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adega por Didú Russo

Paladar preservado Até o início do século passado, todo vinho era orgânico, como toda a agricultura também – não havia produtos químicos para “fertilizar” a terra ou para matar pragas e doenças, que eram combatidas com o equilíbrio natural. A humanidade viveu sem produtos químicos na agricultura até a Primeira Guerra Mundial, quando a indústria química desenvolveu os fertilizantes com sobras de munição, essa é a história contada por um dos grandes produtores biodinâmicos de Bordeaux, Jean-Pierre Amoreau do Château Le Puy (www.worldwine.com.br). Acreditava-se que a guerra duraria muito mais tempo e a indústria química não teria o que fazer com a enorme quantidade de produtos inorgânicos que sobrara. Assim nasceu o fertilizante. Os fertilizantes realmente funcionaram, mas quebraram o equilíbrio orgânico da terra que não respondia mais naturalmente aos ataques de insetos, pragas,

fungos etc. Assim a mesma indústria química desenvolveu os pesticidas, herbicidas e fungicidas, tornando a agricultura refém de seu negócio. Hoje há um grande movimento no mundo do vinho em busca de vinhos puros, livres de químicos que possam mostrar o verdadeiro terroir sem contaminar nem a terra e nem o consumidor. Um dos mais ardentes defensores da biodinâmica, Nicolas Joly, que produz o Clos de La Coulée de Serrant, (www.grandcru. com.br), um chenin blanc que é tão importante que tem uma Appellation d’Origine Controlée só dele, a AOC Coulée de Serrant, em Savennières no Vale do Loire, estará em São Paulo no 2º Encontro dos Vinhos da Renaissance des Appellation, que acontecerá nos dias 8 e 9 de novembro na Casa da Fazenda. Se você gosta de vinhos, não deixe de participar. Você vai cair de costas com o que provará, estarão presentes mais de 40 produtores, entre eles vários da De La Croix

32 | 29HORAS | de 29 de outubro a 29 novembro de 2010

Uvas sem agrotóxicos produzem vinhos extraordinários, únicos

(www.delacroixvinhos.com. br), uma importadora que só importa orgânicos e naturais. As pessoas céticas preferem ridicularizar o que a ciência não sabe explicar, mas não sabem dizer por que uma videira podada em lua minguante não cresce, enquanto a que foi podada em lua cheia floresce com vigor. Em biodinâmica

todas as soluções são naturais, parte-se do principio que a doença é um desequilíbrio e a cura não está no remédio químico, mas sim na busca do equilíbrio. Como esse conceito não faz dinheiro em indústria alguma, eles são criticados. Mas prove um vinho desses e depois me conte.

Uva inteligente

“Raisonée” ou sustentável, integrada. É o primeiro passo em defesa da preservação do solo. Procura-se respeitar a videira e seu meio ambiente, mas se o nível de “tolerância” é ultrapassado em caso de controle de pestes ou doenças, recorre-se aos produtos químicos. Não há um órgão regulamentador ou fiscalizador. Orgânico ou biológico, como se fala na Europa, é aquele vinho produzido em um vinhedo que não usou, em nenhuma etapa de sua produção, fungicidas, herbicidas, pesticidas ou qualquer aditivo químico no produto. Seu manejo, como antigamente se fazia, se baseia em produtos naturais e em equilíbrio biológico, para impedir o surgimento de insetos, fungos, ervas daninhas e outras enfermidades da vinha. Há órgãos certificadores e fiscalizadores de todo o processo. Biodinâmico. Busca os conhecimentos de antroposofia de Rudolf Steiner, que inclui toda a dinâmica ou energia envolvida na vida. Utiliza-se de preparados em bases de dinamização da homeopatia, com diluições de compostos e preparados diversos de ervas para tratamento das videiras. Os mais radicais não permitem nenhum recurso externo durante a fermentação, desinfecção, estabilização, filtração ou adição de anidrido sulfuroso. Natural. A cultura é sempre orgânica, não necessariamente biodinâmica, mas não aceitam SO2, em nenhuma quantidade. sxc.hu

Orgânicos, biodinâmicos e naturais, os vinhos verdadeiros são produzidos sem agredir o solo nem a saúde do consumidor

revista 29HORAS - ed.13 - novembro 2010  
revista 29HORAS - ed.13 - novembro 2010  

Revista mensal com agenda cultural de São Paulo, distribuída no Aeroporto de Congonhas. Capa: Uma Ode a Congonhas