu conseguia ver eram as costas dele, um casaco preto de aviador, e perguntava a mim mesmo o que fazer. À esquerda e à direita, o Vern e o Barry pareciam uma escolta de motos. Mas era eu, o político no meio, que tinha de resolver o assunto. Mesmo quando cheguei ao pé do Escarrador, podendo esticar o braço e tocar-lhe no ombro, mesmo então não sabia o que ia fazer. Depois vi a cabeça dele a mexer-se, o ombro dele começar a voltar-se, e então fi-lo, simplesmente, uma coisa 19


estúpida que devia parecer patética se uma câmara de televisão de circuito fechado a tivesse apanhado, por exemplo — uma possibilidade que me viria a assombrar durante semanas. Fui mais ou menos de encontro às costas dele com os cotovelos levantados, mas não o apanhei em cheio porque o corpo dele tinha começado a voltar-se. Os meus cotovelos escorregaram e eu quase tropecei, mas consegui manter-me de pé. O Escarrador caiu, como eu quisera, mas não durante muito tempo. Eu dava pequenos pulinhos como se estivesse a saltar uma corda invisível enquanto o observava a rebolar pela lama. Depois ele levantou-se com um salto. Não olhou para mim, pelo menos não com os olhos, mas sabia onde eu estava. Atirou-se a mim e eu não tinha para onde ir. Não ia fugir — nem eu era assim tão cagarolas, pelo menos se o Vern e o Barry estivessem presentes —, mas não sabia como o deter. Ele era um dinossauro sob o efeito de speeds. Levantei as mãos para proteger a cara, mas ele não vinha com os punhos. Tinha estendido um braço e quando chocou contra o meu peito prendeu-me o pescoço e puxou-me a cabeça para baixo, apertando-a por baixo do sovaco. E num instante eu estava mergulhado num mundo estranho, de sovaco e casaco de aviador, áspero e negro, e cheirando a sovacos sujos e roupa que tinha sido deixada demasiado tempo na máquina de lavar. A parte superior do meu corpo estava completamente imobilizada. Mal conseguia respirar, quanto mais falar. Tinha ranho a sair-me do nariz e sentia os olhos esbugalharem-se. Uma espécie de zumbido silencioso ressoava-me nos ouvidos tapados. 20


Depois o Escarrador bateu-me na cara com o seu punho livre. Trás, trás! Duas vezes. Senti um calor intenso no nariz, a dor vibrando e alastrando para os meus ouvidos. Contorcia-me e virava-me, empurrava e puxava. Não me desloquei um centímetro. Toda a minha cabeça parecia estar a arder. As minhas orelhas pareciam farpas de um anzol. Quanto mais me esforçava por me libertar, mais elas ficavam presas nos braços do Escarrador. Imaginem se tivesse lóbulos de orelhas normais como toda a gente (excepto a minha mãe — foi dela que herdei os meus). Ainda estaria lá debaixo, no sovaco do Escarrador. Mas o Oitavo Regimento de Cavalaria vinha a caminho. Houve uma escaramuça por baixo e por cima de mim, braços batendo de um lado para o outro e pés escorregando na lama, e de repente as minhas orelhas estavam livres. Foi como subir à superfície de uma piscina. Conseguia ouvir, conseguia perceber. O Vern e o Barry estavam um de cada lado do Escarrador a puxá-lo de cima de mim. Faziam ruídos que não eram propriamente palavras, como «Oi, isso, cuidado, fo..., toma, porra, ai, ai», e depois todo o meu corpo se libertou. Uma cabeça que parecia cheia de ar. Orelhas a arder, olhos a lacrimejar e, na minha visão desfocada, o Escarrador. O Vern e o Barry estavam a agarrá-lo nos braços. Ele estava ali mesmo à minha frente de cabeça baixa, um dinossauro capturado. Estávamos todos ofegantes. — Vá lá — instou o Vern. — O qu...? — Eu tinha a boca tão seca que mal conseguia falar. 21


— Dá-lhe. Um pontapé. Um murro. Qualquer coisa. Mas despacha-te, porra, não podemos segurá-lo o dia todo. Olhei para a esquerda e para a direita. Ninguém por perto. Voltei a olhar para o Escarrador. E naquele momento, dentro de mim, algo estalou. Não entremos em pormenores, mas fiz o que o Vern disse. Bati no Escarrador. Espanquei-o de tal forma que o Vern e o Barry tiveram de gritar para eu parar. Mas eu não parei e eles agarraram-me para tentar deter-me. Depois uma mulher numa casa do outro lado do canal gritou que ia chamar a polícia e, finalmente, parei. E dispersámos. Quer dizer, eu, o Vern e o Barry. Não sei se o Escarrador conseguia andar depois do que eu lhe tinha feito. Pensei que os meus amigos estivessem a correr comigo, mas, quando abrandei o passo e olhei para trás, eles não estavam lá. Nessa altura já tinha chegado ao parque. Tinha o coração palpitante e passado, como um pássaro ferido que uma vez segurei nas mãos. Tentei ligar ao Vern no meu telemóvel. Não atendeu. Não conseguia perceber o que tinha acontecido, para aonde eles tinham ido. Estava preocupado com o que pudessem pensar de mim. Talvez tivessem fugido de propósito, não querendo associar-se a um louco. Seria eu um louco? Parei junto à cerca dos lobos e logo um deles apareceu para me devolver alguma calma com os olhos. Enterrei os punhos ardentes e latejantes nos bolsos e regulei a minha respiração ao lento arfar do lobo. Como explicar o que o lobo me disse naquele dia? Qualquer coisa como: não te preocupes, fazer uma 22


coisa má não te transforma numa pessoa má. Toda a gente faz uma coisa má de vez em quando. Aconteceu fazeres a tua hoje. De qualquer maneira, tens uma boa desculpa para não estares no teu melhor neste momento. Não são todos os miúdos de quinze anos que têm um pai que decide bater a bota. Take it easy, como costumava dizer o meu pai. Respirei fundo e fechei os olhos. Quando os abri, o lobo tinha desaparecido pelo túnel, tarefa cumprida. A calma durou até eu sair do parque para regressar a Gloucester Crescent. Então o mundo dos humanos irrompeu-me de novo na cabeça e rodopiou como um bando de aves em pânico. Teria ferido muito o Escarrador? Talvez ele fosse asmático e tivesse tido um ataque e morrido. Acontecia. Teria alguém chamado a polícia? Se ele ainda estivesse vivo, seria capaz de dar à polícia uma descrição convincente dos três miúdos que lhe haviam saltado em cima no caminho do canal? E a mulher na casa do outro lado do canal? Que teria ela conseguido ver? Para aonde tinham ido o Vern e o Barry? Talvez tivessem ido à polícia para me denunciar porque eu era um louco descontrolado. E a televisão de circuito fechado? Estavam por toda a parte, as câmaras de vigilância. Talvez me tivessem filmado. Imaginei-me no programa Crimewatch, no filme desfocado de um miúdo a agredir outro miúdo, seguido do pedido de informações a quem reconhecesse o agressor. (E metade de Camden Town e Chalk Farm avançaria.) Ia contar à minha mãe o que tinha acontecido, o que tinha feito. Também não ia lançar a culpa para os outros. Mesmo o facto de o Escarrador ter escarrado para cima de mim não desculpava o que eu tinha feito. Nem mesmo o facto de Vern ter sido o instigador. Ia contar-lhe tudo para que ela soubesse que 23


tinha um filho louco. Mas não me deu oportunidade. Quando abri a porta da frente ela estava no hall, agachada diante do armário por baixo das escadas. Tinha ao lado dela uma caixa e um saco de lixo e estava a transferir coisas da caixa para o saco de lixo. Percebi imediatamente que eram coisas do pai porque ela estava a chorar. — Desculpa — disse ela, como se fosse um crime chorar. Limpou o nariz com as costas da mão e deu uma grande fungadela. — Que andaste a fazer? Divertiste-te? — Depois retesou-se, olhando para mim. Eu não sabia qual era o meu aspecto, que tinha sangue seco numa narina, a cara vermelha e inchada e os nós dos dedos esfolados e ensanguentados. — Oh, meu amor — começou ela. Odiei-me então. Não era um amor, era um maníaco. Ela levantou-se, correu para mim e abraçou-me, apertando-me quase com tanta força como o Escarrador. Cheirava às gavetas perfumadas onde guardava os seus quimonos de seda. Não falou e eu não falei, e depois percebi que tinha passado o momento em que lhe podia contar o que realmente acontecera. Chamem-lhe pensamento de lobo, mas eu sabia que o momento certo — o único momento — já passara. As lágrimas dela encharcavam-me a camisa. — Oh, meu amor — repetiu ela, e o seu bafo eriçou-me os pêlos no pescoço. Depois afastou-me, segurou-me à distância de um braço e olhou-me nos olhos: — Quem é que te fez isto? Eu desviei o olhar. — Foi só um miúdo. Também lhe bati. — Exibi os dedos ensanguentados e ela voltou a abraçar-me, por ser corajoso. (Ah!) 24


Depois levou-me para a casa de banho do rés-do-chão e limpou-me o nariz com algodão e foi então que vi o estado em que estava e ela falou da mudança que estávamos prestes a fazer, de como eu ia adorar o campo e de como Londres não era sítio para educar crianças. Eu não disse uma palavra, mas ela não achou que isso fosse estranho. Quando acabamos de ser atacados por um brutamontes muito maior e mais forte do que nós, por razão nenhuma, não nos apetece muito falar, pois não? Na manhã seguinte acordei com alguém a bater à porta da frente, com tanta força que as janelas do meu quarto abanaram, apesar de se encontrarem no segundo andar. A primeira coisa que fiz foi lembrar-me do que tinha acontecido no dia anterior. A segunda coisa foi ficar cheio de medo por causa das pancadas na porta. Era o que a polícia fazia. Provavelmente tinham um tipo à frente com um aríete e outros vinte alinhados atrás dele com equipamento antimotim, prontos para invadir a casa em busca de um adolescente maníaco que espancara até à morte um asmático com necessidades especiais no passeio perto do Camden Lock na tarde anterior. Saltei da cama e fui até à janela. Não havia carros da polícia estacionados ao longo da rua, apenas uma moto de uma empresa de correio mesmo em frente da nossa porta. Lá em baixo na cozinha, um estafeta vestido de cabedal bebia café da caneca do Arsenal enquanto a minha mãe assinava uns documentos legais relacionados com o testamento do meu pai que tinham de ser devolvidos imediatamente ao advogado. Comprei o Camden New Journal e o Hampstead and Highgate Express, à procura da história. Nada. Após três dias a enviar mensagens de texto e de voz consegui finalmente falar 25


com o Vern. Ele disse que ia estar em Suffolk durante uma semana na casa de campo dos pais. Não falámos sobre o que tinha acontecido. Ele parecia diferente, como se não quisesse estar a falar comigo. Percebi então que eu devia ter algum laivo de estranheza. Um lobo, por exemplo, afastava-se quando me via. Mas a estranheza não tinha apenas a ver com a tareia que dera ao Escarrador, a porta que se abrira sobre mim mesmo naquele momento de loucura junto ao canal. Isso já era mau, mas havia outra coisa. A morte do meu pai não nos deixara outra alternativa senão poupar. Eu e a mãe íamos mudar de casa — para longe de Camden, para fora de Londres — e isso para mim era como uma condenação à morte. Se o Vern e o Barry nunca mais voltassem a ver-me, o que era possível, isso não seria diferente de estar morto. Portanto, eu não era apenas um perigoso espancador de atrasados mentais indefesos, tinha também uma doença terminal. Não admira que o Vern mostrasse relutância em falar comigo. Antes de o Vern terminar a chamada perguntei: — Quando nos mudarmos para o campo vêm visitar-me, tu e o Monster Mash? Vou morrer de tédio lá. — Claro. Como quiseres. — Tradução: nem pensar. O facto de eu ter sido espancado (isto é, na versão da minha mãe) levou-a a acelerar todos os preparativos para a mudança. Ela disse que aquilo era o cúmulo; não queria ficar em Londres nem mais um segundo do que o estritamente necessário. A casa de Gloucester Crescent já estava à venda por um milhão e meio de libras, mas a mãe disse que teríamos sorte se ficássemos com cinquenta mil depois de liquidadas as dívidas do pai. Entretanto tínhamos uma casa pronta a usar à nossa espera 26


porque os pais da minha mãe, os meus avós, tinham falecido os dois no ano anterior, deixando à minha mãe a sua pequena casa de campo na aldeia esquecida pelo tempo. Por acaso era também a casa onde a mãe tinha crescido, no tempo em que usava tranças (já vi as provas) e fez de centopeia numa peça de Natal no salão paroquial da aldeia. Um dia antes de eu e a mãe deixarmos Gloucester Crescent para sempre, liguei ao Vern e ao Barry e disse-lhes que já não voltaria a estar com eles depois daquele dia e que tal encontrarmo-nos. Ainda não tínhamos estado juntos desde o episódio com o Escarrador. Encontrámo-nos à porta da loja de discos Out On the Floor Records, na Inverness Street, e seguimos ao longo do canal até ao parque. Passámos pelo banco onde tínhamos estado sentados, passámos pelo lugar onde aquilo tinha acontecido. Mas não dissemos uma palavra sobre o dia em que eu perdera a cabeça. Na verdade, mal falámos. Era como se eu estivesse no meu leito de morte e eles estivessem sentados à volta sem saber o que dizer, olhando lá para fora pela janela do hospital e desejando estar em qualquer outro lugar menos naquele, de vigília a um miúdo que costumava ser um amigo, mas que já não era, prestes a bater a bota. Parámos junto à cerca dos lobos e eu fiz uns pensamentos de lobo para levar um deles a sair e olhar para nós, mas não apareceu nenhum. Depois o Vern disse que tinha de ir porque ia encontrar-se com a mãe na Tottenham Court Road para ela lhe comprar um iPod e o Barry disse que ia apanhar o autocarro com o Vern. Fizemos aquela coisa de festejar os golos do 27


Arsenal, ali mesmo, no Regent’s Park, no passeio ao lado da cerca dos lobos. Só que não era um festejo. Depois o Vern e o Barry desapareceram da minha vida e eu fiz o mesmo. Voltei as costas aos lobos do Regent’s Park e abandonei a minha própria vida.

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A Escada de Corda  

Livro para maiores de 12 anos

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