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Brioches de Maria Antonieta Os professores convocados para torná-la uma mulher culta, as aulas intermináveis de várias disciplinas, não surtiram grande efeito, pois ela se desinteressava dos estudos. Aos 14 anos, quando desembarcou na França para casar com o futuro rei do país, Luís XVI, Maria Antonieta Habsburgo-Lorena (1755-1793), filha do imperador Francisco I, da Áustria, era uma garota fútil. Aos poucos, porém, foi superando a imaturidade, apesar da queda incontrolável pelos passeios de carruagem e bailes de máscara. Aperfeiçoou o francês, embora jamais conseguisse falar bem essa língua, tomou aulas de teoria e solfejo, harpa e cravo. Frequentou o teatro e participou de salões intelectuais. Conviveu com filósofos, compositores, romancistas, teatrólogos. Mas jamais se livrou da imagem de mulher leviana, vaidosa e perdulária. Veja também: Receita de brioche O rei permitia que fosse a todos os lugares sozinha, vestindo roupas exageradas e usando cabelos volumosos. Extrapolando a liberdade, teria sido infiel ao marido, a quem deu quatro filhos, mas ao qual nunca amou. Com o retraído, porém educado, Luís XVI aprendeu a comer bem, tornando-se exigente à mesa, a ponto de, conforme a enciclopédia francesa Larousse Gastronomique (Larousse-Bordas, Paris, 1996), haver introduzido em 1770, no Palácio de Versalhes, antigo centro do poder na França, o antológico croissant - pãozinho de origem austríaca, com massa levedada ou folhada, em formato de meia-lua. Entretanto, era uma mulher lindíssima. No início, sua beleza seduziu o povo francês. Depois, por ser estrangeira e revelar-se contrária às reformas almejadas pela população, caiu em desgraça. Foi injuriada e até chamada de prostituta. Com a Revolução Francesa e a queda da monarquia, acusaram-na de seguir os conselhos políticos da mãe, a imperatriz Maria Teresa, defendendo os interesses da Áustria, contrários aos do país adotivo. Morreu guilhotinada, repetindo o que aconteceu meses antes com seu marido. O processo foi precedido de maledicências que a converteram em personagem do célebre episódio dos brioches - pães de massa leve, à base de farinha de trigo, açúcar, sal, fermento, ovos e muita manteiga, cujo formato vai de um cogumelo a uma empada, com o peso oscilando entre 10 e 500 gramas, conforme a região da França. Acossada pela multidão que protestava contra a falta de cereais, escassez e má qualidade do pão, Maria Antonieta teria se saído com esta frase debochada: "Que comam brioches." Hoje, poucos acreditam nessa história. Já havia sido atribuída, talvez em 1660, à princesa espanhola Maria Teresa, filha de Felipe IV de Espanha, que viria a casar com o rei francês Luís XIV; e, em 1751, a Madame Sofia, filha de Luís XV, ao saber que seu irmão, o delfim Luís Fernando de França, fora cercado em Paris por uma multidão que gritava "pão, pão". No comentado filme Maria Antonieta, de 2006, dirigido por Sofia Coppola, tendo Kirsten Dunst no papel principal, a rainha da França aparece como uma viciada em doces. Saboreia continuamente macarons, aqueles bolinhos redondos, crocantes por fora e macios dentro. Essa informação, sim, tem respaldo histórico. A rainha também adorava chocolate quente. E dê-lhe champanhe! Aliás, dividia a predileção por essa bebida com Luís XVI. O rei até mandou fazer uma taça especial para tomá-la, em porcelana finamente decorada. Segundo a tradição, foi moldada na mama esquerda de Maria Antonieta. Ainda existe e, em 2008, estava entre as mais de 300 peças sobre a vida da rainha expostas no Museu do Grand Palais, de Paris. Na mesma época, a Maison Ladurée, fundada em 1862, igualmente na capital francesa, que foi incumbida de preparar os macarons do filme Maria Antonieta, relembrou a rainha elaborando doces inspirados na pâtisserie do século 18, entre os quais um bolo de chocolate com a carruagem dela estampada na cobertura. Muita gente se interessa pela vida privada de Maria Antonieta, incluindo as preferências à mesa, como provam o filme de Sofia Coppola e os diferentes livros publicados a seu respeito. Mais de dois séculos depois, as fragilidades do processo que a condenou e a dignidade revelada por ela diante da morte, não se deixando intimidar pela arrogância dos juízes e crueldade da sentença, podem ter contribuído para a reabilitação de sua imagem e despertado alguma compaixão com seu destino.

Brioches de Maria Antonieta