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Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra

AS RAZÕES PSICOLÓGICAS DO PORQUÊ EDUCAR PARA A AUTONOMIA E APRENDIZAGEM AUTODIRIGIDA

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Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra

AS RAZÕES PSICOLÓGICAS DO PORQUÊ EDUCAR PARA A AUTONOMIA E APRENDIZAGEM AUTODIRIGIDA

Mestrado em Educação e Formação de Adultos e Intervenção Comunitária Disciplina: Educação para a Autonomia e Aprendizagem Autodirigida Docente: Prof Doutora Albertina Oliveira Discente: Vânia Cavaleiro Ano: 2009

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Introdução Nas três últimas décadas a aprendizagem auto-dirigida, na educação de adultos, tem sido alvo de especial atenção, aos níveis teórico e prático. A relevância da aprendizagem auto-dirigida é justificada e compreendida à luz de razões filosóficas, sociológicas, filosóficas, políticas e psicológicas. É sobre estas últimas que me irei debruçar neste trabalho. A aceitação e relevo da aprendizagem autodirigida está intimamente relacionada com teorizações ou abordagens psicológicas que se debruçam sobre a compreensão da aprendizagem dos adultos e que salientam, sobretudo, “o primado do sujeito, o que não significa que se menosprezem ou desvalorizem os factores externos” (Oliveira, 2005:43), importantes na elaboração de projectos educativos. Refiro-me, por exemplo, à psicologia humanista e a algumas teorias do eu e da cognição. A maioria dos adultos, em termos psicológicos, prefere assumir a responsabilidade pessoal e o controlo dos seus processos de aprendizagem (Knowles, 1980: Brockett & Hiemstra, 1991; Long, 1996 citados por Oliveira, 1997, p. 36), ou seja, dirigir a sua aprendizagem. Sendo que são independentes, autónomos e têm aptidão para pensar e agir livremente. Esta ênfase no papel do sujeito, agente da sua própria educação, está bem presente nos enquadramentos teóricos, cujos principais pressupostos vou apresentar de forma sintética: teoria humanista, cognitivista e construtivista.

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Teoria humanista

Segundo a teoria humanista, todas as pessoas têm liberdade para realizar escolhas e são responsáveis por se tornarem cada vez melhores devido à tendência natural para aprender que possuem, especialmente se encontrarem ambientes que potenciem a aprendizagem. De acordo com Abraham Maslow, é no período da adultez que as pessoas podem alcançar a auto-realização, sobretudo devido à influência de motivos intrínsecos. As pessoas autorealizadas são altruístas, realistas, aceitam-se a si próprios e aos outros tal como são, são autónomas, independentes e fiéis a si próprias, não obstante a eventual rejeição dos outros, apreciam as coisas simples da vida, estabelecem relações de proximidade profundas, mas com poucas pessoas, têm um grande sentido ético e resistem à conformidade total com a cultura (Oliveira, 2005). De acordo com Rogers, o sujeito tem a capacidade e responsabilidade de promover o seu desenvolvimento pessoal e a sua aprendizagem. E, como a aprendizagem ocorre de forma diferente de pessoa para pessoa, devido à percepção, que é selectiva, a educação deveria estar centrada no educando, sendo o professor um facilitador da aprendizagem, capaz de estabelecer uma relação empática. Todos os indivíduos são capazes de se autodirigir, num determinado nível. Os mais autodirigidos “têm um autoconceito elevado, são criativos, mostram satisfação com a vida e envolvem-se em muitos projectos de aprendizagem autodirigida” (Oliveira, 1996, citada por Oliveira, 1997, p. 41). A aprendizagem é considerada “a partir da perspectiva do potencial humano para o crescimento” (Merriam & Caffarella, 1991, p.132, citado por Oliveira, 2005, p. 47). É considerada significativa quando, segundo Rogers, há envolvimento pessoal, é auto-iniciada, provoca mudanças no comportamento ou na personalidade, é avaliada pelo educando e centra-se no significado.

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Concluindo, há afinidades entre a psicologia humanista e a aprendizagem autodirigida: o sujeito intervém activamente no processo educativo; tem liberdade de escolha e responsabilidade para assumir as suas consequências e orienta o seu desenvolvimento para a autonomia e autodirecção crescentes (Oliveira, 2005).

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Teorias cognitivistas

As teorias cognitivistas permitem-nos compreender a dimensão psicológica da aprendizagem autodirigida. Colocam a ênfase na aprendizagem em detrimento do ensino e desvalorizam as teses do comportamento ortodoxo. A teoria cognitivista surgiu das ideias de Jean Piaget. A aprendizagem é vista como “um processo activo, construtivo e orientado para objectivos” (Metzger, 1997, p.6 citado por Oliveira, 2005, p. 49), portanto, complexa, pois não resulta de estímulos-resposta, mas depende “da acção de um conjunto de processos cognitivos e metacognitivos (a percepção, a atenção, a memória, o pensamento, a escolha, a acção, etc.)” (Oliveira, 2005, p. 49), das estratégias de aprendizagem e da auto-monitorização do processo de aprendizagem. Os sujeitos autodirigidos utilizam diversas estratégias de processamento de informação e controlam o processo de aprendizagem pela metacognição.

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Teoria construtivista

É no construtivismo moderado que se encontram os pressupostos com maior relevância para a compreensão da aprendizagem autodirigida. A abordagem construtivista valoriza a pesquisa activa, a independência, a individualidade do sujeito na sua aprendizagem. O construtivismo pode ser caracterizado tendo em conta três aspectos: concepção do sujeito, natureza do conhecimento e significado da aprendizagem. Concepção do sujeito: a pessoa é responsável pelo que é e pelo que pode ser pois encontra-se num processo de autoconstrução que, por sua vez, implica autonomia, em maior ou menor grau, passível de ser desenvolvida de acordo com as características de cada um e do seu contexto. A autoconstrução é permanente e não terminal. Os sujeitos devem participar activamente na construção do seu conhecimento, auxiliados por facilitadores da aprendizagem que, através do diálogo, da discussão e dos conhecimentos prévios dos educandos, a potenciam. É, sobretudo, a partir dos conhecimentos prévios que se realizam aprendizagens significativas. Ora, o educador deve ter em atenção os interesses, atitudes e intenções dos educandos. Natureza do conhecimento: o conhecimento não é adquirido nem ensinado mas construído, na interacção do sujeito com o meio. Ora, o conhecimento é uma construção pessoal e social, “em que intervém a estrutura cognitiva dos sujeitos e que tem na sua base a acção” (Morgado, 1998, citado por Oliveira, 2005, p. 52). O conhecimento implica a acção e a reflexão sobre a mesma. Significado da aprendizagem: aprender pressupõe mudança ou alteração na atribuição de sentido a alguma coisa.

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Comentário A aprendizagem autodirigida possui, de facto, uma particular importância nos dias de hoje, caracterizados pela constante mudança e exigência aos níveis social, tecnológico, científico, entre outros. Cada vez mais, cada um de nós deverá ser capaz de traçar projectos de vida, escolhendo e redefinindo, sempre que necessário, estratégias para a sua consecução. Nesta caminhada é necessário realizar aprendizagens, umas com mais autonomia que outras, promotoras de mudança. Enquanto profissional de Reconhecimento Validação e Certificação de Competências de um Centro Novas Oportunidades, procuro contribuir para a mudança dos adultos com quem trabalho, quer ao nível da sua auto-estima, portanto, na mudança da perspectiva de si próprio, quer ao nível do desenvolvimento e/ou fortalecimento de competências. Norteio a construção de Portefólios que são espelhos de vidas dando reforço positivo, incentivando a melhoria da narrativa e da reflexão crítica, no fundo, ajudo cada adulto a construir o seu puzzle, a reviver e a reconstruir a sua vida e a atribuir-lhe novos significados! Sou, como não podia deixar de ser, uma facilitadora da aprendizagem. Naturalmente, uns necessitam mais do meu apoio, da minha presença e feedback devido à sua insegurança, ao seu baixo nível de autonomia ou, até por vezes, devido à necessidade de atenção; outros, recorrem a mim, essencialmente, para clarificar as etapas do caminho a percorrer pois são criativos, independentes, corajosos (é necessário ter coragem para reviver a sua vida e partilhá-la com os outros!). Ora, um dos meus principais objectivos é promover a aprendizagem autodirigida de quem apresenta lacunas a este domínio. Não é fácil e nem sempre o consigo fazer, principalmente junto de quem reclama pelos métodos tradicionais. Há quem diga “no meu tempo é que se aprendia a sério!”. No entanto, felizmente, verifico, na maior parte dos adultos com quem trabalho, um crescimento admirável, quer nos níveis de autonomia, que normalmente acompanha a crescente confiança em si próprios, quer na capacidade de perspectivar mudanças e estratégias para as alcançar, ao longo de um processo de RVC. Este crescimento é, normalmente, também constatado pelos adultos e impulsiona-os a continuar a investir em si próprios e, quando isto acontece, sinto que cumpri a minha missão!

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O processo de Reconhecimento Validação e Certificação de Competências implica autonomia por parte dos adultos e, por isso, é mais fácil para uns do que para outros a sua realização, dependendo das suas características psicológicas, daí a importância das abordagens psicológicas para a autonomia e aprendizagem autodirigida. Espero que este processo impulsione os adultos a serem mais autónomos nos vários aspectos da sua vida e a responsabilizarem-se pelas suas aprendizagens, tendo em conta a constante mudança referida inicialmente. Se assim for, este é um projecto verdadeiramente valioso!

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Bibliografia Oliveira, A. L. (1997). Autodirecção na aprendizagem: a actualidade de um constructo. Revista Portuguesa de Pedagogia, XXXI (1), 35-57 Oliveira, A. L. (2005). Aprendizagem autodirigida: Um contributo para a qualidade do ensino superior. Dissertação de doutoramento. Coimbra: Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação

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Razões psicológicas do porquê educar para a autonomia  

Trabalho sobre as razões psicológicas do porquê educar para a autonomia. As teorias humanista, cognitivista e construtivista.

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