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Revista

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A queda do muro na Santa Barbara Perfil ::: Educação ::: Saúde Galeria ::: Transporte ::: Cultura


Muro construído ao lado da Vila Santa Bárbara, que resultou no alagamento de mais de 20 famílias em novembro de 2008. As famílias ainda hoje não receberam a completa reposição dos seus bens perdidos. O terrenos protegido pelo muro pertenci ao João Claudino, dono do Armazem Paraiba.


ÍNDICE

6 EDITORIAL

10 Artigo

Transporte

Perfil

14 18


16 CAPA

20 22

Educação

Saúde


EDITORIAL

Uma outra visão, na ContraMão Em um momento onde cada vez mais o centro das cidades vem sendo ‘’limpos’’ de moradores, bem como o campo expulsando os seus para dar lugar ao agronegócio, nos perguntamos, onde estão indo morar essas pessoas? Não é difícil encontrar a resposta ao observar qualquer bairro de periferia de qualquer cidade brasileira. Ao analisarmos a cidade de Teresina, podemos ver nitidamente esse processo. Na esperança de que na cidade a vida poderia melhorar, muitas pessoas vieram à cidade, a qual não lhes ofereceu a mínima estrutura e continua expurgando-os às zonas mais distantes dos centros urbanos. Essas zonas, nada preparadas para receber um grande contingente de pessoas, são muitas vezes obrigadas a ser o lugar de muitos moradores, sem haver anteriormente linhas de ônibus, escolas, postos de saúde, etc, ou seja, os recém chegados têm que lutar para conseguir sobreviver diversas vezes, pois morando tão distante, e realizando a maioria de suas atividades no centro das cidades, o custo de vida fica bem mais alto e o pior, lhes sendo negado o direito a voz, a comunicação. Esta revista, que é fruto de um processo de debates baseados na comunicação popular, compreende que todas as pessoas são capazes de produzir suas informações; que a construção coletiva possibilita a compreensão da comunicação com um direito humano e como ferramenta de libertação do povo. Logo, ela pretende expor o que geralmente não é exposto pela grande mídia, portanto, indo na contra mão dos grandes veículos de comunicação do Brasil, Piauí e Teresina. Expediente: Texto, produção e edição: Luan Matheus, Anielle Raquel e Carmem Kemoly Edição, revisão e diagramação: Luam Matheus, Anielle Raquel e Carmem Kemoly 6


Saneamento básico, é um dos grandes problemas da Vila Santa Barbara. Das 34 ruas, apenas 6 são calçadas, o restante forma um grande lamaçal no interior da vila. A formação de poças d’aguas também é um grande agravante para o surgimento do, popularmente conhecido, mosquitos da dengue. Esse é um dos grandes problemas enfrentados pelas famílias do bairro e o que gera mais indignação da população.

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A luta pe

Depois de ocupado, as pessoas que moravam no terreno que hoje é a Vila Santa Bárbara, passaram mais de um sem abastecimento de água, ou os moradores compravam a água ou tinha que buscá-la muito distante da vila. Só em 200 quando eles conseguiram alguns metros de canos, atraves da vereadora Tereza Brito, e eles mesmos começaram a cav colocar os canos improvisádos.


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Artigo Por Luan Matheus

A grande mídia

e a representação da

A palavra periferia refere-se àquilo que está à margem, distante dos espaços centrais. Para a grande mídia essa palavra já se tornou sinônimo de violência, tráfico e prostituição. Mas ate que ponto essa caracterização é verdadeira? Até que ponto visualizar as periferias brasileiras como espaços onde impera a violência serve para a transformação desses espaços? Cotidianamente nos deparamos com matérias do tipo “Dois jovens são brutalmente assassinados na periferia de Teresina, o motivo, segundo relata a policia, é dívida de drogas”. Nos programas de cunho policial, em especial, essas matérias já se transformaram em uma constante, a per10

iferia é apresentada à população como um ambiente perigoso, onde o crime e o tráfico de drogas são partes do cotidiano daquela comunidade, pior, parecem ser inerentes a elas. Falar isso, em parte, não é mentira, entretanto, apresentar a essas situações de forma fragmentada, descontextualizada de uma realidade social mais ampla e factual é um grande equívoco, que pode render erros grotescos e estereotiparão irreais, inclusive, inibir uma transformação que é perfeitamente possível. Que o tráfico, o crime, a prostituição e a violência estão bem mais presentes nas regiões periféricas dos grandes centros, isso é inegável. Mas analisar e veicular isso de


periferia forma simplista é um erro cometido todos os dias pelos grandes meios de comunicação. A criminalidade, a violência e o tráfico, só chegam onde o braço do estado não conseguiu alcançar. Na sociedade, tal qual na política, não há espaços para vácuos, onde o estado não chega, chegam outros e dominam. É assim que se implanta o tráfico de drogas. Da mesma forma, taxar um jovem da periferia de maconheiro ou drogado e dizer que isso é algo que depende dele é tão equivocado quanto. Para um jovem da periferia, sem educação de qualidade, com serviço de saúde precário e com pouquíssimas perspectivas de emprego, é muito mais confortante viver no mundo fantasioso proporcionado

Cena do filme “Comer, Rezar e Amar” com a atriz Julia Roberts,na cidade de Bali.

pelas drogas, que viver na sua dura realidade de exploração. Mas grande mídia prefere tratar isso como caso essencialmente policial, entretanto, essa questão vai bem mais além. É uma questão de política, ou melhor, de falta de políticas públicas que melhorem as condições de vida dessas pessoas e, no que se refere às drogas, é caso de saúde publica, afinal gasta-se mais no Brasil com segurança do que com tratamento de dependentes químicos, mesmo sendo comprovado que dependência química é uma doença. Mas isso parece ser ignorado pelos grandes meios de comunicação, que preferem o espetáculo, o sensacionalismo a uma caracterização mais ampla dos fatos e acontecimentos. 11


Edson de Araujo, ex. Presidente da Associação de Moradores, falando da construção da Escola Municipal Maricilio Rangel

“Eu tomei o terreno de um empresário e nele foi feita a escola, Marcilio Rangel. O terreno tinha um dono, tinha ate uma placa de venda. Ai eu fui falar o superintendente da SDU leste, Marco Antonio Linhares, e ele disse: Edson, se você conseguir adquirir um terreno, nós fazemos a escola imediatamente, porque nos já temos o recurso. Ai eu fiquei doido, meu deus essa oportunidade eu jamais que vou perder. Saí andando pela santa Barbara, avistei um terreno que só servia pra vagabundagem, ai eu peguei o telefone do dono do terreno e dei pro superintendente. Ele ligou pro dono do terreno, e quando foi pegar os documentos do homem na prefeitura ele tava devendo tanto que nem o terreno dava pra pagar. O superintendente me ligou e disse, Edson quer ganhar o terreno, eu disse quero. Então faca um documento, solicitando uma escola, nesse terreno. Ai a prefeitura liberou e conseguimos construir.”

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Isabel Cardoso do Monte, participou da ocupação e fala um pouco como era no começo.

Eu cheguei aqui com seis meses de ocupação, tinham uns 3 moradores na rua da frente, mais dois na rua de trás e um comércio. Atualmente apenas seis moradores que participaram permanecem na Santa Bárbara. Essa vila, na verdade, era terreno de empresários, tinha donos que pertenciam a Agespisa, secretários, pessoas que tinham recebido terra por herança. A santa Barbara na verdade era um conjunto de terrenos de vários donos. Teve alguns que recusaram vender para a prefeitura e venderam para as pessoas, inclusive duas ruas depois da minha casa tem um térreno com oito casas que foi vendido pelos proprietários direto para pessoas que estavam na ocupação.

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Transporte

Falta qualidade no transporte e sobra mentiras para a população

A integração das linhas de transporte coletivo em Teresina não está atendendo às necessidades da Vila Santa Barbara.

Apenas seis ônibus circulam pela Vila e os moradores reclamam da pouca frota e da enorme demora na espera do onibus. eles afirmam que passam mais de uma hora esperando onibus, sem contarna distancia do proprio bairro.

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U

m dos direitos fundamentais garantidos às pessoas é o de ir e vir. A vila Santa Bárbara, localizada na periferia da zona leste de Teresina sofre com sérios problemas com o sistema de transporte público. Após a ocupação da vila (1997), os moradores não tinham acesso a ônibus coletivos, a rota dos ônibus tinha parada final no Planalto Uruguai (bairro visinho a vila Santa Bárbara) e os moradores, para usufruir desses coletivos necessitavam deslocar-se até o bairro Planalto Uruguai. Algum tempo depois a frota dos coletivos chegou até a vila Santa Bárbara com apenas dois ônibus disponíveis para cerca de quinhentas famílias. Desde a chegada desses ônibus até os dias atuais o número de ônibus aumentou, passaram a circular seis ônibus na vila. Atualmente, a vila Santa Bárbara conta com ..... famílias. O seis ônibus que circulam toda a vila Santa Bárbara e abrangem os bairros visinhos como os loteamentos do grande Vale do Gavião, não são suficientes para suprir as demandas da população, que a cinco anos vivenciam essa realidade. Um dos problemas gerados pela pouca quantidade de ônibus na vila Santa Bárbara é a lotação. A estudante de Comunicação Social da Universidade Estadual do Piauí – UESPI e moradora da vila, Ester Sousa, diz que “os ônibus são super lotados, você não pode nem tirar o pé do lugar”, além disso, Ester nos relata sua realidade, uma vez estudante da UESPI “eu moro bem distante


da Universidade, na minha sala eu sou a pessoa que mora mais longe e por conta disso preciso sair mais cedo da aula todos os dias para conseguir chegar na Av. Frei Serafim a tempo de pegar o ultimo ônibus, pois se encerra cedo a circulação” A lotação é conseqüência da demora dos ônibus coletivos, outro fator relevante para os moradores do bairro, que apontam passar cerca de uma hora na parada de ônibus, além da espera, também há a distância da vila Santa Bárbara do centro da cidade, são mais de quarenta minutos de percurso. No dia dois de janeiro do corrente ano, entrou em vigor em Teresina o sistema de integração dos ônibus coletivos, o qual integraria inicialmente 32% das linhas da cidade. Junto com a implantação da integração, o prefeito Elmano Férrer anunciou no mesmo dia o aumento da passagem, que passou de R$ 1,90 para R$ 2,10. Para usufruir do sistema, o passageiro terá que adquirir uma carteira, pagando a primeira passagem e possuindo uma hora para conseguir fazer a integração. O sistema de integração não chegou efetivamente nas áreas mais periféricas da cidade, como é o caso da vila Santa Bárbara. Os moradores afirmam que ainda não conseguiram usar o sistema de integração e apontam falhas. Magda

Costa, moradora do conjunto Árvores verdes bairro visinho da vila Santa Bárbara, relata que não sabe as linhas

que integram com os ônibus do bairro “não sei as linhas que integram, isso ainda não vi na televisão”. Apesar da publicidade feita pela prefeitura de Teresina sobre o sistema de integração, a população não foi esclarecida, pois as propagandas começaram a ser veiculadas no mesmo dia da implantação do sistema na cidade. As zonas periféricas são áreas afastadas do centro da cidade, providas

ou não de ocupação, compostas geralmente por trabahadores/as de classe baixa e na vila Santa Bárbara não é diferente. Os moradores sentiram no bolso as conseqüências do aumento da passagem, grande parte precisa pegar quatro ou até seis ônibus cotidianamente. O Atual presidente da Associação de moradores do bairro, senhor Raimundo, fala sobre a qualidade do transporte público no bairro e afirma que as condições são péssima. “as condições dos ônibus são péssimas, eu mesmo já fui vítima, passe mais de uma hora na parada, e o trabalhador, se chegar atrasado o patrão demite”. Sobre a integração, o presidente diz que “não tem qualidade, não serve e não é bem-vinda para nós e para Teresina”. Raimundo ainda afirma que o sistema está errado “nem em Brasília é assim, lá você paga s´uma passagem e aqui querem cobrar duas, isso acontece porque infelizmente quem manda são os empresários” 15


Revista ContraMão