DESDOBRAMENTOS

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DESDOBRAMENTOS

MarinĂŞsBusetti RenataBasile


NAS DOBRAS O presente catálogo é o registro da exposição Desdobramentos, feliz encontro entre Marinês e Renata, duas artistas muito bem sucedidas em suas investigações plásticas realizadas a partir de processos multiplicadores da imagem. Pela reprodução de linhas e módulos, ambas engendram tramas e formas singulares, propondo um jogo sensual que envolve matriz, estampa e observador; pela intervenção sobre as impressões dão voz própria às gravuras, potencializando-as com narrativas independentes de suas matrizes. Renata Basile da Silva, paulista de Casa Branca (1962), desenvolveu os trabalhos expostos a partir da gravura em metal, que domina com maestria técnica e poéti-

das segundo sintáxes precisas e instigantes. Graduou-se em Licenciatura em Educação Artística (1981) pela FEEVALE, Novo Hamburgo, RS, e cursou pintura, escultura, desenho, xilo e litogravura com renomados artistas, entre os quais Diana Domingues, Valter Zanini, Julio Plaza, Dudi Maia Rosa. Participa de exposições desde meados da dédada de 1980, principalmente na Região Sul do Brasil, e também no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Uruguai e na Argentina. O encanto de Desdobramentos está na sensação de que tudo o que vemos na mostra é potencializado por experiências vividas, saberes acumulados, pesquisas pessoais de ordem prática, modos de fazer que sintonizam

ca. Graduada em Educação Artística pela FAAP (1986), foi aluna de Evandro Carlos Jardim, Regina Silveira, Nelson Leirner e Carlos Fajardo. Desde 1995 expõe regularmente em museus, galerias e instituições culturais no Brasil e em mais doze países da Europa e américas; recebeu em 2000 o Prêmio Especial da Trienal Internacional da Gravura da Polônia. Marinês Busetti, gaúcha de Farroupilha (1958), apresenta xilogravuras, estampas compostas por matrizes modulares articula-

poeticamente o possível e o real resultando em plasticidade e fruição. A palavra desdobramentos poderia provocar, em alguns, um discreto arquear de sobrolhos, caso fosse associada à ideia de campo expandido – ideia em si profícua, explorada com competência nos campos da escultura, arquitetura, gravura, mas que não raro escapa das fronteiras da expansão para os domínios da extrapolação, servindo de embasamento para anfibolias de tartamudos que a nada levam, senão à perplexidade e à pasmaceira.


Mas nessa exposição não se corre tal risco, aqui não se confunde subterfúgio e artifício, truque e recurso. O título Desdobramentos surgiu como referência ao processo de geração dos módulos geométricos criados por Marinês – cujos desenhos se baseiam nas linhas que vincam papéis de origamis desdobrados, aplainados –, e caiu como uma luva para as operações visuais realizadas por Renata. Ambas se apropriam de modo inovador de recursos da gravura, problematizando as relações entre matriz e estampa, a multiplicidade, a produção seriada, mas não deixam espaço para dúvidas: estamos sempre diante de imagens produzidas e gerenciadas por um pensamen-

superfícies impressas um tremeluzir que se nos internaliza cintilante. É muito bom de ver, dá barato! Depois, em outras de suas obras, sem que percebamos e com delicadeza singular, Renata nos induz à contemplação da materialidade da linha no tempo e no espaço. Impressas agora em tecido, a repetição ordenada das linhas – que sobre papel sugeria topografias virtuais –, oferece-nos um relevo concreto, maleável, plástico, engendrado a partir da fusão entre as ondulações, dobras e desdobras do pano e as linhas de tinta, cujos desenhos rigorosamente imperfeitos e simetricamente desiguais elevam a extremos o prazer que seguir caminhos proporciona à

to eminentemente gráfico, diante de gravuras da melhor qualidade. Renata e Marinês não demonstram nada, apenas mostram; daí a excepcional potência de seus trabalhos. A matéria-prima de Renata são as linhas, e com elas ela nos convida a refletir, primeiro, sobre traço, fio, trama. Diante de algumas de suas composições, nos perguntamos se estamos a contemplar faixas ou riscos, e esse simples questionamento, elementar gestaltismo, abre caminho para que a fantasia assuma o comando e acenda nas

maioria dos olhos. Do papel (pasta fibrosa) para a cambraia (fibras tecidas), e desta para a tarlatana (fios trançados em trama aberta, trapo rústico utilizado na limpeza das matrizes de cobre): neste outro suporte, Renata nos propõe um jogo entre representação e apresentação. As linhas de tinta confundem-se e fundem-se aos fios da tarlatana. Sobrepostos em camadas, os trapos impressos revestem-se a si próprios com transparências, profundidades, novas tramas; as linhas impressas somadas


aos fios concretos dos trapos se organizam, assim, em objeto ímpar, mas ainda francamente afiliado ao universo da gravura. Assim como Renata, Marinês também explora a multiplicação da imagem enquanto temática, mas ao invés de valer-se de linhas convoca módulos geométricos, os quais rotaciona, rebate, inverte, articula segundo uma gramática secreta porém evidente. Tratando quase tipograficamente suas pequenas matrizes de madeira, como se cada posição ou combinação pudesse ser codificada como uma letra, Marinês as organiza em sucessivas impressões sobre um mesmo substrato, compondo assim poemas visuais, complexos quebra-cabeças que atraem o olhar pela dúvida, pela ilusão do trompe l’oeil, fenômeno óptico que tanto agrada à visão desde a antiguidade clássica. Não é apenas pelas relações ambíguas entre figura e fundo, luz e sombra, côncavo e convexo que Marinês nos convida a participar de sua aventura criativa. Em alguns de seus trabalhos vale-se da reação entre papel-camurça vermelho ou preto e tinta de impressão que resulta em intrigante transparência, na qual são acrescentados brilhos feitos a lápis coloridos, realces que deman-

dam do observador o prazeroso esforço de identificar e optar pelo entendimento, por exemplo, do cheio ou do vazio simultaneamente apresentados pela imagem. Em um outro interessante desdobramento, a repetição e justaposição dos módulos geométricos gera “mosaicos” impressos de grandes formatos. Sobre eles, Marinês intervém colando formas correspondentes sobre áreas e pontos específicos da impressão original, recortadas de impressões realizadas com a mesma matriz em substratos inusitados, tais como jornais e páginas de revistas. Desse modo, pelo tratamento da cor e da textura as mesmas formas se conformam em desenhos diferentes, gerando tensões e movimentos visuais que nos transportam à absorção. Percorrendo a exposição percebe-se que tais movimentos e tensões são reforçadas pela opção curatorial de mesclar os trabalhos das duas artistas, configuração que imprimiu ritmo ao jogo entre a visão de caleidoscópio de Marinês e a linear de Renata, propondo ao olhar uma agradável sequência investigativa. Desdobramentos apresenta-se, assim, como um irrecusável convite para que se indague o que afinal pode estar oculto entre todas essas dobras. WALDEMAR ZAIDLER


Renata Basile Sem tĂ­tulo 120 Ă— 160 cm Gravura em metal e assemblage sobre tecido 2015


Marinês Busetti Estrelas – cor 1, 2, 3, 4, 5, 6 50 × 50 cm Colagem e desenho sobre xilogravura 2014




Renata Basile Sem tĂ­tulo 135 Ă— 72 cm Gravura em metal sobre tecido 2015


Renata Basile Sem tĂ­tulo 195 Ă— 76 cm Gravura em metal sobre tecido 2015


Marinês Busetti Fractal – variação 3

Marinês Busetti Fractal – variação 4

80 × 80 cm Colagem sobre xilogravura 2014

80 × 80 cm Colagem sobre xilogravura 2014


Marinês Busetti Cisne – variação 1 48 × 48 cm Xilogravura 2006

Marinês Busetti Cisne – variação 2 48 × 48 cm Xilogravura 2006

Marinês Busetti Cisne – variação 3 48 × 48 cm Xilogravura 2006


Marinês Busetti Cisne – variação 6 80 × 80 cm Colagem e desenho sobre xilogravura 2015


Marinês Busetti Diamante – variação 1

Marinês Busetti Diamante – variação 2

Marinês Busetti Diamante – variação 3

30 × 30 cm Xilogravura 2006

30 × 30 cm Xilogravura 2006

30 × 30 cm Xilogravura 2006


Renata Basile Sem tĂ­tulo 142 Ă— 78 cm Gravura em metal sobre tecido 2015


Marinês Busetti Tulipa – variação 1 48 × 48 cm Xilogravura 2006

Marinês Busetti Tulipa – variação 2 48 × 48 cm Xilogravura 2006

Marinês Busetti Tulipa – variação 3 48 × 48 cm Xilogravura 2006


Renata Basile Sem tĂ­tulo 91 Ă— 78 cm Gravura em metal sobre tecido 2015


Marinês Busetti Caleidoscópio – variação 4

Renata Basile Sem título

Renata Basile Sem título

65 × 65 cm Colagem sobre xilogravura 2015

147 × 69 cm Gravura em metal e monotipia sobre tecido 2015

190 × 75 cm Gravura em metal sobre tecido 2015



Renata Basile Sem título

Renata Basile Sem título

135 × 72 cm Gravura em metal sobre tecido 2015

135 × 72 cm Gravura em metal sobre tecido 2015


Marinês Busetti Metamorfose 2

Marinês Busetti Metamorfose 7

100 × 28 cm Xilogravura 2009

100 × 28 cm Desenho sobre xilogravura 2009


Renata Basile SĂŠrie Linhas 78 Ă— 72 cm Gravura em metal 2012



Renata Basile SĂŠrie Linhas 78 Ă— 72 cm Gravura em metal 2012


Marinês Busetti Caleidoscópio – variação 1

Marinês Busetti Caleidoscópio – variação 2

65 × 65 cm Xilogravura 2006

65 × 65 cm Xilogravura 2006


Marinês Busetti Catavento – variação 1 80 × 80 cm Desenho sobre xilogravura 2014


Marinês Busetti Estrela – variação 1

Marinês Busetti Estrela – variação 1

26 × 26 cm Desenho sobre xilogravura 2006

26 × 26 cm Xilogravura 2006

Marinês Busetti Estrela – variação 2

Marinês Busetti Estrela – variação 2

26 × 26 cm Xilogravura 2006

26 × 26 cm Desenho sobre xilogravura 2006

Marinês Busetti Estrela – variação 3

Marinês Busetti Estrela – variação 3

26 × 26 cm Desenho sobre xilogravura 2006

26 × 26 cm Xilogravura 2006


MARINÊS BUSETTI (Farroupilha, RS, 1958) graduou-se em Licenciatura em Educação Artística (1981) pela FEEVALE, Novo Hamburgo, RS, e fez cursos de aperfeiçoamento com Vasco Prado, Danúbio Gonçalves, Anico Herskovits, Valter Zanini e Julio Plaza, entre outros. Expõe seus trabalhos regularmente desde meados da dédada de 1980, principalmente na Região Sul do Brasil, e também no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Uruguai e na Argentina. Em seu ateliê – um charmosíssimo chalé próximo ao Vale dos Vinhedos – recebe regularmente a visita de turistas, estudantes e público em geral, além de grupos de alunos para workshops.

DESDOBRAMENTOS 22 DE MAIO A 27 DE JUNHO DE 2015 CURADORIA PRISCILA MANIEIRI APRESENTAÇÃO WALDEMAR ZIDLER

APOIO INSTITUCIONAL

www.marinesbusetti.com CATÁLOGO

RENATA BASILE DA SILVA (Casa Branca, SP, 1962) é graduada em Educação Artística pela FAAP (1986), onde foi aluna de Evandro Carlos Jardim, Regina Silveira, Nelson Leirner e Carlos Fajardo. Desde 1995 expõe regularmente em museus, galerias e instituições culturais no Brasil e em mais doze países da Europa e américas; recebeu em 2000 o Prêmio Especial da Trienal Internacional da Gravura da Polônia.

PROJETO GRÁFICO CLAUDIO ROCHA FOTOGRAFIA EDSON KUMASAKA E CÂNDIDA PHOTO ART

www.renatabasiledasilva.com

RUA ISABEL DE CASTELA 274 VILA MADALENA SÃO PAULO TEL 11 3031.8727 www.ateliepriscilamainieri.com.br


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