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Sumário 2. Prólogo – 300 anos atrás 4. 1ª Vida – Reencarnação 8. 2ª Vida – Tempestade 12. 3ª Vida – Revolta 16. 4ª Vida – Revelação 20. 5ª Vida – Aflição 26. 6ª Vida – Reminiscências 35. 7ª Vida – Traições 39. 8ª Vida - Morte 43. 9ª Vida - Sobrevivência

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Prólogo - 300 anos atrás "Num mundo desesperançoso, a humanidade se depara com antigas esperanças... ... mas, tudo estará bem, desde que Deus não se confunda com o homem. " Era uma noite límpida como um lago de vida, porém parecia que a lua cheia daquela noite estava tingida de trevas e sangue. Sob esse esplendoroso luar alguém ou alguma coisa corria desesperadamente pela neve densa que ocultava o solo irregular, fora as árvores retorcidas que emaranhavam o caminho para dentro do que aparentava ser uma floresta um tanto sombria. -Peguem-no! - diz uma voz rouca, quase gutural - Ele está escapando para a floresta!! E está ferido!! Será fácil pegá-lo!!! -Mas senhor, - diz outra voz - ele é um oponente terrível, tanto que já nos causou várias baixas... O jovem rapaz, utilizava uma tradicional veste japonesa do período feudal, carregando sua espada nas mãos trêmulas quase a derrubando, seus pés afundando na neve fofa. O homem a sua frente, parecia medir dois metros de altura, de olhos penetrantes, provando sua bravura e o seu estilo arrogante e presunçoso, emanava de seu corpo uma aura de morte que intimidaria qualquer um daqueles q se atrevessem a desafiá-lo para um duelo. -SILÊNCIO!!! - diz rispidamente - Não me diga o que fazer!!! Ele teve a ousadia de roubar aquela espada e com ela assassinou muitos de meus subordinados!!! Temos que recuperar a espada sagrada o mais rápido possível que ele ousou roubar mesmo que isso custe as nossas vid*...! - sua voz, assim como a luz da lua é cessada repentinamente como se fossem arrastados para um espaço atemporal. Um vento silencioso se tornara o único ruído que ocorria naquele lugar, quando as nuvens começavam a se retirar de cima da enorme área assombrando aqueles mais de trinta homens ali presentes: o belo luar resplandecia na lâmina negra que refletia o rosto inerte do líder com uma expressão mórbida de terror sufocando o grito enquanto se afogava em seu próprio sangue que se esvaia junto de sua vida por entre seus dedos, o qual, num inútil esforço, tentou segurar a lâmina que trespassava seu pescoço, até que não resistir mais e desabar inerte na neve. Todos observam a cena completamente perplexos devido à tremenda capacidade furtiva dele em se aproximar. Era um homem claro, com possíveis dezessete anos, cabelos negros sujos da poeira e sangue acumulados, olhos negros como o leito de um rio à noite, trajava roupas esfarrapadas devido à perseguição, que outrora fora um belo kimono, sem contar as feridas pelo corpo. Em suas mãos repousava uma belíssima katana de lâmina negra como o universo, que resplandecia com o sangue de sua mais recente vítima. Os homens que ali estavam, começaram a recuar, quando de repente uma voz se fez ouvir em meio aquele silêncio: -Já vão fugir do inimigo, covardes?!? - a voz que ecoou era sutil e continha resquícios de frieza, mas causou uma mudança no assassino, como se lhe fosse familiar - Um guerreiro jamais abandona a batalha, não importa a quão esta lhe pareça perdida!! ... ... não é... Setsuna. O desdém com o qual ele falava causava um turbilhão de emoções nos homens ali

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presentes. -O que houve? O que fazem aí parados? Por acaso, além de covardes, vocês são surdos? O estranho parecia ter relativa pressa em relação à morte de Setsuna. -S... Se é assim... porque o senhor mesmo não o faz? Se aquele homem soubesse com quem estava falando, talvez tivesse a chance, embora remota, de morrer menos dolorosamente. Mesmo o hábil daqueles homens não conseguiria escapar daquele ataque, exceto talvez, Setsuna, que viu o indivíduo sair de onde se encontrava a pelo menos 15 metros de distância, correndo tão rapidamente, que seu corpo parecia deitar no solo devido ao potente impulso de suas pernas, que o davam uma agilidade sobre-humana, com a qual ele retirou a espada da bainha de um dos homens mais próximos, e com um salto mortal cravou-a na altura da clavícula do alvo, fazendo-o urrar de dor, caindo logo em seguida sobre a neve alva. -É... é I... Ib... Ibuki!! - um dos homens murmurou ao fundo. -É ele mesmo! - disseram outros dois, seguidos de vários comentários entre eles enquanto notavam que ele se erguia, mostrando ser bem alto, de cabelos acinzentados com tons de branco, belos e compridos, com olhos de um vermelho quase sádico, trajado com um belíssimo kimono branco em cima e vermelho embaixo, além de sua katana embainhada na cintura. -Alguém mais?? - sibilou friamente Ibuki, fazendo com que todos os presentes avançassem como que impelidos a não desobedecer, para não dizer que foi por medo. O que se seguiu após não pode ser descrito em palavras mais sutis do que carnificina, pois foi exatamente o que houve por sobre aqueles belos campos nevados. Tamanha a quantidade de sangue derramado ali, que aos olhos daqueles homens, o céu parecia ter se tingido de vermelho Ao término de tudo, o jovem Setsuna, vitorioso, se ergue e começa a avançar em meio ao tapete de corpos e vísceras humanas em direção ao último de seus perseguidores que jazia aterrorizado ante uma chacina de tamanha frieza e proporção. Suas vestes se encontravam encharcadas devido à urina conseqüente do medo, e quando tentava em vão se afastar a passos trôpegos eis que uma adaga lhe atinge pelas costas tomando sua vida. Nisso, Setsuna ouve um bater de palmas e ao olhar mais adiante seus olhos se enchem de fúria e ódio. -Meus parabéns... Setsuna. - diz a imponente, porém bela voz masculina de Ibuki que se desvencilhara de sua vítima. ......... Silencio. Nada se movia naquele instante,como se toda espécie de movimento houvesse sumido, até mesmo a vida e a morte pareciam ter cessado seus processos, o que se passou em alguns segundos era como se fossem horas de tensão e nervosismo. Até que uma leve brisa da madrugada fez a gotícula de suor frio escorrer pelo rosto de Setsuna que fixava seus olhos na figura prostrada em sua frente. Ibuki era um belo exemplar de como um homem pode apresentar formas quase perfeitas de músculos sem o menor exagero ou marca. -I... I-IBUKI!!! - sua voz parecia temerosa ao sair - O que você faz aqui?? -Ora Setsuna, isso são modos de receber um amigo? - sua voz condizia com sua aparência sublime, dando-lhe uma nobreza ainda maior do que aparentava - Eu só vim aqui para recuperar a espada negra que você roubou. Mas veja como você está... 3


-Isso não importa, nem você vai me impedir agora!!! Com a espada em riste, Setsuna se prepara para duelar. -Oh, então ainda lhe restam forças nesse corpo maltratado pela perseguição?? E acha que essa ínfima resistência vai ser capaz de me deter? Meu jovem e inexperiente Setsuna... Seu tom sereno se tornava quase uma zombaria. -Então que assim seja! - por um breve instante sua voz encorpara um pouco mais - Vamos ver o que você ainda pode fazer nesse estado. Com espadas em punho, ambos se lançam no embate um contra o outro e atacam.

1ª Vida – Reencarnação "Reencarnação, outra vida para um mesmo espírito; Você só passará a acreditar nisso no dia em que isto lhe acontecer; Estaria disposto a se arriscar?... " -Setsuna! Início de manhã, os raios solares transpassam a fina cortina do seu quarto, ofuscando seus olhos ao acordar, os cabelos negros desgrenhados mais a expressão assustada e o suor frio que lhe corria o rosto lembrava o sonho que tivera nas noites recentes... -SETSUNA!!! Acorde!! - uma voz feminina, fazendo com que o mesmo se levante como que acordado de um pesadelo - Você vai perder a hora do treino!! -(uahhh...!!!)Já vou mãe! - se levanta um jovem rapaz aparentando seus 14/15 anos, corpo esguio, mas ao mesmo tempo com certa tenacidade, cabelos negros relativamente longos e brilhantes pouco abaixo dos ombros, olhos tão negros como nanquim. Seu quarto é bem simples, uma bela cama de mogno com a fronha derramada dela abaixo, forrando o chão, pôsteres de filmes de artes marciais principalmente orientais, uma pequena escrivaninha com revistas, papeis e ao lado recostado verticalmente um bokutou [www.alphanet.ne.jp/users2/iwataco/bokut.html] com o kanji de sinceridade na altura do cabo. Em poucos instantes ele recolhe a espada, coloca uma roupa simples composta de uma calça cáqui relativamente folgada e uma camisa com o nome de Miyamoto Musashi [http://www.niten.org.br/miyamoto_musashi.htm] em kanji estampado na frente. -Mas que droga! Esse sonho de novo!! O que era tudo aquilo? E tinha alguém que lembrava a mim mesmo... -Filho, o que houve? - a voz de sua mãe ecoava pela casa inteira - Você se esqueceu de seus treinos de novo? É sempre assim!! Eu tenho que ficar te acordando!!! Da próxima vez, eu não vou te chamar!!! - ela sempre falava isso, mas acabava repetindo a mesma cena toda vez que tinha treino. A figura comum de sua mãe pondo o desjejum à mesa já lhe era rotineira, no entanto, ele sempre notara que ela permanecia bela e jovial em seus quase 40 anos, os longos cabelos negros e sedosos som poucos fios brancos indicando sua maturidade, olhos ternos e maternais contrastando com seu avental branco de detalhes azuis, por sobre suas vestes de um verde suave:

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-Quer perguntar algo filho? -Não... er, hum... Já teve um sonho em que você vivesse algo real como se fosse outra pessoa em outra vida? -E desde quando você passou a acreditar em reencarnação? -Eu não acredito, mas... -Mas...? -... ah, deixa pra lá. Contudo, a sensação não deixou de assombrá-lo a todo instante com a imagem daquele lugar e toda aquela carnificina envolvendo alguém muito semelhante a ele. Como de costume, terminou seu café, colocou seu bokutou na cintura para se parecer com um samurai de verdade, como ele dizia a todos e deu seu beijo de despedida em sua mãe sem saber que esta seria a última vez que a veria. Os fachos de luz solar passam por entre os galhos retorcidos e formam, junto as pétalas de cerejeira, um corredor belíssimo com cadências de luz e sombra cobrindo o chão ladrilhado. Poucas pessoas passam pelo local, mas naquele instante a quietude e paz seriam brutalmente quebradas.... BLAM!!! No mesmo instante, um homem que passava correndo tomba sem sequer gritar, quando cruza com Setsuna pela transversal, o qual, por reflexo, saca seu bokutou no mesmo instante em que outro indivíduo cruza com ele, fazendo com que o susto o projetasse para trás e, sobre o calcanhar girasse com a espada, atingindo um terceiro que vinha logo atrás, na altura do abdômen, lançando-o ao chão. -ARGH!! Arf, arf... - o homem tem até dificuldade de respirar devido ao impacto do golpe -... s-seu... IDIOTA!! Hah... acabou de ajudar um criminoso a fugir... ugh! Não vá me dizer que você era cúmplice deles? - a arma ainda fumegante em sua mão e seu olhar fulminava seu alvo na intenção de incriminá-lo pela fuga do criminoso. -N-não! Eu apenas estou indo para minha aula de kendo... http://www.niten.org.br/kendo.htm?gclid=CPm7sdfN5IgCFRZ9NAodjVqFbg - diz, tentando arranjar uma escapatória da enrascada em que se meteu -... justo agora que eu estava no meu quarto dia de aula e começava a pegar o jeito... -Sem essa garoto! - o tom rude na voz indicava que ele acabara de se enrascar. -Vai me dizer que você é um principiante e que não faz idéia do golpe que acabou de aplicar em mim!!! ... O estranho se deteve por um instante como que pensando consigo mesmo e de repente tão abrupto como parou de falar ele retornou: -ISSO É UM COMPLETO ABSURDO!!!! É SIMPLESMENTE INADMISSÍVEL QUE ALGUÉM APLIQUE COM TAMANHA DESTREZA E PRECISÃO UM GOLPE NA NUCA DE UMA PESSOA COMO ESSE QUE VOCÊ ACABOU DE EXECUTAR!!!! - Ele respirou um pouco e prosseguiu - Preste atenção, você girou seu corpo inteiro, que devido a sua estatura, deve possuir cerca de uns 50 kg sobre os calcanhares, desembainhou sua espada e ainda me acertou na parte de trás da cabeça. Sem contar que se sua espada fosse de verdade, minha cabeça a esta hora estaria rolando pelo chão. E você ainda vem me dizer que não foi de propósito!!!!!!! Quem você pensa que eu sou??? 5


-M-ma-mas... eu não.... O rapaz se deteve por um instante e chegou a inspirar profundamente, como se estivesse assimilando toda aquela informação que ele mesmo acabara de pronunciar até que de súbito ele continuou: -Não tenho escolha, vou levá-lo comigo como suspeito de envolvimento no crime como cúmplice do fugitivo! - ao ouvir essas palavras, somado a aparência do homem a sua frente de cabelos negros curtos e bem lisos que caem como poesia por sobre sua face arrojada de olhos rubros, um sobretudo de couro leve que lhe cobre quase por inteiro seu corpo alto, contrastando com a blusa branca sem gola já desgastada devido ao provável uso contínuo, calça jeans folgada e sapatos sociais já bem gastos devido suas últimas "aventuras", além, é claro de suas armas, as quais ele não lembrava o nome mais pelo medo do que pela falta de conhecimento, Setsuna tenta sair correndo, porém acaba caindo desacordado após um golpe dado pelo estranho. -Droga, me esqueci que era apenas uma criança. Agora só me resta levá-lo comigo e... No instante em que se dirigia para pegá-lo, um suor lhe percorre a espinha e uma sensação de terror paira sobre o local. A pressão atmosférica parece sofrer mudanças ao redor dele formando uma pequena névoa em torno do local que, para espanto do homem a sua frente, dá a impressão de que um demônio havia surgido naquele instante. Parecia que tudo à sua volta havia parado. Como se até mesmo vida e morte tivessem cessado apenas para observar o que acontecia naquele local. O suor frio que lhe escorria pelo rosto demorou apenas uns dois segundos para descer-lhe a face, mas para ele, esses dois segundos foram os mais longos de toda a sua vida. -Foi você que me libertou de meu sono? - brada uma voz imponente, ao que surge a sua frente, como que se erguendo do chão, um homem idêntico ao jovem que acabara de cair, porém, mais maduro, os mesmos cabelos negros, agora mais compridos, mesma roupa, mais justa ao corpo devido aos músculos desenvolvidos e uma expressão de alguém que não hesitaria em matar qualquer um que se pusesse em seu caminho. -Hmmm... jamais imaginaria que justo alguém como você poderia me despertar, porém fiquei realmente impressionado com a precisão do tiro que derrubou aquele homem. Seu olhar se fixa no indivíduo à sua frente e se demora um pouco mais em suas armas, duas Magnum 9mm http://www.usefilm.com/image/897210.html de aço reforçado, que intimidariam qualquer um, exceto o homem a sua frente trajando calças pretas, camisa branca e portando uma simples espada de madeira. Já que me despertou, poderia me dizer o seu nome? Afinal, você é a primeira pessoa com quem falo em quase 300 anos. -Hah, haha... HAHAHAHAHAH!! - o tom descrente na risada foi quase uma ofensa TR-Trezentos anos?! Você está louco? Mas enfim... meu nome é Ino, Ino Kawazaki, sou detetive e atirador especializado em caçar assassinos, também conhecido como "The Shot". -Mas, pensando bem... - olhando ao redor, ele nota que o garoto, o qual ele nocauteara momentos antes, não se encontrava no local -... onde está o garoto? O que fez com ele?? -Pensei que era mais inteligente Ino. - suspira - Vou te ajudar... note minhas roupas e minha fisionomia. Por um instante, Ino prestou atenção e uma expressão de espanto veio-lhe à face: -I-impossível, não pode ser... 6


-Isso mesmo!! Até que enfim usou o cérebro! - mesmo desnorteado, Ino notou o tom irônico na voz de Setsuna - Eu e o garoto somos um só! Por acaso já ouviu falar em reencarnação?! Muitos não acreditam nisso, porém, poucos viram o que eu vi. -E o que você viu? - a curiosidade bateu à porta de sua mente. O que você acha? Que pode chegar e descobrir tudo sobre mim assim só por ter me despertado? Se quiser mesmo saber, basta me derrotar e talvez eu possa te ajud... Antes que ele concluísse, Ino furiosamente investe correndo e aplica um golpe com a palma da mão atingindo o queixo de Setsuna que é arremessado longe sem esboçar nenhuma reação. Ao erguer-se, Setsuna já nota seu adversário "colado" nele, o qual aplica seguidos golpes, terminando com um chute giratório violento que o faz cair de joelhos, seguido de um segundo chute, descendente (N.E: todos os golpes visando a cabeça) que é parado pela mão esquerda de Setsuna com uma certa facilidade e com a outra, ele aplica um golpe ascendente utilizando sua espada. Ino até se desvia do golpe, no entanto, uma rajada de ar o arremessa longe. Ino verifica sua camisa, agora rasgada como se tivesse sido cortada. !!!-O que... como ele fez aquilo?! Só pressão de ar e ele me lançaram tão longe... bleargh!!! Ino cospe sangue, sinal de que algum órgão interno fora atingido. -Como, como pode ter tamanha violência em um ataque tão simples, hah, hah...?! -Bwahahah...! Você é divertido, meu amigo, vou lhe dar uma chance. Utilize essas armas para tentar me causar algum dano significativo. -Então ele nem sequer sentiu meus golpes!! - pensa Ino abismado com a força e resistência absurdas de Setsuna - Que seja então! Ele corre rapidamente, avançando contra seu oponente com uma seqüência quase desumana de cinco chutes circulares, que são bloqueados, pra não dizer, desviados. Nisso, sem nem ao menos diminuir seu ritmo ou velocidade, Ino aplica dois chutes aéreos que finalmente atingem Setsuna no abdômen. " Os golpes estão se fortalecendo conforme a raiva se acumula! " Em seguida, o detetive aplica uma cotovelada que Setsuna habilmente defende com o cabo de sua espada ao mesmo tempo em que Ino engatilha e destrava sua arma, girando no próprio eixo mirando enfim no meio dos olhos de seu alvo, como os de um tigre ao ser atacado subitamente por sua presa acuada. Em uma fração de segundo um estampido ecoa por toda a bela rua com suas cerejeiras de pétalas tão rosadas quanto à pele de um bebê recém-nascido. Como que movido por puro instinto, Setsuna arqueia seu corpo para trás no momento em que Ino aperta o gatilho, como se tivesse ouvido o som das pequenas engrenagens da arma, o que faz com que a bala resvale em sua testa, arrancando-lhe alguns fios de cabelo. -Eu... errei o alvo... - sussurra Ino, completamente atônito com a cena que acabara de presenciar. -E então Ino, o que houve? Vai me dizer que o ilustre policial Ino, mais conhecido como The Shot, é só isso? - zomba Setsuna - Ou será que você está perplexo por eu ter manchado a sua reputação ao fazê-lo errar seu primeiro tiro em anos de carreira... -Como sabe que é o meu primeiro erro? - indaga Ino surpreso por seu adversário conhecer tanto a seu respeito - Você não disse estar dormindo? -De fato. - conta Setsuna - no entanto, eu sei de tudo o que se passa na vida do jovem que me hospeda em seu corpo, portanto ainda que ele não se lembre de você eu acabo de 7


lembrar perfeitamente de uma ocasião quando "vimos" um artigo seu há algum tempo. -Como assim "hospeda"? Você não reencarnou nele?! -Me derrote primeiro e responderei à sua pergunta. Nesse instante, Setsuna sente alguém espionando a luta, ao mesmo tempo em que um calafrio lhe percorre o corpo, como há muito não acontecia. Foram apenas uns 10 segundos, mas, estes pareceram-lhe uma eternidade, como se todo movimento e até mesmo o tempo cessasse. Assim como nossas vidas abandonarão nossos corpos algum dia. Após este lapso, Setsuna simplesmente ignora seu adversário e parte em disparada, adentrando num emaranhado de becos que parecem formar um mini-labirinto que em nada lembra a bela rua em que se encontravam momentos antes. -O que houve com ele? Vai fugir de mim? Não, é como se algo tivesse feito com que ele se distraísse e voltasse suas atenções para outro lugar. Sem se dar conta, Ino parte no encalço de Setsuna, confuso, porém determinado a não perdê-lo de vista. Enquanto isso, Setsuna, desestabilizado, segue a presença pelos becos esquecendo-se completamente de seu oponente, que apesar de parecer inferior em habilidades, ainda é um exímio atirador, que dispara contra uma superfície de metal, a qual reflete o tiro para outro corredor, ricocheteando em outras superfícies de modo que o projétil retornou em seguida contra o peito de Setsuna, que reclina o corpo, surpreendendo Ino, que quase recebe o ataque de volta. -Eu não entendo?? Mas afinal de contas quem, ou o que diabos é esse cara que já me fez errar por duas vezes seguidas?!? Será que o que ele diz é verdade... NÃO!!! Reencarnação não existe!! E o que ele quis dizer com se hospedar no corpo do garoto? - movido por estas dúvidas e algo mais que nem mesmo ele saberia dizer, Ino continua sua perseguição até que enfim chegam a um corredor amplo onde ele consegue mirar com a destreza de sempre, no entanto bem mais desestabilizado do que de costume devido às proezas de seu mais novo adversário, afinal, ele parece ter um sexto sentido que talvez o faça sentir até a mais leve poeira que pairava no ar, imperceptível pra qualquer um. Ino começa a suar frio, seu corpo treme, a pele empalidece, era quase como se por alguns instantes, a morte invadisse sua alma, como que tentando arrancá-la à força de seu corpo, sensação que ele só havia experimentado naquela ocasião há alguns anos. Imagens de um jovem baleado, uma bela moça de cabelos azuis arrojados e tantas outras confusas lhe vêm à mente. Finalmente ele aperta o gatilho. Os quase cinqüenta metros são supridos rapidamente, porém, no instante em que ia ser alvejado, Setsuna se abaixa girando seu corpo e golpeando com sua bokutou, partindo o projétil em dois (!). -Is-is-s-so,... é imp-p-possível! - balbucia Ino antes de cair de joelhos.

2ª Vida – Tempestade "Um soco dado uma vez é apenas um soco; um soco dado mil vezes é mais do que um soco; um soco dado mais mil vezes volta a ser um soco;

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mas e quem levou os socos, poderia dizer o mesmo? " O tempo parou. O mundo desabou sobre a cabeça de Ino, ainda ajoelhado devido ao choque de ver algo que parecia ser impossível acontecer diante de seus olhos. -O que houve Ino? Parece ter visto um fantasma? - a ironia de Setsuna parecia ter um resquício de lembranças há muito abandonadas - Levante-se! Você tem garra e determinação boas demais para serem desperdiçadas... Nesse instante, Setsuna tem novamente aquela sensação que tivera momentos antes. Ao olhar mais adiante ele vê alguém que pairava em meio à penumbra do fim do corredor. -SAIA DAÍ E MOSTRE O SEU ROSTO!!! - a voz de Setsuna parecia um trovão em meio a uma tempestade. O som de seus passos denuncia calçados de couro levemente emborrachados que pisavam em poças resultantes do solo irregular que junto com as paredes pichadas, as latas de lixo, o dejeto de todo tipo de criatura que tenha passado por ali além do terrível mau cheiro faziam daquele local o ambiente perfeito para se pegar doenças dos mais variados tipos. Suas vestes se resumem a uma calça, provavelmente de fibras de cores escuras que evoluíam num dégradé até chegar ao preto acompanhando uma blusa pólo de gola até o pescoço, mangas compridas que lhe correm o braço como uma segunda pele de um branco metálico belíssimo, que contrasta suavemente com seus cabelos acinzentados em tons de branco, compridos, soltos e caindo por sobre sua blusa e por fim um par de óculos escuros que ocultavam o olhar daquele estranho não tão estranho assim... -Mas como?! Como pode você ainda estar vivo?? - indaga Setsuna - Tire esses óculos e me mostre esse rosto que há séculos não vejo!!! O homem obedece, revelando seus olhos avermelhados. -IBUKI!!! Você reencarnou nessa época, assim como eu? -Humpf. - diz Ibuki - Assim como você?! Veja bem como fala comigo Setsuna, nem parece àquele jovem com quem eu treinava, deixe-me ver, há pelo menos 300 anos!! Eu não sou um reencarnado como você, meu caro. Ino, já de pé assiste a tudo, refletindo se acreditava ou não. O "poder" daquele grito poderia ter acordado até os mortos, mas não foi o suficiente para impedir o avanço do punho de Ino, que não viu quando algo uma figura misteriosa se projetou por cima de Ibuki atingindo-lhe com um poético, porém, potente chute contra seu punho em riste, o qual é devolvido com força suficiente para aplicar uma "impressão" no solo em que se encontravam. Setsuna nota a bela jovem que pairava a frente de Ibuki com imponência, que só não era maior do que a profundidade de seu olhar. Dona de uma beleza misteriosa, possui um corpo de curvas harmoniosas como uma bela melodia, vestes de luta chinesa branca, com detalhes azuis anil, sapatilhas pretas, ou quase, provavelmente empoeiradas, braceletes de um tecido grosso, de baixa estatura se comparada aos demais presentes, loiras madeixas em um corte curto e sofisticado, pele alva e olhos verde-esmeralda de uma tonalidade tão pura quanto às cores de um arco-íris. -Gostaria de ficar para conversar mais, porém, - dizia Ibuki, enquanto dava-lhes as costas - tenho outros assuntos pendentes a tratar... -Espere aí Ibuki! - bradava Setsuna, indignado - você não pode ir saindo as...! A voz de Setsuna, que avançava, é repelida, assim como ele próprio, por um chute frontal aplicado em seu estômago desferido pela jovem, que ele nota possuir uma força considerável que o faz recuar alguns metros antes de parar. 9


-Ah! Perdoem-me, - diz sarcástico, Ibuki - esqueci de dizer uma coisa, essa bela jovem que vai acolhê-los na minha ausência chama-se Harumi. Espero que ela possa entretêlos enquanto estou fora. Sugiro que não a subestimem. Até! -Volte aqui, Ibuki!... -CALE ESTÁ MALDITA BOCA! - gritou Ino, que ainda se encontrava no mesmo lugar onde havia sido projetado pela jovem. Ele se ergue com certa dificuldade, devido aos ferimentos que sofrera em sua mão, a qual sangrava pelos poros ao que parecia ter tido seus ossos esmigalhados após o impacto sofrido. - Nesse momento, é melhor se preocupar em cuidar dessa garota! -Heh! Você está certo. E não é que vez ou outra você fala algo que presta. -Que história é essa? Eu sempre digo coisas que prestam! -Hahahahah! Cara gostei de você, gostei mesmo. Então vamos resolver logo isso pra cuidar de seus ferimentos. Nisso, Setsuna e Harumi correm. A seqüência de golpes que trocam entre si é tão intensa que faz parecer que vão voar faíscas do atrito de seus golpes. No entanto, era visível a vantagem que Harumi possuía, pois seus golpes conseguiam ao menos resvalar o corpo de Setsuna que ainda sequer conseguira tocá-la. Até que Setsuna gira-lhe um chute que ela abaixa para desviar, porém, ele antecipa o movimento aproveitando-se do impulso do golpe, e, usando sua espada ataca no corpo já agachado da jovem que o surpreende deitando-se no chão e abrindo as pernas executa, com o auxílio de suas mãos, uma rasteira giratória típica de capoeiristas, erguendo-o no ar e acertando outro chute violento no mesmo local do anterior, fazendo com que ele cuspa sangue, além de ser lançado contra Ino, que salta por sobre ele, impressionado por ver que ele realmente fora atingido, ao contrário de quando lutaram entre si há pouco tempo, corre contra a incrível adversária, socando-a com o punho que ainda se encontra inteiro ao que ela desvia para o lado, esquivando-se. Em seguida, aplica um golpe com o dorso da mão na lateral do mesmo braço, um segundo golpe com a palma da mão no cotovelo, desviando a potência do braço de Ino para o lado, seguido de dois socos no abdômen e concluindo com um ataque de braço reto lateralmente no mesmo local fazendo-o recuar até a lata de lixo mais próxima. -ARGH! I-impossível...! Ela é absurdamente forte! - pensa Ino, quando a sente pegar-lhe pelo braço do punho danificado, fazendo com que a dor dilacere seu corpo e sua mente, erguendo-o e o derrubando atrás dela, que só não lhe quebrou vários ossos porque Setsuna a atingiu no lado do tronco arremessando-a longe com a ajuda de seu bokutou que se parte devido a sua estrutura já fragilizada. “ Ela usou coxa, levantando-a para minimizar o impacto do golpe e diminuir os danos!” - espanta-se Setsuna, percebendo estar diante de uma incrível oponente. Incansável, Harumi se ergue ameaçadoramente perante Setsuna e Ino, fragilizados e porque não dizer acabados, os quais vêem a situação se complicar. “ Setsuna está ferido, sem metade da espada, porém, ainda mostra que tem energia, eu, no entanto, tenho vários ferimentos, minha mão está praticamente destruída e meu corpo está quase exaurido de forças, mas...” Setsuna, resolvido, se posiciona contra a bela assassina, preparando-se para o ataque quando sente algo estranho em seu corpo. -Não, ele está voltando!! Que péssima hora! 10


Sem entender o que ouvia, Ino vê algo estranho, como se a imagem de Setsuna estivesse se distorcendo. -O que está havendo Setsuna? - pergunta-lhe Ino. -É o garoto! Ele está recobrando a consciência e com isso recuperando o controle! Não podia escolher hora pior! -E agora? O que vamos fazer? -N-não... s-sei... mas, agora... depende-mos... d-de vo... cê.... Nisso, o jovem Setsuna ressurge perante uma situação desesperadora, seu corpo reassume novamente a aparência antiga e também os efeitos da luta começam a fazer efeito. -G-guh! Hah... hah... O que é isso?! Parece que levei uma surra... Ah! E o policial que me bateu? Cadê ele? Hã, mas, quem é essa mulher, ela é linda... -IDIOTA! Ela é a assassina que está tentando nos matar!! Nesse instante, Ino impede Setsuna de levar um golpe violento, segurando o punho de Harumi com sua mão já debilitada, causando-lhe uma dor terrível que lhe percorreu o corpo todo. Ino sequer sentiu a chuva começar a cair, tamanha era a dor que lacerava seu espírito. Em seguida, reunindo toda a sua força, aplica um tremendo chute que Harumi tenta defender sem êxito, resultando em um polegar deslocado e o ventre atingido violentamente, fazendo com que ela seja arremessada contra a parede. -Agora, vamos embora daqui! -Mas... por quê? O que houve? - indaga o jovem Setsuna que ainda não entendia nada do que estava acontecendo a sua volta - E que chute incrível, um dia eu vou ter um golpe tão forte quanto o seu! -Acredite garoto, você tem coisas bem melhores... no entanto - diz agarrando-o pela cintura ao ver Harumi se erguer com sangue escorrendo de sua boca, porém, decidida a concluir sua missão, corre desesperadamente pelos corredores do beco - , nós devemos nos salvar primeiro para depois conversarmos! Assim se inicia uma perseguição frenética, ao ritmo da chuva que caía torrencialmente, passando novamente pelas belas ruas de cerejeiras, cruzando com transeuntes que se achavam ali observando o corpo do bandido morto minutos atrás, e nem ao menos notaram a presença de Ibuki no meio deles se deliciando com a perseguição imposta por Harumi a eles. “ Ela é muito superior em velocidade, nesse ritmo não vamos conseguir!” Nesse instante eles alcançam uma ponte de pedras de paralelepípedo com o formato de túnel, de pouca iluminação, onde o solo se encharcava rapidamente com a chuva que se precipitava criando riachos pelo solo irregular, os quais Ino sequer notava, por estar concentrado em qualquer coisa, qualquer ruído vindo de sua perseguidora – “ Estranho... depois que alcançamos a ponte, não ouvi mais os passos dela...” - refletia consigo mesmo, na esperança de ter conseguido despistar sua perseguidora. -Ela está vindo. - diz Setsuna. -O quê?! - Ino só tem tempo de olhar ao redor e como se tudo o que viu nesse dia não fosse o bastante, ele notou Harumi, que se aproveitou de sua velocidade e literalmente correu pela parede até o teto. !!! Aproveitando-se do formato arredondado do teto, Harumi, corre por sobre eles e pega com as pontas dos dedos o pescoço de Ino, pressionando suas veias jugulares, projetando-o em seguida de encontro ao teto, fazendo seu corpo bater violentamente e cair aos pés de sua 11


algoz e Setsuna, que só não sofrera do mesmo impacto por ter sido solto antes. Separados pela cortina de chuva que o cobria do lado de fora do túnel, Setsuna vê Harumi erguer Ino do chão, após recolocar seu dedo no lugar e começar a golpeá-lo sem o menor escrúpulo, tingindo a chuva que caía de um rubor que parecia não ter fim. A cena é terrível demais para ser descrita em palavras mais amenas do que um massacre. Movido pela revolta e por algo mais que nem mesmo ele saberia dizer, Setsuna transpõe a cortina d'água e dispara um soco enfurecido no rosto de Harumi, que sente o golpe. Poderia se jurar que seu semblante apresentava incerteza e até espanto após tamanha proeza. O soco direto atingiu o maxilar, no entanto, até seu supercílio e o lóbulo de sua orelha foram cortados pelo deslocamento de ar. -Levante-se, vamos, levante-se! - aquela singela voz não condizia em nada com o impactante ataque disparado segundos antes. Como que movido por uma força sobre-humana, Ino se põe de pé e sai apoiado nos ombros de Setsuna no mesmo instante em que Harumi tenta se erguer, porém, cai de joelhos desestabilizada fisicamente. -Como pode?! - indaga-se Harumi - Foi um simples soco. Pouco tempo depois, a chuva dá indícios de que está pra cessar e os dois companheiros chegam a um belo complexo de prédios que contrasta com a vegetação local composta de cerejeiras, vinhedos entre outros. Seu solo com calçadas bem ordenadas separando o meio da rua das entradas das moradias. Ao centro do complexo se encontra um coreto pequeno de 15 metros de diâmetro circundado por um córrego que banha um lago natural, cercado de natureza belíssima por onde passam os dois, tingindo alguns trechos com sangue escorrido de Ino, que já se encontra pálido. Harumi já recobrada, supre rapidamente os metros que a distanciava do complexo, no entanto, não os encontra, pois os rastros vão se tornando escassos provavelmente por estar estancando os ferimentos. Nisso, Setsuna e Ino, que percorrem um dos corredores internos do edifício, são subitamente puxados para dentro de uma porta, exatamente no instante em que Harumi iria achá-los.

3ª Vida – Revolta “1ª lei da Robótica: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal. 1º mandamento da lei de Deus: Amarás o senhor teu Deus com todo o seu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças e sobre todas as coisas.” A poeira densa juntamente com a noite que começava a despontar no horizonte junto à sua escuridão tornava o local onde estavam ainda mais sombrio. Os pedaços de madeira, unidos aos objetos do ambiente e a parca iluminação formavam figuras bisonhas no recinto. -Vocês estão bem? - diz alguém, provavelmente a mesma pessoa que os salvou do reencontro com Harumi, que já se distanciava, proporcionando-lhes certo alívio Descansem e cuidem de seus ferimentos. -Mas... mas... argh! Gasp!... Que... quem diabos é você? - retruca Ino.

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-Não acredito... - suspira o estranho - feriram também a sua mente a ponto de não reconhecer a minha altamente requisitada presença tecnológica? Pobre Ino, tsc, tsc, tsc... -Meu Deus!! Hah, hah... maldito, então aqui é... -Exato meu caro policial... eh... The Shot?! Era assim que o chamavam não é? -KATSU! O abraço foi tão saudoso que até os ferimentos foram esquecidos. -Peraí, antes de qualquer coisa, quem é esse jovem? -Meu nome é Setsuna. - adianta-se o jovem. -Não se preocupe Katsu, ele é um amigo. -Se é seu amigo então é meu também, muito prazer meu caro Setsuna. A noite corre solta e aproveitaram o fato de terem despistado a Harumi para cuidar dos ferimentos de Ino, que descansava enquanto Setsuna contava os fatos para Katsu. -Entendo, quer dizer então que essa mulher os estava atacando quando você recobrou a consciência e mesmo sem entender o porquê, vocês fugiram até aqui no meio da chuva. -Exato. - diz Ino, já desperto, o qual nota estarem no quarto de Katsu, que se mostrava um homem um tanto organizado mesmo levando em consideração o emaranhado de cabos e fios que ligavam a aparelhagem sofisticada que lembrava muito ambientes de filmes como Matrix entre outros. -Espere! - diz Katsu ao ver que Ino se levantava - Você ainda não está bem. -Como não. Estou dolorido e minha mão está doendo, mas não é nada sério. -Como nada sério, me deixe ver isso... - a expressão de assombro cobre o rosto antes sereno de Katsu. Katsu possui uma face fina de nariz levemente arrebitado, onde se apóia seus óculos providos unicamente da armação central, sem as pernas, somado ao peculiar cavanhaque e cabelo claro arrepiado os quais formam um ar meio intelectual que ocultavam uma mente brilhante de um exímio hacker http://pt.wikipedia.org/wiki/Hacker. ... COMO??? Sua voz foi tão abrupta que Setsuna chegou a se engasgar com o que comia. -Ugh! Cof, cof... o que foi? -O que foi? O QUE FOI? Eu te digo o que foi! Foi o Ino!! Mas é impossível que ele tenha feito isso!! -Feito o que? - indaga Setsuna. -Tudo bem Katsu, acalme-se... Bem, ontem quando vocês chegaram aqui ele estava bem acabado... mas hoje... -É claro! Eu dormi e recuperei minhas forças. -Ah é? Pois como você me explica o fato de seu corpo estar com todas as inúmeras lesões que tinha quando chegou aqui ontem praticamente curadas!! E essa sua mão tinha sido esmigalhada por dentro mais do que uma casa em meio a um tornado e agora está inteira!! Nem sono em jogos de RPG é tão milagroso. E afinal de contas, o que houve no período em que o Setsuna ficou inconsciente? -Desculpe interromper a conversa, mas tenho assuntos mais urgentes... - diz Ino tentando sair de mansinho. -Espere aí... A voz de Katsu é abafada por um estrondo intenso no local. A parede do lado leste do local se encontra destruída e em seu lugar está uma belíssima jovem de traços delicados, porém, arrojados. Cabelos longos dividem-se conforme vão se prolongando exoticamente em um 13


prateado sutil finalizando pouco abaixo de suas nádegas tão perfeitamente irreais que poderia se dizer que a mesma sequer existe. Olhos de um verde-esmeralda transbordante e misteriosos devido à estranha falta de retina que conferem um ar místico, quase sobrenatural à jovem com possível idade entre 19 e 22 anos. Traja alguma espécie de malha azul marinho que lhe cobre todo o corpo reforçando sua beleza, que contrasta com listras na altura de seus braços, cintura, costas e seios as quais parecem lampejos elétricos. Seu punho empoeirado denuncia que ela derrubara a parede apenas com a força de suas mãos. -Que linda...! - deslumbra-se Setsuna sem notar a nova "janela" feita por ela. -Quem é vo... -ZERO!! - o brado de Katsu chamando à jovem anula e responde ao mesmo tempo a pergunta de Ino. -Por onde você esteve esse tempo todo? - indaga saudosamente o jovem enquanto se aproxima levianamente dela. -CUIDADO KATSU!!! - clama Ino percebendo o sutil, porém, veloz movimento da jovem que desfere em golpe contra Katsu que só sente-se ser lançado contra um de seus computadores. E eis que ele percebe estar com o jovem Setsuna inconsciente em seu colo. Ao tentar se mexer, Katsu sente uma fisgada no braço esquerdo que ficou deslocado devido ao impacto. “ Como?! Como pôde se movimentar tão veloz a ponto de sair de trás de mim e ainda se colocar entre os dois? Será que...” - o pensamento de Ino é interrompido pelo avanço repentino da jovem sobre ele. Zero desfere um soco direto contra ele, que pára o golpe com sua mão, porém, leva um violento chute no lado esquerdo, projetando-o através da porta pelo corredor ao que Ino aplica uma cambalhota para trás, pegando impulso na mesa que se encontrava no caminho, onde recupera sua arma, e se joga contra a parede mais próxima, pairando por uns segundos o suficiente no ar para que ele atire contra ela. O disparo faz Zero ser projetada para trás. -Não Ino, não machuque minha filha! - as palavras de Katsu mesmo soando no mínimo estranhas, o fizeram parar. -Como assim? Filha sua?! Como é possível? - retruca Ino enquanto se dirige até Katsu ainda com Setsuna no colo. -Eu vou te explicar. Acontece que... Katsu interrompe sua explicação ao sentir o sangue lhe atingir o rosto devido a uma perfuração por algo no ventre de Ino por Zero, assim que ele passou pelo seu corpo. -U-argh... como pode? Eu tenho certeza que a... at-tingi. Será q-que m-me... enganei?! Após se separarem, ele se vira e realmente nota que a atingiu no ombro. -Ela é um ciborgue. http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciborgue - diz finalmente Katsu - Foi construída por mim. Possui 40% de seu corpo constituído de partes cibernéticas, enquanto que o restante é orgânico, exceto... Novamente suas palavras são interrompidas por Zero que avança violentamente sobre Ino que aponta pra sua cabeça. -É fácil então!! Basta matar a parte orgânica. - no entanto, a jovem, adquirindo velocidade sobre-humana surpreende Ino segurando sua mão, sobrepondo a sua na dele e tomando o controle da arma junto a ele. -Não a mate!! Não mate minha filha!! -E o que você sugere que eu faça heim?? O gênio aqui é você!! - nisso, ela, com a outra 14


mão, golpeia violentamente o abdômen já ferido de Ino e sem ao menos deixá-lo sentir a dor do golpe, aponta a arma para o local do golpe, apertando o gatilho. O projétil atravessa o corpo de Ino espirrando sangue pelo ambiente. A dor excruciante não permitiu sequer um grito de dor por parte de Ino, que cai de joelhos antes de ir ao chão. -INOOOOOOOO...!!!!! - o grito era audível a até dois quarteirões, tamanha sua intensidade, que poderia ser comparada a uma manada de elefantes em debandada. Nesse instante, ainda semi consciente, Setsuna vê de relance uma figura imponente sobre o prédio vizinho. Ao prestar atenção, ele vê a figura soberana de Ibuki olhando pra ele, o que o faz mudar de repente de aparência e olhar ao que ele brada aterrorizando Katsu que não entendia nada do que estava presenciando. -IBUKI!!! A força da raiva e do grito amplificados chegam a gerar uma energia intensa ao seu redor que quase destrói o local, chegando a lançar Zero para o interior dos cômodos. Seus cabelos mais compridos do que na forma inocente exibem uma magnífica dança pelo ar que só não pôde ser mais apreciada devido à forte aura que emanava de seu corpo. -Você conhece aquele cara? - indaga Setsuna com uma voz imponente totalmente oposta de quando ele é o outro Setsuna. Katsu observa a figura de sobretudo sobre o prédio. A imensa veste negra cobre quase que completamente seu corpo, detalhes dourados adornam o sobretudo que só deixa à mostra seus cabelos branco-acinzentados, os óculos negros pendentes na fronte mostrando de relance o rubro inconfundível de seus olhos. -Ibuki... - o tom raivoso na voz denunciava tudo. -Você o conhece? - indaga Setsuna, a curiosidade inundando suas palavras. -Foi ele quem custeou minha pesquisa na criação de Zero... -O quê?! Então vocês estão juntos nisso?? -Não exatamente... - seus olhos sondam o horizonte, buscando imagens, fatos e lembranças dos acontecimentos. -... digamos que ele tinha o patrocínio e eu, o projeto, e então acabamos por nos unir em uma meta de comum acordo. -Você.... o que fez com a minha filha?? - clama Katsu, visivelmente abalado. Tediosamente, Ibuki suspira e enfim pronuncia-se: - Perdoe-me meu caro Katsu, mas foi você mesmo quem me pediu pra cuidar dela como se fosse minha filha... e foi o que eu fiz. Apenas acrescentei alguns pequenos detalhes para torná-la... digamos, mais eficiente. O tom debochado de Ibuki apenas amplificava o ódio do jovem cientista, que ia se manifestar novamente quando um estrondo ocorre no quarto ao lado onde se encontrava Zero, seguido de um bloco de concreto que ela arremessa contra eles, ao que Setsuna reage rapidamente, desviando Katsu do objeto que cai no pátio do conglomerado. -Bem, os detalhes você me conta depois, primeiro nós temos que nos livrar dessa enrascada. -Certo. Mas e o Ino? Como ele está? -Eu... vou ficar bem. - diz Ino mais pra si mesmo do que para os dois. Setsuna ainda olha novamente para o prédio vizinho, porém Ibuki já não se encontrava no local. Ao olhar lá embaixo, ele vê algumas pessoas fugindo do local, uma estrutura pavimentada rodeada por quatro edifícios de aproximadamente vinte andares com um belo coreto pelo 15


qual passaram na noite anterior ao centro. Além disso, ele nota algo estranho, o bloco de concreto que Zero arremessara contra eles se encontrava intacto. Como se isso não fosse o bastante, o bloco estava se movendo, como que saindo do chão. -Meu Deus, ela está erguendo o bloco inteiro!! - diz um dos moradores. -E ela está ilesa! - completa outra moradora. -Não pode ser verdade... - diz Setsuna. Mas era, como se fosse uma ilusão, ele vê Harumi erguer com relativa facilidade um bloco de aproximadamente 150 kg, para em seguida, arremessá-lo contra o andar onde estavam.

4ª Vida – Revelação “A verdade e a mentira são divididas por uma tênue linha chamada fé. E o que fazer quando descobrimos que a mentira é uma verdade melhor do que a verdade em si? Em que acreditar?” As poucas pessoas que ainda estavam no local naquele instante jamais se esqueceriam daquele incidente, afinal não é todo dia que se pode ver uma mulher erguer um bloco maciço de concreto de mais de 100 kg e muito menos arremessá-lo dez andares acima de suas cabeças. Setsuna só teve tempo de pegar Katsu e saltar para o lado, antes do impacto. Foi como se um carro tivesse colidido em alta velocidade contra o quarto dele. -Argh! Setsuna, Katsu, vocês estão bem? - grita Ino d'outra parte do apartamento. -Ainda estamos inteiros, mas fique atento, aquela mulher chamada Harumi está por aqui!! Setsuna começa a se erguer com um Katsu semi-consciente apoiado em seu ombro, com um pequeno sangramento na cabeça. A poeira erguida pelo impacto do bloco agora começava a se dissipar e com isso revela o estrago causado no local, fios pendurados, móveis e paredes destruídas e até mesmo uma tubulação perfurada que parecia um chafariz. -Ino, cadê você? - Setsuna começa a olhar ao redor, logo após recostar Katsu num dos cantos - Fale comigo, assim será mais r-...!! A cena chegava a ser irreal, Ino jazia sentado contra um dos alicerces que permanecia de pé, com o bloco de concreto sobre sua perna direita. O abdômen ensangüentado, por causa dos ferimentos e seus braços tentando inutilmente desvencilhar-se do braço de Harumi, que o estrangulava apoiada por sobre o bloco. As pupilas dele já se dilatavam, devido à ausência de oxigênio no cérebro. -S... c-cor... ...socor-r... - balbuciava Ino com o pouco de consciência que lhe restava. Mais rápido do Harumi percebera, Setsuna supre os parcos metros que os separavam e lança um forte soco contra ela, que, pega de surpresa, não consegue esboçar nenhuma reação e por um instante seu olhar pareceu tão aterrorizado que qualquer um diria que ela viu o demônio em pessoa. No entanto, a trajetória do punho de Setsuna é interrompida pelo bloqueio de Zero que por

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pouco não teve seu braço quebrado, porém, o deslocamento de ar gerado atinge o rosto de Harumi. O impacto foi sutil, tanto que só causou um arranhão no rosto de Harumi, embora fosse o suficiente para que ela soltasse Ino que respira profusamente grandes quantidades de ar. Por instantes ele pareceu ter se esquecido de como funciona o mecanismo da respiração e teve até dificuldade em se controlar. Harumi, ainda chocada começa a vivenciar acontecimentos de sua vida. .............................. -O que houve Harumi? Porque está chorando? - uma voz lhe pergunta, enquanto se aproxima de uma Harumi com aproximadamente 10 anos de idade. Cabelos um pouco mais longos, porém igualmente belos e sedosos lhe caem por sobre o rosto e ombros que já começava a demonstrar sua beleza feminina se acentuando. Com uma voz um pouco embargada devido ao choro, Harumi se vira de encontro ao seu indagador. A imagem sombreada de um belo exemplar masculino dotado de longos cabelos branco-acinzentados pairava à sua frente com um ar dúbio que indicava uma paternidade contida e uma aura um tanto quanto estranha e ameaçadora por trás, assim como um Shite do teatro Nô http://pt.wikipedia.org/wiki/Noh parecia que uma máscara sempre lhe ocultava sua verdadeira natureza o que não era de todo ruim para ela que via nele a sua única estadia de repouso e segurança por mais estranho e bizarro que isso possa parecer. -Eu vejo os pássaros que voam sempre de encontro a outros e cantam alegres, mas eu nunca conheci ninguém além do senhor e depois que eu pensei nisso, senti uma tristeza imensa no meu peito, acho que estava no dicionário que se chamava solidão... e então as lágrimas começaram a cair e eu fiquei muito triste. Por quê? Porque você me treina todos os dias e eu me sinto como se faltasse algo dentro de mim? Todas as pessoas que eu conheci até hoje o senhor me coloca pra lutar contra elas e no fim elas acabam morrendo. Eu sou uma pessoa ruim? -Não. Você não é uma pessoa ruim. Essas pessoas que eu trago aqui sim são ruins e é por isso que você as mata. Você está sendo preparada. -Preparada? Mas pra quê? -Em breve saberá... ................... Harumi permanece em silêncio, com as pernas levemente arqueadas e com o olhar distante como que perdida em pensamentos. Setsuna, por alguns instantes chega a sentir algo de humano naquela assassina sanguinária que os vinha perseguindo até então e por uns instantes sua guarda é desfeita... -CUIDADO!!! O golpe por pouco não o pega em cheio, devido ao grito de Ino, que retira Setsuna de seus devaneios. -Ugh! Obrigado Ino. -Que obrigado que nada! O que houve? Nem parece você!! Está tão disperso que até um moribundo como eu poderia dar cabo de você mesmo com esse corpo destruído... cof, cof... -Hah! Realmente, você está me saindo um ajudante muito incompetente na hora das 17


lutas, porém, até que tem raciocinado razoavelmente bem nas horas necessárias... -Que história é essa?! Agh!... -Fique quieto e deixe-me tentar tirar a gente ainda vivo desta enrascada. - neste instante, Katsu consegue se aproximar de Ino após recuperar a consciência. Mesmo com alguns circuitos do braço danificados, Zero se prepara para o embate. São apenas 3 metros de distância entre eles, no entanto a sensação é de que são 3 quilômetros que os separam. Um pequeno fragmento do teto começa a ruir, a poeira emitida por ele, cobre o campo de visão entre os dois por exatos 0,0012 milionésimos de segundo, suficientes para que Zero avance agilmente contra Setsuna com uma seqüência de dois socos, seguidos por um chute descendente que quase atinge a cabeça de Setsuna, o qual desvia, sem notar o real objetivo daquele chute, que acerta sobre a coxa esquerda que estava firme ao chão, fazendo-a entrar alguns centímetros no assoalho ao que ela agacha sem dar tempo de defesa, aplicando uma rápida combinação de golpes que parecem uma variante de Wushu. http://pt.wikipedia.org/wiki/Wushu Setsuna, consegue defender-se de alguns golpes, porém, é atingido no ventre por outros três ataques que o fazem recuar, porém, como sua perna ainda se encontra presa, ele permanece parado ali próximo a Zero que o ataca novamente. A mão de Zero já se dirigia ao rosto de Setsuna que não via uma maneira rápida de reagir a tempo, quando percebe que a mesma interrompe seu percurso misteriosamente a poucos milímetros de atingí-lo em cheio. Ele nota que ela teve sua mão segurada por outra pessoa e se surpreende ao ver que fora Harumi quem o havia salvado. -O quê?! Mas... por quê?!? - indaga perplexo Setsuna mais pra si mesmo do que pra ela. -Ele é meu. - pela primeira vez até então, eles ouvem a voz de Harumi que se mostra dona de uma voz sutil ao contrário de suas expressões e atitudes sempre duras e inflexíveis. Mas parecia haver algo por trás de tal sutileza, algo cruel, algo quase sádico, como um demônio sedento por sangue impedindo que outro lhe retire sua presa tão desejada. -Mas as ordens do mestre Ibuki são... -Vou lhe explicar melhor, já que você não me compreendeu o suficiente: eu tenho contas a acertar com essa criatura, além do que você não iria querer danificar ainda mais esse seu braço com uma luta desnecessária e que não lhe diz respeito... - ao dizer isso, Harumi pressiona o pulso de Zero, que solta faíscas. Com algumas passadas, Zero recua, enquanto Harumi se posiciona para enfrentar novamente Setsuna, o qual finalmente havia retirado seu pé dos escombros e estava preparado para mais esse embate que embora ele não soubesse, envolvia muito mais do que somente uma rivalidade pessoal. Os momentos durante os quais eles se encararam, parecem ter se passado durante uma eternidade, tamanha que até mesmo o ar que pairava no local dava a impressão de estar mais rarefeito, além, é claro do suor que corria seus rostos criando pequenos trechos limpos da pele empoeirada. De repente, sem aviso algum, mas como se estivesse programado para acontecer naquele momento eles avançam. Ela, utilizando-se de seu Wushu, aplica dois golpes com a esquerda, seguidos de um direto de direita, ao que a mesma se vira aplicando um ataque com as costas do braço direito que atinge enfim Setsuna no ombro, o qual perde o equilíbrio e cai. -Setsuna! - grita Katsu, ao que é interrompido por Ino: - Confie nele. Ele não vai se deixar abater assim. Acredite! 18


Realmente, Setsuna aproveita-se de sua queda, apoiando sua mão no chão e aplica uma rasteira para derrubar Harumi ao mesmo tempo em que ela se vira de volta para a esquerda e lança um chute direto com a "faca do pé" atingindo-o no rosto ao que ele quase cai do prédio. -Droga! Ela é rápida!! -Ugh! Eu vou lá ajudá-lo. Katsu, por acaso não há ninguém no prédio ou nos arredores que possua uma espada? -E desde quando você usa espadas? -Não é pra mim, idiota, é pra ele! Pois ele luta melhor com uma espada do que sem. -Espera um momento que vou verificar no meu banco de dados... -Como assim? Nós não acabamos de destruir tudo por aqui?? -Meu caro Ino, como sempre você não consegue seguir meu intelecto superior. Você acha que eu não teria um back-up de todos os arquivos que possuo? Qualquer pessoa que mexa com tecnologia, seja ela um hacker ou simplesmente um reles técnico tem seu banco de dados onde pode recuperar pelo menos seus arquivos mais importantes... -Que seja!! Mas vá rápido!! Nós cuidamos da situação por aqui! - ao dizer isso, Ino avança e recuperando sua arma, dispara contra Harumi que não se sabe se esquivou por reflexo ou por puro instinto, mas não sem ser ferida no braço. -Eu te dou cobertura! O Katsu foi verificar se encontra uma espada que lhe possa ser útil, ugh! - cai de joelhos devido aos ferimentos no corpo todo. -Você está louco?! Mal consegue ficar de pé e ainda tenta interferir na luta dos outros! Nesse instante, Harumi, mesmo sem estar tão ferida assim, literalmente urra como se estivesse cheia de dor. -WAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!! -O que houve com ela?! - indaga Ino. -Eu não sei, mas ela tem agido estranhamente desde que chegou aqui. -Seus demônios, vou eliminá-los para que não poluam mais esse mundo!! -O quê?!? Nisso, Harumi assume a postura de Taekwondo http://pt.wikipedia.org/wiki/Taekwondo e avança ferozmente. Assim como o mistério sobre o universo que nos rodeia, parecia que o ataque de Harumi não teria mais fim, dado a seqüência desumana de chutes alternados entre suas pernas, dois Bandê Tchagui com a perna direita, seguidos de um Yop Tchagui na altura do estômago, um Tora Furyo Tchagui acertando o alto da cabeça de Setsuna finalizando com um An Tchagui e um Aptcha Oligui atingindo-a pela frente e lançando-o para trás, virando no mesmo instante e aplicando um Seo Jirugui que atinge o rosto de Ino que se encontrava ao lado, atingindo-o com um Dangson Tchagui também no rosto, fazendo com ele vá se chocar na parede ao lado de Setsuna. http://br.answers.yahoo.com/question/index? qid=20080320072126AAWNU1f -Arf, arf... afinal de contas, de onde surgiu essa mulher e porque ela nunca participou de nenhum torneio ou coisa parecida? - indaga Ino, limpando o sangue que escorria de seu nariz -Se você ainda tem energia suficiente pra ficar de zombaria então quer dizer que você está bem não é? -Você só deve estar brincando, eu levei um tiro no estômago uma pedra de concreto nas pernas, fui estrangulado e apanhei feito um saco de pancadas. Você acha que eu estou bem?! 19


-É verdade... -Mas por que diabos essa mulher ficou alterada assim? Diga-me, o que houve com você? Porque nos ataca? Harumi pára e observa suas presas que se sentem perfuradas por seu olhar lancinante. -Porque eu fui treinada para eliminar todos aqueles que são seres que prejudicam as pessoas e tentam atacar meu pai. -Pai?! - Os dois pronunciam ao mesmo tempo. -Isso mesmo. Ibuki é o meu pai. E ele me ordenou que eliminasse vocês que são seres malignos e q*......... Uma sensação dolorosa transpassa seu corpo e sua espinha numa velocidade indescritível, seguida de um gosto ferroso e quente na boca. Harumi observa Ino e Setsuna boquiabertos perante ela que ao olhar abaixo, nota pontas de dedos saindo do lado esquerdo de seu ventre. E eis que uma voz sibila: - Seus serviços estão dispensados Harumi. Você não é mais necessária a mim.

5ª Vida – Aflição "Sabemos que a tecnologia é desenvolvida com a finalidade de nos proteger de todas as aflições possíveis, mas, e quando surgir uma aflição impossível de se proteger, em quem confiar?" O sangue cálido umedece seus quadris, porém, sua pele sua fria, não devido a sua já conhecida indiferença as dores ou mesmo aos outros, mas sim, em relação àquela voz sutil e cortante que passava por seus ouvidos, como se fosse algo surreal que estivesse lhe ocorrendo. Seu olhar se distancia do seu ferimento subindo-lhe o corpo e se dirigindo ao dono daquela voz que lhe falara com o receio de uma criança que evita olhar seu pai após fazer algo errado. Enfim eles cruzam seus olhares. A frieza e crueldade que transbordam de seu algoz é tão intensa quanto sua calma imperturbável e sua sede de sangue que paira ao seu redor. ........................ A natureza transbordava a sua volta cheia de vida. O canto dos pássaros acariciava-lhe os ouvidos juntamente à brisa que lhes parecia abençoar. A jovem Harumi estava de pé com seus belos cabelos compridos que bailavam no ar em meio a toda aquela paz e quietude, observando um garoto de cabelos negros que brincava com sua mãe próximo a um córrego de águas límpidas, se sujando e correndo para seus braços ternos e afáveis que o acariciavam. Ao ver a cena, Harumi não entendia como seu pai de pé ali ao seu lado com seu típico sobretudo negro não lhe dava o mesmo carinho e ao mesmo tempo lhe dizia que aquela

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criança era uma encarnação do mal. -Pai, porque eu tenho que matar aquele menino que parece ser mais novo do que eu? -Harumi, quantas vezes vou ter que lhe repetir... -Eu sei pai, você disse que ele é um demônio maligno que irá nos ameaçar e que eu tenho o dever de eliminá-lo. -Então? -Err... não acho que ele vá se tornar uma ameaça à nossa existência, ainda mais... -Ainda mais...? -Nada não pai. Deixa pra lá. - Harumi nunca conseguiu fazer essa pergunta a ele. ........................ -Pai?!... Por quê? -Por quê? Por causa de sua incompetência em se livrar desses dois. Eles são assim tão terríveis a ponto de você sequer conseguir acabar com o mais fraco que já está ferido!! -Mas pai... -Sem mais! Vou lhe dar uma chance de se redimir. Nesse instante, Ibuki retira seu punho do corpo de Harumi que sente uma fisgada de dor e se aproxima de Zero. -Sua chance de se redimir perante mim, Harumi será eliminar esses dois junto a Zero que enviei até aqui para lhe ajudar desde o início. E como você me agradeceu, quebrando o punho dela, por puro egoísmo. Acha que você é a melhor lutadora que existe apenas por ter em seu sangue o acréscimo do DNA de mestres em artes marciais? -Como?! - indaga Setsuna - O que fez a ela Ibuki? Que história é essa de mestres das artes marc*....?!? Setsuna interrompe sua investida ao receber uma estocada da katana de Ibuki no ombro direito. -Caro Setsuna, como sempre tentando me afrontar? A Harumi que se encontra na sua frente é o resultado da combinação do código genético de vários mestres renomados das artes marciais de vários estilos de luta e foi treinada com o intuito de eliminar você. É claro que houve falhas no processo como outras experiências que não deram certo e foram descartadas, e por fim, experiências com ciborgues. É claro que tive o auxílio e a cooperação de seu amigo Katsu... pfff... o coitado ansiava pelo dia em que criaria um andróide perfeito que pudesse fazer basicamente tudo o que um ser humano faz e ainda ter a capacidade de evoluir, um completo idiota que não consegue visualizar a grandeza e as possibilidades de se criar uma arma de devastação em massa que aos olhos de qualquer um não passaria de um ser humano desprezível como qualquer outr*....!!! - Ibuki mal pôde perceber quando e de onde veio o golpe que o atingiu, tudo o que ele conseguiu notar foi Setsuna no local onde antes ele se encontrava com o punho em riste diante de uma Harumi e um Ino perplexos e uma Zero de expressão imutável que ao observar a cena, tenta atacar ao que é bloqueada por Ino. -Você não se esqueceu de mim, não é?...!! - Ino leva um chute giratório no flanco esquerdo sendo lançado contra a parede, ao que Zero prossegue girando o corpo num 360° atacando Setsuna que é atacado também por Harumi.

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Harumi executa um sutil, porém, decidido salto aplicando o que em muitos estilos de artes marciais é conhecido informalmente como Butterfly, que nada mais é do que um chute aéreo, servindo de impulso para a outra perna que vem de trás do corpo tentando pegar o adversário desprevenido, nisso, Setsuna erguendo seu braço direito, pára o chute dela, rejeitando a dor que perpassa seu ombro perfurado e com um movimento circular, agarra a perna dela, enquanto usa seu joelho esquerdo para proteger-se do ataque direto de Zero, para em seguida arremessar Harumi de encontro à ciborgue que mantém seu corpo estático ao que a hábil lutadora usa de apoio com ambas as mãos para rolar sobre a mesma enquanto habilmente descreve uma pequena corrida em formato elíptico aproveitando-se do bloco de concreto que ainda se encontrava no local, para logo depois aplicar outro chute contra o dorso de Setsuna que se encontra desprotegido. -Abaixe-se!!! - grita rapidamente Ino, ao que Setsuna rola para frente evitando o ataque de Harumi enquanto Ino dispara em sua perna tentando imobilizá-la, quando Zero com um movimento extremamente veloz aplica um soco no chão fazendo com que pedaços do chão subam desviando em alguns poucos centímetros a trajetória da bala que passa sobre a perna da lutadora que ainda se aproveita dos fragmentos no ar para com outro chute circular lançá-los com força de encontro ao detetive que é atingido no ombro e cai contra a porta interna do que restou daquele lugar que antes foi uma moradia. -INO!!! - grita Setsuna que novamente se vê sendo alvo das duas assassinas que o atacam impiedosamente tentando acuá-lo contra a parede, ao que ele desvia como pode seus rápidos socos e chutes que vão minando suas defesas gradualmente até que ele nota o fragmento ainda firme no teto que outrora serviu como tiro de largada para seu embate e nisso Setsuna é atingido por um golpe de Zero. -Setsuna, cuida... hã?! -Heheh... peguei. De repente, eis que ele segura o punho da andróide e o golpeia com a outra mão. O impacto, tamanha potência e dano infligidos simplesmente transpassa o pulso de Zero, fazendo sua mão voar, ricocheteando pelo local até cair fora de visão pelo caminho que Katsu se fora minutos antes. Harumi se aproveita desse instante de distração e ataca rapidamente Setsuna com um chute violento que ele esquiva ao mesmo tempo em que segura o braço quebrado de Zero e o encosta contra à perna dela causando um violento choque nas duas. -WAAARRGHHHHHHH!!!!!!!!!!!! -Agora, somos só eu e você Ib*...!! -SETSUNA!!!! - o urro de Ino ecoa por todo o conglomerado aterrorizando aos últimos curiosos que ainda se encontravam no local devido à façanha da misteriosa mulher que minutos antes havia arremessado um bloco de concreto do térreo até o 10º andar com as mãos. Mas ele tinha seus motivos, afinal, desde que encontrara com aquele estranho que dizia ter reencarnado no corpo de um pequeno jovem de mesmo nome Ino nunca o havia visto ser ferido de tal maneira mesmo encurralado como vinha sendo por Harumi e Zero, mas parecia que tal regra não se aplicava àquele ser esguio de alvas madeixas que com improvável facilidade acabara de cravar a lâmina de sua katana no flanco direito de Setsuna que se mostrava desacreditado de sua situação. -O que houve Setsuna, meu caro? Está tão cansado que nem conseguiu se esquivar de meu ataque. Ou será que não CONSEGUE?! - ao dizer isso Ibuki gira a katana ainda no corpo de Setsuna. 22


-*argh!!...*ugh!! - balbucia ao sentir o rápido impacto da mão de seu algoz se chocando com seu pescoço fazendo-o exalar sangue. -Veja como seu corpo é frágil, Setsuna. Só de encostar-se a seu pescoço eu quase quebrei sua traquéia. - sibila ironicamente Ibuki enquanto se aproxima da lateral do rosto dele - Eu poderia acabar com você agora meu caro companheiro atemporal, porém, você ainda está em dívida comigo meu amigo. -Como?! - indaga Ino, se erguendo - O que esse cara quer dizer com isso Setsuna!! -Oh! Eu tinha me esquecido completamente de você. Ainda continua vivo?!? -Como você está? Já conseguiu se perdoar pelo que você fez? -H-hã?! D-do... que você está fa-lando... Ibuki. -Ué?! Então mesmo depois de vocês terem se envolvido nisso tudo ele ainda não contou o segredinho dele pra você, Setsuna? -Isso não tem nada a ver... nada a ver com o Setsuna! -Como não? Como você explica o fato de que o único tiro que você errou em carreira e que nunca veio ao conhecimento público e muito menos da polícia em si, os quais deveriam ser os mais interessados nisso, foi responsável pela morte de duas das pessoas mais importantes de toda sua vida, além é claro da sua mesma?? HEIM?? EXPLIQUE ISSO PARA QUE POSSAMOS ENTENDER MELHOR INO!!!! - as palavras pronunciadas pareciam ferir-lhe a alma a cada novo instante e lágrimas parecem correr-lhe a face sofrida e cabisbaixa -P-pare com isso, Ibuki... -O quê?!? O que disse Setsuna? Hã? - nesse instante Setsuna põe sua mão esquerda por sobre o braço de Ibuki que o estava esganando - O que espera fazer nesse estado e sem forças. É melhor poupar esforços e...! "O que está havendo com ele? Sua força está amplificando a cada instante que se passa? Mas isso é impossível no estado em que ele se encontra... o quê está havendo?!” No mesmo instante que uma lágrima se desprende do rosto de Ino, Harumi começava a recuperar suas forças ainda furiosa por estar perdendo para alguém a quem ela considera um ser maligno, mas confusa internamente após ouvir aquelas palavras de seu pai e mentor observava a cena que estava se desdobrando à sua frente assim como Zero que mesmo tendo sofrido tamanho curto em seus circuitos internos ainda funcionava e de repente visualizava umas imagens difusas que não correspondiam a realidade do que ouvia. Também nesse instante, Katsu estava reentrando no recinto cheio de poeira e fumaça quando pára estático diante da cena que via. Parecia o mesmo que a superação do homem ao subir pela primeira vez o Monte Everest www.cchla.ufpb.br/debate2005/everest.jpg, mas era o punho de Setsuna atingindo Ibuki furiosamente. ................... Mais tarde naquele mesmo dia, Setsuna, Ino e Katsu encontram-se no interior de uma basílica belíssima e cheia de adornos fabricados provavelmente por antigos artesãos, pois tinham um capricho fora do comum que não é mais visto nos dias de hoje. As imagens esculpidas remetem a épocas remotas dos primeiros séculos e ainda preservam sua aparência tão conservada quanto à dama do tempo teria se existisse realmente. O odor suave de mirra paira no local que induz paz e descanso aos músculos feridos e exaustos 23


daqueles que ali buscam refúgio em meio a tantas referências históricas. Eles se alimentam com o pouco que conseguiram com o pároco daquele recinto que agora os deixara em paz, mesmo que suas aparências não fossem as melhores e muito menos devido à katana gasta que pairava nas mãos daquele que parecia ser o líder se é que existe algum líder em tal grupo. Banhados pela luz dourada dos candelabros e dos adornos que refletem no ouro e demais materiais do local, Katsu enfim quebra o silêncio: -Será que conseguimos escapar? -Duvido muito, - pronuncia Setsuna com seus ferimentos já estancados - por pouco não nos envolvemos naquele problema com a polícia naquele instante. Graças à presença de Ino pudemos passar por eles sem maiores atrasos. Até por que, pra alguma coisa, o fato dele ser policial teria que servir... -Heh! E quem disse que eu não sou útil?! Agradeça por eu ter lhe ajudado, senão você já estaria em maus lençóis agora, isso se não estivesse morto! -Tudo bem, conversamos sobre isso depois, agora você, meu caro Katsu. Conte o que houve realmente entre você e Ibuki. Pego repentinamente pela pergunta incisiva, Katsu fica sem ar por alguns instantes, após os quais se recompõe e começa a dissertar: -Tudo teve início há cinco anos. Na época, eu tinha acabado de concluir meus estudos sobre informática avançada e já conhecia mais do que a maioria das pessoas a respeito da robótica e seus fundamentos. Trabalhei junto a um antigo companheiro de pesquisas, na época meu amigo. -Juntos, retomamos um projeto a muito esquecido por nós devido à falta de tecnologia compatível na época, mas enfim, tínhamos em mãos o que precisávamos para pôr em prática nossa vontade mais desejada: criar o andróide com a verdadeira IA http://pt.wikipedia.org/wiki/Intelig%C3%AAncia_artificial, para que pudéssemos ver nossa criação evoluir junto com a geração a qual pertence assim como os filhos evoluem junto aos pais e o tempo junto às eras. -Chegamos a criar até mesmo uma maneira para que o andróide funcionasse a partir da energia alucinógena existente nas drogas. Isso mesmo, Ino, conseguimos criar uma maneira de fazer com que as drogas contra as quais a polícia tanto luta servisse para fazer funcionar o sistema de um andróide criando assim uma fonte de energia abundante e completamente inovadora até para os padrões atuais! -Mas, ainda assim, com todo esse progresso e desenvolvimento, nos faltava a parte mais importante para que pudéssemos levar a cabo nossa experiência. Dinheiro. Sim, a verba financeira que pudesse custear todo e qualquer teste necessário no desenvolvimento da mais perfeita máquina já construída por um ser humano a partir de outro ser humano. Pois nós tínhamos um problema além do dinheiro, precisávamos de alguém que fosse voluntário à nossa pesquisa, então discretamente, começamos a procurar por possíveis pessoas com doenças em estado terminal, até que ele surgiu. -Ele mesmo, Ibuki. Na época ele surgiu não apenas com a ajuda financeira necessária para levar adiante nossa ambição, como também, com a pessoa voluntária para que pudéssemos continuar nossas pesquisas. E sempre que falhávamos, ele imediatamente surgia com um novo voluntário. No começo até estranhamos, mas ele dizia trabalhar em uma instituição que dava auxílio a esse tipo de gente e que lá era comum ter pessoas em estágios terminais de doenças até mesmo raras hoje em dia. Então após algum tempo, ele a trouxe. Nós nunca soubemos qual foi seu verdadeiro nome, por isso a chamamos de Zero. E como era bela, aquela inocente menina. 24


-Ela era dona de uma beleza quase artificial. -Seus longos cabelos eram dotados de um azul anil que mais parecia o céu mais limpo que vocês já puderam ver em suas vidas inteiras. Os olhos hoje, trocados por órbitas artificiais, eram como pequenas bolhas de ar de tão alvos que se tinha que fazer esforço considerável para enxergar sua pupila e seu corpo era de uma perfeição sem igual. Belos seios adornavam seu jovem corpo já devastado por alguma doença interna, provavelmente câncer, o qual já não dava mais para distinguir devido à contaminação. Embora ela não esboçasse o menor sofrimento perante tal aflígio. A única coisa que ouvimos ela dizer foi a confirmação de que queria ser nossa voluntária em prol de uma causa que desconhecia quase por completo a não ser pela possibilidade de poder viver mais do que aqueles dias aos quais ela já sabia não pertencer mais. -Por fim, a sedamos e então fizemos os procedimentos necessários. Trocamos grande parte de seus órgãos internos, e também em torno de 85% de seus membros tanto superiores quanto inferiores. Os olhos como disse antes, foram trocados devido ao dano irreparável a que tinham sido submetidos e mantivemos sua estrutura corporal básica. E obtivemos sucesso após uma operação que durou pelo menos 30 horas de esforço intenso e dedicação total a ela. Foi um sucesso. Mas tivemos problemas no processo. Meu parceiro desistiu do experimento antes de ser concluído por razões pessoais e a partir daí tive que contar com o auxílio das mãos aparentemente inexperientes de Ibuki, um homem que eu até então desconhecia quase que por completo, exceto por essa manifestação súbita de interesse pela nossa obra. -Porém, ele demonstrou agilidade fora do comum naquele tipo de procedimento cirúrgico. E mais estranho ainda foi quando ele disse não querer nada em troca pelo experimento. Ele simplesmente disse: "Foi uma honra trabalhar com vocês, fico plenamente satisfeito com os resultados obtidos " -Após esse evento, passou-se uma semana, até que de repente tudo mudou para nós. -A nossa paciente, já renomeada Zero, simplesmente disse que ia embora. Eu não entendi o porquê daquela resolução repentina e lhe perguntei pra onde ela ia ao que ela simplesmente olhou em minha direção, com os olhos distantes e me respondeu a última coisa que a ouvi dizer em toda minha vida: "Vou pra junto de meu mestre Ibuki." Aquelas palavras doeram mais do que tudo que já vi ou ouvi. Eu tentei impedí-la de fazer isso, mas fui repelido por um golpe do braço dela que me jogou contra a porta da casa onde vivíamos na época. E pior do que isso, eu fui cair justo aos pés dele. Ibuki. O qual me olhou como a um verme e disse-me: "Desculpe doutor, mas tomei a liberdade de fazer alguns ajustes nela e agora preciso levá-la para que ela venha a se tornar útil de verdade, assim como você foi! " ..................... Ao concluir, Katsu permanece cabisbaixo, como se estivesse refletindo sobre tudo o que acabou de dizer. Ninguém pronuncia uma só palavra durante alguns minutos em respeito ao companheiro que deixa cair uma lágrima solitária de seu rosto sofrido. De repente, as luzes do local se apagam, como se tivessem sido banidas para outra dimensão. As trevas parecem se apoderar do recinto, sugando toda e qualquer luminosidade 25


para si. -Mas, que diabos?! - resmunga Ino. De repente, os vitrais da capela simplesmente estouram um a um de fora para dentro como se fossem pressionados pelo vácuo. E eis que surge a frente dos três uma figura feminina de feições já conhecidas aos presentes com suas madeixas louras e seu instinto assassino a flora. Um relâmpago então os deixa ver seu semblante confirmar suas suspeitas. -Harumi!! - diz Setsuna. -Quero respostas, e as quero já!!! - brada a beldade mortal.

6ª Vida – Reminiscências "Passado, presente e futuro, três fluxos do espaço-tempo, imutáveis em si e impossíveis de se encontrar. Mas o que fazer quando isso não mais tiver significado e o homem se tornar atemporal?" A noite tempestuosa que parecia o prelúdio de uma verdadeira guerra física, psicológica e mental parecia prestes a eclodir sobre a cidade e em especial acima das cabeças de tão distintos protagonistas. Mesmo sendo surreal de tão simétrico, a cada passo especialmente compassado da bela assassina um relâmpago rompia o firmamento iluminando o local outrora iluminado por belos fachos de luz dourada, agora contando apenas com as frágeis e parcas chamas de poucas velas que resistindo bravamente ao vento que acabara de invadir o recinto, tentam em vão guiar a visão daqueles que ali se encontram. -Você é realmente muito determinada em alcançar seus objetivos Harumi. - pronuncia Setsuna, quebrando o gelo entre eles - Nem a polícia pôde impedí-la de nos alcançar. E quanto ao seu pai? O que houve a ele? Por menos do que um instante, Harumi desviou o olhar como se tentasse olhar para dentro de si mesma a fim de encontrar respostas as perguntas incisivas do homem à sua frente. -Ele... meu pai... ficou... não, eu o despistei para vir ao seu encalço. -E por qual razão? -Eu quero saber a verdade, se é que existe alguma, sobre mim, sobre meu pai... digo, sobre Ibuki e sobre você pois algo está estranho pra mim. Algo no que ouço e vejo não condiz com o que eu entendo por verdade. -E como vai saber se o que eu vou lhe contar, e se, vou lhe contar, é a verdade? -Vou acreditar. Eu sei que vou acreditar quando eu ouvir a verdade. Não sei como e nem o porquê, mas sei que vou saber reconhecer. - dizendo isso se posiciona em postura de combate estilo Wushu, as mãos levemente erguidas em frente ao tronco, perna direita à frente apoiada na ponta do pé e perna esquerda firmemente estruturada dando base ao corpo ereto - Porém, antes, vai ter que me derrotar. E nem pense em pegar leve, pois eu tentarei te matar. Se, contudo, conseguir me deter e me vencer, serei sua. Mas, ainda assim, terá que me contar e convencer-me da sua verdade. -Tudo bem. Lutarei com você. - ao dizer isso, Setsuna é atingido no peito.

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Um belo, porém, violento chute é cravado no peito de Setsuna, o qual é lançado contra o altar, que acaba todo rachado, com alguns pedaços no chão outrora limpo. -Q-que... O que raios foi isso?!? - grita Ino, impressionado com tamanha violência que Harumi ainda mantinha oculta - Mas afinal de contas, que tipo de treinamento essa mulher fez?? Setsuna começa a se erguer, filetes de sangue que lhe saiam da boca, quando nota Harumi sair explosivamente de uma postura um tanto aberta, avançando velozmente, dando-lhe tempo apenas para virar o rosto, ao que recebe um corte que lhe atinge a lateral da face direita e o lóbulo de sua orelha. -Cuidado Setsuna, essa mulher consegue usar o Jeet Kune Do! http://pt.wikipedia.org/wiki/Jeet_Kune_Do -Jet o quê?! -Permita-me que lhe explique demônio, esse é um estilo criado por um mestre em vários estilos de luta, de nome Bruce Lee, no qual se prioriza não a beleza dos golpes, mas a velocidade e a eficácia dos mesmos. A intenção não é deixar o movimento mais belo, e sim, deixá-lo mais rápido e mais letal que qualquer outro estilo já criado. Eu não pretendia enfrentá-lo com isso, pois não achava que teria de usá-lo contra você. Achei que seria um desperdício de tempo e de esforço para com alguém que não merecia tal empenho. Mas, você conseguiu me deixar com dúvidas a respeito de mim mesma e de meu pai. Então, para que eu possa descobrir a verdade, eu tenho que derrotá-lo com todas as minhas forças!! - dito isso, novamente ela abre os braços e posiciona-se para atacar. http://www.bruceleeweb.com/imagenes/bruceleelateral.jpg Em seguida, tão rápido, como da primeira vez, Harumi avança com dois diretos de direita, seguidos por uma cotovelada e um golpe com as costas da mão esquerda, além de aplicar um Aptcha Oligui, seguido de um Tigô Tchagui, na perna direita concluindo com um Bandê Tchagui http://br.answers.yahoo.com/question/index? qid=20080320072126AAWNU1f que Setsuna defende, mas acaba arremessado sobre os bancos do recinto. " Ela misturou os estilos!" Setsuna pensa, no mesmo instante em que nota Harumi saltar sobre ele atacando-o com um soco, o qual ele defende, mas quase tem o braço quebrado devido ao impacto violento que este sofre. Ao mesmo tempo, ela cai por sobre ele sentando de modo que usando de suas pernas, prende as de Setsuna, imobilizando-o, enquanto o ataca com uma seqüência absurda de rápidos ataques com ambas as mãos devastando o já corpo ferido dele que cospe sangue involuntariamente. -Q-que... Mas o que raios vocês estão fazendo na casa de Deus?! -Parem com essa destruição, por fav*...!! Silêncio. O som do ar sendo rasgado por algo arremessado. O pároco infelizmente descobre tarde demais que estava no lugar errado, na hora errada. A última visão que ele tem é a de uma bela mulher de pele alva e belos cabelos dourados arremessar-lhe um estilhaço de um dos vitrais do recinto sagrado que jazia no meio de sua testa fazendo o sangue correr por seu rosto, dando-lhe apenas tempo para contemplar a imagem Daquele que em tempos remotos deu sua vida em sacrifício antes que este venha a tombar inerte no chão do cenário de tal embate. Ino e Kawazaki permanecem estáticos devido a cena que acabam de presenciar. Harumi por alguma razão também se mantinha imóvel com sua mão esticada no ar. De repente, seus instintos se reativam ao sentir movimentação repentina, porém, não 27


consegue ser rápida o suficiente. -UNGH!!! Harumi titubeia após receber um forte golpe no abdômen, ao que Setsuna, aproveitando-se da situação, a abraça com o braço direito, prendendo os braços dela que estavam na frente do corpo e com a outra mão ele agarra o pescoço dela, sufocando-a. -M-mal-di-... to... d-demô...ugh!! -Heh! Se você tem forças pra continuar a nos chamar assim então quer dizer que ainda posso apertar mais, não é? - Harumi sente a visão turvar aos poucos devido à falta de oxigenação no cérebro, seus olhos começam a perder a chama intensa que os permeavam. -Setsuna, seu doido, pare com isso!!! Assim você vai matá-la!! - grita Ino, que corre. -Vocês já não tiveram o bastante!!! -Espera Ino!... -CALE ESSA MALDITA BOCA INO!!!! - o brado de Setsuna ganha um efeito especialmente mais aterrorizante ao ecoar pela capela, fazendo Ino parar a poucos centímetros dele e Katsu ficar ainda mais paralisado do que já estava - Não se intrometa nesta luta senão eu acabo com você!! -... gente... -O que foi agora Katsu? - nesse instante Setsuna sente um calafrio, mas assim como Harumi, ele não consegue ser rápido o suficiente pra evitar que ela, deslocando o braço direito, tire-o de junto ao corpo, jogue-o para trás fazendo com que ele volte ao lugar, e lançando um forte golpe contra a articulação do braço que a esganava fazendo com que ele perca a força para em seguida aplicar-lhe uma cabeçada violenta que leva os dois ao chão, cada um de um lado. -Argh!!! Que força!!! Como ela pôde manter a calma e o controle numa situação como essa! -Mas pelo visto aquela era a última força que lhe restava, já que ela caiu inconsciente. -Que mulher difícil de lidar! -E afinal de contas, até quando você vai ficar parado aí Katsu?! -Você só pode estar brincando? Que diabos são vocês?? Eu sou apenas um cientista, digo, hacker, digo, ah deixa pra lá! Eu nunca me envolvi com esse tipo de coisas nem saí me engalfinhando com qualquer um... ou uma. -Entendo. Mas vamos, temos que acord... -O que foi Setsuna? -O garoto!! Ele está vol-t-tando!! -Bem, pelo menos não estamos no meio de um problema como da outra vez. - nisso, Setsuna aponta debilmente na direção oposta a ele, ao que Ino, se vira sem acreditar no que seus olhos viam. Harumi, de pé, olhava arfante, para eles, filetes de fino sangue fluindo de seus lábios, as pernas arqueadas, sem muita força nos quadris, mas a determinação mantida no olhar, embora algo lhes parecia diferente. -Mas, é impossível!! Ela só pode ser imortal!! Afinal, quem estaria de pé após perder o fôlego daquela maneira! -M-... me... -Hã?! -... te-... me... -O que ela está dizendo? -MATE-ME DEMÔNIO!!! MATE-ME AGORA!!! VAMOS!! 28


-E então Setsuna?... Setsuna?!? Nesse instante, o jovem garoto surge diante dos olhos incrédulos de todos ali presentes. -Aii!! O que houve comigo? Onde eu arrumei todos esses ferimentos?? E... Ino, Katsu, vocês aqui!! Hã? Nossa!! - e eis que ele sai em disparada de encontro à Harumi que não entende o que acontecia naquele momento. -O que aconteceu com você afinal?? -Hã?! Como assim? -Você não se lembra de nada? -Não. Quem te deixou assim e por que você queria que te matassem? -É verdade. Você me venceu em uma luta justa. E, portanto, lhe ofereço minha vida. Pode me matar. -Eu? Matar você?! E o que eu vou ganhar com isso? -Mas, eu... -Espera um pouco. Antes, de mais nada, deixe eu cuidar desses ferimentos. - e estendendo a mão, rasga um pedaço de sua manga e começa a passar no rosto de Harumi limpando o sangue. -Ah! -Err Setsuna, não é por nada não, mas acho melhor sairmos daqui o quanto antes, afinal, depois de tamanha confusão, esse lugar logo estará cheio de curiosos. -Sim. Vamos... hã... errr... qual é mesmo o seu nome? -Você não se lembra mesmo de nada? -Como assim? -Deixa pra lá. Me chamo Harumi. -Lindo nome. Assim, como você. Heheh, Harumi... gostei! -Ele não se lembra de nada mesmo Ino? -Não, Katsu, é algo impressionante. Eu já havia ouvido falar em dupla personalidade, mas, nele isso chega a ser surreal. Afinal, ele não sabe da existência do outro, porém, o outro sabe de tudo o que se passa com ele. -Realmente. E o que houve com ele pra que ficasse assim? E você, Harumi? Digo... pra onde vai levar esse corpo? -Eu vou enterrá-lo. -E desde quando você se tornou tão boazinha assim. -Eu nunca fui má. Eu apenas mato aqueles que são maus. Ou pelo menos, eu acho... dito isso uma lágrima solitária desce-lhe a face. -Que seja então, depois nós conversamos sobre isso tudo. Primeiro vamos arrumar um lugar decente para ficar essa noite e algo para comermos. -Eu sei de um lugar onde podemos ficar, afinal é praticamente uma cidade desabitada. -Hã?! E onde fica?? -Fica na parte baixa dos arredores da cidade. O local foi tomado pela água, parece até Veneza. No entanto, lá, a água invadiu até mesmo as casas, e apenas alguns cômodos mais altos estão acima da superfície aquática. -Por sinal, evitem entrar n'água, pois ela é proveniente de fontes termais, porém está contaminada com dióxido de enxofre http://pt.wikipedia.org/wiki/Di %C3%B3xido_de_enxofre, que mesmo em mínimas quantidades, ainda assim é capaz de lhe matar em poucos minutos. -E com mil diabos, por qual motivo nós iríamos nos refugiar num lugar inóspito como esse? 29


-Para termos mais reclusão a fim de recompor nossas forças, sem possíveis "intervenções". -Sei. .............. A noite vai caindo, e o céu se turvando em tons acinzentados, prelúdio de uma noite com neve, conforme eles vão se afastando do centro da cidade. A paisagem vai se tornando mais natural e menos estrutural. A única lembrança que não os abandona é o asfalto que permanece em bom estado devido ao pouco fluxo de veículos. O único que trafegava naquela estrada era um Hyundai Tiburon negro http://cars.88000.org/wallpapers/45/Hyundai_Tiburon_V6_SE_2005%2C_Sunset_Widescr een.jpg, o qual voava na pista, Ino pisando bem no acelerador arrancava mais de 130 mph a partir da bela e ostensiva potência de 170 cavalos, aonde iam ele e Katsu na frente e Harumi no banco de trás com um dorminhoco Setsuna ao seu colo após comer uns bons sanduíches murmurava coisas sem nexo ao que todos riam dele. -Hahahahah!!! Nem parece aquele cara marrento que traz tanta violência ao seu redor!!! -É mesmo!!! -Por sinal ele parece muito bem acomodado ao seu colo Harumi. - quase ao mesmo tempo o rosto alvo da beldade torna-se rubro, tal pimentão. -Será que ele estaria tendo sonhos com balas e doces? Hahaha...!!!! -Deixa ele voltar a outra forma e aí eu quero ver você falar isso pra ele, Ino! -Que isso, amigão! Nem parece que foi ontem que te livrei da busca da alfândega por causa de suas pesquisas. -Hahahah... Porém, na mente de Setsuna... ............... Silêncio ............... E uma escuridão infindável circundam o jovem Setsuna. Nem o fundo do Mar Morto teria uma densidade de negrume tão forte, no entanto algo não lhe parece certo. -Onde estou? E por que está tudo tão escuro? -Estamos dentro de sua mente, meu jovem hospedeiro. - diz uma voz forte e nítida, embora numa tonalidade mais forte, esta se assemelhava e muito à sua própria. -Quem está aí? Como assim, na minha mente?? -Ainda não entendeu, não é? Você está neste exato instante, dormindo feito um bebê no colo da Harumi, a mesma mulher que tentou nos matar, mas que ainda não sabemos bem ao certo resolveu nos dar uma chance de nos entendermos com ela. -Mas quem é você? -Ainda não percebeu? Eu sou você, Setsuna. Eu sou Setsuna! - dito isso, Setsuna surge 30


em meio às trevas se aproximando dele. -Mas isso... é impossível!! -Não, não é. Eu sou outro Setsuna que viveu séculos atrás e após morrer, voltei à vida reencarnando em seu corpo, no entanto, algo aconteceu que você já nasceu com alma própria e por essa razão acabamos formando um corpo com duas almas. -Mas... -Pode ser difícil pra você admitir, mas por várias vezes recentemente devem ter havido ocasiões em que você perdeu ou sequer lembra-se do que houve ou como chegou a determinados lugares. Era eu acordando, e agindo em seu corpo. E não se esqueça dos seus sonhos com eras passadas em que você me via lutando, mas não fazia idéia do que se tratava. Por instantes, Setsuna pára e lembra-se das ocasiões. E num dado momento, sua face muda, adquirindo confiança e decisão. -É verdade. Mas tem algo que ainda não entendo. Por que só agora isso vem acontecendo? -Eu ainda não sei. Mas só o que percebi foi que consegui retornar exatamente quando você perdeu a consciência. No entanto, da última vez que isso ocorreu, eu invadi seu corpo mesmo você estando acordado. Acho estranho, mas imagino que isso tenha ocorrido pelo fato de nós dois termos unido nossas vontades momentaneamente. -Correto, meus caros. Uma voz austera e feminina quebra o momento pessoal de ambos. Uma sensação cálida de perseverança, junto a outras sensações mistas invade os dois como uma torrente que penetra o interior da mais sólida rocha. -Quem é você? - perguntam em uníssono -No momento, não lhes é necessário conhecer-me embora eu já os conheça, sobretudo você, caro espadachim. -Então o que você quer conosco? -Quero falar-lhes que antes que possam se entender deveriam fazer com que aqueles que os seguem e acompanham, os compreendam e conheçam quem são e de onde vieram, afinal, vocês estão juntos nisso, lembram? -E o que quer que façamos? -Digam a eles o que eles querem saber. O resto lhes direi na hora adequada. - ao dizer essas palavras a estranha mulher começa a sumir e a escuridão se intensifica a ponto de cobrí-los... -Ah! -Acordou? - Setsuna acorda suando e depara-se com o rosto de Harumi olhando para ele, enquanto com as mãos, limpa o suor que lhe escorre a face. -Resolvemos contar tudo. -Como?! -Eu e Setsuna vamos contar tudo a vocês. - a expressão de espanto e descrença surge no rosto de todos e piora ao verem o reflexo do outro Setsuna surgir por sobre o corpo do jovem garoto. -Mas... o que está acontecendo aqui?!? - Ino quase bate o carro após o choque. -Está tentando matar a todos nós?? -Tenho que cumprir minha parte no acordo com ela e de certo modo com vocês. Vou contar-lhes o que houve entre eu e Ibuki.

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.............Para retornarmos até os acontecimentos entre Ibuki e Setsuna, vamos remeter à época em que eles se conheceram. Relatarei os fatos em 3ª pessoa............. 300 anos antes Setsuna era um jovem espadachim que treinava arduamente no cume de uma montanha alva devido à neve proeminente da estação do ano. Trajava uma Hakama http://pt.wikipedia.org/wiki/Hakama cinza, com manchas escuras de sangue já coagulado devido prováveis ferimentos de treinamento. Calçava um par de Zôri http://www.nippobrasil.com.br/2.semanal.culturatradicional/351.shtml gastas. A rocha na qual Setsuna se encontrava, mantinha-se limpa e sem neve ao contrário da natureza ao seu redor, porém, era o pior lugar naquela montanha para se ficar, afinal, a água que jorrava da cascata de quase dois mil metros de altura se chocava em sua base, tornando impossível alguém chegar aonde ele se encontrava no momento. O sangue gotejava de suas mãos sofridas do árduo treinamento com aquele shinai http://www.evl.uic.edu/spiff/KendoBlog/images/Shinaiparts.jpg que normalmente não passava de uma leve espada de bambu oco amarrada com pequenas cordas, porém, a que se encontrava em posse de tão maculadas mãos continha em seu interior pedras de calcário além de sua empunhadura, chamada Tsuka, ser feita em aço forjado, sem contar, é claro, o fato de que naquele local em específico, a água se tornava um "peso" a mais ao ser absorvida pelo bambu. Após muitas possíveis horas de treinamento naquele local, Setsuna, vencido pelo cansaço, foi ao chão frio e úmido daquela rocha, quando uma voz lhe soou aos ouvidos, reanimando seu corpo inerte e exaurido de forças: -Heh! Já acabou Setsuna!! Mal o sol está alcançando o mais alto ponto da esfera celeste e você já se encontra aí descansando. Como os jovens de hoje se tornaram fracos. É só deixá-los sem comida por umas poucas horas que já abandonam toda a força que possuíam antes! -Como assim, algumas horas?! Eu estou aqui ao relento, treinando sem parar desde o poente solar de ontem, sem falar que já havia passado a primeira metade do dia na base desta rocha sob a pressão tórrida da água que cai no fundo deste vale. E desde o início, eu não pus um só grão de arroz na boca, minha língua só não está seca e desidratada devido à cascata que me cobre, e minhas mãos já não mais suportam a dor de serem flageladas!! Por que mestre? E pra quê tudo isso?? Eu não agüento mais! -Olhe pra mim quando fala comigo, jovem imprudente!! Ou por acaso já se acha sábio e forte o bastante para me deter? Mal terminara de dizer essas palavras, o mestre se vê sendo atacado por seu pupilo. Setsuna se encontrava agachado e seu mestre, a apenas 3 passos de distância, ambos na rocha lisa e escorregadia, onde seu mentor tinha às costas a força das águas descendentes a apenas alguns parcos passos. Não havia fuga. A shinai de Setsuna corta o ar assim como algumas gotículas de água que caíam desordenadamente e parte rumo ao rosto alvo de seu mestre, quando repentinamente tem seu caminho interrompido bruscamente. -M... mas isso é... i-imp... -Impossível, Setsuna? - a voz era serena, mas vazia como se sugasse toda vida do ambiente e toda força de vontade de Setsuna que via sua espada parada por apenas um dedo da mão dele, que rachou a shinai naquele ponto. 32


-Eu apenas usei de força canalizada. Já lhe ensinei isso, além do que sua shinai é demasiado pesada para ganhar tamanha velocidade necessária pra me atingir. - dito isso, ele com um gesto circular, girou a espada e lançou Setsuna para o ar, apontando-lhe a shinai ao que ele apoiou com a mão esquerda na ponta dos dedos e antes de fazer menção de cair, notou que a rocha se encontrava cheia de pedras pontiagudas voltadas para cima. -Mas o que é isso, mestre?! -Seu último desafio do dia. Sobreviva a isso e poderá descer daqui para comer. - ao dizer essas palavras, ele largou a espada de bambu. -Você ainda tem energias no corpo, apenas não as canalizou! Lembre-se! O ser humano, quando acha que chegou ao seu limite, é por que ainda não sentiu necessidade de usar sua força interna, a verdadeira força, que só surge muitas vezes quando estamos prestes a morrer. .............. Alguns meses depois, ainda vivo, Setsuna chegava à morada de seu mestre, uma pequena cabana feita de palha e madeira velha e úmida por fora, por dentro apenas uma rede e restos de crânios de animais usados como alimento, organizados cuidadosamente em respeito àqueles que serviram para lhes dar subsistência, além de uma rede e uma pedra para amolar suas espadas. Mais ao canto, ele o viu. Trajava um kimono comum, porém, belo de um azul sutil como a neve. Uma parte de tecido imitando um casaco ou sobretudo levemente esverdeado, com linhas à margem que adornavam sua veste rasgada nas mangas e bainha não se sabe se pelo uso, tempo, ou por ele mesmo. Os cabelos alvos com tons de azul eram jogados para o ar com apenas uma pequena mecha solitária que lhe caia a face ondulando na frente de seus olhos aguçados e negros. Mais o que mais impressionava nele eram suas duas katanas cruzadas em suas costas na forma de X, porém, estranhamente com suas empunhaduras viradas para baixo. -Está indo embora. -Sim, mestre. -E por qual razão você veio até aqui? Por acaso, não ficou sentimental a ponto de querer carinho de outro homem, ficou? -??? Não mestre!! -Então? -Vim apenas lhe perguntar uma coisa que tem me incomodado há um bom tempo. O senhor nunca me ensinou nenhuma técnica ou golpe, sequer postura de luta me ensinou. Como posso saber se devo me considerar apto a seguir pelo mundo afora e enfrentar as lutas que vierem a se interpor em meu caminho?? -Setsuna, Setsuna... você lembra de quando me viu lutar pela 1ª vez?? -Sim mestre. -Então me diga, quantas e quais técnicas você, meu tolo pupilo, me viu executar com essas mãos? ................. -Diga Setsuna. -Nenhuma senhor. 33


-Então como espera aprender algo de alguém sem que tenha visto esse mesmo alguém demonstrá-lo ante seus olhos. A verdadeira habilidade na espada, não consiste em floreios e técnicas complexas e belos movimentos, disso se encarregam as danças. A arte de matar consiste única e simplesmente em saber ser ágil, sutil, preciso e letal para que seu inimigo não tenha a chance de mostrar o que sabe. Uma luta entre espadas é uma luta onde ou você mata ou você morre. Não existe mais nada a se dizer. Todo treinamento que você teve foi para prepará-lo fisicamente e espiritualmente para o que for enfrentar. E por fim, o meu primeiro e último ensinamento a você é: VIVA! Viva e lute pela sua vida até o seu último suspiro de existência abandonar sua forma carnal!! E agora vá. Siga seu caminho, pois estou cansado. Então, Setsuna ia se virando pra partir, quando se deteve e retornou a falar: -Mestre, antes que eu me vá, gostaria de esclarecer uma coisa. -Diga. -Afinal, o senhor me criou, me treinou, me alimentou e me preparou para a vida lá fora. Mas desde que nos encontramos pela primeira vez, o senhor não me disse seu nome. -Eu não tenho mais um nome. -Como?!? -Pelo menos, eu não me lembro quanto tempo faz desde que abandonei o convívio social e nem lembro quando foi a última vez em que ouvi meu nome ser pronunciado, afinal, eu já era pra estar morto. -Porquê? O que o senhor fez? -Nada, Setsuna. Apenas deixe-me em paz. -Certo. Só mais uma coisa. -Sim? -Eu conheci uma pessoa. O nome dele é Ibuki e ele também disse ter terminado seu treinamento recentemente. - dito isso, a figura de um homem com seus prováveis 20 anos de idade surgiu. O cabelo branco acinzentado cobria-lhe parte da face, deixando à mostra apenas um de seus olhos rubros. Um manto negro ocultava seu corpo, porém, deixava visível o cabo ensangüentado de uma espada. O olhar do mestre se aguçou tal qual os de um felino ao ver a figura de Ibuki, porém, reassumiu suas feições normais. -Prazer Ibuki. -O prazer é todo meu, mestre. - por um ínfimo instante, Setsuna sente como se a temperatura no local caísse bruscamente mesmo para os padrões da montanha onde se encontravam. Ao dizerem essas palavras, eles se viram para partir: -Setsuna. -Sim mestre. - Setsuna se vira devido à última manifestação de seu mestre, esperando ouvir algo de suma importância. -... nada. Apenas cuide-se. E lembre-se: sua intuição pode ser sua maior aliada em momentos de dúvida. Agora vá. -Obrigado mestre, e... adeus. - ao dizer essas palavras, Setsuna parte junto ao seu mais novo amigo. -Cuide-se garoto. - ao balbuciar suas últimas palavras o mestre sente o sangue esvair com sua vida pela boca e pelo abdômen onde jazia uma katana cravada até o cabo. -Adeus, discípulo tolo. - dito isso, uma única e sorrateira lágrima cai de sua face. 34


7ª Vida – Traições "Muitas vezes por trás de um rosto angelical se oculta uma maldade diabólica, mas no fim de contas, é preferível uma bela maldade ou uma feia verdade?" Pouco tempo após terem saído das montanhas onde treinara, Setsuna resmunga: -Estranho... -O que é estranho, Setsuna? -O mestre, parecia que ele não estava bem... sei lá, ele nunca foi uma pessoa amável mas hoje ele realmente me pareceu diferente, como se estivesse escondendo algo de mim... -Vai ver ele simplesmente achou melhor se despedir assim. Pra que você não fraquejasse na sua decisão. -Não sei não, acho que vou voltar. -Não faça isso! -E porque não? Dê-me uma boa razão para eu não retornar. Ou será que você está me escondendo alguma coisa?! -Claro que não... -Então não me impeça! - ao dizer isso, Setsuna vira-se para voltar quando algo o atinge fazendo-o cair desacordado. ............. Momentos mais tarde, ao abrir os olhos, percebe estar numa cabana em alguma aldeia desconhecida. O cheiro de comida quente permeia o lugar, difundindo-se por entre as paredes feitas de madeira e bambu. O piso de taco limpo e bem cuidado dá a entender que se trata de um dojo http://pt.wikipedia.org/wiki/Dojo e isso se confirma ao perceber suportes para espadas, onde se encontram bokutôs www.alphanet.ne.jp/users2/iwataco/bokut.html cuidadosamente arrumados, além de uma yoroi http://www.wakagashira.com/images/yoroi1.jpg. De repente, ele se recorda do ocorrido na montanha: -Ibuki!!! - o grito ecoa pelo local e em instantes, ouvem-se os passos de alguém chegar. -Ah! Setsuna, que bom que acordou!!*...! - eis que Setsuna lhe segura pelo keikogi [http://pt.wikipedia.org/wiki/Keikogi] [http://www.blackhawkmartialarts.com/images/BH0221.jpg] quase sufocando-o. -O que diabos você fez?! Por que me golpeou?!? O que você está pretendendo fa-Eu apenas impedi você de voltar atrás em sua decisão, seu tolo!! - interrompe Ibuki Se eu tivesse deixado você teria subido a montanha, levado uma tremenda bronca de seu mestre, além de provavelmente nunca mais conseguir se desvencilhar daquela vidinha isolada do mundo!! -Mas... -Viva a sua vida e não a de seu mestre!! Concluiu Ibuki, calando-o.

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Naquele instante, Setsuna parou, voltou-se para si mesmo e pensou por um tempo até que: -Tudo bem, você está certo!! Afinal, ele é o meu mestre e sabe se cuidar. -Ótimo! Então, vamos? -Pra onde? -Como assim?! Já se esqueceu do motivo pelo qual saiu do refúgio de seu mestre para me acompanhar? Ou aquilo tudo foi apenas pra me iludir?? -Não!!! O que é isso, Ibuki! Vamos lá. Em seguida os dois amigos partiram rumo à jornada que mudaria para sempre o destino de ambos. Passados alguns dias, rumando, Setsuna e Ibuki chegaram a uma região onde predominava a lei dos clãs que residiam ali nas quatro direções cardeais. Ao norte, o clã do fogo, ao sul, o clã da água, ao leste, o clã da terra e no oeste, o clã do ar. Os jovens aventureiros, se instalaram no clã do fogo, que diziam primorar por seus guerreiros serem os melhores dentre os quatro clãs, porém, também freqüentaram os demais, aprendendo cada vez mais do costume e das habilidades daqueles povos. Numa noite de fim de Outono, o frio já vinha se abatendo no povoado, avisando da chegada do Inverno. Setsuna se encontrava no cume de uma colina observando um pico que se localizava estrategicamente no meio dos clãs separando-os. Pouco depois Ibuki surgiu da mata densa. -Setsuna, enfim, estamos prontos. Já dispomos de forças para abater nossos inimigos e alcançar a oferenda. No entanto, mesmo estando numa posição de renome entre os guerreiros, eles têm receio de mim. Por essa razão, eu preciso que você vá em meu lugar. -Mas já fazem mais de dois anos que estamos aqui. Já treinamos com eles, vivemos com eles, e mesmo depois de tanto tempo, você sequer me disse do que você realmente está atrás. -Setsuna... -Eu sei!! E o motivo pelo qual eu saí de lá era pra me tornar mais forte, coisa que já consegui. Porém, você disse que isso tinha um preço a pagar. -Isso. E esse preço é conseguir pra mim a oferenda. - Nisso, um filete de suor frio desceu a face de Setsuna. -Você diz... -Sim, a chave da imortalidade. A oferenda aos deuses. A espada sagrada!! Por instantes, Setsuna parou, refletindo sobre o que acabava de ouvir, até que: -Você está louco!!! É impossível!! Isso é apenas uma lenda passada entre os clãs, onde dizem existir uma espada que daria a invencibilidade a quem a possuísse e que estaria no templo que fica supostamente sob essa montanha no seio de seus domínios!! E se estiver, como você a encontraria, se é que ela existe?? -Novamente você me subestima, meu caro Setsuna. Desde antes de te convidar a vir comigo nessa jornada eu já sabia da existência dessa lenda, mas não achei que seria capaz de obtê-la sozinho, por outro lado você treinava arduamente almejando força e liberdade, porém, não conseguia se desvencilhar de seu mestre. Então por que não unir as duas vontades em prol de um bem maior? -De SEU bem maior, você quer dizer. -Não, Setsuna, obtendo a espada, nós nos tornaremos imbatíveis!!!! -Mas, Ibuki, você sabe que pra isso, teremos que nos tornar monstros que terão de matar todos que se opuserem a nós nessa empreitada. 36


-É por isso mesmo que eu preciso de você, afinal, eu vou distrair os anciãos enquanto você se dirige para lá. Dessa forma você estará livre para pegar a espada sem problemas. -Não sei não... -Você não vai abandonar o barco agora não é?? -Não é isso. É que parece que algo vai acontecer aqui e vai mudar nossas vidas para sempre!!! -Claro que vai, afinal, vamos nos tornar imbatíveis!!! Agora corra, a entrada se localiza abaixo da cascata no penhasco próximo à floresta maldita!! E estranhamente ela só abre por uma hora no nascer do sol e em seu crepúsculo. Estarei lhe aguardando na saída, para fugirmos. -Ok. .............. -E então Setsuna?! - indaga Ino, apreensivo após a súbita interrupção na narrativa - O que houve, após isso? Você conseguiu a tal espada, se é que ela existia? Eu est*...!! - sua voz é abafada pela mão de Katsu que observava todos os pontos da história de Setsuna quieto até então. Harumi o contemplava absorta em pensamentos e Setsuna de olhos fechados não pronuncia nada. -Acho melhor repousarmos antes de continuar a história, afinal, já estamos chegando. Ao olharem a frente, eles notam ao longe um vilarejo semelhante à bela Veneza, tanto que a paisagem ao redor começara a mudar de belos prados verdejantes com belas montanhas ao fundo e alguns poucos animais dá lugar a visualização de cadáveres de vacas, cavalos e até mesmo seres humanos que provavelmente pereceram devido ao envenenamento pela água do local. No lugar de prados verdejantes, uma devastada mata arroxeada começa a surgir, assim como o vislumbre de pequenas poças d'água, escura, seguidos de margens que vão afunilando o caminho até a entrada da cidade, que imponente surge no horizonte com duas torres nos extremos da mesma ligados por uma espécie de ponte extensa que ao centro parece distorcer por motivos desconhecidos, talvez causados pela difusão da luz do crepúsculo que acompanha a chegada dos forasteiros. -Pessoal, algo não está certo. - diz Katsu de repente. -Como assim Katsu? - indaga Ino. -Nós avisamos a alguém que viríamos pra esta região? -Não que eu me lembre, por quê? -Porque tem outro carro se dirigindo pra lá e pelo jeito está com pressa! -O QUÊ?!? - gritam todos os ocupantes do carro, que olham pra trás. Um belo e veloz carro azul metálico vinha se aproximando com uma rapidez impressionante. E embora eles não soubessem, o Tiburon no qual se encontravam não tinha chances contra um Lotus M250 com uma velocidade de aproximadamente 155 mph, ou 249 km/h, http://www.supercarsite.net/images/lotus/m250-concept/2000?src=cars/lotus/lotus-m250concept-side.jpg o qual tem sua porta esquerda se abrindo para surpresa de todos que vêem Zero surgir, erguendo-se acima da carroceria do automotor em constante aumento de velocidade, apoiando seus pés na vidraça frontal do mesmo. 37


-Impossível!! - reclama Katsu - Ela pretende saltar a essa velocidade?!? Minha filha vai morrer Ino!! O que eu posso fazer pra impedí-la?? -Abra essa porta. -O que voc* -ABRA LOGO ESSA MALDITA PORTA!!!! Relutante, Katsu destrava a porta, ao que Ino a abre e começa a subir no carro, quando é segurado no braço por Setsuna. -Esqueça, Setsuna. Agora sou eu quem vai lhe ajudar, até porque vocês estiveram lutando há pouco tempo e ainda corre o risco de que você sofra uma recaída e o pivete pode acabar retornando durante a luta. E você, Katsu, não deixe de acelerar esse maldito carro!! -Tudo bem, mas vê se não morre!! - ao que Ino, ergue-lhe a mão com o polegar erguido: -Pode deixar!! - dizendo isso, ele segura no capô do carro e projeta seu corpo pra fora caindo sobre o mesmo. De repente, algo estranho ocorre, Zero salta deixando o corpo ser jogado pra trás ao que ela se apóia na borda traseira da Lotus, flexionando suas pernas ao máximo e lançando-se como uma flecha contra Ino. -Mas, como...?! - sem tempo cabível pra se posicionar, a não ser cruzar seus braços, Ino recebe a bela andróide que o atinge com um soco violento, fazendo-o voar para a parte da frente do carro, caindo de costas e rolando pra fora do carro, ao que ele apóia suas mãos na lataria lançando-se pra cima perdendo velocidade ao que Zero salta atrás dele, iniciando uma insana disputa de socos aéreos que Ino defende, lançando-lhe um chute giratório que a faz se distanciar no mesmo instante em que ele saca suas Magnuns disparando contra ela que é atingida no braço direito e ombro esquerdo e pousando na traseira do carro de frente à Ino que fica no extremo oposto. -Droga, Ino!! Desse jeito eu não consigo dirigir!! Vou acabar matando todos nós*... -CUIDADO KATSU!! - grita Setsuna no instante em que o carro deles recebe um impacto forte na lateral vindo da Lotus, que quase os joga fora da estrada, enquanto Zero salta contra Ino aplicando uma voadora com os dois pés juntos, atingindo-o no peito ao que ela desliza uma das pernas, aplicando um chute na nuca e com a outra o lançando de encontro ao vidro do carro fazendo-o se espatifar e causando vários cortes no corpo do detetive. -INOOO!!!!!! De repente, um disparo. O sangue é lançado ao ar atingindo o rosto de Katsu e parte da carroceria dos dois carros. Diante da face estarrecida do Hacker, se apresentava o corpo de Ino deitado de costas em meio aos estilhaços e com o flanco direito expelindo sangue e à sua frente, a andróide Zero empunhando uma de suas armas com o cano ainda fumegante, porém, trêmulo, de onde escorria sangue e óleo por causa de um ferimento feito a queima roupa pela outra arma do detetive também fumegante. Por instantes, Zero parece sentir o disparo e chega a pôr o joelho direito no capô do Hyudron. " Acho que consegui." - reflete Ino momentaneamente, enquanto repousa sobre o veículo. E eis que ele vira o rosto para os amigos no carro: -Hah... hah... eu venci, Katsu... S-Setsuna... não falei que era a minha ve*?! -Ino?!? -Gahh!!! - um jorro involuntário do líquido avermelhado é expelido pela boca e nariz de Ino que mostra uma expressão incrédula aos seus companheiros. 38


8ª Vida – Morte "É melhor perder um segundo de sua vida, do que perder sua vida em um segundo. A verdade é que o ser humano é a única criatura preocupada com o mal irremediável chamado morte. Por que será? O que nós almejamos no fim das contas? Respostas, expiação ou apenas o merecido descanso eterno?" A cena se desdobra ante os olhos de todos que se encontram naquele veículo, Ino Kawazaki, o exímio detetive, investigador e policial que possui a fama de não haver errado um único tiro em sua carreira, o que lhe aferiu a alcunha de "The Shot" entre todos aqueles que o conheciam e mesmo entre aqueles que nunca o viram, jazia sobre a vidraça destroçada de um Hyudron Tiburon que voava pela estrada sendo perseguido de perto e constantemente por outro carro ainda mais veloz, além da andróide causadora de tamanho estrago, Zero, que permanece junto ao mesmo, com uma de suas pernas apoiada sobre o capuz do automotor, enquanto contempla sua vítima. Katsu, paraliza diante da situação: -Ino... E eis que ele nota algo estranho. O homem que naquele mesmo instante estava por sobre o capô do carro embebido em seu próprio sangue o encara com um brilho intenso nos olhos, como se nada daquilo estivesse realmente acontecendo. E assim como a cena aconteceu, sumiu em um piscar de olhos. Zero apoia-se na perna traseira e prepara o punho como se este fosse um punhal apontado para um vampiro e prepara-se para atacar, quando subitamente recebe uma chave de perna desferida por Ino, que faz um esforço sobre-humano para prendê-la, ao mesmo tempo em que realiza uma torção para o lado esquerdo do carro no mesmo instante em que ela lhe ataca ao que tem seu punho segurado firmemente pela mão esquerda do detetive. Nisso, sua voz se faz ouvir em meio ao vento cortante da perseguição à 150 mph: -Eu te falei, não foi Setsuna? Agora é a minha vez de te proteger e te ajudar! Espero que nós possamos nos ver de novo... nessa vida ou na próxima, afinal, você ainda não me falou tudo sobre sua história com aquele cara!! E, Katsu, valeu por tudo mesmo cara, você foi o irmão que eu nunca tive depois que perdi meu parceiro. Obrigado. E adeus. Dizendo isso, Ino se impulsiona com sua mão direita lançando-se ao ar junto à Zero. A cena dura apenas uns poucos segundos, porém, ao olhar daqueles ali presentes, parecem decorrer eras infindáveis. Os corpos giram no ar, numa dança belíssima, se não fosse pelo que estava em jogo, com o sol em seus últimos fulgores do dia como pano de fundo, até que por fim se chocam contra o outro carro as costas da bela assassina andróide, seguida do ensangüentado detetive que sequer exala um grito de dor com o impacto. Em seguida, Zero e Ino literalmente rolam pelo capô do mesmo carro em direção ao vazio da estrada, com o destemido tira aplicando um chute que a lança para fora, ao que por sorte ou azar, ela crava seus dedos numa árvore de estrada girando num eixo de 360º e lançando-se de volta ao carro e de encontro ao seu adversário que num último sacrifício se arremessa no ar, engalfinhando-se com ela e caindo

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na estrada que ganhava tons flamejantes devido ao pôr-do-sol em andamento e somem sem deixar vestígios. -INOOOOOO!!!!!! - clama Katsu, quase se jogando para fora do carro atrás dele. -KATSU!! CONCENTRE-SE NO AGORA!! - brada Setsuna, com tal força que faz o companheiro tremer só de lhe ouvir a voz - VOCÊ QUER MATAR A TODOS NÓS!! ESTAMOS NUM CARRO EM ALTA VELOCIDADE E VOCÊ OUSA LARGAR O VOLANTE DESSE JEITO!! NÃO DEIXE QUE O SACRIFÍCIO DELE SEJA EM VÃO!!! TIRE-NOS DAQUI, JÁ!! - ao ouvir essas palavras, o jovem hacker recobra a sanidade mental e retorna a si. -Entendi. - após essas últimas palavras, uma lágrima solitária corre-lhe a face enquanto ele se promete vingar a morte de seu amigo. Mais adiante na estrada, eles chegam a uma parte da estrada que começa a beirar um precipício e o carro começa a bater contra o deles. -Droga, desse jeito, vamos todos cair dessa estrada. Não há nada que a gente possa fazer Setsuna, antes que seja tarde demais?? ............. -Setsuna?! -Não adianta. -Como?!? -Já é tarde demais. Ao ouvirem essas palavras, os ocupantes daquele veículo sentem um súbito rebaixamento na estrutura do mesmo, subentendendo que algum dos pneus tinha furado e realmente eles notam ao lado deles, Ibuki puxando sua espada após avariar um deles. -Adeus, meu caro. -Mas que droga!! Ele acabou com o pneu do carro!! E agora Setsuna?? O que vamos faz*...!!! - Nesse instante, Setsuna se joga por sobre o banco dianteiro do veículo e segurando ferozmente o volante, brada: -Agora só nos resta levar ele conosco, pro fundo do desfiladeiro!!! -O QUÊ?!? - gritam Harumi e Katsu em uníssono - Você quer nos matar junto com você?? -CALEM A BOCA!! VAMOS FAZER JUS AO SACRIFÍCIO DE INO!!! E QUANTO A VOCÊ KATSU, NÃO LARGUE ESSE VOLANTE POR NADA NESSE MUNDO!!!! - dizendo isso, Setsuna passa ao banco da frente e sai pela vidraça quebrada do Hyudron, subindo no capô. -Setsuna, o que você pensa que está fazendo?? - indaga Katsu, sem resposta. O carro, já sem o pneu começa a perder o controle enquanto Setsuna se põe de pé sobre ele. Katsu, nesse instante, observa o veículo em alta velocidade ao lado deles e de repente, visualiza algo que parecia com um vulto se movendo no interior do carro, onde só deveria estar Ibuki - "Estranho, Ibuki não estava acompanhado apenas de Harumi e Zero? Ou eu estou vendo coisas??" - pensa Katsu, ao que ele esfrega os olhos, retornando o olhar ao que não vê ninguém a não ser a silhueta de Ibuki no interior do veículo - Hã? Devo estar vendo coisas... De repente, sem nem sequer avisar, Setsuna salta contra o outro veículo golpeando com toda a força o capô, ignorando a velocidade assombrosa na qual estavam viajando. O impacto faz a traseira se erguer como uma onda repentina almejando Setsuna que sente o punho sendo tragado com a ferragem resultante da colisão. Nesse instante, o ombro dele estala e começa a sangrar pelos poros devido a violência do impacto, enquanto ele 40


vislumbra o semblante estupefato de Ibuki em meio aos cacos do vidro fumê que os separavam. -Heh! Vamos os dois juntos pro inferno, maldito! -SETSUNAAAA!!!!! O automotor capota a mais de 150 km/h deixando um rastro de fumaça e fogo em questão de instantes que mais pareceram horas de tensão e destruição antes de cair de um penhasco. Um estrondo, um fulgor e um impacto causados pela eclosão do carro de Ibuki afetam a estabilidade do Tiburon pilotado por Katsu que também acaba por perder o controle da direção. Em poucos instantes os dois colidem numa mistura de fuligem e metal retorcido implodindo incessantemente despencam de um desfiladeiro onde abaixo só se vê uma densa e obscura floresta já se embrenhando na noite que se punha por sobre eles. Com um pouco mais de atenção daria para se perceber um riacho, provavelmente poluído pelo dióxido de enxofre correndo por entre as árvores até entrar na cidade à alguns minutos de distância. Ainda em pleno ar, os carros sofrem uma última combustão, atingindo o tanque até então intacto de um dos carros causando a última e mais potente explosão separa o que restou dos veículos em duas esferas flamejantes que caem na escuridão da noite. .......... Duas horas depois, em meio aos caos de chamas que ainda infestava a floresta, o incêndio parecia dar seus primeiros indícios de extinção, destroços dos veículos que antes travaram uma perseguiçao implacável, além de terem sido o palco de batalhas intensas o suficiente por uma vida inteira se encontravam por toda parte, alguns fincados em corpos de animais da floresta que estiveram no local no instante da queda, e outros que saciavam sua sede na corrente d'água que passava mais ao longe do epicentro da explosão. Em meio a essa devastação, eis que uma cabeça surge em meio as águas caminhando por entre os cadáveres e o fogo enquanto carrega em seus braços com dificuldade, um corpo, o qual ele leva com grande esforço até a árvore mais próxima. Lá chegando, deposita o corpo que carregara com tanto esmero para em seguida cair sem forças por sobre o mesmo. Pouco depois, uma suave mão pousa em sua nuca, acariciando seus cabelos negros. -Obrigado, por mais uma vez agraciar-me com sua proteção da morte certa. Dizendo isso, a pessoa vira o rosto de seu salvador, que vai recobrando a consciência, com seus olhos negros vislumbrando a bela Harumi à sua frente. A jovem que tantas vezes o atacou, agora o fitava de modo penetrante, como se estivesse pra adentrar sua mente, porém, seus olhos não demonstram mais aquela frieza peculiar de seu lado como assassina, e sim, como uma bela e sensual mulher. -Setsuna, como havia prometido antes, você me venceu, e agora minha vida lhe pertence. - dizendo isso, Harumi beija o jovem(!) Setsuna ardorosamente. Seus lábios já não lhes pertenciam mais, apenas faziam parte de um só corpo que ansiava por se recompôr, as mãos se entrelaçaram, correndo pelas vestes que já estavam em farrapos, rasgando-as quase que completamente, suas feridas não mais importavam, seus amigos mortos também não importavam, a destruição que os rodeava também pouco importava, só o que eles realmente pensavam naquele instante era em como causar mais prazer e satisfazer-se unindo-se. Seus corpos incendiados se tocam como se estivessem adaptando-se à nova pele, ao novo contato, as novas sensações, a respiração ofegante, realiza uma dança em meio aos gemidos e aos prazeres carnais em que se envolvem, numa volúpia na qual nenhum pudor seria mais respeitado, nenhuma restrição existiria, somente 41


dando lugar ao prazer e a sedução mútua, com o balançar de seus corpos, os seios que roçam o corpo tenro e jovem, enquanto seus quadris se moviam para causar mais e mais prazer, a respiração cada vez mais descompassada, a pulsação acelerada, a pressão sangüínea e corporal estrapolando seus sentidos apenas pedindo por prazer. O cansaço já não mais importa, as feridas já não mais importam, o suor já não mais importa de tão misturados e unidos que eles estão, o êxtase corrompendo toda e qualquer sensação de realidade que os possa conter, seus corpos se entrelaçam em beijos ardorosos e intermináveis, seus braços tateiam suas formas percorrendo cada parte afim de memorizar cada ínfimo de seu ser, os seios roçando em seu peito, suas coxas sobre as dele, já nada mais os importa a não ser o prazer intenso e insolúvel, até o clímax os atingir em um inesquecível orgasmo! Engolfada na volúptuosa sensação que a domina, Harumi deixa sua cabeça pender para trás e no instante sequinte para a frente, repousando no peito de Setsuna, arfando enquanto absorve o odor que emana de seus corpos, seu corpo entorpecido se deixa levar pela exaustão prazerosa que se segue após um belo orgasmo, relaxando no ombro dele que pende o corpo para trás deitando no chão e adormecendo logo em seguida. Enquanto isso, alguma criatura os observa em meio à devastada floresta até sumir novamente dentro da escuridão da noite. ............ De volta no tempo, Setsuna se vê diante de um altar ricamente ornamentado como se a qualquer instante fosse descer ali alguma divindade furiosa por violarem seu local imaculado, amuletos sagrados pendem de dois castiçais cuidadosamente colocados paralelamente de forma que seus sois, duas formas circulares repletas de pontas com o formato de um globo solar fique de frente àquele que ali chegar. Logo mais a frente, a exatos um pé e meio um pano belíssimo de cor avermelhada, embora se parasse para olhar mais atentamente, notaria que ele tem uma cor levemente diferente do vermelho ou que pelo menos fios de outra tonalidade devam ter sido costurados junto ao tecido rubro que pende até chegar rente ao solo, porém, sem tocá-lo. Mais acima, inscrições em caracteres arcaicos que significavam vida, morte os dois de baixo, e infinito o de cima, se encontravam dispostas em forma de uma seta apontando para cima, onde se via um suporte de duas hastes paralelas mais quatro menores que se encontravam no cume formando uma pirâmide de hastes que sustentavam uma bela espada que parecia mais ser uma parte do molde que compunha o suporte em cor de cobre contrastando com o ouro branco do suporte em si, a empunhadura de aparência simples era composta de um cabo ônix que terminava em ambas extremidades num prateado tão intenso que parecia ainda estar na forma líquida. Os seguranças do local jaziam mortos na entrada do recinto enquanto Setsuna se apossava da tal katana da imortalidade. Ao tomar posse da espada que pairava no suporte, Setsuna sente uma atmosfera intensa se formando ao seu redor engolfando-o como se fosse devorá-lo tal como uma serpente ao estrangular sua presa. Um ar pesado o domina, pressionando seu peito como que para sufocá-lo, euma sensação de superioridade o invade, dando-lhe a impressão de ser invencível, a densidade do ambiente parecia sobrepujar a morte em si, como se nada mais lhe importasse. -Lá está ele!! O herege que ousou roubar a espada sagrada!! Peguem-no!! - bradou um aldeão seguido de alguns outros que avançaram contra aquele que detinha a oferenda aos 42


deuses. Um banquete de carnificina, violência e sangue se deu naquele instante, e quem se encontrava no meio disso tudo eram Setsuna e a espada de lâmina negra como o ônix, a qual, após dilacerar tanta carne e sorver tanto sangue pendia na mão de seu novo dono. O sol daquele dia enfim se pôs no horizonte assim como as vidas daquele que se colocaram contra Setsuna, que passava por entre seus restos carnais, suas últimas marcas físicas neste mundo impuro. Ele já estava pra sair da caverna quando se deteve, olhando para trás. Um dos que deveriam jazer mortos e inertes em meio aquele mar de sangue, usava de todas as suas forças para erguer seu braço e apontar para Setsuna: -Meu rapaz, nada de bom lhe trará essa espada maldita...cof! Essa lâmina negra que deveria con... tinuar no altar não deve ser manejada por mãos humanas...cof, cof!! Embora isso não importe mais, afinal, essa noite você será castigado por sua imprudência pois todos estarão atrás de você. Pelo menos seu amigo teve o bom senso em nos avisar a temp*...!! - antes de poder dizer mais alguma coisa palavra, o homem tem sua vida encurtada por uma encravada da lâmina em suas costas. ...n-não... Não pode ser verdade... Diga que não é verdade... Por... quê... Porquê... Ibuki... PORQUÊÊÊÊÊÊÊ!!! - sua voz ecoa por todo o vale e chega a assustar algumas aves que debandam. Em seguida, Setsuna parte rumo ao que pode ser sua última noite!

9ª Vida – sobrevivência "Dizem que a vontade de viver supera tudo, Dizem que a vontade de viver pode realizar milagres, Será tudo isso uma verdade inegável, Ou apenas mais um elo nesta trama imutável de nossa existência?" Sua voz ecoou por todo o vale que se estendia abaixo daquela caverna, assustando até os animais silvestres que porventura se achavam naquela região, tamanha agressividade emanada daquele que além de roubar um objeto sagrado no seio daqueles que o acolheram, descobriu-se traído por seu único e melhor amigo até então. De repente, uma voz sibila pela caverna onde Setsuna estava, envolto ao odor do sangue e da carne putrefata dos cadáveres que perfurava-lhe os pulmões: -Porquê? É óbvio que é por você ter roubado a espada sagrada do clã, meu caro Setsuna - dizia Ibuki que entrava solenemente na caverna - você é aquele que traiu a confiança de todos colocando seus desejos egoístas acima de tudo... -O quê?!? -Foi o que eu aleguei aos anciões quando o denunciei. O que achou? Fui bem convincente não acha? Você não imagina a expressão de espanto misturada à fúria que eles demonstraram quando souberam. -S-seu... louco!!!! Com que motivo, pra que diabos você me pediu pra vir aqui com tanto empenho!!! -Ué? Pensei que fosse mais inteligente, meu caro amigo, ou devo dizer, traidor. - o tom de sarcasmo derramava em cada palavra que ele dizia. -O motivo é simples. Pra colocar a culpa em você, é claro. Aí então, eu teria a

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confiança deles pra caçá-lo e assim ter meios de pôr as mãos na preciosa relíquia deles com a autorização pra isso. E de quebra elimino a única testemunha que sabe sobre minhas intenções, e assim, tendo posse da espada da invencibilidade!!! De repente, movido mais pela raiva do que pela própria vontade, Setsuna avançou lançando um corte horizontal que visava o flanco esquerdo de Ibuki, o qual sequer se moveu e então algo improvável ocorreu: a lâmina da espada sagrada simplesmente lhe trespassou o corpo sem cortá-lo!!!! "O quê?!? Mas c-como?!? Eu atravessei ele? Mas isso é simplesmente impossível!!!" -O que houve meu caro? Parece que viu um fantasma. Ou será que viu algo que seus olhos se negam a acreditar? Suas palavras, permeadas de sarcasmo, só faziam Setsuna se sentir ainda mais desnorteado. De repente algo chamou-lhe a atenção, o chão diretamente à frente de Ibuki, ou melhor, de seus pés estava um rastro, como se ele tivesse sido arrastado para trás, ou mais precisamente para alguns centímetros atrás do alcance do raio de sua espada. -O que houve Setsuna?? Por acaso você não acha que me trespassou, não é?? Você é melhor que isso. Senão não o teria escolhido para ser meu sacrifício. -Sacrifício?!? Quer dizer que eu sou meramente um sacrifício pra você?? Um peão que pode ser facilmente descartado num momento de necessidade ou ser usado como alguém para expiar seus crimes por você?!? HEIM IBUKI?? RESPON*... -Sua manifestação repentina fora contida por uma estocada da katana de Ibuki, que perfurou-lhe o flanco direito na altura do ombro, com uma precisão cirúrgica, atingindo um pequeno vão a poucos milímetros de seu pulmão, fazendo-o arquear. -Setsuna, meu caro Setsuna... - essas palavras eram ditas com uma sofreguidão tal que poderia se dizer que ele demonstrava até pena de realizar aquele ato. No entanto, havia algo mais além disso, um certo desprezo, como se aquele à sua frente não passasse de um objeto que lhe traria um prazer quase trivial. - eu apenas me movi um pouco mais rápido, ou deveria dizer, um pouco mais sutil de modo a simplesmente me esquivar de seu ataque usando o mínimo de esforço, o que sinceramente, achei que você havia percebido, mas pelo que vejo, você não parece ter evoluído tanto quanto pensei, ou será que foi a vida simples deste clã que lhe tranquilizou o espírito?? -Já sei!!! Deve ter sido aquela garota que você conheceu aqui na região. Pensei que ela era apenas uma diversão passageira. -Seu... o que você... não ouse fazer nada a Yuki!!! -Então ela realmente é importante pra você? Então, acho que em minha sublime misericórdia vou lhe fazer o favor de matá-la. Assim ela irá lhe fazer compania no outro mundo!!! O que acha?? Dizendo essa palavras, Ibuki gira o cabo da espada ainda fincada em Setsuna causando-lhe uma dor lancinante. -E então meu caro, me daria o prazer de lhe tirar algo tão precioso pra você? - ao ouvir essas palavras, várias imagens lhe passaram na mente, entre elas o dia em que ele e Ibuki se conheceram, o momento da despedida do mestre, o dia em que ele a conheceu, uma bela mulher, de cabelos de um azul tão alvo que quase parecia se tornar branco, quando não se confundia com o mesmo. Os olhos da mesma cor e a pele alva dava a impressão que ela tinha nascido do cruzamento da neve com o céu, daí a inspiração para seu nome, Yuki http://pt.wikipedia.org/wiki/Yuki e por fim, a imagem de Ibuki cravando a espada nele como um lobo cravando suas presas num cordeiro. E então veio a força, a vontade de impedir o inevitável, de realizar milagres a mais simples 44


manifestação da força latente do ser humano, que surge quando este se vê numa situação em que necessita de uma força que possa lhe ajudar a evitar o perigo iminente, fazendo Setsuna com o braço esquerdo segurar a lâmina e usando de uma força que ele mesmo desconhecia arremessa Ibuki na parede quebrando-lhe a espada. A expressão no rosto de Ibuki estava indefinível, como se não acreditasse no que via. Nisso, Setsuna retira a ponta da lâmina de seu ombro e a arremessa ao chão enquanto avança contra Ibuki golpeando-o com tamanha ferocidade que parecia um demônio. O impacto do golpe fez Ibuki ser arremessado para fora da caverna em meio ao vazio para cair no precipício. Algum tempo mais tarde, numa das casas do clã, uma jovem arrumava seus cabelos de um azul-anil tão belo que parecia não ter começo, meio ou fim, enquanto olhava pela fresta do cortinado que dava para o vazio nevado do precipício que ladeava o vilarejo, com um olhar perdido em pensamentos, tristes e ao mesmo tempo firmes como a neve que se acumulava na região pouco a pouco cobrindo tudo que tocava com sua brancura melancólica. De repente, alguns gritos são ouvidos pela vila e seus olhos se arregalam, sua audição se aguça e sua respiração se torna entrecortada como a esperar que uma fera adentrasse o recinto a qualquer instante... Os gritos de dor e das vidas que vão sendo ceifadas vão aumentando a intensidade ao mesmo tempo em que aumenta a proximidade dos mesmos. -É ELE!!!! ELE VEIO NOS MATAR, MESMO DEPOIS DE TER PEGO AQUELA ARMA!!!

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Duas Vidas, um destino  

Essa é a história de Setsuna, um jovem que após atrapalhar por acaso(!) a perseguição do detetive "The Shot", acaba por entrar em um mundo c...